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Curso de Teologia Contemporânea




Professor Pr. Josias Moura de Menezes



Site: www.josiasmoura.wordpress.com

  Email: josiasmoura@hotmail.com
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Índice da apostila

Curso de Teologia Contemporânea.................................................................................................................... 1

Parte 01: TEOLOGIAS PRÉ CONTEMPORÂNEAS ............................................................................................... 4

1.     Influências da teologia Contemporânea .................................................................................................. 4

2.     MÍSTICA E TOMÍSTICA ................................................................................................................................ 5

3.     A influência da reforma e contra reforma................................................................................................ 5

4.     A reação católica a reforma....................................................................................................................... 5

5.     Galileu e a inquisição ................................................................................................................................. 6

6.     A Bíblia foi a grande vítima de todos os confrontos entre a Igreja e as novas idéias ........................... 6

7.     A atuação nociva do liberalismo teológico neste período ...................................................................... 6

8.     O que é alta crítica? ................................................................................................................................... 7

Parte 02: O LIBERALISMO TEOLOGICO .............................................................................................................. 8

Parte 03: NOVO MODERNISMO ....................................................................................................................... 16

9.     Karl Barth - UM NOVO ORTODOXISMO?................................................................................................ 16

10.        Emil Brunner - Cristo Absoluto ou relativo? ..................................................................................... 18

Parte 04:NOVAS CORRENTES TEOLÓGICAS ..................................................................................................... 19

11.        A TEOLOGIA DO MITO ......................................................................................................................... 19

12.        A teologia da esperança ...................................................................................................................... 21

13.        JÜRGEN MOLTMANN – O FUNDADOR DA TEOLOGIA DA ESPERANÇA............................................ 23

Parte 05: AS TEOLOGIAS SOCIAIS ..................................................................................................................... 24

1.     Na teologia social é ressaltado o conteúdo ético e social da Igreja. .................................................... 24

2.     É boa a aproximação entre teologia e ciências sociais?........................................................................ 24

3.     Grandes nomes do evangelho social ...................................................................................................... 24

4.     O evangelho social na América do sul .................................................................................................... 25

5.     Em que momento o evangelho social ganha destaque......................................................................... 25

6.     Os três passos básicos da teologia da libertação de Leonardo Boff..................................................... 25

7.     O movimento do evangelho social teve o seu lado positivo: ............................................................... 25

8.     Nascimento da TDL no Brasil................................................................................................................... 26

9.     Eventos que precederam o nascimento da TDL no Brasil ..................................................................... 26
Pag. 3 -           Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com

10.          Características da TDL ......................................................................................................................... 27

11.          Porque a teologia da libertação não produziu resultados tão positivos na américa latina? ......... 28

Parte 06: Texto para debate: A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO - O CRISTIANISMO A FAVOR DOS EXCLUÍDOS
............................................................................................................................................................................ 29

Parte 07: Texto para debate- A teologia social de Calvino............................................................................. 34

1.       Introdução ................................................................................................................................................ 34

2.       Genebra na Época de Calvino.................................................................................................................. 35

3.       O Governo de Genebra ............................................................................................................................ 35

4.       A Situação Social em Genebra................................................................................................................. 35

5.       As Mudanças Introduzidas por Farel em Genebra ................................................................................ 36

6.       As reações as mudanças trazidas por Farel ............................................................................................ 36

7.       É neste momento de mudanças que Calvino chega a Genebra ........................................................... 36

8.       O Ensino de Calvino.................................................................................................................................. 37

9.       A Responsabilidade Social da Igreja........................................................................................................ 39

10.          Conclusões ........................................................................................................................................... 45

Parte 08: A teologia evolucionista ................................................................................................................... 46

11.          A TEOLOGIA EVOLUCIONISTA ............................................................................................................. 46

12.          O que foi publicado na revista isto é.................................................................................................. 47

Parte 09: Teologia relacional- Um novo “deus” no mercado......................................................................... 47

1.       Introdução ................................................................................................................................................ 47

2.       Seus pontos principais podem ser resumidos desta forma: ................................................................. 48

3. A teologia relacional traz um forte apelo a alguns evangélicos, pois diz que Deus está mais próximo
de nós e se relaciona mais significativamente conosco do que tem sido apresentado pela teologia
tradicional. ......................................................................................................................................................... 49

Parte 10: A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE- UMA RESPOSTA À TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO? ..................... 51

1.       Introdução ................................................................................................................................................ 51

2.       A base doutrinária .................................................................................................................................... 52

3.       UMA TEOLOGIA DE RICOS PARA OS POBRES: O CASO DA IURD........................................................... 54

4.       A VISÃO BÍBLICA E TEOLÓGICA................................................................................................................ 60

5.       Considerações finais ................................................................................................................................ 64

6.       Informações sobre o professor ............................................................................................................... 64
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                 Parte 01: TEOLOGIAS PRÉ CONTEMPORÂNEAS


1. Influências da teologia Contemporânea

A atual teologia contemporânea recebeu a influência de inúmeras manifestações
teológicas e filosóficas do passado.

Para uma melhor compreensão da Teologia Contemporânea é imprescindível
conhecer as principais correntes ou tendências teológicas, desde os dias apostólicos
que a influenciam:

      A Teologia Bíblica: procura conhecer a Deus, seus atributos e sua vontade,
       através de uma reflexão a respeito dos temas presentes tanto no Antigo como
       no Novo Testamento, considerados como infalível Palavra de Deus
      A Teologia Católica: por sua vez, que corresponde às teologias moral (orienta o
       comportamento humano em relação aos princípios religiosos), dogmática
       (estuda os elementos da fé, ou seja, as doutrinas), bíblica (estuda o caráter de
       Deus, seus atributos e sua vontade a nosso respeito, com base na Bíblia) e
       patrística (estuda a religião de acordo com a interpretação dos pais da Igreja,
       da tradição e do magistério);
      A Teologia Protestante enfatiza o retorno às origens e à reinterpretação das
       Escrituras, tendo Cristo como única perspectiva. Seus temas principais são:
       somente a Escritura, somente Cristo, somente a fé, somente a graça;
      A Teologia Natural ou Teodicéia, busca o conhecimento de Deus baseando-se
       na razão humana;
      A Teologia Especulativa tem por fundamento o estudo sintético dos textos
       sagrados, apoiado nos conhecimentos filosóficos do homem.
       Nesta categoria pode ser classificada a teologia tomística, de Aquino.
               A Teologia Contemporânea origina-se diretamente do método
               especulativo, e desde a Reforma Protestante tem tomado várias
               direções, conforme as designações recebidas: Teologia modernista,
               teologia neomodernista, teologia da esperança, teologia do evangelho
               social, teologia do cristianismo sem religião, teologia da morte de Deus
               etc, conforme veremos no decorrer desse estudo;
      A Teologia Mística fundamenta-se na experiência religiosa que permite ao
       iniciado supor-se imediatamente relacionado com a divindade, sendo sinais
       dessa união as visões, os êxtases, as profecias e os estigmas.
       Características da teologia mística:
           o A teologia mística não tem caráter reflexivo.
           o Não da prioridade ao uso da razão.
           o Evidência as experiências .
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           o Da maior importância a sentimentos, emoções, do que ao uso do
             intelecto.


2. MÍSTICA E TOMÍSTICA

A filosofia grega ameaçou toda a estrutura do Cristianismo, tentando helenizar as
doutrinas apostólicas, ou seja, contextualizá-las à luz da cultura grega.

As doutrinas passaram a ser examinadas a luz da razão e da lógica.

A influência da teologia filosófica de Tomas de Aquino:

Com Tomás de Aquino, no século XII, ressurge a teologia especulativa, mas com
outras vestes.

Esse famoso doutor do catolicismo procurou explicar racionalmente os dogmas
cristãos, e acabou invertendo o princípio bíblico de que "pela fé entendemos", ao
afirmar que o conhecimento conduz à fé.

É o pai não apenas da teologia tomística, mas também da filosofia tomística, como já
vimos.


3. A influência da reforma e contra reforma

Com o advento da Reforma Religiosa no século XVI, a tradição católica foi desafiada
pelos reformadores.

Os reformadores apegaram-se às Escrituras Sagradas e trouxeram à lume os grandes
fundamentos da fé cristã, como: a autoridade suprema da Bíblia, a justificação pela fé,
o verdadeiro significado dos sacramentos, o sacerdócio universal dos crentes, etc.

As divisas protestantes tornaram-se célebres: Solus Cristus, Sola Scriptura, Sola fide,
Sola gratia.


4. A reação católica a reforma

A Igreja Católica, ao ver-se ameaçada, organizou a sua contra reforma principalmente
através da convocação do concilio de Trento, que se reuniu durante 18 anos, de 1545 a
1563.
O que acontece neste concílio?

Nesse célebre concilio ficaram confirmados pela Igreja Católica todos os dogmas
anteriormente aceitos. A tradição foi considerada de valor igual ao da Bíblia, e ainda
juntaram-se ao cânon do Antigo Testamento os livros e aditamentos apócrifos.
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5. Galileu e a inquisição

Acusado de perjúria e heresia pelos clericalistas, o grande físico, já com 70 anos, foi
citado a comparecer perante o Tribunal da Inquisição, em Roma.

Na manhã do dia 22 de junho de 1633, ajoelhado ante seus inimigos, Galileu, para
salvar a vida, abjura seus "erros e heresias" e "renega" todas as suas sensacionais
descobertas.

O decreto do Papa urbano VIII diante das novas descobertas científicas

Foi nos dias de Galileu, quando mais se digladiavam teólogos que pretendiam ser
cientistas e cientistas que pretendiam ser teólogos, que o papa Urbano VIII, pontífice
de 1632 a 1644, assinou o seu infalível (!!!) decreto:

       "Em nome e pela autoridade de Jesus Cristo, cuja plenitude reside em Seu
       vigário, o Papa, declaramos que a afirmação de que a terra não é o centro do
       mundo e de que ela se desloca com um movimento diurno é coisa absurda,
       filosoficamente falsa; e errônea, quanto à fé".

Constatamos uma clara incapacidade da teologia católica de acompanhar e explicar os
inúmeros avanços científicos que estavam acontecendo naquele período.


6. A Bíblia foi a grande vítima de todos os confrontos entre a Igreja e as
   novas idéias

A posição medievalista da Igreja Católica nos primeiros séculos da Idade Moderna, em
relação ao desenvolvimento da cultura, trouxe males sem conta a ela mesma,

Porque à medida em que a ciência começou a provar os "absurdos" condenados pela
religião, esta começou a ser contestada por eminentes escritores, secularistas e
irreverentes, a cujos olhos o romanismo não passava de um mal social e um entrave ao
progresso dos povos.


7. A atuação nociva do liberalismo teológico neste período

O que o liberalismo teológico não é? O liberalismo teológico não é uma religião ou
uma organização ideológica possuidora de templos, funcionários ou sociedades.

O que o liberalismo é? Ele é, simplesmente, uma tendência de ajustar o Cristianismo
aos conceitos da *Alta Crítica da Bíblia, da ciência e das filosofias modernas. Esta
tendência apresenta-se hoje sob diversos outros títulos, como modernismo,
racionalismo, nova teologia, etc.
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8. O que é alta crítica?

Em exegese, Alta crítica é o nome dado aos estudos críticos da Bíblia. Sua abordagem
trata a Bíblia como literatura, utilizando-se do aparato crítico normalmente aplicado a
textos literários semelhantes.

Caracteriza-se, de uma forma geral, por não partir do dogma da inerrância bíblica para
efetuar suas análises.

Em contraste com a Baixa crítica, seu foco está no estudo dos autores dos textos
bíblicos, seu processo de formação editorial, sua transmissão histórica e o contexto de
formação, denominado Sitz im Leben.

Exemplo de atuação da alta Crítica

Os fundamentos históricos dessa tendência remontam, de acordo com a maioria dos
autores, ao ano de 1753, quando Jean Astruc (1684-1766), francês incrédulo e
professor de medicina em Paris, publicou anonimamente, em Bruxelas, em francês, o
livro Conjecturas Sobre as Memórias Originais que Parece Terem Sido Usadas por
Moisés na Composição do Gênesis.

Nesse livro Astruc, que foi médico do rei da Polônia e de Luís XV, da França, duvida da
origem mosaica dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento e aventa a hipótese
de existirem duas fontes literárias — Jeovista e Eloísta — partindo-se dos nomes
usados para se referirem a Deus.

Antes dessa data, muito raramente alguém ousava criticar assim a Palavra de Deus,
lançando dúvidas sobre a sua historicidade tradicionalmente aceita.



Os mesmos métodos de desintegração aplicados ao Antigo Testamento foram
também aplicados, de maneira violenta, ao Novo, lançando descrédito sobre o seu
valor histórico e resultando, em alguns casos, no completo desaparecimento da
pessoa divina de Jesus Cristo, para instalar em seu lugar apenas um profeta
destituído de todos os seus atributos sobrenaturais.

O nascimento da teologia liberal

Do emaranhado dessas teorias nasceu o movimento liberalista, hoje presente nas
artes, na música, nos costumes sociais e, como vimos, na própria Teologia. É ele o
principal responsável pelo relaxamento dos padrões éticos, em virtude da sua atitude
irreverente em relação à Divindade e das dúvidas acerca da inspiração das Escrituras,
que lança nos corações.
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Sem a poderosa influência moralizadora da Palavra de Deus, os homens se
embrutecem, como descreve o apóstolo Paulo no capítulo 2 da sua Carta aos
Romanos.

Em 1780, o hebraísta alemão Eichrodt aceitou a hipótese de Astruc e afirmou que os
referidos documentos tinham características, estilos e expressões distintas um do
outro. Igen, em 1798, também alemão, julgou ter descoberto, dentro do documento
Eloísta do Gênesis, diversas características de estilo e expressões. Por isso foi ele
considerado o descobridor do segundo documento Eloísta.

Na Escócia, o padre católico romano, Alexander Gaddas, anunciou ter encontrado no
Pentateuco diversos documentos (1798-1800).




                      Parte 02: O LIBERALISMO TEOLOGICO

I. NOMES PRINCIPAIS

Vejamos agora alguns nomes implicados no liberalismo teológico, responsáveis pelos
novos rumos tomados pelo protestantismo:

A. Friedrich Schleiermacher (1768-1834)

1. Teólogo e filósofo alemão, embora anti-racionalista, ensinou que não há religiões
falsas e verdadeiras. Todas elas, com maior ou menor grau de eficiência, têm por
objetivo ligar o homem finito com o Deus infinito, sendo o cristianismo a melhor delas.

2. Ao harmonizar as concepções protestantes com as convicções de burguesia culta e
liberal, Schleiermacher foi considerado radical pelos ortodoxos, e visionário pelos
racionalistas. Na verdade, o seu pensamento filosófico-teológico, embora considerado
liberal, está mais perto do transcendentalismo de Karl Barth.



B. Johann David Michalis (1717-1791)

1. Teólogo protestante alemão, foi o primeiro a abandonar o conceito da inspiração
literal das Escrituras Sagradas.

C. Adoff Von Harnack (1851-1930)
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1. Teólogo protestante alemão, defende em sua obra principal História dos Dogmas: a
evolução dos dogmas do cristianismo pela helenização progressiva da fé cristã
primitiva.

Em outra obra, A essência do cristianismo, reduziu a religião cristã a uma espécie de
confiança em Deus, sem dogma algum e sem cristologia.

D. Albrecht Ritschl (1822-1889)

1. Ritschl ressaltou o conteúdo ético da teologia cristã e afirmou que esta deve basear-
se principalmente na apreciação da vida interior de Cristo.

E. David Friedrich Strauss (1808-1874)

1. Foi o teólogo alemão que maior influência exerceu no século XIX sobre os não-
teólogos e não-eclesiásticos. Tornou-se professor da Universidade de Tubingen com
apenas 24 anos. Quatro anos mais tarde, em 1836, foi furiosamente afastado do cargo
em virtude de sua obra, denominada Vida de Jesus, criticamente estudada.

2. No ano de 1841 lançou, em dois volumes, sua Fé Crista - Seu Desenvolvimento
Histórico e seu Conflito com a Ciência Moderna. Nesta obra está negando
completamente a Bíblia, a Igreja e a Dogmática.

Em 1864 publicou uma segunda Vida de Jesus, quando procurou então distinguir o
Jesus histórico do Cristo ideal segundo a maneira típica dos liberais do século XIX. Em
sua A Antiga e a Nova Fé, publicada em 1872, adota a evolução darwiniana em
contraste com a fé bíblica.

3. Para Strauss, Jesus é mero homem. Insiste em que é necessário escolher entre uma
observação imparcial e o Cristo da fé.

Ensinou que é preciso julgar o que os Evangelhos dizem de Jesus pela lei lógica,
histórica e filosófica, que governa todos os eventos em todos os tempos. Não achou e
não procurou um âmago histórico, mas interessou-se apenas em mostrar a presença e
a origem do mito nos evangelhos.

4. Seu conceito do mundo é o de matérias subindo para formas cada vez mais altas.
À pergunta: "Como ordenamos nossas vidas?" - responde: autodeterminação,
seguindo a espécie.

5. Nas obras de Strauss não há lugar para o sobrenatural. Os milagres são mitos,
contados para confirmar o papel necessário de Jesus, daí as referências ao Velho
Testamento. Em resumo, Jesus é uma figura histórica. Da vida de Jesus nada sabemos,
sendo tudo mito e lenda.

6. Considerado o mais erudito entre os biógrafos infiéis de Jesus, Strauss encerra o
último capítulo da sua segunda Vida de Jesus com estas palavras: "...aparentemente
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aniquilaram a maior e mais importante parte daquilo que o cristão se acostumou a crer
concernente a Jesus; desarraigaram todos os encorajamentos que ele tem tirado de
sua fé e privaram-no de todas as suas consolações. Parece que se acham
irremediavelmente solapados os inesgotáveis depósitos de verdade e vida que por
dezoito séculos têm sido o alimento da humanidade; o mais sublime atirado ao pó,
Deus despido de sua graça, o homem despojado de sua dignidade, e o laço entre o céu
e a terra rompido. Recua a piedade em horror diante de um ato tão temeroso de
profanação, e, forte como é na impregnável evidência própria de sua fé, ousadamente
conclui que - não importa se um criticismo audaz tentar o que lhe aprouver tudo o que
as Escrituras declaram e a Igreja crê acerca de Cristo subsistirá como verdade eterna;
nem sequer um jota ou um til será removido."

7. Philip Schaff comenta que Strauss professa admitir a verdade abstrata da
cristologia ortodoxa, "a união do divino e humano , mas perverte-a, emprestando-lhe
um sentido puramente intelectual, ou panteísta. Ele nega atributos e honras divinas à
gloriosa Cabeça da raça, mas aplica os mesmos atributos a uma humanidade acéfala.
Destarte, ele substitui, partindo de preconceitos panteístas, uma viva realidade por
uma abstração metafísica; um fato histórico por uma mera noção; a vitória moral
sobre o pecado e a morte por um mero passo na filosofia e em artes mecânicas; o
culto do único vivo e verdadeiro Deus por um culto panteísta de heróis, ou própria
adoração de uma raça decaída; o pão nutriente por uma pedra; o Evangelho de
esperança e vida eterna por um evangelho de desespero e de final aniquilamento."

F. Sorem Kierkegaard (1813-1855)

1. Teólogo e filósofo dinamarquês. Filho de um homem rico torturado por dúvidas
religiosas e sentimentos de culpa, Kierkegaard adquiriu complexos de natureza
psicopatológica e possíveis deficiências somáticas. Estudou teologia na universidade de
Copenhague, licenciando-se em 1841.

2. Atacou a filosofia de Hegel e afastou-se mais e mais da Igreja Luterana, por julgá-la
muito pouco cristã. Para o teólogo dinamarquês, entre as atitudes (fases) estética,
ética e religiosa da vida, não há mediação, como na dialética de Hegel, e não há entre
elas transição, no sentido de evolução. Para chegar da fase estética à fase ética ou
desta à religiosa é preciso dar um salto (ser iluminado, converter-se
instantaneamente) que transforme inteiramente a vida da pessoa.

3. Para Kierkegaard, só o cristianismo é capaz de vencer heroicamente o mundo, sendo
o panteísmo cultural de Hegel impotente contra a consciência do pecado e contra o
medo e temor. Criticou o hegelianismo em sua acomodação ao mundo profano, por
não ser capaz de eliminar a angústia e admitir a existência de contradições irresolúveis
entre o cristianismo e o mundo, cabendo ao homem escolher existencialmente entre
esta e aquela alternativa: ser cristão ou ser não-cristão.
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4. São profundos os conceitos de Kierkegaard sobre os estágios da vida, a diferença
entre ser e existir, o subjetivo e o objetivo, o desespero, os critérios positivos para a
verdadeira existência, etc.

Eis alguns deles:

       a. No estágio estético, o homem leva uma existência imediata e não refletiva,
       faltando a diferenciação entre ele e o seu mundo; No estágio ético, o homem
       assume a responsabilidade pelo seu próprio ser, procura alcançar-se a si - o que
       não pode fazer; No estágio religioso, reconhece a impossibilidade de viver
       conforme gostaria e descobre que o pecado é não ser o que Deus deseja que
       seja, e que só se alcança este estado proposto por Deus através de algo que
       vem de fora - o próprio Deus;

       b. o tempo (e espaço) trata do que o homem é, da sua existência; a eternidade
       significa que, embora o homem viva no tempo e no espaço, ele não está
       totalmente determinado por estes elementos; a existência fala de liberdade,
       possibilidade, do ideal, da obrigação; o momento de decisão é quando a
       eternidade intercepta o tempo;

       c. o objetivo cultural é aquilo que é, enquanto o homem fica entre o que é e o
       que ele pode e deve ser. A ciência limita-se ao estudo do que é, ao que ela
       chama "a verdade"; mas os fatos claramente aceitos jamais encerram a
       verdade;

       d. a essência do ser humano aparece quando traz a eternidade para dentro do
       tempo. Cada homem há de sofrer porque vive numa realidade muito física:
       liberdade versus tempo;

       e. o único que realmente resolveu o paradoxo do tempo e da eternidade foi
       Jesus Cristo. Ele mesmo foi um paradoxo: Deus e homem; limitado e ilimitado;
       ignorante e conhecedor de tudo.

