Broadman
Volume 1
ComentárioBíblicoBroadman
Comentário
Bíblico
Broadman
Volume 1
Artigos Gerais
Gênesis-Êxodo
TRADUÇÃO DE ADIEL ALMEIDA DE OLIVEIRA
Todos os direitos reservados. Copyright (c) 1969 da Broadman Press. Copyright
(c)1987 da JUERP,para a língua portuguesa, com permissão da Broadman Press.
O texto bíblico, nesta publicação, é da Versão da Imprensa Bíblica Brasileira,
baseada na tradução em português de João Ferreira de Almeida, de acordo com os
melhores textos em hebraico e grego.
220.7
All-Com Allen, Clifton J., ed. ger.
Comentário Bíblico Broadman: Velho Testamento. Editor geral: Clifton J.
Alien. Tradução de Adiei Almeida de Oliveira. Rio de Janeiro, Junta de Educação
Religiosa e Publicações, 1987.
Vol. 1
Título original: The Broadman Bible Commentary
1. Bíblia — Velho Testamento — Comentários. 2. Velho Testamento —
Comentários. I. Título.
3.000/1987
Código para Pedido: 21.636
Junta de Educação Religiosa e Publicações da
Convenção Batista Brasileira
Caixa Postal 320 — CEP: 20001
Rua Silva Vale, 781 — CEP: 21370
Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Impresso em gráficas próprias
Junta de Consultores
Clifton I. Allen, ex-Secretário Editorial,
Junta Batista de Escolas Dominicais
da SBC
J. P. Alien, Pastor, Igreja Batista de
Broadway, Forth Worth
John E. Barnes, Jr., Pastor, Igreja Batis­
ta de Main Street, Hattiesburg
Olin T. Binkley, Presidente, Seminário
Teológico Batista do Sudeste, Wake
Forest, North Carolina
WilliamJ. Brown, Gerente, Departamen­
to Oriental, Livrarias Batistas, Junta
Batista de Escolas Dominicais
John R. Claypool, Pastor, Igreja Batista
de Crescent Hill, Louisville, Kentucky
Howard P. Colson, Secretário Editorial,
Junta Batista de Escolas Dominicais
Chauncey R. Daley, Jr., Editor, Western
Recorder, Middletown, Kentucky
Joseph R. Estes, Secretário, Departa­
mento de Obra Relacionada aos Não-
evangélicos, Junta Batista de Missões
Nacionais da Southern Baptist Con­
vention
William J. Fallis, Editor-Chefe, Livros
Religiosos em Geral, Broadman Press
Allen W. Graves, Deão, Escola de Edu­
cação Religiosa, Seminário Teológico
Batista do Sul, Louisville, Kentucky
Joseph F. Green, Editor, Livros de Estu­
do Bíblico, Broadman Press
Ralph A. Herring, ex-Diretor, Departa­
mento de Extensão Seminarial, Con­
venção Batista do Sul
Herschel H. Hobbs, Pastor, Primeira
Igreja Batista, Oklahoma City
Warren C. Hultgren, Pastor, Primeira
Igreja Batista, Tulsa
Lamar Jackson, Pastor, Igreja Batista
Meridional, Birmingham
L. D. Johnson, Capelão, Universidade
Furman
J. Hardee Kennedy, Professor de Velho
Testamento e Hebraico, Seminário
Teológico Batista de New Orleans
Herman L. King, Diretor, Divisão de Pu­
blicação, Junta Batista de Escolas
Dominicais da SBC
William W. Lancaster, Pastor, Primeira
Igreja Batista, Decatur, Georgia
Randall Lolley, Pastor, Primeira Igreja
Batista, Winston-Salem
C. DeWitt Mathews, Professor de Prega­
ção, Seminário Teológico Batista do
Centro-Oeste
John P. Newport, Professor de Filosofia
da Religião, Seminário Teológico Ba­
tista do Sudoeste
Lucius M. Polhill, ex-Secretário Exe­
cutivo, Associação Geral Batista de
Virgínia
Porter Routh, Secretário Executivo Te­
soureiro, Comissão Executiva, Con­
venção Batista do Sul
John L. Slaughter, ex-Pastor, Primeira
Igreja Batista, Spartanburg
R. Houston Smith, Pastor, Primeira Igre­
ja Batista, Pineville, Louisiana
James L. Sullivan, Secretário Executivo,
Junta Batista de Escolas Dominicais
Ray Summers, Presidente, Departamen­
to de Religião, Universidade de Bay­
lor
Charles A. Trentham, Pastor, Primeira
Igreja Batista, Knoxville
Keith von Hagen, Diretor, Divisão de
Livraria, Junta Batista de Escolas
Dominicais
J. R. White, Pastor, Primeira Igreja Ba­
tista, Montgomery
Conrad Willard, Pastor, Igreja Batista
Central, Miami
Kyle M. Yates, Jr., Professor de Reli­
gião, Universidade Estadual de Okla­
homa
Colaboradores
Clifton J. Alien, Junta Batista de Escolas
Dominicais (aposentado): Artigo Ge­
ral
Morris Ashcraft, Seminário Teológico
Batista do Centro-Oeste: Apocalipse
G. R. Beasley-Murray, Faculdade Spur­
geon, Londres: II Coríntios
T. Milles Bennett, Seminário Teológico
Batista do Sudoeste: Malaquias
Reidar B. Bjornard, Seminário Teológico
Batista do Norte: Ester
James A. Brooks, Seminário Teológico
Batista de New Orleans: Artigo Geral
Raymond Bryan Brown, Seminário Teo­
lógico Batista do Sudeste: I Coríntios
John T. Bunn, Universidade Campbell:
Cântico dos Cânticos; Ezequiel
Joseph A. Callaway, Seminário Teológico
Batista do Sul: Artigo Geral
E. Luther Copeland, Seminário Teoló­
gico Batista do Sudeste: Artigo Geral
Bruce C. Cresson, Universidade Baylor:
Obadias
Edward R. Dalglish, Universidade Bay­
lor: Juizes; Naum
John I. Durham, Seminário Teológico
Batista do Sudeste: Salmos; Artigo
Geral
Frank E. Eakin, Jr., Universidade de
Richmond: Sofonias
Clyde T. Francisco, Seminário Teológico
Batista do Sul: Gênesis; I e II Crôni­
cas; Artigo Geral
D. David Garland, Seminário Teológico
Batista do Sudoeste: Habacuque
A. J. Glaze, Jr., Seminário Internacional
Teológico Batista, Buenos Aires: Jo­
nas
James Leo Green, Seminário Teológico
Batista do Sudeste: Jeremias
Emmett Willard Hamrick, Universidade
de Wake Forest: Esdras; Neemias
William L. Hendricks, Seminário Teoló­
gico Batista do Sudoeste: Artigo Ge­
ral
E. Glenn Hinson, Seminário Teológico
Batista do Sul: I e II Timóteo; Tito;
Artigo Geral
Herschel H. Hobbs, Primeira Igreja Ba­
tista, Oklahoma City: I e II Tessalo-
nicenses
Roy L. Honeycutt, Jr., Seminário Teoló­
gico Batista do Centro-Oeste: Êxodo;
II Reis; Oséias
William E. Hull, Seminário Teológico
Batista do Sul: João
Page H. Kelley, Seminário Teológico Ba­
tista do Sul: Isaías
J. Hardee Kennedy, Seminário Teológi­
co Batista de New Orleans: Rute; Joel
Robert B. Laurin, Seminário Americano
Batista do Oeste: Lamentações
John William Macgorman, Seminário
Teológico Batista do Sudoeste: Gá-
latas
Edward A. McDowell, Seminário Teoló­
gico Batista do Sudeste (aposentado):
I, II e IIIJoão
Ralph P. Martin, Seminário Teológico
Fuller: I Reis
Dale Moody, Seminário Teológico Batis­
ta do Sul: Romanos
William H. Morton, Seminário Teológi­
co Batista do Centro-Oeste: Josué
Barclay M. Newman, Jr., Sociedade Bí­
blica Americana: Artigo Geral
John P. Newport, Seminário Teológico
Batista do Sudoeste: Artigo Geral
John Joseph Owens, Seminário Teológico
Batista do Sul: Números; Jó (com
Tate e Watts); Daniel
Wayne H. Peterson, Seminário Teológico
Batista Golden Gate: Eclesiastes
Ben F. Philbeck, Jr., Faculdade Carson-
Newman: I e II Samuel
William M. Pinson, Jr., Seminário Teo­
lógico Batista do Sudoeste: Artigo
Geral
Ray F. Robbins, Seminário Teológico
Batista de New Orleans: Filemom
Eric C. Rust, Seminário Teológico Batis-
tista do Sul: Artigo Geral
B. Elmo Scoggin, Seminário Teológico
Batista do Sudeste: Miquéias; Artigo
Geral
Burlan A. Sizemore Jr., Seminário Teo­
lógico Batista do Centro-Oeste: Ar­
tigo geral
David A. Smith, Universidade Furman:
Ageu
Ralph L. Smith, Seminário Teológico
Batista do Sudoeste: Amós
T. C. Smith, Universidade Furman:
Atos; Artigo Geral
Harold S. Songer, Seminário Teológico
Batista do Sul: Tiago
Frank Stagg, Seminário Teológico Ba­
tista do Sul: Mateus; Filipenses
Ray Summers, Universidade Baylor: I e
I I Pedro; Judas; Artigo Geral
Marvin E. Tate, Jr., Seminário Teológico
Batista do Sul: Jó (com Owens e
Watts); Provérbios
Malcolm O. Tolbert, Seminário Teológi­
co Batista de New Orleans: Lucas
Charles A. Trentham, Primeira Igreja
Batista, Knoxville: Hebreus; Artigo
Geral
Henry E. Turlington, Igreja Batista Uni­
versitária, Chapel Hill, Carolina do
Norte: Marcos
John S. W. Watts, Faculdade Serampo-
re, Serampore. índia: Deuteronômio
Jó (com Owens e Tate); Zacarias
R. E. O. White, Faculdade Teológica
Batista, Glasgow: Colossenses
Prefácio
O COMENTÁRIO BÍBLICO BROADMAN apresenta um estudo bíblico
atualizado, dentro do contexto de uma fé robusta na autoridade, adequação e
confiabilidade da Bíblia como a Palavra de Deus. Ele procura oferecer ajuda e
orientação para o crente que está disposto a empreender o estudo da Bíblia como
um alvo sério e compensador. Desta forma, os seus editores definiram o escopo e
propósito do COMENTÁRIO, para produzir uma obra adequada às necessidades
do estudo bíblico tanto de ministros como de leigos. As descobertas da erudição
bíblica são apresentadas de forma que os leitores sem instrução teológica formal
possam usá-las em seu estudo da Bíblia. As notas de rodapé e palavras são
limitadas às informações essenciais.
Os escritores foram cuidadosamente selecionados, tomando-se em consideração
sua reverente fé cristã e seu conhecimento da verdade bíblica. Tendo em mente as
necessidades de leitores em geral, os escritores apresentam informações especiais
acerca da linguagem e da história onde elas possam ajudar a esclarecer o
significado do texto. Eles enfrentam os problemas bíblicos — não apenas quanto à
linguagem, mas quanto à doutrina e à ética — porém evitam sutilezas que tenham
pouco a ver com o que devemos entender e aplicar da Bíblia. Eles expressam os
seus pontos de vista e convicções pessoais. Ao mesmo tempo, apresentam opiniões
alternativas, quando estas são esposadas por outros sérios e bem-informados
estudantes da Bíblia. Os pontos de vista apresentados, contudo, não podem ser
considerados como a posição oficial do editor.
O COMENTÁRIO é resultado de muitos anos de planejamento e preparação.
A Broadman Press começou em 1958 a explorar as necessidades e possibilidades
deste trabalho. Naquele ano, e de novo em 1959, líderes cristãos — especialmente
pastores e professores de seminários — se reuniram, para considerar se um novo
comentário era necessário e que forma deveria ter. Como resultado dessas
deliberações, em 1961, a junta de consultores que dirige a Editora autorizou a
publicação de um comentário em vários volumes. Maiores planejamentos levaram,
em 1966, à escolha de um editor geral e de uma Junta Consultiva. Esta junta de
pastores, professores e líderes denominacionais reuniu-se em setembro de 1966,
revendo os planos preliminares e fazendo definidas recomendações, que foram
cumpridas à medida que o COMENTÁRIO se foi desenvolvendo.
No começo de 1967, quatro editores consultores foram escolhidos, dois para o
Velho Testamento e dois para o Novo Testamento. Sob a direção do editor geral,
esses homens trabalharam com a Broadman Press e seu pessoal, a fim de planejar
o COMENTÁRIO detalhadamente. Participaram plenamente na escolha dos
escritores e na avaliação dos manuscritos. Deram generosamente do seu tempo e
esforços, fazendo por merecer a mais alta estima e gratidão da parte dos
funcionários da Editora que trabalharam com eles.
A escolha da Versão da Imprensa Bíblica Brasileira “de acordo com os melhores
textos em hebraico e grego” como a Bíblia-texto para o COMENTÁRIO foi feita
obviamente. Surgiu da consideração cuidadosa de possíveis alternativas, que
foram plenamente discutidas pelos responsáveis pelo Departamento de Publica­
ções Gerais da Junta de Educação Religiosa e Publicações. Dada a fidelidade do
texto aos originais bem assim à tradução de Almeida, amplamente difundida e
amada entre os evangélicos, a escolha justifica-se plenamente. Quando a clareza
assim o exigiu, foram mantidas as traduções alternativas sugeridas pelos próprios
autores dos comentários.
Através de todo o COMENTÁRIO, o tratamento do texto bíblico procura
estabelecer uma combinação equilibrada de exegese e exposição, reconhecendo
abertamente que a natureza dos vários livros e o espaço destinado a cada um deles
modificará adequadamente a aplicação desta abordagem.
Os artigos gerais que aparecem no Volume 8 têm o objetivo de prover material
subsidiário, para enriquecer o entendimento do leitor acerca da natureza da
Bíblia. Focalizam-se nas implicações do ensino bíblico com as áreas de adoração,
dever ético e missões mundiais da igreja.
O COMENTÁRIO evita padrões teológicos contemporâneos e teorias mutáveis.
Preocupa-se com as profundas realidades dos atos de Deus na vida dos ho­
mens, a sua revelação em Cristo, o seu evangelho eterno e o seu propósito
para a redenção do mundo. Procura relacionar a palavra de Deus na Escritura e na
Palavra viva com as profundas necessidades de pessoas e da humanidade, no
mundo de Deus.
Mediante fiel interpretação da mensagem de Deus nas Escrituras, portanto, o
COMENTÁRIO procura refletir a inseparável relação da verdade com a vida, do
significado com a experiência. O seu objetivo é respirar a atmosfera de relação com
a vida. Procura expressar a relação dinâmica entre a verdade redentora e pessoas
vivas. Possa ele servir como forma pela qual os filhos de Deus ouvirão com maior
clareza o que Deus Pai está-lhes dizendo.
Nota do Editor Para o
Volume 1 Revisado
A Editora Broadman é o departamento
geral de publicação de livros da Junta de
Escolas Dominicais da Convenção Ba­
tista do Sul dos Estados Unidos e, por­
tanto, está sujeita ao controle da Con­
venção. O seu programa de publicações é
executado por oficiais administrativos
que agem segundo a orientação e a polí­
tica de membros eleitos pela Convenção.
Em 1969, a Editora Broadman publicou
o primeiro volume do THE BROAD­
MAN BIBLE COMMENTARY, uma
obra em doze volumes, destinada ao sério
estudo da Bíblia, como parte dos com­
promissos programáticos correntes da
Junta de Escolas Dominicais.
Esta revisão do Volume 1 é publicada
em resposta às decisões dos mensageiros
de 1970 e 1971 da Convenção Batista do
Sul, tendo sido estas decisões interpreta­
das pelos membros eleitos da Junta de
Escolas Dominicais e implementadas pe­
los oficiais administrativos da Junta.
Clyde T. Francisco foi encarregado de
escrever um novo comentário sobre o li­
vro de Gênesis, para este volume. Bar-
clay H. Newman, Jr., foi convidado a
escrever um novo artigo a respeito de
“As Escrituras Traduzidas”, visto que o
escritor deste artigo anteriormente pu­
blicado pediu que a sua obra não fosse
usada neste Volume 1revisado. A lista de
colaboradores para todo o Comentário
foi atualizada. Todo o outro material é
idêntico ao do volume publicado em
1969.
Abreviaturas
ASV — American Standard Version
Heb. — Hebraico
IBB — Imprensa Bíblica Brasileira
(Versão Revisada)
IDB — Interpreter’s Dictionary of the
Bible
Int. — Introdução
JBL — Journal ofBiblicalLiterature
KJV — King James Version
lit. — literalmente
LXX — Septuaginta
marg. — margem
RSV — Revised Standard Version
Sumário
Artigos Gerais
O Livro da Fé Cristã Clifton J. A llen .................... 17
As Escrituras Traduzidas Barclay M. Newmàn, Jr. .. 35
A Interpretação da Bíblia John P. Newport.................. 51
A Geografia da Bíblia B. Elmo Scoggin.................. 63
A Arqueologia e a Bíblia Joseph A. Callaway ............ 73
O Cânon e o Texto do Velho Testamento Burlan A. Sizemore, Jr . . . . 83
A História de Israel Clyde T. Francisco ............ 93
A Teologia do Velho Testamento E .C .R u st............................ 111
Abordagens Contemporâneas John I. Durhan.................... 131
no Estudo do Velho Testamento
Gênesis Clyde T. Francisco
Introdução.............................................................................................................. 145
Comentário Sobre o Texto.................................................................................... 171
Êxodo Roy L. Honeycutt, Jr.
Introdução.................................................... ......................................................... 367
Comentário Sobre o Texto.................................................................................... 385
Artigos Gerais
O Livro da Fé Cristã
Clifton J. Allen
Começamos com a afirmação de que a
Bíblia é a Palavra de Deus. Mas não po­
demos parar neste ponto. Os crentes pre­
cisam fazer algo mais do que simples­
mente louvar a Bíblia. Precisam estar
preparados para se haverem com sérias
interrogações a respeito da Bíblia. Estas
interrogações são feitas não apenas por
céticos e cínicos; são feitas também por
estudantes devotos e aplicados da Bíblia.
Empenhar-se em um estudo assim apli­
cado acarreta a necessidade de enfrentar
todas as interrogações válidas a respeito
da natureza e da autoridade da Bíblia, e
uma mente aberta para avaliar a vali­
dade de suas declarações e a integridade
de seu testemunho. Não temos razão
para evitar essas interrogações. A Bíblia
não está correndo o perigo de embaraço
ou de extinção!
Os crentes também precisam tornar-se
mais conscientes dos questionamentos
realistas, mas freqüentemente hostis e
céticos do mundo incrédulo e secular a
respeito da Bíblia. Esses questionamen­
tos exigem respostas, que são dadas por
um conhecimento exato e profundo da Bí­
blia e por uma fé reverente, nutrida por
uma compreensão inteligente desse Li­
vro. Uma opinião acerca da Bíblia que
não sofreu ataques da ignorância do pre­
conceito, da incredulidade ou do orgulho
humanista, pode não ser de confiança,
porque não foi testada. Uma fé que não
faz perguntas dificilmente é fé, porque
não procura significado nenhum.
Apropriadamente, perguntamos a res­
peito da Bíblia: Qual é a sua natureza?
Como chegou até nós? Qual é a base de
sua autoridade? Qual é a sua importân­
cia e qual o seu significado? Ao conside­
rarmos estas perguntas, é essencial ter­
mos em mente o que é a Bíblia. Mais do
que qualquer outra coisa, ela é um re­
gistro e uma interpretação da auto-reve-
lação de Deus ao homem: é a narrativa
autêntica da revelação de Deus em Jesus
Cristo, para a redenção do homem. É a
história da salvação:1 o propósito salva­
dor, os atos salvadores, a graça salvadora
e o poder salvador do Senhor; a missão
salvadora do povo de Deus; e a consuma­
ção da obra salvadora de Deus através do
senhorio de Cristo. Este conceito sobre
que é a Bíblia é a perspectiva básica, da
qual este artigo procurará explorar inter­
rogações importantes a respeito da Bí­
blia.
I. A Natureza da Bíblia
Está na hora de perguntar agora: Qual
é a natureza da Bíblia? Em que sentido a
Bíblia é a Palavra de Deus? Por que ela é
tão difícil de se entender? Como é que
um livro tão antigo tem importância
atemporal? As respostas a estas pergun­
tas — e a outras de igual importância —
exigem uma compreensão amadurecida
do que é a Bíblia e uma percepção pene­
trante quanto aos seus antecedentes, suas
características e seu propósito central.
1. Origem, Ambiente Formativo e
Cultura
Antes de tudo, que seja observado que
a Bíblia é de origem antiqüíssima. Os
primeiros capítulos falam a respeito da
criação do Universo e do homem, a res­
1 Cf. A. M. Hunter, The Message of the New, Testa­
ment, particularmente as p. 11 e 12.
17
peito de Deus e de sua maneira de agir
para com o homem, desde o começo do
mundo, e a respeito de acontecimentos
que precedem uma identificação históri­
ca exata. E, em seguida, a narrativa co­
meça a contar a história de Abraão e seus
descendentes, estando estes fatos locali­
zados em cerca de 2000 a.C. O relato es­
crito da história contínua de Deus e seu
povo se estende até cobrir o primeiro
século da era cristã. Desta forma, a Bí­
blia precisa ser entendida como um livro
muito antigo.
Além disso, a Bíblia chegou a nós a
partir de um cenário semita, isto é, o
cenário do Oriente Próximo antigo. A Bí­
blia tem a ver especialmente com os
descendentes de Abraão, o povo escolhi­
do de Deus, que habitou a terra de
Canaã, uma faixa estreita ao longo do
litoral oriental do Mediterrâneo. Essa
pequena área era uma espécie de ponte
ou via de contato entre o povo da região
do vale do Tigre-Eufrates, a leste, e
o povo do vale do Nilo, a sudoeste. O
próprio Abraão representava o povo se­
mita que vivia no sudoeste da Ãsia: babi­
lônios, assírios, arameus, cananeus e fe­
nícios.
Reconhecemos também que o povo da
Bíblia expressa a cultura que era a sua
herança e o seu ambiente formativo. O
Velho Testamento reflete o ambiente
agrícola e a experiência vivencial do povo
de Israel, mas revela também a crescen­
te influência do desenvolvimento urba­
no. A maneira de o povo pensar em Deus
em termos antropomórficos, como inti­
mamente associado com as coisas da
natureza, como vingador e como sendo
parcial, em favor do povo de Israel, ex­
pressa o impacto de sua herança cul­
tural. E a maneira como esse povo pen­
sava a respeito da família — da figura
autoritária do marido e pai, da subser­
viência e inferioridade das mulheres e da
importância de ter filhos — era também
influenciada pela sua cultura. O seu con­
ceito da ordem material como expressão
imediata da presença e do poder de Deus
e as suas fortes tendências para a ido­
latria mostram o impacto entre os con­
ceitos culturais e a prática. As formas de
pensamento e conceitos que aparecem no
decorrer da Bíblia são a expressão na­
tural da experiência desse povo.
Ao tempo do Novo Testamento, os
judeus da Palestina sentiam grande anti­
patia e até amarga hostilidade, em mui­
tos casos, contra os gentios. Através do
mundo romano, o envolvimento no co­
mércio e negócios, nas grandes cidades
do império, contribuiu para a comuni­
cação, o entendimento e, em alguns ca­
sos, para um certo grau de boa vontade.
Todavia, o Novo Testamento propria­
mente dito, com o seu evangelho dinâ­
mico da redenção de Deus em Cristo,
reflete a sua origem e ambiente cultural
na herança judaico-cristã no contexto da
civilização greco-romana. O Novo Tes­
tamento chegou até nós a partir de um
ambiente judaico, através da língua gre­
ga, vindo de uma vida sob o controle de
Roma, e de uma intenção divina, me­
diante a qual o evangelho não reconhece
diferença de raça, língua ou cultura, e se
destina a todos os povos, todas as cultu­
ras e todas as gerações.
2. Literatura de Muitos Tipos e Formas
A Bíblia é muito mais do que uma
coleção de obras literárias religiosas. Pa­
ra ser entendida adequadamente, ela
precisa ser considerada como literatura
de diferentes espécies e formas. Se al­
guém analisa a Bíblia cuidadosamente,
para distinguir várias formas literárias,
encontrará exemplos das seguintes: his­
tória, lei, poesia, drama, profecia, litera­
tura de sabedoria, literatura apocalípti­
ca, hinos, antemas, sermões, discursos,
cartas, epopéias, acrósticos, genealogias,
listas estatísticas, parábolas, alegorias e
histórias. Para fins práticos, não é essen­
cial um conhecimento das distinções
mais refinadas das formas literárias;
mas, para uma compreensão madura da
18
Bíblia, o reconhecimento de que ela é
literatura de vários tipos é imperativo.
Os primeiros cinco livros da Bíblia
vieram a ser chamados de “a Lei” . Mas o
Pentateuco é muito mais do que Lei,
como forma literária. O livro de Gênesis
é histórico, biográfico e teológico. Há
material semelhante nos quatro livros se­
guintes. Mas nesses quatro livros temos a
lei, que se tornou o mandato e o livro de
texto para a adoração de Deus, para a
conduta moral do homem, e para a vida
do homem em comunidade e nas rela­
ções interpessoais. Inevitavelmente, mui­
tas das leis refletem o impacto da situa­
ção cultural de Israel, a imaturidade do
povo, em seu desenvolvimento espiritual
e moral, e o esforço dos líderes divina­
mente chamados para cultivar fidelidade
a Deus ejustiça e retidão entre o povo.
A parte seguinte, do Velho Testamen­
to, é geralmente considerada como uma
seção de livros históricos. Na Bíblia he­
braica, os livros de Josué a II Reis eram
conhecidos como os Profetas Antigos. Os
Profetas Posteriores incluíam Isaías e
Jeremias e os últimos doze livros do
Velho Testamento. Estes dois grupos,
comumente chamados de Profetas, como
seção das Escrituras Hebraicas, desta
forma incluíam a maior parte do mate­
rial histórico do Velho Testamento, e
quase todos os materiais proféticos —
uma combinação de história e profecia.
A História — e isto incluiria livros que
não os mencionados acima — conta a
história desse povo e outros aconteci­
mentos: de sofrimento, luta, sucesso, fra­
casso, apostasia, arrependimento e reno­
vação, fidelidade e rebeldia. Os fatos da
História eram recordados com realismo,
mostrando o povo no que tinha de pior e
de melhor, mostrando como ele entende­
ra mal os propósitos de Deus e por vezes
agira de maneira completamente estra­
nha à natureza de Deus, embora dissesse
estar fazendo a vontade de Deus, e mos­
trando como Deus agia para revelar-se,
para executar juízo, para derramar mise­
ricórdia e bênçãos, para vencer a igno­
rância e a perversidade de seu povo e
para levar avante o seu propósito em
Israel.
A história de Israel não pode ser enten­
dida à parte da profecia. È bom que seja
lembrado que os profetas declararam a
palavra de Deus ao povo em suas respec­
tivas gerações. Profecia não é primordial­
mente uma predição dos eventos futuros,
mas uma proclamação de julgamento ou
consolação ou dever ou propósito em
relação ao povo quanto à sua necessida­
de. Entendemos melhor os escritos profé­
ticos não como predições místicas de
acontecimentos futuros, mas como decla­
rações intemeratas do propósito de Deus
para com o seu povo em sua situação
imediata. Dado este fato, contudo, não
podemos deixar passar despercebido que
muitos dos profetas declararam a pala­
vra de Deus com aplicação no futuro,
indicando as direções do propósito de
Deus para com o seu povo, a promessa
iniludível de sua redenção para lodo o
povo, e a consumação inarredável de seu
reino de justiça e paz.
Grande parte do Velho Testamento é
de poesia. Tirando-se os livros estrita­
mente poéticos, poemas são encontrados
nos livros da lei, nos históricos e nos pro­
féticos. É importante reconhecer que a
poesia precisa ser entendida como poe­
sia, embora seja um veículo de revelação
divina. Ela depende de imagens e figuras
de linguagem. O elemento de sensações e
emoção é dominante. A verdade é ex­
pressa imaginativamente, e precisa ser
entendida através da imaginação. Um
esforço para entender a poesia com base
na redação literal ignora a natureza da
poesia, e leva a um inevitável mal-enten­
dido de seu significado.
A poesia da Bíblia, em consonância
com a natureza da verdadeira poesia, é a
expressão de intensos sentimentos, que
incluem temor, tanto quanto confiança;
ira, bem como bondade; concupiscência,
assim como pureza; ódio, como amor;
19
autopiedade, assim como autoconfiança;
e desespero, como esperança. O indício
para a interpretação exige aplicação de
percepção poética.
O livro de Jó é quase inteiramente
poético. Mas ele é também um exemplo
de drama. Daí, uma outra forma literá­
ria é usada para ensinar a necessidade de
uma verdadeira compreensão do proble­
ma do sofrimento humano. A intensida­
de do sofrimento de Jó e a natureza do
problema enfrentado fizeram do drama o
meio mais eficiente da verdade, a verda­
de finalmente revelada a Jó através da
auto-revelação de Deus, em sua sobera­
nia, sua justiça e sua grandeza.
Outro tipo de literatura é conhecido
como literatura de sabedoria. Ele é re­
presentado especialmente por Provérbios
e Eclesiastes, no Velho Testamento, e
pela Epístola de Tiago, em o Novo Testa­
mento. O livro de Jó também pode ser
identificado como literatura de sabedo­
ria. As obras de sabedoria, embora ado­
tando várias formas literárias, represen­
tam a sabedoria destilada da experiência
humana e estabelecem os valores e virtu­
des, os princípios e discernimentos que
podem compor a filosofia de vida de uma
pessoa, particularmente em termos da
escolha de alvos e do seguimento de
padrões que contribuam para a integri­
dade, harmonia, reverência, castidade,
diligência, confiança própria e realiza­
ção.
Quando chegamos ao Novo Testamen­
to, imediatamente nos defrontamos com
os Evangelhos. Quanto à forma literária,
eles combinam história, biografia, pará­
bola, discursos extensos, diálogo e ora­
ção. Mas os Evangelhos são peculiares.
Eles são documentos de fé. Falam de
uma figura central: Jesus Cristo. São o
registro dramático de Jesus em ação, do
que ele disse e fez, do impacto de sua
personalidade sobre outras pessoas, do
que outras pessoas pensaram a respeito
dele e como elas reagiram a ele, e, final­
mente, da auto-entrega de Jesus na cruz
e sua ressurreição dentre os mortos. Os
Evangelhos como literatura nunca po­
dem ser separados da realidade viva e do
impacto dinâmico do Filho do Homem.
O livro de Atos é a segunda parte da
história de Lucas-Atos. Por conseguinte,
ele mantém a relação mais íntima possí­
vel com os Evangelhos — e é quase uma
série de reportagens. Ele fala do que os
seguidores de Jesus fizeram e ensinaram
na consciência de sua presença viva com
eles e através do poder de Seu Espírito.
As cartas do Novo Testamento têm
muito em comum, como forma literária,
mas variam grandemente em extensão,
propósito e estilo literário, e auditório
pretendido. Algumas delas foram escri­
tas para igrejas, algumas para indiví­
duos, algumas para grupos esparsos de
cristãos, e algumas para destinatários
desconhecidos, não identificados. Estas
cartas, inclusive as dirigidas às sete igre­
jas, no livro do Apocalipse, constituem
uma interpretação do evangelho de Cris­
to, um retrato da vida e da prática da
igreja neotestamentária, e um registro do
ministério, fidelidade, perseguição,
luta e esperança da parte de pessoas
empenhadas no serviço de Jesus Cristo.
Uma característica dessas cartas, natu­
ralmente, é o elemento pessoal, a relação
do escritor com os seus leitores (em al­
guns casos, com uma pessoa). Ele escre­
veu para compartilhar a sua experiência
e preocupação, consciente do laço de co­
munhão cristã.
A Bíblia inclui ainda outro tipo de li­
teratura conhecida como apocalíptica.
Os dois principais livros de literatura
apocalíptica são Daniel e Apocalipse.
Esta espécie de literatura foi o produto
de épocas de intensa crise para o povo de
Deus. Ela era marcada por uma forte
preocupação escatológica, uma expecta­
tiva e uma focalização na manifestação
dinâmica de Deus em juízo. O estilo da
literatura apocalíptica era a apresenta­
ção de verdades por meio de imagens e
símbolos que representavam forças ma­
20
lignas, o sofrimento e a recompensa do
povo de Deus, e os atos poderosos de
Deus em juízo, em libertação e vitória,
Deve-se abordá-la com a percepção inteli­
gente de que o arcabouço de símbolos e
imagens aponta para pessoas, aconte­
cimentos e forças no longo e distante
passado. Mesmo assim, a verdade a res­
peito da completa soberania e do eterno
propósito de Deus, que deu encoraja­
mento e consolo ao seu povo no passado,
é igualmente relevante para o povo de
Deus através dos séculos que se vão pas­
sando.
Portanto, entenderemos que a Bíblia é
um exemplo de variegadas formas literá­
rias. Deus usou a habilidade e os inte­
resses de muitos escritores como veículo
de sua revelação. Os muitos tipos de
obras literárias contribuíram para uma
riqueza de significado e uma diversidade
e profundidade de interesse humano.
Uma percepção adequada dos elementos
característicos de estilo e forma literária
propiciarão chaves para uma compreen­
são mais plena da mensagem da verdade.
3. Revelação Divina Através de Veículos
Humanos
A Bíblia é uma revelação divina. Este
é, na verdade, o aspecto mais significa­
tivo de sua natureza, a explicação de seu
significado e a base de sua autoridade.
Não podemos parar, todavia, nestas afir­
mações. Precisamos explorar em profun­
didade o que significa revelação, o que
significa inspiração, como estes dois ele­
mentos se relacionam, como devem ser
entendidos à luz de tudo o que podemos
conhecer a respeito da natureza da Bíblia
e como ela nos chegou às mãos pela pro­
vidência de Deus.
O que é revelação? — Revelação é a
verdade que nos veio de Deus. Deus falou
ao homem de muitas maneiras: através
do mundo natural, através dos julgamen­
tos da história humana, através de provi­
dências na experiência pessoal e através
da voz interior da consciência. Mas a
Bíblia é o relato peculiar do autodes-
vendamento de Deus. Ela é o relato
escrito de suas palavras e atos.
Desde o princípio até o fim, a Bíblia
declara que Deus se revelou ao homem, e
que ela mesma, a Bíblia, é uma narrativa
de crédito dessa revelação. Frases como
as seguintes ocorrem repetidamente no
decorrer do Velho Testamento: “Disse
Deus” ; “o Senhor falou”; “Deus orde­
nou” ; “a palavra de Deus veio” ; “Deus
tomou conhecido”; “o Senhor apare­
ceu” . Elas representam um número mui­
to maior de fórmulas de revelação. A Bí­
blia também fala repetidamente do que
Deus fez, dos seus atos de criação, de
julgamento, de libertação, de eleição, de
direção, de consolação, de destruição, de
manifestação, de cura e de soberania
dominante. Deus agiu para se fazer co­
nhecido de seu povo e para realizar o seu
propósito através dele.
Mas o supremo ato da revelação de Si
próprio, por parte de Deus, a respeito de
que a Bíblia fala, foi a Sua vinda em
Jesus Cristo. “E o Verbo se fez carne, e
habitou entre nós, cheio de graça e de
verdade; e vimos a sua glória, como a
glória do unigénito do Pai” (João 1:14).
A palavra de Deus foi falada ao homem
pela Palavra viva. “Havendo Deus anti­
gamente falado muitas vezes, e de muitas
maneiras, aos pais, pelos profetas, nes­
tes últimos dias a nós nos falou pelo
Filho” (Heb. 1:1,2). Esta declaração su­
blime da Epístola aos Hebreus congrega
toda a verdade a respeito de revelação, e
nos apresenta a chave da Bíblia como
uma revelação de Deus. O Velho Testa­
mento apontava para a vinda de Alguém
que seria o agente da redenção de Deus.
O Novo Testamento fala de sua vinda, de
sua vida sem pecado e de seu ministério
autodoador, de sua morte, de sua ressur­
reição, de sua salvação e de seu senhorio;
e declara que nele toda a plenitude da
divindade habitou corporalmente (Col.
2:9).
21
Agora estamos preparados para consi­
derar a Bíblia como um todo. Ela deve
ser considerada à luz da perfeita revela­
ção de Deus em Jesus Cristo. A suprema
revelação de Deus é uma Pessoa. Tudo o
que a Bíblia nos fala a respeito de Deus,
sua natureza, seus atos e do que várias
pessoas entenderam a respeito dele ou
lhe atribuíram, precisa ser interpretado e
colocado em harmonia com a natureza,
a verdade, o amor e o propósito de Deus
em Cristo. Este fato reconhece que mui­
tas pessoas a quem Deus falou “de mui­
tas maneiras” antes da vinda de Cristo
não entenderam Deus perfeitamente, não
apreenderam o seu propósito plenamente
e não podiam conhecer a sua vontade
claramente.
Os exemplos do Velho Testamento, de
aparente conflito com o fato de que Deus
é amor, segundo muita gente diz, são
simplesmente mistérios de onisciência, e,
portanto, não devem ser questionados.
Tais pessoas abordarão quaisquer misté­
rios desnorteantes das Escrituras desta
forma, e ficarão satisfeitas. Por outro
lado, muitas outras pessoas insistirão
que a Bíblia, embora seja a revelação de
Deus que tem autoridade completa, pode
ser corretamente entendida, corretamen­
te interpretada, tão-somente à luz plena
da verdade de Jesus Cristo, a Palavra
viva, a completa e perfeita revelação de
Deus. Essas pessoas afirmarão que isto
está em harmonia com o propósito eterno
de Deus de que todas as coisas no céu e
na terra e debaixo da terra se submete­
rão ao senhorio de Cristo. As Sagradas
Escrituras devem ser melhor entendidas
à luz do que ele ensinou, do que ele fez e
de quem ele é, como a Palavra de Deus.
Inspiração e revelação. — Duas passa­
gens da Escritura imediatamente vêm à
nossa mente: primeiro, as palavras de
Paulo a Timóteo: “Toda Escritura é divi­
namente inspirada e proveitosa para en­
sinar, para repreender, para corrigir,
para instruir em justiça; para que o ho­
mem de Deus seja perfeito, e perfeita­
mente preparado para toda boa obra” (II
Tim. 3:16,17); depois, de II Pedro: “Ne­
nhuma profecia da Escritura é de par­
ticular interpretação. Porque a profecia
nunca foi produzida por vontade dos ho­
mens, mas os homens da parte de Deus
falaram movidos pelo Espírito Santo”
(1:20,21). Estas passagens, e outras, di­
reta ou indiretamente, afirmam que a
Bíblia é uma revelação inspirada.
Termos como os seguintes são usual­
mente aplicados a inspiração: inspira­
ção verbal, inspiração plenária e inspira­
ção dinâmica. A conotação ou significa­
do ligado a estas palavras varia ampla­
mente. A questão, em grande parte, resi­
de no grau de inerrância das palavras da
Escritura e o conceito de unidade na
mensagem da Escritura.
A opinião da inspiração verbal é geral­
mente aplicada às Escrituras na língua
original, e não a traduções subseqüen­
tes, embora, na verdade, esta opinião
freqüentemente seja entendida e defen­
dida principalmente em relação a tradu­
ções para o vernáculo. Na Inglaterra e
nos Estados Unidos há um grande movi­
mento que defende a inspiração verbal
da tradução King James (do Rei Tiago,
de 1011). Embora aqui, mais uma vez,
haja variações do significado dado à ins­
piração verbal, os defensores desta opi­
nião dizem que os escritores da Bíblia
foram inspirados ao ponto de usar as
próprias palavras dadas por Deus para
expressar a sua verdade. Portanto, as
Escrituras são inerrantes e infalíveis.
Isto, obviamente, reduz o escritor qua­
se ao equivalente a uma ferramenta nas
mãos de Deus, e torna-o virtualmente um
agente completamente controlado por
Deus. Embora poucas pessoas pensantes
concordem que inspiração verbal seja
essencialmente um ditado divino, escrito
quase que mecanicamente, o processo
não deixa quase campo para uma ação
responsável ou um envolvimento pessoal
da parte do escritor. Há muitas pessoas
que esposam este ponto de vista acerca
22
da inspiração, e o consideram plenamen­
te satisfatório, em consonância com o seu
conceito da soberania e sabedoria de
Deus, e da iniciativa de Deus na revela­
ção. Elas acham que qualquer transigên­
cia desta posição leva a um abalo da
autoridade bíblica.
Outra opinião acerca da Bíblia pode
ser descrita como inspiração plenária.
Este termo tem várias conotações. O
cerne deste ponto de vista é que a Bíblia é
plenamente inspirada, mas não verbal­
mente inspirada. Os escritores não eram
agentes controlados ao ponto de não
terem utilizado a sua experiência e o seu
conhecimento. Mas eles foram ilumina­
dos tão completamente, tão guiados pelo
Espírito de Deus e cheios de seu poder,
que foram preservados de qualquer erro,
ao transmitir a revelação divina. Daí, a
Bíblia é totalmente inspirada, e a revela­
ção, inerrante, quanto a fatos, aconteci­
mentos e doutrina. Esse ponto de vista
acerca da inspiração, satisfatório e aceito
porum grandenúmero de crentes sinceros
e interessados, inclusive eruditos compe­
tentes, procura evitar uma parte do ex­
tremo literalismo e dos elementos rigida­
mente controlados de inspiração verbal,
enquanto, ao mesmo tempo, mantém um
conceito de inerrância prática de toda a
Bíblia e de suas diferentes partes.
Outro conceito de inspiração pode ser
identificado como dinâmico. Admitimos
que esta designação carece de precisão,
porque a realidade que ela identifica é
marcada por mistério e complexidade.
No entanto, essencialmente, este ponto
de vista sustenta que as Escrituras Sagra­
das vieram a existir e receberam o seu
caráter de revelação de Deus com autori­
dade através da ação do Espírito de
Deus, cujo poder vivificador, iluminador
e orientador fez de homens escolhidos os
veículos do propósito de Deus. As Escri­
turas são de fato inspiradas (“sopradas
por Deus”), porque a sua verdade é de
Deus e acerca de Deus. “Homens da
parte de Deus falaram movidos pelo Es­
pírito Santo” (II Ped. 1:21). De maneiras
que não podemos entender e através de
processos que não podemos identificar,
Deus escolheu e equipou muitas pessoas
para registrar os seus atos, para interpre­
tar os seus propósitos e para declarar a
sua palavra.
De acordo com esta opinião, a inspira­
ção da Bíblia é muito mais o fato de ela
ser completa e adequada como registro
escrito da auto-revelação de Deus e como
guia para o homem em todos os assuntos
de fé e prática, do que uma questão de
inerrância em redação e analogia e certos
detalhes a respeito de pessoas e aconteci­
mentos. A inspiração é mais uma ques­
tão da mensagem da salvação de Deus do
que o método ou processo pelo qual ela
foi reduzida à forma escrita. A autorida­
de da Bíblia reside em sua integridade e
unidade, à luz da verdade de Deus em
Cristo.
A opinião de inspiração dinâmica re­
pousa solidamente na repetida declara­
ção, encontrada nas Escrituras, de que
através delas Deus fala ao homem. Esta
opinião se baseia, mais uma vez, em a
natureza inerente das Escrituras como
tesouro peculiar de sabedoria divina, que
se enquadra na totalidade da experiência
humana quanto à fé religiosa, ao dever
moral e à responsabilidade ética. A Bí­
blia continua a falar, em princípio bási­
co, a todas as gerações, com relevância e
atualidade: ela continua a declarar a
palavra do Deus vivo ao homem vivo, na
situação humana contemporânea.
Este ponto de vista se baseia, além
disso, no fato de que as Escrituras são
eficientes na experiência humana para
alcançar os propósitos de Deus. Exem­
plos importantes desta verdade são en­
contrados nas seguintes passagens: Sal­
mos 119:9,11; João 5:39; 20:31; Roma­
nos 15:4; Hebreus 4:12; II Pedro 1:16-
19; e Romanos 1:16. A evidência e prova
da inspiração da Escritura é que ela é de
fato “proveitosa para ensinar, para re­
preender, para corrigir, para instruir em
23
justiça; para que o homem de Deus seja
perfeito, e perfeitamente preparado para
toda boa obra” (II Tim. 3:16,17).
A verdade da revelação bíblica é sopra­
da por Deus. Ela é habitada pelo Espí­
rito do Deus vivo. Ela é eficiente para a
regeneração e santificação. Ë redentora e
reconciliadora. Conseqüentemente, uma
opinião dinâmica de inspiração se foca­
liza na verdade que tem sua essência,
propósito e autoridade em Jesus Cristo.
Portanto, um ponto de vista dinâmico
de inspiração não depende de uma iner-
rância mística, inexplicável e não verifi­
cável de cada palavra da Escritura ou do
conceito de que a inspiração não pode
permitir erros de fato ou de substância.
Pelo contrário, ele aceita a Bíblia total­
mente como inspirada: inerrante como a
única testemunha completamente autên­
tica da auto-revelação de Deus em Cristo
e de sua salvação através de Cristo; iner­
rante porque a sua verdade é o perfeito
instrumento do Espírito para levar os
homens à fé, justiça e esperança; e iner­
rante porque o seu ensinamento, inter­
pretado pela vida e obra de Cristo, é o
guia infalível de como o povo de Deus
deve viver e no que ele deve crer, sem
dúvida alguma, sob a direção do Espírito
de Cristo.
Talvez haja necessidade, a esta altura,
de enfatizar que as diferentes opiniões
acerca da inspiração não subsistem sem
problemas nem sem interrogações não
respondidas. Estas devem ser enfrenta­
das com honestidade e objetividade.
Os seguintes problemas são inerentes à
opinião de inspiração verbal: (1) Visto
que pessoas falíveis copiaram os manus­
critos originais através de centenas de
anos, com exatidão meticulosa, mas não
sem erros, e visto que outras pessoas
falíveis traduziram as Escrituras origi­
nais para diferentes línguas, e visto que
há variações textuais nos manuscritos
existentes mais dignos de confiança, o
valor de um original verbalmente infalí­
vel está perdido para a presente e para as
futuras gerações, não estando disponível
nenhuma cópia da obra original.
(2) Cuidadosa leitura e exame das Es­
crituras revelam algumas contradições
óbvias ou discrepâncias, não envolvendo
nenhuma doutrina de maior importância
ou questão básica, mas suficiente para
constituir um problema quanto à invali­
dez da inspiração verbal. Dois exemplos
servem para ilustrar este ponto: A refe­
rência a Abiatar (Mar. 2:26) e a Abime-
leque (I Sam. 21:1) é inconsistente. Em
um lugar se diz que o Senhor incitou
Davi a fazer um recenseamento; em ou­
tro, que foi Satanás (II Sam. 24:1;
ICrÔn. 21:1).
(3) A inspiração verbal parece submer­
gir a instrumentalidade humana ao pon­
to de que os escritores da Bíblia eram
menos do que livres em sua reação à
vontade do Espírito de Deus.
(4) A inspiração verbal tende a colocar
toda a Bíblia no mesmo nível de inspira­
ção e revelação divina.
(5) A inspiração verbal acarreta sérias
dificuldades quanto à interpretação, por­
que a redação de várias passagens, direta
ou indiretamente, parece atribuir a Deus
atos e atitudes em desarmonia com a sua
natureza como de santo amor e clara­
mente em conflito com o exemplo e o
ensino de Jesus (cf. Deut. 17:2-7; II Sam.
21:1-9 em relação com Deut. 24:16; Sal.
69:22-28; 109:6-19; 137:7-9; I Crôn. 13:
9,10).
(6) A inspiração verbal parece requerer
explicações que tornam a própria inspi­
ração verbal irreal. Por exemplo, Maria
se refere a José como pai de Jesus (Luc.
2:48). O que Maria queria dizer é facil­
mente explicado, a não ser que o intér­
prete esteja restrito à inerrância verbal.
(7) A inspiração verbal parece irrecon­
ciliável com o que parecem ser fatos que
se originam de pesquisa objetiva e estudo
sério da Bíblia. As evidências confirmam
uma autoria múltipla do Pentateuco,
aproveitando-se de fontes orais e escritas,
e por fim envolvendo compilação e edi­
24
ção, coisas que parecem forçar a opinião
de inspiração verbal ao ponto de ser
irreal. Grande parte do Velho Testamen­
to acarretaria um problema semelhante.
Lucas explica com cuidado (1:1-4) o seu
método de pesquisa e fontes de informa­
ção, coisa de pequena importância se
cada palavra que ele escreveu foi virtual­
mente ditada pelo Espírito Paulo admite
que algumas de suas declarações são
suas, e não de Deus (I Cor. 7:12,25; cf.
8-10,40). Sem dúvida, muitas das con­
clusões dos estudos críticos não podem
ser provadas dogmaticamente, mas fatos
estabelecidos e identificáveis servem para
trazer à tona as questões a respeito da
exeqüibilidade da inspiração verbal,
mais do que para confirmá-la como pon­
to de vista aceitável.
Uma opinião de inspiração plenária
acarreta grande parte dos problemas já
mencionados a respeito da inspiração
verbal, sendo as diferenças especialmen­
te uma questão de grau. Particularmen­
te, esta opinião acarreta os problemas de
uma vontade divina virtualmente impos­
ta aos escritores da Bíblia, a subserviên­
cia dos achados dos estudos críticos como
controvertendo a plena inspiração e atri­
buindo a Deus atos e atitudes aparente­
mente em desarmonia com a sua revela­
ção em Cristo. Ela legitima muitas das
declarações das Escrituras como revela­
ção, embora elas pareçam ser resultado
da fraqueza humana e uma compreensão
errada de Deus. Este ponto de vista
reconhece muito pouco o aspecto pro­
gressivo da revelação.
A opinião da inspiração dinâmica se­
melhantemente acarreta problemas; pro­
blemas peculiares a si própria. (1) Ela
enfrenta a necessidade de reconhecer e
de dar o devido valor a muitas declara­
ções bíblicas que parecem dar a entender
ou enfatizar o elemento de inspiração
plena, se não verbal. E também ela pre­
cisa explicar estas declarações sem a
distorção de pressuposição e interpretá-
las sem perder o impulso de sua impli­
cação sobrenatural. (2) Este ponto de vis­
ta acarreta a tentação de depender de­
masiadamente dos critérios e da sabedo­
ria humanos, para distinguir entre o que
é claramente a palavra falada do Senhor
e os mal-entendidos dos homens a res­
peito dos propósitos e da vontade do
Senhor. (3) Este ponto de vista acarreta a
tendência — que se toma real em dema­
siados casos — de minimizar o elemento
de inspiração divina e dar mais atenção
ao veículo humano de inspiração. (4) Es­
te ponto de vista acarreta a obrigação —
muitas vezes menosprezada pelos erudi­
tos críticos — de reconhecer o elemento
de fé reverente como a chave para o
entendimento das Escrituras e de reco­
nhecer que muitas questões difíceis a res­
peito da natureza da Bíblia não são resol­
vidas com os recursos da pesquisa crí­
tica, mas pela confiança em Deus com
humildade. (5) Os que advogam esta opi­
nião têm a obrigação de carrear para a
Bíblia um maior grau de estudo discipli­
nado, para encontrar os níveis mais pro­
fundos de verdade e um grau maior de
sensibilidade para a dinâmica do Espí­
rito vivo, a fim de ouvir a voz do Senhor
através do Espírito.
Para o escritor deste artigo, os proble­
mas da opinião de inspiração dinâmica,
embora reais, não invalidam esta opinião
acerca das Escrituras. Os problemas são
resolvidos por fé reverente no Senhor das
Escrituras e nas próprias Escrituras co­
mo a Palavra de Deus, em integridade e -
unidade em Cristo. Eles são resolvidos
com a abertura da mente para a verdade
e os frutos de pesquisa objetiva. E, além
disso, são resolvidos pela submissão ao
Espírito Santo, que interpreta a Palavra
de Deus em Cristo para todas as pessoas
que desejam conhecer a mente de Cristo
e fazer a vontade do Senhor.
Pessoas de propósitos fervorosos para
com Deus e de fortes convicções a res­
peito da revelação dele nas Escrituras te­
rão opiniões diferentes a respeito de sua
inspiração. Cada pessoa pode buscar
25
uma compreensão mais plena da Bíblia
como base para achar o ponto de vista
que torna a Bíblia mais significativa no
contexto de sua própria experiência.
Algumas declarações sumárias, relati­
vas à revelação e à inspiração, podem ser
feitas agora. (1) A opinião que uma pes­
soa tem a respeito de revelação e inspi­
ração não deve ignorar os achados da
pesquisa objetiva e do exame crítico.
(2) Uma opinião aceitável acerca da ins­
piração e da revelação precisa permitir a
tradução das línguas originais das Escri­
turas e admitir as variações nos textos
disponíveis das Escrituras Hebraica e
Grega e suas implicações, baseadas em
conhecimento irrefutável. (3) Muitas
questões que não têm perspectiva de
serem resolvidas. “Prova”, em qualquer
sentido exato ou dogmático, é dificilmen­
te apropriada para a opinião que uma
pessoa tenha quanto à revelação e inspi­
ração. Crença no fato da inspiração é
essencial; uma opinião acerca do método
da inspiração é secundária em impor­
tância. (4) Deve-se lembrar que títulos e
inscrições e assuntos deste jaez, na Bí­
blia, são adições editoriais, e não parte
dos textos originais das Escrituras.
(5) Algumas declarações a respeito de
revelação são o resultado da afinidade
hebraica-com o antropomorfismo — co­
mo a declaração de que Deus deu a
Moisés duas tábuas de pedra escritas
pelo dedo de Deus (Êx. 31:18). (6) Os
textos de prova são muitas vezes aplica­
dos a um ponto de vista de revelação e
inspiração, para sustentar conclusões
questionáveis. Por exemplo, Jesus disse
que nem um jota nem um til passará da
lei — evidentemente a Lei mosaica —
sem que tudo seja cumprido (Mat. 5:18);
e isto é alegado por algumas pessoas para
estabelecer a inerrância e infalibilidade
das Escrituras. Indubitavelmente, Jesus,
com infinita sabedoria, usou uma figura
de linguagem para enfatizar uma ver­
dade. Ele dificilmente queria fazer uma
referência a pequenos sinais de es­
crita; de outra forma, como poderia ele
separar palavras explícitas da Lei (Mat.
5:33,34, 38-39; cf. Êx. 21:24; Lev. 19:12;
Núm. 30:2; Deut. 19:21; 23:21)? (7) As
Escrituras são uma revelação progressiva
de Deus, e, por isso, uma revelação pro­
gressiva com a sua culminação perfeita e
absoluta no Verbo que se fez carne em
Cristo. (8) O fato da revelação e inspi­
ração divinas não é, de forma alguma,
dependente de uma opinião determinada
acerca da inspiração, e não corre ne­
nhum perigo por causa da pesquisa críti­
ca e do estudo erudito.
Deus usa veículos humanos. — Atra­
vés desses veículos, a revelação inspirada
é dada aos homens. A Bíblia é um livro
divino-humano. Deus revelou-se a pes­
soas vivas. Deus falou aos homens, e eles
relataram o que ele disse: contaram o
que ele fez. Eles passaram esse registro à
geração seguinte, e à seguinte, e à se­
guinte, e assim por diante. Por um pe­
ríodo desconhecido de tempo, a revela­
ção foi comunicada quase que totalmente
por tradição oral. Com o correr do tem­
po, a tradição tornou-se narrativas escri­
tas das palavras e atos do Senhor. Quan­
do isto transpirou pela primeira vez, e até
que ponto, ninguém sabe. Moisés escre­
veu as palavras do Senhor (Êx. 24:4).
Quanto Moisés escreveu não pode ser
determinado com qualquer exatidão,
mas as referências à parte que ele teve em
comunicar a revelação de Deus — espe­
cialmente mandamentos e estatutos —
justificam a conclusão de que o que ele
escreveu foi uma fonte importante, da
qual, muitos anos mais tarde, os escrito­
res do Pentateuco se aproveitaram para
fazer um relato confiável da revelação de
Deus aos filhos de Israel e dos tratamen­
tos a que ele os submeteu.
A ênfase que verificamos aqui é que
Deus ordenou veículos humanos como
canais de uma revelação escrita. Quantos
escritores? Não o sabemos. Quem eram
eles? Não o sabemos. Moisés, Samuel,
Davi, Salomão e Esdras — Deus os usou.
26
Amós, Isaías, Jeremias e Ezequiel —
Deus os usou. Mas houve outros, muitos
outros, conhecidos e desconhecidos, que
viveram durante um período de vários
séculos, que foram movidos pelo Espírito
Santo, para colocar em forma escrita a
palavra de Deus. E, juntamente com os
escritores, devem ser lembrados os que
copiaram e compilaram os escritos e fi­
nalmente lhes deram a forma em que eles
se tomaram, por fim, as Escrituras He­
braicas.
Aconteceu semelhantemente com o
Novo Testamento. Quantos foram os es­
critores e quem eram eles — não pode­
mos ter certeza. Mencionamos os nomes
familiares: Paulo, Lucas, Marcos, Ma­
teus, João, Tiago, Judas e Pedro, e é forte
a evidência para confirmar a contribui­
ção que eles fizeram. Mas, semelhante­
mente, as evidências suscitam interroga­
ções com respeito a pelo menos alguns
deles. A identidade de outros escritores é
um mistério ainda maior.
O fato de que a revelação de Deus veio
através de veículos humanos explica mui­
ta coisa a respeito da Bíblia. Explica, em
grande parte, a sua grande variedade de
forma e qualidade literária, aspectos de
seu interesse humano e diferentes dispo­
sições de ânimo, e vários níveis de per­
cepção espiritual e testemunho ético.
Permitam-nos enfatizar este princípio
de revelação. O tesouro de revelação
inspirada, a verdade da revelação bíbli­
ca, chegou até nós através de “vasos de
barro” . Os escritores eram homens. Eles
eram finitos e falíveis. Eram humanos, e,
por isso, sujeitos a limitações de conhe­
cimentos e entendimento. Mas eram pes­
soas através de quem o poder transcen­
dente de Deus operou — vivificando,
iluminando, guiando e capacitando-os
para serem os canais da mensagem sal­
vadora de Deus em Cristo. As Sagradas
Escrituras têm o seu caráter essencial em
sua natureza como revelação inspirada
de Deus. Apontando para Cristo e en­
contrando a sua unidade e o seu signifi­
cado em Cristo, elas são a Palavra de
Deus.
II. Da Revelação Para o Livro
Outra pergunta que merece conside­
ração é: Como foi que a revelação de
Deus se tomou o Livro da Escritura
Sagrada? Os desenvolvimentos não são
determináveis por evidências objetivas,
catalogadas e verificadas. Chega-se a eles
por implicações e deduções, a partir do
testemunho interno das Escrituras e do
que a pessoa crê acerca da forma como
Deus realiza o seu propósito para se re­
velar.
A princípio, a revelação foi preservada
e comunicada por transmissão oral, que
se tomou, com o passar dos tempos,
tradição oral. Aqui, tradição de forma
alguma subentende irrealidade ou algo
que seja indigno de confiança. Desde
quando o homem foi criado, Deus reve­
lou-se ao homem; e este começou a pas­
sar às gerações sucessivas a narrativa da
experiência e o depósito de verdade que
se originavam dos tratamentos de Deus
para com ele e a sua maneira de entender
os propósitos de Deus.
Parece que a mente hebraica tinha
uma capacidade peculiar de memória.
Daí a variegada experiência cultural, de
pessoas e lugares, de geografia e de his­
tória, de ritual e de adoração, de leis e
costumes, foi entregue à memória. Os
líderes de tribos e de famílias assumiram
um papel responsável em passar adiante
essas tradições, sendo as mais impor­
tantes as que se relacionavam com as
palavras e atos do Senhor.
A crescente experiência religiosa do
povo que adorava a Deus tomou-se outro
meio para se receber, interpretar e comu­
nicar a revelação. Deus tratou com o seu
povo — disciplinou-o, deu-lhe manda­
mentos, manifestou-lhe a sua glória, exe­
cutou julgamento sobre ele, libertou-o,
abençoou-o, entrou em aliança com ele e
vocacionou líderes e profetas para lhe de­
clarar as suas palavras. Os anos torna-
27
ram-se décadas, e as décadas, séculos.
Nesse ínterim, a experiência religiosa dos
filhos de Israel, enriquecida:, por vezes,
pela observância das festas e pela fideli­
dade na adoração, e pervertida, outras
vezes, pela idolatria e iniqüidade e hipo­
crisia, tornou-se um veículo de revelação.
Os acontecimentos da história de que
os filhos de Israel participaram foram
outro meio de revelação. Deus colocou o
seu povo na terra de Canaã, cercado
pelas nações do antigo Oriente Próximo.
Os israelitas estavam na estrada das na­
ções, e, inevitavelmente, na corrente da
História. O que aconteceu dentro e fora
de Israel, nunca à parte do propósito e do
poder soberanos de Deus, forneceu um
veículo de acontecimentos de revelação.
Neste mesmo contexto de experiência
religiosa e acontecimentos históricos,
Deus chamou profetas para declararem a
sua palavra ao seu povo. A palavra de
Deus veio aos profetas, e eles a declara­
ram fielmente. O ministério profético
tornou-se o veículo mais excelente, na
vida de Israel, para o depósito da revela­
ção. Foi a mensagem profética, tanto
falada quanto escrita, que enunciou mais
plenamente e interpretou mais claramen­
te a verdade a respeito de Deus, o seu
propósito para com o seu povo e a sua
vontade e o caminho que ele preconizava
para todos os homens.
Estas todas eram fontes, quer diretas,
quer indiretas, de que os sacerdotes,
escribas, reis e profetas se aproveitaram
para escrever as Escrituras do Velho Tes­
tamento. Em muitos casos, Deus falou
diretamente a indivíduos escolhidos, que
escreveram a verdade a eles revelada. Em
muitos outros casos, as evidências suge­
rem fortemente, os escritores relataram
os acontecimentos, mandamentos e ex­
periências de tradições e anais anteriores
à sua época. E, desta forma, os oráculos
de Deus se tornaram a revelação escrita
do Velho Testamento.
Exatamente quando as várias partes,
os muitos livros, do Velho Testamento
foram escritos é fato que não pode ser
determinado. O labor de escrita abran­
geu centenas de anos. Há um consenso
quase geral, entre os eruditos, de que
editores compilaram material escrito,
produzido a partir das fontes descritas
acima, e lhe deram forma permanente.
Um estudo bíblico confiável mostrará
que o Pentateuco existia essencialmente
em sua forma presente deste 400 a.C.,
aproximadamente. Os livros de Josué,
Juizes, I e II Samuel e I e II Reis eram
conhecidos pelos judeus como os “Profe­
tas Anteriores” e, provavelmente, che­
garam à sua forma presente, em grande
parte, entre 650 e 550 a.C. Os “Profetas
Posteriores” — os livros de Isaías, Je­
remias e Ezequiel, e de Oséias até Mala-
quias — chegaram, provavelmente, à sua
forma presente por volta de 200 a.C. Os
“Salmos” — os livros poéticos, junta­
mente com Rute, Ester, Daniel, Eclesias-
tes, Esdras, Neemias e I e II Crônicas —
foram escritos no decorrer de um longo
período de tempo, e se tornaram uma
coleção por volta de 132 a.C. Um concílio
de rabis judaicos, em cerca de 90 d.C.,
aceitou os 39 livros do Velho Testamento
como o Cânon Hebraico das Escrituras.
Os mesmos 39 livros foram semelhante­
mente aceitos na tradição cristã.
Algo da mesma espécie de desenvolvi­
mento aconteceu — em princípio, mas
não em padrão — relativamente ao Novo
Testamento. A suprema diferença foi
que Jesus Cristo veio, a Palavra viva entre
os homens. Alguns dos escritores o viram
na carne, ouviram-no, tocaram-no e co­
nheceram o magnetismo de sua presença
física, bem como o poder do seu Espírito
vivo dentro deles. Os apóstolos eram
pessoas que acompanharam Jesus desde
o seu batismo por João até a hora de sua
ascensão (At. 1:21,22). Os outros escri­
tores, podemos presumir seguramente,
como Lucas, conheceram e conversaram
com algumas pessoas “que desde o prin­
cípio foram testemunhas oculares e mi­
nistros da palavra” (Luc. 1:2). Desta
forma, o Novo Testamento originou-se de
um relacionamento face a face dos após-
28
tolos com Jesus e de suas conversas face a
face com ele depois de sua ressurreição,
das tradições orais de testemunhas
oculares do Senhor, da experiência re­
dentora de seguidores que haviam crido,
dos acontecimentos históricos de teste­
munhas apostólicas, da koinonia da Igre­
ja viva, das tribulações, sofrimentos e
perseguições pelo nome de Cristo, da
visão do Cristo vivo e da comunicação
direta da sua palavra de verdade, graça e
vitória.
Tanto quanto em relação ao Velho
Testamento, o período em que foram
escritos os 27 livros do Novo Testamento
não pode ser fixado de maneira defini­
da. Cada livro, em certo sentido, subsis­
te isoladamente. Os eruditos têm opi­
niões várias, que serão abordadas na»
introduções do comentário de cada livro.
As evidências aceitas genericamente deli­
mitam o período em que esses livros
foram escritos entre 50 e 100 d.C., em­
bora algumas evidências confirmem uma
data posterior, para alguns livros, por
exemplo, algumas das cartas gerais. Du­
rante o mesmo período, muitos livros
cristãos foram escritos. Surgiu a questão:
Quais dentre todas essas obras deviam
ser reconhecidas como inspiradas e con­
tadas como parte das Escrituras? O teste
de sua aceitação e valor por mais de três
séculos — guiado, podemos estar certos,
pelo Espírito Santo — levou à aceitação
dos 27 livros que se tornaram o Novo
Testamento. Por volta do fim do quarto
século, esses livros haviam ganho aceita­
ção como sendo revelação dada por
Deus, para os cristãos, através das eras
futuras. “O cânon foi determinado pelo
uso, pelo consentimento comum da co­
munidade cristã, testando os livros em
sua vida diária, no decorrer de séculos; e
não por autoridade formal” (F. W. Bea-
re, IDB, I, 531).
Uma palavra precisa resumir a ver­
dade, e dar a chave para o mistério e a
realidade de a revelação inspirada ter-se
tornado as Escrituras Sagradas: o sobe­
rano Espírito de Deus. Ele chamou e
iluminou, guiou e capacitou, e moveu
homens para falar da parte de Deus e em
nome de Deus.
III. O Significado da Bíblia
O significado da Bíblia baseia-se em
características óbvias e importantes, a
saber, a sua autoridade e a sua importân­
cia.
1. A Autoridade da Bíblia
A autoridade da Bíblia, indubitavel­
mente, origina-se no fato de ela ser reve­
lação inspirada de Deus,. Considerada
em sua integridade e unidade, ela é a
Palavra de Deus. Por isso ela tem a
autoridade de Deus por detrás dela. Ela é
o mandato divino para a fé religiosa e
para o dever moral da humanidade.
Porém é necessário que se diga muito
mais do que isto. Como é que a autorida­
de da Bíblia se relaciona com Jesus Cris­
to? Ele dizia ter toda a autoridade no céu
e na terra. Ele exerceu autoridade sobre
a natureza, a doença, os demônios e a
morte. Deus “o fez Senhor e Cristo” (At.
2:36). A autoridade final e última sobre
todas as pessoas e todas as coisas é o
Cristo vivo. Segue-se, portanto, que a
autoridade da Bíblia deve sempre ser
vistá à luz do senhorio de Cristo. A sua
autoridade reside não na inerrância de
palavras e frases, ou na coerência per­
feita de todos os números e acontecimen­
tos ou no entendimento perfeito de Deus,
da parte dos seus servos escolhidos. Pelo
contrário, a sua autoridade está em seu
testemunho autêntico de Jesus Cristo
como o Verbo de Deus. E é bom que seja
enfatizado que a maneira de uma pessoa
entender quem é Cristo como o Filho de
Deus e como o Verbo feito carne, enten­
der a sua obra salvadora através da sua
morte e ressurreição e o seu senhorio
eterno precisa ser testada pelo Novo Tes­
tamento. Uma verdadeira compreensão
de Cristo e do que significa a sua autori­
dade não pode ser determinada por jul-
29
gamento subjetivo nem somente pela ex­
periência. A autoridade da Palavra escri­
ta encontra-se na autoridade da Palavra
viva, através da direção do Espírito San­
to. Nesta base, o Novo Testamento deve
ser aceito pelos crentes como o guia de
autoridade para todos os assuntos de fé e
prática.
Portanto, a autoridade da Bíblia não é
algo legal e judicial nem a compulsão do
literalismo nem a obrigação de prova,
mas a liberdade do senhorio de Cristo e a
voz de seu Espírito. Essa autoridade é
confirmada por aceitação interior, e não
por declaração exterior. Por conseguinte,
para concluir, “a autoridade da Escritu­
ra encontra-se no poder do Senhor vivo
de autenticar a si mesmo, quando fala ao
coração humano através das palavras e
da Escritura” (Rolston: The Bibie and
Christian Teaching, p. 34).
2. A Importância da Bíblia
Mais uma vez, o significado da Bíblia
deve-se à sua importância. Ela fala a
todas as gerações. Isto é verdade, porque
ela é a Palavra de Deus, que é eterna e
imutável. E, também, ela fala a pessoas
nos níveis mais profundos da experiência
humana, às suas necessidades, aspira­
ções, possibilidades e responsabilidades
como pessoas feitas à imagem de Deus.
A Bíblia é sempre contemporânea, por­
que ela é a palavra da vida vinda do
Senhor da vida.
A relevância da Escritura é verificada
também em sua dimensão universal. Ela
declara a mensagem de Deus ao homem
como homem — daí, a todos os grupos
culturais, a todas as raças, a todas as
nações e a todas as pessoas, não importa
qual seja a sua condição social ou eco­
nômica, qual a sua situação humana.
A Bíblia é importante para toda a
humanidade, porque declara a mensa­
gem da salvação. Ela conta as boas-novas
do amor de Deus por uma raça pecadora,
fala da redenção de Deus através de Je­
sus Cristo, de seu desejo de que todas as
pessoascheguem ao arrependimento e das
riquezas da graça em Cristo, pelas quais
todo aquele que invocar o nome do Se­
nhor será salvo (Rom. 10:13). Em ne­
nhum ponto a Bíblia é mais importante
do que quando declara o fato da culpa
universal do homem, devido ao pecado, o
fato de que Jesus morreu pelos pecados
do mundo, o fato de que Jesus ressusci­
tou dentre os mortos e o fato da certeza
de que Jesus Cristo “pode também salvar
perfeitamente os que por ele se chegam a
Deus, porquanto vive sempre para inter­
ceder por eles” (Heb. 7:25). Por esta
razão, acima de tudo, a Bíblia é o Livro
da fé cristã.
A Bíblia é importante porque confron­
ta os crentes com o significado e as exi­
gências do discipulado cristão. Para eles,
a Bíblia é o guia de doutrina e prática, de
adoração e ministério, de comunhão e
testemunho, de certeza e esperança, que
tem autoridade divina. Visto que Jesus é
Senhor, os ensinamentos de Jesus em o
Novo Testamento e o exemplo de sua
vida na carne precisam ser o critério
mediante o qual se viva a vida cristã no
mundo.
A importância da Bíblia é expressa
pelo apaixonado interesse de Deus pelo
bem-estar de todos os homens. Por isso,
ela declara a dignidade e o valor de todo
homem, seja qual for a sua raça ou si­
tuação, como pessoa feita à imagem de
Deus. Ela declara também o juízo de
Deus sobre as pessoas que por orgulho,
cobiça e concupiscência exploram outras
pessoas e lhes roubam as oportunidades
legítimas de realizar os mais elevados
potenciais da personalidade. A Palavra
de Deus proclama contra a opressão, a
injustiça e a corrupção, e advoga a
causa dos famintos, doentes e necessi­
tados. A Bíblia declara o senhorio de
Cristo sobre a vida toda, sobre a ordem
social e todas as pessoas que estão nela.
O homem deve amar o seu próximo como
30
a si mesmo. O Livro da fé cristã é uma
carta patente de justiça e paz na terra, e
um comissionamento de ministério para
pessoas necessitadas, em qualquer parte.
A importância da Bíblia se origina do
fato de que ela fala de maneira signifi­
cativa e confiante aos problemas da hu­
manidade em um universo dinâmico.
Ciência, tecnologia, cibernética, pesqui­
sa, exploração do espaço, energia atômi­
ca e mudança social refletem as leis do
Universo. Encontramos, na Bíblia, a pa­
lavra que nos dá uma perspectiva cristã:
Deus em Cristo é o criador de todas as
coisas (João 1:3); “nele subsistem todas
as coisas” (Col. 1:17). O Deus que criou
e controla o universo material é plena­
mente capaz de, com infinita sabedoria e
poder, controlar o universo moral.Com
Jó, podemos dizer: “Bem sei que tudo
podes, e que nenhum dos teus propósitos
pode ser impedido” (Jó. 42:2).
A Bíblia é importante porque ela en­
frenta honestamente as interrogações
cruciantes da humanidade: Quem é
Deus? Como é Deus? Que é o homem?
Qual é o destino do homem? Como o
homem pode conhecer Deus? Se um ho­
mem morrer, viverá de novo? Qual é o
significado da existência? Qual é o signi­
ficado da História? Para que serve a
vida? As respostas devem ser encontra­
das não na lógica ou na dogmática ou
na prova cientifica, mas na experiência
do homem com Deus, através da fé em
Jesus Cristo, e na confiante comunhão
com ele, através do Espírito.
A Bíblia é importante porque ela enco­
raja esperança em Jesus Cristo. A sua
ressurreição da sepultura declarou a sua
vitória sobre o pecado e a morte. O seu
reino é eterno. Ele voltará em glória e
triunfo. “Segundo a sua promessa,
aguardamos novos céus e uma nova ter­
ra, nos quais habita a justiça” (II Ped.
3:13). O propósito eterno de Deus para a
redenção do homem chegará ao seu cum­
primento em Cristo (Ef. 1:9,10).
IV. Como Se Aproximar da
Bíblia
Visto que a Bíblia é a Palavra de Deus
para a vida do homem e visto que ela é o
guia que tem autoridade em questões de
experiência moral e espiritual e em todos
os assuntos de fé religiosa e conduta
moral, qual é a maneira correta de se
aproximar da Bíblia? Com que atitude e
objetivos os crentes devem ler e estudar a
Bíblia?
1. A abordagem da Bíblia exige o
reconhecimento de sua natureza e seu
propósito e também a percepção dos
atributos dela que influenciam a com­
preensão de sua mensagem e sua impor­
tância para a vida em nossa época. A Bí­
blia não é mágica. Ela é revelação. Ela é
um livro divino-humano. Teve muitos es­
critores. Veio à existência através de um
longo período, que cobre cerca de doze
séculos ou mais. A princípio foi escrita
em hebraico, aramaico e grego. A chave
de sua mensagem e significado é Jesus
Cristo, a Palavra viva.
2. A abordagem da Bíblia deve ser de
reverência e fé. Ela fala acerca de Deus.
A energia, sabedoria e direção do Espí­
rito Santo estão nela. O propósito de
Deus é realizado por ela. A verdade re­
dentora, reconciliadora e santificadora
de Deus é o seu conteúdo e dinâmica.
Ela transpira interesse amoroso da parte
do Deus de graça. Declara o julgamento
moral do Deus justo. Fala com a autori­
dade do Deus soberano. Testifica da
graça salvadora de Deus em Cristo. Co­
mo pode qualquer pessoa ousar manu­
sear o Livro sagrado sem que seja com
reverência para com Deus e reverência
pela verdade e poder de Deus em Cristo?
Este livro reclama fé — não fé impen­
sada e bisonha, mas inteligente e con­
fiante. Ele é a narrativa única completa­
mente digna de confiança a respeito da
plena revelação de Deus em Cristo e sua
salvação através de Cristo. Para a pessoa
que está disposta a crer na Bíblia, quan­
31
do ela busca a verdade a respeito da
Bíblia e na Bíblia, ela se tomará vivifi­
cada, com significado e certeza.
3. A abordagem da Bíblia exige aber­
tura de mente, um espírito apto para
aprender e uma sede de aprender. As
laboriosas pesquisas empreendidas por
lingüistas, arqueólogos, historiadores e
eruditos bíblicos propiciaram um vasto
acervo de conhecimento e percepção que
enriquecem o estudo bíblico. O estudan­
te sério das Escrituras precisa estar dis­
posto a se empenhar em um estudo disci­
plinado, para aprender do trabalho dos
outros. Porém, com abertura de mente
para a verdade, sejam quais forem as
suas fontes, ele precisa desenvolver pes­
soalmente faculdades críticas para testar
os conceitos e pontos de vista dos outros,
sempre provando novas idéias e concei­
tos, mediante a própria Bíblia e no labo­
ratório do discipulado obediente. Preci­
sa, além disso, pôr à prova esses concei­
tos e pontos de vista, lendo abundante­
mente a obra de muitos autores e usando
o laboratório de experiência que os cris­
tãos maduros possuem. Finalmente, o
teste de toda a verdade a respeito da Bí­
blia é a questão se ela contribui para uma
fé mais vital na Bíblia, obediência mais
completa aos seus ensinos e uma dedica­
ção mais significativa a Cristo, como
Senhor.
4. A abordagem da Bíblia propria­
mente requer prontidão para obedecer
aos seus mandamentos e prática discipli­
nada de seus ensinos. Ela é a voz da auto­
ridade divina. É a prescrição para rela­
cionamentos harmoniosos. É a diretriz
para excelência moral na vida pessoal,
princípios retos e amor cristão nos rela­
cionamentos sociais, e autodoação (abne­
gação) como a de Cristo e ministério às
necessidades das outras pessoas. Acima
de tudo, ela é uma conclamação a uma fé
voluntária em Jesus Cristo como Salva­
dor e plena dedicação a ele como Senhor.
A palavra de Deus penetra no coração
obediente. Sua palavra deve ser trans­
formada em experiência. “A chave para
a compreensão das Escrituras, tanto do
Velho quanto do Novo Testamento, é o
reconhecimento de Jesus como Senhor”
(Rolston: ibid., p. 33).
5. A abordagem da Bíblia exige um
senso de dependência do Espírito Santo e
uma comunhão dinâmica com ele. Ho­
mens movidos pelo Espírito Santo fala­
ram da parte de Deus. Daí, pessoas aten­
tas ao Espírito, guiadas pelo Espírito,
que receberam poder do Espírito e estão
ansiosas para fazer a vontade do Espírito
ouvem melhor a palavra que vem de
Deus. Ele é o divino Conselheiro, o su­
premo Intérprete. Ele conhece a vontade
de Deus. Ele faz da Palavra escrita uma
palavra viva, escrita no coração, para ser
“conhecida e lida por todos os homens”
(II Cor. 3:2).
Para Leitura Adicional
CARTLEDGE, SAMUEL A. The Bible:
God’s Word to Man. Philadelphia:
Westminster Press, 1961.
DODD, C. H. The Authority of the
Bible. London: Collins Clear Type
Press, Edição Revisada, 1960.
HENRY, CARL F. H. Revelation and
the Bible. Grand Rapids: Baker
Book House, 1958.
HUNTER, A. M. The Message of the
New Testament. Philadelphia:
Westminster Press, 1944.
HUXTABLE, John. The Bible Says.
Richmond: John Knox Press, 1962.
Interpreter’s Dictionary of the Bible.
Nashville: Abingdon, 1962. Veja os
artigos: “Canon of the Old Testa­
ment”, R. H. Pfeiffer, Vol. A-D;
“Canon of the New Testament”,
F. W. Beare, Vol. A-D; “Inspira­
tion and Revelation”, G. W. H.
Lampe, Vol. E-J; “Scripture, Au­
thority of”, Alan Richardson, Vol.
R-Z.
KELLY, BALMER H., Editor. Intro­
duction to the Bible. “The Layman’s
32
Bible Commentary”, Volume 1.
Richmond: John Knox Press, 1959.
ROLSTON, HOLMES. The Bible in
Christian Teaching. Richmond:
John Knox Press, 1962.
ROWLEY, H. H. The Relevance of the
Bible. Carter Lane: England: James
Clarke and Co., 1941.
SMART, JAMES D. The Interpretation
of Scripture. Philadelphia: West­
minster Press, 1961.
33
As Escrituras Traduzidas
Um engenheiro aeronáutico certa vez
disse a um tradutor da Biblia que no
campo da aeronáutica “translação é ques­
tão de vida e morte.” (*) Historicamen­
te, os tradutores da Bíblia têm sentido a
mesma coisa em relação à sua responsa­
bilidade. A tradução das Escrituras co­
munica a mensagem que de fato faz di­
ferença entre vida e morte para todos
nós. A tradução da Bíblia teve início
séculos antes de Cristo, e continua hoje
em uma escala mais ampla do que nun­
ca.
I. Antigas Traduções da Bíblia
Targuns Aramaicos do Velho Testa­
mento. As “traduções” mais antigas (na
verdade, paráfrases) de alguma porção
da Bíblia são os targuns aramaicos do
Velho Testamento, que surgiram para
suprir as necessidades dos judeus pales­
tinos, que entendiam aramaico melhor
do que o hebraico, que era a linguagem
do Velho Testamento. Depois do Exílio,
tornou-se costume, nas sinagogas pales­
tinas, acompanhar a leitura das Escri­
turas em hebraico com uma tradução
aramaica. Hoje, manuscritos do targum
existem para o Pentateuco, os livros pro­
féticos e a maior parte do restante do
Velho Testamento.
A Tradução Grega do Velho Testa­
mento. A tradução grega das Escrituras
Hebraicas foi produzida especialmente
para suprir as exigências de judeus não-
palestinos, cuja língua cotidiana era o
grego. Tiáham necessidade disso espe-
(*) NOTA DO TRADUTOR: Em inglês, “transla­
ção” e “tradução” são a mesma palavra. Dai,
um jogo de palavras impossível de seguir em
português.
Barclay M. Newman, Jr.
cialmente os judeus do Egito, e foi ali,
em Alexandria, que o Pentateuco foi
traduzido durante o reinado de Ptolomeu
Filadelfo (285-246 a.C.). Durante os dois
séculos seguintes o restante das Escritu­
ras Hebraicas foi traduzido para o grego.
A tradição é de que esta obra foi feita por
um grupo de setenta (ou setenta e dois)
eruditos. Por isso, ela veio a ser conheci­
da como Septuaginta (LXX), que signifi­
ca “setenta”.
Versões Siríacas. Já em 150 d.C., o
Novo Testamento foi traduzido para o
siríaco, dialeto do aramaico falado na
Síria e na Mesopotâmia. Perto do fim do
quarto século as versões siríacas existen­
tes foram revisadas, com base no grego, e
a tradução resultante tornou-se conheci­
da como Peshitta, ou versão “simples”.
Versões Latinas. A versão Latina An­
tiga, segundo se crê, data, aproximada­
mente, do mesmo tempo que as primei­
ras versões siríacas, e parece ter-se origi­
nado no Norte da Ãfrica, embora algu­
mas pessoas argumentem que tenha sido
Antioquia da Síria, ou Roma, o seu lugar
de origem. O Velho Testamento não foi
traduzido diretamente do hebraico, mas
da Septuaginta. Aparentemente, no
quarto século havia várias versões latinas
competindo umas com as outras. Desta
forma, o Papa comissionou Jerônimo
para revisar a Bíblia latina, o que ele fez
usando o texto hebraico como base
para a sua versão do Velho Testamento.
A tradução de Jerônimo é conhecida
como a Vulgata ou versão “comum” .
Versões Cópticas. O cóptico é a forma
modernizada da antiga língua egípcia; é
escrito com caracteres gregos, com a
adição de várias letras que representam
35
sons consonantais que não existem no
grego. Já em 200 d.C., o Novo Testamen­
to foi traduzido para o saídico, um dos
mais importantes dialetos cópticos, e no
decorrer de um século a maior parte dos
livros da Bíblia apareceu em saídico. Os
tradutores usaram a Septuaginta como
base para o trabalho com o Velho Testa­
mento. Mais tarde, foram feitas tradu­
ções em outros dialetos cópticos, sendo a
mais importante a em boaírico, que final­
mente superou as outras versões cópticas.
Outras Versões Antigas. A primeira
versão em uma língua teutônica foi a
Versão Gótica, feita pelo erudito Bispo
Ulfilas, nos meados do quarto século.
Uma tradução armênia foi feita no quin­
to século, por Meshrop, que inventou o
alfabeto armênio, e por Sahak, o Patriar­
ca. Meshrop também inventou o alfabeto
geórgio, embora não seja conhecido o
autor da tradução das Escrituras em
geórgio (quinto século).
II. A Bíblia em Inglês
1. Antes da Versão King James
Indubitavelmente, a Versão do Rei
Tiago (King James Version — KJV) é a
mais notória de todas as traduções da
Bíblia em inglês, e foi uma importante
história de acontecimentos que levou à
publicação desta versão. De fato, pode-se
dizer que a história da Bíblia inglesa
começou com a introdução do cristia­
nismo na Bretanha durante a primeira
parte do terceiro século. Nesse primeiro
estágio, a mensagem bíblica deve ter
passado adiante em primeiro lugar oral­
mente, época em que os homens apresen­
tavam interpretações livres da Bíblia la­
tina no vernáculo. E também, através da
arte, do cântico, do drama e do ritual, as
verdades bíblicas foram comunicadas às
massas. Pelo menos dois fatores impedi­
ram qualquer trabalho sério de tradu­
ção. O primeiro foi o medo da Igreja de
perder o controle sobre as mentes do
povo, se lhe fosse permitido estudar as
Escrituras por si mesmo; o segundo foi o
analfabetismo generalizado.
Tanto quanto se sabe, a primeira tra­
dução da Bíblia toda em inglês foi reali­
zada por John Wycliffe, que produziu o
Novo Testamento no ano de 1380, se­
guido por toda a Bíblia um ou dois anos
mais tarde. Visto que Wycliffe não co­
nhecia o grego, a sua tradução foi feita a
partir do latim, e incluía os Livros Apó­
crifos. A esperança de Wycliffe era que a
sua tradução alcançasse o povo comum;
e isto foi por fim conseguido através da
revisão de sua obra por seus colegas,
pouco depois de sua morte, em 1384.
William Tyndale produziu a primeira
edição impressa da Bíblia inglesa. Por
volta de 1510, ano em que Tyndale foi a
Oxford, para estudar, havia acontecido
um reavivamento de interesse por línguas
antigas, inclusive pelo hebraico e o gre­
go, as línguas das Escrituras. Assim,
quando Tyndale começou o seu trabalho
com o Novo Testamento, por volta de
1522, foi capaz de usar o texto grego
como base para a sua obra. Incapaz de
receber apoio das autoridades eclesiásti­
cas inglesas, para os seus esforços, ele
dirigiu-se à Alemanha, para conseguir
esse apoio. Finalmente, na cidade de
Worms, lugar em que Martinho Lutero
havia sido levado a julgamento quatro
anos antes, Tyndale publicou a sua pri­
meira edição do Novo Testamento, em
1525. No começo do ano seguinte, cópias
de sua obra começaram a ser contraban­
deadas para a Inglaterra, onde foram
ansiosamente recebidas pelas massas.
Em 1530, Tyndale publicou o Pentateu-
co, e, no ano seguinte, o livro de Jonas.
Em 1535, saiu uma edição corrigida de
seu Novo Testamento revisado. Naquele
mesmo ano, ele foi traído por um “ami­
go” , aprisionado e, um ano e meio mais
tarde, morto por estrangulamento e quei­
mado em uma estaca. As suas últimas
palavras foram: “Senhor, abre os olhos
do rei da Inglaterra.”
36
No outono de 1535, um monge agosti-
niano, chamado Miles Coverdale, tradu­
ziu o Novo Testamento. A sua obra, que
ele admitiu ser baseada no latim e no
alemão, e talvez ainda mais na obra de
Tyndale, se destinava a tomar-se a pri­
meira Bíblia completa em inglês. Ele
dedicou o seu trabalho ao Rei Henrique
VIII, eliminou notas controversas e res­
taurou termos eclesiásticos favoritos, que
haviam sido alterados por Tyndale, fa­
tores que fizeram de sua tradução um
trabalho mais aceitável para os que esta­
vam em posição de autoridade.
A primeira Bíblia a receber aprovação
oficial na Inglaterra foi a chamada Bí­
blia de Matthew, por causa de sua cone­
xão com um certo Thomas Matthew.
Mas, na verdade, Thomas Matthew pare­
ce ter sido o pseudônimo de John Rogers,
amigo de Tyndale, que foi o primeiro dos
protestantes a ser condenado à morte
durante o reinado da infame Maria Tu-
dor, mais conhecida como Bloody Mary
(Maria, a Sanguinária). Em 1537, a Bí­
blia de Matthew foi publicada e aprova­
da por Henrique VIII para uso em leitu­
ras privadas.
Até então não havia uma Bíblia que
fosse oficialmente sancionada pelo rei e
pelas autoridades eclesiásticas para uso
na adoração pública. Foi oferecida a
Coverdale a responsabilidade desta tare­
fa, cujo resultado foi a Bíblia Grande,
publicada em 1539, única versão já auto­
rizada por um rei da Inglaterra. Até
mesmo a KJV, freqüentemente mencio­
nada como Versão Autorizada, nunca
recebeu o reconhecimento como tal por
decreto oficial. Ordenou-se que a Bíblia
Grande fosse colocada em todas as igre­
jas da Inglaterra. Durante os anos se­
guintes, restrições foram impostas à lei­
tura pública da Bíblia propriamente
dita, e, em 1546, iniciou-se um esforço
organizado para queimar todas as Bí­
blias, exceto a Bíblia Grande.
As instáveis condições políticas da In­
glaterra, em seguida ao reinado de Hen­
rique VIII, fizeram necessário que os
clérigos evangélicos e reformadores pro­
curassem refúgio fora do país. Um dos
principais centros para onde essas pes­
soas fugiram foi Genebra, onde apare­
ceu, em 1560, a Bíblia de Genebra, com
a ajuda de eruditos, como Coverdale,
John Knox, João Calvino e Theodore
Beza. Por várias razões, esta foi, sem
comparação, a melhor Bíblia inglesa
produzida até então: o Velho Testamen­
to seguia o texto hebraico mais de perto
do que qualquer tradução anterior; as
notas marginais não eram tão controver­
sas como nas traduções anteriores; e essa
foi a primeira vez que foi usada a divisão
em versículos na Bíblia toda, como à co­
nhecemos hoje. Além do mais, os tradu­
tores tiveram a vantagem de ser capazes
de usar como base de seu trabalho a Bí­
blia Grande e a edição do Novo Testa­
mento feita por William Whittingham,
em 1557.
Por fim, a Bíblia de Genebra provou
ser demasiada competição para a Bíblia
Grande, mas houve forte oposição à sua
adoção como Bíblia oficial para a Igreja
da Inglaterra. Como tentativa para re­
solver essa situação, Matthew Parker,
Arcebispo de Cantuária, propôs uma re­
visão da Bíblia por uma equipe de estu­
diosos. Por causa da predominância de
bispos, nessa comissão, a tradução ficou
conhecida como Bíblia dos Bispos. Ime­
diatamente depois de sua publicação, em
1568, ela tomou-se a Bíblia oficial da
Igreja da Inglaterra, mas não podia com­
petir em popularidade com a Bíblia de
Genebra.
Embora a Igreja Romana, em princí­
pio, se opusesse à indiscriminada disse­
minação da Bíblia entre o povo comum,
ela sentiu-se compelida a produzir uma
Bíblia sua. O Novo Testamento apareceu
em 1582 e recebeu o seu nome de
Rheims, cidade francesa em que a tradu­
ção foi feita e impressa. Em 1609-1610, o
Velho Testamento foi publicado em
Douay, França. A Bíblia toda, conhecida
37
como Versão Douay, tornou-se a Bíblia
oficial da Igreja Católica de fala inglesa.
Ela se baseava na Vulgata, e não nas
línguas originais da Escritura.
2. A Versão do Rei Tiago
Quando o rei Tiago VI, da Escócia,
tornou-se o rei Tiago I da Inglaterra,
havia pelo menos três versões da Bíblia,
em competição umas com as outras: a
Bíblia de Genebra, a Bíblia Grande e a
Bíblia dos Bispos. Tiago tinha pontos de
vista fortemente protestantes, bem como
um pronunciado interesse em estudos
bíblicos e tradução da Escritura. Por
isso, quando os puritanos lhe apresenta­
ram uma petição, em janeiro de 1604,
requerendo que fosse feita uma nova
tradução, eles se dirigiram ao homem
certo.
O trabalho da nova tradução começou
em 1607, com um total de 47 tradutores
trabalhando em seis comissões, duas das
quais se reuniam em Cambridge, duas
em Oxford e duas em Westminster. Cada
comissão trabalhava em partes diferentes
da Bíblia, e, mais tarde, uma comissão
de revisão, consistindo de dois represen­
tantes de cada uma das seis comissões, se
reuniu diariamente, durante nove meses,
revisando as traduções. Uma revisão fi­
nal foi então feita por uma comissão de
duas pessoas: Miles Smith, um dos tra­
dutores, e Thomas Bilson, que estava
fora do grupo. A tradução, ou melhor, a
revisão, foi publicada em 1611.
Muito pode-se aprender a respeito do
trabalho de tradução lendo-se as regras
de procedimento e o prefácio. Infeliz­
mente, o prefácio não é incluído na
maioria das edições da KJV; se ele tivesse
sido publicado e lido cuidadosamente
pelos leitores da KJV, muitos conceitos
errados teriam sido evitados. Uma das
regras mais importantes foi que a Bíblia
dos Bispos devia ser seguida tanto quan­
to possível. Devia-se comparar o traba­
lho com outras traduções, especialmente
as de Tyndale, Matthew, Coverdale, a
Bíblia Grande e a Bíblia de Genebra; e,
de fato, a tradução de Tyndale e a Bíblia
de Genebra foram seguidas mais de perto
do que a Bíblia dos Bispos, o que pode
considerar-se crédito para os revisores.
“As velhas palavras eclesiásticas” de­
viam ser conservadas; as notas marginais
deviam ser limitadas a explicações das
palavras hebraicas e gregas; e as divi­
sões em capítulos e versículos deviam ser
alteradas o mínimo possível da linha
tradicional.
Como acontece com muitas outras tra­
duções, a KJV teve que enfrentar uma
longa luta para conseguir a aceitação po­
pular. Por decreto oficial, ela substituiu
a Bíblia dos Bispos, mas levou meio
século para tomar o lugar da Bíblia de
Genebra, no uso popular. Houve muitas
edições subseqüentes da KJV, algumas
delas contendo numerosas modificações
da edição “original” . De fato, a primeira
impressão foi feita por duas imprensas, e
não houve exata uniformidade entre as
duas publicações. Então, a edição de
1613 teve bem mais de 300 alterações,
decorrentes das duas publicações ini­
ciais. A “edição-padrão” da KJV, aquela
com que os leitores estão familiarizados
hoje em dia, é a edição de 1769, revisada
por Benjamin Blayney, de Oxford. Pou­
cas modificações foram feitas desde en­
tão.
Os homens envolvidos com a KJV re­
presentavam uma ampla variedade de
antecedentes eclesiásticos, bem como a
mais elevada erudição da época. E o
fruto de seu trabalho deixou uma in­
fluência ampla e duradoura sobre a lite­
ratura inglesa e em outros aspectos da
vida do mundo de fala inglesa. Não obs­
tante, a obra que eles realizaram não foi
feita sem limitações. O texto grego dis­
ponível para eles era essencialmente o
texto corrompido de Erasmo, e àquela
época não havia nenhuma edição-padrão
do Velho Testamento hebraico. Sobretu­
do, eles não tinham acesso a importantes
versões antigas, como a Velha Latina e a
38
Velha Siríaca, e as descobertas de papi­
ros ainda deviam ser feitas posterior­
mente.
3. A Bíblia Inglesa Desde a Versão do
Rei Tiago (KJV)
The English Revised Version. Já em
1810, Herbert Marsh de Cambridge decla­
rou: “É provável que a nossa Versão Auto­
rizada seja tão fiel como representação das
Escrituras originais como podia sê-lo na­
quela época. Mas quando considera­
mos... que as fontes mais importantes de
inteligência para a interpretação das Es­
crituras originais foram semelhantemen­
te abertas depois daquele período, não
podemos pretender que a nossa Versão
Autorizada não requeira emendas.” As
suas palavras, evidentemente, represen­
tavam um sentimento disseminado entre
os eruditos bíblicos de sua época. Porém
só em 1870 a Igreja empreendeu uma
ação oficial para iniciar a revisão neces­
sária. O propósito declarado era revisar a
KJV, introduzindo, no texto, o mínimo
possível de alterações; mas, no cômputo
final, a quantidade de modificações foi
enorme. Um total de 65 eruditos traba­
lhou na revisão. O Novo Testamento foi
publicado em maio de 1881; o Velho
e o Novo Testamentos foram publicados
juntos em maio de 1885; e a revisão dos
Livros Apócrifos foi completada em
1895.
O Novo Testamento tomou-se imedia­
tamente um sucesso de vendas. Mas a
sua popularidade teve vida curta, mesmo
entre aqueles cujas simpatias eram as
maiores. A razão para esta reação nega­
tiva foi o estilo do inglês, ou melhor, a
falta de estilo do inglês. Os revisores
haviam sido tão fiéis à ordem de pala­
vras no grego, que o inglês soava anti-
natural e era, muitas vezes, obscuro.
The American Standard Version. Al­
guns eruditos americanos foram consul­
tados durante a preparação da ERV,
mas o Comitê Americano não ficou in­
teiramente satisfeito com a publicação
final. Eles queriam uma eliminação mais
ampla de palavras arcaicas e mais aten­
ção ao uso do inglês americano. Assim, o
Comitê Americano decidiu publicar uma
edição americana separada, e esta apa­
receu em agosto de 1901. Em alguns
pontos houve melhoras sensíveis em rela­
ção à ERV, mas a ASV foi muito critica­
da, por usar “Jeová” onde os revisores
ingleses haviam conservado “Senhor” ou
“Deus”. Mais do que isto, a ASV conser­
va a mesma fraqueza básica da ERV: o
inglês não é natural. De ambas as ver­
sões tem sido dito corretamente que elas
são fortes em hebraico e grego, mas
fracas em inglês.
Algumas das Primeiras Traduções Mo­
dernas Para o Inglês. Pelo menos três
fatores contribuíram para o aparecimen­
to de várias traduções modernas para o
inglês na primeira parte deste século.
O primeiro foi a descoberta de importan­
tes manuscritos bíblicos antigos, que ca­
pacitaram o tradutor a chegar mais perto
do que nunca do texto original. O segun­
do foi a descoberta de grande número
de documentos no Egito, escritos em
papiro, dados escritos miscelâneos da
época do Novo Testamento, indicando
que o grego do Novo Testamento era o
grego comum da época. Terceiro, a cons­
ciência cada vez mais profunda de que
traduções em linguagem arcaica ou em
frases de som estranho simplesmente não
comunicavam adequadamente a mensa­
gem da Bíblia.
A primeira tentativa digna de nota
para se fazer uma tradução modema
para o inglês foi The Twentieth Century
New Testament, que apareceu de uma
forma experimental por um grupo anôni­
mo de vinte eruditos, entre 1898 e 1901, e
em forma final em 1904. Na Inglaterra,
Richard F. Weymouth, competente eru­
dito em Novo Testamento, fez uma tra­
dução que esperava fosse suplementar as
versões “padrão”; ela foi publicada pos­
tumamente em 1903. Em 1924, um gru­
po de três estudiosos publicou uma edi-
39
ção revisada de sua obra. Em 1943, foi
publicada uma edição americana.
Em 1913, James A. Moffatt, um es­
cocês que havia-se unido ao corpo do­
cente do Seminário Teológico União, em
New York, publicou a sua tradução do
Novo Testamento. Ele trouxe a lume o
seu Velho Testamento em 1924, e a
Bíblia toda em 1926 — e, mais tarde,
uma versão revisada em 1935. O objetivo
de Moffatt era “apresentar os livros do
Velho e Novo Testamentos em um inglês
eficiente e inteligível” e “ser exato e idio­
mático” .
The New Testament, an American
Transiation, feita por Edgar J. Goods-
peed e publicada em 1923, fez para os
que falam o inglês americano o que Mof­
fatt havia feito para os que falam o inglês
britânico. Em 1927, um grupo de estu­
diosos, dirigido por J. M. P. Smith, levou
ao prelo um Velho Testamento em jar­
gão americano, e, em 1931, este foi pu­
blicado juntamente com o Novo Testa­
mento de Goodspeed, com o título de
The Complete Bible; An American
Transiation.
The Revised Standard Version. Antes
da publicação da ASV, em 1901, várias
publicações “não-autorizadas” da ERV
apareceram, com “melhoramentos” , pa­
ra o leitor americano. Para proteger o
texto contra modificações ulteriores, a
ASV teve reservados os direitos de publi­
cação (copyright) em 1901; e, em 1928,
estes direitos reservados foram adquiri­
dos pelo International Council of Reli-
gious Education, e assim tomou-se pro­
priedade das igrejas batistas dos Estados
Unidos e Canadá. Uma comissão de es­
tudiosos foi indicada para ver se era ne­
cessária uma outra revisão. Depois de
estudar a questão durante mais de dois
anos, ela decidiu que uma revisão era
necessária, e, pelo voto do Concílio, em
1937, o objetivo da revisão foi definido:
“Incorporar os melhores resultados da
erudição moderna quanto ao significado
das Escrituras e expressar este significa­
do em linguagem moderna, e que se
designe a ser usada na adoração pública
e privada, e preserve as qualidades que
deram à King James Version um lugar
supremo na literatura inglesa.” Pelo me­
nos três fatores contribuíram para o re­
conhecimento da necessidade de revisão:
o aumento de conhecimento bíblico des­
de a época da KJV, a disponibilidade de
textos gregos e hebraicos melhores do
que os que estavam disponíveis para os
tradutores anteriores e as mudanças da
língua inglesa desde 1611.
A comissão foi dividida em uma seção
para o Velho Testamento e outra para o
Novo Testamento; e o trabalho de cada
seção foi sujeito à revisão pela outra,
sendo que as modificações requeriam
dois terços dos votos dos membros da
comissão toda. Um total de 32 eruditos
serviu nessa comissão, que eram estudio­
sos da Bíblia e também homens escolhi­
dos por suas qualificações em literatura
inglesa e por sua experiência em dirigir
cultos. O Novo Testamento foi publicado
em 1946, e a Bíblia toda, em 30 de setem­
bro de 1952.
à semelhança da KJV, a RSV tem tido
os seus oponentes. Porém a maior parte
dos veementes ataques contra ela cessa­
ram, e a RSV encontrou o seu lugar na
vida da Igreja, onde ela é amplamente
usada na literatura para a Escola Bí­
blica Dominical e nos cultos públicos.
Se os números que revelam as vendas e a
distribuição dizem algo, é digno de nota
que cinco milhões de cópias foram vendi­
das durante os cinco primeiros anos de
publicação, e mais de doze milhões de
cópias, durante os primeiros dez anos.
Algumas das Mais Recentes Tradu­
ções para o Inglês. Uma das mais popu­
lares e imaginosas traduções do Novo
Testamento para o inglês modemo é The
New Testament in Modern English, de J.
B. Phillips. Esta tradução, publicada em
1958, reúne em um só volume as suas
quatro publicações anteriores, a primeira
40
das quais fora Letters to Young Chur-
ches, em 1947. (*) Phillips entendia que
os testes essenciais de tradução são três, e
estes o guiaram em seu trabalho: “O pri­
meiro é que ela simplesmente não pode
soar como tradução, de forma alguma...
que o tradutor deve realizar a sua obra
introduzindo o mínimo possível da sua
própria personalidade... O terceiro teste,
o final... é de ser capaz de produzir nos
corações e mentes de seus leitores um
efeito equivalente ao produzido pelo au­
tor sobre os seus leitores originais.”
Outro tradutor perito e criativo é o
erudito católico romano Ronald Knox,
cujo Novo Testamento foi publicado em
edição limitada em 1944 e em edição
final em 1945, com muito poucas mu­
danças. Em 1948 e 1949, foi publicado o
Velho Testamento em dois volumes,
completando, desta forma, a Bíblia. A
sua obra foi “uma tradução da Vulgata
Latina, à luz dos originais hebraico e
grego” ; foi publicada com autorização
das hierarquias católicas romanas da In­
glaterra, Gales e Escócia.
Uma tradução católica que teve gran­
de circulação entre católicos e protes­
tantes igualmente é a Bíblia de Jerusa­
lém, publicada em 1966, como equiva­
lente inglesa da popular La Bible de Jéru-
salem francesa. Com a esperança de “se­
guir o ritmo dos tempos” e de “o pensa­
mento teológico cada vez mais profun­
do”, The Jerusalem Bible foi traduzida
na “linguagem que usamos hoje”, com
notas que não são “nem sectárias nem
superficiais”. Em sua maior parte, a
tradução em inglês foi feita diretamente
dos originais hebraico e grego e depois
comparada com a tradução francesa
quanto ao significado; não obstante, em
uns poucos livros do Velho Testamento a
tradução foi feita do francês e depois
comparada com o original hebraico, ou
(*) NOTA DO TRADUTOR: Temos uma tradu­
ção desta obra de Phillips, com o título de
“Cartas às Igrejas Novas” .
aramaico, para “garantir completa con­
formidade com o texto antigo” .(*)
A mais recente contribuição católica
para as traduções da Bíblia em inglês é
The New American Bible, publicada em
julho de 1970. Os editores-chefes “devo­
taram vinte e cinco anos a este trabalho”,
que é “a realização de cerca de cinqüen­
ta eruditos bíblicos, cujo maior número,
se não todos, são católicos”. A tradução
pretende ser “adequada para o uso litúr
gico, leitura particular e os objetivos dos
estudantes”, sendo dada prioridade ao
objetivo mencionado em último lugar.
O alvo é que seja tão contemporânea
quanto possível, sem distorcer as carac­
terísticas estilísticas peculiares dos escri­
tores originais.
Tradução que recebeu muita publici­
dade foi a The New English Bible. Os
líderes eclesiásticos que iniciaram as dis­
cussões a respeito das possibilidades des­
te projeto estavam, na verdade, pensan­
do em termos de uma revisão da KJV.
Contudo, por fim foi decidido que devia
ser feita uma tradução completamente
nova e que “os tradutores deviam sentir-
se com a liberdade de empregar uma
linguagem contemporânea, em vez de
reproduzir o inglês ‘bíblico’ tradicional”.
Uma comissão conjunta foi nomeada
para encarregar-se desse projeto, e três
painéis de eruditos bíblicos de várias uni­
versidades britânicas foram escolhidos
para tratarem, respectivamente, do Ve­
lho Testamento, do Novo Testamento e
dos Livros Apócrifos. Um painel de con­
selheiros literários foi também designa­
do, para revisar a obra dos eruditos
bíblicos. A obra propriamente dita foi
feita em vários estágios: um rascunho
inicial de um livro era preparado por um
tradutor, individualmente; uma revisão
era feita detalhadamente pelo painel de
tradução; outra revisão, pelo painel lite­
rário; depois, revisão novamente pelo
(*) NOTA DO TRADUTOR: Veja a tradução já
existente em português.
41
painel de tradução. Finalmente, depois
que mútuo acordo era alcançado entre os
tradutores e o painel literário, o manus­
crito era submetido à comissão conjunta,
que se reunia duas vezes por ano. Este
procedimento foi seguido desde 1948 até
que o trabalho de tradução foi completa­
do. O Novo Testamento foi publicado em
1961, e a Bíblia toda, em 1970.
Em 1962, a Sociedade Judaica de Pu­
blicações editou The Torah, a primeira
porção da New Jewish Version, que ainda
está para ser publicada como Velho Tes­
tamento completo. Este é um afastamen­
to consciente do padrão de uma tradução
literal palavra por palavra, estabelecido
pelos tradutores judeus da Septuaginta
há mais de dois mil anos. A nova tradu­
ção será trabalho de uma comissão de
eruditos “escolhidos pela capacidade de
erudição, perspectivas amplas e condição
reconhecida”. O seu alvo será produzir
um trabalho que leve em consideração
tanto “os antigos comentários... quanto
os materiais extrabíblicos recentemente
descobertos que tenham algo realmente
pertinente para oferecer ao tradutor da
Bíblia” .
The Living Bible, Paraphrased (1971)
é a compilação das paráfrases, de Ken-
neth Taylor, das Escrituras, que começa­
ram com a publicação de Living Letters,
em 1962.(*) Embora ela não tenha sido
traduzida diretamente dos textos grego e
hebraico, o prefácio indica que “foi sub­
metida ao exame cuidadoso de uma equi­
pe de peritos em grego e hebraico, quan­
to ao conteúdo, e de críticos em inglês,
quanto ao estilo”; e o objetivo é definido
como: “dizer tão exatamente quanto pos­
sível o que os escritores da Bíblia que­
riam dizer, e dizê-lo de maneira simples,
expandindo, onde for necessário, para
dar uma compreensão clara ao leitor
(*) NOTA DO TRADUTOR: A Editora Mundo
Cristão publicou, em português, “ A Bíblia Vi­
va” , com os mesmos objetivos das traduções
similares em outras línguas.
moderno” . O tradutor afirma que,
“quando o grego ou o hebraico não é
claro, a teologia do tradutor é o seu
guia” , e ele indica que “a estrela-guia
teológica desta obra foi uma posição
rigidamente evangélica” .
Embora ainda não esteja publicada
como Bíblia completa, Good News for
Modern Man, publicada pela Sociedade
Bíblica Americana em 1966, tem tido
um impacto tremendo e recebido aclama­
ção geral. Esta tradução do Novo Testa­
mento é baseada no texto grego das So­
ciedades Bíblicas Unidas, tendo sido pre­
parada por uma Comissão internacional
de eruditos do Novo Testamento; e a
tradução propriamente dita “procura se­
guir, neste século, o exemplo dado pelos
autores dos livros do Novo Testamento
que, em sua maior parte, escreveram na
forma-padrão ou comum da língua grega
usada no Império Romano”. Robert G.
Bratcher, que preparou o esboço básico
para o Novo Testamento, é o relator da
comissão que ora está trabalhando no
Velho Testamento. Em 1969, foram pu­
blicados os Salmos, Jó em 1971 e Provér­
bios e Eclesiastes em 1972. Prevê-se que
a Bíblia toda, que deverá chamar-se To­
day’s English Version, será publicada em
1975 ou 1976.
The New American Standard Bible,
publicada em 1970, foi “completada de­
pois de nove anos e sete meses de traba­
lho intensivo de cinqüenta e oito estudio­
sos consagrados e dedicados”. Neste pro­
jeto, “nenhuma tradução foi feita indivi­
dualmente. Os eruditos trabalharam em
comissões e depois o material foi revisa­
do por consultores críticos. O trabalho
dos consultores críticos foi, então, revi­
sado pelos eruditos que fizeram a tradu­
ção, e esta tarefa foi feita em sessão
plenária.” O impulso primordial para
esta revisão foi o desejo de preservar a
ASV “como herança para as gerações
vindouras”. A tentativa foi feita para
“expressar a gramática e a terminologia
da ASV no inglês contemporâneo” .
42
III — Traduções da Bíblia em
Português(*)
É um verdadeiro milagre o fato de
possuirmos a Bíblia em português. Até o
último quarto do século XVI não havia
versão alguma completa e impressa das
Escrituras em português. A zelosa rainha
D. Leonor, esposa de D. João II, tentou
popularizar as Escrituras. Ela mandou
traduzir e imprimir, em 1495, às suas
expensas, A Vida de Cristo, que foi
originalmente escrita na língua latina,
pelo Dr. Ludolfo, de Saxônia, e que con­
tinha muitas citações da Bíblia. Dez anos
depois ela mandou publicar na língua
lusitana os Atos dos Apóstolos e as Epís­
tolas Universais de Tiago, Pedro, João e
Judas. Esta nobre senhora faleceu em
1525. Em 1554, organizaram-se diversas
companhias comerciais para o desenvol­
vimento das várias colônias dos países
europeus. Entre estas, a Companhia das
Índias Orientais, que se organizou em
1602, cuja carta patente exigiu que cui­
dasse em plantar a Igreja entre os povos e
procurasse a sua conversão, nas posses­
sões tomadas aos portugueses nas índias
Orientais. Foi essa Companhia que mais
tarde patrocinou a revisão do Novo Tes­
tamento de João Ferreira de Almeida, em
1693.
Versões de Almeida
João Ferreira de Almeida nasceu em
1628, no local chamado Torre de Tavares
— Portugal. Converteu-se em 1642. Co­
meçou a traduzir o Novo Testamento
para o português em 1644, com 16 anos
de idade, usando latim, espanhol, italia­
no e francês. Faleceu em 1691.
(*) Agradecemos aos Pastores Edgar Francis Hal-
lock e Zilmar Ferreira Freitas, da Imprensa Bí­
blica Brasileira, o preparo deste breve histó­
rico da Bíblia em português, que é aqui acres­
centado ao texto original, como contribuição
aos leitores interessados no assunto — Nota do
Departamento de Publicações Gerais.
1681 — PrimeiraediçãocompletadoNo-
vo Testamento em português —
impresso na cidade de Amster-
dam —Holanda.
1753 — Primeira edição completa do
Velho Testamento em portu­
guês — em dois volumes: 1.°
Volume, de Gênesis a Ester;
2.° Volume, de Jó a Malaquias.
Foi impresso na cidade de Ba-
távia.
1819 — Bíblia completa de João Ferrei­
ra de Almeida publicada em
um só volume, pela primeira
vez, sob os auspícios da Socie­
dade Bíblica Britânica.
1840 — Primeira revisão e correção do
texto da Bíblia de Almeida,
chamada Revista e Emenda­
da. Foi feita por E. Whitely,
capelão inglês, na cidade de
Porto — Portugal, e incluiu
correções de ortografia e a subs­
tituição de algumas palavras
obsoletas.
1847 — Segunda revisão, que apareceu
publicada pela Trinitarian Bi-
ble Society de Londres. Foi
obra de um inglês radicado em
Portugal, Rev. Thomas Boys.
Esta revisão é conhecida pelo
nome de Revista e Reformada.
1875 — Apareceu ainda outra versão,
chamada Revista e Correcta.
Seus revisores principais foram:
Manoel Soares e R. B. Girdles-
tone — superintendente edito­
rial da Sociedade Bíblica Britâ­
nica e Estrangeira.
1894 — Apareceu a Versão Revista, ba­
seada na Revista e Correcta.
Por iniciativa da Sociedade Bí­
blica Britânica, a comissão de
revisões, liderada por J. N.
Chaves e R. Stewart, com a aju-
43
da de 3 irmãos portugueses,
resolveu corrigir “erros óbvios”
e melhorar a ortografia da Ver­
são Revista e Correcta.
1898 — Desta vez, já era a 5.a revisão
no texto de Almeida, desta feita
chamada Revista e Corrigida.
Surgiu como resultado da soma
do trabalho de todas as outras
revisões efetuadas anteriormen­
te. Tornou-se a versão mais
querida, como é até hoje.
1922 — Houve uma ligeira revisão na
versão de Almeida, chamada
Ligeiramente Revisada, feita
por Moreton, J. dos Santos Fi­
gueiredo e A. H. da Silva.
1944 — Primeira Bíblia impressa no
Brasil — IMPRENSA BÍBLI­
CA BRASILEIRA — 4 de
agosto de 1944 — Tiragem ini­
cial: 22.208 Bíblias da Versão
Revista e Corrigida de Almeida.
1958 — Versão Revista e Atualizada no
Brasil, publicada pela Socieda­
de Bíblica do Brasil. A comis­
são revisora desta versão tra­
balhou sob a direção do Rev.
Antônio Campos Gonçalves.
Esta é uma excelente versão,
e tem sido usada em algumas
das Bíblias de estudo como tex­
to bíblico.
1967 — Surgiu a mais recente revisão
da Bíblia de Almeida, chamada
Versão Revisada, e já está se
impondo no meio evangélico,
devido à sua fidelidade às lín­
guas originais e a precisão de
sua tradução. Ê conhecida pela
frase que traz no frontispício:
De Acordo com os Melhores
Textos em Hebraico e Grego
— Revisão efetuada pela Im­
prensa Bíblica Brasileira.
Versões de Figueiredo
Antônio Pereira de Figueiredo nasceu
em Mação — Portugal, em 14 de feverei­
ro de 1725, e faleceu em 14 de agosto de
1797.
1778-1781 — Figueiredo traduziu o la­
tim da Vulgata e produziu
o seu Novo Testamento
em 6 volumes.
1783-1790 — Seguiu logo o Velho Tes­
tamento, impresso em 17
volumes.
1821 — Primeira edição da Bíblia em
português, em um só volume,
versão de Figueiredo, em Lon­
dres — na oficina de B. Bens-
ley — em Bolt Coult — Fleet
Street.
Versões Diversas
1917 — Edição Brasileira — A Versão
Fiel, que surgiu como fruto do
trabalho iniciado pelas Socie­
dades Britânica e Americana
em 1902, com o objetivo de
preparar uma nova tradução do
hebraico e grego, aproveitando
as versões de Figueiredo e Al­
meida. Foi considerada versão
excelente quanto à tradução.
O estilo e a linguagem não aju­
daram, e finalmente deixou de
ser publicada.
1927-1934 — Edição Mattos Soares,
que foi traduzida da Vul­
gata, adaptando-se a lin­
guagem à semântica da
época. Esta versão tem
servido muito aos católi­
cos tanto da Europa
quanto do Brasil.
1957 — Apareceu a Bíblia preparada
pelo Centro Bíblico Católico,
publicada pela Editora Ave
44
Maria Ltda, seguindo a tradu­
ção da Versão dos Monges Be­
neditinos de Maredsous — Bél­
gica.
1966 — As Edições Paulinas lançaram
a 1®edição da Bíblia, baseada
no texto do Instituto Bíblico
Pontifício de Roma. Vários tra­
dutores. Coordenação e revisão
dos padres Lucas Caravina e
Honório Dalbosco.
1967 — Apareceu a Bíblia das Teste­
munhas de Jeová. Baseada na
versão inglesa, consultando o
hebraico, grego e aramaico.
1982 — A Bíblia de Jerusalém foi lan­
çada pelas Edições Paulinas.
È obra monumental, tanto na
tradução quanto nas notas co­
piosas, preparadas em grande
parte pela Escola Bíblica de Je­
rusalém, de onde recebe o seu
título.
1983 — Apareceu a Bíblia Sagrada —
Edições Loyola, preparada pela
Liga de Estudos Bíblicos.
1983 — Apareceu também a Bíblia Sa­
grada — Vozes, fruto de muitos
anos de trabalho, incorporando
as contribuições de vários tra­
dutores, cujas obras já tinham
sido publicadas.
1986 — A Bíblia na Linguagem de
Hoje. Está sendo preparada pa­
ra lançamento este ano, pela
Sociedade Bíblica do Brasil,
sob a supervisão do Dr. Wemer
Kaschel.
IV. As Traduções da Bíblia
Como Arte e Ciência
1. A Tradução Como Arte
A tradução da Bíblia é, certamente,
uma arte, pois requer uma pessoa que
tenha conhecimento dos recursos de sua
língua e que seja perita, criativa e imagi­
nosa no uso desses recursos de lingua­
gem. Um dos fatores que têm contribuí­
do para a contínua popularidade da KJV
é a sua maneira artística de usar a lín­
gua; enquanto a razão primária para a
vida curta da popularidade da ASV é a
sua “fraqueza” de estilo. A conclusão de
que o estilo literário é importante levou
muitas comissões de tradução modernas
a incluir, entre os seus membros, não
apenas eruditos bíblicos, mas também
estilistas da língua.
Um aspecto importante da arte da
tradução é de ser capaz de expressar o
significado do original de forma a apelar
para o interesse do leitor pretendido.
O nível da linguagem da TEV, por exem­
plo, é bem diferente da de J. B. Phillips,
porque o auditório pretendido é diferente
para cada uma dessas duas traduções.
Phillips foi capaz de usar os plenos recur­
sos da língua inglesa, porque estava tra­
duzindo para um grupo mais sofisticado
de leitores, enquanto o tradutor da TEV
originalmente pretendia que a sua tradu­
ção alcançasse as pessoas para quem o
inglês era a sua segunda língua. Não é
necessária habilidade menor para produ­
zir uma tradução como a TEV do que
uma como a que J. B. Phillips fez. Am­
bas requerem um toque criativo e artís­
tico, e é de se duvidar que o tradutor de
uma poderia ter feito a outra igualmente
bem. Pode-se ser um excelente erudito
bíblico, mas um tradutor fraco, se não se
tem a habilidade artística de usar a lín­
gua e um senso do nível apropriado de
linguagem que apele à mente dos leitores
em perspectiva.
2. A Tradução Como Ciência
No entanto, por mais importante que
os assuntos de estilo sejam, a responsa­
bilidade básica do tradutor é fidelidade ao
original, e isto significa que a tradução
da Bíblia é uma ciência que precisa
seguir certas diretrizes claramente defi­
nidas. Tradicionalmente, “fidelidade ao
original” tem sido levada a significar fi­
45
delidade à forma do original, porém cada
vez maior número de tradutores começou
a reconhecer que esta expressão precisa
ser entendida de forma a significar fide­
lidade ao significado do original. Isto é, a
tarefa do tradutor consiste em comunicar
o significado do original de forma que os
seus leitores tenham essencialmente a
mesma reação que o escritor original pre­
tendia por parte de seus leitores origi­
nais. Para satisfazer estas necessidades
básicas, o tradutor precisa exercer perí­
cia e tirocínio em quatro áreas.
ConsideraçSes textuais. É axiomático
que o tradutor, como o exegeta, precisa
basear a sua obra nos melhores manus­
critos hebraicos e gregos disponíveis; e à
luz deste axioma, os eruditos bíblicos
têm preparado edições críticas dos testa­
mentos hebraico e grego.
Um exemplo interessante de problema
textual do Velho Testamento encontra-se
em Provérbios 26:10, que aparece na
KJV como: “O grande Deus que formou
todas as coisas recompensa tanto o louco
como os transgressores.” A versão da
IBB, em português, diz: “Como o fle­
cheiro que fere a todos, assim é aquele
que assalaria ao transeunte tolo, ou ao
ébrio”; esta é essencialmente a tradução
das versões inglesas RSV e NEB. Na
TEV, este versículo está traduzido da
seguinte forma: “Um empregador que
contrata qualquer louco que aparece está
apenas ferindo todas as pessoas envolvi­
das.” Em todas essas traduções moder­
nas em inglês há uma nota de rodapé, in­
dicando que o hebraico, neste versículo, é
obscuro. Este é simplesmente um dos
vários milhares de lugares do Velho Tes­
tamento em que precisa ser tomada uma
decisão textual antes de o tradutor ser
capaz de verter o texto em outra língua.
As ilustrações de problemas textuais
do Novo Testamento também podem ser
multiplicadas. Algumas das mais conhe­
cidas se referem ao problema do término
original do Evangelho de Marcos, se ele
originalmente terminava em 16:8 ou com
epílogo mais longo em 16:20 ou com
outro epílogo que é encontrado em vá­
rios manuscritos antigos; e a questão de
se João 7:53-8:11 (a história da mulher
apanhada em adultério) fazia parte do
Evangelho original.
Considerações exegéticas. A importân­
cia das considerações exegéticas é tam­
bém facilmente reconhecida, visto que é
impossível para o tradutor transferir o
significado do original, a não ser que ele
compreenda o que o escritor pretendia
dizer. Uma boa regra, simples e prática,
é que o tradutor deixe que a exegese de
uma dada passagem seja guiada pelas
conclusões dos comentários e traduções
padrão; e, em casos em que a passagem
permite mais de uma interpretação, ele
poderá incluir uma versão alternativa no
rodapé. Por exemplo, I Tessalonicenses
4:4 (ASV) diz: “Que cada um de vós
saiba como possuir o seu próprio vaso
em santificação e honra." Mas, o que se
deseja dizer com “vaso”? No contexto, a
referência é obviamente ao corpo da pes­
soa, embora possa ser ao seu próprio
corpo ou ao corpo, de seu cônjuge. Por
isso, o tradutor pode traduzir como a
NEB: “Cada um de vós precisa aprender
como obter domínio sobre o seu corpo,
para santificá-lo e honrá-lo”, ou como a
RSV: “Que cada um de vós saiba como
conseguir para si mesmo esposa em san­
tidade e honra.” Porém, visto que a pas­
sagem é passível de qualquer uma dessas
interpretações, o tradutor pode querer
apresentar uma versão no texto e outra
em uma nota de rodapé, como possi­
bilidade alternativa.
Considerações lingüísticas. £ necessá­
rio que se entendam as características e
requerimentos lingüísticos das línguas de
origem e receptoras. O hebraico (e o
grego do Novo Testamento, que foi in­
fluenciado por padrões hebraicos de pen­
samento) usa “e” para iniciar quase to­
das as sentenças e cláusulas, mas isto
não é natural em inglês ou português.
46
Embora comum no grego, não é natural
no inglês ou em português iniciar um
discurso direto com uma fórmula como:
“E ele abriu a sua boca e começou a
ensinar-lhes, dizendo.” O mesmo acon­
tece com “e aconteceu”, quando se faz
uma transição em uma narrativa.
O que dizer das muitas repetições de
“de”, que aparecem nas traduções tradi­
cionais? Expressões como “o Deus de
paz” (Rom. 15:33), “o Espírito Santo da
promessa” (Ef. 1:13), “o evangelho de
Jesus Cristo” (Mar. 1:1), “o livro de
Moisés” (Mar. 12:26) e inúmeras outras,
têm a mesma estrutura superficial; mas a
relação definida por “de” difere signifi­
cativamente. “O Deus de paz” é o Deus
que dá paz; “o Espírito Santo da promes­
sa” é o Espírito que prometeu; “o evan­
gelho de Jesus Cristo” é o evangelho a
respeito de Jesus Cristo; e “o livro de
Moisés” é o livro que Moisés escreveu.
Será que o leitor sem treinamento teoló­
gico saberá que “o Espírito de verdade”
significa o Espírito que revela a verdade
(a respeito de Deus)?
A marcação dos participantes em uma
narrativa é importante, embora muitos
tradutores tenham deixado de perceber
como isto é realmente importante. Em
muitos casos, o texto hebraico ou grego
usa um pronome, onde é mais natural em
inglês ou português usar um substantivo;
e no inglês não há distinção entre o sin­
gular e o plural de “you” (que pode signi­
ficar tu, você, vós ou vocês), de forma
que uma distinção que é clara na língua
original não está ao alcance dos leitores
atuais, a menos que a linguagem reque­
rida pelo inglês seja reconhecida.
Considerações culturais. O tradutor
precisa estar consciente das vastas dife­
renças entre o contexto histórico-cultural
do relato bíblico e o de seus leitores hodi­
ernos. Note-se, por exemplo, Lucas 4:16-
20. O que significa que o Espírito “un­
giu” Jesus, e tem a preposição “sobre”
mais do que um sentido locativo, na frase
“o Espírito do Senhor está sobre mim”?
Mais do que isto, qual é o significado do
fato de Jesus ter-se sentado depois de ler
as Escrituras? Será que ele fez algo inu­
sitado? Foi por isso que todos “fixaram
os seus olhos nele”? A responsabilidade
de entender não deve ser colocada sobre
o leitor, mas sobre o tradutor, de forma
que o significado do original se expresse
bem para os leitores contemporâneos. O
que está claramente implícito no texto
precisa ser tomado explícito. Um exem­
plo disso aparece em Jeremias 7:18, em
que se faz referência às mulheres que
“amassam a farinha para fazerem bolos
à rainha do céu”. Todos os leitores de
Jeremias sabiam que a “rainha do céu”
era uma deusa adorada pelo povo; mas, a
fim de expressar este significado para o
leitor moderno, necessário se faz tradu­
zir: “amassam a farinha para fazerem
bolos para a deusa a quem chamam de
rainha do céu.”
Qual é o significado de “o Cristo” ou
“o Messias”, quando aplicado a Jesus?
No máximo, esta expressão tem pequeno
significado para o leitor brasileiro co­
mum, e por isso várias traduções apre­
sentam uma nota de rodapé ou um glos­
sário para explicar o seu significado,
quando seria muito mais simples tradu­
zir o título como “o Rei prometido” ou
“o Salvador prometido”. Além do mais,
qual é o significado de “reino de Deus”
para os leitores brasileiros hoje em dia?
Geralmente é considerado por eles como
significando o território sobre que Deus
govema, e não como o reinado ativo de
Deus, que é o significado bíblico básico.
As traduções precisam levar a sério a re­
estruturação deste termo em suas muitas
ocorrências em o Novo Testamento. A
este respeito, não são muitos os leitores
que compreendem que “reino dos céus”,
em Mateus, é equivalente a “reino de
Deus” nos outros Evangelhos. Portanto,
se o tradutor está focalizado nas necessi­
dades dos leitores, e não na reprodução
verbal do texto, talvez seja melhor tra­
47
duzir “reino de Deus” nas passagens de
Mateus onde ocorre “reino dos céus”.
Para outras línguas, pode-se também
multiplicar exemplos da necessidade de
levar em consideração o ambiente cultu­
ral dos leitores. Para o povo de Penang,
que vive em Sarawak (Boméu, na Malá­
sia), Mateus 24:28 é traduzido assim:
“Onde quer que houver uma árvore com
frutas maduras na floresta, os passari­
nhos estarão enxameando.” Isto pode
parecer um modo um tanto estranho de
se traduzir um versículo que aparece na
versão portuguesa como: “Pois onde esti­
ver o cadáver, aí se ajuntarão os abu­
tres.” Porém aves que vivem de carniça
são desconhecidas daquela gente, e, de
qualquer forma, a idéia desse provérbio
não tem nada a ver com cadáveres nem
com abutres. A intenção deste provérbio
é indicar que se pode descobrir a presen­
ça de um objeto pela presença de outros
objetos, e este é precisamente o significa­
do que o tradutor tentou reproduzir para
os seus leitores de Penang. Como nôma­
des da floresta, eles sabem onde podem
ser encontradas essas tão procuradas ár­
vores frutíferas na floresta, por causa dos
passarinhos que estarão enxameando so­
bre ela quando as frutas estiverem madu­
ras. Embora as palavras em si possam
soar bem diferentes das do original, o
significado se expressa claramente e exa­
tamente para o leitor de Penang.
V. Traduções da Bíblia e Estudo
da Bíblia
É óbvio que este escritor está argumen­
tando em favor de traduções inteligíveis,
baseadas nos melhores manuscritos gre­
gos e hebraicos disponíveis, e de uma
exegese sadia. Isto é especialmente ne­
cessário se se espera que a tradução seja
entendida pelas massas que ainda estão
fora da comunidade cristã. Uma tradu­
ção literal ou formal pode ser valiosa
para alguém que deseje saber a ordem de
palavras na língua original, mas, como
um todo, ela pode comunicar um signi­
ficado insuficiente, pois deixa de reco­
nhecer que cada língua tem a sua manei­
ra característica de expressar as idéias.
Portanto, se a pessoa estiver realmente
interessada em saber o que dizem as Es­
crituras, que use uma tradução orientada
por estas quatro considerações.
Muitas traduções modernas incluem
outros subsídios valiosos para os leitores,
tais como introduções à Bíblia em geral e
a cada livro da Bíblia, um glossário de
termos técnicos (v.g., fariseu, saduceu,
Festa dos Tabernáculos, etc.), notas his­
tóricas e culturais, redações alternativas
ou traduções variantes e mapas. Se o
leitor comum, que não tem treinamento
especial, usar uma Bíblia assim, terá
uma das melhores ferramentas disponí­
veis para um genuíno estudo bíblico.
Para Leitura Adicional
DAICHES, DAVID. The King James
Version of the English Bible. Chica­
go: University of Chicago Press,
1941.
GREENSLADE, S.L., ed. The West
from the Reformation to the Present
Day, Vol. Ill de The Cambridge
History of the Bible. Cambridge:
University Press, 1963.
HUNT, GEOFFREY. About the New
English Bible. Oxford: University
Press, 1970.
MacGREGOR, GEDDES. The Bible in
the Making. Philadelphia: I. B. Lip-
pincott Co., 1959.
NIDA, EUGENE. God’s Word in Man’s
Language. New York: Harper and
Brothers, 1952.
________Toward a Science of Transla­
ting. Leiden: E. J. Brill, 1964.
ORLINSKY, HARRY M. Notes on the
New Translation of the Torah. Phi­
ladelphia: The Jewish Publication
Society of America, 1969.
48
ROBINSON H. WHEELER, ed. The Bi­
ble in Its Ancient and English Ver­
sions. Oxford: Clarendon Press,
1940.
WEIGLE, LUTHER A. The English
New Testament from Tyndale to the
Revised Standard Version. New
York and Nashville: Abingdon-Co-
kesbury Press, 1949.
WONDERLY, WILLIAM L. Bible
Translations for Popular Use. Ann
Arbor, Michigan: Cushing Mallory,
Inc., para as Sociedades Bíblicas
Unidas, 1968.
49
A Interpretação da Bíblia
Dado o fato de que a Bíblia é a nossa
regra de fé e prática divinamente inspi­
rada, como deve ela ser interpretada?
Não é suficiente aceitar a autoridade da
Bíblia — ela precisa ser adequadamente
utilizada e apropriada.
O alvo da interpretação é encontrar o
processo de pensamento e o significado
que o escritor quis ou os escritores quise­
ram dar ao livro ou passagem a ser es­
tudada. O intérprete deve, desta forma,
expressar esse significado para uma pes­
soa contemporânea. Há princípios que
propiciem diretrizes para esta interpre­
tação? Há advertências e diretrizes que
devam ser aprendidas com a história da
interpretação bíblica?
A interpretação é especialmente im­
portante em relação a um livro como a
Bíblia. Para o crente, a Bíblia requer
interpretação exata e adequada, por cau­
sa de seu lugar de autoridade. Ela tam­
bém necessita de interpretação porque
contém idéias e pensamentos escritos en­
tre dois mil e três mil e quinhentos anos
atrás. Ela foi formulada em um meio
ambiente e em línguas diferentes das do
mundo ocidental.
I. Lições da História da
Interpretação
Uma perspectiva histórica mune o in­
térprete contemporâneo de advertências
e diretrizes. Durante os últimos dois mil
anos, numerosos exemplos do mau uso e
da distorção da Bíblia ocorreram. Em
outros casos, foi conseguida uma per­
cepção que nos propicia muita ajuda.
John P. Newport
1. A Procura de um Significado Oculto
— Alegoria
A alegoria ensina que por debaixo do
significado comum e óbvio de uma pas­
sagem encontra-se o significado verda­
deiro ou espiritual. O principal alvo do
intérprete alegórico é procurar decifrar
esses pretensos significados espirituais e
ocultos. Embora desenvolvido pelos gre­
gos, este sistema de interpretação já es­
tava sendo usado pelos intérpretes judeus
no primeiro século d.C. Ignorando o
exemplo de Jesus, este método foi depois
adotado pela maioria dos intérpretes
cristãos; dominou a exegese até a Refor­
ma Protestante.
Dizia-se que os versículos da Bíblia
tinham dois, três e até quatro significa­
dos. Mickelson indica que “Jerusalém”,
para os intérpretes medievais, podia fa­
zer referência à cidade literal na Palesti­
na. Alegoricamente, podia significar a
Igreja. Moralmente, podia referir-se à
alma. De uma perspectiva futura, refe­
ria-se à cidade celestial. A interpretação
histórica — o significado claro, evidente
— era descrito como leite, enquanto a
interpretação alegórica era descrita como
vinho, que produz alegria.
A Bíblia foi feita para significar o que
não diz abertamente. Ela se tomou uma
caixa de mágica, da qual os intérpretes
tiravam mistérios e verdades para deco­
rar os seus mundos imaginários. Esta
busca de significados múltiplos é real­
mente uma abordagem mágica dos as­
pectos lingüísticos e literários da Bíblia.
Ela remove qualquer certeza quanto ao
seu significado.
51
A busca de significados ocultos tor­
nou-se tão extrema que foi oferecido um
prêmio para o inusitado. Agostinho, no
quinto século d.C., encontrou interpreta­
ções frutíferas em proporção com a sua
dificuldade. Por exemplo, a arca repre­
sentava a Igreja, que é resgatada pelo
madeiro em que Cristo foi dependurado.
As suas próprias dimensões significam o
corpo humano de Cristo, e a porta em
seu lado significa a ferida do lado de
Cristo.
Em épocas mais modernas, homens
como Emanuel Swedenborg, da Suécia, e
grupos como a Unity e a Ciência Cristã
utilizaram a interpretação alegórica.
Tanto na Unity quanto na Ciência Cristã,
a gramática, o contexto e a história são
ignorados. Os significados importantes
são significados ocultos ou espirituais.
É óbvio que quando a abordagem gra­
matical e histórica é abandonada, não há
maneira de controlar ou governar a exe­
gese.
2. Literalismo Extremo
Alguns sadios princípios de interpreta­
ção foram desenvolvidos por intérpretes
rabínicos como Hillel e Eliezer. Uma ên­
fase infeliz no “letrerismo” ou hiperli-
teralismo, todavia, desenvolveu-se entre
a maioria dos intérpretes judeus. Eles se
encurvavam sobre trivialidades e sobre o
incidental, e deixavam passar desperce­
bido o significado de uma dada passa­
gem.
No período posterior à Reforma, os
protestantes do século XVII manifesta­
ram, em vários casos, a tendência de ido­
latrar a Bíblia a tal ponto que deixaram
passar despercebido o seu significado
essencial. A Bíblia não devia ser vista
como livro histórico e literário, mas sim­
plesmente como um dogma. Em tempos
mais recentes, os Testemunhas de Jeová,
outras seitas que tais e os fundamenta-
listas manifestaram uma tendência na
direção do hiperliteralismo. Os conteú­
dos gramaticais, históricos e literários,
bem como os temas bíblicos centrais, são
em grande parte ignorados.
3. Interpretação Controlada pela Igreja
Concorda-se, geralmente, que, em ma­
téria de interpretação, o ponto decisivo,
na Idade Média, foi a obra de Agosti­
nho. Em sua obra intitulada A Doutrina
Cristã, ele esboçou princípios para a
interpretação da Bíblia. Nesta mesma
obra, ele estabeleceu a doutrina de que a
Igreja e a tradição da IgTeja são as bases
para a interpretação. Através da Idade
Média, desta forma, a interpretação foi
limitada por uma conformidade obtusa.
A tradição da Igreja era suprema.
Este tipo de interpretação foi usado
pelas autoridades eclesiásticas para esta­
belecer o poderio eclesiástico. Embora
apenas uma pequena quantidade da Bí­
blia fosse oficialmente interpretada, mui­
tas doutrinas oficiais acarretavam a in­
terpretação de certos versículos que se
tomava obrigatória.
Em reação à Reforma Protestante, o
Concílio Católico Romano de Trento reu-
niu-se de 1545 a 1563. A Vulgata Latina
foi declarada a versão autêntica para se
fazerem exposições. A interpretação não
devia ser contrária aos ensinamentos da
Igreja Católica. Isto significava que não
era possível nenhuma discussão de inter­
pretações alternativas.
Para opor-se à interpretação controla­
da pela Igreja, Calvino conclamou a dis­
cussão religiosa de passagens obscuras e
difíceis entre os eruditos cristãos. Sem
isto, disse Calvino, não haveria liberdade
nem oportunidade para que nova luz
irrompesse da Bíblia.
A abordagem dogmática é freqüente­
mente chamada de “cristalização da
doutrina”. Uma dedicação simulada é
prestada à idéia de que a doutrina deve
ser subordinada à Bíblia. De fato, a
Igreja, personificada pela hierarquia
eclesiástica, é considerada como mestra e
intérprete infalível.
A “cristalização da doutrina” é ponto
de vista também encontrado em algumas
52
formas de ortodoxia protestante. Por
exemplo, muitas denominações e grupos
confessionais afirmam que as interpreta­
ções ensinadas pelo fundador ou pelos
primeiros líderes daquele grupo são se-
mi-sagradas. Na segunda geração da Re­
forma Protestante, houve uma tendência
de se aceitar as declarações doutrinárias
do século XVI como completamente ver­
dadeiras e bíblicas quanto ao seu conteú­
do. Na época atual, contudo, novas ma­
neiras de entender as línguas bíblicas, a
história bíblica e a pesquisa científica re­
velaram os condicionamentos históricos
de muitas interpretações tradicionais.
A erudição crítica, combinada com
uma devotada fé cristã, é a resposta para
uma interpretação dogmática controlada
pela Igreja. Essa erudição deve reveren­
ciar a Bíblia, e jamais sancionar qual­
quer crítica irresponsável que venha a
minar a fé positiva.
4. Tentativas Para Estabelecer Princí­
pios Gramaticais, Históricos e Teo­
lógicos de Interpretação
Os Reformadores Protestantes. Embo­
ra alguns esforços tenham sido envidados
nos primeiros séculos, a principal tenta­
tiva de estabelecer princípios gramati­
cais, históricos e teológicos aconteceram
com a Reforma Protestante, no século
XVI. Em oposição à interpretação elabo­
rada e complicada dos eruditos patrísti-
cos e medievais, os reformadores enfati­
zavam o sentido literal da Bíblia como
única fonte de autoridade. A Bíblia devia
ter prioridade sobre a tradição e devia ser
ojuiz datradição, em vez de ser sua serva.
Martinho Lutero abandonou a quá­
drupla interpretação do período medie­
val, e enfatizou o significado inerente e
fundamental. A alegoria, disse Lutero,
consistia em “truques de macaco”, para
mostrar a esperteza do exegeta. O texto
devia ser entendido em termos de seu
significado claro e dentro de todo o con­
texto bíblico. Como o indicou Mays, isto
aconteceu para garantir que o texto guia­
ria o entendimento, e não uma teologia
que não se podia provar.
O ponto de vista dos reformadores não
era o extremo literalismo do biblicismo
rabínico. Cristo e o Novo Testamento
eram centrais. Os princípios de interpre­
tação deviam derivar da Bíblia. Lutero
enfatizou o sentido gramatical e a neces­
sidade de estudo diligente das línguas
originais e da História. João Calvino,
indubitavelmente o maior intérprete da
Reforma, semelhantemente interpretou
as Escrituras gramatical e historica­
mente.
Os Críticos Históricos do Século XIX.
A tentativa seguinte para estabelecer
princípios gramático-históricos (se não
teológicos) de interpretação, foi a ascen­
são da crítica histórica. Reagindo contra
o escolasticismo protestante do século
XVII, Herder e Semler começaram, no
século XVIII, a tratar a Bíblia como li­
teratura. No século XIX, os críticos his­
tóricos afirmaram que o cenário e o de­
senvolvimento históricos eram indispen­
sáveis para se compreender o significado
da Bíblia. Muitos resultados úteis se
originaram desse estudo. A humanidade
de Jesus foi considerada seriamente, e a
natureza literária da Bíblia foi reconheci­
da plenamente.
Infelizmente, em muitos casos, pres­
supostos filosóficos e não-bíblicos guia­
ram a investigação histórica e a crítica da
Bíblia. Pressupostos naturalistas eram
geralmente aceitos. Reconstruções teóri­
cas do Velho e Novo Testamentos se ba­
seavam na filosofia dialética de Hegel e
no pensamento evolucionista de Spencer.
Os eruditos críticos haviam rejeitado
os pressupostos dogmáticos dos escolásti­
cos protestantes. Por sua vez, no entanto,
como indicou Mays, eles os substituíram
pelas novas premissas dogmáticas de
uma teologia determinada pelo idealis­
mo, pelo romantismo e pelo iluminismo.
Os críticos históricos tiveram sucesso
no trabalho textual, na gramática, na
história literária e na arqueologia, mas
53
deixaram de enxergar o significado teoló­
gico da Bíblia. Um grande sortimento de
fatos e dados foi analisado e classificado.
O interesse do intérprete treinado focali-
zou-se na reconstrução histórica. O sig­
nificado ou arcabouço de referência, to­
davia, estava faltando. Os princípios teo­
lógicos e práticos, em grande parte, fo­
ram ignorados.
Os Intérpretes Teológicos. Desde a
Primeira Guerra Mundial, a interpreta­
ção bíblica foi recondicionada, em im­
portantes círculos teológicos, de maneira
que dá mais ênfase aos princípios teoló­
gicos e práticos de interpretação bíblica.
Os léxicos teológicos estão fornecendo
ferramentas para essa abordagem. Os
comentários enfatizam a unidade estru­
tural subjacente da Bíblia.
Em grande parte do trabalho exegético
atual, os intérpretes estão mais uma vez
procurando ser fiéis à natureza da Bíblia.
A questão histórica e a teológica são
ambas abordadas, quando o intérprete se
aproxima da Bíblia. O que aconteceu na
Bíblia e a interpretação desses aconteci­
mentos estão sendo considerados como
um evento inseparável.
II. Princípios de Interpretação
Bíblica
A teoria que está por detrás da inter­
pretação bíblica é chamada de herme­
nêutica. Interpretação ou exegese é a
explicação do texto propriamente dita,
usando princípios ou teoria. Há nume­
rosas maneiras como os princípios geral­
mente aceitos e básicos de interpretação
bíblica podem ser apresentados. Uma
abordagem conveniente e amplamente
usada é considerar os princípios nas cate­
gorias gramatical, histórica, teológica e
prática. Alguns escritores sugerirão mo­
dificações de arranjo, redação e de or­
dem, mas os princípios serão essencial­
mente os mesmos.
As vantagens de se utilizar estes prin­
cípios são muitas. Esta abordagem exer­
ce algum controle sobre a interpretação.
Uma coibição é exercida contra a tenta­
ção dos intérpretes de procurar signifi­
cados ocultos na Bíblia. Eruditos e leigos
que seguem estes princípios têm feito
contribuições construtivas e permanen­
tes para o conhecimento e a compreensão
da Bíblia.
1. Princípio Gramatical ou Lingüístico
Da interpretação geral origina-se o pri­
meiro princípio básico: o princípio gra­
matical ou lingüístico. A Bíblia é um pro­
duto histórico. Embora, quanto à sua
origem final e conteúdo essencial, ela
seja divina, foi escrita por homens, em
línguas humanas e em condições huma­
nas. Portanto, ela deve ser interpretada
com subsídios semelhantes e com a uti­
lização de alguns dos mesmos princípios
que os outros livros da antiguidade.
No período da Reforma, João Calvino
foi o homem que mais contribuiu para
restaurar o princípio lingüístico. Em
época mais moderna, Emesti, erudito
alemão do século XVIII, foi um pioneiro
na restauração deste princípio ao seu
lugar de direito. A sua obra colocou o
princípio gramatical em tal posição, di­
ante do mundo, que desde então manteve
a sua importância fundamental. Ele pu­
blicou os seus Principies of Interpreta-
tionem 1761.
Significado das Palavras — Etimolo­
gia. Um aspecto do princípio gramatical
é a etimologia. Ê o segundo das raízes de
que as palavras se derivaram. Na maio­
ria dos casos, o intérprete obterá mate­
rial concernente à etimologia de especia­
listas e comentários. Em Gálatas 3:24, a
KJV sugere que “a lei foi o nosso mestre-
escola para nos levar a Cristo”. De acor­
do com a etimologia, esta não é uma
tradução exata. A palavra traduzida co­
mo mestre-escola é derivada de duas
palavras gregas que significam orienta­
dor de crianças. Evidentemente, esta pa­
lavra se refere ao servo da família que
levava a criança à escola e a trazia para
casa. Ele não ensinava, mas mantinha a
disciplina. A tradução da IBB é mais
54
exata: “A lei se tomou nosso aio, para
nos conduzir a Cristo.”
Uso Corrente — Expressões Idiomáti­
cas. Outra parte do princípio gramatical
abrange o uso corrente e as expressões
idiomáticas. O uso do primeiro século
sugere, de acordo com Stibbs, que a
declaração de Lucas 15:13, “o filho mais
moço, ajuntando tudo”, significa que ele
calculou a sua herança e transformou-a
em dinheiro.