5. S. Kierkegaard, redescoberto na Alemanha por volta de 1910, é considerado o
precursor da teologia transcendental, de que Karl Barth, no século XX, é o principal
representante.

II. EXAME CRÍTICO

A. Principais Doutrinas Liberais

1. Foi a partir de meados do século XIX, como conseqüência da grande vitalidade
intelectual e reorientação do pensamento, que nasceu a teologia liberal. Foi esta uma
época de renascimento religioso em geral e, em particular, de expansão do
protestantismo, institucional e geográfica mente, caracterizada pelas missões e
surgimento das sociedades bíblicas.
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2. O liberalismo teológico, em sua essência, procura libertar as consciências cristãs
das suas amarras escolásticas, apontando-lhes as exigências da razão. Realça a
pessoa de Deus como a fonte de toda a verdade e enfatiza a necessidade de uma
certeza sincera na busca da verdade, embora reconheça a impossibilidade do ser
humano alcançar um conhecimento pleno da verdade absoluta.

3. A maioria dos teólogos da atualidade considera hoje insustentável essa premissa
liberalista de que o espírito humano não possa mover-se em regiões para além do
alcance dos sentidos, além do raciocínio meramente racional. Para Platão, o intelecto
tem idéias supersensíveis, inexplicáveis à luz da razão, sendo que é neste reino que
residem os característicos principais e distintivos da alma humana. Modernamente, é
cada vez maior o número dos que conhecem uma área essencialmente metafísica,
portanto fora do alcance dos meios físicos, na qual o espírito obedece às leis de sua
própria natureza.

4. Segundo os teólogos liberais, o protestantismo precisa "incorporar à sua teologia
os valores básicos, as aspirações e as atitudes características da cultura moderna,
ressaltando, dentre outros, o imperativo ético do Evangelho." (Enciclopédia Mirador).
Dessa pregação nasceu o evangelho social, onde a mensagem de Cristo deixa de ser o
poder de Deus para a salvação e regeneração do homem, para tornar-se apenas uma
fórmula social, impotente. "A Igreja transcende os métodos e as fórmulas humanas.
Ela produz aquela vida plena de riqueza, que é o espírito livre e nobre em ação; pensa
os melhores pensamentos; aceita os mais elevados ideais e os reveste de uma
linguagem irresistível. Assim ela infunde um poder criador na sociedade de espíritos
humanos... Não há fórmula suficiente boa para tornar boa uma sociedade, se não for
executada por homens bons. O cristianismo não elabora fórmulas, mas cria os homens
capazes de insuflar força moral em qualquer fórmula" (Lynn Harold Hough).

5. O movimento liberalista não reivindicou apenas amplas liberdades para o
exercício da razão, mas pregou a tolerância entre as denominações protestantes,
aproximando-as, através da minimização das diferenças doutrinárias.

6. O ressurgimento da intolerância religiosa no seio do catolicismo romano, nas
primeiras décadas do século passado, o que resultou na prisão e morte de
protestantes em diversos países, especialmente na Estônia, Lituânia, Letônia, Turquia,
Pérsia, Portugual e Espanha, contribuiu também para aproximar entre si as
denominações evangélicas. A organização, em 1846, da Aliança Mundial Evangélica,
em Londres, foi uma resposta ao estado de insegurança em que se achavam várias
correntes do protestantismo. Essa Aliança muito fez pela liberdade de culto em todo o
mundo.

7. Mas o espírito liberal reclama ainda respeito pela ciência e pelos métodos
científicos de pesquisas, o que implica na aceitação franca do estudo, tanto do mundo
material como da crítica bíblica e da história da Igreja. Foi, valendo-se desse estado de
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espírito favorável, que Darwin publicou a sua célebre obra As Origens das Espécies
através de meios de seleção natural,em 24 de novembro de 1859, que provocou
violentas e intermináveis polêmicas.

8. O liberalismo teológico aceita também o princípio da continuidade, ou seja,
considera mais importantes as semelhanças do que os contrastes, admitindo-se a
idéia da evolução para superar os abismos existentes entre o natural e espiritual,
entre o homem e seu Criador, enfatizando mais a imanência do que a transcendência
de Deus; o liberalismo prega ainda a confiança do homem no futuro, gerada pelas
grandes conquistas em todos os campos da ciência.

9. Não há dúvida de que o sonho liberalista do século passado mostra a cada dia
mais impossibilidade de materializar-se. A teoria da evolução está hoje negada pelos
principais cientistas, e as conquistas da ciência moderna têm trazido, ao lado do seu
inegável progresso, resultados catastróficos. A confiança do homem no futuro
desvanece-se hoje à luz dos fatos atuais e a exemplo de amargas experiências
recentes. Quanto à imanência de Deus, sugere esta ênfase que a Divindade está
identificada com a totalidade das existências, afirmando, panteisticamente, que tudo é
Deus e Deus é o tudo. Elimina-se, destarte, toda a concepção da personalidade divina
e, em conseqüência, considera-se o homem um irresponsável. Quando se nega o
conceito de Deus, como o Criador onipotente que está acima de todas as coisas que
criou, corre-se o risco de cair no fatalismo, característico dos cultos orientais e,
infelizmente, em expansão no Ocidente. Sinais da presença do fatalismo em nossos
dias são os horóscopos, o fetichismo e até mesmo os biorrítmos, rejeitados como
anticientíficos por grande número de médicos renomados.

10. Ainda em relação à ênfase dada pelo liberalismo à imanência de Deus em tudo, há
uma implicação séria, quando se trata do problema do pecado. Despersonalizando a
divindade, é o homem colocado no centro de tudo, como a medida de tudo. Isso
significa que o fim do homem é estar satisfeito consigo mesmo, com seus horizontes
etc. O Dr. John A. Mackay afirma que o pecado, como fator na existência humana, é
terrivelmente real, e é coisa que os filósofos balconizados sempre trataram de fazer
desaparecer por meio de argumentos arrazoados. Com a expressão balconizados fazia
ele referência a Aristóteles e Renan, como símbolos daqueles para quem "a vida e o
universo são objetos permanentes de estudo e contemplação". (')

B. Outras Doutrinas Liberais

1. Os credos primitivos são arcaicos e sem realidade para o mundo moderno.

2. A mente do homem é capaz de raciocinar segundo os pensamentos de Deus.

3. A mente deve estar aberta à verdade independentemente da fonte.
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4. As doutrinas cristãs são símbolos de verdades racionais conhecidas pela razão
humana.

5. A divindade de Jesus era uma declaração simbólica do fato de que todos os homens
possuem um aspecto divino.

6. 0 conceito bíblico da revelação de Deus na história era ingênuo e pré-filosófico.

7. Os itens "4', "5" e "6" do parágrafo anterior sofreram influência do idealismo
absoluto de Hegel e Letze. Os demais itens justificam plenamente alguns dos títulos do
liberalismo: modernismo e racionalismo.

8. Como vimos, para o liberalismo Deus está presente em todas as fases da vida e não
apenas em alguns eventos espetaculares. Assim, o método de Deus é o caminho da
mudança progressiva e da lei natural, e o nascimento virginal de Cristo não condiz com
a realidade, pois Deus está presente em todos os nascimentos.

9. Defendendo assim a imanência de Deus, o liberalismo podia aceitar a teoria da
evolução, não negando a Deus, todavia, um ato criador, ou seja: Ele teria criado a
primeira célula viva, da qual vieram todos os seres viventes, inclusive o homem.

10. O liberalismo reage contra um evangelho individualista, capaz de salvar o homem
do inferno e não da sociedade corrompida, e insiste em que o reino de Deus não é
além-túmulo e nem milênio, mas sim a sociedade ideal edificada pelo homem com o
auxílio de Deus.

11. Na busca duma "sociedade ideal" muitos teólogos se têm inclinado para uma
espécie de socialismo cristão, envolvendo-se em movimentos subversivos por
acreditarem que as doutrinas de Marx e Engels, se destituídas de seu ateísmo,
estariam em melhores condições de atender aos reclamos dos povos pela justiça social
de que a própria mensagem evangélica.

C. Sua atuação no Brasil

1. A entrada do liberalismo no Brasil remonta ao segundo decênio deste século,
quando a Imprensa Metodista editou Pontos Principais da Fé Cristã, livro que nega a
doutrina da expiação. Depois surgiram inúmeras obras modernistas, inclusive Religião
Cristã, traduzida do italiano pelos reverendos, Dr. Alexandre Orechia e Matatias
Gomes dos Santos.

2. As primeiras vítimas da teologia liberal em nossa pátria, segundo o falecido
reverendo Raphael Camacho, apareceram por volta de 1930, na Faculdade Evangélica
de Teologia, no Rio de Janeiro. Muitos livros adotados nesse estabelecimento de
ensino religioso eram modernistas, como também o eram quase todos os seus
professores.
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3. Segundo Raphael Camacho, o rev. Othoniel Motta, professor de Geografia Bíblica,
costumava dizer em classe: "Eu sou o pai dos hereges... Eu oro pelos mortos." O rev.
Epaminondas do Amaral, professor de exegese do Velho Testa mento, negava tudo o
que há de sobrenatural na Bíblia. O rev. Bertolaze Stela escreveu no "Estandarte", em
11/9/41, que todos os manuscritos da Bíblia foram contaminados por grandes mo
dificações, e que não há esperança de se encontrar entre eles um texto que esteja
próximo dos originais. Em "O Estandarte" de 15/9/53, este mesmo ministro escreveu:
"Somente as palavras de Jesus constituem os ensinos e a religião de Cristo... a Bíblia
contém a palavra de Deus." e fez suas as palavras do rev. Miguel Rizzo Jr., em A Nossa
Mística: "Para uns a suprema autoridade está na Igreja (Católica Romana); para outros,
nos espíritos do além (espíritas); para outros nas Escrituras (evangélicos), mas para nós
está em Cristo." Eis aqui a heresia chamada cristicismo, que desassocia Cristo da Bíblia
e afirma que somente as palavras ditas por Cristo é que são inspiradas.

4. Em 1938 os modernistas se manifestaram mais publicamente, de modo especial no
seio da Igreja Presbiteriana Independente, sendo então resistidos pelos
fundamentalistas, liderados pelo rev. Camacho. Travou-se acirrada luta doutrinária,
luta que levou o rev. Camacho a desligar-se dessa Igreja e a organizar, em 11 de
fevereiro de 1940, a Igreja Presbiteriana Conservadora.

5. Também o ex-padre Humberto Rohden, escritor, conferencista e autor de uma
tradução do Novo Testamento em português, no seu livro Pelo Prestígio da Bíblia na
Era Atômica, faz uma dura arremetida contra o evangelismo bíblico do Brasil e uma
exposição das teorias modernistas do pastor batista norte-americano, Harry E. Fosdick.
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                           Parte 03: NOVO MODERNISMO


9. Karl Barth - UM NOVO ORTODOXISMO?

Esta teologia é comumente conhecida por barthianismo, por ter como seu principal
autor Karl Barth (1886-1968), considerado o maior teólogo do século XX.

Este sistema possui ainda vários outros nomes: teologia dogmática, teologia da crise,
neo-ortodoxia, teologia transcendental, modernismo-negativista e teologia de Lund.

Alguns dados sobre Karl Barth

Karl Barth nasceu na Suíça, lecionou teologia nas universidades de Gottingen, Munique
e Bonn, mas foi demitido deste último posto pelo governo hitlerista, em 1935. E, por
resistir às tentativas do ditador de nazificar a Igreja Reformada da Alemanha, teve seus
diplomas de teologia anulados.

Com a derrota do nazi-fascismo, recupera sua cátedra em Bonn, de onde mais tarde se
transfere para Basiléia. Aposentou-se em 1961 e iniciou a elaboração da sua teologia.

O pragmatismo e a teologia dialética de Karl Barth

Barth abandonou o terreno firme da lógica e ingressou no mundo fabuloso do
pragmatismo, doutrina que considera a ação superior ao pensamento e aceita o valor
prático como critério da verdade.

Hegel passou a aceitar que a presença da verdade está na verdade na síntese, que
corresponde ao grau intermediário entre a tese e a antítese.



Barth, ao aplicar esta fórmula ao cristianismo histórico, considerou-o como a tese, o
modernismo como a antítese e o novo modernismo como a síntese.

Dentro de um esquema teológico dialético coexistem pacificamente doutrinas
antagônicas: o certo e o errado, a verdade e a mentira.

Daí a teologia de Barth ser também denominada de teologia dialética ou da crise.
Violando dessa maneira as regras pelas quais se estabelece se uma tese é verdadeira
ou não, o barthianismo acabou negando o caráter absoluto da verdade.

A teologia de Karl Barth manteve alguns pontos de vista ortodoxos

Não se pode deixar de reconhecer que, sob vários aspectos, a teologia de Barth foi um
retorno, embora aparentemente, às várias doutrinas bíblicas desprezadas pelo
liberalismo, como a Trindade, o nascimento virginal de Cristo, as duas naturezas de
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Cristo unidas numa só pessoa, conforme aceita pelo Concilio de Calcedônia (ano 451) e
pela Reforma Protestante, a salvação somente pela graça e a justificação unicamente
pela fé.

Em virtude destes pontos de vista, foi o barthianismo chamado também de
neomodernismo e neo-ortodoxia.

A respeito da pessoa de Jesus, é interessante ler o que Barth escreveu em
1960, em um tempo de revisão da sua própria teologia:

       “Nesses anos tive que aprender que a doutrina cristã precisa ser exclusivamente
       e de forma conseqüente, em todos os seus enunciados, direta ou indiretamente,
       doutrina de Jesus Cristo como da palavra viva de Deus dita a nós, se é que ela
       deve fazer jus ao nome que tem bem como edificar a igreja cristã no mundo tal
       qual ela pretende ser edificada como igreja cristã.

       Olhando em retrospecto para os meus estágios anteriores, fico me perguntando
       como foi possível que não aprendi nem disse isso já muito antes. Quão lenta é a
       pessoa humana, justamente quando se trata das coisas mais importantes!”

       Portanto, observamos que na teologia de Karl Barth, procurou-se preservar a
       cristologia.

ALGUMAS FALHAS DA TEOLOGIA DE BARTH

       Mas a teologia de Barth possui falhas seríssimas: a Bíblia não é a Palavra de
        Deus, apenas a contém. Por isso pode ela ser criticada à vontade.
       Estabelece um falso contraste entre a autoridade espiritual da Igreja, por ele
        aceita, e a sua autoridade legal, que rejeita. Assim, deixou a porta aberta à
        discussão acerca de doutrinas.
       Segundo esta teologia transcendental, o mundo está cheio de contradições,
        inclusive na religião. Por isso os seguidores desta escola admitem sistemas que
        se excluem mutuamente.
       Um dos seus líderes declarou: Em face do modernismo e da fé histórica, não se
        deve dizer um ou outro, mas um e outro. Isto eqüivale a aceitar a doutrina de
        que Jesus é o único mediador entre Deus e o homem e ao mesmo tempo
        admitir a mediação de Maria.

        Um transcendentalista, portanto, assemelha-se a um balconista que vende
        exatamente o produto que o freguês deseja, seja este freguês cristão
        histórico ou liberal.
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O desabafo de Francis A. Schaeffer

Francis A. Schaeffer narra o desabafo de um ateu sueco, Dr. Hedeinus, professor de
Filosofia da Universidade de Uppsala, que chamou os teólogos transcendentalistas de
"ateus, disfarçados em bispos e pastores:

       “Se tal é o cristianismo, não o quero; os seus conceitos não são nem
       claramente definidos, nem mesmo definíveis; a posição dos seus defensores é
       mais vacilante do que a minha."


10. Emil Brunner - Cristo Absoluto ou relativo?

Emil Brunner (1889-1966). Teólogo suíço; exerceu grande influência no protestantismo
dos Estados Unidos, país onde proferiu diversas preleções. Suas obras foram
traduzidas para o inglês antes mesmo que as de Barth.

Sintese do pensamento teológico de Brunner

      A teologia de Brunner, também conhecida por "dialética" e "da crise", descreve
       a busca da verdade por meio de debates entre as posições contrárias.
      Brunner acha que há alguma revelação fora da Bíblia, embora não acredite
       que a teologia natural inclua a teologia revelada, discordando nesse ponto do
       liberalismo de Barth.
      Entende que a Bíblia é o único critério pelo qual podemos julgar a verdade e a
       suficiência do conhecimento acerca de Deus, que se encontra em outros
       lugares.
      Diferentemente de Barth, Brunner admite que se pode achar verdade no
       filósofo, no ateu ou no adepto de seitas não cristãs, assim estabelecendo
       diálogo com eles, mas reconhecendo que eles não podem possuir suficiente e
       completo conhecimento verdadeiro de Deus.

A teologia Brunniana e Jesus

      Na teologia brunniana, o dogma de Jesus sem pecado é ato de fé e não base
       de fé. "Cremos que ele é sem pecado por crermos nele. Não é que cremos nele
       por causa de Ele ser sem pecado."
      Brunner nega, além de outros, o nascimento virginal de Cristo, os 40 dias pós-
       ressurreição, e a ascensão física do Senhor.
      As questões acima apresentam implicações seríssimas: ao admitir que Jesus
       Cristo pode ser conhecido historicamente, Brunner faz perder tudo.
      Na teologia de Brunner, A relação do homem com Deus não pode ser expressa
       em termos racionais e lógicos, mas apenas em termos de mitos;
      Qualquer tentativa para provar a revelação está errada;
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      Acerca do pecado, nega a herança de culpa de Adão, aceitando apenas a queda
       individual;
      O cristão deve ser um eterno revolucionário, não se conformando com as
       reformas sociais, sempre imperfeitas;
      O amor de Cristo revela o amor humano, que é possibilidade impossível;
      A queda não modificou a natureza e estrutura essenciais do homem, assim
       como a cegueira não retira o olho do corpo;
      No momento em que a pessoa se transcende, surge a memória da perfeição
       original.
                   Parte 04:NOVAS CORRENTES TEOLÓGICAS


11. A TEOLOGIA DO MITO

A teologia do mito tem como um de seus principais criadores o teólogo alemão Rudolf
Bultmann (1884-1976), que em 1941, numa conferência intitulada "O Novo
Testamento e a Mitologia", disse que esta parte das Escrituras está cheia de mitos à
luz dos quais se deveriam examinar a pessoa de Cristo e o comportamento da igreja
apostólica.



A visão do Buultimann dos escritores do NT

Para Bultmann, todos os escritores do Novo Testamento pensavam e escreviam tendo
em vista uma visão global do mundo antigo, no qual havia três divisões: a superior ou
invisível, habitada pelos anjos, o mundo sobrenatural de Deus; o mundo inferior,
escuro, habitado pelos demônios; e o nosso mundo, que fica entre os outros dois.

Segue-se, portanto, que a revelação vem em símbolos que devem ser decodificados.
Para usar o termo de Bultmann, devem ser desmitologizados.

Numa de suas conferências, afirmou Bultmann que hoje "não se pode utilizar a luz
elétrica e os aparelhos de rádio, apelar para medicamentos e clínicas modernas
quando se está enfermo, e ao mesmo tempo crer nos milagres do Novo Testamento.“

De acordo com essa visão, pode-se crer em Jesus Cristo e aceitá-lo como Deus e
Salvador sem a necessidade de acreditar no nascimento virginal, na encarnação, no
túmulo vazio, na ressurreição e na segunda vinda. Todos estes elementos seriam
derivados da mitologia judaica e do gnosticismo helenístico.

Segundo Bultmann, a desmitificação dos evangelhos não significa a eliminação do
mito, como procurou fazer a teologia liberal, mas a sua interpretação através de uma
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hermenêutica particular, sendo eles necessários por oferecerem ao homem condições
de perceber o enigmatismo do mundo.

Assim, através da sua reinterpretação, o mito seria utilizado como instrumento auxiliar
na compreensão da existência humana.

O que é a desmitologização que Bultman propõe?

Em seu questionamento sobre as escrituras, há a necessidade de extrair todo o
elemento mitológico, que segundo ele, encobre o entendimento das sagradas
escrituras para o homem moderno.

Vê na demitologização, um instrumental importante para a atualização    da
mensagem bíblica tornado-a compatível com o mundo tecnológico e cientifico
que vivemos hoje.

O homem/mulher moderno, embora seja um ser que viva em uma sociedade de
muitos símbolos e sinais, precisa decodificar o significado desta vasta simbologia.
Carece de um tradutor ,ou seja, necessita de uma ferramenta que atualize a
linguagem mitológica das Sagradas Escrituras, vigentes à época, para o código de
linguagem e a cultura dos nossos dias.

Segundo Bultiman, o uso do processo da demitologização das Escrituras elucida,
esclarece e traz nitidez ao leitor, acerca do que realmente a mensagem bíblica quer
nos dizer hoje em dia.

Pois para o homem/mulher secularizado os elementos mitológicos das escrituras,
fruto de uma cultura passada há quase dois mil e quinhentos anos não fazem
nenhum sentido. Devem ser extraídos, sem a perda do conteúdo original, pois
sem uma decodificação e uma atualização do sentido, a mensagem não nos diz o
porquê, ou pior ainda, pode levar a uma interpretação dúbia e incompreensível.

A Escritura não explica a si mesma, conforme ensina a hermenêutica da Reforma
Protestante, mas está sujeita aos métodos modernos da ciência autônoma e às
pressuposições filosóficas;

EXAME CRÍTICO DA TEOLOGIA DE BULTIMAN

   Bultmann rejeita, por considerá-los mitológicos:

       1)Os conceitos neotestamentários de que o reino escatológico está prestes a
       irromper na história;

       2)de que o mundo atual está governado por elementos demoníacos
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       3) e de que o sobrenatural intervém no mundo, manifestando-se através de
       milagres.

   Na sua reinterpretação do evangelho, elimina o sentido original dos termos
    encontrados no NT e os recria adotando uma nova significação.

       Ex. Segundo a visão tradicional, o problema do homem é o seu pecado,
       segundo o Evangelho, e a solução é o sacrifício de Cristo. Para Bultmann, tal
       problema é a sua finitude.

   O uso da filosofia contemporânea para formular a fé cristã pode distorcer o
    ensino cristão, introduzindo idéias estranhas ao Cristianismo através da
    reinterpretação da terminologia tradicional, e acomodar a fé cristã à filosofia
    tradicional;
   Ao ensinar que a teologia existencialista é antropocêntrica, concorda com
    Fenerbach de que a teologia tornou-se antropologia;
   Depois do programa de desmificação dos evangelhos, o Jesus que sobra é tão débil
    que jamais chamaria a atenção de alguém, e muito menos motivaria a sua
    lealdade. Um Jesus assim insignificante tem sido o tema de peças teatrais profanas
    e irreverentes, como a "Jesus Cristo Superstar", na qual Judas Iscariotes é o
    verdadeiro herói e Cristo não passa de uma figura covarde, que duvida a todo
    momento da sua missão;
   Bultmann ignora por completo o papel do Antigo Testamento na formação do
    Novo, ao considerar este eivado de mitos e influenciado pelo gnosticismo ou
    helenismo;
   A "Sola fide" de Bultmann nada tem de semelhante à de Lutero, que se baseava no
    testemunho bíblico.


12. A teologia da esperança

Enquanto o Barthianismo era antiescatológico, a teologia da esperança procura levar a
sério a história e o futuro, reagindo assim ao existencialismo de Barth e Bultmann, que
enfatiza o aqui e o agora.

Principais representantes desta teologia

Três líderes destacados do novo movimento são os teólogos alemães Jürgen
Moltmann (Reformado), Wolfhart Pannenberg (Luterano), e Johannes Metz (Católico
Romano).

A teologia da esperança tem sido articulada nos Estados Unidos por dois teólogos
luteranos, Carl Braaten e Robert Jenson, cujas obras muita coisa têm feito para
popularizar o novo movimento.
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No Brasil, Rubem A. Alves, com umas poucas revisões dele mesmo, muita coisa fez
para converter a teologia da esperança em programa de ação.

Às vezes essa teologia era chamada de futurologia...

Porque? Por ser um modo de encarar a teologia e as preocupações teológicas da
perspectiva do futuro e não do passado ou do presente.

O passado e o presente somente têm valor com referência ao futuro. A realidade
ainda não é; está orientada para o futuro.

A questão da existência de Deus pode ser respondida somente no futuro, pois Deus
está sujeito ao tempo enquanto este se esforça em direção ao futuro.

A teologia da esperança é caracterizada...

      Como uma reação ao desespero existencialista,

      Pela fé no futuro e pelo otimismo,

      A esperança baseia-se na promessa divina e o cristão suporta as contradições
       do presente porque vive na expectativa do futuro.

      Não enxergar uma solução para seus dilemas presentes. Assim, a teologia da
       esperança acha que não podemos encontrar respostas para as nossas questões
       atuais na sociedade de hoje.

      Abrange mais do que geralmente se reconhece tradicionalmente como sendo
       teologia, falando a rigor. Sua orientação secular permite que seja combinada
       com qualquer número de matérias, inclusive a política e a biologia.

      A teologia da esperança vê um esboço para sua exposição nas temáticas
       escatológicas. Ela entende a realidade a partir de uma perspectiva escatológica.
       O movimento também é chamado de teologia futurista.

      A teologia da esperança reage contra o subjetismo da neo-ordoxia, visto que
       sua abrangência vai além do universo pessoal e interior de individuo. Esta
       teologia se dirige ao mundo como mundo.

      A teologia da esperança foi a resposta do público a teorias como a que Deus
       está morto, idéia que foi criada na década de 60. Os teólogos futuristas
       deixaram para trás o sepulcro criado para Deus. O humanismo dos teólogos de
       Deus-está-morto veio a ser a sementeira em que a teologia da esperança
       deitaria raízes.
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13. JÜRGEN MOLTMANN – O FUNDADOR DA TEOLOGIA DA ESPERANÇA

   Jürgen Moltmann nasceu em 18 de abril de 1926 em Hamburgo.

   Iniciou seus estudos de teologia numa situação inusitada. Com dezesseis (1943) foi
    convocado pelo exército alemão onde teve, segundo ele mesmo, “uma carreira
    breve e sem glória”.

   Após seis meses na guerra, foi feito prisioneiro no campo de concentração de
    Northon-Camp, na Inglaterra. Ali se encontravam também alguns professores de
    teologia que ministravam lições aos seus companheiros; dentre eles, Jürgen
    Moltmann.

   Em 1948 retornou para Alemanha onde deu continuidade nos seus estudos na
    Universidade de Göttingen até 1952. De 1953 a 1958 exerceu atividades pastorais
    em Bremen.

   Suas especialidades foram: História dos Dogmas e Teologia Sistemática, iniciou
    sua docência em 1958 passando pela Escola Kirchliche Hochschule de Wuppertal,
    pela Universidade de Bonn, Universidade de Tübingen, Due University - EUA (no
    caráter de professor visitante). “Depois de Karl Barth, Jürgen Moltmann é
    considerado o mais conhecido e influente teólogo reformado do século XX” (LEITH,
    1997, p.234).
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                          Parte 05: AS TEOLOGIAS SOCIAIS


1. Na teologia social é ressaltado o conteúdo ético e social da Igreja.

Portanto, nas teologias sociais, analisamos as seguintes questões:

   Qual é a realidade social na qual está inserida a igreja?
   Qual o papel da igreja junto aos problemas encontrados na sociedade?
   Como a Igreja pode ser um instrumento de transformação social?


2. É boa a aproximação entre teologia e ciências sociais?

   Alguns teólogos, de perfil, fundamentalista, rejeitam por completo tal
    aproximação,
   Na prática, ocorre o contrário, pois qualquer teologia é feita num ambiente
    cultural e que a influência.
   Ao estabelecer um diálogo com as Ciências Sociais, o teólogo cristão terá, por sua
    vez, de renunciar sua posição cômoda de considerar sua religião um santuário
    protegido de críticas.
   Assim, “...as Ciências Sociais poderiam desempenhar um papel importante de
    autocompreensão crítica dentro da Teologia”, desde que tenhamos a consciência
    de que nem tudo pode ser explicado sociologicamente.


3. Grandes nomes do evangelho social

   O evangelho social teve como o seu maior intérprete o pastor Batista Walter
    Rauschembusch (1861-1918), professor no seminário batista de Rochester, de
    1897 até o seu falecimento.
   Um outro grande nome a lembrar é o do Pastor Martin Luther King, que lutou nos
    Estados contra o preconceito racial e a injustiça social contra os negros. Ele foi o
    responsável por disseminar a prática do protesto não violento, semelhantemente a
    Gandi.
        o Há uma frase de Martin Luter King: “Eu não me preocupo tanto com as
           palavras dos desonestos e as atitudes dos corruptos. Eu me preocupo muito
           mais, quando os bons fazem silêncio.”
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4. O evangelho social na América do sul

   Na América do Sul, esse movimento pode também ser identificado como a
    "teologia da libertação", com o propósito comum de estabelecer-se a "justiça
    social", até mesmo por meio de uma revolução.
   O sucesso da teologia da libertação na América do sul deve-se aos seguintes
    fatores:
            o Grandes índices de desemprego.
            o Diferenças sociais alarmantes.
            o Pobreza.
            o Diferenças Extremas entre classes sociais.
            o A ausência de uma teologia relevante ao contexto da América latina,
                que nascesse no berço dos países subdesenvolvidos.


5. Em que momento o evangelho social ganha destaque

   A teologia do evangelho social alcançou maior sucesso nos anos seguintes à
    Primeira Guerra Mundial, pelo fato de se atribuir às injustiças sociais as causas da
    grande conflagração internacional que ceifou milhões de vidas.
   Precisamos entender que no evangelho social, a Igreja é o instrumento de
    libertação para uma sociedade que está inserida numa estrutura social injusta e
    corrupta.


6. Os três passos básicos da teologia da libertação de Leonardo Boff

   No Brasil, Leonardo Boff, que é um dos principais defensores da TDL, estabelece
    três passos básicos para a sua TDL:
        o Ver: Aqui observamos os problemas sociais existentes e nos tornamos
            conscientes de sua existência.
        o Pensar: Neste passo, teorizamos teologicamente as questões sociais que
            serão abordadas pela Igreja na sociedade.
        o Agir: este é o passo da práxis, da ação, onde os fiéis são convocados para
            promover mudanças e transformações nas estruturas sociais.


7. O movimento do evangelho social teve o seu lado positivo:

   Procurou levar a Igreja a empenhar-se em atividades mais amplas em favor dos
    menos favorecidos da sorte,
   Criticou os governos corruptos e os sistemas ideológicos injustos.
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   Foi uma resposta nova da ética cristã em uma nova situação histórica, pois,
    particularmente nos Estados Unidos, era grande o número de problemas
    decorrentes do rápido crescimento industrial.
   A consciência cristã, assim desafiada, converteu-se numa "consciência social".


8. Nascimento da TDL no Brasil

   A Teologia da Libertação nasceu da influência de três frentes de pensamento:
       o O Evangelho Social das igrejas norte-americanas, trazido ao Brasil pelo
           missionário e teólogo presbiteriano Richard Shaull;
       o A Teologia da Esperança, do teólogo reformado Jürgen Moltmann;
       o A teologia política que tinha como seus grandes expoentes o teólogo
           católico Johann Baptist Metz, na Europa, e o teólogo batista Harvey Cox,
           nos EUA.


9. Eventos que precederam o nascimento da TDL no Brasil

   Há uma série de eventos que precederam o nascimento da Teologia da Libertação:
       o 1952: O missionário presbiteriano Richard Shaull chega ao Brasil trazendo o
          Evangelho Social e cria uma estreita relação com os pastores presbiterianos
          Rubem Alves e Jaime Wright;
       o 1964: O teólogo reformado Jürgen Moltmann publica sua obra Teologia da
          Esperança;
       o 1965: O teólogo batista Harvey Cox publica A Cidade Secular;
       o 1967: O teólogo católico Johann Baptist Metz pronuncia a conferência
          Sobre a Teologia do Mundo;
       o O marco do nascedouro da Teologia da Libertação no Brasil, está na
          publicação de uma obra de Rubem Alves, criticando a teologia metafísica
          de uma forma geral e propondo o nascimento de novas comunidades de
          cristãos animados por uma visão e por uma paixão pela libertação humana
          e cuja linguagem teológica se tornava histórica.
       o A primeira participação católica no lançamento da Teologia da Libertação
          foi a publicação da Teologia da Revolução, em 1970, pelo teólogo belga
          radicado no Brasil José Comblin.
       o Em 1971, Gustavo Gutiérrez publicou Teologia da Libertação. Somente em
          1972, Leonardo Boff surge no cenário teológico com a publicação de Jesus
          Cristo Libertador. Como Rubem Alves estava asilado nos EUA neste
          período, Boff passou a ser o mais conhecido representante desta corrente
          teológica que vivia no Brasil, devido à proteção recebida pela ordem dos
          franciscanos, à qual ele pertencia.
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10. Características da TDL

   O quadro de degradação apresentado na América Latina é o fundamento gerador
    do conceito de libertação.
   A libertação, então, é toda “ação que visa criar espaço para a liberdade” (BOFF,
    1980, p. 87).
        o Ser livre, neste sentido, é não estar sob o jugo da lei alheia; é poder
            construir-se autonomamente.
        o O processo histórico da América Latina foi e é dominado por diversas leis e
            conceitos teológicos estranhas a ela.
        o A América do Norte, em especial os EUA, e os países europeus, sempre
            impuseram aos latino–americanos seus valores, suas políticas, sua cultura,
            etc.
        o Neste sentido, a libertação no seio da América Latina, é a luta pela
            liberdade da cultura, dos valores, da economia, da política latino-
            americanos, frente às diversas opressões advindas de um modelo
            imperialista que rege a práxis do hemisfério norte em suas relações com o
            hemisfério sul, especialmente como o povo latino–americano.
   Devido à pobreza e à nefasta degradação do povo latino-americano, a libertação
    deve ser entendida como superação de um processo de exclusão; já que esta é a
    conseqüência direta da relação norte–sul, onde milhões de homens e mulheres
    empobrecem e se deterioram porque ficam à margem (excluídos) do processo
    econômico e político norteado pelo capitalismo imposto pelos EUA e Europa.
   Compete à teologia da libertação a tarefa de discursar sobre Deus a partir da
    ótica de um processo excludente e a partir da realidade concreta dos excluídos.
   O teólogo da libertação, portanto, deve ter este duplo olhar: olhar para Deus e
    olhar para o excluído. Olhar para Deus é a fonte de toda libertação possível e o
    olhar para o excluído identifica onde há necessidade de libertação.
   A teologia da libertação deve começar por se debruçar sobre as condições reais em
    que se encontra o oprimido de qualquer ordem que ele seja.” (BOFF, 1996, p. 40).
   Após a leitura sócio–analítica, o teólogo da libertação deve-se deparar com a Bíblia
    Sagrada.
        o A Bíblia deve fornecer subsídios para que se possa identificar a face de Deus
            e sua ação libertadora, nos diversos momentos históricos, sob as quais vive
            o teólogo e seu povo.
        o Há, então, no processo de elaboração da teologia da libertação, uma
            imbricação necessária entre a análise sócio–analítica da realidade e a Bíblia
            Sagrada. Esta última fornece o sentido teológico da práxis libertadora
            proposta pela teologia da libertação.
   A teologia da libertação pretende mostrar que Deus não está em uma esfera
    trans–histórica; mas, ela quer mostrar que Deus encarna-se na história, gera
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    libertação de um povo humilhado, gera vida e esperança a um povo crucificado e
    sem sonhos.
        o Podemos dizer, metaforicamente, que a teologia da libertação anuncia a
            ‘’descida’’ de Deus de sua esfera transcendente e “celeste” e mostra-o
            como agente dignificador dos humilhados da terra.
        o Deus não é mais um conjunto de doutrinas e especulações, mas é a fonte
            de toda a luta pela justiça e igualdade. Por isso, Deus se manifesta nas
            lutas históricas pela justiça, pela inclusão e pela superação de toda
            opressão vigente na humanidade. “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei
            da terra do Egito, da casa da servidão.”(Ex 20,2). Eis a face de Deus
            anunciada pela teologia da libertação: Deus que tira o povo da opressão, da
            servidão.
   A teologia da libertação surge para mostrar que Deus é “Pai – Nosso”; portanto os
    homens e as mulheres devem se relacionar como irmãos e irmãs, sem haver
    exclusão, sem haver opressão ou sem qualquer tipo de violação da dignidade
    humana. Lutar pela libertação é valorizar a paternidade universal de Deus, que se
    manifesta nas relações justas e fraternas entre todos os seres humanos.


11. Porque a teologia da libertação não produziu resultados tão positivos na
    américa latina?

   A grande discussão com os teólogos sociais gira em torno do que o homem mais
    precisa: Alimento para o corpo ou para a alma? Eles acham há uma falta mais da
    alimentação do corpo do que da alma, ou acha que as pessoas só estão sendo
    alimentadas bem espiritualmente.
        o Os teólogos sociais ensinaram que não adianta a Igreja alimentar
           espiritualmente sem dar o pão. O problema é que muitos preocuparam-se
           mais com o pão.
   As teologias sociais deram muita ênfase aos aspectos materialistas da existência
    humana. Sabemos que o materialismo sempre teve a tendência de favorecer as
    bases do ateísmo filosófico, e por isso foi rejeitado por muitas pessoas.
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Parte 06: Texto para debate: A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO - O CRISTIANISMO
                         A FAVOR DOS EXCLUÍDOS

(SUGESTÃO DE LEITURA: Leia este texto de forma crítica, detectando quais são as
compatibilidades e incompatibilidades entre as idéias expostas pelo autor e a nossa
visão evangélica).

                                                       Texto de Alexandre Marques Cabral

Não poucas vezes a teologia cristã se configurou de forma totalmente antiquada em
seus discursos e, conseqüentemente, em seus conceitos. A teologia cristã durante
séculos, preocupou-se com o hyperurânio de Platão, com o motor imóvel de
Aristóteles, com a cidade de Deus de Agostinho, menos com as problemáticas
históricas que fatalmente orientavam a vida social do homem.

É comum nos depararmos com textos clássicos da teologia e sermos levados às
nuvens, aos céus, como, por exemplo, num texto de Irineu ou de S. Agostinho de
Hipona. Mas, qual a razão disto? Isto ocorreu por mera vontade dos teólogos?
Certamente, não.

O instrumental filosófico utilizado pela teologia cristã

A teologia cristã configurou-se de forma retrógrada por muito tempo, devido ao
instrumental filosófico que ela utilizou para discursar acerca de Deus. Tal
instrumental derivava-se da metafísica clássica que tem como característica formular
conceitos anacrônicos, desconsiderando o caráter histórico do homem – ou seja,
desconsiderando o homem enquanto ser histórico, que se faz (constrói) no tempo.

Conseqüências do uso deste instrumental filosófico na teologia

A conseqüência disto, é que os dados da revelação cristã – Bíblia – foram entendidos
como realidades atemporais e ahistóricas. Por isso, por muito tempo – certamente,
também ainda hoje – entendeu-se Deus, Reino dos Céus, inferno, etc., como
realidades totalmente transcendentais, totalmente destacadas dos processos e fases
históricas da humanidade.



A reação da modernidade ao método tradicional adotado pela teologia cristã.

Esta forma de discurso acerca de Deus foi submetida à crítica com o advento da
modernidade e do pensamento contemporâneo. A metafísica, que foi a “pedra
angular” da teologia clássica, foi fortemente criticada a partir da modernidade.

Descobriu-se, após séculos de especulação, a história como característica essencial
do homem e a cultura como âmbito de toda construção histórica. Com isso, o
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pensamento ocidental, largou aquele transcendentalismo metafísico, tornando-se por
isso mais imanentista. Isto influenciou fortemente a teologia.

O encontro do homem com Deus – chamado pela teologia da GRAÇA – passou a ser
pensado como realidade histórica: Deus se manifesta ao homem situando-se histórica
e culturalmente, ou seja, o encontro de Deus com o homem difere-se na história em
suas diversas épocas, e difere-se na pluralidade cultural que se dá no seio da
humanidade.

Obviamente, isto gerou uma certa relativização no discurso sobre Deus; porém,
valorizou a historicidade como característica essencial do ser humano, além de
valorizar a multiplicidade de formas de Deus se apresentar ao homem, superando,
assim, o anacronismo clássico metafísico que norteava o pensamento teológico no
entendimento da relação homem – DEUS.

O nascimento da teologia da libertação e seu contexto histórico.

A chamada Teologia da Libertação está inserida nesta última fase do pensamento
ocidental que destacamos acima: a fase da valorização da história, da cultura e da
diversidade de formas de manifestação do encontro do homem com Deus. Ela é uma
teologia propriamente cristã; por isso, utiliza a Bíblia como pressuposto necessário de
seus discursos.

A expressão “teologia da libertação”, já mostra o sentido norteador deste discurso
teológico. O genitivo que aparece na expressão citada – DA LIBERTAÇÃO -, mostra-
nos que a libertação é o horizonte regulador do discurso acerca de Deus, e, ao
mesmo tempo, mostra-nos que o Deus do discurso é fonte de libertação. Esta se
manifesta concretamente nos diversos momentos do processo histórico de um povo.
Conseqüentemente, a teologia da libertação torna-se força geradora de ações que
viabilizam uma práxis libertadora, segundo as necessidades advindas das diversas
circunstâncias sob as quais um povo está submetido.

“A teologia da libertação é um movimento teológico que quer mostrar aos cristãos
que a fé deve ser vivida numa práxis libertadora e que ela pode contribuir para
tornar esta práxis mais autenticamente libertadora” (MONDIN, 1980, p. 25). Neste
sentido, o cristão é impelido a viver a práxis libertadora nas diversas épocas da
história.

Como surgiu o termo libertação

O termo libertação foi cunhado a partir da realidade cultural, social, econômica e
política sob a qual se encontrava a América Latina, a partir das décadas de 60/70 do
último século. Os teólogos deste período, católicos e protestantes, assumiram a
libertação como paradigma de todo fazer teológico.
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Vejamos o quadro social da América Latina no período originário da teologia da
libertação:

       “O ambiente político é geralmente caracterizado pela presença de governos
       que administram o poder arbitrariamente em vantagem dos ricos e dos
       poderosos, fazendo amplo uso da força e da violência. (...)

       O ambiente econômico e social está marcado pela miséria e pela
       marginalização da maior parte da população.

       Os recursos econômicos são controlados por um pequeno grupo de
       privilegiados. (...)

       No ambiente cultural se verifica ainda uma notável dependência da Europa e
       dos Estados Unidos.