Relacionamento Entre Palavras —
Sintaxe. Outro ponto a ser considerado,
em relação ao princípio lingüístico ou
gramatical, é a sintaxe ou relação ou
ordem das palavras em uma sentença.
Em loão 1:1, é afirmado que “o Verbo
era Deus”. O significado é esclarecido
pelo artigo que antecede “Verbo” e a
omissão do artigo antes do predicado
“Deus”. A sintaxe não permitirá a tra­
dução “Deus para o Verbo”. Teologica­
mente, esta última tradução, que não é
permitida pela construção gramatical,
significaria que Deus, em seu todo, é ex­
presso no “Verbo”.
As boas traduções e os bons comentá­
rios dão grande importância aos delica­
dos significados de verbos, substantivos e
cláusulas, e seus relacionamentos. O ver­
bo é especialmente importante no grego.
No hebraico, o sistema verbal é menos
complexo; não obstante, é importante.
Método de Pensamento — Princípio
Lógico. Intimamente relacionado com o
princípio lingüístico e para os propósitos
deste estudo, considerado como parte do
princípio lingüístico, está o princípio ló­
gico ou método de pensamento de um
autor. O intérprete precisa procurar en­
tender o método de raciocínio do autor
bíblico. O povo da Bíblia vivia em um
mundo cujo pensamento era mais fami­
liarizado com o paradoxo do que com a
precisão. Eles se expressavam de manei­
ras que não podem ser forçadas nas
categorias rígidas e exatas do pensamen­
to e da lógica ocidental moderna.
As interpretações tradicionais podem
precisar de revisão à luz do conhecimento
atual das maneiras hebraicas de pensar e
falar. Stibbs menciona que a frase “Amei
a Jacó, e aborreci a Esaú” (Mal. 1:2,3) é
a maneira como o hebraico declara uma
comparação, e não uma oposição direta.
Esta frase seria melhor traduzida assim:
“Amei a Jacó mais do que a Esaú.”
Estilo literário — Princípio Retórico.
Intimamente relacionado com esta ênfa­
se dada ao método de raciocínio está o
princípio retórico. Cada tipo de literatu­
ra, na Bíblia, deve ser entendido à luz de
seu próprio estilo literário. Em narrativa
direta, as palavras são consideradas se­
gundo o seu valor aparente. Nas seções
poéticas, toma-se necessário uma abor­
dagem diferente. Felizmente, a RSV, a
versão da IBB e certas outras traduções
modernas indicam pela maneira de im­
primir aquilo que é formalmente poético.
Jesus disse: “Se o teu olho direito te faz
tropeçar, arranca-o” (Mat. 5:29). Ele
está sugerindo automutilação? Obvia­
mente, este versículo não pode ser enten­
dido de maneira literal. Jesus freqüente­
mente usou hipérboles e linguagem figu­
rada para enfatizar a verdade. Herodes
foi chamado de “raposa” (Luc. 13:32).
Paulo referiu-se a Tiago, Cefas e João
como “colunas” da igreja em Jerusalém
(Gál. 2:9). A palavra coluna não pode ser
entendida como referência a um pilar de
cimento ou tijolos. O contexto literário
toma claro o seu significado. Pedro des­
creve o Diabo como leão que ruge (I Ped.
5:8). A linguagem metafórica precisa ser
reconhecida como tal.
A declaração: “Façamos o homem à
nossa imagem, conforme à nossa seme­
lhança” (Gên. 1:26) não pode ser consi­
derada como descrição das diferentes
partes do homem. Se um intérprete en­
tende o paralelismo hebraico, verificará
que tanto imagem quanto semelhança
têm exatamente o mesmo significado.
A repetição é feita por amor da ênfase.
55
Contexto — Imediato e Geral. O con­
texto, tanto o imediato como o geral, é
básico para qualquer compreensão de
uma palavra ou versículo da Bíblia.
Se os versículos são considerados em
seu contexto, declara Mounce, as dificul­
dades de interpretação têm uma forma
de se resolverem por si mesmas. A frase
“efetuai a vossa salvação”, de Filipenses
2:12, faz sentido, se considerada em seu
contexto. Ê uma conclamação para que
se preocupassem com o bem-estar dos
outros, como desígnio de Deus para a li­
bertação da igreja filipense de uma de­
sunião, que a ameaçava (cf. Fil. 2:1-5;
4:2,3). Esta frase pode desafiar o indiví­
duo com um senso de responsabilidade
de tornar a salvação significativa em ter­
mos de entrega pessoal e crescimento.
O contexto indica, todavia, que este é um
significado secundário.
Embora o princípio gramatical ou lin­
güístico seja básico, a descoberta do sen­
tido gramatical de forma alguma exaure
a interpretação. Os princípios histórico,
teológico e prático precisam também ser
considerados, em relação a um determi­
nado versículo ou passagem da Bíblia, se
queremos que ele seja adequadamente
interpretado.
2. O Princípio Histórico
O segundo princípio básico para a
interpretação bíblica é geralmente desig­
nado como princípio histórico. Desde o
meado do século XIX este princípio tem
sido uma premissa básica para todos os
intérpretes sérios. Ele inclui uma consi­
deração dos materiais geográficos (ante­
cedentes relacionados aos aspectos físi­
cos e de espaço), históricos (antecedentes
temporais) e culturais (antecedentes ma­
teriais e sociais). Visto que a Bíblia se
originou em um contexto histórico, ela só
pode ser entendida exatamente e comple­
tamente quando este contexto é estuda­
do. De alguma forma, o intérprete pre­
cisa sair de sua pele de homem do sé­
culo XX e identificar-se com a vida e os
sentimentos das épocas bíblicas.
Contudo, precisa ser lembrado que o
estudo dos antecedentes históricos e da
cultura da época não deve distorcer o
conteúdo propriamente dito que estiver
sendo considerado. Para um intérprete
evangélico, os escritores bíblicos são con­
siderados como homens de sua época e,
não obstante, como homens que estavam
além de sua época.
Lucas 9:62 sugere que “ninguém que
lança mão do arado e olha para trás é
apto para o reino de Deus”. A compreen­
são deste ensinamento de Jesus é melho­
rada pelo conhecimento dos implementos
agrícolas da Palestina do primeiro sé­
culo. O arado era uma ferramenta que se
manejava apenas com uma mão. Se o
lavrador não prestasse muita atenção,
o arado fugiria ao seu controle. O ensi­
namento é claro. O reino exige atenção
imediata e consideração total, de todo o
coração.
Em I Coríntios 9:27, Paulo usa uma
figura tirada dos jogos atléticos. Ele de­
clara que esmurra o seu corpo e o subju­
ga. Um estudo dos antecedentes históri­
cos informa ao intérprete que os gregos
usavam luvas de boxe feitas com um pe­
daço de madeira dura ou metal, amarra­
do ao pulso com uma correia de couro.
Uma característica dos coríntios era que
os seus olhos tinham a tendência de
serem saltados. A palavra traduzida
como “esmurrar” ou “esbofetear” (pela
RSV como na Almeida antiga ou Trad.
Brasileira) significa atingir a pessoa de­
baixo do olho, levando-a a nocaute.
Esta é uma expressão idiomática. O prin­
cípio é óbvio. Paulo considera o seu
corpo como seu oponente, e afirma que
lhe dá um golpe decisivo e o leva à
servidão. Isto é feito para que ele não seja
desqualificado como pregador e missio­
nário.
De acordo com I Coríntios 11:5, as
mulheres de Corinto deviam conservar as
cabeças veladas, ao orarem. Cartledge
sugere que o contexto histórico ajuda a
iluminar esta declaração. Na antiga Co-
56
rinto, as mulheres de caráter casto usa­
vam seus véus em público. Algumas das
mulheres cristãs coríntias haviam decidi­
do desfazer-se dessa restrição. Paulo pro­
testou, pois não queria que as mulheres
cristãs fossem confundidas com as sacer­
dotisas prostitutas do culto de Afrodite,
em Corinto.
O conhecimento da administração po­
lítica do Império Romano, no primeiro
século d.C., ilumina inúmeras passa­
gens, como a de Filipenses 1:27. A tradu­
ção inglesa KJV declara: “Que a vossa
conversação seja somente a que convém
ao evangelho de Cristo.” A palavra con­
versação significa “vida de cidadão” ou
“modo de vida”. Filipos era uma colônia
romana (At. 16:12). Filipenses 3:20 de­
clara que a cidadania do crente está no
céu. Com o conhecimento dos anteceden­
tes históricos, o intérprete pode entender
o que significavam estes versículos para
os leitores do primeiro século. Eles en­
tenderiam que deviam viver sob a consti­
tuição e as obrigações dos céus, da mes­
ma forma como o cidadão político vivia
sob a constituição e as obrigações de
Roma.
Felizmente, há muito material dispo­
nível hoje em dia para estudar a História
e a cultura. O intérprete deve munir-se
de volumes de história da Bíblia, de atlas
e estudos dos povos bíblicos e sua cul­
tura.
3. O Princípio Teológico
A Bíblia é apenas incidentalmente lin­
guagem e história. Ela não foi escrita
apenas com objetivos históricos e esté­
ticos. Essencialmente, ela foi escrita co­
mo livro de fé. A convicção primordial
dos escritores da Bíblia é que um Deus
gracioso agiu na História a fim de criar
em Cristo um povo para si mesmo. A in­
terpretação precisa procurar entender es­
tes critérios teológicos.
Felizmente, desde a Segunda Guerra
Mundial, novas ferramentas têm sido
produzidas, tais como léxicos teológicos.
Estes estudos indicam, por exemplo, que
Jesus não era apenas o Mestre refinado
da Regra Ãurea e da paternidade geral
de Deus. Pelo contrário, ele foi aceito
como o Messias que cumpriu, em sua
vida, morte e ressurreição, as promessas
dos profetas do Velho Testamento, de
que Deus na plenitude dos tempos agiria
redentoramente na História.
Ás narrativas bíblicas não descrevem
acontecimentos externos objetivos, apre­
sentados em termos satisfatórios para os
métodos classificatórios das ciências na­
turais. Os escritores e repórteres se en­
volveram nos acontecimentos, e tanto
lembraram quanto interpretaram. O que
aconteceu e a interpretação deles foram
fundidos. Os escritores do Novo Testa­
mento receberam o impacto e ficaram
atônitos com a realidade do encontro
com Deus em Jesus Cristo. Eles encon­
traram nova vida nesse encontro. Segue-
se, portanto, que Jesus é descrito, na
Bíblia, por homens que creram nele
como o Messias. O mesmo princípio se
aplica ao relato da fuga dos hebreus atra­
vés do Mar Vermelho: ele é feito por
homens que a lembraram, foram incluí­
dos na libertação e a consideraram como
ato de Deus.
Em muitos casos, há um intervalo
entre os fatos bíblicos e a fixação literá­
ria da testemunha. Como o indicou
Mays, a Bíblia é o resultado de um pro­
cesso complexo de formação, modelação
e crescimento. Este intervalo de tempo
entre os fatos e o texto não é neutro nem
vazio. Ã medida que foram contados e,
talvez, recontados, os acontecimentos ga­
nharam uma nova e dinâmica contempo-
raneidade. As próprias testemunhas con­
firmaram e aprofundaram a sua maneira
de entender e os seus conceitos sobre o
evento original.
O intérprete também contribui para o
caráter da interpretação. Ele não é como
um experimentador em química; tem
pressupostos, dos quais precisa estar
57
cônscio. Eles precisam ser provados em
suas confrontações com a Bíblia; ele pre­
cisa admitir distorções e preconceitos.
Em certo sentido, o intérprete teoló­
gico plenamente adequado precisa estar
relacionado com um grupo cristão, de
que, por fé, seja membro. A Bíblia não
pode ser plenamente compreendida a
partir de seu lado externo, isto é, pela
gramática, lógica, retórica e história so­
mente. Ela precisa ser entendida a partir
de seu centro ou imo. O centro ou imo da
Bíblia revela-se melhor ao homem que
tem uma relação pessoal com Deus, atra­
vés de Jesus Cristo, e que é habitado pelo
Espírito de Deus.
O princípio teológico também inclui o
que é chamado de interpretação doutri­
nária. A interpretação deve ser feita de
acordo com as ênfases centrais da Bíblia.
Esta idéia ou abordagem foi recomenda­
da fortemente por Lutero, Calvino e os
outros reformadores protestantes do sé­
culo XVI. Os reformadores insistiam que
havia uma verdade central na Bíblia que
agia como base ou pedra de toque para a
interpretação.
Lutero encontrou esta pedra de toque
no conceito paulino de justificação pela
fé, especialmente da maneira como ele é
apresentado em Romanos e Gálatas. Ê
óbvio que Lutero enfatizou exagerada-
mente este tema, por causa de sua luta
contra o legalismo e o sacramentalismo
medieval católico romano.
No século XIX, o conceito pauliíio de
“em Cristo” foi considerado, por muitos,
como a chave do pensamento de Paulo.
Esta divergência do ponto de vista da
Reforma levou, em anos recentes, à rea­
bertura da questão da qual é realmente a
chave central de interpretação da Bíblia.
Os eruditos voltaram a interrogar à pró­
pria Bíblia, para desvendar o seu centro
teológico.
Geralmente concorda-se que Lutero
tinha conceitos válidos no afã de pro­
curar uma pedra de toque para a inter­
pretação, quando começou com Paulo.
Contudo, muitos eruditos sustentam,
hoje em dia, que a doutrina da justifica­
ção pela fé e o conceito de se estar em
Cristo são ambos inadequados e carecem
de compreensão. O tema da história sa­
grada, da história redentora ou da histó­
ria da salvação parece, para muitos teó­
logos, ser chave mais adequada para a
vida e o pensamento de Paulo e também
para a mensagem central da Bíblia. Esta
perspectiva redentora-histórica abrange
tanto o conceito de justificação pela fé
como o de estarmos em Cristo, e acres­
centa dimensões adicionais.
Outros estudiosos competentes acres­
centam uma palavra qualificadora à ex­
pressão “história da redenção”. Esta pa­
lavra é “escatológica” (últimas coisas).
Nos primeiros anos deste século, Albert
Schweitzer indicou que a escatologia é o
tema dominante da Bíblia. Até então,
nenhum intérprete cuidadoso fora capaz
de eliminar, de seu pensamento, a cen-
tralidade da orientação futura no ponto
de vista do mundo bíblico.
O Velho Testamento fala da contínua
atividade de Deus na História; não obs­
tante, para os escritores do Velho Testa­
mento, a plenitude dos propósitos de
Deus está sempre no futuro. Em o Novo
Testamento, reconhecia-se que Cristo
fez, por assim dizer, o primeiro paga­
mento das realidades da redenção, uma
antecipação. Não obstante, a plenitude
dessas realidades e a plenitude do poder
que elas têm permanecem no futuro. Em
Cristo, o futuro (a era por vir) veio para o
presente (I Cor. 10:11).
Parece que a maneira mais frutífera de
expressar a chave para a interpretação da
Bíblia é em termos de uma combinação
das ênfases escatológica e da história
sagrada. Esta abordagem pode ser de­
signada como “história escatológica sa­
grada”.
O intérprete deve ir além do significa­
do verbal e histórico precisos do texto,
para entender a teologia que o texto in­
forma. Isto significa que o intérprete
58
procura descobrir, por exemplo, não me­
ramente que diretrizes Paulo deu aos co-
ríntios, mas também a teologia que o
levou a dar essas diretrizes. Por detrás
das parábolas de Jesus estão as afirma­
ções a respeito do reino de Deus, vindo
na pessoa de Cristo, e o desafio de uma
resposta radical a ele. Bright insiste que
essa abordagem teológica não é uma
violação dos princípios sadios de inter­
pretação. Expor o conteúdo teológico do
texto é coisa que está incluída na tarefa
da interpretação gramatical, histórica e
teológica.
Além da pedra de toque teológica cen­
tral da abordagem da história escatológi-
ca sagrada, as ênfases subordinadas de­
vem ser notadas.
O Novo Testamento é a norma para se
interpretar o Velho Testamento. A pro­
fecia não é auto-interpretável, mas deve
seguir os conceitos neotestamentários.
Isto não significa que o Novo Testamento
rejeita o Velho Testamento — ele o cum­
pre.
As passagens sistemáticas devem ter
precedência sobre as passagens inciden­
tais. Por exemplo, a justificação é tra­
tada de forma sistemática em Romanos e
em Gálatas. Estes livros devem ser os
guias primordiais para a discussão desta
doutrina. Versículos incidentais e am­
bíguos devem ser subordinados, ou con­
siderados à luz de ênfases mais amplas e
mais claras. Esta abordagem é, na ver­
dade, o tipo de procedimento que têm as
pessoas eruditas, quando qualquer con­
junto de material ou sistema de pensa­
mento está sob exame.
Os princípios universais devem ser
procurados no meio de cerimônias locais.
Foi através do lavapés que Jesus Cristo
ensinou o princípio de amor e humilda­
de. A ordem de Paulo, “saudai-vos uns
aos outros com ósculo santo” (Rom. 16:
16), deve ser considerada como ensina­
mento do princípio de fraternidade cris­
tã através do veículo da cerimônia co­
mum no primeiro século.
As doutrinas não devem basear-se sim­
plesmente em um versículo ou em uns
poucos versículos variados. Pelo contrá­
rio, o teor geral da Bíblia deve ser pro­
curado. Inevitavelmente, haverá aspectos
da verdade bíblica que parecerão contra­
ditórios para as mentes finitas. Um estu­
dante reverente da Bíblia, reconhecendo
que é finito, viverá com estas verdades
aparentemente contraditórias.
A soberana ênfase da Bíblia, em rela­
ção ao propósito salvador de Deus na
História, é fator básico de todas estas ên­
fases subordinadas. Cada parte da Bíblia
deve ser considerada em relação a este
propósito orgânico e teleológico. No mi­
nistério público de Cristo, Deus é con­
siderado no processo de agir. Uma vinda
do reino mais ampla e mais decisiva foi
vista na cruz e na ressurreição. A pleni­
tude do reino, todavia, só acontecerá na
Parousia.
Visto da perspectiva da história escato-
lógica sagrada, o conceito do mistério
discutido nas parábolas de Mateus 13 é
mais bem entendido. O mistério é que o
reino que deve vir em poder apocalíptico
já entrou no mundo antecipadamente,
para operar de maneira mais ou menos
aberta e dramática entre os homens.
O reino, na época do ministério de Jesus,
pode ter parecido fermento ou uma pe­
quena semente de mostarda, mas ainda
virá em poder e glória.
A ênfase da história escatológica sa­
grada propicia uma estrutura para a es­
pécie apropriada de tipologia. O Velho
Testamento tem muitas figuras que têm
existência e significado reais por si mes­
mas, porém representam uma coisa ou
acontecimento maior e permanente, cuja
materialização plena ou antítipo encon-
tra-se em o Novo Testamento. Alguns in­
térpretes consideram o Velho Testamen­
to demasiadamente figurado. Outros são
céticos demais com respeito à tipologia.
Os intérpretes moderados e construtivos
tomam o Novo Testamento como seu
ponto de partida, nos estudos tipológi-
59
cos. O significado emprestado aos tipos
do Velho Testamento pelo Novo Testa­
mento é de importância fundamental.
O princípio teológico também inclui
uma consideração da literatura de inter­
pretação. A Bíblia foi escrita há centenas
de anos. Muitos eruditos devotos têm es­
tudado a Bíblia. Verificando como ou­
tras pessoas a interpretaram, o intérprete
contemporâneo recebe os benefícios da
sabedoria e dos erros do passado.
4. O Princípio Prático
O quarto princípio de exegese bíblica é
o princípio prático. A culminação da
interpretação bíblica é a aplicação da
mensagem bíblica ao mundo moderno.
Tendo encontrado o que ela quis dizer, o
intérprete precisa perguntar: O que ela
quer dizer?
Alguns intérpretes são peritos em tor­
nar claro o que os escritores bíblicos
queriam dizer em sua época. Percebem
as convicções teológicas que guiaram os
profetas e os apóstolos. Contudo, têm
menor habilidade para relacionar este
significado com o mundo contemporâ­
neo. Outros intérpretes conduzem dis­
cussões contemporâneas que têm peque­
na relação com o significado e a men­
sagem bíblica. Um intérprete cuidadoso
procurará apresentar a palavra bíblica
como o que Deus quer dizer aos homens
em situações específicas, hoje em dia.
Tal interpretação resultará em tradução
em jargão moderno. Além do mais, ele
procurará levar os seus ouvintes ou lei­
tores a uma implementação responsável
da verdade bíblica em ação.
A narrativa da criação, em Gênesis
l:l-2:4, retrata o cosmos em termos de
um quadro do mundo compreensível pa­
ra o mundo antigo. Um intérprete perito
dirá que Deus não está interessado em
apresentar ao homem os detalhes de cos­
mologia ou a metodologia detalhada de
sua atividade criativa. Encontra-se, to­
davia, no relato de Gênesis, uma visão do
mundo que coloca o Senhor vivo como o
Criador e fim de todas as coisas. O in­
térprete deve aplicar esta ênfase central
da história antiga às necessidades das
pessoas que estão vivendo em uma era de
vacuidade, fastio e niilismo.
Isaías 6:1 descreve Deus com trono,
veste a aparência corporal. Utilizando
a doutrina de acomodação sugerida por
João Calvino há quatro séculos, um in­
térprete contemporâneo reconhece que
esta é a maneira como Deus foi represen­
tado por Isaías. A verdade para então,
expressa em termos do oitavo século
a.C., e para hoje, é que existe um Deus
pessoal de santidade e transcendência
por detrás dessa linguagem dramática.
Para Isaías, Calvino e os homens de fé
contemporâneos, o uso de metáforas su­
blimes, para descrever Deus, preserva a
diversidade e a transcendência de Deus.
A declaração de Isaías refutará para
sempre qualquer identificação monista
ou mística de Deus com o homem, como
alguns hindus e budistas ensinam hoje
em dia.
O teste de uma aplicação prática é
saber se o texto bíblico comunica ou não
a intenção nele implícita. Por exemplo,
no primeiro século, a ressurreição de
Cristo significava que havia começado a
nova era, Cristo havia sido entronizado, e
o homem podia viver pelo poder da nova
era, aqui e agora. Este princípio é apli­
cável hoje, tanto quanto sempre o foi.
Depois que aprende o significado ori­
ginal de uma passagem, o intérprete está
em condições de aplicá-la à vida hodier­
na. Mas a ênfase deve exercer-se em
princípios, e não em minúcias específi­
cas. Os escritores do Novo Testamento
constantemente avançaram através de es­
pecíficos para os princípios. É óbvio que
ninguém deve tentar vestir-se como o
povo do primeiro século nem seguir os
seus estilos de penteado. No entanto, o
princípio do que é apropriado, isto é, de
mansidão e modéstia, é atingido pelos
materiais bíblicos que tratam de vesti­
menta e aparência (I Ped. 3:3; I Tim.
2:9).
60
Os princípios esboçados acima não
devem ser considerados como regras rí­
gidas e mecânicas. Devem ser diretrizes
úteis, contudo, quando o crente procurar
aumentar o seu entendimento da Bíblia e
apropriar-se dos recursos e da orientação
que Deus deu ao homem na Bíblia e atra­
vés dela. Hábitos impróprios de inter­
pretação bíblica devem ser francamente
admitidos e rejeitados. A prática cons­
tante e o diálogo com outros intérpretes
devem ser encorajados. Em uma cultura
em que dezenas de seitas radicais dizem
estar interpretando a Bíblia adequada­
mente, é imperativo que se dê atenção ao
entendimento e à prática destes princí­
pios geralmente aceitos.
Para Leitora Adicional
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61
A Geografia da Bíblia
Através da História, a Palestina tem
tido uma importância inteiramente des­
proporcional em relação ao seu tamanho.
Ela é a ponte que liga as duas maiores
massas de terra deste planeta: a Eurásia
e a Ãfrica. Está situada de tal forma que
todas as grandes rotas terrestres entre
esses dois continentes e também as prin­
cipais rotas marítimas orientais e ociden­
tais convergem para ela. Como resulta­
do, tem havido constante movimento de
povos através da “Terra da Bíblia” , com
os objetivos de migração, comércio e
guerra.
I. O Mundo do Velho
Testamento
O mundo do Velho Testamento, que
em parte alguma tem mais do que algu­
mas centenas de quilômetros de compri­
mento, e, provavelmente, cento e cin­
qüenta quilômetros de largura, era cons­
tituído primordialmente de três partes: a
Palestina no centro, o Egito a oeste-su-
doeste e a Mesopotâmia a leste-nordeste.
Estas regiões, com áreas menores entre
elas, constituíram o que veio a ser conhe­
cido como o “Crescente Fértil” .
A Palestina. Esta parte do mundo do
Velho Testamento é a menor, mas a
mais importante das três partes. As
fronteiras tradicionais ao norte e ao sul
da Palestina, de Dã a Berseba, ficam a
cerca de 240 quilômetros de distância
uma da outra. Embora tenha havido
breves períodos em que a fronteira sul se
estendeu até o Golfo de Ãcaba e à cidade
de Eziom-Geber, a 450 quilômetros de
B. E lm o Scoggin
Dã, durante a maior parte do tempo os
hebreus se consideraram possuidores
apenas da terra desde Dã até Berseba.
A margem do deserto ficava no máximo a
não mais de 120 quilômetros ao leste da
costa do Mediterrâneo.
O centro do mundo do Velho Testa­
mento, portanto, é um retângulo de mais
ou menos 120 por 240 quilômetros, cons­
tituído de montanhas, desertos, desfila­
deiros e planícies.
Os vizinhos ao leste e ao oeste da Pa­
lestina, a Mesopotâmia e o Egito, eram
as “terras do rio” . Cada uma delas é
caracterizada por um sistema fluvial de
monta, que percorre toda a sua extensão,
e cada uma delas é separada da Pales­
tina por faixas de deserto. O deserto do
Sinai, entre a Palestina e o Egito, é par­
ticularmente severo, e serviu de “pára-
choque” entre os dois países.
Egito. Este vizinho, ao sudoeste da
Palestina, muitas vezes enviou os seus
exércitos em direção ao norte. Em certa
ocasião, eles marcharam contra os gran­
des poderes do Oriente: Síria, Babilônia,
Assíria e Pérsia. Freqüentemente, os
egípcios lutaram contra os habitantes da
Palestina.
Os depósitos de mineral ao sul da
Palestina e as suas florestas ao norte
também atraíram comerciantes e solda­
dos egípcios.
A economia do Egito está ligada inse­
paravelmente ao rio Nilo. Ele tem partes
desérticas ao leste e ao oeste do rio, mas
está centralizado ao redor da faixa longa
e estreita de solo de depósitos de aluvião
63
em ambas as margens do Nilo. Esses
depósitos se abrem no rico delta do rio,
ao norte, onde ele se encontra com o Mar
Mediterrâneo. Os palestinos mandavam
emissários ao fértil vale do Nilo, para
comprar cereal, quando o seu país não
conseguia produzi-lo.
Mesopotamia e Síria. Os vizinhos ao
nordeste da Palestina constituíam o bra­
ço oriental do “Crescente Fértil” e, da
mesma forma como o Egito ao sudoeste,
são caracterizados por sistemas fluviais
muito importantes: o Tigre e o Eufrates.
Esses dois rios têm origem nas monta­
nhas ao sul do Mar Cáspio, e estão su­
jeitos a inundações sazonais. Canais, di­
ques e represas eram usados para contro­
lar essas inundações até certo ponto e pa­
ra irrigar os campos. Ruínas desses siste­
mas de irrigação ainda são visíveis em
muitos lugares.
A vida era mais difícil e menos estável
na Mesopotâmia do que no vale do Nilo.
Essa região fica ao norte do Egito e tem
invernos mais frios. Os desertos e outras
fronteiras que a separavam de seus vizi­
nhos eram menos restritivas, de forma
que sucessivos invasores conquistaram a
terra e estabeleceram as suas dinastias.
A Palestina muitas vezes foi vítima dos
conflitos entre o Egito e a Mesopotâmia,
que travavam as suas guerras em solo pa­
lestino.
A Síria não tem fronteiras geográficas
fixas na Bíblia, e em várias épocas in­
cluiu a região entre o Sinai e a Mesopo­
tâmia. A Bíblia hebraica usa o nome de
Harã para designá-la como o país dos
arameus, que estabeleceram-se na re­
gião, colocando Damasco como sua capi­
tal, por volta do décimo terceiro século
a.C. Eles chegaram ao auge de seu poder
quase simultaneamente com os hebreus,
na Palestina.
A costa fenícia, partes do vale do Eu­
frates e partes da Palestina eram pouco
mais do que províncias sírias, em uma
época ou outra da história síria.
II. O Mundo do Novo
Testamento
Logo depois da ressurreição de Jesus,
os cristãos começaram a viajar para mui­
to além dos limites do mundo vetero-
testamentário. As perseguições, as via­
gens missionárias e o comércio enviaram
seguidores do Cristo por todas as terras
mediterrâneas. Aí eles pregaram a sua
nova fé, se reuniram em comunidades de
adoradores e, mais tarde, estabeleceram
igrejas.
Lucas 2:1 diz que Augusto César rei­
nava sobre “todo” o mundo habitado.
Esse Império Romano se estendia, a
grosso modo, do Atlântico até o Eufra­
tes, e do Reno e Danúbio até os desertos
Arábico e do Saara.
Àsia Menor. Esta subdivisão é limita­
da ao sul pelo Mar Mediterrâneo e a
Mesopotâmia; ao norte, pelo Mar Negro
e o Mar Cáspio; ao leste, pela Armênia e
Média; e ao oeste, pelas Ilhas Gregas e o
Estreito de Bósforo e Helesponto.
A Asia Menor teve considerável impor­
tância durante o período neotestamentá-
rio. As viagens missionárias de Paulo se
demonstraram frutíferas, nessa região, e
resultaram em igrejas em muitas cida­
des. Foi da Asia Menor que o Espírito
chamou Paulo para a Macedônia e a
Grécia.
Grécia. A disseminação do evangelho
para o oeste logo aconteceu como resul­
tado da “chamada para a Macedônia”.
As principais cidades gregas — entre
elas, Corinto, Filipos e Tessalônica —
tomaram-se as bases de fortes comunida­
des cristãs e contribuíram para o cres­
cimento e a disseminação da nova fé.
Itália. Ao oeste da Grécia, atravessan­
do-se o Mar Adriático, fica a península
italiana, com as ilhas de Sicília, Sarde­
nha e Córsega ao oeste. O evangelho foi
bem estabelecido em Roma, no decorrer
de uma geração, após a ressurreição de
Jesus.
Egito e África do Norte. As principais
cidades do mundo mediterrâneo tinham
64
comunidades judaicas bem estabelecidas
antes da época de Cristo. Foi a essas
comunidades que as notícias do evange­
lho chegaram em primeiro lugar. A gran­
de cidade de Alexandria tornou-se um
forte centro da nova fé cristã, e até che­
gou a competir com Roma e Jerusalém,
em termos de predomínio. De Alexan­
dria, a fé cristã se espalhou em direção
ao oeste, ao longo da costa norte-africa-
na, a Cirene, Cartago e, possivelmente,
até Gibraltar.
O Mediterrâneo Ocidental. Hâ pessoas
que pensam que Társis, cidade para
onde Jonas fugiu (Jon. 1:3), pode ser a
Espanha, e que o contato entre a Pales­
tina e a Espanha remonte à época vete-
rotestamentária. Sabemos, de Romanos
15:28, que Paulo pretendia ir à Espa­
nha. Pode ser que Paulo ou alguém que
fosse membro das comunidades ociden­
tais, influenciado por ele, tenha levado o
evangelho à Inglaterra, invadida pelos
romanos em 43 d.C.
III. Palestina
A Palestina é a terra a que estão li­
gadas a história e a geografia bíblicas.
Embora o país seja pequeno, a sua posi­
ção é muito importante.
1. Fronteiras
A Palestina é limitada pelo Mar Medi­
terrâneo ao oeste; pelo deserto ao leste;
pela Síria ao norte; e pelo Egito ao sul.
A fronteira setentrional mudou com fre­
qüência, por causa da sorte mutável da
Síria ou de algum outro vizinho. A fron­
teira meridional era bem mais estável,
devido ao deserto, que servia de limite
natural entre a Palestina e o Egito.
2. Subdivisões
Há pelo menos quatro zonas distintas
na Palestina, como faixas que correm do
norte ao sul.
A Planície Costeira. Essa área se es­
tende em larguras variáveis, desde a “Es­
cada de Tiro” até o “Ribeiro do Egito”.
A planície costeira dividia-se, natural­
mente, em três partes. A primeira delas
era Zebulom. A planície chega a ter 7
quilômetros de largura ao norte, perto da
Baía de Aco, mas no cume do Monte
Carmelo não é mais larga do que uma ou
duas centenas de metros. O Monte Car­
melo forma quase que uma saliência, que
se projeta para o mar, neste ponto, e
forma a belíssima Baía de Aco, em cujo
lado norte ficava o porto de Aco (Juí.
1:31).
A segunda divisão era Sharon. Do
cume do Carmelo para o sul, a planície
começa novamente a se ampliar, alcan­
çando uma largura de 23 quilômetros ou
mais, em alguns pontos. Esta parte da
planície fica entre o Monte Carmelo e o
rio Yarkon, e é mencionada comumen-
te como Sharon. Nos tempos bíblicos, ela
era coberta por espessas florestas e tinha
regiões pantanosas.
A terceira divisão era a Filístia, nome
dado à planície costeira do Yarkon para
o sul. Os filisteus não apenas tinham as
suas cinco maiores cidades nessa região
— Asdode, Ascalom, Ecrom, Gate e
Gaza — mas também emprestaram o seu
nome a toda a região.
A planície filistéia era mais monta­
nhosa do que Sharon. Não recebia tanta
chuva quanto a região norte, e, por con­
seguinte, não era pantanosa nem densa­
mente arborizada. Essas suaves terras
baixas eram adequadas para colheitas de
cereais, oliveiras e uvas, embora, conti­
nuando para o sul, a água fosse de fato
escassa. Gaza era a última cidade flores­
cente antes do deserto.
A Cordilheira Ocidental. Conhecida
como Cordilheira do Líbano, Planalto
Ocidental ou Altiplano Judeu, esta cor­
dilheira começa alta, no Líbano, e conti­
nua para o sul, até a região do Sinai.
Fendas, na superfície da terra, correndo
de leste para oeste, fizeram que essas
montanhas desçam em uma série de de­
graus.
De Esdraelom para o norte, essa re­
gião é identificada como Galiléia. O ex­
tremo norte da cordilheira fica perto da
65
costa. É conhecida hoje como o Líbano,
mas nos tempos bíblicos era conhecida
como Fenícia. Era distinguida por suas
grandes florestas de enormes cedros, que
aumentavam a dificuldade de se passar
por sobre as montanhas. Havia muitos
portos excelentes nas costas rochosas da
Fenícia, e as suas florestas propiciavam
abundante madeira para os navios fení­
cios.
O primeiro degrau, descendo-se das
alturas do Líbano, é o planalto da Ga-
liléia superior. A montanha mais proe­
minente dessa região é o Monte Canaã,
que tem mais de 1.000 metros de altura,
sendo a montanha mais alta da Palesti­
na, ao oeste do vale do Jordão. Todo o
norte da Palestina é visível do alto do
Monte Canaã. A Galiléia inferior fica ao
sul de uma linha que corre para o leste de
Aco, até o extremo norte do Mar da
Galiléia. A sua característica dominante
é que ela é composta de montanhas e
vales ou pequenas planícies. É a região
que, na conquista de Canaã, foi atribuí­
da a Zebulom e Naftali (Jos. 19:10,32).
Esta região é comparativamente bem
regada e importante para a produção de
uvas, olivas, cereais e vegetais.
A Planície de Esdraelom fica entre o
planalto da Galiléia inferior e as monta­
nhas de Samária. Esta planície de forma
triangular é ligada ao Mediterrâneo pelo
ribeiro de Quisom, na Baía de Aco, e, ao
vale do Jordão, pelo vale de Jizreel. Es­
draelom era mal drenada nos tempos
bíblicos, e muitos exércitos antigos foram
retidos em seus lodaçais traiçoeiros.
O Monte Tabor, no canto nordeste
dessa planície, é um dos locais que se
considera tradicionalmente como o da
transfiguração de Jesus (Mat. 17).
As Montanhas Centrais se levantam da
planície de Esdraelom, para formar, ao
sul, a região conhecida como Samária,
composta dos territórios de Manassés e
Efraim.
A Cordilheira do Carmelo tem menos
de 700 metros de altura, mesmo em seus
pontos mais altos, ao noroeste e ao su­
deste, e é muito mais baixa no meio,
perto de Megido, onde é atravessada pelo
Passo de Megido.
Manassés é uma grande bacia que
rodeia Siquém. Tem a aparência de um
pires, por causa das terras altas que
circundam as suas margens. Efraim,
para o sul de Manassés, tem a forma de
uma grande cúpula. É uma formação de
cal de, aproximadamente, 1.000 metros
de altitude, em alguns lugares, e, por­
tanto, é uma das áreas mais bem regadas
da Palestina. O seu solo é fértil e excelen­
te para olivas, uvas e outros produtos
agrícolas.
A região de Benjamim fica entre
Efraim e Judá. Talvez ela seja mais ca­
racterística devido ao seu fácil acesso
pelo vale de Aijalom, vindo do oeste, e
pelo vale que leva a Jericó, vindo do leste.
O território benjamita era bordejado, ao
norte, por Betei, e, ao sul, por Jerusalém.
Judá e o Shephelah eram o território
dos altiplanos de Judá. Esta região come­
ça pouco ao norte de Jerusalém, e esten-
de-se até o ponto em que as montanhas
cessam, ao norte da antiga cidade de
Arade. Shephelah é o nome dado pelos
antigos hebreus às colinas de pedra cal-
cárea que ficam entre a planície filistéia e
as montanhas de Judá. Esse termo signi­
fica “terras baixas” e referia-se à região
imediatamente abaixo das regiões mon­
tanhosas habitadas pelos hebreus. Era
uma “terra de ninguém” entre os he­
breus e os filisteus, e eles lutavam fre­
qüentemente para controlá-la.
O Negev fica além do extremo sul das
terras altas judaicas. Ele, na verdade,
inclui a região que fica pouco ao oeste do
extremo sul do Mar Morto, até a costa do
Mediterrâneo, ao sul de Gaza. Berseba
fica na fronteira norte do Negev. Ao sul,
ele se perde nas vastidões desérticas do
Sinai. Há poucas fontes e poços nessa
área, e uma limitada atividade agrícola
pode ser exercida em alguns lugares bai­
xos.
66
O vale do Jordão. Mais exatamente
conhecido como vale da Grande Fenda, o
Jordão é uma depressão de diferentes
profundidades, que corre através de toda
a extensão da Palestina. A sua largura
média é de dezesseis quilômetros. O rio
Jordão está contido inteiramente nela.
Em seu extremo norte, o vale está 600
metros acima do nível do mar, embora já
tenha caído 500 metros quando chega à
Palestina, nos pântanos de Huleh. Está
210 metros abaixo do nível do mar, no
Mar da Galiléia, e cerca de 430 metros
abaixo do nível do mar, nas margens do
Mar Morto. Daí em diante, ele se eleva,
até alcançar 250 metros acima do nível
do mar, no Arabá, antes de cair nova­
mente para o nível do mar, no Mar Ver­
melho, em Elate.
Por causa da profundidade do vale, há
muitos declives íngremes e precipícios.
As montanhas ao oeste estão 1.000 me­
tros ou mais acima do vale, em alguns lu­
gares, e são muito mais altas do que as
que estão ao leste.
O vale tem um clima caracteristica­
mente seu. É quente o ano todo, mesmo
no norte, e tem condições desérticas ao
sul. Onde ele é regado por fontes ou
torrentes, a vegetação tropical é abun­
dante. O vale pode ser subdividido da se­
guinte maneira:
Vale de Huleh, algumas vezes chama­
do de Ãguas de Merom. Esta região pan­
tanosa, muito úmida, fica a 70 metros
acima do nível do mar, e é o lugar onde
se encontram os vários braços do rio
Jordão. Nos tempos bíblicos, era uma
planície pantanosa, onde cresciam jun­
cos e arbustos.
O Mar da Galiléia, no Velho Testa­
mento (Núm. 34:11), era chamado de
Mar de Quinerete. O Novo Testamento
(Luc. 5:1) o chama de lago de Geneza-
ré.(*) Esse mar fica apenas 16 quilôme­
(*) NOTA DO TRADUTOR: O Evangelho de João
chama este mar de Mar de Tiberíades (João
6: 1; 21: 1).
tros ao sul de Huleh, distância em que o
vale cai abruptamente 280 metros, fazen­
do com que as praias da Galiléia fiquem
210 metros abaixo das do mar Mediterrâ­
neo. É o único lago de água doce da
Palestina. Tem 21 quilômetros de exten­
são e 11 a 14 quilômetros de largura. As
suas águas frias, claras, de cor azul es­
cura, fervilham de peixes. Do alto das
montanhas vizinhas, ele parece uma jóia
bela e calma. Não obstante, é capaz de
formar tempestades violentas.
Os pequenos vales e planícies ao redor
do mar são férteis e bem regados. O
clima tropical os toma produtivos com
profusão: ali se colhe uma grande varie­
dade de frutos e vegetais o ano todo.
Cidades importantes, Magdala e Cafar-
naum, por exemplo, ficavam às suas
margens nos tempos bíblicos. A cidade
de Tiberíades sobrevive até hoje.
O vale do Jordão, entre o Mar da
Galiléia e o Mar Morto, tem menos de
112 quilômetros de comprimento. Na sua
extremidade norte, este vale é fértil e de
luxuriante vegetação, especialmente ao
norte da confluência dos rios Jordão e
Iarmuque. Daí para o sul, o Jordão
cortou o seu leito através de marga (cal­
cário argiloso) azul-cinza, e as margens
do rio estão cheias de flora e fauna.
Aproximadamente 24 quilômetros ao
sul do Mar da Galiléia, o vale de Jizreel
começa do oeste. O vale do Jordão se
estreita aqui, até ter cerca de 40 qui­
lômetros, onde o Wadi Far’ah se junta a
ele novamente, do lado do oeste. A mar­
gem oeste, do Wadi Far’ah até o Oásis de
Jericó, é uma terra deserta, com poucas
fontes e ribeiros. Ao leste do rio há muito
mais fontes e ribeiros. Os dois maiores
são o Iarmuque, mencionado acima, e o
Jaboque. À margem leste se desenvolve­
ram mais cidades do que à margem
oeste, por causa do suprimento superior
de água.
O Mar Morto era conhecido, nas épo­
cas bíblicas, como Mar Salgado. Ele fica
na fissura mais profunda da terra, sem se
67
contar o fundo dos oceanos. A linha de
suas praias fica a cerca de 430 metros
abaixo do nível do mar, e o mar, na sua
metade norte, tem a profundidade de 400
metros. El-Lisan, “a língua”, é a penín­
sula em formato de barco, que forma
uma protuberância a partir do lado leste.
Acima dela, o mar tem 45 quilômetros de
comprimento. Cerca de 22 quilômetros
do mar ficam ao sul de El-Lisan, e ali ele
não tem mais de 12 metros de profundi­
dade. A largura do Mar Morto varia de 3
quilômetros a 800 metros em El-Lisan, e
de 13 a 16 quilômetros pouco acima
desse lugar. A terra ao redor do mar é
constituída de marga salgada. As praias
são, em sua maioria, estreitas. Ao redor
do mar, o calor é quase insuportável
durante a maior parte do ano.
Os famosos “Rolos do Mar Morto”
foram descobertos em 1947, numa caver­
na do lado noroeste do Mar Morto. Ex­
plorações ulteriores e intensivas escava­
ções revelaram também um cemitério e
restos de uma biblioteca e de alojamen­
tos, que pertenciam aos escribas que
copiavam e preservavam esses antigos
documentos.
O Arabá é o nome geralmente dado à
parte do vale da Grande Fenda, que per­
corre 176 quilômetros, desde o Mar Mor­
to até o Mar Vermelho. Este deserto
desolado eleva-se desde 430 metros abai­
xo do nível do mar até 250 metros acima
do nível do mar, e, depois, em degraus
sucessivos, desce novamente para o nível
do mar em Elate. A precipitação pluvial
é esporádica; não obstante, algumas ve­
zes acontece uma violenta inundação no
vale, por causa da água das chuvas que
caem sobre as montanhas vizinhas.
Os depósitos de cobre, em ambos os
lados do Arabá meridional, têm sido
explorados desde épocas pré-salomôni-
cas. As minas de cobre e a estrada que
liga Elate e o Mar Vermelho a regiões ao
norte, são as características mais impor­
tantes do Arabá.
Planalto Oriental. As montanhas des­
sa região são geralmente mais altas do
que as do oeste. íngremes encostas, que
descem para o Jordão, caracterizam o
lado ocidental desse planalto. Não há
uma linha de demarcação claramente
definida entre o planalto e os desertos
sírio e arábico ao leste.
Uma precipitação pluvial comparati­
vamente grande resulta do elevamento e
esfriamento do ar pelo elevado planalto.
O deserto tem uma poderosa influên­
cia sobre a região ao leste do Jordão.
Ventos quentes sopram durante a prima­
vera e o outono. Ventos congeladores
chicoteiam do deserto no inverno.
O planalto é caracterizado por quatro
rios: Iarmuque, Jaboque, Amom e Zere-
de. Eles começam perto do deserto orien­
tal, e correm para o norte, antes de se
desviarem para o oeste. Há também mui­
tos regatos menores, que fluem na mes­
ma direção. Desta forma, a maior parte
da água das chuvas que caem sobre o
planalto mais tarde flue para o Jordão.
A Transjordânia está dividida em qua­
tro subdivisões:
A parte mais ao norte é Bashan. Fica,
geralmente, ao norte do rio Iarmuque.
É famosa por sua fertilidade e produtivi­
dade. Nos dias de Amós, era uma terra
fabulosa, de riqueza e lazer, cujas mu­
lheres ele podia chamar de “vacas de
Basã” (4:1).
Gileade inclui, ao sudeste, o território
amonita. Ele abrange a parte central da
região leste do Jordão. É mais elevada e
mais acidentada do que as outras re­
giões, elevando-se, ocasionalmente, a
mais de 1.000 metros. O deserto fica
apenas a 40 quilômetros do Jordão, em
alguns lugares. O terreno é difícil de se
atravessar, especialmente a parte oeste,
que é coberta de florestas. As tribos de
Rúben e Gade ocuparam a parte do sul
de Gileade, onde Rúben continuou a
sua existência nômade (I Crôn. 5:9).
A parte norte de Gileade tomou-se um
centro de população israelita ao leste do
68
Jordão, quando a Palestina do oeste tor-
nou-se super-povoada. A tribo de Ma-
nassés era a presença dominante ali.
A margem oeste de Moabe é formada
pelo litoral oriental do Mar Morto. Não
existe uma linha definida separando-a de
Gileade ao norte. É um platô elevado,
que corre por toda a extensão do Mar
Morto. O rio Amom divide Moabe em
duas partes. O rio Zerede a separa do
Edom, ao sul.
Esses platôs variam de 600 metros ao
norte de Amom até mais de 1.300 metros
ao sul. De acordo com II Reis 3:4, a ati­
vidade era a pastoril.
Edom começa mais ou menos na ex­
tremidade sul do Mar Morto e continua
para o sul. Consiste de montanhas eleva­
das de granito e arenito, elevando-se ao
leste do Arabá. Em alguns lugares, essas
montanhas têm mais de 1.700 metros de
altitude. Nas encostas ocidentais, elas
têm uma precipitação pluvial adequada.
A região é acidentada, e foi difícil de
conquistar.
3. Montanhas
As montanhas serviram de barreiras
para passagem fácil através da Palestina.
As passagens ou desfiladeiros entre elas
eram guardados por cidades estratégicas.
Os vales e planícies estreitas serviam à
economia agrícola da Palestina.
As montanhas e colinas propiciavam
proteção contra os intrusos, localização
para as cidades e solo para os campos e
planícies. Também impediam o ar quen­
te de soprar durante as estações chuvo­
sas, fazendo-o elevar-se e resfriar-se, e
depois precipitar a sua umidade em for­
ma de chuva.
4. Clima
Duas estações principais caracterizam
o clima da Palestina: o verão seco, de
meados de maio até meados de outubro,
e a estação chuvosa, durante os meses de
novembro a abril. A estação chuvosa
varia de ano em ano. Ela dificilmente é
mais longa do que descrevemos aqui,
embora algumas vezes seja muito mais
curta. O verão longo e seco é minorado
pelo abundante orvalho, tão característi­
co da região. A história do velo de Gi-
deão, em Juizes 6:38, e as referências ao
“orvalho da manhã”, em Oséias 6:4 e
13:3, ilustram a sua ocorrência.
A estação chuvosa é muito menos re­
gular do que a seca do verão. Um in­
verno típico é quase que igualmente divi­
dido entre dias chuvosos e dias com
pouca chuva ou nenhuma. Há anos, con­
tudo, em que a chuva começa somente
em janeiro, e outros, quando ela vem
abundantemente já em outubro. Granizo
e neve não são desconhecidos, mas tam­
bém não acontecem com regularidade.
Para o povo da Bíblia, o tempo era in­
teiramente dependente de Deus, e ele o
usava à vontade, para abençoar e para
castigar os seus filhos e os vizinhos des­
tes (Is. 5:6; I Reis 17:1-7).
5. Rios e Vales
O vale do Jordão é, em todos os as­
pectos, o vale mais importante da Pales­
tina. Tem o seu próprio rio, e recebe os
ribeiros que correm dos vários oásis que
há ao longo de toda a sua extensão, além
dos rios que fluem para ele, vindos das
montanhas.
O vale de Jizreel corre do oeste, atra­
vés da planície de Esdraelom, e dirige-se
para o leste, para o Jordão, no ponto
onde ficava a antiga Bete-Seã. Agora é
ele uma estrada do Mediterrâneo, em
Aco, para o vale do Jordão, que percorre
essa depressão. Aijalom, Sorek e Elá são
vales menores e mais estreitos, nas terras
altas de Judá, correndo da planície da
Filístia até os cumes das montanhas.
Estes e outros vales e planícies serviam
não apenas para conter as águas do
inverno e dos ribeiros perenes, como o
Jordão, mas também de centros agríco­
las, como desfiladeiros entre as monta­
nhas, e como rotas para as principais es­
tradas da antiguidade. Os grandes exér-
69
eitos da História se moveram através
desses vales, por toda a Palestina.
6. Estradas e Caminhos
A Palestina é a região que serve de
ponte entre as duas “terras dos rios”,
Egito e Mesopotâmia, ponte através da
qual o tráfego comercial e militar viajou
desde muito antes da época dos hebreus.
A estrutura geográfica do país, a dis­
tribuição de planícies, vales e monta­
nhas eram tais que várias culturas e po­
vos podiam viver lado a lado em semi-iso-
lamento. Esta mesma geografia, contudo,
ditou a localização de importantes rotas
internacionais, que permaneceram, vir­
tualmente, sem alteração até hoje. Estas
estradas estratégicas também tomaram
possível o fato de que esse país fragmen­
tado fosse unificado em várias épocas,
muitas vezes sob controle estrangeiro.
Havia quatro estradas principais que
atravessavam a Palestina:
A mais importante era a estrada cos­
teira, conhecida pelos geógrafos como a
ViaMaris, “a via do mar” (Is. 9:1). Ela
vai do Egito para o norte, entrando para
o interior através do desfiladeiro de Me-
gido, continuando pelo litoral como uma
estrada de importância secundária. Em
Megido, a estrada se bifurca, quando um
dos braços margeia o Esdraelom ao oes­
te, depois passando por Jizreel, dirigin­
do-se para Aco, no caminho para o lito­
ral fenício. O segundo braço passa atra­
vés de Esdraelom, ao nordeste, perto do
Monte Tabor, e segue o vale da Fenda,
além do Mar da Galiléia e Hazor, em
direção a Damasco. Os poderosos exér­
citos do Egito, Assíria, Babilônia e Pa­
lestina marcharam nessa estrada.
A Estrada do Rei é o termo bíblico
usado (Núm. 20:17) para designar a es­
trada que corre de Damasco para o sul,
ao longo do Planalto Transjordaniano,
para Elate e pontos além desse lugar.
Pelo menos a parte sul-central desta es­
trada foi usada pelos filhos de Israel
durante o Êxodo.
A estrada da montanha ao oeste do
Jordão era menos importante, embora
não insignificante. Começava em Megi­
do, e se dirigia para o sul, passando por
Siquém, Betei, Jerusalém e Hebrom,
chegando a Berseba, onde cruzava com
outras estradas.
O vale do Jordão também propiciava
uma topografia adequada para viagens.
Havia duas estradas, uma de cada lado
do rio. Essas estradas ficavam princi­
palmente entre Bete-Seã e Jericó, lugares
em que se encontravam com outras estra­
das.
Estas quatro estradas longitudinais fa­
ziam conexão com muitas vias latitudi-
nais de importância secundária.
Conclusão
A geografia física da Palestina deixou
a sua estampa indelével sobre o “povo do
livro”. A sua própria pequenez contri­
buiu para que eles fossem fundidos em
uma comunidade única. A sua topogra­
fia acidentada, montanhosa, ajudou a
formar o seu espírito e influenciou a sua
linguagem (Is. 5:1-7; 44:3; 51:1). A sua
rochosidade forçou-os a labutar de ma­
neira inusitadamente árdua para obter
“o fruto da vide” e o “pão do solo” . As
suas estações climáticas alternadas de
chuva e seca, orvalho e sequidão, calor e
frio, abundância e fome, afetaram não
apenas a rotina de sua existência diária,
mas também tiveram muito a ver com o
caráter de sua religião.
Quando os israelitas falavam do
“monte da casa do Senhor” (Is. 2:2),
podiam imaginá-lo “alto e sublime” (Is.
6:1). Eles representavam a força e o po­
der de Deus com a figura de uma grande
rocha de salvação e força (Sal. 62:6,7).
Só precisa-se ver as maciças montanhas
pétreas de muitas partes da Palestina,
para entender a força desta e de outras
figuras semelhantes de linguagem.
Esta é a terra para onde Deus chamou
Abraão e sua família. Insignificante em
tamanho, contendo uma incrível varieda-
70
de de panoramas, não obstante, ela tem
permanecido como terra de grande im­
portância por causa do drama desempe­
nhado ali, quando Deus trabalhou no
povo que escolhera. Ele agiu poderosa­
mente na História, usando esse pequeno
palco para realizar uma obra redentora
que tem significado ímpar para toda a
família dos homens.
Para Leitura Adicional
AHARONI, YOHANAN. The Land of
the Bible. Trad, por A. F. RAINEY.
Philadelphia: Westminster Press,
1967.
AVI-YONAH, MICHAEL. The Holy
Land. Grand Rapids: Baker Book
House, 1966.
BALY, DENIS. Palestine and the Bi­
ble. New York: Association Press,
1959.
________ The Geography of the Bible.
New York: Harper & Brothers,
1957.
________ Geographical Companion to
the Bible. New York: McGraw-Hill,
1963.
SMITH, GEORGE ADAM. The Histori­
cal Geography of the Holy Land.
Edição revisada. New York: Harper
& Row, 1967.
McCOWN, C. C. “Palestine, Geography
of”, IDB, III. 626-639.
SCHOFIELD, J. N. “The Geography of
Palestine”, Peake’s Commentary on
the Bible, p. 29-36.
WRIGHT, G. E. e F. V. FILSON.
The Westminster Historical Atlas to
the Bible. Philadelphia: Westmins­
ter Press, 1956.
Oxford Bible Atlas, (ed.) Herbert G.
May. London: Oxford University
Press, 1962.
71
A Arqueologia e a Bíblia
A 5 quilômetros ao norte de Jerusalém
fica um monte alto e redondo encimado
por um montículo de terra rochosa. Os
árabes, durante séculos, o têm chamado
de Tell el-Ful, ou “o Monte dos Feijões” ,
porque esse alto é um bom lugar para se
plantar feijões ou ervilhas. Este é o prin­
cipal ingrediente de um saboroso prato
do Oriente Médio, popular durante pelo
menos cinco mil anos.
Ficando no alto do Monte dos Feijões,
a pessoa pode ver, ao nordeste, um mon­
tículo alongado, de regular tamanho, na
forma de um túmulo gigante. O povo
chama esse local de Et-Tell, ou "A Ruí­
na”, porque era uma ruína quando os
árabes chegaram à Palestina no século
VII. Durante pelo menos treze séculos,
ali se plantou trigo. Diretamente ao norte
do Monte dos Feijões e do outro lado de
um vale largo, está uma pequena aldeia
de cabanas de teto chato, espalhadas
pelo cume e pela encosta sul de outra
montanha. Ela é chamada de Er-Ramah,
nome que tem sido passado de geração
em geração pelos habitantes do local.
E, ao oeste, está outra aldeia, chamada
de El-Jib, localizada-no ponto mais ele­
vado de outro montículo. O seu minare­
te, em forma de lápis, aponta para cima,
para Alá, a divindade muçulmana.
Num raio de 60 quilômetros, há, li­
teralmente, centenas de aldeias e montí­
culos de antigas cidades que descansam
silenciosamente no alto de montes, perto
de fontes de água. Eles são impressio­
nantes, mesmo para o observador casual.
Um leitor da Bíblia percebe imediata­
mente em Er-Ramah o nome da cidade
natal de Samuel, Ramá(I Sam. 7:15-17).
E El-Jib não é outra senão Gibeom,
Joseph A. Callaway
cidade dos heveus, que negociaram paz
com Josué (Jos. 9:3-15). Et-Tell é a bíbli­
ca Ai.
E o Monte dos Feijões é, provavelmen­
te, a antiga Gibeá, a aldeia de Saul (I
Sam. 10:26), cujas ruínas de sua cidade-
fortaleza ficaram sem serem notadas du­
rante séculos, a poucos centímetros abai­
xo do sulco do arado do lavrador.
Cobertas pelo pó dos séculos permane­
cem as cidades e aldeias da Bíblia, sobre­
vivendo pelo menos alguns de seus mora­
dores, de geração em geração. Aqui,
num raio de 60 quilômetros, desenro­
lou-se a maior parte do drama da revela­
ção bíblica — muito antes que ela fosse
escrita em um livro. E esta revelação foi
experimentada por pessoas que viveram
aqui antes que ela fosse escrita em um
livro. E o livro, a nossa Bíblia, foi afe­
tado por toda sorte de influências que
formam as experiências de um povo, isto
é: raça, língua, geografia, instituições
religiosas, política interna e externa, tra­
dições culturais, conhecimento cientí­
fico, literatura, arte, economia, conflitos
de classes, etc. Para entender e inter­
pretar a Bíblia, devemos conhecer o povo
que a passou para nós como legado de
sua experiência com Deus.
Ê verdade que podemos ficar familia­
rizados com o povo da Bíblia encontran­
do-o nas páginas da Escritura. Mas essas
páginas são escritas apenas em duas di­
mensões, e uma tendência comum é su­
prir uma terceira dimensão, que faz com
que o povo bíblico viva segundo as nossas
experiências, e não as dele. Por exemplo,
quantos programas de construção de
igrejas têm sido promovidos com o texto:
“Onde não há visão, o povo perece”
73
(Prov. 29:18, KJV)! Na verdade, a pala­
vra visão, neste versículo, significa reve­
lação de Deus, termo comum no Oriente
Médio, usado em relação à profecia de
Isaías (1:1), mas que descreve a sua vo­
cação original em 6:1 e ss. 1
Não é errado admoestar uma congre­
gação para exercer visão em planejar e
edificar, mas encontrar este significado
prático neste provérbio é impor a nossa
própria maneira de pensar sobre uma
palavra da Escritura, roubando-lhe o seu
significado sagrado.
A verdadeira dimensão de realidade e
de importância, na Bíblia, é a sua pró­
pria vida, e não a nossa. Quando o povo
da Bíblia vive a sua própria vida, ele nos
fala. Por outro lado, se impusermos a
experiência de nossa própria vida e ma­
neiras de pensar à Bíblia, o seu significa­
do torna-se confuso e a sua mensagem se
perde. Uma busca importante dos cren­
tes conscientes, portanto, deve ser encon­
trar o povo de Deus que viveu na Escritu­
ra, pois ele é que comunica a Palavra
viva. Encontrá-lo de verdade, é entrar em
suas casas, comer a comida que ele
come, conversar com ele nos seus santuá­
rios, pensar com ele em sua literatura,
arte e símbolos, sofrer com ele por seus
ideais e sua fé.
A arqueologia bíblica é dedicada à
tarefa de orientar o homem moderno na
maneira como o mundo bíblico antigo
vivia. Os restos materiais de cidades co­
mo Jerusalém são escavados com técni­
cas científicas cuidadosas. Desta forma,
podemos conhecer e recuperar o exci­
tante drama da vida em Jerusalém,
como, por exemplo, Isaías o experimen­
tou. O livro de sua profecia era o seu
diálogo com o seu mundo. No contexto
do santo matrimônio de sua profecia com
0 mundo ao qual ele falou nasceu a
palavra legítima que ele nos fala. A
arqueologia, portanto, procura descobrir
1 J. Lindblom, Prophecy ín Anctent Israel (Oxford: Basil
Blackwel, 1962), p. 122-37, apresenta uma discussão
compreensível do fenômeno de visões proféticas na Bí­
blia e no Oriente Próximo da antiguidade.
as interações da História em qualquer
período determinado, o uso de palavras
que lhe emprestam significado e as equi-
valências de dinheiro, pesos e medidas
que focalizam a vida em termos con­
cretos. A arqueologia procura, igualmen­
te, descobrir os símbolos da arte e da
literatura que comunicam a alma de um
povo, as marcas de nível de informações
concretas que o teólogo precisa levar em
conta em sua doutrina, e um conheci­
mento do povo de Deus em seu con­
texto internacional que, no decorrer dos
anos, cultiva as perspectivas e o entendi­
mento. Em suma, o legado da arqueo­
logia para a Bíblia é vida, a vida do povo
que nos deu o livro.
I. A Descoberta do Mundo Bíblico
Há dois séculos o mundo bíblico era
praticamente desconhecido. Os eruditos
bíblicos desperdiçaram muito tempo de­
batendo problemas que poderiam ter
sido rapidamente resolvidos com algu­
mas informações concretas. Por exem­
plo, nos dias de Martinho Lutero houve
uma controvérsia não pequena sobre o
fato de o mundo ter sido criado em 4004
ou em 6000 a.C. Na verdade, os dois
lados seguiam cronologias em dois textos
do Velho Testamento: o Texto Massoré-
tico, que contém uma genealogia que
apresenta a data de 4004 para a criação,
e a Septuaginta, que apresenta a data de
6000 a.C. O Bispo Iightfoot, da Uni­
versidade de Cambridge, resolveu esse
problema, em um clássico exemplo de
como se pode sustentar informação limi­
tada com uma porção extra de imagina­
ção, quando estabeleceu o momento da
criação como 9 horas da manhã de 23 de
outubro de 4004 a.C.
Nesse ínterim, a maior parte da histó­
ria do Egito dormia, em sinais ininteligí­
veis e símbolos desconhecidos, em hec­
tares de monumentos, em toda a exten­
são do Nilo. A história do imperialismo
assírio e babilónico era conhecida, em
grande parte, devido às narrativas sele­
cionadas da Bíblia. A biblioteca de
74
Assurbanipal, em Nínive, escondia as
narrativas do dilúvio babilónico e da
criação, em uma curiosa escrita em for­
ma de cunha, bem no fundo do coração
do outeiro formado pelas ruínas da an­
tiga cidade.2A impressionante cidade de
Jericó cobria os seus alicerces de 8000
a.C. debaixo de 25 metros de cidades e
cidades sucessivas (Kenion, 39-42). E os
ossos de um homem que viveu há 600.000
anos, ao sul do Mar da Galiléia, jazeu até
recentemente entre os restos de 40 espé­
cimens de animais extintos debaixo do
solo de aluvião de um campo de algodão
(Emmanuel Anati descreve as primeiras
evidências da presença do homem na
Palestina na Parte II).
Durante os últimos 150 anos, todavia,
a história do mundo bíblico foi novamen­
te visualizada de maneira inteligível. O
primeiro grande sucesso aconteceu quan­
do Champollion, brilhante lingüista fran­
cês, ainda jovem, decifrou a escrita pic-
tória dos egípcios na Pedra de Rosetta,
em 1822. Nos calcanhares do que ele
realizou, um inglês persistente, Henry
Rawlinson, encontrou a chave para a es­
tranha escrita em forma de cunha ou
cuneiforme, existente nos monumentos e
nas tabuinhas de argila encontrados no
vale do Eufrates. Outras realizações
igualmente significativas foram alcança­
das. A biblioteca real dos reis assírios,
desde Senaqueribe até Assurbanipal,
com o seu acervo de mais de 24.000 ta­
buinhas de barro inscritas, foi encontra­
da em Nínive em 1853. E o Capitão Char­
les Warren inaugurou escavações de
campo, na Palestina, com a sua explo­
ração da Jerusalém subterrânea, em
1867.
As escavações de campo têm sido exe­
cutadas em todos os países do Oriente
Próximo onde e quando as voláteis con­
dições políticas o permitem. No entanto,
uma estimativa conservadora foi publi­
2 Cf. Pritchard, onde se encontram traduções do Enuma
Elish (narrativa da criação), p. 60-72, e da Epopéia de
Gilgamesh (história do dilúvio), p. 72-99.
cada, de que apenas dois por-cento das
antiguidades palestinas foram escavadas
nestes últimos cem anos. Lingüistas bri­
lhantes têm esquadrinhado cada mate­
rial escrito conhecido em todo o Oriente
Próximo, e as palavras dos antigos têm
sido lidas, desde a alvorada da própria
arte de escrever, em cerca de 3000 a.C.
E a vasta pré-história (antes da invenção
da escrita) do homem tem sido perscru­
tada obstinadamente até meio milhão de
anos atrás na Palestina, e até quase dois
milhões de anos na África Oriental. O
que o próximo século tem reservado é
algo imprevisível, mas, se as realizações
do passado servem de parâmetro, os pró­
ximos dois por-cento da informação to­
tal serão suficientemente revolucionários
para requerer, em todo momento, uma
mente aberta e uma posição flexível dian­
te de qualquer problema histórico com
que nos defrontemos no estudo bíblico.
n . A Integridade da História da
Bíblia
O resultado de um século de descober­
tas tem sido um novo respeito pela his­
toricidade dos acontecimentos e das pes­
soas revelados pela Bíblia. Através das
Escrituras, o alicerce histórico da revela­
ção é reivindicado. Agora podemos tecer
as linhas dessa história, formando o teci­
do de história extrabíblica e estabele­
cendo firmemente a sua integridade bá­
sica.
Os eruditos bíblicos, geralmente, não
empreendem mais a tarefa de literalizar
toda a Bíblia como história, porque ela é
um livro complexo de poesia, profecia,
hinos, provérbios e tradições, bem como
de história concreta. E descobrimos que
a história concreta é escrita nas formas
contemporâneas dos tempos bíblicos.
Contudo, a recuperação de numerosos
sincronismos com acontecimentos extra-
bíblicos e registros de outros países capa­
cita o estudioso da Bíblia a empreender o
seu estudo com uma confiança nova e
75
sólida, que é essencial para uma fé bem
firme na revelação. 3
Os anais assírios e babilónicos apre­
sentam muitas das referências que fazem
eco e suplementam os acontecimentos
relatados na Bíblia. O Obelisco de Sal-
maneser III, uma coluna quadrada de
cerca de dois metros de altura, encon­
trada em Nimrode, Assíria, registra o
pagamento de tributos feito por vários
reis da Síria-Palestina durante o décimo
nono século a.C. (cf. Pritchard, p. 120:
351;290:351).
Um painel mostra Jeú, rei de Israel,
curvando-se diante do grande monarca,
na única representação pictória conheci­
da de um rei israelita. Outro monumento
de Salmaneser III menciona Acabe como
um dos reis que lutou contra os assírios
na batalha de Carcar, em 853 a.C. Sar-
gão II deixou um registro de sua invasão
de Samária em cerca de 721 a.C., e
chegou às minúcias de notar que 27.290
cativos foram levados para a Assíria (cf.
II Reis 17). Senaqueribe, arrogante con­
quistador, que devastou Judá na época
de Isaías, registrou, em baixo-relevo, a
captura de Laquis, em uma parede de
seu palácio em Nínive. O seu cronista
também deixou um relato do cerco de
Jerusalém, em que ele diz trancado Eze-
quias na cidade “como um passarinho
em uma gaiola” ! Os sofrimentos de Judá,
ao enfrentar a destruição, são descritos
em II Reis 18:13-19:36 e Isaías 36 e 37.
Um grande número de tabuinhas de
barro inscritas, chamadas “A Crônica
Babilónica” , registram a queda da Assí­
ria e o primeiro cativeiro de Judá na
Babilônia. A data da rendição de Jeru­
salém a Nabucodonozor, em 597 a.C.,
corresponde a 16 de março, em nosso
calendário!4 Este registro nos capacita a
3 Edwin R. Thiele, The Mysterious Nnmbers of the He*
brew Kings (Chicago: Univ. Press, 1951), reconstrói a
complexa cronologia da história do Velho Testamento,
e a sincroniza com a história extrabíblica, usando
principalmente registros assírios.
4 Cf. D. Winton Thomas (ed.), Documenta from Old
Testament Umes (London: Thomas Nelson & Sons,
Ltd., 1958), p. 80e81.
calcular a destruição final de Jerusalém
como tendo ocorrido em 587 a.C. Outras
tabuinhas, encontradas perto da Porta
de Ishtar na Babilônia, registram a en­
trega de rações ao rei Jeoiaquim de Judá,
que permaneceu em prisão domiciliar,
na Babilônia, de 597 até 562 a.C. E as
Tabuinhas de Murashu, de Nipur, ao
sudeste da Babilônia, relacionam clien­
tes judeus da casa bancária de Murashu,
que alugavam terra e obtinham emprés­
timos no quinto século a.C. Eles, aparen­
temente, tinham lucrativos interesses co­
merciais, ao mesmo tempo que judeus
zelosamente religiosos estavam recons­
truindo Jerusalém, sob a direção de
Neemias.
Outras descobertas, que se relacionam
com a história bíblica, de maneira mais
indireta, nos levam ao mundo inusitado
dos patriarcas. Harã, em Gênesis 12:4,
fora o ponto de início da emigração para
a terra de Canaã, e uma comunicação
regular foi mantida entre Canaã e a
região de Harã até a descida para o
Egito. As Tabuinhas de Mari, descober­
tas no Eufrates, ao sul de Harã, e data­
das de cerca de 1800 a.C., expressam a
proximidade e intimidade das associa­
ções dos patriarcas com Harã.
Várias cidades ostentam os nomes dos
parentes de Abraão, possivelmente ten­
do-os recebido de suas respectivas famí­
lias. Por exemplo, há a cidade de Til-
Turakhi, nome equivalente a Terá, em
Gênesis 11:24. Harã, irmão de Abraão e
filho de Terá, é o nome da cidade de
onde o patriarca emigrou para Canaã.
Era um florescente centro de caravanas e
de comércio no décimo oitavo século a.C.
O nome de Naor, irmão de Abraão, a
quem Eliézer se dirigiu para conseguir
uma esposa para Isaque, foi dado a uma
cidade mencionada nos textos de Mari.
Serugue e Pelegue, ancestrais de Abraão,
são representados pelos nomes das al­
deias de Sarugi, ao oeste de Harã, e Pha-
liga, às margens do Eufrates, ao sudoeste
de Harã (cf. Wright, p. 41).
76
A coincidência destes nomes é dificil­
mente acidental. Pelo contrário, as Ta-
buinhas de Mari propiciam um registro
extrabíblico de lugares que têm os nomes
de parentes de Abraão. Isso reflete os
laços históricos básicos das narrativas
patriarcais com uma região específica,
na época em que devíamos esperar.
Outros incontáveis exemplos de laços
históricos entre a história bíblica e a
extrabíblica poderiam ser citados, alcan­
çando até o período neotestamentário.
Contudo, as referências selecionadas
mencionadas acima são representativas, e
devem indicar, sem dúvida, que a revela­
ção bíblica de fato foi apreendida no pal­
co dos acontecimentos históricos mencio­
nados. A união da revelação com a Histó­
ria não pode ser anulada!
III. Ilustração de Palavras,
Costumes e Idéias Bíblicas
Durante o fim do século XIX, a ar­
queologia foi usada para sustentar idéias
preconcebidas a respeito da Bíblia. Ela
tomou-se uma serva na casa da teologia.
Alguns eruditos estavam preocupados
em provar acontecimentos bíblicos, e as
informações históricas provenientes da
arqueologia eram agarradas avidamente
para confirmar as suas alegações.
Sir Leonard Woolley descobriu uma
camada de terra lodosa em Ur; esta des­
coberta foi citada como evidência his­
tórica do dilúvio de Noé (Gên. 6-9).5
O fato de que nenhuma camada de lodo
foi encontrada a oito quilômetros dali foi
ignorado, como o foram as evidências
encontradas em Kish, Shurrupak, Nínive
e Nipur, onde ocorreram inundações em
épocas diferentes.
Evidências como esta foram usadas,
sem se levar em conta todos os fatos
relacionados, para provar certas posições
teológicas. A idéia, aqui, não é o proble­
ma do acontecimento bíblico do dilúvio,
mas o uso de evidências arqueológicas.
5 Cf. Wemer KeUer, The Blble as History (London: Hod-
der & Stoughton, 1959), p. 48*51.
A arqueologia, na verdade, sustenta o
conteúdo histórico da revelação bíblica,
mas deve ser usada com integridade e
nunca desprezando qualquer evidência,
quer interna, quer extema, relacionada
com a revelação bíblica.
No século XIX, alguns eruditos com
interesses teológicos diferentes usaram
descobertas arqueológicas para ilustrar a
Bíblia, porque resolviam os problemas
históricos ou eles pensavam que resol­
viam. As descobertas serviram para ilu­
minar a casa teológica que esses estudio­
sos haviam edificado. Todavia, por volta
de 1940, a iluminação penetrou até os
alicerces de suas teorias históricas da
evolução da religião de Israel, e os pres­
supostos dos liberais do século XIX fo­
ram modificados à luz das evidências
concretas.
Felizmente, a arqueologia logo se
emancipou de seu papel de serva dos
pressupostos teológicos. O homem que
mais fez para liberar a arqueologia foi
W. F. Albright, cujo discurso presiden­
cial, feito diante da Sociedade da Li­
teratura Bíblica em 1939, com efeito
requereu um novo papel da arqueologia
como uma espécie de moderadora entre
as disciplinas bíblicas.6 O resultado tem
sido uma geração de emocionantes des­
cobertas da Bíblia. Como moderadora
entre as disciplinas de história, língua,
literatura e teologia, significativas cate­
gorias de informações foram acumula­
das, que propiciaram diretrizes para o
intérprete e uma base para entender o
povo que ficava por detrás do livro.
O papel de ilustração da Bíblia, con­
tudo, ainda é importante, quando as
suas limitações são reconhecidas. Mui­
tas palavras ficariam sem significado, se
o seu uso arcaico não tivesse sido redes-
coberto. Por exemplo, somos informa­
dos, em I Samuel 13:19 e ss., que os
filisteus tinham o monopólio da fabrica­
ção de ferro, e que os hebreus levavam as
suas ferramentas agrícolas, feitas de fer-
6 “The Ancient Near East and the Religion of Israel” ,
Jotnmal of BIbiical Lite?ature, LIX, 85-112.
77
ro, para que os filisteus as afiassem. A
palavra hebraica pim, no versículo 21,
desafiava a tradução nas versões mais
antigas, porque o seu uso não era conhe­
cido. Ela é traduzida como “lima” na
versão da IBB, como na KJV, em vista do
fato de que as ferramentas estavam sen­
do afiadas.
Porém o seu verdadeiro significado foi
descoberto em escavações que apresenta­
ram pequenos pesos de pedra marcados
com a palavra pim em hebraico. Vários
desses pesos foram descobertos nas esca­
vações de Jerusalém em 1963.7 É eviden­
te, partindo-se do peso do pim, que era
cobrado um “pim” para serem afiados os
arados, enxadões, etc., como a RSV
inglesa traduz no versículo.
Alguns costumes sociais obscuros e
estranhos são expressos nas narrativas
intensamente pessoais dos patriarcas.
Por exemplo, há uma ansiedade inco-
mum, em Abraão, por um herdeiro do
sexo masculino (Gên. 15-17). Quando
Sara não concebeu nenhum filho, ela deu
Agar, sua serva egípcia, ao seu marido,
como esposa secundária (Gên. 16:1 e
ss.). Agar deu a Abraão um filho, e, em
seguida, incorreu no ciúme de Sara, que
a expulsou para o deserto (Gên. 21:10 e
ss.).
Os arquivos de cinco gerações de uma
família hurriana, descobertos em Nuzi,
lançam alguma luz realista sobre o pro­
blema familiar de Abraão (Wright, p.
43).
Aparentemente, os herdeiros do sexo
masculino eram necessários para a con­
tinuidade do sistema social e religioso da
época patriarcal. No caso de nenhum
herdeiro do sexo masculino nascer, para
perpetuar o nome da família, praticava-
se a adoção. As Tabuinhas de Nuzi con­
têm um regulamento a respeito da ado­
ção de um herdeiro, juntamente com a
provisão de que um filho verdadeiro nas­
cido posteriormente teria precedência so­
7 R. B. Y. Scott, “The Scale-Weights from Ophel, 1963-
64”, Paleftine Exploration Qnartaty, 1965, p. 128-139,
e também as Figs. 5 e 7.
bre o herdeiro adotado. Esta prática es­
clarece o dilema de Abraão, quando ele
renovou a aliança em Gênesis 15:1 e ss.,
mas o herdeiro de sua casa era Eliézer,
de Damasco, aparentemente adotado.
Os contratos de casamento, segundo
as Tabuinhas de Nuzi, obrigavam uma
esposa sem filhos a conseguir uma serva
para o seu marido, que gerasse filhos no
lugar dela. Não há contratos semelhan­
tes declarados na Bíblia, mas a entrega
de Agar a Abraão é evidência desse cos­
tume. Além do mais, em Gênesis 21:10-
14, quando Sara exigiu que Abraão lan­
çasse fora Agar, a escrava, porque Isa-
que era o herdeiro legal, o desprazer de
Abraão foi mais do que emocional. As
Tabuinhas de Nuzi declaram a obrigação
do marido para com uma esposa secun­
dária, o que indica que Abraão tinha
o dever legal de abrigar Agar, e a inveja
de Sara o forçou a agir injustamente
para com Agar e Ismael.
A vida familiar e os costumes sociais
de Abraão são, por conseguinte, expres­
sos exatamente, e o patriarca simples­
mente viveu a sua vida na Escritura da
mesma forma como a viveu na História.
Com fraqueza humana, tanto quanto
com força, e obrigado pelos costumes
comumente aceitos em sua época,
Abraão ainda teve fé para alcançar uma
revelação que o vocacionou e à sua pos­
teridade a um propósito mais elevado de
Deus na História.
Talvez a idêia mais profunda da Bí­
blia, isto é, a da aliança, realmente não
seja entendida por alguém que não con­
siga considerá-la segundo o seu signifi­
cado no Oriente Próximo. A aliança é
mais do que um acordo, ou mesmo do
que uma dedicação. É um estado de exis­
tência, uma relação profunda.
Lemos, em Gênesis 15:17,18, por
exemplo, que o Senhor fez uma aliança
com Abraão, e que houve “um fogo
fumegante e uma tocha de fogo, que
passaram por entre” os pedaços de um
sacrifício. Um possível paralelo, encon-
78
trado na Ãsia Menor, ilustra o significa­
do deste ritual de aliança e expressa a
sua seriedade. Quando uma aliança era
“cortada” (a palavra arcaica usada no
Velho Testamento para a celebração de
uma aliança), um sacrifício era prepara­
do, cortado na metade, e os participantes
da aliança passavam entre os pedaços do
sacrifício, como, presumivelmente, o faz
uma representação da divindade. Ê pro­
vável que a tocha flamejante de Gênesis
15:17 representasse a presença de Deus e
que o próprio Abraão andou entre as
metades do sacrifício, costume ainda co­
nhecido na época de Jeremias (cf. Jer.
34:18 e ss.).
Portanto, uma aliança era efetivada
através de sacrifício, a doação de vida de
que as duas partes precisavam ser confir­
madas em um novo relacionamento.
A vida é misturada com a vida, e as duas
partes entram em um estado espiritual e
psicológico que tem analogia física no
relacionamento de sangue.
IV. Diretrizes Para a
Interpretação da Bíblia
Certos marcos de informação histórica
têm sido descobertos e têm guiado o
intérprete da Escritura. Ele não pode
ignorá-los. O intérprete é, indubitavel­
mente, livre para procurar a mão de
Deus na História, testemunhada pela
Bíblia. Mas ele não está livre para criar a
história de sua imaginação, em que a sua
noção da revelação melhor se encaixar.
Desta forma, a história é uma disciplina
para o intérprete, uma disciplina tão
inflexível quanto a lei. E para o intérpre­
te não há escape, pela fé, da disciplina da
História.
Talvez a descoberta recente mais co­
nhecida seja a figura rapidamente emer­
gente do homem pré-histórico. As evi­
dências encontradas em Jericó integram
uma reconstrução cultural razoavelmen­
te completa do homem “natufiano”, por
exemplo (cf. Anati, p. 139-80). De cons­
tituição delgada, ele tinha cerca de
l,65m de altura, mas era muito ativo e
criativo — um produtor de trigo e cons­
trutor de casas. A sua capacidade cra­
niana, de cerca de 1.500 cm3, sugere que
ele tinha tanto cérebro quanto a pessoa
moderna comum.
E ele era um homem religioso — pelo
menos, fundou a cidade de Jericó como
santuário, em cerca de 8000 a.C. Não
podemos saber qual era a reação de sua
alma em relação a Deus nem a articula­
ção de sua adoração, porque ele viveu
5.000 anos antes da invenção da escrita.
Mas ele adorava à sua maneira e segundo
o seu entendimento, e vivia pacificamen­
te. De fato, o homem natufiano talvez
fosse menos selvagem e sedento de san­
gue do que o homem moderno, que se
tem empenhado em uma considerável
guerra de morte e destruição em quase
todas as gerações.
Os objetos de arte do natufiano que
foram encontrados sugerem que já há
10.000 anos ele tinha um ponto de vista
compreensivo a respeito do mundo, uma
protofilosofia que pode ter inspirado os
desenvolvimentos revolucionários e novos
de produção de alimentos e de edificação
de cidades. O homem natufiano pertence
à era do homem moderno, e não à vida
aborígene. Ele é nosso.
Encontrando-se em uma encruzilhada
da pré-história, bem mais no passado,
está o homem do Monte Carmelo. (Há 12
esqueletos desse período no Monte Car­
melo; cf. Anati, p. 105-9). Cerca de
50.000 anos atrás, do terraço de sua
cavema-casa, no Monte Carmelo, ele ob­
servava cada dia o sol se levantar sobre a
floresta da Palestina central. A sua face
larga e plácida deixa trair o fato de que
ele se rendeu aos caprichos da natureza
quanto à casa — a caverna que ele pu­
desse encontrar — e quanto à comida,
onde quer que acontecesse ela crescer.
Da mesma forma como a maioria das
pessoas que servem a senhores capricho­
sos, ele via uma pequena perspectiva na
vida, e, desta forma, vivia sem pressa.
Mas quando ele se levantava, no terraço
79
de sua caverna, eram l,65m de ho­
mem! O homem do Monte Carmelo
tinha os atributos físicos do homem mo­
derno, inclusive cérebro, e os escassos res­
tos que sobreviveram à erosão do tempo
sugerem que ele adorava a um deus des­
conhecido.
E há outros: uma longa procissão de
pessoas surgindo do passado, que está
sendo iluminado cada vez à maior distân­
cia, a cada geração de pesquisas. Ali
estão elas, e nenhum teólogo precisa
dizer-lhes para irem embora. Precisa-se
abrir caminho para o homem pré-históri­
co da época de Adão. O intérprete da Es­
critura não deve falar mais a respeito da
criação do homem em 4004 a.C., porque
os fatos da História não o permitem.
Portanto, onde estão as diretrizes que
a arqueologia fornece? A arqueologia
descobriu o homem pré-histórico, e tor­
nou insustentável a opinião medieval
simplista a respeito da origem do ho­
mem. Mas também propicia orientação
para a descoberta do verdadeiro signifi­
cado do relato bíblico a respeito da ori­
gem do homem. A orientação provém
de textos literários fora da Bíblia, que
esclarecem o significado da narrativa bí­
blica.
Em primeiro lugar, Adão, da mesma
forma que o homem original encontrado
em outros textos do Oriente Próximo, é
um homem representativo, sendo derra­
mada em um indivíduo toda a humani­
dade. Ele é diferente do homem natufia-
no, porque ele é a humanidade indivi­
dualizada que vive no mundo do pensa­
mento, que tem capacidade para comu­
nhão com Deus e é moralmente respon­
sável.
Em segundo lugar, a sua linhagem é
encontrada na literatura e na arte, e não
em locais de sepultamento que os ar­
queólogos possam descobrir. A sua ge­
nealogia é muito mais sofisticada do que
os eruditos suspeitavam, duzentos anos
atrás, porque ela tem origem na revela­
ção progressiva da interpretação do ho­
mem, e não na evolução física de seu
corpo.
E, em terceiro lugar, Adão se alimenta
de símbolos, e não de pão. De fato, o
fruto que ele come é freqüentemente
pintado como uma fruta literal, porque
os símbolos têm raízes nas coisas con­
cretas e literais. Mas o fruto que Adão
comeu evoca um significado que não po­
de ser contido em uma simples maçã.
O fato de ele ter comido o fruto proibido
gerou um potencial para a culpa nas ge­
rações da raça humana que ainda não
haviam nascido, e a terrível verdade a
respeito do ato de Adão criou uma emer­
gência nos céus, até mesmo nos conse­
lhos da Divindade. Adão é um homem,
mas um homem representativo, que
abrange de forma compacta e inteligível
todos os homens, inclusive o homem pré-
histórico e o homem moderno.
Uma espécie diferente de perícia é
necessária para escavar Adão e seu mun­
do. Por exemplo, como é que se pode
conseguir uma datação da árvore da vida
com Carbono 14? Na arte antiga, ela é
uma palmeira, mas é a árvore da vida em
seu significado simbólico em selos cilín­
dricos, ou descrita, por escrito, em tabui-
nhas de barro ou na Bíblia. Ou como
poderia um laboratório da Universidade
Hebraica de Jerusalém descobrir os grãos
de pólen da árvore do conhecimento do
bem e do mal na amostra de terra apre­
sentada por um arqueólogo? Ou como
poderia um geógrafo encontrar a latitude
e a longitude do Jardim do Éden? Ele é
um jardim representativo, um protótipo
de todas as áreas templárias sagradas do
vale do Eufrates inferior, compactadas
em uma só.
Para escavar Adão, começamos lendo
as línguas mortas da Suméria, Babilônia,
Assíria, bem como o hebraico. O apren­
dizado acumulado destas grandes cultu­
ras está bem trancado em sua literatura.
Grande parte dele é comunicado em sím­
bolos, que são tão simples como Adão, o
homem representante, ou como a árvore
da vida; mas os símbolos são, ao mesmo
80
tempo, tão profundos que o escavador
literário nunca alcança razoavelmente o
leito rochoso, ao sondar o seu significado
pleno.
É neste mundo de símbolos históricos
profundos, que fossilizaram a experiên­
cia e a sabedoria vivas, que descobrimos
os ancestrais de Adão, e chegamos a
conhecê-lo. E, quando encontramos
Adão, encontramo-nos a nós mesmos.
Por outro lado, quando encontramos o
homem natufiano, o encontramos, e não
a nós mesmos.
Será isto falsificar Adão? De forma
alguma. Ê encontrar a essência da subs­
tância histórica que existe nele, e tam­
bém o significado final, que é muito mais
profundo do que os pedaços de esquele­
tos de qualquer homem, rodeado por
suas ferramentas de corte e armas. A hu­
manidade, o Adão histórico, emergiu da
criação, mas relacionou-se fisicamente
com a terra. O seu parentesco físico é
com o seu meio ambiente terrestre, algo
que até os alunos de biologia aprendem
no ginásio e algo que os sábios antigos
sabiam antes da invenção da escrita.
O seu parentesco espiritual é com Deus,
em cuja imagem o homem foi criado,
como ser moral, algo que aprendemos da
Bíblia e aceitamos por fé.
Se roubarmos a Adão o seu significado
simbólico e simplesmente o literalizar-
mos, o reduziremos a um indivíduo his­
tórico, para que o antropologista o es­
tude. O seu esqueleto pode ser medido, a
capacidade de seu cérebro, calculada,
possivelmente a contagem de seus glóbu­
los sanguíneos ser obtida por centrifu­
gação do pó de sua carne. Se isto, para
nós, esgota o significado do homem da
criação, teremos abandonado Adão de­
pressa demais! Perdemos o homem!
Temos uma diretriz, que a arqueologia
nos dá, portanto, para a interpretação
dos primórdios do homem na Bíblia.
Há muito mais que poderia ser dito,
mesmo sobre os primórdios do homem.
E também há diretrizes significativas
para a interpretação da história narrada
pela Bíblia, para a compreensão das vá­
rias formas de literatura e até para a
interpretação das doutrinas de inspira­
ção e de revelação na Bíblia. Estas são
desenvolvimentos recentes, que só agora
estão encontrando expressão em periódi­
cos e livros. Mas são desenvolvimentos
necessários e sadios do estudo da Bíblia,
em uma época quando as descobertas
científicas têm superado a pesquisa teo­
lógica, que em demasiadas vezes é me­
dieval demais em seus alicerces e sua
perspectiva.
Redescobrindo o mundo intelectual e
espiritual da Bíblia, mediante a pesquisa
arqueológica, temos a possibilidade de
acrescentar, à Bíblia, nova percepção à
sua verdade atemporal. Somos capacita­
dos para abordar a revelação bíblica
assistidos pelas diretrizes firmes da his­
tória e da cultura do Oriente Próximo.
E, trabalhando dentro das diretrizes ou
da história propriamente dita, somos le­
vados ao mundo vivo da Bíblia, ao povo
que nos deu a Bíblia.
O legado da arqueologia à Bíblia é,
portanto, vida, a sua própria vida.
Para Leitura Adicional
ADAMS, J. McKEE, e JOSEPH A.
CALLAWAY. Biblical Backgroun­
ds, ed. rev. Nashville: Broadman
Press, 1965, 232 páginas.
ALBRIGHT, W. F. The Archaeology of
Palestine. London: Penguin Books,
1954, 271 páginas.
ANATI, EMMANUEL. Palestine Before
the Hebrews. New York: Alfred A.
Knopf, Inc., 1962, 453 + xvii pági­
nas.
Biblical Archaeologist, The. Periódico
publicado pela American School
of Oriental Research, Cambridge,
Massachusetts 02138.
KENYON, KATHLEEN M. Archaeolo­
gy in the Holy Land. New York:
81
Frederick A. Praeger, 1960, 326 pá­
ginas.
PFEIFFER, CHARLES F. (ed) The Bi­
blical World. Grand Rapids: Baker
Book House, 1966, 612 páginas.
PRITCHARD, JAMES B. (ed.). Ancient
Near Eastern Texts, Relating to the
Old Testament. Princeton: Prince­
ton University Press, 1955, 544 pá­
ginas.
PRITCHARD, JAMES B. (ed.). The An­
cient Near East in Pictures, Rela­
ting to the Old Testament. Prince­
ton: Princeton University Press,
1954, 351 páginas.
THOMAS, D. WINTON (ed). Archaeo­
logy and Old Testament Study. Ox­
ford: The Clarendon Press, 1967,
493 páginas.
WRIGHT, G. ERNEST. Biblical Ar­
chaeology. Philadelphia: The West­
minster Press, 1957), 288 páginas.
82
O Cânon e o Texto do Velho Testamento
I. O Cânon
1. O Conceito de um Cânon
A palavra cânon, da maneira como é
usada no contexto do estudo das Escritu­
ras, refere-se à coleção rigidamente li­
mitada de livros que, segundo a comuni­
dade religiosa crê, foram dados por inspi­
ração de Deus, e são o guia básico para a
regulamentação da vida religiosa e das
instituições religiosas. A maior parte das
grandes religiões do mundo possui uma
coleção assim, com maior ou menor ên­
fase em sua origem como palavra divina,
vinda da parte de Deus.
A palavra portuguesa cânon pode ser
procurada, quanto às suas origens, atra­
vés de uma palavra grega, até uma raiz
semita antiga, que significa caniço. No
grego, essa palavra veio a denotar qual­
quer coisa reta, tal como uma vara ou
uma régua de carpinteiro. A palavra
grega veio a ser usada metaforicamente,
para referir-se a qualquer norma ou pa­
drão. Da maneira como é aplicada a uma
coleção normativa de obras literárias, a
palavra cânon foi, a princípio, usada
pelos cristãos do quarto século. O con­
ceito de uma coleção sagrada, todavia, é
muito mais antigo do que o uso dessa
palavra. Antes desta designação, a lite­
ratura normativa das comunidades ju­
daicas e cristãs (essencialmente o Velho
Testamento) era mencionada como a
“Escritura” ou as “Sagradas Escritu­
ras”. Estas referências ocorrem em fon­
tes como Filo (primeira metade do pri­
meiro século), Josefo (que morreu pouco
depois de 100 d.C.) e o Novo Testamen­
to. Embora descrito de maneiras diferen-
Burlan A. Sizemore, Jr.
tes, este conceito de uma literatura nor­
mativa reconhecida como a Palavra de
Deus remonta, na tradição hebraica, a
pelo menos à época da reforma de Josias
e à descoberta do livro da lei (parte de
Deuteronômio, II Reis 22 e 23), em 621
a.C. O processo do desenvolvimento e
fixação do cânon devia, contudo, levar
muitos séculos.
2. Os Livros do Cânon e a sua Ordem
É importante reconhecer dois arranjos
distintos do Velho Testamento: a ordem
da Bíblia Hebraica e a ordem do Velho
Testamento cristão. Quando o cânon das
Escrituras Hebraicas finalmente foi fixa­
do, continha 24 livros, arranjados em
três principais divisões. O número e a
ordem dos livros, na Bíblia Hebraica,
difere dos do Velho Testamento cristão,
embora o conteúdo seja o mesmo, exceto
que as tradições católicas romanas e al­
gumas das católicas ortodoxas incluem
os Livros Apócrifos, que não faziam par­
te do cânon hebraico, fixado na Pales­
tina.
Nas Bíblias hebraicas impressas, os li­
vros são: (1) A Lei: Gênesis, Êxodo,
Levítico, Números e Deuteronômio; (2)
Os Profetas: profetas anteriores —Josué,
Juizes, Samuel e Reis; profetas posterio­
res — Isaías, Jeremias, Ezequiel e O Li­
vro dos Doze (os profetas menores);
(3) Os Escritos: Salmos, Provérbios, Jó,
Cântico dos Cânticos, Rute, Lamenta­
ções, Ester, Daniel, Esdras-Neemias e
I e II Crônicas.
A diferença da ordem que prevalece na
tradição cristã resulta do uso cristão pri­
mitivo de traduções gregas do Velho Tes­
tamento hebraico. Essas traduções gre-
83
gaseram arranjadas segundo os tópicos e
cronologicamente (pelo menos isto era
tentado — as decisões com respeito a
datas não eram exatas, em todos os
casos), enquanto a ordem hebraica re­
presenta um arranjo anterior, que, até
certo ponto, expressa a ordem em que os
materiais passaram a ser reconhecidos
como Escritura.
3. A Formação do Cânon
O estabelecimento do cânon do Velho
Testamento foi um desenvolvimento do
judaísmo posterior ao exílio. O processo
pelo qual o cânon se tornou realidade
tem sido rodeado de mistério, todavia
o ponto de vista tradicional formulado
pelo judaísmo antigo tem prevalecido
através da maior parte da história da
Igreja e através do judaísmo posterior.
Josefo foi um dos primeiros a falar
definitivamente de uma coleção de obras
sacras, descrevendo uma coleção de 22
livros (provavelmente o mesmo material
de que consistem os costumeiros 24, mas
com Lamentações ligado a Jeremias, e
Rute, a Juizes), dos quais ele disse que
todos se originaram entre o tempo de
Moisés e a época de Artaxerxes I da Pér­
sia, que fora contemporâneo de Esdras
(Contra Apionem, I. 8, 95 d.C.). Josefo
não dá a Esdras o crédito de nenhuma
participação na formação do cânon, a
não ser na última parte dele, mas outros
escritores do período antigo davam ex­
pressão à opinião muito persistente de
que Esdras fora responsável pela compi­
lação e preservação final do cânon.
Contudo, é reconhecido geralmente,
hoje em dia, que o processo através de
que uma certa coleção de livros veio a ser
considerada normativa era um desenvol­
vimento histórico que cobria um período
bem extenso. Os materiais do Velho Tes­
tamento, aparentemente, receberam a
sanção da canonicidade da ordem das
três divisões do Velho Testamento na
Bíblia Hebraica, e em cada caso o mate­
rial gozava de uma aceitação popular de
longa data, antes que qualquer reconhe­
cimento de suas qualidades como palavra
de Deus com autoridade lhe fosse em­
prestado.
A Lei ou Tora. É inegável que a lei de
Moisés ou Tora (Pentateuco) tenha sido a
primeira parte do Velho Testamento a
alcançar a condição de Escritura. Pa­
rece que uma parte da Tora recebeu o
“status” de Escritura sagrada no período
pré-exílico. O livro da lei encontrado por
Hilquias, o sacerdote, que foi usado
como base para a reforma de Josias
(II Reis 22 e 23), era formado pelo menos
de uma parte do livro de Deuteronômio.
A honra emprestada a esse livro de lei
indica pelo menos os primórdios do re­
conhecimento de uma coleção de leis que
tinham autoridade.
Depois do exílio, o ministério de Es­
dras demonstra uma expansão desta lei,
e talvez indique a sua coleção quase com­
pleta. A Lei üda ao povo (Neemias 8) por
Esdras evoca nele uma reação emocional
profunda, seguida de atos de obediência
que indicam uma submissão à autori­
dade dessa coleção. Até que ponto essa
coleção estava completa não se pode sa­
ber, mas não é improvável que ela con­
tivesse a grande coleção sacerdotal de
material primitivo, inclusive as narrati­
vas J e E incorporadas. Deuteronômio, já
respeitado, pode ter sido juntado a essa
coleção naquela época, ou, se não, isto
certamente foi feito logo depois. A data
destes acontecimentos é incerta, mas não
foi posterior a 398 a.C.1
A Lei, a partir deste ponto, é a prin­
cipal força a moldar a comunidade ju­
daica pós-exílio. Pode ser que ela tenha
sido modificada em algo e podem ter sido
feitas adições nos anos subseqüentes,
mas as mudanças não podem ter sido
1 A data da volta de Esdras tem sido motivo de muita dis­
cussão nos tempos modernos. Se a sua volta aconteceu
no sétimo ano de Artaxerxes I, então a data tradicional
de 457 é exata. Se o que significa é o sétimo ano de Arta­
xerxes II, o ano foi 398. Algumas pessoas, por emenda
textual, datam a volta de Esdras em 428. Cf. John
Bright, A History of Israel (Philadelphia: Westminster,
1959), p. 375-86.
84
substanciais. Esta Lei foi distribuída en­
tre os judeus por toda parte, e mui rapi­
damente recebeu uma posição canônica,
que tomou literalmente impossível qual­
quer modificação de monta em seu con­
teúdo. Certamente a Lei foi basicamente
aceita mais ou menos na época do cisma
samaritano, porque ela foi conservada
essencialmente na mesma forma pelas
duas comunidades. A data do cisma sa­
maritano é incerta, mas não pode ser
posterior a cerca de 300 a.C., e talvez foi
anterior. 2
O prestígio canônico da lei, na antigui­
dade, é também atestado pela Septua-
ginta, tradução na língua grega que foi
feita nos meados do terceiro século a.C.
Traduções não eram coisa comum no
mundo antigo, e não é provável que uma
obra de fôlego como esta fosse feita, a
não ser que tivesse supremo valor reli­
gioso.
Desta forma, estamos, provavelmente,
certos, ao afirmar que a Lei recebeu
prestígio canônico, isto é, alcançou uma
forma fixa e final, e foi reconhecida como
autoridade peculiar, por volta de 400
a.C. ou não muito depois.
Os Profetas. A literatura profética está
dividida em duas seções: os Profetas An­
teriores, seção comumente conhecida co­
mo livros históricos na Bíblia em portu­
guês, e os Profetas Posteriores, que inclui
os três profetas maiores e os doze profe­
tas menores. Embora a literatura pro­
fética tivesse recebido muito respeito no
período pré-exílico, ela, como o mate­
rial do Pentateuco, não alcançou o “sta-
tus” de um corpo de Escritura com auto­
ridade, e estritamente limitado, senão
depois do exílio, provavelmente bem de­
pois que o Pentateuco alcançou este “sta-
tus” . A vindicação da mensagem pré-
exílica de destruição, mediante os acon­
tecimentos, foi importante para o desen­
volvimento do interesse a respeito de um
cânon profético, além da mensagem pro­
2 O cisma tem sido datado de 432 a.C. a 122 a.C. Cf.
Bright, p. 393-95.
fética de esperança, que emprestou alen­
to à comunidade judaica, que muitas
vezes quase fracassou, no período pós-
exílico.
É provável que o interesse sério pela
coleção de um corpo de literatura profé­
tica com autoridade tenha acontecido
depois que a instituição da profecia co­
meçou a se enfraquecer e a cair em des­
crédito. O esforço para formar uma co­
leção provavelmente desenvolveu-se no
quarto século a.C., embora seja impossí­
vel dizer exatamente quando o cânon
profético foi fixado firmemente. Parece
claro que o processo foi completado pelo
menos em 200 a.C., porque Jesus ben
Sirac, em cerca de 190 a.C., refere-se a
cada um dos indivíduos cujo nome é
emprestado a livros no cânon profético,
incluindo uma referência aos Doze Pro­
fetas (os profetas menores), como se eles
fossem representados por um único livro,
desta forma dando a entender toda a
coleção. O fato de que o livro de Daniel,
que recebeu a sua forma final no se­
gundo século a.C., não conseguiu entrar
no cânon profético, mas foi incluído na
terceira seção, sugere que o cânon pro­
fético foi encerrado antes de seu apareci­
mento.
É bem provável que, para muitos dos
judeus, o cânon profético foi encerrado e
já gozava de um lugar de importância
semelhante ao gozado pela Tora no fim
do terceiro século a.C., embora, para
grande parte do judaísmo, a lei mosaica
devia permanecer como a regulamenta­
ção básica para a vida.
Os Escritos. Há uma homogeneidade
literária no Pentateuco e nos Profetas,
que falta aos Escritos ou Hagiógrafa, a
terceira seção do cânon do Velho Testa­
mento. Esta seção inclui uma tremenda
variedade de materiais, que se origina­
ram em períodos enormemente diferen­
tes da História. A primeira indicação
clara de que esta coleção de literatura
estava alcançando condição canônica
apareceu em uma declaração do neto de
85
Jesus ben Sirac, no prólogo de sua tradu­
ção da obra de seu avô para o grego, em
cerca de 132 a.C. Ele menciona “a Lei e
os Profetas e os outros livros dos nossos
antepassados”, sendo presumivelmente
feita esta última alusão essencialmente
aos materiais que posteriormente vieram
a compor a terceira parte do cânon he­
braico.
O material que veio a compor a Hagió­
grafa provavelmente nunca se igualou à
Lei e aos Profetas, em significado, para a
comunidade hebraica, e, de fato, os ma­
teriais canônicos anteriores provavelmen­
te serviram como uma das bases para o
julgamento do uso dos materiais poste­
riores. Dentre os materiais que constam
dos Escritos, o Saltério, provavelmente,
foi o mais importante, e foi o primeiro a
ser honrado como a Palavra de Deus. Ele
é, de fato, algumas vezes usado como
nome da coleção toda (Luc. 24:44).
Fatores vários, provavelmente, entra­
ram no processo da elevação dos vários
livros à canonicidade. Muitos dos livros
eram associados com nomes de pessoas
meritórias, da antiguidade, e isto facili­
tou a sua aceitação (v.g., o nome de Salo­
mão com Provérbios, Eclesiastes, Cânti­
co dos Cânticos, Daniel com um profeta
do sexto século, etc.). Alguns dos livros
aparentemente gozavam de uso litúrgico
regular, especialmente Salmos e Lamen­
tações, e Ester era associado com a popu­
lar Festa de Purim. Rute pode ter sido
associado com o livro de Juizes, visto que
ele se desenrola no mesmo período; e
Esdras-Neemias e as Crônicas represen­
tam uma obra histórica semelhante à dos
Profetas Anteriores, e também podem ter
sido importantes por causa de sua exal­
tação da Lei e da adoração.
Sejam quais tenham sido as razões
para a canonização, houve discordância
substancial acerca do fato de alguns des­
ses livros merecerem ou não um lugar no
cânon da Escritura sagrada (especial­
mente Ester, Cântico dos Cânticos e
Eclesiastes), e finalmente determinou-se
que alguns deles eram Escritura tão-so-
mente por ato de um Concílio. As deci­
sões tomadas pelo Concílio de Jâmnia,
em aproximadamente 90 d.C., a respei­
to do conteúdo do cânon, provaram ser
definitivas, embora nem mesmo essas
decisões não ficassem sem serem desafia­
das. O fato de Josefo e IV Esdras po­
derem falar do que parece ser um cânon
terminado, em cerca de 100 d.C., indica
que não houve discordância substancial
depois deste ponto. O trabalho do Con­
cílio de Jâmnia foi, provavelmente, es­
timulado pelos desafios feitos ao judaís­
mo normativo, que fez com que fosse
muito importante decidir sobre um câ­
non fixo da Escritura, que serviria como
base para a fé e a prática religiosa ju­
daicas.
Os Apócrifos e Pseudepígrafes. Os ma­
teriais que finalmente vieram a compor o
cânon fixo indubitavelmente não exau­
rem os materiais que eram considerados
importantes pela comunidade primitiva.
Muitos livros, que para muitas pessoas
tinham a autoridade de Escritura, nunca
foram incluídos no cânon. O cânon foi
produto da vida judaica na Palestina, e,
na Diáspora, especialmente em Alexan­
dria, houve outras obras que parece te­
rem sido honradas de maneira igual à
deferência prestada aos materiais que
foram incluídos no cânon palestino. Es­
tas obras foram traduzidas para o grego,
e circularam com o restante das Escri­
turas Gregas.
Esses livros, que foram incluídos nas
Escrituras Gregas, mas nunca haviam
sido aceitos no cânon palestino, são mui­
to importantes para o cristianismo, por­
que a igreja primitiva usava as Escrituras
Gregas, e, desta forma, para a maior
parte dos cristãos primitivos, esses livros
eram usados juntamente com o mate­
rial incluído no cânon palestino, e usa­
do presentemente como Velho Testa­
mento pela cristandade protestante. Es­
tes livros, contidos nas antigas Escrituras
Gregas, mas nunca no cânon palestino,
são hoje em dia conhecidos comumente
86
como os Apócrifos. Eles aparecem como
Escritura na Bíblia Católica Romana e
na de certas comunhões ortodoxas, e
foram usados extensivamente no seio da
cristandade até a época da Reforma Pro­
testante, quando o cânon hebraico pales­
tino se tornou normativo para um grande
segmento da cristandade. Esses livros, de
valor variado, são I e II Esdras, Tobias,
Judite, adições ao livro de Ester, Sabe­
doria de Salomão, Eclesiástico, Baruque,
História de Susana, Cântico dos Três Fi­
lhos, História de Bei e o Dragão, Oração
de Manassés e I e II Macabeus.
Houve outros materiais hebreus im­
portantes, que não foram aceitos nem
nas Escrituras Hebraicas nem nas Bíblias
Gregas. Estes livros são geralmente cha­
mados de Pseudepígrafes, palavra que
significa “títulos falsos” . Esta descrição
não é inteiramente exata, mas origina-se
do costume de atribuir novos materiais a
homens da antiguidade, tais como os
“Testamentos dos Doze Patriarcas” e
“O Livro de Enoque”. Alguns desses
materiais, contudo, são tão antigos
quanto materiais que foram incluídos no
cânon; por isso parece que, em sua maior
parte, eles foram rejeitados deliberada­
mente. Muitos deles mereceram elevada
consideração da comunidade da igreja
primitiva, e, em sua grande parte, nós o
conhecemos por causa de sua preserva­
ção, efetuada pela igreja primitiva, fre­
qüentemente na linguagem da comuni­
dade eclesiástica que os usava.
II. O Texto
1. O Problema do Estudo do Texto
Sempre que uma comunidade religio­
sa depende de tradição escrita, para a
sua identidade básica, é extremamente
importante, para essa comunidade, que o
texto de sua literatura sagrada seja pre­
servado, sem modificação de sua forma
mais antiga e mais pura. Visto que o
Velho Testamento é básico tanto para a
comunidade judaica quanto para a cris­
tã, uma atenção substancial tem sido
dada à preservação de seu texto, e isto
tem sido feito em uma variedade de
situações históricas.
Por mil anos o texto do Velho Tes­
tamento tem permanecido estável. As
nossas Bíblias Hebraicas são baseadas
em manuscritos do nono e décimo sé­
culos d.C. Tal estabilidade, no entanto,
pertence à era moderna, visto que o pro­
cesso através de que se alcançou esta
estabilidade foi longo e confuso. A prin­
cipal tarefa da crítica textual do Velho
Testamento é a de traçar as origens, tão
longe quanto possível, da transmissão do
texto do Velho Testamento através dos
anos da sua formação, e procurar des­
cobrir as formas textuais mais antigas e
melhores, embora isto nunca possa signi­
ficar a recuperação de um texto original.
Embora isto possa ser teoricamente pos­
sível, precisamos presumir que nunca
podemos esperar ter algo melhor do que
o resultado de muitas gerações de copis­
tas. Precisamos presumir que toda a lite­
ratura do Velho Testamento passou por
um período de uso em que não lhe foi
concedida a condição de literatura canô­
nica, até que mais tarde houve um grau
de esforço para preservar a sua exatidão
em todos os detalhes. Além disso, somos
forçados a reconhecer que mesmo depois
que foi estabelecida a canonicidade, hou­
ve tradições textuais divergentes e só
muitos anos depois uma única tradição
textual prevaleceu.
2. A História do Texto do Velho Testa­
mento
O texto hebraico que serve de base
para a Bíblia Hebraica que usamos
atualmente é chamado de Texto Masso-
térico, nome advindo dos eruditos ju­
deus conhecidos como massoretas, que
conscientemente se dedicavam à preser­
vação da tradição textual que haviam
recebido. O texto básico que eles preser­
varam tão cuidadosamente parece ter
sido aceito como normativo por muitos
judeus (especialmente na Palestina) no
começo do segundo século d.C.
87
Alguns estudiosos acham que um úni­
co manuscrito foi aceito como texto de
autoridade, em cerca de 100 d.C., e foi a
base de todas as tradições textuais que se
seguiram.
A maioria dos eruditos agora argu­
menta que pode ser que não tenha havido
um único manuscrito que fosse aceito
como normativo, mas grande parte deles
concorda que deve ter havido um estrei­
tamento e restrições severas de formas
textuais nessa época. É bem provável que
a fixação de uma forma de autoridade do
texto tenha coincidido com a fixação do
texto do cânon do Velho Testamento
(veja acima). O término da tarefa é geral­
mente associado com a obra do Rabi
Akiba, que morreu em 132 d.C.
O estabelecimento de uma forma tex­
tual de autoridade, no fim do primeiro
século, não significou o fim de diferentes
tradições concernentes à forma apropria­
da dos textos bíblicos. Desenvolveram-
se, obviamente, mais do que um conjun­
to de tradições a respeito da forma apro­
priada do texto, tendo sido preservadas
as principais versões delas na Babilônia e
na Palestina. Havia importantes concen­
trações de atividade de escribas judeus
nessas regiões, especialmente depois do
drástico abalo infringido à vida judaica
em seguida ao fim da rebelião de Bar
Cochba e à vigorosa supressão dos judeus
executada pelos romanos em 135 d.C. A
forma palestina do texto estava destina­
da a tornar-se definitiva.
O texto básico estandardizado ou pa­
dronizado no começo da era cristã era
essencialmente um texto consonantal.
Isto é, não havia maneira de se escrever
todas as vogais necessárias para se pro­
nunciar as palavras.3
Durante o período massorético, desen­
volveu-se um sistema padrão de se es­
crever as vogais hebraicas. Parece que
durante esse período houve tradições
3 Muito antes disto, as consoantes haviam sido usadas
no texto para indicar algumas vogais, embora este siste­
ma fosse incompleto e irregular. Esses sinais vocálicos
eram chamados de Matres Lectiones.
substancialmente diferentes em relação à
maneira apropriada como o antigo texto
hebraico devia ser pronunciado, e, à
medida que as divergências e os proble­
mas de memória cresciam, com o passar
dos anos, tomou-se gradativamente im­
portante que as vogais fossem escritas no
texto.
Técnicas para se escrever as vogais se
desenvolveram entre escolas de massore-
tas palestinos e babilónicos, e o processo
parece ter recebido impulso bem subs­
tancial com o aparecimento de uma seita
de judeus conhecidos como Caraítas, que
se preocupavam extremamente com a
transmissão e interpretação exata das
Escrituras Hebraicas. Embora eles não
pertencessem a comunidades rabínicas
que mais tarde desenvolveram o sistema
de pontos vocálicos que prevaleceu, a
ênfase deles provocou os eruditos rabí-
nicos a desenvolverem um sistema com­
pleto de pontos vocálicos e a padroniza­
rem a pronúncia.
O sistema de vocalização que poste­
riormente prevaleceu foi o desenvolvido
entre os massoretas palestinos na comu­
nidade de Tiberíades. O seu sistema era o
esquema de pontos vocálicos familiar ao
moderno estudante de hebraico. Há mui­
tas evidências de que a reconstrução de
um sistema de vocalização pode ter sido
um tanto artificial, porque algumas tes­
temunhas textuais indicam uma pronún­
cia inteiramente diferente para algumas
palavras. O novo sistema é chamado de
tiberiano, e deve ser distinguido dos sis­
temas palestino e babilónico anterio­
res.
O término da atividade massorética, o
oitavo e o décimo séculos d.C., aconteceu
em Tiberíades, onde havia duas famílias
massoréticas principais: ben Asher e ben
Naphtali. Essas duas famílias preserva­
ram edições revisadas do texto ligeira­
mente diferentes, com variações na voca­
lização. O texto ben Asher veio a ser o
texto geralmente aceito, embora reda­
ções ben Naphtali muitas vezes tenham
sido usadas em manuscritos posteriores.
88
3. O Texto Protomassorético
A tarefa de se determinar a condição
do texto do Velho Testamento na época
pré-cristã é ingente. Os antigos Sopherim
(homens do Livro), antecessores dos mas-
soretas, começaram já no quarto século
a.C. a estabelecer elaboradas salvaguar­
das contra a intrusão de erros no texto.
O seu trabalho foi executado muito antes
do surgimento do texto consonantal, que
se tornou a base do Texto Massorético, e
o problema tem sido determinar se esses
escribas preservaram uma variedade de
formas textuais que competiam entre si
ou se um texto foi aceito unanimemente
como normativo, em época bem remota.
Até bem recentemente não havia nenhu­
ma evidência disponível que lançasse luz
sobre este problema, exceto a presença
do texto da Septuaginta, que obviamente
subsistia em uma forma muito mais anti­
ga do que o texto hebraico recebido do
décimo século d.C. A antiguidade do
texto da Septuaginta não dá, entretanto,
nenhuma indicação verdadeira de que
ela preservou uma edição revisada me­
lhor do texto do que os seus correspon­
dentes hebraicos, representados por ma­
nuscritos posteriores.
A Septuaginta tem permanecido sus­
peita para muitos estudiosos, antes de
tudo porque é muito difícil chegar a
qualquer consenso definitivo a respeito
do caráter do texto original dela. Ele é
representado em muitas variedades, de
diferentes períodos e lugares, e é até
representado por traduções em línguas
estrangeiras, para as quais serviu de
base. A dificuldade em se determinar um
texto original da Septuaginta é manifes­
ta quando qualquer tentativa significati­
va é feita para se comparar a Septuagin­
ta com o Texto Massorético.
Outro aspecto do problema do uso da
Septuaginta para a crítica textual é a
contínua incerteza a respeito da qualida­
de da tradução. Será que as diferenças
com o Texto Massorético realmente ex­
pressam uma forma textual diferente, ou
são simplesmente indicações de que os
tradutores eram ineptos ou inclinados ao
excessivo uso de paráfrases, quando fize­
ram a sua tradução?
Outra fonte possível para a crítica
textual tem sido o Pentateuco Samarita-
no, a Escritura da seita palestina cuja
origem remonta a um cisma com o ju­
daísmo pós-exílico. Não há dúvida de que
o Pentateuco Samaritano representa uma
tradição textual diferente, embora tam­
bém seja provável que algumas de suas
variações representem um colorido sectá­
rio ou redações introduzidas pelos escri­
bas de sua comunidade, na transmissão
do texto.
As possibilidades de uma crítica sig­
nificativa do texto hebraico foram modi­
ficadas com o aparecimento dos rolos de
Qumran, em 1947.4
Há muito tempo se supunha que ma­
nuscritos hebraicos genuinamente anti­
gos não existiam, e, desta forma, presu­
mia-se que a crítica teria que permanecer
altamente especulativa. As descobertas
iniciais, com os grandes rolos de Isaías,
foram emocionantes, mas estas foram
seguidas muito rapidamente pelas volu­
mosas descobertas da Caverna IV e ou­
tras localidades. Muito rapidamente a
maioria dos livros do Velho Testamento
estavam representados, pelo menos em
forma fragmentária, e o mundo erudito
defrontou-se com a tarefa de examinar
uma grande quantidade de material que
era mais antigo do que o Texto Masso­
rético fixado. Os rolos, provavelmente,
datam do fim do terceiro século a.C. até
os primeiros anos da era cristã.
Embora até agora o trabalho de inter­
pretação dos rolos não esteja completa­
do, e muitos estudiosos ainda estejam
dando atenção a eles, várias observações
podem ser feitas a respeito de seu signifi­
cado. Em sua maior parte, os rolos não
representam nenhuma variante impor­
4 Outros rolos antigos do Wadi Murabba’at, datando de
cerca de 135 d.C., oferecem testemunhos textuais adi­
cionais. Os rolos do Wadi Murabba’at confirmam o
Texto Massorético recebido.
89
tante de nossas tradições textuais, que
demandem uma reconsideração séria do
significado do material canônico.
Contudo, é muito importante observar
que os rolos representam várias tradições
textuais, e é significativo notar que aque­
les sectários não tinham nenhum escrú­
pulo em preservar diferentes tradições
textuais dentro de sua comunidade. Há
lugares em que o texto dos rolos de
Qumram confirma claramente a tradi­
ção textual sustentada pela Septuaginta,
em contraposição ao Texto Massorético.
Isto torna-se evidente a partir de um es­
tudo cuidadoso dos livros históricos e es­
pecialmente do livro de Jeremias, cujo
texto difere substancialmente na Septua­
ginta, em contraposição ao Texto Masso­
rético. 5
As evidências são suficientes para con­
firmar o significado da Septuaginta para
a crítica textual. As evidências dos rolos
também tomam claro que o Pentateuco
Samaritano, semelhantemente, represen­
ta tradições textuais antigas. Os rolos
também representam, substancialmente,
o Texto Protomassorético.
Os rolos tornam claro que houve vá­
rias tradições textuais estabelecidas, em
existência, antes da fixação substancial
do texto, no começo do segundo século
d.C. Havia, provavelmente, formas do
texto transmitidas primordialmente no
Egito, na Palestina e na Babilônia. Eles
também demonstram que o texto padro­
nizado na época do Rabi Akiba não foi
um texto criado na época, mas represen­
tava uma escolha ou seleção dos textos
disponíveis. Desta forma, podemos estar
certos de que o nosso texto recebido tem
sido preservado, sem modificações subs­
tanciais desde épocas bem remotas.
4. Versões do Velho Testamento
Várias versões antigas propiciam in­
formações adicionais para um estudo do
5 Grande parte das informações disponíveis para a inter­
pretação desses dados provieram de publicações de
Frank Cross. Cf. Para Leitora Adicional.
texto do Velho Testamento. A dissemi­
nação da Bíblia em línguas do mundo
todo começou cedo, e nunca cessou.
Logo depois do exílio babilónico, pará­
frases populares do Velho Testamento
apareceram na língua aramaica. A prin­
cípio elas eram orais, porém, mais tarde,
foram reduzidas à forma escrita, e che­
garam a nós em uma forma estabilizada,
durante o começo da era cristã. Essas
traduções aramaicas, chamadas Tar-
guns, foram preservadas em várias for­
mas, sendo a mais importante o Targum
Onkelos (o Pentateuco) e o Targum Jo-
nathan (os Profetas).
Temos tido ocasião de mencionar a
Septuaginta, porém houve outras impor­
tantes versões gregas. Uma das mais
importantes foi a de Ãqüila, um judeu
prosélito de Ponto, que fez uma tradu­
ção literal, de baixa qualidade, do he­
braico, em cerca de 130 d.C. Uma segun­
da e importante tradução, a de Teodócio,
é também do segundo século. Teodócio
demonstra ter dependido muito da Sep­
tuaginta. Ainda mais tarde, naquele
mesmo século, apareceu uma terceira
tradução para o grego, de Symmachus,
um trabalho no grego fluente, algumas
vezes até ao ponto de sacrificar o sentido
do hebraico.
O cristianismo primitivo foi, provavel­
mente, responsável pela primeira tradu­
ção no siríaco, aparecendo estas obras no
segundo século ou pouco antes. A tradu­
ção siríaca padrão veio a ser chamada de
Peshita. A tradução siríaca, provavel­
mente, foi levada para o Ocidente por
missionários cristãos primitivos.
As primeiras versões latinas do Velho
Testamento apareceram no Norte da
Ãfrica, no fim do segundo século d.C.
Estas primeiras traduções, chamadas de
versões Velhas Latinas, foram substituí­
das pela Vulgata, traduzida por Jerôni-
mo, em resposta a um pedido do Papa
Damascus, em cerca de 382 d.C. A Vul­
gata tomou-se a Bíblia da Igreja Católica
Romana.
90
Outras versões antigas apareceram em
conexão com a disseminação da cristan­
dade primitiva. Entre essas, estão a Góti­
ca (século IV), a Armênia (século V), a
Georgiana (século V), a Etíope (século
IV) e as versões arábicas (a data da pri­
meira versão é desconhecida, mas exis­
tem até hoje fragmentos do século IX).
Para Leitura Adicional
CROSS, FRANK M. The Ancient Libra­
ry of Qumran. London: Gerald
Duckworth & Co., Ltd., 1958, p.
124-45.
EISSFELDT. OTTO. The Old Testa­
ment. Trad, para o inglês por PE­
TER R. ACKROYD. New York:
Harper & Row, 1965, p. 560-721.
JEFFEREY, ARTHUR. “The Canon of
the Old Testament”, The Interpre­
ter’s Bible. Nashville: Abingdon,
1952, p. 32-45.
KENYON, FREDERIC. Our Bible and
the Ancient Manuscripts. New
York: Harper & Row, 1958.
NOTH, MARTIN: The Old Testament
World. Trad, para o inglês por
VICTOR I. GRUHN. Philadelphia:
Fortress Press, 1966, p. 301-58.
PFEIFFER, ROBERT H. “Canon of the
Old Testament” , The Interpreter’s
Dictionary of the Bible. Nashville:
Abingdon, 1962,1, p. 498-520.
ROBERTS, B. J. The Old Testament
Text and Versions. Cardiff: Univer­
sity of Wales Press, 1951.
THOMAS, D. WINTON. “The Textual
Criticism of the Old Testament”,
The Old Testament and Modern
Study. Oxford: Oxford University
Press, 1951, p. 238-63.
WURTHWEIN, ERNST. The Text of
the Old Testament. Trad, para o
inglês por PETER R. ACKROYD.
Oxford: Basil Blackwell, 1957.
91
A História de Israel
O Velho Testamento não tenta escre­
ver uma história de Israel. Pelo contrá­
rio, ele dá o seu testemunho da obra de
Deus no estabelecimento da nação. Os
hebreus foram o primeiro povo da anti­
guidade a ter um senso de história. Os
seus contemporâneos pensavam em ter­
mos cíclicos e concebiam a história em
termos de repetição. O Velho Testamen­
to considera Deus como dirigindo os
acontecimentos em direção ao alvo da re­
denção de sua criação. Os seus escritores
estavam interessados nos marcos ao lon­
go do caminho. Detalhes que nos teriam
fascinado não eram de interesse para
eles. Pelo contrário, cada acontecimento
apresentado pelos escritores bíblicos é
usado com um objetivo teológico.
Aos primeiros livros do Velho Testa­
mento (Gênesis a Deuteronômio), que
tratamos como história, eles chamavam
de lei (Pentateuco); de Josué a II Reis
eles chamavam de Profetas Anteriores.
Para os hebreus, a história devia ensinar
aos homens a vontade de Deus e adver­
ti-los a respeito de seu futuro. Eles pre­
gavam a sua história e criam que ela pre­
figurava o futuro do povo de Deus. De
fato, ela era a “história da salvação”. 1
Neste estudo, tentaremos fazer o que
os escritores bíblicos nunca pretenderam
fazer. Procuraremos alcançar o que está
por detrás do testemunho que eles deram
acerca dos acontecimentos, para destilar
a essência da História a partir da inter­
pretação deles. Visto que os escritores da
Bíblia apresentam dados tão incompletos
e frustrantes, muitos eruditos dizem que
tal empreendimento não pode ter suces-
1 Alan Richardson, “Salvation”, IDB, IV, 170-71.
Clyde T. Francisco
so. Contudo, a arqueologia está preen­
chendo rapidamente as lacunas. Os
acontecimentos da história de Israel fo­
ram os alicerces sobre que eles edifica­
ram a sua teologia. A teologia hebraica
sem acontecimentos é semelhante a um
espírito sem um corpo. Embora seja
apropriado dizer que a teologia do Velho
Testamento é a principal preocupação do
intérprete, o edifício não pode permane­
cer em pé sem um alicerce firme.
O testemunho histórico dos hebreus é
apresentado a partir de três fontes bá­
sicas: (1) tradições populares antigas,
especialmente em Gênesis-Êxodo; (2) a
interpretação deuteronômica do passado
de Israel, encontrado em Deuteronômio-
II Reis; e (3) a história sacerdotal, que
forma o arcabouço de Gênesis-Números,
mas é suplementada por I e II Crônicas,
Esdras e Neemias. As primeiras tradi­
ções de Gênesis remontam à antiguida­
de, mas foram escritas pelo menos por
volta de 950-850 a.C., na época de Salo­
mão ou Josafá. A história deuteronômi­
ca, contendo materiais primitivos, mui­
tos dos quais são tão antigos quanto a
época de Moisés, foi colocada em sua
forma final mais ou menos na época da
queda de Jerusalém (587 a.C.) e apresen­
ta a perspectiva daqueles tempos.
Por outro lado, a história sacerdotal,
que semelhantemente usou tradições an­
tigas, algumas muito mais antigas do que
Moisés, foi escrita durante o exílio babi­
lónico (c. 500 a.C.) e revela os pontos de
vista do grupo sacerdotal daquele perío­
do. Além do mais, o cronista fala a partir
da situação vivencial de 350 a.C. Segun­
do a vontade de Deus, esses vários teste­
munhos foram preservados para serem
93
usados com o fim de se alcançar uma
perspectiva significativa da história de
Israel.
É óbvio que as fontes falam-nos com
mais clareza quando tratam de aconte­
cimentos que haviam ocorrido em época
próxima àquela em que foram escritos.
Quanto mais tempo os materiais foram
sendo transmitidos oralmente, antes de
serem escritos, mais fragmentados fica­
ram e mais sujeitos foram a revisões du­
rante a transmissão. Não obstante, em
todo este processo, um cerne sólido de
dados permanece, fornecendo-nos evi­
dências confiáveis dos atos poderosos de
Deus na História. As tradições primeiras
de Israel são mais claras e mais comple­
tas do que quaisquer outras no mundo
antigo.2
Outro problema surge: distinguir entre
a natureza do evento preservado na in­
terpretação e a interpretação dada a esse
evento por diferentes escritores. Embora
tanto os escritores deuteronômicos quan­
to os escritores sacerdotais tratem em
comum de muitos acontecimentos, eles
muitas vezes lhes dão diferentes inter­
pretações (cf. II Sam. 24:1 e ss. e I Crôn.
21:1 e ss.; a primeira interpretação atri­
bui a Deus o que a última aplica a Sata­
nás). Estas perspectivas diferentes preci­
sam ser consideradas seriamente, mas
quando elas são vistas como suplementa-
doras uma da outra, enriquecem a nossa
compreensão da ocorrência original.
I. Promessa e Cumprimento
As antigas tradições de Israel se agru­
pam ao redor do tema da eleição-pro-
messas de Deus e sua fidelidade à sua
palavra. Isto é apresentado contra o som­
brio pano de fundo do pecado e da infi­
delidade do homem. No entanto, Deus
continua avançando firmemente em dire­
ção ao cumprimento de seu propósito.
O que ele começou em sua.graça, com­
pletará no devido tempo. Ele apenas
espera a reação do homem que, embora
2 W. F. Albright, “The Biblical Period”, Tbe Jews, ed.
Louis Finkelstein (New York: Harper, 1949), 1,3.
lenta em manifestar-se, precisa preceder
os seus atos confirmadores.
As velhas histórias que eram comuns
ao povo do Oriente Próximo da antigui­
dade, a respeito da criação e do dilúvio,
eram consideradas pelos hebreus à luz
dos propósitos redentores do Deus de
Israel; e as narrativas de seus ancestrais,
transmitidas de pai para filho, se unifi­
cavam ao redor desse tema obrigatório.
O homem fora criado para servir a este
Deus santo, e todos os seus problemas se
originavam de sua recusa em fazê-lo. As
antigas histórias de Abraão, Isaque e
Jacó eram consideradas como fase ini­
cial de um padrão claro: a iniciativa de
Deus no meio do trágico fracasso do ho­
mem. O que ele prometera voluntaria­
mente a Abraão, cumprira para Israel,
que não era merecedor, preservando mi­
raculosamente, livrando e estabelecendo
os israelitas como nação.
1. A Época Patriarcal
As narrativas a respeito dos ancestrais
dos hebreus não têm paralelo no mundo
antigo. Em riqueza de detalhes, qualida­
de literária e percepção teológica, elas
são ímpares. Elas nos informam que os
antecessores dos hebreus migraram da
Mesopotâmia para Canaã, e vaguearam
pela Palestina sustentados pela promessa
de Deus de que um dia aquela região
pertenceria à sua posteridade. Muito
pouco se sabe a respeito desse estágio
preparatório da história de Israel, exceto
o que lemos em Gênesis.
A arqueologia tem confirmado o qua­
dro veterotestamentário dos tempos pa­
triarcais. Nomes semelhantes aos regis­
trados em Gênesis eram comuns na Me­
sopotâmia durante a época quando os
patriarcas devem ter vivido. E também
foi somente durante esse período que eles
poderiam ter vagueado livremente atra­
vés de Canaã, como Gênesis relata. Os
costumes revelados pelas histórias são
coerentes com o que agora sabemos ter
sido a situação durante aquela época.
A exatidão com que as condições políti-
94
cas e sociais foram apresentadas é evi­
dência significativa do cuidado com que
as tradições foram preservadas.
Podemos presumir com segurança,
portanto, que os antepassados dos he­
breus lhes transmitiram uma convicção
de que o seu Deus tinha um objetivo
especial para com eles na História, que
incluía a futura posse de Canaã como
terra da Promessa. Eles nunca viveram
para ver o cumprimento de seus sonhos,
mas morreram confiantes em que uma
geração posterior veria confirmadas as
promessas inabaláveis de Deus. A única
parte da Palestina que eles possuíram foi
uma caverna para sepultamento em
Macpela, onde os seus corpos foram co­
locados, como amostras de sua esperan­
ça. Eles não foram enterrados em terra
estranha, mas em sua própria terra.
2. O Êxodo do Egito
Geralmente os eruditos hodiernos con­
sideram que os séculos catorze e treze
a.C. marcam os primórdios de Israel
como nação, embora os patriarcas tives­
sem vivido vários séculos antes (c. 1700
a.C.). Foi na experiência do Êxodo
(c. 1250 a.C.) que uma família tomou-se
uma nação — várias tribos, um povo.
A fuga do Egito. Embora não haja
razão para se questionar o fato do Êxo­
do, restam muitos problemas difíceis de
resolver. Eles giram em tomo do número
de pessoas que participaram da experiên­
cia, da constituição das tribos partici­
pantes e da rota da viagem do Egito à
Palestina.
Com respeito aos números, Israel,
quando entrou em Canaã, devia ser su­
ficientemente numeroso para efetuar a
destruição de grandes cidades da Pales­
tina. Com respeito à constituição das
tribos, é possível que nem todos os he­
breus tenham ido ao Egito com Jacó. Ou­
tros, provavelmente, deixaram o Egito
antes que tivesse terminado a peregrina­
ção de todo o povo ali. Ê também pro­
vável que elementos não-hebreus tenham
sido absorvidos pela vida tribal de Israel.
Dentre esses estavam Calebe (Núm.
14:6)(*) e Hobabe (Núm. 10:29). Quan­
do eles se juntaram a Israel, poderia ter
sido dito, com verdade, que, mediante
esse ato de identificação, eles se toma­
ram parte desse povo, e verdadeiramente
poderiam reivindicar Abraão como seu
pai, da mesma forma como os crentes
gentios o fazem hoje em dia.
Os debates a respeito da rota do Êxo­
do residem principalmente ao redor do
lugar em que eles atravessaram o mar.
Aparentemente, a expressão “Mar Ver­
melho” (em hebraico, Mar de Juncos ou
Mar dos Sargaços) pode ser aplicada a
toda a expansão de água na região do
Mar Vermelho, não podendo ser confi­
nada a qualquer ponto em particular.
Contudo, para nós, é tão desnecessá­
rio saber o ponto exato em que eles atra­
vessaram quanto saber onde Jesus foi
enterrado depois da crucificação.
Durante a peregrinação no Egito, a fé
dos hebreus nas promessas feitas aos pais
foi duramente provada, mas a experiên­
cia do Êxodo apresentou uma confirma­
ção que testificou para sempre acerca do
destino de Israel entre as nações. Sem a
promessa feita aos pais, o Êxodo poderia
ter sido considerado como mera coinci­
dência; sem o Êxodo, a esperança de
Abraão teria parecido um sonho vão. No
Êxodo, o poder latente da fé de Israel
recebeu um impulso que nunca lhe foi
negado. Da mesma forma como Abraão
olhou para o futuro, para a posse da
terra como frutificação de sua fé, o Israel
de época posterior iria olhar para o pas­
sado, para a libertação do Egito, para
conservar viva a sua fé. O Deus de Israel
havia demonstrado que era mais podero­
so do que os deuses das nações. O Deus
de Abraão, Isaque e Jacó provou ser o
Senhor de tudo. Ê isto que os pais ha­
(*) NOTA DO EDITOR: De acordo com Números
13:6, Calebe pertencia à tribo de Judá; portan­
to, é questionável o autor dizer que ele era ele­
mento “não hebreu absorvido por Israel”.
95
viam crido, sendo agora confirmado na
História.
A Experiência do Sinai. No Sinai, Is­
rael tornou-se o povo de Deus. Até então
eles eram os herdeiros de uma promessa.
Agora, se uniam com o seu Deus em um
propósito comum. Podia ser que o
nome de Yahweh lhes fosse conhecido
antes, preservado na tradição quenita,
mas agora ele assumia um novo significa­
do. Era um nome pactuai, que devia ser
usado exclusivamente por Israel. No uso
antigo, o ato de compartilhar o nome era
uma experiência íntima. Ao dar o seu
nome a Israel, Deus estava oferecendo-se
a si mesmo.
Até o Sinai, os hebreus eram leais ao
Deus que lhes havia prometido a sua bên­
ção. Eles conheciam pouco a respeito de
sua verdadeira natureza. Foi no Sinai
que Deus revelou-lhes a lei (torah, “re­
velação”), dando-lhes um vislumbre de
seu caráter e de seus requisitos morais.
Abraão podia ter mentido a Faraó sem
sentir dores de consciência, mas agora os
israelitas conheciam que não deviam dar
falso testemunho; Jacó podia roubar a
bênção de seu pai friamente, mas agora o
seu povo era informado que não devia
roubar.
Eles já sabiam que deviam ser fiéis
somente a Deus, mas agora era confir­
mado que eles serviam a um Deus cuja
semelhança nunca podia ser feita, pois
ele estava sempre além do conhecimento
deles, e devia ser conhecido apenas da
maneira como ele resolvesse revelar-se a
eles. Desta forma, foram injetados na
história de Israel os elementos que a
fizeram uma nação peculiar dentre todas
as outras nações do Oriente Próximo.
O propósito de Deus, em direção ao qual
Israel se esfalfava, ainda estava para ser
completamente revelado.
Deus não apenas revelou o seu verda­
deiro caráter e as suas exigências no
Sinai, mas foi ali que Israel, como povo,
se dedicou a Deus e ao seu propósito a
seu respeito. Na aliança celebrada no
Sinai, Israel prometeu viver à luz das
expectativas de Deus, cônscio, em todo o
tempo, da bênção divina que resultaria
da fidelidade àquele pacto. Essa aliança
foi condicional, mas Israel foi dedicado à
sua observância. Desde então, eles eram
não apenas herdeiros de uma promessa,
mas foram dedicados a uma causa.
3. A Conquista de CanaS
O fato de que Israel hesitou no limiar
de Canaã e recusou-se a entrar na terra é
uma das mais surpreendentes reviravol­
tas da História. Na verdade, os espias
haviam relatado que havia gigantes e
cidades muradas na terra. Não obstante,
como Calebe replicou, o Deus que havia
feito recuar as forças de Faraó podia
dar-lhes a vitória. No entanto, eles se
rebelaram, para inteira surpresa de Moi­
sés. No decorrer dos longos e miseráveis
anos das peregrinações pelo deserto (38
anos), ele alimentou o seu sonho e a nova
geração de israelitas. Tendo morrido an­
tes de ter conseguido realizar o seu so­
nho, ele o transmitiu a Josué. Cabia a ele
cumpri-lo.
As Campanhas de Josué. A conquista
da terra é retratada como tendo ocorrido
em três estágios. Antes de tudo, houve
um ataque rápido através da Palestina
central, em direção a Jericó e Ai, divi­
dindo, desta forma, a terra entre o norte
e o sul (Jos. 6-9). Depois os reis do sul
foram vencidos (Jos. 10); e, finalmente,
as fortalezas do norte foram tomadas
(Jos. 11). Desta forma, Israel estabele­
ceu-se rápida e decisivamente na terra.
Algumas passagens no livro de Josué
parecem dar a entender que Josué con­
quistou completamente cada cidade e
cada hectare de Canaã. Josué 11:23 diz:
“Assim Josué tomou toda esta terra.”
Mas 13:1 declara: “Ainda fica muitíssi­
ma terra para se possuir.”
Ê difícil, para o leitor ocidental hodier­
no, compreender como duas opiniões di­
vergentes como estas podem aparecer no
mesmo material histórico. Os editores do
96
livro de Josué que declararam que ele
havia conquistado toda â terra são os que
incluíram o material, dizendo que a con­
quista fora apenas parcial. Uma solução
é encontrada quando entendemos a ma­
neira como funcionava a mente hebraica
e as formas costumeiras de expressão na
literatura hebraica. Tendo escrito em
época posterior e sabendo qual fora a
natureza original da conquista primitiva,
os escritores idealizaram a era de Josué,
porque viam, no espírito dele, os recursos
que certamente conquistariam a terra.
Depois da contribuição dele na conquista
inicial, a conquista final era apenas uma
questão de tempo. Por ocasião de sua
morte, ela estava praticamente realiza­
da. 3O fato de que eles incluíram os ma­
teriais originais mais historicamente ori­
entados, é a sua forma de dizer que as
declarações mais compreensivas devem
ser entendidas à luz desse pano de fun­
do. Eles eram homens honestos, que
viam, em um momento da História, mais
do que registros estatísticos podiam mos­
trar.
Quanto do método da conquista de
Josué era a maneira de se conduzir a
guerra naquela época e quanto era or­
dem específica de Deus, é impossível
descobrir. No entanto, precisamos reco­
nhecer que a ordem dada por Deus para
conquistar a terra não foi, necessaria­
mente, ditada por Deus a Josué palavra
por palavra. Josué entendeu a ordem da
única forma possível: em termos da cul­
tura e dos tempos em que vivia.
O Período dos Juizes. O livro dos
Juizes continua a história de Israel após a
morte de Josué. Este período foi um dos
mais difíceis da história de Israel. Eles
estavam na terra, mas ainda não a ha­
viam possuído totalmente. O desafio da
primeira conquista acabara, mas os seus
inimigos ainda estavam por lá. Eles ti­
nham espaço para viver, mas não para
3 Considerar um acontecimento futuro como já realizado
é característica estilística hebraica comum, expressa por
um perfeito profético. Cf. Is. 53:1 e ss.
crescer. Eles podiam sobreviver sem fa­
zer nada, mas só podiam se expandir
mediante um novo esforço heróico.
Baalismo contra Yahweísmo. — A
principal tentação que confrontou Israel
foi a constante atração da adoração a
Baal, praticada pelos seus vizinhos cana-
neus. Baal, suprema divindade cananéia,
era conhecido em cada comunidade por
um título pessoal, que lhe era atribuído.
É neste sentido que a sua adoração era
tamanha ameaça para a religião de Is­
rael. O israelita típico não via razão por
que não podia considerar Yahweh como
seu deus nacional, e ainda assim expres­
sar lealdade a Baal, em sua comunidade
local.
O nosso conhecimento da natureza da
adoração de Baal tem sido imensamente
aumentado pelas descobertas ocorridas
em Ugarite (Ras Shamra), um porto
abandonado, no norte da Síria, pouco ao
sul de Antioquia. Várias centenas de
tabuinhas de barro foram encontradas
ali durante os anos 1929-39. Todas elas
são datadas do primeiro terço do século
catorze a.C.. Essas tabuinhas contém
rituais sacrificiais, epopéias mitológicas e
poemas religiosos. Nelas é revelada a ver­
dadeira natureza da religião cananéia e o
segredo de sua atração para os antigos
israelitas.
Em primeiro lugar, ela apelava para a
natureza sensual. Cria-se que as relações
sexuais com as prostitutas sagradas no
templo de Baal garantiria a fertilidade do
solo, dos animais e até da esposa do
adorador. O baalismo também prometia
uma forma pela qual o homem podia
fazer com que os deuses fizessem a sua
vontade. O baalismo ensinava que, se
uma pessoa realizasse os rituais apro­
priados, ser-lhe-ia garantido o favor de
Baal sobre as colheitas do ano.
Quando os israelitas entraram na ter­
ra, eram pastores, e não agricultores.
É certo que eles perguntaram aos nativos
cananeus quais eram os segredos do su­
cesso na agricultura. Ê também igual-
97
mente certo que eles foram informados
que a coisa mais importante era asse­
gurar o favor do Baal local. Desta forma,
os israelitas foram levados à deriva, ser­
vindo a Yahweh como o grande e excelso
Deus dos exércitos, da batalha, e servin­
do também a Baal como o deus que devia
ser considerado o doador de conforto
material. As massas dos israelitas foram
desviadas, da austera adoração de Yah­
weh, para o materialismo e o sensualismo
do baalismo.
Um ciclo desencorfyador. — A carac­
terística primordial do livro dos Juizes é a
estrutura que liga as narrativas original­
mente separadas. Ele enfatiza a filosofia
deuteronômica de história que caracteri­
za a literatura histórica dos hebreus,
desde o Deuteronômio até Reis: Se Israel
fosse fiel a Yahweh, prosperaria econô­
mica e politicamente; se fosse infiel, in­
dubitavelmente experimentaria a catás­
trofe. A situação descrita em Juizes 2:11-
23 é a chave para a organização de todo o
livro. Uma fórmula automática é reapli­
cada a cada nova crise de Israel: (1) os
hebreus cedem à tentação; (2) a aposta­
sia leva à opressão; (3) defrontando-se
com a adversidade, o povo se arrepende e
clama a Deus, pedindo ajuda; e (4) ele
ouve o seu clamor e lhe envia um liberta­
dor.
Este sumário desanimador, do perío­
do, faz lembrar a visão cíclica da história
que os vizinhos de Israel tinham. A pri­
meira vista, parece que os escritores ha­
viam perdido de vista qualquer alvo para
o qual Israel estivesse avançando, soh a
mão da divina providência. No entanto,
por detrás deste sumário está a sugestão
subliminar de que, embora Israel estives­
se aparentemente em um ciclo sem espe­
ranças, em sua condição pecaminosa,
Deus ainda estava entronizado, guiando
pacientemente o curso da História, para
levá-los ao propósito que ele tinha para
com eles.
O ofício dejuiz. — Durante este perío­
do, os juizes foram enviados a fim de
conservar Israel vivo, até que pudesse ser
providenciado um caminho melhor. Es­
sesjuizes eram convocados de várias clas­
ses sociais, para liderar Israel em sua
luta contra os seus inimigos. Alguns de
seus mandatos, nesse ofício, aparente­
mente eram paralelos entre si, visto que o
número total de anos atribuído a cada
juiz ultrapassa, se somado, o período de
tempo geralmente atribuído ao período
(c. 1200-1050 a.C.). Nenhum deles, tanto
quanto sabemos, jamais liderou um Is­
rael completamente unido.
Os diferentes juizes tinham caracterís­
ticas pessoais e piedade bastante variega­
das. Todos eles, contudo, compartilha­
vam de uma coisa: haviam sido escolhi­
dos por causa da evidência de que Deus
lhes havia dado qualidades pessoais de
liderança. Tais qualificações são men­
cionadas como carismáticas (a posse dos
dons do espírito). Este método de reco­
nhecer os governantes contrasta aguda­
mente com o costume posterior, em
Judá, de escolher um rei simplesmente
porque ele era o herdeiro da linhagem de
Davi.
II. A Monarquia Unida
No fim do período dos juizes (c. 1050
a.C.), Israel estava em tristes condições.
A dominação de Canaã pelos filisteus era
quase completa. Esse povo marítimo,
que se havia estabelecido na Palestina,
tivera mais sucesso em conquistar a terra
do que os hebreus. Embora os profetas
de Israel dissessem que isso era devido à
falta de fidelidade dos israelitas a Deus,
muitos anciãos achavam que pensar as­
sim era simplificar demais o assunto;
eles achavam que um rei era necessário,
mas reconheciam que isso era contrário
às tradições de Israel. O ideal de Israel
era uma teocracia, uma nação governada
por Deus, e não pelo homem. Deus era o
seu rei, e eles não deviam ter outro (cf.
Juiz. 8:23; 9:1 e ss.).
Agora os anciãos de Israel estavam tão
desesperados que estavam dispostos a
98
tentar ter um rei. O sistema filisteu de
reinado parecia oferecer mais estabilida­
de do que Israel fora capaz de alcançar
através das libertações carismáticas es­
pasmódicas, durante a era dos juizes.
Muitos dos anciãos amavam (Samuel,
mas temiam o futuro. Eles exerceram
pressão sobre o relutante juiz para que
desse a bênção de Deus sobre um rei para
Israel. Que Deus continuasse a ser rei,
mas que ele estabelecesse um sistema hu­
mano mais estável do que a libertação
carismática dos juizes.