       Na ciência como na filosofia, na arte como na literatura, quase nada é
       concedido à originalidade das populações latino-americanas” (Ibidem, p. 25-
       26).



O quadro de degradação apresentado na América Latina é o fundamento gerador do
conceito de libertação. A libertação, então, é toda “ação que visa criar espaço para a
liberdade” (BOFF, 1980, p. 87).

Ser livre, neste sentido, é não estar sob o jugo da lei alheia; é poder construir-se
autonomamente.

A America Latina sempre foi influenciada por ideologias externas

O processo histórico da América Latina foi e é dominado por diversas leis estranhas a
ela. A América do Norte, em especial os EUA, e os países europeus, sempre impuseram
aos latino–americanos seus valores, suas políticas, sua cultura, etc.

Neste sentido, a libertação no seio da América Latina, é a luta pela liberdade da
cultura, dos valores, da economia, da política latino-americanos, frente às diversas
opressões advindas de um modelo imperialista que rege a práxis do hemisfério norte
em suas relações com o hemisfério sul, especialmente como o povo latino–
americano. Tal relação impõe ao hemisfério sul a cultura do hemisfério norte.

Devido à pobreza e à nefasta degradação do povo latino-americano, a libertação deve
ser entendida como superação de um processo de exclusão; já que esta é a
conseqüência direta da relação norte–sul, onde milhões de homens e mulheres
empobrecem e se deterioram porque ficam à margem (excluídos) do processo
econômico e político norteado pelo capitalismo imposto pelos EUA e Europa.
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A teologia da libertação discursa sobre Deus a partir da ótica da realidade dos
excluídos.

Desta forma compete à teologia da libertação a tarefa de discursar sobre Deus a partir
da ótica de um processo excludente e a partir da realidade concreta dos excluídos.

O teólogo da libertação, portanto, deve ter este duplo olhar: olhar para Deus e olhar
para o excluído.

Olhar para Deus é a fonte de toda libertação possível e o olhar para o excluído
identifica onde há necessidade de libertação.

Olhando para Deus – ou Cristo -, a teologia da libertação diferencia-se de todo
movimento libertador laico, já que a libertação apresentada pela teologia enxerga nos
processos históricos a possibilidade de presentificação da nova ordem escatológica
anunciada por Cristo, ou seja, o Reino de Deus – ordem de justiça e da superação de
toda opressão possível, na sociedade e no cosmos.

Ao pretender olhar para o excluído e para o sistema gerador de opressão, como
pressuposto de todo fazer teológico, a teologia da libertação difere-se radicalmente
das teologias clássicas, pois supera o anacronismo destas, circunscrevendo a
experiência de Deus no âmbito do engajamento do fiel na luta contra todo o
sofrimento humano historicamente situado.

Compreendendo o fenômeno da opressão e da exclusão

Para que haja elaboração da teologia da libertação é mister que se compreenda os
fenômenos da opressão e da exclusão. Estes devem ser compreendidos através de
uma mediação sócio – analítica, “Libertação é libertação do oprimido.

Por isso, a teologia da libertação deve começar por se debruçar sobre as condições
reais em que se encontra o oprimido de qualquer ordem que ele seja.” (BOFF, 1996,
p. 40).

O método utilizado para elucidar sócio–analiticamente o fenômeno da opressão e da
exclusão pela teologia da libertação, é o método histórico- dialético.

A influência do marxismo na teologia da libertação

O marxismo passa a ser a filosofia predominante na análise sócio–analítica feita pela
teologia da libertação. Porém, o marxismo é utilizado como instrumento, não tendo
fim em si mesmo. “Na teologia da libertação o marxismo nunca é tratado em si
mesmo, mas sempre a partir, e em função dos pobres” (Ibidem, p. 45). O sentido
último da teologia não é Marx, mas Deus.

Após a leitura sócio–analítica, o teólogo da libertação deve-se deparar com a Bíblia
Sagrada. A Bíblia deve fornecer subsídios para que se possa identificar a face de Deus e
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sua ação libertadora, nos diversos momentos históricos, sob as quais vive o teólogo e
seu povo. Há, então, no processo de elaboração da teologia da libertação, uma
imbricação necessária entre a análise sócio–analítica da realidade e a Bíblia Sagrada.
Esta última fornece o sentido teológico da práxis libertadora proposta pela teologia da
libertação.

Na teologia da libertação a religião é vista como um fator de mobilização

Com a gênese da teologia da libertação na América Latina, “a religião passa a ser um
fator de mobilização e não do freio” (BOFF, 1980, p. 102).

A religião não mais se apresenta como “ópio do povo”. Ela passa a ser fonte de
libertação e de esperança para o homem.

A religião, desta forma, não se reduz a uma ideologia que mantém o status quo social
e político; também não é mais fonte de discursos etéreos.

A teologia da libertação pretende mostrar que Deus não está em uma esfera trans–
histórica; mas, ela quer mostrar que Deus encarna-se na história, gera libertação de
um povo humilhado, gera vida e esperança a um povo crucificado e sem sonhos.

Podemos dizer, metaforicamente, que a teologia da libertação anuncia a ‘’descida’’ de
Deus de sua esfera transcendente e “celeste” e mostra-o como agente dignificador dos
humilhados da terra.

Deus não é mais um conjunto de doutrinas e especulações, mas é a fonte de toda a
luta pela justiça e igualdade. Por isso, Deus se manifesta nas lutas históricas pela
justiça, pela inclusão e pela superação de toda opressão vigente na humanidade. “Eu
sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.”(Ex 20,2).
Eis a face de Deus anunciada pela teologia da libertação: Deus que tira o povo da
opressão, da servidão.

O céu almejado pela humanidade, não é pensado como realidade post mortem. Este
céu que fora pensado pela teologia clássica como realidade distante que se
manifestaria no porvir, encarna-se no “agora”, através da práxis do povo em prol da
dignidade humana: cada conquista popular, no que tange a uma relação mais justa
entre os homens, presentifica o céu no seio da humanidade.

A teologia da libertação surge para mostrar que Deus é “Pai – Nosso”; portanto os
homens e as mulheres devem se relacionar como irmãos e irmãs, sem haver exclusão,
sem haver opressão ou sem qualquer tipo de violação da dignidade humana. Lutar
pela libertação é valorizar a paternidade universal de Deus, que se manifesta nas
relações justas e fraternas entre todos os seres humanos.
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            Parte 07: Texto para debate- A teologia social de Calvino


1. Introdução

   Muitos de nós, não conhecem o pensamento teológico social de Calvino, pelo fato
    dos modernos manuais de teologia não fazerem referencia a tudo o que
    reformador produziu nesta área especifica. Faremos uma síntese de tudo que
    Calvino produziu nesta área.
   A Reforma Protestante ocorrida no século XVI não foi somente um movimento
    espiritual e eclesiástico. Teve também aspectos e dimensões políticas e sociais.
   Calvino, bem como os outros reformadores, deu atenção aos problemas sociais
    de sua época. Talvez pelo fato de ser da segunda geração de reformadores, Calvino
    podia ter uma visão mais ampla e amadurecida sobre o assunto.
        o Ele esforçou-se para entender qual deveria ser o papel da Igreja cristã na
            reconstrução de uma sociedade justa que refletisse a vontade de Deus em
            termos de justiça social. Essa questão era extremamente aguda para os
            reformadores, particularmente pelo fato de viverem numa época e numa
            situação de grandes problemas sociais.
        o Não é de se admirar que em suas Institutas da Religião Cristã, bem como
            em seus comentários Calvino freqüentemente trata de questões
            relacionadas com a responsabilidade social da Igreja e do Estado.
   Duas considerações importantes.
        o Primeiro. Não devemos dissociar o pensamento social de Calvino da sua
            teologia. Calvino era acima de tudo um teólogo, um homem da Igreja. Ele
            não era um político, nem ativista social, mas essencialmente um pastor e
            um estudiosos das Escrituras. Seu pensamento social desenvolveu-se
            dentro da estrutura de seus pressupostos teológicos e bíblicos.
            Calvino construiu a sua teologia social a partir da sua convicção de que
            Cristo é Senhor de todos os aspectos da vida humana, e de que a Palavra
            de Deus deve regular todas as áreas da vida.
        o A segunda consideração. Não devemos dissociar o pensamento social de
            Calvino da época em que ele viveu.
            Embora sua teologia social brotasse de princípios bíblicos válidos e atuais
            para todas as épocas, Calvino só poderia dar-lhes expressão dentro das
            circunstâncias históricas em que viveu e labutou.
            Naquela época, a Igreja Católica Romana era o grande poder econômico e
            político. Prevalecia naquela época o sistema econômico e social medieval e
            a monarquia como sistema de governo.
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2. Genebra na Época de Calvino

   A cidade de Genebra foi o local onde Calvino passou a maior parte de sua vida,
    pregando, pastoreando e ensinando. Ali passou momentos de grande popularidade
    e também de rejeição. Foi ali que sua teologia social amadureceu, à medida em
    que enfrentava os males sociais que oprimiam Genebra bem como as demais
    cidades da Europa medieval.


3. O Governo de Genebra

   Genebra, antes da Reforma e da chegada de Calvino, era um bispado, uma
    importante cidade.
   Seu comando estava nas mãos de três autoridades:
        o O bispo, que era não somente o chefe espiritual da Igreja, o "príncipe de
            Genebra", como teoricamente, era o soberano da cidade, com poderes
            para cunhar moedas, comandar a cidade em tempo de guerra, julgar
            apelações, e perdoar crimes.
        o Depois vinha o magistrado, incumbido da defesa da cidade, da guarda, e da
            execução de prisioneiros.
        o E por fim, o Conselho de Genebra, composto de Conselheiros de entre os
            moradores da cidade, que julgavam as questões criminais concernentes aos
            leigos (os pecados dos sacerdotes era competência do bispo), cuidavam do
            abastecimento da cidade, das finanças da cidade, e mantinham a boa
            ordem durante a noite através da polícia. Este era o sistema adotado pela
            maioria das cidades européias católicas.
   Quando Genebra adotou oficialmente a Reforma (1536), o bispo foi despojado do
    seu poder, e os Conselheiros assumiram suas funções.
   Durante o período de bispado em Genebra, a Igreja Católica representada pelo
    bispo estivera acima do Estado. Com a expulsão do bispo, o Conselho assumiu
    suas funções, e agora o Estado estava acima da Igreja (agora Reformada).
    A Igreja permanecia ligada ao Estado, e estava debaixo do poder do Conselho de
    Genebra (cujos Conselheiros agora eram protestantes), que tinha em suas mãos o
    poder de disciplinar, designar os pastores, bem como a função de sustentá-los
    financeiramente.


4. A Situação Social em Genebra

   Graves problemas sociais afligiam Genebra naquela época (bem como a Europa em
    geral).
       o Havia pobreza extrema, agravada por impostos pesados.
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       o Os trabalhadores eram oprimidos por baixos salários e jornadas extensas de
            trabalho.
       o Campeava o analfabetismo, e a ignorância; havia aguda falta de assistência
            social por parte do Estado;
       o Prevalecia a embriagues e a prostituição.
       o Destacava-se o vício do jogo de cartas, que levava o pouco dinheiro do
            povo.
       o As trevas espirituais características da Idade Média refletiam-se nas
            condições morais e sociais das massas.
   Essa era a situação que prevalecia em Genebra antes da chegada da Reforma
    espiritual, a qual deu lugar, em seguida, a reformas sociais, econômicas e políticas,
    mesmo antes de Calvino chegar à Genebra.


5. As Mudanças Introduzidas por Farel em Genebra

   Guilherme Farel foi o grande líder destas mudanças em Genebra. Sob sua
    influência, o Conselho da cidade cria o Hospital Geral no antigo Convento de Santa
    Clara, para dar atendimento médico aos pobres.
   O Conselho também passou a regulamentar a vida dos seus cidadãos:
        o Proíbem-se as danças de ruas, a polícia é mobilizada para manter a ordem
            nas ruas, são promulgadas leis que regulamentam o uso dos bares, que
            proíbem jogo de cartas, blasfemar o nome de Deus, e servir bebidas
            durante o horário do sermão.
        o Torna-se proibido vender pão e vinho a preços acima dos estipulados; são
            proibidos todos os dias santos, à exceção do domingo. Passa a ser
            obrigatório a todos os cidadãos de Genebra irem ouvir o sermão de
            domingo, sob pena de pesadas multas. E a instrução pública se torna
            obrigatória, pela primeira vez na Europa.


6. As reações as mudanças trazidas por Farel

   Evidentemente, nem todos em Genebra estavam satisfeitos com as pesadas
    proibições impostas pelos Conselheiros, que por sua vez, seguiam a Farel.
   As leis, por demais severas, que excedem os limites do razoável, provocam
    insatisfação, mesmo entre crentes verdadeiros.


7. É neste momento de mudanças que Calvino chega a Genebra

   Foi a esta altura que Calvino chegou a Genebra. Ele estava apenas de passagem
    pela cidade. Seus planos eram de prosseguir em frente e achar um local tranqüilo
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    onde pudesse estudar e escrever. Tinha na época 27 anos de idade, e havia
    acabado de publicar a primeira edição das Institutas.
   Quando Farel soube que Calvino estava na cidade foi visitá-lo, e instou com o
    jovem teólogo a que ficasse ali em Genebra, para ajudá-lo no trabalho de
    reforma. É conhecida a história de como Calvino, após ter apresentado toda sorte
    de desculpas, finalmente rendeu-se, aterrorizado pela maldição que o velho
    reformador invocou sobre ele, em caso de recusa. Assim, ele ficou, para ajudar
    Farel a solidificar as reformas eclesiásticas e sociais em Genebra. Em breve,
    Genebra iria tornar-se o centro espiritual e social da Reforma protestante na
    Europa.
   Foi ali em Genebra, trabalhando como pregador, mestre e pastor na Igreja de
    Genebra, e lidando com as questões sociais mencionadas acima, que Calvino
    desenvolveu sua teologia social. No que se segue, procuraremos sintetizar seus
    pontos principais, concentrando-nos no que Calvino ensinou como sendo a
    responsabilidade social da Igreja de Cristo.


8. O Ensino de Calvino

A causa dos males sociais

   Fundamental para entendermos o pensamento de Calvino nesta área é termos em
    mente que para ele as causas da pobreza, miséria e a opressão, bem como da
    perversão e da corrupção da sociedade humana, estavam enraizadas na natureza
    decaída do homem, que por sua vez, remonta-se à Queda no Éden. Este princípio
    é crucial no entendimento de Calvino.
   Para ele, o pecado do homem havia trazido toda sorte de transtorno à ordem
    social: Pela queda do homem foi demolida toda ordem social, e em Adão tudo foi
    amaldiçoado por Deus, como está escrito em Romanos 8.20-23, onde Paulo afirma
    que a criação de Deus está em cativeiro imposto pelo pecado do homem.
   A queda do homem introduziu perturbações profundas na sociedade humana,
    incluindo distúrbios na vida conjugal e familiar. Para Calvino, o caos econômico é
    causado pela ganância dos homens, e pela incredulidade de que Deus haverá de
    nos suprir as necessidades básicas, conforme Cristo nos promete em Mateus 6.
   Calvino denuncia neste contexto, pecados sociais como: Estocagem de alimentos
    (trigo), monopólios, e a especulação financeira, como tendo origem no egoísmo e
    na avareza do homem. Ele denunciava aqueles que preferiam deixar deteriorar-se
    o trigo em seus celeiros, para que ali fosse devorado por bichos, e apodrecesse, ao
    invés de ser vendido, quando a necessidade do povo se fazia sentir.
   Por identificar biblicamente a raiz dos transtornos sociais, Calvino estava em
    posição de elaborar uma solução que atingisse o problema em seus fundamentos.
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O Senhorio de Cristo

   Um segundo princípio que norteava a teologia social de Calvino era que o Cristo
    vivo e exaltado é Senhor de todo o universo. Os milagres que Ele exerceu sobre a
    ordem natural (acalmar a tempestade, por exemplo; ou tirar uma moeda da boca
    do peixe) demonstram esta realidade, diz Calvino.
   Portanto, a obra de restauração realizada por Cristo não se limita apenas à nova
    vida dada ao indivíduo, mas abrange a restauração de todo o universo — o que
    inclui a ordem social e econômica. Desta forma, a atenção de Calvino como pastor
    e mestre, se estendeu para além das questões individuais e "espirituais". Se Cristo
    era o Senhor de toda a existência humana, era dever da Igreja dar atenção às
    questões sociais e políticas.

A Restauração da Sociedade

   Para Calvino, a restauração inaugurada por Cristo ocorre inicialmente no seio da
    Igreja. É na Igreja que a ordem primitiva da sociedade, tal qual Deus havia
    estabelecido, tende a ser restaurada. Na Igreja, as diferenças exacerbadas entre as
    classes sociais, econômicas e raciais, bem como os preconceitos delas procedentes,
    desaparecem, pois Cristo de todos faz um único povo (Gl 3.28; Ef 2.14).
   Calvino não concebia a total abolição das classes sociais. Ele concebia a
    coexistência harmônica entre a Igreja e instituições como o Estado, a sociedade e a
    família, com as suas respectivas estruturas e funcionamento.
    É na Igreja, porém, que as relações sociais de trabalho sofrem profundas
    alterações, ensina o reformador. Os patrões continuam patrões, mas aprendem a
    exercer sua autoridade sem opressão, ao passo que os empregados (que
    continuam empregados) aprendem a serem subordinados sem recriminação.
   Na Igreja, diz Calvino, Jesus Cristo estabelece entre os cristãos a justa
    redistribuição dos bens destinados a todos. Isto se dava através da atividade
    diaconal, trazendo alívio para as necessidades dos pobres e oprimidos, com
    recursos vindos dos ricos e abastados.
   Quando Calvino falava em restauração social, ele tinha em mente uma sociedade
    civil governada por cristãos reformados, que aplicassem os princípios bíblicos às
    questões sociais, políticas e econômicas. Ou seja, um Estado que fosse orientado
    pela Igreja no exercício de suas funções.

Para Calvino a reforma social não é perfeita, pois os efeitos do pecado não são
todo eliminados.

   É também importante notar que para Calvino a reforma da sociedade não é
    completa nem perfeita, visto que os efeitos do pecado não são de todo
    eliminados na presente época. É uma restauração parcial, portanto. Ela não
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    consegue estabelecer plenamente a justiça no mundo presente. Ao mesmo tempo,
    ela não abole determinados aspectos da ordem social: permanece a hierarquia
    determinada por Deus entre o homem e a mulher, o patrão e o empregado, os pais
    e seus filhos.

Quando ocorrerá então a completa reforma da sociedade?

   A plena abolição dos distúrbios agora presentes da ordem social (as injustiças, a
    opressão, a corrupção, por exemplo) só se efetuará plenamente no Reino de
    Deus, no fim dos tempos, para o qual marcha toda a história dos homens e do
    universo. Sua vinda será precedida por convulsões cósmicas. Então, Jesus Cristo
    regressará em glória, e o príncipe deste mundo será aniquilado. Assim, será então
    estabelecido o novo céu e a nova terra, onde habitam plenamente a justiça (2 Pe
    3.13; cf. Is 65.17; 66.22; Ap 21.1).
   Portanto, para Calvino, a Igreja é uma antecipação do reino de justiça a ser
    introduzido por Cristo em sua vinda. Como tal, ela funciona no presente como
    uma sociedade provisória, governada pelas leis de Cristo. Embora já refletindo
    estes ideais, a Igreja ainda não o faz de forma perfeita, o que ocorrerá apenas no
    fim dos tempos.


9. A Responsabilidade Social da Igreja

   Quais as responsabilidades da Igreja nesta restauração provisória da sociedade?
    Podemos resumir o ensino de Calvino em três aspectos fundamentais. Segundo
    ele, a Igreja tinha um ministério didático, um político, e um social.

Ministério Didático

   Esse ministério da Igreja era para ser exercido através dos seus pastores e mestres.
    Consistia na instrução pública e particular, através de sermões e orientação
    individual, quanto ao ensino bíblico sobre a administração dos bens outorgados
    por Deus ao Estado e ao indivíduo. Em outras palavras, Mordomia Cristã.

A ênfase do ministério didático: a questão do trabalho e do descanso.

   Tomemos como exemplo a questão do trabalho e descanso. De acordo com
    Calvino, a Igreja deveria através do ministério regular de seus pastores, instruir
    seus membros no ensino das Escrituras sobre o assunto.
       Em suas Institutas Calvino escreveu o que possivelmente foi o seu ensino em
       Genebra sobre o trabalho: só Deus alimenta o homem — dele vem as forças e
       as condições para que o homem trabalhe, e com seu suor, compre seu pão.
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       O trabalho, portanto, é algo eminentemente digno pois é a realização da
       vontade de Deus para o homem. Assim, o homem não se realiza plenamente,
       senão no trabalho, pois foi para isto que foi criado e vocacionado, conforme
       está escrito em Gênesis 1 e 2. O pecado tirou a alegria e a graça que
       acompanhava o trabalho no início.
       A queda introduziu no mundo e na sociedade humana os distúrbios sociais
       relacionados com o trabalho (Gênesis 3). Mas, em Cristo o homem reencontra a
       alegria e o gosto do labor.

       Quanto ao descanso, Calvino insistia que era necessário proporcionar aos
       trabalhadores um dia de descanso, o sábado cristão, que é o domingo,
       conforme sua interpretação do quarto mandamento (Êxodo 20.8-11). O
       descanso físico, porém, está intimamente ligado ao espiritual — sem Cristo,
       não há descanso verdadeiro no domingo.

       Assim, Calvino via a profanação do domingo como a origem da corrupção do
       trabalho. Segundo ele, é necessário cessarmos dos nossos labores, como Deus
       cessou dos dele (He 4.3).