Embora os temores de Samuel a res­
peito do reinado fossem confirmados pe­
los acontecimentos posteriores, a sabedo­
ria divina em permitir um rei provou ser
ainda mais judiciosa. Como os editores
do livro de Juizes perceberam, um rei era
necessário para dispersar as forças cen­
trífugas que ameaçavam Israel (cf. 21:
25). O juiz ocasional não podia dar a
estabilidade que uma monarquia empos­
sada propiciaria. Foi também através da
monarquia que Israel começou a tomar o
seu lugar entre as nações. Até o estabele­
cimento da monarquia, os hebreus se ha­
viam contentado em adquirir a sua terra
e em nela viver. Logo depois eles toma­
ram consciência do mundo fora dos limi­
tes da Palestina. A coroação de um rei
automaticamente propeliu Israel à comu­
nidade das nações.
Foi a monarquia, tão causticamente
condenada em muitas ocasiões, que, não
obstante, forneceu aos profetas os con­
ceitos que elaboraram o seu sonho acerca
do futuro: o reino de Deus, o rei ideal por
vir e Israel supremo entre as nações.
1. O Reinado de Saul
O trágico governo do filho de Quis
começou em cerca de 1020 a.C. A des­
peito de seus defeitos pessoais, ele deixou
uma impressão duradoura no povo de
Israel, tanto como herói militar quanto
como o seu primeiro rei. Davi herdou um
reino já preparado para ele por Saul.
A primeira vista, o regime de Saul parece
ter sido um afastamento completo da
antiga ordem dos juizes. O título de “rei”
era estranho à cultura israelita. Havia
também uma permanência da unção,
coisa que os juizes não possuíam. Saul
esperava que os seus filhos reinassem
após a sua morte. O seu domínio, dife­
rentemente do de Abimeleque, incluía
todas as tribos.
No entanto, o governo de Saul afastou-
se o mínimo possível do papel comum
ao juiz. Conservou a peculiaridade do
governo de Israel no contexto do novo
título. Pouca modificação foi exercida na
estrutura interna da nação. A organiza­
ção tribal foi deixada intacta. Não houve
nenhuma máquina governamental com­
plexa. Saul não tinha um harém; a vida,
em sua corte, como a arqueologia revela,
era simples e rústica. È óbvio que Israel,
certamente, a princípio, embora cedendo
à pressão exercida no sentido de ter um
rei, da mesma forma como o tinha o
inimigo filisteu, não pretendia imitar ab­
jetamente os seus vizinhos, mas, pelo
contrário, adaptar o que considerava
um sistema superior de governo à vida
caracteristicamente israelita. O profeta
de Deus, tão fielmente retratado por
Samuel, faria com que a coroa repousas­
se sempre pouco à vontade sobre a cabe­
ça do rei. Nenhuma outra nação dos
tempos antigos permitia uma repreensão
assim tão aberta de um monarca reinan­
te. Era o profeta o comissionado para
preservar a peculiaridade dos hebreus
diante de uma situação difícil. Mesmo
quando o povo apedrejou os seus profe­
tas, substituiu-os por outros que, segun­
do julgava, falavam da parte de Deus.
Quando o rei sustentou os profetas cul­
tuais em época posterior, que diziam o
que ele queria ouvir, ele estava cedendo
às exigências de que o ofício profético
fosse mantido.
Era na tensão entre o rei e o profeta
que a peculiaridade da fé de Israel foi
preservada, nas crises de sua história. O
rei era necessário para conseguir a uni­
dade nacional; o profeta, para declarar a
99
fé. Em cada crise, por mal ou por bem,
os dois estavam lado a lado.
2. O Reino Davídico
O governo de Davi se estendeu de c.
1000 a 961 a.C. Embora ele tenha encon­
trado dificuldades iniciais, devido à re­
cusa do Israel setentrional de aceitá-lo
como rei, mais tarde tomou-se o gover­
nante de maior influência em toda a
história de Israel. Esta não era mera­
mente a opinião ideal de uma era pos­
terior, mas a tendência dos registros que
possuímos.
O reino davídico foi estabelecido em
uma base bem diferente da do reinado de
Saul. Saul foi declarado rei por causa
de um esforço conjunto da parte de todas
as tribos. Davi tomou-se primeiramente
rei de Judá, e depois uniu as tribos.
Desta forma, a união era precária, coisa
que Davi reconhecia plenamente. Ela
podia ser dissolvida tão rapidamente
quanto fora formada. De fato, ao se
permitir ser proclamado rei de Judá an­
tes de ser aceito pelas outras tribos, Davi
reconheceu a rivalidade entre as tribos do
norte e do sul, de maneira tal que esse
provou ser sempre um fator importante
na história que se seguiu. Agora que ele
era rei de todo o Israel, contudo, estava
ansioso para efetuar uma ordem nacional
permanente.
No entanto, em primeiro lugar ele
precisava enfrentar operigo fora da nação
de Israel. Os filisteus sabiam bem que a
elevação dele ao poder era uma ameaça à
sua supremacia na Palestina. Imediata­
mente eles tentaram fazer frente ao desa­
fio que ele apresentava. Procurando se­
parar Judá das tribos do norte, eles ata­
caram perto de Jerusalém. O resultado
foi uma derrota catastrófica, em dois
embates, que deixou a planície filistéia
aberta para uma ofensiva por Davi (II
Sam. 5:17-25). Ele apressou-se a explo­
rar esta circunstância imediatamente, le­
vando os filisteus a se curvarem até o pó e
quebrando o seu poderio para sempre
(II Sam. 8:1). Mais tarde, os filisteus
apareceram como soldados profissionais
no exército de Davi!
Sendo removida a ameaça filistéia,
Davi agora estava livre para consolidar o
seu reinado sobre Israel. Nesse ponto, o
seu gênio é aparente em cada decisão.
Primeiramente ele precisava decidir em
relação a uma capital. Se ele se man­
tivesse em Hebrom, sede do govemo de
Judá, estaria alienando as tribos do norte
desnecessariamente. Uma capital ao nor­
te, iria criar antagonismo em seus leais
seguidores de Judá. O fato de ele ter es­
colhido Jerusalém emerge como uma das
decisões mais importantes da história
hebraica. Ele não somente uniu Israel ao
redor de uma localidade central, não
associada com a rivalidade tribal, mas
também edificou em um lugar que su­
portaria todas as tentativas de assalto por
cinco séculos. Davi conhecia o valor es­
tratégico dessa localização, pois a cidade
já havia suportado os ataques tanto de
Israel quanto da Filístia por mais de
duzentos anos.
Todavia, o destino de Israel não estava
limitado a uma dinastia política. A não
ser que Davi pudesse estabelecer uma
síntese dos aspectos religioso e político da
vida de Israel, o seu reinado seria tão-
somente um outro momento da História.
Por isso, ele começou a tomar providên­
cias para trazer a arca para Jerusalém e
declarar-se opreservador das instituições
religiosas peculiares de Israel. Dal em
diante Jerusalém seria a capital religiosa
e política de Israel. Enquanto Saul havia
alienado Samuel, pelo fato de ter usurpa­
do as suas funções sacerdotais, Davi esta­
beleceu os sacerdotes em uma posição
segura, sob a proteção do monarca, ga­
nhando, desta forma, a sua lealdade à
coroa.
Havia ainda outras tarefas a realizar.
Espalhadas pelo território de Israel, ha­
via fortalezas cananêias que ainda não
haviam sido subjugadas permanente­
mente aos hebreus. Davi as conquistou
100
uma a uma, sujeitando-as ao domínio
israelita. Embora nos primeiros dias os
cananeus houvessem sido assimilados pe­
los hebreus, em sua vida tribal, agora
Israel conservava os seus novos súditos
segregados e separados (Noth, p. 193).
Esta decisão apresentou novos problemas
de ajustamento em relação à cultura e à
religião cananéias.
Ainda estava por ser efetuada a vitória
sobre inimigos que estavam fora das
fronteiras de Israel. Esses eram mais do
que uma ameaça, agora que os filisteus
não eram mais poderosos. Primeiro,
Davi subjugou os países que colocavam
em perigo as suas posições na Transjor-
dânia, Amom, Moabe e Edom. O seu
mais terrível inimigo era a Síria mas esta
nação também caiu depressa diante dos
exércitos israelitas. O poder de Davi se
estendeu até Hamate e até o rio Orontes,
sendo Damasco o seu maior prêmio.
Proezas como tais chamaram a atenção
de Hirão, rei de Tiro, que negociou um
tratado de paz com Davi. Desta forma,
em poucos anos, Davi havia estendido o
seu território desde a tribo de Judá até a
Ãsia Menor e a Mesopotâmia.
Para conservar subjugado este territó­
rio recém-adquirido, uma máquina go­
vernamental mais centralizada e comple­
xa se tornava necessária. Israel já não era
mais composto de doze tribos, que se go­
vernavam em uma federação de organi­
zação frouxa, mas agora era uma nação
unida sob a direção de um poderoso
monarca, que ainda procurava expandir
mais os seus domínios.
3. A Era Salomônica
Com a ascensão de Salomão, começou
o período mais glorioso da história de
Israel. As nações ao redor dele estavam
sujeitas a Salomão ou pagavam tributos
regulares a ele. A sua fama se estendera
além das fronteiras do território sobre que
ele reinava. Isto acontecera, em grande
parte, devido às suas atividades comer­
ciais, que marcaram o verdadeiro gênio
de sua administração. Não era tarefa de
Salomão aumentar as fronteiras de seu
reino, pois ele havia herdado o seu domí­
nio de Davi, seu pai, que até o fim de sua
vida havia conquistado toda a terra atri­
buída a Israel. A responsabilidade de
T Salomão era explorar os ricos recursos
I que agora estavam ao seu alcance. Isto
r^õi feito mediante notáveis esforços in-
dustriais e comerciais^
Salomão percebeu a vantagem de Is­
rael como terra-ponte entre Leste eT)es-
te, Norte e Suí. Ele também viu as possi­
bilidades que se encontravam no mar,
quando de sua aliança com Hirão de
Tiro. Sob a orientação de Hirão, ele
construiu uma armada que navegava
pelo Mar Vermelho e trazia de volta as
riquezas do sul, até da Somália. A
meiraviagem levou um ano, e trouxe3T
volta tesouros como ouro, prata, madei­
ras raras, pedras preciosas e marfim. As
suas caravanas de cajnelos viajavam ãcT
Egito, através de Arábia e até o vale do
Eufrates.
Uma das mais importantes indústrias
de Salomão eram aslüas minas Be cobre."
ao sul do Mar Morto, perto de Eziom-Ge-
ber (cf. Thomas, p. 437 e ss.). Outro
projeto notável era o seu comércio de
cavalos (I Reis 10:28,29). A princípio ele
os trouxe para o seu reino para fortificar
o seu exército, mas logo descobriu que
podia vender essas estratégicas armas
militares a outras nações, com grande
lucro. Mais tarde, esta se tomou uma das
suas melhores fontes de renda.
Toda esta atividade comercial era um
monopólio real. Os mercadores indivi­
duais trabalhavam para o governo, indo
a maior parte do lucro para a corte do
rei. O mercador independente, por ser
pequeno, não tinha os meios financeiros
para financiar empreendimentos tão
grandiosos em termos comerciais. O rei
era o único que podia ser considerado
como Independentemente rico. Õs súdi­
tos, até mesmo os mais poderosos, po­
j
101
diam aproveitar-se apenas das migalhas
que caíam de sua mesa.
Projetos como as minas de cobre, a
armada real, as caravanas de camelos, o
palácio e o Templo não podiam ser reali­
zados sem que um preço fosse pago.
Os impostos eram pesados, exaustivos.
O aspecto mais antipático, porém, era o
esquema de mão-de-obra para o traba­
lho. Embora os israelitas não fossem
feitos escravos, enquanto eles trabalha­
vam nos campos de trabalho, muitas
vezes eram maltratados (I Reis 12:4).
III. O Reino Dividido
A divisão do reino ocorreu por ocasião
da morte de Salomão, em c. 922 a.C.
Vários fatores levaram ao inevitável: um
jovem impetuoso (Roboão), um líder de
trabalhadores esperto (Jeroboão), Impos­
tos excessivos, a inveja entre as tribos de
Raquel e Lia (José e Judá), diferenças de
localização geográfica, o medo da dita­
dura sobre um povo livre e a apostasia de
Salomão. Para os que podiam ver, a
dissolução do reino dava testemunho das
terríveis conseqüências do esquecimento
do destino divino de Israel.
1. Luta Pela Estabilidade
Com a morte de Salomão, Roboão
tornou-se rei de Judá (922-915 a.C.),4 e
Jeroboão, do reino de Israel, ao norte
(922-901 a.C.). As hostilidades foram
contínuas entre os dois reinos. Jeroboão,
que acabava de ser influenciado pela
adoração dos egípcios, e apelando à in­
clinação dos israelitas, tão antiga quanto
o Sinai (Êx. 32:4), colocou bezerros de
ouro em Dã e em Betei, para estabelecer
rivais à adoração em Jerusalém. Ele bem
sabia que não poderia conservar a inde­
pendência política por muito tempo, se o
seu povo continuasse a atravessar as fron­
teiras nacionais, para adorar em Sião.
4 Cf. Bright, quanto à cronologia hebraica. Estas datas
são muitas vezes contestadas, visto que os registros do
Velho Testamento contêm poucos pontos fixos, em re­
ferência à história mundial, e os reinados de pais e
filhos freqüentemente se sobrepunham.
Do que têm aprendido a respeito da
adoração naquele período, muitos erudi­
tos crêem que a intenção não era levar
Israel a adorar os bezerros de ouro por si
próprios, mas que se supunha que eles
representavam o Deus Yahweh. Os he­
breus estavam adorando o invisível Yah­
weh através dos bezerros que simboliza­
vam a sua presença. O perigo, indubita­
velmente, era que bem depressa eles
iriam adorar o que enxergavam, em vez
de adorar o Deus oculto. Não obstante,
só no tempo de Oséias foi que um pro­
feta do Reino do Norte, segundo estã
registrado, se opôs aos bezerros de ouro.
Elias e Eliseu ficaram bem silenciosos a
respeito.
Abias (915-913), filho de Roboão, teve
sucesso onde o seu pai falhou: derrotou
Jeroboão, em batalha. O neto de Roboão
Asa (913-873), foi um dos poucos reis
recomendados pelos editores deuteronô-
micos dos livros de Reis, primordialmen­
te porque ele instituiu uma extensiva
campanha contra a idolatria, chegando a
remover a mãe idólatra de sua posição
real. O seu reinado é também notável
pela derrota de Zerá, rei etíope, o que
revela o crescimento efetivo do poderio
militar durante o seu longo reinado.
Nesse ínterim acontecia uma luta con­
tínua pelo trono no Reino do Norte:
Israel. O filho de Jeroboão, Nadabe,
reinou apenas dois anos, antes de ser
morto, e desta forma terminou a primei­
ra dinastia. Baasa (900-877) foi um rei
militarmente forte, mas foi estorvado
pela elevação ao poder de Ben-Hadade I
da Síria (c. 880-842). O seu filho Elá
(877-876) sofreu o mesmo destino que o
seu pai havia dado a Nadabe. O seu
assassino Zinri reinou apenas sete dias,
queimando o seu palácio sobre a sua
cabeça, para evitar ser capturado pelo
seu rival Onrí (876-869).
2. Os Onritas
Embora os escritores da Bíblia se des­
cartem de Onri com uma rápida palavra
102
de condenação por seus costumes idóla­
tras, do ponto de vista secular, ele talvez
tenha sido o rei mais influente que Is­
rael do norte teve. Até a sua época,
o Reino do Norte havia sofrido pela
falta de unidade, especialmente por­
que não havia capital permanente para
simbolizar os ideais da nação. Sabia­
mente, Onri comprou a colina que se
tomaria Samária, e estabeleceu o gover­
no como nenhum outro rei havia sido
capaz de fazer. Ele deixou uma impres­
são permanente sobre o ascendente Im­
pério da Assíria, cujos reis daí em diante
se refeririam ao rei de Israel como “filho
de Onri”, e ao próprio Israel, como
“terra de Onri” . Preocupado com os ne­
gócios internacionais, ele casou o seu
filho Acabe com Jezabel, filha do rei de
Sidom. Embora essa decisão tenha sido
inteiramente condenada pelo escritor bí­
blico, ela parece ter sido uma esperta
manobra política.
Acabe, filho de Onri (869-850), em­
bora mais fraco que seu pai, foi, não obs­
tante, guerreiro de grande capacidade.
De fato, o famoso filho de Asa, Jeosafá
(873-849), pouco antes da batalha de
Ramote-Gileade(I Reis 22:1 e ss.), pare­
ce ter sido vassalo de Acabe, porque não
teve outra escolha, senão vestir, durante
a batalha, a armadura de Acabe. Embo­
ra não fosse o guerreiro que Acabe era,
Jeosafá conseguiu incomum sucesso no
campo doméstico. Ele foi um rei popu­
lar, além de reformador religioso e polí­
tico. Devido ao seu incentivo, a lei foi
ensinada por todo o território de Judá, e
empreendimentos pacíficos prosperaram
em sua mão.
Com a chegada de Jezabel ao Reino do
Norte, porém, o oposto estava aconte­
cendo ali. A princípio houve guerra aber­
ta entre ela e os profetas de Yahweh.
A intenção dela era substituir a religião
de Israel pela sua. Quando ela colidiu
com Elias, encontrou um homem que
estava em contato com o poder de Deus e
era agente de seusjulgamentos.
Durante o reinado de Acabe, um novo
império mundial estava se desenvolven­
do: a Assíria, a primeira a usar carrua­
gens de ferro na guerra. Ela bem depres­
sa tomou-se o flagelo do mundo. Foi a
ameaça assíria que fez com que Acabe
poupasse Bene-Hadade, quando ele esta­
va irremediavelmente em suas mãos.
Acabe precisava de uma Síria forte,
como um pára-choque entre ele e a
Assíria. Os profetas sabiam que Deus
podia oferecer proteção melhor do que
Bene-Hadade, mas Acabe não cogitava
de Deus.
A batalha de Carcar (Qarqar) foi tra­
vada em 853 a.C., aprimeira data da his­
tória do Velho Testamento a ser localiza­
da com exatidão. Esta foi uma grande
batalha, entre uma coalisão de países
ocidentais (inclusive Israel e Síria) e Sal-
maneserlll, da Assíria (859-824). Embo­
ra o embate, provavelmente, tenha ter­
minado num empate, a maré bem logo
deveria voltar-se em favor da Assíria.
3. A Dinastia de Jeú
Jeorão (849-842), filho de Josafá, ca­
sou-se com Atalia, filha de Acabe e Jeza­
bel. Ela era uma verdadeira filha de Jeza­
bel. Quando o seu marido foi eliminado,
no expurgo conduzido no Reino do Norte
por Jeú (842-815), ela tentou matar toda
a descendência real em Judá, e declarou-
se rainha (842-837). Ela não conseguiu
descobrir o nenê Joás, que fora escondido
no Templo pelo sumo sacerdote Joiada,
e, por sua vez, ela foi morta quando Joás
foi coroado (837-800).
O expurgo de Jeú também produziu a
morte de Jeorão, filho de Acabe (849-
842), que havia sucedido o seu infortuna­
do irmão Acazias (850-849), que morrera
como resultado de uma queda acidental.
O reinado de Jeú tomou-se notório por
ele ter destruído o baalismo sírio no
Reino do Norte, embora a adoração dos
baais locais de fertilidade ainda conti­
nuasse. Em 842 a.C., Jeú também pagou
tributo a Salmaneser III, reconhecendo
103
pela primeira vez a supremacia da Assí­
ria no Ocidente.
Salmaneser III foi seguido, na Assíria,
por um rei fraco, capacitando a Síria a
levantar-se novamente, ascendendo ao
poder. Conseqüentemente, leoacaz (815-
801), filho de Jeú, tornou-se vassalo de
Hazael, que chegou a aproximar-se de
Jerusalém, mas foi comprado por Joás,
por meio dos tesouros do palácio e do
templo. Contudo, a elevação de Hadade-
Ninrari III ao trono da Assíria (811-783)
logo sujeitou a Síria mais uma vez, capa­
citando Jeoás (801-786), filho de Jeoacaz,
a recuperar o território anteriormente
perdido para a Síria. Nesse ínterim,
Amazias (800-783) havia sucedido o seu
pai Joás no trono de Judá. Sentindo o seu
poderio, depois de ter derrotado os edu-
meus, ele atacou Jeoás, de Israel, mas foi
fragorosamente derrotado. Em represá­
lia, o rei de Israel pilhou Jerusalém, der­
rubando uma parte de seu muro.
4. Prosperidade e Colapso
Com a morte de Amazias e a coroação
de Uzias (Azarias) como rei de Judá (783-
742), foi inaugurado um período de pros­
peridade incomum desde os dias de Salo­
mão. Este período teve paralelo em Is­
rael com o reinado de Jeroboão II (786-
746), cujo mandato foi marcado por su­
cesso semelhante. A razão para estes
acontecimentos era dupla. Por um lado,
a Assíria se fizera impotente durante
esses anos e a Síria estava exaurida, dei­
xando os hebreus livres para prospera­
rem, sem serem interrompidos pela guer­
ra. Por outro lado, Uzias e Jeroboão dei­
xaram em paz um ao outro.
Os grandes profetas do oitavo século
(Amós, Oséias, Isaías e Miquéias) viram,
por debaixo da prosperidade superficial,
as sementes de uma sociedade enferma.
A riqueza não era devida ao favor de
Deus, como muitos pensavam, mas a
uma bonança temporária nas hostilida­
des. Era a calma antes da tempestade.
O fim de Israel veio rapidamente. Zaca­
rias, filho de Jeroboão, reinou apenas
seis meses, antes de ser morto por Salum,
que permaneceu no trono apenas um
mês. Menaém, seu assassino, conseguiu
reinar alguns anos mais (745-738), mas
foi forçado a pagar tributo ao novo rei da
Assíria, o implacável Tiglate-Pileser III
(745-727). O seu filho Pecaías (738-737)
foi morto, da mesma forma como seu pai
havia matado um rei antes dele, por Peca
(737-732). Por sua vez, este foi morto por
Oséias (732-722), que era nada mais do
que um títere de Tiglate-Pileser. Quando
ele se rebelou contra o rei seguinte da
Assíria, Salmaneser V (727-722), Samá-
ria foi sitiada por este monarca, e final­
mente capturada por Sargão II (722-
705), em 722 a.C.
Quais foram as causas que contribuí­
ram para a desintegração do Reino do
Norte e a sua posterior extinção? (1) Des­
de 922 a.C., Israel e Judá se haviam
exaurido em contender um contra o ou­
tro, sendo o Reino do Norte mais exposto
ao ataque estrangeiro. (2) O trono era
instável. Em um período de quase 200
anos, houve nove dinastias e dezenove
reis, dez dos quais sofreram mortes vio­
lentas. (3) A chocante imoralidade do
povo e a falta de preocupação pela jus­
tiça social foi fatal, trazendo o juízo de
Deus contra uma nação devotada à auto-
gratificação.
5. Judá e Assíria
Uzias foi seguido por seu filho Jotão
(742-734), durante cujo reinado Mi­
quéias começou a profetizar. O seu filho,
o idólatra Acaz (735-715), subiu ao trono
bem a tempo de herdar de seu pai a
Guerra Siro-Efraimita. Esta fora uma
tentativa, da parte de Peca, rei do Reino
do Norte, e Rezim, da Síria, de forçar
Judá a entrar em uma aliança contra
Tiglate-Pileser. Desesperado, Acaz ape­
lou para o monarca assírio, pedindo aju­
da. Atendendo alegremente, este avançou
contra os atacantes e levantou o cerco.
Judá pagou um preço elevado em tributo
104
por esse favor, e ficou desde então sem
um pára-choque entre si mesmo e a
Assíria. Foi durante esta crise que Isàías
pronunciou o seu famoso oráculo, acerca
de Emanuel, para Acaz (Is. 7:1 e ss.).
Quando Sargão morreu, em 705 a.C.,
isto foi ocasião para nova rebelião na
Palestina, insuflada pelo Egito, e incluin­
do Ezequias (715-686 a.C.). Os assírios
disseram que fecharam Ezequias “como
um passarinho em uma gaiola” . II Reis
18:13-16 e as declarações de Senaqueribe
estão notavelmente de acordo. Contudo,
II Reis 18:17-19:37 fala de um desastre
que ocorreu ao exército assírio, em que
185.000 homens pereceram.
Judá não aprendeu nada com o desti­
no que feriu o Reino do Norte. O bom rei
Ezequias foi sucedido por um dos piores
reis de Judá, Manasses (686-638). Du­
rante o seu longo remado, a nação he-
bréia afastou-se dos elevados propósitos
de Deus, e cultos e costumes estrangeiros
foram estimulados. A adoração no Tem­
plo deixou de ser enfatizada, e deixou-se
que o próprio edifício do Templo se
deteriorasse. Manassés foi assinalado,
pelo autor dos livros de Reis, como o pior
rei a sentar-se no trono de Davi (cf. II
Reis 21:9-15; 23:3 e s.).
O quadro mudou radicalmente depois
de Josias (640-609) ter subido ao trono,
com oito anos de idade. Nada se sabe dos
anos que seguiram imediatamente à sua
coroação, mas, por volta de 628 a.C.,
Judá (que agora era tudo o que restava de
Israel) estava começando a recuperar o
território perdido para a Assíria, quando
Samária havia caído, um século antes.
A reforma do Templo começou, em pre­
paração para a renovação da antiga fé de
Israel. Em cerca de 622 a.C., uma desco­
berta emocionante foi feita. O livro da lei
foi achado no Templo. Este livro, de um
modo geral associado com o livro de
Deuteronômio, tomou-se a base para
reformas drásticas. Judá e o território de
Israel foram purificados de todas as prá­
ticas estranhas, e a adoração pública de
Yahweh foi reinstituída no Templo de
Jerusalém. Abertamente, esta reforma
foi política tanto quanto religiosa. Ela
significou um rompimento completo com
a Assíria.
6. Os Dias Finais de Judá
Em 612 a.C. Nínive, capital da Assí­
ria, caiu diante de Ciáxares, rei da Mé­
dia, e Nabopolassar, rei da Babilônia.
O exército assírio continuou a luta, ao
retirar-se para o oeste, em direção ao seu
aliado, o Egito. Em 609, o Faraó Neco
decidiu juntar-se aos assírios, em um
desesperado esforço para afastar o ata­
que fulminante que vinha do Oriente
contra ele. Percebendo o objetivo egíp­
cio, e esperando, aparentemente, que ele
se sairia melhor em face de uma vitória
babilónica, Josias tentou fazer Neco pa­
rar. Ao invés disso, Josias foi morto, e a
tristeza abateu-se sobre Judá.
O seu filho Jeoacaz (Salum) foi feito rei
em Jerusalém. Temendo mais problemas
da parte de Judá, Neco, que nessa épo­
ca estava na Síria, deportou Jeoacaz para
o Egito, depois que ele esteve apenas três
meses no trono. Em seu lugar, Neco colo­
cou o seu irmão Eliaquim, cujo nome se
tomou Jeoiaquim (609-597), e certificou-
se de que ele permaneceria como vassalo
egípcio. Tributos pesados foram exigidos
de Judá.
Jeoiaquim provou ser um fracasso desa-
nimador. As velhas seitas pagãs da época
de Manassés se insinuaram novamente,
com a imoralidade que as acompanha­
vam. O ímpeto das reformas de Josias,
contudo, conservou em pleno vigor a
adoração no Templo, pois era também o
centro das esperanças nacionalistas de
Israel.
Os acontecimentos estavam-se apres­
sando na direção de um clímax. Em 605
a.C., Nabucodonozor derrotou fragoro-
samente os egípcios em Carquemis, e
Jeoiaquim foi forçado a transferir a sua
lealdade para a Babilônia. Em cerca de
598, ele havia-se rebelado novamente, fa-
105
zendo com que uma vez mais a Babilô­
nia mandasse um exército contra Jerusa­
lém. A misteriosa morte de Jeoiaquim,
nessa ocasião, ocasionou a coroação de
seu filho Joaquim (Conias), que reinou
apenas três meses e em seguida foi levado
cativo para a Babilônia, em 597. Junta­
mente com ele foram levados os princi­
pais cidadãos de Judá, totalizando pelo
menos dez mil, bem como utensílios do
Templo, de valor inestimável. Zedequias
(Matanias) foi colocado no trono por Na-
bucodonozor. Mais tarde, ele também
participou de uma rebelião contra a Ba­
bilônia.
Mais uma vez Nabucodonozor dirigiu-
se a Judá, e logo estava acampado diante
de Jerusalém. Quando a cidade final­
mente caiu, em 587 a.C., Nabucodono­
zor, enfurecido com as constantes provo­
cações de Judá, matou a maior parte do
povo e fez, comparativamente, poucos
prisioneiros. Entre esses, todavia, estava
Zedequias, a quem vazaram os olhos,
levando-o em cadeias para a Babilônia.
Foram deixados aldeões para cultivarem
a terra, enquanto alguns dos principais
da terra, que eram pró-Babilônia, foram
deixados em Mispá, sob o domínio de um
vice-reijudeu. Antes de 597 a.C., aproxi­
madamente 150.000 pessoas estavam vi­
vendo na Palestina. Em cerca de 520,
haviam sido reduzidas a não mais do que
50.000 (Bright, p. 347).
IV. O Exílio e a Restauração
A destruição da monarquia não signi­
ficou o fim de Israel, pois a confederação
tribal havia existido durante os dois sé­
culos anteriores ao estabelecimento do
reino. Israel era um povo antes da as­
censão de seus reis, e sobreviveu depois
que eles cessaram de reinar. A monar­
quia havia sido apenas um episódio de
sua história contínua (Noth, p. 290).
Ainda permaneciam os sonhos proféticos
de conquista do mundo, e havia os que
ainda criam que isto estava ligado à es­
trutura política que eles haviam conheci­
do anteriormente. Não obstante, os anos
que se seguiram indicaram cada vez mais
que o destino de Israel precisava ser en­
tendido em termos da nova situação vi-
vencial em que os judeus se encontra­
vam.
Desde o princípio, as tensões referen­
tes à monarquia se haviam centralizado
ao redor do perigo de Israel perder o seu
caráter distintivo de povo de Deus. A his­
tória do reino é, em grande parte, um re­
trato de suas tentativas frustradas de se
estabelecer a si próprio militar e politica­
mente como nação típica. Visto que não
era mais possível, depois da queda de
Jerusalém, a realização desses sonhos
materialistas, o seu futuro só podia estar
em uma direção. O exílio e a restauração
propiciaram o cadinho em que foi deter­
minada a contribuição característica de
Israel.
1. A Vida Hebraica Durante o Exílio
O Velho Testamento não faz nenhuma
tentativa para descrever minuciosamente
as condições que prevaleceram durante o
exílio, quer na Palestina quer na Babilô­
nia. Embora a população tivesse sido
dizimada, a Palestina não estava tão
desolada quanto podemos supor. Jerusa­
lém estava em ruínas, mas a vida agrí­
cola continuava. Gradualmente, uma
nova aristocracia agrícola se desenvol­
veu para substituir os nobres que haviam
sido deportados. Com o passar dos anos,
os cultos babilónicos e cananeus chega­
ram a permear a adoração de Yahweh na
Judéia (Ez. 8:3,14; Is. 57:3-8; 65:3-5;
66:3,17).
Não obstante, havia alguns adoradores
fiéis de Jeová que haviam permanecido
na terra natal, pois Jeremias menciona
oitenta peregrinos, de Siquém, Siló e
Samária, que levaram ofertas para serem
apresentadas no lugar do Templo des­
truído (Jer. 41:4 e ss.).
Nesse ínterim, na Babilônia, os lideres
judeus estavam tentando reunir os peda­
ços de suas vidas abaladas. Embora em
106
587 a.C. os cativos fossem tratados sem
misericórdia e reduzidos à escravidão, os
que foram levados para a Babilônia em
597 mereceram considerável liberdade
(Jer. 29:5-7; Ez. 8:1). Foi-lhes permitido
conduzirem os seus próprios negócios e
adquirirem propriedade, embora lhes
fosse proibida a volta para o torrão natal.
Privados da oportunidade de sacrificar
no Templo, eles aprenderam que Yah-
weh podia ser adorado sem tais liturgias.
A obediência substituiu o sacrifício. O je­
jum tornou-se mais comum, e o sábado,
mais proeminente. Embora não possa­
mos ter a certeza de quando começou a
adoração formal nas sinagogas,5 algu­
mas formas simples de reunião religiosa
devem ter ocorrido, com antecedentes
que remontam à vida religiosa das comu­
nidades primitivas em Judá, especial­
mente depois que Josias havia destruído
os altares locais. Essas reuniões mais
tarde seriam chamadas sinagogas.
O sincretismo que se estava desenvol­
vendo na Palestina contrastou aguda­
mente com as decisivas tentativas dos
exilados de preservar a sua identidade
em uma terra estranha. A liberdade da
vida comunal, que lhes foi permitida
pelos babilônios, deu-lhes a oportunida­
de de reter os seus padrões culturais e
religiosos essenciais. Estes padrões foram
observados com diligência dedicada. Ta­
manha fidelidade, em circunstâncias di­
fíceis, encorajou um exclusivismo, que
exalçou as diferenças não apenas entre
eles e os babilónicos, mas também entre
eles e os que haviam permanecido na
Judéia. Eles não apenas haviam sofrido
mais do que o povo que ficara na terra,
mas, ao darem ouvidos às palavras dos
grandes profetas de Israel, haviam sido
beneficiados pelos seus infortúnios.
Quando retomaram à terra, este senti­
mento de superioridade os forçou a esta­
belecer uma separação entre eles e os que
haviam permanecido (Esd. 4:1 e ss.). Se
5 H. H. Rowley, Worahip In Ancicnt Israel (London:
SPCK, 1967), p. 213-245.
esta atitude era completamente justifica­
da ou não, não o podemos dizer; contu­
do, devido ao desenvolvimento subse­
qüente da seita samaritana, depois deste
cisma, podemos chegar à conclusão de
que os exilados estavam enveredando por
um caminho errado (Robinson, p. 157-
60).
2. A Era Pena
O ano de 559 a.C. é um marco da
história mundial. Naquele ano, Ciro su­
cedeu o seu pai como rei de Anshan. Bem
depressa ele estava ameaçando Astíages,
rei da Média. Em 550 a.C., Ciro dirigiu
um exército vitorioso através das ruas de
Ecbatana, capital da Média, saquean­
do-a e levando as suas riquezas para
Anshan. Conquistas ulteriores, no Orien­
te, conservaram Ciro ocupado até 539
a.C., quando ele começou a marchar
contra a Babilônia. Nabonido, rei da
Babilônia, não estava em condições de
resistir, se o desejasse. Os seus recursos
haviam sido gastos em restaurar e edifi­
car os templos dos deuses. O seu povo
estava descontente com o seu rei. Achan­
do que havia desagradado à divindade
principal, Marduque, eles não tinham
ânimo para resistir a Ciro.
Depois da queda da Babilônia, Ciro
tomou-se o soberano de toda a Ãsia
ocidental, estendendo-se os seus domí­
nios até as fronteiras setentrionais do
Egito. Visto que essa nação era a única
ameaça para o seu poder no Sul, ele
começou imediatamente a meditar em
alguma forma de conservá-la de fora
mediante algum ardil. O seu território
incluía a Palestina. Se o povo dessa re­
gião lhe fosse fiel, o seu reino estaria
mais seguro contra a ambição dos faraós
egípcios. Desta forma, não é estranho
que ele tenha permitido o retomo dos
judeus da Babilônia para a sua terra an­
cestral — embora a soberana providência
seja a nossa verdadeira chave para o que
aconteceu (Is. 45:1-6). A reação de al­
guns dos judeus mais prósperos não foi
107
entusiástica, pois um grande número de­
les preferiu permanecer na Babilônia.
Muitos outros voltaram para a Palestina
com Zorobabel, em cerca de 538 a.C. A
cansativa marcha consumiu um tempo
considerável, bem como os problemáti­
cos preparativos necessários ao estabele­
cimento da nova comunidade. Conse­
qüentemente, os alicerces do Templo só
foram lançados em 536.
3. A Restauração
O Templo só foi completado em 516
a.C., depois do encorajamento ministra­
do por Ageu e Zacarias, em 520. A ci­
dade ainda não era um lugar seguro,
visto que não tinha muro protetor. Ele foi
levantado por Neemias em 444 a.C., qua­
se cem anos depois de a primeira leva de
judeus ter voltado da Babilônia. Ciro foi
sucedido por seu filho Cambises, que era
mentalmente perturbado. Com a ascen­
são de Dario, o Grande (Histaspes, 522-
486), um outro momento importante
aconteceu no reinado persa.
A política internacional da Pérsia era
bem diferente da Assíria, perpetuada
pela Babilônia. O sistema de deportação
foi abandonado, permitindo-se que os
povos cativos voltassem para a terra na­
tal. Um governo próprio considerável foi
permitido. Os persas desejavam apenas
uma certeza de que um tributo regular
seria pago por um governador por eles
nomeado.
Dario. foi sucedido por Xerxes (486-
465), que foi, provavelmente, o Assuero
do livro de Ester. Artaxerxes I (Longi-
manus, 465-424) seguiu-se a ele. Na or­
dem cronológica, os outros reis persas
foram Xerxes II (423), Dario II Nothius,
423-404), Artaxerxes II (Mnemon, 404-
358), Artaxerxes III (Ochus), 358-338),
Arses (338-336) e, finalmente, Dario III
(Codomannus, 336-331), que rendeu-se
ao império de Alexandre, o Grande.
Há grande dificuldade em localizar
Esdras neste esquema cronológico. O lu­
gar tradicional que se lhe dá é em 458
a.C., durante o ano sétimo de Artaxer­
xes I. Muitos eruditos contendem, toda­
via, em que ele voltou durante o sétimo
ano de Artaxerxes II (398 a.C.). Outros
ainda sugerem que “o sétimo ano” origi­
nalmente era “o trigésimo sétimo ano”, e
o colocam durante o reinado de Arta­
xerxes I (428). Não há exatidão a respeito
deste assunto, embora a data de 398
pareça mais improvável, visto que o sóli­
do testemunho bíblico insista que Esdras
e Neemias estiveram em cena conjunta­
mente.
4. Os Primórdios do Judaísmo
Sem sombra de dúvida, o judaísmo
posterior desenvolveu as suas ênfases ca­
racterísticas durante a era persa. O de­
senvolvimento da escatologia caracteri­
zou esse período. Frustrados com a época
contemporânea, eles se mostraram mais
receptivos a pensamentos a respeito do
futuro. Quando Israel foi influenciado
pelo pensamento do zoroastrismo é as­
sunto de debate (Robinson, p. 165). A
despeito das influências externas, os he­
breus estavam sendo levados a refinar e a
desenvolver a sua própria teologia, no
contexto de seu monoteísmo convicto.
Não apenas estavam mudando as ati­
tudes concernentes ao futuro, mas tam­
bém os pontos de vista a respeito das
responsabilidades presentes. Com a vin­
da de Esdras, uma nova direção foi im­
primida à vida dos israelitas: ênfase na
lei. Enquanto, no passado, a lei havia
servido aos hebreus, agora eles se tor­
navam servos da lei.6 O instrumento
divino para a expressão de sua fé muitas
vezes tornou-se um fim em si mesmo. A
lealdade nacional estava sendo substituí­
da por lealdade à tradição, escrita e oral.
Outros desenvolvimentos significativos
resultaram do sistema persa de governar
as suas províncias. Embora conservas­
sem o controle estrito de toda a vida polí­
tica, os persas permitiam completa li­
berdade de religião. Os hebreus, priva-
6 Gerhard von Rad, Old Testament Tbeology (London:
Oliver & Boyd, 1962), I, 91.
108
dos de independência política, encontra­
ram um derivativo na articulação e apli­
cação novas da sua fé histórica. As frus­
trações políticas foram compensadas
pelo zelo religioso. A ênfase peculiar que
marcou a vida de Israel desde então
encontrou expressão durante essa época:
um rico vocabulário de oração e louvor
(encontrado nos Salmos do Segundo
Templo), uma aplicação prática dos
princípios proféticos à vida diária (ex­
pressa na Literatura de Sabedoria) e,
especialmente, uma recusa obstinada de
ceder a qualquer pressão, social ou polí­
tica, no sentido de apostatar. Em tudo
isso Deus estava guiando o seu povo na
direção do propósito que tinha para com
ele. Aqueles que haviam estado esperan­
do o Segundo Davi estavam sendo prepa­
rados para o Servo Sofredor.
Para Leitura Adicional
ALBRIGHT, W. F. From the Stone Age
to Christianity. Baltimore: John
Hopkins Press, 1946.
ANDERSON, G. W. The History and
Religion of Israel. (“The New Cla-
rendon Bible” , Old Testament, Vol.
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BRIGHT, JOHN. A History of Israel.
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1960.
DANIEL-ROPS. Israel and the Ancient
World. London: Eyre & Spottis-
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MANSON, T. W. A Companion to the
Bible. Edinburgh: T. & T. Clark,
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NOTH, MARTIN. The History of Israel.
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P. R. ACKROYD. New York: Har­
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ROBINSON, H. WHEELER. The His­
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SNAITH, NORMAN H. The Jews from
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THOMAS, D. W. Archaeology and Old
Testament Study. Oxford: Claren­
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WELLHAUSEN, JULIUS. Prolegomena
to the History of Israel. London:
Adam & Charles Black, 1885.
109
A Teologia do Velho Testamento
As idéias teológicas do Velho Testa­
mento referem-se à natureza e à ativida­
de do próprio Deus, à medida que ele se
revela ao povo hebreu; ao relacionamen­
to da natureza para com Deus como seu
Criador e Sustentador; à relação respon­
sável do homem para com Deus; e ao
inter-relacionamento do homem com os
seus semelhantes e com o seu meio am­
biente natural, sob os auspícios de Deus.
I. A Metodologia da Teologia do
Velho Testamento
Precisamos lembrar que, ao estudar o
pensamento do Velho Testamento, es­
tamos tratando com tradições e do­
cumentos que cobrem mil anos de his­
tória hebraica. E, porque estamos tra­
tando de revelação histórica, e não de
padrões de pensamento de um período
circunscrito de tempo, a teologia do Ve­
lho Testamento apresenta um problema
peculiar. Precisamos decidir a respeito
de alguma norma ao redor da qual edi­
fiquemos o pensamento teológico. Preci­
samos estabelecer a diferença entre os
elementos permanentes do pensamento
de Israel e os que são transitórios. Pre­
cisamos sistematizar, mas a sistematiza­
ção precisa ser coerente com um des-
vendamento, através dos longos proces­
sos da História. Ela precisa representar
fielmente o diálogo do Deus vivo com o
seu povo. Como resultado destes proble­
mas, a metodologia e a atitude adotada
pelos teólogos do Velho Testamento fo­
ram variegadas.
Antes de tudo, precisamos diferenciar
cuidadosamente a teologia do Velho Tes­
tamento da história da religião hebraica.
Esta última estuda a religião de Israel
E. C. Rust
como fenômeno histórico, tratando de
suas estruturas em mutação e de seus
elementos transitórios tanto quanto dos
permanentes. Ela se preocupa com o que
é característico da religião de Israel, mas
também se interessa pela relação da re­
ligião hebraica com as religiões das cul­
turas vizinhas. Além disso, ela considera
o desenvolvimento da experiência religio­
sa de Israel e estuda a religião hebraica
cronologicamente. Esse estudo é um
pano de fundo valioso e um bom suple­
mento para a teologia do Velho Testa­
mento, mas a abordagem da última é
diferente. Neste estudo, estamos interes­
sados nos elementos permanentes que
persistem, no desenvolvimento histórico
da fé de Israel, e não desaparecem de
cena. Mais uma vez: a teologia do Velho
Testamento procura o significado teoló­
gico das idéias teológicas de Israel, e
procura edificá-las em um padrão siste­
mático.
Em segundo lugar, precisamos nos
perguntar como avaliar o que é de signi­
ficado permanente na fé de Israel. Visto
que a maior parte dos teólogos do Velho
Testamento está participando da fé cris­
ta, o tribunal de recursos final deve ser
cristológico. Esses teólogos chegaram a
um acordo quanto ao seguinte: de algu­
ma forma a fé do Velho Testamento
aponta para a fé do Novo Testamento e
propicia ao segundo o seu contexto his­
tórico. O que é de significado perene
relaciona-se com o testemunho teológi­
co do Novo Testamento. Os teólogos do
Velho Testamento divergem em suas opi­
niões, tanto quanto Th. C. Vriezen e G.
von Rad concordam com Otto Procksch
que o Velho e o Novo Testamentos são
111
tão interdependentes que o Velho Testa­
mento sem o Novo é como um corpo sem
cabeça. O nosso padrão final para o
julgamento do que é importante precisa
ser, portanto, cristológico, a saber, o que
aponta para o Novo Testamento e se
cumpre na fé que ele esposa.
Ficamos ainda com o terceiro proble­
ma: o padrão em que ordenar as idéias
teológicas da fé do Velho Testamento.
Aqui enfrentamos o problema de um
desenvolvimento histórico em que tais
idéias atingem dimensões mais ricas e
também o fato de que o desvendamento
de Deus está intimamente ligado ao mo­
vimento histórico da vida de Israel. Evi­
dentemente, é mais satisfatório, aqui,
um padrão existencial envolvendo o con­
ceito de diálogo e do relacionamento
entre Deus e a sua ordem criada.
Os teólogos modernos do Velho Testa­
mento têm manifestado a tendência de
avançar de uma forma puramente siste­
mática para uma abordagem mais dinâ­
mica, enfatizando a atividade divina e a
relação de Deus com a sua ordem criada.
No contexto desta estrutura, eles têm
procurado sistematizar de várias manei­
ras. Aqui adotaremos uma posição si­
nóptica ou sistemática, centralizando-
nos na relação dinâmica do Deus vivo
com as suas criaturas, enfatizando as
idéias teológicas que são reunidas de for­
ma transfigurada na fé neotestamentá-
ria. A chave precisa ser o contínuo des­
vendamento do Deus vivo diante de
Israel.
II. Os Padrões Característicos do
Pensamento Hebraico
O hebreu era pessoa essencialmente
realista. Ele aceitava o mundo da forma
como ele lhe aparecia, no nível dos sen­
tidos, e percebia muito bem as forças tre­
mendas e a beleza majestosa da ordem
natural. Isto é evidenciado exaustiva­
mente nos Salmos que fazem alusão à
natureza (v.g., 65; 104; 148), porém ma­
nifesta-se também nas imagens usadas
pelos profetas, que se aproveitaram gran­
demente da natureza em seus símiles
poéticos. O hebreu também confiava em
suas intuições morais e em suas visões
religiosas. Em cada nível de sua expe­
riência, ele cria que estava em contato
com a realidade.
O seu realismo era, contudo, carac­
terizado por um peculiar senso de “intei­
reza”. Bem evidente em sua opinião a
respeito da natureza e das “espécies” de
animais, este senso de inteireza o é espe­
cialmente no caso do homem. O indiví­
duo, especialmente nos primeiros dias do
pensamento hebraico, é sempre conside­
rado em seu contexto de um todo coleti­
vo. Ele está dentro da família, do clã, da
tribo, da nação — da humanidade como
um todo. Há um senso de personalidade
coletiva em nível social. O que um ho­
mem faz é responsabilidade não apenas
sua, mas também de sua família. Isto
explica o terrível castigo infligido a toda
a família e propriedade de Acã por causa
do pecado dele (Jos. 7:24). A personali­
dade do indivíduo e as conseqüências do
que ele faz se estendem àqueles que se
relacionam com ele.
Esta “extensão de personalidade” de­
pende, para sua amplitude, do significa­
do dos relacionamentos sociais do indiví­
duo em pauta. Desta forma, o rei incor­
pora em si mesmo toda a nação, e o
bem-estar da nação depende do bem-
estar do próprio rei. Em nível familiar,
desenvolveu-se o seguinte provérbio: “Os
pais comeram uvas verdes, e os dentes
dos filhos se embotaram” (Ez. 18:2). Isto
se reflete na aceitação da máxima de que
os pecados dos pais serão visitados nos
filhos até à terceira e quarta gerações
(Êx. 20:5). Ao nível de qualquer grupo
intimamente unido, o costume da vin­
gança do sangue requeria que o crime de
um membro do grupo fosse pago pelo
sangue de outro membro (II Reis 9:26).
A idéia de extensão de personalidade
nos ajuda a entender como todos os Sal­
mos podiam ser descritos como existentes
dentro da personalidade coletiva ou ex-
112
tensiva de Davi, o salmista típico; todas
as leis dentro da de Moisés, legislador tí­
pico; toda a sabedoria no contexto da de
Salomão, o sábio típico. Finalmente,
precisamos notar que a própria palavra
Adão é mais uma palavra coletiva do que
um nome próprio. Ela está no lugar do
homem típico, e toda a humanidade deve
ser descrita pela humanidade inclusive
de Adão.
Psicologia Hebraica. O senso de intei­
reza também permeia a maneira de o
hebreu entender o próprio homem. O ho­
mem é considerado como um todo psi­
cossomático. O seu corpo é parte inte­
grante de seu ser pessoal. Isto é bastante
evidente na maneira hebraica de enten­
der a “alma”. Esta palavra é muito di­
ferente, quanto ao significado, da nossa
idéia comumente concebida de alma, que
se origina mais do pensamento grego.
O significado inicial de alma é “princípio
animado”, o que faz a diferença entre os
mortos e os vivos. Para o hebreu, o ho­
mem não é uma alma encarnada em
nosso sentido moderno, mas um corpo
animado. O hebreu não tinha uma pala­
vra para designar “corpo” ou “persona­
lidade” . Aqui verificamos o realismo he­
braico, com a sua ênfase nas coisas con­
cretas, e não nas abstratas. O corpo é o
homem, e o homem é caracterizado pelo
fato concreto de que o seu corpo é ani­
mado. As coisas físicas e psíquicas estar»
intimamente interligadas. Se o sangue de
um homem for derramado, a sua vida
será literalmente derramada. Neste ní­
vel de pensamento, o significado de
“alma” pode ser traduzido como “vida”
(II Sam. 1:9).
Em um nível mais alto, “alma” signifi­
ca o homem em sua totalidade como um
“ego” pessoal, e, desta forma, é equiva­
lente a “eu” . Além disso, há a referência
concreta, pois a personalidade do ho­
mem está ligada à sua condição corporal
(Gên. 27:25; Sal. 13:2). A atitude psicos­
somática ainda está presente. Da forma
como o homem é interiormente, ele o é
exteriormente. O bem-estar da alma é
comparada à gordura (Is. 55:2; cf. Jer.
31:25). A “alma” é o homem em sua
unidade pessoal do princípio animado
com a carne.
Contudo, há uma conotação mais inte­
rior de alma, quando esta palavra é
usada para descrever os desejos íntimos
de um homem, tanto os físicos quanto os
espirituais. Um homem de fortes desejos
físicos é uma “alma gananciosa” (cf. Is.
56:11, texto hebraico), e uma alma tam­
bém tem sede de Deus (Sal. 42:2 e ss.).
As emoções de amor (I Sam. 20:17) e
ódio (Is. 1:14) centralizam-se na alma.
Isto se toma claro na maneira do
hebreu entender “coração” . O coração é
o centro do pensamento e da intenção, e
passa a significar especialmente o aspec­
to intrínseco do homem, que chamamos
de caráter. O hebraico, por conseguinte,
pode falar de “colocar uma coisa no
coração” ou de “colocar o seu coração
em uma coisa” , quer dizer, deixar um
pensamento ou palavra agir sobre ele
(Is. 57:1; Jer. 12:11; Mal. 2:2). O cora­
ção, desta forma, representa a vida ínti­
ma ou o caráter do homem. O homem é
uma alma, mas também tem um cora­
ção. O coração pode, contudo, significar
toda a personalidade. O coração do ho­
mem pode ser consolado, ou pode ser
derramado (Gên. 18:5; Lament. 2:19).
O hebreu cria que, mediante a sua pala­
vra, a pessoa podia esvaziar parte de süa
“alma” em outra, e dar-lhe forças para
agir.
A sede dos sentimentos é semelhante­
mente considerada como as entranhas
(Jer. 4:19; Is. 16:11), enquanto os rins
também podem executar funções físicas,
tanto quanto psíquicas (Jó 16:13). Em
tudo isto, a inteireza psicossomática do
homem é enfatizada. As suas condições
externas e o seu estado íntimo de espí­
rito, ou caráter, são ligados e se refletem
mutuamente. Daí chegamos à fácil con­
clusão de que as calamidades externas
sempre resultam de um afastamento in-
113
terior de Deus, problema que deixava
perplexo o autor de Jó.
A Cosmologia Hebraica e o Ponto de
Vista Hebraico da Natureza. Da mesma
forma como o hebreu não compartilhava
de nosso entendimento psicológico mo­
derno, ele também era pré-científico em
sua maneira de entender a natureza. O
seu mundo é um universo disposto em
três camadas. Ele retrata uma terra cha­
ta, como um disco, com montanhas nas
margens, sobre as quais repousa a cúpu­
la sólida do céu, o firmamento. Sob a
terra está a sepultura familiar ampliada,
o Sheol, para onde vão as sombras dos
que se findam. Acima da cúpula do céu
está o palácio de Deus. Gênesis 1 e
Salmos 104 ilustram igualmente esta cos­
mologia. O hebreu retrata este todo
como rodeado pelo “abismo”. O fato de
que uma opinião semelhante prevalecia
em outras partes do Oriente Próximo
antigo é uma recordação de que, em sua
perspectiva pré-científica, os hebreus
compartilhavam de algumas das opiniões
de seus contemporâneos.
Quanto à natureza propriamente dita,
o hebreu a entendia com o mesmo senti­
do de inteireza com quem entendia o
homem. A natureza, como uma totalida­
de, e os vários grupos de fenômenos na­
turais, no contexto da totalidade, são
considerados como “todos”. Sobretudo,
tais “todos” são considerados como ca­
pazes de uma reação ou resposta psí­
quica. A terra, como um todo psíquico,
tem um laço psíquico tanto com Deus
como com o seu povo. Ela pode ser a terra
de “Beulá”, casada com Deus (Is. 62:4).
Os animais domésticos formam um todo
psíquico e podem manifestar uma rea­
ção psíquica para com o homem. Eles
têm um pacto com o homem, pelo qual se
tomaram seus servos, enquanto as cria­
turas selvagens não o têm (Jó 41:4).
O hebreu não tinha idéia das estrutu­
ras mecânicas de causa e efeito, com que
a ciência moderna nos tomou familiari­
zados. Pelo contrário, ele pensava em
cadeias de reação psíquica. Oséias pôde
pensar em Deus provocando uma cadeia
de reações psíquicas nos céus: o trigo, o
vinho e o óleo; e Jizreel (2:21,22). Até o
sol e os outros corpos celestes são retra­
tados tanto física quanto psiquicamente.
O Salmo 19:4-6 toma esta idéia clara, no
caso do sol, e, no Salmo 148, o sol, a lua
e as estrelas são convocados para louvar a
Deus. As estrelas possuem tanta vida
psíquica que podiam lutar contra Sísera
(Juiz. 5:20), enquanto o autor de Jó
retrata as estrelas da manhã gritando
juntas quando Deus criou o mundo (Jó
38:7). Isto não é mera poesia, mas um
aspecto do realismo hebreu, com o seu
senso de inteireza psíquica.
III. O Desvendamento Divino
O Velho Testamento é o testemunho
do desvendamento divino na história do
povo hebreu. Os hebreus, diferentemente
dos gregos, não chegavam ao seu enten­
dimento de Deus pelos processos da ra­
zão humana. Deus não era considerado
como um Ser estático, um padrão racio­
nal, que emprestava significado ao Uni­
verso. Ele era visto como o Deus vivo, um
Ser pessoal dinâmico, que era conhecido
pelo que fazia. Ele era vivo e pessoal.
Essencial para esta maneira de entender
Deus era a sua vontade, expressando a
sua intenção, o seu propósito. Além dis­
so, a reação do homem para com Deus
era o caminho da vontade, da confiança e
dedicação ao desvendamento divino.
Deus agia como pessoa, entregando-se ao
homem, revelando-se a ele, nas vicissitu­
des de sua vida histórica. Ele não era um
sistema abstrato de idéias racionais.
Esta natureza pessoal e viva de Deus
esclarece o testemunho do Velho Testa­
mento em todos os seus pontos. Como
tal, Deus é continuamente ativo na his­
tória dos hebreus, transformando o seu
curso, tratando redentoramente com Is­
rael, em juízo e em misericórdia. A per­
cepção da fé apreendia a sua realidade
através dos fatos históricos e do ambiente
114
natural da existência hebréia. Daí, poder
o homem jurar pela vida de Deus (Juiz.
8:19). Como Deus vivo, ele fala do Sinai
com a voz do trovão (Deut. 5:26) e vem
socorrer o seu povo quando da invasão da
Palestina (Jos. 3:10).
O Nome de Deus — Yahweh. Por
conseguinte, Deus se dâ aos homens em
forma pessoal. Isto é verificado especial­
mente na revelação de seu nome. Para o
hebreu, dar o seu nome a outrem era, em
sentido real, compartilhar o conhecimen­
to do mais íntimo de seu ser. Assim,
quando Deus deu o seu nome “Yahweh”
a Moisés, esta foi uma auto-revelação
pessoal. Este é o principal nome de Deus
no Velho Testamento.
De acordo com a tradição E (ou Do­
cumento Eloísta), o nome de Yahweh
foi revelado a princípio a Moisés (Ex.
3:15). Há, contudo, indicações de que
esse nome não era inteiramente nova
para alguns grupos hebreus. A tradição J
o faz remontar aos tempos primevos e o
associa com Abraão (Gên. 4:26; 9:26;
15:7). Estas duas tradições não precisam
ser consideradas como contraditórias.
Sabemos que a invasão da Palestina, pe­
los hebreus, foi feita pouco a pouco, e
pode ser que, para alguns grupos tribais,
o nome de Yahweh já fosse conhecido,
por exemplo, para as tribos de Lia (cf.
Jacob, p. 49 e ss.).
É bem evidente que o Deus vivo era
conhecido dos patriarcas como ’El, o
Deus dos pais. Vários indivíduos e gru­
pos de indivíduos o conheciam como o
amigo e guia familiar, que os acompa­
nhava em suas peregrinações. Muitos
eruditos afirmam que, entre os grupos
semitas, havia um monoteísmo original,
primitivo. Certamente a tradição P de­
clara que, antes do Êxodo, Deus era co­
nhecido pelo povo hebreu como ’El Shad-
dai, Deus todo poderoso, e, como tal,
nesta tradição, ele se havia revelado a
Abraão (Êx. 6:3; Gên. 17:1; cf. 28:3).
O encontro de Melquisedeque com
Abraão introduz o nome ’El ‘Elyon, Deus
Altíssimo. É claro que a religião dos pa­
triarcas estava associada a Deus como
’El, e este nome era associado especial­
mente a poder.
Pode ter sido que o nome Yahweh
também fosse usado nesse passado remo­
to e obscuro. Não obstante, para Moi­
sés, este nome veio como um novo des-
vendamento da natureza Intima de Deus.
Há muito tempo se perderam as vogais,
na verdade, usadas no nome original,
pois a devoção posterior proibiu a enun­
ciação do nome divino. Só permanecem
as consoantes YHWH e, no texto sagra­
do, a sua ocorrência era sempre acompa­
nhada, na leitura, pela sua substituição
pelo nome “o Senhor”, Adonai. Conse­
qüentemente, as vogais desta última pa­
lavra foram ajustadas às consoantes da
primeira, para produzir o nome de Jeo­
vá. Contudo, esta não é a forma original.
Paralelos primitivos e fragmentos de evi­
dências parecem indicar que a forma
original é Yahweh.
No entanto, se Yahweh era conhecido
dos patriarcas, não o era como na reve­
lação que sobreveio a Moisés. O ’El de
poder tornou-se o Deus de atividade pes­
soal, na revelação da sarça, que se quei­
mava. Deus veio a Moisés como o Deus
dos pais, mas ele agora se desvendou de
maneira nova. Embora fosse conhecido
anteriormente, este nome teve um novo_
significado. Deus passou a ser entendido
como “Aquele que é”, uma atualidade
viva, contínua. As consoantes do nome
divino se tornaram ligadas, na consciên­
cia de Moisés, com o verbo ser. A coisa
importante é que Deus é, sendo o alicerce
perene e vivo da vida de Israel. O Deus
de poder tornou-se mais pessoa, a garan­
tia da redenção, de seu povo, da escravi­
dão. Deus é Yahweh, e Yahweh expres­
sa, em sua estrutura consonantal, o des-
vendamento de “Eu sou” .
O Desvendamento Divino — a Glória
Divina. O hebreu tinha muita consciên­
cia do fato de Deus ser oculto e trans­
cendente. Deus era pessoal, e, como tal,
115
também estava envolvido em mistério.
Deus, ao mesmo tempo, era revelado
através de suas ordens criadas, e oculto
por elas. Ele era o Deus de mistério, a
quem o homem não podia achar, ao
procurá-lo (Is. 40:28; Jó 11:7). Ele estava
além dos processos da natureza e da
História, o Santo que habitava na eterni­
dade (Is. 57:15), no entanto, ele era
também imanente neles. Não havia parte
de seu mundo que não estivesse aberto
para ele e onde ele não estivesse presente
(cf. Sal. 139). Deus podia operar dentro
da natureza e da História e desvendar-se
pessoalmente nelas.
Quando os hebreus procuravam enten­
der esta divina atividade de desvenda-
mento, certas palavras características
eram empregadas. Encontramos a ex­
pressão “glória divina” usada bem fre­
qüentemente. A glória de Deus é a ma­
neira como ele se manifesta — a sua apa­
rência visível, com o sentimento conse­
qüente de solenidade, da parte do ho­
mem. As teofanias em a natureza, tais
como fogo e fenômenos de tempestade,
manifestam a glória de Deus com apa­
rência de fogo — a sarça ardente (Êx. 3:2
e ss.), a coluna de fogo (Êx. 13:21), o
fogo que queimou o sacrifício de Elias
(I Reis 18:24 e ss.). A nuvem de tempes­
tade se tomou a teofania para Exeqtüel
(1:26-28). O relâmpago, é, possivelmen­
te, a base física para a semelhança de
serpente atribuída ao serafim nas visões
proféticas (Is. 6:2 e ss.; Ez. 1:5 e ss.).
No entanto, Deus se esconde ao se
mostrar. A sua glória é oculta pela nu­
vem. As nuvens de incenso que se levan­
tam escondem, de Isaías, a presença de
Yahweh (6:1 e ss.). Moisés vê apenas
Deus pelas costas. Ver a glória de Deus
em todo o seu esplendor fulgurante sig­
nifica morte (Êx. 33:17-23).
Podemos dizer que a glória de Deus é o
seu esplendor radiante, que ele irradia,
quando aparece na tempestade e no re­
lâmpago fulgurante.
O Espírito e a Palavra. Muito mais
significativos para o entendimento da
revelação do Velho Testamento são o
Espírito e a Palavra. No pensamento he­
breu, a idéia do Espírito tem sido mais de
um poder impessoal do que de uma
presença pessoal, especialmente no pe­
ríodo pré-exílico. A palavra tem conota­
ções físicas. Ela também pode significar
vento. O espírito ou vento das narinas de
Deus faz erguerem-se num montão as
águas do Mar Vermelho (Ex. 15:8). Eze-
quiel, na visão do vale de ossos secos, faz
um jogo de palavras com o sentido duplo
desse vocábulo, como “vento” e “espí­
rito” (Ez. 37:1-14). Neste sentido físico,
o Espírito divino podia, nos primeiros
dias, ser associado particularmente com
aspectos manifestamente violentos do
comportamento humano, como, por
exemplo, a força de Sansão e os paroxis­
mos de ira e loucura de Saul (Juiz. 14:6,
19; I Sam. 16:14). Todos os dons extra­
ordinários são também devidos ao Espí­
rito: a perícia de Bezaleel e a capacidade
de José para interpretar sonhos (Êx.
28:3; Gên. 41:25 e ss.). O Espírito de
Deus é uma extensão de sua personali­
dade em atividade poderosa, tomando
posse do homem.
O Espírito passou a ser associado espe­
cialmente com os profetas. Saul profeti­
zou quando o Espírito de Deus veio po­
derosamente sobre ele (I Sam. 10:10).
Desta forma, o Espírito toma-se o ins­
trumento da revelação divina (cf. Miq.
3:8; Ez. 2:2; 11:5).
Outro termo intimamente ligado com
o desvendamento divino é a “palavra” de
Yahweh. No nível humano, a palavra
pode significar ato ou coisa, bem como
expressão vocal, no pensamento hebrai­
co. Ao se comunicar com os outros, algo
do homem impregnava a sua palavra.
Tomando forma visível ou audível, ela
continha em si mesma algo do próprio
ser e intenção do orador. Como uma
extensão de seu ser pessoal, ela minis­
trava ao ouvinte a intenção da pessoa que
a havia enviado. Desta forma, a palavra
116
humana era um instrumento poderoso,
capaz de operar o bem ou o mal naqueles
a quem era dirigida.
Da mesma forma, a palavra divina era
uma extensão do ser pessoal de Deus, em
seu mundo. Ela comunicava, em forma
poderosa, a intenção divina. Quando ela
era pronunciada pelo profeta, iniciava a
intenção divina, em microcosmo, na si­
tuação para a qual era dirigida. Então,
ela já teria iniciado o seu trabalho obje­
tivo no mundo, e não poderia voltar vazia
para Deus (Is. 55:10 e s.). Conseqüente­
mente, o profeta podia prefaciar os seus
oráculos com: “Assim diz o Senhor.”
Uma vez pronunciada, a palavra de Yah-
weh seguia o seu caminho, contendo em
si o próprio poder de Deus, e agindo
independentemente da pessoa do profe­
ta. Assim sendo, a palavra podia ser
enviada por Yahweh e acender-se sobre
Israel em julgamento catastrófico (Is. 9:8
e ss.). O profeta não tinha uma palavra
de Yahweh; ele tinha a palavra de Yah­
weh, dando a entender a plena revelação
divina para a sua situação peculiar. O
profeta era inspirado pelo Espírito de
Yahweh, e ao mesmo tempo tinha a
palavra de Yahweh. Estas características
representam a imanência e a atividade
reveladora de Deus em seu mundo e na
História.
O Desvendamento Divino e a Cons­
ciência Profética. O desvendamento divi­
no na História centraliza-se na consciên­
cia profética. Foi a presença do profeta
que transformou as atualidades históri­
cas em acontecimentos revelatórios e
criou uma situação de desvendamento
para Israel. A palavra profética de Moi­
sés, por ocasião do Êxodo, transformou
um acontecimento natural, o vento que
fazia as águas recuar, em um desvenda­
mento da redenção de Yahweh para o seu
povo. A palavra de Yahweh, através de
Isaías, criou, a partir da invasão históri­
ca das forças assírias, um desvendamen­
to dojulgamento divino e uma conclama-
ção ao arrependimento (10:5 e ss.). Deu-
tero-Isaías pode declarar que Ciro, o
conquistador persa, iria cumprir a inten­
ção divina, e restaurar à sua terra os
exilados na Babilônia (Is. 44:28-45:7).
Desde Moisés, as figuras notáveis na vida
de Israel são os profetas.
Esses homens se caracterizavam por
uma percepção inspirada da vontade e
intenção divinas. Eles sentiam o que
Deus sentia, e eram constrangidos a falar
e agir sob a direção dele. Podemos dizer,
em linguagem moderna, que lhes havia
sido dada uma percepção intuitiva dos
propósitos divinos. Eles podiam enxergar
o padrão da mente divina, e comparti­
lhar dos pensamentos de Deus. Eles se
consideravam como extensões temporá­
rias do ser divino, em atividade histórica.
O que distingue os profetas não é a
psicologia de sua atividade, mas o con­
teúdo do que eles diziam e faziam. Ge­
ralmente eles parecem ser classificados
em dois tipos: os extáticos e os videntes
— ambos presentes em Israel. O tipo
extático, que se lançava num frenesi e
manifestava comportamento anormal,
pode ser que anteriormente fosse conhe­
cido pela palavra agora traduzida como
“profeta”. Exemplos disso podem ser
encontrados nas “escolas de profetas”
associadas com a obra de Samuel, Elias e
Eliseu, sob o contágio de cuja influência
emocional Saul também começou a pro­
fetizar (I Sam. 10:10; cf. 18:10). O tipo
de vidente era caracterizado por percep­
ção calma e intuitiva, julgamento me­
diante reflexão, como Samuel e Moisés.
As palavras hebraicas características tra­
duzidas como “vidente” descrevem vi­
dência e audição. Esses homens estavam
intuitivamente em contato com a mente e
o propósito divinos. No entanto, Samuel
podia às vezes mostrar fenômenos caris­
máticos como um profeta extático.
Pareceria que, ao tempo em que as
nossas tradições foram reduzidas à forma
escrita, a palavra profeta havia-se torna­
do um termo descritivo genérico, cobrin­
do todas as variedades de atividades pro-
117
féticas (cf. I Sam. 9:9). Além do mais, a
maior parte das grandes figuras profé­
ticas mostra uma fusão dos dois tipos de
psicologia. Há elementos extáticos, em
seus sonhos, visões, audições, senso de
compulsão e comportamento anormal.
Contudo, o aspecto extático encontra-se
mais na periferia de sua consciência. No
centro da consciência das grandes figuras
proféticas encontramos uma percepção
intuitiva firmada na mente e no propósi­
to divinos, e o exercício de um juízo
moral reflexivo sobre os problemas que
se levantam diante deles. Todos eles po­
dem, em certas ocasiões, ser classificados
como extáticos, porém, igualmente, to­
dos eles mostram as características de
videntes.
A característica distintiva do conteúdo
de sua mensagem é indicada, não pelo
padrão psicológico do seu comportamen­
to, mas pela luta contra os falsos profe­
tas. Eles eram profetas associados com os
santuários onde Yahweh era adorado:
Betei, Gilgal e o Templo de Jerusalém.
Indubitavelmente, muitos desses homens
eram seguidores devotos e honestos de
Yahweh. No entanto, uma instituição
religiosa inevitavelmente dá origem a al­
guma forma de profissionalismo. Levan­
taram-se falsos profetas, que manifesta­
vam o mesmo comportamento psicológi­
co exterior, mas emitiam oráculos deso­
nestos, como, por exemplo, no episódio
de Micaías ben Inlá (I Reis 22). Mi-
quéias descreve os profetas mentirosos,
no original hebraico, como sacos de ven­
to (2:11). A agonia de espírito de Je­
remias era ainda mais difícil de agüen­
tar, por causa dos espíritos falsos que
pregavam “paz” , quando ele estava de­
clarando julgamento e exílio a Judá (23:
15 e ss.; 29:21 e ss.; cf. Miq. 3:5,11).
Esses homens imitavam a maneira de os
profetas se expressarem. Exteriormente,
eles eram idênticos. A sua mensagem
precisava ser provada de duas maneiras.
O teste extrínseco era a confirmação de
seus oráculos nos próprios acontecimen­
tos históricos. Micaías consiste em um
bom exemplo (cf. Zac. 1:6). O teste in­
trínseco está na coerência ética da men­
sagem do profeta com a sua vida. Jere­
mias ataca os falsos profetas por causa de
sua promessa de paz sem requisitos mo­
rais (22:17).
Por que os falsos profetas diziam ter o
Espírito de Yahweh, os profetas canô­
nicos antes do exílio enfatizavam que ti­
nham a palavra de Yahweh. Só com
Ezequiel, profeta do exílio, volta a ênfase
no Espírito. Porém, quer dizendo ter o
Espírito quer a palavra, os profetas
criam ser mensageiros de Yahweh, ex­
tensões temporárias de sua presença pes­
soal neste mundo, agentes de sua ativi­
dade. Eles consideravam Deus como ro­
deado pelo seu concílio celestial, a sua
assembléia de santos, de cujas delibera­
ções eles participavam, e de onde haviam
sido enviados, para declarar os decretos
divinamente ordenados (Jer. 23:18,22;
cf. I Reis 22:19 e ss.). Como mensagei­
ros, eles haviam sido absorvidos tempo­
rariamente na vida do próprio Deus. As
suas palavras eram palavras dele, e os
seus atos, atos dele.
Os seus atos eram importantes. Eles
falavam a palavra de Yahweh, mas tam­
bém colocavam-na em prática. Isaías re­
presenta a escravidão sob os egípcios,
andando com roupa de escravo (cap. 20).
Jeremias toma um vaso de barro e o
arrebenta, para simbolizar o juízo de
Deus (cap. 19). Ezequiel abre um buraco
na parede de sua casa e tira por ele os
seus móveis, retratando o cerco de Jeru­
salém, as brechas em seus muros e o povo
indo para o exílio (12:1 e ss.). O profeta
cria que desta forma Deus estava inician­
do, em miniatura, a sua intenção a res­
peito do seu povo. O ato iniciava a reali­
zação dos propósitos de Deus.
O profeta não era apenas o guardião e
porta-voz do oráculo divino, mas tam­
bém um especialista em oração interces-
sória. Verificamos este fato no caso de
Abraão (Gên. 20:7; Jó 42:8); Moisés (Êx.
118
32:11-14); Amós 7:2 e ss.); e Jeremias.
Em sentido muito real, os profetas eram
promessas da encarnação. Eles eram me­
diadores, colocando-se entre Yahweh e o
seu povo, desvendando a sua vontade
para o povo e intercedendo diante dele
como representantes do rebelde Israel.
A Lei e o Sacerdócio. Em torno do
Decálogo, dado através de Moisés no alto
do Sinai, cresceu um considerável código
de leis e regras. As leis propriamente
ditas eram apresentadas de várias manei­
ras. Elas compreendiam, por um lado,
injunções morais e cerimoniais, exempli­
ficadas pelo primeiro livro da lei, o Códi­
go do Pacto (Êx. 20:22-23:33). Lado a
lado com estas, encontramos os juízos —
leis civis e criminais — administrados
pelo rei e pelos juizes locais. Estas leis
seculares encontram-se em Êxodo 21:1-
22:7. O primeiro grupo é o cerne da Lei.
Ele cristaliza as concepções do movimen­
to profético desde Moisés em diante e
também os costumes sacerdotais dos san­
tuários locais. Mas o rei e os juizes
também eram estabelecidos por indica­
ção divina. A unção do rei indicava a sua
natureza sagrada. Assim, todas as leis
eram, em última análise, alicerçadas na
vontade de Deus.
Assim, cresceu em Israel um código de
leis que consistiam de injunções morais,
regras cerimoniais, leis civis e juízos cri­
minais. Ele incluía leis que se haviam
originado dos costumes sociais, dos de­
cretos de reis e juizes, das práticas litúr-
gicas e cerimoniais e de injunções morais
baseadas em oráculos proféticos. Por
fim, todas elas foram incorporadas em
nosso Pentateuco, e passaram a consti­
tuir a Lei Judaica. Deuteronômio mani­
festa bem claramente os ensinamentos
dos profetas do oitavo século a.C. a res­
peito dojuízo divino. Quando a consciên­
cia profética se desvaneceu, depois do
exílio, a Lei começou a ocupar o seu
lugar. Deus, que havia falado aos pais
através dos profetas, agora falava através
das injunções de sua “lei” . A Lei foi
aplicada a todos os aspectos da vida do
homem, e, quando Nosso Senhor veio, os
fariseus e seus mestres, os rabis, eram
zelosos em sua mais detalhada aplicação.
Nos dias da antiguidade, os sacerdotes
se preocupavam especialmente em pre­
servar e declarar as tradições legais. Daí,
Arão e seus filhos deviam ensinar a Is­
rael os estatutos divinos (Lev. 10:11).
O livro de Deuteronômio declara que os
sacerdotes deviam ensinar a Israel a lei
deDeus(Deut. 33:10). Jeremias e Oséias
associam a lei com o sacerdote (Jer.
18:18; Os. 4:6).
Desta forma, os sacerdotes, bem como
os profetas, eram tipo da mediação e das
promessas do Senhor encarnado. Eles
declaravam a vontade de Deus para o
povo, da forma como estava incorporada
em seus estatutos. Eles representavam o
povo diante de Deus no aspecto sacri­
ficial da adoração de Israel.
IV. O Deus Pactuai da Fé
de Israel
O Modelo Pactuai. O modelo central
para a relação de Israel com Yahweh
originava-se da revelação divina da ma­
neira hebraica de entender aliança ou
pacto. Esta forma de relacionamento,
encontrada também entre outros povos
do Oriente Próximo, implicava em dedi­
cação e obrigação mútua das pessoas
envolvidas. Ela aplicava-se aos rela­
cionamentos entre homens e tribos, e a
descrição característica é “cortar” ou
“gravar” um pacto. Isto criava uma ir­
mandade artificial entre as partes da
aliança, e, desta forma, estendia o paren­
tesco de sangue para fora de seus limi­
tes naturais. Ela expressava um anseio
comum, a aceitação de uma vontade e
um propósito comuns. Gravar um pacto
é de fato fazer “paz” (Ez. 37:26). Um
exemplo típico de pacto entre indivíduos
é o celebrado entre Davi e Jônatas
(I Sam. 18:1 e ss.). Em um pacto, duas
119
“almas” são ligadas intimamente em
uma. Jônatas dá até as suas roupas e a
sua armadura a Davi, pois elas são ex­
tensões de sua alma. Desta iorma, a
alma de Davi é envolvida pela de Jônatas.
Quando os celebrantes de um pacto
têm o mesmo nível, as obrigações são
mútuas. Quando um celebrante é supe­
rior, como no caso de um tratado após
uma guerra, este estabelece as obrigações
do outro (v.g., I Reis 20:29-34). Esse tipo
de pacto indica o caminho para o uso
teológico do pacto. A aliança de Yahweh
com Israel não é entre duas partes que
estejam em pé de igualdade. O homem
não pode “pechinchar” com seu Criador.
Assim, no Sinai, é Yahweh quem de­
clara, através de Moisés, as suas condi­
ções, expressas no Decálogo. Tudo o que
os hebreus podem fazer, sob a sombra de
uma grande libertação, é aceitar. Eles
não podem estabelecer nenhuma condi­
ção para o seu Libertador. Deus inicia
esses relacionamentos pactuais, e só ele
estabelece as condições.
A relação de Israel para com Deus
mostra que a ligação de Yahweh com o
seu povo não era naturalista, porém mo­
ral. Ele não era um ancestral naturalista.
Ele havia escolhido Israel, e Israel o
havia escolhido. O relacionamento entre
ambos era moral. Conseqüentemente, o
modelo de marido e mulher pode ser
usado para descrever o pacto divino (Os.
2; Jer. 3:20), pois o casamento é um rela­
cionamento pactuai, com implicações éti­
cas.
O Deus Que Elege. Esta ênfase em
escolha é imperativa. Deus havia escolhi­
do Israel, e ele o havia escolhido sem
nenhuma obrigatoriedade, a não ser a de
seu amor. Daí, era uma escolha voluntá­
ria. Ele havia focalizado o seu amor em
Israel (Deut. 10:15). Israel não era um
povo grande (Deut. 7:7 e s.), nem foi ele
escolhido por causa de sua retidão de
coração (Deut. 9:4 e s.). Israel não tinha
nada pelo que pudesse reivindicar tal
escolha. Yahweh o escolhera voluntaria­
mente dentre todas as nações.
O vocabulário desta eleição divina é
variegado. Deus “escolhe” Israel (Is. 43:
10; 44:1). Ele “conhece” Israel (Am. 3:2;
Os. 5:3), como uma pessoa conhece ou­
tra, especialmente a sua esposa. Ele
“compra” Israel (Deut. 32:6; Êx. 15:15 e
s.; Sal. 74:2).
A eleição remonta a tradições bem
antigas, ao tempo de Abraão (Gên. 15:7;
28:13 e s.; Jos. 24:2 e s.). Ela é mais
freqüentemente associada pelos profetas
com o êxodo do Egito (Am. 2:10; 3:1;
Os. 11:1; Ez. 20:5 e ss.; Deut. 32:10).
Pelo fato de as duas tradições pertence-
íem a grupos históricos diferentes, den­
tre os hebreus, as diferenças são históri­
cas. Para os grupos tribais do Egito, o
êxodo se tomou o ponto focal. Para
outros grupos, a memória de Yahweh
remontava a Abraão e sua chamada de
Abraão era mais central. A idéia é que o
Deus de Israel é um Deus que elege.
A estrutura pactuai da vida de Israel
devia-se ao fato de Yahweh tê-lo escolhi­
do voluntariamente como seu povo.
O Amor de Yahweh — Amor Que
Elege e Amor Leal. A auto-revelação de
Yahweh a Israel centraliza-se em seu
amor. Aqui estão implicadas duas pala­
vras hebraicas. A primeira é geralmente
traduzida como amor, mas tem a conota­
ção de escolha ou eleição. Ela é usada
especialmente no livro de Deuteronômio,
mas a encontramos também nos profetas
(Deut. 7:6 e s.; 10:15; Os. 11:8 e s.; Ez.
16:8). Esta palavra tem a acepção de
preferido. O seu antônimo ê “odiar”,
que dá a entender não um ódio ativo,
mas de “não preferido”. No entanto,
essa preferência ou escolha se origina da
natureza intrínseca de Yahweh. O amor
é a essência de seu ser, embora seja este
envolvido em mistério. Yahweh está con­
tinuamente doando-se e procurando a
sua amada, uma antecipação da decla­
ração constante do Novo Testamento de
que Deus é amor. Conseqüentemente,
120
temos os modelos, dados por Deus, de
pai e filho, e do casamento, que percor­
rem toda a Bíblia (Os. 11:1; Ez. 16).
A segunda palavra é traduzida de vá­
rias maneiras: longanimidade, amor ina­
balável, amor leal. As duas últimas acep­
ções são a tradução mais freqüente na
RSV. Esta palavra tem a idéia de fideli­
dade ou lealdade e freqüentemente está
ligada com palavras traduzidas como “fi­
delidade” (v.g., Deut. 7:9). Ela também
está intimamente" ligada com o modelo
do.pacto — ela é amor pactuai. No nível
humano, as duas partes de um pacto se
comprometem a permanecer leais ou fiéis
uma a outra. Elas demonstrarão amor
inabalável, como Davi e Jônatas.
No nível divino, o amor de Deus, no
contexto do pacto, tem esta mesma qua­
lidade de firme fidelidade (Is. 54:10;
Dan. 9:4). Yahweh não abandonará o
seu pacto, e permanecerá fiel ao seu povo
(Os. 2:18 e s.). Estaé a base da atividade
salvadora de Deus. Embora Israel não
consiga observar o pacto, continua sendo
seu povo, mesmo em sua rebeldia. E,
porque ele é fiel, ele os buscará. O seu
amor inabalável, a sua graça, não falha­
rá (Os. 2; Jer. 2:2 e s.; 3:1-4; 31:20).
Da parte de Yahweh, o pacto é incondi­
cional. Mais uma vez pressagia-se a reve­
lação neotestamentária de graça divina.
Yahweh Ê Justo. No entanto, os ho­
mens do Velho Testamento estavam cer­
tos de que Yahweh é um Deus justo.
A palavra justo é baseada em um modelo
forense. Ela toma alguém um juiz justo.
Geralmente, esta palavra descreve con­
formidade com um padrão ou norma. As
“veredas da justiça” são veredas que se
conformam com o caminho reto ou justo,
e os “sacrifícios de justiça” são os que se
conformam com as regulamentações ri­
tuais (Sal. 23:3; 4:5; 51:19). A palavra
justiça é freqüentemente associada com
juízo, com a sentença de um juiz. Por
isso pode ser chamada de justiça. No
nível religioso, um ato justo é aquele que
se conforma com a lei ou a justiça de
Deus.
Para os hebreus, justiça ou retidão é o
padrão que Deus estabeleceu em seu
mundo. Ao lidar com o homem, ele per­
manece fiel aos seus próprios estatutos
(Deut. 32:4). As suas normas são exara­
das mediante os requisitos éticos dos pro­
fetas, inclusive o Decálogo.
Ora, estas normas se originam no ca­
ráter intrínseco de Deus. Em seus juízos,
ele permanece fiel a si mesmo. Ele age de
acordo com a sua natureza. Ele é fiel a si
mesmo, e espera que as suas criaturas
sejam fiéis aos requisitos que expressam
o mais íntimo de seu ser. Ele não se des­
viará, e requer que elas não o façam (Sof.
3:5). Ê nisto que se baseia o julgamento
que ele faz delas. A sua justiça é a quali­
dade dinâmica de seu caráter. Ela é veri­
ficada em seus atos.
Exatamente aqui o problema profético
foi focalizado. Deus é amor, e exige que o
seu povo se conforme com esse amor.
Mas Israel é um povo rebelde e obstina­
do. Não obedece. De fato, parece inca­
paz de obedecer. Portanto, está sob o
julgamento divino. Não obstante, Deus
também é amor. De algum modo, o amor
precisa encontrar uma forma de Deus
poder ser fiel a si mesmo pelo fato de ser
amor e ao mesmo tempo como sendo
alguém que exige conformidade com as
suas normas. Aqui está a semente da
visão neotestamentária da divina graça
em Cristo, pois graça é amor satisfazen­
do as suas próprias exigências na pessoa
de Nosso Senhor.
A Santidade de Deus. Os homens do
Velho Testamento sabiam muito bem
que, neste ponto, haviam tocado no mis­
tério divino. Justiça e amor se encontra­
vam na personalidade de Deus. Os seus
caminhos não eram os caminhos deles
nem os seus pensamentos os pensamen­
tos deles (Is. 55:8). Deus era diferente de
suas criaturas. Este mistério e a persona­
lidade característica de Deus eram ex­
pressos, algumas vezes, em termos di-
121
mensionais. Deus habitava a eternidade
(Is. 57:15). O seu palácio ficava acima do
firmamento (Sal. 104:2,3). O modelo di­
mensional é também igualado pela pala­
vra santidade. Deus é o Santo no decor­
rer de todo o livro de Isaías. A palavra
“santo” descreve a natureza íntima de
Deus. Outras pessoas e objetos são san­
tos tão-somente porque são apropria­
dos, e dedicados ao serviço de Deus, e
usados por ele — o sábado, o primogê­
nito, o sacerdote, o santuário, e até Israel
e os céus.
“Santidade”, assim sendo, expressa a
personalidade e transcendência misterio­
sas de Deus. Coloca Deus em uma cate­
goria exclusiva e desvenda o abismo que
há entre Deus e o homem. Deus é Espí­
rito, e o homem é carne (Is. 31:3). Deus
se reveste de mistério, velando a sua gló­
ria na nuvem, como na visão inaugural
de Isaías. Diante de tal desvendamento
de transcendência moral, o homem cai,
ferido pela visão, e confessa a sua fraque­
za de criatura e debilidade moral (Is. 6:5;
Ez. 1:28). Desta forma, a santidade de
Deus, nos grandes profetas, tem um con­
teúdo moral. Ela descreve a peculiarida­
de e personalidade do amor e justiça
divinos.
Por causa desta transcendência moral,
Deus tem maneiras de agir, para com o
seu povo, por meio de que os seus requi­
sitos ainda serão cumpridos e o seu amor
triunfará. Eles ainda serão o seu povo.
V. O Povo do Deus Vivo
A Estrutura Pactuai da Vida de Israel.
O modelo pactuai de relacionamento
para com Yahweh caracteriza a vida do
povo hebreu. A idéia de aliança está cen­
tralizada no relacionamento pactuai do
Sinai, estabelecida através da consciên­
cia profética de Moisés. Para essa idéia
os profetas pré-exílicos voltam-se fre­
qüentemente, como norma para se en­
tender Yahweh e seus propósitos (Am.
3:2; Os. 2:15; 11:1; Jer. 31:30). Este
pacto foi renovado na formação da liga
tribal em Siquém (Jos. 24). Da parte de
Yahweh, ele era incondicional. Ele per­
manecia firme nele. Da parte de Israel,
era condicionado pela obediência de Is­
rael. Se o povo recuasse dele e transgre­
disse o pacto, este ato seria considerado
como traição e rebelião, mas ele conti­
nuaria sendo ainda o povo de Deus (Os.
8:1; Is. 1:2,4; Jer. 3:20).
Dentro desta estrutura pactuai do Si­
nai, outros pactos foram estabelecidos.
As condições morais do Sinai foram pre­
enchidas, no pacto de tradição, que re­
monta a Abraão, pela fé de Abraão
(Gên. 15:6,18). Mais uma vez ele é obri­
gatório da parte de Yahweh, com uma
promessa incondicional. A descendência
ou semente de Abraão se tomará uma
grande nação, e através dela todas as
nações da terra invocarão a bênção (Gên.
12:2 e s.; 18:18; 22:17 e s.). Esta pro­
messa divina, Israel jamais poderia es­
quecer.
Mais uma vez, dentro deste pacto,
havia o pacto real incondicional com
Davi e seus descendentes (II Sam. 7:13-
16; 23:1-39; Sal. 89:35 e ss.; 132:17 e s.).
Deus havia escolhido a linhagem davídi-
ca e, embora ela tivesse fracassado em
muito, ele iria estabelecer o seu Rei daví-
dico sobre o trono. O rei era uma pessoa
sagrada. Ele representava tanto Deus
quanto o povo. A sua justiça, a sua rela­
ção reta com Deus, garantia a justiça de
seu povo. Se ele fosse injusto, o povo
seria injusto (Sal. 72). Associado com
este tema de realeza, muitos eruditos
sugerem que havia um festival anual de
ano-novo, para a renovação do pacto, em
que o rei desempenhava um papel im­
portante. Muitos salmos confirmam esta
teoria.
A Natureza do Pecado. O tema dos
grandes profetas era que Israel agira trai­
çoeiramente para com Yahweh e quebra­
ra continuamente o pacto. Por que o pac­
to era com a nação, os profetas estavam
mais preocupados com o pecado coletivo
do que com o pecado individual, antes do
122
exílio. As palavras mais características,
por meio de que eles descreviam a obs­
tinação de Israel, são traduzidas, geral­
mente, como pecado e transgressão. A
primeira palavra ocorre freqüentemente
e significa fundamentalmente um desvio
dos padrões éticos estabelecidos pelas
exigências de Yahweh no pacto (Deut.
19:15; Êx. 32:32,34; Lev. 4:3). Desta
forma, ela se refere menos ao aspecto
interior da pecaminosidade do que ao
comportamento externo. A relação com
Deus está condicionada à obediência, e
isto é manifesto nos atos do homem.
Israel havia-se desviado do caminho cer­
to. Esse “pecado” podia ser não intencio­
nal; um comportamento errado não se
origina, necessariamente, de motivações
erradas. O “pecado” se aplica a atos, e
é usado freqüentemente no plural.
A outra palavra importante ocorre fre­
qüentemente em forma verbal. Muitas
vezes traduzida como transgressão e
transgredir, ela é mais bem traduzida
como rebelião e rebelar-se (Am. 4:4; Os.
14:9; Is. 1:2,28; 43:27; 44:22; 50:1; 53:5,
8; Jer. 2:29). Aqui fomos além das esti­
pulações, e chegamos a atitudes pessoais.
O pecado toma-se rebelião contra Deus,
uma arrogante oposição da vontade, de
todo o homem, contra as graciosas rei­
vindicações de Yahweh. Ele se relaciona
com o espírito interior. Desta forma, Is­
rael tem “o espírito de prostituição” (Os.
4:12; 5:4).
A análise mais profunda de pecado se
acha na história do Jardim do Éden
(Gên. 3). Nela, o homem se levanta como
figura representativa de toda a humani­
dade. A sugestão da mulher a ele, “Serás
como Deus”, é a chave. O homem é
tentado a tomar em suas próprias mãos a
sua vida e os poderes dela. Parcialmente,
devido ao orgulho que há em si mesmo,
parcialmente por medo de que Deus não
dirija as coisas tão bem quanto ele, su­
cumbe à arrogância pecaminosa. As se­
qüelas da rebeldia do homem são tam­
bém significativas. De maneira simbó­
lica, é pintado um quadro dos terríveis
resultados da motivação rebelde do ho­
mem. Ele se vê de volta ao deserto, do
qual Deus o chamara, com sua falta de
significado, frustração e separação de
Deus. O homem não pode nem voltar
àquela comunhão com Deus que a vida
no jardim simboliza. O portão fechado e
o anjo com a espada flamejante se inter­
põem em seu caminho.
Julgamento e Arrependimento. Salva­
ção e graça são exibidas, no contexto da
história hebraica, à luz de um pano de
fundo de julgamento. A História propi­
cia a arena em que Yahweh está pondo
em prática a sua intenção e levando à
consumação o seu relacionamento pac­
tuai. No entanto, a História foi também a
cena da rebeldia de Israel. A traição ao
pacto devia, inevitavelmente, acarretar
conseqüências terríveis. Os grandes pro­
fetas sabiam muito bem quais eram os
elementos do julgamento na História.
Nós os encontramos também nas obras
históricas deuteronômicas (Deut., Jos.,
Juí., I e II Reis), que foram especial­
mente influenciadas por preceitos pro­
féticos. Por detrás do julgamento encon­
tra-se a ira divina (Deut. 1:34; 9:18 e s.).
A Assíria é a vara da ira de Deus (Is. 10:5
e s.). Deus entrega o seu povo nas mãos
da Babilônia, em sua ira (Is. 47:6). Nessa
atitude divina de rejeição, Deus entrega
os homens às forças da natureza e da
História (Sal. 21:9; 89:38; 90:11). Essa
ira se dirigia especialmente contra o povo
do pacto, mas também funcionava con­
tra as nações estrangeiras, especialmente
as usadas como instrumentos do julga­
mento contra Israel (Is. 10:5-19).
O juízo divino de Israel era efetuado
através de forças históricas, como As­
síria ou Babilônia, ou através de forças
naturais, como fome, seca, locustas, pes­
tilência (cf. Am. 4:6-11). No pensamento
prê-exílico, a ênfase principal era coleti­
va — a nação (Am. 9:1-4) e a família
(Os. 1:4; Êx. 34:7). Contudo, havia tam­
bém a ênfase individual, embora mesmo
123
aí a família também fosse incluída, como
no caso de Amazias (Am. 7:17). Com o
exílio, e depois dele, a ênfase mudou do
grupo para o indivíduo. O provérbio
popular: “Os pais comeram uvas verdes,
e os dentes dos filhos se embotaram” foi
atacado tanto por Ezequiel (cap. 18)
como por Jeremias (31:29,30). Cada ho­
mem deverá morrer devido à sua própria
iniqüidade. Esta ênfase individual tem
eco em Deuteronômio 24:7. Não obstan­
te, mesmo assim os inocentes são incluí­
dos com os culpados, e o aspecto coletivo
permanece. A injustiça de um governan­
te pode acarretar desastre para o seu
povo. O elemento de ira e juízo permane­
ce, como um aspecto permanente do tes­
temunho bíblico.
No entanto, este juízo tinha um alvo
evangelístico. O juízo tinha o interesse
de levar Israel ao arrependimento. A
palavra arrependimento tinha uma cono­
tação ativa. Ela não significava meros
sentimentos, mas uma mudança ativa da
vontade. Arrependimento significava
uma volta a Yahweh, em obediência
ativa aos requisitos de seus pacto (I Reis
8:45-50). Era um ato da vontade, e in­
cluía uma confissão do pecado, um ato
de submissão penitente, um afastamento
da idolatria (Os. 14:2,3). Nessa base, o
homem podia apelar para o perdão di­
vino (Sal. 51:1,17). A última palavra de
Deus é misericórdia, e assim encontra­
mos os profetas insistindo com Israel
(Am. 5:14; Os. 10:12; Is. 30:18).
Perdão e Salvação. As três palavras
hebraicas que significam perdão são tra­
duzidas de diferentes maneiras, mas
geralmente têm o sentido de perdão, com
a conseqüente remoção da culpa (Êx.
34:9; II Crôn. 30:18). Tal perdão divino é
alicerçado na magnanimidade divina
(Is. 55:7-9), porém as condições morais
precisam ser satisfeitas. Israel precisa
buscar o perdão ardentemente. Uma vez
que ele se tenha arrependido verdadeira­
mente e o seu coração tenha sido reno­
vado, o perdão de Deus é certo (Jer.
31:34). Perdão sempre significa restau­
ração ao relacionamento do pacto com
Yahweh.
A palavra salvação, no Velho Testa­
mento, parefce ter pouco a ver com peca­
do, e, desta forma, não tem uma cono­
tação espiritual. Contudo, precisamos
lembrar a íntima relação entre as coisas
exteriores e interiores no pensamento
hebraico. A natureza psicossomática do
homem significava que a retidão interior
com Deus tinha as correspondências ex­
teriores de saúde e prosperidade — cren­
ça que mais tarde levantou verdadeiros
problemas para homens como o autor de
Jó! Desta forma também acontecia com a
nação. Retidão para com Deus signifi­
cava prosperidade nacional e paz.
Conseqüentemente, salvação dos inimi­
gos externos podia também significar
salvação no nível espiritual — uma res­
tauração ao relacionamento pactuai.
Neste sentido, algumas passagens falam
de Yahweh salvando Israel das mãos de
nações estrangeiras (Êx. 14:30 e s.; I
Sam. 10:18).
Todos os salvadores terrestres, tais
como os reis e juizes, são eficientes tão-
somente porque recebem seu poder de
Yahweh. Eles triunfam apenas na sal­
vação dele (Sal. 20:5,6). Tal salvação,
quando se trata da mãó de Deus, signi­
fica paz, palavra pactuai característica
que implica em saúde, perfeição, pros­
peridade. Todavia, o aspecto interno e
espiritual da salvação é desvendado nos
Salmos. Ali a ênfase recai não tanto nas
bênçãos materiais, como na comunhão
espiritual com Deus (Sal. 69:1,3; 31:1,
2.5). O indivíduo salvo conhece a alegria
da presença de Deus em sua vida.
Além da palavra salvação, temos as
duas palavras que dão a idéia de salva­
ção. Uma palavra, na verdade, é mais
bem traduzida como “resgatar”, embora
seja costumeiramente traduzida como
“redimir” . Intimamente ligada com ela
está o substantivo resgate. A ênfase no
124
resgate pago encontra-se em Isaías 43:3.
Israel havia sido resgatado e Yahweh
havia pago o resgate. Mais freqüente­
mente, contudo, o pensamento de um
preço de resgate desaparece (Deut. 9:26).
Aqui também há uma progressão da
nação como um todo para o indivíduo;
v.g., Sal. 34:22; 49:15.
Uma vez mais é o aspecto exterior que
é enfatizado. Só em Salmos 130:8 a re­
denção é especificamente relacionada
com iniqüidade e pecado. Outras passa­
gens enfatizam a libertação de calami­
dades externas; não obstante, essa liber­
tação é sinal de perdão e restauração ao
relacionamento pactuai.
A outra palavra traduzida com reden­
ção é muito mais importante teologica­
mente. Ela dá a idéia do parente vinga­
dor, pessoa que fazia o papel de parente
e cumpria as obrigações de parente. Ele
redime a sua parentela da escravidão
(Lev. 25:48 e s.). Boaz, desempenhando
um papel semelhante, redime a terra e
salva a família de Rute da extinção (Rute
4:1-11). O próprio Yahweh é o parente
remidor do infeliz Jó, mesmo depois da
morte deste (Jó 19:25). Isaías usa fre­
qüentemente esta palavra em relação a
Yahweh (v.g., Is. 44:6,22,24; 52:3). Aqui
temos a promessa da encarnação, uma
identificação de Deus com o homem,
em que Deus desempenha o papel de
parente e ele mesmo cumpre as obri­
gações disso decorrentes.
A Esperança Escatológica. Israel per­
manecera obstinado e impenitente (Os.
4:16; cf. Jer. 13:23). O Festival de Reno­
vação do Pacto devia ser realizado em
todo outono, mas o ritual exterior não
significava nenhum arrependimento in­
terior. De fato, ele bem podia dar a idéia
de que tudo ia bem. Eles ainda eram o
povo de Deus, e ele se havia obrigado a
cuidar deles! Os profetas enfatizam esta
idéia. Jeremias adverte contra uma falsa
confiança no Templo como sinal da pre­
sença de Yahweh entre o seu povo (7:
26). Amós fala dos que esperavam um
futuro glorioso a despeito de seus desvios
morais.
O Dia de Yahweh era uma caracterís­
tica central da esperança profética. Este
era aquele tempo futuro que estaria cheio
do reinado de Yahweh, o dia de seu
triunfo. Esta esperança se alicerçava na
promessa feita a Abraão. O fracasso do
Dia da Renovação do Pacto uma vez por
ano também pode ter fixado os olhos dos
homens em um Dia futuro, quando o
pacto seria de fato renovado, e cumpri­
do o propósito de Yahweh. No pensa­
mento popular, ele parece ter sido pin­
tado, antes do exílio, como um tempo de
glória para Israel. No entanto, os pro­
fetas pré-exílicos, de Amós em diante, o
consideravam primordialmente como um
dia de juízo e purificação (Am. 5:18;
Os. 5:9; Miq. 2:4; Is. 2:12,17; 7:18 e ss.;
10:3; 13:9-11,13; Sof. 1:7,8,14 e s.; Jer.
25:33). Eles eram, em certo sentido,
profetas do desastre. Depois do exílio,
a ênfase mudou. Ezequiel, Deutero-
Isaías, Joel e os outros consideram o Dia
de Yahweh como de salvação e restau­
ração para o seu povo, embora o tema de
juízo ainda permaneça.
A diferença entre escatologia pré-
exílica e pós-exílica é mais do que apenas
de ênfase. No período pré-exílico, o Dia
de Yahweh seria iniciado por forças his­
tóricas, como Assíria e Babilônia. Acon­
tecimentos naturais incomuns podem
acompanhar esses conquistadores, mas
a cena histórica propicia o veículo do ato
final de Deus e a consumação tem lugar
nesta terra. Contudo, do exílio em di­
ante, os intermediários humanos dão
lugar a uma intervenção divina direta
(v. g., Zac. 14), a transcendência de Deus
é enfatizada, convulsões anormais da
natureza acompanham o ato, e o movi­
mento é na direção de uma ordem dife­
rente da que existe neste mundo, como
consumação final. A escatologia pós-exí­
lica vai-se tornando apocalíptica, embora
Daniel seja o único representante verda­
deiro deste tipo de pensamento. Nos
125
Evangelhos, tanto a ênfase histórica da
escatologia pré-exílica quanto a ênfase
supra-histórica da escatologia pós-exílica
são reunidas na pessoa de Nosso Senhor.
O Dia de Yahweh manifesta o início de
um padrão, vários fragmentos do qual
foram apreendidos e enfatizados por
alguns profetas individualmente. Ne­
nhum deles, todavia, alinhavou esses
diversos elementos, fazendo deles um
padrão integrado, nem apreendeu o
pleno significado do que estava dizendo.
Não obstante, a sua esperança e a sua
promessa apontavam para aquele ato
cristológico em que Deus agiu em seu
Filho para libertar o homem e restabe­
lecer um povo de Deus: a Igreja.
Um elemento do padrão é o rema-
nascente que sobreviverá à purificação
e julgamento de Israel (Is. 1:25 e s.;
4:2-4; 10:20-22; Sof. 2:3; Joel 2:32; Am.
9:8-10; Miq. 4:4-7; Mal. 3:16-18; 4:2).
Sobre o “povo de Deus” restaurado,
Yahweh estabelecerá como rei o seu
Messias, o Ungido da linhagem davídica
(Jer. 23:5,6; Sal. 2:6-9; 110). Possuindo
uma medida especial do Espírito de
Yahweh, o Ungido é um rei humano,
cuja justiça vai garantir a justiça de seu
povo. (Is. 9:6,7; 11:1-5). Ele não é re­
tratado como homem de guerra. Pelo
contrário, é Yahweh que o estabelecerá
em seu trono (Sal. 2:6). Ele reina pela
força de Yahweh (Miq. 5:2-4).
O reinado do Messias será mundial
(Miq. 5:4; Zac. 9:9 e s.). Aqui, a atitude
para com as outras nações varia. Al­
gumas vezes temos um nacionalismo
exclusivo e inflexível. Ester é o exemplo
supremo. Era uma promessa de judaís­
mo futuro. Em outras ocasiões, temos
um espírito missionário manifesto em
vários graus de intensidade. Jonas dá um
bom exemplo deste aspecto, mas este é
expresso em grau inferior em passagens
como Malaquias 1:11 e Isaías 19:18-25.
Pessoas de todas as nações clamarão ao
nome de Yahweh. A Assíria e o Egito
compartilharão com Israel das bênçãos
dessa época futura.
O tema missionário e evangelístico é
focalizado na figura do Servo Sofredor
(Is. 42:1-4; 49:1-6; 50:4-9; 52:13-53:12).
Aqui, também temos um tema escatoló-
gico. A identificação do Servo varia entre
os eruditos. É ele uma figura coletiva,
representando Israel, ou é individual? Se
a última hipótese é a verdadeira, é ele
alguma figura profética, trazida de volta
à vida, como Moisés, por exemplo, ou é
ela messiânica? A melhor solução parece
apegar-se ao reconhecimento de que uma
figura individual como a de um rei pode,
não obstante, ser também coletiva, visto
que, em sentido bem real, a nação do
remanescente remido é corporificada
nele. Se assim é, o Servo, que aparece em
alguns poemas como indivíduo e em
outros como Israel, na verdade, pode ser
uma figura messiânica, agindo em lugar
do remanescente e com ele. Temos aí a
visão messiânica mais sublime do Velho
Testamento — alguém que redime atra­
vés de seus sofrimentos e traz a nação
para perto de si através da oferta de si
mesmo pela culpa, feita a Yahweh. A
visão de Isaías 52:13-58:12 é plena de
significado evangélico. Ela é o evangelho
em promessa antes de se ter tomado
verdadeira em Nosso Senhor.
Se, através de seu sofrimento, o Servo
constitui o remanescente, outros profetas
propiciam outros aspectos da dimensão
redentora do “Dia” . Ezequiel vê Deus
recriando o homem de dentro para fora,
dando-lhe um coração novo e um espírito
reto, fazendo com que ele se torne o seu
povo (11:19; 18:31; 36:26). Jeremias vê
Yahweh fazendo um novo pacto com o
seu povo, que será interior e individual
(31:31-34). Ezequiel capta a visão do vale
dos ossos secos, em que um Israel morto
é ressuscitado pelo Espírito de Deus
(37:1-14). Assim, a promessa de um novo
Espírito dentro do homem, um novo
pacto e um rompimento criativo do Es­
pírito Santo apontam para o futuro,
126
para a “plenitude do tempo” . Esta nova
situação será, contudo, individual. O
povo de Deus ressuscitará com base no
tratamento de Deus para com cada indi­
víduo, e não para com a nação como um
todo.
VI. O Deus Vivo e o Homem
Individualmente
Á Imagem de Deus. A ênfase no indi­
víduo, sem dúvida, nunca esteve ausente.
Porém é significativo que a compreensão
mais profunda da natureza humana
aconteceu com o exílio, quando Jeremias
e Ezequiel enfatizaram a responsabili­
dade individual. A este período pertence
a versão final de Gênesis 1:26 e ss., com a
sua descrição do homem na imagem di­
vina. As duas palavras — imagem e seme­
lhança — são tentativas de salvaguardar
contra qualquer idéia de réplica exata,
sendo que a segunda qualifica a primei­
ra, neste ponto. Para os hebreus, o ho­
mem era um todo psicossomático, e,
como tal, é a imagem de Deus. Não no
sentido de uma divindade em miniatura,
mas no de ser capaz de comunhão com
Deus. A história anterior de Gênesis 2
expressa a mesma idéia. Yahweh anda
com o homem no jardim. O homem tem
a capacidade de manter um relaciona­
mento responsável com Deus. Sobre­
tudo, ele mostra a sua imagem divina ao
viver responsavelmente diante de seus
semelhantes. O homem e a mulher são
feitos conjuntamente à imagem de Deus,
tipo de todas as relações sociais. O ho­
mem é social e moralmente responsável.
Finalmente, a imagem divina do homem
é vista em sua autoridade sobre o seu
mundo. Ele tem capacidade para a ciên­
cia e para a tecnologia, para moldar e
controlar a criação de Deus.
Juntamente com esta referência solitá­
ria ao homem na imagem divina, preci­
samos colocar a compreensão crescente
do lugar do espírito. À época do exílio,
espírito já não era mais apenas uma
descrição do Espírito de Yahweh, inva-
sivo e inspirador. O homem também
tinha um “espírito” como posse perma­
nente. Ele servia à mesma função que o
coração, na psicologia hebraica. Com
ele, a vontade e o intelecto se associavam
— todas as mais elevadas qualidades
espirituais do homem tinham sua sede
em seu espírito (Jó 32:8; Is. 26:9). Assim,
existe no homem, algo que lhe propicia
uma espécie de parentesco com Deus,
que é Espírito.
Sobrevivência Humana. Uma vez que
a ênfase no indivíduo se tornou central,
o problema da vida além da morte tam­
bém se tornou central. Enquanto se
pensava que Deus se relacionava com o
indivíduo através do grupo, uma pessoa
podia pensar que iria sobreviver à morte
na vida de seus descendentes. Eles eram
extensões de sua pessoa, através do tem­
po. Assim, ele queria ter quantos filhos
possível fosse, e, para si mesmo, uma
vida que durasse setenta anos (Jó 5:25;
II Sam. 14:7).
Quanto a si mesmo, cercado pelo nas­
cimento e pela morte, o israelita pensava
em sua vida na terra como sua verda­
deira existência. Além da morte, ele ain­
da tinha um grau um tanto vago de
existência no Seol. Essa caverna subter­
rânea era o todo que abrangia todas as
sepulturas familiares. Para ele, os ho­
mens iam como “sombras” , como “en­
fraquecidos” , como “almas” esvaziadas
de sua vitalidade e capacidade de verda­
deira vida. Ali cessavam todas as distin­
ções morais e sociais (Jó 3:17 e ss.; cf.
Ez. 32:18-32). Os mortos nada sabem
(Ecl. 9:4 e ss.). Não pode haver adora­
ção a Deus no Seol (Sal. 6:5). O amor
pactuai de Deus não opera ali (Sal. 88:
10-12). O sepulcro é o vestíbulo do Seol,
terra de trevas, corrupção e dos vermes
(Jó 10:21 e s.; 17:14 e ss.). A vida real
termina com a morte, e o Seol é quase
uma não-existência.
Porém, uma vez que a ênfase no indi­
víduo se tornou central, dois problemas
127
surgiram: sofrimento imerecido e sobre­
vivência individual. A pessoa não podia
mais culpar os pecados de seus pais pelos
seus sofrimentos (Ez. 18); e também não
podia pensar em sobrevivência na pessoa
de seus filhos. Jó trata de ambos os pro­
blemas. O sofrimento imerecido do justo
Jó é enfrentado com três respostas. Os
seus amigos ortodoxos dizem que o seu
sofrimento era necessário porque ele
pecou. Ele sabe que isso não é verdade.
No fim, Jó enfrenta a terrível majestade e
o mistério de Deus, e encontra consolo
em sua crença de que Deus entende
(42:1-6). Esta é a segunda resposta. O
sofrimento precisa ser deixado nas mãos
de Deus, que deve ter um significado
para ele. Assim, vem a terceira resposta,
oculta de Jó, e contida no prólogo. Ele
precisava sofrer para provar que a sua fé
não dependia da prosperidade exterior.
Jó mostra, nesse drama, que amava a
Deus por amor ao próprio Deus.
Ligado à segunda resposta, encontra-
se o primeiro vislumbre de sobrevivência
pessoal. Jó morrerá e irá para o Seol, mas
no fim Deus se lembrará dele. Yahweh
chamará Jó do túmulo e, fora de sua
pele, ele verá Deus e será vindicado
(14:13-15; 19:25-27). Esta vaga expres­
são de esperança ganhou conteúdo no
desvendamento divino. Visto que o ho­
mem é um todo psicossomático, esta
esperança não é a imortalidade da alma
grega, mas ressurreição do todo pessoal.
Encontramos esta expressão, depois do
exílio, em Isaías 25:6-8; 26:19 e Daniel
12:2. Em dois Salmos encontra-se a
chave. O homem sobrevive à morte por­
que está em comunhão com Deus aqui e
agora (49:15; 73:23 e ss.). Assim, o cami­
nho estava preparado para a fé do Novo
Testamento. Soava para o hebreu piedo­
so o clamor da esperança quando se
dava significado individual a esta idéia.
VII. Deus, o Criador
O interesse dos hebreus em Yahweh
como Salvador de Israel continha impli­
cações a respeito da origem do homem e
de seu mundo. Por ocasião do êxodo,
Yahweh havia criado Israel como nação.
Efe havia demonstrado que era o Reden­
tor de Israel, através das vicissitudes de
sua história. Deutero-Isaías, retratando
a volta de Israel do exílio babilónico,
considera Yahweh nivelando e transfor­
mando o deserto, para que o seu povo
possa voltar em segurança (Is. 42:14 e
ss.; 55:10 e ss.). Este profeta combina o
modelo do Criador com o do Redentor,
em sua descrição de Yahweh (Is. 43:1,
14 e ss.). A lógica implícita do desven­
damento divino pareceria ser que ele que
pode refazer a natureza deve ter dado
origem a ela.
Já antes do exílio fora preparado o
caminho para esta fé, mediante a mol­
dagem da tradição de Israel, represen­
tada pelas sagas da criação de Gênesis
l:l-2:4a e 2:4b-25. Embora tivessem sido
influenciadas grandemente pelas his­
tórias da criação dos povos circunvizi­
nhos, as sagas hebraicas são cheias de
conteúdo revelador do desvendamento
divino a Israel. A ênfase teística subs­
titui toda associação naturalista. Toda
a estrutura das idéias acerca da criação
tem sido historiada e exalçada na ex­
periência histórica de Israel com o Deus
vivo. A criação de Israel pela mão de
Yahweh no mar dos juncos tomourse a
base histórica. Aqui, ele age no meio do
caos, para produzir o seu povo, da mes­
ma forma como inicialmente dera forma
ao abismo caótico e ao vazio sem forma,
para produzir o seu mundo bem orde­
nado (Is. 51:9 es.).
A história da criação, em Gênesis 1,
pertence à tradição P ou de Jerusalém, e
recebeu a sua forma presente mais ou
menos no mesmo período em que Deu-
tero-Isaías desempenhou o seu minis­
tério. Tanto a história quanto o profeta
usam uma palavra que é traduzida como
“criar”. Diferentemente das palavras
traduzidas como “fez” e “formou”
(RSV), este verbo é usado somente tendo
Deus como sujeito. Ele nunca é qualifi-
128
cado pela referência a qualquer material
preexistente, do qual essa entidade ti­
vesse sido criada. Implícita, mas não
explícita, está a fé em Deus como Cria­
dor absoluto. A criação é inicialmente
“do nada” . Gênesis 1:1 pinta um quadro
de Deus moldando o caos: este tema da
luta de Yahweh com o abismo sem forma
é um elemento constante no pensamento
veterotestamentário. Mas quando levado
a este ponto, a mente hebraica teria
confessado que até o caos existia pela
vontade de Deus.
Álém do mais, criação do mundo e do
homem é um ato da vontade de Deus, a
sua presença ativa no cosmos em desen­
volvimento. Deus fala e o mundo se
toma. Da mesma forma como a palavra
pronunciada é uma extensão da perso­
nalidade do orador, a palavra de Deus é
Deus se estendendo em um ato criativo, a
sua imanência em sua ordem criativa —
por isso João 1 está alicerçado no pensa­
mento do Velho Testamento. Seme­
lhantemente, o Espírito de Yahweh paira
sobre o abismo caótico (Gên. 1:2). A
transcendência de Deus é, desta forma,
igualada pela sua imanência. Ele se en­
volve com a sua criação.
A imanência de Deus é a razão da
preocupação hebraica com a dimensão
vertical de profundidade e de altura,
mais do que com dimensão horizontal de
causa física, que preocupa a ciência mo­
derna. No mesmo ponto em que o cien­
tista contemporâneo procura as rela­
ções causais ou observáveis entre as enti­
dades do mundo, os hebreus se preo­
cupavam com a relação dessas entidades
com Yahweh (cf. Os. 2:21 e s.). Todas as
coisas, inclusive o homem e os seus “tem­
pos” , se apoiavam diretamente em Deus.
Até um milagre ou um “prodígio” não
era uma interrupção ou quebra das leis
fixas de Deus, um “rompimento” divino,
mas uma manifestação especial da pre­
sença graciosa de Deus, que ao mesmo
tempo estava em toda parte, ordenando o
mundo de Yahweh. Um prodígio podia
ser normal ou anormal, a formação de
um embrião (Sal. 139:14), uma tempes­
tade trovejante ou um acontecimento
extraordinário (Gên. 18:14). Os hebreus
não reconheciam a aguda divisão entre
as coisas naturais e sobrenaturais, que
levantou tantas interrogações em nossa
época.
Paia Leitura Adicional
EICHRODT, W. Theology of the Old
Testament. Vols. I e IL Philadel­
phia: Westminster Press, 1961,
1967.
JACOB, E. F. Theology of the Old Testa­
ment. Trad, para o inglês por A. W.
HEATHCOTE e P. J. ALLCOCK.
New York: Harper & Brothers,
1958.
KOHLER, L. Old Testament Theology.
Trad, para oinglês por A. S. TODD.
Philadelphia: Westminster Press,
1957.
ROBINSON, H. W. Inspiration and Re­
velation in the Old Testament.
Oxford: Clarendon Press, 1946.
________ Religious Ideas of the Old
Testament. London: Gerald Duck­
worth & Co., Ltd., 1956.
RUST, E. C. Salvation History. Rich­
mond: John Knox Press, 1963.
129
Abordagens Contemporâneas no Estudo
do Velho Testamento
O estudo do Velho Testamento hoje
em dia é vigoroso e extensivo, em termos
de abordagem. O erudito contemporâ­
neo precisa reconhecer que tem uma
dívida de gratidão para com os eruditos
que trabalharam antes dele, e que ele faz
parte de um processo contínuo de pes­
quisas e testes que se fazem com essas
pesquisas. Mas ele deve também reco­
nhecer, como os que viveram antes dele o
fizeram, que a palavra que ele der não
será final; o estudo bíblico, acima de
tudo, convence o estudioso da qualidade
vivente da palavra do Deus que continua
a falar.
O objetivo deste artigo é descrever em
breves palavras os caminhos básicos de
abordagem que há no estudo contem-«
porâneo do Velho Testamento. Devido às
limitações de espaço, pouco pode ser dito
a respeito da história dessas abordagens.
Pela mesma razão, precisam ser omitidos
os detalhes da pesquisa bíblica realizada
para o uso dessas abordagens. Nas pági­
nas que se seguem, os problemas, méto­
dos e recursos fundamentais do estudo
atual do Velho Testamento são enume­
rados e tratados, resumidamente, em
três categorias básicas: (1) o texto do
Velho Testamento como o temos; (2)
como esse texto veio a existir; e (3)
aspectos do significado do texto.
I. Abordagem do Texto do Velho
Testamento
O Velho Testamento é um livro e, ao
mesmo tempo, uma biblioteca. Ele é de
grande importância para três das maio­
res religiões do mundo. Contudo, não se
tem conhecimento da existência de có­
pias originais dele, e há muitas e dife-
John I. Durham
rentes versões de seu texto. Além disso,
ele foi composto durante um longo pe­
ríodo de tempo, em uma língua que,
embora outrora tivesse sido viva, cessou
de ser uma língua viva há muito tempo.
Portanto, é apropriado que o estudo de
um livro assim comece com o próprio
texto, e depois passe a uma compreensão
do que o texto diz, palavra por palavra.
1. Crítica Textual do Velho Testamento
A crítica textual ou crítica baixa pro­
cura fazer a reconstrução a mais exata
possível do texto, com atenção à sua
forma mais primitiva conhecida, e à his­
tória de sua transmissão dos tempos pri­
mitivos até o presente. O seu objetivo é
abordar tão de perto quanto possível a
forma mais pura e mais original do texto
do Velho Testamento.
Com exceção de pouco mais de nove
capítulos,1 este texto foi escrito em he­
braico. Através da gama dos 39 livros,
que constituem o Velho Testamento, o
estilo e qualidade da língua hebraica
variam consideravelmente, fato que di­
ficilmente é surpreendente, se levarmos
em conta que o Velho Testamento é a
criação de muitas mentes inspiradas, no
decorrer de um período que chega a ser
de mil e duzentos a mil e quinhentos
anos.
O estado de preservação deste texto
hebraico também varia consideravel­
mente de livro para livro, e algumas vezes
de texto para texto, dentro de um mesmo
livro. A tarefa do especialista textual
é tão complicada quanto possibilitada
1 Esdras 4:8-6:18; 7:12-26; Daniel 2:4-7:28; Jeremias 10:
11 e palavras ocasionais estão no aramaico.
131
pela herança afortunada de uma varie­
dade de tradições do texto hebraico do
Velho Testamento, tanto como um todo
quanto como em suas várias partes. Ele
precisa procurar chegar à melhor apro­
ximação do Velho Testamento da ma­
neira como ele foi originalmente compi­
lado, e o faz mediante uma análise mi­
nuciosa e exaustiva de todas as versões
disponíveis; antes de tudo, as versões
hebraicas, e depois outras versões antigas
que são traduções do original hebraico
nessas línguas, como o grego, o aramai-
co, o siríaco ou o latim.
Na busca de um texto puro, o espe­
cialista se defronta com omissões, erros
dos escribas e outras corrupções que se
insinuam no texto bíblico durante o
longo processo da transmissão. Visto que
as palavras do texto hebraico eram origi­
nalmente escritas sem vogais e sem pon­
tuação, alguns manuscritos preservam a
adição de pontos vocálicos errados e uma
divisão imprópria de palavras e até de
sentenças. Em alguns casos, letras e pa­
lavras foram omitidas; em outros, foram
acrescentadas.
A tarefa do especialista nos estudos
textuais é tomar nota de todos esses erros
e omissões, e reconstruir o texto hebraico
como deve ter sido originalmente, com
base em uma análise comparativa de to­
das as evidências textuais disponíveis, tão
exatamente quanto possível. Em alguns
casos, os críticos textuais têm sido inca­
pazes de fazer uma só reconstrução que
seja plenamente satisfatória. Nesses
casos, pode ser que se apresente ao leitor
uma alternativa.2
É claro, pelo que tem sido dito acima,
que o estudo do texto do Velho Testamen­
to precisa ser um estudo contínuo. Isto é
exigido não apenas pelo surgimento de
novas evidências, mas também pela
necessidade de um reexame periódico
das evidências antigas. A pesquisa tex­
tual só pode terminar quando um texto
2 Note-se, por exemplo, o texto da RSV em Gên. 4:8,
Deut. 28:22,1 Sam. 3:13 e Sal. 74:11.
original é descoberto e então estabele­
cido como tal, e isto ainda não aconteceu
na história do texto bíblico.
Da mesma forma, esta abordagem do
estudo contemporâneo do Velho Testa­
mento também não é tal que não ofereça
um desafio contínuo. A coleção de rolos e
de fragmentos de rolos da região do Mar
Morto, que se torna cada vez maior, e a
expansão de recursos materiais para a
análise textual na era dos computadores
oferecem ao erudito textual um campo
mais amplo do que nunca. A Privilegierte
Würtenbergische Bibelanstalt continua a
fazer as necessárias revisões na edição
crítica padrão do Velho Testamento
hebraico, levando avante a obra de R.
Kittel e seu capaz sucessor, o falecido
Paul Kahle. O Projeto da Bíblia da Uni­
versidade Hebraica tem estado em ope­
ração há doze anos, e agora publicou o
seu primeiro exemplar de uma edição
nova e muito necessária do Velho Testa­
mento hebraico.3 O fato de que esta
publicação apresenta nada menos do que
oito páginas impressas de notas acerca de
quatro capítulos do livro de Isaías é um
claro testemunho da intensidade do estu­
do textual do Velho Testamento nos dias
hodiernos.
Finalmente, deve notar-se que o texto
do Velho Testamento é notavelmente
bem preservado, considerando-se a dura­
ção de sua história e as circunstâncias
complicadas em que ele foi transmitido.
2. A Filologia e a Compreensão da Gra­
mática do Velho Testamento
Uma segunda abordagem do texto do
Velho Testamento, embora dependa da
crítica textual, vai além dos limites da
pesquisa acerca do que o texto é, che­
gando ao que o texto diz. Esta aborda­
gem refere-se a três coisas: vocabulário
hebraico, gramática hebraica e padrões
hebraicos de pensamento.
3 M. H. Goshen-Gottstein, The Book of Iaaiah: Sample
Edition with Introductlon (Jerusalém: At the Magnes
Press, 1965).
132
O primeiro passo da abordagem do
tradutor ao Velho Testamento, ao estu-
dá-lo, precisa ser um conhecimento ope­
racional do vocabulário hebraico, e isto
inclui consultas aos dicionários hebrai­
cos. Armado com este conhecimento
fundamental, o tradutor pode, então,
expandir o seu entendimento a respeito
de uma determinada palavra ou de uma
família de palavras (cognatas) através do
uso de uma concordância e do uso de
palavras cognatas e de grupos de palavras
em línguas relacionadas. A concordân­
cia, relacionando, como o faz, todas as
vezes em que uma dada palavra ocorre
na Bíblia, capacita o pesquisador a che­
gar à sua própria definição. No caso da
maioria das palavras da Bíblia, não é
uma tarefa difícil examinar a maneira
diversa como uma palavra importante é
usada em cada caso, processo que muitas
vezes lança muita luz sobre o seu signi­
ficado. O exame dos sinônimos do Velho
Testamento e de palavras equivalentes,
em línguas da mesma família do hebrai­
co da Bíblia, muitas vezes se estende
além do alcance do entendimento adqui­
rido pelas palavras do texto.
Há muito interesse no vocabulário do
Velho Testamento nos dias de hoje. Nos
anos 1951-53 foi publicado um novo
léxico do Velho Testamento que tem
quase 1.500 páginas,4 e agora mesmo ele
está sendo publicado novamente em uma
edição completamente revisada. Inu­
meráveis artigos de extensão vária, tra­
tando de palavras e frases hebraicas, têm
sido publicados em anos recentes, e erudi­
tos, como Thorlief Boman e James Barr,
se têm empenhado em um aceso debate a
respeito dos problemas mais amplos da
semântica hebraica.
Da mesma forma como as palavras
que compõem um texto precisam ser
conhecidas tão plenamente quanto pos­
sível por si mesmas, a maneira como elas
4 L. Koehler e W. Baumgartner, Lexicon in Veteris Testa­
ment! Libros and Suplementum (Leiden: £ . J. Brill,
1958).
são arranjadas em frases e sentenças
também precisa ser estudada e compre­
endida. O hebraico, como o inglês e o
português, perdeu os sufixos indicadores
dos casos (como no latim), que outrora
tomavam característica a função gra­
matical das principais palavras de uma
sentença, e por isso depende tantas vezes
do arranjo das palavras para obter a
nuança específica de significado. Por­
tanto, é essencial que o tradutor entenda
tanto as formas específicas5 em que as
palavras aparecem, como também a
relação dessas palavras umas com as
outras dentro da sentença,6 se ele quiser
traduzir exatamente em outra língua o
que o texto bíblico, na verdade, está
dizendo.
O estudo contemporâneo do Velho
Testamento está levando em considera­
ção cada vez mais o fato de que os gra­
máticos hebreus clássicos, a despeito de
sua laboriosa atenção aos detalhes e sua
incalculável contribuição, muitas vezes
forçaram a gramática hebraica a entrar
em formas gramaticais ocidentais. Isto
obscureceu muitas das melhores expres­
sões do hebraico bíblico, e hoje em dia
existe uma preocupação justificada de
remediar esta deficiência através de uma
análise intensiva das formas da narrativa
e da poesia hebraica, e através de um
estudo comparativo da forma gramatical
em línguas relacionadas com o hebraico
da Bíblia. Estudiosos como G. R. Driver,
D. W. Thomas, A. Sperber, C. H. Gor-
don, M. Dahood e o falecido C. Bro-
ckelmann representam um número cres­
cente de especialistas em Velho Testa­
mento interessados nestes problemas.
Outra preocupação do estudo contem­
porâneo do Velho Testamento relaciona-
se com o pensamento hebraico. Mesmo
quando o texto já foi estabelecido e as
suas palavras adequadamente definidas,
analisadas gramaticalmente e relaciona­
das com o seu contexto, não obstante, é
5 Isto é chamado de morfologia.
6 Isto é chamado de sintaxe.
133
possível ainda produzir traduções como:
“O meu humor (secreção líquida do
corpo) se tornou em sequidão de estio”
(Sal. 32:4) ou: “Turbadas estão as mi­
nhas entranhas, o meu fígado se derra­
mou pela terra” (Lam. 2:11). Aqui,
obviamente, há necessidade de comuni­
car idéias hebraicas em termos mais cor-
relatos à expressão moderna; assim, a
passagem dos salmos pode ser melhor
traduzida como: “A minha força foi
gasta como no calor do verão” ; e a sen­
tença de Lamentações: “Sinto um nó no
estômago, o meu coração está peque­
nininho.”
Muita atenção, por conseguinte, tem
sido dada nos anos recentes às peculia­
ridades especiais do pensamento hebrai­
co, e grande parte desta atenção tem sido
estimulada, de uma forma ou de outra,
pela monumental obra de Johannes Pe-
dersen,7 que apareceu primeiramente
em inglês, em 1926 (Vols. I-II) e em 1940
(Vols. III-IV). A lista de eruditos que
abordaram o entendimento do texto do
Velho Testamento desta maneira teria
que incluir estudiosos não só como H.
Wheeler Robinson, A. R. Johnson, C.
Tresmontant e G. E. Wright, mas tam­
bém os teólogos do Velho Testamento.
O seu trabalho tem sido realizado, em
parte, com o objetivo de que idéias pro­
fundas não se tornem ridículas na tra­
dução literal, mas, pelo contrário, sejam
compreendidas e então convertidas aos
padrões contemporâneos de pensamento.
II. As Abordagens da História
Literária do Velho Testamento
Outra abordagem do estudo do Velho
Testamento, empreendida hoje em dia,
se refere ao que está por detrás do texto.
Quem compôs originalmente o texto e
quando? Em que formas e estilos foi ele
composto, e como chegou à forma em
que o recebemos? Esta pesquisa, cha-
7 Israel« Its Life and Culture, Vols. I-IV (London: Oxford
University Press, 1959).
mada de alta crítica, pode ser descrita
amplamente em três categorias: estudo
das fontes da literatura do Velho Testa­
mento; estudo das formas da literatura
do Velho Testamento; e estudo da histó­
ria da literatura do Velho Testamento.
1. Análise das Fontes da Literatura do
Velho Testamento
O estudo das fontes da literatura do
Velho Testamento começou com os cinco
primeiros livros da Bíblia, chamados de
Pentateuco. O Velho Testamento pro­
priamente dito não designa um autor
para estes livros, mas a tradição os atri­
buiu a Moisés, tanto por causa de sua
identificação com este material em refe­
rências como Deuteronômio 1:1, II Reis
14:6, Esdras 6:18, II Crônicas 25:4;
Marcos 12:26, quanto porque a litera­
tura judaica primitiva8 expressamente
menciona Moisés como seu autor. Esta
tradição foi aproveitada pela igreja pri­
mitiva, embora não sem sofrer restrições
em alguns de seus quadros.9 Nos pri­
meiros mil anos da era cristã, contudo,
vários versículos e curtas passagens fo­
ram atribuídas a outros autores, e a
unidade literária do Pentateuco foi ques­
tionada repetidamente. Depois da Idade
Média, tanto o número quanto a precisão
dessas interrogações aumentaram, e os
eruditos bíblicos apresentaram longas
listas de passagens, que pareciam ser
contra a autoria mosaica e a unidade do
Pentateuco.10
A abordagem, do estudo contempo­
râneo do Velho Testamento, da crítica do
Pentateuco deve muito às interrogações
destes eruditos do passado. Mas ela tam­
bém tem uma dívida de gratidão para
com o trabalho de isolamento e análise
de várias fontes dentro do Pentateuco,
começado no século XVIII e continuado,
com tentativas, erros e grande proveito,
8 Veja Filo, Josefo e o Talmude.
9 Veja Porfírio e Celso, e vários escritores gnósticos.
10 Veja Carlstad, Masius, Hobbes, Spinoza e Richard
Slmon.
134
desde então. Ele está associado princi­
palmente com eruditos como Julius We-
lhausen, H. Holzinger, S. R. Driver,
A. C. Welch, W. O. E. Oersterley, T. H.
Robinson, e, mais recentemente, com
R. H. Pfeiffer, A. Bentzen, C. A. Simp-
son, C. R. North, Otto Eissfeldt, S.
Mowinckel, Martin Noth, G. von Rad e
Karl Elliger.
Esta abordagem, reconhecendo, dentro
do Pentateuco, anacronismos, repetição,
narrativas conflitantes, uma variedade
de pequenas e grandes discrepâncias,
concepções diferentes a respeito de Deus,
e várias diferenças marcantes em termos
de estilo literário, levou a maioria dos
eruditos contemporâneos a esposar a
opinião de que o Pentateuco que conhe­
cemos não é nem uma unidade nem,
considerado como um todo, uma com­
posição de Moisés.
Isto não quer dizer que Moisés não fez
nenhuma contribuição para o Pentateuco
ou que a tradição bíblica que o associa
com a “lei” e o “livro da lei” não é
confiável. Embora alguns eruditos mo­
dernos neguem até a historicidade de
Moisés, a grande maioria esposa o ponto
de vista de que há dentro do Pentateuco
conceitos e acontecimentos que são ge­
nuinamente mosaicos.
O estudo atual do Pentateuco reco­
nhece, em termos amplos, dentro do
Pentateuco, a presença de três níveis de
fontes: fontes orais, fontes escritas e
fontes redatoriais ou editoriais. De fato,
pode ser notado que uma estrutura si­
milar é aplicada, quanto a fontes, em
vários graus, aos outros livros do Velho
Testamento.
A possibilidade de que tradições orais
servem de base para as fontes escritas do
Velho Testamento foi apresentada com
alguma convicção no fim do século XIX.
Contudo, foi nos últimos quarenta anos
que o caso das fontes orais foi apresen­
tado mais persuasivamente, especial­
mente por eruditos como H. S. Nyberg,
Ivan Engnell e Eduard Nielsen.
A palavra falada tinha para o homem
do Velho Testamento muito mais signi­
ficado do que para os homens de hoje em
dia; tinha uma dinâmica toda sua. A
palavra falada surgiu, em criatividade
espontânea, das situações reais da vida e
da fé que os homens enfrentaram, e, até
certo ponto, também preservou esta
mesma criatividade espontânea. De fato,
foi pela palavra falada que a maioria dos
homens aprendeu as histórias da fé e as
afirmações nelas baseadas.
As histórias familiares e emocionantes
dos pais e de sua fé, os hinos e poesias
devocionais, a pungente sabedoria dos
sábios, as declarações pessoais de depen­
dência de um Deus presente e ativo, os
discursos de políticos, os oráculos e jul­
gamentos de sacerdotes e até os sermões
dos profetas, pronunciados para serem
lembrados e repetidos, foram lembrados
e repetidos.
Além disso, a presença de fontes orais,
no desenvolvimento do Velho Testamen­
to, não foi descontinuada quando come­
çou um estágio verdadeiramente literá­
rio. No decorrer de, virtualmente, toda
a história da composição do Velho Testa­
mento, uma tradição oral contínua sus­
tenta o verdadeiro desenvolvimento lite­
rário. Esta tradição oral era, sem dúvida,
extensiva, antes que a escrita se tomou
mais normativa, com o advento da verda­
deira nacionalidade; desse ponto em
diante ela diminuiu em proporção, à
medida que ia sendo reduzida à forma
escrita. Mas nunca cessou de ter influ­
ência, enquanto o texto do Velho Testa­
mento não foi fixado de maneira mais
ou menos definida, e por uma boa razão:
uma criatividade verbal inspirada está na
base do processo criativo do desenvolvi­
mento de grande parte da literatura do
Velho Testamento. Os grandes profetas
se referiam a tais verbalizações, trazidas
a eles pelo ruah ou espírito de Yahweh,
como “a palavra de Yahweh”.11
11 Cf. I Reis 22; Miq. 1:1; Is. 43:1 e ss.; Jer. 23:16-22;
Ez. 3:4.
135
Em sua forma mais básica, essas uni­
dades orais eram breves, consistindo de
histórias isoladas, leis, ditados, poemas
e coisas semelhantes. No entanto, com o
tempo, narrativas orais relacionadas
entre si foram reunidas, processo que se
tomou um estímulo para o estágio lite­
rário, e também foi incrementado pelo
processo literário, por sua vez.
É a este verdadeiro período literário
que devemos a maior parte do Velho
Testamento, como o conhecemos. Quan­
do as fontes orais começaram a ser reu­
nidas e reduzidas à forma escrita, o
resultado não foi livros bíblicos inteiros,
como os conhecemos, mas, sim, o que
agora são passagens ou livretes dentro de
nossos livros maiores. Ao lado dessas
coleções escritas, de fontes originalmente
orais, havia, mui provavelmente, blocos
de material composto inicialmente por
escrito, alguns inspirados por material
oral mais antigo e alguns sem nenhum
estágio pré-literário. Há boas razões para
se crer que parte desse material escrito
era de fato muito antigo, antedatando
até algumas das fontes orais.
E então, com o tempo, essas coleções
escritas se tornaram as fontes que vieram
a constituir os livros de nosso Velho
Testamento. O livro de Salmos é um
bom exemplo deste processo. Grande
parte desses poemas foram criações da
comunidade adoradora de Israel, e fa­
ziam parte da tradição oral viva do culto.
Gradualmente, foram sendo feitas cole­
ções desses hinos, de acordo com os
objetivos, pela influência de grupos espe­
ciais de musicistas e com base em seu
conteúdo. Assim, há hinos de louvor,
hinos da coleção de Asafe, coleções para
ocasiões especiais, e assim por diante.
Essas coleções, por sua vez, foram rear-
ranjadas de acordo com critérios ainda
diferentes, como, por exemplo, a divisão
um tanto arbitrária, em cinco livros,
do Saltério bíblico. Nesse estágio, indu­
bitavelmente, toda a coleção foi reunida
para formar o nosso atual livro de Sal­
mos.
Processo semelhante é observável na
maioria dos outros livros maiores do Ve­
lho Testamento, embora isso seja muito
menos óbvio em uma leitura superficial
e apesar de, sem dúvida, a abordagem ao
estudo de cada livro precisar levar em
consideração a natureza especial desse
livro.
A terceira camada de fontes presentes
no Velho Testamento é o resultado do
trabalho editorial. No que concerne à
extensão do material, esta é a menor das
três camadas relativas a fontes. Ao mes­
mo tempo, ela é fonte mais determinante
no que tange ao nosso Velho Testamen­
to, pois é a fonte que em grande parte
governou a compilação final do Velho
Testamento que chegou às nossas mãos.
O material adicionado ao Velho Tes­
tamento pelas mãos dos que o compila­
ram consiste, na maior parte, das notas
introdutórias e explicativas, seções de
transição e, em alguns casos, de comen­
tários expositivos. A verdadeira contri­
buição dos editores está em sua seleção
e arranjo das fontes disponíveis. Em
alguns casos, a sua tarefa foi realizada
com tal respeito pelo material e com tal
perícia que a mão do editor é virtual­
mente invisível. Em outros livros (e algu­
mas vezes no mesmo livro), as suturas
são óbvias e evidentes. Assim, por exem­
plo, as duas narrativas da criação, no
livro de Gênesis,12 provêm, obviamente,
de duas fontes diferentes — representam
interesses diferentes e o editor não fez
nenhum esforço para conciliá-los. Assim
também acontece com o primeiro versí­
culo do livro de Amós, que representa o
que um publicador moderno colocaria na
página de rosto, de um livro, ou no
prefácio.
Em alguns casos, a obra dos editores
foi feita com grande objetividade; assim,
por exemplo, se dá com o fato de eles
terem incluído a grande “História da
12 Gên. 1:1,2:4a vis-à-vis com 2:4b-25.
136
Corte do Rei Davi”,13 qué relaciona de
maneira muito cândida a sucessão ao
trono de Davi. Em outros casos, interes­
ses especiais influenciaram muito, como
nos livros das Crônicas, que apresentam
uma imagem glorificada da dinastia
davídica, excluindo tanto quanto pos­
sível a história do Reino do Norte.
2. Análise da Forma da Literatura do
Velho Testamento
Outra abordagem fundamental da
literatura do Velho Testamento procura
isolar e analisar as maneiras especiais
como esta literatura foi estruturada. Esta
abordagem, chamada de crítica da for­
ma, foi sugerida no começo deste século
por Hermann Gunkel. Ela foi empre­
gada com crescente entusiasmo por eru­
ditos do Velho Testamento, porque lança
luz não apenas sobre as formas literárias
em si, mas também sobre as fontes que
as utilizaram e sobre os temas teológicos
que aparecem repetidamente nessas fon­
tes. Seguindo a direção de Gunkel, vie­
ram eruditos como Hugo Gressmann,
Leonhard Rost, Albrecht Alt, Martin
Noth, Gerhard von Rad, T. H. Robin-
son, E. A Leslie, e, ainda mais recente­
mente, Claus Westermann, B. W. An-
derson e Walter Beyerlin.
A questão que temos aqui, sem dúvi­
da, é como o texto foi composto; isto é,
em que formas e estilos, não importa se a
composição foi escrita ou oral. A subs­
tância dessa abordagem, no estudo do
Velho Testamento, reside nas seções e
unidades menores de material discemí-
veis dentro das fontes que perfazem os
livros de nosso Velho Testamento atual.
O estudo de crítica formal revelou, por
exemplo, que estilos e padrões consis­
tentes são empregados em sermões pro­
féticos, em bênçãos e maldições sacer­
dotais, em exposições da lei, em louvor
através de hinos ou no lamento do ado­
rador individual, através de todo o Velho
13 II Samuel 6-1 Reis 2.
Testamento. Ainda maior iluminação
deve ser encontrada na comparação das
formas literárias do Velho Testamento
com a literatura dos vizinhos de Israel
antigo no Oriente Próximo — literatura
que nos tem sido provida em abundância
pelas escavações arqueológicas.
Desta forma, Gunkel, e depois Sig-
mund Mowinckel, e ainda mais recente­
mente Artur Weiser, Westermann e H. J.
Kraus, procuraram entender melhor os
Salmos e o contexto de vida do qual
eles vieram, colocando juntos salmos de
conteúdo e forma similares. Hinos de
louvor, por exemplo, são encontrados
sempre contendo uma conclamação im­
perativa à adoração (105:1-4; 113:1-3) e
uma base doutrinária, como a de um
credo, para louvor em adoração (105:5 e
s.; 113:4 e s.). Um trabalho semelhante,
na análise formal da literatura legal do
Velho Testamento, foi feito por Alt, G.
E. Mendenhall, J. J. Stamm e R. Smend;
na literatura histórica, por Alt, Noth e
John Bright; e na literatura profética,
por H. Wildberger, E. Würthwein, Wes­
termann, H. W. Wolff e H. Reventlow.
As vantagens mais expressivas desta
útil abordagem são: (1) que ela nos capa­
cita a ver o Velho Testamento em sua
forma mais básica, embrionária e (2) que
ela, muitas vezes, faz jorrar abundante
luz sobre passagens em particular, aju­
dando-nos a vê-las em comparação com o
padrão literário mais amplo, tanto den­
tro quanto fora do Velho Testamento, de
que elas fazem parte.
Muitos tipos de literatura e estilos de
composição estão presentes, sem dúvida,
no Velho Testamento, e essas Introdu-
ções-padrão ao Velho Testamento, como
as de Eissfeldt, Bentzen, Weiser e Foh-
rer, apresentam listas extensas. Contudo,
com o objetivo mais geral que temos em
vista, consideraremos três categorias:
poesias, prosa e declarações formais de
estado e de culto.
Aproximadamente um terço do Velho
Testamento consiste de poesia. Esta
137
poesia está delimitada por formas cuida­
dosamente reguladas, que variam sur­
preendentemente pouco, mesmo no de­
correr do período de tempo que levaram
a composição e a compilação do Velho
Testamento. Estas formas são formas
compartilhadas, aparecendo também na
poesia dos vizinhos dos hebreus — cana-
neus, babilônios e egípcios. Ê o conteúdo
da poesia hebraica, e não a sua forma ou
estilo, que é peculiar, mas o estilo é
importante, porque descreve e ajuda a
interpretar o seu conteúdo. O poeta
hebreu não era livre, como os poetas de
hoje em dia, para improvisar formas
novas e originais; a forma que a sua
poesia assumia era ditada, em grande
medida, pelo assunto que ele ia abordar.
Ê por esta razão que o isolamento e
análise da forma poética hebraica pro­
piciaram tanta ajuda para o entendi­
mento do Velho Testamento.
A característica interna mais impor­
tante da poesia hebraica é, felizmente,
uma característica que não se perde com
a tradução. É pelo ritmo do pensamen­
to, ou paralelismo, que uma segunda
linha reforça, mediante a repetição, de
alguma forma, a idéia da primeira li­
nha. Há algumas elaborações complica­
das deste princípio básico, mas a teoria
básica permanece virtualmente a mes­
ma. 14
O reconhecimento deste artifício é
básico para se entender a poesia do Ve­
lho Testamento, mas é um dos artifícios
poéticos mais óbvios de todos e reaparece
no decorrer de toda a poesia hebraica.
A métrica e artifícios como rima e ono­
matopéia são muito mais complicados,
sendo claro que são intraduzíveis. Eles
são importantes para o especialista em
hebraico, para quem eles são recom­
pensadores por si mesmo e para quem
eles muitas vezes propiciam chaves úteis
a respeito de problemas textuais.
14 Veja, por exemplo, Salmos 24:1*3, onde cada versículo
sucessivo contém a mesma idéia duas vezes. Ou cf.
Provérbios 14:28, Saimos 14:1,2, Isaías 1:3, para en­
contrar variações deste principio.
De importância ainda maior para o
estudo geral do Velho Testamento, con­
tudo, é o estudo das formas externas da
poesia hebraica. O isolamento e análise
dos tipos de poesia lança muita luz sobre
cada tipo separado como espécie, cada
poema separado dentro de uma dada
espécie, e, sem dúvida, sobre a poesia
como substrato substancial do texto do
Velho Testamento.
Parte da poesia do Velho Testamento
consiste de cânticos de muitos tipos: cân­
ticos de trabalho (Núm. 21:17,18),15
cânticos de amor (Cant. 2:8-14), cânticos
de batalha (Juí. 5:2-31), cânticos para
funerais (II Sam. 1:19-27), cânticos para
ocasiões festivas (Is. 22:13), cânticos de
zombaria e escárnio (Núm. 21:27-30).
Ela apresenta muitos “ditados” : provér­
bios folclóricos (Ez. 18:2), enigmas (Juí.
14:14), fábulas (Juí. 9:8-15), aforismos
(Prov. 11:22), lições sucintas dos sábios
mestres de Israel (Prov. 1:7).
Além disso, há a poesia do culto,
uma coleção espalhada por todo o Velho
Testamento e que constitui a maior por­
ção da poesia do Velho Testamento. Nes­
ta poesia religiosa encontram-se: as fór­
mulas sacerdotais de ritual sacrificial
(Lev. 9:1-4) e de bênção (Núm. 6:24-26),
de maldição (Deut. 27:15-19), os orá­
culos (Is. 14:28-32) e partes dos sermões
dos profetas (Am. 3:3-11), os grandes
hinos de louvor dos salmos confessionais
em responsório (Sal. 95:1-7), os poemas
de lamentação e declaração de fé indi­
viduais (Sal. 13) e uma variedade de
hinos e salmos para ocasiões especiais
(Sal. 45, celebrando um casamento real).
Cada um desses tipos poéticos tem
uma forma exclusivamente sua, que é
facilmente reconhecível e geralmente
varia apenas um pouquinho em suas
várias ocorrências. O estudo de uma
dada forma, em seu uso repetido, lança
grande luz não apenas sobre a forma
15 £ claro que os exemplos podem se multiplicar, mas só
um é apresentado a respeito de cada tipo, devido às
limitações de espaço.
138
como padrão, mas também sobre os
poemas, individualmente, que usam essa
forma.