       O que fez o conselho de genebra? Assim, conforme Farel já havia orientado, o
       Conselho de Genebra, debaixo da influência de Calvino, aboliu todos os
       feriados católicos e determinou que no domingo cessasse todo labor em
       Genebra.

   A função do púlpito no ministério didático? Através do púlpito, exercendo o seu
    ministério didático, a Igreja então levantava o ânimo moral do trabalhador
    assegurando-lhe que mesmo os trabalhos mais humildes são honrados por Deus, e
    que Deus assim determinou que pelo trabalho o homem encontrasse sua vocação
    na vida. E que em Cristo, o trabalhador encontraria a alegria e a satisfação que
    deveriam acompanhar o labor diário.
       o Havia um outro aspecto do ministério didático da Igreja que consistia em
           repreender, através das pregações, os membros que estivessem
           incorrendo em pecados sociais:
           Assim, os pastores de Genebra, orientados por Calvino, denunciavam do
           púlpito a prática da cobrança de juros excessivos por parte dos agiotas. Da
           mesma forma denunciavam a vadiagem. Vadiagem e parasitagem é pecado,
           ensinava Calvino. Para ele, quando Deus criou o homem e o ordenou
           cultivar a terra, condenou com este gesto a ociosidade e a indolência. Não
           há nada mais oposto à ordem da própria natureza do que consagrar a vida à
           beber, comer, e dormir, sem indagar sobre o que fazer (Sl 128.3; 2 Ts 3.10-
           12).
Teologia Contemporânea
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  • 1. Curso de Teologia Contemporânea Professor Pr. Josias Moura de Menezes Site: www.josiasmoura.wordpress.com Email: josiasmoura@hotmail.com
  • 2. Pag. 2 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Índice da apostila Curso de Teologia Contemporânea.................................................................................................................... 1 Parte 01: TEOLOGIAS PRÉ CONTEMPORÂNEAS ............................................................................................... 4 1. Influências da teologia Contemporânea .................................................................................................. 4 2. MÍSTICA E TOMÍSTICA ................................................................................................................................ 5 3. A influência da reforma e contra reforma................................................................................................ 5 4. A reação católica a reforma....................................................................................................................... 5 5. Galileu e a inquisição ................................................................................................................................. 6 6. A Bíblia foi a grande vítima de todos os confrontos entre a Igreja e as novas idéias ........................... 6 7. A atuação nociva do liberalismo teológico neste período ...................................................................... 6 8. O que é alta crítica? ................................................................................................................................... 7 Parte 02: O LIBERALISMO TEOLOGICO .............................................................................................................. 8 Parte 03: NOVO MODERNISMO ....................................................................................................................... 16 9. Karl Barth - UM NOVO ORTODOXISMO?................................................................................................ 16 10. Emil Brunner - Cristo Absoluto ou relativo? ..................................................................................... 18 Parte 04:NOVAS CORRENTES TEOLÓGICAS ..................................................................................................... 19 11. A TEOLOGIA DO MITO ......................................................................................................................... 19 12. A teologia da esperança ...................................................................................................................... 21 13. JÜRGEN MOLTMANN – O FUNDADOR DA TEOLOGIA DA ESPERANÇA............................................ 23 Parte 05: AS TEOLOGIAS SOCIAIS ..................................................................................................................... 24 1. Na teologia social é ressaltado o conteúdo ético e social da Igreja. .................................................... 24 2. É boa a aproximação entre teologia e ciências sociais?........................................................................ 24 3. Grandes nomes do evangelho social ...................................................................................................... 24 4. O evangelho social na América do sul .................................................................................................... 25 5. Em que momento o evangelho social ganha destaque......................................................................... 25 6. Os três passos básicos da teologia da libertação de Leonardo Boff..................................................... 25 7. O movimento do evangelho social teve o seu lado positivo: ............................................................... 25 8. Nascimento da TDL no Brasil................................................................................................................... 26 9. Eventos que precederam o nascimento da TDL no Brasil ..................................................................... 26
  • 3. Pag. 3 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 10. Características da TDL ......................................................................................................................... 27 11. Porque a teologia da libertação não produziu resultados tão positivos na américa latina? ......... 28 Parte 06: Texto para debate: A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO - O CRISTIANISMO A FAVOR DOS EXCLUÍDOS ............................................................................................................................................................................ 29 Parte 07: Texto para debate- A teologia social de Calvino............................................................................. 34 1. Introdução ................................................................................................................................................ 34 2. Genebra na Época de Calvino.................................................................................................................. 35 3. O Governo de Genebra ............................................................................................................................ 35 4. A Situação Social em Genebra................................................................................................................. 35 5. As Mudanças Introduzidas por Farel em Genebra ................................................................................ 36 6. As reações as mudanças trazidas por Farel ............................................................................................ 36 7. É neste momento de mudanças que Calvino chega a Genebra ........................................................... 36 8. O Ensino de Calvino.................................................................................................................................. 37 9. A Responsabilidade Social da Igreja........................................................................................................ 39 10. Conclusões ........................................................................................................................................... 45 Parte 08: A teologia evolucionista ................................................................................................................... 46 11. A TEOLOGIA EVOLUCIONISTA ............................................................................................................. 46 12. O que foi publicado na revista isto é.................................................................................................. 47 Parte 09: Teologia relacional- Um novo “deus” no mercado......................................................................... 47 1. Introdução ................................................................................................................................................ 47 2. Seus pontos principais podem ser resumidos desta forma: ................................................................. 48 3. A teologia relacional traz um forte apelo a alguns evangélicos, pois diz que Deus está mais próximo de nós e se relaciona mais significativamente conosco do que tem sido apresentado pela teologia tradicional. ......................................................................................................................................................... 49 Parte 10: A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE- UMA RESPOSTA À TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO? ..................... 51 1. Introdução ................................................................................................................................................ 51 2. A base doutrinária .................................................................................................................................... 52 3. UMA TEOLOGIA DE RICOS PARA OS POBRES: O CASO DA IURD........................................................... 54 4. A VISÃO BÍBLICA E TEOLÓGICA................................................................................................................ 60 5. Considerações finais ................................................................................................................................ 64 6. Informações sobre o professor ............................................................................................................... 64
  • 4. Pag. 4 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Parte 01: TEOLOGIAS PRÉ CONTEMPORÂNEAS 1. Influências da teologia Contemporânea A atual teologia contemporânea recebeu a influência de inúmeras manifestações teológicas e filosóficas do passado. Para uma melhor compreensão da Teologia Contemporânea é imprescindível conhecer as principais correntes ou tendências teológicas, desde os dias apostólicos que a influenciam:  A Teologia Bíblica: procura conhecer a Deus, seus atributos e sua vontade, através de uma reflexão a respeito dos temas presentes tanto no Antigo como no Novo Testamento, considerados como infalível Palavra de Deus  A Teologia Católica: por sua vez, que corresponde às teologias moral (orienta o comportamento humano em relação aos princípios religiosos), dogmática (estuda os elementos da fé, ou seja, as doutrinas), bíblica (estuda o caráter de Deus, seus atributos e sua vontade a nosso respeito, com base na Bíblia) e patrística (estuda a religião de acordo com a interpretação dos pais da Igreja, da tradição e do magistério);  A Teologia Protestante enfatiza o retorno às origens e à reinterpretação das Escrituras, tendo Cristo como única perspectiva. Seus temas principais são: somente a Escritura, somente Cristo, somente a fé, somente a graça;  A Teologia Natural ou Teodicéia, busca o conhecimento de Deus baseando-se na razão humana;  A Teologia Especulativa tem por fundamento o estudo sintético dos textos sagrados, apoiado nos conhecimentos filosóficos do homem. Nesta categoria pode ser classificada a teologia tomística, de Aquino. A Teologia Contemporânea origina-se diretamente do método especulativo, e desde a Reforma Protestante tem tomado várias direções, conforme as designações recebidas: Teologia modernista, teologia neomodernista, teologia da esperança, teologia do evangelho social, teologia do cristianismo sem religião, teologia da morte de Deus etc, conforme veremos no decorrer desse estudo;  A Teologia Mística fundamenta-se na experiência religiosa que permite ao iniciado supor-se imediatamente relacionado com a divindade, sendo sinais dessa união as visões, os êxtases, as profecias e os estigmas. Características da teologia mística: o A teologia mística não tem caráter reflexivo. o Não da prioridade ao uso da razão. o Evidência as experiências .
  • 5. Pag. 5 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com o Da maior importância a sentimentos, emoções, do que ao uso do intelecto. 2. MÍSTICA E TOMÍSTICA A filosofia grega ameaçou toda a estrutura do Cristianismo, tentando helenizar as doutrinas apostólicas, ou seja, contextualizá-las à luz da cultura grega. As doutrinas passaram a ser examinadas a luz da razão e da lógica. A influência da teologia filosófica de Tomas de Aquino: Com Tomás de Aquino, no século XII, ressurge a teologia especulativa, mas com outras vestes. Esse famoso doutor do catolicismo procurou explicar racionalmente os dogmas cristãos, e acabou invertendo o princípio bíblico de que "pela fé entendemos", ao afirmar que o conhecimento conduz à fé. É o pai não apenas da teologia tomística, mas também da filosofia tomística, como já vimos. 3. A influência da reforma e contra reforma Com o advento da Reforma Religiosa no século XVI, a tradição católica foi desafiada pelos reformadores. Os reformadores apegaram-se às Escrituras Sagradas e trouxeram à lume os grandes fundamentos da fé cristã, como: a autoridade suprema da Bíblia, a justificação pela fé, o verdadeiro significado dos sacramentos, o sacerdócio universal dos crentes, etc. As divisas protestantes tornaram-se célebres: Solus Cristus, Sola Scriptura, Sola fide, Sola gratia. 4. A reação católica a reforma A Igreja Católica, ao ver-se ameaçada, organizou a sua contra reforma principalmente através da convocação do concilio de Trento, que se reuniu durante 18 anos, de 1545 a 1563. O que acontece neste concílio? Nesse célebre concilio ficaram confirmados pela Igreja Católica todos os dogmas anteriormente aceitos. A tradição foi considerada de valor igual ao da Bíblia, e ainda juntaram-se ao cânon do Antigo Testamento os livros e aditamentos apócrifos.
  • 6. Pag. 6 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 5. Galileu e a inquisição Acusado de perjúria e heresia pelos clericalistas, o grande físico, já com 70 anos, foi citado a comparecer perante o Tribunal da Inquisição, em Roma. Na manhã do dia 22 de junho de 1633, ajoelhado ante seus inimigos, Galileu, para salvar a vida, abjura seus "erros e heresias" e "renega" todas as suas sensacionais descobertas. O decreto do Papa urbano VIII diante das novas descobertas científicas Foi nos dias de Galileu, quando mais se digladiavam teólogos que pretendiam ser cientistas e cientistas que pretendiam ser teólogos, que o papa Urbano VIII, pontífice de 1632 a 1644, assinou o seu infalível (!!!) decreto: "Em nome e pela autoridade de Jesus Cristo, cuja plenitude reside em Seu vigário, o Papa, declaramos que a afirmação de que a terra não é o centro do mundo e de que ela se desloca com um movimento diurno é coisa absurda, filosoficamente falsa; e errônea, quanto à fé". Constatamos uma clara incapacidade da teologia católica de acompanhar e explicar os inúmeros avanços científicos que estavam acontecendo naquele período. 6. A Bíblia foi a grande vítima de todos os confrontos entre a Igreja e as novas idéias A posição medievalista da Igreja Católica nos primeiros séculos da Idade Moderna, em relação ao desenvolvimento da cultura, trouxe males sem conta a ela mesma, Porque à medida em que a ciência começou a provar os "absurdos" condenados pela religião, esta começou a ser contestada por eminentes escritores, secularistas e irreverentes, a cujos olhos o romanismo não passava de um mal social e um entrave ao progresso dos povos. 7. A atuação nociva do liberalismo teológico neste período O que o liberalismo teológico não é? O liberalismo teológico não é uma religião ou uma organização ideológica possuidora de templos, funcionários ou sociedades. O que o liberalismo é? Ele é, simplesmente, uma tendência de ajustar o Cristianismo aos conceitos da *Alta Crítica da Bíblia, da ciência e das filosofias modernas. Esta tendência apresenta-se hoje sob diversos outros títulos, como modernismo, racionalismo, nova teologia, etc.
  • 7. Pag. 7 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 8. O que é alta crítica? Em exegese, Alta crítica é o nome dado aos estudos críticos da Bíblia. Sua abordagem trata a Bíblia como literatura, utilizando-se do aparato crítico normalmente aplicado a textos literários semelhantes. Caracteriza-se, de uma forma geral, por não partir do dogma da inerrância bíblica para efetuar suas análises. Em contraste com a Baixa crítica, seu foco está no estudo dos autores dos textos bíblicos, seu processo de formação editorial, sua transmissão histórica e o contexto de formação, denominado Sitz im Leben. Exemplo de atuação da alta Crítica Os fundamentos históricos dessa tendência remontam, de acordo com a maioria dos autores, ao ano de 1753, quando Jean Astruc (1684-1766), francês incrédulo e professor de medicina em Paris, publicou anonimamente, em Bruxelas, em francês, o livro Conjecturas Sobre as Memórias Originais que Parece Terem Sido Usadas por Moisés na Composição do Gênesis. Nesse livro Astruc, que foi médico do rei da Polônia e de Luís XV, da França, duvida da origem mosaica dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento e aventa a hipótese de existirem duas fontes literárias — Jeovista e Eloísta — partindo-se dos nomes usados para se referirem a Deus. Antes dessa data, muito raramente alguém ousava criticar assim a Palavra de Deus, lançando dúvidas sobre a sua historicidade tradicionalmente aceita. Os mesmos métodos de desintegração aplicados ao Antigo Testamento foram também aplicados, de maneira violenta, ao Novo, lançando descrédito sobre o seu valor histórico e resultando, em alguns casos, no completo desaparecimento da pessoa divina de Jesus Cristo, para instalar em seu lugar apenas um profeta destituído de todos os seus atributos sobrenaturais. O nascimento da teologia liberal Do emaranhado dessas teorias nasceu o movimento liberalista, hoje presente nas artes, na música, nos costumes sociais e, como vimos, na própria Teologia. É ele o principal responsável pelo relaxamento dos padrões éticos, em virtude da sua atitude irreverente em relação à Divindade e das dúvidas acerca da inspiração das Escrituras, que lança nos corações.
  • 8. Pag. 8 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Sem a poderosa influência moralizadora da Palavra de Deus, os homens se embrutecem, como descreve o apóstolo Paulo no capítulo 2 da sua Carta aos Romanos. Em 1780, o hebraísta alemão Eichrodt aceitou a hipótese de Astruc e afirmou que os referidos documentos tinham características, estilos e expressões distintas um do outro. Igen, em 1798, também alemão, julgou ter descoberto, dentro do documento Eloísta do Gênesis, diversas características de estilo e expressões. Por isso foi ele considerado o descobridor do segundo documento Eloísta. Na Escócia, o padre católico romano, Alexander Gaddas, anunciou ter encontrado no Pentateuco diversos documentos (1798-1800). Parte 02: O LIBERALISMO TEOLOGICO I. NOMES PRINCIPAIS Vejamos agora alguns nomes implicados no liberalismo teológico, responsáveis pelos novos rumos tomados pelo protestantismo: A. Friedrich Schleiermacher (1768-1834) 1. Teólogo e filósofo alemão, embora anti-racionalista, ensinou que não há religiões falsas e verdadeiras. Todas elas, com maior ou menor grau de eficiência, têm por objetivo ligar o homem finito com o Deus infinito, sendo o cristianismo a melhor delas. 2. Ao harmonizar as concepções protestantes com as convicções de burguesia culta e liberal, Schleiermacher foi considerado radical pelos ortodoxos, e visionário pelos racionalistas. Na verdade, o seu pensamento filosófico-teológico, embora considerado liberal, está mais perto do transcendentalismo de Karl Barth. B. Johann David Michalis (1717-1791) 1. Teólogo protestante alemão, foi o primeiro a abandonar o conceito da inspiração literal das Escrituras Sagradas. C. Adoff Von Harnack (1851-1930)
  • 9. Pag. 9 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 1. Teólogo protestante alemão, defende em sua obra principal História dos Dogmas: a evolução dos dogmas do cristianismo pela helenização progressiva da fé cristã primitiva. Em outra obra, A essência do cristianismo, reduziu a religião cristã a uma espécie de confiança em Deus, sem dogma algum e sem cristologia. D. Albrecht Ritschl (1822-1889) 1. Ritschl ressaltou o conteúdo ético da teologia cristã e afirmou que esta deve basear- se principalmente na apreciação da vida interior de Cristo. E. David Friedrich Strauss (1808-1874) 1. Foi o teólogo alemão que maior influência exerceu no século XIX sobre os não- teólogos e não-eclesiásticos. Tornou-se professor da Universidade de Tubingen com apenas 24 anos. Quatro anos mais tarde, em 1836, foi furiosamente afastado do cargo em virtude de sua obra, denominada Vida de Jesus, criticamente estudada. 2. No ano de 1841 lançou, em dois volumes, sua Fé Crista - Seu Desenvolvimento Histórico e seu Conflito com a Ciência Moderna. Nesta obra está negando completamente a Bíblia, a Igreja e a Dogmática. Em 1864 publicou uma segunda Vida de Jesus, quando procurou então distinguir o Jesus histórico do Cristo ideal segundo a maneira típica dos liberais do século XIX. Em sua A Antiga e a Nova Fé, publicada em 1872, adota a evolução darwiniana em contraste com a fé bíblica. 3. Para Strauss, Jesus é mero homem. Insiste em que é necessário escolher entre uma observação imparcial e o Cristo da fé. Ensinou que é preciso julgar o que os Evangelhos dizem de Jesus pela lei lógica, histórica e filosófica, que governa todos os eventos em todos os tempos. Não achou e não procurou um âmago histórico, mas interessou-se apenas em mostrar a presença e a origem do mito nos evangelhos. 4. Seu conceito do mundo é o de matérias subindo para formas cada vez mais altas. À pergunta: "Como ordenamos nossas vidas?" - responde: autodeterminação, seguindo a espécie. 5. Nas obras de Strauss não há lugar para o sobrenatural. Os milagres são mitos, contados para confirmar o papel necessário de Jesus, daí as referências ao Velho Testamento. Em resumo, Jesus é uma figura histórica. Da vida de Jesus nada sabemos, sendo tudo mito e lenda. 6. Considerado o mais erudito entre os biógrafos infiéis de Jesus, Strauss encerra o último capítulo da sua segunda Vida de Jesus com estas palavras: "...aparentemente