Da mesma forma, esse estudo compa­
rativo do estilo literário não tem sido
restringido à literatura poética do Velho
Testamento. Embora as formas poéticas
sejam mais fáceis de identificar, o uso
deste mesmo processo revelou padrões
literários que se repetem também na
prosa do Velho Testamento. O tipo lite­
rário mais usado em prosa é a narrativa,
que, por seu turno, é subdividida em
variegadas formas de narrativa, como as
que descrevem os primórdios dos povos
(Gên. 27) e suas instituições (Gên. 28:
10-22); as que preservam fábulas (II Reis
14:9) e histórias populares (Juí. 15:1-8);
e as que recontam a história de maneira
mais oficial (II Sam. 9-20).
Tipos de prosa mais curtos existem nos
discursos de políticos (II Sam. 15:1-6);
nos sermões dos sacerdotes e profetas
(Deut. 4); nos documentos sociais e co­
merciais, como cartas (I Reis 21:8-10);
nos contratos (I Reis 5:2-9); em genea­
logias (Gên. 5) e relações de pessoal (II
Sam. 8:15-18); nos comentários edito­
riais (Jer. 1:1-3), porém mais do que tudo
no que pode ser chamado de declara­
ções formais que dizem respeito ao esta­
do e culto. A esta categoria pertencem a
literatura legal extensa do Velho Testa­
mento, os regulamentos e instruções do
culto, as notícias e editos reais, as leis da
terra e os mandamentos de Deus. Aqui,
também, cada tipo tem a sua forma
distinta; e aqui, também, o tipo de con­
teúdo dita a forma a ser empregada.
3. Análise Histórico-Tradicional da Li­
teratura do Velho Testamento
Uma terceira abordagem ampla do
estudo contemporâneo do Velho Testa­
mento combina os resultados da pesquisa
de fontes e da análise de formas, em uma
tentativa de chegar a uma história lite­
rária do Velho Testamento. A preocupa­
ção, aqui, é estabelecer o Velho Testa­
mento em seu contexto histórico e, usan­
do todas as evidências disponíveis, re­
construir a sua biografia seqüencial.
Basicamente, a questão, neste caso, é
a autoria, mas a resposta é muito com­
plexa, no caso do Velho Testamento. Ela
precisa se preocupar com a origem do
conteúdo e das formas em que este con­
teúdo é expresso, o tempo e as circuns­
tâncias da composição das várias partes
do Velho Testamento e a sua compilação
na ordem de livros que conhecemos. E,
também, esta questão não pode ser res­
pondida de forma tradicional, pois o
Velho Testamento é produto de vários
autores, dos quais não poucos perma­
neceram completamente anônimos.
Muito trabalho útil tem sido realizado
pelos eruditos, no sentido da reconstru­
ção de uma história literária do Velho
Testamento, e este trabalho pode ade­
quadamente ser chamado de contem­
porâneo, visto que a maior parte dele tem
sido feito neste século. Estes esforços
podem ser associados, antes de tudo,
com Hermann Gunkel e Hugo Gres-
smann, que enfatizaram o estudo das
formas e temas literários do Velho Testa­
mento em relação ao seu contexto do
Oriente Próximo antigo. Edificando
sobre esta pesquisa e utilizando as exten­
sivas descobertas da arqueologia bíblica
moderna, eruditos como Johannes Hem-
pel, Otto Eissfeldt, Martin Noth, Ger-
hard von Rad, Gustaf Hõlscher, Adolphe
Lods, Artur Weiser, e, ainda mais recen­
temente, H. H. Rowley, A. Robert, A.
Feuillet, P. Auvray, G. W. Anderson, S.
Sandmel, L. Rost, e G. Fohler procura­
ram recuperar a “situação vivencial” dos
escritos do Velho Testamento.
Estes eruditos traçaram a história da
literatura do Velho Testamento desde
um estágio pré-literário, onde ele existia
em tradições orais sucintas, através de
um estágio intermediário e verdadeira­
mente literário de composição escrita,
até um estágio final de composição edito­
rial. Desde o início deste processo e
139
através de seu desenvolvimento, a influ­
ência dos povos e nações de quem surgi­
ram os israelitas e com quem eles convi­
veram, pode ser facilmente reconhecida.
Porém desde o início a estampa distintiva
de um povo cujo espírito tutelar era a
presença de seu Deus pode ser desco­
berta, moldando o conteúdo e utilizando
a forma e o estilo com propósitos mais
elevados e com declarações mais pro­
fundas.
Desde o princípio da transmissão e da
composição por escrito, a mão anônima
do editor é verificada, arranjando, rear-
ranjando, propiciando cenário e contexto
e, algumas vezes, declarando aquela
verdade de maneira diferente. A primei­
ra tarefa desses editores, segundo se
pensa, era coletar e preservar, na melhor
forma possível, o que chegara às suas
mãos. Mas eles também sentiam profun­
damente a necessidade de tornar a he­
rança literária tão significativa e rele­
vante quanto possível, para a sua época,
e, com esta preocupação, algumas vezes
eles tornavam o texto mais difícil para as
gerações posteriores.
Obviamente, também é verdade que
esse texto em crescimento algumas vezes
se tomou inadvertidamente complicado,
por causa de erros dos copistas e da
transmissão, e mesmo devido à perda de
uma parte de um manuscrito. Em alguns
casos, o material dado aos escribas, para
copiar, estava mal organizado ou mes­
mo em forma fragmentária. Este é o
caso, sem dúvida, especialmente dos
livros proféticos, cuja freqüente desor­
dem muitas vezes os toma muito difícil
de entender.
É precisamente por estas razões que o
estudo contemporâneo do Velho Testa­
mento tem-se preocupado tanto com a
história da literatura do Velho Testa­
mento. E, embora essa . preocupação
tenha significado muito trabalho esta­
fante, ela continua a pagar grandes divi­
dendos em termos de compreensão do
texto. Além disso, o resultado final deste
estudo tem salientado a natureza pro­
videncial da composição e da preservação
do texto do Velho Testamento, como
também tem revelado a riqueza do Velho
Testamento em muitas dimensões novas.
Finalmente, não pode ser esquecido
que as abordagens do estudo do Velho
Testamento esboçadas acima são ferra­
mentas empregadas com um propósito.
Esse propósito é uma melhor compreen­
são do Velho Testamento que temos.
Para conseguir esse entendimento, sem
dúvida, é necessário considerar o Velho
Testamento em suas partes constituintes:
as mais amplas fontes literárias, os livros
que as contêm e as unidades menores que
compreendem os livros.
Porém o Velho Testamento é um livro
por si mesmo. Além do mais, o arranjo
do texto na forma em que o recebemos
tem também um objetivo. Por ilumina-
dor que continue a ser o estudo das
fontes individuais e das formas literárias,
precisamos ao mesmo tempo ter em vista
o texto todo como um produto final. Da
mesma forma como as pessoas que com­
puseram as tradições orais e as que com­
puseram as fontes escritas foram inspira­
das, também o foram os compiladores e
editores que deram ao nosso Velho Tes­
tamento a sua forma atual.
III. As Abordagens do Significado
do Velho Testamento
Armados com as informações a res­
peito do que é o texto do Velho Testa­
mento, como ele veio a existir e o que ele
diz, a nossa abordagem final do estudo
do Velho Testamento é concernente ao
que o texto significa. Esta correlação é
manifesta, sobretudo, em duas direções:
(1) o significado do texto para os que o
compuseram e para os seus contemporâ­
neos, e (2) o seu significado para o
homem hodierno. Algumas vezes, nesta
busca, uma consideração acerca do que o
texto significou, através da História,
para as pessoas que o leram e estudaram
140
é de grande valia. E é sempre de interes­
se, porque o Velho Testamento é uma
parte tão grande de nossa Bíblia, é uma
consideração do seu significado para o
homem em todas as épocas.
1. O Significado da Adoração no Velho
Testamento
Durante a segunda metade do século
passado, e até o primeiro quarto do
atual, havia muito interesse entre os estu­
diosos do Velho Testamento quanto à
natureza e à história das instituições reli­
giosas de Israel. O fascínio contemporâ­
neo pela teologia do Velho Testamento,
que pode convenientemente ser datado
desde o aparecimento, em 1933, do pri­
meiro volume da Theologie des Alten
Testaments, de Walther Eichrodt, eclip­
sou esse interesse. Contudo, recente­
mente surgiu um novo interesse pela
religião do Velho Testamento. Embora
nenhum outro erudito tenha tido influ­
ência tão profunda, sobre este reaviva-
mento, quanto Sigmund Mowinckel,
muitos outros fizeram importantes con­
tribuições a ele. Entre estes encontram-se
R. de Vaux, H. J. Kraus, H. Ringgren,
Th. C. Vriezen e H. H. Rowley, que
publicaram obras importantes, a esse
respeito, desde 1960.
Embora seja verdade que estes erudi­
tos, necessariamente, estão interessados
na história da religião do Velho Testa­
mento e nas suas formas de adoração,
eles estão também muito ocupados com o
seu significado para a fé israelita e para a
compreensão bíblica contemporânea.
Desta forma, a abordagem do signifi­
cado da adoração do Velho Testamento
procura isolar, dos períodos aos quais
elas estão subordinadas, as formas de
adoração do Velho Testamento. Feito
isto, o significado destas formas é consi­
derado como chave para uma compreen­
são mais profunda do povo que as empre­
gou e de sua concepção do Deus a quem
ele dirigia o seu culto.
Tal estudo precisa, indubitavelmente,
considerar assuntos como os lugares,
rituais, pessoal envolvido, regulamentos,
tempos, cerimônias especiais, equipa­
mento, música e literatura da adoração
do Velho Testamento, com referência
aos antecedèntes e circunstâncias do Ori­
ente Próximo antigo. Acima de tudo,
entretanto, precisa considerar a base ló­
gica desta adoração.
Ésse estudo não pode, também, ser
feito apenas uma vez, e ser aplicado em
seguida a todo o Velho Testamento. Vis­
to que tão grande espaço de tempo se
passou e tanta diferenciação de circuns­
tâncias aconteceu, o estudo precisa ser
feito em relação ao seu contexto, e depois
reunido em uma revisão da evolução
contínua de uma religião viva. Porém,
quando isto for feito, as formas de ado­
ração do Novo Testamento e, depois, as
nossas formas de adoração, hoje em dia,
assumirão dimensões novas e emocio­
nantes de significado.
2. O Significado da Fé do Velho Testa­
mento
Uma segunda abordagem do signifi­
cado do Velho Testamento refere-se ao
significado de sua teologia ou fé. O obje­
tivo dos eruditos, aqui, é descobrir, do
texto do Velho Testamento, que é a
afirmação da fé do homem hebreu, o que
essa fé na verdade era.
Não poucos eruditos têm dado impor­
tantes contribuições a esta abordagem,
mas os mais importantes de todos eles
são W. Eichrodt e G. von Rad. Eichrodt,
em particular, teve uma influência for­
madora sobre a exposição contempo­
rânea da fé veterotestamentária; mas o
impacto da principal obra de von Rad,
dois volumes da qual foram publicados
em 1957 e 1960, respectivamente, tam­
bém é crescentemente evidente. Espe­
cialmente valiosas também são as pes­
quisas, a respeito deste assunto, feitas
por H. H. Rowley, E. Jacob, Th. C.
141
Vriezen, R. C. Dentan, G. E. Wright,
G. A. F. Knight e Norman Porteous.
Estes eruditos reconhecem que o estu­
do da teologia do Velho Testamento pre­
cisa, antes de tudo, se concentrar na
teologia de períodos determinados da
história do Velho Testamento, cada qual
com as suas circunstâncias históricas e
seus problemas. Isto quer dizer que o
pesquisador precisa considerar as teolo-
gias do Velho Testamento, cada qual em
relação à sua própria época, antes de
poder considerar a teologia do Velho
Testamento. Esses estudiosos dizem que,
não obstante, existe uma teologia do
Velho Testamento, da mesma forma
como há uma teologia bíblica mais am­
pla, que ela preconiza (e da qual, sem
dúvida, é parte constituinte).
Em contraste com o estudo da religião
do Velho Testamento, que é concernen­
te, entre outras coisas, à metodologia e à
base lógica da adoração, a teologia do
Velho Testamento se preocupa com a
crença — fé — da forma como ela é de­
clarada e vivida pelo povo de Israel. In­
cluído neste interesse está o conceito de
Deus, que tinha o homem hebreu, à
medida que ele experimentava a auto-
revelação de Deus e também à medida
que ele correspondia a essa revelação.
Desta forma, a teologia do Velho Tes­
tamento trata de assuntos como a natu­
reza de Deus no Velho Testamento — o
que é a pessoa de Deus, quais são os seus
atributos, os seus atos, como ele se torna
conhecido e quais são os seus propósitos
e planos? Neste processo, ela considera
assuntos como os nomes e títulos dados a
Deus no Velho Testamento; as maneiras
como Deus se revela aos homens; o envol­
vimento ativo de Deus no mundo, da
criação em diante; a base das exigências
de Deus sobre o homem; o entendimento
de Deus, manifestado em diferentes
níveis de vida e em épocas diferentes;
e o relacionamento de Deus com toda a
criação e com todos os homens. Em suma,
pode ser dito que a teologia do Velho
Testamento se preocupa, como o seu
nome diz, com as declarações de Deus e
com Deus no Velho Testamento.
3. O Significado da História do Velho
Testamento
O estudo do significado da história de
Israel pode ser chamado de abordagem,
por parte dos teólogos, da história do
Velho Testamento, dependendo da abor­
dagem do historiador, mas ao mesmo
tempo diferente dela. O historiador pro­
cura, primeiramente com base no que o
texto do Velho Testamento diz e utili­
zando as valiosas informações secundá­
rias das fontes extrabíblicas da antigui­
dade e das pesquisas arqueológica e geo­
gráfica, reconstruir a história de Israel.
A história do Velho Testamento é abor­
dada desta forma no estudo contempo­
râneo, e os excelentes livros e artigos de
homens como Albrecht Alt, W. F. Al-
bright, Martin Noth, Johannes Hempel,
Kurt Galling, John Bright e G. W. An-
derson são resultados desta abordagem.
Graças a esse trabalho, agora somos
capazes de dizer que conhecemos bas­
tante da história do povo do Velho Tes­
tamento com um elevado grau de exa­
tidão.
Esta história, todavia, permanece
como história reconstruída e bem dife­
rente, em termos de ênfase básica, da
apresentação que o próprio Velho Testa­
mento faz da história. Em anos recentes,
os eruditos têm dado cada vez mais aten­
ção à história de Israel tal como é regis­
trada pelo Velho Testamento, principal­
mente por causa do que esse estudo
revela a respeito da fé de Israel. C. R.
North contribuiu com um dos primeiros
estudos desse assunto, em 1946, e foi
seguido por uma hoste de estudiosos,
entre os quais se destacam R. C. Den­
tan, Millar Burrows, H. H. Rowley,
G. E. Wright, G. von Rad, R. A. F.
Mackenzie e John Bright. Ultimamente,
também tem havido muito interesse na
ênfase especial e nos estilos da redação
142
da história no Velho Testamento, e fo­
ram publicados muitos artigos e mono­
grafias que tratam do estudo da crítica
da forma da história de Israel.
A abordagem, por parte do teólogo,
da redação da história do Velho Testa­
mento reconhece que a história apresen­
tada no texto do Velho Testamento tem
um propósito mais elevado do que de
fazer reportagem. É uma história com
significado, uma história que apropria­
damente foi chamada de história da sal­
vação. É história teologicamente inter­
pretada, que procura primordialmente
estabelecer o movimento ativo e propo­
sital de Deus na vida de seu povo. Ê uma
história confessional, e, desta forma, é
uma fonte bastante recompensadora, na
busca do significado do Velho Testa­
mento.
4. O Significado da Mensagem Bíblica
Uma quarta abordagem do significado
do Velho Testamento focaliza-se em um
significado que é mais amplo do que o
próprio Velho Testamento. De fato, esta
abordagem abrange o significado do
Velho Testamento para a mensagem
bíblica como um todo e para o homem no
passado, no presente e nas eras futuras.
Esta questão fascinante atraiu conside­
rável interesse para o estudo bíblico con­
temporâneo e provocou não pequena ati­
vidade entre os eruditos do Velho Testa­
mento, em parte por causa de sua rela­
ção com a importante questão da auto­
ridade do Velho Testamento. Ela inclui,
de uma forma ou de outra, quase todas
as abordagens do estudo do Velho Tes­
tamento.
A erudição bíblica recentemente refe-
riu-se a este assunto de maneira gené­
rica, com a ampla designação de “her­
menêutica”, que, essencialmente, abran­
ge a interpretação. Para o Velho Testa­
mento, pode-se dizer que esta interpre­
tação tem três níveis. Antes de tudo, qual
é o significado preciso do texto propria­
mente dito? Literalmente, o que desejava
o escritor dizer à sua própria época? Isto
só pode ser determinado com base em
uma pesquisa gramatical e histórica
cuidadosa.
Em segundo lugar, qual é o significado
teológico do texto em seu contexto? Qual
é a base, na fé, para o que o texto está
dizendo? O que motivou a declaração?
De que forma é ele uma expressão da
teologia mais ampla de que ele faz parte?
A teologia de que o texto se origina é que
apresenta uma importância mais uni­
versal, a mensagem viva da Palavra de
Deus.
Terceiro, qual é o significado do texto
para a teologia bíblica, em relação ao
Novo Testamento, tanto quanto ao Velho
Testamento? É neste ponto, particular­
mente, que o crente precisa focalizar as
abordagens do estudo do Velho Testa­
mento e aplicá-las ao entendimento bíbli­
co. É neste ponto também que a recente
discussão acerca da hermenêutica do
Velho Testamento foi mais acesa e pro­
vocante, visto que há grandes diferenças
de opinião a respeito de como os Testa­
mentos se relacionam. Desta forma, eru­
ditos como G. von Rad e H. W. Wolff
sugerem uma conexão tipológica entre
os Testamentos, representando o Velho
Testamento a prefiguração, o início do
que o Novo Testamento é o fim. W.
Vischer continua sendo o mais completo
expoente do ponto de vista cristológico:
“Em todas as partes a escritura refere-
se apenas a Cristo.” R. E. Brown, J.
Coppens e N. Lohfink têm advogado a
idéia de que o “sentido mais completo”
está por detrás do sentido literal da
Escritura do Velho Testamento. Muito
influenciados por von Rad, eruditos como
W. Zimmerli, G. E. Wright e, até certo
ponto, John Bright, esposam um rela­
cionamento de promessa-cumprimento.
Juntamente com esses estudiosos, ho­
mens como Claus Westermann, B. W.
Anderson, F. Bâumgartel, W. Eichrodt,
Franz Hesse, W. Pannemberg, James
Barr e Daniel Lys escreveram impor­
143
tantes artigos ou livros a respeito do
assunto.
Sem dúvida, é verdade que a relação
entre os Testamentos é muito complexa,
acarretando tanto continuidade quanto
descontinuidade, e, até agora, nenhum
princípio interpretativo sugerido é ade­
quado em todos os pontos. Para uma
adequada compreensão do Velho Testa­
mento, é essencial a honestidade, por
parte do leitor, de permitir que ele fale a
sua palavra de Deus característica.
Igualmente importante para o crente é o
significado da mensagem do Velho Tes­
tamento, em vista da presença, em sua
própria vida, de Cristo como Senhor res­
suscitado. Afinal de contas, é a vinda de
Cristo que cumpre o Velho Testamento e
torna o Novo Testamento verdadeira­
mente novo. Quando, através do exer­
cício de todas as abordagens do texto do
Velho Testamento, o erudito vem a co­
nhecê-lo como ele era, a saber, também o
que ele está dizendo e qual era o seu
significado para os que o ouviram ou
leram em primeiro lugar, então ele pre­
cisa torná-lo pessoalmente seu, fazendo a
descoberta mais proveitosa de todas: o
que é que ele está lhe dizendo, em sua
situação e em sua época? Ê neste pro­
cesso que o estudante começa a conhe­
cer a unidade da Bíblia, que o Velho
Testamento e o Novo Testamento na
verdade são um, e também o que a Bíblia
está dizendo ao homem em todas as
épocas.
Estas, em amplitude e num esboço
resumido, são as principais abordagens
do estudo contemporâneo do Velho Tes­
tamento. Elas requerem longa prepara­
ção e a disciplina de uma mente dedi­
cada. Requerem trabalho árduo e cansa­
tivo — trabalho que, muitas vezes, se
refere aos menores detalhes, até mesmo
às próprias letras do texto. Porém, não se
pode esquecer que estas minúcias, até
essas letras, fazem parte da palavra viva
de Deus. Não se pode esquecer que, neste
texto, desde a época de sua composição,
Deus não cessou de falar.
Desta forma, o estudo do Velho Testa­
mento, manejando as suas ferramentas
com cuidado e honestidade amorosos,
continua na busca de um propósito basi­
camente religioso, um propósito motiva­
do pela mesma força que compeliu os
que iniciaram o longo processo com a
primeira composição. A tentativa per­
pétua é ouvir Deus falando cada vez mais
claramente.
Para Leitura Adicional
AP-THOMAS, D. R. A Primer of Old
Testament Text Criticism. 2® ed.
rev. Philadelphia: Fortress Press,
1966.
AUVRAY, PAUL. “Hebrew and Ara­
maic”, em The Sacred Languages,
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WESTERMANN, CLAUS. Handbook
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WRIGHT, ERNEST e R. H. FULLER.
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bleday & Company Inc., 1960.
145
Gênesis — Êxodo
Gênesis
CLYDE T. FRANCISCO
Introdução
I. O Livro de Gênesis
1. O Título
Este livro é chamado de “Gênesis”
(começo, origem) devido ao título da
Septuaginta grega, seguida mais tarde
peía Vulgata Latina. Esta é a palavra
grega usada para traduzir a hebraica
toledoth (origens, gerações) em Gênesis
2:4a. Os judeus simplesmente o chama­
vam de Bere’shith, primeira palavra he­
braica em 1:1 (no principio). O título em
grego é bem escolhido, pois o livro foca­
liza os primórdios do povo hebraico
(caps. 12-50), tendo como pano de fundo
o cenário das origens do Universo, da ter­
ra e da humanidade (caps. 1-11). Este li­
vro retrata a entrada do pecado no mun­
do, os problemas da primeira família, os
inícios das civilizações antigas e as lutas
iniciais em busca de uma fé.
Não obstante, o seu âmbito vai além de
um interesse em antiguidades. Israel é
apresentado como saindo do seio das
nações, a fim de mostrar que Deus tem
um destino mundial para o seu povo
(12:1 e ss.). No entanto, Israel está sob as
luzes dos refletores do palco do mundo.
Este livro dos começos reflete profunda­
mente os conceitos israelitas sobre o des­
tino dessa nação e do tempo do fim.
Quando os grandes profetas perscru­
taram o futuro ideal, viram Israel entre
as nações, tendo recuperado o Paraíso.
Os escritores do Novo Testamento sem­
pre estavam cônscios do cumprimento do
Velho Testamento na fé cristã. De fato,,
temas apresentados em Gênesis tornam-
se conceitos de importância em o Novo
Testamento: a responsabilidade do ho­
mem diante do seu Criador, a instituição
divina do casamento, a queda do ho­
mem, o julgamento do dilúvio, a salva­
ção pela fé, a vida piedosa como uma
peregrinação e a promessa que aguarda
cumprimento.
2. A Estrutura
Há uma indisfarçável tentativa, neste
livro, de arranjar o seu conteúdo sob o
título: “Eis as origens” ou “estas são as
gerações (toledoth, gerações) de...” Esta
expressão ocorre pela primeira vez em
2:4, mas neste caso vem em seguida ao
material ao qual ela se refere, e não
antes, como nas outras ocorrências. A
sua posição incomum, em 2:4, é, prova­
velmente, devida ao desejo do escritor de
colocar Deus em primeiro lugar na nar­
rativa. De outra forma, pareceria que o
Universo se gerou a si mesmo. Em 5:1,
esta fórmula introduz os descendentes de
Adão, em 6:9 a história familiar de Noé.
Os filhos de Noé vêm em seguida, em
10:1, Sem em 11:10, Tera em 11:27.
As gerações de Isaque (25:19) ocorrem
entre as de Ismael (25:12) e de Esaú
(36:19). Jacó é o último que tem as suas
gerações relacionadas (37:2). Desta for­
ma, o material do livro de Gênesis é
arranjado dentro dos títulos gerais de dez
gerações. Sem considerações quanto à
natureza de suas fontes, ele dá todas as
149
indicações de ter sido, em última análise,
arranjado em um padrão unificado.
3. Gênesis e o Pentateuco
Gênesis não se apresenta por si mesmo
na Bíblia. Desde séculos pré-cristãos, ele
tem sido considerado como o primeiro
livro do Pentateiico. Os judeus o consi­
deravam como parte integrante da Tora
(Lei), e não como um livro separado, e
como o princípio da “Tora de Moisés”.
A referência à autoria mosaica no Tal-
mude (Baba Bathra, fólio 14b) é bem
conhecida. Esta opinião antiquíssima
merece uma análise cuidadosa. Obvia­
mente, os judeus não criam que Moisés
escrevera todo o Pentateuco, pois a Josué
se dá o crédito do relato da morte de
Moisés, nos últimos oito versículos de
Deuteronômio. A referência especial à
“seção de Balaão” certamente reflete
discussões entre os rabis, e talvez Moisés
não fosse o autor desse material, reque­
rendo, desta forma, uma afirmação
especial, da parte das autoridades.
O nome de Moisés não ocorre no livro
de Genesís, exceto nos títulos que apa­
recem modernamente nas versões oci­
dentais. Não há referências específicas à
sua autoria nem no Velho Testamento
nem em o Novo Testamento. Contudo, é
claro que, quando a Bíblia fala na “lei de
Moisés” (cf. Mal. 4:4; Dan. 9:13; Luc.
2:22; At. 15:5), está-se referindo a todo o
Pentateuco, inclusive Gênesis, visto que
os judeus daquela época consideravam
esta parte da Bíblia uma unidade. To­
davia, esta não ê uma declaração irres­
trita de autoria, mas de relacionamento.
O restante do Pentateuco trata do perío­
do em que Moisés viveu, enquanto
Gênesis relata a história da redenção até
um tempo vários séculos anterior à época
de Moisés.
Numerosas passagens indicam o ponto
de vista de um escr >rposterior a Moisés
(cf. 12:6: “Nesst tempo estavam os
cananeus na terra” ; 13:8, a menção de
Hebrom, que não parece assumir esse
nome senão na época de Josué, como em
Jos. 14:15; 15:13; Gên. 22:14: “donde
se diz até o dia de hoje”; 36:31: “antes
que reinasse rei algum sobre os filhos de
Israel”; 40:15: “da terra dos hebreus”).
A relação de Moisés com Gênesis deve ter
sido mais de compilador do que de autor,
e o processo de redação deve ter conti­
nuado depois de sua época, com mate­
rial posto em ordem e adicionado. A
opinião sólida dos escritores bíblicos é
que Moisés é a principal figura da Tora.
Desta forma, qualquer ponto de vista
que procure ser coerente com a deles
procurará a mão de Moisés em Gênesis,
bem como em todo o Pentateuco.
II. Data e Autoria
1. Os Primórdios da Pesquisa Histórica
Por mais de 1.600 anos sustentou-se,
entre os cristãos, que Moisés era o autor
do Pentateuco, e, portanto, de Gênesis.
Contudo, freqüentemente foi evocado o
problema se o livro de Gênesis fora colo­
cado na forma presente depois da época
de Moisés, Irineu (antes de 130 d.C.)
questionou a autoria mosaica dos pri­
meiros cinco livros do Velho Testamento,
e o debate foi continuado por Clemente
de Alexandria, Orígenes, Tertuliano e
Jerônimo.
O eminente erudito judeu Ibn Ezra
(1088-1167) duvidava especialmente que
Moisés escrevera T2:6 ou 22:14. O pri­
meiro ataque concatenado contra a opi­
nião tradicional ocorreu, porém, entre
1650 e 1250, liderado por Hobbes, Spi-
noza e Richard Simon. Em 1753, um
físico francês, Jean Astruc, publicou uma
obra que deu imcio à crítica moderna.
Ele pensava que havia encontrado, em
Gênesis, dois documentos principais, um
empregando, para referir-se a Deus,
Elohim, e o outro, Jeová (por isso cha­
mados “eloístico” e “jeovístico”) e, de­
pois, documentos menores. A Introduc-
tion to the Old Testament (1782), de
Eichhom, fortificou a divisão imaginada
150
por Astruc, aduzindo argumentos oriun­
dos das diferenças de estilo. Astruç e
Eichhron, embora separando Gênesis em
vários documentos, diziam que Moisés
era o autor do Pentateuco. Tudo isto
parecia especulação inofensiva, mas era
o início de uma nova direção na pesquisa
bíblica.
Em 1800, Alexander Geddes decompôs
o Pentateuco em vários fragmentos sem
conexão lógica ou cronológica. Vater
(1802-1805) e Hartmann (1831) ensina­
ram que o Pentateuco consistia de vários
fragmentos breves pós-mosaicos, que
cresceram, até serem combinados em
nosso Pentateuco atual. A ordem e a
unidade das narrativas, contudo, eram
aparentes demais para permitir que uma
hipótese destas ganhasse aceitação.
O caminho para uma nova hipótese foi
aberto por De Wette, que, em 1805,
escreveu um livro que marcou época a
respeito da data em que Deuteronômio
foi escrito, data que ele colocou pouco
antes da reforma realizada por Josias, em
621 a.C. Bleek (1830), Tuch (1838),
Staehelin (1843) e Knobel (1852) perten­
ceram a esta escola. De acordo com esta
hipótese, o documento Elohim formou a
base do Pentateuco sobre que o escritor
da seção Jeová baseou o seu trabalho, ao
fazer ulteriores adições e modificações.
Esta escola também negava a autoria
mosaica.
O suposto documento original, quan­
do separado das chamadas adições jeo-
vísticas, era incompleto, faltando-lhe as
passagens atribuídas ao jeovístico. Além
disso, na seção eloística havia referências
a eventos registrados nas seções atribuí­
das à jeovística. Keil, Hengstenberg e
outros defenderam a unidade e autenti­
cidade do Pentateuco. O termo “Hexa-
teuco” então começou a ser usado, pois o
livro de Josué havia chegado a ser consi­
derado como parte necessária da história
primitiva, visto que continha evidências
desses documentos.
2. A Hipótese Documentária Clássica
Hupfeld (1853) afirmou que, além de
Deuteronômio^ há três composições his­
tóricas na base do Pentateuco, duas
eloísticas e uma jeovística. Desde 1853
até hoje, os eruditos têm insistido em
quatro fontes principais (J, E, D, P).
Esta teoria foi sustentada imediatamente
por Schrader, Noeldeke, Dillman e
outros.
Em 1865, Graf transferiu toda a legis­
lação, como agora se encontra em Êxo­
do, Levítico e Números, para um tempo
subseqüente ao exílio babilónico (586
a.C.). Ele, a princípio, afirmou que as
seções históricas espalhadas através des­
ses livros eram mais antigas, porém
depois as levou, de maneira semelhante,
ao período posterior ao cativeiro. Wel-
Ihausen adotou esta teoria e colocou o
importante documento Sacerdotal em
cerca de 500 a.C. Desta forma há, de
acordo com os eruditos modernos, qua­
tro partes componentes principais do
Hexateuco:
J. Narrativa do décimo século a.C.
(c. 950), escrita em Judá, em que JHWH
(Senhor) é o nome da divindade. Ela é
chamada de javista ou yahwista. O autor
é considerado como patriótico e é o mes­
tre do estilo de narrativa. E ele que inclui
os detalhes de interesse humano que
tomam tão inesquecíveis as histórias do
Pentateuco. A sua concepção de Deus
é definidamente antropomórfica (cf. a
lista de Driver, de nada menos de 16
verbos, usados, pelo escritor, para des­
crever as atividades de Deus, p. xx e s.).
Esta fonte se encontra em 2:4b-3:26;
6:1-8; 7:1-5,7-10,12,16b,22,23; 8:2b,3a,
6-12,13b,20-22; 9:18-27; 11:1-9; “e
(exceto aqui e ali, um versículo ou dois —
raramente mais alguns versículos — per­
tencem a E ou P)”12; 13; 15; 16; 18; 19;
24; 25:21-34; 26; 27:1-45; 29:2-14; 29:
31-30:24 (a narrativa principal); 44; 46:
28-34; 47; 49; 50:1-11,14 (Driver, p. xii).
E. Narrativa do oitavo século a.C.
(c. 750), por um profeta de Efraim (Rei­
151
no do Norte), usando Elohim (Deus) co­
mo o nome da divindade até Êxodo 3,
quando o nome JHWH (Yahweh) foi re­
velado a Moisés. Depois desta ocorrên­
cia, ambos os nomes são usados para
designar Deus. O autor é chamado de
eloísta (anteriormente chamado de se­
gundo eloísta). Este documento não é
descoberto até Gênesis 15, pois começa
com Abraão. O eloísta tem mais interesse
antiquário do que o autor do documento
J. Para ele, Deus é sublime e majestoso
e é concebido em termos menos antro­
pomórficos do que em J. No entanto, ele
parece mais remoto dos homens. Por­
tanto, mais ênfase é dada em meios se­
cundários de revelação, como sonhos e
anjos.
O eloísta também parece estar mais
cônscio de questões morais do que o
anterior autor de J. Esta fonte se encon­
tra em 15:1,2,5; 20; 21:6-21,22-32a; 22;
1-14,19; 28:11-12,17,18,20-22; 29:1, 15-
23,25-28a,30; 30:1-3,6,17-20a,c,21-23;
31:2,4-18a,19-45,51-55; 32:1; 33:18b-20;
35:1-8; 37:5-11,19,20,22-25a,28a,c,29-
30,36; 40-42 (exceto algumas poucas
passagens isoladas); 45 (com exceções
semelhantes); 46:1-5; 48:1,2,8-22; 50:15-
26.
Os documentos J e E, verificou-se esta­
rem intimamente relacionados em estilo
e espírito e serem mais difíceis de serem
desemaranhados. Afirma-se que eles fo­
ram fundidos em uma narrativa por um
escritor que usava JHWH (Yahweh) para
designar Deus, a quem Wellhausen
chama de jeovista. A narrativa profética
combinada é representada pelo símbolo
JE.
D. Autor de Deuteronômio, cuja mão
também é detectada em partes de Josué;
datado de antes de 621 a.C., durante o
remado de Manassés. Há uma tendência
mais recente de datar as passagens bási­
cas de Deuteronômio em período ante­
rior a Manassés. A fonte D, contudo, não
se acredita que esteja em Gênesis.
P. Escritor (ou escola de escritores)
sacerdotal, que compôs as seções legis­
lativas e a história ligada com as leis;
datado de cerca de 500 a.C. O estilo do
documento P é ineludível. (Cf. Gênesis 1
e o livro de Levítico.) Ele é formal, repe­
titivo, preciso e abstrato na descrição de
Deus. No entanto, é minuciosamente
concretado na descrição de olyetos de
interesse sacerdotal, tais como o taberná­
culo ou métodos de sacrifício. O autor
(ou autores) tinha uma mente legal,
estando interessado especialmente em ge­
nealogias e detalhes estatísticos. Os seus
personagens estão mais afastados da vida
do que os de J e E. Ele difere tanto de
J e E quanto o autor de Crônicas da atitu­
de dos escritores dos livros de Samuel e
Reis. A maior parte do material não
atribuído a J e E é contribuição do escri­
tor sacerdotal (cf. Driver para uma aná­
lise detalhada). O escritor ou escola de
escritores, provavelmente, colocou o
Pentateuco na forma atual, e particular­
mente Gênesis-JVúmeros.
3. Análise da Crítica da Forma
No início do século, a análise de Graf-
Wellhausen sofreu severos ataques da
parte dos eruditos que eram da opinião
de que o Pentateuco se havia originado
de várias tradições orais e escritas. Essas
tradições, ou strata, têm certas afinida­
des naturais de estilo e conceito, que dão
a impressão de documentos. Grande par­
te dessa tradição remonta a épocas con­
sideravelmente anteriores às datas suge­
ridas por Wellhausen. Os escritores do
Pentateuco não inventaram a história,
mas, pelo contrário, escreveram o que
era a tradição do povo hebraico daquela
época, nairativas que haviam sido trans­
mitidas durante séculos.
Os pioneiros neste campo foram Her­
mann Gunkel e Hugo Gressmann, que
enfatizaram as formas estilizadas (Gat-
tungen) através das quais os antigos, ao
se expressarem, revelaram a situação vi-
vencial original que existia na época em
152
que os relatos se originaram. Desta for­
ma, o contexto de uma passagem básica
(perícope) não é apenas o seu contexto
atual, na literatura do Velho Testamen­
to, mas a base original a qual ela perten­
cia. Embora a crítica da forma muitas
vezes difira de Wellhausen, a respeito de
como as fontes J, E e P vieram a existir,
no cômputo geral, o agrupamento de
materiais nessas três categorias ainda
caracteriza essa abordagem. Há muito
menos inclinação, contudo, de se dividir
versículos em fragmentos e crescente
dúvida de que a análise detalhada de
S. R. Driver possa ser seguida ininter­
ruptamente através do livro de Gênesis.
4. Análise Histórico-Tradicional
Tendo como pioneira a obra de Her-
mann Gunkel e Hugo Gressmann, esta
metodologia foi ulteriormente refinada
pelos eruditos escandinavos Ivan Engnell
e Sigmund Mowinckel, bem como por
Albrecht Alt e Martin Noth (Alemanha)
e H. H. Rowley (Inglaterra). Estes eru­
ditos, embora usem a metodologia de
crítica literária e de forma, estão mais
preocupados com a história da literatura
do que com a maneira como ela come­
çou. Eles se concentram em traçar as
origens do material desde o estágio oral,
através do processo contínuo de edição,
até a forma final. Este ponto de vista
final é da maior importância, pois revela
o propósito que está por detrás da Escri­
tura, como ela agora se nos apresenta,
a verdadeira razão por que, afinal de
contas, a narrativa foi incluída na Bíblia
(cf. John I. Durham: “Abordagens Con­
temporâneas do Estudo do Velho Testa­
mento”, p. 87-98 deste volume, para
uma discussão mais detalhada).
5. A Situação Atual
Durante a maior parte do período mo­
derno, os eruditos judeus estavam igno­
rando Wellhausen ou adaptando as suas
interpretações ao sistema dele. Há pouco
mais de uma década, um grupo de cultos
eruditos israelenses começou a atacar a
abordagem de Wellhausen. Yehezkel
Kauffmann1afirmou que o Pentateuco é
pré-exílico, e que a fonte P veio antes da
D. Umberto Cassuto fez um ataque fron­
tal contra a hipótese documentária, em
1941. Nessa obra, ele disse ter destruído
todos os argumentos sobre que se basea­
va essa hipótese. Em 1963, Marvin Pope
revisou a obra dele, com esta observação:
“Embora Cassuto pensasse ter remo­
vido os alicerces da hipótese documen­
tária, ainda há eruditos que não deser­
taram inteiramente dessa estrutura, mas
estão ocupados em remodelar e redecorar
o seu interior.”2
No entanto, deve ser notado que ele
disse que ainda há eruditos que não
desertaram “inteiramente” dessa estru­
tura. Mesmo entre os defensores mais
leais da hipótese, está em andamento
uma revisão total de análise e de datas.
A hipótese documentária não está sen­
do atacada apenas pelos israelitas, mas
muitos de seus dogmas originais estão
sendo questionados, por parte de muitas
outras instâncias.3 Em 1969, Morton
Smith observou que “qualquer revisão
honesta do estado presente dos estudos a
respeito do Velho Testamento precisa
reportar-se ao fato de que não há, de
forma alguma, qualquer moda que esteja
prevalecendo; a verdadeira situação não
tem paralelo no estudo de qualquer outro
grupo de documentos do mundo medi­
terrâneo antigo. O campo é uma cena de
intensa pesquisa, resultando em desa­
cordo generalizado.”4
No entanto, parece ainda haver algum
consenso. Raramente é argumentado,
1 The Religion of Israel (Chicago: University of Chicago
Press, 1960).
2 Journal of Biblical Literature, LXXXII, p. 360.
3 Na escola de Upsala (Suécia), o grupo de eruditos de
Albright (cf. W. F. Albright, From The Stone Age to
Christianity; Garden City: Doubleday & Co., Inc.,
1957); O. Eissfeldt, The Old Testament, an Introduc­
tion (New York: Harper & Row, 1965); e Derek Kidner,
Genesis (“The Tyndale Old Testament Commentaries”);
Downers Grove, Illinois: Inter-Varsity Press, 1968.
4 Journal of Biblical Literature, LXXXVIII, p. 19.
153
por um lado, que Moisésj j ô s Gênesis em
sua forma atual, embora haja grande
controvérsia a respeito da extensão de
sua contribuição. Por outro lado, a for­
ma Clássica da hipótese documentária é
universalmente rejeitada, com os seus
pressupostos hegelianos e sua tendência
em direção à dissecação subjetiva da lite­
ratura em fragmentos. No entanto, mes­
mo Cassuto ou a escola escandinava
precisa postular algo muito semelhante à
posição Jiistôrica crítica tradicional. O
que C. R. North disse, em 1951, ainda
é verdade: “Parece bem claro que, se
enterrarmos os ‘documentos’- precisa-,
remos ressuscitá-los — ou algo muito
semelhante a eles” .5
Nos anos futuros, esta intensiva inves­
tigação dos materiais que formam as
fontes de Gênesis continuará. Conclusões
ulteriores, provavelmente, serão alcança­
das a respeito do delineamento desses
materiais. Novos esquemas de datação
serão sugeridos, tanto para os estratos
originais quanto para os materiais com­
pletos. No entanto, continua sendo ver­
dade que há dois grupos básicos de mate­
riais em Gênesis, que são geralmente
designados como P e J (E como fonte
distinta, e não como uma coleção limita­
da de materiais independentes, é cada
vez mais questionada). Quando esta ter­
minologia é usada, não significa, neces­
sariamente, que Moisés escreveu ou não
esta obra. Há claramente duas maneiras
distintas de a história do passado de
Israel ser contada. Ê necessário que o
estudante perceba a sua presença, não
importa como as date. Neste comentário
de Gênesis, essas fontes primárias, por
causa das conotações ambíguas da ter­
minologia clássica, serão chamadas de
fonte Judia e fonte Sacerdotal. O mate­
rial comumente atribuído a E será ano­
tado como sendo da fonte Israelita do
Norte,
Precisa ser lembrado que o problem
5 The Old Testament and Modem Studj, H. H. Rowley.
ed. (Oxford: Clarendon Press), p. 77.
essencial, no estudo do Pentateuco, não é
a existência de fontes para a sua redação,
mas a sua inspiração e confiabilidade.
No século XVII, Melchior Canus escre­
veu: “Não é tanto o problema material...
se qualquer livro foi escrito por este õu
aquele autor, conquanto que se creia que
foi o Espírito de Deus que foi o seu
a u to r.P o is não importa com que pena
o Rei escreve a sua carta, se é verdade
que ele a escreveu.” 6
III. A Natureza do Material
O livro de Gênesis é dividido em três
partes principais: capítulos 1-11; 12-36;
37-50. Cada uma dessas unidades trata
de um diferente período da história e tem
características distintivas. Os capítulos
1-11 se preocupam com eventos prime­
vos e temas característicos à literatura do
Oriente Próximo antigo. Os capítulos
12-36 se concentram em tradições carac­
teristicamente hebraicas, que não se
encontram em nenhuma outra parte do
mundo, e os capítulos 37-50 contêm a
história inigualável de José, através da
qual há uma perfeita e dramática uni­
dade literária. Cada uma dessas divisões
precisa ser analisada, se quisermos re­
conhecer as suas características salientes.
1. A História Primeva (1-11)
As maiores ênfases desta seção, a cria­
ção e o dilúvio, têm paralelo na literatura
do Oriente Próximo antigo, especial­
mente na da Babilônia (cf. Pritchard,
ANET, para as fontes primárias).
Duas obras literárias da antiguidade
ajudam a lançar luz sobre os padrões de
pensamento de Gênesis:
1) A Narrativa Babilónica da Criação7
Esta narrativa, chamada de Enuma
Elish, começa com estas duas palavras,
6 Briggs, C. A., GeneralIntrodnction to the Study of Hol;
Scripture(New York: C. Scribner, 1899), p. 249.
Para uma discussão mais ampla deste assunto pelo
crit r deste comentário, cf. The Blbllcal World, Char-
v i . Pfesffer, ed. (Grand Rapids: Baker Book House,
’66) p 224-29
154
que em português são traduzidas como
“quando acima” ou “quando nas altu­
ras” . Esta grande epopéia era desconhe­
cida do mundo moderno até os anos
1848-1876, quando Austen H. Layard,
Hormuz Rassam e George Smith desco­
briram fragmentos de sete tabuinhas de
barro, sobre as quais estava escrita esta
história, na biblioteca de Assurbanipal,
rei da Assíria no sétimo século a.C.
Data da Composição. — Não podemos
ter certeza quando este poema foi com­
pletado em sua forma semítica clássica.
Embora as cópias constantes da biblio­
teca de Assurbanipal sejam do sétimo
século a.C., as evidências internas, tanto
de língua quanto de contexto, colocariam
a epopéia original em cerca de 1700 a.C.
Semelhanças com a Narrativa da Cria­
ção no Velho Testamento. — O fenô­
meno mais surpreendente que se apre­
senta ao leitor é a sua conspícua corres­
pondência do esboço. Ambas as narra­
tivas têm a seguinte ordem: caos prime­
vo, vinda da luz, criação do firmamen­
to, aparecimento da terra seca, criação
dos luminares, criação do homem e o
descanso da divindade.
Tem havido muita discussão a respeito
da relação de Tiamate com a palavra
hebraica tehom (abismo) em Gênesis
1:2. Contudo, há muita discordância a
respeito de qualquer relação etimológica
íntima. Parece melhor concluir que
tehom, ao invés de ser derivado de Tia­
mate, se relaciona com uma palavra mais
antiga, da qual ambas derivam.
Todas as evidências confirmam que o
quadro de um universo em três camadas,
na Enuma Elish, se reflete em a narrativa
hebraica. Em ambas as fontes, um fir­
mamento fixo divide as águas acima dele
das que estão debaixo dele. Sob a terra há
as águas do abismo. Desta forma, há três
níveis de água, conservadas em limites
determinados pelo firmamento e pela
terra seca. A palavra hebraica que se
traduz como firmamento tem a idéia de
“algo martelado” como um metal que é
trabalhado. A palavra portuguesa sim­
plesmente significa algo firme ou sólido.
Diferenças nas Narrativas. — Um poli­
teísmo cru permeia a Enuma Elish. Os
primeiros estágios da criação são atri­
buídos à união sexual. De todas as for­
mas os deuses se comportam como os
piores dos seres humanos. Um avô decide
matar os seus netos porque eles pertur­
bam o seu descanso. Inveja e ambição
descontrolada lançam os deuses em cons­
tante torvelinho. Eles chegam a se em­
briagar quando deviam participar de
uma assembléia séria, tendo as suas
mentes claras e alerta.
O contraste no Velho Testamento é tão
aparente que dificilmente é necessário
mencioná-lo. Ali, o Deus de Israel nunca
é retratado com uma consorte do sexo
feminino. Só pronomes masculinos são
associados com a divindade. Até os anjos
são sempre masculinos, ao contrário da
opinião popular. Embora Deus seja re­
tratado algumas vezes em termos antro­
pomórficos, ele nunca é caracterizado
pelos vícios ou pela atividade sexual do
homem. Há uma unidade em sua natu­
reza que não dá lugar para um céu
dividido. Em sua pessoa, ele transcende
toda a natureza, e nunca faz parte dela.
Relação do Gênesis com a Enuma
Elish. — Não há dúvida de que existe
uma relação genética entre as duas nar­
rativas. O problema reside em a natureza
dessa relação. Obviamente, há várias
opiniões. Primeiro, há os que procuram
provar que os babilônios tomaram em­
prestado dos hebreus, mas isto dificil­
mente é provável, porque a epopéia ba­
bilónica é muito mais antiga do que a
forma final da hebraica.
Uma segunda teoria supõe que os he­
breus tomaram emprestado dos habilô-
nios. Esta opinião tem sido muito popu­
lar desde a descoberta da Enuma Elish.
Contudo, as correspondências não são
tão notáveis, ao ponto de tomar essa
conclusão inevitável. Na verdade, é errô­
155
neo sugerir que os hebreus se aproveita­
ram da narrativa babilónica. É bem pos­
sível que tal literatura como a Enuma
Elish tenha sido apropriada pela própria
cultura hebraica. Tendo adotado como
sua a língua cananéia, os hebreus assi­
milaram grande parte da cultura da re­
gião, ao mesmo tempo.
Existe ainda outra posição: Ê provável
que tanto o relato hebraico quanto o
babilónico se tenham originado de uma
fonte mais antiga do que qualquer um
dos dois. De que outra forma pode ser
explicada a diferença de nomes pessoais?
Sabe-se muito bem que o relato sumério
está baseado em uma história suméria
mais antiga. Possivelmente, as duas nar­
rativas estão baseadas em temas antigos
da criação, que remontam à época muito
mais antiga na História. Se isto ocorreu,
séculos de desenvolvimento independente
teriam deixado menos numerosas cor­
respondências do que agora existem.
Uma conclusão mais plausível seria que
os patriarcas levaram consigo uma his­
tória da criação proveniente de antece­
dentes semelhantes aos da Enuma Elish.
Contatos literários posteriores com a
Babilônia modificaram ainda mais o
relato hebraico e influenciaram a sua
abordagem, tornando-a semelhante à
história da criação que então circulava.
Importância Para a Interpretação. —
Comparando-se a narrativa hebraica
com a babilónica, é óbvio que Deus
estava operando na primeira, tanto para
guiar como para inspirar. É igualmente
óbvio que Deus não ditou as passagens
para os escritores da Escritura. Eles ex­
pressaram a revelação que lhes sobre­
veio, nos padrões de pensamento comuns
e significativos para a sua época. Preci­
samos ser livres para expressar a mesma
revelação em termos que vão ao encontro
da nossa geração de homerts, onde quer
que eles vivam. Se a Escritura original
falou, à geração com que se defrontou,
em sua própria linguagem, precisamos
constantemente estar alerta para permi­
tir que ela fale de maneira igualmente
significativa para a nossa.
2) A Epopéia de Gilgamesh: História
Babilónica do Dilúvio
Essa importante narrativa foi escrita,
provavelmente, antes da Enuma Elish e
conta a história de um herói, Gilgamesh,
que sai em busca do segredo da vida
eterna. Ele ouviu falar que certo homem,
Utnapishtim, recebera a vida eterna por­
que preservara a raça humana durante
uma grande inundação. Depois de mui­
tas aventuras, ele encontra o homem,
que corresponde a Noé nos relatos bíbli­
cos. Gilgamesh é informado que Utna­
pishtim conseguira a imortalidade co­
mendo uma planta vivificadora. Depois
de viajar até onde ela ficava, o herói a
arranca e se prepara para comê-la. Po­
rém, cansado de sua longa jornada, Gil­
gamesh mergulha na água para se refres­
car. Então uma serpente sai da água e
devora a planta. Desta forma a imorta­
lidade é perdida para a humanidade para
sempre.
Além da referência à serpente como
agente que privou o homem da vida
eterna, a epopéia de Gilgamesh corres­
ponde intimamente à narrativa do Velho
Testamento, em sua descrição do dilúvio.
Aqui as correspondências com a nar­
rativa bíblica são, obviamente, mais evi­
dentes do que qualquer passagem da
Enuma Elish. É claro que a história
hebraica depende da babilónica, ou
ambas derivam de uma fonte comum.
A última hipótese é mais provável, visto
que os nomes, nas duas histórias, são tão
diferentes. E também as duas versões
diferem fundamentalmente em seus con­
ceitos de Deus. Além disso, na Babilô­
nia, uma antiga história de uma grande
inundação é contada, para descrever as
aventuras de seu herói frustrado; entre os
hebreus ela é contada a fim de testificar
acerca de como o Senhor controla a
História. Como no exemplo da Enuma
Elish, está claro que Deus não contou aos
156
hebreus a história do dilúvio, para que
eles a pudessem escrever. Eles usaram
uma narrativa que já possuíam, para
ensinar o que Deus colocara em seus
corações a respeito de seus tratamentos
para com o homem. Portanto, a inter­
pretação válida precisa fazer distinção
entre a revelação original e o veículo
cultural através de que ela foi expressa.
3) Literal e Figurada?
Quanto de Gênesis 1-11 é figurado e
quanto é literal? Algumas pessoas diriam
que, visto que as narrativas estão na
Bíblia, todas elas devem ser interpre­
tadas literalmente. Não obstante, o leitor
mais casual observará que a Bíblia con­
tém prosa e poesia. Faz parte da própria
natureza da poesia a licença de ela ser
interpretada com imaginação. Inter­
pretar um poema como prosa é fazer
violência à forma de literatura usada por
um escritor inspirado da Escritura.
Igualmente desastrosa é a interpretação
de uma passagem em prosa, como se
fosse poesia. O problema é literário, e
não teológico. A questão importante é
descobrir a forma literária da passagem,
e entendê-la sob essa luz. Se, mediante a
declaração “A Bíblia é literalmente ver­
dadeira”, entende-se que sempre pode­
mos crer no que ela diz, então essa
declaração é verdadeira. No entanto, a
Bíblia nem sempre usa linguagem literal.
Quando Jesus disse que os seus segui­
dores precisam comer a sua carne e beber
o seu sangue, ele não pretendia ser en­
tendido literalmente, e sim, ser levado a
sério.
Todavia, Adão não é tanto um homem
simbólico, como um homem representa­
tivo. Em Gênesis 4 e 5, ele tem filhos, a
quem dá nomes. Gênesis 5 chega a apre­
sentar a sua idade quando morreu. Em
sua tradição, o escritor havia recebido
Adão como o primeiro homem, e ele usa
a história para ilustrar ainda mais a
nossa ascendência comum.
Pelo fato de uma passagem ser consi­
derada figurada, isso não significa que
ela não seja verdadeira. Freqüentemente,
mais profundas verdades são encontra­
das em literatura figurada do que em
literatura literal. O fato de que algo
aconteceu pode não ser tão importante
quanto o que isso significa. Não obstan­
te ambas as coisas são importantes. O
acontecimento é o pino em que está
dependurado o significado. Um casaco é
útil por si mesmo, quer dependurado em
um pino, quer não; mas que utilidade
tem o pino se não for para dependurar
algo nele?
A questão é: Como podemos saber se
uma passagem é literal ou figurada? Há
muitas pessoas que acham mais simples
considerar tudo literalmente, enquanto
outras a interpretam simbolicamente,
quando têm dificuldade em crer nela.
Como podemos ter a certeza de que
forma literária temos diante de nós?
Este problema não é simples, e precisa
ser abordado com toda a humildade,
reconhecendo que temos a responsabili­
dade de reconhecer a natureza do mate­
rial. Todavia, há algumas regras que
ajudam nesse mister. (1) Devemos reco­
nhecer o tipo literário. Se é poesia, ela é
certamente figurada. Algumas espécies
de prosa são figuradas, como as parábo­
las ou alegorias. (2) O escritor pode dizer
claramente que está usando linguagem
simbólica. (3) Se a forma literária é
incerta, devemos tentar primeiramente o
significado literal, mas se ele não é ade­
quado, devemos tentar o figurado. Seja
qual for a chave que abrir a passagem,
provavelmente ela é a correta. No en­
tanto, é necessário ter cuidado, para não
preferir uma interpretação à outra de
maneira distorcida. Não há substituto
para a sensibilidade à direção do Espírito
Santo.
2. O Período Patriarcal (12-36)
O tipo literário básico desta seção é a
história de tradição (saga), que também
157
é ocasionalmente encontrada em 1-11.
Essas narrativas contam fatos, nas vidas
dos ancestrais do povo hebreu, que ha­
viam sido passados aos israelitas. Essas
narrativas geralmente são contadas de
maneira abreviada (tendo em média me­
nos de vinte versículos) e são arranjadas
como pérolas em um cordão. São facil­
mente reconhecíveis, visto que cada nar­
rativa conta uma história completa.
Exemplos notáveis deste tipo literário são
Gênesis 12:10-20 (peregrinação de Abra­
ão ao Egito); 13:2-13 (Abraão e Ló);
15:1-21 (a aliança com Abraão); 20:1-18
(Sara e Abimeleque); 22:1-13 (o sacrifí­
cio de Isaque).
Estas histórias circulavam separada­
mente, e foram coligidas, para o uso, no
livro de Gênesis. Dizer que elas tiveram
um longo período de transmissão não
significa que não sejam narrativas histó­
ricas confiáveis. As velhas histórias no­
rueguesas a respeito de sua descoberta da
América, segundo agora se sabe, preser­
vam a verdadeira história daquele perío­
do. Não há razão para se ver menos
autenticidade nos relatos hebraicos.
Naquilo em que a arqueologia tem sido
capaz de investigar as histórias do Gêne­
sis, a respeito dos ancestrais dos hebreus,
ela tem verificado a sua veracidade.
Agora temos textos aos milhares que são
contemporâneos do período da origem
de Israel: os textos de Mari, do décimo
oitavo século na Babilônia; os textos
capadócios (décimo nono século); os
textos de Nuzi da Babilônia (décimo
quinto século); as tabuinhas de Alalakh
(décimo sétimo e décimo quinto séculos);
e os textos de Execração, do Egito (vi­
gésimo e décimo oitavo séculos).
O conforto das viagens da Babilônia
para Canaã é revelado nos textos de
Mari. Nomes semelhantes aos dos pa­
triarcas são comuns. Os textos de Exe­
cração, do Egito, indicam que a Pales­
tina estava aberta para uma nova popu­
lação, naquela época. O território atra­
vessado por Abraão, em Canaã, não era
uma região de paz em sua época. As
condições sociais das épocas reveladas
nos textos de Nuzi são as retratadas nas
histórias patriarcais, e não as de uma
época posterior (cf. Speiser, p. xl-xliii).
Embora a arqueologia não tenha pro­
vado a existência de Abraão, ela demons­
trou que as histórias a respeito dele têm
um sabor de autenticidade, reforçando,
desta forma, a historicidade das narra­
tivas que se referem a ele. A transmissão
das histórias de Israel, a respeito de seus
primórdios, certamente teve controles
mais fortes do que simplesmente a reci­
tação popular de contos do passado ao
redor de fogos de acampamentos tribais.
Grande parte do material deve ter sido
preservado em santuários, e, desta forma,
a sua integridade foi preservada.
Estas histórias de tradição natural­
mente ostentam a marca de sua origem
na História e de sua transmissão através
dos séculos. O ponto mais saliente a ser
reconhecido, todavia, é de que o escritor
bíblico de Gênesis recebeu essas histórias
em sua tradição, e as usou em seu teste­
munho. Ele não as modificou, para se
coadunarem com a sua época ou seus
conceitos. Tendo recebido as suas reve­
lações de Deus, ele usou as antigas his­
tórias como veículo para expressar a ver­
dade que Deus havia colocado em seu
coração. A interpretação válida de Gê­
nesis precisa distinguir entre a revelação
original e a história usada para expressá-
la. O escritor não supõe um dilúvio uni­
versal; a sua tradição ',á o declara de
antemão.
Até que ponto o acontecimento origi­
nal foi remodelado na transmissão da
tradição? Quão extensivo foi o dilúvio,
realmente? Na verdade, quanto tempo
viveu Matusalém? Estas interrogações
têm a ver com a diferença entre Ges-
chichte (história interpretada) e Historie
(acontecimentoem si). Infelizmente, não
temos as ferramentas críticas para deter­
minar aresposta. Da maneira como o livro
de Gênesis está agora, ele é Geschichte.
Alguns teólogos presumem que ele está
baseado em Historie confiável. Outros
eruditos enfatizam a autoridade dos ensi­
namentos exarados pela passagem, e não
a sua historicidade. A posição deste co­
mentarista, visto que as passagens estão
na Bíblia, cuja autoridade foi verificada
por Jesus Cristo, em seus ensinos e em
sua ressurreição, é que fazemos bem em
presumir a historicidade das narrativas,
até que seja provado, além de qualquer
dúvida (o que ainda não aconteceu), o
contrário; mas também reconhecer que,
se puder ser provado que certas perícopes
não são históricas, a autoridade de seu
impulso básico não será afetada. Elas
assim mesmo continuam sendo o veículo
da revelação, e não a revelação propria­
mente dita — tesouro em vasos de barro.
3. A História de José (Gên. 37:1-50:26)
A história de José é o melhor exemplo
de narrativa histórica de Gênesis. Ela
difere das outras histórias patriarcais
pelo fato de não ser uma coleção mal
alinhavada de tradições independentes,
mas uma unidade dramática, com uma
trama claramente concebida. As prin­
cipais fontes, Judia e Israelita do Norte,
foram tão bem fundidas em uma só
estrutura literária, que é difícil, se não
impossível, desemaranhá-las.
Como de costume, o material Sacer­
dotal é facilmente reconhecido, mas é
fragmentário, e parece ter sido imposto
à narrativa básica. Ele é geralmente
identificado em 37:1,2a; 41:46; 46:6-27;
47:5,6a, 7-11,27b,28; 48:3-6,7; 49:1a,
28b-33; 50:12,13.
No capítulo 38, a história de Judá e
Tamar é claramente uma inserção edito­
rial da tradição Judia, e 49:1-27, a bên­
ção de Jacó, é uma unidade anterior
independente. O restante do material é
a história original de José. A despeito das
dificuldades de análise, várias unidades
têm sido atribuídas a fontes diferentes,
com a alegação de que a diferença do
material anterior reside na presença de
longas seções de cada um, e não de
seções curtas alternadas (cf. Driver,
Skinner, Speiser, von Rad). Desta forma,
todo o capítulo 39 é atribuído à fonte
Judia, os capítulos 40-42 à Israelita do
Norte (exceto 41:46a, Sacerdotal, e 42:
27,28, Judia), e os capítulos 43-44 nova­
mente à Judia. Com exceções de menor
importância, Driver atribuiu o capítulo
45 ao relato Israelita do Norte, mas
Speiser acha impossível separar as fon­
tes, nesta passagem, e designa o material
como JE. Os capítulos 37 e 46-50 são
comumente considerados como compos­
tos, mas, comparativamente, mais fáceis
de desemaranhar.
Os eruditos estão cada vez mais céti­
cos, todavia, a respeito de sua capaci­
dade de separar os materiais das fontes
Judia e Israelita do Norte, na história de
José. O problema é que os critérios usu­
ais para fazer distinção entre os relatos
das fontes Judia e Israelita do Norte não
aparecem aqui: vocabulário, estilo, teo­
logia e o uso dos nomes divinos Yahweh
e Elohim. O nome “Yahweh” (Senhor)
aparece apenas oito vezes, em toda a
seção, e somente em um capítulo (39).
No entanto, o estilo e a teologia deste
capítulo são os mesmos das seções que
usam “Elohim” (Deus). Uma base prin­
cipal para se identificar as duas fontes é o
uso das palavras distintivas (“Israel” na
Judia, “Jacó” na Israelita do Norte e na
Sacerdotal; duas palavras diferentes para
o saco de grãos carregado pelos irmãos).
Os nomes de Israel e Jacó, todavia, são
usados indiferentemente em 46:2 e 48:2.
A palavra judia supostamente exclusiva
para designar o saco de cereal (’amta-
chat) é encontrada no meio de uma re­
conhecida passagem Israelita do Norte
(42:27,28), que introduz a necessidade
de uma separação um tanto arbitrária
desses versículos do restante do capí­
tulo.
O método primário de se distinguir
entre as duas fontes, contudo, é enfatizar
159
as aparentes contradições das duas nar­
rativas — declarações que os expositores
mais conservadores defendem também
fortemente como compatíveis.
Precisa ser admitido que a análise dos
materiais das fontes Judia e Israelita do
Norte, nos capítulos 37-50, está hoje em
um estado de alteração contínua. Sem se
considerar a sua história, o material é
hoje uma unidade tal que precisa ser
tratado como um todo. Esta unidade
pode ser devida, como o suspeita Skin-
ner, e Eissfeldt sustenta, a uma fonte
original, da qual dependem os relatos
Judeu e Israelita do Norte» ou a história
pode ser uma obra literária independen­
te, que, embora sofrendo a influência das
fontes Judia ou Israelita do Norte, não
segue o material de nenhuma delas muito
de perto.
A narrativa de José tem sido avaliada,
por Driver, como satisfazendo, inques­
tionavelmente, os padrões de drama for­
mulados por Aristóteles: “reversão” de
um efeito pretendido e “reconhecimen­
to” pelo herói atribulado. Ela também
é comparada com a história de Ulisses,
contada por Homero, em relação a que,
em muitos aspectos, é superior, em ter­
mos de conceito.
Nesta narrativa, há um tema básico: a
soberania de Deus (45:4 e ss.; 50:19,20),
mas esse tema é seguido por uma história
“secular” , que raramente menciona o
lugar de Deus nela. Não há milagres
propriamente ditos, e, em contraste com
as histórias anteriores, os homens de­
sempenham os papéis principais, com
Deus sempre em segundo plano. No en­
tanto, Deus determina o resultado.
O herói é José, o homem ideal. Como
observa Skinner, ele é “o filho ideal, o
irmão ideal, o servo ideal, o administra­
dor ideal”. Isto entra em agudo contraste
com o retrato geralmente apresentado,
de um patriarca, com todos os seus defei­
tos, bem como com todas as suas virtu­
des. Por que o quadro é tão radical­
mente diferente? T. G. Smothers, notan­
do a correspondência entre as histórias
de José e a literatura de sabedoria, tanto
em termos de vocabulário, quanto de
pontos de vista, chegou à conclusão de
que a história fora, obviamente, contada
como instrumento de ensino, para co­
municar, em forma de narrativa, os pa­
drões morais do homem sábio.8 As vir­
tudes básicas ensinadas pelo livro de
Provérbios são encontradas aqui nas
histórias de José: sabedoria, temor do
Senhor, respeito pelos anciãos, auto-
disciplina e paciência.
Este uso da narrativa explicaria por
que José sempre se conduziu de maneira
tão exemplar. A história era contada a
fim de encorajar comportamento seme­
lhante. Contudo, há nuanças que não
devem ser ignoradas. O mexerico de José
para o seu pai não era uma característica
nobre nem o foi o seu casamento com a
filha de um sumo sacerdote egípcio, mas
isso foi deixado para as gerações poste­
riores discernirem.
A história de José, especialmente o
capítulo 41, revela um surpreendente
conhecimento dos costumes e da cultura
egípcia, que só podiam ter vindo de uma
tradição autêntica, talvez do próprio
Moisés (cf. comentários sobre 50:1-14).
O escritor, conhecendo de alguma forma
que Faraó e sua corte se barbeavam
totalmente, fez com que José se bar­
beasse (cabelo e barba) antes de entrar
na presença de Faraó. O posto que Faraó
deu a José, agora se sabe ter sido o ofício
típico de vizir (41:43). O vizir era cha­
mado de o “portador do selo do Rei”, e
a José foi dado o selo real (41:42). Outro
costume egípcio era o presente de uma
corrente de ouro. Os nomes associados
com a família em que José se casou são
tipicamente egípcios (41:45). O grito de
“Abrek” diante de sua carruagem é tão
egípcio que nem os eruditos hebreus
nem os arqueólogos modernos têm certe­
8 “The Joseph Narrative and Wisdom” (tese n&o publi-
cada: The Southern Baptist Theological Seminary,
Louisville, Ky., 1964).
160
za quanto ao seu significado. Em 41:1-8,
há três palavras emprestadas do egípcio,
traduzidas como “Nilo”, “carriçal”
(“canas”, na tradução Novo Mundo) e
“adivinhadores”9,.
Quem era o Faraó diante de quem José
apareceu, aquele que “conhecia José”?
0 indício mais forte é o fato de que, em
41:39, ele se referiu a Deus com reve­
rência óbvia. Os faraós egípcios nativos
se consideravam como deuses. Isto suge­
re que este faraó, provavelmente, era um
governante hicso (c. 1720-1750 a.C.).
pois esses governantes hicsos eram es­
trangeiros, de origem semelhante à dos
hebreus. Isto também explicaria a sua
cordialidade para com José e sua família.
Os dados cronológicos do Velho Testa­
mento favorecem esta era (cf. Êx. 12:40;
1Reis 6:1).
Porém, tanto as evidências arqueo­
lógicas modernas quanto os dados genea­
lógicos do Velho Testamento (cap. 46;
Êx. 6; Núm. 26) favorecem uma data
posterior, durante a era Amarna (c.
1417-1362 a.C.). (Veja o comentário so­
bre Êxodo, neste volume, para discussões
mais detalhadas.)
Speiser (p. 316) é exato, quando obser­
va que “a narrativa que está diante de
nós fornece uma base fraca demais para
que dela tiremos uma dedução histó­
rica” . Isto também pode ser dito em
relação às evidências arqueológicas. O
debate continua, sem amainar.
IV. Interpretação do Livro de
Gênesis
Quando um homem diz que crê que a
Bíblia é a Palavra de Deus, isso pode
significar muito pouco. A questão básica
é o método usado para interpretá-la. É
bem comum o povo ler na Bíblia o que
realmente crê ou obter dela o que deseja
ouvir.
9 Cf. J. Vergote, Joseph en Egypte (Louvain, 1959), para
uma discussão completa a respeito dos elementos egí­
pcios autênticos dessa história.
1. Metodologia Errônea
Na história da Igreja, foram usadas,
prejudicialmente, muitas abordagens de
interpretação, mas algumas delas apre­
sentam mais perigos do que valor posi­
tivo.
Alegoria. O verbo grego que significa
alegorizar originalmente quer dizer “fa­
lar diferentemente”. Uma alegoria, por­
tanto, é um discurso figurado, em que as
idéias abstratas são personificadas. Onde
há alguma alegoria na Bíblia, como em
Juizes 9:7 e ss. ou Ezequiel 16:1 e ss., ela
deve ser interpretada como tal. A refe­
rência, feita por Paulo, em Gálatas 4:21
e ss. tem encorajado o uso do método
alegórico. Neste exemplo, Agar era um
símbolo, e o Monte Sinai, outro. Paulo
diz ao povo que não são filhos de escra­
vos. No versículo 24, ele diz: “O que se
entende por alegoria.” O método alegó­
rico ignora o contexto histórico de uma
passagem. Embora Paulo use aqui o
método rabínico, ele não ignora o con­
texto. Allegoroumena não é um substan­
tivo, mas um particípio. Paulo disse:
“Isto é falar em outro sentido.” Ele
admite, com esta expressão, que não está
apresentando o significado histórico lite­
ral da passagem, mas procurando encon­
trar a idéia principal aplicável. Ele não
nega o fato de Agar nem o fato do Monte
Sinai, mas procura descobrir o significa­
do básico, ao dizer: “De modo algum o
filho da escrava herdará com o filho da
livre.” Ele cria uma alegoria, em vez de
interpretar a passagem como alegoria.
Ao alegorizar, a Bíblia torna-se, por
toda parte, a serva de seu intérprete.
Gênesis 14 é tão significativo para nós
quanto Mateus 1. Se alguém alega que
todo o Velho Testamento é alegórico,
então palavras encontradas em qualquer'
parte da Escritura são tão importantes
quanto as encontradas nas outras partes.
Onde o sentido histórico de uma passa­
gem é negligenciado, não pode haver
nenhum princípio regulador válido que
governe a sua interpretação.
161
Espiritualização. Neste método de
interpretar as Escrituras, a pessoa tam­
bém ignora o seu sentido histórico, ten­
tando ler verdades neotestamentárias no
Velho Testamento. Tertuliano, ao fazer
comentário a Amós 2:6 — “Vendem o
justo por dinheiro, e o necessitado por
um par de sapatos” — disse que esta era
uma predição feita por Amós de que
Judas iria vender Jesus por um preço.
Na Epístola de Bamabé, que foi escri­
ta em cerca de 100 a.C., o escritor, ao
referir-se a Gênesis 14, disse que os 318
homens treinados (que se escreve TIE em
grego) representam a cruz. O “T” era a
cruz, e o “IE” (as duas primeiras letras
do nome de Jesus em grego) prediziam
que Jesus iria morrer na cruz. Ser culpa­
do de espiritualizar é fazer do Velho
Testamento um enigma, para o qual
supostamente o Novo Testamento supre
a resposta.
Tipologia. O tipo (cópia, figura), da
maneira como é visto pelo tipologista
costumeiro, é um desvendamento divi­
namente planejado, de eventos futuros,
revelados em uma pessoa, lugar, acon­
tecimento, objeto ou instituição. Por
exemplo, Abraão é figura ou tipo de
Jesus. Em Hebreus 9:23 e ss. e em He­
breus 10:1, não podemos negar a apli­
cação prática desta teoria. Mas o povo de
Gênesis não era simples figura. Eles
eram pessoas reais. Contudo, há outra
tipologia, que é mais realista. A idéia que
é a princípio apenas implícita, mais tarde
se torna clara. Há uma definida seme­
lhança de impulso, quando o primeiro e
o segundo exemplo são comparados. Von
Rad emprega uma abordagem seme­
lhante, em seu comentário a Gênesis.
Apogese. O estudante deve tomar cui­
dado com a falácia da eisegese, isto é, de
ler na Escritura o que realmente não está
ali, mas também deve tomar cuidado
com um erro ainda mais mortal, que
podemos chamar de apogese, isto é,
deixar de tirar da passagem o seu verda­
deiro significado. Embora a erudição
histórica tenha advertido corretamente
contra o primeiro erro, ela tem dema­
siadas vezes se caracterizado por ser
useira e vezeira do segundo. É signifi­
cativo que Jesus nunca advertiu os ho­
mens a respeito do perigo de verem mais
dele no Velho Testamento do que está
ali, mas de verem menos: “Õ néscios, e
tardos de coração para crerdes tudo o
que os profetas disseram!” (Luc. 24:25).
2. Uma Hermenêutica Bíblica Básica:
Princípios de Interpretação
O único corretivo confiável para os
erros a que os métodos acima citados
estão sujeitos é uma exegese sadia, histó­
rica. Deve-se tentar entender as Escri­
turas em seu contexto original.
Reconhecer a Situação Vivencial. — A
Escritura precisa ser estudada a fim de se
descobrir o que ela significou para a sua
própria geração. Só depois que aprende­
mos o que ela disse ao povo de sua época,
ela pode falar a nós com clareza. Este
pressuposto está por detrás de todos os
estudos históricos minuciosos deste co­
mentário. Isto é verdade especialmente
em relação aos fatores sociais e econô­
micos. Sabemos muito a respeito dessas
condições durante a época dos patriar­
cas, pois os registros antigos dos babilô­
nios, cananeus, egípcios, hititas e huria-
nos têm sido recuperados aos milhares. É
especialmente importante localizar os
patriarcas na época em que viveram, pois
seria irreal julgá-los pelos padrões morais
que passamos a reconhecer pela lei de
Moisés, que veio muito mais tarde, e
especialmente pelos padrões cristãos.
De acordo com Speiser (p. xl), quando
Abraão anunciou que Sara era sua irmã,
ele não estava meramente protegendo-se,
estava também estabelecendo os direitos
de sua esposa. Pela lei huriàna, uma
esposa gozava de proteção especial se
fosse declarada irmã de seu marido, quer
isso fosse verdade, mediante as linhagens
sanguíneas, quer não. Semelhantemente,
ele assevera que era costume aceito um
162
pai declarar em testamento o direito de
primogenitura para um filho favorito,
quer ele fosse o mais velho, quer não.
A sugestão de Sara para que Abraão
mantivesse relações sexuais com a sua
escrava também era costume comum da
época. A criança seria o filho legal da
esposa principal. O fato de Abraão ser
instruído a sacrificar o seu filho Isaque
deve ser visto à luz dos padrões éticos da
época. Por esses é que ele deve ser julga­
do. Sem dúvida, os homens de hoje em
dia não gostariam de ser julgados pelos
padrões e pela consciência mais fina­
mente sintonizada de amanhã. Julgados
pelos padrões de sua época, os patriarcas
saíram-se muito melhor do que a maioria
de nós, que, a despeito de nosso conhe­
cimento mais amplo, não nos elevamos
tanto.
Identificar a Forma Literária. — Só
depois que o tipo de literatura é identi­
ficado é que a literatura pode ser adequa­
damente interpretada (cf. comentários
acima, a respeito das três principais
partes de Gênesis). Se uma passagem
tem o objetivo de ser figurada, e nós a
interpretamos literalmente, pecamos con­
tra ela. Sobretudo, se ela é história, e nós
a espiritualizamos, erramos de maneira
semelhante. O tipo literário é o veículo
da revelação. Se o seu caráter funda­
mental for ignorado, nunca poderemos
abrir a porta, e descobrir o seu tesouro.
Descobrir o Motivo. — Embora cada
palavra, em uma determinada perícope,
seja importante e contribua para uma
compreensão do significado, o propósito
do intérprete deve ser descobrir a preo­
cupação primária da passagem. Isto é
feito de maneira mais perfeita verifican­
do-se o que ela significava em seu ambi­
ente original. Para quem ela foi escrita, e
por quê? O que ela dizia àquelas pes­
soas? Quando as respostas destas inter­
rogações são definidas, as chaves do
ímpeto básico são difíceis de ignorar.
Contudo, quando há pequena concor­
dância, entre os eruditos, a respeito do
ambiente original, pode-se ainda per­
guntar: Não importa a quem foi escrita
ou quando, qual é o objetivo essencial da
passagem? Fazer esta pergunta é evitar
demorar-se demasiadamente em concei­
tos periféricos, e colocar-se na torrente
central da revelação bíblica.
É óbvio, por exemplo, que o motivo de
Gênesis 1 é que Deus fez o homem à sua
própria imagem, para representá-lo
neste mundo. Os que são versados em
ciência precisam debater a importante
questão de Gênesis e a ciência. A pessoa
comum fará bem, entretanto, em escutar
com atenção o debate, mas depois rela­
cionar o problema ao ímpeto de Gênesis
1: Não importa como ou quando o ho­
mem foi criado, Deus o criou, e o homem
é responsável diante de Deus pelo que faz
com a sua vida. Os cientistas podem
saber mais acerca do mundo natural do
que o escritor de Gênesis, mas assim
mesmo eles são responsáveis diante do
Deus desse escritor.
A principal ênfase deste comentário se
centralizará no ímpeto básico de cada
perícope. Os assuntos críticos históricos
serão enfrentados realisticamente, mas
não se permitirá que um exame deles
obscureça o significado mais importante
de uma passagem. Pelo contrário, tais
estudos serão realizados a fim de ajudar
o leitor a entender a mensagem.
V. Os Ensinamentos Religiosos de
Gênesis
1. Importantes Contribuições das Fontes
As três fontes básicas de Gênesis va­
riam em sua ênfase a respeito da natu­
reza de Deus. A narrativa da fonte Judia
fala de Deus em termos altamente antro­
pomórficos: Ele forma o homem com as
suas mãos como um oleiro molda o bar­
ro; ele faz Eva de uma costela tirada de
Adão; ele anda pelo jardim na viração do
dia; ele “desce” para ver a torre de
Babel. Não obstante, ele é ta m b é m o
Deus da criação e o Senhor da História.
163
Não se pode cometer o erro de supor
que estas descrições podem ser coloca­
das de lado, como irrelevantes para a
nossa era mais sofisticada. A ênfase é
exercida vigorosamente sobre o relacio­
namento íntimo que pode haver entre
Deus e seu povo. Ele não é o “movedor
inamovível” da filosofia grega, mas o
Criador que se preocupa com o seu mun­
do e que está intimamente envolvido em
tudo o que está acontecendo aqui.
A fonte Israelita do Norte é menos
extensiva do que a Judia e muito menos
unificada em sua perspectiva. Ao con­
trário da narrativa da fonte Judia, ela
não fala de Deus como Yahweh (Se­
nhor) antes de Êxodo 3:14 e s., quando
ele apareceu a Moisés. Esta fonte está
interessada em esclarecer alguns dos
problemas morais associados com as his­
tórias tradicionais dos patriarcas (os
materiais começam com Abraão). Nela
Deus é mais remoto de um relaciona­
mento direto com o homem. As suas
experiências com Deus são retratadas em
termos de sonhos e de visitações angé­
licas. A grande obra-prima desta fonte é
o capítulo 22, a história em que Abraão
sacrifica Isaque. Aqui, as exigências de
Deus, de obediência completa, são apre­
sentadas claramente.
A narrativa Sacerdotal apresenta Deus
como transcendente e santo. Logo no
começo, no capítulo 1, Deus é retratado
criando (um ato exclusivo de Deus) pelo
simples ato de proferir a sua palavra.
Daquele momento em diante ele está no
controle absoluto do curso da História.
O interesse da fonte em genealogias vem
de duas direções: o interesse sacerdotal
por esses registros, devido ao seú dever,
e o processo de funil, pelo qual Deus
moveu-se da humanidade em geral até
Abraão em particular. Foi a escola Sa­
cerdotal que editou o livro de Gênesis,
e a sua mão é vista claramente em sua
estrutura genealógica. O interesse da
narrativa nos acontecimentos cósmicos e
mundiais baseia-se no lugar que Israel
ocupava ou devia ocupar na História.
O processo da História é seguido desde
a criação, avançando para o dilúvio, a
chamada de Abraão, os seus anos desfru­
tando Canaã e a peregrinação ao Egito.
Depois, em Êxodo 6:2 e s., chega-se ao
clímax, quando Deus apareceu a Moisés
e disse: “Apareci a Abraão, a Isaque e a
Jacó, como o Deus Todo-Poderoso; mas
pelo meu nome Jeová, não lhes fui conhe­
cido.” Todos os acontecimentos regis­
trados em Gênesis haviam sido prepara­
tórios de uma nova revelação da natu­
reza de Deus a Moisés. Foi então que o
verdadeiro caráter de Deus foi revelado.
O Deus que apareceu a Moisés era o
mesmo Deus que falara aos patriarcas,
mas a Moisés ele apareceu em uma nova
dimensão.
As diferenças de ênfase, nessas narra­
tivas, não obscurecem a sua concordân­
cia básica a respeito da natureza de Deus
e de sua relação para com o homem. Foi
ele que fez da humanidade uma unidade
e que considera o homem responsável
pela direção de sua vida. O homem tem
resistido obstinadamente aos esforços de
Deus para que ele viva de acordo com a
vontade divina, mas Deus, inexoravel­
mente, avança em direção ao seu alvo
para com o homem: a livre expressão da
imagem de Deus, que lhe foi dada por
ocasião da criação.
2. O Deus dos Patriarcas
O problema mais sério, no fato de o
livro de Gênesis retratar Deus, é se os
conceitos da natureza de Deus que os
seus escritores esposavam eram com­
partilhados pelos próprios patriarcas.
Èm um ensaio definitivo a respeito de
“The God of the Fathers” (O Deus dos
Pais) Albrecht Alt assumiu a posição de
que havia tanto diferenças quanto seme­
lhanças. 10 Ele negou que os patriarcas
10 Cf. Essays In Old Testament History and Religion
(Garden City: Doubleday & Co., 1967).
164
chamassem o seu Deus de “Yahweh” ,
mas cria que cada patriarca chamava o
seu Deus pessoal por um nome diferente
(“O Deus de Abraão”, “o Temor de
Isaque”, “o Poderoso de Jacó”). Só bem
depois estes três “deuses” foram com­
binados sob o título de Yahweh. Porém,
a despeito do fato de que os “deuses” de
Abraão, Isaque e Jacó tinham nomes
diferentes, a espécie de “deus” era a
mesma, diferindo radicalmente dos
deuses de Canaã, que eram sempre rela­
cionados com um lugar. O “deus dos
país” estava ligado a cada tribo em sepa­
rado por um pacto pessoal, e ia com eles
onde quer que viajassem. Desta forma,
ali estava a semente que levaria ao Deus
da criação, que se relacionaria pessoal­
mente com a humanidade, onde quer
que ele estivesse. Sob o título de Yahweh,
adotado na era mosaica, estes velhos
conceitos foram unidos e ampliados até o
ponto como os temos hoje.
A narrativa de Gênesis apresenta um
quadro diferente. A fonte Judia diz que
os homens clamaram ao “nome de
Yahweh” antes do dilúvio (4-'26). Isto
não significa, necessariamente, que o
nome propriamente dito foi usado, pois
não existe evidência arqueológica segura
de que esse título fosse usado antes da
era mosaica, mas que o mesmo Deus que
era adorado pelos patriarcas mais. tarde
apareceu a Moisés. Até as narrativas
bíblicas (Israelita do Norte e Sacerdotal)
sugerem que Deus era conhecido ante­
riormente por um nome diferente, mas
era o mesmo Deus.
Abraão mandou buscar, em Harã,
uma esposa para Isaque, da mesma for­
ma como Jacó voltou lã para buscar a
esposá, não apenas porque eles eram
parentes, mas porque compartilhavam
da mesma herança religiosa. Labão usa o
nome de Yahweh, que só os crentes^
podiam usar (24:31,50,51). Alt afirma
que o Deus de Jacó e o Deus de Labão
são deuses diferentes, visto que na decla­
ração “O Deus de Abraão e o Deus de
Naor, o Deus do pai deles, julgue entre
nós” (31:53) o verbo está no plural.
Desta forma, a tradução seria “os deu­
ses... julguem” . Contudo, o nome dado a
Deus (Elohim) algumas vezes usa o verbo
no plural, por concordância gramatical
(cf. 35:7), mesmo quando se está falando
do Deus de Jacó. Em 31:49, Labão refe­
re-se a Deus como Yahweh (o Senhor),
coisa que não é permitida a um incrédulo
fazer, segundo as fontes bíblicas. Ao con­
trário de Alt, Labão não jura pelo seu
deus e Jacó pelo seu. Só Jacó jura, e o faz
pelo Deus de seu pai Isaque.
Parece, portanto, que “o Deus dos
Pais” era o mesmo que o Deus de Moisés
e o da narrativa patriarcal. Ele atendia
por diferentes nomes, em épocas dife­
rentes, e os ancestrais hebreus também
adoravam outros deuses ao mesmo tem­
po (Jos. 24:2,14 e s.). Abraão não foi
chamado para abandonar o Deus de seu
pai Terá, mas para purificar a fé. Moisés
não seguiu um novo Deus, más foi-lhe
dada uma revelação maior do Deus de
seus pais, que desde então desejou ser
chamado e conhecido como Yahweh.
3. A Mensagem Religiosa de Gênesis
Os escritores de Gênesis falam não
apenas da natureza de Deus, mas, ainda
mais, com as implicações dessa reálidade
na vida do homem. Se o homem está fora
da comunhão com o seu Criador santo e
justo, existe alguma forma de reatá-la?
Que evidências há de que Deus está
ainda interessado no mundo que ele for­
mou, e que ele está fazendo a este res­
peito? O ímpeto das perícopes de Gênesis
não apenas nos leva para a torrente prin­
cipal da revelação bíblica, mas também
nos propicia orientação para meditação
em Deus e para agirmos por sua direção.
As passagens que enfatizam temas signi­
ficativos sempre acarretam implicações
corolárias para a vida do homem.
Os Propósitos de Deus (cap. 1). —
Embora Deus tenha criado o Universo e
entrado em seu dia de descanso, ainda há
165
trabalho para o homem realizar. A sua
tarefa é levar toda a natureza ao domí­
nio de Deus (fazer com que ela realize o
propósito divinamente pretendido), mas
primeiramente o homem precisa, ele
mesmo, andar nessa vontade divina.
A Condição Decaída do Homem (caps.
2 e 3). — A descrição da recusa obstina­
da de Adão em reconhecer a sua condi­
ção de criatura chama a atenção para a
rebelião de todos os homens contra Deus
e para a sua alienação dele, com o mes­
mo resultado desastroso.
A Ira de Deus (caps. 4-8). — Em sua
separação de Deus, a vida do homem é
algumas vezes caracterizada por atos
religiosos sinceros, porém inaceitáveis
(cap. 4), por mera existência biológica
(nascer, ter filhos, cap. 5), ou por imora­
lidade grosseira (cap. 6). O primeiro
padrão resulta em alienação entre os
homens, que diferem acerca de religião, o
segundo na ausência de qualquer senso
de propósito significativo, e o terceiro em
julgamento direto da parte de Deus.
Desta forma, a ira de Deus se manifesta
tanto em conseqüências naturais como
em ação pessoal específica.
A Ünica Família dos Homens (caps.
9 e 10). — Os sobreviventes do dilúvio,
todos pertenciam a uma só família. To­
dos os homens que viveram sobre a terra
desde então são descendentes deles, e,
desta forma, se relacionam uns com os
outros por parentesco. Por conseguinte,
nenhuma raça de homens é, por natu­
reza, inferior a qualquer outra.
A Impropriedade da Ira (caps. 9-11).
— Embora o dilúvio tenha eliminado os
piores dentre os pecadores, ele não rea­
lizou nenhum resultado positivo. Os so­
breviventes continuaram a demonstrar
as suas inclinações pecaminosas: Noé,
por ter exposto inconscientemente a sua
própria vergonha; Cão, expondo cons­
cientemente a fraqueza de seu pai; e os
edificadores de Babel, lutando para
alcançar os seus alvos distorcidos.
A Intervenção de Deus (caps. 9-12). —
O Senhor não deixa o homem por sua
própria conta. Ele está julgando-o (Cão e
Noé), perturbando-o (Babel) ou cha­
mando-o (Abraão).
Salvação Pela Fé (caps. 12-21). — O
único cantinho para o homem voltar a
uma existência que tem significado sob
os auspícios de Deus é pela fé. Um
homem de fé é aceito, não por causa de
seus méritos, mas por causa do que agora
Deus pode fazer com ele.
A Natureza da Fé Salvadora (caps. 15,
22). — Embora a salvação tenha início
com uma aberta responsividade para
com Deus (cap. 15), o supremo teste de
sua validade não é tanto o que o homem
crê que Deus possa fazer por ele, quanto
o que ele está disposto a dar a Deus
(cap. 22).
O Perigo da Apostasia (cap. 24). —
Quando Abraão proibiu que Isaque vol­
tasse a Harã, estava consciente do risco
quanto ao cumprimento da promessa, se
Isaque não voltasse da terra que Abraão
fora vocacionado a abandonar. Para o
povo de Deus não pode haver retomo.
A Presciência de Deus (caps. 25-28). —
Jacó e Esaú tinham que descobrir a sua
maneira de funcionar da forma já pre­
vista por Deus. Tanto eles quanto seus
pais tentaram usurpar essa vontade ou
opor-se a ela. Os resultados desalenta-
dores de ambos os lados indicam que
precisa haver um método melhor: reco­
nhecer a primazia da vontade de Deus, e
reagir criativamente a ela.
Os Resultados Negativos da Poligamia
(caps. 29 e 30).- Os múltiplos problemas
e tensões resultantes da rivalidade entre
Lia e Raquel para obter a aceitação de
Jacó são argumentos suficientes em favor
da monogamia.
Persistência na Oração (cap. 32). — Se
as bênçãos de Deus são asseguradas, não
é porque pechinchamos com ele (cap. 28)
ou porque temos força de vontade (lutan­
do com o anjo), mas, pelo contrário,
porque rogamos tenazmente pela bên­
166
ção. Importunação é a chave para as
orações respondidas, não porque Deus
precisa ser persuadido, mas porque esta
atitude reconhece a verdadeira fonte da
bênção, a confiança do homem no doa­
dor da bênção e a sua desesperada neces­
sidade de ajuda.
A Soberania de Deus (caps. 37-50). —
A história de José ilustra vivamente o
fato de que os atos mais egoísticos dos
homens podem ser usados por Deus
para alcançar os seus propósitos, embora
ele possa usar melhor aqueles que dese­
jam a sua vontade. Embora a sua mão
raramente, seja vista mesmo pelos seus,
Deus está constantemente em ação. O
seu cuidado providencial é visto melhor
em retrospecto (45:5-7; 50:20).
Base dos Valores Éticos (cap. 39). — A
vitoriosa resistência de José à esposa de
Potifar foi primeiramente devida à sua
consciência dos padrões estabelecidos
por Deus. Os mais fortes códigos de ética
estão arraigados em a natureza de um
Deus que está cônscio de sua infração.
Perdão e Reconciliação (caps. 42-45).
O que parece ser a manipulação dos
irmãos, feita por José, pelo contrário, é
uma tentativa cuidadosa de determinar
se a reconciliação épossível Isto pode ser
alcançado somente onde há verdadeiro
arrependimento. A capacidade de José
de perdoar os seus irmãos se baseava não
apenas em seu amor por eles, mas em sua
consciência de que os propósitos de Deus
a serem alcançados, para todos eles,
incluindo ele próprio, eram mais impor­
tantes do que as ofensas passadas.
A Chave Para o Futuro (caps. 49 e 50).
— O futuro pertence aos que, tendo
promessas para cumprir, não as negli­
genciam. As esperanças de Israel já esta­
vam começando a se centralizar na vinda
de um governante prometido para a tribo
de Judá (49:10).
Esboço do Livro de Gênesis
I. História Primeva (1:1-11:32)
1. A Criação (l:l-2:4a)
1) O Princípio (1:1,2)
2) O Primeiro Dia (1:3-5)
3) O Céu e a Terra (1:6-13)
4) O Sole a Lua(1:14-19)
5) Os Peixes e as Aves (1:20-23)
6) Os Animais e o Homem (1:24-
31)
7) Descanso da Criação (2: l-4a)
2. A Queda do Homem (2:4b-3:24)
1) O Jardim do Éden (2:4b-17)
2) A Criação de Eva (2:18-25)
3) A Tentação e a Queda (3:1-7)
4) As Conseqüências da Queda
(3:8-24)
3. A História de Caim (4:1-26)
1) Caim e Abel (4:1-16)
2) Caim e a Civilização (4:17-26)
4. Os Patriarcas Antediluvianos (5:
1-32)
1) De Adão a Enoque (5:1-20)
2) De Enoque a Noé (5:21-32)
5. O Grande Dilúvio (6:1-9:29)
1) A Causa do Dilúvio (6:1-8)
2) Preparação (6:9-22)
3) Instruções Adicionais (7:1-5)
4) A Extensão do Dilúvio (7:6-8:
19)
5) O Sacrifício de Noé (8:20-22)
6) A Aliança com Noé (9:1-17)
7) A Maldição de Canaã (9:18-29)
6. Os Descendentes de Noé (10:1-32)
7. A Torre de Babel (11:1-9)
8. Os Ancestrais de Abraão (11:10-
26)
9. A Família de Terá (11:27-32)
II. As Narrativas Sobre Abraão (12:1-
25:18)
1. A Chamada de Abrão(12:l-3)
2. Abrão em Canaã (12:4-9)
3. A Peregrinação no Egito (12:10-
13:1)
4. Abrão eLó (13:2-18)
1) A Separação (13:2-13)
2) Renovação da Promessa (13:
14-18)
5. Abrão, o Cidadão do Mundo (14:
1-24)
1) Ló e os Reis Tiranos (14:1-12)
167
2) Abrão e Melquisedeque (14:13-
24)
6. O Pacto com Abrão (15:1-21)
1) A Fé de Abrão (15:1-6)
2) Prevendo o Pacto (15:7-11)
3) As Promessas do Pacto (15:12-
16)
4) Confirmando o Pacto (15:17-
21)
7. Abrão eAgar (16:1-16)
1) Sarai eAgar (16:1-6)
2) Promessa Divina a Agar (16:7-
16)
8. O Pacto da Circuncisão (17:1-27)
1) Bênçãos do Pacto (17:1-8)
2) O Rito da Circuncisão (17:9-
14)
3) A Promessa de um Herdeiro
(17:15-21)
4) A Confirmação de Abraão (17:
22-27)
9. Abraão É Visitado por Deus (18:
1-33)
1) Um Hospedeiro Ansioso (18:1-
8)
2) Uma Hospedeira Incrédula
(18:9-15)
3) Conversa Intima (18:16-21)
4) Sondagem de Mentes (18:22-
33)
10. A Destruição de Sodoma (19:1-
38)
1) A Degradação de Sodoma (19:
1- 11)
2) A Fuga de Sodoma (19:12-23)
3) Ira e Graça (19:24-29)
4) Ló e Suas Filhas (19:30-38)
11. Sara eAbimeleque (20:1-18)
1) Abimeleque É Enganado (20:
1-7)
2) Abimeleque Restitui (20:8-18)
12. Tensão Entre Isaque e Ismael (21:
1-21)
1) O Nascimento de Isaque (21:1-
7)
2) A Inveja de Sara (21:8-14)
3) Promessa Divina a Agar (21:
15-21)
13. Pacto com Abimeleque (21:22-34)
14. O Sacrifício de Isaque (22:1-24)
1) A Fidelidade de Abraão (22:1-
14)
2) A Promessa Renovada (22:15-
19)
3) Notícias da Família (22:20-24)
15. A Morte de Sara (23:1-20)
1) Os Preparativos Para o Sepul-
tamento (23:1-16)
2) Uma Sepultura da Família (23:
17-20)
16. Conseguindo uma Esposa Para
Isaque (24:1-67)
1) O Encargo de Eliézer (24:1-9)
2) A Oração de Eliézer (24:10-14)
3) Rebeca Junto ao Poço (24:15-
27)
4) A Resposta de Labão (24:28-
33)
5) O Discurso de Eliézer (24:34-
49)
6) O Sucesso da Visita (24:50-61)
7) Isaque Se Encontra com Rebe­
ca (24:62-67)
17. Os Ültimos Dias de Abraão (25:1-
18)
1) A Terceira Família de Abraão
(25:1-6)
2) A Morte de Abraão (25:7-11)
3) A Genealogia de Ismael (25:12-
18)
III. As Narrativas Sobre Isaque (25:19-
28:9)
1. O Nascimento de Esaú e Jacó (25:
19-26)
2. A Barganha de Jacó com Esaú
(25:27-34)
3. As Passagens Sobre Isaque (26:1-
35)
1) A Fome de Isaque (26:1-5)
2) Abimeleque e Rebeca (26:6-11)
3) A Inveja dos Filisteus (26:12-
16)
4) Conflitos a Respeito de Poços
(26:17-22)
5) Teofania em Berseba (26:23-
25)
6) Tratado com Abimeleque (26:
26:33)
168
7) Tristeza por Causa das Esposas
de Esaú (26:34,35)
4. A Usurpação de uma Bênção (27:
1-45)
1) Conspiração e Contraconspira-
ção (27:1-17)
2) A Bênção de Jacó (27:18-29)
3) A Bênção de Esaú (27:30-40)
4) O Ódio de Esaú Contra Jacó
(27:41-45)
5. A Bênção de Isaque Como Despe­
dida (27:46-28:5)
6. O Casamento Tardio de Esaú (28:
6-9)
IV. As Narrativas Sobre Jacó (28:10-35:
29)
1. Jacó em Betei (28:10-22)
2. Os Casamentos de Jacó (29:1-30)
1) Jacó Se Encontra com Raquel
(29:1-14)
2) Labão Engana Jacó (29:15-30)
3. A Rivalidade Entre Léia e Raquel
(29:31-30:24)
1) Os Filhos Mais Velhos de Léia
(29:31-35)
2) Os Filhos da Serva de Raquel
(30:1-8)
3) Os Filhos da Serva de Léia (30:
9-13)
4) O Trato por Meio de Mandrá-
goras(30:14-24)
4. O Contrato com Labão (30:25-43)
1) A Parte de Jacó (30:25-36)
2) O Estratagema de Jacó (30:37-
43)
5. Jacó Separa-se de Labão (31:1-55)
1) Ordens de Marcha de Jacó (31:
1-16)
2) A Partida Secreta (31:17-24)
3) A Inquirição de Labão (31:25-
35)
4) A Resposta Irada de Jacó (31:
36-42)
5) O Pacto em Mizpá (31:43-55)
6. O Reencontro de Jacó e Esaú (32:
1-33:20)
1) A Caminho (32:1,2)
2) A Ameaça de Esaú (32:3-8)
3) A Oração de Jacó (32:9-12)
4) A Sua Espera Estratégica (32:
13-21)
5) Jacó no Jaboque (32:22-31)
6) O Encontro com Esaú (33:1-
11)
7) Trilham Caminhos Separados
(33:12-20)
7. Jacó em Siquém (34:1-31)
1) O Defloramento de Diná (34:1-
7)
2) As Exigências dos Hebreus (34:
8-17)
3) Concordância Bisonha (34:18-
24)
4) O Massacre dos Siquemitas
(34:25-31)
8. De Volta a Betei (35:1-15)
1) A Preparação (35:1-4)
2) Acontecimentos em Betei (35:
5-15)
9. As Conseqüências de Betei (35:
16-29)
1) A Morte de Raquel (35:16-21)
2) Os Filhos de Jacó (35:22-26)
3) A Morte de Isaque (35:27-29)
V. As Genealogias de Esaú (36:1-43)
1. A Família de Esaú (36:1-19)
1) A Genealogia Básica (36:1-5)
2) Esaú e Seir (36:6-8)
3) Genealogia Ampliada (36:9-14)
4) Líderes Tribais Edomeus (36:
15-19)
2. A Genealogia Horéia (36:20-30)
3. Reis e Chefes Edomeus (36:31-43)
VI. As Histórias de José (37:1-50:26)
1. José em Canaã (37:1-36)
1) Sonhos de Juventude (37:1-11)
2) Ã Procura dos Irmãos (37:12-
24)
3) José É Traído (37:25-36)
2. Judá e Tamar (38:1-30)
1) O Infortúnio de Tamar (38:1-
H)
2) Tamar É Enganada (38:12-23)
3) Ela É Vingada (38:24-30)
3. José e Potifar (39:1-23)
1) O Favor de Potifar (39:l-6a)
2) A Esposa de Potifar (39:6b-18)
3) José É Preso (39:19-23)
169
4. José na Prisão (40:1-23)
1) Os Oficiais de Faraó (40:1-8)
2) O Sonho do Copeiro (40:9-15)
3) O Sonho do Padeiro (40:16-19)
4) O Cumprimento dos Sonhos
(40:20-23)
5. O Enigmático Sonho de Faraó
(41:1-57)
1) O Fracasso dos Videntes (41:
1-8)
2) José Diante de Faraó (41:9-24)
3) O Significado do Sonho (41:25-
36)
4) A Recompensa de José (41:37-
45)
5) Os Anos de Abundância (41:
46-57)
6. Os Irmãos de José no Egito (42:1-
38)
1) EmCanaã(42:l-5)
2) Os Irmãos Diante de José (42:
6-17)
3) Ê Exigido um Refém (42:18-
25)
4) A Volta Para Casa (42:26-34)
5) A Reação de Jacó (42:35-38)
7. Benjamim no Egito (42:1-34)
1) A Petição de Judá a Jacó (43:1-
15)
2) Diante do Mordomo de José
43:16-25)
3) O Banquete com José (43:26-
34)
8. Benjamim em Perigo (44:1-34)
1) O Incidente do Copo de Adivi­
nhação (44:1-17)
2) Os Fervorosos Rogos de Judá
(44:18-34)
9. O Reconhecimento (45:1-28)
1) A Reconciliação com os Irmãos
(45:1-15)
2) A Palavra Encorajadora de Faraó
(45:16-21)
3) A Viagem de Volta a Jacó (45:
22-28)
10. A Reunião da Família (46:1-47:
12)
1) A Viagem Para o Egito (46:1-7)
2) A Genealogia de Jacó (46:8-27)
3) Jacó no Egito (46:28-47:12)
11. A Fome Continua (47:13-26)
1) Um Povo Desesperado (47:13-
19)
2) Novos Impostos Reais (47:20-
26)
12. Os Ultimos Dias de Jacó (47:27-
48:22)
1) O Pedido de Jacó Quanto ao
Seu Sepultamento (47:27-31)
2) Os Filhos de José Entre os Do­
ze (48:1-7)
3) As Bênçãos de Efraim e Ma-
nassés (48:8-22)
13. O Testamento de Jacó (49:1-27)
1) As Tribos de Léia (49:1-15)
2) As Tribos das Concubinas (49:
16-21)
3) As Tribos de Raquel (49:22-27)
14. A Morte e o Sepultamento de Jacó
(49:28-50:14)
1) A Morte de Jacó (49:28-33)
2) O Sepultamento de Jacó (50:1-
14)
15. Os Anos de José (50:15-26)
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Comentário Sobre o Texto
I. História Primeva (1:1-11:32)
Esta seção de Gênesis é uma introdu­
ção à história específica de Israel, que
começa com Abraão. Ela coloca a cha­
mada de Abraão onde ela deve ser enten­
dida: à luz do propósito de Deus no
mundo e para o mundo. Os materiais
usados pelo escritor, ou escritores, fo­
ram, em grande parte, os recebidos em
suas tradições, as narrativas de seus an­
cestrais, passadas até eles de geração em
geração. Essas fontes pertencem primor­
dialmente a dois grupos tradicionais bá­
sicos: um sacerdotal e um popular. A
fonte Sacerdotal preserva o legado do
171
passado do ponto de vista dos líderes reli­
giosos, enquanto a fonte popular contém
as histórias como eram conhecidas entre
o povo. Essas duas linhas tradicionais
não devem ser consideradas como con­
tradições, mas como duas maneiras legí­
timas, embora diferentes, de ver a mes­
ma história.
O tema básico de Gênesis 1-11 resume
o pensamento de todos os escritores bíbli­
cos. Dá-se constante ênfase à promessa
de Deus, seguida pelo pecado do homem
e a ira de Deus, mas sempre com um raio
de esperança. Portanto, em última aná­
lise, precisamos interpretar Gênesis não
como um livro que contém histórias sepa­
radas, diferentes, mas como um livro em
que as várias histórias dos pais foram
combinadas, a fim de apresentar um
registro unificado da obra de Deus no seu
mundo. O capítulo 1 (relato sacerdotal)
abre-se com um glorioso quadro dos atos
criadores de Deus e de seus encargos e
promessas ao homem. Mas é seguido
pela narrativa da queda, nos capítulos
2 e 3 (narrativa judaica). Narrativas de
duas tradições diferentes foram coloca­
das lado a lado, a fim de apresentar o
quadro completo do que aconteceu. Não
somente Deus está operando neste mun­
do, com o seu bom propósito para tudo,
mas a serpente também está presente; a
personalidade demoníaca está semeando
dúvida e discórdia no mundo.
Os editores (ou redatores) de Gênesis
foram tão indispensáveis à mensagem
deste livro quanto os responsáveis pelas
fontes Judia ou Sacerdotal. O processo
todo deve ser visto à luz da obra criativa
de Deus entre o seu povo.
Gênesis 1-11 foi, obviamente, escrito
para nos preparar para entender por que
Deus escolheu o povo hebreu como seu
povo. A história primeva do homem ilus­
tra claramente o fracasso universal da
humanidade. O primeiro casal falhou
miseravelmente. Abel, o justo, foi assas­
sinado por seu irmão invejoso. Noé, um
homem “perfeito em suas gerações”,
depois do dilúvio teve a oportunidade de
construir um desafiador mundo novo,
mas ficou bêbado em sua tenda. O esfor­
ço mais ambicioso do homem, em termos
de construção, a torre de Babel, acabou
abortivamente em hostilidade e divisão.
O homem mais uma vez estava de volta
para viver, ter filhos e morrer (cf. o cap.
5 com 11:10 e ss.). Da mesma forma
como Enoque quebrou o ciclo de exis­
tência sem significado, no capítulo 5,
Abrão entrou em cena no fim das genea­
logias, no capítulo 11. Deus estava fazen­
do uma nova tentativa de alcançar o seu
propósito no mundo. Em Abraão ele
teria sucesso.
1. A Criação (1: l-2:4a)
Esta é a passagem mais notável da
fonte Sacerdotal. A sua beleza sugere
que ela é o resultado de longa labuta de
amor. Os seus conceitos ainda são desa­
fiadores para a mente científica. A des­
crição básica do processo da criação é
surpreendentemente coerente com os
conceitos modernos. A criação é consi­
derada como tendo ocorrido durante um
período indefinido de tempo, e tendo
procedido das formas inferiores para as
superiores.
Não existe maneira de os dias de Gê­
nesis 1poderem ser limitados a 24 horas.
O termo “dia” (heb., yom) é usado de
três maneiras diferentes nos capítulos
le2. Em 1:5a, ele é usado a respeito da
luz, em contraste com as trevas. Em
1:5b, ele é usado a respeito da combina­
ção da luz e trevas (tarde e manhã). Em
2:4b, todo o período da criação é mencio­
nado como um dia. O sol, que é respon­
sável pelo nosso dia de 24 horas, não foi
colocado em seu lugar senão no quarto
dia. O fim de cada dia é marcado pela
fórmula “e foi a tarde e a manhã” ,
porém não é usada essa fórmula nem
outra semelhante a respeito do sétimo
dia. O escritor do livro de Hebreus afir­
ma que o dia do descanso de Deus nunca
terminou, mas que Deus tem estado em
172
seu descanso desde a criação. Obviamen­
te, o sétimo dia não pode ser um dia de
24 horas nem a redação de Gênesis re­
quer que os outros sejam. Eles podem ser
de 24 horas, mas o escritor não pretende
que eles sejam, necessariamente, limita­
dos a essa duração de tempo.
Não há necessidade de se considerar o
Gênesis e as teorias científicas como sen­
do conflitantes entre si. Gênesis não foi
escrito como obra científica. Gênesis foi
escrito como testemunho do fato de que
foi Deus que nos fez, e que somos seus.
As ciências naturais não são capazes de
nos fornecerem as chaves para o propó­
sito ou as primeiras causas da criação.
Com as suas evidências, elas apenas des­
crevem o processo natural. O teólogo fala
da experiência intuitiva de um crente a
respeito de um mundo que ele conhece
tão bem quanto o cientista conhece o seu.
As suas descobertas se suplementam, ao
invés de se contradizerem. Onde a ciên­
cia desiste, a revelação bíblica se aplica.
Sem a ciência, a religião pode tomar-se
superstição. Sem fé, a ciência torna-se
materialismo crasso.
Depois de notar as características da
fonte Sacerdotal, neste primeiro capí­
tulo, reconhecemo-la facilmente em ou­
tros lugares. O seu estilo é formal e
preciso. As frases são repetidas, e há
uma redundância de linguagem, reve­
lando uma predileção por certas palavras
ou expressões. “Frutificai e multiplicai-
vos” é uma expressão favorita (1:22,28),
que podemos esperar de um grupo sacer­
dotal.
A despeito de sua tendência de ser
preciso e prosaico, o escritor Sacerdotal
alcança o ápice de sua excelência lite­
rária em Gênesis 1. Mediante o seu uso
de repetição, ele causa uma impressão
inesquecível ao leitor. De fato, esta
passagem, provavelmente, era usada
liturgicamente. Ela era recitada pelo sa­
cerdote ou pelo povo reunido em adora­
ção pública, e devia ser ouvida, e não
dissecada. Ao ouvir, os homens sentem
que estão participando de novo dos pri­
mórdios do Universo.
1) O Princípio (1:1,2)
1 No princípio criou Deus os céus e a terra.
2 A te rra e ra sem form a e vazia; e havia
trev as sobre a face do abism o, m as o E sp í­
rito de D eus p airav a sobre a face das águas.
O versículo 1 descreve a atividade de
Deus que l:2-2:4a apresentarão em deta­
lhes. Os céus e a terra é uma expressão
que significa todo o Universo, todo o
mundo. Neste versículo, o escritor está
dizendo: “Deus criou tudo o que há no
mundo.” Começando com o versículo 2,
ele descreve o processo da criação de
maneira mais específica.
A condição da terra é mencionada
como sem forma (tohu) e vazia (bohu).
Este, sem dúvida, é um jogo de palavras,
pois os dois termos hebraicos têm um
som muito semelhante. Tohu significa
que a terra ainda não alcançara forma.
Bohu significa que não havia nada na
terra. Ela não tinha conteúdo. Estas
expressões são a forma de o escritor dizer
que a terra, como a conhecemos, não
existia nem tinha qualquer outra forma
ou conteúdo. Contudo, ele não parece ir
tão longe ao ponto de dizer que a terra
não existia nessa época, mas, se existia,
éra só na mèfftè de Deus, e não em
qualquer forma objetiva.
Alguns eruditos, ao abordar este pro­
blema, asseveram que o versículo 2 des­
creve uma catástrofe, que sobreveio à
terra depois da criação mencionada no
versículo 1. Eles assim interpretam esta
passagem: “A terra se tomou sem forma
e vazia (desolada e vazia).” Eles fazem
uma conexão deste acontecimento com a
queda de anjos, os ossos de homens e
animais pré-históricos e a idade antiga
da terra.
Há três razões por que esta teoria
amplamente aceita não é satisfatória: (1)
O' verbo hebraico está no passado per­
feito, que descreve uma condição (era),
e não ação subseqüente (se tornou). Uma
173
ação subseqüente requereria uma conjun­
ção com um passado imperfeito, em uma
passagem de narrativa. (2) A condição da
terra não era apenas desolada e vazia.
Ela era sem forma e vazia. Não existe
nenhum sinal de um estado anterior, e
certamente de nenhuma rocha ou ossos
antigos. (3) João, em Apocalipse 21:1,
considerou a terra em que vivemos como
a primeira terra, e não a segunda. A sua
interpretação deve merecer o peso de um
intérprete cristão.
Deve-se notar que o primeiro versículo
não diz literalmente (heb.): “No princí­
pio.” Não existe artigo. Pelo contrário,
a expressão hebraica diz: “Em princípio
Deus...” Gênesis 1 não começa no prin­
cípio propriamente dito, pois não houve
o princípio. Deus sempre existiu. Claro
que houve um princípio do Universo, e o
capítulo 1 começa aí. Contudo, o abismo
aquoso (heb., tehom) parece qüe existira
nessa época, estando a terra em uma
condição informe e vazia no meio de
profundas trevas. Nada se diz, em Gêne­
sis, a respeito de ter Deus criado o abis­
mo. Aparentemente, ele já estava ali.
Será que Gênesis 1 começa com a origem
do mundo material, ou existia matéria
antes que Deus começou a operar em
Gênesis 1?
Isto é um tanto perturbador para al­
guns leitores, pois parece que esta passa­
gem pode ensinar a existência eterna da
matéria ou uma perspectiva dualista do
Universo (espírito e matéria). Isto certa­
mente não è verdade. É lógico supor que
Deus havia criado o abismo anterior­
mente, e que a terra só existia em sua
mente. Isto é indicado ainda pelo verbo
criar (bara). Embora bara venha de uma
raiz que significa apegar-se ou partir ao
meio, e descreva a atividade de um car­
pinteiro, esta forma usada em Gênesis
nunca ê aplicada a ninguém mais a não
ser a Deus. O homem não pode bara. Só
Deus pode Bara. Isto è atividade exclu­
siva de Deus. Este verbo nunca é usado
com o acusativo dos materiais emprega­
dos; desta forma, ele certamente aponta
para a direção da criação ex nihilo (do
nada). Embora o versículo 2 comece
depois que o abismo foi criado, é lógico
concluir-se que ele foi trazido à existên­
cia por Deus anteriormente, e que a
criação mencionada no versículo 1 inclui
o abismo. O versículo 2 começa depois
disto, e não no princípio da criação.
Este problema, todavia, não consistia
em preocupação para o escritor Sacer­
dotal. Ele não estava interessado na
questão da origem do abismo, ou como a
terra podia exístír, embora sem forma e
vazia. O seu significado é que quando
Deus decidiu criar o Universo, não havia
nada que pudesse impedi-lo. A criação
foi um ato que só Deuspodia executar, e,
se o abismo reagiu a cada palavra de
Deus, por que teria ele que ficar preo­
cupado a respeito de como ele veio a
existir? Os hebreus preferiam fé à espe­
culação filosófica. A sua fé certamente
não é contraditada pelo pensamento filo­
sófico sadio, mas eles manifestavam a
tendência de ir até o cerne do problema
da fé. Ao invés de ficarem imobilizados
pela especulação, a sua fé exigia a sua
devoção leal a um Deus que podia fazer o
que desejava, no seu mundo, quer eles o
entendessem, quer não. Admitimos que
não podemos ficar satisfeitos sem mais
inquirição filosófica, mas isto não nos
deve cegar quanto à centralidade da fé.
O verbo bara é uma forma masculina
no singular. O sujeito que o governa,
Deus (’Elohim), está no masculino plu­
ral. Deus é considerado como sendo, em
certo sentido, tanto singular como plu­
ral. Há várias explicações para o fato de
’Elohim estar no plural. (1) Alguns di­
zem que esta palavra retém algo de seus
antecedentes politeístas. Embora ’Elo­
him geralmente use um verbo no singular,
quando é usado em relação aos deuses
pagãos esta palavra rege um verbo no
plural. O singular e constantemente usa­
do quando o Deus de Israel é o seu
sujeito. Contudo, o verbo no plural é
174
usado a respeito do Deus de Israel em
1:26: “Façamos o homem.” (2) Oütros
consideram-na como um plural de ma­
jestade. Freqüentemente os hebreus plu-
ralizavam um substantivo, para enfatizar
a sua importância ou magnificência. Isto
certamente seria apropriado em relação a
Deus. (3) Alguns dizem que ela fala da
Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.
A melhor maneira de abordar este
problema, visto que não sabemos a razão
para este fenômeno, parece ficar com
aquilo do que podemos ter certeza. Gê­
nesis 1 está dizendo que, em algum sen­
tido, Deus é tanto singular quanto plu­
ral. Para o judeu, dizer que ele é apenas
singular, é algo contrário ao Velho Testa­
mento. Por outro lado, o cristão dizer
que Gênesis fala da Trindade é mais do
que podemos provar. É suficiente notar
que esta passagem ensina a unidade e a
pluralidade da Divindade. Deste fato, a
doutrina posterior da Trindade se desen­
volveu logicamente. Aqui estão as suas
raízes, mas ainda não o conceito plena­
mente desenvolvido.
O Espírito (ruach) de Deus pode ser
interpretado como o “vento de Deus” ou
“vento poderoso”, e, provavelmente, é
um quadro de um forte vento, como o de
um furacão* agitando frementemente o
abismo caótico. O versículo 2, portanto,
não é uma descrição de Deus pairando
sobre o abismo como um pássaro, ou
flutuando sobre éle, a fim de impregná-
lo. Os atos criativos que interessam ao
escritor começam com a palavra de Deus
no versículo 3. O versículo 2 coloca a
terrível confusão do abismo tenebroso em
contraste com a condição ordenada que
resultou do “haja” de Deus, que se se­
gue. O “cala-te, aquieta-te” de Jesus faz
eco com a tranqüilízação do abismo pri­
mevo, pela palavra de Deus na criação.
Comojá vimos, este versículo não dá a
entender que antes de ter Deus começado
a criar a terra o abismo estava fora do
domínio da criação. Visto que se diz que
Deus criou o céu e a terra (o Universo), o
abismo é incluído sob esta rubrica. O
versículo 2 não começa no princípio da
criação, mas com os atos de criação
imediatamente relacionados com a terra.
O capítulo 1 não se refere aos atos da
criação anteriores â formação da terra.
Eles nãosão descritos, porém presumidos.
2) O Primeiro Dia (1:3-5)
3 D isse D eus: H aja luz. E houve luz. 4 Viu
D eus que a luz e ra boa; e fez separação
entre a luz e as trev as. 5 D eus cham ou à luz
dia, e à s trev as noite. E foi a tard e e a
m anhã, o dia prim eiro.
O versículo 3 assevera que a criação foi
realizada pela palavra de Deus. Ele fa­
lou, e aconteceu. A sua palavra é lei.
Esta passagem, que trata da criação da
luz, é a primeira das “dez declarações"
de Deus na criação. As outras tratam do
firmamento, da terra seca, das plantas,
das estrelas, dos peixes e pássaros, dos
animais, do homem, da tarefa do homem
e do alimento do homem.
A luz, a primeira criação da palavra de
Deus, é, neste sentido, a sua primogênita.
Da mesma forma como o Logos (Verbo)
em João 1:1-14 fez todas as coisas, tor­
nou-se carne e foi visto como o Unigénito
do Pai, assim também a luz reflete a
natureza da palavra que a trouxe à exis­
tência. Nas trevas das perplexidades da
vida, a palavra de Deus ainda ilumina o
homem em seu caminho.
Depois de separar a luz das trevas,
Deus se dirige a cada uma delas por sua
vez. O hebraico é palpitante: “E Deus
chamou à luz ‘Dial’ e às trevas, noite!’”
Estes seriam os seus nomes para sempre.
O Criador tinha o direito de dar nome à
sua nova criação, mas também de dar
nome às trevas primevas. Isto também
éstava dentro de seu domínio.
A fórmula “E foi a tarde e a manhã”
vem no fim de cada novo dia da criação.
Literalmente, a palavra traduzida como
“tarde” (‘erev) significa lusco-fusco. A
palavra traduzida como “manhã” (bo-
ker) literalmente significa alvorada.
175
Alvorada e ocaso compuseram o primeiro
dia e cada dia subseqüente. Esta expres­
são pode ser um exemplo de sinédoque,
isto é, do uso de parte no lugar do todo,
mas é uma expressão idiomática inco-
mum, neste contexto. Ela pode ser uma
indicação adicional de que os dias não
são de 24 horas, com o nosso ocaso,
noite, alvorada e dia. Esta frase possi­
velmente descreve um longo período de
ocaso durante um novo processo criativo,
seguido por uma erupção de luz plena,
quando esse aspecto da criação era com­
pletado.
Pode ser feita esta pergunta: A criação
da luz foi a primeira luz que Deus co­
nheceu? Será que ele habitava nas trevas
até o primeiro dia da criação? Claro que
não. Como declara Apocalipse 22:5: “E
ali não haverá mais noite, e não neces­
sitarão de luz de lâmpada nem de luz do
sol, porque o Senhor Deus os alumiará.”
A luz criada era um reflexo da luz eterna
da pessoa de Deus.
3) OCéueaTerra(l:6-13)
6 E disse D eus: H aja um firm am ento no
m elo d as águas, e h a ja separação entre
águas e ág u as. 7 Fez, pois, D eus o firm a ­
m ento, e separou as águas que estavam
debaixo do firm am ento das que estav am por
cim a do firm am ento. E assim foi. 8 Cham ou
D eus ao firm am ento céu. E foi a tard e e a
m anhã, o dia segundo. 9 E disse D eus: Ajun-
tem -se num só lu g ar as ág uas que estão
debaixo do céu, e ap a re ç a o elem ento seco.
E assim foi. 10 Cham ou D eus ao elem ento
seco te rra , e ao ajuntam ento das águas
m ares. E viu D eus que isso e ra bom . 11 E
disse D eus: Produza a te rra relva, ervas
que dêem sem ente, e árvores fru tíferas que,
segundo as suas espécies, dêem fruto que
tenha em sl a su a sem ente, sobre a te rra . E
assim foi. 12 A te rra , pois, produziu relva,
erv as que davam sem ente segundo as suas
espécies, e árv ores que davam fruto que
tinha em si a sua sem ente, segundo as suas
espécies. E viu D eus que isso e ra bom . 13 E
foi a tard e e a m anhã, o dia terceiro.
A palavra firmamento originalmente
significava ‘‘algo martelado”, e, portan­
to, normalmente dá a entender uma
substância sólida. Muitos eruditos estão
convencidos de que este versículo expres­
sa o conceito de um Universo em três
andares, comum no Oriente Próximo da
antiguidade. Os antigos criam que havia
três camadas de água no mundo: sob a
terra, sobre a terra e acima da terra. Da
mesma forma como a terra separava as
águas abaixo e sobre ela, um céu sólido
(firmamento) continha a água acima da
terra. Quando vinham chuvas pesadas,
elas saíam de janelas ou portas abertas
no firmamento (cf. Mal. 3:10). Desta
forma, o escritor de Gênesis pode estar
usando os conceitos de sua época, para
dar o seu testemunho acerca da criação
(cf. a Introdução). Contudo, esta palavra
também pode ter um uso figurado, e
significar “uma expansão”, sem denotar,
necessariamente, uma substância sólida.
A ordem de Deus, aos mares, para
recuarem, expondo a terra seca, foi um
testemunho do controle que ele exercia
sobre o caos primevo, mas também era
um lembrete de que, se ele removesse a
sua palavra proibitiva, o mar tragaria a
terra novamente. No livro de Apocalipse,
João não fica satisfeito enquanto a amea­
ça do mar não é eliminada para sempre
(Apoc. 21:1).
4) O Sole a Lua (1:14-19)
14 E disse D eus: H aja lum inares no firm a­
m ento do céu, p a ra fazerem separação
entre o dia e a noite; sejam eles p a ra sinais
e p a ra estações, e p a ra dias e anos; 15 e
sirvam de lum inares no firm am ento do céu,
p a ra alu m iar a te rra . E assim foi. 16 D eus,
pois, fez os dois grandes lu m in ares: o lum i­
n a r m aior p a ra governar o dia, e o lum inar
m enor p a ra governar a noite; fez tam bém
as estrelas. 17 E D eus os pôs no firm am ento
do céu p a ra alu m iar a te rra , 18 p a ra gover­
n a r o dia e a noite, e p a ra fazer separação
en tre a luz e a s trev as. E viu D eus que isso
era bom . 19 E foi a tard e e a m anhã, o dia
quarto.
O sol e a lua só foram colocados em
seus lugares no quarto dia. Alguns intér­
pretes sugerem que o sol foi criado ante­
riormente, e subseqüentemente a terra
176
foi atraída à sua esfera de influência.
Outros dizem que uma pesada capa de
nuvens escondia o sol de quem estivesse
na terra. A menção do sol, a esta altura,
é, provavelmente, mais teológica do que
cronológica. É significativo que os nomes
hebraicos para o sol e lua não ocorrem
neste capítulo, mas apenas luminar
maior e luminar menor. O escritor he­
breu não tinha o desejo de encorajar a
adoração desses corpos celestes, mencio­
nando-os em a narrativa da criação, par­
ticularmente no primeiro dia, o que teria
sugerido aos adoradores da natureza que
eles eram divindades primárias, somente
a um passo do grande Deus, Elohim.
A declaração de que ele fez também as
estrelas é um exemplo notável da ma­
neira como o interesse do escritor estava
sendo influenciado pela época em que
vivia. A astronomia moderna dificil­
mente teria se descartado das estrelas de
maneira tão sumária. Para o escritor
bíblico, elas eram remotas e desconhe­
cidas demais para requererem qualquer
atenção mais detida. Contudo, todo o
nosso Universo é captado nessa frase,
que tudo inclui.
(5) Os Peixes e as Aves (1:20-23)
20 E disse D eus: Produzam a s águas c a r­
dum es de seres viventes; e voem a s aves
acim a da te rra no firm am ento do céu. 21
Criou, pois, D eus os m onstros m arinhos, e
todos os seres viventes que se a rra sta m , os
quais a s águas produziram abundantem ente
segundo as su as espécies; e toda ave que
voa, segundo a su a espécie. E viu D eus que
isso e ra bom . 22 E ntão D eus os abençoou,
dizendo: F ru tificai e m ultiplicai-vos, e en­
chei as águas dos m a re s ; e m ultipliquem -se
as aves sobre a te rra . 23 E foi a tard e e a
m anhã, o dia quinto.
A primeira menção da vida animal é
enfatizada pelo uso de bara’ (criar) no
versículo 21. Esta vida originalmente
consistia de criaturas que enxameavam
no mar, porém culminavam nos grandes
monstros marinhos, e, posteriormente,
nos pássaros. O autor observa sabia­
mente a íntima relação entre animais
aquáticos e aves. Eles foram criados no
mesmo dia. Gênesis insiste que a evolu­
ção aconteceu dentro das espécies, e não
de uma para outra. Era segundo as suas
espécies.
6) Os Animais e o Homem (1:24-31)
24 E disse D eus: Produza a te rra seres
viventes segundo as suas espécies: anim ais
dom ésticos, répteis, e anim ais selvagens
segundo a s suas espécies. E assim foi. 25
D eus, pois, fez os anim ais selvagens segun­
do a s su as espécies, e os anim ais dom ésticos
segundo as suas espécies, e todos os répteis
da te rra segundo a s suas espécies. E viu Deus
que isso e ra bom . 28 E disse D eus: F açam os
o hom em à nossa im agem , conform e a nossa
sem elhança; dom ine ele sobre os peixes do
m ar, sobre as aves do céu, sobre os anim ais
dom ésticos, e sobre toda a te rra , e sobre
todo réptil que se a rra s ta sobre a te rra . 27
Criou, pois, D eus, o hom em à sua im agem ;
à im agem de D eus o criou; hom em e m ulher
os criou. 28 E ntão D eus os abençoou e lhes
disse: F ru tificai e m ultiplicai-vos; enchei
a te rra e sujeitai-a; dom inai sobre os peixes
do m a r, sobre a s aves do céu e sobre todos os
anim ais que se a rra sta m sobre a te rra . 29
D isse-lhes m ais: E is que vos tenho dado
todas as erv as que produzem sem ente, as
quais se acham sobre a face de toda a te rra ,
bem como todas as árvores em que há fruto
que dê sem ente; ser-vos-ão p a ra m an ti­
m ento. 30 E a todos os anim ais da te rra , a
todas as aves do céu e a todo se r vivente que
se a rra s ta sobre a te rra , tenho dado todas as
erv as verdes com o m antim ento. E assim
foi. 31 E viu D eus tudo quanto fizera, e eis
que e ra m uito bom . E foi a tard e e a m anhã,
o dia sexto.
Esta passagem destaca dois fatos im­
portantes. O homem compartilha sua
natureza tanto com os animais quanto
com Deus. Ele foi criado no mesmo dia
em que os animais de ordem mais ele­
vada foram formados, e, desta forma,
está aparentado com eles, mas ele tam­
bém possui a imagem de Deus. Esta
imagem de Deus no homem é carac­
terística de todos os homens, mas não
dos animais.
Uma imagem é “algo entalhado”,
como um ídolo (II Reis 11:18). Ela des­
creve uma semelhança exata, como um
177
filho que é a própria imagem do pai. Os
reis antigos colocavam tais efígies de si
mesmos nas cidades que governavam.
Semelhança (aparência) é um termo mais
indefinido e enfatiza que, embora o ho­
mem seja como Deus, ele não é Deus. O
homem não é divindade, mas reflete a
natureza divina em sua humanidade.
Portanto, o que é a imagem de Deus
no homem, que o toma tão peculiar?
As respostas sugeridas são numerosas.
A explicação mais comum, hoje em dia,
é que o homem tem uma alma, e os
animais não. Contudo, Gênesis 2:7 de­
clara que o homem tomou-se “alma vi­
vente”. O original diz “uma nephesh
viva”, palavra que, no hebraico, signi­
fica alma. No pensamento hebraico, o
homem não tem uma alma; ele é uma
alma. A alma é a pessoa total. Em 2:19,
a idéia é semelhante. “Tudo o que o
homem chamou a todo ser vivente” lite­
ralmente é “cada nephesh vivente” . Os
animais também são almas — neste
sentido. A diferença entre o homem e os
animais não está em que um tem uma
alma e os outros não, mas no tipo de
alma que o homem é. E esta é uma
diferença radical!
Temos a tendência de pensar na ima­
gem de Deus em termos da revelação
total de Deus na Escritura. O escritor
do Velho Testamento estava, provavel­
mente, pensando em a natureza de Deus
em relação à maneira que ele próprio
retratava as características de Deus. Em
Gênesis 1, Deus é retratado criando li­
vremente. Da mesma forma o homem,
embora incapaz de atingir a criatividade
que é peculiar a Deus, também tem a
capacidade de fazer um novo começo,
tomar o mundo melhor ou pior. Os
animais vivem por instinto, mas o ho­
mem é feito para coisas melhores. Aos
animais foi dito apenas que procriassem.
O homem tem a atribuição adicional
de estabelecer domínio e subjugar. Se um
homem está com frio, ele pode acender
um fogo; se está com calor, pode cons­
truir um condicionador de ar. Os ani­
mais, dentro dos limites de seus instin­
tos, precisam ajustar-se ao meio ambi­
ente, que não conseguem mudar. O ho­
mem pode mudá-lo para melhor ou para
pior.
Na criação, Deus levou a terra até
certo ponto e depois colocou-a nas mãos
do homem, para que dela se encarre­
gasse. Ela não fora ainda “subjugada”
nem ainda colocada completamente sob
o domínio de Deus. O homem devia
apressar este processo. Era seu privilégio
e desafio.
Tem sido a tragédia da história do
homem que ele pensou que o domínio
sobre a natureza, que lhe havia sido
dado, era para o seu benefício pessoal.
Assim pensando, ele esbanjou os recur­
sos da terra. Agora está começando a
perceber que o seu domínio consiste na
responsabilidade de ajudar cada aspecto
da natureza a atingir o seu alvo mais
elevado. Em certo sentido, ele deve jun-
tar-se a Deus, na tremenda tarefa de
continuar a obra da criação.
Esta imagem de Deus em nós também
toma disponível uma comunhão entre o
homem e Deus, que não é possível para
as outras criaturas. Pertencemos à famí­
lia de Deus. Embora em Gênesis Deus
não ordene adoração, é claro que o ho­
mem não pode executar as suas tarefas
sem tal comunhão (Jó 35:10,11). O pró­
prio Deus deseja tanto a confiança do
homem quanto a sua companhia (Gên.
2e 3).
É curioso notar que, originalmente,
nem o homem nem os animais receberam
licença de comer carne. Eles deviam ser
vegetarianos (v. 29 e 30). Isto não signi­
fica que a “lei de unhas e dentes” não
tivesse prevalecido desde o princípio,
mas que ela não tem lugar no alvo supre­
mo da História. De fato, só foi permi­
tido ao homem comer came depois do
dilúvio (9:1-3). Posteriormente, contudo,
Deus ainda pretende que todo morticínio
seja eliminado (Is. 11:6-9).
178
7) Descanso da Criação (2:l-4a)
1 A ssim foram acabados os céus e a te rra ,
com todo o seu exército. 2 O ra, havendo
D eus com pletado no dia sétim o a obra que
tinha feito, descansou nesse dia de toda a
obra que fizera. 3 Abençoou D eus o sétim o
dia, e o santificou; porque nele descansou de
toda a sua obra que c ria ra e fizera. 4 E is as
origens dos céus e da te rra , quando foram
criados.
Quando o escritor diz que Deus des­
cansou de toda a obra que fizera, não dá
a entender que, exausto de seus esforços,
ele se deitou para tirar uma soneca. A
fórmula que encerra cada dia (“e foi a
tarde e a manhã”) não ocorre em refe­
rência ao sétimo dia. Com discernimento
incomum, o escritor do livro de Hebreus
conclui, com isto, que o sétimo dia nunca
teve fim (4:1-7). Desde a criação Deus
tem estado em seu dia de descanso. Pela
fé, precisamos nos juntar a ele. Obvia­
mente, o “descanso de Deus” não signi­
fica inatividade, mas uma mudança de
atividade. Deus parou de criar, e come­
çou as obras de providência. O nosso
descanso no céu não serão férias infindá­
veis, mas uma ocasião de desafio agra­
dável sem fim.
2. A Queda do Homem (2:4b-3:24)
Esta passagem é bem diferente de
Gênesis 1, em sua forma literária. Ela
não usa um padrão litúrgico, mas apre­
senta-se em simples estilo de narrativa.
Ela tem algo da forma de uma parábola,
pois a história dos inícios do homem é
contada a fim de ensinar uma lição.
Todavia, ela não é uma história inventa­
da, para ilustrar uma afirmação, como
as parábolas dos ensinamentos de Jesus,
mas está baseada nas antigas tradições
a respeito do passado primevo do ho­
mem. A queda do homem é considerada
como um acontecimento real da história,
e Gênesis 2 e 3 testificam a respeito do
significado desse trágico momento.
Ao contar esta história, o escritor com­
bina eficientemente a descrição literal
com as imagens eloqüentes. A serpente
que tenta Eva também representa o po­
der do mal no mundo (3:15), pois a
guerra descrita não é apenas entre pes­
soas e cobras, mas entre a humanidade
e o reino demoníaco. A árvore da vida
fala de vida eterna, que o homem não
possuía na criação, devendo alcançá-la
posteriormente. A árvore do conheci­
mento era a cultura que o homem podia
adquirir por si mesmo, sem fé em Deus.
Embora Adão e Eva sejam, na verdade,
nossos ancestrais (é-nos informada, em
5:5, a idade de Adão quando morreu),
a descrição deles é colorida pelo conhe­
cimento do escritor da maneira como os
homens e as mulheres agiam em sua
época.
1) O Jardim do Éden (2:4b-17)
No dia em que o Senhor D eus fez a te rra e
os céus 5 não hav ia ainda nenhum a planta
do cam po n a te rra , pois nenhum a erv a do
cam po tinha ain d a b ro tad o ; porque o Senhor
D eus não tinha feito chover sobre a te rra ,
nem havia hom em p a ra la v ra r a te rra . 6 Um
vapor, porém , subia da te rra , e reg av a toda
a face da te rra . 7 E form ou o Senhor D eus o
hom em do pó da te rra , e soprou-lhe nas
narinas o fôlego da vida; e o hom em tom ou-
se alm a vivente. 8 E ntão plantou o Senhor
D eus u ra jard im , da banda do oriente, no
É d en ; e pôs ali o hom em que tinha form ado.
9 E o Senhor D eus fez b ro tar da te rra toda
qualidade de árv o res agradáveis à v ista e
boas p a ra com ida, bem com o a árvore da
vida no m eio do jard im , e a árvore do co­
nhecim ento do bem e do m al. 10 E saía um
rio do É den p a ra re g a r o ja rd im ; e dali se
dividia e se to rn av a em quatro braços. 11 O
nom e do prim eiro é P isom : este é o que
rodeia toda a te rra de H avilá, onde h á ouro;
12 e o ouro dessa te rra é bom ; ali há o bdélio,
e a p ed ra de berilo. 13 O nom e do segundo rio
é G iom : este é o que rodeia toda a te rra de
Cuche. 14 O nom e do terceiro rio é T igre:
este é o que corre pelo oriente da A ssíria. E
o quarto rio é o E u frates. IS Tomou, pois, o
Senhor Deus o hom em , e o pôs no jard im do
É den, p a ra o la v ra r e g uardar. 16 Ordenou o
Senhor D eus ao hom em , dizendo: De toda
árvore do ja rd im podes com er livrem ente;
17 m as da árvore do conhecim ento do bem e
do m al, dessa não com erás; porque no dia
em que dela com eres, certam ente m o r­
rerás.
179
Em contraste com o tema de caos
cósmico de Gênesis 1, esta passagem fala
de deserto e oásis, e é claramente da
fonte Judia (cf. A Introdução). Até o
tempo em que o homem foi criado não
tinha havido chuva na terra, porém ela
era regada por um vapor ou, mais pro­
vavelmente, por uma fonte artesiana que
jorrava do oceano subterrâneo. Esta
fonte era, provavelmente, a fonte do rio
que fluía do Jardim do Éden (v. 10).
Nesta narrativa, o homem foi formado
quando Deus moldou o pó da terra como
um oleiro molda o seu barro. Depois que
Deus sopra o seu próprio fôlego nele, o
homem toma-se alma vivente. E também
é igualmente certo que Deus pode retirar
o seu fôlego, e o homem voltará ao pó, de
onde veio.
Éden significa lugar agradável. Mais
tarde, a LXX traduziu esta palavra he­
braica, que significa jardim, com uma
palavra emprestada do persa: paradei-
sos, paraíso. Algumas árvores foram
colocadas no jardim para propiciar co­
mida, mas oufras ali foram colocadas
apenas para torná-lo mais bonito. Ê cla­
ro que Deus queria que a vida de Adão
fosse de prazer e felicidade.
Os versículos 10-14 são uma perícope
independente, que revela a localização
geográfica do Jardim do Éden. Dois dos
rios, Tigre e o Eufrates, são facilmente
identificáveis, mas os outros dois têm
desafiado todas as tentativas de locali­
zação específica. O Pisom, embora iden­
tificado como o Indo, mais provavelmente
devia encontrar-se na Arábia. Se o Giom
é o Nilo, como muitos crêem, por que o
escritor não usa o nome comumente dado
ao Nilo, como faz com o Tigre e o
Eufrates? Não existe região que satisfaça
à descrição de um rio se abrindo em
quatro braços, dois dos quais são o Tigre
e o Eufrates.
À luz destes problemas, há três expli­
cações primárias possíveis desta passa­
gem. (1) O escritor, que não é estudante
de geografia, está dizendo que todos os
rios da terra vieram de uma só fonte
primeva (von Rad). (2) Esta passagem
está considerando estes rios do ponto de
vista de um marinheiro, sendo a fonte
dos rios o Golfo Pérsico, e a foz dos
quatro rios encontra-se nele (Kidner).
(3) Os quatro rios expressam tradições a
respeito das grandes civilizações do
mundo antigo: Extremo Oriente (Indo),
Egito (Nilo) e Mesopotâmia (Tigre e
Eufrates). Essas civilizações tiveram a
sua fonte em uma cultura original, o
Jardim do Éden ideal.
A responsabilidade de Adão era lavrar
o solo do jardim. Desta forma, Gênesis
ensina a dignidade do trabalho na cria­
ção original. O resultado da queda não
foi o trabalho, mas a labuta em face de
forças intoleráveis. A tarefa de Adão era
simples e agradável, sem espinhos, car­
dos ou ervas daninhas para tomá-lo frus­
trado. Sem um trabalho construtivo, o
homem não pode obter da vida uma
verdadeira satisfação. Ócio não era o
modo de vida no Éden.
A árvore do conhecimento do bem e do
mal (heb., “árvore do conhecimento,
bem e mal”, o que significa que ela
incluía todo conhecimento) foi proibida
ao homem, porque ela o destruiria. Co­
mo pode acontecer o conhecimento des­
truir o homem? Freqüentemente, o ho­
mem modemo é incünado a pensar que o
conhecimento (cultura) resolverá os seus
problemas. Contudo, com toda a cultura
que a nossa geração obteve, não somos,
na maioria, tão realizados quanto os
nossos antepassados. Gênesis está dizen­
do que quando a busca do conhecimento
substitui a confiança na palavra de Deus,
o naufrágio é inevitável. O conhecimen­
to, que é potencialmente bom, destruirá
o homem que não tem a fé, para enten­
dê-lo ou direcioná-lo.
Que conexão tem a árvore do conhe­
cimento com o sexo? O verbo “conhecer”
(4:1) é usado para designar relações
sexuais. Depois que Adão e Eva peca­
ram, eles cobriram os seus órgãos geni-
180
tais (3:7). A opinião popular é que o
pecado original do primeiro casal foi o
contato sexual. Nada podia estar mais
longe da verdade. Há várias razões por
que isto não pode ser verdade. (1) Em
Gênesis 1, Deus lhes havia ordenado
para serem frutíferos e se multiplicarem
(v. 28). (2) Eva cometeu o pecado quando
estava sozinha. (3) Menciona-se que
Deus tinha a espécie de conhecimento
que eles obtiveram da árvore (3:22).
A explicação mais plausível é que,
quando eles comeram da árvore do co­
nhecimento, tomaram consciência de sua
diferença como homem e mulher. O
que antes fora natural e sadio, agora se
tomara uma fonte de vergonha.
2) A Criação de Eva (2:18-25)
18 D isse m ais o Senhor D eus: Não é bom
que o hom em esteja só; far-lhe-ei u m a aju-
dadora que lhe seja idônea. 19 D a te rra
form ou, pois, o Senhor D eus todos os an i­
m ais do cam po e todas as aves do céu, e
os trouxe ao hom em , p a ra v er com o lhes
ch am aria; e tudo o que o hom em cham ou a
todo ser vivente, isso foi o seu nom e. 20
A ssim o hom em deu nom es a todos os an i­
m ais dom ésticos, às aves do céu e a todos os
anim ais do cam po, m as p a ra o hom em não
se ach av a ajud ad o ra idônea. 21 E ntão o
Senhor fez c a ir um sono pesado sobre o
hom em , e este adorm eceu; tom ou-lhe, en­
tão, um a das costelas, e fechou a carne em
seu lu g ar; 22 e da costela que o Senhor D eus
lhe to m ara, form ou a m ulher e a trouxe ao
hom em . 23 E ntão disse o hom em : E sta é
agora osso dos m eus ossos e carne da m inha
carn e; ela se rá cham ada v aroa, porquanto
do varão foi tom ada. 24 P ortanto, deixará o
hom em a seu pai e a su a m ãe, e unir-se-á à
sua m ulher; e serão um a só carne. 25 E
am bos estav am nus, o hom em e su a m u ­
lher ; e não se envergonhavam .
Ao fim de cada ato criador por parte
de Deus, Gênesis 1 diz “E viu Deus
que isso era bom.” Agora, quando Deus
olha para Adão, observa que o que vê
não é bom! O homem necessitava de
uma companheira “correspondente a
ele” . Não se dá nenhum indício da infe­
rioridade da mulher. Da mesma forma
como haverá um leão e uma leoa, haverá
um homem e uma mulher. Com uma
profunda compreensão do senso de co­
munidade da humanidade, o escritor
nota que primeiramente os animais são
trazidos ao homem, para ver se algum
deles satisfaria as suas necessidades, mas
eles não se qualificam. Finalmente, Deus
formou (construiu) Eva de uma costela
de Adão, e apresentou-a a ele. Um velho
ditado nota: “Deus não tirou um osso da
cabeça de Adão, para que ela dominasse
sobre ele; nem de seu pé, para que ele
dominasse sobre ela; mas de debaixo de
seu braço, para que ele a protegesse, de
perto de seu coração, para que ele a
amasse.”
Um comentarista modemo diz, joco­
samente, que a razão por que Deus usou
a costela era que este era o único osso
que ele podia tirar do corpo de Adão sem
aleijá-lo! Todavia, a idéia apresentada
é que, pelo fato de que Adão e Eva
originalmente eram um, eles podiam
tomar-se um mais uma vez.
Ao ver Eva, Adão irrompe, muito
apropriadamente, em um poema:
Esta é ela!
Osso dos meus ossos,
Carne de minha carne!
Mulher será ela chamada,
Porque do homem foi tomada.
Há treze palavras hebraicas neste
pequeno poema. A primeira é “esta
uma”, bem como a décima terceira e a
sétima, que está exatamente no meio.
Não há dúvida de que Adão está dizendo:
“Esta mulher, em primeiro lugar, em
último e sempre!” Não há dúvida quanto
ao seu júbilo; ele quer que Deus não vá
adiante na busca de uma companheira
para ele.
O versículo 24 é uma palavra dirigida a
todas as gerações, proclamando o prin­
cípio de colonização no casamento. Cada
novo casamento é uma nova colônia, com
as suas lealdades primordiais aos seus
próprios relacionamentos internos. A
incomum declaração deve ser notada, de
que o homem deve deixar seu pai e sua
181
mãe, e apegar-se à sua esposa. Era de se
esperar o oposto, que a mulher aban­
donasse os seus pais.
3) A Tentação e a Queda (3:1-7)
lO ra, a serpente e ra o m ais astuto de
todos os anim ais do cam po que o Senhor
D eus tinha feito. E esta disse à m ulher: É
assim que D eus disse: N ão com ereis de toda
árvore do jard im ? 2 R espondeu a m ulher à
serpente: Do fruto das árvores do jard im
podem os com er, 3 m as do fruto da árvore
que está no m eio do jard im , disse D eus: Não
com ereis dele, nem nele tocareis, p a ra que
não m orrais. 4 D isse a serpente à m ulher:
C ertam ente não m orrereis. 5 P orque D eus
sabe que no d ia em que com erdes desse
fruto, vossos olhos se ab rirão , e sereis como
D eus, conhecendo o bem e o m al. 6 E ntão,
vendo a m ulher que aquela árv o re e ra boa
p a ra se com er, e ag rad áv el aos olhos, e
árvore desejável p a ra d a r entendim ento,
tom ou do seu fruto, com eu, e deu a seu
m arido, e ele tam bém com eu. 7 E ntão fo­
ra m abertos os olhos de am bos, e conhece­
ra m que estav am nus; pelo que coseram
folhas de figueiras, e fizeram p a ra si aven­
tais.
A tragédia desta primeira família é
retratada como um fracasso tanto quanto
como uma queda. Foi uma queda, por­
que o homem se afastou das decisões
responsáveis concernentes ao seu desti­
no, e deixou os seus desejos dominarem-
no. O escritor judeu, considerando o
homem da maneira como ele se havia
tomado, sabia que Deus não podia ter
criado a humanidade daquela forma.
Algo que acontecera de errado no prin­
cípio havia desde então colocado o ho­
mem em situação desvantajosa. O ho­
mem nunca veio a ser o que Deus pre­
tendia que ele fosse; assim, falhou em
realizar o propósito de Deus para com
ele. Ele se recusa continuamente a admi­
tir que é criatura, e a se submeter à
vontade de Deus.
A idéia de que Adão e Eva eram
completos antes da queda dificilmente
pode ser coerente com as Escrituras. Eles
eram sem pecado, mas não completos. O
corpo do homem havia alcançado o seu
pleno potencial, a sua mente, a sua saga­
cidade pretendida, mas o homem ideal
precisa ser mais do que uma mente sã em
um corpo são. Deus o criou e o colocou
no jardim para que ele se tornasse uma
pessoa responsável.
Defrontando-se com a escolha entre os
seus próprios desejos e a vontade de
Deus, o homem rejeitou o propósito de
Deus para com ele, e seguiu o seu cami­
nho de forma egoísta. Ele nunca chegou
ao seu fim. Tanto a palavra hebraica
quanto a grega, que significam pecado,
dão a idéia de “errar o alvo” ou falhar.
O pecado não é apenas a prática de
imoralidade, mas também a insubmissão
à vontade de Deus na vida.
Gênesis 3 começa apresentando a ser­
pente. Ela não é retratada aqui como
Satanás, mas como o mais astuto animal
que Deus fizera. O escritor toma o cuida­
do de mostrar que o problema no Jardim
do Éden não começou de fora da ordem
criada. Gênesis não vê nenhuma tensão
entre Deus e uma força maligna inde­
pendente. Seja o que for que tenha ini­
ciado o problema do mal, está dentro do
domínio de Deus, e, portanto, sujeito às
suas disposições.
Quem é esta serpente, portanto, que
começou tudo? É claro que ela é um
animal mesmo. A conexão do mal com
serpentes é um tema familiar. De fato, a
Epopéia de Gilgamesh, do segundo mi­
lênio a.C., na Babilônia, diz que uma
serpente foi responsável pelo fato de o
homem não ter alcançado a vida etema
(cf. Pritchard, p. 96).
No relato de Gênesis, a serpente é con­
denada a rastejar sobre o seu ventre, uma
referência óbvia ao estilo de vida das
cobras. Isto leva alguns estudiosos a ver,
nesta narrativa, uma explicação etio-
lógica de por que as cobras rastejam.
No entanto, a serpente significa mais
do que uma cobra. A luta entre a des­
cendência da serpente e a raça humana
(3:15) ê mais do que uma contenda entre
homens e ofídios. Como assevera von
Rad, o escritor de Gênesis vê na serpente
182
“um ser maligno que assumiu forma,
que está inexplicavelmente presente em
nosso mundo atual e que focalizou contra
o homem os seus ataques, está à sua es­
preita, e, por toda parte, trava contra ele
uma batalha de vida ou morte” (p. 89 e
90). Embora von Rad tivesse negado
anteriormente que a serpente corporifica
um poder “demoníaco” (p. 85), aqui ele
admite que o conceito é estranhamente
ligado àquele.
A explicação mais simples deste pro­
blema é que o escritor de Gênesis usou
uma antiga história que explica por que
as serpentes rastejam sobre os seus ven­
tres, para ensinar o papel do poder de­
moníaco na queda do homem. O homem
caiu quando foi influenciado por forças
que estavam dentro da criação de Deus,
mas fora de si próprio.
A serpente primeiro atrai a atenção de
Eva por insinuação, chegando a dizer:
“É verdade o que eu ouvi, que Deus não
permitirá que vocês comam de nenhuma
das árvores do jardim?” Foi a primeira
vez que ela ouvira alguém duvidar de
Deus. Não sabia que isso era uma opção
existente. Como qualquer pessoa confi­
ante, cuja fé em Deus é desafiada, ela
ficou indignada. Deus de fato era bom;
ele havia proibido apenas uma árvore.
Contudo, como nunca antes, a atenção
dela foi atraída para esse objeto.
Agora a serpente alega que Deus está
privando a mulher de seus direitos. Deus
está conservando-a ignorante, porque
não quer compartilhar sua sabedoria
com ela. Além disso, a serpente asse-
gura-lhe que a ameaça de Deus era vazia.
Ela não morreria.
Ao admirar a árvore, que não ousara
examinar mais detidamente antes, ela
nota que ela parecia boa para comer,
atraente para pegar e certamente ilumi-
nadora para a sua mente (visto que se
chamava de a árvore do conhecimento).
Impulsivamente, ela estende a mão,
toca-a, esperando que Deus a fulmine.
Em vez disso, aparentemente ela é dei­
xada inteiramente só, e pode saborear o
fruto. Rapidamente ela o reparte com
seu marido.
Deve-se notar que a queda de Adão foi
arranjada mais facilmente do que a de
Eva. Para a serpente tentar Eva com
sucesso, foi necessário astúcia incomum,
mas tudo o que foi necessário para a
queda de Adão foi Eva oferecer-lhe o
fruto!
O restante do capítulo trata dos resul­
tados desta aventura aparentemente
bem-sucedida. A princípio nada acon­
teceu. Depois, eles notaram que estavam
nus, e assim se cobriram com folhas de'
figueira. A serpente havia dito a Eva que
eles teriam o conhecimento que Deus
possuía. O que haviam eles aprendido?
Que estavam nus. Que profundo! Com
todo o extasiante conhecimento que o
homem adquiriu neste século, onde este
o deixou quanto à sua alma? Vencido por
uma esmagadora sensação de culpa a
respeito de si mesmo e da sociedade em
que vive. Sempre acontece assim, está
dizendo o escritor, quando a busca do
conhecimento não é dirigido pela fé (veja
os comentários sobre 2:17).
4) As Conseqüências da Queda (3:8-24)
8 E , ouvindo a voz do Senhor D eus, que
passeav a no ja rd im à tardinha, esconde­
ram -se o hom em e su a m ulher da presença
do Senhor D eus, en tre a s árvores do jard im .
9 M as cham ou o Senhor D eus ao hom em , e
perguntou-lhe: Onde estás? 10 Respondeu-
lh eo h o m em : Ouvi a tu a voz no jard im e tive
m edo, porque estav a nu; e escondi-m e. 11
Deus perguntou-lhe m ais: Q uem te m ostrou
que estav as nu? C om este da árvore que te
ordenei que não com esses? 12 Ao que re s­
pondeu o hom em : A m ulher que m e deste
por com panheira deu-m e da árvore, e eu
com i. 13 P erguntou o Senhor D eus à m u lh er:
Que é isto que fizeste? R espondeu a m ulher:
A serpente enganou-m e, e eu com i. 14 E ntão
o Senhor D eus disse à serp en te:
Porquanto fizeste isso,
m aldita serás tu dentre todos os anim ais
dom ésticos,
e dentre todos os anim ais do cam po;
sobre o teu ventre an d arás,
e pó com erás
todos os dias d a tu a vida.
183
I
15 P orei inim izade en tre ti e a m ulher,
e en tre a tu a descendência e a sua
descendência;
e sta te fe rirá a cabeça,
e tu lhe ferirás o calcanhar.
16 E á m ulher disse:
M ultiplicarei grandem ente a dor da tua
conceição;
em dor d a rá s à luz filhos;
e o teu desejo se rá p a ra o teu m arido,
e ele te dom inará.
17 E ao hom em disse:
Porquanto deste ouvidos à voz de tua
m ulher,
e com este da árvore
de que te ordenei, dizendo:
N ão com erás d e la ;
m aldita é a te rra por tu a cau sa;
em fadiga com erás dela todos os dias da
tu a vida.
18 E la te produzirá espinhos e abrolhos;
e com erás das erv as do cam po.
19 Do suor do teu rosto
com erás o teu pão,
até que tornes à te rra ,
porque dela foste tom ado;
porquanto és pó,
e ao pó to rn arás.
20 Cham ou Adão à sua m ulher E v a, p or­
que e ra a m ãe de todos os viventes. 21 E o
Senhor D eus fez túnicas de peles p a ra Adão
e sua m ulher, e os vestiu. 22 E ntão disse o
Senhor D eus: E is que o hom em se tem
tom ado com o um de nós, conhecendo o bem
e o m al. O ra, não suceda que estenda a sua
m ão, e tom e tam bém d a árv o re d a vida, e
com a e viva eternam ente. 23 O Senhor Deus,
pois, o lançou fora do ja rd im do É den, p a ra
la v ra r a te rra , de que fora tom ado. 24 E
havendo lançado fora o hom em , pôs ao o ri­
ente do ja rd im do É den os querubins, e um a
espada flam ejante que se volvia por todos os
lados, p a ra g u ard ar o cam inho da árvore da
vida.
A consciência de sua nudez, depois de
ter adquirido o conhecimento provindo
do fruto proibido por Deus, era essen­
cialmente o resultado de sua alienação de
Deus no processo. Anteriormente, Adão
e Eva estavam vivendo em uma comu­
nhão sadia um com o outro e com Deus.
Eles não se consideravam em contrapo­
sição a Deus e um com o outro, mas
aceitavam cada relacionamento sem
questionar. Agora repentinamente tor­
navam-se cônscios das diferenças exis­
tentes entre eles. “Adão está olhando
para mim” , cisma Eva, e ela precisava
esconder-se dele, e vice-versa. “Não pos­
so deixar Deus me ver desta forma”,
sentiam ambos. “Eu e tu” substituem
o “nós” de seu relacionamento anterior.
Quando Eva foi induzida pela serpente a
pensar que Deus, na verdade, não se
interessava por ela, a alienação já tivera
início. Quando ela comeu do fruto, a dita
alienação foi consumada. “Deus é Deus e
eu sou eu, e eu estou preparada para me
virar sozinha.” O que Jesus ensina tão
claramente, que a separação de Deus
resulta na separação de nossos seme­
lhantes, o Velho Testamento também
dramatiza nesta passagem.
Hoje em dia os objetivos do homem não
devem ser apenas minimizar as diferen­
ças que descobriu existirem entre ele e
outrem, mas enfatizar a sua unidade
essencial. Isto pode ser conseguido ape­
nas se a cerca quebrada for consertada
no lugar certo, onde a princípio o ho­
mem abandonou o domínio de seu Cria­
dor. Só quando os homens se tomam um '
com Deus e se perdem na vontade divina,
é que podem abandonar o seu próprio
senso de vergonha em relação a outrem^
Originalmente, Adão e Eva eram um,
porque nunca haviam notado particular­
mente como eram diferentes. Uma vez
tendo sido feitos conscientes disso, os
nossos ancestrais originais jamais pude­
ram esquecê-lo. Parar aí, contudo, é
permanecer em uma condição decaída.
Avançar em uma unidade por entre a
diversidade é o alvo da criação.
O homem, em sua alienação, se escon­
de de Deus, que não o deixará por conta
própria, mas vem, para lembrar-lhe as
conseqüências do fato de ele ter negado o
seu relacionamento apropriado com ele.
O destino da serpente enfatiza o golpe
dado em seu orgulho; a sua astúcia é
rasteira e limitada à sua trilha através do
pó. A condição da mulher é tríplice: as
dores do parto, a criação de muitos filhos
(Mais do que ela pode dar conta? O
verbo hebraico “multiplicar” também
184
govema “conceição” . A RSV a considera
como hendíadis, figura em que se usam
dois substantivos ligados por e, em vez de
um substantivo e um adjetivo) e a domi­
nação de seu marido. (Note-se que esta é
uma regra pelo consentimento da gover­
nada. Ê porque ela o deseja, que ele pode
governar sobre ela!) Ê nestas três áreas
que as mulheres têm lutado para se liber­
tarem, neste último século: o uso de
anestésicos no parto, o controle da nata­
lidade e os direitos iguais da mulher
perante a lei. Ê nas culturas cristãs que
estes alvos têm sido alcançados em pri­
meiro lugar.
A declaração da guerra que iria ser
travada entre a serpente e a mulher tem
sido chamada de Protevangelium, o
primeiro evangelho, as primeiras boas-
novas. Dificilmente este era o significado
para Adão e Eva. Significava, para eles,
uma luta de morte entre os poderes de­
moníacos e humanos, com pequena espe­
rança de sobrevivência para ambos ou
um dos dois. Algum consolo pode ser
encontrado na destruição certa do pode­
rio demoníaco (esmagada a cabeça da
serpente). Pois os dentes inoculadores
mortais da serpente, para ferir o calca­
nhar da humanidade até que ela seja
esmagada, normalmente implicam em
morte também para o homem. Obvia­
mente, este versículo, por si mesmo,
oferece pouca esperança — só uma re­
mota possibilidade. A esperança é en­
contrada claramente no contexto, po­
rém, quando Deus mesmo veste Adão e
Eva.
Outro elemento de esperança encon­
tra-se no fato de que a porta do jardim
não foi trancada nem o jardim destruído
como a vinha de Isaías 5. O portão foi
guardado pelos querubins (misteriosos
protetores da santidade de Deus, seme­
lhantes às figuras aladas, parcialmente
humanas e parcialmente animais, que
guardavam os templos antigos), dando a
entender, possivelmente, que estavam ali
não apenas para impedir que os homens
entrassem, mas também para permitir a
entrada, no caso de que alguém que
tivesse ganho o favor de Deus aparecesse.
Alguns expositores sugerem que a ser­
pente estava certa em sua declaração a
Eva, de que eles não morreriam como
resultado de terem comido o fruto proi­
bido, pois eles não morreram “no dia em
que dela” comeram, e posteriormente
teriam morrido de qualquer forma. To­
davia, 2:17b pode ser lido desta forma:
“No dia em que dela comeres, começarás
a morrer.” O processo da morte espi­
ritual começou quando eles pecaram, em
sua alienação de Deus, fonte de toda a
vida. Se eles não tivessem pecado, ainda
podiam ter morrido fisicamente, mas
esta seria a forma de entrar em um
estado de existência ainda mais aben­
çoado. Quando o pecado separou os
homens de Deus, a morte já lhes havia
sobrevindo. A morte do corpo físico so­
mente enfatizou o seu estado irreme­
diável de prisão às coisas terrenas.
O fato de Adão ter dado à sua mulher
o nome de Eva (vivente), em face da
sentença de Deus com respeito a morte
sem significado, acentuou a determina­
ção obstinada do homem de perseverar,
a despeito de perspectivas impossíveis,
e a sua consciência de que qualquer espe­
rança do futuro estava ligada e dependia
do ventre fértil de sua esposa. A morte
lhe sobreviria e à sua esposa, mas através
dela uma nova vida surgiria para gera­
ções que ainda não haviam nascido.
O homem precisa abandonar o jardim,
para impedir que ele coma da árvore da
vida, pois, em tal condição de rebeldia,
a sua existência contínua na terra iria
apenas poluir o Universo. A árvore da
vida representa a vida eterna, perdida
para ele, a menos que lhe seja facultada
por Deus. Em a narrativa acerca da
árvore da vida e da árvore do conheci­
mento, alguns expositores encontram um
conflito entre os dois relatos, achando
que no original ocorre, na verdade,
apenas uma árvore (Simpson e von Rad).
185
Ambas as árvores, contudo, estão agora
em a narrativa e são necessárias para o
seu entendimento. Pelo fato de ter comi­
do da árvore do conhecimento, o homem
perdeu o direito à árvore da vida.
Como estão erradas as pessoas que
pensam que no cristianismo o principal
propósito de Deus é propiciar a vida
eterna! Adão podia tê-la conseguido sim­
plesmente se tivesse sido deixado por sua
própria conta no jardim. A ênfase da
Escritura é que Deus não permitirá que o
homem viva para sempre, enquanto ele
não o capacitar a tomar-se um bom
mordomo de sua existência. Em Cristo,
somos as novas criaturas a quem ele deu
o poder de viver a vida proposta por ele,
não em perfeição, enquanto neste corpo,
mas movendo-nos em direção a esse alvo
quando a obstinação da came será anu­
lada, e substituída por submissão, sendo
assim glorificada na ressurreição final.
3. A História de Caim (4:1-26)
Estas passagens estão arraigadas pro­
fundamente na antiguidade. No hebrai­
co, a palavra Caim é similar ao nome dos
“queneus” (Núm. 10:29 e s.), uma tribo
nômade do deserto cuja história é, pro­
vavelmente, expressa aqui (cf. von Rad,
p. 104). A narrativa, como a temos,
todavia, não parece ser uma história
tribal disfarçada, pois os descendentes
de Caim não seguem o seu modo de vida.
Eles eram, provavelmente, urbanos
(Cassuto).
No capítulo 4, conforme consta, existe
uma tensão considerável entre pastor e
lavrador (v. 1-16) e entre a sociedade
rural e a urbana (v. 17-26). Os ancestrais
dos hebreus eram originalmente pasto­
res; os cananeus, que foram desapossa­
dos, eram lavradores.
1) Caim e Abel (4:1-16)
1 Conheceu Adão a E v a, su a m ulher; ela
concebeu e, tendo dado à luz a Caim , disse:
A lcancei do Senhor um v arão . 2 Tornou a
d ar à luz a um filho — a seu irm ão Abel.
Abel foi p asto r de ovelhas, e C aim foi la v ra ­
dor da te rra . 3 Ao cabo de dias trouxe Caim
do fruto da te rra um a oferta ao Senhor. 4
Abel tam bém trouxe dos prim ogênitos das
suas ovelhas, e da su a gordura. O ra, atentou
o Senhor p a ra Abel e p a ra a su a oferta, 5
m as p a ra C aim e p a ra a su a o ferta não
atentou. Pelo que irou-se C aim fortem ente,
e descaiu-lhe o sem blante. 6 E ntão o Senhor
perguntou a C aim : P o r que te iraste? e P o r
que está descaído o teu sem blante? 7 P o r­
v entu ra se procederes bem , não se h á de
lev an tar o teu sem blante? e se não p roce­
deres bem , o pecado jaz à porta, e sobre ti
será o seu desejo; m as sobre ele tu deves
dom inar. 8 F alou C aim com o seu irm ão
Abel. E , estando eles no cam po, C aim se
levantou contra o seu irm ão Abel, e o m atou.
9 Perguntou, pois, o Senhor a C aim : Onde
está Abel, teu irm ão? R espondeu ele: N ão
sei; sou eu o g u ard a do m eu irm ão? 10 E
disse D eus: Que fizeste? A voz do sangue de
teu irm ão está clam ando a m im desde a
te rra . 11 A gora m aldito és tu desde a te rra ,
que abriu a sua boca p a ra da tu a m ão rece­
b er o sangue de teu irm ão. 12 Quando la v ra ­
res a te rra , não te d a rá m ais a sua força;
fugitivo e vagabundo serás na te rra . 13 E n ­
tão disse C aim ao Senhor: É m aior a m inha
punição do que a que eu possa suportar. 14
E is que hoje m e lanças d a face da te rra ;
tam bém da tu a presença ficarei escondido;
serei fugitivo e vagabundo na te rra ; e qual­
quer que m e encontrar m atar-m e-á. 15 O
Senhor, porém , lhe disse: P ortanto, quem
m a ta r a C aim , sete vezes sobre ele c airá a
vingança. E pôs o Senhor um sinal em Caim ,
p a ra que não o ferisse quem quer que o
encontrasse. 16 E ntão saiu C aim d a p resen ­
ça do Senhor, e habitou n a te rra de Node, ao
oriente do É den.
No Velho Testamento, a palavra “co­
nhecer” é usada a respeito de relações
sexuais, como no versículo 1. Richardson
descreve a sua forma de pensamento:
“Isto não ê um mero eufemismo. No
pensamento hebraico “conhecer’ não é
meramente acadêmico ou ‘intelectual’;
sempre dá a entender a entrada em rela­
ções pessoais ativas com a pessoa conhe­
cida.” Os escritores bíblicos sabiam que
a este respeito o conhecimento sexual é
uma das experiências mais significativas
possíveis para os seres hutiianos.
O uso de ish (homem) para um recém-
nascido não se encontra em nenhuma
186
outra parte do Velho Testamento. Pode
ser que aqui esteja enfatizando o poten­
cial dessa criança. Caim é “um homen­
zinho” ou esta expressão pode mais sim­
plesmente estar significando “um ma­
cho” . Com a ajuda do Senhor, ou alcan­
cei do Senhor, significa literalmente
“com o Senhor”. Das muitas sugestões a
respeito do significado da palavra hebrai­
ca eth (sinal do acusativo, ou a prepo­
sição com), a mais provável é a tradução
da RSV, “com a ajuda de”. Eva consi­
dera o nascimento de seu filho como um
dom de Deus. Mesmo agora, que sabe­
mos mais acerca de hereditariedade, o
mistério da vida ainda continua com
Deus. Cada nascimento é ainda um novo
milagre.
Abel significa vaidade ou fraqueza,
mas o significado do nome não é indica­
do na história. Neste contexto, é um
apelido estranho. Seria ele débil fisica­
mente? Se assim era, ele venceu essa
fraqueza, pois a vida de pastor era bem
rude. Alguns expositores têm sugerido
que talvez Eva esperava que Caim fosse a
“descendência” que iria esmagar a ser­
pente. Se assim foi, ela notou logo a
natureza teimosa dele, mesmo enquanto
pequeno. O nome que ela deu ao segun­
do filho pode ter expressado a sua deses­
perança diante de mais um filho, pois
a maldição de Deus sobre ela estava
fazendo-se sentir.
A despeito da maldição sobre a terra,
Caim tomou-se lavrador, enquanto
Abel decidiu-se pela profissão de pastor.
E, então, cada um deles trouxe volun­
tariamente uma oferta a Deus, pois ela
não fora ordenada. Caim apropriada­
mente trouxe de seu produto, enquanto
Abel trouxe ovelhas. No entanto, Deus
aceitou Abel e sua oferta, e rejeitou Caim
e sua dádiva. O que acontecera de erra­
do? Ambos haviam sido sinceros. Eles
haviam trazido os seus presentes por
vontade própria. Mas nem então nem
agora a sinceridade é suficiente. A dife­
rença estaria nos materiais ofertados?
Será que Deus rejeitou Caim porque
trouxe produto da terra, em vez de fazer
oferenda de sangue? Dificilmente isto
seria verdade, pois a oferta de cereais
(“ofertas de manjares”, Lev. 2:1) era
uma das principais ofertas do sistema
sacrificial posterior. Obviamente Deus se
agradara mais da oferta de sangue, que
era a principal no Velho Testamento,
mas não teria rejeitado a de cereais, a
não ser como uma oferta pelo pecado
(holocausto). Não há, aqui, nenhuma
indicação de que o caso é de uma oferta
pelo pecado.
Uma chave valiosa é encontrada na
menção de primogênitos na oferta de
Abel. O termo “primícias” é usado cor­
respondentemente em relação a produtos
da terra, no Velho Testamento. Da mes­
ma forma como os primogênitos eram os
mais preciosos entre os animais, as “pri­
mícias” o eram entre os cereais. A ausên­
cia desse termo correspondente em refe­
rência a Caim é óbvia. A despeito da
opinião de Gunkel, bem como de grande
parte dos comentaristas modernos, de
que o contexto dá a entender que Caim
trouxe “a fina flor” dos cereais, ou, do
ponto de vista do Talmude, de que a sua
oferta era da pior qualidade, esta pas­
sagem dá a entender, obviamente, que,
em contraste com o melhor que Abel
havia trazido, Caim simplesmente trouxe
a Deus algo. Não que fosse da pior
qualidade; não era o melhor do que ele
tinha.
Caim estava agradecido a Deus por um
rendoso ano agrícola; ele queria agra­
decer-lhe pela sua ajuda; por isso trouxe-
lhe um presente. Abel, ao dar a Deus o
que tinha de melhor, como mais tarde os
homens iriam fazer diante dos gover­
nantes humanos, testificou de sua com­
pleta dependência de Deus e do quanto
devia a ele. Caim agradeceu a Deus por
servi-lo. Abel confessou-se servo de Deus.
Não somos informados como foi que
estes homens descobriram a reação de
Deus à sua oferta. Talvez isto se tornou
187
aparente quando o rebanho de Abel se
multiplicou, enquanto a colheita seguin­
te de Caim foi um fracasso. Seja como for
que Deus a tenha feito conhecida, a
reação de Caim foi hostil, evidência sufi­
ciente de sua atitude errada para com o
seu Criador. Um verdadeiro homem de fé
ainda continua crendo na bondade de
Deus, mesmo quando as circunstâncias
são difíceis (v. 7a). Caim é advertido de
que o seu ressentimento poderia levá-lo
ao desastre, se ele não o reprimisse.
Saiamos ao campo é uma adição feita
pela RSV (versão da Bíblia em inglês que
serve de base para este Comentário em
inglês) ao texto recebido do hebraico,
seguindo várias versões antigas, espe­
cialmente a LXX e o Pentateuco Sama-
ritano. Faltam, ao texto hebraico, as
palavras que Caim disse. Há muitas ten­
tativas para resolver o problema, quer
por emenda textual, quer por significa­
dos alternativos do verbo falou. É bem
possível que o que ele disse tenha-se
perdido para a posteridade.
Onde está... teu irmão? Agora se se­
gue a “Onde estás?” de 3:9. Desta for­
ma, as duas perguntas fundamentais,
que Deus propõe ao homem, já foram
feitas. Ao redor destas duas questões se
agruparão os Dez Mandamentos, o rela­
cionamento do homem com Deus e de­
pois com o seu irmão. A sarcástica res­
posta de Caim: Sou eu o guarda (pastor)
do meu irmão? não é respondida por
Deus de maneira direta, mas a parábola
do bom samaritano é a resposta. Neste
contexto, esta parábola não significaria
que um homem é qualificado para tomar
as decisões finais a respeito do papel ,de
outra pessoa na vida, como um pastor
governa o seu rebanho, porque poucos
homens querem ser “guardados” neste
sentido. Pelo contrário, esta resposta de
Caim dá a entender que ele não se sente
responsável pelo que acontece ao seu
irmão. A impropriedade óbvia desta res­
posta não requeria resposta.
A expressão usada a respeito da terra,
que abriu a sua boca, concorda com o
conceito, encontrado no decorrer de todo
o Velho Testamento, de que as entra­
nhas da terra (Seol, a sepultura) têm um
apetite insaciável de homens, devorando
em todas as oportunidades. Deus nada
tem dessa insensibilidade. O Seol não é
tão profundo que Deus não possa ouvir o
clamor dos sangues (plural em heb.,
como acontece muitas vezes em refe­
rência a sangue derramado, cf. I Reis
2:5,31; Is. 1:15; 9:5) de Abel. É quase
tão difícil esconder um homicídio dos
outros homens quanto de Deus, pois esse
clamor vem da própria terra, para ser
ouvido por aqueles que o desejarem.
O castigo de Caim foi adequado. A
parceria dele com a terra que o alimen­
tava com os seus produtos, e que ele
acabara de alimentar com o sangue de
seu irmão, é dissolvida. Nunca mais ele
se sentiria à vontade na terra, nem ela
produziria para ele a sua força (produ­
tos). Ele responde, dizendo, literalmen­
te: “Minha iniqüidade é mais do que eu
posso carregar”, com ênfase no castigo
de Deus, que automaticamente se segue.
De fato, esta é a condição de todos os
homens. Ninguém consegue carregar o
peso de sua própria iniqüidade. É signi­
ficativo que o Servo Sofredor, de Isaías
53, diz esse texto, levou as tristezas e
iniqüidades do homem (Is. 53:4, 11b,
12b). Aqui, Deus não promete carregar
as iniqüidades de Caim, mas de fato
alivia a sua carga, protegendo-o da pro­
babilidade de ser morto, colocando sobre
ele uma marca especial.
Deve-se notar que a marca colocada
em Caim, seja ela o que possa ter sido,
não fazia parte de seu castigo, mas era
um ato de misericórdia. Quando se diz
que Saiu Caim da presença do Senhor, o
significado não é que ele abandonou o
domínio de Yahweh propriamente dito,
pois, em Gênesis, ele é o Deus de toda a
terra. Pelo contrário, a idéia é que entre
eles não havia comunhão possível. Isto
188
não é porque o homicídio é pecado sem
perdão, mas porque Caim não expres­
sara nenhum arrependimento pelo seu
pecado e não fizera nenhum pedido de
reconciliação com Deus. Não era que
Deus tivesse falta de misericórdia; era
que Caim tinha falta de fé.
2) Caim e a Civilização (4:17-26)
17 Conheceu C aim a sua m ulher, a qual
concebeu, e deu à luz a Enoque. C aim edifi­
cou u m a cidade, e lhe deu o nom e do filho,
Enoque. 18 A Enoque nasceu Irad e, e Irade
gerou aM eüjael, e M eüjael gerou a M etusael,
e M etusael gerou a L am eque. 19 L am eque
tom ou p a ra si duas m ulheres: o nom e dum a
e ra Ada, e o nom e da o u tra Zila. 20 E Ada
deu à luz Ja b a l; este foi o pai dos que
habitam em tendas e possuem gado. 21 O
nom e do seu irm ão e ra Ju b al; este foi o pai
de todos os que tocam h arp a e flauta. 22 A
Zila. tam bém nasceu um filho, Tubal-Caim ,
fabricante de todo instrum ento cortante de
cobre e de ferro ; e a irm ã de Tubal-Caim foi
N aam a.
23 D isse L am eque a suas m ulheres:
Ada e Zila, ouvi a m inha voz;
escutai, m ulheres de L am eque, as
m inhas p a la v ra s;
pois m atei um hom em por m e ferir,
e um m ancebo por m e pisar.
24 Se C aim h á de se r vingado sete vezes,
com certeza L am eque o será seten ta e
sete vezes.
25 Tornou Adão a conhecer sua m ulher, e
ela deu à luz u m filho, a quem pôs o nom e
de Sete; porque, disse ela, D eus m e deu
outro filho em lu g ar de A bel; porquanto
Caim o m atou. 26 A Sete tam bém nasceu um
filho, a quem pôs o nom e de Enos. Foi nesse
tem po que os hom ens com eçaram a invocar
o nom e do Senhor.
Conheceu Caim a sua mulher. Onde
ele a conseguiu? Eruditos rabínicos e
cristãos têm sugerido que ele casou-se
com uma de suas irmãs, pois se diz que
Adão teve filhas (5:4).
Parece que o escritor desta narrativa
presume que Caim não teve dificuldade
em encontrar uma esposa na terra de
Node, como se já existisse outro povo
vivendo ali. Caim anteriormente havia
expresso o seu temor de que qualquer
pessoa que o encontrasse o matasse. De
quem teria ele medo? Naquela época
existiam apenas o seu pai e a sua mãe.
Parece que ele estava sabendo da exis­
tência de outras pessoas “lá fora, al­
gures” .
Contudo, a explicação mais provável
do casamento de Caim é a tradicional.
Quando Caim diz que qualquer pessoa
que o encontrasse o mataria, na mente
do escritor isto significava que qualquer
pessoa era parente, pois o clã era res­
ponsável pela vingança do sangue derra­
mado, naquela época.
Esta perícope (v. 17-26, mas especial­
mente os v. 17-24) era originalmente
independente de 4:1-16. Ela foi colocada
aqui para descrever o desenvolvimento
da linhagem de Caim, em contraste com
a de Sete. Os descendentes de Caim
começaram todas as principais iniciati­
vas da civilização material: cidades, do­
mesticação do gado, música e trabalho
em metal. Muitos expositores conside­
ram imprecisão do escritor dizer que o
ferro era trabalhado naquela época re­
mota, mas não sabemos quando ele foi
usado pela primeira vez. A Idade do
Ferro (quando armas de ferro eram co­
muns) foi muito posterior.
A tragédia foi que o progresso mate­
rial da linhagem de Caim não foi igua­
lado pelas conquistas morais e religiosas.
Eles não apenas deram início à poliga­
mia, mas também Lameque representa o
fim da linhagem — homem que não
precisa mais da proteção de Deus, que se
ufana de que com armas que ele mesmo
manufaturou pode defender-se. O ho­
mem é um “rapaz novo” (yeledh). Neste
contexto, esta palavra pode significar jo­
vem em seus verdes anos, mas não é este
o seu sentido costumeiro. Esta cantiga
pode estar expondo ironicamente a jac­
tância vazia de um homem oco. Jesus
inverte a jactância de Lameque de uma
vingança setenta e sete vezes, ensinando
uma quantidade correspondente de
perdão (Mat. 18:22).
Em contraste com a linhagem de
Caim, uma nova direção tem início, com
189
o nascimento de Sete a Adão e Eva.
Desta vez, a alegria de Eva é misturada
com tristeza, e ela usa um termo mais
impessoal para referir-se a Deus. Quan­
do nasceu um filho a Sete, que lhe deu o
nome de Enos (fraqueza), os homens
começaram a invocar o nome do Senhor
(Yahweh). Em sua força, a linhagem de
Caim não sentira necessidade de Deus;
em sua fraqueza, Enos reconheceu que
tinha necessidade dele. A força de Caim
por fim de nada lhe adiantaria. Enos iria
estabelecer uma linhagem que nunca
teria fim.
A declaração desta fonte (Judia), de
que o nome de “Yahweh” era usado
nesta época remota, está aberta à acusa­
ção de que ela pode ser anacrônica.
Tanto Êxodo 3:13 e ss. (fonte Israelita do
Norte) quanto Êxodo 6:2 e ss. (fonte
Sacerdotal) dizem que este nome foi
dado a Moisés por revelação de Deus.
Elas não usam esse nome até a época de
Moisés. A fonte Judia retrata os homens
usando-o desde a época de Adão. Isto
pode significar simplesmente que o Deus
adorado pelos patriarcas era Yahweh,
seja qual for o nome pelo qual ele era
chamado; ou é bem possível que o nome
“Yahweh” fosse usado em época anterior
à de Moisés e que um conteúdo revelador
novo tivesse sido aplicado a esse título,
na época mosaica (cf. Speiser).
4. Os Patriarcas Antediluvianos (5:1-32)
Esta passagem continua o relato Sa­
cerdotal de Gênesis 2:4a. Ela tornou-se
famosa como o “capítulo gerou” por cau­
sa da maneira como as traduções em por­
tuguês bem assim a KJV traduzem o
refrão hebraico que a RSV verte como
“ele tornou-se o pai de” (5:4,6,9, et ál).
O impacto primordial deste capítulo so­
bre o leitor comum é a inusitada longe­
vidade dos patriarcas, que alcançaram a
média superior a novecentos anos. Al­
guns intérpretes supõem que havia uma
forma diferente de contar os anos entre
os antigos. Embora sempre tenha havido
maneiras diferentes de contar o número
de dias em um ano, quando as estações
voltam, um ano é um ano em qualquer
civilização. Outros têm sugerido que
temos a duração da vida de tribos rela­
cionadas neste capítulo, mas dificilmente
Enoque e Noé seriam tribos.
O problema é complicado, pelo fato de
que a LXX e o Pentateuco Samaritano
diferem ambos do Texto Massorético e
um do outro. O argumento de Cassuto,
de que o Texto Massorético, provavel­
mente, é mais confiável, neste capítulo,
do que as outras versões, possivelmente
é correto, mas, em alguns lugares, os
outros podem estar preservando uma
redação mais antiga.
A Lista de Reis Sumérios também
precisa ser considerada. Ela chegou até
nós tanto através de Berossus, historia­
dor grego, como através de textos sumé­
rios pertencentes ao fim do terceiro milê­
nio a.C. ou ao começo do segundo mi­
lênio. Da mesma forma como no capí­
tulo 5, há em Berossus e em um texto
sumério dez notáveis dignitários entre a
criação e o dilúvio. O outro texto sumé­
rio tem oito nomes, correspondentes aos
oito patriarcas constantes no texto acerca
de Caim, em Gênesis 4.
Os nomes das listas sumérias não se
parecem com os do Velho Testamento,
mas há uma correspondente diminuição
ou encurtamento da longevidade depois
do dilúvio, e o seu sétimo dignitário,
como Enoque, é removido sobrenatural­
mente. A duração da vida de seus reis
ultrapassa a idade de qualquer patriarca
do Velho Testamento; variam de 18.000
a 65.000 anos. É também significativo
que os seus dignitários da antiguidade
eram reis que eram parcialmente divinos,
enquanto os patriarcas do Velho Testa­
mento eram inteiramente humanos.
Não pode haver dúvida de que há
alguma relação entre a lista suméria e a
que está na Bíblia. Seria o relato hebrai­
co um desenvolvimento posterior do
sumério, como o sugerem Speiser e Cas-
190
suto, ou ambos descendem de um relato
mais antigo do que eles? Grande parte
dos intérpretes modernos presume que os
hebreus adaptaram a Lista dos Reis Su-
mérios aos seus objetivos teológicos,
encurtando a duração da vida deles a
uma extensão mais razoável, mas fazen­
do os patriarcas antediluvianos viverem
mais do que os que vieram depois do
dilúvio, a fim de enfatizar o contínuo
preço do pecado sobre a raça humana.
Todavia, não é provável que os histo­
riadores hebraicos tivessem distorcido a
história para satisfazer às suas idéias
teológicas. Sem dúvida, eles rearran-
jaram e remterpretaram a história, a fim
de enfatizar a sua própria perspectiva,
mas não fizeram nenhuma tentativa para
inventá-la. Eles tinham demasiado res­
peito pela História e pelo lugar de Deus
naqueles acontecimentos do passado. £
muito mais provável que os relatos he­
braico e sumério tivessem descendido de
uma fonte comum.
Não há nenhuma forma de provar que
os patriarcas não viveram tanto quanto o
Velho Testamento diz que viveram. Con­
tudo, seria bem natural que, no processo
de contar e repetir a história, anos fos­
sem adicionados à vida dos patriarcas
antediluvianos. Certamente os escritores
bíblicos não adicionaram ou subtraíram
anos das genealogias que receberam.
As idades registradas refletem o contexto
da tradição quando as fontes foram
compostas.
1) De Adão a Enoque (5:1-20)
1 E ste é o livro das gerações de Adão. No
dia em que D eus criou o hom em , à sem e­
lhança de D eus o fez. 2 H om em e m ulher os
criou; e os abençoou, e os cham ou pelo nom e
de hom em , no dia em que foram criados.
3 Adão viveu cento e trin ta anos, e gerou um
filho à sua sem elhança, conform e à sua
im agem , e pôs-lhe o nom e de Sete. 4 E foram
os dias de Adão, depois que gerou a Sete,
oitocentos anos; e gerou filhos e filhas. 5
Todos os dias que Adão viveu foram nove­
centos e trin ta anos; e m orreu. 6 Sete viveu
cento e cinco anos, e gerou a Enos. 7 V iveu
Sete, depois que gerou a E nos, oitocentos e
sete anos; e gerou filhos e filhas. 8 Todos os
dias de Sete foram novecentos e doze a n o s; e
m orreu. 9 E nos viveu noventa anos, e gerou
a Q uenã. 10 Viveu Enos, depois que gerou a
Quenã, oitocentos e quinze anos; e gerou
filhos e filhas. 11 Todos os dias de Enos
foram novecentos e cinco anos; e m orreu.
12 Q uenã viveu seten ta anos, e gerou a Ma-
alalel. 13 Viveu Q uenã, depois que gerou a
M aalalel, oitocentos e q u aren ta an o s; e ge­
rou filhos e filhas. 14 Todos os dias de Q uenã
foram novecentos e dez anos; e m orreu.
15 M aalalel viveu sessenta e cinco anos, e
gerou a Jared e. 16 V iveu M aalalel depois
que gerou a Jared e, oitocentos e trin ta an o s;
e gerou filhos e filhas. 17 Todos os dias de
M aalalel foram oitocentos e noventa e cinco
anos; e m o rre u . 18 Ja re d e viveu cento e ses­
senta e dois anos, e gerou a Enoque. 19 Vi­
veu Jare d e , depois que gerou a Enoque,
oitocentos anos; e gerou filhos e filhas.
20 Todos os dias de Ja re d e foram novecentos
e sessenta e dois a n o s; e m orreu.
Este é o livro das gerações de Adão
pode significar que outrora havia um
livro com esse nome, que era usado como
fonte de material para o livro de Gênesis,
pelos editores Sacerdotais. Esta obra
forneceu, presumivelmente, o esboço
básico do livro de Gênesis. Outros mate­
riais foram reunidos de várias fontes e
inseridos nessa estrutura. Contudo, livro
significa, literalmente, escrito, e pode ser
simplesmente uma declaração referente
ao que deve seguir-se no capítulo 5.
Quando se diz que Adão gerou um
filho à sua semelhança, conforme à sua
imagem, afirma-se o fato de que ele
passou para o seu filho tanto a imagem
que lhe fora dada por Deus quanto a
forma contaminada dela, que o pecado
havia deixado nele. A fonte Sacerdotal
não tem uma história da qued$ do ho­
mem, como a Judia (caps. 2 e 3), mas
dá-o a entender aqui e no encurtamento
da vida do homem depois do dilúvio. É a
fonte Sacerdotal que se interessa parti­
cularmente pelas idades exatas dos ho­
mens quando os seus filhos nasceram, e
quando morreram, e ela, conseqüente­
mente, preservou estes dados.
191
O solene refrão que se repete neste
capítulo propicia notável percepção da
natureza da existência para o homem
médio. Tudo o que pode ser dito a res­
peito dele é que ele nasceu, teve filhos e
morreu. O mundo não fica melhor nem
pior por ele ter estado nele; ele é apenas
um elo entre gerações. O obituário médio
hoje em dia ainda consiste da mesma
sorte de informações.
Embora esta passagem seja o livro das
gerações de Adão, não se menciona Caim
na fonte Sacerdotal, a não ser que Quenã
deva ser identificado com ele (v. 9-14).
Isto significaria que em uma tradição
Caim seria um bisneto de Adão (mas,
assim mesmo, no sentido hebraico, seu
filho). Se isto era verdade, o problema de
onde ele arrumou a sua esposa estaria
facilmente resolvido. Contudo levantaria
outros problemas, especialmente um
conflito com o capítulo 4, em que Adão e
Eva são retratados como um casal que
fica sem filhos, quando Caim mata Abel
e é expulso de casa. Portanto, é mais
satisfatório concluir que Caim é deixado
fora da genealogia Sacerdotal porque ele
não estava na “verdadeira linhagem da
igreja, de Adão até Noé” (Richardson,
p. 90). O cronista segue a mesma prática
em sua genealogia. Gênesis 5 não se
propõe a ser um registro familiar com­
pleto.
2) De Enoque a Noé (5:21-32)
21 Enoque viveu sessenta e cinco anos, e
gerou a M atusalém . 22 Andou Enoque com
D eus, depois que gerou a M atusalém , tr e ­
zentos anos; e gerou filhos e filhas. 23 Todos
os dias de Enoque foram trezentos e ses­
senta e cinco anos. 24 Enoque andou com
D eus; e não ap areceu m ais, porquanto Deus
o tom ou. 25 M atusalém viveu cento e oitenta
e sete anos, e gerou a Lam eque. 26 Viveu
M atusalém , depois que gerou a Lam eque,
setecentos e oitenta e dois anos; e gerou
filhos e filhas. 27 Todos os dias de M atusa­
lém foram novecentos e sessenta e nove
anos; e m orreu. 28 L am eque viveu cento e
oitenta e dois anos, e gerou um filho, 29 a
quem cham ou Noé, dizendo: E ste nos con­
so lará a c erca de nossas obras e do trabalho
de nossas m ãos, os quais provêm d a te rra
que o Senhor am aldiçoou. 30 Viveu L am e­
que, depois que gerou a Noé, quinhentos e
noventa e cinco an o s; e gerou filhos e filhas.
31 Todos os dias de L am eque foram sete­
centos e seten ta e sete anos; e m orreu. 32 E
e ra Noé da idade de quinhentos anos; e
gerou Noé a Sem , Cão e Jafé.
A inclusão da perícope de Enoque
neste capítulo é um golpe de pena magis­
tral. O solene refrão é subitamente que­
brado pela revelação de que para um
homem a vida foi diferente. Embora
tivesse começado da mesma forma que
para os outros, ela desenvolve-se de
maneira bem diferente, porque Enoque
andou com Deus. Esta é uma forma
vívida de retratar uma íntima comunhão
entre os dois. Pretende esta passagem
dizer que o caminhar com Deus começou
quando Matusalém nasceu? É possível,
pois o nascimento de um primogênito
muitas vezes leva o homem a ter pensa­
mentos mais sérios. No entanto, o cami­
nhar de Enoque com Deus podia ter sido
um relacionamento que durou a vida
toda.
E não apareceu mais significa que ele
subitamente desapareceu, e não pôde
ser encontrado na terra. Sem ter conhe­
cido a morte da forma como a experi­
mentamos, ele foi trasladado, para estar
com Deus. Aqui está o destino ideal que
Deus devia ter para Adão, se ele não
tivesse pecado. Esta passagem é colocada
aqui para dispersar o pessimismo de
Gênesis 3. Por fim se permite que alguém
entre no Jardim do Éden espiritual. Eno­
que andou com Deus. Este se tornou o
ideal que guiou as gerações futuras. Em
Salmos 73:24, o verdadeiro crente decla­
ra: “e depois me receberás em glória.”
O verbo traduzido como “receberás” é o
mesmo vertido como tomou no v. 24.
Deus não faz acepção de pessoas. Se ele
tomou Enoque, que andou com ele,
tomará qualquer crente verdadeiro.
Matusalém ostenta a distinção de ter
vivido mais do que qualquer outro ho­
mem na Bíblia. Todavia, tudo o que
192
pode ser dito dele é que ele viveu, teve
filhos e morreu. O seu pai viveu, nesta
terra, um terço do que ele viveu, mas
realizou muito mais. O verdadeiro signi­
ficado da vida não consiste na longevi­
dade, mas na qualidade dos anos vividos
De acordo com a cronologia Sacerdo­
tal, Matusalém morreu no ano do dilú­
vio. Se o dilúvio não tivesse acontecido,
talvez ele teria estabelecido recordes
ainda maiores! No entanto, o Texto Sa-
maritano lhe dá apenas setecentos e vinte
anos. Obviamente, não se pode exagerar
a sua longevidade.
O versículo 29 parece ter sido tirado da
fonte Judia, pois contém o nome de
Yahweh e duas frases familiares dos
capítulos 3 e 4; do trabalho de nossas
mãos (cf. 3:17, 19) e a terra que o Senhor
amaldiçoou (cf. 3:17; 4:11). O editor
Sacerdotal o incluiu a fim de fazer uma
preparação apropriada para Noé, outro
homem que andou com Deus (6:9). O
consolo mencionado por Lameque pro­
vavelmente se relacionava com a pers­
pectiva de ter outro trabalhador em suas
plantações. Contudo, ela foi cumprida
além de seus sonhos, com a remoção da
maldição lançada sobre a terra, como
tributo de Deus à parte que Noé desem­
penhou no dilúvio (8:21). Alguns expo­
sitores supõem que isto tinha referência
ao cultivo da vinha por Noé (Cassuto).
No versículo 32, pela primeira vez a
genealogia menciona mais de um filho de
um dos patriarcas; diz que Noé é o pai de
Sem, Cão e Jafé. A sua presença na arca
deu-lhes posição especial na lista. Outros
homens tiveram filhos e filhas demais
para serem mencionados. Os filhos de
Noé foram todos os homens que restaram
na terra. Por analogia, só Sem devia ser
mencionado, se não fosse o dilúvio. Ã
época em que o livro de Gênesis foi
escrito, a combinação dos nomes de Sem,
Cão e Jafé, provavelmente, já era pro­
verbial.
De acordo com este capítulo, o tempo
que se passou entre a criação de Adão e o
dilúvio foi 1.656 anos. Abraão nasceu, de
acordo com a fonte Sacerdotal, cerca de
300 anos depois. Isto significa que se
passaram cerca de dois mil anos entre a
criação e Abraão. Visto que se sabe que
Abraão viveu cerca de dois mil anos antes
de Cristo, o Bispo Ussher (1650-54 d.C.)
deduziu que o mundo foi criado em cerca
de 4004 a.C.
Outros relacionamentos interessantes
são aparentes nas genealogias. De acordo
com elas, nove dos dez patriarcas ante-
diluvianos estiveram vivos ao mesmo
tempo, num dado momento. Adão só
morreu depois de nascer Lameque, pai
de Noé. Noé ainda estava vivo quando
Abraão nasceu, e também Sem, que
alguns intérpretes supõem ser Melqui-
sedeque! De fato, Abraão morreu antes
de Sem.
Será que a fonte Sacerdotal pretendia
dar a entender uma sociedade contem­
porânea de patriarcas? Von Rad (p. 70),
persuadido quanto a esta afirmativa, cita
Martinho Lutero:
Foi realmente uma idade de ouro, em compa­
ração com a qual a nossa mal pode ser chamada de
uma droga, pois nove patriarcas viveram ao mesmo
tempo, com todos os seus descendentes... Esta é a
maior glória do primeiro mundo, que nele ao
mesmo tempo estavam pessoas que eram muito
mais piedosas, sábias e santas.
Esta interpretação está aberta ao ques­
tionamento. Como é que uma era tão
ideal podia produzir a degeneração que
requereu um dilúvio, para apagá-la?
Nada se diz a respeito da retidão de
qualquer um dos patriarcas antediluvia-
nos, a não ser a de Enoque, e ele foi re­
movido daquele mundo pecador.
Há pequena probabilidade de que a
terra tenha sido criada em 4004 a.C. Os
arqueólogos insistem que a civilização
remonta a pelo menos 7000 a.C., e que o
homem tem estado aqui há muito mais
tempo. Ou a cronologia bíblica está er­
rada, ou ela precisa ser entendida sob luz
diferente: que os anos do relato do Gê­
nesis não são, necessariamente, conse­
cutivos. Ao invés de dizer que nove pa­
193
triarcas viveram ao mesmo tempo, a
fonte simplesmente conta a história da
forma como foi recebida. É interessante
que o capítulo 5 não soma os seus alga­
rismos para chegar a um número total de
anos. Nem uma só vez a narrativa fala de
um contato pessoal entre os patriarcas de
gerações tão separadas. Os escritores de
Gênesis têm um senso muito mais exato
de história do que de fazer tal tentativa.
A fonte Sacerdotal “escolheu dez no­
mes (e, em 11:10e ss., outros dez, de Noé
a Abraão) como marcos separados, e não
como elos contínuos” (Kidner). Quando
se diz que com a idade de noventa anos
Enos gerou Quenã, pode ser que ele
gerou um ancestral de Quenã, e então
viveu outros oitocentos e quinze anos,
antes de morrer. Quanto tempo se pas­
sou até que, na verdade, Quenã nasceu
não é importante; o fato de que Enos era
seu pai é a verdade básica. Nesse mesmo
padrão, a fim de formar três grupos de
quatorze nomes, Mateus, em 1:8b, diz
que Jorâo “gerou” Uzias, que, na ver­
dade, era seu tataraneto.
5. O Grande DUúvio (6:1-9:29)
Histórias referentes a um grande dilú­
vio encontram-se em meio à maioria dos
povos da terra, (*) mas as tradições mais
próximas da narrativa bíblica foram
preservadas entre os babilônios, espe­
cialmente na Epopéia de Gilgamesh.
As correspondências entre os relatos
hebraico e babilónico são tão notáveis,
que não podem ser apenas coincidência.
Ê provável que os dois tenham sido ba­
seados em um antecedente comum, do
qual se desenvolveram, com suas ênfases
características. As diferenças, entre essas
narrativas são ainda mais significativas
do que as semelhanças, e consistem, pri­
mordialmente, na razão dada para o dilú­
vio e em a natureza do Deus que a enviou
(cf. a Introdução).
(•) NOTA DO EDITOR: Interessante ê verificar a
tradição dos índios brasileiros a este respeito.
O relato bíblico não exige que se inter­
prete que cada metro quadrado da terra
tenha sido coberto pela água, assim
como também a declaração de Atos 2:5,
de que estavam em Jerusalém “homens
piedosos de todas as nações que há de­
baixo do céu” não significa que até habi­
tantes das Américas estavam lá! Da
mesma forma como Atos declara que
estavam em Jerusalém homens de todo o
mundo civilizado, a declaração essencial
em Gênesis 6 é que as águas cobriram
toda a terra habitada. Visto que Gênesis
5 não pode ser usado como base para
cronologia (cf. os comentários sobre o
cap. 5), não pode haver exatidão quanto
a este assunto. Alguns expositores judeus
afirmam que Ezequiel 22:24: “Tu és uma
terra que não está purificada, nem rega­
da de chuvas no dia da indignação”,
significa que a terra de Canaã não foi
coberta pelo dilúvio. O próprio Monte
Arará (8:4) tem 5.700 metros de altura,
mas não se diz que a arca repousou sobre
ele, mas sobre “os montes de Arará”.
Diz-se, todavia, que as águas cobriram
todas as montanhas das regiões abran­
gidas, o que certamente inclui o Monte
Arará.
Se o dilúvio foi primevo, como certa­
mente foi, pode ser que tenha coberto
toda a terra. Alguns intérpretes dizem que
os arqueólogos têm evidências conclu­
sivas em favor de um dilúvio universal,
mas este não é o caso. (Há evidências de
inundações em todas as partes da terra,
mas estas não foram, necessariamente,
simultâneas.) Da mesma forma, a ar­
queologia também não pode produzir
evidências contra um dilúvio primevo
universal. Alguns escritores propõem
que, ao tempo dessa inundação, os mon­
tes não eram tão altos como são agora.
Salmos 104:6-8 pode ser assim inter­
pretado:
as águas estavam sobre as montanhas.
à tua repreensão fugiram;
à voz do teu trovão puseram-se em fuga.
Elevaram-se as montanhas,
194
desceram os vales,
até o lugar que lhes determinaste.
É mais provável, porém, que esta pas­
sagem se refira à criação, e não ao di­
lúvio.
A abordagem essencial a este proble­
ma é reconhecer que, quando o escritor
recebeu esta história, o dilúvio já estava
sendo descrito como universal. Ele certa­
mente não tomou o relato de uma inun­
dação local e a universalizou para alcan­
çar os seus objetivos pessoais. Ele usou a
história como a recebeu, a fim de ensi­
nar os caminhos de Deus para com os
homens (cf. a Introdução). Ele não teria
sido levado a usar uma história que não
estava arraigada na verdadeira história
do homem. Por outro lado, a história
original podia ter ganho acréscimos em
sua transmissão.
É claro que o dilúvio foi um aconte­
cimento ímpar, que não se repetiu (9:11 e
ss.); portanto, ele, obviamente, não po­
dia ser a inundação de um rio, como é
proposto por Woolley.11 A expressão
bíblica dá a entender que houve quase
uma volta ao caos original, com águas de
cima e de baixo convergindo uma vez
mais (7:11). Um tufão, acompanhado
por uma onda gigantesca, produzida por
um maremoto do Golfo Pérsico, pode ter
dado origem à catástrofe, seguida por
outras reações em cadeia, em outros
lugares.
1) A Causa do Dilúvio (6:1-8)
1 Sucedeu que, quando os hom ens com e­
çaram a m ultiplicar-se sobre a te rra , e lhes
nasceram filhas, 2 v iram os filhos de D eus
que as filhas dos hom ens eram form osas; e
to m aram p a ra si m ulheres de todas as que
escolheram . 3 E ntão disse o Senhor: O m eu
E spírito não p erm an ecerá p a ra sem pre no
hom em , porquanto ele é carne, m as os seus
dias serão cento e vinte anos. 4 N aqueles
dias estavam os nefilins na te rra , e tam bém
depois, quando os filhos de D eus conhe­
ceram as filhas dos hom ens, as quais lhes
d eram filhos. E sses nefilins eram os valen-
11 Leonard Woolley, F.xcavationsat Ur (New York: Apollo
Editions, 1954).
tes, os hom ens de renom e, que houve na
antiguidade. 5 Viu o Senhor que e ra grande a
m aldade do hom em n a te rra , e que toda a
im aginação dos pensam entos de seu co ra­
ção e ra m á continuam ente. 6 E ntão a rre ­
pendeu-se o Senhor de h av er feito o hom em
na te rra , e isso lhe pesou no coração. 7 E
disse o Senhor: D estruirei da face d a te rra o
hom em que criei, tanto o hom em com o o
anim al, os rép teis e a s aves do céu; porque
m e arrependo de os h av er feito. 8 Noé, po­
rém , achou g raças aos olhos do Senhor.
Norman Gottwald declara que “não há
exemplos mais gritantes de mito hebrai­
co” 12 do que em Gênesis 6:1-4. Con­
tudo, como a história está, ela, obvia­
mente, não é um mito. Um mito teria
declarado abertamente que os gigantes
(nefilins) da terra eram descendentes do
casamento “misto” entre seres divinos e
humanos. A história hebraica evita cui­
dadosamente dizer tanto, mas declara
recatadamente apenas que havia gigan­
tes na terra quando aquele casamento
“misto” estava tendo lugar (cf. von Rad).
Por esta razão, alguns eruditos chamam
esta passagem de “mito quebrado” e
presumem que ela era originalmente
uma explicação etiológica do apareci­
mento de gigantes, mas então servia a
um propósito diferente. Cassuto sugere
que esta passagem refuta a declaração do
mito original de que os seres humanos
foram elevados à divindade mediante
esse casamento dos filhos de Deus (anjos)
com mulheres. Pelo contrário, a narra­
tiva declara que o homem precisa ainda
ser mortal, a despeito dessa união com
seres divinos.
Outros comentaristas negam que esta
declaração tenha referência a seres divi­
nos. Os filhos de Deus são os filhos de
Sete (homens piedosos) e as filhas dos
homens são as filhas de Caim. O argu­
mento mais forte para esta posição é o
fato de que têm lugar casamentos legais.
Por que seria que os anjos iriam se preo­
cupar em legitimar essas ligações?
12 A Light to the Nations (New York: Harper & Brothers,
1959), p. 26.
195
No versículo la, contudo, a referência
é a homens em geral, e não a um grupo
específico. As suas filhas se casam com
os filhos de Deus. Esta mesma expressão
idiomática aparece, em outras passa­
gens, somente em Jó 1:6; 2:1; 38:7. Ali,
ela se refere claramente a anjos. Por­
tanto, esta narrativa diz claramente que
anjos se casaram com mulheres, e pode
dar a entender que os nefilins ("gigan­
tes”, na LXX) foram os seus descenden­
tes, visto que a palavra nephilim é o
particípio ativo plural do verbo hebraico
“cair” . Os “decaídos” ou “decadentes”
estavam na terra naquela época. Tal
acontecimento não seria estranho ao
conceito hebraico a respeito dos anjos.
Eles nunca têm asas e sempre aparecem
como homens. Eles comem com Abraão
e parecem ser tão humanos que os sodo­
mitas tentam pecar com eles.
É impossível determinar se o escritor
de Gênesis está apresentando esta histó­
ria como literal ou usando uma narrativa
antiga, para ensinar, de maneira simbó­
lica, que a pecaminosidade do Jiomem
era devida à invasão da terra por esses
anjos decaídos. Em qualquer caso, a
lição é a mesma. Da mesma forma como,
no Jardim do Éden, a serpente tentou
Eva, agora seres divinos decaídos cor­
rompem a humanidade. O homem está
sendo perturbado por algo que está fora
dele próprio e que não pode ser repre­
sentante de um Deus santo, sendo, sem
dúvida, demoníaco. (*)
O verbo permanecerá, no versículo 3, é
de significado incerto, mas as outras
versões, bem como palavras em línguas
semitas da mesma família sugerem este
significado. Deus permitirá que o ho­
mem viva apenas cento e vinte anos, pois
a carne não pode herdar o espírito. Note-
se o mesmo contraste na declaração de
I Pedro 3:18: “morto na carne, mas vivi­
ficado no espírito.” Em Gênesis 6:1-4,
(*) NOTA DO EDITOR: Quanto aos nefilins,
veja-se Números 13:33, onde a mesma pala­
vra é usada. Veja-se também Judas 6.
o mundo espiritual estava sendo puxado
para baixo, para o nível da carne. Em
Cristo, o Espírito venceu a batalha con­
tra a carne.
Os cento e vinte anos dados ao homem
são interpretados, por algumas pessoas,
como aplicação à duração da vida depois
do dilúvio (Richardson e von Rad), mas
os homens continuam a viver mais do que
isso, através de Gênesis. Ê mais provável
que “o período de cento e vinte anos se
toma um tempo de provação, em face de
todos os sinais de que a destruição não
pode ser evitada” (Speiser, p. 46).
A declaração do v. 5 é a afirmação
mais forte do Velho Testamento à res-~—
peito da depravação humana. A situação
não podia ser pior: toda a imaginação
dos pensamentos de seu coração era má
continuamente. Obviamente, os fatos
dos versículos 1 a 4 precedem esta de­
claração, para explicar como este estado
de coisas veio a existir.
O verbo arrependeu-se (literalmente,
suspirar) descreve o fato de se arrepender
e de ficar triste apenas em sentido deri-
vadp. O escritor não cjuer dizer que Deus
lamenta ter criado o homem, mas que ele
suspira de tristeza com o que está acon­
tecendo. Üma coisa era prever o pecado
do homèm; outra, enfrentá-lo. Os três
verbos deste versículo: arrependeu-se,
feito e pesou provêm da mesma raiz, da
mesma forma como as três principais
palavras da declaração de Lameque, em
5:29: “consolará... obras... trabalho.”
“Da mesma forma como ás obras dos
seres humanos lhes produziam dores, os
seus atos na esfera moral causaram so­
frimentos ao seu Criador” (Cassuto).
Destruirei literalmente significa apa­
gar, como se faz com borracha ou apa-~
gãdor. Esta declaração parece significar
que a intenção de Deus, em sua tristeza^
era remover toda a raça- humana da
terra, bem como os animais, mas en­
quanto ele estava esperando que se pas­
sassem os cento e vinte anos da graça,
para sua grande alegria, a sua atenção
196
foi chamada para uma diferente espécie
de homem: Noé.
A ousada linguagem antropomórfica,
usada nesta passagem, é característica
do Velho Testamento. Estas descrições
não consistiam em tentativa para huma­
nizar Deus, mas para torná-lo acessível
ao homem, e revelá-lo como pessoa.
2) Preparação (6:9-22)
9 E stas sáo a s gerações de Noé. E ra ele
hom em justo e perfeito em su as gerações, e
an dava com D eus. 10 G erou Noé três ÍUhos:
Sem, Cão e Jafé. 11 A te rra , porém , estav a
corrom pida diante de D eus, e cheia de vio­
lência. 12 Viu D eus a te rra , e eis que estav a
corrom pida; porque toda a carn e havia co r­
rom pido o seu cam inho sobre a te rra . 13
E ntão disse Deus a N oé: O fim de toda carne
é chegado p eran te m im ; porque a te rra está
cheia d a violência dos hom ens; eis que os
destruirei juntam ente com a te rra . 14 F aze
p a ra ti u m a a rc a de m ad eira de gôfer:
farás com partim entos na a rc a , e a rev es­
tirá s de betum e por dentro e por fora. IS
D esta m an eira a fa rá s: o com prim ento da
a rc a será de trezentos côvados, a sua la r­
gura de cinqüenta e a sua a ltu ra de trin ta.
16 F a rá s na a rc a u m a jan ela e lhe d a rá s
um côvado de a ltu ra ; e a p o rta d a a rc a
porás no seu lado; fá-la-ás com an d ares:
baixo, segundo e terceiro. 17 Porque eis que
eu trag o o dilúvio sobre a te rra , p a ra des­
tru ir, de debaixo do céu, toda a carne em
que h á espírito de vid a; tudo o que h á na
te rra ex p irará. 18 M as contigo estabelecerei
o m eu pacto; e n tra rá s n a a rc a , tu e contigo
teus filhos, tu a m ulher e as m ulheres de teu s
filhos. 19 De tudo o que vive, de to d a a
carne, dois de cada espécie, fa rá s e n tra r n a
a rc a , p a ra os conservare« vivos contigo;
m acho e fêm ea serão. 20 D as aves segundo
a s suas espécies, do gado segundo a s su as
espécies, de todo rép til da te r ra segundo as
suas espécies, dois de cad a espécie virão a ti,
p a ra os conservares em vida. 21 L eva con­
tigo de tudo o que se com e, e ajunta-o p a ra
ti; e te será p a ra alim ento, a ti e a eles. 22
A ssim fez Noé; segundo tudo o que D eus lhe
m andou, assim o fez.
Gênesis 6:1-8 é geralmente atribuído à
fonte Judia, e 6:9-22, à Sacerdotal, pois
muitas das formas estilísticas familiares
vistas nesta última fonte em Gênesis
agora aparecem (cf. os comentários sobre
o cap. 1). Noé é descrito em maiores
detalhes do que na passagem anterior,
onde não somos informados por que ele
encontrara favor diante de Deus. Agora
ficamos sabendo que foi porque ele era
justo e perfeito (heb., perfeitamente
justo), em uma geração em que tais ca­
racterísticas eram quase desconhecidas.
à semelhança de Enoque, ele andava
com Deus. Por que, portanto Deus não o
tomou também? Foi porque tinha um
trabalho para ele realizar. Quando Noé,
mais tarde, pecou, essa íntima comu­
nhão foi manchada, e disso resultou
morte.
Existe um trágico contraste entre Viu
Deus a terra, e eis que estava corrom­
pida e a declaração de 1:31: “E viu Deus
tudo quanto fizera, e eis que era muito
bom.” Que diferença os anos haviam
feito!
A palavra hebraica traduzida como
arca é uma palavra emprestada do egíp­
cio, ocorrendo no Velho Testamento
apenas no relato do dilúvio, em Gênesis,
e em Êxodo 2:3 e s. Richardson (p. 99)
chama a arca de “grande engradado flu­
tuante”; Kidner (p. 81) refere-se a ela
como um “caixão” ; enquanto von Rad
(p. 123) a chama de “casa-barco” . Na
literatura egípcia, esta palavra podia
significar caixão de defuntos ou caixa em
geral ou (com sufixo feminino) gaiola de
pássaros. Em a narrativa babilónica, a
inferência é claramente de um navio,
pois a sua navegação foi confiada a mari­
nheiros, mas, em Gênesis, o único obje­
tivo da arca era sobreviver ao dilúvio.
As suas dimensões (calculando um cô­
vado como 44 centímetros) eram, apro­
ximadamente, de 135 metros de compri­
mento, 23 de largura e 13,5 de altura.
Isto era mais ou menos a metade do
comprimento do Queen Elizabeth e mais
do que a metade de sua largura. Ri­
chardson acha que a forma da arca era
oblonga, enquanto Cassuto está certo de
que era um paralelepípedo! Certamente
ela não foi construída para navegar, mas
para subsistir.
197
A natureza da madeira de gôfer (pala­
vra hebraica transliterada) não é conhe­
cida. Algumas pessoas sugerem cipreste
(cf. von Rad). Este termo era desconhe­
cido para a LXX, que a traduz como
“madeira quadrangular”. A Vulgata a
chama de “madeira alisada”. Devia ser
uma qualidade rara e especialmente
adequada. As árvores que supriram essa
madeira de uso marítimo devem ter
sobrevivido ao dilúvio e ter continuado a
se propagar.
A menção do pacto com Noé (v. 18)
é a primeira vez em que esta palavra é
usada no Velho Testamento. Ele abrange
a família de Noé e dois exemplares de
cada espécie de animal. A sugestão a
respeito do alimento é previdente: tudo
o que se come. A mesma dieta poderia
ser problemática durante um ano a
bordo da arca. Como podiam eles arma­
zenar suprimento para alimentar os ani­
mais durante um ano? Muitas de suas
necessidades, consideravelmente dimi­
nuídas pela inatividade, foram supridas
por ovos e leite! Finalmente, somos infor­
mados de que Noé executou todas as
instruções de Deus, que não era tarefa
simples. Ela, contudo, foi aliviada pelo
fato de que Deus trouxe os animais a
Noé; ele não teve que procurá-los (v.
20b).
3) Instruções Adicionais (7:1-5)
1 Depois disse o Senhor a Noé: E n tra na
arc a , tu e toda a tu a casa, porque tenho visto
que és justo diante de m im n esta geração.
2 De todos os anim ais lim pos lev arás contigo
sete e sete, o m acho e sua fêm ea; m as dos
anim ais que não são lim pos, dois, o m acho
e sua fê m e a ; 3 tam bém das aves do céu sete
e sete, m acho e fêm ea, p a ra se conservar
em vida su a espécie sobre a face de toda a
te rra . 4 P orque, passados ainda sete dias,
farei chover sobre a te rra quaren ta dias e
quarenta noites, e ex term inarei da face da
te rra todas as criatu ras que fiz. 5 E Noé fez
segundo tudo o que o Senhor -lhe ordenara.
Esta passagem continua a fonte Judia,
que apresenta uma nota adicional. Não
apenas estavam na arca dois exemplares
de cada espécie de animal, mas os ani­
mais limpos totalizam sete pares, pois
mais tarde eles iriam ser usados para
sacrifício e para alimentação. A fonte
Sacerdotal não menciona sacrifício até a
época de Moisés, quando o sistema sa­
crificial recebeu sanção de Yahweh. Isto
não significa que o escritor Sacerdotal
não tinha conhecimento desse costume
anteriormente. De fato, os sacerdotes
foram, provavelmente, os editores finais
do Pentateuco, e conscientemente incluí­
ram esse material da fonte Judia. A sua
relutância em mencionar sacrifícios
anteriores era devida ao seu desejo de
enfatizar a importância do sacerdócio
levítico. As diferenças entre a fonte Judia
e a Sacerdotal são questões de ênfase,
e não de discordância básica.
4) A Extensão do Dilúvio (7:6-8:19)
6 Tinha Noé seiscentos anos de idade,
quando o dilúvio veio sobre a te rra . 7 Noé
entrou na a rc a com seus filhos, sua m ulher
e as m ulheres de seus filhos, por causa das
águas do dilúvio. 8 Dos anim ais lim pos e dos
que não são lim pos, das aves, e de todo réptil
sobre a te rra , 9 e n traram dois a dois p a ra
junto de Noé na arca, m acho e fêm ea, como
Deus ordenara a Noé. 10 P assados os sete
dias, vieram sobre a te rra as águas do dilú­
vio. 11 No ano seiscentos da vida de Noé, no
m ês segundo, aos dezesseis dias do m ês,
rom peram -se todas as fontes do grande
abism o, e as jan elas do céu se ab riram , 12 e
caiu chuva sobre a te rra quaren ta dias e
quarenta noites. 13 N esse m esm o dia entrou
Noé na arc a , e juntam ente com ele seus
filhos Sem, Cão e Jafé, como tam bém sua
m ulher e as três m ulheres de séus filhos, 14
e com eles todo anim al segundo a sua espé­
cie, todo o gado segundo a sua espécie, todo
réptil que se a rra s ta sobre a te rra segundo a
sua espécie, e toda ave segundo a sua espé­
cie, pássaros de toda qualidade. 15 E n tra ­
ra m p a ra junto de Noé n a arc a , dois a dois de
toda a carne em que havia espírito de vida.
16 E os que en traram eram m acho e fêm ea
de toda a carne, com o D eus lhe tinha orde­
nado; e o Senhor o fechou dentro. 17 Veio o
dilúvio sobre a te rra durante q uaren ta d ia s;
e as águas cresceram e lev an taram a arca,
e ela se elevou por cim a da te rra . 18 P re v a ­
leceram as águas e cresceram grandem ente
sobre a te rra ; e a a rc a vogava sobre as
198
águas. 19 As ág u as p rev aleceram excessiva­
m ente sobre a te rra ; e todos os altos m ontes
que havia debaixo do céu foram cobertos.
120 Quinze côvados acim a deles prevalece­
ram as ág u as; e assim foram cobertos. 21
P ereceu toda a carne que se m ovia sobre a
te rra , tanto ave como gado, anim ais selva­
gens, todo rép til que se a rra s ta sobre a
te rra , e todo hom em . 22 Tudo o que tinha
fôlego do espírito de vida em suas narinas,
tudo o que havia na te rra seca, m orreu. 23
A ssim foram exterm inadas todas as c ria ­
tu ras que havia sobre a face da te rra , tanto
o hom em como o gado, o réptil, e as aves do
céu; todos foram exterm inados da te rra ;
ficou som ente Noé, e os que com ele e sta ­
vam na a rc a . 24 E prevaleceram as águas
sobre a te rra cento e cinqüenta dias. 1 Deus
lem brou-se de Noé, de todos os anim ais e de
todo o gado, que estav am com ele na a rc a ;
e Deus fez p assar um vento sobre a te rra , e
as águas com eçaram a dim inuir. 2 C erra­
ram -se as fontes do abism o e as jan elas do
céu, e a chuva do céu se d etev e; 3 as águas
se foram retirando de sobre a te rra ; no fim
de cento e cinqüenta dias com eçaram a m in­
guar. 4 No sétim o m ês, no dia dezessete do
m ês, repousou a a rc a sobre os m ontes de
A rará. 5 E as águas foram m inguando até o
décim o m ês; no décim o m ês, no prim eiro
dia do m ês, ap areceram os cum es dos m on­
tes. 6 Ao cabo de quaren ta dias, abriu Noé a
jan ela que havia feito na a rc a ; 7 soltou um
corvo que, saindo, ia e voltava até que as
águas se secaram de sobre a te rra . 8 Depois
soltou um a pom ba, p a ra v er se as águas
tinham m inguado de sobre a face da te rra ;
9 m as a pom ba não achou onde pousar a
planta do pé, e voltou a ele p a ra a a rc a ;
porque as águas ainda estavam sobre a face
de toda a te rra ; e Noé, estendendo a m ão,
tom ou-a e a recolheu consigo na arc a . 10
E sperou aind a outros sete dias, e tornou a
soltar a pom ba fora d a arc a . 11 Â tard in h a a
pom ba voltou p a ra ele, e eis no seu bico u m a
folha verde de oliveira; assim soube Noé
que as águas tinham m inguado de sobre a
te rra . 12 E ntão esperou ainda outros sete
dias, e soltou a pom ba; e esta não tornou
m ais a ele. 13 No ano seiscentos e um , no
m ês prim eiro, no prim eiro dia do m ês, seca-
ram -se as águas de sobre a te rra . E ntão Noé
tirou a cobertura da arc a , e olhou, e eis que
a face da te rra estav a enxuta. 14 No segundo
m ês, aos vinte e sete dias do m ês, a te rra
estav a seca. 15 E ntão falou D eus a Noé,
dizendo: 16 Sai da a rc a , tu, e juntam ente
contigo tua m ulher, teus filhos e as m ulhe­
res de teus filhos. 17 Todos os anim ais que
estão contigo, de toda a carne, tanto aves
como gado e todo réptil que se a rra s ta sobre
a te rra , traze-os p a ra fora contigo; p a ra que
se reproduzam abundantem ente n a te rra ,
frutifiquem e se m ultipliquem sobre a te rra .
18 E ntão saiu Noé, e com ele seus filhos, sua
m ulher e as m ulheres de seus filhos; 19 todo
anim al, todo réptil e toda ave, tudo o que se
m ove sobre a te rra , segundo as suas fam í­
lias, saiu da arc a .
Nestas narrativas, a análise das fontes
toma-se muito mais difícil, pois elas
estão entremeadas, não mais sendo con­
secutivas, daqui por diante. Várias
gerações de eruditos elaboraram um
esquema de análise que Skinner (p. 147)
descreveu como “justamente reconhecido
como uma das mais brilhantes realiza­
ções da crítica literária” . O seu con­
senso é como se segue:
Fonte Judia
6:1-8
7:1-5,7-10,12
7:16b (as últimas
seis palavras)
7:17b,22,23
8:2b-3a,6-12
8:13b,20-22
Fonte Sacerdotal
6:9-22
7:6,ll,13-16a
7:18-21,24
8:l,3b-5,13a
8:14-19
9:1-17
Se esta análise é legítima, as duas
fontes primárias estão em agudo desa­
cordo a respeito da extensão do dilúvio.
A fonte Judia declara que choveu duran­
te quarenta dias. No fim daquele período
Noé abriu a janela da arca e soltou o
corvo. O relato Sacerdotal posterior diz
que o dilúvio durou mais de um ano, e
chegou a cobrir as montanhas. Desta
forma, da maneira como a tradição era
contada, o dilúvio tornou-se de duração
maior, e as águas mais profundas.
Esta situação é possível, visto que os
relatos ainda estariam concordando ba­
sicamente, cada um deles dando teste­
munho independente a respeito do acon­
tecimento original do dilúvio catastró­
fico. Não obstante, tal análise de “tesou­
ra e cola” está sendo questionada seria­
mente hoje em dia. Eruditos responsá­
veis estão não apenas fazendo análises
mais detalhadas, mas também outros
199
estão duvidando do próprio método. Pre­
cisamos considerar seriamente a obser­
vação de Cassuto, que passa zelosamente
a refutar a posição crítica aceita com a
confiança de um líder em uma guerra
santa (Vol. II, p. 33-42). Embora ele não
tenha sucesso em convencer o leitor não
influenciado anteriormente a respeito da
não existência de dois relatos dessa his­
tória, de fato prova que o processo de
análise detalhada deve ser questionado
seriamente.
De fato, não há razão válida por que a
narrativa do dilúvio não possa ser inter­
pretada de maneira direta, sem colocar
declarações contraditórias a respeito de
sua extensão. Depois que choveu sobre
a terra por quarenta dias e as fontes do
abismo se haverem aberto, as águas per­
maneceram em nível de inundação até
um total de cento e cinqüenta dias (7:24),
quando seu nível baixou o suficiente para
a arca repousar em terra firme. Só um
mês depois, os topos das montanhas apa­
receram (8:5). Levou mais dois meses
para as águas se escoarem do resto da
terra (8:13), mas levou mais do que
outro mês para que ela estivesse suficien­
temente seca para se poder andar nela.
O período total de tempo foi pouco mais
de um ano.
A observação de que o Senhor o fechou
dentro é uma declaração importante.
Com homens se afogando ao seu redor, o
justo Noé certamente não era surdo aos
seus clamores. Quando Deus o fechou
dentro da arca, ele não tinha mais como
abrir a porta.
Deus lembrou-se de Noé, de todos os
animais e de todo o gado. Isto não signi­
fica que ele os tinha esquecido, mas que
parecia para eles que estavam abando­
nados. Este pode ser o significado do
grito de Cristo na cruz: “Deus meu, Deus
meu, por que me abandonaste?” (Mat.
27:46).
Quando se diz que Deus lembrou-se de
Noé, este ousado antropomorfismo mar­
ca o que von Rad chama de “uma virada
para a salvação, em direção à salvação
até o evento em Jesus Cristo” . Deus não
havia desistido de operar no mundo,
embora pudesse parecer a Noé que tudo
estava perdido, que Deus, depois de tê-lo
instruído tão cuidadosamente, o havia
deixado sobre as ondas revoltas de um
mar sem fim, para morrer ali. Deus não
havia esquecido Noé nem os propósitos
que tinha para com a humanidade.
Quando se diz que repousou a arca, a
mesma raiz de que deriva o nome de Noé
é usada. A promessa que havia em seu
nome por fim havia sido cumprida.
O envio de um corvo e de uma pomba
é mencionado também na Epopéia de
Gilgamesh, com a adição de uma ando­
rinha, mas a ordem é inversa, sendo
enviada em primeiro lugar a pomba, e
em último, o corvo. Esta história expres­
sa o costume antigo de levar pássaros em
longas viagens marítimas. A direção para
onde voavam quando eram soltos reve­
lava onde, possivelmente, se encontraria
terra.
Corvo e pomba constituem um agudo
contraste na Escritura. Um é preto, e a
outra, branca; um impuro, e a outra,
pura; o primeiro selvagem, e a outra,
domesticada. Era bem adequado que a
mansa pomba trouxesse boas notícias a
Noé. A folha verde de oliveira era rebento
de uma árvore que começara a brotar de
novo. O fato de que o corvo ia e voltava
não era vôo constante sem descanso, mas
indo e voltando para a arca, até poder
aterrizar.
Embora o retorno da pomba tivesse
indicado que a terra estava começando
a secar, Noé continuou esperando duran­
te quase dois meses, antes de sair da
arca; ele estava esperando uma direção
de Deus. Esse deve ter sido um período
de provação, mas sair da arca cedo de­
mais iria expor os passageiros a doenças
e outros problemas. Libertar um animal
colocaria em risco a perda de uma espé­
cie. Tanto Jesus como Paulo sabiam co­
mo esperar as ordens de Deus para eles.
200
A vida de Noé de fato é uma lição de
paciência.
5) O Sacrifício de Noé (8:20-22)
20 Edificou Noé um a lta r ao Senhor; e
tom ou de todo anim al lim po e de toda ave
lim pa, e ofereceu holocausto» sobre o a lta r.
21 Sentiu o Senhor o suave cheiro e disse em
seu coração: Não to rn arei m ais a am ald i­
çoar a te rra por causa do hom em ; porque a
im aginação do coração do hom em é m á
desde a sua m eninice; nem to m arei m ais a
ferir todo vivente, com o acabo de fazer. 22
E nquanto a te rra d u rar, não deixará de
h aver sem enteira e ceifa, frio e calor, verão
e inverno, d ia e noite.
Sentiu o Senhor o suave cheiro tem um
paralelo claro na Epopéia de Gilgamesh.
Os antigos criam que os deuses eram de
fato revigorados e sustentados pelo fumo
fortificante das ofertas queimadas. O
relato do Velho Testamento não apre­
senta indícios de politeísmo, e a idéia é,
provavelmente, já figurada na mente do
escritor.
O escritor bíblico é surpreendente­
mente ousado, ao dizer que conhecia a
mente de Deus: ele disse em seu coração.
Um homem não podia ser mais presun­
çoso do que isto, a não ser que, na
verdade, Deus lhe tivesse revelado a sua
mente. Esta é a reivindicação da Bíblia.
Ou ela é verdadeiramente a Palavra de
Deus, ou é patentemente enganosa.
Esta conclusão da narrativa Judia do
dilúvio revela o propósito primário em
contar essa história. Embora a intenção
do dilúvio fosse purificar a terra de seus
habitantes ímpios, ele não resolveu o
problema do pecado de uma vez por
todas. Logo depois o justo Noé ficaria
bêbado em sua tenda, e o seu filho
exploraria a situação. Conhecendo a
contínua pecaminosidade do homem, os
preocupados habitantes da terra teme­
riam outro dilúvio universal, a cada chu­
va pesada. A história do dilúvio é conta­
da não tanto para enfatizar a ira de
Deus, quanto a sua graça. Com a volta
regular das estações do ano, o homem
podia ficar seguro de sua graça contínua.
A ira de Deus contra o pecado pode ter
precisado tomar outras formas, mas a
ameaça da volta do caos aquoso primevo
estava removida para sempre.
6) A Aliança com Noé (9:1-17)
1 Abençoou D eus a Noé e a seus filhos, e
disse-lhes: F ru tificai e m ultiplicai-vos, e
enchei a te rra . 2 T erão m edo e pavor de vós
todo anim al d a te rra , toda ave do céu, tudo o
que se m ove sobre a te rra e todos os peixes
do m a r; nas vossas m ãos são entregues. 3
Tudo quanto se m ove e vive vos serv irá de
m antim ento, bem com o a erv a verde; tudo
vos tenho dado. 4 A carne, porém , com sua
vida, isto é, com seu sangue, não com ereis.
5 C ertam ente requererei o vosso sangue, o
sangue d as vossas vidas; de todo anim al
req u ererei; como tam bém do hom em , sim ,
da m ão do irm ão de cada um requererei a
vida do hom em . 6 Q uem d e rra m a r sangue
de hom em , pelo hom em te rá o seu sangue
derram ad o ; porque Deus fez o hom em à sua
im agem . 7 M as vós frutificai, e m ultiplicai-
vos ;povoai abundantem ente a te rra , e m ulti­
plicai-vos nela. 8 D isse tam bém D eus a Noé,
e a seus filhos com ele: 9 E is que estab e­
leço o m eu pacto convosco e com a vossa
descendência depois de vós, 10e com todo ser
vivente que convosco e stá: com as aves,
com o gado e com todo anim al d a te rra ; com
todos os que sa íra m da arc a , sim , com todo
anim al da te rra . 11 Sim , estabeleço o m eu
pacto convosco; não será m ais destruída
toda a carne pelas águas do dilúvio; e não
h av erá m ais dilúvio, p a ra d estru ir a te rra .
12 E disse D eus: E ste é o m eu sinal do pacto
que firm o entre m im e vós e todo ser vivente
que está convosco, por gerações perpétuas:
13 O m eu arco tenho posto n as nuvens, e ele
será por sinal de h av er um pacto en tre m im
e a te rra . 14 E acontecerá que, quando eu
trouxer nuvens sobre a te rra , e ap arecer o
arco nas nuvens, 15 então m e lem b rarei do
m eu pacto, que está en tre m im e vós e todo
ser vivente de toda a carn e; e as águas não
se to m arão m ais em dilúvio p a ra destru ir
toda a carne. 16 O arco e sta rá nas nuvens, e
olharei p a ra ele a fim de m e lem b rar do
pacto perpétuo en tre D eus e todo ser vivente
de toda a carne que está sobre a te rra . 17
Disse D eus a Noé ainda: E sse é o sinal do
pacto que tenho estabelecido en tre m im e
toda a carne que está sobre a te rra .
Da mesma forma como Deus abençoa­
ra Adão e Eva no Jardim do Éden, ele
201
agora abençoa Noé e seus filhos. De fato,
este foi um novo começo. Não havia
outros homens na terra, exceto esta famí­
lia, e até mesmo os sobreviventes dentre
os animais eram os que reagiam mais
favoravelmente a Deus, pois eles haviam
obedecido ao seu chamado à arca (6:
20b). Adão e Eva haviam tido a desvan­
tagem de ter que começar em um mundo
onde ninguém havia andado antes. Noé
e sua família tinham o conhecimento da
longa e frustrante história do homem até
aquele dia. Agora, por fim, podia ser
estabelecido um mundo segundo a von­
tade de Deus, embora a natureza exata
das expectativas de Deus não fosse ex­
pressa de forma positiva. Noé e seus
filhos não foram informados de como
jogar o jogo da vida, mas informados
claramente onde estariam fora dos limi­
tes. Devia ser claro para a família de
Noé, depois da experiência do dilúvio,
que Deus iria continuar a olhar favora­
velmente para um homem justo, e não
iria tolerar o pecado de forma alguma.
Instruções específicas foram dadas a
Noé em relação ao respeito que o homem
precisa ter pela vida dos animais e de seu
semelhante. Ã luz do dilúvio, quando
Deus havia destruído a vida de maneira
tão coletiva, era fácil os homens terem a
impressão de que a vida tinha pouco
valor, e tirá-la sendo assunto de somenos
importância. Deus tornou claro que esta
inferência seria falsa.
Por que então Deus permitiu que o
homem comesse carne, visto que o havia
proibido a princípio? Era uma extensão
do domínio original do homem. “O ho­
mem primitivo vivia em constante medo
das bestas selvagens; agora o domínio
do homem devia ser demonstrado pelo
temor e pavor que elas tinham dele”
(Richardson, p. 107). O fato de que os
animais devem a sua própria existência
a Noé é também um fator importante,
em adição à situação vivencial. Algum
tempo se passaria antes que se colhesse
alguma coisa. Nesse ínterim Noé podia
comer a carne dos animais, alguns dos
quais deviam ter-se multiplicado consi­
deravelmente durante um ano que ha­
viam passado na arca.
O homem havia errado grandemente,
ao supor que a entrega dos animais em
suas mãos dava a entender que ele pode
matar à vontade e explorar o mundo
animal. O lembrete de que ele deve res­
peitar a vida (heb., alma) que há no
sangue indica que há algo alheio à verda­
deira natureza da existência no fato de o
homem comer carne. Isaías previu que
chegaria o tempo quando nem homem
nem animais comerão mais carne (Is.
11:6-9). Enquanto não chega esse tempo,
o entendimento deste comentarista é que
o mundo ainda não alcançou o alvo
estabelecido para ele, que estava na men­
te de Deus desde o princípio.
A razão dada para a seriedade do ho­
micídio é o respeito devido não somente
à vida, mas também à imagem de Deus
que há em cada homem. Quando o ho­
mem não tem respeito a Deus, tem pouco
respeito ao valor de outro homem. Nesta
passagem, Deus decreta que o homem
terá a responsabilidade de vingar a morte
de outro homem. É aqui que é dada a
sanção divina para o governo civil da
sociedade humana, com o poder de vida
e morte sobre os seus membros. Richard­
son (p. 110) cita William Temple, que
disse: “É dada ao Estado a força para
que ele possa impedir que os marginais
usem a força” (cf. Rom. 13:1-7; I Ped.
2:13-17; I Tim. 2:1-3). Como o refere
Alan Richardson: “O Estado não ‘mur­
chará’ nesta era mundial, pois ele é
estabelecido pelo ‘pacto eterno’ de Deus
com a humanidade” (p. 109).
O pacto previsto em 6:18 agora é feito
com Noé e seus descendentes, desta for­
ma, com todos os homens que viverão.
Ele é entre Deus e a humanidade, dife­
rindo a este respeito do efetuado com
Abraão (Gên. 12) e com Israel (Êx. 19).
Não é na forma de um acordo mútuo,
como o que foi feito com Israel. Pelo
202
contrário, Deus inicia o acordo, decla­
rando o que fará; ele nunca mais des­
truirá a terra por um dilúvio. As palavras
são mais uma declaração do que um
pacto, se vistas isoladamente. Isto é o
que Deus, em sua graça, fará, não im­
porta o que o homem faça. Portanto,
como é que isto pode ser considerado um
pacto, se apenas uma das partes envol­
vidas fala? Pacto, neste contexto, pro­
vavelmente, significa um vínculo ou
acordo, não necessariamente mútuo.
Em sua graça, Deus concorda em nunca
mais enviar outro dilúvio universal. Con­
tudo, envolvida neste pacto, está a sua
expectativa de que o homem respeitará a
vida, como é declarado na passagem
anterior, pois ele é baseado nessa admo­
estação. Espera-se que o homem mani­
feste esta consciência, como base das
declarações de Deus. Se o homem falhar
em suas responsabilidades, Deus ainda
assim não negará a sua promessa. Ele
pagará a desobediência do homem de
outras formas (v. 5).
7) A Maldição de Canaã (9:18-29)
18 O ra, os filhos de Noé, que saíram da
arca, foram Sem , Cão e Ja fé ; e Cão é o pai
de C anaã. 19 E stes trê s foram os filhos de
N oé; e destes foi povoada toda a te rra . 30 E
com eçou Noé a cultivar a te rra e plantou
um a vinha. 21 Bebeu do vinho, e em briagou-
se ; e achava-se nu dentro da sua tenda. 22 E
Cão, pai de C anaã, viu a nudez de seu pai, e o
contou a seus dois irm ãos, que estavam
fora. 23 E ntão to m aram Sem a Jafé um a
capa, e puseram -na sobre os seus om bros, e
andando virados p a ra trá s, cobriram a n u ­
dez de seu pai, tendo os rostos virados, de
m aneira que não viram a nudez de seu pai.
24 D espertado que foi Noé do seu vinho,
soube o que seu filho m ais m oço lhe fizera;
25 e d isse:
M aldito seja C an aã;
servo dos servos será de seus irm ãos.
26 D isse m a is:
Bendito seja o Senhor, o D eus de S em ;
e seja-lhe C anaã por servo.
27 A largue Deus a Jafé,
e habite Jafé nas tendas de Sem ;
e seja-lhe C anaã por servo.
28 Viveu Noé, depois do dilúvio, trezentos
e cinqüenta anos. 29 E foram todos os dias
de Noé novecentos e cinqüenta anos; e
m orreu.
Dificilmente encontraremos uma pas­
sagem do Velho Testamento mais difícil
de interpretar.13 Esta passagem era o
texto favorito dos pregadores sulistas,
durante a Guerra Civil nos Estados Uni­
dos, ao declararem o direito do homem
branco de escravizar os negros. Usada
freqüentemente, em tempos recentes,
para defender a segregação, esta passa­
gem é a fonte não reconhecida do ditado
comum nos Estados Unidos (e quiçá na
Ãfrica do Sul): “Um negro está bem em
seu lugar”, pelo qual se infere que a sua
posição apropriada é secundária, em
relação ao branco.
Esta passagem começa mencionando
os três filhos de Noé em sua ordem
comum: Sem, Cão e Jafé, dos quais todos
os homens são considerados descenden­
tes. As dificuldades de interpretação
começam com o versículo 20. A versão da
IBB diz: E começou Noé a cultivar a
terra, e plantou uma vinha, que não
apresenta nenhum problema para o lei­
tor brasileiro. Se ele pudesse ler a RSV
inglesa, porém, ficaria em dúvida; ela
diz: “Noé foi o primeiro lavrador do solo.
Ele plantou uma vinha.” Isto está em
direta contradição com as passagens
anteriores de Gênesis, que asseveram que
Adão era jardineiro e Caim lavrador.
Os que esposam esta tradução admitem
prontamente este fato, mas consideram
que o versículo vem de fonte diversa.
Dizem que o hebraico não pode permitir
outra tradução.
Quais sãos os fatos? Uma tradução
literal seria: “E Noé, o homem da terra,
começou e plantou uma vinha.” O termo
peculiar “homem da terra” pode dar a
entender um lavrador, ou, como suge­
re Cassuto, “senhor da terra” . Antes do
dilúvio, provavelmente, existiam vinhas;
mas até essa época, aparentemente, Noé
não havia plantado uma. Porém é até
13 Cf. artigo por Clyde T. Francisco, em Chrfstfaníty
Today, 24 de abril de 1964, p. 8-10.
203
possível que ele cultivasse vinhas antes do
dilúvio. Esta passagem não resolve esta
questão, mas dá a entender um novo
empreendimento de Noé. O seu pai, La-
meque, era lavrador, e esta, provavel­
mente, era a ocupação de Noé antes do
chamado de Deus para preparar-se para
o dilúvio (5:29).
Não somos informados se Noé estava
familiarizado com os efeitos do vinho.
Certamente devia estar. Jesus disse que
“comiam e bebiam” antes do dilúvio
(Mat. 24:38), frase que, provavelmente,
se refere a beber vinho (cf. I Sam. 30:16;
Mat. 11:18,19). Talvez a tentação de
provar o produto de seu trabalho tenha
sido forte demais para Noé, e ele logo
ficou bastante bêbado, revelando que
não estava acostumado com aquele hábi­
to. A pessoa que se embriaga apenas
uma vez não é um bêbado; é um tolo.
Emerge da bebedeira como um homem
açoitado.
A cena que se segue é familiar. O justo
Noé havia sido o veículo do triunfo de
Deus sobre as forças do mal no mundo.
Os ímpios haviam sido destruídos, e Noé
e sua família haviam sido poupados,
para edificarem um novo mundo. Mas o
homem que havia enfrentado ser ridi­
cularizado por seus vizinhos e toda a
tempestade do dilúvio não era capaz de
enfrentar o desafio dos tempos de paz.
Com a oportunidade de dar início a uma
sociedade ideal, Noé foi encontrado bê­
bado em sua tenda.
Alguns comentaristas notam que não
há nenhuma palavra de condenação
contra Noé por sua bebedice; toda a
culpa parece recair sobre Cão. No entan­
to, dificilmente se pode ignorar os versí­
culos 28 e 29 à luz de 6:9, onde se diz que
Noé “andava com Deus” . No capítulo
5 é usada a mesma expressão a respeito
de Enoque, cuja recompensa foi a sua
trasladação para o céu. Teria sido esta
também a experiência de Noé, se ele não
tivesse pecado?
Qual foi o pecado de Cão? Alguns
sugerem que o versículo 24 dá a entender
que ele havia cometido um ato homos­
sexual com seu pai (cf. Lev. 18:7 e ss.).
Esta interpretação não se justifica, e
revela uma falta de compreensão tanto
da atitude hebraica a respeito da nudez
quanto da passagem. O mundo moderno
tem sido influenciado tão fortemente pela
glorificação grega do corpo, que é bem
difícil entender as atitudes dos antigos
hebreus. No Jardim do Éden, as folhas
de figueira não podiam cobrir suficiente­
mente a nudez de Adão e Eva; por isso
Deus os vestiu com peles. Quando os
profetas descrevem os horrores do exílio,
um dos mais terríveis é a nudez forçada
dos cativos. Durante o fim da era dos
Macabeus, os judeus piedosos ficaram
grandemente perturbados pela inaugura­
ção, em Jerusalém, de um ginásio grego,
onde se exercitavam homens nus.
O que foi que Cão fez ao seu pai? Ele
desonrou-o, expondo ao mundo a sua
vergonha. Cão não poderia ter sido cul­
pado por tropeçar em seu pai bêbado,
mas foi culpado por relatar aos outros a
condição de seu pai. O que seus irmãos
fizeram, ele deveria ter feito: devia ter
coberto seu pai, e não ter dito nada a
respeito. Há dois argumentos convin­
centes contra a idéia de que Cão cometeu
um ato homossexual: (1) ele contou a
seus irmãos, sem que eles tenham ficado
irados contra ele; (2) “Se cobrir a nudez
foi o remédio adequado, segue-se que o
delito fora confinado a ver” (Cassuto,
II, p. 151).
Como foi que Noé ficou sabendo o que
Cão lhe havia feito? Será que Sem e Jafé
lho contaram? Isto é de se duvidar, pois,
se eles o tivessem feito, seriam também
culpados de expor a vergonha de seu
irmão, da mesma forma como ele fizera
com a de seu pai. Noé, provavelmente,
ficou curioso por causa da roupa estra­
nha que estava sobre ele, e fez inqui­
rições.
204
Alguns comentaristas enfatizam que
Noé estava em um estupor de embria­
guez ou no meio de uma terrível “res­
saca”, quando pronunciou as suas famo­
sas palavras. As observações de um ho­
mem, em tal condição, não deviam ser
levadas a sério, concluem eles. Contudo,
Noé parece que estava suficientemente
bem para perceber o que lhe havia acon­
tecido. Não somos informados quanto
tempo se passou, mas é evidente que Noé
estava na posse de todas as suas facul­
dades quando pronunciou o seu oráculo.
Mesmo que não estivesse, as suas pala­
vras teriam sido levadas a sério pelos
hebreus. Como observa S. R. Driver:
“Era crença dos antigos que a maldição
ou bênção de um pai não era meramente
a expressão de uma esperança ou desejo
intensos, mas que ela exercia um poder
real na determinação do futuro de um
filho” (p. 109).
A tarefa mais perturbadora que se
defronta com a interpretação tradicional
desta passagem é a de dar uma explica­
ção adequada para o fato de a maldição
ter caído sobre Canaã, e não sobre Cão.
Há várias soluções aventadas para este
enigma, sendo uma delas considerar
o oráculo de Noé como uma predição
de maldição. Noé, tendo recebido per­
cepção a respeito do futuro das nações,
vê as conseqüências do pecado de Cão
manifestando-se no destino de seu filho.
Com um pai como Cão, o filho estava
perdido.
Outra possibilidade é que a história do
pecado de Cão foi contada por muitos
anos entre semitas e hebreus. Depois que
os hebreus se estabeleceram na Palestina
e se tornaram familiarizados com os ca-
naneus, perceberam que o pecado de Cão
estava se cumprindo em Canaã. As con­
seqüências de seu pecado estavam sendo
sentidas pelos seus descendentes, na
Palestina. Os versículos 25 a 27 foram
compostos para expressarem este fato em
poesia imortal. O desprazer de Noé havia
caído sobre Canaã. Desta forma, a mal­
dição não é um exemplo de como um
homem inocente estava sendo culpado
pelo pecado de seu pai, mas de como um
povo estava sofrendo as conseqüências do
pecado de um seu ancestral.
Eram os çananeus de fato descenden­
tes de Cão? Pouco sabemos a respeito de
sua origem, mas é certo que etnicamente
ou politicamente ou de ambas as formas
eles eram descendentes de Cão. Outra
coisa é clara: eles não eram negros. A
maldição sobre Canaã de forma alguma
tem algo a ver com os vexatórios pro­
blemas entre brancos e pretos, em nossos
dias. Alguns expositores insistem, toda­
via, que a maldição de Noé deve ter caído
sobre todos os descendentes de Cão.
Canaã foi individualizado por Noé; mas,
obviamente, dizem eles, o próprio Cão
deve ter sido amaldiçoado, se o seu filho
sofreu golpe tão rude, de outra forma,
Deus não seria justo. Portanto, dizem
eles, os negros, como descendentes de
Cão, devem também ter sofrido a mal­
dição!
Objeções óbvias se levantam contra
esta posição. Primeiro, embora seja apa­
rente que Cão recebeu a culpa pelo seu
pecado, não sabemos qual foi o seu cas­
tigo. A Escritura silencia a este respeito,
e qualquer conjetura é perigosa. Segun­
do, significa isto que os outros povos
camíticos — egípcios, líbios, sul-arábios
— também serviriam aos europeus e
hebreus? Em outras palavras, um ho­
mem livre deveria escravizar a outro?
Poucas pessoas esposariam este ponto de
vista. Terceiro, se nos tempos de igno­
rância, Deus permitiu tal servidão, as
implicações do Novo Testamento elimi­
nariam tal tipo de relacionamento para o
crente, hoje em dia.
6. Os Descendentes de Noé (10:1-32)
1 E stas, pois, são a s gerações dos filhos de
Noé: Sem , Cão e Jafé, aos quais nasceram
filhos depois do dilúvio. 2 Os filhos de Jafé:
G om er, M ágogue, M adai, Ja v ã , T ubal, Me-
seque e T iras. 3 Os filhos de G om er: Asque-
naz, R ifate e T ogarm a. 4 Os filhos de Ja v ã :
E lisá, T ársis, Q uitim e D odanim . 5 P o r estes
205
foram rep artid as as Ilhas das nações nas
suas te rra s, cad a quál segundo a sua língua,
segundo a s suas fam ílias, en tre a s suas
nações. 6 Os filhos de C ão: Cuche, M izraim .
P ute e C anaã. 7Os filhos de C uche: Seba, Ha-
vilá, Sabtá, B aam á e S abtecá; e os filhos de
R aam á são Sebá e D edã. 8 Cuche tam bém
gerou a N inrode, o qual foi o prim eiro a ser
poderoso n a te rra . 9 E le e ra poderoso caça­
dor diante do Senhor; pelo que se diz: Como
N inrode, poderoso caçador diante do Senhor.
10 O princípio do seu reino foi Babel, Ere-
que, A cade e Calné, na te rra de Sinar.
11 D esta m esm a te rra saiu ele p a ra a As­
síria e edificou N ínive, R eobote-Ir, C alá,
12 e R ésen, entre N ínive e C alá (esta é a
grande cidade). 13 M izraim gerou a Ludim ,
A nam im , L eabim , N aftuim , 14 P atru-
sim , C asluim (donde sa íra m os filisteus)
e C aftorim . IS C anaã gerou a Sidom, seu
prim ogênito, e H ete, 16 e ao jebuseu, o
am orreu, o girgaseu, 17 o heveu, o ar-
queu, o sineu, 18 o arvadeu, o zem areu e
o ham ateu. Depois se esp alh aram a s fam í­
lias dos cananeus. 19 Foi o term o dos cana-
neus desde Sidom, em direção a G erar, até
G aza; e daí em direção a Sodom a, G om orra,
A dm á e Zeboim , até L asa. 20 São esses os
filhos de Cão segundo as suas fam ílias, se­
gundo as suas línguas, em suas te rra s, em
suas nações. 21 A Sem , que foi o p ai de
todos os filhos de E b er e o irm ão m ais velho
de Jafé, a ele tam bém n asceram filhos. 22
Os filhos de Sem fo ram : E lão, A ssur, Arfa-
xade, Lude e A rão. 23 Os filhos de A rão : Uz,
Hul, G eter e M ás. 24 A rfaxade gerou a
Selá; e Selá gerou a E b er. 25 A E b er n a s­
ceram dois filhos: o nom e de um foi Pele-
gue, porque nos seus dias foi dividida a
te rra ; e o nom e de seu irm ão foi Joctã. 26
Jo ctã gerou a A lm odá, Selefe, H azarm avé,
Je rá , 27 H adorão, U sai, D icla, 28 O bal, Abi-
m ael, Sebá, 29 Ofir, H avilá e Jo b ab e: todos
esses foram filhos de Jo ctã. 30 E foi a sua
habitação desde M essa a té Sefar, m ontanha
do oriente. 31 E sses são os filhos de Sem
segundo as suas fam ílias, segundo as suas
línguas, em suas te rra s, segundo as suas
nações. 32 E ssas são as fam ílias dos filhos
de Noé, segundo as suas gerações, em suas
nações; e delas foram dissem inadas as
nações na te rra depois do dilúvio.
Não existe um relato da situação inter­
nacional da antiguidade tão compreen­
sivo como a tabela de nações encontra­
da neste capítulo da Bíblia. O âmbito
geográfico dos povos se estende, ao nor­
te, até o Mar Negro, ao leste, até o
planalto iraniano, ao sul, até as nascentes
do Nilo, e, ao oeste, até a Espanha. Este
capítulo não faz nenhuma tentativa para
incluir todas as nações debaixo do sol,
pois ele mesmo dá a entender que havia
outros povos não mencionados (cf. 10:
4b, 30b). São incluídas as nações que
tinham fronteira com a Palestina ou nela
viviam.
Há considerável evidência de que há
um arranjo esquemático definido nesta
lista. O número de nações totaliza, apro­
ximadamente, setenta, total que era pre­
sumido pelos comentários rabínicos pos­
teriores. Esses setenta devem ser com­
parados com as setenta pessoas da famí­
lia de Jacó que desceram ao Egito. O
hebraico de Deuteronômio 32:8 significa
literalmente: “Ele fixou os limites dos
povos de acordo com o número dos filhos
de Israel” , comentário que certamente
identifica o número como esses mesmos
setenta. Israel era considerado como
“um microcosmo, similar ao macro-
cosmo, quanto à forma” (Cassuto, II,
p. 180). A RSV segue a LXX, que,
provavelmente, preserva uma opinião
rabínica de que havia setenta anjos mi­
nistrando ao redor do trono de Deus.
Quando Jesus enviou os setenta (Luc.
10:1), isso pode ter simbolizado a sua
missão, em última análise, ao mundo
todo.
Também existe um aparente jogo com
os números 7 e 12, nesta lista. Jafé tem
sete filhos, e os seus netos também são
sete. O total de filhos e netos de Cuche é
sete, bem como a soma dos descendentes
do Egito (Mizraim). Canaã teve doze
filhos; Sem tem doze descendentes, até
Pelegue; e Joctã tem quatorze. Ao invés
de ser vista como uma lista étnica com­
pleta, ela deve ser considerada como
artifício mnemónico para ajudar a lem­
brar o nome dos habitantes do mundo na
região palestina.
Toda uma literatura tem sido criada
ao redor deste capítulo. Speiser fez as
mais valiosas contribuições para o nosso
206
conhecimento. (Veja o seu comentário,
onde há uma análise detalhada de iden­
tificações possíveis.) Contudo, muitos
desses nomes são-nos desconhecidos,
exceto a sua menção nesta lista. É bem
possível que muitos deles não fossem
entendidos nem mesmo pelos compila­
dores desta lista, mas foram incluídos
porque faziam parte de sua informação
tradicional. Há muitas correspondências
entre os nomes de Gênesis 10 e o livro de
Ezequiel (cf. Ez. 27-28; 32; 38-39); mas
não é provável que Ezequiel meramente
copiou de Gênesis, pois ele está ciente de
material diferente do encontrado aqui.
Deve ter havido outras fontes das quais
ambos os compiladores conseguiram os
seus materiais.
Quando foi compilada a lista de Gêne­
sis 10? Von Rad sugere que foi durante o
último século do Reino de Judá. Cassuto
insiste que foi muito antes. Tudo o que
pode ser dito com certeza é que grande
parte deste material é bem antigo, como
pode ser toda a lista.
A análise das fontes tradicionais divide
este capítulo como se segue: fonte Sacer­
dotal, versículos 1-7,20,22,31,32; fonte
Judia, versículos 8-19,21,24-30. Este pro­
cesso é seriamente debatido nos anos
recentes, e é necessário proceder-se
com grande cautela, nesta área. A me­
lhor parte da sabedoria, em face de
tanta incerteza, é trabalhar com o fluxo
básico da passagem, que é fiel, sem se
considerar quando ela foi compilada.
A opinião de muitos eruditos é que o
material desta lista tem valor pequeno ou
nulo para se reconstruir a relação étnica
verdadeira dos povos em questão. “As
pessoas mencionadas são epônimas; isto
quer dizer que são pessoas chamadas à
existência para dar razão ao nome de um
povo ou país... Esta lista tem pequeno
valor científico, à luz da etnologia mo­
derna” (Richardson, p. 116-17). Kidner
tem opinião diferente: “A maior parte
desses nomes parece ser de indivíduos,
embora eles se encontrem mais tarde no
Velho Testamento como povos, tanto
quanto os nomes pessoais de Israel,
Edom e Moabe” (p. 105). O fato de que
alguns desses nomes da lista estão cla­
ramente na forma plural (os que termi­
nam em im, como “Quitim”) não signi­
fica que todos eles estejam no plural;
pelo contrário, o autor está combinando
nomes individuais com nomes étnicos.
Esta lista é, obviamente, mais orienta­
da geograficamente do que etnicamente,
embora o fator étnico não possa ser
ignorado. As tribos de Jafé se localizam
na região do Egeu e da Ãsia Menor; o
povo camita ao sul e leste da Palestina, os
semitas ao nordeste (primariamente a
região do Crescente Fértil). Se uma
nação vivia em território ocupado por
certo grupo étnico, podia ser classificada
com o grupo prevalecente. Desta forma
os cananeus podem ser considerados
aparentados com Cão, porque naquela
época eles estavam sujeitos ao Egito.
Os assírios chamavam os reis do Reino
do Norte (Israel) de “filhos de Onri”
muito tempo depois que a dinastia de
Onri foi destruída. Samuel foi considera­
do filho de Levi depois de sua adoção por
Eli. Quando um povo se mudava para
território de outra nação, tornava-se
“filho” desse país. Não importa a origem
nacional, todos os brasileiros são consi­
derados pelos outros povos como parte
da mesma cepa étnica. Desta forma,
Seba e Havilá podiam ser colocados tanto
no grupo de Cão como no de Sem, pois,
embora um homem possa ter um só pai,
um povo pode colocar-se sob a influência
de várias culturas. O pior insulto que
Ezequiel podia fazer a Israel era dizer:
“Teu pai era amorreu, e a tua mãe
hetéia” (Ez. 16:3). Aqui, ele não está
descrevendo ascendência étnica, mas a
influência sofrida pelo seu modo de vida.
Desta forma, Oséias fez insulto seme­
lhante a Israel, quando vociferou: “Ca-
naã!” (Os. 12:7, heb. lit.). Seu pai era
Canaã, e não Abraão.
207
Esta lista das nações é a primeira
tentativa do mundo antigo de compor um
relato compreensivo dos habitantes do
mundo. Revela como os escritores bíbli­
cos tinham consciência de que Israel
precisava ser considerado em relação ao
resto do mundo. O escritor não se con­
tenta em avançar em um processo de
afunilamento, de Adão até Abraão.
Antes de se voltar para Abraão, ele faz
os seus leitores se lembrarem do mundo
em que ele veio à luz.
0 seu objetivo principal não pode ser
perdido de vista, em meio ao exame
minucioso de dados antropológicos. Ele
está asseverando que todos os povos são
descendentes de um só homem, Noé, e
que, portanto, pertencem a uma só famí­
lia. Quando ele diz que elas se espalha­
ram, está usando o mesmo verbo empre­
gado em 2:10, a respeito do rio que sai do
jardim, abrindo-se em quatro braços.
A tragédia da história humana é que os
homens se tornaram tão divididos que
a sua irmandade essencial foi obscure­
cida. Se os homens pertencem a uma só
família, devem ser capazes de viverem
juntos, em paz; e, como os profetas de
Israel sonharam, um dia eles o farão.
A tarefa de cada pessoa e de todas as
gerações é aproximar-se desse alvo final
o máximo possível.
7. A Torre de Babel (11:1-9)
1 O ra, toda a te rra tinha um a só língua e
um só idiom a. 2 £ deslocando-se os hom ens
p a ra o oriente, ach aram um vale na te rra de
Sinar; e ali h ab itaram . 3 D isseram uns aos
outros: E ia, pois, façam os tijolos, e quei­
m em o-los bem . Os tijolos lhes serv iram de
p edras e o betum e de arg am assa. 4 D isse­
ra m m ais: E ia, edifiquem os p a ra nós um a
cidade e u m a to rre cujo cum e toque no céu,
e façam o-nos um nom e, p a ra que não. seja­
m os espalhados sobre a face de toda a te rra . 5
E ntão desceu o Senhor p a ra ver a cidade e a
torre que os filhos dos hom ens edificavam ;
6 e disse: E is que o povo é um , e todos têm
um a só língua; e isto é o que com eçam a
fa z e r; ag o ra não h av erá restrição p a ra tudo
o que eles Intentarem fazer. 7 E ia, desça­
m os, e confundam os ali a sua linguagem ,
p a ra que não entenda um a língua do outro.
8 A ssim o Senhor os espalhou dali sobre a
face de toda a te rra ; e cessaram de edificar
a cidade. 9 P o r isso se cham ou o seu nom e
B abel, porquanto ali confundiu o Senhor a
linguagem de toda a te rra , e dali o Senhor os
espalhou sobre a face de toda a to rra.
Os acontecimentos descritos neste ca­
pítulo precedem grande parte da disper­
são mencionada no capítulo 10. A Lista
das Nações é colocada em primeiro lu­
gar, tanto porque a ocasião da morte de
Noé requeria um sumário genealógico,
como se a dispersão ocorrida depois
do incidente na torre de Babel devesse ser
vista à luz da unidade essencial do ho­
mem.
O objetivo principal desta passagem
não é dar resposta à questão das dife­
renças de linguagem diretamente suge­
ridas. Ela procura falar a respeito desse
problema, porém é, primordialmente,
uma condenação da insensibilidade e do
orgulho que caracterizaram aquele pro­
jeto.
O acontecimento central, nesta histó­
ria, é a edificação de uma torre ciyo
cume toque os céus. Expressões seme­
lhantes de fato eram usadas pelos babi­
lônios a respeito de seus templos, parti­
cularmente o dedicado a Marduque, na
Babilônia. Quando os versículos 1 a 19
foram escritos, o zigurate existente na
Babilônia, construído, provavelmente,
no período de Hamurabi (décimo oitavo e
décimo sétimo séculos a.C.) estava em
ruínas, que falavam eloqüentemente de
sua glória passada. Contudo, esta refe­
rência não é a uma catástrofe que ocor­
rera tão perto da época de Abraão, mas a
uma bem mais anterior. Speiser está
correto em presumir que esta narrativa
depende mais da história da criação dos
babilônios do que do zigurate da Babi­
lônia propriamente dito. Sem dúvida, os
hebreus tinham as suas tradições a res­
peito de uma tentativa, antes mesmo que
o local se chamasse Babel, de edificar ali
um templo que precedera o esforço de
Hamurabi. Este último fora uma tenta­
tiva de reconstruir as ruínas anteriores,
à luz da Enuma Elish.
208
Desde a análise minuciosa desta pas­
sagem, feita por Gunkel, os eruditos têm
manifestado a tendência de ver aqui duas
edições revisadas: uma história da “tor­
re” e uma história da “cidade” . Cassuto,
de maneira característica, responde a
esses esforços com a seguinte observação:
“Nenhum escritor hebreu inteligente
teria produzido textos insípidos assim”
(II, p. 236). Ele acha que esta narrativa
é um exemplo chocante de arte literária
(p. 231-34). É suficiente observar que
esta passagem passa facilmente de cida­
de para torre, não porque há duas edi­
ficações, mas porque em uma cidade ba­
bilónica típica a área do templo era a sua
razão de ser. A cidade era um adjunto do
zigurate, que era a sua estrutura mais
evidente. Bem semelhante às cidade-
zinhas do interior brasileiro, onde a torre
da igreja católica é a estrutura mais im­
ponente.
O que havia de errado em se construir
uma torre ciyo cume toque no céu (um
arranha-céu)? Para o escritor da narra­
tiva de Gênesis, o pecado residia em sua
motivação. Façamo-nos um nome, para
que não sejamos espalhados. O homem
fora feito para viver para a glória de
Deus, e a sua busca legítima de um nome
bom e permanente precisa ser realizado
nesse contexto. Deus apelou para Abraão
com base no engrandecimento de seu
nome (12:1-3), mas isso devia ser reali­
zado no serviço de Deus. Desde o prin­
cípio, Deus tinha ordenado ao homem
para ser frutífero e multiplicar-se e en­
cher a terra, e a ordem fora reiterada a
Noé. O homem devia encher a terra toda,
e não apenas um canto dela. Até o dia de
hoje o problema populacional não é
essencialmente de falta de espaço na
terra para todo o seu povo, mas o fato de
que as pessoas desejam viver no mesmo
lugar (as cidades) e não se preocupam
com as partes do mundo menos afortu­
nadas do que aquela em que estão.
Para os babilônios, a palavra Babel
significava “portão de Deus”. Para o
escritor inspirado, ela passou a ter um
significado hebraico: “lugar de confu­
são” . Todos os esquemas utópicos em
que os homens se preocupam apenas
consigo mesmos e com a sua prosperi­
dade pessoal terminam em caos seme­
lhante a esse. Os homens egoístas sem­
pre serão insensíveis aos pensamentos e
às necessidades dos outros, e as suas
tentativas de edificar por fim fracas­
sarão.
O escritor não diz como aconteceu a
confusão de línguas. Ele está mais inte­
ressado na razão para ela, em quem a
ocasionou e o seu resultado final. Deus
usa várias maneiras de efetivar a sua
vontade, mas ele reage sempre de manei­
ra semelhante ao comportamento do
homem, com resultados comparáveis. A
intenção do escritor é ensinar que, sem­
pre que o homem se preocupar apenas
com as suas tentativas pessoais de alcan­
çar a fama, esses esforços estão conde­
nados ao fracasso. Enquanto os homens
não se espalharem voluntariamente, ele
os dispersará compulsoriamente, em­
pregando os diversos meios que lhe estão
à disposição, para realizar os seus pro­
pósitos finais.
Uma só língua e um só idioma. Esta
não é uma tradução satisfatória. O es­
critor certamente estava cônscio de que,
na ocasião de tal acontecimento, os ho­
mens haviam desenvolvido um vocabu­
lário extenso. O hebraico mais literal é
“uma linguagem e uma (a mesma) pala­
vra (s)”. Os povos português e brasileiro
falam a mesma língua, mas nem sempre
usam as mesmas palavras (moço-gar-
çom, etc.). Naquela época remota, está
dizendo o escritor, eles não falavam ape­
nas a mesma língua: usavam as mesmas
palavras. Não se haviam desenvolvido
ainda dialetos diferentes. Isto significa
que considera-se que este acontecimento
teve lugar em épocas bem remotas, bem
distantes do escritor. Não precisamos
procurar esta situação vivencial no ter­
ceiro e segundo milênios a.C. A época
209
exata está perdida nas brumas do pas­
sado, mas a sua memória continua.
Eía, edifiquemos. Note-se a repetição
desta expressão no v. 4, e a resposta idên­
tica de Deus no v. 7. Os tjjolos lhes servi­
ram de pedras. O escritor palestino não
estava impressionado com os materiais
de construção, em que eles haviam feito
investimento tão grande. Então desceu o
Senhor. Não para descobrir (ele já sa­
bia), mas para inspecionar mais de
perto. Esta expressão constitui uma iro­
nia antropomórfica. Eles estavam edifi­
cando uma torre até o céu, e Deus tinha
que “descer” para inspecioná-la. Filhos
dos homens é a exata contrapartida he­
braica da frase “filhos de Deus” em 6:2.
Agora não haverá restrição para tudo o
que eles intentarem fazer. Um grande
elogio. Só um fator impede determinados
homens de alcançarem os seus objetivos:
a vontade de Deus. Deixados por conta
própria, os homens podem alcançar os
alvos que planejam e pelos quais traba­
lham criativamente. Contudo, a não ser
que trabalhem dentro da vontade de
Deus, eles não serão deixados à vontade.
8. Os Ancestrais de Abraão (11:10-26)
10 E stas são as gerações de Sem . Tinha
ele cem anos, quando gerou a A rfaxade, dois
anos depois do dilúvio. 11 E viveu Sem,
depois que gerou a A rfaxade, quinhentos
anos; e gerou filhos e filhas. 12 A rfaxade
viveu trin ta e cinco anos, e gerou a Selá. 13
Viveu A rfaxade, depois que gerou a Selá,
quatrocentos e trê s anos; e gerou filhos e
filhas. 14 Selá viveu trin ta anos, e gerou a
E b er. 15 Viveu Selá, depois que gerou a
E b er, quatrocentos e trê s anos; e gerou
filhos e filhas. 16 E b er viveu trin ta e quatro
anos, e gerou a Pelegue. 17 Viveu E ber,
depois que gerou a Pelegue, quatrocentos e
trin ta anos; e gerou filhos e filhas. 18 P ele­
gue viveu trin ta anos, e gerou a R eú. 19
Viveu Pelegue, depois que gerou a Reú,
duzentos e nove a n o s; e gerou filhos e filhas.
20 R eú viveu trin ta e dois anos, e gerou a
Serugue. 21 Viveu R eú, depois que gerou a
Serugue, duzentos e sete anos; e gerou filhos
e filhas. 22 Serugue viveu trin ta anos, e
gerou a N aor. 23 Viveu Serugue, depois que
gerou a N aor, duzentos an o s; e gerou filhos
e filhas. 24 N aor viveu vinte e nove anos, e
gerou a T era. 25 Viveu N aor, depois que
gerou a T era, cento e dezenove anos; e
gerou filhos e filhas. 26 T era viveu setenta
anos, e gerou a A brão, a N aor e a H arã.
Até aqui, o pecado do homem havia
sido sempre acompanhado por um ato de
graça. Adão e Eva foram vestidos; Caim
foi protegido; aos sobreviventes do dilú­
vio foi feita uma promessa. Para as famí­
lias dos homens dispersas não vem ne­
nhuma palavra confortadora de Deus,
de fato, nenhuma palavra, absolutamen­
te. Significa isto que Deus finalmente
desistiu de amparar o homem? Pode ter
parecido que isto aconteceu durante sé­
culos, pois não há indícios de comuni­
cação direta entre Deus e o homem.
Imediatamente depois da catástrofe da
torre de Babel, a narrativa repete o mo­
nótono refrão de Gênesis 5: “Viveu, e
gerou.” Mais uma vez o homem se havia
acomodado a viver os seus dias sem
esperança.
Contudo, o leitor depressa olhará para
diante, e verá que 11:10 e ss. está pre­
parando o palco para o ato mais signi­
ficativo desde a criação: a chamada de
Abraão. A graça de Deus estava ali o
tempo todo, esperando um receptáculo
apropriado. A experiência da torre de
Babel provou que só um refinamento
radical nos relacionamentos entre Deus
e o homem redundaria satisfatório. Nem
a criação nem a ira haviam garantido o
propósito de Deus para o homem. Onde
estas iniciativas haviam falhado., a graça
agora precisava ter êxito.
Esta passagem está colocada aqui, cla­
ramente, para preparar para a chamada
de Abraão. Não se menciona Israel no
capítulo 10, na Lista de Nações, omissão
que deve ser devida a uma grande restri­
ção da parte do escritor. Agora ele avan­
ça diretamente para o seu alvo: o nasci­
mento de Abraão. Quando as genealo­
gias desta passagem são comparadas
com as do capítulo 5, há muitas seme­
lhanças, mas as diferenças são ainda
mais notórias. Sem viveu apenas um
210
pouco mais da metade de um patriarca
antediluviano típico, e a longevidade cai
drasticamente para 400 anos, nas três
gerações seguintes. Depois de Eber, ela é
cortada novamente pela metade, e conti­
nua em cerca de 200 anos, até Tera.
Obviamente, os 120 anos decretados por
Deus em 6:3 não se aplicavam à duração
da vida dos indivíduos, mas aos anos de
graça antes do dilúvio. Será que era o
pecado que estava encurtando a vida do
homem? As evidências científicas dispo­
níveis indicam que a duração da vida do
homem primitivo era menor do que hoje
em dia, mas, obviamente, toda pessoa
falecida não teve o seu corpo exumado e
examinado. Aparentemente, o escritor
está enfatizando o declínio gradual da
energia dada ao homem por ocasião da
criação.
9. A Família de Tera (11:27-32)
27 E stas são as gerações de T era: T era
gerou a A brão, a N aor e H arã; e H ará
gerou a Ló. 28 H arã m orreu antes de seu pai
T era, na te rra do seu nascim ento, em U r dos
C aldeus. 29 A brão e N aor to m aram m ulhe­
res p a ra si: o nom e da m ulher de A brão
e ra S arai, e o nom e da m ulher de N aor e ra
Milca, filha de H arã, que foi pai de M ilca e
de Iscá. 30 S arai e ra e sté ril; não tinha filhos.
31 Tomou T era a A brão seu filho, e a Ló
filho de H arã, filho de seu filho, e a S arai sua
nora, m ulher de seu filho A brão, e saiu com
eles de U r dos C aldeus, a fim de ir p a ra a
te rra de C anaã; e vieram a té H arã, e ali
h abitaram . 32 F o ram os dias de T era duzen­
tos e cinco anos; e m orreu T era em H arã.
Tanto Ur como Harã eram importan­
tes centros de adoração da lua, e o fato
de Tera ter vivido lá provavelmente indi­
ca que ele estava envolvido com esse
culto. Porém, o fato de que Tera prati­
cava a idolatria (Jos. 24:2) não significa
que ele também não estivesse familia­
rizado com o verdadeiro Deus. Labão
afirma que o Deus de Naor e Tera era o
Deus de Abrão (31:53). Quando Abrão
foi chamado, não lhe foi necessário aban­
donar o deus de seus pais, mas apenas
purificar a sua adoração a ele. Muitas
das tradições peculiares do Velho Testa­
mento foram preservadas pelos ances­
trais de Abraão, enquanto eles estavam
também praticando a idolatria.
Há uma variação significativa na fór­
mula usada para as genealogias do capí­
tulo 11* quando elas são comparadas
com as do capítulo 5. A fórmula “viveu,
gerou, morreu”, no capítulo 5, é revisa­
da, sendo omitida, no capítulo 11, em
cada caso, a frase “e morreu” até o fale­
cimento de Harã, filho de Tera. No caso
de Tera, é usada novamente a velha
fórmula (v. 32). Esta omissão em relação
às biografias anteriores deve ter sido
intencional. O versículo 28 diz, literal­
mente, que Harã “morreu diante da face
de seu pai” . As palavras “ele morreu”
haviam sido excluídas anteriormente, a
fim de enfatizar a importância da morte
de Harã. Nas genealogias, era incomum
o fato de os filhos morrerem antes de seus
pais. Esta perda deve ter influenciado a
família, levando-a a abandonar Ur e se
mudar para a direção de Canaã. Uma
família piedosa havia ficado absorvida
demais com a vida pagã de Ur, e havia
comprometido a sua fé.
Gênesis 11:26 diz que “Tera viveu
setenta anos, e gerou a Abrão, a Naor e a
Harã”. Isto não significa que eles eram
trigêmeos, pelo contrário, eles nasceram
depois que ele completou setenta anos,
tendo nascido o mais velho naquele ano.
Abrão. Este nome pode ter várias
interpretações. Há duas idéias básicas
nesta palavra: “pai” e “exaltado”, mas a
relação entre as duas é discutível. Signi­
fica “pai exaltado”, ou “aquele que exal­
ta o seu pai”? Um pai daria a seu filho o
nome de “pai exaltado”? Embora este
seja o significado mais provável, a situa­
ção sugere que este nome foi dado para
expressar o orgulho do pai com o nasci­
mento de um filho.
Ur dos Caldeus. Os caldeus não vie­
ram a controlar a região de Ur senão bem
depois da época de Abraão. Esta pode
ser simplesmente uma expressão explica­
tiva, usada para facilitar a compreensão
211
de uma geração posterior. Contudo, esta
expressão deve ter sido usada em refe­
rência a tribos nômades semítico-oci-
dentais, localizadas nesta região na pri­
meira parte do segundo milênio a.C.
(Cassuto).
Sacai. Este nome significa princesa ou
rainha. A forma dada a este nome, Sara,
no pacto, é simplesmente uma redação
variante. Ela dificilmente poderia supe­
rar este nome.
Ali habitaram. Aparentemente, Tera
foi a única causa de eles não terem ido
adiante, pois fora ele quem os dirigira,
ao sairem de Ur. O fato de que eles se
dirigiam a Canaãindica que Abrão deve
ter influenciado a sua decisão de sair de
Ur. Uma coisa era sair de lá para Harã,
pois essa região, provavelmente, era a
terra natal de Tera; porém, sair de Harã
importava em uma mudança no estilo de
vida que, de alguma forma, ele não podia
suportar. Desta forma, estava preparado
o palco para o grande empreendimento
de Abraão pela fé.
II. As Narrativas Sobre Abraão
(12:1-25:18)
Gênesis 11 nos faz lembrar que, depois
dos notáveis eventos associados com o
grande dilúvio, a vida voltou ao ciclo
aparentemente sem significado de nascer,
ter filhos e morrer. No capítulo 5, Eno­
que interrompera a cadeia de aconteci­
mentos, mas com seu filho Matusalém o
estado de coisas anterior voltou. Com a
chamada de Abrão, a história tomou
uma nova direção, que nunca permitiria
uma volta ã normalidade. Deus estava
empreendendo algo novo; ele chamou
Abrão para colocar esse empreendimento
em movimento. Os capítulos 1-11 haviam
sido preparatórios para este momento.
De Agora em diante Deus não iria tra­
balhar apenas com indivíduos; ele iria
chamar um povo para servi-lo.
As narrativas preservadas nesta seção
podem ser testadas pela arqueologia mo­
derna, não somente porque os eventos
descritos pertencem a períodos atestados
pelos registros seculares, mas também
porque numerosas escavações e desco­
bertas de manuscritos antigos têm lança­
do considerável luz sobre a situação cul­
tural geral da época.14 Com esses mate­
riais aprendemos que nomes semelhantes
aos das genealogias hebraicas eram co­
muns na época (décimo oitavo século
a.C.), que costumes peculiares mencio­
nados eram praticados nesse período, e
não em Israel, posteriormente, e que as
viagens de Abrão através de Canaã eram
possíveis porque as regiões que ele mais
freqüentemente ocupou com os seus re­
banhos eram habitadas bem esparsa-
mente na época. Obviamente, estes fatos
não provam, por si mesmos, a exatidão
de cada declaração histórica desta seção
de Gênesis. Nem sempre os arqueólogos
têm sido capazes de verificar a exatidão
das narrativas de Gênesis. E também não
têm sido capazes de provar que elas são
inexatas. Onde quer que eles tenham en­
contrado evidências, elas reforçaram as
declarações bíblicas.
1. A Chamada de Abrão (12:1-3)
1 O ra, o Senhor disse a A brão: Sai-te da
tu a te rra , d a tu a parentela, e da casa de teu
pai, p a ra a te rra que eu te m ostrarei. 2 E u
farei de ti u m a grande n a ç ã o ; abençoar-te-
ei, e engrandecerei o teu n o m e; e tu, sê um a
bênção. 3 A bençoarei aos que te abençoa­
rem , e am aldiçoarei àquele que te am ald i­
çoar; e em ti serão benditas todas as fam í­
lias d a te rra .
Ora, o Senhor disse a Abrão. A cha­
mada de Abrão aconteceu em Ur ou em
Harã? Em o Novo Testamento, Estêvão
diz que ela aconteceu em Ur (At. 7:2). É
bom que se note que Estêvão não foi um
escritor da Escritura. O fato de que
Estêvão conhecia o Senhor não prova
mais o seu conhecimento detalhado do
Velho Testamento do que de qualquer
pessoa que tenha as mesmas caracterís­
ticas hoje em dia. Se ler o relato de
14 Cf. John Bright, A HIstory of Israel (Philadelphia:
Westminster Press, 1959), p. 60-86.
212
Gênesis sem tomar conhecimento da pas­
sagem de Atos, nunca ocorrerá ao leitor
que Abrão foi chamado em outro lugar
que não tenha sido Harã. Contudo, não
há razão por que não nos possamos
identificar com Estêvão, e concluir que a
chamada de Abrão aconteceu tanto em Ur
quanto em Harã, não porque a passagem
o diga claramente, mas porque isso está
implícito, pois a família se dirigiu a
Canaã quando saiu de Ur (11:31). Abrão,
provavelmente, havia influenciado o seu
pai a viajar para Canaã quando estavam
em Ur. Agora Tera não queria ir além, e
assim a chamada foi renovada de forma
mais clara.
Sai-te da tua teria, da tua parentela, e
da casa de teu pai, para a terra que eu te
mostrarei. Aqui temos as exigências cla­
ras que Deus fez a um homem de fé.
Assim como Paulo ensina em Gálatas 3,
estamos mais perto do Novo Testamento
nesta passagem do que na lei do Sinai.
Eu farei de ti. Como ensinavam os
rabis do Talmude, a promessa feita a
Abrão foi sétupla(cf. Cassuto):
(1) Ele seria o pai de uma grande
nação. A palavra hebraica usada aqui é
goy, e não am (povo). É um conceito
político, implicando em uma base terri­
torial (Speiser). Aqui de fato se encon­
trava o teste da fé de Abraão em Deus,
porque com setenta e cinco anos ele
ainda não tinha herdeiro!
(2) Deus o abençoaria durante a sua
vida. Isto significava que ele iria ser
protegido de qualquer dano e que ele
gozaria do favor de Deus de formas ainda
não imaginadas.
(3) O próprio Abrão seria uma figura
mundial (o seu nome iria ser grande).
Não se pode culpar um homem por que­
rer ser conhecido em círculos mais am­
plos. O erro está na razão indigna para
esse desejo e nos métodos questionáveis
empregados para alcançá-lo.
(4) Ele seria uma bênção para outras
pessoas. Não é suficiente querer um lugar
de destaque só por amor à fama. Abrão
seria abençoado por Deus para que pu­
desse ajudar os outros. Cargos elevados
devem inspirar um senso de responsa­
bilidade, e não de mero gozo dos privi­
légios especiais neles inerentes.
(5) As suas bênçãos seriam comparti­
lhadas com aqueles que o recebessem,
pois desta forma eles declarariam a sua
abertura para com Deus.
(6) Os que amaldiçoassem (degradas­
sem, desprezassem) Abrão, com esse ato
revelariam insensibilidade para com
Deus, que estava operando nele, e preci­
pitariam a ira de Deus sobre si próprios.
(7) A sua influência benéfica seria uni­
versal. “Temos, aqui, a primeira alusão
ao conceito do universalismo inerente na
fé de Israel.”
2. Abrão em Canaã (12:4-9)
4 P artiu , pois, A brão, como o Senhor lhe
ordenara, e Ló foi com ele. Tinha A brão
seten ta e cinco anos quando saiu de H arã.
5 A brão levou consigo a S arai, su a m ulher, e
a Ló, filho de seu irm ão, e todos os bens que
haviam adquirido, e as alm as que lhes
acresceram em H arã; e saíram a fim de
irem à te rra de C anaã; e à te rra de Canaã.
chegaram . 6 P assou A brão pela te rra a té o
lugar de Siquém , a té o carvalho de M oré.
N esse tem po estav am os cananeus n a te rra .
7 A pareceu, porém , o Senhor a A brão, e
disse: À tu a sem ente d arei esta te rra .
A brão, pois, edificou ali um a lta r ao Senhor,
que lhe ap arecera. 8 E ntão passou dali p a ra
o m onte ao oriente de Betei, e arm ou a sua
tenda, ficando-lhe B etei ao ocidente, e Ai ao
oriente; tam bém ali edificou um a lta r ao
Senhor, e invocou o nom e do Senhor. 9 D e­
pois continuou A brão o seu cam inho, se ­
guindo ain d a p a ra o sul.
Esta passagem ensina claramente que
a fé de Abrão era tal que ele tomou uma
decisão positiva de aceitar o desafio de
Deus. O único problema era o fato de
que Ló o estava acompanhando. Isto
acontecia, aparentemente, não por con­
vite de Abrão, mas por iniciativa de Ló.
De fato, Abrão estava disposto a deixar
Ló para trás, mas ainda não era neces­
sário. O homem que está disposto a
abandonar tudo pode nem sempre ser
213
solicitado a fazê-lo. Acontecimentos pos­
teriores o tomariam necessário, mas
agora isso não era requerido.
As almas que lhes acresceram em
Harã. Como observa Cassuto, não é pro­
vável que esta passagem se refira a escra­
vos, pois eles seriam incluídos nos bens
mencionados; e o termo lhes acresceram
(heb., fizeram) dificilmente seria a pa­
lavra usada para a aquisição de um
escravo. É mais provável que ela se apli­
que às pessoas de Harã que haviam sido
convencidas da causa de Abrão. Uma
comunidade religiosa já estava come­
çando!
O carvalho de Moré era, provavelmen­
te, a cena de um santuário cananeu.
O lugar de Siquém pode indicar isto, pois
este termo freqüentemente se aplicava a
um lugar sagrado, embora não em todos
os casos. Isto não significa que Abrão
endossava a adoração pagã ali executa­
da, mas que ele demonstrava uma ado­
ração mais apropriada do verdadeiro
Deus, como Paulo o faria em Atenas. Ele
construiu um novo altar nesse lugar sa­
grado. Era para isso que a adoração
cananéia estava apontando o tempo
todo.
Estavam os cananeus na terra. Isto
não quer dizer, necessariamente, que na
época do escritor eles não estavam mais
na terra. O significado era que estava
sendo dada a Abrão uma terra já ocupa­
da por outrem. Como é que ela podia
tomar-se dele? Mais uma vez a sua fé
estava sendo testada. A tensão é um
tanto relaxada quando Deus informa a
Abrão que ele a vai dar aos seus des­
cendentes. É-lhe dito que o processo
levará séculos (15:12-16). Mais uma vez
ele é chamado para crer em Deus. Deve-
se notar que Abrão não sabia que terra
deveria ser sua até tê-la percorrido. Ra­
ramente uma pessoa conhece antecipa­
damente a vontade final de Deus para
com ela. Ela vai encontrá-la à medida
que seguir o seu Senhor em fé.
3. A Peregrinação no Egito (12:10-13:1)
10 O ra, havia fom e naquela te rra ; A brão,
pois, desceu ao E gito, p a ra p ereg rin ar ali,
porquanto e ra grande a fom e n a te rra . 11
Quando ele estav a p restes a e n tra r no Egito,
disse a Sarai, sua m ulher: O ra, bem sei que
és m ulher form osa à v ista; 12 e acontecerá
que, quando os egípcios te virem , dirão:
E sta é m ulher dele. E m e m atarão a m im ,
m as a ti te g uardarão em vida. 13 Dize,
peço-to, que és m inha irm ã, p a ra que m e vá
bem por tu a causa, e que viva a m inha alm a
em atenção a ti. 14 E aconteceu que, e n tran ­
do A brão no E gito, v iram os egípcios que a
m ulher e ra m ui form osa. 15 Até os prínci­
pes de F a ra ó a viram e g abaram -na diante
dele; e foi levada a m ulher p a ra a ca sa de
F araó . 16 E ele trato u bem a A brão por
cau sa dela; e este velo a te r ovelhas, bois e
Jum entos, servos e serv as, jum entas e c a ­
m elos. 17 F eriu , porém , o Senhor a F a ra ó e a
sua casa com grandes p rag as, por cau sa de
S arai, m ulher de A brão. 18 E ntão cham ou
F a ra ó a A brão, e disse: Que é isto que m e
fizeste? por que não m e disseste que ela e ra
tu a m ulher? 19 P o r que disseste: É m inha
irm ã? de m an eira que a tom ei p a ra ser
m inha m ulher. A gora, pois, eis aqui tu a
m ulher; tom a-a e vai-te. 20 E F araó deu
ordens aos seus guardas a respeito dele, os
quais o despediram a ele, e a su a m ulher, e a
tudo o que tinha. 1 Subiu, pois, A brão do
Egito p a ra o N egebe, levando su a m ulher e
tudo o que tinha, e Ló o acom panhava.
Esta história tem paralelo em 20:1-18
(Sara e Abimeleque) e 26:6-11 (Rebeca e
Abimeleque). Muitos eruditos (cf. von
Rad) consideram estas três narrativas
como edições revistas de uma história
original de um patriarca expondo a sua
esposa. O relato original agora está pre­
servado em três narrativas diferentes.
Nome como o de Yahweh (Senhor) ocorre
no capítulo 12, enquanto Elohim (Deus)
aparece no capítulo 20. Como é que Abi­
meleque podia ser enganado duas vezes
por esse estratagema, levado a efeito por
pai e filho? Será que o justo Abrão seria
capaz mais uma vez de manifestar tal du­
plicidade, depois de ter sido prejudicado
no Egito? Tais considerações estão por
detrás da teoria de uma história original
comum.
214
Outros eruditos (cf. Kidner) defendem
esses relatos como independentes. A pas­
sagem, da maneira como agora a temos,
não diz que era costume de Abraão agir
de maneira enganosa como essa (20:13,
que alguns comentaristas consideram
uma tentativa do redator de conciliar os
dois relatos). Seria natural que um filho,
especialmente Isaque, imitasse o seu pai.
O Abimeleque do capítulo 26 pode não
ser o mesmo do capítulo 20. Pais e filhos,
da mesma forma como hoje em dia,
tinham o mesmo nome de nobreza.
Dentre outros problemas existentes
nesta passagem, o principal é o de Sara
ser tão bela com a idade de 65 anos.
Cassuto argumenta que as idades não
devem ser consideradas literalmente,
mas elas aparecem desta forma pelo
amor à “harmonia numérica” : Abrão
viveu 75 anos com seu pai, 25, em Canaã,
sem filho, e 75 com seu filho Isaque.
Cassuto argumenta que os antigos não
conservavam estatísticas de nascimentos
da maneira como as sociedades ociden­
tais modernas fazem. Nenhuma tenta­
tiva era feita de serem exatos em termos
de idade.
O objetivo da história toda, no entan­
to, é dizer que Sara não era apenas velha
demais para ter filhos, mas velha demais
para ter prazer sexual (18:12). É o relato
Sacerdotal que afirma que Abraão tinha
75 anos (e, por conseguinte, Sara tinha
65) quando eles entraram em Canaã.
Muitos expositores acham que este pre­
sente relato da fonte Judia considerava
Sara muito mais nova quando eles entra­
ram na Palestina. Ninguém pode negar
como algumas mulheres de 65 anos de
idade são atraentes. Faraó não teria hesi­
tado em acrescentar ao seu harém uma
notável mulher de idade, para dar-lhe
variedade. Era muito mais fácil conse­
guirjovens do que uma raridade dessas!
Há algumas pessoas que tentam de­
fender Abrão. Speiser diz que, visto que
alguns antigos freqüentemente elevavam
a esposa à condição de irmã, foi isto que
Abraão fez. Gerações posteriores não
sabiam que ato nobre fora aquele, e o
confundiram com um ato de duplicida­
de! Essa solução levanta mais interroga­
ções do que o problema original. Cassuto
sugere que Abrão queria ficar vivo para
que pudesse rechaçar quaisquer tenta­
tivas de se apropriarem de Sara.
Por outro lado, outras pessoas censu­
ram Abrão fortemente. Holzinger afirma
que Abrão, “com vergonhosa baixeza,
abandona a sua esposa à concupiscên­
cia de um potentado estrangeiro, e con­
segue vantagens materiais de seu negócio
sujo” (traduzido por Cassuto, II, p. 348).
Gunkel, todavia, enfatiza as falhas do
autor do texto, que parece se deleitar
com a capacidade de Abrão de exceder
em esperteza os seus inimigos no Egito.
Cassuto suspeita, com razão, que tais
pontos de vista resultam de “uma falta
de simpatia para com Israel e sua Tora”
(uma forma indireta de acusar de anti-
semitismo!).
Na realidade, o autor simplesmente
registrou a história, sem comentários, da
maneira como ela lhe chegou às mãos,
nem endossando nem criticando o com­
portamento de Abrão. Ele, Abrão, é
retratado como um homem desprepara­
do para um teste como esse, completa­
mente desmoralizado e agindo comple­
tamente sem compostura, como os me­
lhores homens o fazem tão freqüente­
mente. Não obstante, há uma corrente
subjacente, nesta história, que critica
claramente a duplicidade de Abrão. Era
muito embaraçoso, para o pai dos ju­
deus, ser deportado do Egito por um
Faraó cujo senso de direito era mais
elevado do que o seu. E não se deve igno­
rar que, provavelmente, entre os presen­
tes que ele aceitou de Faraó, estava uma
serva egípcia, chamada Agar. Deve ter
ocorrido muitas vezes, nos anos seguin­
tes, que Abrão deplorou ter aceito este
presente.
A ênfase primordial desta história,
todavia, é freqüentemente esquecida, no
215
debate a respeito da análise das fontes e
torpeza moral. Como o explica von Rad
(p. 164 e s.) de maneira tão eloqüente:
Yahweh não permite que a sua obra aborte logo no
princípio; ele a resgata e preserva além de todos os
fracassos humanos... Se Yahweh não se desviou em
sua obra de história sagrada por causa do fracasso e
da culpa dos receptores da promessa, então a sua
palavra deve realmente merecer crédito.
A narrativa de como Abrão colocou em
perigo a promessa é uma recordação de
que a pessoa a quem a promessa é feita é
muitas vezes o seu maior inimigo.
4. Abrão eLó (13:2-18)
Abrão é lembrado, em Israel, como
um homem de fé (cf. 12:1 e ss.; 15:6;
Rom. 4:3; Tiago 2:21,23); Ló é conhe­
cido como homem justo (cf. 19:1 e ss.;
II Ped. 2:6-8). Estes conceitos derivaram
corretamente da descrição feita, dos dois
homens, nos relatos de Gênesis. Embora
ambos cressem em Deus e numa vida
reta, Abrão estava pronto para seguir a
Deus até o desconhecido, enquanto Ló
fazia o que achava correto. Quando co­
meçaram a sua viagem, a diferença entre
os dois era notada apenas no fato de que
Abrão dirigia a caravana. Mais tarde, as
diferenças entre eles se tornaram tão
marcantes que ambos verificaram a ne­
cessidade de seguirem caminhos sepa­
rados.
1) A Separação (13:2-13)
2 A braão e ra m uito rico em gado, em
p ra ta e em ouro. 3 N as suas jo rn ad as subiu
do Negebe p a ra B etei, a té o lugar onde
outrora estiv era a su a tenda, entre B etei e
Ai, 4 até o lu g ar do a lta r, que dantes ali
fizera; e ali invocou A brão o nom e do Se­
nhor. 5 E tam bém Ló, que ia com A brão,
tinha rebanhos, gado e tendas. 6 O ra, a te rra
não podia sustentá-los, p a ra eles h abitarem
ju n to s; porque os seus bens e ram m uitos; de
modo que não podiam h ab itar juntos. 7 Pelo
que houve grande contenda entre os pasto­
res do gado de A brão, e os pastores do gado
de Ló. E nesse tem po os cananeus e os
perizeus habitavam n a te rra . 8 D isse, pois,
A brão a Ló: O ra, não h a ja contenda entre
m im e ti, e entre os m eus~pastores e os teus
pastores, porque som os irm ãos. 9 P orven­
tu ra não está toda a te rra diante de ti?
Bogo-te que te ap artes de m im . Se tu esco­
lheres a esquerda, irei p a ra a d ireita; e se a
d ireita escolheres, irei eu p a ra a esquerda.
10 E ntão Ló levantou os olhos, e viu toda a
planície do Jordão, que e ra toda bem reg ad a
(antes de h av er o Senhor destruído Sodom a
e G om orra), e e ra com o o jard im do Senhor,
como a te rra do E gito, até chegar a Zoar.