  • 10. Pag. 10 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com aniquilaram a maior e mais importante parte daquilo que o cristão se acostumou a crer concernente a Jesus; desarraigaram todos os encorajamentos que ele tem tirado de sua fé e privaram-no de todas as suas consolações. Parece que se acham irremediavelmente solapados os inesgotáveis depósitos de verdade e vida que por dezoito séculos têm sido o alimento da humanidade; o mais sublime atirado ao pó, Deus despido de sua graça, o homem despojado de sua dignidade, e o laço entre o céu e a terra rompido. Recua a piedade em horror diante de um ato tão temeroso de profanação, e, forte como é na impregnável evidência própria de sua fé, ousadamente conclui que - não importa se um criticismo audaz tentar o que lhe aprouver tudo o que as Escrituras declaram e a Igreja crê acerca de Cristo subsistirá como verdade eterna; nem sequer um jota ou um til será removido." 7. Philip Schaff comenta que Strauss professa admitir a verdade abstrata da cristologia ortodoxa, "a união do divino e humano , mas perverte-a, emprestando-lhe um sentido puramente intelectual, ou panteísta. Ele nega atributos e honras divinas à gloriosa Cabeça da raça, mas aplica os mesmos atributos a uma humanidade acéfala. Destarte, ele substitui, partindo de preconceitos panteístas, uma viva realidade por uma abstração metafísica; um fato histórico por uma mera noção; a vitória moral sobre o pecado e a morte por um mero passo na filosofia e em artes mecânicas; o culto do único vivo e verdadeiro Deus por um culto panteísta de heróis, ou própria adoração de uma raça decaída; o pão nutriente por uma pedra; o Evangelho de esperança e vida eterna por um evangelho de desespero e de final aniquilamento." F. Sorem Kierkegaard (1813-1855) 1. Teólogo e filósofo dinamarquês. Filho de um homem rico torturado por dúvidas religiosas e sentimentos de culpa, Kierkegaard adquiriu complexos de natureza psicopatológica e possíveis deficiências somáticas. Estudou teologia na universidade de Copenhague, licenciando-se em 1841. 2. Atacou a filosofia de Hegel e afastou-se mais e mais da Igreja Luterana, por julgá-la muito pouco cristã. Para o teólogo dinamarquês, entre as atitudes (fases) estética, ética e religiosa da vida, não há mediação, como na dialética de Hegel, e não há entre elas transição, no sentido de evolução. Para chegar da fase estética à fase ética ou desta à religiosa é preciso dar um salto (ser iluminado, converter-se instantaneamente) que transforme inteiramente a vida da pessoa. 3. Para Kierkegaard, só o cristianismo é capaz de vencer heroicamente o mundo, sendo o panteísmo cultural de Hegel impotente contra a consciência do pecado e contra o medo e temor. Criticou o hegelianismo em sua acomodação ao mundo profano, por não ser capaz de eliminar a angústia e admitir a existência de contradições irresolúveis entre o cristianismo e o mundo, cabendo ao homem escolher existencialmente entre esta e aquela alternativa: ser cristão ou ser não-cristão.
  • 11. Pag. 11 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 4. São profundos os conceitos de Kierkegaard sobre os estágios da vida, a diferença entre ser e existir, o subjetivo e o objetivo, o desespero, os critérios positivos para a verdadeira existência, etc. Eis alguns deles: a. No estágio estético, o homem leva uma existência imediata e não refletiva, faltando a diferenciação entre ele e o seu mundo; No estágio ético, o homem assume a responsabilidade pelo seu próprio ser, procura alcançar-se a si - o que não pode fazer; No estágio religioso, reconhece a impossibilidade de viver conforme gostaria e descobre que o pecado é não ser o que Deus deseja que seja, e que só se alcança este estado proposto por Deus através de algo que vem de fora - o próprio Deus; b. o tempo (e espaço) trata do que o homem é, da sua existência; a eternidade significa que, embora o homem viva no tempo e no espaço, ele não está totalmente determinado por estes elementos; a existência fala de liberdade, possibilidade, do ideal, da obrigação; o momento de decisão é quando a eternidade intercepta o tempo; c. o objetivo cultural é aquilo que é, enquanto o homem fica entre o que é e o que ele pode e deve ser. A ciência limita-se ao estudo do que é, ao que ela chama "a verdade"; mas os fatos claramente aceitos jamais encerram a verdade; d. a essência do ser humano aparece quando traz a eternidade para dentro do tempo. Cada homem há de sofrer porque vive numa realidade muito física: liberdade versus tempo; e. o único que realmente resolveu o paradoxo do tempo e da eternidade foi Jesus Cristo. Ele mesmo foi um paradoxo: Deus e homem; limitado e ilimitado; ignorante e conhecedor de tudo. 5. S. Kierkegaard, redescoberto na Alemanha por volta de 1910, é considerado o precursor da teologia transcendental, de que Karl Barth, no século XX, é o principal representante. II. EXAME CRÍTICO A. Principais Doutrinas Liberais 1. Foi a partir de meados do século XIX, como conseqüência da grande vitalidade intelectual e reorientação do pensamento, que nasceu a teologia liberal. Foi esta uma época de renascimento religioso em geral e, em particular, de expansão do protestantismo, institucional e geográfica mente, caracterizada pelas missões e surgimento das sociedades bíblicas.
  • 12. Pag. 12 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 2. O liberalismo teológico, em sua essência, procura libertar as consciências cristãs das suas amarras escolásticas, apontando-lhes as exigências da razão. Realça a pessoa de Deus como a fonte de toda a verdade e enfatiza a necessidade de uma certeza sincera na busca da verdade, embora reconheça a impossibilidade do ser humano alcançar um conhecimento pleno da verdade absoluta. 3. A maioria dos teólogos da atualidade considera hoje insustentável essa premissa liberalista de que o espírito humano não possa mover-se em regiões para além do alcance dos sentidos, além do raciocínio meramente racional. Para Platão, o intelecto tem idéias supersensíveis, inexplicáveis à luz da razão, sendo que é neste reino que residem os característicos principais e distintivos da alma humana. Modernamente, é cada vez maior o número dos que conhecem uma área essencialmente metafísica, portanto fora do alcance dos meios físicos, na qual o espírito obedece às leis de sua própria natureza. 4. Segundo os teólogos liberais, o protestantismo precisa "incorporar à sua teologia os valores básicos, as aspirações e as atitudes características da cultura moderna, ressaltando, dentre outros, o imperativo ético do Evangelho." (Enciclopédia Mirador). Dessa pregação nasceu o evangelho social, onde a mensagem de Cristo deixa de ser o poder de Deus para a salvação e regeneração do homem, para tornar-se apenas uma fórmula social, impotente. "A Igreja transcende os métodos e as fórmulas humanas. Ela produz aquela vida plena de riqueza, que é o espírito livre e nobre em ação; pensa os melhores pensamentos; aceita os mais elevados ideais e os reveste de uma linguagem irresistível. Assim ela infunde um poder criador na sociedade de espíritos humanos... Não há fórmula suficiente boa para tornar boa uma sociedade, se não for executada por homens bons. O cristianismo não elabora fórmulas, mas cria os homens capazes de insuflar força moral em qualquer fórmula" (Lynn Harold Hough). 5. O movimento liberalista não reivindicou apenas amplas liberdades para o exercício da razão, mas pregou a tolerância entre as denominações protestantes, aproximando-as, através da minimização das diferenças doutrinárias. 6. O ressurgimento da intolerância religiosa no seio do catolicismo romano, nas primeiras décadas do século passado, o que resultou na prisão e morte de protestantes em diversos países, especialmente na Estônia, Lituânia, Letônia, Turquia, Pérsia, Portugual e Espanha, contribuiu também para aproximar entre si as denominações evangélicas. A organização, em 1846, da Aliança Mundial Evangélica, em Londres, foi uma resposta ao estado de insegurança em que se achavam várias correntes do protestantismo. Essa Aliança muito fez pela liberdade de culto em todo o mundo. 7. Mas o espírito liberal reclama ainda respeito pela ciência e pelos métodos científicos de pesquisas, o que implica na aceitação franca do estudo, tanto do mundo material como da crítica bíblica e da história da Igreja. Foi, valendo-se desse estado de
  • 13. Pag. 13 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com espírito favorável, que Darwin publicou a sua célebre obra As Origens das Espécies através de meios de seleção natural,em 24 de novembro de 1859, que provocou violentas e intermináveis polêmicas. 8. O liberalismo teológico aceita também o princípio da continuidade, ou seja, considera mais importantes as semelhanças do que os contrastes, admitindo-se a idéia da evolução para superar os abismos existentes entre o natural e espiritual, entre o homem e seu Criador, enfatizando mais a imanência do que a transcendência de Deus; o liberalismo prega ainda a confiança do homem no futuro, gerada pelas grandes conquistas em todos os campos da ciência. 9. Não há dúvida de que o sonho liberalista do século passado mostra a cada dia mais impossibilidade de materializar-se. A teoria da evolução está hoje negada pelos principais cientistas, e as conquistas da ciência moderna têm trazido, ao lado do seu inegável progresso, resultados catastróficos. A confiança do homem no futuro desvanece-se hoje à luz dos fatos atuais e a exemplo de amargas experiências recentes. Quanto à imanência de Deus, sugere esta ênfase que a Divindade está identificada com a totalidade das existências, afirmando, panteisticamente, que tudo é Deus e Deus é o tudo. Elimina-se, destarte, toda a concepção da personalidade divina e, em conseqüência, considera-se o homem um irresponsável. Quando se nega o conceito de Deus, como o Criador onipotente que está acima de todas as coisas que criou, corre-se o risco de cair no fatalismo, característico dos cultos orientais e, infelizmente, em expansão no Ocidente. Sinais da presença do fatalismo em nossos dias são os horóscopos, o fetichismo e até mesmo os biorrítmos, rejeitados como anticientíficos por grande número de médicos renomados. 10. Ainda em relação à ênfase dada pelo liberalismo à imanência de Deus em tudo, há uma implicação séria, quando se trata do problema do pecado. Despersonalizando a divindade, é o homem colocado no centro de tudo, como a medida de tudo. Isso significa que o fim do homem é estar satisfeito consigo mesmo, com seus horizontes etc. O Dr. John A. Mackay afirma que o pecado, como fator na existência humana, é terrivelmente real, e é coisa que os filósofos balconizados sempre trataram de fazer desaparecer por meio de argumentos arrazoados. Com a expressão balconizados fazia ele referência a Aristóteles e Renan, como símbolos daqueles para quem "a vida e o universo são objetos permanentes de estudo e contemplação". (') B. Outras Doutrinas Liberais 1. Os credos primitivos são arcaicos e sem realidade para o mundo moderno. 2. A mente do homem é capaz de raciocinar segundo os pensamentos de Deus. 3. A mente deve estar aberta à verdade independentemente da fonte.
  • 14. Pag. 14 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 4. As doutrinas cristãs são símbolos de verdades racionais conhecidas pela razão humana. 5. A divindade de Jesus era uma declaração simbólica do fato de que todos os homens possuem um aspecto divino. 6. 0 conceito bíblico da revelação de Deus na história era ingênuo e pré-filosófico. 7. Os itens "4', "5" e "6" do parágrafo anterior sofreram influência do idealismo absoluto de Hegel e Letze. Os demais itens justificam plenamente alguns dos títulos do liberalismo: modernismo e racionalismo. 8. Como vimos, para o liberalismo Deus está presente em todas as fases da vida e não apenas em alguns eventos espetaculares. Assim, o método de Deus é o caminho da mudança progressiva e da lei natural, e o nascimento virginal de Cristo não condiz com a realidade, pois Deus está presente em todos os nascimentos. 9. Defendendo assim a imanência de Deus, o liberalismo podia aceitar a teoria da evolução, não negando a Deus, todavia, um ato criador, ou seja: Ele teria criado a primeira célula viva, da qual vieram todos os seres viventes, inclusive o homem. 10. O liberalismo reage contra um evangelho individualista, capaz de salvar o homem do inferno e não da sociedade corrompida, e insiste em que o reino de Deus não é além-túmulo e nem milênio, mas sim a sociedade ideal edificada pelo homem com o auxílio de Deus. 11. Na busca duma "sociedade ideal" muitos teólogos se têm inclinado para uma espécie de socialismo cristão, envolvendo-se em movimentos subversivos por acreditarem que as doutrinas de Marx e Engels, se destituídas de seu ateísmo, estariam em melhores condições de atender aos reclamos dos povos pela justiça social de que a própria mensagem evangélica. C. Sua atuação no Brasil 1. A entrada do liberalismo no Brasil remonta ao segundo decênio deste século, quando a Imprensa Metodista editou Pontos Principais da Fé Cristã, livro que nega a doutrina da expiação. Depois surgiram inúmeras obras modernistas, inclusive Religião Cristã, traduzida do italiano pelos reverendos, Dr. Alexandre Orechia e Matatias Gomes dos Santos. 2. As primeiras vítimas da teologia liberal em nossa pátria, segundo o falecido reverendo Raphael Camacho, apareceram por volta de 1930, na Faculdade Evangélica de Teologia, no Rio de Janeiro. Muitos livros adotados nesse estabelecimento de ensino religioso eram modernistas, como também o eram quase todos os seus professores.
  • 15. Pag. 15 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 3. Segundo Raphael Camacho, o rev. Othoniel Motta, professor de Geografia Bíblica, costumava dizer em classe: "Eu sou o pai dos hereges... Eu oro pelos mortos." O rev. Epaminondas do Amaral, professor de exegese do Velho Testa mento, negava tudo o que há de sobrenatural na Bíblia. O rev. Bertolaze Stela escreveu no "Estandarte", em 11/9/41, que todos os manuscritos da Bíblia foram contaminados por grandes mo dificações, e que não há esperança de se encontrar entre eles um texto que esteja próximo dos originais. Em "O Estandarte" de 15/9/53, este mesmo ministro escreveu: "Somente as palavras de Jesus constituem os ensinos e a religião de Cristo... a Bíblia contém a palavra de Deus." e fez suas as palavras do rev. Miguel Rizzo Jr., em A Nossa Mística: "Para uns a suprema autoridade está na Igreja (Católica Romana); para outros, nos espíritos do além (espíritas); para outros nas Escrituras (evangélicos), mas para nós está em Cristo." Eis aqui a heresia chamada cristicismo, que desassocia Cristo da Bíblia e afirma que somente as palavras ditas por Cristo é que são inspiradas. 4. Em 1938 os modernistas se manifestaram mais publicamente, de modo especial no seio da Igreja Presbiteriana Independente, sendo então resistidos pelos fundamentalistas, liderados pelo rev. Camacho. Travou-se acirrada luta doutrinária, luta que levou o rev. Camacho a desligar-se dessa Igreja e a organizar, em 11 de fevereiro de 1940, a Igreja Presbiteriana Conservadora. 5. Também o ex-padre Humberto Rohden, escritor, conferencista e autor de uma tradução do Novo Testamento em português, no seu livro Pelo Prestígio da Bíblia na Era Atômica, faz uma dura arremetida contra o evangelismo bíblico do Brasil e uma exposição das teorias modernistas do pastor batista norte-americano, Harry E. Fosdick.
  • 16. Pag. 16 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Parte 03: NOVO MODERNISMO 9. Karl Barth - UM NOVO ORTODOXISMO? Esta teologia é comumente conhecida por barthianismo, por ter como seu principal autor Karl Barth (1886-1968), considerado o maior teólogo do século XX. Este sistema possui ainda vários outros nomes: teologia dogmática, teologia da crise, neo-ortodoxia, teologia transcendental, modernismo-negativista e teologia de Lund. Alguns dados sobre Karl Barth Karl Barth nasceu na Suíça, lecionou teologia nas universidades de Gottingen, Munique e Bonn, mas foi demitido deste último posto pelo governo hitlerista, em 1935. E, por resistir às tentativas do ditador de nazificar a Igreja Reformada da Alemanha, teve seus diplomas de teologia anulados. Com a derrota do nazi-fascismo, recupera sua cátedra em Bonn, de onde mais tarde se transfere para Basiléia. Aposentou-se em 1961 e iniciou a elaboração da sua teologia. O pragmatismo e a teologia dialética de Karl Barth Barth abandonou o terreno firme da lógica e ingressou no mundo fabuloso do pragmatismo, doutrina que considera a ação superior ao pensamento e aceita o valor prático como critério da verdade. Hegel passou a aceitar que a presença da verdade está na verdade na síntese, que corresponde ao grau intermediário entre a tese e a antítese. Barth, ao aplicar esta fórmula ao cristianismo histórico, considerou-o como a tese, o modernismo como a antítese e o novo modernismo como a síntese. Dentro de um esquema teológico dialético coexistem pacificamente doutrinas antagônicas: o certo e o errado, a verdade e a mentira. Daí a teologia de Barth ser também denominada de teologia dialética ou da crise. Violando dessa maneira as regras pelas quais se estabelece se uma tese é verdadeira ou não, o barthianismo acabou negando o caráter absoluto da verdade. A teologia de Karl Barth manteve alguns pontos de vista ortodoxos Não se pode deixar de reconhecer que, sob vários aspectos, a teologia de Barth foi um retorno, embora aparentemente, às várias doutrinas bíblicas desprezadas pelo liberalismo, como a Trindade, o nascimento virginal de Cristo, as duas naturezas de
  • 17. Pag. 17 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Cristo unidas numa só pessoa, conforme aceita pelo Concilio de Calcedônia (ano 451) e pela Reforma Protestante, a salvação somente pela graça e a justificação unicamente pela fé. Em virtude destes pontos de vista, foi o barthianismo chamado também de neomodernismo e neo-ortodoxia. A respeito da pessoa de Jesus, é interessante ler o que Barth escreveu em 1960, em um tempo de revisão da sua própria teologia: “Nesses anos tive que aprender que a doutrina cristã precisa ser exclusivamente e de forma conseqüente, em todos os seus enunciados, direta ou indiretamente, doutrina de Jesus Cristo como da palavra viva de Deus dita a nós, se é que ela deve fazer jus ao nome que tem bem como edificar a igreja cristã no mundo tal qual ela pretende ser edificada como igreja cristã. Olhando em retrospecto para os meus estágios anteriores, fico me perguntando como foi possível que não aprendi nem disse isso já muito antes. Quão lenta é a pessoa humana, justamente quando se trata das coisas mais importantes!” Portanto, observamos que na teologia de Karl Barth, procurou-se preservar a cristologia. ALGUMAS FALHAS DA TEOLOGIA DE BARTH  Mas a teologia de Barth possui falhas seríssimas: a Bíblia não é a Palavra de Deus, apenas a contém. Por isso pode ela ser criticada à vontade.  Estabelece um falso contraste entre a autoridade espiritual da Igreja, por ele aceita, e a sua autoridade legal, que rejeita. Assim, deixou a porta aberta à discussão acerca de doutrinas.  Segundo esta teologia transcendental, o mundo está cheio de contradições, inclusive na religião. Por isso os seguidores desta escola admitem sistemas que se excluem mutuamente.  Um dos seus líderes declarou: Em face do modernismo e da fé histórica, não se deve dizer um ou outro, mas um e outro. Isto eqüivale a aceitar a doutrina de que Jesus é o único mediador entre Deus e o homem e ao mesmo tempo admitir a mediação de Maria. Um transcendentalista, portanto, assemelha-se a um balconista que vende exatamente o produto que o freguês deseja, seja este freguês cristão histórico ou liberal.
  • 18. Pag. 18 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com O desabafo de Francis A. Schaeffer Francis A. Schaeffer narra o desabafo de um ateu sueco, Dr. Hedeinus, professor de Filosofia da Universidade de Uppsala, que chamou os teólogos transcendentalistas de "ateus, disfarçados em bispos e pastores: “Se tal é o cristianismo, não o quero; os seus conceitos não são nem claramente definidos, nem mesmo definíveis; a posição dos seus defensores é mais vacilante do que a minha." 10. Emil Brunner - Cristo Absoluto ou relativo? Emil Brunner (1889-1966). Teólogo suíço; exerceu grande influência no protestantismo dos Estados Unidos, país onde proferiu diversas preleções. Suas obras foram traduzidas para o inglês antes mesmo que as de Barth. Sintese do pensamento teológico de Brunner  A teologia de Brunner, também conhecida por "dialética" e "da crise", descreve a busca da verdade por meio de debates entre as posições contrárias.  Brunner acha que há alguma revelação fora da Bíblia, embora não acredite que a teologia natural inclua a teologia revelada, discordando nesse ponto do liberalismo de Barth.  Entende que a Bíblia é o único critério pelo qual podemos julgar a verdade e a suficiência do conhecimento acerca de Deus, que se encontra em outros lugares.  Diferentemente de Barth, Brunner admite que se pode achar verdade no filósofo, no ateu ou no adepto de seitas não cristãs, assim estabelecendo diálogo com eles, mas reconhecendo que eles não podem possuir suficiente e completo conhecimento verdadeiro de Deus. A teologia Brunniana e Jesus  Na teologia brunniana, o dogma de Jesus sem pecado é ato de fé e não base de fé. "Cremos que ele é sem pecado por crermos nele. Não é que cremos nele por causa de Ele ser sem pecado."  Brunner nega, além de outros, o nascimento virginal de Cristo, os 40 dias pós- ressurreição, e a ascensão física do Senhor.  As questões acima apresentam implicações seríssimas: ao admitir que Jesus Cristo pode ser conhecido historicamente, Brunner faz perder tudo.  Na teologia de Brunner, A relação do homem com Deus não pode ser expressa em termos racionais e lógicos, mas apenas em termos de mitos;  Qualquer tentativa para provar a revelação está errada;
  • 19. Pag. 19 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com  Acerca do pecado, nega a herança de culpa de Adão, aceitando apenas a queda individual;  O cristão deve ser um eterno revolucionário, não se conformando com as reformas sociais, sempre imperfeitas;  O amor de Cristo revela o amor humano, que é possibilidade impossível;  A queda não modificou a natureza e estrutura essenciais do homem, assim como a cegueira não retira o olho do corpo;  No momento em que a pessoa se transcende, surge a memória da perfeição original. Parte 04:NOVAS CORRENTES TEOLÓGICAS 11. A TEOLOGIA DO MITO A teologia do mito tem como um de seus principais criadores o teólogo alemão Rudolf Bultmann (1884-1976), que em 1941, numa conferência intitulada "O Novo Testamento e a Mitologia", disse que esta parte das Escrituras está cheia de mitos à luz dos quais se deveriam examinar a pessoa de Cristo e o comportamento da igreja apostólica. A visão do Buultimann dos escritores do NT Para Bultmann, todos os escritores do Novo Testamento pensavam e escreviam tendo em vista uma visão global do mundo antigo, no qual havia três divisões: a superior ou invisível, habitada pelos anjos, o mundo sobrenatural de Deus; o mundo inferior, escuro, habitado pelos demônios; e o nosso mundo, que fica entre os outros dois. Segue-se, portanto, que a revelação vem em símbolos que devem ser decodificados. Para usar o termo de Bultmann, devem ser desmitologizados. Numa de suas conferências, afirmou Bultmann que hoje "não se pode utilizar a luz elétrica e os aparelhos de rádio, apelar para medicamentos e clínicas modernas quando se está enfermo, e ao mesmo tempo crer nos milagres do Novo Testamento.“ De acordo com essa visão, pode-se crer em Jesus Cristo e aceitá-lo como Deus e Salvador sem a necessidade de acreditar no nascimento virginal, na encarnação, no túmulo vazio, na ressurreição e na segunda vinda. Todos estes elementos seriam derivados da mitologia judaica e do gnosticismo helenístico. Segundo Bultmann, a desmitificação dos evangelhos não significa a eliminação do mito, como procurou fazer a teologia liberal, mas a sua interpretação através de uma
  • 20. Pag. 20 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com hermenêutica particular, sendo eles necessários por oferecerem ao homem condições de perceber o enigmatismo do mundo. Assim, através da sua reinterpretação, o mito seria utilizado como instrumento auxiliar na compreensão da existência humana. O que é a desmitologização que Bultman propõe? Em seu questionamento sobre as escrituras, há a necessidade de extrair todo o elemento mitológico, que segundo ele, encobre o entendimento das sagradas escrituras para o homem moderno. Vê na demitologização, um instrumental importante para a atualização da mensagem bíblica tornado-a compatível com o mundo tecnológico e cientifico que vivemos hoje. O homem/mulher moderno, embora seja um ser que viva em uma sociedade de muitos símbolos e sinais, precisa decodificar o significado desta vasta simbologia. Carece de um tradutor ,ou seja, necessita de uma ferramenta que atualize a linguagem mitológica das Sagradas Escrituras, vigentes à época, para o código de linguagem e a cultura dos nossos dias. Segundo Bultiman, o uso do processo da demitologização das Escrituras elucida, esclarece e traz nitidez ao leitor, acerca do que realmente a mensagem bíblica quer nos dizer hoje em dia. Pois para o homem/mulher secularizado os elementos mitológicos das escrituras, fruto de uma cultura passada há quase dois mil e quinhentos anos não fazem nenhum sentido. Devem ser extraídos, sem a perda do conteúdo original, pois sem uma decodificação e uma atualização do sentido, a mensagem não nos diz o porquê, ou pior ainda, pode levar a uma interpretação dúbia e incompreensível. A Escritura não explica a si mesma, conforme ensina a hermenêutica da Reforma Protestante, mas está sujeita aos métodos modernos da ciência autônoma e às pressuposições filosóficas; EXAME CRÍTICO DA TEOLOGIA DE BULTIMAN  Bultmann rejeita, por considerá-los mitológicos: 1)Os conceitos neotestamentários de que o reino escatológico está prestes a irromper na história; 2)de que o mundo atual está governado por elementos demoníacos
  • 21. Pag. 21 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 3) e de que o sobrenatural intervém no mundo, manifestando-se através de milagres.  Na sua reinterpretação do evangelho, elimina o sentido original dos termos encontrados no NT e os recria adotando uma nova significação. Ex. Segundo a visão tradicional, o problema do homem é o seu pecado, segundo o Evangelho, e a solução é o sacrifício de Cristo. Para Bultmann, tal problema é a sua finitude.  O uso da filosofia contemporânea para formular a fé cristã pode distorcer o ensino cristão, introduzindo idéias estranhas ao Cristianismo através da reinterpretação da terminologia tradicional, e acomodar a fé cristã à filosofia tradicional;  Ao ensinar que a teologia existencialista é antropocêntrica, concorda com Fenerbach de que a teologia tornou-se antropologia;  Depois do programa de desmificação dos evangelhos, o Jesus que sobra é tão débil que jamais chamaria a atenção de alguém, e muito menos motivaria a sua lealdade. Um Jesus assim insignificante tem sido o tema de peças teatrais profanas e irreverentes, como a "Jesus Cristo Superstar", na qual Judas Iscariotes é o verdadeiro herói e Cristo não passa de uma figura covarde, que duvida a todo momento da sua missão;  Bultmann ignora por completo o papel do Antigo Testamento na formação do Novo, ao considerar este eivado de mitos e influenciado pelo gnosticismo ou helenismo;  A "Sola fide" de Bultmann nada tem de semelhante à de Lutero, que se baseava no testemunho bíblico. 12. A teologia da esperança Enquanto o Barthianismo era antiescatológico, a teologia da esperança procura levar a sério a história e o futuro, reagindo assim ao existencialismo de Barth e Bultmann, que enfatiza o aqui e o agora. Principais representantes desta teologia Três líderes destacados do novo movimento são os teólogos alemães Jürgen Moltmann (Reformado), Wolfhart Pannenberg (Luterano), e Johannes Metz (Católico Romano). A teologia da esperança tem sido articulada nos Estados Unidos por dois teólogos luteranos, Carl Braaten e Robert Jenson, cujas obras muita coisa têm feito para popularizar o novo movimento.
  • 22. Pag. 22 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com No Brasil, Rubem A. Alves, com umas poucas revisões dele mesmo, muita coisa fez para converter a teologia da esperança em programa de ação. Às vezes essa teologia era chamada de futurologia... Porque? Por ser um modo de encarar a teologia e as preocupações teológicas da perspectiva do futuro e não do passado ou do presente. O passado e o presente somente têm valor com referência ao futuro. A realidade ainda não é; está orientada para o futuro. A questão da existência de Deus pode ser respondida somente no futuro, pois Deus está sujeito ao tempo enquanto este se esforça em direção ao futuro. A teologia da esperança é caracterizada...  Como uma reação ao desespero existencialista,  Pela fé no futuro e pelo otimismo,  A esperança baseia-se na promessa divina e o cristão suporta as contradições do presente porque vive na expectativa do futuro.  Não enxergar uma solução para seus dilemas presentes. Assim, a teologia da esperança acha que não podemos encontrar respostas para as nossas questões atuais na sociedade de hoje.  Abrange mais do que geralmente se reconhece tradicionalmente como sendo teologia, falando a rigor. Sua orientação secular permite que seja combinada com qualquer número de matérias, inclusive a política e a biologia.  A teologia da esperança vê um esboço para sua exposição nas temáticas escatológicas. Ela entende a realidade a partir de uma perspectiva escatológica. O movimento também é chamado de teologia futurista.  A teologia da esperança reage contra o subjetismo da neo-ordoxia, visto que sua abrangência vai além do universo pessoal e interior de individuo. Esta teologia se dirige ao mundo como mundo.  A teologia da esperança foi a resposta do público a teorias como a que Deus está morto, idéia que foi criada na década de 60. Os teólogos futuristas deixaram para trás o sepulcro criado para Deus. O humanismo dos teólogos de Deus-está-morto veio a ser a sementeira em que a teologia da esperança deitaria raízes.
  • 23. Pag. 23 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 13. JÜRGEN MOLTMANN – O FUNDADOR DA TEOLOGIA DA ESPERANÇA  Jürgen Moltmann nasceu em 18 de abril de 1926 em Hamburgo.  Iniciou seus estudos de teologia numa situação inusitada. Com dezesseis (1943) foi convocado pelo exército alemão onde teve, segundo ele mesmo, “uma carreira breve e sem glória”.  Após seis meses na guerra, foi feito prisioneiro no campo de concentração de Northon-Camp, na Inglaterra. Ali se encontravam também alguns professores de teologia que ministravam lições aos seus companheiros; dentre eles, Jürgen Moltmann.  Em 1948 retornou para Alemanha onde deu continuidade nos seus estudos na Universidade de Göttingen até 1952. De 1953 a 1958 exerceu atividades pastorais em Bremen.  Suas especialidades foram: História dos Dogmas e Teologia Sistemática, iniciou sua docência em 1958 passando pela Escola Kirchliche Hochschule de Wuppertal, pela Universidade de Bonn, Universidade de Tübingen, Due University - EUA (no caráter de professor visitante). “Depois de Karl Barth, Jürgen Moltmann é considerado o mais conhecido e influente teólogo reformado do século XX” (LEITH, 1997, p.234).
  • 24. Pag. 24 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Parte 05: AS TEOLOGIAS SOCIAIS 1. Na teologia social é ressaltado o conteúdo ético e social da Igreja. Portanto, nas teologias sociais, analisamos as seguintes questões:  Qual é a realidade social na qual está inserida a igreja?  Qual o papel da igreja junto aos problemas encontrados na sociedade?  Como a Igreja pode ser um instrumento de transformação social? 2. É boa a aproximação entre teologia e ciências sociais?  Alguns teólogos, de perfil, fundamentalista, rejeitam por completo tal aproximação,  Na prática, ocorre o contrário, pois qualquer teologia é feita num ambiente cultural e que a influência.  Ao estabelecer um diálogo com as Ciências Sociais, o teólogo cristão terá, por sua vez, de renunciar sua posição cômoda de considerar sua religião um santuário protegido de críticas.  Assim, “...as Ciências Sociais poderiam desempenhar um papel importante de autocompreensão crítica dentro da Teologia”, desde que tenhamos a consciência de que nem tudo pode ser explicado sociologicamente. 3. Grandes nomes do evangelho social  O evangelho social teve como o seu maior intérprete o pastor Batista Walter Rauschembusch (1861-1918), professor no seminário batista de Rochester, de 1897 até o seu falecimento.  Um outro grande nome a lembrar é o do Pastor Martin Luther King, que lutou nos Estados contra o preconceito racial e a injustiça social contra os negros. Ele foi o responsável por disseminar a prática do protesto não violento, semelhantemente a Gandi. o Há uma frase de Martin Luter King: “Eu não me preocupo tanto com as palavras dos desonestos e as atitudes dos corruptos. Eu me preocupo muito mais, quando os bons fazem silêncio.”
  • 25. Pag. 25 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 4. O evangelho social na América do sul  Na América do Sul, esse movimento pode também ser identificado como a "teologia da libertação", com o propósito comum de estabelecer-se a "justiça social", até mesmo por meio de uma revolução.  O sucesso da teologia da libertação na América do sul deve-se aos seguintes fatores: o Grandes índices de desemprego. o Diferenças sociais alarmantes. o Pobreza. o Diferenças Extremas entre classes sociais. o A ausência de uma teologia relevante ao contexto da América latina, que nascesse no berço dos países subdesenvolvidos. 5. Em que momento o evangelho social ganha destaque  A teologia do evangelho social alcançou maior sucesso nos anos seguintes à Primeira Guerra Mundial, pelo fato de se atribuir às injustiças sociais as causas da grande conflagração internacional que ceifou milhões de vidas.  Precisamos entender que no evangelho social, a Igreja é o instrumento de libertação para uma sociedade que está inserida numa estrutura social injusta e corrupta. 6. Os três passos básicos da teologia da libertação de Leonardo Boff  No Brasil, Leonardo Boff, que é um dos principais defensores da TDL, estabelece três passos básicos para a sua TDL: o Ver: Aqui observamos os problemas sociais existentes e nos tornamos conscientes de sua existência. o Pensar: Neste passo, teorizamos teologicamente as questões sociais que serão abordadas pela Igreja na sociedade. o Agir: este é o passo da práxis, da ação, onde os fiéis são convocados para promover mudanças e transformações nas estruturas sociais. 7. O movimento do evangelho social teve o seu lado positivo:  Procurou levar a Igreja a empenhar-se em atividades mais amplas em favor dos menos favorecidos da sorte,  Criticou os governos corruptos e os sistemas ideológicos injustos.
  • 26. Pag. 26 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com  Foi uma resposta nova da ética cristã em uma nova situação histórica, pois, particularmente nos Estados Unidos, era grande o número de problemas decorrentes do rápido crescimento industrial.  A consciência cristã, assim desafiada, converteu-se numa "consciência social". 8. Nascimento da TDL no Brasil  A Teologia da Libertação nasceu da influência de três frentes de pensamento: o O Evangelho Social das igrejas norte-americanas, trazido ao Brasil pelo missionário e teólogo presbiteriano Richard Shaull; o A Teologia da Esperança, do teólogo reformado Jürgen Moltmann; o A teologia política que tinha como seus grandes expoentes o teólogo católico Johann Baptist Metz, na Europa, e o teólogo batista Harvey Cox, nos EUA. 9. Eventos que precederam o nascimento da TDL no Brasil  Há uma série de eventos que precederam o nascimento da Teologia da Libertação: o 1952: O missionário presbiteriano Richard Shaull chega ao Brasil trazendo o Evangelho Social e cria uma estreita relação com os pastores presbiterianos Rubem Alves e Jaime Wright; o 1964: O teólogo reformado Jürgen Moltmann publica sua obra Teologia da Esperança; o 1965: O teólogo batista Harvey Cox publica A Cidade Secular; o 1967: O teólogo católico Johann Baptist Metz pronuncia a conferência Sobre a Teologia do Mundo; o O marco do nascedouro da Teologia da Libertação no Brasil, está na publicação de uma obra de Rubem Alves, criticando a teologia metafísica de uma forma geral e propondo o nascimento de novas comunidades de cristãos animados por uma visão e por uma paixão pela libertação humana e cuja linguagem teológica se tornava histórica. o A primeira participação católica no lançamento da Teologia da Libertação foi a publicação da Teologia da Revolução, em 1970, pelo teólogo belga radicado no Brasil José Comblin. o Em 1971, Gustavo Gutiérrez publicou Teologia da Libertação. Somente em 1972, Leonardo Boff surge no cenário teológico com a publicação de Jesus Cristo Libertador. Como Rubem Alves estava asilado nos EUA neste período, Boff passou a ser o mais conhecido representante desta corrente teológica que vivia no Brasil, devido à proteção recebida pela ordem dos franciscanos, à qual ele pertencia.
  • 27. Pag. 27 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 10. Características da TDL  O quadro de degradação apresentado na América Latina é o fundamento gerador do conceito de libertação.  A libertação, então, é toda “ação que visa criar espaço para a liberdade” (BOFF, 1980, p. 87). o Ser livre, neste sentido, é não estar sob o jugo da lei alheia; é poder construir-se autonomamente. o O processo histórico da América Latina foi e é dominado por diversas leis e conceitos teológicos estranhas a ela. o A América do Norte, em especial os EUA, e os países europeus, sempre impuseram aos latino–americanos seus valores, suas políticas, sua cultura, etc. o Neste sentido, a libertação no seio da América Latina, é a luta pela liberdade da cultura, dos valores, da economia, da política latino- americanos, frente às diversas opressões advindas de um modelo imperialista que rege a práxis do hemisfério norte em suas relações com o hemisfério sul, especialmente como o povo latino–americano.  Devido à pobreza e à nefasta degradação do povo latino-americano, a libertação deve ser entendida como superação de um processo de exclusão; já que esta é a conseqüência direta da relação norte–sul, onde milhões de homens e mulheres empobrecem e se deterioram porque ficam à margem (excluídos) do processo econômico e político norteado pelo capitalismo imposto pelos EUA e Europa.  Compete à teologia da libertação a tarefa de discursar sobre Deus a partir da ótica de um processo excludente e a partir da realidade concreta dos excluídos.  O teólogo da libertação, portanto, deve ter este duplo olhar: olhar para Deus e olhar para o excluído. Olhar para Deus é a fonte de toda libertação possível e o olhar para o excluído identifica onde há necessidade de libertação.  A teologia da libertação deve começar por se debruçar sobre as condições reais em que se encontra o oprimido de qualquer ordem que ele seja.” (BOFF, 1996, p. 40).  Após a leitura sócio–analítica, o teólogo da libertação deve-se deparar com a Bíblia Sagrada. o A Bíblia deve fornecer subsídios para que se possa identificar a face de Deus e sua ação libertadora, nos diversos momentos históricos, sob as quais vive o teólogo e seu povo. o Há, então, no processo de elaboração da teologia da libertação, uma imbricação necessária entre a análise sócio–analítica da realidade e a Bíblia Sagrada. Esta última fornece o sentido teológico da práxis libertadora proposta pela teologia da libertação.  A teologia da libertação pretende mostrar que Deus não está em uma esfera trans–histórica; mas, ela quer mostrar que Deus encarna-se na história, gera
  • 28. Pag. 28 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com libertação de um povo humilhado, gera vida e esperança a um povo crucificado e sem sonhos. o Podemos dizer, metaforicamente, que a teologia da libertação anuncia a ‘’descida’’ de Deus de sua esfera transcendente e “celeste” e mostra-o como agente dignificador dos humilhados da terra. o Deus não é mais um conjunto de doutrinas e especulações, mas é a fonte de toda a luta pela justiça e igualdade. Por isso, Deus se manifesta nas lutas históricas pela justiça, pela inclusão e pela superação de toda opressão vigente na humanidade. “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.”(Ex 20,2). Eis a face de Deus anunciada pela teologia da libertação: Deus que tira o povo da opressão, da servidão.  A teologia da libertação surge para mostrar que Deus é “Pai – Nosso”; portanto os homens e as mulheres devem se relacionar como irmãos e irmãs, sem haver exclusão, sem haver opressão ou sem qualquer tipo de violação da dignidade humana. Lutar pela libertação é valorizar a paternidade universal de Deus, que se manifesta nas relações justas e fraternas entre todos os seres humanos. 11. Porque a teologia da libertação não produziu resultados tão positivos na américa latina?  A grande discussão com os teólogos sociais gira em torno do que o homem mais precisa: Alimento para o corpo ou para a alma? Eles acham há uma falta mais da alimentação do corpo do que da alma, ou acha que as pessoas só estão sendo alimentadas bem espiritualmente. o Os teólogos sociais ensinaram que não adianta a Igreja alimentar espiritualmente sem dar o pão. O problema é que muitos preocuparam-se mais com o pão.  As teologias sociais deram muita ênfase aos aspectos materialistas da existência humana. Sabemos que o materialismo sempre teve a tendência de favorecer as bases do ateísmo filosófico, e por isso foi rejeitado por muitas pessoas.
  • 29. Pag. 29 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Parte 06: Texto para debate: A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO - O CRISTIANISMO A FAVOR DOS EXCLUÍDOS (SUGESTÃO DE LEITURA: Leia este texto de forma crítica, detectando quais são as compatibilidades e incompatibilidades entre as idéias expostas pelo autor e a nossa visão evangélica). Texto de Alexandre Marques Cabral Não poucas vezes a teologia cristã se configurou de forma totalmente antiquada em seus discursos e, conseqüentemente, em seus conceitos. A teologia cristã durante séculos, preocupou-se com o hyperurânio de Platão, com o motor imóvel de Aristóteles, com a cidade de Deus de Agostinho, menos com as problemáticas históricas que fatalmente orientavam a vida social do homem. É comum nos depararmos com textos clássicos da teologia e sermos levados às nuvens, aos céus, como, por exemplo, num texto de Irineu ou de S. Agostinho de Hipona. Mas, qual a razão disto? Isto ocorreu por mera vontade dos teólogos? Certamente, não. O instrumental filosófico utilizado pela teologia cristã A teologia cristã configurou-se de forma retrógrada por muito tempo, devido ao instrumental filosófico que ela utilizou para discursar acerca de Deus. Tal instrumental derivava-se da metafísica clássica que tem como característica formular conceitos anacrônicos, desconsiderando o caráter histórico do homem – ou seja, desconsiderando o homem enquanto ser histórico, que se faz (constrói) no tempo. Conseqüências do uso deste instrumental filosófico na teologia A conseqüência disto, é que os dados da revelação cristã – Bíblia – foram entendidos como realidades atemporais e ahistóricas. Por isso, por muito tempo – certamente, também ainda hoje – entendeu-se Deus, Reino dos Céus, inferno, etc., como realidades totalmente transcendentais, totalmente destacadas dos processos e fases históricas da humanidade. A reação da modernidade ao método tradicional adotado pela teologia cristã. Esta forma de discurso acerca de Deus foi submetida à crítica com o advento da modernidade e do pensamento contemporâneo. A metafísica, que foi a “pedra angular” da teologia clássica, foi fortemente criticada a partir da modernidade. Descobriu-se, após séculos de especulação, a história como característica essencial do homem e a cultura como âmbito de toda construção histórica. Com isso, o
  • 30. Pag. 30 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com pensamento ocidental, largou aquele transcendentalismo metafísico, tornando-se por isso mais imanentista. Isto influenciou fortemente a teologia. O encontro do homem com Deus – chamado pela teologia da GRAÇA – passou a ser pensado como realidade histórica: Deus se manifesta ao homem situando-se histórica e culturalmente, ou seja, o encontro de Deus com o homem difere-se na história em suas diversas épocas, e difere-se na pluralidade cultural que se dá no seio da humanidade. Obviamente, isto gerou uma certa relativização no discurso sobre Deus; porém, valorizou a historicidade como característica essencial do ser humano, além de valorizar a multiplicidade de formas de Deus se apresentar ao homem, superando, assim, o anacronismo clássico metafísico que norteava o pensamento teológico no entendimento da relação homem – DEUS. O nascimento da teologia da libertação e seu contexto histórico. A chamada Teologia da Libertação está inserida nesta última fase do pensamento ocidental que destacamos acima: a fase da valorização da história, da cultura e da diversidade de formas de manifestação do encontro do homem com Deus. Ela é uma teologia propriamente cristã; por isso, utiliza a Bíblia como pressuposto necessário de seus discursos. A expressão “teologia da libertação”, já mostra o sentido norteador deste discurso teológico. O genitivo que aparece na expressão citada – DA LIBERTAÇÃO -, mostra- nos que a libertação é o horizonte regulador do discurso acerca de Deus, e, ao mesmo tempo, mostra-nos que o Deus do discurso é fonte de libertação. Esta se manifesta concretamente nos diversos momentos do processo histórico de um povo. Conseqüentemente, a teologia da libertação torna-se força geradora de ações que viabilizam uma práxis libertadora, segundo as necessidades advindas das diversas circunstâncias sob as quais um povo está submetido. “A teologia da libertação é um movimento teológico que quer mostrar aos cristãos que a fé deve ser vivida numa práxis libertadora e que ela pode contribuir para tornar esta práxis mais autenticamente libertadora” (MONDIN, 1980, p. 25). Neste sentido, o cristão é impelido a viver a práxis libertadora nas diversas épocas da história. Como surgiu o termo libertação O termo libertação foi cunhado a partir da realidade cultural, social, econômica e política sob a qual se encontrava a América Latina, a partir das décadas de 60/70 do último século. Os teólogos deste período, católicos e protestantes, assumiram a libertação como paradigma de todo fazer teológico.