11 E Ló escolheu p a ra si toda a planície do
Jordão, e p artiu p a ra o oriente; assim se
ap a rta ra m um do outro. 12 H abitou A brão
na te rra de C anaã, e Ló habitou nas cidades
da planície, e foi arm ando a s suas tendas até
chegar a Sodom a. 13 O ra, os hom ens de
Sodom a e ra m m aus e grandes pecadores
contra o Senhor.
Abrão e Ló continuaram a sua viagem
juntos, usando a mesma rota de sua
peregrinação anterior, até Betei, mas não
de volta a Siquém. Em Betei, Abrão reno­
vou os seus votos a Deus, e não avançou
mais em direção à sua terra natal. Será
que a tentação de voltar a Harã teria sido
grande demais, se eles tivessem chegado
até Siquém? A riqueza de Abrãc, gran­
demente aumentada pela aventura no
Egito, consistia de ouro e prata, bem
como de gado. A riqueza de Ló ainda se
baseava em seus rebanhos e manadas.
Com a ulterior multiplicação de seus
animais, os dois parentes se defrontaram
com outro teste de fé. Canaã não era
apenas uma terra onde podiam ocorrer
secas, com a conseqüente fome, mas os
seus pastos podiam apenas sustentar
limitados rebanhos (v. 6a). Os servos de
Abrão e os pastores de Ló começaram a
discutir a respeito do direito que tinham
sobre as pastagens. Tendo os cananeus a
rodeá-los por todos os lados (v. 7) tal
conflito civil podia ser suicida.
Desta forma, as diferenças que surgi­
ram por causa do problema da riqueza e
crescimento tomaram necessária uma
separação. Porém este foi apenas o ato
final de um prolongado drama. Por al­
gum tempo os acontecimentos se haviam
movido para essa direção. Geralmente
amigos íntimos não concordam com uma
separação final, só porque os seus servos
216
respectivos haviam estado a discutir.
Primeiro vieram a dúvida, os pressenti­
mentos, e, finalmente, a certeza de que
eles não poderiam mais peregrinar jun­
tos. As suas almas se haviam separado; o
homem de fé e o homem justo. Isto é
revelado claramente pela sua maneira de
agir na hora da crise. (*)
A Atitude de Abrão. — Seja qual
tenha sido a perda material de Abrão,
precisava haver paz entre esses irmãos de
sangue. O homem mais favorecido deu
preferência ao menos favorecido, embora
ele pudesse dizer justificadamente a Ló:
“Esta terra é minha, e se você não con­
seguir controlar os seus servos, vá embo­
ra”, ou: “Visto que não existe espaço
suficiente aqui para nós dois, eu vou
além; você fique com o que sobrar.” Pelo
contrário, ele deu a Ló a oportunidade de
escolher.
A Atitude de Ló. — É claro que a
escolha de Ló não foi sábia, à luz da
conhecida depravação das cidades da
planície (v. 13). Dois fatores levaram-no
a escolher esse território: (1) A fertili­
dade daquela região. Para ele, ela pare­
cia com o Jardim do Êden, pois era
como o Egito, quando pela primeira vez
eles haviam chegado lá, fugindo da fome
que havia em Canaã. Se eles vivessem em
uma região assim, o medo da fome (ou
mesmo da perda de sua esposa, em outra
crise no Egito) seria removido para sem­
pre. (2) Ló não escolheu uma região que
Abrão prezava. Ao escolher o Vale do
Jordão, ele foi para uma área que Abrão
não havia demonstrado nenhuma incli­
nação para visitar. De fato, Ló escolheu
terra que desejava, mas também era ter­
ritório que ele sabia muito bem não
interessar a Abrão.
(*) NOTA DO EDITOR: Em tudo isto, a mão invi­
sível de Deus estava por detrás dos aconteci­
mentos. A palavra a Abrão (12:1) fora para sair
do meio de seus parentes. Contudo, quiçá por
ignorância, ele continuava com um parente,
seu sobrinho Ló. Este acontecimento veio com­
pletar esse propósito de Deus para a vida de
Abrão.
Contudo, a decisão de Ló, por lógica e
correta que lhe parecesse, tinha várias
falhas evidentes: (1) Ele agiu impulsiva­
mente demais. A atitude prudente teria
sido reagir à generosidade de Abrão
sugerindo que Abrão fizesse a escolha em
primeiro lugar, e que ele ficasse com o
que sobrasse. O imponente panorama da
planície bem regada, com a chance de
que ela fosse sua, foi mais do que a que
ele podia resistir. (2) Ele não considerou
as últimas conseqüências de sua decisão.
Pensou que iria meramente viver fora
das cidades ímpias (v. 12b), mas logo
estava dentro delas, estando a sua famí­
lia exposta a todas as tentações a que a
sua alma justa era imune. (3) Ele não fez
tentativa para discernir a vontade de
Deus no assunto. Talvez não soubesse
como fazê-lo. Até então havia seguido a
Abrão, e não a Deus. Quando Abrão o
deixou à vontade, ele estava inteiramente
por sua própria conta. Nessa hora, reti­
dão nunca é suficiente. Só a fé é sufi­
ciente.
2) Renovação da Promessa (13:14-18)
14 £ disse o Senhor a A brão, depois que Ló
se apartou dele: L evanta ag o ra os olhos, e
olha desde o lu g ar onde estás, p a ra o norte,
p a ra o sul, p a ra o oriente e p a ra o ocidente;
15 porque toda esta te rra que vês, te hei de
d ar a ti, e à tu a descendência, p a ra sem pre.
16 E farei a tu a descendência com o o pó da
te rra ; de m an eira que se puder ser contado
o pó da te rra , então tam bém poderá ser
contada a tua descendência. 17 L evanta-te,
percorre esta te rra , no seu cum prim ento
e n a sua la rg u ra ; porque a d arei a ti. 18
E ntão m udou A brão as suas tendas, e foi
h ab itar junto dos carvalhos de M anre, em
H ebrom ; e ali edificou um a lta r ao Senhor.
As afirmações de Deus a Abrão são
feitas não apenas em resposta à sua
cuidadosa atuação em relação a Ló, mas
à luz do fato de que finalmente Abrão
havia cumprido a obrigação de deixar
todos os seus parentes (12:1). A sua
separação para o serviço de Deus agora
estava completa. A promessa agora con­
tinha outras ênfases novas: (1) Pela pri­
meira vez Abrão era informado de que
217
aquela terra lhe seria dada. Em 12:7, ela
devia ser dada aos seus descendentes.
(2) Portanto, foi-lhe dito que percorresse
a terra, não mais como peregrino, mas
como seu novo proprietário. A posse
propriamente dita precisava esperar
séculos, mas a escritura já estava em suas
mãos! (3) Os seus descendentes não se­
riam apenas numerosos (12:2), mas inu­
meráveis como o pó da terra sobre que os
pés de Abrão estavam firmados (13:16).
(4) Foi-lhe dito que olhasse na mesma
direção que Ló olhara (cf. v. 10 com v.
14), bem como em todas as outras di­
reções. O que Ló escolhera, mais tarde
pertenceria a Abrão e a seus descen­
dentes. O homem de fé tinha feito a
decisão correta. Arriscando tudo, ele
receberia ainda mais.
Embora tivesse sido dito a Abrão para
andar por toda a largura e comprimento
da terra, reivindicando-a toda, ele se
satisfez em mudar-se para Hebrom,
como sua localização preferida. Mesmo
um homem de fé fica cansado de conti­
nuar avançando para a cidade invisível.
Descansar em Hebrom era suficiente­
mente tranqüilizador. Não obstante,
Deus tinha outros planos.
É desconhecido o lugar verdadeiro do
altar de Abrão em Hebrom. Na anti­
guidade, grandes árvores caracterizavam
esse lugar. Sozomen, historiador da Igre­
ja (quinto século d.C.), relata que o local
de terebintos que lá havia era lugar de
uma famosa feira, freqüentada por gran­
de número de judeus, cristãos e árabes.
Escavações mais recentes indicaram que
esse lugar foi ocupado desde a Era do
Bronze até o período moderno, e parti­
cipara das civilizações cananéia, isra­
elita, romana, bizantina e árabe. Essa
região ainda é sagrada, tanto para árabes
quanto para judeus.
5. Abrão, o Cidadão do Mundo (14:1-24)
Speiser expressa a opinião dos intér­
pretes do Velho Testamento em geral,
quando observa que “Gênesis 14 se so­
bressai como ímpar entre todos os relatos
do Pentateuco, se não de toda a Bíblia. O
palco é internacional, a abordagem é
impessoal, e a narrativa, notável, por seu
estilo e vocabulário inusitados” (p. 105).
Este capítulo não tem nenhuma das
características das outras fontes, e não
pode ser classificado como material das
fontes Judia, Israelita do Norte ou Sa­
cerdotal.
De fato, ele apresenta evidências de
ter-se derivado de uma fonte autentica­
mente não judia (cf. Speiser): (1) A guer­
ra é datada segundo o reinado de reis
estrangeiros (os invasores), quando o
costume era datar um evento segundo o
reinado dos reis locais. (2) A fórmula
com que este capítulo tem início (“Nos
dias de”) não é tipicamente hebraica,
porém mais provavelmente adaptação da
palavra babilónica enuma (enquanto).
(3) Os nomes dos invasores não são
fictícios, e, sim, têm um toque de auten­
ticidade. (4) Os nomes dos defensores
também não são imaginários, pois, do
contrário, o escritor não teria hesitado
em criar um nome para o rei de Belá
(v. 2)! (5) Abrão é mencionado como “o
hebreu” (v. 13), termo jamais aplicado
no Velho Testamento a um judeu, exceto
por alguém que não fosse judeu ou por
um judeu identificando-se para um não-
judeu (cf. 39:14; 40:15; 43:32; Jon. 1:9).
(6) O título do Deus de Melquisedeque,
bem como a existência desse ofício de
Sacerdote em Jerusalém, são atestados
pelos materiais recentemente descobertos
no Oriente Próximo.
Por que os editores finais de Gênesis,
de todos os materiais que lhes estavam
disponíveis, estranhos às fontes Judia,
Israelita do Norte e Sacerdotal, escolhe­
ram esta narrativa em particular, para
incluí-la no livro? Parece haverem duas
razões básicas: (1) Era o único material
existente, em fontes estranhas a Israel,
que atestava da existência histórica do
homem Abrão. “Na falta de um texto
não-israelita, mencionando um Abrão,
218
filho de Tera, ou um Isaque filho de
Abrão, este é o mais próximo, a que
podemos chegar, de um testemunho
epigráfico direto do patriarca” (Speiser).
(2) Esta narrativa reforça as reivindi­
cações da linhagem real de Davi sobre a
lealdade israelita (cf. Sal. 110). Se Abrão
reconheceu o sacerdócio real desse antigo
rei de Jerusalém, Melquisedeque, os seus
descendentes não deveriam fazer menos
que isso. Abrão se curva apenas diante
de Melquisedeque, dentre os imponen­
tes reis da narrativa. A referência implí­
cita ao governo davídico é, provavelmen­
te, a indicação mais convincente de uma
data para a redação final do material
constante do capítulo 14: a última parte
do reinado de Davi. Isto não significa
que o material histórico foi criado com
objetivos de propaganda, mas, pelo con­
trário, já estava disponível em sua forma
antiga, para utilização legítima naquela
época.
1) Ló e os Reis Tiranos (14:1-12)
1 Aconteceu nos dias de A nrafel, rei de
Sinar, Arioque, rei de E lasar, Quedorlao-
m er, rei de E lão, e Tidal, rei de Goiim, 2 que
estes fizeram g u erra a B era, rei de Sodoma,
a B irsa, rei de G om orra, a Sinabe, rei de
A dm á, a Sem eber, rei de Zeboim, e ao rei de
B elá (esta é Z oar). 3 Todos estes se a ju n ta ­
ram no vale de Sidim (que é o M ar Salgado).
4 Doze anos haviam servido a Quedorlao-
m er, m as ao décim o terceiro ano reb ela­
ram -se. 5 P o r isso, ao décim o quarto ano
veio Q uedorlaom er, e os reis que estavam
com ele, e feriram aos refains em A sterote-
C arnaim , aos zuzins em Hão, aos em ins em
Savé-Q uiriataim , 6 e aos horeus no seu m on­
te Seir, até E l-P arã, que está junto ao de­
serto. 7 Depois v oltaram e vieram a En-
M ispate (que é C ades), e feriram toda a
te rra dos am alequitas, e tam bém aos am or-
reus, que habitavam em H azazom -T am ar.
8 E ntão saíram os reis de Sodoma, de Go­
m o rra, de A dm á, de Zeboim e de B elá (esta
é Z oar), e ordenaram batalh a contra eles no
vale de Sidim, 9 contra Q uedorlaom er, rei
de E lão, T idal, rei de Goiim, A nrafel, rei de
Sinar, e Arioque, rei de E la sa r; quatro reis
contra cinco. 10 O ra, o vale de Sidim estava
cheio de poços de betum e; e fugiram os reis
de Sodom a e de G om orra, e caíram ali; e os
restan tes fugiram p a ra o m onte. 11 T om a­
ram , então, todos os bens de Sodom a e de
G om orra como todo o seu m antim ento, e se
foram . 12 T om aram tam bém a Ló, filho do
irm ão de A brão, que h abitava em Sodoma,
e os bens dele, e p artira m .
Não mais se sugere seriamente que
Anrafel deva ser identificado com Hamu-
rabi, pois as diferenças lingüísticas são
insuperáveis, e o líder teria sido ele,
Anrafel, e não Quedorlaomer. Contudo,
estè nome é amorreu ou acádio; e Sinar
é babilónico. Anrafel era, provavelmente,
um príncipe de menor importância na
Mesopotâmia Inferior (Speiser).
O objetivo da invasão parece ter sido
não apenas punir os reis insurgentes,
mas também assegurar a importante rota
comercial para o Mar Vermelho e as
ricas minas na região do Golfo de Acaba.
Isto explica a rota um tanto circular que
eles seguiram, através do deserto, em
direção a Cades, antes de enfrentarem,
em batalha, a coalisão cananéia. É inte­
ressante notar que a conexão da batalha
com Abrão não é mencionada antes do
último versículo desta perícope (v. 12),
o que dá provas da independência desta
narrativa em relação à tradição bíblica
costumeira.
2) Abrão e Melquisedeque (14:13-24)
13 E ntão veio um que escap ara, e o contou
a A brão o hebreu. O ra, este habitava junto
dos carvalhos de M anre, o am orreu, irm ão
de E scol e de A ner; estes eram aliados de
A brão. 14 Ouvindo, pois, A brão, que seu
irm ão estav a preso, levou os seus hom ens
treinados, nascidos em sua casa, em núm e­
ro de trezentos e dezoito, e perseguiu os reis
até D ã. 15 Dividiu-se contra eles de noite, ele
e os seus servos e os feriu, perseguindo-os
até Hobá, que fica à esquerda de D am asco.
16 A ssim tornou a tra z e r todos os bens, e
tornou a trazer tam bém a Ló, seu irm ão, e
os bens dele, e tam bém a s m ulheres e o
povo. 17 Depois que A brão voltou de ferir a
Q uedorlaom er e aos reis que estavam com
ele, saiu-lhe ao encontro o rei de Sodom a, no
vale de Savé (que é o vale do rei). 18 O ra,
M elquisedeque, rei de Salém , trouxe pão e
vinho; pois e ra sacerdote do D eus A ltís­
sim o ; 19 e abençoou a A brão, dizendo:
Bendito seja A brão pelo D eus Altíssimo,
o C riador dos céus e da te r r a !
219
20 E bendito seja o D eus A ltíssim o, que
entregou os teus inim igos nas tu as m ãos!
E A brão deu-lhe o dízim o de tudo. 21 E n tão o
rei de Sodom a disse a A brão: D á-m e a m im
as pessoas; e os bens tom a-os p a ra ti. 22
Abrão, porém , respondeu ao rei de Sodom a:
Levanto m inha m ão ao Senhor, o D eus A ltís­
sim o, o C riador dos céus e da te rra , 23 ju ­
rando que não tom arei coisa algum a de tudo
o que é teu, nem um fio, nem u m a co rreia de
sapato, p a ra que não digas: E u enriqueci
a A brão; 24 salvo tão-som ente o que os
m ancebos com eram , e a p arte que toca aos
hom ens A ner, E scol e M anre, que foram
com igo; que estes tom em a sua p arte.
Nesta perícope, Abrão aparece da
maneira como deve ter parecido aos seus
contemporâneos: um xeque poderoso —
e não da maneira como era lembrado
entre os hebreus: o fundador de sua
religião. No entanto, ambos os aspectos
de seu caráter são genuínos. Evidências
contemporâneas revelam que esses
potentados nômades usavam jumentos e
asnos, para carregarem as suas merca­
dorias, e se equipavam com bandos
armados, para a sua proteção pessoal.
Quando a comunhão de Abrão com o
seu sobrinho Ló foi ameaçada por dis-
sensões internas, a respeito de direitos,
ele preferiu renunciar a eles, por amor
dos laços de família. Contudo, quando
Ló foi capturado por um inimigo, Abrão
estava pronto a lutar por ele. Uma coisa
é insistir nos direitos pessoais, e outra
é defender os direitos dos outros.
O comportamento de Abrão, quando
ouviu falar da captura de Ló, é um
exemplo vivo da atitude certa a ser to­
mada quando um irmão está em dificul­
dades. (1) Ele agiu prontamente. A
expressão hebraica traduzida como
levou significa esvaziar, como quando se
tira a espada da bainha (cf. Êx. 15:9).
Não havia tempo a perder. Qualquer
demora teria significado a perda de toda
a oportunidade de ajudar. (2) Ele agiu
decisivamente. Tomando os seus homens
mais leais e bem treinados, ele os dividiu,
de forma a tirar o máximo proveito de
suas forças limitadas, e caiu sobre o
inimigo de noite, provavelmente depois
que ele estava celebrando a sua vitória.
O fato de ter agido rapidamente teria
sido de pequeno valor, se ele não soubes­
se o que fazer. (3) Ele prosseguiu até
ter certeza de que a vitória seria perma­
nente. Se ele não os tivesse perseguido
até o norte de Damasco, eles se teriam
reagrupado e voltado.
O histórico encontro de Abrão com
Melquisedeque é cheio de mistério e
desafio. Esse nome significa “o rei é
justo” (zedek, palavra certamente em
voga na antiga Canaã; cf. Adoni-zede-
que, Jos. 10:1). Possuímos, agora, por­
ções de correspondência entre Faraó e
reis das cidades da Palestina, e uma
carta é de um príncipe de Jerusalém.
Salem deve, certamente, ser identificada
como Jerusalém. De fato, não era inco-
mum, na antiga Canaã, que um rei ser­
visse também de sacerdote. O título
Deus Altíssimo (’El Elyon) tem sido en­
contrado em materiais ugaríticos.
Desta forma, neste capítulo, Melqui­
sedeque é retratado como um verdadeiro
sacerdote-rei, funcionando em Jerusa­
lém, ministrando tanto a gentios quanto
a Abrão, o hebreu. Assim, a “sua
ordem” (Sal. 110) era servir como sacer­
dote universal, tanto a judeus quanto a
gentios. O escritor do livro aos Hebreus
injeta neste quadro outro aspecto, quan­
do acrescenta: “Sem pai, sem mãe, sem
genealogia, não tendo princípio de dias
nem fim de vida, mas feito semelhante
ao Filho de Deus, permanece sacerdote
para sempre” (7:3). Com isto, ele não
quer dizer que Melquisedeque, na ver­
dade, não tinha pai nem mãe nem fim
de governo, referindo-se, desta forma, a
Jesus Cristo pré-encarnado, mas está
fazendo uma comparação literária. Da
mesma forma como Melquisedeque
aparece subitamente em Gênesis 14, sem
genealc^ia e sem menção de sua morte,
assim também Cristo, na verdade, não
teve princípio e não terá fim. O autor do
livro de Hebreus também ficara impres­
sionado com a independência desta nar­
220
rativa, em relação ao restante de Gênesis!
Qual era a natureza do Deus de Mel-
quisedeque, chamado de Deus Altíssimo
(’El Elyon)? Ele era semelhante, quanto
à natureza, ao Deus de Abrão, pois
ambos os homens haviam procedido de
antecedentes amorreus. De fato, no texto
hebraico, Abrão identifica ’El Elyon
como Yahweh (o Senhor), seu Deus,
no v. 22. A LXX não apresenta esta
identificação, provavelmente porque
os tradutores acharam este conceito
difícil demais, e o diluíram. Ele está
dizendo principalmente ao rei de Sodo-
ma: “Melquisedeque chama o Deus dele
de ’El Elyon, eu chamo o meu de Yahweh,
mas adoramos o mesmo Deus.” Esta
declaração a respeito de um Deus cana-
neu não tem paralelo no Velho Testa­
mento e dá testemunho do tipo peculiar
de fé que Abrão reconheceu em Melqui­
sedeque, que certamente devia com­
partilhar da tradição dos ancestrais de
Abrão, como o faziam Labão e sua famí­
lia (cf. 31:53).
O encontro pacífico entre Abrão e o
rei-sacerdote coloca-se em agudo con­
traste com o havido entre ele e o rei de
Sodoma. Para um, ele respeitosamente
deu o seu dízimo; do outro, ele não quis
pegar nem um cordão. O homem de fé
recusou-se a transigir diante dos presen­
tes de um rei tão ímpio. Mesmo antes
que a oferta fosse feita a ele, a sua
decisão já havia sido tomada (v. 22).
Escolhas assim difíceis são mais bem
feitas quando elas mereceram antecipa­
damente a devida consideração. O que
parecia uma oferta generosa era, na
verdade, um estratagema desesperado.
O fato de que Abrão dera o dízimo dos
despojos levara o rei de Sodoma a pensar
que ele estava reivindicando tudo o que
havia capturado. A sua sugestão era uma
tentativa para obter algo para si.
A recusa de Abrão, de reter qualquer
propriedade do rei de Sodoma, coloca-se
também em agudo contraste em relação
à sua aceitação irrestrita dos presentes
anteriormente feitos por Faraó. Esta
mudança de atitude devia-se, certa­
mente, a vários fatores: (1) a má repu­
tação do rei de Sodoma; (2) o fato de
que Abrão já estava rico; (3) o fato de
que ele aprendera, com a experiência no
Egito, a confiar mais em Deus, com
respeito ao seu futuro. A sua sugestão,
quanto aos quinhões de seus confedera­
dos, revela como ele compreendia a
diferença entre eles e ele próprio. Eles
precisavam de seu quinhão, e o haviam
ganho em uma causa que não era deles.
6. O Pacto com Abrão (15:1-21)
Muitos eruditos descobrem, neste
capítulo, a primeira evidência da pre­
sença de uma fonte do Pentateuco até
então não aparente em Gênesis: O estra­
to Israelita do Norte. Há evidências
claras de que estão presentes, aqui, duas
fontes diferentes. Nos versículos 1 a 6,
a ação se desenvolve à noite (Abrão pode
ver as estrelas), enquanto nos versículos
7 e ss. é durante o dia. Os versículos
2 e 3 contêm duas formas diferentes da
mesma declaração, talvez indicando
edições diferentes das tradições antigas.
Nenhum desses grupos de materiais pode
ser atribuído à fonte Sacerdotal, e os
versículos 7 e ss. são claramente da fonte
Judia. O segundo tipo de tradição tem
as características da fonte Nortista. Em­
bora não esteja presente ’Elohim, o nome
divino que caracteriza esse estrato,
outras marcas distintivas aparecem. Os
habitantes da Palestina são chamados de
“amorreus” (v. 16), termo preferido no
Norte. A forma profética do material,
nos versículos 1 a 6, é incomum no
Hexateuco. A expressão “veio a palavra
do Senhor” (v. 1 e 4) não ocorre em
outros textos dos primeiros sete livros do
Velho Testamento, mas é comum nos
profetas. A fonte Israelita do Norte não
foi completada, provavelmente, antes do
oitavo século a.C., quando deve ter-se
tornado comum a terminologia profética.
Exceto nas narrativas acerca de Balaão,
221
de material um tanto independente
(Núm. 24:4,6), não há outra referência
a uma visão profética no Hexateuco.
Embora haja alguma evidência da
presença de pelo menos duas fontes no
capítulo 15, elas foram interligadas tão
bem, que não é possível desemaranhá-
las agora, de forma a diferenciar uma da
outra.
1) A Fé de Abrão (15:1-6)
1 Depois destas coisas veio a p alav ra do
Senhor a A brão num a visão, dizendo: Não
tem as, A brão; eu sou o teu escudo, o teu
galardão se rá grandíssim o. 2 E ntão disse
A brão: Ó Senhor D eus, que m e d arás, visto
que m orro sem filhos, e o herdeiro de m inha
casa é o dam asceno E liézer? 3 D isse m ais
A brão: A m im não m e tens dado filhos; eis
que um nascido na m inha casa será o m eu
herdeiro. 4 Ao que lhe veio a p alav ra do
Senhor, dizendo: E ste não será o teu h e r­
deiro; m as aquele que sa ir das tu as e n tra ­
nhas, esse será o teu herdeiro. 5 então o
levou p a ra fora, e disse: O lha ag o ra p a ra o
céu, e conta as estrelas, se as podes contar;
e acrescentou-lhe: A ssim será a tu a des­
cendência. 6 E creu A brão no Senhor, e o
Senhor im putou-lhe isto como justiça.
Não temas, Abrão. Aparentemente,
o patriarca estava ficando um tanto
ansioso a respeito do cumprimento das
promessas divinas. Porque este versícu­
lo, segundo se pensa, dá início à fonte
Israelita do Norte, alguns eruditos insis­
tem que ele forma um paralelo com o
material da fonte Judia de 12:1, que é o
relato Nortista da chamada de Abrão.
Contudo, esta crise de fé aconteceu bem
mais tarde, na carreira de Abrão, pois ele
tivera tempo de se preocupar a respeito
do cumprimento da promessa (morro
sem filhos).
A referência a Deus como escudo é um
termo litúrgico encontrado nos Salmos
(3:3; 28:7; 33:20). Esta palavra ocorre
em Gênesis apenas nesta passagem.
Deus podia estar dizendo: “Eu sou teu
escudo tanto quanto galardão”, como
Lutero o traduziu, mas o infinitivo
absoluto usado aqui (traduzido como
“galardão”) é mais naturalmente um
predicado, como na versão da IBB e
RSV. Galardão, na literatura posterior,
significa o dom gratuito de Deus (Is.
40:10; 62:11; Jer. 31:16).
O herdeiro de minha casa. O hebraico,
aqui, é estranho, dizendo literalmente:
“... o filho da propriedade de minha casa
é Damasco Eliézer.” A palavra tradu­
zida como propriedade (meshek) é, apa­
rentemente, usada, por amor da rima,
com Dammesek (Damasco). Contudo,
não há conexão sintática entre Damme­
sek e Eliézer; ambos são substantivos
independentes. É possível que haja,
aqui, alguma corrupção textual, mas o
sentido é esclarecido pelo versículo 3.
Um nascido na minha casa. Sabemos
que tais artifícios eram comuns no Ori­
ente Próximo antigo, embota o Velho
Testamento não o menciofte em ne­
nhuma outra parte (Speiser).
Conta as estrelas. Este é um interes­
sante contraste com a referência encon­
trada na fonte Judia, para contar o pó,
em Gênesis 13:16. Ali, a atenção foi
chamada para a promessa da terra; aqui,
para as ilimitadas perspectivas do futuro.
E creu Abrão no Senhor. O verbo
traduzido como “creu” é aman, do qual
deriva a nossa palavra “amém”. A raiz
simples significa “ser forte”, a causativa
“apoiar-se em”, “confiar na força de”.
Uma tradução mais exata seria: “E ele se
apoiou (confiou) no Senhor”, ou uma
verdadeira paráfrase: “E ele levou o
Senhor ao pé da letra.” Também deve ser
notado que o verbo é um passado per­
feito, com uma conjunção simples. O
sentido é: “E ele estava se apoiando no
Senhor.” Abrão estivera todo o tempo
confiando em Deus. Agora ele precisava
de uma palavra de reafirmação.
E o Senhor imputou-lhe isto como
justiça. Literalmente: “Ele considerou
isto como justiça para ele.” Justiça, no
Velho Testamento, não é uma norma
absoluta, mas uma relação dinâmica
entre o homem e Deus, que torna o ho­
mem aceitável a Deus. Imputação era
uma função dos sacerdotes (Lev. 7:18;
222
17:4; Núm. 18:27). Aqui, o procedi­
mento não era dirigido por um oficial
eclesiástico, mas pelo próprio Deus. A
base para a declaração de justiça não era
nada que Abrão tivesse produzido ou
feito, tal como um sacerdote teria exi­
gido. A sua firme aceitação da palavra de
Deus era a única base de sua justificação.
Todavia, como 12:1 ensina, a sua acei­
tação incluía um estilo de vida coerente
com as suas convicções.
Esta declaração da justiça de Abrão
(a satisfação dos requisitos de Deus para
se ter comunhão com ele) esclarece para
sempre o.papel da fé e das obras. O que
Deus deseja, antes de tudo, é confiança
nele. Se um homem é aberto e respon-
sivo para com o Criador, Deus pode fazer
o resto, ao trabalhar com ele em um
relacionamento de amor e confiança.
2) Prevendo o Pacto (15:7-11)
7 Disse-lhe m a is: E u sou o Senhor, que te
tirei de U r dos C aldeus, p a ra te d a r esta
te rra em herança. 8 Ao que lhe perguntou
A brão: Ó Senhor D eus, com o saberei que
hei de herdá-la? 9 Respondeu-lhe: Tom a-m e
um a novilha de trê s anos, u m a cab ra de três
anos, um carneiro de três anos, u m a rola e
um pom binho. 10 E le, pois, lhe trouxe todos
estes anim ais, partiu-os pelo m elo, e pôs
cada p arte deles em frente da ou tra; m as as
aves não p artiu. 11 E as aves de rap in a
desciam sobre os cad áv eres; A brão, porém ,
as enxotava.
Eu sou o Senhor. Isto é freqüentemen­
te chamado de “auto-kérigma”, a auto-
proclamação de Deus, pois é a declara­
ção feita por Deus acerca de sua natu­
reza. Esta frase é absoluta. Deus é o que
ele é, conhecido do homem apenas das
maneiras pelas quais ele escolhe revelar-
se. As qualidades específicas de Deus,
dentro dessas fórmulas auto-revelatórias,
são costumeiramente declaradas por
uma cláusula relativa, que começa com
“quem”, como aqui. Essas cláusulas
descritivas são parciais, pois excluem
todas as outras. A forma mais plena de
se descrever Deus, portanto, é a simples:
“Eu sou o Senhor.”
Ê significativo que, depois que a con­
fiança de Abrão nas promessas de Deus
foi declarada de forma tal que ele se
tomou aceitável para com Deus, ele
ainda precisava de uma ulterior reafir­
mação da fidelidade de Deus. É ainda
mais surpreendente que Deus fosse tão
paciente com ele. Isto ilustra o fato
de que Deus é amigo de uma pessoa
que duvida honestamente, alguém que
o ama e confia nele, mas ainda tem a
tendência de falsear o pé. Desta vez,
Deus não lhe daria apenas uma promes­
sa, a sua palavra, mas faria um contrato
formal com ele.
Abrão recebeu ordens para preparar
animais sacrificiais, como prelúdio de
uma cerimônia em que se faria o pacto.
Esse ritual era conhecido na época de
Abrão. Ele é descrito em Jeremias 34:
17-19. Parece que o significado era que
quando as pessoas que celebravam o
pacto caminhavam entre as carcaças
dissecadas, estavam declarando sole­
nemente um destino semelhante para si
próprios, se quebrassem o acordo.
Mas as aves não partiu, provavelmen­
te, à luz de Levítico 1:17. Devido ao seu
pequeno tamanho, os dois pássaros
foram considerados como uma unidade e
separados pelo espaço, e não pela faca,
ao serem colocados opostos um ao outro.
Abrão, porém, as enxotava. Isto simbo­
liza as dúvidas de Abrão e, mais tarde,
de Israel, durante a opressão egípcia.
3) As Promessas do Pacto(15:12-16)
12 O ra, ao pôr-do-sol, caiu um profundo
sono sobre A brão; e eis que lhe sobrevieram
grande pavor e densas trev as. 13 E ntão
disse o Senhor a A brão: Sabe com certeza
que a tu a descendência se rá p ereg rin a em
te rra alheia, e será reduzida a escravidão,
e se rá afligida por quatrocentos anos; 14
sabe tam bém que eu ju lg arei a nação à qual
ela tem de serv ir; e depois sa irá com m uitos
bens. 15 Tu, porém , irá s em paz p a ra teus
p ais; em boa velhice serás sepultado. 16 N a
q u arta geração, porém , voltarão p a ra cá;
porque a m edida da iniqüidade dos am or-
reus não está ainda cheia.
223
Caiu um profundo sono (cf. 2:21). Este
fenômeno marcou outra ocasião momen­
tosa. Desta vez, porém, havia os terríveis
presságios, antevendo os anos negros da
opressão egípcia.
Os versículos 13 a 16 são geralmente
considerados como uma interpretação
posterior do acontecimento, embora eles
pudessem bem ser da fonte Israelita do
Norte. Será que esta passagem represen­
ta uma declaração, na verdade, feita a
Abrão antes da peregrinação no Egito,
ou é comentário feito segundo a perspec­
tiva de uma época posterior? Poderia ser
ambas as coisas. Abrão, certamente, foi
informado que a promessa teria o seu
cumprimento grandemente retardado.
Gerações posteriores aprenderam os de­
talhes, e devem ter preenchido a seqüên­
cia cronológica incipiente na palavra ori­
ginal.
E será afligida por quatrocentos anos.
Aqui está um número redondo. Em Êxo­
do 12:40, consta 430 anos/*) Irás em paz
para teus pais. Esta frase é usada mais
freqüentemente a respeito do sepulta-
mento no cemitério familiar, mas pode
referir-se à unidade familiar no próprio
Seol (cf. Deut. 32:50). Aqui, obviamen­
te, ela tem este significado, pois Abraão
foi sepultado em Hebrom, e não na Babi­
lônia. O fato de que as famílias eram
reunidas no Seol propiciava pouco con­
solo para os hebreus, pois se pensava que
a existência naquele lugar era umbrosa,
carecendo de consciência significativa
(cf. Jó 10:21,22;3:13).
Na quarta geração. Alguns expositores
relacionam esta frase com Êxodo 6:16-
20, onde há quatro gerações, de Jacó a
Moisés, e enfatizam a aparente contradi­
ção entre estas narrativas, dizendo que
uma geração não pode ser de cem anos, e
(») TíOTA DO EDITOR: Não há contradição entre
estas duas passagens, pois o texto em pauta
fala de 400 anos em que a descendência de
Abrão será “afligida”, enquanto Êxodo 12:40
afirma que os filhos de Israel “moraram” no
Egito 430 anos. Obviamente durante 30 anos
não foram afligidos.
que a genealogia de Exodo 6 é completa.
Todavia, a palavra traduzida como “ge­
ração” (dor) é um termo que geralmente
significa duração de tempo indefinido.
A narrativa de Êxocte pode ser uma abre­
viatura, mencionando apenas os nomes
mais importantes. Speiser (p. 118) está
correto, quando diz: “Portanto, não se
podem tirar quaisquer conclusões desta
passagem em relação à data do Êxodo.”
Porque a medida da iniqüidade dos
amorreus não está ainda cheia. Deus é
justo em todos os seus caminhos. Ele não
permitirá que os hebreus desapossem os
cananeus enquanto estes não se tiverem
desqualificado completamente como pos­
suidores de sua terra. A iniqüidade men­
cionada é a corrupção sexual dos habi­
tantes da Palestina (cf. Lev. 18:19-28).
4) Confirmando o Pacto (15:17-21)
17 Quando o sol já estav a posto, e e ra
escuro, eis u m fogo fum egante e um a tocha
de fogo, que p assaram por entre aquelas
m etades. 18 N aquele m esm o dia fez o Se­
nhor um pacto com A brão, dizendo: À tu a
descendência tenho dado esta te rra , desde o
rio do Egito até o grande rio E u fra te s;
19 e o queneu, o quenizeu, o cadm oneu,
20 o heteu, o perizeu, os refains, 21 o am or-
reu, o cananeu, o girgaseu e o jebuseu.
Um fogo fumegante. Este era, prova­
velmente, um vaso de barro portátil,
como os que ainda são usados no Orien­
te. Tinham cerca de um metro de altura,
e a forma de um cone truncado. Podia
ser também um incensário, como os que
eram usados na adoração naquela época.
A tocha de fogo era o fogo que saía da
boca do vaso ou a tocha usada com os
incensários antigos. Esta é uma cena
inesquecível, diferente de qualquer outra
mencionada no Velho Testamento. Spei­
ser (p. 113) nota que descrições seme­
lhantes foram feitas a respéito de encan­
tamentos mágicos na Acádia: “Enviei
repetidamente contra você um forno ‘pre­
parado’ (isto é, aceso), um fogo que
pegou.” Pode ser que este processo fosse
usado pelos que praticavam mágica na
224
Palestina. Assim, Deus estava enviando a
sua palavra em uma forma especialmen­
te significativa para a geração de Abrão.
Contudo, na referência de Speiser, a
linguagem é figurada. Aqui, o vaso ou
incensário é que passa por entre as par­
tes. Por que deveria ser usado um forno
(ou vaso)? Era semelhante ao que Sara
usava todos os dias para fazer os seus
assados. Que símbolo melhor podia o
Senhor usar para retratar a sua fideli­
dade às gerações futuras do que o objeto
mais familiar de todas as casas? O in­
censário enfatizaria a solenidade da oca­
sião.
O aspecto característico de todo o epi­
sódio é que só o Senhor garante o pacto.
Geralmente, as duas partes de um pacto
andavam entre os pedaços. Aqui, não foi
nenhuma das duas partes: só o símbolo
escolhido da presença de Yahweh. A
responsabilidade de Abrão, quanto ao
sucesso futuro do pacto, era aceitá-lo.
Ele estava garantido para sempre somen­
te por Deus. É este tipo de pacto que Je­
remias prevê que um dia seria celebrado
com todo o Israel (Jer. 31:31 e ss.) e que o
Novo Testamento afirma que foi feito em
Cristo (cf. Heb. 8:6 e ss.)
Desde o rio do Egito. Esta expressão só
pode dar a entender o Nilo. Geralmente,
o limite meridional da Terra Prometida
se localizava no wadi ou regato, agora
chamado de Wadi el-Arish (I Reis 8:65).
A palavra hebraica traduzida como rio
tem as consoantes nhr. As consoantes da
palavra hebraica que significa regato são
nhl. Pode ser que haja alguma confusão
textual aqui.
A extensão da terra mencionada aqui é
a que chegou a ser completamente con­
quistada durante o reinado de Salomão
(I Reis 4:21). A maior parte dos povos
relacionados aqui é encontrada nas listas
do capítulo 10, mas deve notar-se que os
queneus e quenizeus foram absorvidos
pela tribo de Judá. Cadmoneu significa
oriental.
7. Abrão eAgar (16:1-16)
Esta narrativa tem notáveis paralelos
em Gênesis 21:8-21, pois ambas as histó­
rias descrevem Agar em conflito com
Sarai. Em cada narrativa Agar vai para o
deserto, e um anjo a conforta, ao encon­
trá-la perto de um poço, e promete a
bênção de Deus sobre Ismael. Há tam­
bém diferenças impressionantes. No
capítulo 16, Agar está grávida; no
capítulo 21, Ismael é um rapaz feito.
De acordo com 16:16, Ismael nasceu
quando Abrão tinha 86 anos de idade.
Quando Isaque nasceu, Abrão tinha cem
anos de idade. Ao tempo do conflito
registrado no capítulo 21, Isaque havia
sido desmamado. Este fato normalmente
ocorria aos três anos de idade, mais ou
menos. Por esta cronologia, Ismael devia
ter seus 17 anos de idade.
No capítulo 16, Abrão entrega Agar à
ira de Sarai, enquanto, no capítulo 21,
ele a deixa ir-se só depois de ser instruído
por Deus a fazê-lo e depois de ter dado a
ela as provisões necessárias. Neste capí­
tulo, Agar foge de Abrão e Sarai; no
outro, ela é enviada para o exílio. O
nome de Deus, no capítulo 16, é Yahweh
(Senhor), porém é Elohim (Deus) no ca­
pítulo 21. No capítulo 16, o mensageiro
divino é chamado de anjo do Senhor; no
outro, anjo de Deus. O anjo do Senhor se
encontra com Agar perto de um poço,
enquanto o anjo de Deus fala a ela dos
céus.
Aparentemente, temos um exemplo de
relato da fonte Judia, no capítulo 16, e de
relato da fonte Israelita do Norte, no
capítulo 21. Esta narrativa tem a tendên­
cia de retratar Deus como mais transcen­
dente (o anjo fala dos céus) e tem muito
maior consciência dos problemas éticos
das narrativas.
Uma identificação das duas narrativas
não leva, necessariamente, à conclusão
de que elas são meramente edições dife­
rentes da mesma história. O capítulo 21
se interessa claramente por um aconteci­
mento posterior na vida de Agar. A se-
225
melhança de forma da narrativa não deve
obscurecer o testemunho bíblico de uma
distinção entre os dois acontecimentos.
1) Sarai e Agar (16:1-6)
1 O ra, S arai, m ulher de A brão, não lhe
dava filhos. T inha ele u m a serv a egípcia,
que se cham ava A gar. 2 D isse S arai a
A brão: E is que o Senhor m e tem im pedido
de te r filhos; tom a, pois, a m inha serv a;
porventura terei filhos por m eio dela. E ou­
viu A brão a voz de S arai. 3 A ssim Sarai,
m ulher de A brão, tom ou a A gar a egípcia,
sua serv a, e a deu por m ulher a A brão seu
m arido, depois de A brão te r habitado dez
anos n a te rra de C anaã. 4 E ele conheceu a
A gar, e ela concebeu; e vendo ela que con­
cebera, foi sua senhora desprezada aos seus
olhos. 5 E ntão disse S arai a A brão: Sobre
ti seja a afronta que m e é dirigida a m im ;
pus a m inha serv a em teu reg aço ; vendo ela
agora que concebeu, sou desprezada aos
seus olhos; o Senhor julgue en tre m im e ti.
6 Ao que disse A brão a S a ra i: E is que tu a
serv a está nas tu a s m ão s; faze-lhe como
bem te p arecer. E S arai m altratou-a, e ela
fugiu de su a face.
Depois da imponente ratificação do
pacto, feito no capítulo 15, a vida de
Abrão continuou no mesmo jeito de an­
tes. Ainda não havia herdeiro para ele.
Agora vemos que Sarai estava começan­
do a ficar ansiosa, e com boas razões.
Deus ainda não dissera que o herdeiro
seria, necessariamente, seu filho. Talvez
Abrão tomasse outra esposa, que lhe
desse um filho, e deixasse Sarai em des­
graça. Por isso, ela sugeriu o que agora
sabemos que foi um arranjo perfeitamen­
te legal. A sua serva seria elevada à con­
dição de concubina, mas o filho que ela
tivesse pertenceria a Sarai.
Abrão obedientemente seguiu o conse­
lho de Sarai, pois esse era um costume
social aceitável, e a coisa sensata a ser
feita. Talvez Deus estivesse esperando
que eles tomassem alguma iniciativa
quanto a esse assunto. Esta foi, provavel­
mente, a maneira até então oculta de
cumprir a promessa. Não há, aqui, ne­
nhuma indicação de qualquer interesse
romântico em Agar, da parte de Abrão.
Foi um casamento de conveniência.
O erro foi Abrão não ter procurado
saber qual era a vontade de Deus, nesse
assunto. De fato, pode ser que ele tives­
se receio de perguntar. É muito difícil
que ele estivesse preparado para outra
longa espera. Muitas vezes os atos que
são legais e sensatos não são a vontade
de Deus para a vida dos homens. A ação
precipitada de Abrão foi executada mui­
to antes do tempo específico, determina­
do por Deus, para o nascimento de Isa-
que, através de Sarai (cap. 18).
Os mais cuidadosos planos dos ho­
mens saem errados. Agar concebeu,
mas, em vez de considerar Sarai como a
mãe legítima, fê-la saber que agora se
considerava como superior a Sarai. Esta,
profundamente ferida, levou o assunto
ao conhecimento de Abrão, que era o
único que podia resolvê-lo.
Ela não estava culpando o seu esposo
por um casamento que ela mesma havia
sugerido, mas chamou a sua atenção
para a responsabilidade que tinha, de
corrigir aquela situação inesperadamen­
te má. Ela chegou a apelar a Deus como
testemunha de que Abrão precisava cum­
prir o seu dever de marido. A lei antiga
declarava especificamente que, se uma
escrava promovida a concubina ou espo­
sa não conseguisse manter-se na nova
posição com o devido decoro, devia vol­
tar ao seu estado anterior.
Ao entregar Agar a Sarai para o que
ela desejasse lhe fazer, Abrão demons­
trou preocupação demasiadamente pe­
quena pela serva, mas a própria Agar é
que era a culpada. Que homem tem a
sabedoria necessária para colocar-se en­
tre duas mulheres ciumentas uma da ou­
tra? Pode-se dar a Abrão, aqui, o cré­
dito de ter tido sabedoria em uma situa­
ção difícil, mas também o débito de falta
de interesse pela escrava.
O tratamento severo que Sarai admi­
nistrou provavelmente foi castigo físico,
mas consistiu de tarefas subalternas ex­
cessivamente numerosas e hostilização
geral. Certamente, este episódio não
226
pode ser lançado ao crédito de Sarai, mas
na época pareceu-lhe a coisa lógica a
fazer. Aparentemente, funcionou em
parte, pois, quando Agar voltou a Sarai,
essa guerra aberta não recomeçou. Ela,
evidentemente, foi substituída por uma
guerra fria, como os acontecimentos pos­
teriores revelam.
2) Promessa Divina a Agar (16:7-16)
7 E ntão o anjo do Senhor, achando-a junto
a um a fonte no deserto, a fonte que está no
cam inho de Sur, 8 perguntou-lhe: A gar, se r­
va de S arai, donde vieste, e p a ra onde vais?
R espondeu ela: D a presença de Sarai, m i­
nha senhora, vou fugindo. 9 D isse-lhe o anjo
do Senhor: Torna-te p a ra tu a senhora, e
hum ilha-te debaixo das suas m ãos. 10 Disse-
lhe m ais o anjo do Senhor: M ultiplicarei
sobrem aneira a tu a descendência, de m odo
que não será contada, por num erosa que
será. 11 Disse-lhe ainda o anjo do S enhor:
E is que concebeste, e te rá s um filho, a quem
ch am arás Ism ael; porquanto o Senhor ou­
viu a tua aflição. 12 E le será como um ju ­
m ento selvagem entre os hom ens; a sua
m ão será contra todos, e a m ão de todos
contra ele; e h ab itará diante d a face de
todos os seus irm ãos. 13 E ela cham ou o
nom e do Senhor, que com ela falava, El-
Rói; pois disse: N ão tenho eu tam bém olha­
do neste lu g ar p a ra aquele que m e vê?
14 Pelo que se cham ou aquele poço B eer-
Laai-Rói; ele está entre C ades e B erede.
15 E A gar deu um filho a A brão; e A brão
pôs o nom e de Ism ael no seu filho que tiv era
de A gar. 16 O ra, tinha A brão oitenta e seis
anos, quando A gar lhe deu Ism ael.
O aqjo do Senhor aparece aqui pela
primeira vez no Velho Testamento. A pa­
lavra hebraica mal’ak significa mensa­
geiro de qualquer sorte, humano ou di­
vino. A grega angelos tem o mesmo
significado. A latina angelus, na Vulga-
ta, foi o primeiro termo fixo para se
designar seres celestiais. Seres celestiais
intermediários, que operam entre Deus e
os homens, não eram comuns no concei­
to do Israel antigo a respeito de Deus,
pois o próprio Senhor era ativo na his­
tória em todos os lugares. O aiyo do
Senhor, todavia, é esse intermediário em
algumas passagens do Velho Testamen­
to. Exceto para os inimigos de Deus, ele
nunca é um ser temível, mas sempre
beneficente. Ele é o instrumento dos atos
graciosos de Deus em favor de Israel
(cf. Êx. 14:19; 23:20; Núm. 22:22; I Reis
19:7; II Reis 19:35). Em Gênesis, toda­
via, o anjo do Senhor não é apenas o
porta-voz de Deus, mas também não há
nenhuma diferença entre ele e o próprio
Senhor. Quando fala, ele é tanto um anjo
quanto o Senhor (cf. 16:10,13; 21:17,19;
22:11). Ele é o próprio Deus aparecendo
em forma humana, de maneira que os
homens possam percebê-lo. Neste senti­
do, ele tem “conspícuas qualidades cris-
tológicas... Ele é um tipo ou ‘sombra’ de
Jesus Cristo” (von Rad, p. 189). Isto não
significa que ele é Jesus Cristo pré-encar-
nado, mas que a manifestação temporá­
ria de Deus em forma humana, no Velho
Testamento, aponta para a encarnação
de Cristo.
Agar se encontra com um anjo perto
de uma fonte que ficava no caminho de
Sur. Não sabemos qual seja a localiza­
ção exata de Sur, mas ficava perto da
fronteira egípcia (cf. cap. 20; 25:18).
Ela, obviamente, estava para atravessar
a fronteira e entrar em sua terra natal.
As duas perguntas que lhe são feitas,
aqui, estão no âmago da existência hu­
mana: (1) De onde você está vindo e
(2) para onde está indo? A resposta à
primeira pergunta devia afetar a manei­
ra como ela compreendia a segunda.
Visto que ela era escrava de Sarai, o que
estava fazendo, dirigindo-se ao Egito?
Quando os homens tentam determinar
quem são e a direção futura de suas vidas,
não podem ignorar as suas origens. O
fato de Agar se divorciar do passado, ao
enfrentar o futuro, era o mesmo que
deixar de cumprir o seu destino. Ela
devia voltar à sua senhora, e encontrar,
naquele relacionamento, o seu lugar na
História.
O Senhor ouviu a tua aflição. O subs­
tantivo vem da mesma raiz de maltra-
tou-a (v. 6). Portanto, esta é uma refe­
227
rência não à sua tribulação presente, no
deserto, mas aos maus-tratos infligidos a
ela por Sarai. Esta passagem declara, de
maneira insofismável, que Deus cuida da
situação dos desprivilegiados, até mesmo
de uma indefesa escrava do Egito. Não é
de se admirar que ela tenha dado, ao
Deus que a encontrou perto da fonte, o
nome de aquele que me vê (heb., ’El roi),
pois agora sabia que, afinal de contas,
não se encontrava abandonada. A seme­
lhança entre esta passagem e Isaías 7:14 é
notável. Ali, ‘almah também designa a
criança, embora o homem geralmente
executasse este ato. Jacó podia dominar
Raquel (Gên. 35:18). O fato de a mulher
dar o nome ao filho indica algo inusitado
no relacionamento entre homem e mu­
lher naquela época remota. Em Isaias
7:14, este é um mistério que só pode ser
esclarecido em Cristo.
Ele será como um jumento selvagem
entre os homens. Esta palavra pode signi­
ficar um jumento selvagem ou um cavalo
selvagem (Speiser; cf. Jó 11:12; Gên.
49:11,14). Ele seria um beduíno nômade
típico, não curvando a cabeça a homem
algum, sendo livre até das limitações das
lealdades familiares. Ele iria habitar di­
ante da face de todos os seus irmãos. Esta
expressão geralmente significa “a leste
de”, e, literalmente, “diante da face de”
(cf. I Reis 11:7). Aqui, contudo, ela é usa­
da, provavelmente, no sentido de “contra
a face de”, “cara a cara” (cf. Jó 1:11; 6:
28; 21:31). Um homem assim selvagem,
independente, seria uma fonte de orgulho
para a rebelde Agar. O que ela, como
escrava de Sarai, não tinha a liberdade
de fazer, o seu filho realizaria. A des­
crição dos ismaelitas não deve ser consi­
derada como depreciadora, pois reflete
uma indisfarçável admiração por esses
temerários xeques do deserto.
Não tenho eu também olhado neste lu­
gar para aquele que me vê? Este é o signi­
ficado literal do original hebraico. Signi­
fica que Agar havia experimentado duas
coisas, no encontro com o anjo. Desco­
brira que, embora pensasse que ninguém
se importava com ela, Deus estava cui­
dando dela. Este fato, por si só, foi re­
confortante. Ela não percebera apenas o
providencial interesse de Deus por ela,
como o têm feito as pessoas de fé em
todas as épocas, mas havia “olhado”
para ele (heb. ’achare) e reconhecido
que, na verdade, era Deus que falava
com ela.
Outro aspecto da declaração de Agar é a
sua surpresa pelo fato de aquele encontro
com Deus ter ocorrido não em algum
santuário religioso nem na tenda levanta­
da por Abrão, mas no deserto vazio:
“Não tenho eu também olhado...?” Da
mesma forma, Jesus disse, à mulher sa-
maritana, que Deus pode ser adorado
onde quer que corações estejam abertos
para ele.
O nome que Agar deu ao poço significa,
literalmente, “o poço do vivente que vê” .
Desde então, ela jamais duvidaria que
Deus cuidava dela e estava vivo para
ajudá-la. A serva egípcia logo afastou-se
da torrente central dos eventos bíblicos,
mas de fato ela estava no curso certo em
sua maneira de entender Deus.
Berede não nos é conhecido de forma
alguma, mas a menção de Cades (a 50
milhas ao sul de Berseba) indica a sua
localização aproximada no deserto.
Os versículos 15e 16 são geralmente de­
signados como parte da fonte Sacerdotal,
por causa de seus interesses genealógi­
cos. Tal raciocínio, contudo, pode estar
dando a questão como provada. Suspei­
ta-se que a outra fonte também tenha
interesse nestes assuntos. Não aparece
nenhuma outra marca da fonte Sacerdo­
tal. Aqui, somos informados que Abrão
deu ao filho de Agar o nome de Ismael,
como o anjo a havia instruído. Obvia­
mente, ela lhe contou por que havia volta­
do. A sua experiência certamente deve
ter melhorado os relacionamentos fami­
liares. Encontros com um Deus comum
ligavam, em uma nova comunidade de
228
interesses, pessoas que, de outra forma,
eram incompatíveis.
8. OPactodaCircuncisão(17:l-27)
Estecapítulo contémorelato Sacerdotal
do pacto com Abrão. Ele é paralelo do
quadro da fonte Judia do capítulo 15.
Ali, a ênfase era dada à fé de Abrão;
aqui, ela é colocada sobre a sua fideli­
dade. Ali, ele era chamado para crer na
palavra que Deus dera; aqui, precisa
iniciar o ritual da circuncisão. Ali, Deus
confirmara o pacto, enquanto aqui
Abrão sela-o com o seu ato de obediên­
cia. Ambas as ênfases são necessárias em
qualquer experiência religiosa sadia, pois
a fé válida precisa, certamente, manifes-
tar-se através de comportamento correto.
A circuncisão era comum entre os vizi­
nhos de Israel: os egípcios, edomitas,
amorreus e moabitas. Os filisteus não a
praticavam (II Sam. 1:20), e ela também
não era observada na Mesopotâmia. So­
mente Israel, contudo, executava esse
ritual em criancinhas. Os outros povos o
observavam quando os seus componentes
do sexo masculino alcançavam a puber­
dade. A observação de que Ismael tinha
treze anos de idade quando foi circunci­
dado (17:25) pode referir-se também à
prática comum dos ismaelitas na história
posterior. Os hebreus do sexo masculino
eram circuncidados quando recém-nas­
cidos, para simbolizar a sua entrada na
comunidade por ocasião do nascimento.
Pelo fato de a fonte Sacerdotal ter sido
completada, provavelmente, mais tarde
(c. 500 a.C.) e visto que a fonte anterior,
em Gênesis, não menciona a circuncisão,
alguns eruditos têm achado que o costu­
me generalizado entre osjudeus só come­
çou a ser praticado depois do exílio babi­
lónico. Contudo, o fato de que este ritual
ocorria entre os vizinhos de Israel e que
os filisteus eram proverbialmente “incir-
cuncisos” indicaria que este costume, de
fato, era tão velho quanto os patriarcas.
Embora não haja razão para se duvidar
de que Abraão foi quem deu início a este
ritual, é bem possível que gerações pos­
teriores o tenham reinterpretado, e que
ele veio a ter um significado espiritual
mais profundo em épocas posteriores.
Isto significaria que o escritor Sacerdotal
viu, na circuncisão, mais do que Abraão,
mas que o significado estava presente o
tempo todo.
Por outro lado, não há argumentos
convincentes de que os regulamentos re­
gistrados neste capítulo não se tenham
originado no período patriarcal. De fato,
tais regras deviam pertencer mais natu­
ralmente a um período anterior do que a
um posterior. Dificilmente se pode pen­
sar na circuncisão como um avanço para
uma religião mais amadurecida. Isto foi
realizado por aqueles que mais tarde
falaram da circuncisão do coração. Esta
figura de linguagem teria pequeno signi­
ficado, se a circuncisão física não fosse já
um costume comum em Israel (cf. Lev.
26:41; Deut. 10:16; Jer. 4:4; 9:25; Ez.
44:7).
1) BênçãosdoPacto(17:l-8)
1 Quando A brão tin h a noventa e nove
anos, apareceu-lhe o Senhor e lhe disse: E u
sou D eus Todo-Poderoso; anda em m inha
presença, e sê perfeito; 2 e firm arei o m eu
pacto contigo, e sobrem aneira te m ultipli­
carei. 3 Ao que A brão se prostrou com rosto
em te rra , e Deus falou-lhe, dizendo: 4 Q uan­
to a m im , eis que o m eu pacto é contigo, e
serás p ai de m u itas nações; 5 não m ais
serás cham ado A brão, m as A braão será o
teu n o m e; pois por p ai de m uitas nações te
hei posto; 6 far-te-ei frutificar sobrem anei­
ra , e de ti farei nações, e reis sairão de ti;
7 estabelecerei o m eu pacto contigo e com a
tu a descendência depois de ti em suas g era­
ções, com o pacto perpétuo, p a ra te ser por
Deus a ti e à tu a descendência depois de ti.
8 D ar-te-ei a ti e à tu a descendência depois
de ti a te rra de tu as peregrinações, toda a
te rra de C anaã, em perpétua possessão; e
serei o seu Deus.
O uso do título Deus Todo-Poderoso
consiste em paralelo a “Eu sou Yahweh”
do capítulo 15. Este fato é coerente com a
afirmação da fonte Sacerdotal em Êxodo
6:3: “Apareci a Abraão, a Isaque e a
229
Jacó, como o Deus Todo-Poderoso; mas
pelo meu nome Jeová, não lhes fui conhe­
cido.” Isto não significa que o nome
“o Senhor” não era usado em épocas
mais remotas, mas que ele não continha
o conteúdo de revelação dado a Moisés
no Egito. A fonte Sacerdotal não usa o
nome “Senhor” (Yahweh) antes de Êxo­
do 6:2. A fonte Judia fala de maneira
bem diferente, mas não se coloca em
contradição com ela. Aquela fonte popu­
lar simplesmente usa o nome que era
familiar para o povo de sua época. Por
exemplo, Israel, provavelmente, chama­
va Deus de Yahweh, mas os modernos
preferem o termo “o Senhor” (Adonai),
porque é mais agradável aos ouvidos.
O nome ’El Shaddai (Deus Todo-Pode-
roso) é misterioso. Albright tentou pes­
quisar as suas origens até uma palavra
acádia que significa montanha (Deus da
Montanha), mas este significado é duvi­
doso (cf. Speiser). A Septuaginta fre­
qüentemente o traduz por uma palavra
que significa Todo-Poderoso (mas não
aqui), e esta era a opinião dos rabis anti­
gos. Até que uma explicação melhor seja
apresentada, Deus Todo-Poderoso ainda
é preferível.
Anda em minha presença. Enoque (5:
24) e Noé (6:9) são mencionados como
pessoas que andaram com Deus. A des­
peito da fé de Abraão, a distância entre
Deus e o homem parecia maior do que
antes do dilúvio. Diz-se, em 17:22, que
Deus “subiu... de diante dele (de Abra­
ão)” . Ele viera visitá-lo temporariamen­
te, mas agora ia embora para o céu, dei­
xando Abraão a andar na presença dele
e a ser perfeito em sua maneira de viver.
Esta última palavra é tamim, e significa
completo, maduro. Não dá a entender
perfeição moral, porém devoção a Deus
de coração (cf. Deut. 18:13). Em 20:5,
Abimeleque usa uma forma dessa palavra
(tam), que a IBB traduz como sinceri­
dade ou “integridade". Literalmente, se­
ria “a integridade ou inteireza (sem mo­
tivações ulteriores) do meu coração” .
Abraão é desafiado a se dar ao serviço de
seu Deus sem reservas. O requisito mí­
nimo a este respeito será a circuncisão.
A resposta de Abraão à teofania foi sem
palavras. Ele caiu sobre a sua face, em
concordância silenciosa à soberana von­
tade de Deus. A resposta de Deus foi que
ele faria um pacto formal com ele, que
lhe garantiria uma multidão de descen­
dentes distintos. O seu nome seria mu­
dado de Abrão (“o pai é exaltado”) para
Abraão. Os eruditos discordam quanto
ao significado do novo nome. A fonte
Sacerdotal liga-o com pai e multidão,
conotação que o som dessa palavra cer­
tamente tem. Muitos comentaristas con­
sideram Abraão simplesmente como uma
forma alongada de Abrão (von Rad).
Mais importante do que o significado
desse nome é o fato de que ele recebeu
um novo nome. Isto significou o raiar de
uma nova era para a humanidade. Deus
estava estabelecendo um novo povo, e
Abraão seria o pai dele.
A maioria dos intérpretes associa as
nações e os reis do versículo 6 com os idu-
meus, ismaelitas e filhos de Quetura.
Von Rad, por outro lado, insiste que as
nações mencionadas neste contexto de­
viam estar dentro da comunidade do pac­
to; ele o considera como uma promessa
da conversão de nações gentílicas ao Deus
de Abraão.
Toda a terra de Canaã, em perpétua
possessão. A palavra traduzida como
perpétua é ‘olam, que provém da raiz
“estar escondido” . Portanto, o significa­
do literal é “tão longe quanto se possa
ver” ou “até o obscuro desconhecido” .
Não há palavra, no hebraico, para desig­
nar perpetuidade; ‘olam é mais bem tra­
duzida como perpétua.
2) O Rito da Circuncisão (17:9-14)
9 D isse m ais D eus a A braão: O ra, quanto
a ti, g u ard arás o m eu pacto, tu e a tu a
descendência depois de ti, nas suas g era­
ções. 10 E ste é o m eu pacto, que guardareis
entre m im e vós, e a tua descendência de-
230
pois de t i : todo v arão dentre vós será circun­
cidado. 11 Circuncidar-vos-eis na carne do
prepúcio; e isto se rá por sinal de pacto entre
m im e vós. À idade de oito dias, todo
v arão dentre vós será circuncidado, por to ­
das as vossas gerações, tanto o nascido em
casa como o com prado por dinheiro a qu al­
quer estrangeiro, que não for da tua linha­
gem . 13 Com efeito será circuncidado o n a s­
cido em tu a casa, e o com prado por teu d i­
nheiro; assim e sta rá o m eu pacto n a vossa
carne como pacto perpétuo. 14 M as o incir-
cunciso, que não se circuncidar n a carne do
prepúcio, essa alm a será extirp ad a do seu
povo; violou o m eu pacto.
Israel devia observar o pacto da circun­
cisão nas suas gerações. Isto é mais claro
do que ‘olam. Pode-se imaginar a dificul­
dade que os judeus cristãos primitivos
tiveram quando começaram a entrar gen­
tios na igreja. Os judaizantes nem sem­
pre eram perturbadores cegos. Alguns
deles eram bem sinceros. E o pacto
abraâmico? Todos os que estivessem
dentro dele deviam ser circuncidados.
Claro que a fé em Cristo era mais im­
portante, mas o fato de deixar de ser
circuncidado fazia com que a pessoa se
colocasse fora do povo de Deus. O pro­
blema teve que ser resolvido com base em
o novo ato de Deus em Cristo. Se Cor-
nélio pôde ser salvo sem ter sido circun­
cidado, qualquer outra pessoa podia sê-
lo. Era uma transição difícil, todavia,
para os que levavam as Escrituras judai­
cas a sério (cf. At. 15:1-29; 21:21; Rom.
2:25-4:12; I Cor. 7:19; Gál. 5:2-12;
6:12-16).
Será por sinal de pacto. A circuncisão
não era um fim em si mesma. Era um
sinal da devoção a Deus de todo o cora­
ção, que devia caracterizar o seu povo.
O cuidado deste em observar esse rito o
encorajaria a observar os assuntos mais
ponderosos do pacto. Todavia, negligen­
ciar este ponto significava excomunhão
de Israel. Ser extirpado não significava
morte, mas exclusão da comunidade. Je­
sus sugere isto, não para os incircunci-
sos, mas para os irreconciliáveis (Mat.
18).
3) APromessadeumHerdeiro(17:15-21)
15 D isse D eus a A braão: Q uanto a Sarai,
tu a m ulher, não lhe ch am arás m ais Sarai,
porém S ara se rá o seu nom e. 16 Abençoá-la-
el, e tam bém dela te d arei um filho; sim ,
abençoá-la-ei, e ela será m ãe de nações;
reis de povos sairão dela. 17 Ao que se
prostrou A braão com o rosto em te rra , e riu-
se e disse no seu coração: A um hom em de
cem anos há de nascer um filho? D ará à luz
Sara, que tem noventa anos? 18 Depois disse
A braão a D eus: O xalá que viva Ism ael dian­
te de til 10 E D eus lhe respondeu: N a v e r­
dade, S ara, tu a m ulher, te d a rá á luz um
filho, e lhe ch am arás Isaq u e; com ele e sta ­
belecerei o m eu pacto como pacto perpétuo
p ara a sua descendência depois dele. 20 E
quanto a Ism ael, tam bém te tenho ouvido;
eis que o tenho abençoado, e fá-lo-ei frutifi­
car, e m ultiplicá-lo-ei grandissim am ente;
doze príncipes g erará, e dele farei um a
grande nação. 210 m eu pacto, porém , e sta ­
belecerei com Isaque, que S ara te d ará à luz
neste tem po determ inado, no ano vindouro.
Agora Sarai também recebe um novo
nome. Ambos os nomes aparentemente
significam a mesma coisa: princesa. Sa­
rai é a forma mais antiga desse nome, e
Sara, a mais comum. Na verdade, por­
tanto, era um nome novo, embora não
tivesse um novo significado. Original­
mente, era ela chamada de “princesa”;
agora realmente se tornaria princesa.
Pela primeira vez Deus declarou especifi­
camente que Sara seria a mãe do her­
deiro.
Diante deste anúncio, Abraão fez mais
do que questionar Deus; ele riu-se. Este
verbo é um jogo com a palavra Isaque,
que significa riso. Duas outras associa­
ções com este nome encontram-se em
Gênesis: Sara rindo diante da idéia de ter
um filho (18:12, fonte Judia) e outras
pessoas rindo de alegria com a chegada
do filho (21:6, fonte Israelita do Norte?).
Estas passagens não são conflitantes,
pois pode ser que todas estas reações
tenham ocorrido.
Alguns expositores traduzem “riu-se”
como “regozijou-se” e dizem que o riso
de Abraão foi de regozijo. A sua reação
foi, provavelmente, uma combinação de
231
crença e dúvida, sendo provada a sua
aceitação pelo fato de ele ter caído com o
rosto em terra. “Combinado com o gesto
patético de reverência, manifesta-se uma
risada quase horrível, mortalmente in­
tensa, não de mofa, mas trazendo bem
próximas a fé e a incredulidade” (von
Rad, p. 198).
Seguiu-se uma reação humana nor­
mal. Abraão sugeriu que Deus o poupas­
se de se envolver em tal paradoxo. Pa­
recia muito melhor edificar sobre o que
Abraão já possuía: o seu filho Ismael.
Depois de treze anos, o patriarca apren­
dera a amar muito o seu filho e a contar
com ele como seu verdadeiro herdeiro.
Deus não permitiu nenhuma vacilação, e
negou categoricamente esse recurso. De
fato Sara se tornaria mãe, e — que notí­
cias alegres! — seria dentro de um ano.
O acontecimento há muito esperado esta­
va próximo. Novamente, a fórmula de
nascimento foi usada, mas desta vez o
pai daria nome ao filho. O pacto que
estava sendo feito com Abraão seria
transferido para Isaque, na geração se­
guinte.
Estabelecerei o meu pacto. A forma
costumeira para esta declaração é “cor­
tar” um pacto. Embora a narrativa da
fonte Judia (cap. 10) tivesse a liberdade
de retratar Deus ratificando o seu pacto
em padrões culturais aceitos (bissecação
dos animais), a fonte Sacerdotal evita
fazer tal implicação. A confirmação da
intenção de Deus está somente em sua
palavra. Nenhum outro ato é necessário.
Desde então, Abrão e Sarai serão cha­
mados sempre de Abraão e Sara. Até
então, apenas os nomes anteriores ocor­
riam, mesmo em fontes que não a Sacer­
dotal, embora elas não registrassem a
mudança de nomes. Isto pode ser devido
à cuidadosa compilação dos outros ma­
teriais, feita pela escola Sacerdotal, e
seria uma evidência a mais de que este
grupo serviu como redator final do Pen-
tateuco.
22 Ao ac a b a r de falar com A braão, subiu
Deus de diante dele. 23 Logo tom ou A braão a
seu filho Ism ael, e a todos os nascidos na
sua casa e a todos os com prados por seu
dinheiro, todo varão en tre os da casa de
A braão, e lhes circuncidou a carn e do p re ­
púcio, naquele m esm o dia, como D eus lhe
o rdenara. 24 A braão tinha noventa e nove
anos, quando lhe foi circuncidada a carne
do prepúcio. 25 E Ism ael, seu filho, tinha
treze anos, quando lhe foi circuncidada a
carne do prepúcio. 26 No m esm o dia foram
circuncidados A braão e seu filho Ism ael.
27 E todos os hom ens d a sua casa, assim os
nascidos em casa, como os com prados por
dinheiro ao estrangeiro, foram circuncida­
dos com ele.
A referência ao fato de que Deus “su­
biu tem paralelo em 35:13. Em outras
passagens, ele fala do céu (21:17; 22:11).
O que esta declaração significa essencial­
mente é que Deus está além da terra, e
não pode, em termos de operação, ser
limitado a ela. Como Israel veio a verifi­
car, Deus é imanente em todo o Univer­
so (Sal. 139), mas está também além dele,
é maior do que a soma de suas partes,
visto que ele foi criado por ele.
Naquele mesmo dia. Esta expressão é
usada duas vezes (v. 23 e 26), para
mostrar o desejo de Abraão de obedecer,
mas também a sua determinação de que
nada de sua parte retardaria o cumpri­
mento da promessa. Este era um proce­
dimento perigoso e exigia considerável fé
da parte de Abraão. Visto que todos os
seus homens foram circuncidados no
mesmo dia, o clã ficou indefeso diante de
seus inimigos. Reminiscências desta ex­
periência devem ter dado, mais tarde,
aos filhos de Jacó, a idéia de seu estra­
tagema contra os siquemitas (34:13 e
ss.).
Só os machos foram circuncidados,
embora em algumas culturas se sabe ter
sido praticada também a circuncisão das
mulheres. Estas foram incjuídas no pacto
com base no princípio da solidariedade
da família.
4) A Confirmação de Abraão (17:22-27)
Este capítulo começa a narrativa da
fonte Judia, da destruição de Sodoma e
Gomorra, que continua no capítulo se­
guinte. Esta é uma das unidades mais
longas do livro de Gênesis e é caracteris­
ticamente antropomórfica e vívida. De
imediato, somos confrontados com uma
das passagens mais misteriosas do Velho
Testamento, e, por isso, uma das mais
disputadas. A igreja primitiva era da
opinião de que ela falava da Trindade,
visto que o Senhor aparece em três pes­
soas. Muitos eruditos modernos estão
convencidos de que uma exegese sadia
não chegará a esta conclusão, como o
demonstrará um exame mais detido des­
ta passagem. Contudo, dizer que ela não
descreve a Trindade não é dizer que ela
não tenha um peso ponderável no desen­
volvimento dessa doutrina.
1) Um Hospedeiro Ansioso (18:1-8)
1 Depois apareceu o Senhor a A braão ju n ­
to aos carvalhos de M anre, estando ele sen­
tado à p o rta da tenda, no m aior calor do dia.
2 Levantando A braão os olhos, olhou e eis
trê s hom ens de pé em frente dele. Quando os
viu, correu da p o rta da tenda ao seu encon­
tro, e prostrou-se em te rra , ã e disse: M eu
Senhor, se ag o ra tenho achado graça aos
teus olhos, rogo-te que não passes de teu
servo. 4 E ia, traga-se um pouco d ’água, e
lavai os pés e recostai-vos debaixo da árvo-
d e ; 5 e tra re i um bocado de p ã o ; refazei as
vossas forças, e depois p assareis adiante;
porquanto por isso chegastes até o vosso
servo. R esponderam -lhe: F aze assim como
disseste. 6 A braão, pois, apressou-se em
ir te r com S ara n a tenda, e disse-lhe: A m as­
sa depressa três m edidas de flor de farinha,
e faze bolos. 7 E m seguida correu ao gado,
apanhou um bezerro tenro e bom e deu-lhe
ao criado, que se apressou em prepará-lo.
8 E ntão tom ou queijo fresco, e leite, e o
bezerro que m an d ara p re p a ra r, e pôs tudo
diante deles, ficando em pé ao lado deles
debaixo da árvore, enquanto com iam .
Este capítulo começa dizendo que o
Senhor apareceu a Abraão no calor do
dia, quando estava sentado à porta de
sua tenda. Ao levantar os olhos, de re­
9. Abraão Ê Visitado por Deus (18:1-33) pente ali estavam três homens diante
dele. Ele dirigiu-se a um deles como meu
Senhor; a palavra hebraica usada é Ado-
nai, termo veterotestamentário usado ex­
clusivamente para Deus. Com vogais di­
ferentes, ele pode significar “meu se­
nhor”, título de respeito, que podia ser
usado em relação a outro homem. Con­
tudo, o Texto Massorético, ou recebido,
declara, insofismavelmente, que ele per­
cebeu imediatamente quem eram eles.
De fato, provavelmente ele estava orando
e esperando tal visita por muito tempo.
As outras versões antigas também con­
firmam o texto tradicional. Os intérpre­
tes modernos o emendam, fazendo figu­
rar nele “meu senhor”, porque acham
que os antigos haviam interpretado na
saudação o que Abraão percebeu apenas
depois de algum tempo de conversa.
Como é que ele podia saber que era
Deus?
Sem se considerar a base para que ele
os reconhecesse, coisa que o escritor não
discute, é óbvio que Abraão sabia quem
eram. Ele não apenas chamou um dos
homens de Adonai, como também os
seus esforços frenéticos para acomodar
os visitantes inesperados durante o ca­
lor do dia excedem até a proverbial hos­
pitalidade oriental. E também o seu
medo de que os homens passassem dele
dificilmente seria a atitude de um vetera­
no do deserto. Ele sabia bem que quando
Deus viesse, ele precisaria aproveitar a
ocasião ao máximo. Ele não viria daque­
la forma outra vez, e quanto muito, não
permaneceria muito tempo.
Embora esta seja claramente a base
para se considerar que ele os reconheceu
à primeira vista, não significa que a
Trindade apareceu na forma de três ho­
mens. Abraão, usando pronomes singu­
lares no versículo 3, dirigiu-se a Adonai
como líder do grupo. E então, nos versí­
culos seguintes, incluiu os outros, em seu
convite geral. No versículo 22, os dois
homens (chamados de anjos, em 19:1)
foram para Sodoma, enquanto o Senhor
233
ficou para trás, para conversar com
Abraão. Aqui, está claro que os dois
homens devem ser diferenciados do Se­
nhor propriamente dito, que também
aparecera em forma humana. Não obs­
tante, as evidências não são só estas.
No versículo 21, o Senhor disse: “Des­
cerei agora, e verei”, mas ficou para trás,
e os dois anjos desceram. Desta forma,
quando eles entraram em Sodoma, o
próprio Senhor entrou, senão não teria
cumprido a sua palavra. E, novamente,
um dos anjos que estava com Ló dis­
se que ele, pessoalmente, era capaz de
subverter Sodoma. Quando esse ato foi
realizado, “o Senhor, da sua parte, fez
chover do céu enxofre e fogo sobre So­
doma e Gomorra” (19:24).
Coerentemente, apesar de o Pai, o
Filho e o Espírito Santo não serem apre­
sentados em Gênesis 18 e 19, o escritor
não hesita em dar a entender que, embo­
ra os anjos não fossem o Senhor, o Se­
nhor foi representado neles. Portanto,
este é um conceito muito fluido da natu­
reza da Divindade.
“Todo o discurso de Abraão é um óti­
mo exemplo da cortesia profusa, deferen­
te, autodepreciadora, característica das
boas maneiras orientais” (Skinner,
p. 300). Ele lhes prometeu um pouco de
água, mas trouxe tanto queijo fresco
(em outras versões, uma espécie de iogur­
te) quanto leite. Ele propôs um bocado
de pão, e fez Sara assar um considerável
número de litros de farinha. A isso tudo
ele adicionou a carne de um novilho
cevado. De maneira tipicamente orien­
tal, ele ficou de pé, enquanto eles co­
miam, e atendeu a todas as suas necessi­
dades. Tal tipo de hospitalidade, teria
sido oferecida a quaisquer estranhos que
fossem bem-vindos. O que tomou a cena
tão incomum foi o ritmo acelerado em um
dia quente e sufocante. Algo inusitado
estava para acontecer, e Abraão fora
capaz de prevê-lo.
O aspecto mais incomum da cena,
todavia, foi o fato de o Senhor ter consen­
tido em comer à mesa de Abraão. Isto é
acontecimento sem precedentes no Velho
Testamento. Em Juizes 13, o anjo do
Senhor recusou-se a comer com Manoá.
Um notável paralelo é o convite de Jesus
em Apocalipse 3:20: “Eis que estou à
porta, e bato; se alguém ouvir a minha
voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa,
e com ele cearei...”
2) Uma Hospedeira Incrédida (18:9-15)
9 P erguntaram -lhe e le s: Onde está S ara,
tu a m ulher? E le respondeu: E stá ali na
tenda. 10 E um deles lhe d isse: C ertam ente
tornarei a ti no ano vindouro; e eis que S ara
tu a m ulher te rá um filho. E S ara estav a
escutando à p o rta da tenda, que estav a
a trá s dele. 11 O ra, A braão e S ara e ram já
velhos, e avançados em idade; e a S ara
havia cessado o incôm odo das m ulheres.
12 S ara então riu-se consigo, dizendo: Terei
ainda deleite depois de haver envelhecido,
sendo tam bém o m eu senhor já velho?
13 Perguntou o Senhor a A braão: P o r que se
riu Sara, dizendo: Ê verdade que eu, que sou
velha, darei à luz um filho? 14 H á, porven­
tu ra, algum a coisa difícil ao Senhor? Ao
tem po determ inado, no ano vindouro, to m a ­
rei a ti, e S ara te rá um filho. 15 E ntão S ara
negou, dizendo: N ão m e ri; porquanto ela
teve m edo. Ao que ele respondeu: Não é
a ssim ; porque te riste.
Visto que os visitantes perguntaram
por Sara, é evidente que ela ainda não se
encontrara com eles, embora tivesse pre­
parado a refeição. Abraão, provavelmen­
te, não lhe tinha revelado a identidade
deles. Mesmo que o tivesse feito, a sua
incredulidade a respeito daquele anúncio
é compreensível.
Certamente tornarei a ti no ano vin­
douro possivelmente se refere ao período
de nove meses de uma gestação. O ori­
ginal hebraico diz literalmente: “Eu vol­
tarei a você daqui ao intervalo de uma
vida, mais ou menos.” O incômodo das
mulheres é uma referência ao período
menstrual. Depois de haver envelhecido é
literalmente: “depois que me gastei” co­
mo um vestido (cf. Deut. 8:4).
Há, porventura, alguma coisa difícil
ao Senhor? O hebraico literal é um pou-
234
quinho diferente desta tradução. “Algu­
ma coisa” não está presente, e o verbo
empregado é “ser diferente”, “ser ma­
ravilhoso” . Significa simplesmente: “É
isso miraculoso demais para o Senhor?”
O substantivo derivado do verbo “é difí­
cil” é a palavra que designa milagre no
Velho Testamento, ou seja, algo inusita­
do, diferente do ordinário (cf. Is. 9:6).
A idéia que o escritor deseja expressar
não depende do reconhecimento de Sara
de que o próprio Senhor estava falando.
Ela havia rido da palavra de Deus. Quem
a havia comunicado não era o caso. Por­
que ela vièra de Deus, devia ser honrada.
Acostumada a guardar os seus pensa­
mentos para si mesma, Sara havia rido
apenas interiormente, e ficou atônita
porque o visitante pôde sondar o seu
coração. A sua surpresa com esta revela­
ção a fez abrir-se. Agora ela reconhecia
que estava em sérias dificuldades, e ten­
tava negar a sua leviandade. A sua ale­
gação de inocência foi negada categorica­
mente. Deus, como sempre, teve a última
palavra.
3) Conversa Intima (18:16-21)
16 E levantaram -se aqueles hom ens dali, e
olharam p a ra a banda de Sodom a; e A braão
ia com eles, p a ra os encam inhar. 17 E disse
o S enhor: O cultarei eu a A braão o que faço,
18 visto que A braão certam ente virá a ser
um a grande e poderosa nação, e por m eio
dele serão benditas todas as nações da te r ­
ra ? 19 P orque eu o tenho escolhido, a fim de
que ele ordene a seus filhos e a sua casa
depois dele, p a ra que guardem o cam inho do
Senhor, p a ra praticarem retidão e ju stiç a ; a
fim de que o Senhor faça vir sobre A braão o
que a respeito dele tem falado. 20 D isse m ais
o Senhor: Porquanto o clam or de Sodoma e
G om orra se tem m ultiplicado, e porquanto o
seu pecado se tem agravado m uito, 21 desce­
rei agora, e verei se em tudo têm praticado
segundo o seu clam or, que a m im tem che­
gado; e se não, sabê-lo-ei.
Os expositores chamam os versículos
17 a 19 de “Solilóquio de Deus”,, pois
aqui ele é descrito como alguém que
pensa em voz alta, enquanto nos é permi­
tido ouvi-lo. Abraão precisava saber o
que Deus estava para fazer, para que
pudesse interpretar corretamente os ca­
minhos de Deus para os seus descenden­
tes. Do destino iminente de Sodoma e
Gomorra ele aprenderia indelevelmente
qual era a atitude de Deus para com o
pecado e a desobediência. Sabendo-o an­
tecipadamente, Abraão não iria atribuir
aquele desastre ao acaso. Da mesma
forma, Deus mais tarde iria falar atra­
vés de seus profetas, antes de outras
catástrofes históricas, para que Israel
pudesse compreender os seus caminhos.
Não era por acaso que os grandes pro­
fetas vieram em grupos. Eles estavam
preparando Israel para as suas grandes
decisões na História: Elias ei Eliseu na
crise de Baal; Àmôs, Oséias, Miquéias e
Isaías no período assírio; Sofonias, Ha-
bacuque, Jeremias e Ezequiel durante o
cativeiro babilónico; Ageu, Zacarias e
Malaquias na época da restauração.
A fim de que o Senhor faça vir sobre
Abraão o que a respeito dele tem falado.
Para ser fiel a si mesmo, Deus não pode
abençoar Abraão e seus descendentes, a
não ser que eles se entreguem à justiça e
à retidão. Ele trabalhará com eles cons­
tantemente, para ver isso acontecer! Em
Cristo, nada menos do que isso pode
acontecer.
A palavra traduzida como clamor é
ze’akah, termo técnico legal, que designa
os gritos de uma pessoa que sofre grande
injustiça. Na verdade, a palavra usada no
hebraico, para clamores contra a injus­
tiça, era chamas: violência, procedimen­
to incorreto! (cf. Hab. 1:2; Jer. 20:8;
Jó 19:7).
Descerei agora, e verei (cf. os comen­
tários 11:5). Não que Deus não estivesse
percebendo o que estava acontecendo,
mas ele não destruiria nem mesmo a
obviamente pecaminosa Sodoma sem
que antes todas as evidências fossem exa­
minadas. Ele não aceita nada por ouvir
falar, mas age apenas depois que todas
as evidências são apresentadas.
235
22 E ntão os hom ens, virando os seus ro s­
tos dali, foram -se em direção a Sodom a;
m as A braão ficou ainda em pé diante do Se­
nhor. 23 E chegando-se A braão, d isse : D es­
tru irás tam bém o justo com o ím pio? 24 Se
porventura houver dnqU enta justos n a ci­
dade, d estru irás e não pouparás o lu g ar por
causa dos cinqüenta justos que ali estão?
25 Longe de ti que faças ta l coisa, que m ates
o justo com o ím pio, de m odo que o justo seja
como o ím pio; esteja isto longe de ti. Não
fftrá ju stiça o Juiz de toda a te rra ? 26 E ntão
disse o Senhor: Se eu ac h a r em Sodom a cin­
qüenta justos dentro d a cidade, pouparei o
lugar todo por cau sa deles. 27 Tornou-lhe
A braão, dizendo: E is que agora m e atrev i a
falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza.
28 Se porventura de cinqüenta justos fa lta ­
rem cinco, d estru irás toda a cidade por
causa dos cinco? R espondeu e le : N ão a des­
truirei, se eu ac h a r ali quaren ta e cinco.
29 Continuou A braão ainda a falar-lhe, e
d isse: Se po rventura se ach arem ali q uaren­
ta? M ais um a vez assentiu: F o r causa dos
q uarenta não o farei. 30 D isse A braão: O ra,
não se ire o Senhor, se eu ainda falar. Se
porventura se ach arem ali trin ta? De novo
assentiu: Não o farei, se ach ar ali trin ta.
31 Tornou A braão: E is que o u tra vez m e
atrev i a fa la r ao Senhor. Se porventura se
acharem ali vinte? R espondeu-lhe: P o r cau ­
sa dos vinte não a destruirei. 32 D isse ainda
A braão: O ra, não se ire o Senhor, pois só
m ais esta vez falarei. Se porventura se
acharem ali dez? A inda assentiu o Senhor:
P o r causa dos dez não a destruirei. 33 E foi-
se o Senhor, logo que acabou de falar com
A braão; e A braão voltou p a ra o seu lugar.
O solilóquio e a declaração feita nos
versículos anteriores são seguidos por um
diálogo entre Deus e Abraão, que sonda
os caminhos secretos de Deus com os
homens.
Abraão ficou ainda em pé diante do
Senhor. Os escribas posteriores ao exílio
mudaram, o seu texto recebido, para a
redação dada na versão da IBB e da
RSV. Originalmente, ele declarava que
“o Senhor ainda ficou na presença de
Abraão”. Os eruditos modernos discor­
dam a respeito da legitimidade dessa
mudança (cf. Skinner). Pode ser que
tenhamos aqui um quadro incomum de
Deus demorando-se um pouco mais,
4) Sondagem de Mentes (18:22-33) para permitir que Abraão comece a son­
dar os seus caminhos.
As perguntas de Abraão relacionam-
se com a qualidade preservadora de uma
minoria piedosa entre uma grande maio­
ria de pessoas ímpias. Ele aprendera que
“até mesmo um número muito pequeno
de homens inocentes é mais importante
aos olhos de Deus do que uma maioria de
pecadores, e é suficiente para frustrar o
julgamento” (von Rad, p. 209).
É significativo que, à medida que
Abraão continuou a interrogar a Deus,
embora ficasse cada vez mais ousado em
suas perguntas, jamais se esqueceu de
que era a Deus que ele estava se dirigin­
do. A abertura de Deus para com ele era
uma fonte de certeza de que ele estava
dentro da vontade de Deus. De fato,
Deus estava pronto a responder afirmati­
vamente a todas as sugestões de miseri­
córdia. Obviamente, ele estava mais
pronto para perdoar do que para des­
truir.
É uma surpresa o fato de Abraão ter
parado em dez. No fundo, embora nunca
o mencionasse, ele estava preocupado
com Ló. Será que a presença deste salva­
ria a situação? Algumas pessoas sugerem
que, na verdade, havia dez membros na
família de Ló: Ló, a sua esposa, as suas
duas filhas casadas e seus maridos, e as
duas solteiras que saíram com ele (Spei-
ser). Visto que Ló não conseguiu persua­
dir quatro dessas pessoas a saírem, não
teve número suficiente de pessoas para
salvar a cidade. Porém parece mais pro­
vável que Ló tinha apenas duas filhas
(veja os comentários sobre o cap. 19).
Abraão não prosseguiu de dez para me­
nos porque não era necessário que o fi­
zesse. Agora ele conhecia o coração de
Deus. O Senhor salvaria a todos os que
pudesse. Abraão podia deixar o resto por
conta dele.
10. A Destruição de Sodoma (19:1-38)
Este capítulo retoma a história de Ló
onde a narrativa o deixara no capítulo
236
13. De fato, o cuidadoso delineamento
psicológico da desintegração gradual do
caráter de Ló é peculiar, único no Velho
Testamento. E sugere que a história de
Ló deve ter sido preservada como tradi­
ção separada, e incorporada à narrativa
da fonte Judia (von Rad). De maneira
semelhante, muitas facetas da narrativa
da destruição de Sodoma podem ter sido
preservadas independentemente, antes
de serem incluídas no registro bíblico.
Surpreende que “Sodoma e Gomorra”
geralmente sejam combinadas em união
inseparável, mas nada se diz do que
estava acontecendo em Gomorra. Apa­
rentemente, havia outras tradições a res­
peito dessa cidade, que não foram re­
gistradas no Velho Testamento. O que
foi incluído é o material mais útil para se
entender tanto o curso da vida de Abraão
quanto a de seu sobrinho Ló, que esco­
lheu outro rumo.
1) A Degradação de Sodoma (19:1-11)
1 Â tard e chegaram os dois anjos a Sodo­
m a. Ló estav a sentado à p o rta de Sodoma
e, vendo-os, levantou-se p a ra os receb er;
prostrou-se com o rosto em te rra , 2 e d isse:
E is agora, m eus senhores, entrai, peço-vos,
em casa de vosso servo, e passai nela a
noite, e lavai os pés; de m adrugada vos
levantareis e ireis vosso cam inho. R espon­
d eram eles: N ão; antes n a p raça p a ssa re ­
m os a noite. 3 E ntretanto, Ló Insistiu m uito
com eles, pelo que foram com ele e e n tra ­
ra m em su a c a sa ; e ele lhes deu um banque­
te, assando-lhes pães ázim os, e eles com e­
ram . 4 M as antes que se deitassem , cerca­
ra m a casa os hom ens da cidade, isto é, os
hom ens de Sodom a, tanto os m oços com o os
velhos, sim , todo o povo de todos os lad o s;
5 e, cham ando a Ló, perguntaram -lhe: Onde
estão os hom ens que en traram esta noite em
tua casa? Traze-os cá fora a nós, p a ra que os
conheçam os. 6 E ntão Ló saiu-lhes à porta,
fechando-a a trá s de si, 7 e d isse: M eus ir ­
m ãos, rogo-vos que não procedais tão p e r­
versam ente; 8 eis aqui, tenho duas filhas
que ainda não conheceram v arão ; eu vo-las
tra re i p a ra fora, e lhes fareis com o bem vos
p arecer; som ente nada façais a estes ho­
m ens, porquanto e n traram debaixo da som ­
b ra do m eu telhado. 9 E les, porém , disse­
ra m ; Sai daí. D isseram m ais: E sse indi­
víduo, com o estrangeiro velo aqui h ab itar,
e quer se a rv o ra r em juiz! A gora te fa re ­
m os m ais m al a ti do que a eles. E a rre m e s­
saram -se sobre o hom em , isto é, sobre Ló, e
aproxim avam -se p a ra arro m b ar a porta.
10 A queles hom ens, porém , estendendo as
m ãos, fizeram Ló e n tra r p a ra dentro da
casa, e fecharam a p o rta; 11 e feriram de
cegueira os que estavam do lado de fora,
tanto pequenos com o grandes, de m an eira
que can saram de p ro cu rar a porta.
O leitor não precisa ficar surpreso com
o fato de os dois mensageiros (anjos)
terem chegado a Sodoma na mesma tar­
de do banquete com Abraão. A distância
era de cerca de sessenta quilômetros,
através de território acidentado, e nor­
malmente levaria dois dias. Mas aqueles
não eram homens comuns. Sem dúvida,
Ló não suspeitava disso. Como vimos, os
acontecimentos que acabaram de descre­
ver-se no capítulo 18 não se referem a
“sem o saberem, hospedaram anjos”
(Heb. 13:2), pois Abraão reconheceu a
presença de Deus. Ló, todavia, não tinha
tanta percepção, embora fosse justo e
hospitaleiro. O fato de ele ter curvado o
rosto em terra, em contraste com a sau­
dação mais restrita de Abraão (18:2), era
um sinal de impulsividade que emergiria
mais visivelmente nos acontecimentos se­
guintes.
Ló estava sentado à porta de Sodoma,
onde se congregavam os homens. Só ele
correu para saudar os estranhos e ofere­
cer-lhes a hospitalidade de seu lar. A
princípio, eles recusaram abruptamente,
pois não haviam vindo para uma visita
social, como fora com Abraão. Porém,
diante de sua insistência, aceitaram.
A primeira vista, a sugestão de Ló de que
eles fossem embora de madrugada pare­
ce uma falta da consideração apropriada
para com a companhia deles, porém ela
se originava do conhecimento que ele
tinha da cidade. Seria do interesse de
seu bem-estar que eles saíssem de Sodo­
ma o mais rápido possível.
O pedido dos homens de Sodoma de
conhecer os visitantes era, provavelmen­
te, uma exigência de relações homosse-
237
xuais. Desta forma, a palavra “sodomia”
encontrou sua origem. De fato, a cidade
era tão má quanto o “clamor” havia indi­
cado. Ló, com impulsividade ainda
maior, saiu para fora de sua casa, fechou
a porta detrás de si, para proteger os seus
hóspedes, e tentou arrazoar ousadamen­
te com a turba. Chegou a oferecer-lhes as
suas filhas. A sua sugestão é repulsiva
para a mente moderna, mas para Ló era
o supremo ato de hospitalidade. O seu
dever era proteger os seus hóspedes a
qualquer custo. Contudo, a oferta de
suas filhas fora feita com demasiada
facilidade, e talvez tenha influenciado a
própria falta de respeito delas para com
o pai, quando, mais tarde, se viram sozi­
nhas numa caverna com ele.
A reação da malta foi fazer ameaças
contra a pessoa do próprio Ló. Eles ha­
viam-se deixado levar demasiadamente
longe em suas perversões, para voltarem
atrás pela oferta das duas moças. Só a
intervenção dos anjos salvou Ló. Os ho­
mens que estavam do lado de fora foram
feridos com uma espécie temporária de
cegueira (cf. II Reis 6:18), e a fútil
tentativa de Ló de agir heroicamente
resultou no fato de ele ser protegido pelos
seus hóspedes! Então ele ficou sabendo
que os seus hóspedes não eram homens
mortais.
2) A Fuga de Sodoma( 19:12-23)
12 E ntão disseram os hom ens a L ó : Tens
m ais alguém aqui? Teu genro, e teus filhos,
e tuas filhas, e todos quantos tens na cida­
de, tira-os p a ra fora deste lu g ar; 13 porque
nós vam os d estru ir este lugar, porquanto o
seu clam or se tem avolum ado diante do
Senhor, e o Senhor nos enviou a destruí-lo.
14 Tendo saído Ló, falou com seus genros,
que haviam de ca sa r com suas filhas, e dis­
se-lhes: Levantai-vos, saí deste lugar, p or­
que o Senhor há de d estru ir a cidade. M as
ele pareceu aos seus genros com o quem
estava zom bando. 15 E ao- am anhecer os
anjos ap ertav am com Ló, dizendo: L evanta-
te, tom a tu a m ulher e tu as duas filhas que
aqui estão, p a ra que não pereças no castigo
da cidade. 16 E le, porém , se dem orava;
pelo que os hom ens pegaram -lhe pela m ão,
a ele, à sua m ulher, e às suas duas filhas,
sendo-lhe m isericordioso o Senhor. A ssim o
tirara m e o puseram fora da cidade.
17 Quando os tinham tirado p a ra fora, disse
um deles: E scapa-te, salva a tu a vida; não
olhes p ara trá s de ti, nem te detenhas em
toda esta p lan ície; escapa-te lá p a ra o m on­
te, p ara que não pereças. 18 Respondeu-lhes
Ló: Ah, assim não, m eu Senhor! 19 E is que
agora o teu servo tem achado graça aos teus
olhos, e tens engrandecido a tua m isericór­
dia que a m im m e fizeste, salvando-me a
v id a; m as eu não posso escapar-m e p a ra o
m onte; não seja caso m e apanhe antes este
m al, e eu m o rra. 20 E is ali perto aquela
cidade, p a ra a qual eu posso fugir, e é
pequena. P erm ite que eu m e escape p a ra lá
(porventura não é pequena?), e viverá a
m inha alm a. 21 D isse-lhe: Quanto a isso
tam bém te hei atendido, p a ra não subverter
a cidade de que acabas de falar. 22 A pressa-
te, escapa-te p a ra lá; porque nada poderei
fazer enquanto não tiveres ali chegado. Por
isso se cham ou o nom e da cidade Zoar. 23 T i­
nha saído o sol sobre a te rra , quando Ló
entrou em Zoar.
Os anjos completaram a sua inquiri­
ção, e o julgamento foi declarado. Eles
não sabiam o total dos membros da famí­
lia de Ló, ou usaram uma forma polida
de apressá-lo a reunir os seus familiares.
Teu genro, e teus filhos, e tuas filhas.
Ê estranho que o genro (um só) é men­
cionado antes de filhos e filhas, e é possí­
vel que tenha havido alguma deslocação
no texto. O anjo concorda com a possi­
bilidade de que houvesse um bom núme­
ro de pessoas associadas com Ló que
quisessem abandonar a cidade com ele;
se assim fosse, o total de pessoas chegaria
a mais do que os dez do capítulo 18.
Por que estavam eles tão decididos a
destruir a cidade? O seu destino já não
era iminente, visto que o verdadeiro
número de justos fora determinado?
É provável que o anjo já conhecesse a
resposta à pergunta que fizera a Ló, mas
o patriarca precisava descobrir a verdade
por si mesmo. Ou será que esta passa­
gem está dizendo que Sodoma era pior
do que havia transpirado? O que podia
ser feito era apenas poupar os justos. Isto
era o que realmente Abraão estava pe­
238
dindo: a libertação de Ló, e não de
Sodoma.
O Senhor nos enviou a destruí-lo. Mes­
mo antes da hora em que foi feita a inves­
tigação, a destruição da cidade já havia
sido decretada. Durante todo o tempo
em que Deus havia estado tranqüilizando
Abraão, ele sabia a que missão havia
enviado os anjos. Por que, então, ele se
deu ao trabalho de investigar? Evidente­
mente, para estar absolutamente certo de
que não estava cometendo nenhum erro.
Deus estava disposto, no último momen­
to, mesmo depois de ter decretado a des­
truição de Sodoma, a mudar de idéia
diante de qualquer sinal de esperança
(cf. Jer. 18:1 e ss.; Jon. 1-3).
Que haviam de casar com suas filhas.
O hebraico pode dar a entender isto
(von Rad) ou “que haviam-se casado com
suas filhas” (Speiser, com reservas).
É mais provável que a tradução da IBB, e
da RSV, seja correta, pois, se não fosse,
o escritor certamente teria mencionado
os rogos de Ló por suas filhas casadas, e
não apenas por seus genros. As suas
únicas filhas estavam em casa.
A ordem para não olhar para trás nos
faz lembrar que, quando Deus intervém
na terra, o homem não pode adotar a
posição de espectador. Ou ele escapa, ou
é destruído. Havia chegado a hora de Ló
escolher. Não havia uma terceira alterna­
tiva. Muitos expositores sugerem que a
história a respeito da esposa de Ló se
originou a fim de explicar algumas for­
mações da região, em forma de mulher
(von Rad). É mais provável que a história
de sua morte trágica, já presente na
tradição dos judeus, os levou a identifi­
car uma formação local como o seu corpo
petrificado.
E então Ló tomou-se incoerente. Ele
não podia fugir para as montanhas de
Moabe, pois a ascensão difícil retardaria
os seus passos, de forma que a catástrofe
iminente o apanharia. Com palavras tro­
peçando em palavras, ele rogou que lhe
fosse permitido parar em Zoar, que era
tão pequena que certamente Deus a dei­
xaria passar despercebida em seu plano.
Em outras palavras, para Ló, qualquer
cidade serviria. O pensamento de viver
fora de área urbana era insuportável
para ele. Ele estava irremediavelmente
orientado em direção à sociedade urba­
na. O anjo, admitindo que trazia ordens
estritas para não destruir Sodoma en­
quanto Ló não estivesse a salvo, fez-lhe
esta concessão. As promessas feitas a
Abraão iriam ser cumpridas.
A origem apresentada para a palavra
Zoar (heb., pequeno) é uma das poucas
explicações etimológicas do Velho Tes­
tamento que os eruditos geralmente acei­
tam como exata. A maioria delas é con­
siderada como conotações populares que
têm pequena relação com o verdadeiro
significado das palavras. A preservação
de tais impressões populares, todavia, é
também um valioso repositório das ex­
periências de Israel com a sua história.
3) Ira e Graça (19:24-29)
24 E ntão o Senhor, da sua p arte, fez cho­
ver do céu enxofre e fogo sobre Sodom a e
G om orra. 25 E subverteu aquelas cidades,
e toda a planície, e todos os m oradores das
cidades, e o que nascia da te rra . 26 M as a
m ulher de Ló olhou p a ra trá s e ficou conver­
tida em u m a estátu a de sal. 27 E A braão le ­
vantou-se de m adrugada, e foi ao lugar onde
estivera em pé diante do Senhor; 28 e, con­
tem plando Sodom a e G om orra e toda a te rra
da planície, viu que subia da te rra fum aça
como a de um a fornalha. 29 O ra, aconteceu
que, destruindo D eus a s cidades da planície,
lem brou-se de A braão, e tirou Ló do m eio da
destruição, ao subverter aquelas cidades
em que Lé hab itara.
É possível que o enxofre e o fogo
fossem gases de petróleo incendiados por
fogos subterrâneos. A palavra subverteu
pode preservar a memória de um terre­
moto, que abriu a terra, para permitir
que esses gases escapassem. Tal cataclis-
ma pode ter feito com que tenha cedido a
terra ao sul do Mar Morto, e a água
tenha coberto a região ocupada por So­
doma. Tradições concernentes a essa ca-
239
tástrofe ocorrem no decorrer de todo o
Velho Testamento, embora as diferentes
passagens descrevam o pecado de Sodo-
ma de maneira diversa. Isaías põe a
culpw em sua injustiça (1:10; 3:9), Eze-
quiel descreve o seu orgulho e ócio prós­
pero (16:49), enquanto Jeremias fala de
adultério e mentira (23:14). As seme­
lhanças entre a cena diante da casa de
Ló e a infâmia ocorrida em Gibéa (Juí.
19) sugerem uma relação entre essas his­
tórias, mas a sua natureza exata não é
visível. Com toda a probabilidade, as
categorias de pecado em Sodoma eram
tão variadas que cada profeta podia es­
colher uma delas, para ilustrar os seus
oráculos, sem exaurir as outras possibili­
dades!
Enquanto Ló estava fugindo para
Zoar, Abraão estava se levantando de
madrugada, para ver o que estava acon­
tecendo em Sodoma. Tudo o que ele
pôde ver foi o fumo que se elevava, mar­
cando o rasto do desastre. O seu silêncio
foi eloqüente, pois deve ter-lhe parecido
que todos os seus rogos diante de Deus
em favor de Ló haviam sido em vão.
Mal sabia ele que Deus havia cumprido a
sua palavra, de maneira que lhe era des­
conhecida. Da mesma forma, os homens
muitas vezes desesperam diante da perda
aparente de um sonho que Deus conser­
vara vivo de maneiras que vão além da
compreensão deles. Só um homem que
tenha observado as ruínas fumegantes de
suas orações a Deus pode compreender a
dor que Abraão sentiu e como ele ficou
desanimado. A maneira misteriosa como
Deus cumpriu a sua palavra a Abraão
deve ser uma fonte de ânimo para todos
os fiéis que se lamentam diante de seus
senhos desfeitos.
O versículo 29 evidentemente provém
da fonte Sacerdotal e acrescenta uma
observação que falta em outros episó­
dios. Foi por amor a Abraão que Ló fora
liberto. Desta forma, um homem justo
fora a causa da libertação de outro me­
nos digno do que ele. O princípio que
Abraão descobrira em a natureza de
Deus estava funcionando.
4) Lóe Suas Filhas (19:30-38)
30 E subiu Ló de Zoar, e habitou no m onte,
e as suas duas filhas com e le ; porque tem ia
h ab itar em Z oar; e habitou num a caverna,
ele e as suas duas filhas. 31 E ntão a prim o­
gênita disse à m e n o r: Nosso pai é já velho, e
não h á varão n a te rra que en tre a nós,
segundo o costum e de to da a te rra ; 32 vem ,
dem os a nosso pai vinho a beber, e deitem o-
nos com ele, p a ra que conservem os a des­
cendência de nosso pai. 33 D eram , pois, a
seu pai vinho a beber naquela noite; e,
entrando a prim ogênita, deitou-se com seu
p a i; e não percebeu ele quando ela se deitou,
nem quando se levantou. 34 No dia seguin­
te disse a prim ogênita à m en o r: E is que eu
ontem à noite m e deitei com m eu p ai; de-
mos-lhe vinho a beber e tãm bém esta no ite;
e então, entrando tu, deita-te com ele, p a ra
que conservem os a descendência de nosso
pai. 35 T ornaram , pois, a d ar a seu pai vinho a
beber tam bém naquela no ite; e, levantando-
se a m enor, deitou-se com ele, e não perce­
beu ele quando ela se deitou, nem quando se
levantou. 36 A ssim as duas filhas de Ló
conceberam de seu pai. 37 A prim ogênita
deu à luz um filho e cham ou-lhe M oabe; este
é o pai dos m oabitas de hoje. 38 A m enor
tam bém deu à luz um filho, e cham ou-lhe
Ben-Ami; este é o pai dos am onitas de hoje.
Ló não permaneceu por muito tempo
em Zoar, pois, aparentemente, reconhe­
ceu naquela pequena cidade os mesmos
sintomas que havia verificado em Sodo­
ma. Temendo outra manifestação da ira
de Deus, ele finalmente fugiu, com suas
filhas, para a montanha a princípio suge­
rida pelo anjo. Segue-se uma estranha
história de incesto.
Alguns intérpretes sugerem que esta
história era contada em Israel para expli­
car a origem dúbia de seus vizinhos.
Outros, que ela era recordada com orgu­
lho por moabitas e amonitas, para expli­
car a sua origem ou pedigree “puro”,
mediante o ato corajoso de duas mulhe­
res fortes (Gunkel). Ainda outros fazem
este relato remontar a uma história do
homem primitivo, quando, depois de
uma catástrofe universal, apenas um ho­
240
mem e suas duas filhas permaneceram
vivos. A filha de Ló diz: Não há varão na
terra que entre a nós (cf. von Rad).
Contudo, esta expressão pode significar
não que não havia restado nenhum ho­
mem, mas que as filhas — mantidas por
seu pai quase como prisioneiras, como
estavam, em uma caverna da montanha
— pensavam que não sobrevivera ne­
nhum homem. O que tornou a situação
pior era o fato que as moças estavam
para se casar quando foram forçadas a
abandonar Sodoma.
Este não foi o fim do caso. Há um
pequeno livro, no Velho Testamento, o
livro de Rute, que fala de uma jovem
moabita, descendente deste ato incestuo­
so. Ela se lança aos pés de um parente,
Boaz, que a chama de sua “filha” (Rute
3:10), mas o propósito dela não era con­
seguir um filho através de engano. Me­
diante o seu ato, ela estava conclamando
o mais elevado senso de dever daquele
parente. Essa mulher nobre redimiu para
sempre o nome de Ló. O bem que estava
latente nele finalmente emergiu, de for­
ma que o Novo Testamento podia olhar
para Ló com todas as suas fraquezas, e
assim mesmo chamá-lo de “justo” (II
Ped. 2:7). Não que ela tenha conseguido
fazer expiação pelas falhas de Ló. Pelo
contrário, uma descendente evidenciou
características latentes que só Deus po­
dia perceber e aceitar originalmente.
11. Sara eAbimeleque (20:1-18)
Esta história é semelhante a 12:10-20.
Em ambas as narrativas, Abraão disse a
um monarca que Sara era sua irmã. Em
cada caso, o rei tomou-a como sua espo­
sa, e sofreu pragas por isso. Quando des­
cobriu que havia sido enganado, repreen­
deu Abraão asperamente. Contudo,
Abraão emergiu de ambos os encontros
mais rico do que antes.
Há também marcantes diferenças en­
tre estas histórias. O nome divino de
Yahweh (o Senhor) é usado no capítulo
12, mas Elohim (Deus) no que estamos
estudando. Em a narrativa anterior, Fa­
raó era o rei; nesta, foi Abimeleque. No
Egito, o engano foi descoberto depois
que pragas sobrevieram à casa de Faraó,
ao passo que Deus veio a Abimeleque em
sonhos. No capítulo 12, a relação marital
de Sara com Faraó não está clara; no
capítulo 20, se diz claramente que a
união jamais foi consumada. A descober­
ta do engano fez com que Faraó expul­
sasse Abraão do Egito como persona non
grata. Em Gerar, o patriarca recebeu
um convite amável para permanecer na
terra. Nenhuma tentativa foi feita para
explicar a base para a prevaricação do
capítulo 12; aqui, Abraão explicou que
Sara era sua meia-irmã, bem como sua
esposa.
Todas as características da fonte Is­
raelita do Norte são encontradas no ca­
pítulo 20, levando muitos estudiosos a
colocar a passagem em foco nesta clas­
sificação. O uso de um sonho, preocupa­
ção com problemas éticos, a ênfase na
função profética de Abraão, tudo aponta
para uma fonte diferente da Judia, que
aparece no capítulo 12 (von Rad).
Embora seja evidente que o capítulo 20
contém material bem diferente do que
consta no capítulo anterior e provém,
possivelmente, da fonte Israelita do Nor­
te, não está bem claro se ambas as
histórias se baseiam no mesmo aconteci­
mento ou em duas ocorrências separa­
das. Muitos eruBitos acham que os três
relatos da exposição da esposa de um
patriarca (12:10-20; 20:1-18; 26:6-11)
são edições diferentes do mesmo evento
básico, especialmente os capítulos 12 a
20 (Skinner). Contudo, é bem possível
que Abraão tenha tentado a mesma ma­
nobra uma segunda vez, que aparente­
mente funcionara bem da primeira vez.
Se ele o fez, a sua integridade era um
tanto menor do que comumente se supu­
nha. O fato de ter saído do Egito como
indesejável e ter tentado a mesma espé­
cie de fraude mais uma vez dificilmente
se ajustava com um caráter reto.
241
Os capítulos 20 a 23 são, em grande
parte, da fonte Israelita do Norte, e
preservam narrativas da vida de Abraão
que se relacionam com sua permanência
nas imediações de Berseba. Até então,
ele estivera habitando em Hebrom. O
fato de ele ter saído de Hebrom pode
estar ligado com a destruição de Sodoma
e Gomorra. Talvez ele tenha decidido se
distanciar mais dessa região. Há a possi­
bilidade de que se iniciou algum comér­
cio entre ele e as cidades da planície.
Mais provavelmente, porém, ele estava
seguindo o costume de outros nômades
do deserto, que raramente permaneciam
um longo período no mesmo lugar, pois
as condições de pasto se deterioravam,
depois de vários anos nas mesmas ime­
diações.
1) Abimeleque Ê Enganado (20:1-7)
1 P a rtiu A braão dali p a ra a te rra do Ne-
gebe, e habitou entre C ades e S ur; e p ere­
grinou em G erar. 2 E havendo A braão dito
de Sara, sua m ulher: É m inha irm ã ; enviou
A bim eleque, rei de G erar, e tom ou a Sara.
3 D eus, porém , veio a A bim eleque, em so­
nhos, de noite, e disse-lhe: E is que estás
p ara m o rrer por causa d a m ulher que to ­
m aste; porque ela tem m arido. 4 O ra, Abi­
m eleque ainda não se havia chegado a ela;
perguntou, pois: Senhor, m a ta rá s porven­
tu ra tam bém um a nação ju sta? 5 N ão m e
disse ele m esm o: É m inha irm ã? e ela
m esm a m e disse: E le é m eu irm ão ; na
sinceridade do m eu coração e na inocência
das m inhas m ãos fiz isto. 6 Ao que D eus lhe
respondeu em sonhos: B em sei eu que na
sinceridade do teu coração fizeste isto; e
tam bém te tenho im pedido de pecar contra
m im ; por isso não te p erm iti tocá-la; 7 ago­
ra , pois, restitu i a m ulher a seu m arido,
porque ele é profeta, e intercederá por ti, e
viverás; se, porém , não lha restituíres, sabe
que certam ente m o rrerás, tu e tudo o que é
teu.
Partiu Abraão dali. O lugar de onde
ele iniciou a sua viagem certamente não
era Moabe, do capítulo anterior. Desta
forma, não podemos ter certeza quanto à
seqüência cronológica desses aconteci­
mentos. A própria Gerar não ficava entre
Cades e Sur. O que significa, provavel­
mente, a declaração do versículo 1 é que
Abraão regularmente vivia no Negebe,
mas temporariamente se mudara para
Gerar.
Deus, porém, veio a Abimeleque.
“Ê uma audácia de nosso narrador con­
siderar o pagão digno de uma visitação,
de fato, de uma conversa pessoal com
Yahweh” (von Rad, p. 223). Deus não
apenas veio a Abimeleque, mas o rei
chamou-o de Adonai (Senhor, v. 4), ter­
mo usado comumente pelos hebreus. Há
uma semelhança definida entre o quadro
de Abimeleque e o de Melquisedeque,
pois a palavra hebraica que significa rei
(melek) aparece em ambos os nomes.
Embora fosse um monarca não-israelita,
Abimeleque aparentemente adorava o
mesmo Deus que Abraão, embora com
outro nome. As suas idéias de moralida­
de neste caso eram de fato mais elevadas
do que as de Abraão.
De fato, o seu comportamento, depois
da descoberta de que fora enganado, foi
da mais elevada qualidade, mesmo me­
diante os padrões cristãos. Ao invés de
expulsar Abraão, ele deu-lhe livre acesso
a toda a sua terra, tomando providências
para que fosse permitido a Abraão salvar
as aparências diante da população. Ao
dirigir-se a Sara, ele reconheceu Abraão
de fato como “irmão” dela (seria sar­
casmo?), e deu-lhe um presente em di­
nheiro que tornaria claro, a qualquer
pessoa, que ele não o considerava respon­
sável pela situação perigosa que havia
sido criada. Na verdade, ele pagou o mal
com o bem, e tudo foi devido ao seu
respeito pelo Deus de Abraão, com quem
tivera uma conversa íntima em seu so­
nho. Abraão não estava esperando en­
contrar tal piedade em Canaã (20:11). A
verdadeira fé às vezes aparece nos luga­
res mais inesperados.
Ora, Abimeleque ainda não se havia
chegado a ela. Isto é bem estranho. Al­
guns expositores notam que, se este
capítulo segue os capítulos 17 e 18 em
termos cronológicos, Sara teria cerca de
242
noventa anos de idade. Ela dificilmente
teria atraído o interesse de Abimeleque
(von Rad). Todavia, pode ser que ele
tivesse se casado com ela por razões
alheias à atração física. Os haréns não
eram formados apenas por causa dos
apelos sexuais, e com jovens. Muitas
vezes os reis colecionavam esposas de
todas as sortes e idades por causa de uma
variedade de razões pessoais e políticas.
O casamento de Sara e Abimeleque po­
de ter selado um contrato comercial
entre ele e Abraão. Se Sara era avançada
em idade, mas ainda atraente, isso podia
explicar a demora dele em se aproximar
dela. É ainda mais provável que ele
sofresse de uma enfermidade que limitas­
se a sua atividade marital (cf. 20:17).
Desta forma Deus o impedira de pecar
(v. 6).
Visto que este capítulo não está ligado
aos outros definidamente em uma se­
qüência cronológica, é bem provável que
0 acontecimento registrado aqui tenha
ocorrido em época muito mais remota do
gue os capítulos 17 e 18.
Porque ele é profeta é a primeira refe­
rência do Velho Testamento a um “pro­
feta” . Usualmente os profetas viviam
pregando. Aqui, Abraão está interceden­
do. Agora sabemos que esta era uma das
funções mais importantes dos primeiros
profetas, particularmente ao realizarem
tarefas relativas ao culto (cf. Deut. 9:20;
1Sam. 7:5; 12:19,23; Jer. 7:16; 27:18).
Não é incomum haver uma passagem
que fale que um homem é um verdadeiro
profeta de Deus em época em que o seu
comportamento ético foi menos do que
ideal. Os profetas canônicos posteriores
não teriam nada a ver com um compor­
tamento tão incoerente (cf. Jer. 23). No
entanto, é importante notar que Deus"
Abimeleque e a Escritura presumem que
a função de Abraão como intercessor não
dependia de sua perfeição moral, mas do
fato de ele ter sido escolhido por Deus
para ser o seu instrumento no mundo.
Certamente Abraão haveria de pagar por
seus pecados; de fato, ele foi exposto ao
escárnio público, que lhe sobreveio quan­
do um rei pagão foi obviamente mais
correto do que ele. O convite de Abi­
meleque para Abraão mover-se livremen­
te em seu país expressou a sua convicção
de que a presença do patriarca, a despei­
to de suas falhas, seria uma fonte de
bênçãos divinas para o reino. Aqui te­
mos, portanto, o papel peculiar de
Abraão como “mediador culpado” (von
Rad, p. 223).
2) Abimeleque Restitui (20:8-18)
8 Levantou-se A bim eleque de m an h ã cedo
e, cham ando a todos os seus servos, falou-
lhes aos ouvidos todas estas p alav ras, e os
hom ens tem eram m uito. 9 E ntão cham ou
A bim eleque a A braão e lhe perguntou: Que
é que nos fizeste? e em que pequei contra ti,
p a ra trazeres sobre m im e sobre o m eu
reino tam anho pecado? Tu m e fizeste o que
não se deve fazer. 10 Perguntou m ais Abi­
m eleque a A braão: Com que intenção fizes­
te isto? 11 Respondeu A braão: Porque pen­
sei : C ertam ente não h á tem or de D eus neste
lu g ar; m atar-m e-ão por causa d a m inha
m ulher. 12 Além disso, ela é realm ente m i­
nha irm ã, filha de m eu pai, ainda que não de
m inha m ãe; e veio a ser m inha m ulher.
13 Quando Deus m e fez sa ir erran te da casa
de m eu pai, eu lhe disse a ela: E sta é a
g raça que m e fa rá s: em todo lu g ar aonde
form os, dize de m im : E le é m eu Irm ão.
14 E ntão tom ou A bim eleque ovelhas e bois,
e servos e servas, e os deu a A braão; e lhe
restituiu S ara, sua m ulh er; 15 e disse-lhe
A bim eleque: E is que a m inha te rra está
diante de ti; h ab ita onde bem te p arecer.
16 E a S ara d isse: E is que tenho dado a teu
irm ão m il m oedas de p ra ta ; isto te seja por
véu dos olhos a todos os que estão contigo; e
perante todos estás reabilitada. 17 Orou
A braão a D eus, e D eus sarou A bim eleque,
e a sua m ulher e as suas se rv a s; de m aneira
que tiv eram filhos; 18porque o Senhor havia
fechado totalm ente todas as m ad res da casa
de A bim eleque, por causa de S ara, m ulher
de A braão.
Nesta seção, Abimeleque é retratado
como pessoa reta que foi tratada mal por
Abraão. O patriarca tentou apresentar
algumas desculpas esfarrapadas por ter
agido tão desonestamente, mas a fraque­
za de seus argumentos o traiu. A sua
243
resposta às acusações é uma ilustração
clássica da tendência dos melhores ho­
mens de racionalizar os seus atos.
Para trazeres sobre mim e sobre o meu
reino tamanho pecado. Embora Abime-
leque não soubesse que Sara já era casa­
da, assim mesmo pecou por levá-la para
o seu harém.
Fizeste o que não se deve fazer. Abi-
meleque revela uma consciência mais
sensível do que Abraão, a este respeito.
Como é fácil as pessoas que foram esco­
lhidas por Deus pensarem que o fato de
terem sido escolhidas as torna isentas dos
códigos morais que governam as outras
pessoasl Esta situação não era devida ao
fato de que Abraão não sabia que a sua
atitude fora errada. Ele via a situação
como uma exceção à regra. Visto que
fora escolhido por Deus para abençoar o
mundo todo, ele precisava tomar cuidado
para não ser morto, e assim ser frustrado
todo o propósito de Deus. Como falhou
em fé o pai dos que crêem! Certamente o
Deus que o havia chamado o havia de
proteger.
Ela é realmente minha irmã. A tenta­
tiva para se esconder por detrás de uma
meia-verdade foi mais enganosa do que
uma mentira sem rebuços. Não é difícil
demais perceber a falsidade. É a meia-
verdade que é mais difícil de identificar.
Quando Deus me fez sair errante. Aqui,
Abraão estava pondo a culpa de sua
situação precária em Deus, bem seme­
lhantemente a Adão, antes dele. Um
verbo plural é usado em relação a Deus, e
poderia ser traduzido: “Quando deuses
me fizeram.” Abraão parecia um pagão
conversando com um pagão. Elohim,
que é um substantivo plural, raramente é
usado com um verbo plural para descre­
ver o Deus de Israel (cf. Gên. 35:7; Êx.
22:9; II Sam. 7:23).
Em todo lugar. Isto pode ser uma
tentativa de explicar a multiplicidade de
histórias em que o patriarca pôs em risco
a sua esposa. Mais uma vez, este pode ser
um retrato exato do comportamento de
Abraão (cf. Kidner).
A despeito da defesa obviamente fraca
de Abraão, Abimeleque fez quatro coisas
inusitadas e totalmente inesperadas:
(1) Pagou o mal com o bem, deu a
Abraão presentes semelhantes aos dados
como dote. Quando cabia a Abraão
fazer restituição, Abimeleque o fez
por ele. O ato estranho de Abimeleque
torna ainda mais notável o fracasso de
Abraão em expressar qualquer tristeza
pelo que havia feito. Por que Deus não
exigiu o arrependimento de Abraão?
É possível que esses antigos narradores
bíblicos não vissem necessidade de que
ele se arrependesse. De fato, pode ser
que eles tenham achado que este era um
exemplo da astúcia hebraica, necessária
para sobreviver em uma terra estranha.
Contudo, é provável que eles procuras­
sem dar a impressão de que o embaraço
público foi castigo suficiente, e as descul­
pas desajeitadas, uma admissão óbvia da
culpa.
(2) Ao chamar Abraão de “irmão” de
Sara, Abimeleque lhe deu o dinheiro que
ordinariamente era pago aos parentes de
uma mulher quando ela era injuriada
(cf. Êx. 22:15 e s.; Deut. 22:23 e ss.).
Ao chamar Abraão de “irmão” dela, ele
foi capaz de evitar a idéia ofensiva de que
o patriarca estava sendo recompensado
por sua astúcia no episódio. Como “ma­
rido”, Abraão não fora injuriado; ele
havia injuriado Abimeleque. Como “ir­
mão”, ele podia receber restituição pela
ofensa.
(3) Abimeleque deu a Abraão liberda­
de de se estabelecer onde quer que dese­
jasse, em sua terra. Pode-se pensar que
ele teria ficado feliz em saber que o
patriarca abandonara para sempre o seu
país. De fato, o convite pode ser inter­
pretado como significando que ele devia
sair da cidade e procurar pastos mais
distantes, no território do reino. Contu­
do, ele, provavelmente, estava sendo sin­
cero. Abimeleque respeitava tanto o
244
Deus de Abraão, que recebia com prazer
a presença de alguém a quem Deus havia
escolhido, embora não pudesse confiar
nesse alguém!
(4) Abimeleque também declarou que
Sara estava livre de qualquer culpa. Isso
te seja por véu dos olhos é expressão
literal que, provavelmente, significa que
aquilo a protegeria de qualquer crítica.
Desta forma, ele estava declarando que
não a considerava culpada de qualquer
ofensa. Como juiz supremo da terra, ele
a havia declarado inocente.
Até que ponto o comportamento de
Abimeleque era devido a um espírito gra­
cioso e até que ponto a uma forma
engenhosa de “amontoar brasas de fogo”
sobre a cabeça de Abraão, é impossível
de determinar. Sem dúvida, entretanto,
a mão de Deus estava operando aqui,
preparando de maneira estranha e mis­
teriosa o povo de Israel para a vinda do
Mediador lusto.
12. Tensão Entre Isaque e Ismael
(21:1-21)
Esta seção continua a seqüência de
Berseba-Gerar, dos capítulos 20 a 23,
que provém primordialmente da fonte
Israelita do Norte. Os cinco primeiros
versículos são geralmente designados
como fonte Sacerdotal, tentando a mão
de um redator ligar 20:18 com 21:1, ao
colocar “o Senhor” (Yahweh) no lugar
do original “Deus” (Elohim). Contudo, é
bem possível que o escritor Sacerdotal,
que conhecia bem o nome de Yahweh, o
tivesse usado ocasionalmente, embora
ordinariamente tivesse o cuidado de não
ser anacrônico.
As marcas da fonte Sacerdotal se en­
contram claramente em 21:1-5. Há uma
referência à circuncisão no oitavo dia,
que continua o relato Sacerdotal do capí­
tulo 17. Chama-se a atenção para a idade
de Abraão. Elohim é o nome costumeiro
para a divindade, nesta passagem (v. 2 e
4).
A presença da fonte Israelita do Norte
é sugerida pelo fato de que um relato
paralelo da fonte Judia ocorre no capítu­
lo 16. Ali, Agar estava grávida; aqui,
Ismael já nasceu. Em ambas as narrati­
vas um anjo a tranqüilizou, e ela refres-
cou-se num poço. As características típi­
cas da fonte Israelita do Norte encon­
tradas aqui são: (1) preocupação com
problemas éticos (Abraão relutou em
mandar Agar embora, enquanto, no cap.
16, ele deixou Sara fazer o que desejava);
(2) preocupação com os menos privile­
giados (Agar era a escrava indefesa, que,
aparentemente, não fizera nada de erra­
do); (3) uma ênfase na transcendência de
Deus (o anjo fala do céu, em vez de
encontrá-la na terra, como no cap. 16);
(4) o uso de Elohim como nome da divin­
dade.
Será que temos duas edições diferen­
tes do mesmo evento, relatos que se
desenvolveram em diferentes direções, a
partir de uma fonte comum? Skinner
pensa que assim é, mas não pode haver
uma conclusão definitiva a respeito deste
assunto. É bem possível que Agar tenha
sido expulsa para o deserto tanto antes
quanto depois do nascimento de Ismael,
e que o fato de a fonte Israelita do Norte
ter lembrado esse episódio tenha sido
colorido pela narrativa da fonte Judia.
1) O Nascimento de Isaque (21:1-7)
10 Senhor visitou a S ara, com o tinha dito,
e lhe fez como havia prom etido. 2 S ara
concebeu, e deu a A braão um filho na sua
velhice, ao tem po determ inado, de que Deus
lhe fa la ra ; 3 e A braão pôs no filho que lhe
n ascera, que S ara lhe d era, o nom e de Is a ­
que. 4 E A braão circuncidou a seu filho Is a ­
que, quando tinha oito dias, conform e D eus
lhe ordenara. 5 O ra, A braão tinha cem anos,
quando lhe nasceu Isaque, seu filho. 6 Pelo
que disse S ara: D eus preparou riso p a ra
m im ; todo aquele que o ouvir, se rirá com i­
go. 7 E acrescentou: Q uem d iria a A braão
que S ara havia de am am en tar filhos? No
entanto, lhe dei um filho na sua velhice.
As tentativas mais antigas para identi­
ficar a narrativa da fonte Judia, nos dois
245
primeiros versículos (cf. Skinner), foram
abandonadas, em face da convicção mais
recente de que as redundâncias e outras
peculiaridades são devidas ao estilo Sa­
cerdotal propriamente dito e a revisões
editoriais posteriores.
No versículo 6, podemos ter a conota­
ção Israelita do Norte do nome de “Isa-
que”. Todos rirão com Sara por causa do
acontecimento incrível do nascimento de
um filho, para os dois, em sua idade
avançada. A fonte Sacerdotal havia rela­
cionado esse nome com a incredulidade
de Abraão (17:17), enquanto o escritor
da fonte Judia lembrou-se da increduli­
dade de Sara (18:12). Von Rad considera
o significado como “possa a divindade
sorrir (sobre a criança)”, mas, para con­
seguir este significado, ele precisa con­
jecturar que ’El (divindade) perdeu-se
desse nome. O significado literal de “Isa-
que”, como o temos agora, é “riso” ou
“um sorriso”. As gerações posteriores
encontraram, nesta palavra, significados
que, possivelmente, eram desconhecidos
para os que deram nome à criança. Não
obstante, quem pode provar que as três
conotações sugeridas pela Escritura não
estavam presentes originalmente? O nas­
cimento dè Isaque foi um acontecimento
incongruente, de qualquer perspectiva
possível. A maioria das tentativas moder­
nas de se definir o seu nome ignoram esta
acepção do nome original — a natureza
surpreendente do nascimento propria­
mente dito.
2) A Inveja de Sara (21:8-14)
8 C resceu o m enino, e foi d esm am ado; e
A braão fez um grande banquete no dia em
que Isaque foi desm am ado. 9 O ra, S ara viu
brincando o filho de A gar a egípcia, que esta
d era à luz a A braão. 10 Pelo que disse a
A braão: D eita fora esta serv a e o seu filho;
porque o filho d esta serva não será herdeiro
com m eu filho, com Isaque. 11 P areceu isto
bem duro aos olhos de A braão, por causa de
seu filho. 12 D eus, porém , disse a A braão:
Não p areça isso duro aos teus olhos por
causa do moço e por causa da tu a se rv a ; em
tudo o que S ara te diz, ouve a sua voz;
porque em Isaque será cham ada a tu a des­
cendência. 13 M as tam bém do filho desta
serv a farei um a nação, porquanto ele é da
tu a linhagem . 14 E ntão, se levantou A braão
de m anhã cedo e, tom ando pão e um odre de
água, os deu a A gar, pondo-os sobre o om bro
dela; tam bém lhe deu o m enino e despe­
diu-a ; e ela p artiu e foi andando erran te pelo
deserto de Beer-Seba.
A época costumeira para o desmame
era mais ou menos aos três anos de
idade. Gênesis 17:24,25 (fonte Sacerdo­
tal) diz que Abraão tinha noventa e nove
anos de idade quando foi circuncidado, e
Ismael tinha treze. Agora Abraão tinha
pelo menos cem, e Ismael quatorze. Se
Isaque foi desmamado aos três anos,
Ismael devia ter dezessete! Devido à
avançada idade de Sara, contudo, Isa­
que, provavelmente, foi desmamado
mais cedo.
Sara viu brincando o filho de Agar.
O nome de Ismael jamais é mencionado
neste capítulo, embora haja um jogo de
palavras com o seu nome, que significa
“Deus ouviu” (v. 17). “Caçoava de Isa­
que”, é o que diz a Versão Atualizada da
SBB. Deste verbo é que provém a pala­
vra Isaque. Falta, ao texto hebraico, a
expressão “de Isaque”, que aparece na
LXX e na Vulgata. O problema é o
significado do particípio. O sentido cos­
tumeiro do verbo é “brincar”, mas pode
significar rir de alguém, insultar ou zom­
bar, como em 39:14,17, onde a esposa de
Potifar acusou José. Nessa passagem a
preposição be (sobre, a respeito de) é
usada com o verbo. Aqui ela não ocorre,
pois o verbo não tem nenhum objeto.
Os rabis desenvolveram a teoria de que
nesta passagem esta palavra não significa
zombar, citando Êxodo 32:6, II Samuel
2:14 e Provérbios 26:19 como evidência
de que este termo tinha uma conotação
pejorativa.
O apóstolo Paulo, quando se referiu a
Ismael perseguindo Isaque, estava ba­
seando a sua opinião na interpretação
rabínica. O fato de que eles tinham uma
compreensão adequada da palavra é uma
246
opção viável, visto que as evidências pre­
sentes não são conclusivas. Ismael era
suficientemente crescido para saber que
Isaque o substituíra, e deve ter desen­
volvido algum ressentimento. É o contex­
to, e não a palavra isoladamente, que
sugere o significado proposto pelos rabis.
Pareceu isto bem duro aos olhos de
Abraão. Muito antes, até mesmo de Isa­
que nascer, Abraão aprendera a amar
Ismael, e esse amor não havia diminuído.
O filho de Agar era também uma garan­
tia extra do cumprimento da promessa,
no caso de que algo acontecesse com
Isaque.
Ouve a sua voz. Isto era difícil para um
homem na época de Abraão. No capítulo
16, Sara apelara para ele, e ele lhe dera
liberdade para agir. Aqui, ela exigiu o
que desejava, e Abraão não estava acos­
tumado a receber ordens dela. Além
disso, as exigências dela eram desapieda­
das e desumanas. O fato de Deus ficar do
lado dela foi bastante inesperado. No
Velho Testamento, ele geralmente está
do lado dos oprimidos. Desta vez, po­
rém, ele está preparando Abraão para o
teste do capítulo 22. Se Ismael ainda
fosse uma opção para Abraão, o chama­
do para sacrificar Isaque não seria tão
severo.
Pondo-os sobre o ombro dela; também
lhe deu o menino. Outras versões (a LXX
e a Siríaca) dizem claramente que o
menino foi colocado no ombro dela (cos­
tas), juntamente com o odre de água.
O hebraico é ambíguo. Isto pode ser
devido aos problemas que os editores en­
frentaram em relação à idade de Ismael.
Se ele tinha quinze anos, dificilmente ela
poderia tê-lo carregado.
3) Promessa Divina a Agar (21:15-21)
15 E consum ida a água do odre, A gar
deitou o m enino debaixo de um dos arbustos,
16 e foi assentar-se em frente dele, a boa
distância, como a de um tiro de a rc o ; p o r­
que d izia: Que não veja eu m o rrer o m enino.
Assim sentada em frente dele, levantou a
sua voz e chorou. 17 M as Deus ouviu a voz do
m enino; e o anjo de D eus, bradando a A gar
desde o céu, disse-lhe: Que tens, A gar? não
tem as, porque D eus ouviu a voz do m enino
desde o lugar onde está. 18 E rgue-te, levanta
o m enino e tom a-o pela m ão, porque dele
farei um a grande nação. 19 E abriu-lhe os
olhos, e ela.v iu um poço; e foi encher de
água o odre e deu de beber ao m enino.
20 D eus estav a com o m enino, que cresceu,
e, m orando no deserto, tom ou-se flecheiro.
21 E le habitou no deserto de P a rã ; e sua
m ãe tom ou-lhe um a m ulher da te rra do
Egito.
Levantou a sua voz. O hebraico diz
que ela levantou a sua voz, mas seria
estranho a passagem dizer que ela levan­
tou a voz e Deus ouviu a voz do menino
(v. 17), e não a dela. Aparentemente,
ambos estavam soluçando. Nenhum de­
les estava orando, mas Deus ouviu o seu
clamor de tristeza como se fosse uma
oração.
Toma-o pela mão, foi dito a Agar,
porque o futuro dele estava nas mãos
dela. Não tendo pai, ele precisaria da
constante devoção dela. Note-se que
Agar teve que conseguir-lhe casamento,
dever que geralmente era o pai que de­
sempenhava. Naturalmente, ela se voltou
para a sua terra natal, o Egito, procuran­
do uma esposa para o seu filho.
13. Pacto com Abimeleque (21:22-34)
22 N aquele m esm o tem po A bim eleque,
com Ficol, o chefe do seu exército, falou a
A braão, dizendo: D eus é contigo em tudo o
que fazes; 23 agora, pois, jura-m e aqui por
Deus que não te h av erás falsam ente com i­
go, nem com o m eu filho, nem com o filho do
m eu filho; m as, segundo a beneficência que
te fiz, m e farás a m im , e à te rra onde
peregrinaste. 24 K espondeu A braão: E u ju ­
rarei. 25 A braão, porém , repreendeu a Abi­
m eleque por causa de um poço de água, que
os servos de Abim eleque haviam tom ado à
força. 28 Respondeu-lhe A bim eleque: Não
sei quem fez isso ; nem tu mo fizeste saber,
nem tam pouco ouvi eu falar nisso, senão
hoje. 21 Tomou, pois, A braão, ovelhas e bois,
e os deu a A bim eleque; assim fizeram entre
si um pacto. 28 Pôs A braão, porém , à p arte,
sete cordeiras do rebanho. 29 E perguntou
Abimeleque a A braão: Que significam estas
sete cordeiras que puseste à p arte? 30 R es­
pondeu A braão: E stas sete cordeiras rece-
247
b erás da m inha m ão p a ra que m e sirv am de
testem unho de que eu cavei este poço. 31 P e ­
lo que cham ou aquele lu g ar Beer-Seba, p or­
que ali os dois ju ra ra m . 32 A ssim fizeram
um pacto em Beer-Seba. Depois se lev an ta­
ra m Abim eleque e Ficol, o chefe do seu
exército, e to rn aram p a ra a te rra dos filis­
teus. 33 A braão plantou u m a tam arg u eira
em Beer-Seba, e Invocou ali o nom e do Se­
nhor, o D eus eterno. 34 £ peregrinou A braão
n a te rra dos filisteus m uitos dias.
Alguns expositores encontram, nesta
seção, duas narrativas de pactos celebra­
dos: um selado pelo presente de Abraão,
de ovelhas e bois, dando, desta forma, ao
nome de Beer-Seba o significado de “Po­
ço do Juramento” (v. 22-24,27,31), e o
outro, confirmado pelo presente de sete
cordeiras, conferindo, desta forma, a
Beer-Seba o significado de “Poço das
Sete” (v. 25,26 28-30,32). Gunkel insis­
tiu que o último relato era da fonte Judia,
mas von Rad e comentaristas mais recen­
tes asseveram que toda a passagem deri­
va da fonte Israelita do Norte, que con­
tém as duas narrativas do pacto. Speiser
propõe que a história não requer recons­
trução tão radical, e a considera como
ocorrendo em uma só peça. Houve uma
cerimônia com duas partes. Na primeira
parte, Abimeleque pediu a boa vontade
de Abraão, e isso foi selado com os
presentes de Abraão. Na outra, Abraão
pediu de Abimeleque o reconhecimento
de seus direitos sobre o poço de Beer-
Seba, e presenteou-o com as sete cordei­
ras como oferta de paz. A cerimônia de-
senrolou-se em dois estágios, porque um
precisava tratar do problema de Abime­
leque, e o outro, o problema de Abraão.
O aspecto estranho do caso, entretanto,
foi que Abraão teve que fazer presentes
em ambas as vezes. Geralmente, havia
troca de presentes. Aqui, Abraão, o pere­
grino, reconhecia a soberania de Abi­
meleque.
Segundo a benevolência que te fiz sig­
nifica, literalmente, “mas de acordo com
a chesed (lealdade) que pratiquei para
com você”. Esta é uma declaração bas­
tante incomum. A palavra hebraica che­
sed, traduzida como “bondade”, “ama­
bilidade” ou “longanimidade”, é pala­
vra geralmente usada exclusivamente em
termos de relações com o pacto entre
Yahweh e Israel. É amor no contexto do
pacto. Israel praticava chesed para com
Deus, e Deus, para com Israel. Os he­
breus tinham chesed uns para com os
outros, mas não para com os gentios,
nem se diz que Deus tinha chesed para
com os gentios. No entanto, aqui se faz
menção de um relacionamento de chesed
entre um rei gentio e Abraão.
De fato, a fonte Israelita do Norte é
sempre generosa para com Abimeleque.
Talvez o escritor, estando fora de Judá,
fosse geralmente mais condescendente
para com os gentios. Ele sabia o que era
ser rejeitado por não estar identificado
com as instituições de Jerusalém. Ele
também estava sendo profético, ao retra­
tar Abimeleque, tanto aqui como no
capítulo 20, como sendo, em muitas ma­
neiras, moralmente superior a Abraão.
Talvez ele estivesse dizendo que freqüen­
temente é verdade que os escolhidos de
Deus são ultrapassados em virtude por
aqueles que estão fora da fé.
Nem tu mo fizeste saber. Com que
freqüência um pastor tem feito esta ob­
servação, quando o povo se queixa a ele
de negligência acerca de fatos de que ele
não está sabendo! Como pode ele saber,
se não lhe contarem?
Invocou ali o nome do Senhor, o Deus
etemo, é geralmente atribuído à fonte
Judia, mas este é, na verdade, um dos
conceitos mais antigos de Gênesis. Quan­
do Deus é chamado de ’El ‘Olam (Deus
Sempiterno), significa que ele é o Deus
do passado e do futuro. ‘Olam significa,
literalmente, “oculto”, e se refere tanto
ao passado quanto ao futuro ocultos, tão
distantes quanto se possa imaginar.
Esta referência pode significar que
Deus já era adorado com este nome no
santuário de Beer-Seba. Abraão verificou
que o Deus de Beer-Seba era o seu Deus,
e incorporou este conceito na estrutura
248
da adoração de Yahweh. Desta forma,
os hebreus não conquistaram apenas a
terra de Canaã; apropriaram-se dos as­
pectos da religião cananéia, que eram
coerentes com a deles. Pode ser que
Abraão não tivesse pensado em Yahweh
como “eterno” até que notou que o povo
de Beer-Seba estava chamando Deus de
’El ‘Omam. Então ele percebeu que Yah­
weh, na verdade, merecia também esse
título. Isto não significa que ele adotou
costumes cananeus de culto, mas que ele
pode ter feito concessões aos seus concei­
tos, quando coerentes com a sua fé, para
enriquecer ainda mais o seu entendi­
mento de Deus.
Na terra dos filisteus. Esta declaração
pode ser editorial. Von Rad declara-a
“um grosseiro anacronismo” (p. 232).
Os filisteus só invadiram a Palestina de­
pois da época de Abraão. Contudo, este
anacronismo não seria um erro grosseiro.
O escritor podia saber que os filisteus
não estavam ali na época de Abraão, mas
usou esta expressão para identificar a
região, para os seus leitores, em uma
época respectiva.
14. O Sacrifício de Isaque (22:1-24)
Este capítulo expressa os conceitos
mais profundos encontrados nas narrati­
vas patriarcais. Ele é elaborado mais
cuidadosamente do que qualquer passa­
gem de Gênesis, exceto o capítulo 1.
A sua narrativa faz inquirições à mais
profunda compreensão do relacionamen­
to de Deus com o homem. Isaque não
era apenas o filho amado de Abraão; ele
representava o objetivo de toda a vida
dele e todas as promessas que Deus havia
feito a ele. Se ele entregasse Isaque a
Deus, não restaria mais nada. O que
Deus dera, parecia que agora estava to­
mando de volta. Não se esperava que
Abraão entendesse; esperava-se apenas
que ele obedecesse.
Esta narrativa é atribuída à fonte Is­
raelita do Norte por quase todos os erudi­
tos. Há todas as indicações de que esta
pode ser a obra desse escritor. Deus fala
do céu em seu anjo; Elohim (Deus) é o
termo costumeiro que designa a divin­
dade; e a história é profundamente teo­
lógica. A retratação vívida dos aconteci­
mentos, em a narrativa, contudo, é mais
semelhante à narrativa da fonte Judia.
Isto leva Speiser a sugerir que esta his­
tória originalmente era material da fonte
Judia, que foi modificado pela substitui­
ção de Yahweh (Senhor) por ’Elohim
(Deus). É provável que o escritor da fonte
Israelita do Norte, trabalhando com perí­
cia adicional, por causa de seu maior
cuidado, produziu, aqui, sob a direção
de Deus, a sua obra-prima. O uso de
“o Senhor”, neste capítulo, é devido à
obra de um redator, ou pode revelar o
que ficou implícito acima, embora a pre­
ferência do nome de Elohim, para Deus,
não seja adversa ao uso de Yahweh.
1) A Fidelidade de Abraão (22:1-14)
1 Sucedeu, depois destas coisas, que D eus
provou a A braão, dizendo-lhe: A braãot E
este respondeu: E is-m e aqui. 2 Prosseguiu
D eus: Tom a ag o ra o teu filho, o teu único
filho, Isaque, a quem a m a s; vai à te rra de
M oriá, e oferece-o ali em holocausto sobre
um dos m ontes que te hei de m o strar. 3 L e­
vantou-se, pois, A braão, de m an h ã cedo,
albardou o seu jum ento, e tom ou consigo
dois dos seus m oços e Isaque, seu filho; e,
tendo cortado lenha p a ra o holocausto, p a r­
tiu p a ra ir ao lu g ar que D eus lhe dissera.
4 Ao terceiro dia levantou A braão os olhos, e
viu o lugar de longe. 5 E disse A braão a seus
m oços: Ficai-vos aqui com o jum ento, e eu e
o m ancebo irem os a té lá; depois de a d o ra r­
m os, voltarem os a vós. 6 Tomou, pois,
A braão a lenha do holocausto e a pôs sobre
Isaque, seu filho; tom ou tam bém n a m ão o
fogo e o cutelo, e foram cam inhando juntos.
7 E ntão disse Isaque a A braão, seu p ai: M eu
pai! Respondeu A braão: E is-m e aqui, m eu
filho! Perguntou-lhe Isaque: E is o fogo e a
lenha, m as onde está o cordeiro p a ra o holo­
causto? 8 Respondeu-lhe A braão: Deus p ro ­
v erá p a ra si o cordeiro p a ra o holocausto,
m eu filho. E os dois iam cam inhando juntos.
9 H avendo eles chegado ao lugar que D eus
lhe dissera, edificou A braão ali o a lta r e pôs
a lenha em o rd em ; e am arro u Isaque, seu
filho, e o deitou sobre o a lta r em cim a da
lenha. 10 E , estendendo a m ão, pegou no
249
cutelo p a ra im olar a seu filho. 11 M as o anjo
do Senhor lhe bradou desde o céu, e d isse:
A braão, A braão! E le respondeu: Eis-m e
aqui. 12 E ntão disse o anjo: Não estendas a
m ão sobre o m ancebo, e não lhe faças nada;
porquanto agora sei que tem es a D eus, visto
que não m e negaste teu filho, o teu único
filho. 13 Nisto levantou A braão os olhos e
olhou, e eis a trá s de si um carneiro em b a ra ­
çado pelos chifres no m ato ; e foi A braão,
tom ou o carneiro e o ofereceu em holocausto
em lugar de seu filho. 14 Pelo que cham ou
A braão àquele lugar Jeová-Jlré ; donde se
diz a té o dia de h o je: No m onte do Senhor se
proverá.
Esta narrativa começa alertando o lei­
tor para o fato de que esta foi uma prova
a que Deus estava para submeter Abraão.
Não foi uma prova que Abraão apresen­
tou a si mesmo. Provavelmente, Abraão
já se havia perguntado se amava o seu
Deus tanto quanto os seus vizinhos pa­
gãos amavam os seus, quando lhes ofe­
reciam os seus filhos. Não estamos certos
de como os sacrifícios humanos eram
comuns naquela época, mas há evidên­
cias de que eles eram praticados (cf.
Speiser). Embora Abraão pudesse ter-se
feito pergunta tão difícil de responder,
um homem dirigido e abençoado por
Deus de maneira tão notória teria que
ouvir do próprio Deus o imperativo para
fazer tal sacrifício.
Como podia o Deus de amor revelado
por Jesus Cristo ter pedido tal coisa de
um homem? Hoje em dia, ele certamente
não faria isto, pois sabemos, através da
própria lei de Israel e dos seus profetas,
que certamente se basearam no resultado
deste acontecimento, que o sacrifício hu­
mano não ê aceitável a Deus. Na época
de Abraão não é provável que houvesse
uma compreensão clara da atitude de
Deus para uma oferta dessas. De fato,
por meio desta ordem a Abraão, Deus,
mais tarde, seria capaz de demonstrar
positivamente que não queria esse sacri­
fício de forma alguma. Ele só desejava
que Abraão estivesse disposto a fazê-lo.
Embora Abraão não tenha demons­
trado nenhuma percepção deste fato, na
época (I Ped. 1:19,20), Deus certamente
tinha em mente o que um dia realizaria
através de seu Filho amado, Jesus Cristo.
O mundo um dia entenderia melhor o
coração de Deus, quando o visse permi­
tindo o sacrifício de seu próprio Filho.
O que Deus não permitiu que um pai
terreno fizesse, ele mesmo fez.
A prova registrada aqui é diferente das
outras registradas em Gênesis. No capí­
tulo 12, Deus pediu a Abraão para deixar
o seu passado. Isto ele fez sem hesitação.
Nos anos que se seguiram, Deus esperou
que ele deixasse a sua ansiedade a respei­
to do fato de que Deus iria cumprir a sua
palavra. No capítulo 15, ele passou nessa
prova. Agora, ele lhe pedia que abrisse
mão de seu futuro. Esta, embora fosse de
todas a decisão mais dolorosa, ele tam­
bém estava disposto a tomar. Confiando
em Deus, ele seguiria para onde ele o
dirigisse, pois o futuro estava em Suas
mãos.
O teu único filho, Isaque. Que dizer de
Ismael? Para Abraão, não havia voltar
atrás. Este era, da parte de Deus, um
lembrete a esse respeito. E também nos
permite ver que Deus compreendia ple­
namente a agonia que esta decisão causa­
ria a Abraão.
Vai à terra de Moriá. O único indício
que temos a respeito da localização desta
região é a declaração que consta em
II Crônicas 3:1, de que o Templo de
Salomão foi construído sobre o Monte
Moriá. Contudo, o cronista relaciona
esta localização com o encontro de Davi
com o Senhor naquele lugar. Se o cronis­
ta soubesse que a prova de Abraão tam­
bém tivera lugar ali, não a teria mencio­
nado também? Por outro lado, ele sabia
que os seus leitores já sabiam disso, pois,
na sua época, o Pentateuco já estava
completo.
Levantou-se, pois, Abraão de manhã
cedo, antes que Sara acordasse. Ele não
ousava demorar-se.
Voltaremos a vós. No verbo, é encon­
trada a mesma pessoa que na expressão
anterior: “nós voltaremos a vós” — em
250
outras palavras, Abraão e Isaque volta­
riam. O escritor do livro de Hebreus
devia ter este fato em mente, quando
declarou: “Julgando que Deus era pode­
roso para até dos mortos o ressuscitar”
(Heb. 11:19). Deus havia prometido a
Abraão que seria através de Isaque que a
promessa seria cumprida. Agora Deus
estava pedindo a Abraão para entregar-
lhe Isaque, e parecia que este era o fim
também da promessa. Mas Abraão con­
fiava que Deus cumpriria a sua promes­
sa. Como poderia isto acontecer, se Isa­
que estivesse morto? Ele não o sabia,
mas cria que, de alguma forma, quando
voltasse daquela montanha, ao descê-la,
Isaque haveria de estar com ele: “volta­
remos a vós.” Se Isaque precisava mor­
rer, isso seria o prelúdio de outro milagre
de Deus.
Ou será que estas palavras foram usa­
das simplesmente para tranqüilizar os
seus escravos, que a essa altura certa­
mente já estavam esperando o pior? Esta
é a única alternativa da insinuação per­
cebida pelo autor do livro de Hebreus.
A sua notável percepção continua sendo
o melhor comentário deste versículo.
A pôs sobre Isaque, seu filho. Isaque
era suficientemente crescido para carre­
gar a lenha montanha acima e para se
preocupar com o animal que precisariam
para o sacrifício. Ele tinha, provavel­
mente, nove anos, no mínimo.
Deus proverá. Isto não significa que
Abraão previa que seria isentado de sua
obrigação. Ele simplesmente falou as pa­
lavras de confiança, que seriam cumpri­
das além de sua compreensão. Com uma
certeza nascida da coragem de Abraão,
os pais fiéis, através dos séculos, têm
usado essas mesmas palavras para con­
fortar os seus filhos.
Agora sei que temes a Deus. “Temer”
a Deus, no Velho Testamento, significa
segui-lo em absoluta obediência (Gên.
20:11; 42:18; II Reis 4:1; Is. 11:2; Prov.
1:7; Jó 1:1). O que ele diz você fará. O
que desejaria dizer o anjo (que realmen­
te era Deus, pois Abraão não havia nega­
do o seu filho “de mim”), ao falar:
“Agora sei...”? Será que ele não sabia
antes? Deus não conhece todas as coi­
sas? O verbo usado significa “conhecer
por experiência”, e assim as palavras
podem significar que Deus agora vira
Abraão fazer, na verdade, o que sabia
que estava em seu coração. Os atos de
Abraão haviam confirmado a confiança
que Deus depositava nele.
Eis atrás de si um carneiro. Ele estive­
ra ali o tempo todo, mas se Abraão o
tivesse visto antes, não teria feito diferen­
ça. Deve-se notar que Deus não pediu
para Abraão sacrificar o cordeiro; ele
apenas lhe disse para não sacrificar Isa­
que. O sacrifício do cordeiro foi a reação
de Abraão à graça de Deus, pois ele o
ofereceu em lugar de seu filho.
O nome do lugar onde a prova ocorreu
é citado como Yhaweh Yireh, “o Senhor
proverá” (cf. 22:8, onde o mesmo verbo é
usado; também significa ver, mas não
neste contexto). É estranho que o autor
não tenha dado o nome de um santuário
mais familiar a esta história. Von Rad e
outros ficam perplexos com isto, pois
estas histórias geralmente se desenvol­
vem e são preservadas em torno de um
santuário. Obviamente, esta não teve tal
origem. Não é a história de um santuário
cuja localização original se perdeu. Ela
nunca esteve ligada com um santuário
em particular. O escritor pretendia dei­
xar toda a narrativa no nível de mis­
tério, em que ninguém ousa entrar. A
sua falta de localização definida é para­
lela ao mistério do lugar de sepulta-
mento de Jesus. Ele era sagrado demais
para ser secularizado por peregrinos
curiosos.
A mudança do verbo, nesse provérbio,
do ativo para o passivo, indica que o
ditado era usado em contextos religiosos
à época do escritor. Talvez a sua relu­
tância de mencionar Jerusalém, mesmo
neste contexto, devia-se ao fato de que
esta é a fonte Israelita do Norte. Para ele,
251
a aplicação da verdade do provérbio não
se limitava a Judá.
2) A Promessa Renovada (22:15-19)
15 E ntão o anjo do Senhor bradou a
A braão pela segunda vez desde o céu,
16 e disse: P o r m im m esm o ju rei, diz o
Senhor, porquanto fizeste isto, e não m e ne­
gaste teu filho, o teu único filho, 17 que deve­
ra s te abençoarei, e grandem ente m ultipli­
carei a tu a descendência, como as estrelas
do céu, e como a a re ia que está n a p ra ia do
m a r; e a tu a descendência possuirá a porta
dos seus inim igos; 18 e em tu a descendência
serão benditas todas as nações d a te rra ;
porquanto obedeceste à m inha voz. 19 E ntão
voltou A braão aos seus m oços e, levantando-
se, foram juntos a B eer-Seba; e A braão
habitou em B eer-Seba.
Esta passagem, dizem alguns intérpre­
tes, é obra de um redator, especialmente
os versículos 15 a 18. A menção de uma
segunda vez nos alerta para a possibili­
dade de uma outra perícope. Todavia, a
ocasião era ideal para uma renovação da
promessa. Quer ela tenha sido ou não
mencionada na primeira parte do capítu­
lo, certamente é apropriada. Aqui, os
superlativos vão além de qualquer outra
promessa anterior. A vitória em Moriá
foi maior do que a conquista em Dã
(Gen. 14).
Por mim mesmo jurei. Esta é a única
vez que esta expressão ocorre no livro de
Gênesis, embora seja usada pelos profe­
tas. Deus jurou por si mesmo, pois não
havia outro mais alto por quem jurar.
Ele não precisava fazer isto para tomar a
promessa mais válida, mas para enfati­
zar a sua natureza compulsória em rela­
ção a si próprio. Não houve outras condi­
ções, pois a prova estava terminada.
Diz o Senhor é uma expressão comum
quando os profetas falam em lugar de
Deus, mas aqui ela ocorre no meio de um
discurso do próprio Deus, o que é inco-
mum. Ela foi colocada aqui também
para enfatizar a finalidade da promessa
feita a Abraão. Desta vez, Deus deveras o
abençoará. Pela primeira vez é-lhe asse­
gurado que os seus descendentes não
apenas impressionarão os seus inimigos,
mas os vencerão, possuirão a porta deles.
Em Mateus 16, Jesus aplica esta promes­
sa à Igreja, na batalha contra o Hades.
Quando Abraão voltou a Beer-Seba,
fica-se pensando o que ele disse a Sara.
Nada se diz a respeito dos pensamentos
dela durante aquela misteriosa semana.
De fato, o capítulo seguinte apresenta o
relato de sua morte. Poderia ela estar
relacionada com aquelas horas de incer­
teza? Uma tradição judaica posterior diz
que, quando Abraão lhe disse o que
havia acontecido, ela emitiu sete gritos e
morreu!
3) Notícias da Família (22:20-24)
20 Depois destas coisas anunciaram a
A braão, dizendo: E is que tam bém MUca
tem dado à luz filhos a N aor, teu irm ão;
21 Uz o seu prim ogênito, e Buz seu irm ão, e
Q uemuel, pai de A rão, 22 e Q uesede, Hazo,
Pildas, Jidlafe e Betuel. 23 E B etuel gerou
R ebeca. E sses oito deu à luz M ilca e N aor,
irm ão de A braão. 24 E a sua concubina, que
se cham ava R eum á, tam bém deu à luz a
Teba, G aão, T aás e M aacá.
Quando Abraão se acomodou a uma
idade avançada e tranqüila, em Beer-
Seba, chegaram-lhe notícias de seus pa­
rentes em Harã. Da mesma forma como
nò caso de Ismael (25:13 e ss.) e Jacó,
doze tribos procederam de Naor. Esta
lista parece ser uma antiga genealogia
araméia, que foi incluída em a narrativa,
a fim de preparar para as histórias de
Isaque e Rebeca. ~~
Quesede é, provavelmente, o ancestral
dos caldeus (heb., Kasdim). Betuel é
mencionado como pai de Rebeca. Con­
tudo, Labão, que é irmão dela, é men­
cionado em 29:5 como filho de Naor, o
que a faria filha de Naor. No entanto, à
luz da insofismável declaração de 24:15,
24, de que Rebeca era filha de Betuel,
podemos concluir seguramente que a pa­
lavra “filho” foi usado por Jacó no senti­
do de “descendente”, ocorrência que é
comum no Velho Testamento.
252
Porque este capítulo tem as caracte­
rísticas básicas do material Sacerdotal —
cronologia precisa e interesse em deta­
lhes — ele é comumente atribuído a essa
fonte. Von Rad diz que tais qualidades
removem toda a dúvida de que ele per­
tence à fonte Sacerdotal. No entanto,
Speiser estava convencido de que apenas
o primeiro versículo provém desse mate­
rial, pois o estilo vívido da narrativa é
mais semelhante às histórias da fonte
Judia. Uma frase que ocorre neste capí­
tulo, “todos os que entravam pela porta
da sua cidade” (v. 10 e 18), tem paralelo
em 34:24: “todos os que saíam da porta
da cidade”, em uma narrativa reconheci­
damente da fonte Judia. Tal desacordo
sublinha o fato de que as tradições bási­
cas de Gênesis não são identificadas tão
facilmente como alguns intérpretes gos­
tariam de fazer os leitores crerem. Em
alguns lugares, as várias fontes são evi­
dentes; em outros, elas são mais difíceis
de se identificar. Só podemos ter a certe­
za de que estavam trabalhando escritores
que hoje chamamos de Sacerdotais, Ju­
deus ou Israelitas do Norte. Onde ou
quando eles, na verdade, escreveram, ou
qual a amplitude de seu material, é coisa
ainda discutível. Embora grupos identi­
ficáveis de material estejam evidentes em
Gênesis, a sua verdadeira origem ainda
está por ser descoberta.
Seja qual for a fonte literária deste
capítulo, ela baseou a sua narrativa, in­
questionavelmente, em materiais autên­
ticos. Ao retratar os costumes de compra
e venda na época, ela descreve detalhes
exatos, como o confirma a arqueologia
moderna (cf. Speiser).
O aspecto mais claro da narrativa é a
sua natureza secular. Exceto em uma
expressão idiomática, o nome de Deus
não aparece de forma alguma. É uma
história que trata dos momentos mais
íntimos da existência: os problemas da
vida e da morte. Ao tratar de emoções
humanas tão intensas, ela fala apenas de
15. A Morte de Sara (23:1-20) relacionamentos humanos. Visto que o
homem desprezou, devido ao pecado, a
sua oportunidade de uma vida com signi­
ficado depois da morte, não havia nada
de sagrado a respeito da morte. Para os
sobreviventes, havia apenas a patética
tentativa dé enterrar o morto no lugar
que ficasse fora da vista deles (v. 4-6),
para que eles não tivessem que observar a
decomposição do corpo daquele a quem
amavam. Dentre todas as causas para
lamentação nos Salmos, não há nem um
único grito de tristeza acerca da perda de
um ente querido pela morte. Claro que
eles manifestavam tristeza intensa, como
Abraão fez, mas a morte era o destino
inevitável de cada pessoa. Ela precisava
ser encarada com a resignação inflexível
que cada homem precisa manifestar com
todas as forças que lhe restarem, em sua
batalha perdida contra o tempo.
Por que, então, todo um capítulo foi
dedicado às negociações de Abraão de
um lugar de sepultamento para a sua
família? Não era a maneira de o escritor
dizer que essa compra lhe dava direito à
posse da Terra da Promessa, pois era
apenas parcial. Da mesma forma, não
era simplesmente devido ao desejo de
Abraão de ter o túmulo de Sara sob os
seus cuidados, para que os ossos dela não
fossem perturbados, embora este fosse
o seu intento evidente. Gerações posterio­
res viram, nesse ato, mais importância
do que apenas isso. Abraão não precisa­
va morrer sem ver cumprida uma peque­
na parte da promessa, pois agora possuía
o seu próprio cemitério. Esta foi uma
promessa do cumprimento final para os
seus descendentes. A caverna de Macpe-
la não foi apenas escatologia realizada;
ela falou do escaton que ainda estava por
acontecer.
Gerações posteriores, de hebreus, apa­
rentemente não consideraram os túmulos
de Macpela com tanta reverência quanto
os árabes. A mesquita de Hebrom pode
estar bem em cima do lugar onde este
sepultamento teve lugar. Na época do
253
exílio, Hebrom já estava, provavelmente,
fora de território judaico, não tendo feito
os hebreus nenhuma tentativa para re­
cuperá-lo (cf. von Rad, p. 245). Obvia­
mente, portanto, o relato da compra da
sepultura tem mais que dizer a respeito
da reivindicação de Israel quanto à terra
do que a respeito de qualquer atestado
concernente ao significado da morte.
Depois que Israel tomou posse da terra,
Macpela perdeu grande parte de seu
significado. A falta de um tema teológi­
co, nesta passagem, sublinha fortemente
o interesse de Israel antigo na vida com
Deus em sua própria terra.
1) Os Preparativos Para o Sepultamento
(23:1-16)
1 O ra, os anos da vida de S ara fo ram cento
e vinte e sete. 2 E m orreu S ara em Q uiriate-
A rba, que é H ebrom , n a te rra de C anaã;
e velo A braão lam entá-la e ch o rar por ela.
3 Depois se levantou A braão de diante do seu
m orto, e falou aos filhos de H ete, dizendo:
4 E strangeiro e peregrino sou eu en tre v ó s;
dai-m e o direito de um lu g ar de sepultura
entre vós, p a ra que eu sepulte o m eu m orto,
rem ovendo-o de diante da m inha face. SRes-
ponderam -lhe os filhos de H ete: 6 Ouve-nos,
senhor; príncipe de D eus és tu entre nós;
en terra o teu m orto na m ais escolhida de
nossas sep u ltu ras; nenhum de nós te v ed a­
r á a su a sepultura, p a ra e n terrares o teu
m orto. 7 E ntão se levantou A braão e, incli-
nando-se diante do povo d a te rra , diante dos
filhos de H ete, 8 falou-lhes, dizendo: Se é de
vossa vontade que eu sepulte o m eu m orto
de diante de m inha face, ouvi-me e in te r­
cedei por m im junto a E from , filho de Zoar,
9 p a ra que ele m e dê a cova de M acpela, que
possui no fim do seu cam po; que m a dê pelo
devido preço em posse de sepulcro no m eio
de vós. 10 O ra, E from estav a sentado no
m eio dos filhos de H ete; e respondeu E from ,
o heteu, a A braão, aos ouvidos dos filhos de
H ete, isto é, de todos os que en trav am pela
porta da sua cidade, dizendo: 11 N ão, m eu
senhor; ouve-m e. O cam po te dou, tam bém
te dou a cova que nele e s tá ; n a presença dos
filhos do m eu povo ta dou; sepulta o teu
m orto. 12 E ntão A braão se inclinou diante
do povo d a te rra , 13 e falou á E from , aos
ouvidos do povo da te rra , dizendo: Se te
ag rad a, peço-te que m e ouças. D arei o preço
do cam po; tom a-o de m im , e sepultarei ali o
m eu m orto. 14 Respondeu E from a A braão:
IS M eu senhor, ouve-m e. Um terreno do
valor de quatrocentos siclos de p rata! que é
isto entre m im e ti? Sepulta, pois, o teu
m orto. 16 E A braão ouviu a E from , e pesou-
lhe a p ra ta de que este tinha falado aos
ouvidos dos filhos de H ete, quatrocentos si­
clos de p ra ta , m oeda corrente en tre os m e r­
cadores.
A idade de Sara é a única mencionada
em relação a uma mulher, no Velho Tes­
tamento. Pode-se imaginar que ela fazia
lembrar todas as pessoas de sua idade
como Deus lhe dera um filho aos noventa
anos. A sua morte antes da de Abraão
também nos faz lembrar que, nos anos
passados, os homens geralmente sobrevi­
viam às suas esposas, algumas vezes a
várias esposas.
O lugar da morte e sepultamento de
Sara foi Hebrom, que anteriormente era
chamada de Quiriate-Arba, “Cidade dos
Quatro” . Este nome, aplicado ao antigo
túmulo dos pais, pode ter inspirado o
conceito da “cidade quadrangular” , em
Ezequiel e Apocalipse. Quando vimos
Abraão pela última vez, em Gênesis 22,
ele ainda estava em Beer-Seba.
Estrangeiro e peregrino, Abraão não
tinha direitos que lhe permitissem pos­
suir terras. Ele pediu um privilégio espe­
cial dos “filhos de Hete”, que é a expres­
são idiomática hebréia no decorrer deste
capítulo, traduzida como “hititas” na
RSV, versão em inglês que serve de base
para este comentário nesta língua. A
narrativa usa intencionalmente este no­
me para aplicá-lo aos aborígenes cana-
neus (15:20). Pode ser que eles tivessem
descendido originalmente dos hititas da
Ãsia Menor, mas haviam assimilado a
cultura palestina (cf. 10:15). Este povo
não-cananeu estava mais inclinado a ven­
der terra a Abraão do que os cananeus
mais firmemente estabelecidos.
Príncipe de Deus és tu. A versão ingle­
sa RSV diz: “tu és um príncipe podero­
so”, mas a versão da IBB traduz mais
fielmente o original hebraico. Esta, pro­
vavelmente, era uma expressão idiomá-
254
tica que enfatizava o poderio de Abraão.
A palavra traduzida como “príncipe”
provém da raiz “eleito” , e, geralmente,
designava alguém eleito para cargo pú­
blico. Embora a expressão “eleito de
Deus” fosse apenas um pouquinho de
lisonja oriental, descrevia Abraão melhor
do que eles sabiam!
Um terreno do valor de quatrocentos
siclos foi a maneira polida de Efrom dar
preço ao campo. Não há maneira de
avaliar comparativamente o preço que
Abraão teve que pagar. Contudo, me­
diante todos os padrões que nos são
conhecidos, ele foi exorbitante. Nos re­
gistros seculares existentes, a respeito
dessa região, o preço médio para a venda
de aldeias inteiras era de cem a mil
siclos. Toda a colina de Samária foi
comprada por Onri por seis mil siclos, ou
dois talentos (I Reis 16:24). Obviamente,
Efrom estava explorando a situação.
Abraão não estava na posição de rega­
tear. Para ele, valia esse preço, embora
não fosse o seu valor comercial. As igre­
jas que se recusam a pagar mais do que o
valor comercial, por alguma propriedade
de que necessitem, não demonstram tan­
ta sabedoria quanto Abraão. Para ele, o
problema não era: “Estou sendo defrau­
dado?” mas: “Sou capaz de comprar o
que preciso obter?”
Moeda corrente entre os mercadores.
Naqueles dias não havia padrões estabe­
lecidos de peso e medida. O consumidor
tanto quanto o produtor dependiam de
padrões estabelecidos pelos mercadores
da região.
2) Uma Sepultura da Família (23:17-20)
17 Assim o cam po de E from , que estava
em M acpela, em frente de M anre, o cam po e
a cova que nele estav a, e todo o arvoredo
que havia nele, por todos os seus lim ites ao
redor, se confirm aram 18 a A braão em pos­
sessão na p resença dos filhos de H ete, isto é,
de todos os que entravam pela porta da sua
cidade. 19 Depois sepultou A braão a S ara
sua m ulher na cova do cam po de M acpela,
em frente de M anre, que é H ebrom , n a te rra
de C anaã. 20 A ssim o cam po e a cova que
nele estav a foram confirm ados a A braão
pelos filhos de H ete em possessão de sepul­
tu ra.
As especificações seguem de perto a
terminologia de transações legais. A la-
vratura da escritura foi devidamente tes­
temunhada por toda a comunidade. Não
se pouparam esforços para tornar a ven­
da de validade em qualquer tempo.
Abraão sabia mui bem que o contrato
legál haveria de sobreviver a ele próprio,
e era a única proteção contínua para o
sepulcro da família. Ali, ele iria ser se­
pultado, seguido por Rebeca, Isaque (35:
29), Léia (49:31) eJacó (50:13).
Neste capítulo, vemos Abraão no mo­
mento de sua tristeza mais intensa, de­
monstrando uma notável clareza de ra­
ciocínio, negociando com os filhos de
Hete com uma prontidão incomum em
situações como essa. A fé não o capa­
citava apenas a caminhar com Deus; ela
lhe dava dignidade em face aos seus
vizinhos.
16. Conseguindo uma Esposa Para Isa­
que (24:1-67)
Esta narrativa da fonte Judia é a mais
longa e a mais encantadora de todas as
histórias patriarcais. Sendo três vezes
mais longa do que as narrativas indepen­
dentes, em média, é a unidade mais com­
prida de Gênesis. Não é uma história
tradicional, mas uma historieta curta,
em forma literária, um relato indepen­
dente em si mesmo. Chamá-lo de histo­
rieta independente não quer dizer que ele
não esteja baseado em fatos, pois esta
narrativa é, certamente, verdadeira e fiel
à situação vivencial da época, como tem
sido verificado por todos os critérios dis­
poníveis. É uma história baseada em
evento que realmente ocorreu, mas con­
tada com a perícia consumada de um
grande artista literário.
1) O Encargo de Eliézer (24:1-9)
1 O ra, A braão e ra já velho e de idade
av a n ç a d a ; e em tudo o Senhor o havia aben­
255
çoado. 2 E disse A braão ao seu servo, o m ais
antigo da casa, que tinha o governo sobre
tudo o que po ssu ía: Põe a tu a m ão debaixo
da m inha coxa, 3 p a ra que eu te faça ju ra r
pelo Senhor, D eus do céu e da te rra , que não
to m arás p a ra m eu filho m ulher dentre as
filhas dos cananeus, no m eio dos quais eu
habito; 4 m as que irá s à m inha te rra e à
m inha paren tela, e dali to m arás m ulher
p a ra m eu filho Isaque. 5 Perguntou-lhe o
servo: Se porventura a m ulher não quiser
seguir-m e a esta te rra , farei, então, to rn ar
teu filho à te rra donde saíste? 6 Respondeu-
lhe A braão: G uarda-te de fazeres to m a r
p a ra lá o m eu filho. 7 O Senhor, D eus do céu,
que m e tirou da casa de m eu pai e da te rra
da m inha parentela, e que m e falou, e que
m e jurou, dizendo: À tu a sem ente d arei esta
te rra ; ele enviará o seu anjo adiante de ti,
p a ra que tom es de lá m ulher p a ra m eu filho.
8 Se a m ulher, porém , não quiser seguir-te,
serás livre deste m eu ju ram en to ; som ente
não farás m eu filho to m a r p a ra lá. 9 E ntão
pôs o servo a sua m ão debaixo da coxa de
A braão seu senhor, e jurou-lhe sobre este
negócio.
Não somos informados qual era o
nome do servo que é o centro de atenções
neste capítulo, mas a declaração de 15:2
sugere que pode ter sido Eliézer. Se
assim foi, encontrar uma esposa para
Isaque era, para ele, o mais elevado ato
de lealdade ao seu senhor Abraão. Se
Isaque não encontrasse esposa e não
tivesse herdeiros, Eliézer seria o seguinte
na linhagem para receber a herança.
Servo (heb., ‘ebed) pode significar o de
qualquer papel, desde o de um escravo
comum até o de ministro do conselho
real. Aqui, o ofício devia ser o de um
mordomo responsável. Embora a identi­
ficação não seja, de forma alguma, certa,
na discussão deste capítulo, o servo que
mereceu tanta confiança será menciona­
do como Eliézer, visto que não há outro
nome mais conveniente para se usar.
Põe a tua mão debaixo da minha coxa.
Esta maneira de selar um juramento é
apresentada apenas aqui e em 47:29,
sendo ocasionadas ambas as ocorrências
pela morte iminente de um patriarca.
A palavra “coxa” é a costumeiramente
usada para essa parte do corpo, signifi­
cando a parte inferior do tronco ou a
superior da perna. Alguns estudiosos
(von Rad e Skinner) presumem que se
refere aos órgãos genitais, pois a frase
“que saíram da sua coxa” é usada em
relação à geração de filhos (cf. 46:26;
Ex. 1:5). Admitem que se desconhece
qualquer razão para este ato.Alguns su­
gerem que era a conservação da noção
antiga da santidade dos órgãos de uma
divindade; outros lembram a circunci­
são, o dever de futuras gerações de obser­
var ojuramento ou uma maldição sobre a
descendência daquele que quebrasse o
juramento que estava fazendo.
Contudo, nada sabemos a respeito de
um toque nos órgãos genitais para fazer
um juramento, quer no Velho Testamen­
to quer entre os povos antigos do Oriente
Próximo. Por que Eliézer colocou a sua
mão debaixo da coxa de Abraão, e não
sobre ela? Também é possível que Eliézer
simplesmente tivesse colocado a sua mão
sob a coxa de Abraão, para simbolizar
o fato de que Abraão estava dando o seu
peso à (sentando sobre, confiando) sua
promessa. Embora a mesma palavra não
seja usada em 15:6, a mesma idéia está
presente ali, quando se diz que Abraão
“confiou” no Senhor, creu nele ou acre­
ditou nele.
Deus do céu e da terra. Embora seja
comum na literatura posterior, esta ex­
pressão, nas histórias patriarcais, só se
encontra aqui.
Tomarás mulher para meu filho signi­
fica literalmente “obterás uma esposa” :
dá e faze o que for necessário para obtê-
la. Fosse qual fosse o preço, Abraão es­
tava disposto a pagá-los. Obviamente, o
seu pedido não se baseava primordial­
mente em um desejo de conservar a
pureza racial, mas de preservar as tra­
dições religiosas que eram propriamente
comuns de sua família (cf. 24:50, em que
Labão e Betuel já conheciam o Senhor e
eram leais à sua palavra).
Se a mulher, porém, não quiser. No
versículo anterior, Abraão havia dito a
256
Eliézer que ele não precisava temer, pois
o Senhor enviaria o seu anjo adiante dele,
para assegurar o sucesso de seu empreen­
dimento. Se ela fizesse ouvidos moucos
até para com o anjo de Deus (o próprio
Deus), mesmo nesse caso, Eliézer não
devia deixar Isaque voltar ao país natal.
Para Abraão e seus descendentes, as
pontes que os ligavam a Harã haviam
sido queimadas para sempre. Os hebreus
jamais teriam o direito de voltar, se o
quisessem. Da mesma forma como a
promessa de Deus e Abraão era irrevogá­
vel, a decisão de Abraão de segui-lo tam­
bém o era.
2) A Oração de Eliézer (24:10-14)
10Tomou, pois, o servo dez dos cam elos do
seu senhor, porquanto todos os bens de seu
senhor estavam em sua m ão; e, partindo,
foi p a ra a M esopotâm ia, à cidade de N aor.
11 F ez ajoelhar os cam elos fora d a cidade,
junto ao poço de água, pela tard e, à hora em
que as m ulheres saíam a tira r a água. 12 E
disse: Ó Senhor, Deus de m eu senhor
A braão, dá-m e hoje, peço-te, bom êxito, e
usa de benevolência p a ra com o m eu senhor
A braão. 13 E is que eu estou em pé junto à
fonte, e as filhas dos hom ens d esta cidade
vêm saindo p a ra tira r ág u a; 14 faze, pois,
que a donzela a quem eu d isser: A baixa o
teu cântaro, peço-te, p a ra que eu beba; e ela
responder: Bebe, e tam bém d arei de beber
aos teus cam elos; seja aquela que designas­
te p a ra o teu servo Isaque. A ssim reconhe­
cerei que usaste de benevolência p a ra com o
m eu senhor.
As referências a camelos, nesta passa­
gem, têm ocasionado enorme debate. A
certa altura, os estudiosos estavam certos
de que os camelos ainda não haviam sido
domesticados na época de Abraão, mas
agora se sabe que, embora isto não fosse
comum, era possível (cf. Speiser). Não há
evidências suficientes em contrário, para
negar a historicidade dos camelos nesta
narrativa. O fato de Abraão ter possuído
camelos era uma indicação de sua ri­
queza.
A viagem, que levou cerca de um mês,
é mencionada pelo escritor apenas de
passagem. De repente estamos lá. Quan­
do os camelos se ajoelharam, Eliézer
orou. Humildemente, em nome de
Abraão (e não em seu próprio nome), ele
pediu o favor de Deus.
Dá-me... bom êxito é, literalmente:
“Fá-lo encontrar-se” , “Faze as coisas
se encontrarem” ou “acontecerem cor­
retamente”. Esta expressão, da mes­
ma forma como “prosperar o seu cami­
nho” (v. 21, 40, 42, 56), não faz parte do
vocabulário tradicional, de piedade, no
Velho Testamento. Um homem secular
estava aprendendo a trabalhar com
Deus.
Assim conhecerei. Eliézer estava pe­
dindo um sinal, não a fim de fortalecer a
sua fé (como Gideão), mas para ajudá-
lo a tomar a decisão certa. O seu pedido
não foi de um sinal arbitrário, para
confirmar a obra de Deus (como no caso
do relógio de sol de Acaz), mas o sinal
pedido e o tipo de esposa que Isaque
precisava estavam intimamente relacio-
dos. Isaque necessitava de uma esposa
que fosse ambiciosa tanto quanto dispos­
ta a fazer mais do que se lhe requeria.
3) Rebeca Junto ao Poço (24:15-27)
15 A ntes que ele acabasse de falar, eis que
R ebeca, filha de B etuel, filho de M ilca, m u ­
lher de N aor, irm ão de A braão, saia com o
seu cântaro sobre o om bro. 16 A donzela e ra
m uito form osa à vista, virgem , a quem v a ­
rão não havia conhecido; ela desceu à fonte,
encheu o seu cântaro e subiu. 17 E ntão o
servo correu-lhe ao encontro, e disse: Dei-
xa-m e beber, peço-te, um pouco de água do
teu cântaro. 18 R espondeu ela: Bebe, m eu
senhor. E ntão com p resteza abaixou o seu
cântaro sobre a m ão e deu-lhe de beber.
19 E quando acabou de lhe d ar de beber,
disse: T irarei tam bém água p a ra os teus
cam elos, a té que acabem de beber. 20 T am ­
bém com presteza despejou o seu cântaro no
bebedouro e, correndo outra vez ao poço,
tirou água p a ra todos os cam elos dele.
21 E o hom em a contem plava atentam ente,
em silêncio, p a ra saber se o Senhor havia
tornado próspera a sua jo rnada, ou não.
22 Depois que os cam elos a cab aram de b e ­
ber, tom ou o hom em um pendente de ouro,
de m eio siclo de peso, e duas pulseiras p a ra
as m ãos dela, do peso de dez siclos de o u ro ;
257
23 e perguntou: De quem és filha? dize-mo,
peço-te. H á lu g ar em casa de teu p ai p ara
nós pousarm os? 24 E la lhe respondeu: E u
sou filha de B etuel, filho de M ilca, o qual ela
deu a N aor. 25 D isse-lhe m ais: T em os palha
e forragem bastante, e lu g ar p a ra pousar.
26 E ntão lnclinou-se o hom em e adorou ao
Senhor; 27 e disse: Bendito seja o Senhor
Deus de m eu senhor A braão, que não retirou
do m eu senhor a su a benevolência e a sua
verdade; quanto a m im , o Senhor m e guiou
no cam inho â ca sa dos irm ãos de m eu
senhor.
Enquanto Eliézer estava ainda orando
— pois antes de ele poder terminar de
expressar o seu pedido, Deus já estava
providenciando as coisas — Rebeca che­
gou ao poço! Ela não apenas tomou a
iniciativa de dar de beber aos camelos,
mas era uma jovem bonita, uma virgem
(bethulah), a quem nenhum homem ha­
via conhecido (cf. 4:1). Este capitulo tem
várias referências que se relacionam com
o significado de Isaías 7:14, onde ‘almah
(jovem) ocorre. Se Isaías queria dizer que
a mãe do menino era virgem, dizem al­
guns intérpretes, teria usado bethulah.
No entanto, a fim de tomar claro que
Rebeca era virgem, o escritor teve que
usar uma frase qualificadora., em adição
à palavra bethulah. No versículo 43, Elié­
zer usou a palavra ‘almah como sinônimo
de bethulah. Só duas vezes, no Velho
Testamento, os tradutores da LXX usam
parthenos (virgem) para traduzir ‘almah:
em Isaías 7:14 e aqui no versículo 43,
onde, pelo contexto, eles podiam ter cer­
teza que Rebeca era virgem.
4) A Resposta de Labão (24:28-33)
28 A donzela correu, e relatou estas coisas
aos da ca sa de su a m ãe. 20 O ra, R ebeca
tinha um irm ão, cujo nom e e ra L abão, o
qual saiu correndo ao encontro daquele ho­
m em a té a fonte; 30 porquanto tinha visto o
pendente, e as pulseiras sobre as m ãos de
sua irm ã, e ouvido as p alav ras de sua irm ã
R ebeca, que dizia: A ssim m e falou aquele
hom em ; e foi te r com o hom em , que estava
em pé junto aos cam elos ao lado da fonte.
31 E disse: E n tra, bendito do Senhor; por
que estás aqui fora? pois eu já prep arei a
casa, e lugar p a ra os cam elos. 32 E ntão
veio o hom em & casa, e desarreou os cam e­
los; d eram palha e fo rragem p a ra os cam e­
los, e água p a ra lav ar os pés dele e dos
hom ens que estav am com ele. 33 Depois
puseram com ida diante dele. E le, porém ,
disse: N ão com erei, a té que tenha exposto a
m inha incum bência. R espondeu-lhe L abão:
F ala.
Labão é a personificação do arameu
astuto. O quadro é claro quando o escri­
tor nos informa: Porquanto tinha visto o
pendente, e as pulseiras... £ disse: En­
tra, bendito do Senhor. Comida foi colo­
cada diante de Eliézer, mas ele recusou-
se a comer enquanto não tivesse relatado
o propósito de sua jornada. De fato,
faminto e cansado como ele estava, assim
mesmo nem comida nem descanso eram
tão importantes, para ele, quanto o su­
cesso de seu empreendimento, que agora
se aproximava tão rapidamente de sua
fase final.
5) O Discurso de Eliézer (24:34-49)
34 E ntão disse: E u sou o servo de A braão.
35 O Senhor tem abençoado m uito ao m eu
senhor, o qual se tem engrandecido; deu-
lhe rebanhos e gado, p ra ta e ouro, escravos
e escravas, cam elos e jum entos. 36 E Sara,
a m ulher do m eu senhor, m esm o depois de
velha deu um filho a m eu senhor; e o p ai lhe
deu todos os seus bens. 37 O ra, o m eu senhor
m e fez ju ra r, dizendo: N ão to m arás m ulher
p a ra m eu filho d as filhas dos cananeus, em
cuja te rra habito; 38 irá s, porém , à casa
de m eu p ai, e à m inha parentela, e to m arás
m ulher p a ra m eu filho. 39 E ntão respondi ao
m eu senhor: P orv en tu ra não m e seguirá a
m ulher. 40 Ao que ele m e disse: O Senhor,
em cuja presença tenho andado, en v iará o
seu anjo contigo, e p ro sp erará o teu cam i­
nho ; e da m inha p aren tela e da casa de m eu
pai to m arás m ulher p a ra m eu filho;
41 então serás livre do m eu juram ento,
quando chegares á m inha paren tela; e se
não ta derem , livre serás do m eu juram ento.
42 E hoje cheguei &fonte, e d isse: Ó Senhor,
Deus de m eu senhor A braão, se é que agora
prosperas o m eu cam inho, o qual venho
seguindo, 43 eis que estou junto à fonte;
faze, pois, que a donzela que sa ir p a ra tira r
água, a quem eu disser: D á-m e, peço-te, de
beber um pouco de água do teu cântaro,
44 e ela m e responder: Bebe tu, e tam bém
tira re i água p a ra os teus cam elos; seja a
258
m ulher que o Senhor designou p a ra o filho
de m eu senhor. 45 O ra, an tes que eu a c ab as­
se de falar no m eu coração, eis que R ebeca
saía com o seu cântaro sobre o om bro, d es­
ceu à fonte e tirou ág u a; e eu lhe disse:
D á-m e de beber, peço-te. 46 E ela, com
presteza, abaixou o seu cântaro do om bro, e
disse: Bebe, e tam bém d arei de beber aos
teus cam elos; assim bebi, e ela deu tam bém
de beber aos cam elos. 47 E ntão lhe pergun­
tei : De quem és filha? E ela d isse: F ilha de
Betuel, filho de N aor, que M ilca lhe deu.
E ntão lhe pus o pendente no nariz e as
pulseiras sobre as m ãos; 48 e, inclinando-
m e, adorei e bendisse ao Senhor, D eus do
m eu senhor A braão, que m e havia conduzi­
do pelo cam inho direito p a ra to m ar p a ra seu
filho a filha do irm ão do m eu senhor. 49 Ago­
ra , pois, se vós haveis de u sa r de benevo­
lência e da verdade p ara com o m eu senhor,
declarai-m o; e se não, tam bém m o decla­
rai, p a ra que eu vá ou p a ra a direita ou p a ra
a esquerda.
Este longo discurso parece inteiramen­
te desnecessário ao leitor moderno, pois
grande parte dele repete o que acontece­
ra anteriormente. Contudo, tal “parti­
cularidade épica” era uma prática literá­
ria comum no antigo Oriente Próximo.
Ela se encontra no relato babilónico da
criação (Enuma Elish) e na história babi­
lónica do dilúvio (Epopéia de Gilga-
mesh).
O autor deste capítulo usa a narrativa
de Eliézer para fazer adições sutis à
trama. Abraão havia dito que, se a jovem
não estivesse disposta, Eliézer estaria li­
vre de seu juramento (24:8). Quando o
servo se dirigiu à família de Rebeca, disse
que, se a parentela não estivesse dispos­
ta, ele estaria desobrigado de seu dever.
A decisão precisava ser a de membros
responsáveis da família. Ele, provavel­
mente, havia previsto a reação afirmati­
va de Rebeca, pelo fato de ter ela agido
de maneira tão notável no contexto da
obra soberana de Deus.
Começando o seu discurso com um
relato deslumbrante da riqueza e da
fama de Abraão, ele acrescentou que
Isaque, o filho único, já havia recebido
todas as propriedades do pai. Concluiu o
discurso perguntando-lhes se eles iriam
agir lealmente (com chesed) para com o
seu parente, se iriam consentir com a evi­
dente direção providencial de Deus. Se
não, ele iria adiante, para fazer a oferta a
outrem. Então eles teriam evidenciado
falta de fé em Deus e de fidelidade para
com o seu parente, e teriam perdido o
melhor dote que poderiam encontrar pa­
ra a moça.
6) Ò Sucesso da Visita (24:50-61)
50 E ntão responderam Labão e B etuel:
Do Senhor procede este negócio; nós não
podem os falar-te m al ou bem . 51 E is que
R ebeca está diante de ti, tom a-a e vai-te;
seja ela a m ulher do filho de teu senhor,
como tem dito o Senhor. 52 Quando o servo
de A braão ouviu as p alav ras deles, p ro s­
trou-se em te rra diante do Senhor; 53 e tirou
o servo jóias de p ra ta , e jóias de ouro, e
vestidos, e deu-os a R ebeca; tam bém deu
coisas preciosas a seu irm ão e à sua m ãe.
54 E ntão com eram e beberam , ele e os
hom ens que com ele estavam , e p assaram
a noite. Quando se lev an taram de m anhã,
disse o servo: D eixai-m e ir a m eu senhor.
55 D isseram o irm ão e a m ãe da donzela:
Fique ela conosco alguns dias, pelo m enos
dez d ias; e depois irá. 56 E le, porém , lhes
respondeu: N ão m e detenhais, visto que o
Senhor m e tem prosperado o cam inho; dei-
xai-m e p artir, p a ra que eu volte a m eu
senhor. 57 D isseram -lhe: C ham arem os a
donzela, e perguntarem os a ela m esm a.
58 C ham aram , pois, a R ebeca, e lhe pergun­
ta ra m : Irá s tu com este hom em ? R espon­
deu ela: Irei. 59 E ntão despediram a R ebe­
ca, sua irm ã, e à sua a m a e ao servo de
A braão e a seus hom ens; 60 e abençoaram a
R ebeca, e disseram -lhe: Irm ã nossa, sê tu a
m ãe de m ilhares de m iríades, e possua a tu a
descendência a p o rta de seus aborrecedo­
res! 61 Assim R ebeca se levantou com as
suas m oças e, m ontando nos cam elos, se ­
guiram o hom em ; e o servo, tom ando a
R ebeca, partiu.
A menção de Labão e Betuel é pro­
blemática. Embora já tenhamos visto
(22:23) que não há razão convincente
para não se crer nas declarações sem
rodeios deste capítulo (v. 15 e 24), que
Betuel era o pai de Rebeca, há muitas
evidências de que nessa época ele já não
estava mais vivo. Rebeca correu para a
casa de sua mãe, e não de seu pai (v. 28);
259
foram dados, por Eliézer, presentes ao
irmão e à mãe de Rebeca, mas não ao seu
pai (v. 53); a mãe e o irmão dela falaram
por ela (v. 55); embora não fosse costume
mencionar o filho antes do pai, o versí­
culo 50 apresenta o nome de Labão antes
do de Betuel. O relato é um exemplo
típico do costume antigo, quando o ir­
mão deu a irmã em casamento (cf. Spei-
ser). O nome de Betuel entrou no ver­
sículo 50 pela mão de um escriba, ou
então esse homem foi completamente
obscurecido por um filho ambicioso e
uma esposa dominadora.
7) Isaque Se Encontra com Rebeca
(24:62-67)
62 O ra, Isaque tinha vindo do cam inho de
B eer-Laai-R ói; pois h abitava na te rra do
N egebe. 63 S aíra Isaque ao cam po à tard e,
p a ra m ed itar; e levantando os olhos, viu, e
eis que vinham cam elos. 64 R ebeca tam bém
levantou os olhos e, vendo a Isaque, saltou
do cam elo 65 e perguntou ao serv o : Quem é
aquele hom em que vem pelo cam po ao nosso
encontro? Respondeu o servo: É m eu se ­
nhor. E ntão ela tom ou o véu e se cobriu.
66 Depois o servo contou a Isaque tudo o que
fizera. 67 Isaque, pois, trouxe R ebeca p a ra a
tenda de S ara, sua m ãe; tom ou-a e ela lhe
foi por m ulher; e ele a am ou. A ssim Isaque
foi consolado depois da m orte de su a m ãe.
Alguns comentaristas acham que um
relato da morte de Abraão e do novo
lugar de residência de Isaque (25:11b)
devem ter originalmente seguido 24:61
(von Rad). Contudo, se a morte de
Abraão já tivesse ocorrido, o relato Sa­
cerdotal incorreu em erro a respeito de
sua idade na época de sua morte, pois
Isaque tinha quarenta anos quando se
casou com Rebeca (25:20), e Abraão,
nessa época, devia ter cerca de cento e
quarenta anos. O capítulo 25:7 (fonte Sa­
cerdotal) apresenta cento e setenta e cin­
co anos como a sua idade ao morrer.
O fato de Eliézer ter dito que Abraão
havia dado todas as suas propriedades a
Isaque (24:36) não significa que Abraão
já estivesse morto. De 25:5,6, aprende­
mos que Abraão distribuiu a sua proprie­
dade antes de morrer, para impedir dis­
cussões entre os seus herdeiros depois de
sua morte. O fato de Eliézer chamar
Isaque de meu senhor não constitui pro­
blema. O Isaque de quarenta anos de
idade era o superior de Eliézer.
Saíra Isaque... para meditar. A forma
peculiar do verbo que ocorre aqui en­
contra-se apenas nesta passagem. Uma
forma cognata encontra-se nos Salmos, e
significa meditar. A LXX assim o enten­
de. O verbo particular usado nos Salmos
está associado com lamentos. Aceitando-
se esta acepção tradicional, ela sugere
que Isaque estava ainda meditando e se
lamentando por causa da morte de sua
mãe, que havia ocorrido havia três anos.
O texto hebraico se refere a “Sara, sua
mãe” depois de para a tenda. Embora
esta expressão não tenha conexão sintáti­
ca com o resto da sentença, sugere, pun­
gentemente, assim mesmo, que Rebeca
preencheu o lugar de Sara na vida de
Isaque. Ela não foi a última esposa cha­
mada para preencher o papel de mãe,
tanto quanto de esposa para o seu ma­
rido.
A despeito do fato de, por várias emen­
das e conjecturas, ter sido sugerido que
Isaque, ao invés de estar meditando,
fora “prosear” , “orar" ou “no mato,
para encontrar alívio”, a interpretação
tradicional, embora incerta, tem mais
peso em favor de meditar. Isto é substan-
ciado pela declaração final do capítulo,
de que Isaque de fato ainda estava cho­
rando a morte de sua mãe. .
E ela lhe foi por mulher; e ele a amou.
Isto é o inverso da ordem de nossa li­
teratura romântica: duas pessoas se apai­
xonam e depois se casam. Isaque e Rebe­
ca se casaram, e depois se apaixonaram.
17. Os Últimos Dias de Abraão (25:1-18)
Esta seção apresenta evidências das
fontes Judia e Sacerdotal, mas, em notas
sumárias como esta, a análise da respec­
tiva fonte é mais incerta do que em
outras passagens. Não se levando em
260
conta o gênero literário do material, é
óbvio que ele não é arranjado em ordem
cronológica, em relação ao material que
fica ao seu redor.
Alguns intérpretes acham difícil crer
que Abraão, depois dos cento e quarenta
anos (quando Isaque se casou, v. 20),
fosse suficientemente viril para ter a
grande família descrita nos versículos
1-4; por isso, presumem que ele se casou
com Quetura antes de Sara falecer. Até
Kidner se inclina para este ponto de
vista. I Crônicas 1:32 (cf. o v. 6) diz que
Quetura era concubina de Abraão. É
possível que, depois da morte de Sara,
ela tenha sido elevada da posição de
concubina para a de esposa.
Embora não seja improvável que
Abraão se tenha casado com Quetura
depois que Sara morreu, e que, na ver­
dade, 25:1-11 segue cronologicamente o
capítulo 24, está claro que 25:7-11 está
fora de ordem em relação a 25:19 e ss.
Ao invés de morrer antes de Jacó e Esaú
nasceram, como a seqüência presente
indica, Abraão viveu quinze anos depois
do nascimento deles. Isto não significa
que as duas passagens são contraditó­
rias, mas que não são arranjadas crono­
logicamente.
1) A Terceira Família de Abraão
(25:1-6)
lO ra , A braão tom ou outra m ulher, que se
cham ava Q uetura. 2 E la lhe deu à luz a
Z inrã, Jocsã, M edã, M idiã, Isbaque e Suá.
3 Jocsã gerou a Seba e D edã. Os filhos de
D edã foram A ssurlm , L etusim e L eum im .
4 Os filhos de M idiã foram E fá, E fer, Hano-
que, A bidá e E ld á; todos estes foram filhos
de Q uetura. 5 A braão, porém , deu tudo
quanto possuía a Isaq u e; 6 no entanto, aos
filhos das concubinas que A braão tinha, deu
ele dádivas; e, ainda em vida, os separou de
seu filho Isaque, enviando-os ao O riente,
p a ra a te rra oriental.
O nome Quetura significa “a perfu­
mada”, o que leva algumas pessoas a
pensarem que ela era uma personificação
da indústria árabe de especiarias, e não
uma pessoa verdadeira (cf. Skinner). De-
litzsch está perto da verdade, quando
considera absurda esta opinião. £ sacri­
légio contra os mortos relegar uma pes­
soa real ao reino da fantasia, sem evidên­
cias suficientes. Quetura deve permane­
cer sendo uma pessoa até que possa ser
provado que ela não era real. Há uma
tribo Katura, relacionada nas genealo­
gias árabes.
É bem provável que Abraão se tenha
casado depois da morte de Sara. Isto
seria um cumprimento a ela, e não um
ato de desrespeito.
Exceto Midiã, que se tomou proemi­
nente nos dias de Gideão, pouco se sabe
a respeito dos descendentes de Quetura.
Suá é mencionado em Jó 2:11 como an­
cestral de Bildade. Essas tribos de Que­
tura viveram ao norte da Arábia, no limi­
te com a Palestina. Os queneus eram
uma tribo midianita (Núm. 10:29; Juí.
1:16). Moisés se casou com a filha de um
sacerdote midianita (Reuel ou Jetro). Al­
guns comentaristas supõem que Moisés
recebeu o nome, pelo qual chamou Deus,
de Jetro, mas é mais provável que ele e o
sacerdote midianita compartilhassem de
uma tradição comum, preservada em
diferentes ramos da família de Abraão
(cf. Davies).
Enviando-os. Para os filhos de Agar e
de Quetura (“suas concubinas” , embora
elas jamais sejam chamadas por esse
nome em outras passagens de Gênesis)
ele deu-lhes a herança enquanto ainda
estava vivo, e os mandou embora, como
havia feito com Ismael. Esta era uma
garantia de que a porção de Isaque não
iria ser contestada quando Abraão mor­
resse. Desta vez Sara não estava por
perto para insistir a esse respeito, mas
Abraão havia aprendido bem a sua lição.
Ele nem mesmo precisava de uma pala­
vra da parte de Deus para saber o que
fazer.
2) A Morte de Abraão (25:7-11)
7 E stes, pois, são os dias dos anos da vida
de A braão, que ele viveu: cento e setenta e
261
cinco anos. 8 E A braão expirou, m orrendo
em boa velhice, velho e cheio de d ia s ; e foi
congregado ao seu povo. 9 E ntão Isaque e
Ism ael, seus filhos, o sepultaram na cova de
M acpela, no cam po de E from , filho de Zoar,
0 heteu, que estav a em frente de M anre,
10 o cam po que A braão com prara aos filhos
de H ete. Ali foi sepultado A braão, e Sara,
sua m ulher. 11 Depois d a m orte de A braão,
D eus abençoou a Isaque, seu filho; e h ab ita­
va Isaque junto a Beer-Laai-Rói.
O patriarca, tendo vivido em Canaã
exatamente cem anos, morreu em boa
velhice, velho e cheio de dias. Em Israel,
na antiguidade, só uma morte prematura
suscitava questionamentos a respeito dos
caminhos de Deus. Se um homem vives­
se completamente os seus dias, podia
enfrentar a morte sem rebelião ou frus­
tração, pois recebera da vida o seu qui­
nhão. Não que não se desejasse mais,
porém parecia que não havia chances de
tal coisa acontecer. O homem não fazia
nenhuma “reivindicação desafiadora à
imortalidade” (von Rad, p. 257), mas
desde o princípio aceitava a sua vida
como limitada (Gên. 35:29; Jó 42:17;
1Crôn. 23:1; 29:28; II Crôn.'24:15).
A expressão foi congregado ao seu
povo se referia originalmente ao sepulta-
mento no túmulo da família. Abraão foi
sepultado na caverna de Macpela; assim,
obviamente, os seus ossos não foram
colocados com os de seus ancestrais. Por­
tanto, esta frase se aplica, aqui, à exis­
tência no Seol (cf. Jó 3:11-19). Os he­
breus nunca creram que a existên­
cia humana terminava por ocasião da
morte, mas que a vida no Seol era nebu­
losa e sem significado. No entanto, o fato
de que a vida continuava oferecia certa
consolação e esperança. Talvez fosse me­
lhor do que eles comumente supunham.
Por outro lado, para os ímpios podia ser
pior(cf. Ez. 32).
A menção da presença de Isaque e de
Ismael por ocasião do funeral não é uma
confusão do texto, mas um fato da vida.
Nessa ocasião de perda de um ente queri­
do, geralmente irmãos que estavam sepa­
rados por um momento se unem. Que
bom se o pai estivesse ali para ver essa
cena!
3) A Genealogia de Ismael (25:12-18)
12 E stas sito as gerações de Ism ael, filho
de A braão, que A gar, a egípcia, serv a de
S ara, lhe deu; 13 e estes são os nom es dos
filhos de Ism ael pela sua ordem , segundo
as suas g eraçõ es: o prim ogênito de Ism ael
e ra N ebaiote, depois Q uedar, Abdeel, Mib-
são, 14 M ism a, D um á, M assá, 15 H adade,
Tem a, Jetu r, N afis e Q uedem á. 16 E stes são
os filhos de Ism ael, e estes são os seus
nom es pelas suas vilas e pelos seus acam p a­
m entos : doze príncipes segundo as suas tr i­
bos. 17 E estes são os anos da vida de
Ism ael, cento e trin ta e sete anos; e ele
expirou e, m orrendo, foi congregado ao seu
povo. 18 E les então h ab itaram desde H avilá
até Sur, que está em frente do Egito, como
quem vai em direção da A ssíria; assim
Ism ael se estabeleceu diante da face de
todos os seus irm ãos.
As tribos de Ismael ocuparam toda a
área do deserto do noroeste da Arábia,
tocando apenas as tribos de Naor ao
norte (cf. 20:20-24). Elas formavam uma
confederação de doze tribos, muito seme­
lhante à liga hebréia. Os líderes eram
chamados de nesFim (príncipes), termo
que era aplicado a um dignitário reli-
gioso-político, que representava uma tri­
bo quando os chefes se reuniam para
deliberações. O centro de sua vida parece
ter sido o conhecido oásis de Tema (Is.
21:14; Jer. 25:23; Jó 6:19), que é men­
cionado por Tiglate-Pileser da Assíria,
em suas inscrições, e onde Nabonido,
último rei nativo da Babilônia, estava
vivendo na época da invasão de Ciro.
Este mesmo Nabonido provavelmente
estabeleceu judeus em alguns oásis men­
cionados nesta passagem, fato que pode
explicar esta familiaridade com regiões
que não são conhecidas comumente dos
escritores do Velho Testamento.
Ele se estabeleceu diante da face de
todos os seus irmãos pode significar que
Ismael viveu mais nas profundezas do
deserto do que qualquer outra tribo
abraâmica (Davies), mas nem sempre
isto foi verdade. Esta expressão, prova­
262
velmente, significa que havia guerras in-
ter-tribais, a despeito do encontro ocasio­
nal dos príncipes (Speiser, cf. os comen­
tários sobre 16:12b).
III. As Narrativas Sobre Isaque
(25:19-28:9)
Esta passagem começa as gerações
(toledoth) de Isaque. Era de se esperar
que, depois da menção de Abraão e
Isaque, a lista genealógica continuasse,
como no caso de Tera, em 11:27, ou de
Ismael, em 25:12. Contudo, ela é subita­
mente interrompida pelas narrativas so­
bre Jacó e Esaú. Essas “gerações” de
Isaque continuam até o fim do capítulo
35, que fala do nascimento de Bénja-
mim, com que a família de Jacó se
completou. As gerações de Jacó come­
çam em 37:2 e continuam até a morte
dele, no capítulo 50. Desta forma, o livro
de Gênesis parece estar sempre uma ge­
ração atrasado. As histórias de Abraão
são contadas com o nome de Tera, as
histórias de Jacó sob o nome de Isaque e
as histórias de José sob o nome de Jacó!
A maneira antiga de pensar era bem
diferente da nossa. A verdadeira contri­
buição da vida de um homem pode ser
encontrada no que ele contribui para
uma geração posterior, e não para a sua
própria geração.
Embora 25:19-35:29 contenham as
toIedoth de Isaque, só 25:19-28:9, na ver­
dade, retratam as atividades de Isaque.
Esta passagem bem pode ser estudada
como uma unidade, pois depois que Jacó
saiu da casa, dirigindo-se a Harã, ele
ocupou o centro do palco.
1. O Nascimento de Esaú e lacó
(25:19-26)
19 E estas são a s gerações de Isaque, filho
de A braão: A braão gerou a Isaq u e; 20 e Is a ­
que tinha quaren ta anos quando tom ou por
m ulher a R ebeca, filha de B etuel, aram eu
de P adã-A rã, e irm ã de L abão, aram eu .
21 O ra, Isaque orou insistentem ente ao Se­
nhor por sua m ulher, porquanto ela e ra
estéril; e o Senhor ouviu as suas orações, e
R ebeca, sua m ulher, concebeu. 22 E os fi­
lhos lutavam no ventre dela; então ela dis­
se: P o r que estou eu assim ? E foi consultar
ao Senhor. 23 R espondeu-lhe o Senhor:
D uas nações h á no teu ventre,
e dois povos se dividirão das tuas
en tran h as,
e um povú será m ais forte do que o outro
povo,
e o m ais velho serv irá ao m ais m oço.
24 C um pridos que foram os dias p a ra ela
d ar à luz, eis que havia gêm eos no seu
ventre. 25 Saiu o prim eiro, ruivo, todo ele
como um vestido de pêlo; e cham aram -lhe
E saú. 26 Depois saiu o seu irm ão, ag a rra d a
sua m ão ao calcan h ar de E saú ; pelo que
foi cham ado Jacó. E Isaque tinha sessenta
anos quando R ebeca os deu à luz.
Exceto por algumas poucas notas ge­
nealógicas e cronológicas (v. 19, 20, 26b)
e embora falte, a esta seção, a viva­
cidade concreta geralmente encon­
trada na fonte Judia, ela é comumente
atribuída a esse material. A natureza in­
definida de algumas declarações causa
considerável especulação entre os intér­
pretes.
Isaque orou insistentemente ao Senhor
por sua mulher. Não se faz menção que
Abraão tenha orado por Sara quando ela
era estéril. Isto não significa que ele não
0 tenha feito, mas Isaque sabia, devido
ao milagre de seu próprio nascimento,
que Deus podia ajudar. Deus ouviu a sua
oração (heb., se deixou ser rogado, ou,
numa expressão bem nossa, não se fez de
rogado), não apenas porque Isaque pedi­
ra, mas porque esta era a sua vontade.
Isaque, mediante a sua intercessão, não
havia persuadido a Deus para fazer algo
que ele não estava inclinado a fazer, mas,
pelo fato de colocar a sua vida e a de
Rebeca diante do seu Deus, ele apresen­
tou a Deus a oportunidade de operar.
Por que estou eu assim? O hebraico
literal diz: “Onde, pois, estou eu?” Esta
interrogação provavelmente significa não
que ela não encontrasse razão para viver,
mas que, com medo de um aborto, não
via futuro em sua gravidez.
E foi consultar ao Senhor. Segundo
1 Samuel 9:9, I Reis 22:5, II Reis 1:2,
263
parece que ela se dirigiu a um santuário,
pois, se “foi” a algum lugar para interro­
gar, não estava simplesmente orando.
Que santuário havia ali, e que espécie de
sacerdote consultou ela, para receber
uma palavra do Senhor (Yahweh)? Será
que o sacerdote precisava “conhecer o
Senhor”, para que Deus falasse através
dele? Será que Melquisedeque ainda vi­
via? Havia outros sacerdotes como ele?
Quanto os antigos hebreus usavam os
santuários locais? Todas as interrogações
sobrevêm aos comentaristas, sem que
haja respostas certas. Tudo o que sabe­
mos é que Deus falou a ela através de um
sacerdote que aparentemente não era
hebreu, visto que Isaque era o único
descendente reconhecido de Abraão.
A palavra que ela recebeu não fazia re­
ferência à forma de bênção, que nos é
familiar, da maneira como foi dada a
Abraão, em várias ocasiões (12:2,3; 13:
14; e ss.; 22:15 e ss.). Foi a espécie de
oráculo que era comumente dado em
santuários locais. Através dele, todavia,
Deus falou com Rebeca e a tranqüilizou.
Teria sido melhor se ela se tivesse dirigi­
do diretamente a Deus, em vez de a um
intermediário, mas Deus foi ao encontro
dela onde ela estava.
Um jogo de palavras popular, com os
nomes de Esaú e Jacó, é o que se segue.
Esaú é associado com a palavra “cabe­
ludo” ou Seir, o primeiro nome do terri­
tório de Edom. Era de se esperar que a
associação fosse com o nome posterior,
Edom, pois a palavra hebraica que signi­
fica “vermelho” é quase a mesma. O sig­
nificado original de Esaú parece ser
“pressionar ou esmagar”, mas, na tra­
dição popular, significava “cabeludo”,
pois, quando o povo ouvia esse nome,
pensava em Seir.
Originalmente, Jacó era composto com
’EI, nome para Deus, e, provavelmente,
significava “possa Deus proteger”. ’EI
perdeu-se desse nome, na pronúncia ou
ao dar-se o nome a um filho. Sem o ’El,
ele é associado com a palavra que de­
signa calcanhar. Para os seus descenden­
tes, o nome dele significava “o agarrador
de calcanhar” , “aquele que tenta sobre­
pujar o seu companheiro”, o astuto, su-
plantador. Pode-se ver facilmente que
aqui temos uma tradição que não é favo­
rável a nenhum dos dois homens. Um
tinha um “casaco de peles por natureza”
(von Rad, p. 260), uma regressão ao ani­
mal; o outro era supremamente ambicio­
so, tentando passar à frente depressa
demais.
2. A Barganha de Jacó com Esaú
(25:27-34)
27 C resceram os m eninos; e E saú tom ou-
se perito caçador, hom em do cam po; m as
Jacó, hom em sossegado, que habitava em
tendas. 28 Isaque am av a a E saú, porque
com ia da su a caça; m as R ebeca am av a a
Jacó. 29 Jacó h avia feito um guisado, quan­
do E saú chegou do cam po, m uito can sad o ;
30 e disse E saú a Jacó : D eixa-m e, peço-te,
com er desse guisado verm elho, porque e s­
tou m uito cansado. P o r isso se cham ou
Edom . 31 R espondeu Ja c ó : Vende-me
prim eiro o teu direito de prim ogenitura.
32 E ntão replicou E saú : E is que estou a
ponto de m o rrer; logo, p a ra que m e serv irá
o direito de prim ogenitura? 33 Ao que disse
Jacó : Jura-m e prim eiro. Jurou-lhe, pois; e
vendeu o seu direito de prim ogenitura a
Jacó. 34 Jacó deu a E saú pão e o guisado de
lentilhas; e ele com eu e bebeu; e, levantan­
do-se, seguiu seu cam inho. A ssim desprezou
E saú o seu direito de prim ogenitura.
A narrativa da fonte Judia continua
com uma de suas cenas mais espetacula­
res. Novamente é enfatizado' o contraste
entre os dois irmãos, de maneira enfáti­
ca. Esaú levava uma vida selvagem, de
caçador, e Jacó vivia vida mais sedentá­
ria, de pastor. A história reflete uma
época em que a Palestina era mais den­
samente arborizada do que agora, quan­
do o homem podia ganhar a vida caçan­
do. Não obstante, era uma vida incerta,
pois algumas vezes o caçador chegava em
casa com as mãos vazias. O pastor sem­
pre podia matar uma ovelha ou orde­
nhar uma cabra.
264
Descreve-se Jacó como homem sosse­
gado (tom).. O significado radicular deve
ser “inteiro” ou “completo”, e algures é
traduzido como “imaculado” (RSV) ou
“perfeito” (KJV). Em Gênesis 6:9, apli­
ca-se a Noé; em Jó 1:1, a Jó. Ninguém a
traduz desta forma nesta passagem. Von
Rad sugere o significado “ordeiro” ou
“responsável”. Speiser recomenda “pes­
soa de gostos simples”, “quieto” , “in­
trospectivo” . O significado mais apro­
priado é amadurecido, crescido, adulto.
Como Noé e Jó, Jacó era um homem
amadurecido, crescido. A palavra por si
mesma é aparentemente um termo se­
cular, da mesma forma como o seu equi­
valente português, hoje em dia, e não
tem conotação ética alguma. Os homens
amadurecidos são de todas as espécies,
eticamente. Outras palavras são usadas
com tam, para descrever as qualidades
morais de Noé e Jó. A única caracterís­
tica de que compartilham os homens
maduros é que eles não agem como
crianças. Esaú não tinha esta caracterís­
tica. O seu comportamento era infantil e
imaturo; ele não podia ver o futuro, dian­
te da urgência do presente. Contudo, não
pode ser esquecido que Jacó estava em
boa companhia quando lhe atribuímos a
mesma qualidade, tam, que caracteriza­
va Noé e Jó. Talvez qualidades mais po­
sitivas estavam em sua natureza do que
os comentaristas têm percebido.
A Escritura não diz: “Desta forma
laeó roubou, ao seu irmão, o seu direito
de primogenitura” , mas, pelo contrário,
A ssim desprezou Esaú o seu direito de
primogenitura. Jacó não foi desculpado,
mas Esaú foi mais culpado. Ele não
reconheceu o valor do direito de primo­
genitura.
De fato, nós também não o reconhece­
mos. Não há indicação, nas narrativas de
Gênesis, que se esperava que um patriar­
ca desse a sua bênção espiritual ao filho
mais velho. Nada se diz, aqui, a respeito
da promessa patriarcal. Tudo parecia ser
um arranjo comercial, e a bênção de Isa-
que ainda devia ser obtida, para se ga­
rantir a verdadeira sucessão.
Portanto, o que se quer dizer quando
se afirma que Esaú desprezou o seu
direito de primogenitura? Uma explica­
ção seria que, visto que ele desistiu tão
facilmente de seus direitos, como o filho
mais velho, evidentemente dava pouco
valor à bênção espiritual. Os conceitos
materiais e espirituais estavam ligados
intimamente na mente hebraica. O fato
de Esaú renunciar uma, significava a sua
renúncia da outra. Uma razão mais pro­
vável era que Esaú deu pequeno valor à
providência de Deus. Ele devia ter visto
que o Deus que a havia dado o pouparia
para que ele pudesse gozá-la depois de
passados todos os dias de tribulação.
Como diz o escritor do livro de Hebreus,
Esaú foi um homem “profano” (KJV)
(Heb. 12:16, “irreligioso”, RSV). Esta é
uma palavra grega que traduz o homem
“secular”, o homem que tinha pouco
respeito pelas coisas sagradas. O pe­
cado principal de Esaú foi que ele deixou
Deus do lado de fora de seus planos.
Porque comia da sua caça mostra a
verdadeira fonte da relação tensa entre os
irmãos. Os seus pais a estimulavam me­
diante o favoritismo. Isaque preferia
Esaú, porque o sabor de sua caça permi­
tia-lhe escapar por alguns momentos de
sua domesticação completa. Esaú era o
seu alter ego, o que ele algumas vezes
desejava que tivesse ousado ser: um ho­
mem selvagem, emancipado, e não o
Isaque paciente, gentil. Rebeca favorecia
Jacó pela razão oposta: ele era muito
parecido com ela.
Deixa-me, peço-te, comer. Literal­
mente, “deixa-me devorar". Desse guisa­
do vermelho. A palavra traduzida como
quisado não está no texto hebraico. Não
sabendo o que era, Esaú o chamou de
“essa (coisa) vermelha”. Alguns intér­
pretes sugerem que Jacó estava tentando
enganar o seu irmão, levando-o a pensar
que havia feito uma “sopa de sangue” ,
que lhe daria mais energia. Só depois que
265
fez a barganha, foi que Esaú descobriu
que era apenas sopa de vegetais (von
Rad). Este ponto de vista é baseado na
acusação de Esaú de que Jacó o havia
enganado duas vezes (27:36). Contudo, a
versão da IBB o chama de “enganador”
(27:36) e não de “suplantador”, ao fazer
um jogo de palavras com o nome de Jacó.
E se Esaú queria dizer que Jacó o enga­
nara, isso expressaria apenas a sua pon­
deração depois do incidente. Na história
propriamente dita não há indicação de
que Esaú pensou que estava sendo enga­
nado. Ele seguiu o seu caminho sem se
queixar, satisfeito de ter vendido a bên­
ção material futura de Deus por um
prato de sopa de vegetais!
3. As Passagens Sobre Isaque (26:1-35)
Ao invés da forma de uma narrativa,
este capítulo toma a forma de um mosai­
co de breves historietas sobre Isaque.
É um “tronco antigo de tradições” que
não “desenvolveu folhagem e rebentos”
como as de Jacó e Abraão (von Rad,
p. 264-65). Isto aconteceu, provavelmen­
te, devido ao caráter suave de Isaque,
que não excitava os historiadores de Is­
rael. As narrativas encontradas aqui pro­
vavelmente foram preservadas, em forma
antiga, em centros de adoração. Portan­
to, estes relatos, embora menos empol­
gantes, podem ser mais antigos do que os
mais extensos. Há referências, neste ca­
pítulo, ao episódio entre Jacó e Esaú
citado nos capítulos 25 e 27. As suas his­
tórias são colocadas aqui, pelos editores,
como coleção de material sobre Isaque.
1) A Fome de Isaque (26:1-5)
1 Sobreveio à te rra u m a fom e, além da
prim eira, que ocorreu nos dias de A braão.
P or isso foi Isaque a A bim eleque, rei dos
filisteus, em G erar. 2 E apareceu-lhe o Se­
nhor e disse: N ão desças ao E gito; habita
na te rra que eu te d isse r; 3 peregrina n esta
te rra , e serei contigo e te abençoarei; p o r­
que a ti, e aos que descenderem de ti, darei
todas estas te rra s, e confirm arei o ju ram en ­
to que fiz a A braão teu p a i; 4 e m ultiplicarei
a tu a descendência como as estrelas do céu,
e lhe d arei todas estas te rra s ; e por m eio
dela serão benditas todas as nações d a te r­
ra ; 5 porquanto A braão obedeceu à m inha
voz, e guardou os m eus estatutos e a s m i­
nhas leis.
Quando veio a fome, Isaque parecia
estar se dirigindo ao Egito, como o fizera
seu pai Abraão. Quando ele havia che­
gado a Gerar, foi impedido pelo próprio
Deus de ir adiante. Este foi o seu teste
inicial de fé, não a aventura de seguir a
Deus para uma terra que não conhecia,
mas a capacidade de persistência para
ficar naquela terra quando tudo estava
difícil. Esta foi uma prova mais difícil
do que a enfrentada inicialmente por
Abraão, pois nada era mais difícil do que
permanecer em um lugar, para morrer
de fome, quando havia cereal no Egito.
Isaque enfrentou o teste sem murmura­
ção, e, como conseqüência, tomou-se
mais próspero do que Abraão jamais fora
(v. 12-16). A promessa a ele feita é
essencialmente a mesma que a em 12:1 e
ss. foi feita a Abraão, se ele deixasse
a sua terra natal. Essa mesma promessa
seria de Isaque, se ele permanecesse em
sua terra! A sua tarefa não era tanto ser
pioneiro, quanto consolidar posições
Kidner).
2) Abimeleque e Rebeca (26:6-11)
6 Assim habitou Isaque em G erar. 7 E ntão
os hom ens do lu g ar perguntaram -lhe acerca
de sua m ulher, e ele respondeu: É m inha
irm ã; porque tem ia dizer: É m inha m ulher;
p ara que porventura, dizia ele, não m e m a ­
tassem os hom ens daquele lugar por am or
de R eb eca; porque e ra ela form osa à vista.
8 O ra, depois que ele se d em o rara ali m uito
tem po, A bim eleque, rei dos filisteus, olhou
por um a jan ela, e viu, e eis que Isaque
estav a brincando com R ebeca, sua m ulher.
9 E ntão cham ou A bim eleque a Isaque, e
disse: E is que n a verdade é tu a m ulher;
como, pois, disseste: É m inha irm ã? R es­
pondeu-lhe Isaque: Porque eu dizia: P a ra
que eu porventura não m o rra por su a causa.
10 Replicou A bim eleque: Que é isso que nos
fizeste? F acilm ente se te ria deitado alguém
deste povo com tu a m ulher, e tu terias tra z i­
do culpa sobre nós. 11 E A bim eleque orde­
266
nou a todo o povo, dizendo: Q ualquer que
tocar neste hom em ou em sua m ulher, c e r­
tam ente m o rrerá.
Esta passagem é paralela a 12:10-20
(fonte Judia) e 20:1-18 (Israelita do Nor­
te), que também falam de um patriarca
pondo em risco a sua esposa. Não há pro­
blema essencial quando examinamos o
capítulo 12, pois é bem possível que Isa-
que tentasse repetir a manobra aparente­
mente bem-sucedida de seu pai, no Egi­
to. O fato de que ambas as narrativas es­
tão entre os materiais da fonte Judia
reforça esta opinião.
É o capítulo 20 que apresenta a dificul­
dade. Ali também o rei se chamava Abi-
meleque, mas agora pelo menos setenta e
cinco anos se haviam passado desde o
engano de Abraão. Se ele ainda estivesse
vivo, não conheceria os relacionamentos
de família de Abraão ou não teria suspei­
tado do artifício de seu filho? Talvez a
sua própria suspeita o levara a espionar
Isaque e Rebeca. O fato de o seu coman­
dante militar também se chamar Ficol
(v. 26) indica, aparentemente, que o
mesmo Abimeleque está sendo mencio­
nado. Contudo, tanto nomes reais como
militares podiam ser mantidos pela gera­
ção seguinte (Kidner).
A principal diferença entre esta histó­
ria e a outra é que Rebeca não foi toma­
da de Isaque. A sua mentira foi descober­
ta de antemão. Isto pode ser devido ao
desenvolvimento de grupos tradicionais
separados ou indicar um acontecimento
diferente, em que o Abimeleque original
(que podia ser bem jovem quando
Abraão o encontrou pela primeira vez)
ou seu filho se defrontaram com a fraude
de um patriarca hebreu.
Olhou por uma janela e viu, e eis que
Isaque estava brincando com Rebeca.
A casa do rei era geralmente mais alta do
que as outras, e permitia-lhe ter uma
vista de toda a área. A palavra traduzida
como “brincando” é outro jogo de pala­
vras com o nome de Isaque. A raiz verbal
básica significa rir, gracejar ou brincar.
Este mesmo verbo foi usado pela esposa
de Potifar, em seu relatório vingativo a
respeito de José: “Vede! meu marido
trouxe-nos um hebreu para nos insultar”
(39:14), que Speiser, nesta passagem,
traduz, forçando um pouco o sentido:
“fazer amor.” A preposição usada com o
verbo, nesta passagem, “brincando
com”, não é usada em nenhuma outra
passagem com este verbo. Seria um erro
presumir que o verbo está descrevendo
relações sexuais íntimas (cf. Êx. 32:6,
onde o mesmo verbo é usado). Um meio-
termo é a tradução da SBB em sua
Versão Atualizada: “Isaque acariciava a
Rebeca.”
3) A Inveja dos Filisteus (26:12-16)
12 Isaque sem eou naquela te rra , e no m es­
m o ano colheu o cêntuplo; e o Senhor o
abençoou. 13 E engrandeceu-se o hom em ; e
foi-se enriquecendo até que se tom ou m ui
poderoso; 14 e tinha possessões de rebanhos
e de gado, e m uita gente de serviço; de
modo que os filisteus o invejavam . 15 O ra,
todos os poços que os servos de seu pai
tinham cavado nos dias de seu pai A braão, os
filisteus entu lharam e encheram a te rra .
16 E A bim eleque disse a Isaque: A parta-te
de n ó s; porque m uito m ais poderoso te tens
feito do que nós.
Agora Isaque começara a colher os
frutos de sua permanência na Palestina
durante a fome. Esta é a primeira men­
ção de colheita dentre os patriarcas. Com
a semeadura de sua semente, Isaque
marcou uma nova era no estabelecimento
dos hebreus em Canaã. A colheita de
cem vezes mais não era inusitada em
anos bons (von Rad).
De modo que os filisteus o invejavam.
No caso de Jó (Jó 1:3), a sua grande
riqueza lhe causava respeito; na situação
de Isaque, ela suscitou inveja. Ambas as
reações são comuns.
Aparta-te de nós. Abimeleque havia
desejado que Abraão permanecesse, na
esperança de que a sua proximidade
causasse bênçãos sobre os seus vizinhos
(20:15; 21:22 e ss.). Agora os filisteus
267
haviam tido tempo suficiente para perce­
ber que a bênção enviada sobre os he­
breus podia ser exclusivamente deles pró­
prios. Quanto mais se multiplicavam os
seus rebanhos e manadas, menos espaço
havia para os seus vizinhos. Essa inveja,
mais tarde, levou os egípcios a escravizar
os hebreus (Êx. 1:8 e ss.). Da mesma
forma como Abraão havia feito com Jó,
Abimeleque sugeriu que eles se separas­
sem. Aparentemente, a sugestão foi re­
forçada por alguma ação persuasiva, pois
os filisteus entulharam os poços usados
por Isaque, o que de fato foi um indício
importante de que os hebreus já não
eram mais bem-vindos. Talvez o fato de
ter sido enganado pelo pai e pelo filho
também determinara parte dos senti­
mentos de Abimeleque contra os he­
breus.
4) Conflitos a Respeito de Poços
(26:17-22)
17 E ntão Isaque p artiu dali e, acam pando
no vale de G erar, lá habitou. 18 E Isaque
tornou a cav ar os poços que se haviam c a ­
vado nos dias de A braão seu pai, pois os
filisteus os haviam entulhado depois da
m orte de A braão ; e deu-lhes os nom es que
seu pai lhes d era. 19 C avaram , pois, os
servos de Isaque naquele vale, e ach aram
ali um poço de águas vivas. 20 E os pastores
de G erar contenderam com os pastores de
Isaque, dizendo: E sta ág u a é nossa. E ele
cham ou ao poço E seque, porque contende­
ra m com ele. 21 E ntão cav aram outro poço,
pelo qual tam bém contenderam ; por isso
cham ou-lhe Sitna. 22 E p artiu dali, e cavou
ainda outro poço; por este não contende­
ra m ; pelo que cham ou-lhe Reobote, dizen­
do: P ois ag o ra o Senhor nos deu largueza, e
havem os de crescer n a te rra .
A atividade de Isaque, como perfura­
dor de poços, teve lugar em três fases:
(1) Ele cavou de novo os poços que seu
pai havia aberto. (2) Ele abandonou os
poços novos quando os filisteus disputa­
ram com ele. (3) Ele abriu, novos poços
que ninguém contestou, e permaneceu
ali.
Esta passagem dá uma visão impor­
tante do caráter de Isaque. O fato de ele
dar aos poços os mesmos nomes que seu
pai lhes dera, ao cavá-los (v. 18), mos­
trou o seu respeito pelo passado. O fato
de ele evitar as áreas contestadas revelou
a sua natureza pacífica, uma virtude po­
sitiva, como Jesus ensinou, pois ele “ofe­
receu a outra face” . O fato de ele con­
tinuar a procurar e encontrar novos su­
primentos de água fala de sua paciência e
perseverança. E o fato de ele se estabele­
cer agradecidamente onde não foi desa­
fiado, retrata a sua capacidade de con­
tentar-se. De fato, Isaque tinha uma
série de virtudes que os homens respei­
tam nos outros, mas geralmente não
desejam para si próprios.
5) Teofania em Beer-Seba (26:23-25)
23 Depois subiu dali a Beer-Seba, 24 E a p a ­
receu-lhe o Senhor n a m esm a noite e d isse:
E u sou o D eus de A braão, teu p a i; não te ­
m as, porque eu sou contigo; e te abençoarei
e m ultiplicarei a tu a descendência por am or
do m eu servo A braão. 2S Isaque, pois, edifi­
cou ali um a lta r e invocou o nom e do Se­
nhor; então arm o u ali a su a tenda, e os seus
servos cav aram um poço.
Deus apareceu a Isaque como o Deus
de seu pai, não como um deus da nature­
za ou um deus associado com um santuá­
rio em particular. Ele era um Deus que ia
com a família em todas as suas jornadas,
e que renovava o seu pacto com ela em
cada nova geração. O pacto não era mais
condicional, como nos versículos 1-5,
porque Isaque havia-se tornado plena­
mente aceitável, como sucessor de seu
pai, pois o pacto da promessa feita a
Abraão foi repetido para com ele (v. 24).
Agora, pela primeira vez, ele edificou o
seu próprio altar no lugar em que Abraão
havia apenas plantado uma tamargueira
(21:33). Embora fosse o Deus de seu pai
que Isaque adorou, ele não era o Deus do
próprio Isaque. Desde então a tenda de
Isaque ficaria perto do altar. Ele jamais
se contentaria com sucesso secular.
6) Tratado com Abimeleque (26:26-33)
26 E ntão A bim eleque veio a ele de G erar,
com Attzate, seu am igo, e Ficol, o chefe do
268
seu exército. 27 E perguntou-lhes Isaque:
P o r que viestes te r com igo, visto que m e
odiais, e m e repelistes de vós? 28 Responde­
ra m eles: Tem os visto claram ente que o
Senhor é contigo, pelo que dissem os: H aja
agora ju ram ento entre nós, entre nós e ti; e
façam os um pacto contigo, 29 que não nos
farás m al, assim como nós não te havem os
tocado, e te fizem os som ente o bem , e te dei­
xam os ir em paz. A gora tu és o bendito do
Senhor. 30 E ntão Isaque lhes deu um b an ­
quete, e com eram e b eberam . 31 E levanta -
ram -se de m anhã cedo e ju ra ra m de p arte a
p a rte ; depois Isaque os despediu, e eles se
despediram dele em paz. 32 N esse m esm o
dia vieram os servos de Isaque e deram -lhe
notícias a c e rc a do poço que haviam cavado,
dizendo-lhe: Tem os achado água. 33 E ele
cham ou o poço S eba; por isso é o nom e da
cidade B eer-Seba até o d ia de hoje.
Este episódio é semelhante ao registra­
do em 21:22-24. Só o nome de Aüzate,
vizir ou conselheiro do rei (cf. II Sam.
15:37; 16:16; I Reis 4:5), é novo. Visto
que pelo menos setenta e cinco anos se
haviam passado desde os acontecimentos
do capítulo 21 (aparentemente, Isaque
não era então nascido, e agora Abraão
estava morto, depois de ter vivido cento e
setenta e cinco anos), não é provável que
este fosse o mesmo Abimeleque, e certa­
mente não tinha ele o mesmo conselheiro
militar! É possível que tanto Abimeleque
quanto Ficol fossem títulos, e não nomes
pessoais (cf. os comentários sobre 26:6-
11).
O pacto entre os dois homens foi feito
segundo um padrão estabelecido durante
este período. A verdadeira diferença en­
tre este tratado e o feito com Abraão está
na condição relativa das duas partes.
Abraão deu presentes a Abimeleque,
como figura superior. Aqui, Abimeleque
comeu da mesa de Isaque, como hóspe­
de e suplicante. O homem manso havia
herdado mais da terra do que o seu pai
Abraão.
A associação do nome de Beer-Seba
com este pacto, e não com o pacto feito
por Abraão, sugere que Isaque pode ter
sido a pessoa que pela primeira vez deu
nome ao poço em questão. No entanto,
bem pode ser que Abraão também o
tenha feito, e o tratado de Isaque com
Abimeleque propiciara o meio de se pre­
servar o nome, que, de outra forma, seria
esquecido, de um poço que havia sido
entulhado.
7) Tristeza por Causa das Esposas de
Esaú (26:34-35)
34 O ra, quando E saú tinha quaren ta anos,
tom ou por m ulher a Judite, filha de B eeri, o
heteu, e a B asem ate, filha de E lom , o heteu.
35 E estas foram p a ra Isaque e R ebeca um a
a m arg u ra de espírito.
Este extrato da fonte Sacerdotal intro­
duz a narrativa de Esaú e Jacó, que deve
seguir-se, e prepara o leitor para a rejei­
ção de Esaú, como herdeiro seguinte da
promessa. Ele havia rejeitado a Deus
antes de ser rejeitado por ele. Isaque e
Rebeca ficaram entristecidos com os seus
casamentos; eles revelaram a falta de
preocupação de Esaú pela responsabili­
dade de levar avante as suas tradições
familiares e religiosas. Embora Jacó fosse
egoísta, ele não era indiferente.
4. A Usurpação de uma Bênção
(27:1-45)
Pensava-se, antigamente, que este ca­
pítulo continha uma combinação de ma­
teriais das fontes Judia e Israelita do
Norte, mas o que os intérpretes antiga­
mente consideravam como evidência de
autoria dupla, os comentaristas atuais
consideram como redundância caracte­
rística da literatura do Oriente Próximo e
esta seção geralmente como sendo da
fonte Judia.
Embora Jacó e Rebeca revelassem, nos
capítulos 24 e 25, muita coisa a respeito
de Isaque e Esaú, aprendemos ainda
mais deste capítulo. Aqui, a simpatia do
leitor é focalizada em Isaque e Esaú,
vítimas da astuta manobra de Rebeca e
Jacó. Somos comovidos especialmente
pela inofensividade patética de Isaque
(v. 33) e pelo selvagem grito de angústia
de Esaú (v. 34). Embora o autor das
269
narrativas não julgue abertamente ne­
nhum dos personagens, cada um deles,
de certa forma, era digno de culpa, e
cada pecado obteve a sua devida colheita
ou recompensa. Isaque e Rebeca morre­
ram entristecidos, Esaú perdeu a sua
bênção e Jacó foi exilado.
É óbvio que 27:1-45 foi colocado entre
as duas referências a Esaú em 26:34,35 e
27:46, ambas provenientes da fonte Sa­
cerdotal. Embora esse escritor não fale
pessoalmente da duplicidade de Jacó, e
fale de ele ir para Harã como missão para
conseguir uma esposa, o fato de que os
editores finais incluíram o material da
fonte Judia enfatiza a sua disposição de
deixar o leitor saber outras facetas do
caráter de Jacó. Desta forma, as fontes
Judia e Sacerdotal foram consideradas
não como contraditórias, mas como su­
plementares.
1) Conspiração e Contraconspiração
(27:1-17)
1 Quando Isaque já estav a velho, e se lhe
enfraqueciam os olhos, de m an eira que não
podia ver, cham ou a E saú , seu filho m ais
velho, e disse-lhe: M eu filho I E le lhe respon­
deu: Eis-m e aqui! 2 Disse-lhe o p a i: E is que
agora estou velho, e não sei o dia da m inha
m o rte; 3 tom a, pois, as tu as arm as, a tu a
aljav a e o teu arco ; e sai ao cam po, e
apanha p a ra m im algum a caça; 4 e faze-m e
um guisado saboroso, com o eu gosto, e tr a ­
ze-mo, p a ra que eu com a; a fim de que a
m inha alm a te abençoe, antes que m o rra.
5 O ra, R ebeca estav a escutando quando Is a ­
que falou a E saú, seu filho. Saiu, pois, E saú
ao cam po p a ra ap an h ar caça e trazê-la.
6 D isse então R ebeca a Jacó, seu filho: E is
que ouvi teu pai falar com E saú, teu irm ão,
dizendo: 7 T raze-m e caça, e faze-m e um
guisado saboroso, p a ra que eu com a, e te
abençoe diante do Senhor, antes d a m inha
m orte. 8 A gora, pois, filho m eu, ouve a
rainha voz naquilo que eu te ordeno: 9 Vai ao
rebanho, e traze-m e de lá das cab ras dois
bons cab rito s; e eu farei um guisado saboro­
so p a ra teu pai, com o ele g o sta; 10 e levá-lo-
à s a teu p ai, p a ra que o com a, a fim de te
abençoar an tes d a sua m orte. 11 R espondeu,
porém , Jacó a R ebeca, su a m ãe: E is que
E saú, m eu irm ão, é peludo, e eu sou liso.
12 P orventura m eu pai m e ap alp a rá e serei
a seus olhos com o enganador; assim tra re i
sobre m im u m a m aldição, e não u m a bên­
ção. 13 Respondeu-lhe sua m ã e : M eu filho,
sobre m im caia essa m aldição; som ente
obedece à m inha voz, e vai trazer-m os.
14 E ntão ele foi, tomou-os e os trouxe a sua
m ãe, que fez u m guisado saboroso, com o seu
pai gostava. 15 Depois R ebeca tom ou as
m elhores vestes de E saú , seu filho m ais
velho, que tinha consigo em casa, e vestiu a
Jacó, seu filho m ais m oço; 16 com as peles
dos cabritos cobriu-lhe a s m ãos e a lisura do
pescoço; 17 e pôs o guisado saboroso e o pão
que tinha preparado, n a m ão de Jacó, seu
filho.
Não sei o dia da minha morte dificil­
mente expressa realmente o que Isaque
desejava dizer, pois ninguém sabe esse
dia. A expressão idiomática significa:
“Não sei quanto vou viver ainda.”
Aprendemos, em 35:28, que Isaque mor­
reu com cento e oitenta anos. Se a sua
morte estava tão perto quanto ele supu­
nha, os seus filhos já eram homens
velhos, nessa ocasião. Tendo nascido
quando ele tinha sessenta anos (25:25 e
s.), eles teriam então cem anos de idade!
Se a idade de Esaú é um indício da época
desses eventos (40, em 26:34), Isaque
tinha cem anos na época. Em uma idade
quando Abraão havia visto o nascimento
de seu herdeiro, Isaque estava perdendo
o dele! Ou a cronologia Sacerdotal estava
errada, ou Isaque estava preocupado
prematuramente — ocorrência mais pro­
vável. Não é incomum pessoas de dispo­
sição débil, como a de Isaque, viverem
longas vidas depois de se tornarem inca­
pacitadas.
Faze-me um guisado saboroso. Spei-
ser considera a versão da RSV inglesa
(“prepara-me comida saborosa”) como
“uma tradução pobre do inglês” . Ele a
parafraseia, apresentando-a como “um
prato festivo” . Devia ser um petisco es­
pecialmente delicioso, pois foi usado o
plural para enfatizar a qualidade da co­
mida. É um mistério por que Isaque
precisava comer esse prato antes de
abençoar Esaú. Algumas pessoas suge­
rem que era uma refeição sacrificial,
270
invocando a divindade (Gunkel). Von
Rad vê nela implicações mágicas (o he­
braico incomum, literalmente, “que a
minha alma possa te abençoar”, que
também ocorre nos versos 19,25 e 31,
dando a entender que ele daria a força de
sua alma a Esaú). É bem possível que
Isaque estivesse pensando que, tendo si­
lenciado a sua consciência, ele estaria
mais disposto para abençoar o seu filho
depois de comer o seu prato favorito.
Rebeca certamente lhe havia falado a
respeito do oráculo de 25:23, que havia
predito que Jacó iria ser o herdeiro da
promessa.
Te abençoe diante do Senhor. De acor­
do com o versículo 4, Isaque não mencio­
nou o nome de Deus. Rebeca é que deu
às suas palavras essa interpretação, pois
sabia que essa bênção seria compulsória.
A crença antiga de que as bênçãos e
maldições dos pais eram compulsórias
sobre os filhos está mais perto da verdade
do que a nossa crença de que as palavras
descuidadas têm pequeno efeito. É quase
tão impossível chamar de volta uma pa­
lavra dita ao filho como recobrar uma
alma de entre os mortos. De fato, Rebeca
revelou-se mulher de notável astúcia, que
entendia bem o seu marido.
Embora Isaque amasse a caça de
Esaú, Rebeca sabia bem que, na verda­
de, ele não conhecia a diferença entre
carne de cabra e de veado! O fato de ele
gostar da caça de Esaú residia na idéia
que fazia dela, e não no sabor. Isaque
admirava a selvageria de seu filho, mas
tinha pouco dela em si mesmo.
Serei a seus olhos como enganador.
Jacó estava relutando em praticar aquele
engano, não porque aquilo era contrário
à sua consciência, mas porque tinha
medo de ser pego. Rebeca havia cuidado
de todos os detalhes. Ela bem sabia como
Isaque era bisonho! Como é que Esaú
podia falar com a voz de Jacó (v. 22)?
Por que Isaque não tentou arrancar pêlos
das mãos de Jacó? Tal simplicidade de
alma não era realmente um defeito, mas
uma virtude. Isaque era tão incapaz de
tal duplicidade, que não a esperava dos
outros. O único problema a respeito de
um homem assim é que ele se toma alvo
natural de todos os manipuladores.
Sobre mim caia essa maldição. Nunca
um juramento se cumpriu mais dolorosa­
mente. Ela haveria de perder a compa­
nhia de seu filho por pelo menos vinte
anos, provavelmente enquanto ela viveu.
Embora seja possível que ela ainda esti­
vesse viva quando Jacó finalmente retor­
nou (cf. 35:8,27-29), a Escritura silencia
a respeito dela. O seu pior destino foi ser
deixada sozinha com um marido cego e
frustrado, a quem ela havia traído.
2) A Benção de Jacó (27:18-29)
18 E veio Jacó a seu pai, e cham ou: M eu
pai! E ele disse: Eis-m e aqui; quem és tu,
m eu filho? 19 R espondeu Jacó a seu p a i: E u
sou E saú, teu prim ogênito; tenho feito como
m e disseste; levanta-te, pois, senta-te e
com e da m inha caça, p a ra que a tu a alm a
m e abençoe. 20 Perguntou Isaque a seu fi­
lho: Como é que tão depressa a achaste,
filho m eu? R espondeu e le : Porque o Senhor,
teu D eus, a m andou ao m eu encontro.
21 E ntão disse Isaque a Ja c ó : Chega-te,
pois, p a ra que eu te apalpe e v eja se és m eu
filho E saú m esm o, ou não. 22 Chegou-se
Jacó a Isaque, seu pai, que o apalpou, e
d isse: A voz é a voz de Jacó, porém a s m ãos
são a s m ãos de E saú. 23 E não o reconheceu,
porquanto a s su as m ãos estav am peludas,
como as de E saú seu irm ão; e abençoou-o.
24 No entanto, p erguntou: Tu és m esm o m eu
filho E saúí^E ele declaro u : E u o sou. 25 Dis-
se-lhe então seu p a i: Traze-m o, e com erei
da caça de m eu filho, p a ra que a m inha
alm a te abençoe. E Jacó lho trouxe, e ele
com eu; trouxe-lhe tam bém vinho, e ele b e­
beu. 26 D isse-lhe m ais Isaque, seu p ai:
A proxim a-te agora, e beija-m e, m eu filho.
27 E ele se aproxim ou e o beijou; e seu pai,
sentindo o cheiro das vestes, o abençoou, e
disse:
E is que o cheiro de m eu filho é como o cheiro
de um cam po que o Senhor abençoou.
28 Que D eus te dê do orvalho do céu,
e dos lugares férteis da terra,
e abundância de trigo e de m osto;
29 sirvam -te povos,
e nações se encurvem a ti;
sê senhor de teus irm ãos,
e os filhos d a tu a m ãe se encurvem a t i ;
271
sejam m alditos os que te am aldiçoarem ,
e benditos sejam os que te abençoarem .
O Senhor teu Deus a mandou ao meu
ei contro foi a mais ousada das menti­
ras de Jacó, chegando às raias da blasfê­
mia. No entanto, em certo sentido, ele
estava certo. Por alguma razão desconhe­
cida, Deus estava permitindo que ele
conseguisse o seu intento com a sua
duplicidade. “A história trata de um ato
de Deus, que usa soberanamente o ato
humano mais ambíguo e o incorpora nos
seus planos” (von Rad, p. 275).
E abençoou-o (v. 23). Não é provável
que Isaque tenha abençoado Jacó antes
de comer. É melhor traduzir com Spei-
ser: “quando estava para abençoá-lo”,
construção que o passado imperfeito no
hebraico permite, sem dúvida.
Aproxima-te agora, e beya-me foi a
última tentativa de Isaque de aquietar as
suas suspeitas, e foi o maior momento de
ansiedade de Jacó, pois os orientais mui­
tas vezes têm um agudo senso de olfato.
A bênção de Isaque foi uma reafirmação
da que lhe havia sido dada, mas com
uma ênfase adicional em fertilidade agrí­
cola e superioridade nacional. Isto, pro­
vavelmente, devia-se à situação em que
viviam, que era mais de residência fixa,
e por isso constantemente ameaçada pe­
los seus vizinhos. Abraão podia levantar
acampamento e mudar-se em um mo­
mento. Isaque, depois da mobilidade ini­
cial, havia criado raízes.
3) A Bênção de Esaú (27:30-40)
30 Tão logo Isaque aca b a ra de abençoar
a Jacó, e este sa íra da presença de seu pai,
chegou da caça E saú , seu Irm ão; 31 e fez
tam bém ele um guisado saboroso e, trazen-
do-o a seu pai, disse-lhe: L evanta-te, m eu
pai, e com e da caça de teu filho, p a ra que a
tu a alm a m e abençoe. 32 Perguntou-lhe Is a ­
que, seu p ai: Quem és tu ? R espondeu ele:
E u sou teu filho, o teu prim ogênito, E saú.
33 E ntão estrem eceu Isaque.de um estre ­
m ecim ento m uito g rande; e disse: Quem,
pois, é aquele que apanhou caça e m a tro u ­
xe? E u com i de tudo, antes que tu viesses, e
abençoei-o, e ele se rá bendito. 34 E saú ao
ouvir a s p alav ras de seu pai, bradou com
grande e m ui am argo brado, e disse a seu
p ai: Abençoa-m e tam bém a m im , m eu pai!
35 R espondeu Isaque: Veio teu irm ão e com
sutileza tom ou a tu a bênção. 36 D isse E saú :
Não se cham a ele com razão Jacó, visto que
já por duas vezes m e enganou? tirou-m e o
direito de prim ogenitura, e eis que ag o ra m e
tirou a bênção. E perguntou: Não re se rv a s­
te um a bênção p a ra m im ? 37 Respondeu
Isaque a E saú : E is que o tenho posto por
senhor sobre ti e todos os seus irm ãos lhe
tenho dado por serv o s; e de trigo e de m osto
o tenho fortalecido. Que, pois, poderei eu
fazer por ti, m eu filho? 38 Disse E saú a seu
p ai: P orventura tens u m a única bênção,
m eu pai? Abençoa-m e tam bém a m im , m eu
pai. E levantou E saú a voz, e chorou. 39 R es­
pondeu-lhe Isaque, seu p ai: Longe dos lu g a­
res férteis da te rra se rá a tu a habitação,
longe do orvalho do alto céu; 40 pela tu a e s­
pada viverás, e a teu irm ão se rv irá s; m as
quando te to rn ares im paciente, então s a ­
cudirás o seu jugo do teu pescoço.
Então estremeceu Isaque de um es­
tremecimento muito grande; isto foi uma
notável exibição de emoção. Usualmen­
te, ele conservava os seus sentimentos
bem escondidos, pois era um homem
inteiramente disciplinado. Em resposta à
descoberta de que havia sido enganado,
ele exibiu uma força de caráter marcan­
te. A árvore foi sacudida, mas não caiu.
Ele sabia que a vontade de Deus fora
feita. Tendo tentado seguir o seu próprio
caminho, uma vez na vida, ele agora se
resignava em ser mais uma vez o sacrifí­
cio que não se queixava.
Bradou com grande e mui amargo
brado. Isto e os soluços do versículo 38
são quase como o grito de alguma “cria­
tura pega numa armadilha” (Skinner,
citando Davidson). Jacó... me enganou.
Este é um jogo de palavras com o nome
de Jacó. As palavras hebraicas traduzi­
das como direito de primogenitura e bên­
ção são muito semelhantes: bekorati, bir-
kati. E levantou Esaú a voz, e chorou.
Antes desta declaração, a LXX introduz
a frase “E Isaque ficou silencioso”, o que
explica o novo irrompimento de Esaú.
Sacudirás o seu jugo. Embora Isaque
não pudesse dar a bênção a Esaú, podia
tomá-lo livre de Jacó (Israel). Esse isola­
272
mento mais tarde levou ao desapareci­
mento de Edom das páginas da História.
4) O Ódio de Esaú Contra Jacó
(27:41-45)
41 E saú, pois, odiava a Jacó por causa da
bênção com que seu pai o tinha abençoado, e
disse consigo: V êm chegando os dias de luto
por m eu p ai; então hei de m a ta r Jacó, m eu
irm ão. 42 O ra, foram denunciadas a R ebeca
estas p alav ras de E saú, seu filho m ais v e­
lho ; pelo que ela m andou ch am ar Jacó, seu
filho m ais m oço, e lhe disse: E is que E saú
teu irm ão se consola a teu respeito, propon­
do m atar-te. 43 A gora, pois, m eu filho, ouve
a m inha voz; levanta-te, refugia-te na casa
de L abão, m eu irm ão, em H arã, 44 e dem o­
ra-te com ele alguns dias, até que passe o
furor de teu irm ã o ; 45 até que se desvie de ti
a ira de teu irm ão, e ele se esqueça do que
lhe fizeste; então m andarei trazer-te de lá ;
por que seria eu desfilhada de vós am bos
num só dia?
A palavra empregada para designar
o ódio de Esaú foi usada, mais tarde,
pelos filhos de Jacó, quando eles teme­
ram que José os odiasse por terem-no
traído como o seu pai havia traído Esaú
(50:15 e ss.). Eles também ficaram com
medo, depois da morte de seu pai, que
José se voltasse contra eles. Mas ele era
uma pessoa diferente. A sua fé em Deus
conservava em equilíbrio a sua perspec­
tiva da vida. Tanto quanto o sabemos,
Esaú tinha pouca inclinação para as coi­
sas espirituais.
Ele se esqueça do que lhe fizeste.
Rebeca achava que Esaú era incapaz de
se concentrar em qualquer assunto por
muito tempo. Pode ser que ela estivese
correta, mas subestimava a memória de
Deus.
Desfilhada de vós ambos. Ela podia
não estar referindo-se à lei de vingança
familiar, pois não havia ninguém para
executá-la. Devia estar temendo que eles
dois se matassem, pois seria um entreve-
ro imprevisível. Embora Esaú fosse um
caçador, Jacó foi capaz de lutar com um
anjo, empatando! Rebeca percebeu que
ela precisava arriscar perder o seu filho,
para salvá-lo.
5. A Benção de Isaque Como Despedida
(27:46-28:5)
46 E disse R ebeca a Isaque: E nfadada
estou da m inha vida, por causa das filhas de
H ete; se Jacó to m ar m ulher dentre as filhas
de H ete, tais com o estas, dentre a s filhas
desta te rra , p a ra que viverei?
1 Isaque, pois, cham ou Jacó, e o abençoou,
e ordenou-lhe, dizendo: N ão tom es m ulher
dentre as filhas de C anaã. 2 L evanta-te, vai
a Padã-A rã, à ca sa de B etuel, p ai de tu a
m ãe, e tom a de lá um a m ulher dentre as
filhas de L abão, irm ão de tu a m ãe. 3 Deus
Todo-Poderoso te abençoe, te faça frutificar
e te m ultiplique, p a ra que venhas a ser
um a m ultidão de povos; 4 e te dê a bênção
de A braão, a ti e ã tu a descendência contigo,
p a ra que herdes a te rra de tu as p ereg rin a­
ções, que Deus deu a A braão. 5 A ssim despe­
diu Isaque a Jacó , o qual foi a Padã-A rã, a
L abão, filho de Betuel, aram eu , irm ão de
R ebeca, m ãe de Jacó e de E saú.
Agora retornamos à fonte Sacerdotal.
Alguns expositores acham que o narra­
dor deste relato não tinha conhecimento
dos acontecimentos de 27:1-45. A aten­
ção é chamada para o fato de que Isaque,
em aparente contradição com a passa­
gem precedente, revela os seus sentimen­
tos duros em relação a Jacó. É bem pro­
vável, contudo, que Isaque era a espécie
de homem que podia perdoar e não
guardar ressentimento contra o seu filho.
A sua atitude para com Rebeca pode ter
sido outro assunto, pois certamente ele
ficou sabendo de quem era a mão que
preparara tudo.
Para que venhas a ser uma multidão
de povos. A palavra qahal (multidão) é
a costumeiramente usada no Velho Tes­
tamento para designar assembléia, con­
gregação. Ela é usada aqui pela primeira
vez. Mais tarde ela se tornará a palavra
de onde se origina “igreja” . Aqui, a
ênfase é dada à “coerência tanto quanto
à multiplicidade” (Kidner, p. 158). Da
mesma forma como Abraão fora o pai
dos fiéis, dos crentes diante de Deus,
individualmente, Jacó se tornaria o pai
de Israel, o povo de Deus, a congregação
reunida. É bem possível que esta passa-
273
gem antecipe “a comunidade de nações
universal, escatológica e temente a Deus”
(von Rad, p. 277).
6. O Casamento Tardio de Esaú (28:6-9)
6 O ra, viu E saú que Isaque abençoara
Jacó e o enviara a P adã-A rã, p a ra to m ar de
1Âm ulher p a ra si, e que, abençoando-o, lhe
ordenara, dizendo: N ão tom es m ulher den­
tre as filhas de C anaã, 7 e que Jacó, obede­
cendo a seu pai e a sua m ãe, fora a Padã-
A rã; 8 vendo tam bém E saú que a s filhas de
C anaã e ra m m ás aos olhos de Isaque seu
pai, 9 foi-se E saú a Ism ael e, além das
m ulheres que já tinha, tom ou por m ulher a
M aalate, filha de Ism ael, filho de A braão,
irm ã de Nebaiote.
A fonte Sacerdotal, continuada aqui,
estava mais interessada nos problemas de
casamentos estrangeiros do que as narra­
tivas anteriores, escritas em uma época
cm que o problema não era tão impor­
tante. Com o retomo de Israel do exílio
babilónico, a sobrevivência da fé estava
sendo ameaçada por tais alianças. Era
assunto de grande preocupação para Es-
dras, Neemias e Malaquias.
Ê estranho que Esaú não tivesse per­
cebido como os seus casamentos anterio­
res haviam desagradado aos seus pais.
Isso revela, em primeiro lugar, que ele
não tinha percepção e também que a sua
mãe e seu pai não se haviam aberto com
ele a respeito desse assunto. A sua ten­
tativa de pacificá-los, casando-se com
uma ismaelita, é típica das tentativas
ineptas do homem secular de aparentar
religiosidade.
IV. As Narrativas Sobre Jacó
(28:10-35:29)
Exceto pelo capítulo 36, que contém
listas genealógicas da tribo de Esaú, esta
seção é caracterizada por uma interliga­
ção bem tramada das fontes Judia e
Israelita do Norte, com uma notação ou
outra do relato Sacerdotal. Em grande
parte do material, é muito difícil distin­
guir as duas fontes populares uma da
outra. Contudo, há indicações de que
elas estão presentes.
1. Jacó em Betei (28:10-22)
10 P artiu , pois, Jacó de B eer-Seba e se foi
em direção a H arã; 11 e chegou a um lugar
onde passou a noite, porque o sol já se havia
posto; e, tom ando u m a d as p ed ras do lu gar
e pondo-a debaixo da cabeça, deitou-se ali
p ara dorm ir. 12 E ntão sonhou: estav a posta
sobre a te rra u m a escada, cujo topo chega­
v a ao céu ; e eis que os anjos de D eus subiam e
desciam por e la ; 13 por cim a dela estav a o
Senhor, que d isse: E u sou o Senhor, o Deus
de A brão teu pai, o D eus de Isaque; esta
te rra em que estás deitado, eu a d arei a ti e à
tu a descendência; 14 e a tu a descendência
será como o pó da te r r a ; d ila ta r-te-ás p a ra o
ocidente, p a ra o oriente, p a ra o norte e p a ra
o sul; por m eio de ti e da tu a descendência
serão benditas todas as fam ílias da te rra .
15 E is que estou contigo, e te g uardarei por
onde quer que fores, e te farei to rn ar a esta
te rra ; pois não te deixarei até que h aja
cum prido aquilo de que te tenho falado.
16Ao aco rd ar Jacó do seu sono, disse: R eal­
m ente o Senhor está neste lu g ar; e eu não o
sabia. 17 E tem eu, e disse: Quão terrív el é
este lugar! E ste não é outro lugar senão a
casa de D eus; e esta é a porta dos céus.
18 Jacó levantou-se de m anhã cedo, tom ou a
p edra que p u sera debaixo da cabeça, e a pôs
como coluna; e derram ou-lhe azeite em
cim a. 19E cham ou aquele lugar B etei; porém
o nom e da cidade antes e ra Luz. 20 Fez
tam bém Jacó um voto, dizendo: Se D eus for
comigo e m e gu ard ar neste cam inho que vou
seguindo, e m e d er pão p a ra com er e vestes
p a ra vestir, 21 de modo que eu volte em paz
à casa de m eu pal, e se o Senhor for o m eu
D eus, 22 então esta p ed ra que tenho posto
como coluna se rá casa de D eus; e de tudo
quanto m e deres, certam ente, te d arei o
dizimo.
Reconhece-se, geralmente, que a fonte
Israelita do Norte se encontra nos versí­
culos 10-12, 17-18, 20-22, e a narrativa
da fonte Judia nos versículos 13-16,19.
Esta análise é baseada sobre (1) a alter­
nação de “Deus” e “o Senhor” nos ver­
sículos consecutivos (12 e 13; 16 e 17);
(2) a referência a um sonho (v. 12) —
característica da fonte Israelita do Norte
— que apresenta anjos e a escada, en­
quanto a passagem que usa “o Senhor”
fala de uma teofania (v. 13); (3) a redun­
274
dância das exclamações nos versículos
16e 17.
Todavia, estes argumentos dificilmen­
te são base confiável para uma recons­
trução. Indicam a presença provável de
ambos os relatos, mas os detalhes de aná­
lise parecem sct um tanto aibitiários.
Só a variação de nomes da divindade não
é evidência suficiente para distinguir as
narrativas; as referências a sonhos são
comuns em toda espécie de literatura; a
literatura do Oriente Próximo antigo é
redundante por natureza.
A despeito da história literária do ma­
terial, esta passagem é um relato unifi­
cado do que aconteceu com Jacó em
Betei. Seja o quadro ou não uma com­
posição de dois relatos, ele retrata vivi-
damente um único evento.
E chegou a um lugar. O hebraico diz
“ao lugar”. Embora esta expressão possa
simplesmente estar descrevendo um lo­
cal, ela freqüentemente refere-se a um
santuário. Aqui, o artigo designa-o como
um lugar particularmente sagrado. Al­
guns expositores acham que Jacó parou
no local de um santuário cananeu (von
Rad). Isto é baseado no fato de que, de
acordo com descobertas arqueológicas,
Betei já existiu em 2000-1600 a.C. Al­
guns eruditos consideram o nome de
Betei como o de um deus, bem como de
uma cidade (Am. 5:4 e ss.; ler. 48:13).
A alegação de que Betei era um lugar
sagrado antes da época de Jacó é paten­
temente fraca. O próprio Jacó viveu em
cerca de 1600 a.C., e as evidências ar­
queológicas de uma ocupação de Betei
anteriormente não são conclusivas. Os
exemplos do nome relacionado em Amós
e Jeremias são ambos casos de paralelis­
mo hebraico, em que Yahweh é paralelo
a Betei. Os profetas não pretendiam
apresentar uma correspondência com os
nomes de deuses pessoais, mas uma re­
tratação do fato de que o Reino do Norte
havia substituído o Deus vivo pelo san­
tuário de Betei. É improvável que um
deus se chamasse Betei, “casa de Deus”.
Betei é chamado de “o” lugar porque
era um conhecido santuário na época dos
escritores bíblicos. Este capítulo é o rela­
to de seu descobrimento. Ele tomou-se
um centro importante durante o remado
de Jeroboão I (I Reis 12:26-29). Mesmo
depois da queda de Samária, ele tinha
significado (II Reis 17:28), porém mais
tarde foi destruído por Josias (II Reis
23:15).
Então sonhou: estava posta sobre a
terra uma escada. A palavra traduzida
como “escada” vem de uma raiz que
significa amontoar ou levantar, e, por­
tanto, provavelmente, significa uma
rampa ou escadaria. Os zigurates babi­
lónicos (cf. 11:1 e ss.) tinham escadarias
assim, e os homens criam que os deuses
desciam para visitar o “alpendre” ou a
câmara que ficava no topo do templo.
O significado babilónico da palavra Ba­
bel era “portão de Deus” (cf. “porta dos
céus”, v. 17). Era apropriado, visto que
Jacó estava viajando para a Babilônia,
que a substância de seu sonho tratasse de
símbolos babilónicos. Yahweh estava no
topo da escada, contudo, e não Mar-
duque.
Os aqjos de Deus subiam e desciam
por ela. Devia-se esperar que os anjos
estivessem “descendo e subindo” , ao in­
vés do exposto, que é o inverso. A ordem
pode ser coincidente, mas, da maneira
como está, a ênfase é sobre o movimento
dos mensageiros da terra para Deus e de
volta à terra, e não no fato de eles saírem
da presença de Deus e voltarem. Portan­
to, o significado é que as hostes dos céus
estavam prontas para servir às necessida­
des dos homens, particularmente de
Jacó. Acima deles Deus desceu do céu e
ficou sobre a escada, acima de Jacó.
A promessa que Deus deu a Jacó é
calcada em termos já familiares a nós,
pois constam nas suas promessas feitas a
Abraão e a Isaque. Pela primeira vez ele
anunciou que havia escolhido Jacó como
portador da promessa. Nenhuma palavra
de condenação foi pronunciada para o
275
homem culpado. Esta era uma certeza
baseada na graça e providência de Deus,
e de forma alguma dava a entender que
Jacó era digno da bênção. De fato, a sú­
bita mudança dos acontecimentos to-
mou-o completamente de surpresa. Não
podia haver um momento em que ele
precisasse mais de encorajamento divino
do que então, nem um momento em que
ele o esperasse menos.
Eis que estou contigo. Este não foi
nenhum deus local da Palestina que fa­
lou com Jacó. Ele era o “Deus dos Pais”
(Alt), que iria acompanhá-lo a Harã e
garantir o seu regresso em segurança.
A reação de Jacó ao sonho aconteceu
em dois estágios. Primeiramente somos
informados do que ele disse, e então do
que ele fez. A sua reação vocal foi trí­
plice: (1) Realmente o Senhor está neste
lugar; e eu não o sabia. Ele pensara que
estava em uma região solitária, abando­
nada, mas Deus estava ali o tempo todo.
Da mesma forma outros homens têm-se
sentido desertados por Deus, quando não
obstante ele estava operando em suas
vidas; muita gente tem falhado muitas
vezes em sentir a presença de Deus em
uma atuação que ele mesmo inspirou.
(2) Quão terrível é este lugar! Esta é a
única vez, em Gênesis, em que uma
teofania por fim suscitou uma reação de
medo. Geralmente. Deus assegurou ao
patriarca que ele não devia temer. Talvez
esta seja a forma de o escritor enfatizar a
repreensão de Deus a Jacó. Foi a sua
presença que condenou-o, e não a sua
palavra.
(3) Este não é outro lugar senão a casa
de Deus... a porta dos céus. Jacó estava
tão enganado quanto muitos outros têm
estado, ao pensar que o lugar onde se en­
contrara com Deus era o único lugar em
que Deus podia ser encontrado. Tanto
quanto conhecemos, a despeito de Deus
ter assegurado que iria com ele, Jacó não
demonstrou nenhuma inclinação para
adorá-lo publicamente em Harã. Só
quando voltou a Betei ele realizou outro
ato religioso abertamente.
O que Jacó fez como reação ao sonho
é descrito de duas maneiras: (1) A pedra
sobre a qual ele sonhara, estabeleceu
como coluna (massebah). Von Rad afir­
ma que seria necessária força sobre-hu-
mana para fazê-lo, visto que tais pedras
muitas vezes tinham mais de dois metros
de altura. Contudo, esta Jacó havia mo­
vido na noite anterior, para fazer dela
um travesseiro. Dificilmente ele teria mo­
vido uma pedra pesada com esse objeti­
vo. A unção de objetos, quando eram
dedicados a Deus (cf. Êx. 30:26 e ss.;
Lev. 8:10 e ss.; Gên. 31:13), também era
praticada fora de Israel.
(2) Jacó fez um voto. Algumas pessoas
têm criticado este ato como tentativa
típica de fazer uma barganha com Deus,
mas ele estava longe disso. Jacó não
pediu fama nem riquezas. Tudo o que ele
desejou foi pão e roupa, até poder voltar.
Ele era um rapaz saudoso de casa, com
um único desejo: voltar para casa. Al­
guns indivíduos, não sentindo necessida­
de profunda de suas famílias, são incapa­
zes de saudade. O pedido de Jacó a Deus
revelou claramente uma profunda neces­
sidade que ele sentia de sua família, a
despeito de todas as tensões que havia
entre eles. Este fato, por si mesmo, nos
informa que essencialmente ele não era
uma pessoa egoísta. Se fosse de outra
forma, ao invés de desejar voltar para a
dura realidade de uma família infeliz, a
sua cabeça estaria cheia de novos sonhos,
ali colocados por Deus.
A condição do voto foi colocada de tal
forma que a sua conclusão pode ser
depois da palavra “paz”, no versículo 21
ou no fim desse versículo. A RSV, se­
guindo a KJV, colocou a conclusão (apó-
dose) depois de “paz”, porque normal­
mente a apódose começa com a ocorrên­
cia de um novo sujeito (aqui é Senhor).
Contudo, à luz do sonho que acabara de
ter, é improvável que Jacó tivesse dito:
“Se Deus me abençoar, farei dele o meu
276
Deus.” Isto daria a entender que, se
Deus não se manifestasse, Jacó o rejei­
taria. É muito mais razoável traduzir o
voto, como o hebraico permite, de forma
que “o Senhor será meu Deus” seja uma
parte da prótase (a cláusula “se): “Se
Deus for comigo... me guardar... me
der... e o Senhor for meu Deus, então
esta pedra...”
Portanto, no voto, Jacó de fato estava
fazendo uma barganha com Deus, mas
não estava pedindo muito nem condicio­
nando a sua aceitação de Deus sobre o
cumprimento de seus desejos. Se Deus
guardasse a sua palavra para com ele,
possibilidade que Jacó achava mais difí­
cil de crer quando o sonho se desvane­
ceu, então ele construiria um santuário
em Betei, e ali daria o dízimo de tudo o
que Deus lhe viesse a dar.
Embora, quando de sua volta a Betei,
Jacó, na verdade, tenha edificado um
altar (não uma “casa” , 35:7), não há
registro de que ele jamais tenha pago o
dízimo. Incidentalmente, o dízimo de
Abraão a Melquisedeque e a promessa de
Jacó de dar o dízimo são testemunhos do
fato de que o conceito de dizimar era
mais antigo do que a lei mosaica, e não
depende dela. Da mesma forma como no
caso de Abraão, Jacó prometeu dar o
dízimo, como reação à graça de Deus, e
não como obrigação legal.
O fato de que Jacó não deu o dízimo
prometido — tanto quanto os registros
revelam — é desconcertante. Será que ele
encontrou problemas de saber a quem
pagá-lo? A que sacerdotes ele o confia­
ria? É mais provável que Jacó tenha
achado demasiado inconveniente dar o
dízimo, depois que acumulou a sua ri­
queza. Uma coisa era prometer o dízimo
de sua comida e de sua roupa, mas bem
outra tirar um animal de cada vez de seus
numerosos rebanhos. Raramente um ho­
mem começa a dar o dízimo depois que
se torna rico. É mais comum que o dizi-
mador rico começou a exercitar esse cos­
tume quando o dízimo era pequeno. Se
Jacó tivesse dizimado durante toda a sua
permanência em Harã, seria mais fácil
fazê-lo em Betei.
2. Os Casamentos de Jacó (29:1-30)
Os comentaristas mais antigos encon­
tram, neste capítulo, a fonte Israelita do
Norte, tanto quanto a Judia. Contudo,
nenhuma das costumeiras marcas do ma­
terial Israelita do Norte se apresenta, tais
como o uso de ’Elohim (Deus) para a
divindade, a menção de sonhos e anjos, e
certas expressões características. A base
primordial para se verificar evidências de
material Israelita do Norte aqui é o que
Speiser chamava de “uma ilusão de óti­
ca, induzida por divisões erradas de ver­
sículos”. Supunha-se, visto que acontece
uma interrupção entre os versículos 14 e
15, que o escritor da fonte Judia pen­
sava que a permanência total de Jacó em
Harã foi de um mês, período mencio­
nado no versículo 14. Visto que a passa­
gem que começa com o versículo 15 conta
a história da peregrinação de Jacó duran­
te vinte anos, deve ser uma fonte dife­
rente!
Se o versículo 15 é considerado como
continuação do versículo 14, então o
problema é removido. O sentido seria:
“Quando Jacó ficou com ele um mês
inteiro, perguntou Labão...” continuan­
do o versículo 15 a história, e não come­
çando uma nova seção.
Também há pequena possibilidade de
que os versículos 24 e 25 (a menção das
concubinas) seja proveniente da fonte
Sacerdotal, como antigamente se supu­
nha. Os materiais Nuzi (veja a Introdu­
ção) têm uma passagem paralela em que
o presente de uma serva para a noiva é
mencionado da mesma forma abrupta.
Desta forma, o capítulo 29 pode ser
considerado como unidade literária úni­
ca, proveniente da fonte Judia.
1) Jacó Se Encontra com Raquel
(29:1-14)
1 E ntão pôs-se Jacó a cam inho e chegou
à te rra dos filhos do O riente. 2 E olhando, viu
277
ali um poço no cam po, e trê s rebanhos de
ovelhas deitadas junto d ele; pois desse poço
se dava de beber aos rebanhos; e havia um a
grande p ed ra sobre a boca do poço. 3 A jun­
tavam -se ali todos os rebanhos; os pastores
rem oviam a p ed ra da boca do poço, davam
de beber às ovelhas e to m av am a pôr a
p ed ra no seu lu g ar sobre a boca do poço.
4 Perguntou-lhes J a c ó : M eus irm ãos, donde
sois? R esponderam eles: Somos de H arã.
5 Perguntou-lhes m a is : Conheceis a Labão,
filho de N aor? R esponderam : Conhecem os.
6 Perguntou-lhes ainda: Vai ele bem ? R es­
ponderam : Vai b em ; e eis ali R aquel, sua
filha; que vem chegando com as ovelhas.
7 Disse ele: E is que ainda vai alto o dia;
não é hora de se aju n ta r o gado; dai de beber
às ovelhas, e ide apascentá-las. 8 R esponde­
ram : Não podem os, até que todos os re b a ­
nhos se ajuntem , e seja rem ovida a p ed ra da
boca do poço; assim é que dam os de beber
às ovelhas. 9 E nquanto Jacó ainda lhes fala­
va, chegou R aquel com as ovelhas de seu
p a i; porquanto e ra ela quem as ap ascen ta­
va. 10 Quando Jacó viu a R aquel, filha de
Labão, irm ão de sua m ãe, e as ovelhas de
Labão, irm ão de su a m ãe, chegou-se, revol­
veu a p ed ra da boca do poço e deu de beber
às ovelhas de L abão, irm ão de sua m ãe.
11 E ntão Jacó beijou a R aquel e, levantando
a sua voz, chorou. 12 E Jacó anunciou a
R aquel que ele e ra irm ão de seu pai, e que
era filho de R ebeca. R aquel, pois, foi co r­
rendo p a ra anunciá-lo a seu pai. 13 Quando
Labão ouviu essas novas de Jacó, filho de
sua irm ã, correu-lhe ao encontro, abraçou-o,
beijou-o e o levou a sua casa. E Jacó relatou
a Labão todas essas coisas. 14 Disse-lhe L a­
bão: V erdadeiram ente tu és m eu osso e m i­
nha carne. E Jacó ficou com ele um m ês
inteiro.
O significado literal de pôs-se Jacó a
caminho é “Jacó levantou o seu pé”, ex­
pressão que ocorre só esta vez no Velho
Testamento. É um quadro vivo de sua
ansiedade, depois de sua experiência em
Betei. Ela deve ser vista como agudo
contraste com a maneira como ele deve
ter-se arrastado de casa até Betei.
Os pastores removiam a pedra é a in­
terpretação da RSV do texto, segundo a
LXX e o Pentateuco Samaritano. O Tex­
to Massorético apresenta apenas “eles
rolavam a pedra”, o que faz parecer que
o sujeito de “rolavam” é “os rebanhos” .
A redação da RSV é, certamente, uma
forma correta de entender a situação.
Os pastores esperavam até que todos
os rebanhos estivessem ali, não apenas
porque a tampa de pedra era tão pesada,
mas, provavelmente, porque todos com­
partilhavam dos direitos sobre a água, e
não queriam que estes fossem violados.
Ao remover a pedra do poço, Jacó estava
arriscando-se a tornar-se alvo da ira de
toda a comunidade.
Jacó ansiosamente loquaz estava em
agudo contraste com os taciturnos pasto­
res. Eles pareciam indolentes demais
para expressarem mais do que as reações
essenciais. Apenas moderadamente sur­
presos, pelo fato de ele querer que eles
modificassem os seus padrões costumei­
ros de comportamento, eles chegaram a
ser plácidos demais para se ressentirem
da tentativa de Jacó de apressá-los.
Parece estranho que Raquel estivesse
vindo com suas ovelhas naquela hora.
Certamente, ela sabia qual era a hora da
abertura do poço, e ainda estavam no
começo da tarde. Será que ela viera mais
cedo ao poço, para conversar com os
outros pastores, para encontrar com es­
tranhos interessantes que estivessem pas­
sando, ou para ser a primeira da fila para
dar água ao rebanho?
O súbito fluxo de adrenalina que ca­
pacitou Jacó a remover a pesada pedra
da boca do poço era devido não apenas à
aparência da bela Raquel, mas também
à óbvia riqueza da família dela, eviden­
ciada pelo rebanho de ovelhas que ela
apascentava (v. 10). O ato incomum e
cavalheiresco de Jacó deve ter conquista­
do o coração de Raquel imediatamente.
Alguns intérpretes ficam perplexos
com o fato de Jacó ter beijado Raquel de
maneira tão ousada. João Calvino ex­
pressou a opinião de que esta declaração
foi um erro de redação de Moisés, ao
relatar o fato. Agora sabe-se, todavia,
que no vale superior da Mesopotâmia
naquela época, as mulheres tinham mui­
to mais liberdade do que na Palestina
278
posteriormente. Uma pastora dificilmen­
te ia trabalhar usando véu. Obviamente,
ela devia saber como se defender. O com­
portamento de Jacó, evidentemente, não
foi tão ofensivo quanto surpreendente.
2) Labão Engana Jacó (29:15-30)
13 Depois perguntou Labão a Jacó : P o r
seres m eu irm ão h ás de se rv ir-me de g raça?
D eclara-m e, qual será o teu salário? 16 O ra,
Labão, tinha duas filhas; o nom e da m ais
velha e ra L éia, e o da m ais m oça R aquel.
17 L éia tinha os olhos enferm os, enquanto
que R aquel e ra form osa de porte e de sem ­
blante. 18 Jacó, porquanto am av a a R aquel,
disse: Setè anos te servirei p a ra te r a R a ­
quel, tua filha m ais m oça. 19 R espondeu
L abão: M elhor é que eu a dê a ti do que a
outro; fica com igo. 20 A ssim serviu Jacó
sete anos por causa de R aquel; e estes lhe
pareciam como poucos dias, pelo m uito que
a am ava. 21 E ntão Jacó disse a L abão:
Dá-m e m inha m ulher, porque o tem po já
está cum prido; p a ra que eu a tom e por
m ulher. 22 R euniu, pois, Labão todos os
hom ens do lugar, e fez um banquete. 23 Â
tarde tom ou a L éia, sua filha, e a trouxe a
Jacó, que esteve com ela. 24 E Labão deu
sua serv a Zilpa por serva a L éia, sua filha.
25 Quando am anheceu, eis que e ra L éia;
pelo que perguntou Jacó a L ab ão : Que é isto
que m e fizeste? P orventura não te servi em
troca de R aquel? P or que, então, m e enga­
naste? 28 R espondeu L abão: N ão se faz
assim em nossa te rra ; não se dá a m enor
antes da prim ogênita. 27 C um pre a sem ana
d esta; então te darem os tam bém a outra,
pelo trabalho de outros sete anos que ainda
m e servirás. 28 Assim fez Jacó, e cum priu a
sem ana de L éia; depois Labão lhe deu por
m ulher sua filha R aquel. 29 E Labão deu sua
serva Bila por serv a a R aquel, su a filha.
30 E ntão Jacó esteve tam bém com R aquel;
e am ou a R aquel m uito m ais do que a L é ia ;
e serviu com Labão ainda outros sete anos.
A reação de Labão às novidades trazi­
das por Raquel foi aberta e generosa.
Em contraste com Eliézer, Jacó obvia­
mente não tinha nada para lhe oferecer.
Contudo, Labão o recebeu de maneira
igualmente principesca, como havia re­
cebido o rico servo de Abraão. Aqui, o
esperto manipulador revelou que não era
de todo mau, e que era capaz de interesse
e cortesia verdadeiros.
Jacó também revelou-se como pessoa
bem diferente da que geralmente se en­
tende que ele era. Trabalhou para Labão
um mês sem levantar o assunto de salá­
rios. A sua sugestão a Labão de trabalhar
sete anos por Raquel dificilmente pode
ser chamada de atitude inflexível nos
negócios. Talvez ele pudesse obtê-la por
menos, mas ele não se arriscaria a ser
rejeitado. E também aqueles sete anos
pareceram poucos dias! Nenhum homem
que amasse de maneira tão desprendida
podia ser uma pessoa essencialmente
egocêntrica. Este não é o retrato de um
homem cujo primeiro pensamento era
explorar outras pessoas, para se benefi­
ciar.
Léia e Raquel são contrastes típicos de
caráter. Raquel era uma jovem atraente,
vivaz, que suscitava a admiração dos
homens, enquanto Léia era do tipo
“violeta” , para quem seu pai temia não
encontrar marido. Léia é descrita com
olhos enfermos ou fracos, mas uma tra­
dução melhor seria “baços”. O nome
dela significa “vaca”. O nome de Raquel
significa “ovelha” . Alguns intérpretes
acham que estes nomes expressam a his­
tória tribal das famílias de Léia e de
Raquel, sendo a primeira composta de
lavradores, e a última, de pastores (cf.
von Rad). Se isto é verdade, não sig­
nifica que a Léia e Raquel eram apenas
personificações de histórias tribais, mas
que os seus descendentes cumpriram os
nomes de suas mães.
Não se dá a menor antes da primogê­
nita. Como uma espada, estas palavras
devem ter atravessado o coração de Jacó,
pois ele acabara de participar de uma
mudança de posições semelhantes a com
o seu irmão Esaú.
É claro que Jacó não esperou outros
sete anos por Raquel. Nada o poderia ter
persuadido a fazê-lo. Depois dos sete
dias da festa de casamento para Léia, e
mediante a promessa de Jacó de traba­
lhar outros sete anos, Raquel lhe foi
dada. (Lev. 18:18 e ss. proíbe casamento
279
com duas irmãs. A proibição, sem dúvi­
da, resultou dos problemas experimenta­
dos nesta família.)
3. A Rivalidade Entre Léia e Raquel
(29:31-30:24)
Os intérpretes identificam as fontes
Judia e Israelita do Norte, nesta seção,
mas as duas estão emaranhadas de ma­
neira tão intricada que é difícil discrimi­
nar entre as duas.15 As mudanças do
nome divino dão um indício, embora,
por si mesmas, elas não sejam suficientes
para a identificação das fontes. A evidên­
cia mais convincente é a apresentação de
duas explicações para o significado da
maioria dos nomes dos filhos de Jacó.
A forma usual das narrativas dos nasci­
mentos é uma única explicação. Contu­
do, a explicação dupla pode ser simples­
mente devida ao desejo de enfatizar o
fato narrado. A narrativa Judia é geral­
mente identificada com 29:31-35; 30:3-5;
30:7-16; 30:20b (começando com “agora
morará comigo meu marido”); 30:24.
A mão Israelita do Norte é sentida em
30:1,2, 6 ,17-20a, 21-23.
Os significados dados aos vários nomes
dos filhos de Jacó devem ser considera­
dos como tradições autênticas. Os edito­
res do livro de Gênesis, ao registrarem as
interpretações dos nomes, preservaram,
para nós, os significados que eles tinham
para os descendentes desses homens. O
que temos é o significado que gerações
posteriores viram nos nomes, e que eles
criam que as mães dos patriarcas tam­
bém perceberam. Ao invés de tentar har­
monizar as explicações, os compiladores
dos materiais os transmitiram da manei­
ra como chegaram às suas mãos, e, desta
forma, preservaram o seu valor histórico.
Se Léia e Raquel, na verdade, percebe­
ram ou não todo o significado dado aos
nomes de seus filhos, pelas gerações pos­
teriores, não importa: o seu significado
15 Cf. Joe B. Lewis, “An Analysis of Uteraiy Forms in
the Jacob Narratives", 1964. Dissertação doutoral não
publicada, Southern Baptist Theological Seminary.
estava presente o tempo todo. Visto que
foram as mães que deram os nomes, não
é irrelevante creditar a elas o entendi­
mento dos significados que os seus des­
cendentes viram nesses nomes. Este não
é um “jogo etimológico extremamente
livre, em que o narrador reluz” (von
Rad, p. 289), mas uma compilação res­
ponsável.
Concordando com Noth, von Rad
(p. 291) duvida que Léia e Raquel real­
mente foram esposas deJacó. Pelo contrá­
rio, diz que elas representam dois grupos
independentes de tribos que chegaram à
Palestina em épocas diferentes, e então
se uniram em uma liga de doze tribos.
“A figura de Jacó como receptor da
revelação e fundador de uma religião se
ligou genealogicamente com esta confe­
deração de doze somente posterior­
mente.”
O caráter do material desta passagem
argumenta contra a posição de von Rad.
Não há nenhuma indicação, nesta seção,
de que estas historietas são história tri­
bal disfarçada. Todas as referências ao
ato de dar nome aos filhos são pessoais,
enfatizando o conflito entre Léia e Ra­
quel, pelo amor de Jacó. Os relatos têm
todas as características de antigas tradi­
ções de família a respeito de ancestrais
comuns, histórias que os pais contavam
aos seus filhos. Eles formam “uma parte
bastante lembrada de uma tradição co­
nhecida” (Davies).
1) Os Filhos Mais Velhos de Léia
(29:31-35)
31 Viu, pois, o Senhor que L éia e ra desp re­
zada, e tom ou-lhe fecunda a m ad re; R a ­
quel, porém , e ra estéril. 32 E L éia concebeu
e deu à luz um filho, a quem cham ou R ú b en ;
pois disse: Porque o Senhor atendeu à m i­
nha aflição; ag o ra m e a m a rá m eu m arido.
33 Concebeu outra vez, e deu à luz um filho;
e disse: Porquanto o Senhor ouviu que eu
e ra desprezada, deu-m e tam bém este. E lhe
cham ou Sim eão. 34 Concebeu ain da outra
v eze deu à luz um filho; e disse: A gora esta
vez se unirá m eu m arido a m im , porque três
filhos lhe tenho dado. P ortanto lhe cham ou
Levi. 35 De novo concebeu e deu à luz um
280
filho; e disse: E sta vez louvarei ao Senhor.
P o r isso lhe cham ou Ju d á. E cessou de te r
filhos.
Léia era desprezada. O verbo não
significa “odiada”, como na versão ingle­
sa RSV, porém não amada, desprezada,
como na versão da IBB (cf. Deut. 21:15).
Uma palavra semelhante, em acádio,
tem o significado de renúncia. A palavra
usada aqui ocorre também em Mala-
quias 1:3, onde, na verdade, Deus diz:
“e eu fui repelido por Esaú.” Nesta
passagem, Deus é revelado como o Deus
dos “párias”. Quando Raquel estava na
pior, ele a ajudou também (30:22).
Os acontecimentos haviam tomado um
rumo não previsto por Raquel. Léia esta­
va cumprindo produtivamente o seu
nome (vaca); Raquel, a pequena “ove­
lha”, era estéril. Léia deu à luz o filho
mais velho de Jacó, Rúben. O significado
básico de seu nome parece ser “Veja, um
filho”, que descreve as alegres notícias
do nascimento de um herdeiro. Léia,
contudo, segundo os registros, deu um
significado muito diferente a esse nome.
Para ela, ele significava que Deus havia
visto a sua aflição e interviera, para que o
seu marido a amasse. Não há razão por
que a mãe não pudesse ter feito tal jogo
de palavras com o nome do filho. Rúben
pode ter sido tão sintético como alguns
dos nomes que pais apaixonados ainda
dão aos seus filhos.
0 significado que Léia deu ao nome
Simeão (de shama, ele ouviu) não apre­
senta nenhuma dificuldade. Da mesma
forma, o nome de seu filho seguinte, Levi
(lawah, juntar-se). O nome Judá tem um
significado questionável, mas a conota­
ção é tão persuasiva quanto as outras
teorias.
2) Os F u jo s da Serva de Raquel (30:1-8)
1Vendo R aquel que não dava filhos a Jacó,
teve inveja de sua irm ã, e disse a Jacó :
D á-m e filhos, senão eu m orro. 2 E ntão se
acendeu a ira de Jacó contra R aquel; e
d isse: P orv en tu ra estou eu no lu g ar de Deus
que te im pediu o fruto do ventre? 3 R espon­
deu e la : E is aqui m inha serv a B ila; receba-a
por m ulher, p a ra que ela dê à luz sobre os
m eus joelhos, e eu deste m odo tenha filhos
por ela. 4 Assim lhe deu a B ila, sua serva, por
m u lh er; e Jacó a conheceu. 5 Bila concebeu e
deu à luz um filho a Jacó. 6 E ntão disse
R aquel: Julgou-m e D eus; ouviu a m inha voz
e m e deu um filho; pelo que lhe cham ou D ã.
7E B ila, serv a de R aquel, concebeu o u tra vez
e deu à luz um segundo filho a Jacó . 8 E ntão
disse R aquel: Com grandes lutas tenho lu ­
tado com m inha irm ã, e tenho vencido; e
cham ou-lhe N aftali.
O principal foco desta passagem é que
os filhos da escrava, ao contrário do que
aconteceu no episódio de Agar, foram
também considerados como herdeiros le­
gítimos. A liga tribal foi formada sobre
este conceito de igualdade.
Estou eu no lugar de Deus? É possível
que Jacó tenha entendido Raquel errada­
mente, pois, obviamente, ele pensou que
ela estava culpando-o por sua esterilida­
de. É provável que ela estava apenas
preparando o terreno para sugerir que
ele coabitasse com sua serva, Bila.
Para que ela dê à luz sobre os meus
joelhos. Originalmente, no momento do
nascimento, pode ser que a mãe que
estava em trabalho de parto se colocasse
sobre o corpo da mãe adotiva, mas por
esse tempo o contexto já não tinha mais o
significado original. Relatos hurrianos,
da era patriarcal, indicam que o filho
era normalmente colocado sobre os
joelhos do pai, para dar a entender
que ele aceitava aquele filho como
seu. Aqui, o desejo da mãe de ser credi­
tada com um filho levou-a a assumir o
papel normalmente desempenhado pelo
pai.
É digno de nota que Jacó nem sequer
participou do ato de dar nome aos seus
filhos. Abraão havia escolhido o nome de
Isaque (21:3); Isaque e Rebeca haviam
dado o nome a Jacó e Esaú (25:25 e s.).
De fato, parece que Jacó estava irreme­
diavelmente encurralado entre aquelas
duas mulheres rixentas. Elas decidiam
entre elas a qual delas ele iria visitar
(30:16). O nome Dã significa julgado ou
vingado. Naftali relaciona-se com “lutas
281
poderosas” (heb., naptule ’Elohim, lutas
de Deus). Possivelmente, Raquel estava
convicta de que a sua batalha contra a
sua irmã fora vencida por forças divinas
identificadas com a sua causa. Contudo,
também é provável que Raquel estivesse
usando a palavra ’elohim em sentido de
adjetivo, sem conotação com uma divin­
dade. Em caso de ser esta a verdade, o
nome do filho significaria simplesmente
poderoso. A referência certamente não é
às lutas de oração, pois ela estava lu­
tando com sua irmã, e não com Deus.
3) Os Filhos da Serva de Léia (30:9-13)
0 T am bém L éia, vendo que cessara de te r
filhos, tom ou a Zilpa, sua serva, e a deu a
Jacó por m ulher. 10 £ Zilpa, serv a de L éia,
deu à luz um filho a Jacó. 11 E ntão disse
L éia: A fortunadaI e cham ou-lhe Gade.
12 Depois Zilpa, serv a de Léia, deu à luz um
segundo filho a Jacó. 13 E ntão disse L éia:
Feliz sou eu! porque a s filhas m e cham arão
feliz; e cham ou-lhe A ser.
Léia, para não ser sobrepujada, con­
vocou a sua serva à batalha pela afeição
de seu marido. Gade significa fortuna, e
era o nome de um deus bastante conhe­
cido (Is. 65:11; Jos. 11:17; 15:37). Isto
tem levado à associação da tribo de Gade
com esse deus, mas o relacionamento não
conseguiu ser estabelecido. Léia, prova­
velmente, quis dizer que não precisava
desse deus pagão. O próprio Senhor lhe
dera toda a fortuna de que ela necessita­
va. Aser significa feliz. O jogo duplo de
palavras não significa, necessariamente,
que houve duas fontes (a Judia e a Is­
raelita do Norte), pois a bênção foi dupla­
mente enfatizada por esta expressão. Ela
não apenas estava feliz, mas todas as
suas amigas também reconheceriam as
suas bênçãos assinaladas. A felicidade
pessoal e a aprovação social nem sempre
coincidem.
4) O Trato por Meio de Mandrágoras
(30:14-24)
14 O ra, saiu R úben nos dias d a ceifa do tri­
go e achou m andrágoras no cam po, e a s trou­
xe a L éia, sua m ãe. E ntão disse R aquel a
L éia: D á-m e, peço, das m an d rág o ras de teu
filho. 15 Ao que lhe respondeu L éia: É já
pouco que m e h ajas tirado m eu m arido?
queres tira r tam bém a s m andrágoras de
m eu filho? Prosseguiu R aquel: P o r isso ele
se d eitará contigo esta noite pelas m an d rá­
goras de teu filho. 16 Quando, pois, Jacó veio
à tard e do cam po, saiu-lhe L éia ao encontro
e d isse; H ás de e sta r com igo, porque c e rta ­
m ente te aluguei pelas m andrágoras de m eu
filho. E com ela deitou-se Jacó aquela noite.
17 E ouviu D eus a L éia, e ela concebeu e deu
a Jacó um quinto filho. 18 E ntão disse L éia:
D eus m e tem dado o m eu galardão, p o r­
quanto dei m inha serva a m eu m arido. E
cham ou ao filho Issacar. 10 Concebendo
L éia outra vez, deu a Jacó um sexto filho;
20 e d isse: D eus m e deu um excelente d o te;
ag o ra m o rará com igo m eu m arido, porque
lhe tenho dado seis filhos. E cham ou-lhe
Zebulom . 21 Depois disto deu à luz u m a fi­
lha, e cham ou-lhe D iná. 22 T am bém lem ­
brou-se D eus de R aquel, ouviu-a e a tornou
fecunda. 27 De m odo que ela concebeu e deu
à luz um filho, e disse: Tirou-m e D eus o
opróbrio. 24 E cham ou-lhe José, dizendo:
A crescente-m e o Senhor ainda outro filho.
A planta de mandrágoras (mandrago-
ra officinarum) tem uma raiz que se
parece remotamente com um homem, e
um fruto que parece uma pequena maçã.
O fruto era usado como afrodisíaco. Pen-
sava-se que, se a mulher o comesse, daria
à luz um filho varão. Léia não precisava
das mandrágoras, e elas não fizeram bem
nenhum a Raquel.
Alguns intérpretes descobrem duas ex­
plicações para o nome de Issacar nos
versículos 16, 17 e 18, sendo o versí­
culo 16 da fonte Judia e os versículos 17 e
18 da fonte Israelita do Norte. Contudo,
Léia não ligou porque certamente te alu­
guei (sakor sekartika) com o nome de
Issacar. Outra forma (nominal) desta
palavra se relaciona diretamente com o
nome de Issacar. É estranho que Léia
considerasse Issacar como seu aluguel
(recompensa), por ter dado a sua serva a
Jacó (v. 18). Pode-se supor que os dois
filhos de Zilpa fossem assim considera­
dos. Esta expressão indica que para Léia
foi uma decisão difícil compartilhar Jacó
com mais outra mulher. É fora de dúvida
282
a sua devoção irremovível a Jacó. A atitu­
de de Raquel em relação a ele era mais
ambivalente.
Léia continuou a supor que, quanto
mais filhos desse a Jacó, mais probabili­
dade tinha de ganhar a afeição dele.
Zebulom recebeu o seu nome porque foi
ò ato apoteótico de Deus em reconhecer
que, afinal de contas, ela era uma ver­
dadeira esposa (Deus havia suprido o
dote). É estranho o fato de que na
morte Léia conseguiu o que lhe fora tão
ilusório em vida. O próprio Jacó reque­
reu que ele fosse sepultado ao lado dela
na caverna de Macpela (49:31). Raquel
foi sepultada perto de Efrata (35:19).
Visto que não é dada nenhuma expli­
cação para o nome de Diná (heb., jul­
gamento), alguns estudiosos pensam que
ele é uma adição feita posteriormente a
esta seção, tirada do capítulo 34. A falta
de detalhes, contudo, pode ser devida ao
fato de que ela era mulher. Naquela
época ela foi privilegiada por seu nome,
afinal de contas, ter sido pelo menos
mencionado (cf. 37:35; 46:7).
A explicação dupla do nome de José é
a mais clara da passagem. Ele se rela­
ciona com ’sp, “remover” (v. 23, fonte
Israelita do Norte), e com ysp, “acres­
centar” (v. 24, relato da fonte Judia).
Todavia, não há razão por que o seu
nome, para Raquel, não pudesse ter am­
bas as conotações. Ele tinha um signifi­
cado presente tanto quanto futuro. Deus
finalmente havia removido o opróbrio de
Raquel, mas também lhe havia dado
razões para esperar mais filhos no futu­
ro. Raquel ainda estava perdendo a cor­
rida. Mal sabia ela que o cumprimento
de seu desejo importaria em sua morte.