  • 31. Pag. 31 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Vejamos o quadro social da América Latina no período originário da teologia da libertação: “O ambiente político é geralmente caracterizado pela presença de governos que administram o poder arbitrariamente em vantagem dos ricos e dos poderosos, fazendo amplo uso da força e da violência. (...) O ambiente econômico e social está marcado pela miséria e pela marginalização da maior parte da população. Os recursos econômicos são controlados por um pequeno grupo de privilegiados. (...) No ambiente cultural se verifica ainda uma notável dependência da Europa e dos Estados Unidos. Na ciência como na filosofia, na arte como na literatura, quase nada é concedido à originalidade das populações latino-americanas” (Ibidem, p. 25- 26). O quadro de degradação apresentado na América Latina é o fundamento gerador do conceito de libertação. A libertação, então, é toda “ação que visa criar espaço para a liberdade” (BOFF, 1980, p. 87). Ser livre, neste sentido, é não estar sob o jugo da lei alheia; é poder construir-se autonomamente. A America Latina sempre foi influenciada por ideologias externas O processo histórico da América Latina foi e é dominado por diversas leis estranhas a ela. A América do Norte, em especial os EUA, e os países europeus, sempre impuseram aos latino–americanos seus valores, suas políticas, sua cultura, etc. Neste sentido, a libertação no seio da América Latina, é a luta pela liberdade da cultura, dos valores, da economia, da política latino-americanos, frente às diversas opressões advindas de um modelo imperialista que rege a práxis do hemisfério norte em suas relações com o hemisfério sul, especialmente como o povo latino– americano. Tal relação impõe ao hemisfério sul a cultura do hemisfério norte. Devido à pobreza e à nefasta degradação do povo latino-americano, a libertação deve ser entendida como superação de um processo de exclusão; já que esta é a conseqüência direta da relação norte–sul, onde milhões de homens e mulheres empobrecem e se deterioram porque ficam à margem (excluídos) do processo econômico e político norteado pelo capitalismo imposto pelos EUA e Europa.
  • 32. Pag. 32 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com A teologia da libertação discursa sobre Deus a partir da ótica da realidade dos excluídos. Desta forma compete à teologia da libertação a tarefa de discursar sobre Deus a partir da ótica de um processo excludente e a partir da realidade concreta dos excluídos. O teólogo da libertação, portanto, deve ter este duplo olhar: olhar para Deus e olhar para o excluído. Olhar para Deus é a fonte de toda libertação possível e o olhar para o excluído identifica onde há necessidade de libertação. Olhando para Deus – ou Cristo -, a teologia da libertação diferencia-se de todo movimento libertador laico, já que a libertação apresentada pela teologia enxerga nos processos históricos a possibilidade de presentificação da nova ordem escatológica anunciada por Cristo, ou seja, o Reino de Deus – ordem de justiça e da superação de toda opressão possível, na sociedade e no cosmos. Ao pretender olhar para o excluído e para o sistema gerador de opressão, como pressuposto de todo fazer teológico, a teologia da libertação difere-se radicalmente das teologias clássicas, pois supera o anacronismo destas, circunscrevendo a experiência de Deus no âmbito do engajamento do fiel na luta contra todo o sofrimento humano historicamente situado. Compreendendo o fenômeno da opressão e da exclusão Para que haja elaboração da teologia da libertação é mister que se compreenda os fenômenos da opressão e da exclusão. Estes devem ser compreendidos através de uma mediação sócio – analítica, “Libertação é libertação do oprimido. Por isso, a teologia da libertação deve começar por se debruçar sobre as condições reais em que se encontra o oprimido de qualquer ordem que ele seja.” (BOFF, 1996, p. 40). O método utilizado para elucidar sócio–analiticamente o fenômeno da opressão e da exclusão pela teologia da libertação, é o método histórico- dialético. A influência do marxismo na teologia da libertação O marxismo passa a ser a filosofia predominante na análise sócio–analítica feita pela teologia da libertação. Porém, o marxismo é utilizado como instrumento, não tendo fim em si mesmo. “Na teologia da libertação o marxismo nunca é tratado em si mesmo, mas sempre a partir, e em função dos pobres” (Ibidem, p. 45). O sentido último da teologia não é Marx, mas Deus. Após a leitura sócio–analítica, o teólogo da libertação deve-se deparar com a Bíblia Sagrada. A Bíblia deve fornecer subsídios para que se possa identificar a face de Deus e
  • 33. Pag. 33 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com sua ação libertadora, nos diversos momentos históricos, sob as quais vive o teólogo e seu povo. Há, então, no processo de elaboração da teologia da libertação, uma imbricação necessária entre a análise sócio–analítica da realidade e a Bíblia Sagrada. Esta última fornece o sentido teológico da práxis libertadora proposta pela teologia da libertação. Na teologia da libertação a religião é vista como um fator de mobilização Com a gênese da teologia da libertação na América Latina, “a religião passa a ser um fator de mobilização e não do freio” (BOFF, 1980, p. 102). A religião não mais se apresenta como “ópio do povo”. Ela passa a ser fonte de libertação e de esperança para o homem. A religião, desta forma, não se reduz a uma ideologia que mantém o status quo social e político; também não é mais fonte de discursos etéreos. A teologia da libertação pretende mostrar que Deus não está em uma esfera trans– histórica; mas, ela quer mostrar que Deus encarna-se na história, gera libertação de um povo humilhado, gera vida e esperança a um povo crucificado e sem sonhos. Podemos dizer, metaforicamente, que a teologia da libertação anuncia a ‘’descida’’ de Deus de sua esfera transcendente e “celeste” e mostra-o como agente dignificador dos humilhados da terra. Deus não é mais um conjunto de doutrinas e especulações, mas é a fonte de toda a luta pela justiça e igualdade. Por isso, Deus se manifesta nas lutas históricas pela justiça, pela inclusão e pela superação de toda opressão vigente na humanidade. “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.”(Ex 20,2). Eis a face de Deus anunciada pela teologia da libertação: Deus que tira o povo da opressão, da servidão. O céu almejado pela humanidade, não é pensado como realidade post mortem. Este céu que fora pensado pela teologia clássica como realidade distante que se manifestaria no porvir, encarna-se no “agora”, através da práxis do povo em prol da dignidade humana: cada conquista popular, no que tange a uma relação mais justa entre os homens, presentifica o céu no seio da humanidade. A teologia da libertação surge para mostrar que Deus é “Pai – Nosso”; portanto os homens e as mulheres devem se relacionar como irmãos e irmãs, sem haver exclusão, sem haver opressão ou sem qualquer tipo de violação da dignidade humana. Lutar pela libertação é valorizar a paternidade universal de Deus, que se manifesta nas relações justas e fraternas entre todos os seres humanos.
  • 34. Pag. 34 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Parte 07: Texto para debate- A teologia social de Calvino 1. Introdução  Muitos de nós, não conhecem o pensamento teológico social de Calvino, pelo fato dos modernos manuais de teologia não fazerem referencia a tudo o que reformador produziu nesta área especifica. Faremos uma síntese de tudo que Calvino produziu nesta área.  A Reforma Protestante ocorrida no século XVI não foi somente um movimento espiritual e eclesiástico. Teve também aspectos e dimensões políticas e sociais.  Calvino, bem como os outros reformadores, deu atenção aos problemas sociais de sua época. Talvez pelo fato de ser da segunda geração de reformadores, Calvino podia ter uma visão mais ampla e amadurecida sobre o assunto. o Ele esforçou-se para entender qual deveria ser o papel da Igreja cristã na reconstrução de uma sociedade justa que refletisse a vontade de Deus em termos de justiça social. Essa questão era extremamente aguda para os reformadores, particularmente pelo fato de viverem numa época e numa situação de grandes problemas sociais. o Não é de se admirar que em suas Institutas da Religião Cristã, bem como em seus comentários Calvino freqüentemente trata de questões relacionadas com a responsabilidade social da Igreja e do Estado.  Duas considerações importantes. o Primeiro. Não devemos dissociar o pensamento social de Calvino da sua teologia. Calvino era acima de tudo um teólogo, um homem da Igreja. Ele não era um político, nem ativista social, mas essencialmente um pastor e um estudiosos das Escrituras. Seu pensamento social desenvolveu-se dentro da estrutura de seus pressupostos teológicos e bíblicos. Calvino construiu a sua teologia social a partir da sua convicção de que Cristo é Senhor de todos os aspectos da vida humana, e de que a Palavra de Deus deve regular todas as áreas da vida. o A segunda consideração. Não devemos dissociar o pensamento social de Calvino da época em que ele viveu. Embora sua teologia social brotasse de princípios bíblicos válidos e atuais para todas as épocas, Calvino só poderia dar-lhes expressão dentro das circunstâncias históricas em que viveu e labutou. Naquela época, a Igreja Católica Romana era o grande poder econômico e político. Prevalecia naquela época o sistema econômico e social medieval e a monarquia como sistema de governo.
  • 35. Pag. 35 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 2. Genebra na Época de Calvino  A cidade de Genebra foi o local onde Calvino passou a maior parte de sua vida, pregando, pastoreando e ensinando. Ali passou momentos de grande popularidade e também de rejeição. Foi ali que sua teologia social amadureceu, à medida em que enfrentava os males sociais que oprimiam Genebra bem como as demais cidades da Europa medieval. 3. O Governo de Genebra  Genebra, antes da Reforma e da chegada de Calvino, era um bispado, uma importante cidade.  Seu comando estava nas mãos de três autoridades: o O bispo, que era não somente o chefe espiritual da Igreja, o "príncipe de Genebra", como teoricamente, era o soberano da cidade, com poderes para cunhar moedas, comandar a cidade em tempo de guerra, julgar apelações, e perdoar crimes. o Depois vinha o magistrado, incumbido da defesa da cidade, da guarda, e da execução de prisioneiros. o E por fim, o Conselho de Genebra, composto de Conselheiros de entre os moradores da cidade, que julgavam as questões criminais concernentes aos leigos (os pecados dos sacerdotes era competência do bispo), cuidavam do abastecimento da cidade, das finanças da cidade, e mantinham a boa ordem durante a noite através da polícia. Este era o sistema adotado pela maioria das cidades européias católicas.  Quando Genebra adotou oficialmente a Reforma (1536), o bispo foi despojado do seu poder, e os Conselheiros assumiram suas funções.  Durante o período de bispado em Genebra, a Igreja Católica representada pelo bispo estivera acima do Estado. Com a expulsão do bispo, o Conselho assumiu suas funções, e agora o Estado estava acima da Igreja (agora Reformada). A Igreja permanecia ligada ao Estado, e estava debaixo do poder do Conselho de Genebra (cujos Conselheiros agora eram protestantes), que tinha em suas mãos o poder de disciplinar, designar os pastores, bem como a função de sustentá-los financeiramente. 4. A Situação Social em Genebra  Graves problemas sociais afligiam Genebra naquela época (bem como a Europa em geral). o Havia pobreza extrema, agravada por impostos pesados.
  • 36. Pag. 36 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com o Os trabalhadores eram oprimidos por baixos salários e jornadas extensas de trabalho. o Campeava o analfabetismo, e a ignorância; havia aguda falta de assistência social por parte do Estado; o Prevalecia a embriagues e a prostituição. o Destacava-se o vício do jogo de cartas, que levava o pouco dinheiro do povo. o As trevas espirituais características da Idade Média refletiam-se nas condições morais e sociais das massas.  Essa era a situação que prevalecia em Genebra antes da chegada da Reforma espiritual, a qual deu lugar, em seguida, a reformas sociais, econômicas e políticas, mesmo antes de Calvino chegar à Genebra. 5. As Mudanças Introduzidas por Farel em Genebra  Guilherme Farel foi o grande líder destas mudanças em Genebra. Sob sua influência, o Conselho da cidade cria o Hospital Geral no antigo Convento de Santa Clara, para dar atendimento médico aos pobres.  O Conselho também passou a regulamentar a vida dos seus cidadãos: o Proíbem-se as danças de ruas, a polícia é mobilizada para manter a ordem nas ruas, são promulgadas leis que regulamentam o uso dos bares, que proíbem jogo de cartas, blasfemar o nome de Deus, e servir bebidas durante o horário do sermão. o Torna-se proibido vender pão e vinho a preços acima dos estipulados; são proibidos todos os dias santos, à exceção do domingo. Passa a ser obrigatório a todos os cidadãos de Genebra irem ouvir o sermão de domingo, sob pena de pesadas multas. E a instrução pública se torna obrigatória, pela primeira vez na Europa. 6. As reações as mudanças trazidas por Farel  Evidentemente, nem todos em Genebra estavam satisfeitos com as pesadas proibições impostas pelos Conselheiros, que por sua vez, seguiam a Farel.  As leis, por demais severas, que excedem os limites do razoável, provocam insatisfação, mesmo entre crentes verdadeiros. 7. É neste momento de mudanças que Calvino chega a Genebra  Foi a esta altura que Calvino chegou a Genebra. Ele estava apenas de passagem pela cidade. Seus planos eram de prosseguir em frente e achar um local tranqüilo
  • 37. Pag. 37 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com onde pudesse estudar e escrever. Tinha na época 27 anos de idade, e havia acabado de publicar a primeira edição das Institutas.  Quando Farel soube que Calvino estava na cidade foi visitá-lo, e instou com o jovem teólogo a que ficasse ali em Genebra, para ajudá-lo no trabalho de reforma. É conhecida a história de como Calvino, após ter apresentado toda sorte de desculpas, finalmente rendeu-se, aterrorizado pela maldição que o velho reformador invocou sobre ele, em caso de recusa. Assim, ele ficou, para ajudar Farel a solidificar as reformas eclesiásticas e sociais em Genebra. Em breve, Genebra iria tornar-se o centro espiritual e social da Reforma protestante na Europa.  Foi ali em Genebra, trabalhando como pregador, mestre e pastor na Igreja de Genebra, e lidando com as questões sociais mencionadas acima, que Calvino desenvolveu sua teologia social. No que se segue, procuraremos sintetizar seus pontos principais, concentrando-nos no que Calvino ensinou como sendo a responsabilidade social da Igreja de Cristo. 8. O Ensino de Calvino A causa dos males sociais  Fundamental para entendermos o pensamento de Calvino nesta área é termos em mente que para ele as causas da pobreza, miséria e a opressão, bem como da perversão e da corrupção da sociedade humana, estavam enraizadas na natureza decaída do homem, que por sua vez, remonta-se à Queda no Éden. Este princípio é crucial no entendimento de Calvino.  Para ele, o pecado do homem havia trazido toda sorte de transtorno à ordem social: Pela queda do homem foi demolida toda ordem social, e em Adão tudo foi amaldiçoado por Deus, como está escrito em Romanos 8.20-23, onde Paulo afirma que a criação de Deus está em cativeiro imposto pelo pecado do homem.  A queda do homem introduziu perturbações profundas na sociedade humana, incluindo distúrbios na vida conjugal e familiar. Para Calvino, o caos econômico é causado pela ganância dos homens, e pela incredulidade de que Deus haverá de nos suprir as necessidades básicas, conforme Cristo nos promete em Mateus 6.  Calvino denuncia neste contexto, pecados sociais como: Estocagem de alimentos (trigo), monopólios, e a especulação financeira, como tendo origem no egoísmo e na avareza do homem. Ele denunciava aqueles que preferiam deixar deteriorar-se o trigo em seus celeiros, para que ali fosse devorado por bichos, e apodrecesse, ao invés de ser vendido, quando a necessidade do povo se fazia sentir.  Por identificar biblicamente a raiz dos transtornos sociais, Calvino estava em posição de elaborar uma solução que atingisse o problema em seus fundamentos.
  • 38. Pag. 38 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com O Senhorio de Cristo  Um segundo princípio que norteava a teologia social de Calvino era que o Cristo vivo e exaltado é Senhor de todo o universo. Os milagres que Ele exerceu sobre a ordem natural (acalmar a tempestade, por exemplo; ou tirar uma moeda da boca do peixe) demonstram esta realidade, diz Calvino.  Portanto, a obra de restauração realizada por Cristo não se limita apenas à nova vida dada ao indivíduo, mas abrange a restauração de todo o universo — o que inclui a ordem social e econômica. Desta forma, a atenção de Calvino como pastor e mestre, se estendeu para além das questões individuais e "espirituais". Se Cristo era o Senhor de toda a existência humana, era dever da Igreja dar atenção às questões sociais e políticas. A Restauração da Sociedade  Para Calvino, a restauração inaugurada por Cristo ocorre inicialmente no seio da Igreja. É na Igreja que a ordem primitiva da sociedade, tal qual Deus havia estabelecido, tende a ser restaurada. Na Igreja, as diferenças exacerbadas entre as classes sociais, econômicas e raciais, bem como os preconceitos delas procedentes, desaparecem, pois Cristo de todos faz um único povo (Gl 3.28; Ef 2.14).  Calvino não concebia a total abolição das classes sociais. Ele concebia a coexistência harmônica entre a Igreja e instituições como o Estado, a sociedade e a família, com as suas respectivas estruturas e funcionamento. É na Igreja, porém, que as relações sociais de trabalho sofrem profundas alterações, ensina o reformador. Os patrões continuam patrões, mas aprendem a exercer sua autoridade sem opressão, ao passo que os empregados (que continuam empregados) aprendem a serem subordinados sem recriminação.  Na Igreja, diz Calvino, Jesus Cristo estabelece entre os cristãos a justa redistribuição dos bens destinados a todos. Isto se dava através da atividade diaconal, trazendo alívio para as necessidades dos pobres e oprimidos, com recursos vindos dos ricos e abastados.  Quando Calvino falava em restauração social, ele tinha em mente uma sociedade civil governada por cristãos reformados, que aplicassem os princípios bíblicos às questões sociais, políticas e econômicas. Ou seja, um Estado que fosse orientado pela Igreja no exercício de suas funções. Para Calvino a reforma social não é perfeita, pois os efeitos do pecado não são todo eliminados.  É também importante notar que para Calvino a reforma da sociedade não é completa nem perfeita, visto que os efeitos do pecado não são de todo eliminados na presente época. É uma restauração parcial, portanto. Ela não
  • 39. Pag. 39 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com consegue estabelecer plenamente a justiça no mundo presente. Ao mesmo tempo, ela não abole determinados aspectos da ordem social: permanece a hierarquia determinada por Deus entre o homem e a mulher, o patrão e o empregado, os pais e seus filhos. Quando ocorrerá então a completa reforma da sociedade?  A plena abolição dos distúrbios agora presentes da ordem social (as injustiças, a opressão, a corrupção, por exemplo) só se efetuará plenamente no Reino de Deus, no fim dos tempos, para o qual marcha toda a história dos homens e do universo. Sua vinda será precedida por convulsões cósmicas. Então, Jesus Cristo regressará em glória, e o príncipe deste mundo será aniquilado. Assim, será então estabelecido o novo céu e a nova terra, onde habitam plenamente a justiça (2 Pe 3.13; cf. Is 65.17; 66.22; Ap 21.1).  Portanto, para Calvino, a Igreja é uma antecipação do reino de justiça a ser introduzido por Cristo em sua vinda. Como tal, ela funciona no presente como uma sociedade provisória, governada pelas leis de Cristo. Embora já refletindo estes ideais, a Igreja ainda não o faz de forma perfeita, o que ocorrerá apenas no fim dos tempos. 9. A Responsabilidade Social da Igreja  Quais as responsabilidades da Igreja nesta restauração provisória da sociedade? Podemos resumir o ensino de Calvino em três aspectos fundamentais. Segundo ele, a Igreja tinha um ministério didático, um político, e um social. Ministério Didático  Esse ministério da Igreja era para ser exercido através dos seus pastores e mestres. Consistia na instrução pública e particular, através de sermões e orientação individual, quanto ao ensino bíblico sobre a administração dos bens outorgados por Deus ao Estado e ao indivíduo. Em outras palavras, Mordomia Cristã. A ênfase do ministério didático: a questão do trabalho e do descanso.  Tomemos como exemplo a questão do trabalho e descanso. De acordo com Calvino, a Igreja deveria através do ministério regular de seus pastores, instruir seus membros no ensino das Escrituras sobre o assunto. Em suas Institutas Calvino escreveu o que possivelmente foi o seu ensino em Genebra sobre o trabalho: só Deus alimenta o homem — dele vem as forças e as condições para que o homem trabalhe, e com seu suor, compre seu pão.
  • 40. Pag. 40 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com O trabalho, portanto, é algo eminentemente digno pois é a realização da vontade de Deus para o homem. Assim, o homem não se realiza plenamente, senão no trabalho, pois foi para isto que foi criado e vocacionado, conforme está escrito em Gênesis 1 e 2. O pecado tirou a alegria e a graça que acompanhava o trabalho no início. A queda introduziu no mundo e na sociedade humana os distúrbios sociais relacionados com o trabalho (Gênesis 3). Mas, em Cristo o homem reencontra a alegria e o gosto do labor. Quanto ao descanso, Calvino insistia que era necessário proporcionar aos trabalhadores um dia de descanso, o sábado cristão, que é o domingo, conforme sua interpretação do quarto mandamento (Êxodo 20.8-11). O descanso físico, porém, está intimamente ligado ao espiritual — sem Cristo, não há descanso verdadeiro no domingo. Assim, Calvino via a profanação do domingo como a origem da corrupção do trabalho. Segundo ele, é necessário cessarmos dos nossos labores, como Deus cessou dos dele (He 4.3). O que fez o conselho de genebra? Assim, conforme Farel já havia orientado, o Conselho de Genebra, debaixo da influência de Calvino, aboliu todos os feriados católicos e determinou que no domingo cessasse todo labor em Genebra.  A função do púlpito no ministério didático? Através do púlpito, exercendo o seu ministério didático, a Igreja então levantava o ânimo moral do trabalhador assegurando-lhe que mesmo os trabalhos mais humildes são honrados por Deus, e que Deus assim determinou que pelo trabalho o homem encontrasse sua vocação na vida. E que em Cristo, o trabalhador encontraria a alegria e a satisfação que deveriam acompanhar o labor diário. o Havia um outro aspecto do ministério didático da Igreja que consistia em repreender, através das pregações, os membros que estivessem incorrendo em pecados sociais: Assim, os pastores de Genebra, orientados por Calvino, denunciavam do púlpito a prática da cobrança de juros excessivos por parte dos agiotas. Da mesma forma denunciavam a vadiagem. Vadiagem e parasitagem é pecado, ensinava Calvino. Para ele, quando Deus criou o homem e o ordenou cultivar a terra, condenou com este gesto a ociosidade e a indolência. Não há nada mais oposto à ordem da própria natureza do que consagrar a vida à beber, comer, e dormir, sem indagar sobre o que fazer (Sl 128.3; 2 Ts 3.10- 12).