4. O Contrato com Labão (30:25-43)
Devido à natureza aparentemente
composta deste material, Wellhausen en­
controu as fontes Judia e Israelita do
Norte neste capítulo. Duas vezes Jacó
pediu a Labão que lhe permitisse voltar
ao lar (v. 25 e 26). Duas vezes Labão
pediu a Jacó para estipular o seu preço
(v. 28 e 31). Dois arranjos diferentes são
registrados. Primeiro, nos versículos 32 a
34, Jacó teria a permissão de ficar ape­
nas com as ovelhas e cabras salpicadas e
malhadas e as ovelhas escuras, que de­
viam ser menos numerosas; segundo, nos
versículos 31,35-43, ele não receberia
nada no momento, mas poderia ficar
com.todas as ovelhas e cabras sem man­
chas ou marcas, no futuro. Desta forma,
os versículos 26,28,32-34 foram atribuí­
dos, por Wellhausen, à fonte Israelita do
Norte e o resto à Judia.
Com algumas reservas, von Rad ainda
se inclina na direção da análise do­
cumentária clássica. Speiser, contudo,
não vê razão para tal divisão em fontes,
mas considera esta passagem como uma
unidade, de maneira clara. Era natural,
na literatura do Oriente Próximo antigo,
repetir-se, e isso não pode ser julgado
pelos padrões da crítica literária ociden­
tal moderna.
De fato, a narrativa faz sentido da
maneira como está. Labão pedira que
Jacó designasse o seu próprio salário.
Para surpresa de Labão, o seu sobrinho
não queria nada na hora, mas apenas os
animais com listras ou manchas nascidos
no futuro (cf. “ovelhas”, v. 33). Jacó
separaria os animais de Labão que fos­
sem tenuemente marcados (listados, as
cabras salpicadas e ovelhas escuras) dos
imaculados (cabras escuras e ovelhas
brancas). Labão, contudo, não confiava
em Jacó, para conservar os rebanhos
separados. Ele mesmo os separou e man­
dou os seus filhos à distância de três dias
dos rebanhos de Jacó, deixando Jacó
apenas com os imaculados. Mediante as­
tutas manobras, Jacó conseguiu fazer
com que as ovelhas brancas parissem
crias escuras, e as cabras escuras pro­
duzissem listados e salpicados!
1) A Parte de Jacó(30:25-36)
25 Depois que R aquel deu à luz a José,
disse Jacó a L abão: D espede-m e a fim de
283
que eu v á p a ra m eu lugar e p a ra m inha
te rra . 26 D á-m e a s m inhas m ulheres, e os
m eus filhos, pelas quais te tenho servido, e
deixa-m e ir; pois tu sabes o serviço que te
prestei. 27 L abão lhe respondeu: Se tenho
achado g raça aos teus olhos, fica com igo;
pois tenho percebido que o Senhor m e ab en ­
çoou por am o r de ti. 28 E disse m a is : D eter­
m ina-m e o teu salário, que to darei. 29 Ao
que lhe respondeu Jacó : Tu sabes com o te
hei servido, e com o tem passado o teu gado
comigo. 30 Porque o pouco que tinhas antes
da m inha vinda tem se m ultiplicado abun­
dantem ente; e o Senhor te tem abençoado
por onde quer que eu fui. A gora, pois, quan­
do hei de trab alh ar tam bém por m inha
casa? 31 Insistiu L abão: Que te d arei? E n ­
tão respondeu Jacó : N ão m e d a rá s nada;
to m arei a ap ascen tar e a g u ard ar o teu
rebanho se m e fizeres isto: 32 P a ssa re i hoje
por todo o teu rebanho, separando dele todos
os salpicados e m alhados, e todos os escuros
entre as ovelhas, e os m alhados e salpicados
entre as cab ras; e isto será o m eu salário.
33 De m odo que responderá por m im a m i­
nha ju stiça no dia de am anhã, quando vires
v er o m eu salário assim exposto diante de
ti: tudo o que não for salpicado e m alhado
entre as cab ras e escuro en tre a s ovelhas,
esse, se for achado comigo, se rá tido por
furtado. 34 Concordou L abão, dizendo: Seja
conform e a tu a p alav ra. 35 E separou n a ­
quele m esm o dia os bodes listrados e m a ­
lhados e todas a s cab ras salpicadas e m a ­
lhadas, tudo em que havia algum branco, e
todos os escuros entre os cordeiros e os deu
nas m ãos de seus filhos; 36 e pôs trê s dias de
cam inho entre si e J a c ó ; e Jacó ap ascen ta­
va o restan te dos rebanhos de Labão.
Tenho percebido, literalmente, “tenho
sido informado por adivinhação” . Labão
estava admirado por que os negócios
estavam indo tão melhor desde que Jacó
viera morar com ele. Não sabendo como
consultar a Deus pessoalmente, ele havia
procurado a direção divina de alguma
outra forma (cf. 44:5,15). No contexto
mesopotâmico, isto significa inquirir me­
diante o uso de augúrios.
Determina-me o teu salário. Labão
estava-se arriscando perigosamente, mas
então ele já sabia que Jacó iria ser razoá­
vel.
Não me darás nada (cf. Abraão e o rei
de Sodoma, 14:24). Jacó estava indigna­
do pela maneira como fora tratado.
E isto será o meu salário. Não estes
animais em particular, mas os semelhan­
tes a eles que nasceram no futuro.
2) O Estratagema de Jacó (30:37-43)
37 E ntão tom ou Jacó v a ra s verdes de es-
toraque, de am endoeira e de plátano e, d es­
cascando nelas riscas b rancas, descobriu o
branco que nelas h avia; 38 e as v a ra s que
descascara pôs em frente dos rebanhos, nos
cochos, isto é, nos bebedouros, onde os r e ­
banhos bebiam ; e conceberam quando v i­
nham beber. 39Os rebanhos concebiam dian ­
te das v aras, e a s ovelhas davam crias lis­
trad as, salpicadas e m alhadas. 40 E ntão
separou Jacó os cordeiros, e fez os rebanhos
olhar p a ra os listrados e p a ra todos os e s­
curos no rebanho de L abão; e pôs o seu
rebanho à p arte, e não o pôs com o rebanho
de L abão. 41 E todas as vezes que conce­
biam as ovelhas fortes, punha Jacó a s v aras
nos bebedouros, diante dos olhos do re b a ­
nho, p a ra que concebessem diante das v a ­
ra s ; 42 m as quando e ra fraco o rebanho, ele
não as punha. A ssim as fracas eram de
Labão, e as fortes de Jacó. 43 E o hom em se
enriqueceu sobrem aneira, e teve grandes
rebanhos, servas e servos, cam elos e ju m en ­
tos.
O plano básico de Jacó se alicerçava
em uma antiga crença de que as expe­
riências traumáticas dos animais quando
concebiam afetariam a natureza de suas
crias. Jacó arranjou três varas parcial­
mente descascadas (em listas e em man­
chas) diante das cabras mais fortes,
quando elas estavam se acasalando, na
expectativa de que daí resultariam cabri­
tos listrados e manchados. A palavra
hebraica traduzida como “rebanho”
pode aplicar-se tanto a ovelhas quanto a
cabras; o termo “cordeiro” também pode
significar cabrito. Para a produção de
ovelhas escuras, ele inventou um processo
diferente. Ele simplesmente as fez olhar
para os bodes escuros que Labão deixara
com ele, e a vista de carneiros pretos
afetou as suas crias.
Esse estratagema parecia bem plausí­
vel para Jacó e seus descendentes, na
época veterotestamentária. No entanto,
os criadores de hoje em dia menosprezam
as perspectivas de qualquer sucesso para
284
manobras como essas. Em 31:9-12 (fonte
Israelita do Norte), o próprio Jacó reco­
nheceu o problema, e admitiu que o seu
ardil teria pequenas probabilidades de
sucesso, se Deus não tivesse feito com
que os carneiros certos (manchados e lis­
trados, v. 10) se acasalassem.
5. Jacó Separa-se de Labão (31:1-55)
Esta passagem é primordialmente pro­
duto da fonte Israelita do Norte (ênfase
em sonhos e anjos, uso do nome Elohim
para a divindade), depois de uma intro­
dução proveniente da narrativa Judia,
nos versículos 1-3. A maioria dos erudi­
tos críticos atribui o versículo 2 ao escri­
tor da fonte Israelita do Norte, pofque
ele parece dar uma explicação diferente
para a decisão, de Jacó, de partir. No
versículo 1, somos informados de que era
devido aos filhos de Labão, enquanto,
no versículo 2, de que era por causa do
próprio Labão. Estilisticamente, não há
argumentos convincentes para uma mu­
dança de fonte. O escritor da fonte Judia
facilmente poderia ter atribuído o desas­
sossego de Jacó à atitude mutável de
Labão, tanto quanto à de seus filhos. As
seções da fonte Israelita do Norte jamais
mencionam os filhos de Labão, e alguns
expositores chegam à conclusão, devido a
isso, de que a opinião da fonte era que ele
não tinha nenhum filho varão, só filhas
(Skinner). Isto colocaria essa fonte em
conflito com o material da fonte Judia, a
não ser que se interprete “filhos” como
parentes (cf. Speiser). Todavia, o silêncio
da fonte Israelita do Norte, a respeito do
assunto, pode não significar, necessaria­
mente, falta de conhecimento. Os filhos
de Labão podiam estar incluídos entre os
parentes (v. 23). A referência a Padã-
Arã, no versículo 18, geralmente é identi­
ficada com a fonte Sacerdotal, visto que
nenhuma das fontes populares emprega
este nome comumente. Ela é, provavel­
mente, editorial, e não de outra fonte.
O pacto entre Jacó e Labão (v. 43-54) é
geralmente considerado como uma com­
posição de materiais das fontes Judia e
Israelita do Norte, visto que dois símbo­
los são estabelecidos: uma coluna e um
montão de pedras, e duas explicações são
dadas para o nome “Galeede” . A versão
da fonte Israelita do Norte diz que Jacó
levantou tanto as pedras quanto a co­
luna (v. 45 e 46), e o suposto relato da
fonte Judia atribui ambos os atos a
Labão (v. 51). Isto leva a uma intricada
especulação a respeito de como isso pode
ter acontecido, se as narrativas da “co­
luna” e do “montão” estavam original­
mente separadas (von Rad, Speiser). É
melhor considerar esta perícope como
uma coerente continuação da narrativa
da fonte Israelita do Norte. Jacó e Labão
erigiram os monumentos, referindo-se
cada um deles, em seus discursos, à parte
que havia desempenhado no processo.
Visto que ambos participaram da ereção,
cada um deles deu nome aos monumen­
tos. Num ato final de boa vontade, Labão
consentiu em usar o nome dado por Jacó.
1) Ordens de Marcha de Jacó (31:1-16)
1 Jacó, entretanto, ouviu as palavras dos
filhos de L abão, que diziam : Jacó tem lev a­
do tudo o que e ra de nosso pai, e do que e ra
de nosso p ai adquiriu ele todas estas rique­
zas. 2 Viu tam bém Jacó o rosto de Labão, e
eis que não e ra p a ra com ele com o dantes.
3 D isse o Senhor, então, a J a c ó : V olta p a ra a
te rra de teus pais e p a ra a tu a p aren tela; e
eu serei contigo. 4 Pelo que Jacó m andou
cham ar a R aquel e a L éia ao cam po, onde
estav a o seu rebanho, 5 e lhes disse: Vejo
que o rosto de vosso pai p a ra com igo não é
como an terio rm en te; porém o D eus de m eu
pai tem estado com igo. 6 O ra, vós m esm as
sabeis que com todas as m inhas forças te ­
nho servido a vosso p ai. 7 M as vosso pai m e
tem enganado, e dez vezes m udou o m eu
salário; D eus, porém , não lhe perm itiu que
m e fizesse m al. SQuando ele dizia assim : Os
salpicados serão o teu salário, então todo o
rebanho dava salpicados. E quando ele dizia
a ssim : Os listrados serão o teu salário, então
todo o rebanho d ava listrados. 9 De modo
que D eus tem tirado o gado de vosso pai, e
m o tem dado a m im . 10 Pois sucedeu que, a«
tem po em que o rebanho concebia, levantei
os olhos e num sonho vi que os bodes que
cobriam o rebanho eram listrados, salpica-
285
dos e m alhados. 11 Disse-m e o anjo de Deus
no sonho: Jacó! E u respondi: E is-m e aqui.
12 Prosseguiu o a n jo : L evanta os teus olhos e
vê que todos os bodes que cobrem o rebanho
são listrados, salpicados e m alhados; p or­
que tenho visto tudo o que L abão te vem
fazendo. 13 E u sou o D eus de B etei, onde
ungiste u m a coluna, onde m e fizeste um
voto; levanta-te, pois, sai-te d esta te rra e
volta p a ra a te rra da tu a parentela. 14 Então
lhe responderam R aquel e L éia: Tem os nós
ainda p arte ou h eran ça n a casa de nosso
pai? 15N ão som os tidas por ele com o e stran ­
geiras? pois nos vendeu, e consum iu todo o
nosso preço. 16 T oda a riqueza que D eus
tirou de nosso pai é nossa e de nossos filhos;
portanto, faze tudo o que D eus te m andou.
Tendo visto que havia perdido o favor
de Labão e de seus filhos, Jacó estava
pronto para ouvir a direção de Deus para
voltar ao lar. A ordem de Deus era
oposta à dada a Abraão. Abraão recebe­
ra instruções para abandonar a sua terra
e a sua parentela; Jacó devia voltar à sua.
Assim mesmo, cada geração precisa sa­
ber qual é a vontade de Deus para a sua
situação em particular.
Dez vezes mudou o meu salário. Esta é
uma expresssão figurada de um número
grande, indefinido. Por esta declaração
ficamos sabendo que Labão revisara
muitas vezes o acordo feito com Jacó.
Respeitando o aspecto do acordo que lhe
era favorável, Labão sempre conservava
as ovelhas brancas e as cabras escuras.
Algumas vezes, contudo, ele limitava a
parte de Jacó apenas às listradas ou às
malhadas. Não obstante, cada vez os
animais se multiplicavam a favor de Jacó.
Os bodes que cobrem o rebanho são
listrados, salpicados e malhados. Não
fora a esperteza de Jacó a responsável
pela multiplicação prolífica da espécie de
animais que lhe cabia. Deus providen­
ciara para que os animais certos se aca­
salassem.
Levanta os teus olhos e vê. Von Rad
considera esta expressão, bem como todo
o versículo 12, como uma “inserção inep­
ta”, feita por um editor posterior, pri­
mordialmente porque ela interrompe a
declaração de Deus a respeito de si mes­
mo. De acordo com a analogia de outras
teofanias, o Eis-me aqui da resposta de
Jacó devia ser seguido imediatamente por
Eu sou o Deus de Betei. Essa alteração
de forma é simplesmente uma maneira
pela qual o hebraico expressa ênfase.
Deus queria que Jacó visse o que estava
acontecendo, antes de dirigir a sua aten­
ção para si próprio.
Eu sou o Deus de Betei, onde é literal­
mente “Eu sou o Deus Betei, onde” .
Obviamente, o texto sofreu durante a
transmissão, visto que “onde” não tem
um antecedente apropriado. Seguindo a
LXX e outras versões antigas, a maioria
dos intérpretes concorda com a RSV.
A reação das esposas de Jacó, ao dis­
curso dele, nos versículos 5 a 13, expres­
sa tanto a amargura delas contra o seu
pai quanto a sua lealdade a Jacó. Se ele
estava pensando em partir sem elas, po­
dia esquecê-lo. O pai delas as havia ven­
dido a ele, e elas também eram proprie­
dade dele. Se ele queria partir, elas esta­
vam com ele entusiasticamente.
2) A Partida Secreta (31:17-24)
17 Levantou-se, pois, Jacó e fez m ontar
seus filhos e suas m ulheres sobre os cam e­
los ; 18 e levou todo o seu gado, e toda a sua
fázenda, que havia adquirido, o gado que
possuía, que hav ia adquirido em Padã-A rã,
a fim de ir te r com Isaque, seu pai, à te rra
de C anaã. 19O ra, tendo Labao ido tosquiar as
suas ovelhas, R aquel furtou os ídolos que
pertenciam a seu pai. 20 Jacó iludiu a
Labão, o aram eu , não lhe fazendo sab er que
fugia; 21 e fugiu com tudo o que e ra seu; e,
levantando-se, passou o Rio, e foi em d ire­
ção à m ontanha de G ileade. 22Ao terceiro dia
foi Labão avisado de que Jacó havia fugido.
23 E ntão, tom ando consigo seus irm ãos, se ­
guiu a trá s de Jacó jo rnada de sete d ia s; e
alcançou-o n a m ontanha de G ileade. 24 M as
D eus ap areceu de noite em sonho a Labão, o
aram eu, e disse-lhe: G uarda-te, que não fales
a Jacó nem bem nem m al.
Jacó escolheu a hora adequada para
viajar. Labão e seus filhos estavam
ocupados com a tosquia das ovelhas, a
três dias de caminho dele.
286
Raquel furtou os ídolos que perten­
ciam a seu pai. Como observa Speiser, a
tradução “furtou” é um pouco forte para
a situação. A posse dos deuses do lar ou
familiares (heb., teraphim, coisas iner­
tes, um termo pejorativo) era prova legal
do direito de herança. Visto que Raquel
cria que a propriedade devia ser deles,
ela se “apropriou” do que considerava
ser seu de direito. Isto não fez com que o
ato se tomasse menos errado. Os tera-
fins eram estatuetas, algumas vezes em
forma humana, talvez de tamanho de um
homem (I Sam. 19:13,16), embora aqui
fossem suficientemente pequenas para
Raquel carregá-las e se assentar sobre
elas (v. 34).
Labão, o arameu. Este termo é usado a
respeito de Labão, Betuel (28:5) e Jacó
(Deut. 26:5). No versículo 47, Labão até
falou em aramaico. “No entanto, os ara-
meus, como tais, não têm verificação in­
dependente, a não ser a partir dos últi­
mos séculos do segundo milênio” (Spei­
ser, p. 246). Os escritores estavam usan­
do uma designação posterior para essas
pessoas de época mais remota, ou os ara-
meus estavam em cena muito antes do
que geralmente se presume.
Jacó iludiu a Labão. O hebraico diz,
literalmente: “E Jacó furtava o coração
de Labão” (cf. II Sam. 15:6). Furtar o
coração era roubar a mente, remover de
outrem a consciência da realidade, enga­
nar a outrem, fazê-lo parecer estúpido.
Seguiu atrás de Jacó jornada de sete
dias. A distância entre Harã e Gileade é
de cerca de quinhentos e sessenta qui­
lômetros. Não é provável que Jacó pudes­
se ter chegado tão longe em dez dias,
visto que os rebanhos avançavam tão
vagarosamente. A palavra “sete” pode
ser figurativa. Ela é freqüentemente usa­
da para designar um período completo
de tempo.
Guarda-te, que não fales a Jacó nem
bem nem mal. Ou Labão não obedeceu à
direção de Deus e, assim mesmo, re­
preendeu Jacó, o que não é provável, ou
“nem bem nem mal” tinha um significa­
do diferente do que se possa supor. A
proibição de Deus significava que Labão
não devia acusar Jacó de nenhuma ação
má, quer fosse verdade quer não. Ele não
devia dizer-lhe para voltar para casa nem
devia eximir-se de vê-lo. No encontro, ele
teve todo o cuidado de não acusar Jacó de
pecado. Ele simplesmente pediu-lhe para
responder a uma série de interrogações a
respeito de delitos aparentes!
3) A Inquirição de Labão (31:25-35)
25 Alcançou, pois, L abão a Jacó. O ra, Jacó
tinha arm ado a sua tenda na m ontanha;
arm ou tam bém L abão com os seus irm ãos a
sua tenda na m ontanha de G ileade. 26 E ntão
disse Labão a Ja c ó : Que fizeste, que m e ilu­
diste e levaste m inhas filhas com o cativas
da espada? 27 P o r que fugiste ocultam ente,
e m e iludiste e não m o fizeste sab er, p a ra
que eu te enviasse com aleg ria e com cân ti­
cos, ao som de tam bores e de harp as?
28 P o r que não m e p erm itiste b eijar m eus
filhos e m inhas filhas? O ra, assim procedes­
te nesciam ente. 29 E stá no poder da m inha
m ão fazer-vos o m al, m as o D eus de vosso
pai falou-m e ontem à noite, dizendo: G uarda-
te, que não fales a Jacó nem bem nem m al.
30 M as ainda que quisesse ir em bora, p o r­
quanto tinhas saudades d a casa de teu pai,
por que fu rtaste os m eus deuses? 31 Respon-
deu-lhe J a c ó : Porque tive m edo; pois dizia
comigo que tu m e a rre b a ta ria s as tuas fi­
lhas. 32 Com quem ach ares os teus deuses,
porém , esse não viv erá; diante de nossos
irm ãos descobre o que é teu do que está co­
m igo, e leva-o contigo. Pois Jacó não sabia
que R aquel os tinha furtado. 33 E ntrou, pois,
L abão n a tenda de Jacó, na tenda de L éia e
na tenda das duas servas, e não os achou; e,
saindo da tenda de L éia, entrou na tenda de
R aquel. 34 O ra, R aquel havia tom ado os
ídolos e os havia m etido n a alb ard a do c a ­
m elo, e se a ssen tara em cim a deles. La.bão
apalpou toda a tenda, m as não os achou.
35 E ela disse a seu p a i: N ão se acenda a ira
nos olhos de m eu senhor, por eu não m e
poder lev an tar na tu a presença, pois estou
com o incôm odo das m ulheres. A ssim ele
procurou, m as não achou os ídolos.
Jacó tinha armado a sua tenda na
montanha. Era de se esperar que aqui se
achasse o nome da região, talvez Mizpá
(31:49), mas, com base na dupla repeti-
287
ção dessa palavra em 31:54, Speiser con­
jectura que era um lugar chamado de
“Elevação”.
Armou também Labão com os seus
irmãos a sua tenda. O hebraico diz lite­
ralmente: “Labão armou os seus ir­
mãos” ! Obviamente, se requer uma cor­
reção textual aqui; ’chlw (tendas) deve
ser interpretação em lugar de ’chyw (pa­
rentes).
Que me iludiste. A mesma expressão
idiomática, encontrada no versículo 20,
pode ser traduzida como “que me fizes­
te parecer estúpido”.
Com alegria e com cânticos. Esta é a
única referência do Velho Testamento a
esse costume em despedidas. Labão, in­
dignado, estava fazendo os papéis in­
congruentes de “pai ferido a vingador
aturdido” (Kidner). Ele descreveu mi­
nuciosamente o antigo costume, mas
Jacó sabia que esse não seria o tipo de
despedida que Labão teria preparado,
se lhe tivesse contado seus planos com
antecedência.
Respondeu-lhe Jacó: Porque tive
medo. Labão estivera fazendo perguntas
em sucessão tão rápida que Jacó estava
apenas começando a responder à sua pri­
meira pergunta, a saber, porque ele o
fizera parecer tão estúpido, quando La-
bâo lhe perguntara a respeito dos tera-
fins. Então Jacó respondeu a respeito
desse assunto. Labão chamou os tera-
fins de seus “deuses” . Raquel não mos­
trou a mesma consideração para com
eles, pois sentar-se sobre eles na sua “im­
pureza” era o insulto máximo (cf. Lev.
15:19 e ss.).
Com quem achares os teus deuses, po­
rém, esse não viverá. Aqui o suspense
aumenta. Sem o saber, Jacó estava arris­
cando a vida de Raquel, a esposa que
mais amava. Mais uma vez esta fonte
está retratando Jacó como homem ínte­
gro, que não imagina que alguém em sua
família pudesse ter roubado algo de La­
bão.
Na albarda do camelo. Speiser traduz
a palavra hebraica como “almofadas”,
enquanto Driver faz sua versão como “li­
teira” ou “howdah” (palanquim). Era
uma sela especial para mulheres, que
podia ser usada como uma espécie de
cadeira quando elas estavam nas tendas.
Embora ela usualmente tivesse uma co­
berta tecida, quando usada em viagem,
não é provável que Raquel estivesse sen­
tada em um palanquim coberto, quando
estava em sua tenda, pois senão ela certa­
mente seria suspeita de engano. Se a
albarda tinha uma coberta, ela havia
sido tirada.
O incômodo das mulheres. Raquel de­
clarou que estava em seu período mens­
trual, declaração que podia ser verda­
deira.
4) A Resposta Irada de Jacó (31:36-42)
36 E ntão irou-se Jacó e contendeu com
Labão, dizendo: Qual é a m inha tra n sg re s­
são? qual é o m eu pecado, que tão furiosa­
m ente m e tens perseguido? 37 Depois de
teres apalpado todos os m eus m óveis, que
achaste de todos os m óveis da tu a casa?
Põe-no aqui diante de m eus irm ãos e de teus
irm ãos, p a ra que eles julguem entre nós
am bos. 38 E stes vinte anos estive eu conti­
go ; as tu as ovelhas e as tu as cab ras nunca
abortaram , e não com i os carneiros do teu
rebanho. 39 N ão te trouxe eu o despedaçado;
eu sofri o dano; da m inha m ão requerias
tanto o furtado de dia com o o furtado de
noite. 40 A ssim andava eu ; de dia m e con­
sum ia o calor, e de noite a geada; e o sono
m e fugia dos olhos. 41 E stive vinte anos em
tu a casa; catorze anos te servi por tu as
duas filhas, e seis anos por teu rebanho; dez
vezes m udaste o m eu salário. 42 Se o Deus
de m eu pai, o D eus de A braão e o T em or de
Isaque não fora por m im , certam ente hoje
m e m an d arias em bora vazio. M as D eus tem
visto a m inha aflição e o trabalho das m i­
nhas m ãos, e repreendeu-te ontem à noite.
Este discurso é uma obra-prima literá­
ria. Pois finalmente Jacó podia defender
a sua inocência de qualquer culpa, e o fez
com grande eloqüência. Toda a frustra­
ção represada de vinte anos se abateu
espumejante.
288
Nesta passagem vemos a vida difícil do
pastor (“o trabalho das minhas mãos”,
v. 42), bem como Labão havia maltrata­
do Jacó (“a minha aflição”). Era da
responsabilidade do pastor providenciar
para que os rebanhos tivessem crias sem
abortos e que fossem protegidos de ani­
mais selvagens e de ladrões humanos. Ele
cuidara dos animais durante os opressi­
vos dias quentes e as noites miseravel­
mente frias, enquanto o seu sono lhe
“fugia” dos olhos (v. 40). Algumas vezes
o pastor tinha dificuldades para ficar
acordado durante a sua vigília; Jacó, por
causa do ealor e do frio, não podia dor­
mir quando queria!
Labão tomara a sorte dura de Jacó
ainda mais difícil, não lhe permitindo
comer os cordeiros do rebanho, forçan­
do-o a dar contas de todas as perdas e
mudando o seu salário repetidamente
(“dez vezes”).
O versículo 42 expressa claramente
que o Deus de Isaque e o Deus de
Abraão eram o mesmo Deus, pois o
verbo “não fora” está no singular, re­
querendo um sujeito simples, e não com­
posto. Obviamente, Jacó adorava o mes­
mo Deus que eles adoravam, pois está se
referindo a ele nesta passagem. Nomes
diferentes para o mesmo Deus eram usa­
dos pelos patriarcas (cf. Sal. 18:2 e Apoc.
15:3, onde termos diferentes são usados
para designar o mesmo Deus único). O
significado do título Temor de Isaque é
obscuro, pois ocorre apenas neste capí­
tulo. Speiser o traduz como “o Terrível
de Isaque” e relaciona este título com o
de “Provação de Isaque” , quando
Abraão estava para sacrificá-lo sobre a
montanha (Gên. 22). Albright sugeriu
que significa “Parente”, visto que pala­
vras cognatas, em outras línguas do Ori­
ente Próximo, têm este significado. 16
Na verdade, esta expressão descreve com
exatidão o estilo de vida religiosa de
Isaque. Enoque andou “com” Deus (em
16 Albright, From the Stone Age to Christlanity (New
York: Doubleday & Co., Inc., 1946), p. 248 n).
comunhão íntima), Abraão “diante” de
Deus (consciente de sua presença), e Isa­
que, como servo obediente.
Hoje me mandarias embora vazio. Jacó
disse que Labão teria prevalecido, se
Deus não interviesse. Ele deu a Deus o
crédito de toda a sua prosperidade, não
porque Deus reconhecesse os seus atribu­
tos morais, mas porque se apiedara de
Jacó em sua aflição.
5) O Pacto em Mizpá (31:43-55)
43 Respondeu-lhe L abão: E stas filhas são
m inhas filhas, e estes filhos são m eus filhos,
e este rebanho é m eu rebanho, e tudo o que
vês é m eu; e que farei hoje a estas m inhas
filhas, ou aos filhos que elas tiveram ?
44 A gora pois vem , e façam os um pacto, eu e
tu, e sirva ele de testem unha entre m im e ti.
45 E ntão tom ou Jacó um a pedra, e a erigiu
como coluna. 46 E disse a seus irm ãos:
A juntai p edras. T om aram , pois, pedras e
fizeram um m ontão, e ali junto ao m ontão
com eram . 47 Labão lhe cham ou Jegar-Saa-
duta, e Jacó cham ou-lhe G aleede. 48 Disse,
pois, L ab ão : E ste m ontão é hoje testem unha
entre m im e ti. P o r isso foi cham ado G a­
leede ; 49 e tam bém M lzpá, porquanto d isse:
Vigie o Senhor en tre m im e ti, quando esti­
verm os apartad o s um do outro. 50 Se afligi­
res as m inhas filhas, e se tom ares outras
m ulheres além das m inhas filhas, em bora
ninguém esteja conosco, lem bra-te de que
Deus é testem unha entre m im e ti. 51 Disse
ainda L abão a J a c ó : E is aqui este m ontão, e
eis aqui a coluna que levantei entre m im e ti.
52 Seja este m ontão testem unha, e seja esta
coluna testem unha de que, p a ra m al, nem
passarei eu desse m ontão a ti, nem p assarás
tu deste m ontão e d esta coluna a m im .
53O D eus de A braão e o D eus de N aor, o Deus
do pai deles, julgue entre nós. E jurou Jacó
pelo T em or de seu pai, Isaque. 54 E ntão
Jacó ofereceu um sacrifício na m ontanha, e
convidou seus irm ãos p a ra com erem p ã o ; e,
tendo comido, p assaram a noite n a m onta­
nha. 55 Levantou-se Labão de m an h ã cedo,
beijou seus filhos e suas filhas e os ab en ­
çoou ; e, partindo, voltou p a ra o seu lugar.
Tudo o que vês é meu. De início, o
leitor é inclinado a sentir simpatia por
Labão. O lucro de Jacó fora o prejuízo de
Labão, inteiramente. Embora ele não
pudesse mais reter a sua descendência,
restava uma última responsabilidade: as-
289
segurar-se de que ela receberia um trata­
mento condigno da parte de um homem
em quem ele não confiava. Ele insistiu
que fizessem um pacto, tendo Deus como
testemunha, entre ele e Jacó, garantindo
às suas filhas um tratamento condigno.
Os nomes que Labão e Jacó deram ao
lugar do pacto significam a mesma coisa:
“montão do testemunho”; Labão usou a
língua aramaica, sua língua nativa, e
Jacó, o hebraico. Finalmente Labão con­
cordou em chamá-lo pelo nome que Jacó
lhe dera (Galeede, daí Gileade?), pois
queria que tanto Jacó quanto os seus
descendentes compreendessem clara­
mente o que ele significava. O aspecto
mais interessante do pacto é que por ele
Jacó deu garantias a Labão, enquanto
Labão não garantiu nada. Era fácil fazer
um acordo com Jacó. Visto que Labão
realmente era o perdedor, este foi para
ele um procedimento que salvou as apa­
rências.
O fato de terem comido depois de
terem colocado as pedras (v. 46) e outra
vez mais tarde (v. 54) não indica, aqui,
duas fontes. Simplesmente significa que
eles primeiramente fizeram um acordo
amigável com uma refeição social, e de­
pois o selaram, mais tarde, no mesmo
dia, com uma refeição sacrificial.
E também Mizpá. A RSV acrescenta
“coluna” neste verso. O texto recebido
diz: “Portanto ele o chamou de Galeede e
Mizpá.” Em outras palavras, Labão deu
a “ele” dois nomes. Aparentemente, Jacó
e Labão erigiram uma coluna de pedra
(msbh, massebah) e amontoaram pedras
ao redor dela, para proteção futura; La­
bão deu ao monumento acabado o nome
de Galeede e Mizpá (msph), um.jogo de
palavras com msbh. Ao invés de ser evi­
dência de duas narrativas, a coluna e o
montão foram combinados em uma só
designação, Mizpá, na forma de um obe­
lisco completo. O nome Galeede confir­
mou o pacto entre os dois homens. Mizpá
(torre de vigia) enfatizou a garantia de
sua validade futura.
A famosa “bênção de Mizpá” não foi
uma expressão de boa vontade da parte
de Labão, mas uma declaração que di­
zia, de fato: “Possa Deus conservar você
honesto enquanto eu não estou lá para
vê-lo.” Ele estava lendo a sua própria
desonestidade no comportamento de
Jacó. Contudo, isto não significa que as
suas palavras não podem ser usadas, hoje
em dia, em sentido positivo. A expressão
de Labão pode ter uma conotação bem
diferente da que ele pretendia. As pala­
vras expressando desconfiança em um
contexto podem, em outro, ser legitima­
mente usadas para pronunciar uma bên­
ção. Temos visto que freqüentemente, em
Gênesis, as gerações posteriores encon­
traram, nas palavras, algum significado
que não era aparente a princípio, mas
que estava ali para ser discernido em
época diferente.
Este montão é hoje testemunha. Quan­
do Labão começou esta declaração, ela
soava como se ele estivesse querendo
dizer que ele e Jacó não cruzariam aquela
linha jamais. Bem no fim da sentença ele
acrescentou: “para mal.”
O Deus do pai deles é expressão con­
siderada, por muitos eruditos, como edi­
torial (cf. Speiser, von Rad). Visto que
ela não aparece na LXX, é considerada
como tentativa de explicar a menção do
Deus de Abraão e do Deus de Naor.
A frase explicativa declara que eles são o
mesmo Deus, o Deus de Tera. Esta opi­
nião é baseada no fato de que julgue está
no plural. Costumeiramerite, quando é
caracterizado o Deus de Israel, o subs­
tantivo plural ’Elohim usa um verbo no
singular (cf. Gên. 1:1). Algumas vezes,
no entanto, quando ’Elohim se refere ao
Deus de Israel, é regido por um verbo no
plural (cf. 1:26: “Façamos o homem”).
Alega a opinião politeísta que tanto La­
bão quanto Jacó invocaram o Deus indi­
vidual de seus respectivos pais, para tes­
temunhar o pacto. Se este fosse o sentido
da passagem, por que precisaria o escri­
tor mencionar especificamente que Jacó
290
invocou o Temor de seu pai Isaque, mas
omitiu o fato de que Labão invocou o seu
Deus? A expressão o Deus do pai deles,
quer editorial, quer não, afirma que eles
serviam ao mesmo Deus. Desta forma,
ela precisa ser levada a sério. Este é outro
exemplo de eoncordância gramatical en­
tre ’Elohim e o seu verbo, sem implica­
ções teológicas especiais. Se a expressão é
editorial, ela foi inserida porque era ne-
cessária para impedir uma interpretação
politeísta. Abraão jamais teria desejado
conseguir esposa para Isaque na família
de Naor só porque eles eram parentes.
Eles adoravam o mesmo Deus.
Labão... os abençoou. Deve-se notar
que ele não abençoou Jacó. Ele não esta­
va qualificado nem inclinado a fazê-lo.
6. O Reencontro de lacó e Esaú
(32:1-33:20)
Com exceção de duas curtas passagens
da fonte Israelita do Norte, que dão
início e fim a esta seção (32:1,2; 33:18b-
20), ela é quase inteiramente atribuída à
fonte Judia. O escritor Sacerdotal recebe
costumeiramente o crédito de 33:18a)
por causa da menção de Padã-Arã), mas
isso pode ser simplesmente uma expan­
são editorial.
Von Rad, seguindo Wellhausen, iden­
tifica 32:13b-21 como material Israelita
do Norte, mas deve-se concordar com
Speiser que os seus argumentos não são
convincentes. Nestes capítulos vemos Ja­
có tomando-se o verdadeiro herdeiro da
promessa, e Esaú retirando-se honrosa­
mente da cena bíblica.
1) A Caminho (32:1,2)
1 Jacó tam bém seguiu o seu cam inho ; e
encontraram -no os anjos de D eus. 2 Quando
Jacó os viu, disse : E ste é o exército de Deus.
E cham ou àquele lugar M aanaim .
Esta passagem é tão misteriosa quanto
breve. Maanaim é uma forma dupla he­
braica, uma construção gramatical usa­
da para descrever algo que aparece em
pares, como olhos, ouvidos ou mãos.
A palavra básica é a traduzida como
“bando”, no versículo 8. Desta forma, a
palavra pode significar exército, acampa­
mento, bando. O verbo traduzido como
encontraram-no expressa o significado
de contato físico. Sendo isto verdade, a
passagem pode ser a versão da fonte
Israelita do Norte da história de Penuel.
Assim, o encontro pode ser considerado
como ataque hostil, mas, provavelmente,
consistiu em boas-vindas celestiais a Ca-
naã (Driver). Da mesma forma como
Jacó foi visitado por anjos quando saiu
da Palestina, era agora encontrado por
eles ao voltar. A forma dupla pode apli­
car-se a dois bandos de anjos, um subin­
do e outro descendo, como em Betei.
Ê mais provável que Jacó tenha notado
como o seu acompanhamento terreno
(a sua família) era comparável ao ce­
lestial. Visto que a sua família também
era povo de Deus, ele pôde usar a forma
dupla. Correspondente aos anjos do céu
está o povo de Deus na terra (Kidner).
São os dois lados da família celestial.
Jacó saíra sozinho, e voltava como um
exército.
A verdadeira localização de Maanaim
não é conhecida. De fato, isto também é
verdade em relação a Galeede e Mizpá
(cf. Driver, que trata detalhadamente
das evidências). Von Rad acha que Maa­
naim fica ao sul do Jaboque, enquanto
Driver o localiza ao norte. O primeiro
imagina que Jacó jornadeou do leste,
aproximando-se do Jaboque vindo do sul,
e o segundo tem opinião contrária. Seja
qual for a posição que for tomada, é
claro que Jacó ainda não havia atravessa­
do o Jaboque (o moderno Nahr ez-Zer-
qa).
2) A Ameaça de Esaú (32:3-8)
3 E ntão enviou Jacó m ensageiros diante
de si a E saú, seu irm ão, à te rra de Seir, o
território de E dom , 4 tendo-lhes ordenado:
D este m odo falareis a m eu senhor E saú :
Assim diz Jacó, teu serv o : Como peregrino
m orei com L abão, e com ele fiquei até ago­
ra ; 5 e tenho bois e jum entos, rebanhos,
servos e serv as; e m ando com unicar isso a
m eu senhor, p a ra ac h a r g raça aos teus
291
olhos. 6 Depois os m ensageiros v oltaram a
Jacó, dizendo: Fom os te r com teu Irm ão
E saú ; e, em verdade, vem ele p a ra encon­
trar-te, e quatrocentos hom ens com ele.
7 Jacó teve m uito m edo e ficou aflito ; divi­
diu em dois bandos o povo que estav a com
ele, bem como os rebanhos, os bois e os
cam elos; 8 pois dizia: Se E saú vier a um
bando e o ferir, o outro bando escap ará.
Em suas comunicações, Jacó não se
dirigiu a Esaú como seu irmão, porém
como seu senhor. Ele chegou a usar esse
título quando conversou com os seus
mensageiros, de forma que não houvesse
dúvidas em suas mentes a respeito da
posição superior de Esaú. O uso primo­
roso que Jacó fez da diplomacia é claro
aqui. No entanto, parecia que ele havia
falhado, pois os mensageiros relataram
que Esaú estava vindo ao encontro de
Jacó com quatrocentos homens, presumi­
velmente armados e com intenção hostil.
O fato notável foi que os mensageiros de
Jacó foram capazes de exceder em velo­
cidade ao bando de Esaú, que estava
mais familiarizado com a região. Ou os
homens de Jacó haviam voltado quando
viram Esaú à distância, ou Esaú não
estava com pressa. Isto por si mesmo
daria a entender que as suas intenções
não eram hostis.
Influenciado por sua experiência com
dois exércitos em Maanaim, Jacó dividiu
a sua família em dois grupos. Desta vez,
como no resto do capítulo, a palavra é
um plural verdadeiro, e não um duplo.
3) A Oração de Jacó (32:9-12)
9 D isse m ais Jacó : Ó Deus de m eu pai
A braão, Deus de m eu pai Isaque, ó Senhor,
que m e d isseste: V olta p a ra a tu a te rra , e
p a ra a tu a parentela, e eu te farei bem !
10 Não sou digno da m enor de todas as tuas
beneficências e de toda a fidelidade que tens
usado p a ra com o teu serv o ; porque com o
m eu cajado passei este Jordão, e agora
volto em dois bandos. 11 Livra-m e, peço-te,
da m ão de m eu irm ão, da m ão de E saú,
porque eu o tem o; acaso não venha ele
m atar-m e, e a m ãe com os filhos. 12 Pois tu
m esm o d isseste: C ertam ente te farei bem , e
farei a tu a descendência como a areia do
m ar, que pela m ultidão não se pode contar.
A oração de Jacó é um exemplo clássi­
co da oração de um leigo (von Rad).
Contém pouca coisa do vocabulário dos
Salmos, cuja linguagem é, em grande
parte, litúrgica. A fonte Judia revela que
ele estava derramando o coração à sua
maneira. Antes de tudo, ele lembrou
Deus de sua promessa de ir com ele, se
ele voltasse. E, depois, admitiu que não
era digno do favor divino, mas que no
passado os seus méritos pessoais não
haviam sido o critério pelo qual Deus
havia agido para com ele. E esperava que
a situação não tivesse mudado, pois esta­
va amedrontado com a aproximação de
Esaú, e pedia para ser liberto dele, e não
para vencê-lo. Ao concluir a oração, ele
fez Deus lembrar-se outra vez que lhe
havia prometido a sua bênção. Jacó plei­
teou o cumprimento das promessas de
Deus.
4) A Sua Esperta Estratégia (32:13-21)
13 P assou ali aquela n o ite; e do que tinha
tom ou um presente p a ra seu irm ão E saú :
14 duzentas cab ras e vinte bodes, duzentas
ovelhas e vinte carneiros, 15 trin ta cam elas
de leite com su as crias, quarenta vacas e
dez touros, vinte ju m en tas e dez jum enti-
nhos. 16 E ntão os entregou n as m ãos dos
seus servos, cada m an ad a em separado; e
disse a seus serv o s: P assai adiante de m im
e ponde espaço entre m anada e m anada.
17 E ordenou ao prim eiro, dizendo: Quando
E saú, m eu irm ão, te encontrar e te pergun­
ta r: De quem és, e p a ra onde vais, e de
quem são estes diante de ti? 18 E ntão re s­
ponderás: São de teu servo Jacó, presente
que envia a m eu senhor, a E saú, e eis que
ele vem tam bém a trá s de nós. 19 Ordenou
igualm ente ao segundo, e ao terceiro, e a
todos os que vinham a trá s das m anadas,
dizendo: D esta m aneira falareis a E saú
quando o achard es. 20 E direis tam bém :
E is que o teu servo Jacó vem a trá s de nós.
Porque dizia: Aplacá-lo-ei com o presente,
que vai adiante de m im , e depois verei a sua
face; porventura ele m e aceitará. 21 Foi,
pois, o presente adiante dele; ele, porém ,
passou aquela noite no arraial.
A ansiedade de Jacó não o privara de
sua engenhosidade. Ele mandou um im­
ponente presente de animais, cada grupo
292
espaçado por intervalos apropriados, pa­
ra que o impacto pudesse ser maior sobre
Esaú. Desta forma, visto que as suas
palavras conciliatórias aparentemente
não haviam impressionado Esaú, ele es­
perava que o seu presente o fizesse. Deve-
se notar como Jacó procedeu neste capí­
tulo (cf. Kidner): ele planejou (v. 7 e 8),
orou (v. 9-12), planejou (v. 13-21), orou
(v. 22-32), planejou (33:1-3). Ele era um
verdadeiro protótipo do ativista piedoso!
Aplacá-lo-ei. Literalmente: “cobrirei a
sua face”, “vendarei a sua face” (Spei-
ser). O verbo hebraico é kippur (cobrir,
expiar), do qual se deriva a expressão
Yom Kippur (dia da expiação). É a ter­
minologia levítica para designar expiação
mediante sacrifício.
Face (panim) é usada idiomaticamen­
te cinco vezes nos versículos 20 e 21,
antecipando a cena de Peniel (face de
’El, Deus), que se seguirá.
5) Jacó no Jaboque (32:22-32)
22 N aquela m esm a noite levantou-se e,
tom ando as suas duas m ulheres, suas duas
servas e seus onze filhos, passou o vau de
Jaboque. 23 Tomou-os, e fê-los p assar o r i­
beiro, e fez p assar tudo o que tinha. 2AJacó,
porém , ficou só; e lutava com ele um ho­
m em até o rom per do dia. 25 Quando este viu
que não prevalecia contra ele, tocou-lhe a
ju n tu ra d a coxa, e se deslocou a ju n tu ra da
coxa de Jacó, enquanto lutava com ele.
26 D isse o hom em : D eixa-m e ir, porque já
vem rom pendo o dia. Jacó, porém , respon­
deu: Não te deixarei ir, se m e não abençoa­
res. 21 Perguntou-lhe, pois: Qual é o teu
nom e? E ele respondeu: Jacó. 28 E ntão
disse: N ão te ch am arás m ais Jacó, m as
Israel; porque tens lutado com D eus e com
os hom ens e tens prevalecido. 29 Perguntou-
lhe Jacó : Dize-m e, peço-te, o teu nom e. R es­
pondeu o hom em : P o r que perguntas pelo
m eu nom e? E ali o abençoou. 30 Pelo que
Jacó cham ou ao lugar Peniel, dizendo: P o r­
que tenho visto D eus face a face, e a m inha
vida foi preservada. 31E n ascia o sol, quan­
do ele passou de P en u el; e coxeava de u m a
perna. 32 P or isso os filhos de Israel não
com em até o dia de hoje o nervo do quadril,
que está sobre a ju n tu ra d a coxa, porquanto
o hom em tocou a ju n tu ra da coxa de Jacó no
nervo do quadril.
Esta é uma das passagens mais cuida­
dosamente estruturadas do livro de Gê­
nesis, pois ela é tanto uma das mais
antigas como uma das mais importantes.
Ela marca um ponto decisivo na vida de
Jacó; alguns estudiosos consideram esta
como a sua crise mais significativa. No
entanto, Jacó não era do tipo de homem
que se transformasse subitamente em
outra espécie de pessoa. Ele não era de
todo mau antes do Jaboque nem perfeito
depois disso. No decorrer de sua vida, ele
continuou a sua peregrinação de apren­
dizado. Podemos concordar com Speiser
na idéia de que o encontro em Penuel
pode ser encarado como um teste de apti­
dão de Jacó para as tarefas mais impor­
tantes que estavam por ser-lhe confiadas.
Deus provou Abraão pedindo-lhe algo
que ele possuía; provou Jacó demons­
trando como ele desejava intensamente
uma coisa que só Deus podia lhe dar.
A tentação de Abraão foi conservar o que
Deus lhe havia dado; a tendência de Jacó
era fazer as coisas por conta própria.
Peniel e Penuel são variações etimoló­
gicas do mesmo substantivo. Aparente­
mente, Peniel é usada para mostrar mais
claramente a conexão com o significado
“face de Deus”, e não com o conhecido
lugar que tem o nome de Penuel (Juí. 8:8
e s.; I Reis 12:25).
Desde a época de Gunkel, muitos co­
mentaristas têm enfatizado a natureza
etiológica desta passagem: uma história
litúrgica é contada para explicar a ori­
gem de um santuário em Penuel. Esta
antiga narrativa retrata uma luta com o
demônio noturno que guardava o Jabo­
que. A princípio, esse conto não tinha
conexão com Jacó, porém mais tarde o
seu nome foi associado com ele (Skinner,
von Rad). Esta sugestão precisa ser con­
siderada seriamente, pois tais histórias
eram comuns naquela parte do mundo.
Se isto é o que aconteceu, o escritor da
fonte Judia estava tomando uma historie­
ta antiga, que lhe havia sido transmitida,
e a estava usando para ensinar uma ver-
293
dade permanente a respeito de Deus e do
homem. Esta historieta falaria mais da
peregrinação de Israel com Deus do que
dade Jacó.
Contudo, parece mais plausível, se
uma historieta litúrgica estava nos ante­
cedentes dela, que, na verdade, Jacó teve
uma experiência traumática com Deus,
no Jaboque, e que, à medida que a
história foi sendo contada, no decorrer
dos séculos, houve uma mistura da nar­
rativa litúrgica com o encontro histórico.
Juntos eles se tornaram o veículo da ver­
dade (cf. a Introdução).
As dificuldades com a interpretação
etiológica, todavia, são sérias. Não sa­
bemos que tenha havido nenhum santuá­
rio em Penuel nem de alguma crença de
que residisse no Jaboque algum demônio
noturno. É bem possível que ambos os
fenômenos tenham sido produto da ima­
ginação fértil dos intérpretes bíblicos.
Quando Jacó se encontrou com o anjo,
ele já havia mandado a família atraves­
sar o Jaboque no escuro, e sem interfe­
rência. Ele mesmo, provavelmente, havia
ido com eles e voltado mais tarde (veja
adiante). Nessa hora, onde estava o pro­
tetor do ribeiro?
O argumento primário para a presença
do demônio da noite, nesta historieta,
é o fato de que “o homem” pediu a Jacó
que o deixasse ir, porque “o dia estava
rompendo”. Ao alvorecer, esses seres ge­
ralmente perdiam o seu poder. Contudo,
há outras alternativas. Esse pedido foi
entendido por um “midrash” judaico
posterior, com o improvável significado:
“Preciso cantar no coral da manhã ante o
trono de Deus” (citado por von Rad, p.
316). Uma sugestão mais provável é que
o pedido foi feito por amor de Jacó, e não
para o bem de seu antagonista (Leupold,
p. 878). Como declarou Jacó mais tarde,
e como ele cria na ocasião, um homem
não podia encarar Deus diretamente e
sobreviver (cf. Êx. 33:20). Quando Jacó
foi aleijado pelo toque do antagonista,
percebeu que estava lutando com mais
do que sangue e carne. Se ele não deixas­
se o anjo ir-se, estava correndo perigo
mortal. Em vez de perder a oportunidade
de receber uma bênção, quando Deus
estava tão perto, Jacó preferiu arriscar a
vida. A bênção significava muito para
ele. Esta foi a sua prova suprema. Signi­
ficava o favor de Deus mais do que a
própria vida? Jacó não seria perfeito
depois dessa experiência, mas nunca
mais ele seria simplesmente um homem
moral, vivendo conscientemente sob a
direção de Deus, purificado e transfor­
mado por ele. Portanto, esta historieta se
refere à crise suprema na vida de Jacó,
seja ela considerada como relato de um
encontro acontecido fisicamente ou como
quadro antropomórfico de uma confron­
tação espiritual.
Passou o vau de Jaboque. O Jaboque,
o moderno Zerqa (“rio azul” , por causa
de suas claras águas azuis de montanha),
desagua no Jordão, a meio caminho entre
o Mar da Galiléia e o Mar Morto, mais
ou menos. Freqüentemente, durante o
verão, ele seca nas montanhas, mas sem­
pre existe água em sua foz, onde ele
precisa ser vadeado. Nas vizinhanças,
onde Jacó o atravessou, ele tem margens
íngremes, cerca de dez metros de largura
e, ordinariamente, água que chega à
cintura de um homem, ou menos.
, Surge alguma dificuldade à luz da
declaração de que ele atravessou e não
obstante ficou para trás. Mais uma vez,
isto não significa que estão presentes
duas fontes diferentes, mas que Jacó,
provavelmente, atravessou com sua fa­
mília e voltou, visto que isto poderia ser
feito com facilidade. Por que vadeou ele
o Jaboque de noite, quando seria mais
simples durante o dia? Provavelmente, o
seu medo de Esaú o impedira de fazê-lo
antes, mas agora, um tanto tardiamente,
ele expressava a sua fé na direção de
Deus ao entrar na Terra Prometida. De­
pois voltou para ficar a sós com os seus
pensamentos, e certamente com o seu
294
Deus. Quão freqüentemente Jesus se re­
tirou assim!
Lutava com ele um homem. A princí­
pio, nada se diz a respeito da verdadeira
identidade do atacante, nem a nós nem a
Jacó. No julgamento dele, era Esaú, pois
o acometera subitamente no escuro. Mais
tarde, foi Oséias quem, em primeiro
lugar, o chamou de anjo (Os. 12:3,4). E
então tomou-se claro que não era um
mero homem com quem Jacó lutou a
noite toda, mas o próprio Deus na forma
de homem. Só um mensageiro divino o
abençoaria e mudaria o seu nome. O ver­
bo traduzido como lutava (’abaq) ocorre
apenas aqui, e é um jogo de palavras com
Jaboque. O estranho foi que, quando
Jacó orou, nos versículos 9-12, não
recebeu nenhuma resposta de Deus.
Aqui estava a resposta de Deus, tardia e
inesperada.
Deus é retratado como o antagonista
do homem que procura prevalecer contra
ele. Em Êxodo 4:24-26, esta idéia é le­
vada mais adiante, pois ali Deus veio
com o propósito de matar Moisés. Deus
como inimigo é tema constante no livro
de Jó. O patriarca considerava Deus tan­
to como seu inimigo quanto como seu
amigo. Este conceito retrata vividamente
as realidades da vida. Nas experiências
do homem com Deus, ele descobre Deus
tanto como destruidor quanto como re­
dentor. Esta tem sido a experiência de
Israel como povo de Deus, no decorrer de
sua história. Observar a sua adversidade
é ver Deus como seu inimigo. Uma per­
cepção aguçada verá o processo como a
atividade purificadora de seu amor, pois,
na adversidade, aprendemos a confiar
em Deus e desta forma a receber mais do
que alguma vez poderíamos alcançar so­
zinhos. Como no caso de Jó, prevalece­
mos quando cedemos.
Qual é o teu nome? Esta pergunta foi
feita, não porque o anjo não conhecesse a
resposta, mas para que, ao declará-lo,
Jacó expusesse a sua verdadeira nature­
za. Ele era o “suplantador”, o “ardilo­
so”, o homem ambicioso, que vivia por
sua própria sagacidade.
O novo nome, Israel, significava que
desde então a sua vida tomaria uma nova
direção. Israel significa, literalmente,
“Deus prevalece”, mas a explicação in­
verteu o significado para “prevaleceste” .
A implicação é que Jacó tornou-se verda­
deiramente vitorioso na vida quando re­
conheceu a supremacia de Deus. Ante­
riormente, ele havia clamado a Deus
para ajudá-lo a alcançar os seus próprios
objetivos. Agora ele preferia morrer a
perder o que Deus, em sua misericórdia,
queria lhe dar. O que Deus, por sua
graça, lhe desse era mais do que Jacó
podia alcançar pelos seus próprios esfor­
ços. Quando Deus prevaleceu, Jacó pre­
valeceu. Ainda assim, foi uma batalha
desigual (até mesmo nos últimos capítu­
los de Gênesis, o nome de Israel jamais
aderiu de verdade a Jacó da forma como
o novo nome de Abraão aderiu a ele),
mas ele estava sempre no caminho da
vitória.
Tens lutado com Deus e com os ho­
mens. Jacó havia aprendido o que todo
homem precisa aprender. Ele havia pre­
valecido contra Labão e, até então, sobre
Esaú, pelo fato de ser mais forte e mais
astuto. Agora ele prevalecera contra
Deus, não pelo fato de sobrepujá-lo, mas
por ter-se apegado a ele e rogado uma
bênção. Deus se deixara “vencer” . O
anjo poderia ter escapado facilmente das
mãos de Jacó. Assim como deslocara a
coxa do patriarca, ele poderia ter feito o
mesmo com os seus braços. A determina­
ção de Jacó era mais patética do que
ameaçadora. O anjo, em sua misericór­
dia, vendo o desespero de Jacó, aben­
çoou-o. Da mesma forma, mais tarde
Jesus ensinaria que a importunação na
oração é um requisito importante para se
obter a resposta de Deus (Luc. 11), não
porque Deus não esteja disposto, mas
porque ele honra a nossa persistência,
que é evidência de nossa abertura para
com ele.
295
Dize-me, peço-te, o teu nome. Esta
não é uma expressão de curiosidade fútil.
Cria-se que, pelo fato de saber o nome de
uma pessoa, alguém obtinha certos pode­
res sobre ela, talvez com objetivos de en­
cantamento e feitiçaria. As pessoas que
ficavam conhecendo o nome secreto de
Deus podiam pedir-lhe favores especiais.
Esta narrativa fala da necessidade do ho­
mem de encontrar Deus e levá-lo a com­
prometer-se com ele. Isto Deus não per­
mitiria a Jacó. Mais tarde, porém, de
uma forma tremendamente dramática,
ele revelaria o seu nome a Israel no Sinai,
comprometendo-se para sempre com o
seu povo mediante esse pacto. Em con­
trário, de acordo com a fonte Judia,
todos os patriarcas, inclusive Jacó, co­
nheciam o nome de Deus (Yahweh). Pro­
nunciar o nome de Yahweh, quando os
dois estavam lutando, significaria com­
prometer o nome santo. Quando a luta
terminou, o nome não precisava ser dito
a Jacó, pois ele sabia com quem havia-se
encontrado.
A minha vida foi preservada. Ao con­
tinuar a conversa, ela, provavelmente, se
tomou suficientemente leve para Jacó ver
a face do anjo. Em sua misericórdia,
Deus o havia permitido. Contudo, ver a
face do anjo não era a mesma coisa que
ver Deus como ele era (Êx. 33), mas
apenas como ele aparecia em forma hu­
mana.
Coxeava de uma perna. Em lugar ne­
nhum se diz que este foi um ferimento
permanente. Quando ele parou de lutar
com Deus, as marcas de sua luta ainda
estavam presentes. Que contraste com as
seqüelas de Betei! Ali (29:1) se diz que
ele “apanhou os seus pés”; aqui, ele
começou a andar como aleijado. Lá, ele
enfrentara o futuro com esperança; aqui
(33:1), se diz que ele “levantou os olhos”,
pois estivera a andar cabisbaixo. Lá,
novos panoramas se lhe haviam aberto:
uma porta para o céu; aqui, a ambição
foi quebrada para sempre. Em Betei, ele
esteve na “casa de Deus”; em Jaboque,
esteve sozinho no deserto. Ali, a sua rea­
ção fora de admiração com a glória do
momento; aqui, com a graça de Deus
para com um pobre e fraco mortal. Ali,
ele tivera uma experiência que podia
entender e na qual podia se gloriar.
Aqui, o encontro o deixara ponderando
no que ele significava, temendo as suas
conseqüências, mas reconhecendo a sua
validade. Agora ele se conhecia, à sua
alma interior. Nunca mais poderia ficar
satisfeito com coisas materiais ou com
uma multidão de filhos. Ele precisava ter
Deus.
0 nervo do quadril. Não há referência
a esta proibição na lei mosaica, mas era
praticada posteriormente em Israel, bem
como na época do escritor. Por que ela
não foi mencionada na lei? Talvez por­
que, para as gerações posteriores, Deus
não quisesse enfatizar as fraquezas de
Jacó tanto quanto a fonte de sua força.
Desta forma, deu-lhe o nome de Israel,
para o levar consigo permanentemente, e
não o seu caminhar coxeante. A ativida­
de física de Jacó no capítulo seguinte
indica que ele estava sarando rapida­
mente.
A maior parte dos eruditos identifica o
“nervo” em questão como o nervo ciá­
tico. Delitzsch, que era judeu conver­
tido, diz que na prática judaica é uma
veia existente nessa região. Para nós,
hoje em dia, representa a cicatriz feita na
alma, deixada pelo nosso combate mor­
tal com Deus, quando ele nos fez lembrar
o seu domínio sobre nós.' Juntamente
com Jacó, podemos ficar admirados de
ainda termos sobrevivido, sabendo bem
que foi apenas por causa da “incrível
graça” de Deus.
6) O Encontro com Esaú (33:1-11)
1L evantou Jacó os olhos, e olhou, e eis que
vinha E saú, e quatrocentos hom ens com ele.
E ntão rep artiu os filhos en tre L éia, e R a ­
quel, e as duas serv as. 2 Pôs as serv as e seus
filhos na frente, L éia e seus filhos a trá s
destes, e R aquel e José por últim os. 3 M as
ele m esm o passou adiante deles, e inclinou-
296
se em te rra sete vezes, a té chegar perto de
seu irm ão. 4 E ntão E saú correu-lhe ao en ­
contro, abraçou-o, lançou-se-lhe ao pescoço,
e o beijou; e eles choraram . 5 E levantando
E saú os olhos, viu a s m ulheres e os m eninos,
e perguntou: Q uem são estes contigo? R es­
pondeu-lhe Jacó : Os filhos que D eus bondo­
sam ente tem dado a teu servo. 6 E ntão che-
garam -se a s serv as, elas e seus filhos, e in-
clinaram -se. 7 C hegaram -se tam bém L éla e
seus filhos, e inclinaram -se; depois chega­
ram -se José e R aquel, e se inclinaram .
8 Perguntou E saú : Que queres dizer com
todo este bando que tenho encontrado? R es­
pondeu J a c ó : P a ra ac h a r g raça aos olhos de
m eu senhor. 9 M as E saú disse: Tenho b a s­
tante, m eu irm ão ; seja teu o que tens.
10 Repllcou-lhe Jacó : N ão, m as se ag o ra
tenho achado g raça aos teus olhos, aceita o
presente da m inha m ão; porquanto tenho
visto o teu rosto, como se tivesse visto o
rosto de D eus, e tu te ag rad aste de m im .
11A ceita, peço-te, o m eu presente, que eu te
trouxe; porque D eus tem sido bondoso p a ra
comigo, e porque tenho de tudo. E insistiu
com ele, e ele o aceitou.
Algo do velho Jacó ainda restara, pois
ele colocou os membros menos amados
de sua família na frente da comitiva, no
caso de um encontro hostil com Esaú.
Imagine-se como aquelas crianças não
se sentiram, mas é claro que os filhos das
escravas, da mesma forma como no inci­
dente entre Sara e Agar, não estavam no
mesmo nível, exatamente, em que esta­
vam os das livres, nem o mais velho
acima do mais novo. A aparente falta de
sensibilidade para com os sentimentos
deles foi mitigada pelo fato de Jacó ir na
frente de todos eles. Antes de Peniel ele
enviara presentes e pessoas adiante de si,
enquanto ele ficara para trás.
Obviamente, ainda ele estava ansioso,
pois, apesar de todo o trauma da luta
com o anjo, nada específico fora dito
acerca da crise de Esaú. Quando ele
avançou em direção a Esaú, aparente­
mente estava tendo poucas dificuldades
com a sua coxa, pois não apenas foi
caminhando à frente de todos, mas tam­
bém curvou-se sete vezes “em terra”
diante de Esaú. Esta era a maneira como
príncipes de menor importância, segun­
do as cartas de Amama (décimo quarto
século a.C.), se curvavam diante de Fa­
raó. Costumeiramente, uma mesura era
suficiente (18:2; 19:1). Jacó estava exage­
rando um pouco, para manifestar respei­
to ao seu próprio irmão!
Esaú apeou e correu ao seu encontro,
mas, ao invés de cair sobre ele, como o
assaltante noturno havia feito, abra-
çou-o com amor e afeição. Um midrash
judaico posterior mudou as palavras
“beijou-o” para “refreou-o”, o que dis­
torceu completamente o significado (von
Rad, p. 322). Da mesma forma como no
capítulo 27 atraiu a nossa simpatia, aqui
ele merece a nossa admiração.
Que queres dizer com todo este ban­
do? Esta expressão, em outras passa­
gens, é usada a respeito da família de
Jacó, mas aqui ela é usada a respeito dos
presentes que ele havia enviado a Esaú.
Visto que se disse que Jacó dividiu tudo o
que tinha em dois grupos (32:7), alguns
expositores supõem que ele ofereceu a
Esaú metade de sua propriedade. Não é
provável ter sido este o caso. O presente
enviado a Esaú em vários rebanhos, em­
bora considerável (32:14,15), provavel­
mente não consistia em metade do que
ele possuía.
Por que Esaú não sabia qual era o
objetivo do presente? Os servos de Jacó
não lhe haviam contado? Antes de o
terem informado, eles podem ter corrido
de volta para advertir Jacó (cf. os co­
mentários sobre 32:6). Ê mais provável
que Esaú ignorara as palavras dos servos,
e procurara saber a verdade diretamente
do próprio Jacó.
Tenho visto o teu rosto, como se tives­
se visto o rosto de Deus. Como é que Jacó
podia, ao olhar para o rosto de Esaú, ter-
se lembrado da “face de Deus”? Era
certamente a fisionomia de perdão de
Esaú, a mesma expressão que Jacó pro­
vavelmente vira na face do anjo (cf.
v. 10b).
Aceita, peço-te, o meu presente. A
palavra hebraica traduzida como “pre-
297
sente” significa bênção, oferta de boa
vontade (cf. I Sam. 25:27; 30:26; II Reis
5:15). O fato de Esaú recusá-la signifi­
caria que ele, na verdade, não havia
perdoado o seu irmão. Se a sua afeição
era sincera, a oferta de Jacó não lhe
deixava outra alternativa senão aceitá-la.
Jacó apresentou duas razões por que
ele podia permitir-se o luxo de dar aque­
les presentes. Primeiro, Deus o havia
abençoado e esperava-se que continuaria
a fazê-lo. Segundo, ele tinha tudo o de
que necessitava (heb., “tenho tudo”).
Antes disso, Esaú não dissera “tenho o
suficiente” (v. 9), mas “tenho bastante” .
O que Jacó queria dizer era que tinha
tudo o de que precisava. A expressão de
Esaú abriu caminho para outra oferta.__
7) Trilham Caminhos Separados
(33:12-20)
12 E ntão E saú disse: Ponham o-nos a c a ­
m inho e vam os; eu irei adiante de ti. 13 R es­
pondeu-lhe Jacó : M eu senhor sabe que estes
Olhos são tenros, e que tenho com igo ove­
lhas e v acas de le ite ; se forem obrigadas a
cam inhar dem ais por um só dia, todo o
rebanho m o rrerá. 14 P asse o m eu senhor
adiante de seu servo; e eu seguirei, condu­
zindo-os calm am ente, conform e o passo do
gado que está diante de m im , e conform e o
passo dos m eninos, até que chegue a m eu
senhor em Seir. 15 Ao que disse E saú : P e r­
m ite ao m enos que eu deixe contigo alguns
da m inha gente. Replicou Jacó : P a ra quê?
B asta que eu ache g raça aos olhos de m eu
senhor. 16 A ssim tornou E saú aquele dia
pelo seu cam inho em direção a Seir. 17 Jacó,
porém , partiu p a ra Sucote, e edificou p a ra si
um a casa, e fez b a rra c a s p a ra o seu g ad o ;
por isso o lu g ar se ch am a Sucote. 18 D epois
chegou Jacó em paz à cidade de Siquém , que
está n a te rra de C anaã, quando veio de
P adã-A rã; e arm ou a su a tenda diante da
cidade. 19 E com prou a p arte do cam po, em
que estendera a sua tenda, dos filhos de
H am or, p ai de Siquém , por cem peças de
dinheiro. 20 E ntão levantou ali um a lta r, e
cham ou-lhe E l-E loé-Israel.
Nesta seção Esaú revelou a face prin­
cipesca de sua natureza. Devido à sua
maneira de agir, Lutero argumentou elo­
qüentemente que Esaú havia chegado à
fé. Ele ofereceu a Jacó toda sorte de
ajuda, coisa que o seu irmão rejeitou fir­
memente. Primeiro, ele se ofereceu para
escoltá-lo até Seir, serviço que Jacó rejei­
tou, dizendo que isso retardaria desne­
cessariamente o contingente de Esaú.
Em seguida, Esaú quis emprestar uma
escolta para protegê-lo. Isto também
Jacó recusou, dizendo que o fato de Esaú
ter-lhe concedido o seu perdão era tudo o
que ele podia pedir. Por que precisava ele
de proteção, se Deus estava com ele?
Já então estava meridianamente claro
para Esaú que Jacó não queria que ele
ficasse por perto. E foi suficientemente
benevolente para não acusar Jacó de falta
de afeição fraternal. Ele simplesmente se
afastou, provavelmente pesaroso, para
aparecer na história bíblica apenas mais
uma vez por ocasião da morte de Isaque
(35:29).
Até que chegue a meu senhor em Seir.
Dificilmente esta parecia ser a intenção
de Jacó, pois logo que Esaú se afastou,
ele se moveu na direção contrária. Con­
tudo, não se pode ser demasiadamente
crítico, pois na hora pode ser que ele ten­
cionasse fazê-lo, mas, tendo refletido me­
lhor, mudou de idéia. Além disso, Esaú
fê-lo lembrar demasiadamente da vida
que eles haviam tido, que não devia
voltar a ocorrer. Por outro lado, a suspei­
ta pode ter levado Jacó a mentir aberta­
mente a respeito de todas as sugestões de
Esaú. A sua purificação final não fora
conseguida plenamente em Penuel. Este
processo levaria mais tempo do que Jacó
tivera à sua disposição.
Von Rad e outros estão convictos de
que há duas tradições a respeito do lugar
em que Esaú morava na época, uma dé
que era no extremo sul (Edom) e outra de
que era na região ao leste do Jordão,
onde o vemos nesta passagem. Uma tribo
como a dele, todavia, tinha considerável
mobilidade.
Sucote significa cabanas, como na Fes­
ta dos Tabernáculos (das cabanas). Ali
Jacó edificou uma “casa”. Pode ser tam­
bém que ela tenha sido uma estrutura
298
temporária, embora alguns expositores
presumam uma permanência mais pro­
longada (Kidner). Não conhecemos a sua
localização.
Chegou Jacó em paz à cidade de Si-
quém. A palavra traduzida como “em
paz” é interpretada como uma cidade,
“Salem” , na KJV, e existe uma aldeia
com o nome de Salim perto de Siquém.
A raiz da palavra é shalam (estar segu­
ro), e daí shalom, “paz, segurança para
voce .
Nada sabemos do valor do dinheiro
que ele pagou pela propriedade perto de
Siquém. Esta foi a segunda compra de
terra em Canaã efetuada por um patriar­
ca. Mais tarde, José foi sepultado ali
(Jos. 24:32). Tanto Abraão quanto Jacó
adquiriram propriedades no sul, mas
com objetivos diferentes: Abraão para
lugar de sepultamento para os seus mor­
tos e Jacó para espaço onde a sua famí­
lia em crescimento pudesse viver.
Levantou ali um altar. Em nenhum
outro lugar este verbo é usado em relação
a um altar. Ele costumeiramente des­
cre
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    Todos os direitosreservados. Copyright (c) 1969 da Broadman Press. Copyright (c)1987 da JUERP,para a língua portuguesa, com permissão da Broadman Press. O texto bíblico, nesta publicação, é da Versão da Imprensa Bíblica Brasileira, baseada na tradução em português de João Ferreira de Almeida, de acordo com os melhores textos em hebraico e grego. 220.7 All-Com Allen, Clifton J., ed. ger. Comentário Bíblico Broadman: Velho Testamento. Editor geral: Clifton J. Alien. Tradução de Adiei Almeida de Oliveira. Rio de Janeiro, Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1987. Vol. 1 Título original: The Broadman Bible Commentary 1. Bíblia — Velho Testamento — Comentários. 2. Velho Testamento — Comentários. I. Título. 3.000/1987 Código para Pedido: 21.636 Junta de Educação Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira Caixa Postal 320 — CEP: 20001 Rua Silva Vale, 781 — CEP: 21370 Rio de Janeiro, RJ, Brasil Impresso em gráficas próprias
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    Junta de Consultores CliftonI. Allen, ex-Secretário Editorial, Junta Batista de Escolas Dominicais da SBC J. P. Alien, Pastor, Igreja Batista de Broadway, Forth Worth John E. Barnes, Jr., Pastor, Igreja Batis­ ta de Main Street, Hattiesburg Olin T. Binkley, Presidente, Seminário Teológico Batista do Sudeste, Wake Forest, North Carolina WilliamJ. Brown, Gerente, Departamen­ to Oriental, Livrarias Batistas, Junta Batista de Escolas Dominicais John R. Claypool, Pastor, Igreja Batista de Crescent Hill, Louisville, Kentucky Howard P. Colson, Secretário Editorial, Junta Batista de Escolas Dominicais Chauncey R. Daley, Jr., Editor, Western Recorder, Middletown, Kentucky Joseph R. Estes, Secretário, Departa­ mento de Obra Relacionada aos Não- evangélicos, Junta Batista de Missões Nacionais da Southern Baptist Con­ vention William J. Fallis, Editor-Chefe, Livros Religiosos em Geral, Broadman Press Allen W. Graves, Deão, Escola de Edu­ cação Religiosa, Seminário Teológico Batista do Sul, Louisville, Kentucky Joseph F. Green, Editor, Livros de Estu­ do Bíblico, Broadman Press Ralph A. Herring, ex-Diretor, Departa­ mento de Extensão Seminarial, Con­ venção Batista do Sul Herschel H. Hobbs, Pastor, Primeira Igreja Batista, Oklahoma City Warren C. Hultgren, Pastor, Primeira Igreja Batista, Tulsa Lamar Jackson, Pastor, Igreja Batista Meridional, Birmingham L. D. Johnson, Capelão, Universidade Furman J. Hardee Kennedy, Professor de Velho Testamento e Hebraico, Seminário Teológico Batista de New Orleans Herman L. King, Diretor, Divisão de Pu­ blicação, Junta Batista de Escolas Dominicais da SBC William W. Lancaster, Pastor, Primeira Igreja Batista, Decatur, Georgia Randall Lolley, Pastor, Primeira Igreja Batista, Winston-Salem C. DeWitt Mathews, Professor de Prega­ ção, Seminário Teológico Batista do Centro-Oeste John P. Newport, Professor de Filosofia da Religião, Seminário Teológico Ba­ tista do Sudoeste Lucius M. Polhill, ex-Secretário Exe­ cutivo, Associação Geral Batista de Virgínia Porter Routh, Secretário Executivo Te­ soureiro, Comissão Executiva, Con­ venção Batista do Sul John L. Slaughter, ex-Pastor, Primeira Igreja Batista, Spartanburg R. Houston Smith, Pastor, Primeira Igre­ ja Batista, Pineville, Louisiana James L. Sullivan, Secretário Executivo, Junta Batista de Escolas Dominicais Ray Summers, Presidente, Departamen­ to de Religião, Universidade de Bay­ lor Charles A. Trentham, Pastor, Primeira Igreja Batista, Knoxville Keith von Hagen, Diretor, Divisão de Livraria, Junta Batista de Escolas Dominicais J. R. White, Pastor, Primeira Igreja Ba­ tista, Montgomery Conrad Willard, Pastor, Igreja Batista Central, Miami Kyle M. Yates, Jr., Professor de Reli­ gião, Universidade Estadual de Okla­ homa
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    Colaboradores Clifton J. Alien,Junta Batista de Escolas Dominicais (aposentado): Artigo Ge­ ral Morris Ashcraft, Seminário Teológico Batista do Centro-Oeste: Apocalipse G. R. Beasley-Murray, Faculdade Spur­ geon, Londres: II Coríntios T. Milles Bennett, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Malaquias Reidar B. Bjornard, Seminário Teológico Batista do Norte: Ester James A. Brooks, Seminário Teológico Batista de New Orleans: Artigo Geral Raymond Bryan Brown, Seminário Teo­ lógico Batista do Sudeste: I Coríntios John T. Bunn, Universidade Campbell: Cântico dos Cânticos; Ezequiel Joseph A. Callaway, Seminário Teológico Batista do Sul: Artigo Geral E. Luther Copeland, Seminário Teoló­ gico Batista do Sudeste: Artigo Geral Bruce C. Cresson, Universidade Baylor: Obadias Edward R. Dalglish, Universidade Bay­ lor: Juizes; Naum John I. Durham, Seminário Teológico Batista do Sudeste: Salmos; Artigo Geral Frank E. Eakin, Jr., Universidade de Richmond: Sofonias Clyde T. Francisco, Seminário Teológico Batista do Sul: Gênesis; I e II Crôni­ cas; Artigo Geral D. David Garland, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Habacuque A. J. Glaze, Jr., Seminário Internacional Teológico Batista, Buenos Aires: Jo­ nas James Leo Green, Seminário Teológico Batista do Sudeste: Jeremias Emmett Willard Hamrick, Universidade de Wake Forest: Esdras; Neemias William L. Hendricks, Seminário Teoló­ gico Batista do Sudoeste: Artigo Ge­ ral E. Glenn Hinson, Seminário Teológico Batista do Sul: I e II Timóteo; Tito; Artigo Geral Herschel H. Hobbs, Primeira Igreja Ba­ tista, Oklahoma City: I e II Tessalo- nicenses Roy L. Honeycutt, Jr., Seminário Teoló­ gico Batista do Centro-Oeste: Êxodo; II Reis; Oséias William E. Hull, Seminário Teológico Batista do Sul: João Page H. Kelley, Seminário Teológico Ba­ tista do Sul: Isaías J. Hardee Kennedy, Seminário Teológi­ co Batista de New Orleans: Rute; Joel Robert B. Laurin, Seminário Americano Batista do Oeste: Lamentações John William Macgorman, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Gá- latas Edward A. McDowell, Seminário Teoló­ gico Batista do Sudeste (aposentado): I, II e IIIJoão Ralph P. Martin, Seminário Teológico Fuller: I Reis Dale Moody, Seminário Teológico Batis­ ta do Sul: Romanos William H. Morton, Seminário Teológi­ co Batista do Centro-Oeste: Josué Barclay M. Newman, Jr., Sociedade Bí­ blica Americana: Artigo Geral
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    John P. Newport,Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Artigo Geral John Joseph Owens, Seminário Teológico Batista do Sul: Números; Jó (com Tate e Watts); Daniel Wayne H. Peterson, Seminário Teológico Batista Golden Gate: Eclesiastes Ben F. Philbeck, Jr., Faculdade Carson- Newman: I e II Samuel William M. Pinson, Jr., Seminário Teo­ lógico Batista do Sudoeste: Artigo Geral Ray F. Robbins, Seminário Teológico Batista de New Orleans: Filemom Eric C. Rust, Seminário Teológico Batis- tista do Sul: Artigo Geral B. Elmo Scoggin, Seminário Teológico Batista do Sudeste: Miquéias; Artigo Geral Burlan A. Sizemore Jr., Seminário Teo­ lógico Batista do Centro-Oeste: Ar­ tigo geral David A. Smith, Universidade Furman: Ageu Ralph L. Smith, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Amós T. C. Smith, Universidade Furman: Atos; Artigo Geral Harold S. Songer, Seminário Teológico Batista do Sul: Tiago Frank Stagg, Seminário Teológico Ba­ tista do Sul: Mateus; Filipenses Ray Summers, Universidade Baylor: I e I I Pedro; Judas; Artigo Geral Marvin E. Tate, Jr., Seminário Teológico Batista do Sul: Jó (com Owens e Watts); Provérbios Malcolm O. Tolbert, Seminário Teológi­ co Batista de New Orleans: Lucas Charles A. Trentham, Primeira Igreja Batista, Knoxville: Hebreus; Artigo Geral Henry E. Turlington, Igreja Batista Uni­ versitária, Chapel Hill, Carolina do Norte: Marcos John S. W. Watts, Faculdade Serampo- re, Serampore. índia: Deuteronômio Jó (com Owens e Tate); Zacarias R. E. O. White, Faculdade Teológica Batista, Glasgow: Colossenses
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    Prefácio O COMENTÁRIO BÍBLICOBROADMAN apresenta um estudo bíblico atualizado, dentro do contexto de uma fé robusta na autoridade, adequação e confiabilidade da Bíblia como a Palavra de Deus. Ele procura oferecer ajuda e orientação para o crente que está disposto a empreender o estudo da Bíblia como um alvo sério e compensador. Desta forma, os seus editores definiram o escopo e propósito do COMENTÁRIO, para produzir uma obra adequada às necessidades do estudo bíblico tanto de ministros como de leigos. As descobertas da erudição bíblica são apresentadas de forma que os leitores sem instrução teológica formal possam usá-las em seu estudo da Bíblia. As notas de rodapé e palavras são limitadas às informações essenciais. Os escritores foram cuidadosamente selecionados, tomando-se em consideração sua reverente fé cristã e seu conhecimento da verdade bíblica. Tendo em mente as necessidades de leitores em geral, os escritores apresentam informações especiais acerca da linguagem e da história onde elas possam ajudar a esclarecer o significado do texto. Eles enfrentam os problemas bíblicos — não apenas quanto à linguagem, mas quanto à doutrina e à ética — porém evitam sutilezas que tenham pouco a ver com o que devemos entender e aplicar da Bíblia. Eles expressam os seus pontos de vista e convicções pessoais. Ao mesmo tempo, apresentam opiniões alternativas, quando estas são esposadas por outros sérios e bem-informados estudantes da Bíblia. Os pontos de vista apresentados, contudo, não podem ser considerados como a posição oficial do editor. O COMENTÁRIO é resultado de muitos anos de planejamento e preparação. A Broadman Press começou em 1958 a explorar as necessidades e possibilidades deste trabalho. Naquele ano, e de novo em 1959, líderes cristãos — especialmente pastores e professores de seminários — se reuniram, para considerar se um novo comentário era necessário e que forma deveria ter. Como resultado dessas deliberações, em 1961, a junta de consultores que dirige a Editora autorizou a publicação de um comentário em vários volumes. Maiores planejamentos levaram, em 1966, à escolha de um editor geral e de uma Junta Consultiva. Esta junta de pastores, professores e líderes denominacionais reuniu-se em setembro de 1966, revendo os planos preliminares e fazendo definidas recomendações, que foram cumpridas à medida que o COMENTÁRIO se foi desenvolvendo. No começo de 1967, quatro editores consultores foram escolhidos, dois para o Velho Testamento e dois para o Novo Testamento. Sob a direção do editor geral, esses homens trabalharam com a Broadman Press e seu pessoal, a fim de planejar o COMENTÁRIO detalhadamente. Participaram plenamente na escolha dos
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    escritores e naavaliação dos manuscritos. Deram generosamente do seu tempo e esforços, fazendo por merecer a mais alta estima e gratidão da parte dos funcionários da Editora que trabalharam com eles. A escolha da Versão da Imprensa Bíblica Brasileira “de acordo com os melhores textos em hebraico e grego” como a Bíblia-texto para o COMENTÁRIO foi feita obviamente. Surgiu da consideração cuidadosa de possíveis alternativas, que foram plenamente discutidas pelos responsáveis pelo Departamento de Publica­ ções Gerais da Junta de Educação Religiosa e Publicações. Dada a fidelidade do texto aos originais bem assim à tradução de Almeida, amplamente difundida e amada entre os evangélicos, a escolha justifica-se plenamente. Quando a clareza assim o exigiu, foram mantidas as traduções alternativas sugeridas pelos próprios autores dos comentários. Através de todo o COMENTÁRIO, o tratamento do texto bíblico procura estabelecer uma combinação equilibrada de exegese e exposição, reconhecendo abertamente que a natureza dos vários livros e o espaço destinado a cada um deles modificará adequadamente a aplicação desta abordagem. Os artigos gerais que aparecem no Volume 8 têm o objetivo de prover material subsidiário, para enriquecer o entendimento do leitor acerca da natureza da Bíblia. Focalizam-se nas implicações do ensino bíblico com as áreas de adoração, dever ético e missões mundiais da igreja. O COMENTÁRIO evita padrões teológicos contemporâneos e teorias mutáveis. Preocupa-se com as profundas realidades dos atos de Deus na vida dos ho­ mens, a sua revelação em Cristo, o seu evangelho eterno e o seu propósito para a redenção do mundo. Procura relacionar a palavra de Deus na Escritura e na Palavra viva com as profundas necessidades de pessoas e da humanidade, no mundo de Deus. Mediante fiel interpretação da mensagem de Deus nas Escrituras, portanto, o COMENTÁRIO procura refletir a inseparável relação da verdade com a vida, do significado com a experiência. O seu objetivo é respirar a atmosfera de relação com a vida. Procura expressar a relação dinâmica entre a verdade redentora e pessoas vivas. Possa ele servir como forma pela qual os filhos de Deus ouvirão com maior clareza o que Deus Pai está-lhes dizendo.
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    Nota do EditorPara o Volume 1 Revisado A Editora Broadman é o departamento geral de publicação de livros da Junta de Escolas Dominicais da Convenção Ba­ tista do Sul dos Estados Unidos e, por­ tanto, está sujeita ao controle da Con­ venção. O seu programa de publicações é executado por oficiais administrativos que agem segundo a orientação e a polí­ tica de membros eleitos pela Convenção. Em 1969, a Editora Broadman publicou o primeiro volume do THE BROAD­ MAN BIBLE COMMENTARY, uma obra em doze volumes, destinada ao sério estudo da Bíblia, como parte dos com­ promissos programáticos correntes da Junta de Escolas Dominicais. Esta revisão do Volume 1 é publicada em resposta às decisões dos mensageiros de 1970 e 1971 da Convenção Batista do Sul, tendo sido estas decisões interpreta­ das pelos membros eleitos da Junta de Escolas Dominicais e implementadas pe­ los oficiais administrativos da Junta. Clyde T. Francisco foi encarregado de escrever um novo comentário sobre o li­ vro de Gênesis, para este volume. Bar- clay H. Newman, Jr., foi convidado a escrever um novo artigo a respeito de “As Escrituras Traduzidas”, visto que o escritor deste artigo anteriormente pu­ blicado pediu que a sua obra não fosse usada neste Volume 1revisado. A lista de colaboradores para todo o Comentário foi atualizada. Todo o outro material é idêntico ao do volume publicado em 1969. Abreviaturas ASV — American Standard Version Heb. — Hebraico IBB — Imprensa Bíblica Brasileira (Versão Revisada) IDB — Interpreter’s Dictionary of the Bible Int. — Introdução JBL — Journal ofBiblicalLiterature KJV — King James Version lit. — literalmente LXX — Septuaginta marg. — margem RSV — Revised Standard Version
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    Sumário Artigos Gerais O Livroda Fé Cristã Clifton J. A llen .................... 17 As Escrituras Traduzidas Barclay M. Newmàn, Jr. .. 35 A Interpretação da Bíblia John P. Newport.................. 51 A Geografia da Bíblia B. Elmo Scoggin.................. 63 A Arqueologia e a Bíblia Joseph A. Callaway ............ 73 O Cânon e o Texto do Velho Testamento Burlan A. Sizemore, Jr . . . . 83 A História de Israel Clyde T. Francisco ............ 93 A Teologia do Velho Testamento E .C .R u st............................ 111 Abordagens Contemporâneas John I. Durhan.................... 131 no Estudo do Velho Testamento Gênesis Clyde T. Francisco Introdução.............................................................................................................. 145 Comentário Sobre o Texto.................................................................................... 171 Êxodo Roy L. Honeycutt, Jr. Introdução.................................................... ......................................................... 367 Comentário Sobre o Texto.................................................................................... 385
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    O Livro daFé Cristã Clifton J. Allen Começamos com a afirmação de que a Bíblia é a Palavra de Deus. Mas não po­ demos parar neste ponto. Os crentes pre­ cisam fazer algo mais do que simples­ mente louvar a Bíblia. Precisam estar preparados para se haverem com sérias interrogações a respeito da Bíblia. Estas interrogações são feitas não apenas por céticos e cínicos; são feitas também por estudantes devotos e aplicados da Bíblia. Empenhar-se em um estudo assim apli­ cado acarreta a necessidade de enfrentar todas as interrogações válidas a respeito da natureza e da autoridade da Bíblia, e uma mente aberta para avaliar a vali­ dade de suas declarações e a integridade de seu testemunho. Não temos razão para evitar essas interrogações. A Bíblia não está correndo o perigo de embaraço ou de extinção! Os crentes também precisam tornar-se mais conscientes dos questionamentos realistas, mas freqüentemente hostis e céticos do mundo incrédulo e secular a respeito da Bíblia. Esses questionamen­ tos exigem respostas, que são dadas por um conhecimento exato e profundo da Bí­ blia e por uma fé reverente, nutrida por uma compreensão inteligente desse Li­ vro. Uma opinião acerca da Bíblia que não sofreu ataques da ignorância do pre­ conceito, da incredulidade ou do orgulho humanista, pode não ser de confiança, porque não foi testada. Uma fé que não faz perguntas dificilmente é fé, porque não procura significado nenhum. Apropriadamente, perguntamos a res­ peito da Bíblia: Qual é a sua natureza? Como chegou até nós? Qual é a base de sua autoridade? Qual é a sua importân­ cia e qual o seu significado? Ao conside­ rarmos estas perguntas, é essencial ter­ mos em mente o que é a Bíblia. Mais do que qualquer outra coisa, ela é um re­ gistro e uma interpretação da auto-reve- lação de Deus ao homem: é a narrativa autêntica da revelação de Deus em Jesus Cristo, para a redenção do homem. É a história da salvação:1 o propósito salva­ dor, os atos salvadores, a graça salvadora e o poder salvador do Senhor; a missão salvadora do povo de Deus; e a consuma­ ção da obra salvadora de Deus através do senhorio de Cristo. Este conceito sobre que é a Bíblia é a perspectiva básica, da qual este artigo procurará explorar inter­ rogações importantes a respeito da Bí­ blia. I. A Natureza da Bíblia Está na hora de perguntar agora: Qual é a natureza da Bíblia? Em que sentido a Bíblia é a Palavra de Deus? Por que ela é tão difícil de se entender? Como é que um livro tão antigo tem importância atemporal? As respostas a estas pergun­ tas — e a outras de igual importância — exigem uma compreensão amadurecida do que é a Bíblia e uma percepção pene­ trante quanto aos seus antecedentes, suas características e seu propósito central. 1. Origem, Ambiente Formativo e Cultura Antes de tudo, que seja observado que a Bíblia é de origem antiqüíssima. Os primeiros capítulos falam a respeito da criação do Universo e do homem, a res­ 1 Cf. A. M. Hunter, The Message of the New, Testa­ ment, particularmente as p. 11 e 12. 17
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    peito de Deuse de sua maneira de agir para com o homem, desde o começo do mundo, e a respeito de acontecimentos que precedem uma identificação históri­ ca exata. E, em seguida, a narrativa co­ meça a contar a história de Abraão e seus descendentes, estando estes fatos locali­ zados em cerca de 2000 a.C. O relato es­ crito da história contínua de Deus e seu povo se estende até cobrir o primeiro século da era cristã. Desta forma, a Bí­ blia precisa ser entendida como um livro muito antigo. Além disso, a Bíblia chegou a nós a partir de um cenário semita, isto é, o cenário do Oriente Próximo antigo. A Bí­ blia tem a ver especialmente com os descendentes de Abraão, o povo escolhi­ do de Deus, que habitou a terra de Canaã, uma faixa estreita ao longo do litoral oriental do Mediterrâneo. Essa pequena área era uma espécie de ponte ou via de contato entre o povo da região do vale do Tigre-Eufrates, a leste, e o povo do vale do Nilo, a sudoeste. O próprio Abraão representava o povo se­ mita que vivia no sudoeste da Ãsia: babi­ lônios, assírios, arameus, cananeus e fe­ nícios. Reconhecemos também que o povo da Bíblia expressa a cultura que era a sua herança e o seu ambiente formativo. O Velho Testamento reflete o ambiente agrícola e a experiência vivencial do povo de Israel, mas revela também a crescen­ te influência do desenvolvimento urba­ no. A maneira de o povo pensar em Deus em termos antropomórficos, como inti­ mamente associado com as coisas da natureza, como vingador e como sendo parcial, em favor do povo de Israel, ex­ pressa o impacto de sua herança cul­ tural. E a maneira como esse povo pen­ sava a respeito da família — da figura autoritária do marido e pai, da subser­ viência e inferioridade das mulheres e da importância de ter filhos — era também influenciada pela sua cultura. O seu con­ ceito da ordem material como expressão imediata da presença e do poder de Deus e as suas fortes tendências para a ido­ latria mostram o impacto entre os con­ ceitos culturais e a prática. As formas de pensamento e conceitos que aparecem no decorrer da Bíblia são a expressão na­ tural da experiência desse povo. Ao tempo do Novo Testamento, os judeus da Palestina sentiam grande anti­ patia e até amarga hostilidade, em mui­ tos casos, contra os gentios. Através do mundo romano, o envolvimento no co­ mércio e negócios, nas grandes cidades do império, contribuiu para a comuni­ cação, o entendimento e, em alguns ca­ sos, para um certo grau de boa vontade. Todavia, o Novo Testamento propria­ mente dito, com o seu evangelho dinâ­ mico da redenção de Deus em Cristo, reflete a sua origem e ambiente cultural na herança judaico-cristã no contexto da civilização greco-romana. O Novo Tes­ tamento chegou até nós a partir de um ambiente judaico, através da língua gre­ ga, vindo de uma vida sob o controle de Roma, e de uma intenção divina, me­ diante a qual o evangelho não reconhece diferença de raça, língua ou cultura, e se destina a todos os povos, todas as cultu­ ras e todas as gerações. 2. Literatura de Muitos Tipos e Formas A Bíblia é muito mais do que uma coleção de obras literárias religiosas. Pa­ ra ser entendida adequadamente, ela precisa ser considerada como literatura de diferentes espécies e formas. Se al­ guém analisa a Bíblia cuidadosamente, para distinguir várias formas literárias, encontrará exemplos das seguintes: his­ tória, lei, poesia, drama, profecia, litera­ tura de sabedoria, literatura apocalípti­ ca, hinos, antemas, sermões, discursos, cartas, epopéias, acrósticos, genealogias, listas estatísticas, parábolas, alegorias e histórias. Para fins práticos, não é essen­ cial um conhecimento das distinções mais refinadas das formas literárias; mas, para uma compreensão madura da 18
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    Bíblia, o reconhecimentode que ela é literatura de vários tipos é imperativo. Os primeiros cinco livros da Bíblia vieram a ser chamados de “a Lei” . Mas o Pentateuco é muito mais do que Lei, como forma literária. O livro de Gênesis é histórico, biográfico e teológico. Há material semelhante nos quatro livros se­ guintes. Mas nesses quatro livros temos a lei, que se tornou o mandato e o livro de texto para a adoração de Deus, para a conduta moral do homem, e para a vida do homem em comunidade e nas rela­ ções interpessoais. Inevitavelmente, mui­ tas das leis refletem o impacto da situa­ ção cultural de Israel, a imaturidade do povo, em seu desenvolvimento espiritual e moral, e o esforço dos líderes divina­ mente chamados para cultivar fidelidade a Deus ejustiça e retidão entre o povo. A parte seguinte, do Velho Testamen­ to, é geralmente considerada como uma seção de livros históricos. Na Bíblia he­ braica, os livros de Josué a II Reis eram conhecidos como os Profetas Antigos. Os Profetas Posteriores incluíam Isaías e Jeremias e os últimos doze livros do Velho Testamento. Estes dois grupos, comumente chamados de Profetas, como seção das Escrituras Hebraicas, desta forma incluíam a maior parte do mate­ rial histórico do Velho Testamento, e quase todos os materiais proféticos — uma combinação de história e profecia. A História — e isto incluiria livros que não os mencionados acima — conta a história desse povo e outros aconteci­ mentos: de sofrimento, luta, sucesso, fra­ casso, apostasia, arrependimento e reno­ vação, fidelidade e rebeldia. Os fatos da História eram recordados com realismo, mostrando o povo no que tinha de pior e de melhor, mostrando como ele entende­ ra mal os propósitos de Deus e por vezes agira de maneira completamente estra­ nha à natureza de Deus, embora dissesse estar fazendo a vontade de Deus, e mos­ trando como Deus agia para revelar-se, para executar juízo, para derramar mise­ ricórdia e bênçãos, para vencer a igno­ rância e a perversidade de seu povo e para levar avante o seu propósito em Israel. A história de Israel não pode ser enten­ dida à parte da profecia. È bom que seja lembrado que os profetas declararam a palavra de Deus ao povo em suas respec­ tivas gerações. Profecia não é primordial­ mente uma predição dos eventos futuros, mas uma proclamação de julgamento ou consolação ou dever ou propósito em relação ao povo quanto à sua necessida­ de. Entendemos melhor os escritos profé­ ticos não como predições místicas de acontecimentos futuros, mas como decla­ rações intemeratas do propósito de Deus para com o seu povo em sua situação imediata. Dado este fato, contudo, não podemos deixar passar despercebido que muitos dos profetas declararam a pala­ vra de Deus com aplicação no futuro, indicando as direções do propósito de Deus para com o seu povo, a promessa iniludível de sua redenção para lodo o povo, e a consumação inarredável de seu reino de justiça e paz. Grande parte do Velho Testamento é de poesia. Tirando-se os livros estrita­ mente poéticos, poemas são encontrados nos livros da lei, nos históricos e nos pro­ féticos. É importante reconhecer que a poesia precisa ser entendida como poe­ sia, embora seja um veículo de revelação divina. Ela depende de imagens e figuras de linguagem. O elemento de sensações e emoção é dominante. A verdade é ex­ pressa imaginativamente, e precisa ser entendida através da imaginação. Um esforço para entender a poesia com base na redação literal ignora a natureza da poesia, e leva a um inevitável mal-enten­ dido de seu significado. A poesia da Bíblia, em consonância com a natureza da verdadeira poesia, é a expressão de intensos sentimentos, que incluem temor, tanto quanto confiança; ira, bem como bondade; concupiscência, assim como pureza; ódio, como amor; 19
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    autopiedade, assim comoautoconfiança; e desespero, como esperança. O indício para a interpretação exige aplicação de percepção poética. O livro de Jó é quase inteiramente poético. Mas ele é também um exemplo de drama. Daí, uma outra forma literá­ ria é usada para ensinar a necessidade de uma verdadeira compreensão do proble­ ma do sofrimento humano. A intensida­ de do sofrimento de Jó e a natureza do problema enfrentado fizeram do drama o meio mais eficiente da verdade, a verda­ de finalmente revelada a Jó através da auto-revelação de Deus, em sua sobera­ nia, sua justiça e sua grandeza. Outro tipo de literatura é conhecido como literatura de sabedoria. Ele é re­ presentado especialmente por Provérbios e Eclesiastes, no Velho Testamento, e pela Epístola de Tiago, em o Novo Testa­ mento. O livro de Jó também pode ser identificado como literatura de sabedo­ ria. As obras de sabedoria, embora ado­ tando várias formas literárias, represen­ tam a sabedoria destilada da experiência humana e estabelecem os valores e virtu­ des, os princípios e discernimentos que podem compor a filosofia de vida de uma pessoa, particularmente em termos da escolha de alvos e do seguimento de padrões que contribuam para a integri­ dade, harmonia, reverência, castidade, diligência, confiança própria e realiza­ ção. Quando chegamos ao Novo Testamen­ to, imediatamente nos defrontamos com os Evangelhos. Quanto à forma literária, eles combinam história, biografia, pará­ bola, discursos extensos, diálogo e ora­ ção. Mas os Evangelhos são peculiares. Eles são documentos de fé. Falam de uma figura central: Jesus Cristo. São o registro dramático de Jesus em ação, do que ele disse e fez, do impacto de sua personalidade sobre outras pessoas, do que outras pessoas pensaram a respeito dele e como elas reagiram a ele, e, final­ mente, da auto-entrega de Jesus na cruz e sua ressurreição dentre os mortos. Os Evangelhos como literatura nunca po­ dem ser separados da realidade viva e do impacto dinâmico do Filho do Homem. O livro de Atos é a segunda parte da história de Lucas-Atos. Por conseguinte, ele mantém a relação mais íntima possí­ vel com os Evangelhos — e é quase uma série de reportagens. Ele fala do que os seguidores de Jesus fizeram e ensinaram na consciência de sua presença viva com eles e através do poder de Seu Espírito. As cartas do Novo Testamento têm muito em comum, como forma literária, mas variam grandemente em extensão, propósito e estilo literário, e auditório pretendido. Algumas delas foram escri­ tas para igrejas, algumas para indiví­ duos, algumas para grupos esparsos de cristãos, e algumas para destinatários desconhecidos, não identificados. Estas cartas, inclusive as dirigidas às sete igre­ jas, no livro do Apocalipse, constituem uma interpretação do evangelho de Cris­ to, um retrato da vida e da prática da igreja neotestamentária, e um registro do ministério, fidelidade, perseguição, luta e esperança da parte de pessoas empenhadas no serviço de Jesus Cristo. Uma característica dessas cartas, natu­ ralmente, é o elemento pessoal, a relação do escritor com os seus leitores (em al­ guns casos, com uma pessoa). Ele escre­ veu para compartilhar a sua experiência e preocupação, consciente do laço de co­ munhão cristã. A Bíblia inclui ainda outro tipo de li­ teratura conhecida como apocalíptica. Os dois principais livros de literatura apocalíptica são Daniel e Apocalipse. Esta espécie de literatura foi o produto de épocas de intensa crise para o povo de Deus. Ela era marcada por uma forte preocupação escatológica, uma expecta­ tiva e uma focalização na manifestação dinâmica de Deus em juízo. O estilo da literatura apocalíptica era a apresenta­ ção de verdades por meio de imagens e símbolos que representavam forças ma­ 20
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    lignas, o sofrimentoe a recompensa do povo de Deus, e os atos poderosos de Deus em juízo, em libertação e vitória, Deve-se abordá-la com a percepção inteli­ gente de que o arcabouço de símbolos e imagens aponta para pessoas, aconte­ cimentos e forças no longo e distante passado. Mesmo assim, a verdade a res­ peito da completa soberania e do eterno propósito de Deus, que deu encoraja­ mento e consolo ao seu povo no passado, é igualmente relevante para o povo de Deus através dos séculos que se vão pas­ sando. Portanto, entenderemos que a Bíblia é um exemplo de variegadas formas literá­ rias. Deus usou a habilidade e os inte­ resses de muitos escritores como veículo de sua revelação. Os muitos tipos de obras literárias contribuíram para uma riqueza de significado e uma diversidade e profundidade de interesse humano. Uma percepção adequada dos elementos característicos de estilo e forma literária propiciarão chaves para uma compreen­ são mais plena da mensagem da verdade. 3. Revelação Divina Através de Veículos Humanos A Bíblia é uma revelação divina. Este é, na verdade, o aspecto mais significa­ tivo de sua natureza, a explicação de seu significado e a base de sua autoridade. Não podemos parar, todavia, nestas afir­ mações. Precisamos explorar em profun­ didade o que significa revelação, o que significa inspiração, como estes dois ele­ mentos se relacionam, como devem ser entendidos à luz de tudo o que podemos conhecer a respeito da natureza da Bíblia e como ela nos chegou às mãos pela pro­ vidência de Deus. O que é revelação? — Revelação é a verdade que nos veio de Deus. Deus falou ao homem de muitas maneiras: através do mundo natural, através dos julgamen­ tos da história humana, através de provi­ dências na experiência pessoal e através da voz interior da consciência. Mas a Bíblia é o relato peculiar do autodes- vendamento de Deus. Ela é o relato escrito de suas palavras e atos. Desde o princípio até o fim, a Bíblia declara que Deus se revelou ao homem, e que ela mesma, a Bíblia, é uma narrativa de crédito dessa revelação. Frases como as seguintes ocorrem repetidamente no decorrer do Velho Testamento: “Disse Deus” ; “o Senhor falou”; “Deus orde­ nou” ; “a palavra de Deus veio” ; “Deus tomou conhecido”; “o Senhor apare­ ceu” . Elas representam um número mui­ to maior de fórmulas de revelação. A Bí­ blia também fala repetidamente do que Deus fez, dos seus atos de criação, de julgamento, de libertação, de eleição, de direção, de consolação, de destruição, de manifestação, de cura e de soberania dominante. Deus agiu para se fazer co­ nhecido de seu povo e para realizar o seu propósito através dele. Mas o supremo ato da revelação de Si próprio, por parte de Deus, a respeito de que a Bíblia fala, foi a Sua vinda em Jesus Cristo. “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigénito do Pai” (João 1:14). A palavra de Deus foi falada ao homem pela Palavra viva. “Havendo Deus anti­ gamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nes­ tes últimos dias a nós nos falou pelo Filho” (Heb. 1:1,2). Esta declaração su­ blime da Epístola aos Hebreus congrega toda a verdade a respeito de revelação, e nos apresenta a chave da Bíblia como uma revelação de Deus. O Velho Testa­ mento apontava para a vinda de Alguém que seria o agente da redenção de Deus. O Novo Testamento fala de sua vinda, de sua vida sem pecado e de seu ministério autodoador, de sua morte, de sua ressur­ reição, de sua salvação e de seu senhorio; e declara que nele toda a plenitude da divindade habitou corporalmente (Col. 2:9). 21
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    Agora estamos preparadospara consi­ derar a Bíblia como um todo. Ela deve ser considerada à luz da perfeita revela­ ção de Deus em Jesus Cristo. A suprema revelação de Deus é uma Pessoa. Tudo o que a Bíblia nos fala a respeito de Deus, sua natureza, seus atos e do que várias pessoas entenderam a respeito dele ou lhe atribuíram, precisa ser interpretado e colocado em harmonia com a natureza, a verdade, o amor e o propósito de Deus em Cristo. Este fato reconhece que mui­ tas pessoas a quem Deus falou “de mui­ tas maneiras” antes da vinda de Cristo não entenderam Deus perfeitamente, não apreenderam o seu propósito plenamente e não podiam conhecer a sua vontade claramente. Os exemplos do Velho Testamento, de aparente conflito com o fato de que Deus é amor, segundo muita gente diz, são simplesmente mistérios de onisciência, e, portanto, não devem ser questionados. Tais pessoas abordarão quaisquer misté­ rios desnorteantes das Escrituras desta forma, e ficarão satisfeitas. Por outro lado, muitas outras pessoas insistirão que a Bíblia, embora seja a revelação de Deus que tem autoridade completa, pode ser corretamente entendida, corretamen­ te interpretada, tão-somente à luz plena da verdade de Jesus Cristo, a Palavra viva, a completa e perfeita revelação de Deus. Essas pessoas afirmarão que isto está em harmonia com o propósito eterno de Deus de que todas as coisas no céu e na terra e debaixo da terra se submete­ rão ao senhorio de Cristo. As Sagradas Escrituras devem ser melhor entendidas à luz do que ele ensinou, do que ele fez e de quem ele é, como a Palavra de Deus. Inspiração e revelação. — Duas passa­ gens da Escritura imediatamente vêm à nossa mente: primeiro, as palavras de Paulo a Timóteo: “Toda Escritura é divi­ namente inspirada e proveitosa para en­ sinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o ho­ mem de Deus seja perfeito, e perfeita­ mente preparado para toda boa obra” (II Tim. 3:16,17); depois, de II Pedro: “Ne­ nhuma profecia da Escritura é de par­ ticular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos ho­ mens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo” (1:20,21). Estas passagens, e outras, di­ reta ou indiretamente, afirmam que a Bíblia é uma revelação inspirada. Termos como os seguintes são usual­ mente aplicados a inspiração: inspira­ ção verbal, inspiração plenária e inspira­ ção dinâmica. A conotação ou significa­ do ligado a estas palavras varia ampla­ mente. A questão, em grande parte, resi­ de no grau de inerrância das palavras da Escritura e o conceito de unidade na mensagem da Escritura. A opinião da inspiração verbal é geral­ mente aplicada às Escrituras na língua original, e não a traduções subseqüen­ tes, embora, na verdade, esta opinião freqüentemente seja entendida e defen­ dida principalmente em relação a tradu­ ções para o vernáculo. Na Inglaterra e nos Estados Unidos há um grande movi­ mento que defende a inspiração verbal da tradução King James (do Rei Tiago, de 1011). Embora aqui, mais uma vez, haja variações do significado dado à ins­ piração verbal, os defensores desta opi­ nião dizem que os escritores da Bíblia foram inspirados ao ponto de usar as próprias palavras dadas por Deus para expressar a sua verdade. Portanto, as Escrituras são inerrantes e infalíveis. Isto, obviamente, reduz o escritor qua­ se ao equivalente a uma ferramenta nas mãos de Deus, e torna-o virtualmente um agente completamente controlado por Deus. Embora poucas pessoas pensantes concordem que inspiração verbal seja essencialmente um ditado divino, escrito quase que mecanicamente, o processo não deixa quase campo para uma ação responsável ou um envolvimento pessoal da parte do escritor. Há muitas pessoas que esposam este ponto de vista acerca 22
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    da inspiração, eo consideram plenamen­ te satisfatório, em consonância com o seu conceito da soberania e sabedoria de Deus, e da iniciativa de Deus na revela­ ção. Elas acham que qualquer transigên­ cia desta posição leva a um abalo da autoridade bíblica. Outra opinião acerca da Bíblia pode ser descrita como inspiração plenária. Este termo tem várias conotações. O cerne deste ponto de vista é que a Bíblia é plenamente inspirada, mas não verbal­ mente inspirada. Os escritores não eram agentes controlados ao ponto de não terem utilizado a sua experiência e o seu conhecimento. Mas eles foram ilumina­ dos tão completamente, tão guiados pelo Espírito de Deus e cheios de seu poder, que foram preservados de qualquer erro, ao transmitir a revelação divina. Daí, a Bíblia é totalmente inspirada, e a revela­ ção, inerrante, quanto a fatos, aconteci­ mentos e doutrina. Esse ponto de vista acerca da inspiração, satisfatório e aceito porum grandenúmero de crentes sinceros e interessados, inclusive eruditos compe­ tentes, procura evitar uma parte do ex­ tremo literalismo e dos elementos rigida­ mente controlados de inspiração verbal, enquanto, ao mesmo tempo, mantém um conceito de inerrância prática de toda a Bíblia e de suas diferentes partes. Outro conceito de inspiração pode ser identificado como dinâmico. Admitimos que esta designação carece de precisão, porque a realidade que ela identifica é marcada por mistério e complexidade. No entanto, essencialmente, este ponto de vista sustenta que as Escrituras Sagra­ das vieram a existir e receberam o seu caráter de revelação de Deus com autori­ dade através da ação do Espírito de Deus, cujo poder vivificador, iluminador e orientador fez de homens escolhidos os veículos do propósito de Deus. As Escri­ turas são de fato inspiradas (“sopradas por Deus”), porque a sua verdade é de Deus e acerca de Deus. “Homens da parte de Deus falaram movidos pelo Es­ pírito Santo” (II Ped. 1:21). De maneiras que não podemos entender e através de processos que não podemos identificar, Deus escolheu e equipou muitas pessoas para registrar os seus atos, para interpre­ tar os seus propósitos e para declarar a sua palavra. De acordo com esta opinião, a inspira­ ção da Bíblia é muito mais o fato de ela ser completa e adequada como registro escrito da auto-revelação de Deus e como guia para o homem em todos os assuntos de fé e prática, do que uma questão de inerrância em redação e analogia e certos detalhes a respeito de pessoas e aconteci­ mentos. A inspiração é mais uma ques­ tão da mensagem da salvação de Deus do que o método ou processo pelo qual ela foi reduzida à forma escrita. A autorida­ de da Bíblia reside em sua integridade e unidade, à luz da verdade de Deus em Cristo. A opinião de inspiração dinâmica re­ pousa solidamente na repetida declara­ ção, encontrada nas Escrituras, de que através delas Deus fala ao homem. Esta opinião se baseia, mais uma vez, em a natureza inerente das Escrituras como tesouro peculiar de sabedoria divina, que se enquadra na totalidade da experiência humana quanto à fé religiosa, ao dever moral e à responsabilidade ética. A Bí­ blia continua a falar, em princípio bási­ co, a todas as gerações, com relevância e atualidade: ela continua a declarar a palavra do Deus vivo ao homem vivo, na situação humana contemporânea. Este ponto de vista se baseia, além disso, no fato de que as Escrituras são eficientes na experiência humana para alcançar os propósitos de Deus. Exem­ plos importantes desta verdade são en­ contrados nas seguintes passagens: Sal­ mos 119:9,11; João 5:39; 20:31; Roma­ nos 15:4; Hebreus 4:12; II Pedro 1:16- 19; e Romanos 1:16. A evidência e prova da inspiração da Escritura é que ela é de fato “proveitosa para ensinar, para re­ preender, para corrigir, para instruir em 23
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    justiça; para queo homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra” (II Tim. 3:16,17). A verdade da revelação bíblica é sopra­ da por Deus. Ela é habitada pelo Espí­ rito do Deus vivo. Ela é eficiente para a regeneração e santificação. Ë redentora e reconciliadora. Conseqüentemente, uma opinião dinâmica de inspiração se foca­ liza na verdade que tem sua essência, propósito e autoridade em Jesus Cristo. Portanto, um ponto de vista dinâmico de inspiração não depende de uma iner- rância mística, inexplicável e não verifi­ cável de cada palavra da Escritura ou do conceito de que a inspiração não pode permitir erros de fato ou de substância. Pelo contrário, ele aceita a Bíblia total­ mente como inspirada: inerrante como a única testemunha completamente autên­ tica da auto-revelação de Deus em Cristo e de sua salvação através de Cristo; iner­ rante porque a sua verdade é o perfeito instrumento do Espírito para levar os homens à fé, justiça e esperança; e iner­ rante porque o seu ensinamento, inter­ pretado pela vida e obra de Cristo, é o guia infalível de como o povo de Deus deve viver e no que ele deve crer, sem dúvida alguma, sob a direção do Espírito de Cristo. Talvez haja necessidade, a esta altura, de enfatizar que as diferentes opiniões acerca da inspiração não subsistem sem problemas nem sem interrogações não respondidas. Estas devem ser enfrenta­ das com honestidade e objetividade. Os seguintes problemas são inerentes à opinião de inspiração verbal: (1) Visto que pessoas falíveis copiaram os manus­ critos originais através de centenas de anos, com exatidão meticulosa, mas não sem erros, e visto que outras pessoas falíveis traduziram as Escrituras origi­ nais para diferentes línguas, e visto que há variações textuais nos manuscritos existentes mais dignos de confiança, o valor de um original verbalmente infalí­ vel está perdido para a presente e para as futuras gerações, não estando disponível nenhuma cópia da obra original. (2) Cuidadosa leitura e exame das Es­ crituras revelam algumas contradições óbvias ou discrepâncias, não envolvendo nenhuma doutrina de maior importância ou questão básica, mas suficiente para constituir um problema quanto à invali­ dez da inspiração verbal. Dois exemplos servem para ilustrar este ponto: A refe­ rência a Abiatar (Mar. 2:26) e a Abime- leque (I Sam. 21:1) é inconsistente. Em um lugar se diz que o Senhor incitou Davi a fazer um recenseamento; em ou­ tro, que foi Satanás (II Sam. 24:1; ICrÔn. 21:1). (3) A inspiração verbal parece submer­ gir a instrumentalidade humana ao pon­ to de que os escritores da Bíblia eram menos do que livres em sua reação à vontade do Espírito de Deus. (4) A inspiração verbal tende a colocar toda a Bíblia no mesmo nível de inspira­ ção e revelação divina. (5) A inspiração verbal acarreta sérias dificuldades quanto à interpretação, por­ que a redação de várias passagens, direta ou indiretamente, parece atribuir a Deus atos e atitudes em desarmonia com a sua natureza como de santo amor e clara­ mente em conflito com o exemplo e o ensino de Jesus (cf. Deut. 17:2-7; II Sam. 21:1-9 em relação com Deut. 24:16; Sal. 69:22-28; 109:6-19; 137:7-9; I Crôn. 13: 9,10). (6) A inspiração verbal parece requerer explicações que tornam a própria inspi­ ração verbal irreal. Por exemplo, Maria se refere a José como pai de Jesus (Luc. 2:48). O que Maria queria dizer é facil­ mente explicado, a não ser que o intér­ prete esteja restrito à inerrância verbal. (7) A inspiração verbal parece irrecon­ ciliável com o que parecem ser fatos que se originam de pesquisa objetiva e estudo sério da Bíblia. As evidências confirmam uma autoria múltipla do Pentateuco, aproveitando-se de fontes orais e escritas, e por fim envolvendo compilação e edi­ 24
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    ção, coisas queparecem forçar a opinião de inspiração verbal ao ponto de ser irreal. Grande parte do Velho Testamen­ to acarretaria um problema semelhante. Lucas explica com cuidado (1:1-4) o seu método de pesquisa e fontes de informa­ ção, coisa de pequena importância se cada palavra que ele escreveu foi virtual­ mente ditada pelo Espírito Paulo admite que algumas de suas declarações são suas, e não de Deus (I Cor. 7:12,25; cf. 8-10,40). Sem dúvida, muitas das con­ clusões dos estudos críticos não podem ser provadas dogmaticamente, mas fatos estabelecidos e identificáveis servem para trazer à tona as questões a respeito da exeqüibilidade da inspiração verbal, mais do que para confirmá-la como pon­ to de vista aceitável. Uma opinião de inspiração plenária acarreta grande parte dos problemas já mencionados a respeito da inspiração verbal, sendo as diferenças especialmen­ te uma questão de grau. Particularmen­ te, esta opinião acarreta os problemas de uma vontade divina virtualmente impos­ ta aos escritores da Bíblia, a subserviên­ cia dos achados dos estudos críticos como controvertendo a plena inspiração e atri­ buindo a Deus atos e atitudes aparente­ mente em desarmonia com a sua revela­ ção em Cristo. Ela legitima muitas das declarações das Escrituras como revela­ ção, embora elas pareçam ser resultado da fraqueza humana e uma compreensão errada de Deus. Este ponto de vista reconhece muito pouco o aspecto pro­ gressivo da revelação. A opinião da inspiração dinâmica se­ melhantemente acarreta problemas; pro­ blemas peculiares a si própria. (1) Ela enfrenta a necessidade de reconhecer e de dar o devido valor a muitas declara­ ções bíblicas que parecem dar a entender ou enfatizar o elemento de inspiração plena, se não verbal. E também ela pre­ cisa explicar estas declarações sem a distorção de pressuposição e interpretá- las sem perder o impulso de sua impli­ cação sobrenatural. (2) Este ponto de vis­ ta acarreta a tentação de depender de­ masiadamente dos critérios e da sabedo­ ria humanos, para distinguir entre o que é claramente a palavra falada do Senhor e os mal-entendidos dos homens a res­ peito dos propósitos e da vontade do Senhor. (3) Este ponto de vista acarreta a tendência — que se toma real em dema­ siados casos — de minimizar o elemento de inspiração divina e dar mais atenção ao veículo humano de inspiração. (4) Es­ te ponto de vista acarreta a obrigação — muitas vezes menosprezada pelos erudi­ tos críticos — de reconhecer o elemento de fé reverente como a chave para o entendimento das Escrituras e de reco­ nhecer que muitas questões difíceis a res­ peito da natureza da Bíblia não são resol­ vidas com os recursos da pesquisa crí­ tica, mas pela confiança em Deus com humildade. (5) Os que advogam esta opi­ nião têm a obrigação de carrear para a Bíblia um maior grau de estudo discipli­ nado, para encontrar os níveis mais pro­ fundos de verdade e um grau maior de sensibilidade para a dinâmica do Espí­ rito vivo, a fim de ouvir a voz do Senhor através do Espírito. Para o escritor deste artigo, os proble­ mas da opinião de inspiração dinâmica, embora reais, não invalidam esta opinião acerca das Escrituras. Os problemas são resolvidos por fé reverente no Senhor das Escrituras e nas próprias Escrituras co­ mo a Palavra de Deus, em integridade e - unidade em Cristo. Eles são resolvidos com a abertura da mente para a verdade e os frutos de pesquisa objetiva. E, além disso, são resolvidos pela submissão ao Espírito Santo, que interpreta a Palavra de Deus em Cristo para todas as pessoas que desejam conhecer a mente de Cristo e fazer a vontade do Senhor. Pessoas de propósitos fervorosos para com Deus e de fortes convicções a res­ peito da revelação dele nas Escrituras te­ rão opiniões diferentes a respeito de sua inspiração. Cada pessoa pode buscar 25
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    uma compreensão maisplena da Bíblia como base para achar o ponto de vista que torna a Bíblia mais significativa no contexto de sua própria experiência. Algumas declarações sumárias, relati­ vas à revelação e à inspiração, podem ser feitas agora. (1) A opinião que uma pes­ soa tem a respeito de revelação e inspi­ ração não deve ignorar os achados da pesquisa objetiva e do exame crítico. (2) Uma opinião aceitável acerca da ins­ piração e da revelação precisa permitir a tradução das línguas originais das Escri­ turas e admitir as variações nos textos disponíveis das Escrituras Hebraica e Grega e suas implicações, baseadas em conhecimento irrefutável. (3) Muitas questões que não têm perspectiva de serem resolvidas. “Prova”, em qualquer sentido exato ou dogmático, é dificilmen­ te apropriada para a opinião que uma pessoa tenha quanto à revelação e inspi­ ração. Crença no fato da inspiração é essencial; uma opinião acerca do método da inspiração é secundária em impor­ tância. (4) Deve-se lembrar que títulos e inscrições e assuntos deste jaez, na Bí­ blia, são adições editoriais, e não parte dos textos originais das Escrituras. (5) Algumas declarações a respeito de revelação são o resultado da afinidade hebraica-com o antropomorfismo — co­ mo a declaração de que Deus deu a Moisés duas tábuas de pedra escritas pelo dedo de Deus (Êx. 31:18). (6) Os textos de prova são muitas vezes aplica­ dos a um ponto de vista de revelação e inspiração, para sustentar conclusões questionáveis. Por exemplo, Jesus disse que nem um jota nem um til passará da lei — evidentemente a Lei mosaica — sem que tudo seja cumprido (Mat. 5:18); e isto é alegado por algumas pessoas para estabelecer a inerrância e infalibilidade das Escrituras. Indubitavelmente, Jesus, com infinita sabedoria, usou uma figura de linguagem para enfatizar uma ver­ dade. Ele dificilmente queria fazer uma referência a pequenos sinais de es­ crita; de outra forma, como poderia ele separar palavras explícitas da Lei (Mat. 5:33,34, 38-39; cf. Êx. 21:24; Lev. 19:12; Núm. 30:2; Deut. 19:21; 23:21)? (7) As Escrituras são uma revelação progressiva de Deus, e, por isso, uma revelação pro­ gressiva com a sua culminação perfeita e absoluta no Verbo que se fez carne em Cristo. (8) O fato da revelação e inspi­ ração divinas não é, de forma alguma, dependente de uma opinião determinada acerca da inspiração, e não corre ne­ nhum perigo por causa da pesquisa críti­ ca e do estudo erudito. Deus usa veículos humanos. — Atra­ vés desses veículos, a revelação inspirada é dada aos homens. A Bíblia é um livro divino-humano. Deus revelou-se a pes­ soas vivas. Deus falou aos homens, e eles relataram o que ele disse: contaram o que ele fez. Eles passaram esse registro à geração seguinte, e à seguinte, e à se­ guinte, e assim por diante. Por um pe­ ríodo desconhecido de tempo, a revela­ ção foi comunicada quase que totalmente por tradição oral. Com o correr do tem­ po, a tradição tornou-se narrativas escri­ tas das palavras e atos do Senhor. Quan­ do isto transpirou pela primeira vez, e até que ponto, ninguém sabe. Moisés escre­ veu as palavras do Senhor (Êx. 24:4). Quanto Moisés escreveu não pode ser determinado com qualquer exatidão, mas as referências à parte que ele teve em comunicar a revelação de Deus — espe­ cialmente mandamentos e estatutos — justificam a conclusão de que o que ele escreveu foi uma fonte importante, da qual, muitos anos mais tarde, os escrito­ res do Pentateuco se aproveitaram para fazer um relato confiável da revelação de Deus aos filhos de Israel e dos tratamen­ tos a que ele os submeteu. A ênfase que verificamos aqui é que Deus ordenou veículos humanos como canais de uma revelação escrita. Quantos escritores? Não o sabemos. Quem eram eles? Não o sabemos. Moisés, Samuel, Davi, Salomão e Esdras — Deus os usou. 26
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    Amós, Isaías, Jeremiase Ezequiel — Deus os usou. Mas houve outros, muitos outros, conhecidos e desconhecidos, que viveram durante um período de vários séculos, que foram movidos pelo Espírito Santo, para colocar em forma escrita a palavra de Deus. E, juntamente com os escritores, devem ser lembrados os que copiaram e compilaram os escritos e fi­ nalmente lhes deram a forma em que eles se tomaram, por fim, as Escrituras He­ braicas. Aconteceu semelhantemente com o Novo Testamento. Quantos foram os es­ critores e quem eram eles — não pode­ mos ter certeza. Mencionamos os nomes familiares: Paulo, Lucas, Marcos, Ma­ teus, João, Tiago, Judas e Pedro, e é forte a evidência para confirmar a contribui­ ção que eles fizeram. Mas, semelhante­ mente, as evidências suscitam interroga­ ções com respeito a pelo menos alguns deles. A identidade de outros escritores é um mistério ainda maior. O fato de que a revelação de Deus veio através de veículos humanos explica mui­ ta coisa a respeito da Bíblia. Explica, em grande parte, a sua grande variedade de forma e qualidade literária, aspectos de seu interesse humano e diferentes dispo­ sições de ânimo, e vários níveis de per­ cepção espiritual e testemunho ético. Permitam-nos enfatizar este princípio de revelação. O tesouro de revelação inspirada, a verdade da revelação bíbli­ ca, chegou até nós através de “vasos de barro” . Os escritores eram homens. Eles eram finitos e falíveis. Eram humanos, e, por isso, sujeitos a limitações de conhe­ cimentos e entendimento. Mas eram pes­ soas através de quem o poder transcen­ dente de Deus operou — vivificando, iluminando, guiando e capacitando-os para serem os canais da mensagem sal­ vadora de Deus em Cristo. As Sagradas Escrituras têm o seu caráter essencial em sua natureza como revelação inspirada de Deus. Apontando para Cristo e en­ contrando a sua unidade e o seu signifi­ cado em Cristo, elas são a Palavra de Deus. II. Da Revelação Para o Livro Outra pergunta que merece conside­ ração é: Como foi que a revelação de Deus se tomou o Livro da Escritura Sagrada? Os desenvolvimentos não são determináveis por evidências objetivas, catalogadas e verificadas. Chega-se a eles por implicações e deduções, a partir do testemunho interno das Escrituras e do que a pessoa crê acerca da forma como Deus realiza o seu propósito para se re­ velar. A princípio, a revelação foi preservada e comunicada por transmissão oral, que se tomou, com o passar dos tempos, tradição oral. Aqui, tradição de forma alguma subentende irrealidade ou algo que seja indigno de confiança. Desde quando o homem foi criado, Deus reve­ lou-se ao homem; e este começou a pas­ sar às gerações sucessivas a narrativa da experiência e o depósito de verdade que se originavam dos tratamentos de Deus para com ele e a sua maneira de entender os propósitos de Deus. Parece que a mente hebraica tinha uma capacidade peculiar de memória. Daí a variegada experiência cultural, de pessoas e lugares, de geografia e de his­ tória, de ritual e de adoração, de leis e costumes, foi entregue à memória. Os líderes de tribos e de famílias assumiram um papel responsável em passar adiante essas tradições, sendo as mais impor­ tantes as que se relacionavam com as palavras e atos do Senhor. A crescente experiência religiosa do povo que adorava a Deus tomou-se outro meio para se receber, interpretar e comu­ nicar a revelação. Deus tratou com o seu povo — disciplinou-o, deu-lhe manda­ mentos, manifestou-lhe a sua glória, exe­ cutou julgamento sobre ele, libertou-o, abençoou-o, entrou em aliança com ele e vocacionou líderes e profetas para lhe de­ clarar as suas palavras. Os anos torna- 27
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    ram-se décadas, eas décadas, séculos. Nesse ínterim, a experiência religiosa dos filhos de Israel, enriquecida:, por vezes, pela observância das festas e pela fideli­ dade na adoração, e pervertida, outras vezes, pela idolatria e iniqüidade e hipo­ crisia, tornou-se um veículo de revelação. Os acontecimentos da história de que os filhos de Israel participaram foram outro meio de revelação. Deus colocou o seu povo na terra de Canaã, cercado pelas nações do antigo Oriente Próximo. Os israelitas estavam na estrada das na­ ções, e, inevitavelmente, na corrente da História. O que aconteceu dentro e fora de Israel, nunca à parte do propósito e do poder soberanos de Deus, forneceu um veículo de acontecimentos de revelação. Neste mesmo contexto de experiência religiosa e acontecimentos históricos, Deus chamou profetas para declararem a sua palavra ao seu povo. A palavra de Deus veio aos profetas, e eles a declara­ ram fielmente. O ministério profético tornou-se o veículo mais excelente, na vida de Israel, para o depósito da revela­ ção. Foi a mensagem profética, tanto falada quanto escrita, que enunciou mais plenamente e interpretou mais claramen­ te a verdade a respeito de Deus, o seu propósito para com o seu povo e a sua vontade e o caminho que ele preconizava para todos os homens. Estas todas eram fontes, quer diretas, quer indiretas, de que os sacerdotes, escribas, reis e profetas se aproveitaram para escrever as Escrituras do Velho Tes­ tamento. Em muitos casos, Deus falou diretamente a indivíduos escolhidos, que escreveram a verdade a eles revelada. Em muitos outros casos, as evidências suge­ rem fortemente, os escritores relataram os acontecimentos, mandamentos e ex­ periências de tradições e anais anteriores à sua época. E, desta forma, os oráculos de Deus se tornaram a revelação escrita do Velho Testamento. Exatamente quando as várias partes, os muitos livros, do Velho Testamento foram escritos é fato que não pode ser determinado. O labor de escrita abran­ geu centenas de anos. Há um consenso quase geral, entre os eruditos, de que editores compilaram material escrito, produzido a partir das fontes descritas acima, e lhe deram forma permanente. Um estudo bíblico confiável mostrará que o Pentateuco existia essencialmente em sua forma presente deste 400 a.C., aproximadamente. Os livros de Josué, Juizes, I e II Samuel e I e II Reis eram conhecidos pelos judeus como os “Profe­ tas Anteriores” e, provavelmente, che­ garam à sua forma presente, em grande parte, entre 650 e 550 a.C. Os “Profetas Posteriores” — os livros de Isaías, Je­ remias e Ezequiel, e de Oséias até Mala- quias — chegaram, provavelmente, à sua forma presente por volta de 200 a.C. Os “Salmos” — os livros poéticos, junta­ mente com Rute, Ester, Daniel, Eclesias- tes, Esdras, Neemias e I e II Crônicas — foram escritos no decorrer de um longo período de tempo, e se tornaram uma coleção por volta de 132 a.C. Um concílio de rabis judaicos, em cerca de 90 d.C., aceitou os 39 livros do Velho Testamento como o Cânon Hebraico das Escrituras. Os mesmos 39 livros foram semelhante­ mente aceitos na tradição cristã. Algo da mesma espécie de desenvolvi­ mento aconteceu — em princípio, mas não em padrão — relativamente ao Novo Testamento. A suprema diferença foi que Jesus Cristo veio, a Palavra viva entre os homens. Alguns dos escritores o viram na carne, ouviram-no, tocaram-no e co­ nheceram o magnetismo de sua presença física, bem como o poder do seu Espírito vivo dentro deles. Os apóstolos eram pessoas que acompanharam Jesus desde o seu batismo por João até a hora de sua ascensão (At. 1:21,22). Os outros escri­ tores, podemos presumir seguramente, como Lucas, conheceram e conversaram com algumas pessoas “que desde o prin­ cípio foram testemunhas oculares e mi­ nistros da palavra” (Luc. 1:2). Desta forma, o Novo Testamento originou-se de um relacionamento face a face dos após- 28
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    tolos com Jesuse de suas conversas face a face com ele depois de sua ressurreição, das tradições orais de testemunhas oculares do Senhor, da experiência re­ dentora de seguidores que haviam crido, dos acontecimentos históricos de teste­ munhas apostólicas, da koinonia da Igre­ ja viva, das tribulações, sofrimentos e perseguições pelo nome de Cristo, da visão do Cristo vivo e da comunicação direta da sua palavra de verdade, graça e vitória. Tanto quanto em relação ao Velho Testamento, o período em que foram escritos os 27 livros do Novo Testamento não pode ser fixado de maneira defini­ da. Cada livro, em certo sentido, subsis­ te isoladamente. Os eruditos têm opi­ niões várias, que serão abordadas na» introduções do comentário de cada livro. As evidências aceitas genericamente deli­ mitam o período em que esses livros foram escritos entre 50 e 100 d.C., em­ bora algumas evidências confirmem uma data posterior, para alguns livros, por exemplo, algumas das cartas gerais. Du­ rante o mesmo período, muitos livros cristãos foram escritos. Surgiu a questão: Quais dentre todas essas obras deviam ser reconhecidas como inspiradas e con­ tadas como parte das Escrituras? O teste de sua aceitação e valor por mais de três séculos — guiado, podemos estar certos, pelo Espírito Santo — levou à aceitação dos 27 livros que se tornaram o Novo Testamento. Por volta do fim do quarto século, esses livros haviam ganho aceita­ ção como sendo revelação dada por Deus, para os cristãos, através das eras futuras. “O cânon foi determinado pelo uso, pelo consentimento comum da co­ munidade cristã, testando os livros em sua vida diária, no decorrer de séculos; e não por autoridade formal” (F. W. Bea- re, IDB, I, 531). Uma palavra precisa resumir a ver­ dade, e dar a chave para o mistério e a realidade de a revelação inspirada ter-se tornado as Escrituras Sagradas: o sobe­ rano Espírito de Deus. Ele chamou e iluminou, guiou e capacitou, e moveu homens para falar da parte de Deus e em nome de Deus. III. O Significado da Bíblia O significado da Bíblia baseia-se em características óbvias e importantes, a saber, a sua autoridade e a sua importân­ cia. 1. A Autoridade da Bíblia A autoridade da Bíblia, indubitavel­ mente, origina-se no fato de ela ser reve­ lação inspirada de Deus,. Considerada em sua integridade e unidade, ela é a Palavra de Deus. Por isso ela tem a autoridade de Deus por detrás dela. Ela é o mandato divino para a fé religiosa e para o dever moral da humanidade. Porém é necessário que se diga muito mais do que isto. Como é que a autorida­ de da Bíblia se relaciona com Jesus Cris­ to? Ele dizia ter toda a autoridade no céu e na terra. Ele exerceu autoridade sobre a natureza, a doença, os demônios e a morte. Deus “o fez Senhor e Cristo” (At. 2:36). A autoridade final e última sobre todas as pessoas e todas as coisas é o Cristo vivo. Segue-se, portanto, que a autoridade da Bíblia deve sempre ser vistá à luz do senhorio de Cristo. A sua autoridade reside não na inerrância de palavras e frases, ou na coerência per­ feita de todos os números e acontecimen­ tos ou no entendimento perfeito de Deus, da parte dos seus servos escolhidos. Pelo contrário, a sua autoridade está em seu testemunho autêntico de Jesus Cristo como o Verbo de Deus. E é bom que seja enfatizado que a maneira de uma pessoa entender quem é Cristo como o Filho de Deus e como o Verbo feito carne, enten­ der a sua obra salvadora através da sua morte e ressurreição e o seu senhorio eterno precisa ser testada pelo Novo Tes­ tamento. Uma verdadeira compreensão de Cristo e do que significa a sua autori­ dade não pode ser determinada por jul- 29
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    gamento subjetivo nemsomente pela ex­ periência. A autoridade da Palavra escri­ ta encontra-se na autoridade da Palavra viva, através da direção do Espírito San­ to. Nesta base, o Novo Testamento deve ser aceito pelos crentes como o guia de autoridade para todos os assuntos de fé e prática. Portanto, a autoridade da Bíblia não é algo legal e judicial nem a compulsão do literalismo nem a obrigação de prova, mas a liberdade do senhorio de Cristo e a voz de seu Espírito. Essa autoridade é confirmada por aceitação interior, e não por declaração exterior. Por conseguinte, para concluir, “a autoridade da Escritu­ ra encontra-se no poder do Senhor vivo de autenticar a si mesmo, quando fala ao coração humano através das palavras e da Escritura” (Rolston: The Bibie and Christian Teaching, p. 34). 2. A Importância da Bíblia Mais uma vez, o significado da Bíblia deve-se à sua importância. Ela fala a todas as gerações. Isto é verdade, porque ela é a Palavra de Deus, que é eterna e imutável. E, também, ela fala a pessoas nos níveis mais profundos da experiência humana, às suas necessidades, aspira­ ções, possibilidades e responsabilidades como pessoas feitas à imagem de Deus. A Bíblia é sempre contemporânea, por­ que ela é a palavra da vida vinda do Senhor da vida. A relevância da Escritura é verificada também em sua dimensão universal. Ela declara a mensagem de Deus ao homem como homem — daí, a todos os grupos culturais, a todas as raças, a todas as nações e a todas as pessoas, não importa qual seja a sua condição social ou eco­ nômica, qual a sua situação humana. A Bíblia é importante para toda a humanidade, porque declara a mensa­ gem da salvação. Ela conta as boas-novas do amor de Deus por uma raça pecadora, fala da redenção de Deus através de Je­ sus Cristo, de seu desejo de que todas as pessoascheguem ao arrependimento e das riquezas da graça em Cristo, pelas quais todo aquele que invocar o nome do Se­ nhor será salvo (Rom. 10:13). Em ne­ nhum ponto a Bíblia é mais importante do que quando declara o fato da culpa universal do homem, devido ao pecado, o fato de que Jesus morreu pelos pecados do mundo, o fato de que Jesus ressusci­ tou dentre os mortos e o fato da certeza de que Jesus Cristo “pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, porquanto vive sempre para inter­ ceder por eles” (Heb. 7:25). Por esta razão, acima de tudo, a Bíblia é o Livro da fé cristã. A Bíblia é importante porque confron­ ta os crentes com o significado e as exi­ gências do discipulado cristão. Para eles, a Bíblia é o guia de doutrina e prática, de adoração e ministério, de comunhão e testemunho, de certeza e esperança, que tem autoridade divina. Visto que Jesus é Senhor, os ensinamentos de Jesus em o Novo Testamento e o exemplo de sua vida na carne precisam ser o critério mediante o qual se viva a vida cristã no mundo. A importância da Bíblia é expressa pelo apaixonado interesse de Deus pelo bem-estar de todos os homens. Por isso, ela declara a dignidade e o valor de todo homem, seja qual for a sua raça ou si­ tuação, como pessoa feita à imagem de Deus. Ela declara também o juízo de Deus sobre as pessoas que por orgulho, cobiça e concupiscência exploram outras pessoas e lhes roubam as oportunidades legítimas de realizar os mais elevados potenciais da personalidade. A Palavra de Deus proclama contra a opressão, a injustiça e a corrupção, e advoga a causa dos famintos, doentes e necessi­ tados. A Bíblia declara o senhorio de Cristo sobre a vida toda, sobre a ordem social e todas as pessoas que estão nela. O homem deve amar o seu próximo como 30
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    a si mesmo.O Livro da fé cristã é uma carta patente de justiça e paz na terra, e um comissionamento de ministério para pessoas necessitadas, em qualquer parte. A importância da Bíblia se origina do fato de que ela fala de maneira signifi­ cativa e confiante aos problemas da hu­ manidade em um universo dinâmico. Ciência, tecnologia, cibernética, pesqui­ sa, exploração do espaço, energia atômi­ ca e mudança social refletem as leis do Universo. Encontramos, na Bíblia, a pa­ lavra que nos dá uma perspectiva cristã: Deus em Cristo é o criador de todas as coisas (João 1:3); “nele subsistem todas as coisas” (Col. 1:17). O Deus que criou e controla o universo material é plena­ mente capaz de, com infinita sabedoria e poder, controlar o universo moral.Com Jó, podemos dizer: “Bem sei que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido” (Jó. 42:2). A Bíblia é importante porque ela en­ frenta honestamente as interrogações cruciantes da humanidade: Quem é Deus? Como é Deus? Que é o homem? Qual é o destino do homem? Como o homem pode conhecer Deus? Se um ho­ mem morrer, viverá de novo? Qual é o significado da existência? Qual é o signi­ ficado da História? Para que serve a vida? As respostas devem ser encontra­ das não na lógica ou na dogmática ou na prova cientifica, mas na experiência do homem com Deus, através da fé em Jesus Cristo, e na confiante comunhão com ele, através do Espírito. A Bíblia é importante porque ela enco­ raja esperança em Jesus Cristo. A sua ressurreição da sepultura declarou a sua vitória sobre o pecado e a morte. O seu reino é eterno. Ele voltará em glória e triunfo. “Segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova ter­ ra, nos quais habita a justiça” (II Ped. 3:13). O propósito eterno de Deus para a redenção do homem chegará ao seu cum­ primento em Cristo (Ef. 1:9,10). IV. Como Se Aproximar da Bíblia Visto que a Bíblia é a Palavra de Deus para a vida do homem e visto que ela é o guia que tem autoridade em questões de experiência moral e espiritual e em todos os assuntos de fé religiosa e conduta moral, qual é a maneira correta de se aproximar da Bíblia? Com que atitude e objetivos os crentes devem ler e estudar a Bíblia? 1. A abordagem da Bíblia exige o reconhecimento de sua natureza e seu propósito e também a percepção dos atributos dela que influenciam a com­ preensão de sua mensagem e sua impor­ tância para a vida em nossa época. A Bí­ blia não é mágica. Ela é revelação. Ela é um livro divino-humano. Teve muitos es­ critores. Veio à existência através de um longo período, que cobre cerca de doze séculos ou mais. A princípio foi escrita em hebraico, aramaico e grego. A chave de sua mensagem e significado é Jesus Cristo, a Palavra viva. 2. A abordagem da Bíblia deve ser de reverência e fé. Ela fala acerca de Deus. A energia, sabedoria e direção do Espí­ rito Santo estão nela. O propósito de Deus é realizado por ela. A verdade re­ dentora, reconciliadora e santificadora de Deus é o seu conteúdo e dinâmica. Ela transpira interesse amoroso da parte do Deus de graça. Declara o julgamento moral do Deus justo. Fala com a autori­ dade do Deus soberano. Testifica da graça salvadora de Deus em Cristo. Co­ mo pode qualquer pessoa ousar manu­ sear o Livro sagrado sem que seja com reverência para com Deus e reverência pela verdade e poder de Deus em Cristo? Este livro reclama fé — não fé impen­ sada e bisonha, mas inteligente e con­ fiante. Ele é a narrativa única completa­ mente digna de confiança a respeito da plena revelação de Deus em Cristo e sua salvação através de Cristo. Para a pessoa que está disposta a crer na Bíblia, quan­ 31
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    do ela buscaa verdade a respeito da Bíblia e na Bíblia, ela se tomará vivifi­ cada, com significado e certeza. 3. A abordagem da Bíblia exige aber­ tura de mente, um espírito apto para aprender e uma sede de aprender. As laboriosas pesquisas empreendidas por lingüistas, arqueólogos, historiadores e eruditos bíblicos propiciaram um vasto acervo de conhecimento e percepção que enriquecem o estudo bíblico. O estudan­ te sério das Escrituras precisa estar dis­ posto a se empenhar em um estudo disci­ plinado, para aprender do trabalho dos outros. Porém, com abertura de mente para a verdade, sejam quais forem as suas fontes, ele precisa desenvolver pes­ soalmente faculdades críticas para testar os conceitos e pontos de vista dos outros, sempre provando novas idéias e concei­ tos, mediante a própria Bíblia e no labo­ ratório do discipulado obediente. Preci­ sa, além disso, pôr à prova esses concei­ tos e pontos de vista, lendo abundante­ mente a obra de muitos autores e usando o laboratório de experiência que os cris­ tãos maduros possuem. Finalmente, o teste de toda a verdade a respeito da Bí­ blia é a questão se ela contribui para uma fé mais vital na Bíblia, obediência mais completa aos seus ensinos e uma dedica­ ção mais significativa a Cristo, como Senhor. 4. A abordagem da Bíblia propria­ mente requer prontidão para obedecer aos seus mandamentos e prática discipli­ nada de seus ensinos. Ela é a voz da auto­ ridade divina. É a prescrição para rela­ cionamentos harmoniosos. É a diretriz para excelência moral na vida pessoal, princípios retos e amor cristão nos rela­ cionamentos sociais, e autodoação (abne­ gação) como a de Cristo e ministério às necessidades das outras pessoas. Acima de tudo, ela é uma conclamação a uma fé voluntária em Jesus Cristo como Salva­ dor e plena dedicação a ele como Senhor. A palavra de Deus penetra no coração obediente. Sua palavra deve ser trans­ formada em experiência. “A chave para a compreensão das Escrituras, tanto do Velho quanto do Novo Testamento, é o reconhecimento de Jesus como Senhor” (Rolston: ibid., p. 33). 5. A abordagem da Bíblia exige um senso de dependência do Espírito Santo e uma comunhão dinâmica com ele. Ho­ mens movidos pelo Espírito Santo fala­ ram da parte de Deus. Daí, pessoas aten­ tas ao Espírito, guiadas pelo Espírito, que receberam poder do Espírito e estão ansiosas para fazer a vontade do Espírito ouvem melhor a palavra que vem de Deus. Ele é o divino Conselheiro, o su­ premo Intérprete. Ele conhece a vontade de Deus. Ele faz da Palavra escrita uma palavra viva, escrita no coração, para ser “conhecida e lida por todos os homens” (II Cor. 3:2). Para Leitura Adicional CARTLEDGE, SAMUEL A. The Bible: God’s Word to Man. Philadelphia: Westminster Press, 1961. DODD, C. H. The Authority of the Bible. London: Collins Clear Type Press, Edição Revisada, 1960. HENRY, CARL F. H. Revelation and the Bible. Grand Rapids: Baker Book House, 1958. HUNTER, A. M. The Message of the New Testament. Philadelphia: Westminster Press, 1944. HUXTABLE, John. The Bible Says. Richmond: John Knox Press, 1962. Interpreter’s Dictionary of the Bible. Nashville: Abingdon, 1962. Veja os artigos: “Canon of the Old Testa­ ment”, R. H. Pfeiffer, Vol. A-D; “Canon of the New Testament”, F. W. Beare, Vol. A-D; “Inspira­ tion and Revelation”, G. W. H. Lampe, Vol. E-J; “Scripture, Au­ thority of”, Alan Richardson, Vol. R-Z. KELLY, BALMER H., Editor. Intro­ duction to the Bible. “The Layman’s 32
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    Bible Commentary”, Volume1. Richmond: John Knox Press, 1959. ROLSTON, HOLMES. The Bible in Christian Teaching. Richmond: John Knox Press, 1962. ROWLEY, H. H. The Relevance of the Bible. Carter Lane: England: James Clarke and Co., 1941. SMART, JAMES D. The Interpretation of Scripture. Philadelphia: West­ minster Press, 1961. 33
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    As Escrituras Traduzidas Umengenheiro aeronáutico certa vez disse a um tradutor da Biblia que no campo da aeronáutica “translação é ques­ tão de vida e morte.” (*) Historicamen­ te, os tradutores da Bíblia têm sentido a mesma coisa em relação à sua responsa­ bilidade. A tradução das Escrituras co­ munica a mensagem que de fato faz di­ ferença entre vida e morte para todos nós. A tradução da Bíblia teve início séculos antes de Cristo, e continua hoje em uma escala mais ampla do que nun­ ca. I. Antigas Traduções da Bíblia Targuns Aramaicos do Velho Testa­ mento. As “traduções” mais antigas (na verdade, paráfrases) de alguma porção da Bíblia são os targuns aramaicos do Velho Testamento, que surgiram para suprir as necessidades dos judeus pales­ tinos, que entendiam aramaico melhor do que o hebraico, que era a linguagem do Velho Testamento. Depois do Exílio, tornou-se costume, nas sinagogas pales­ tinas, acompanhar a leitura das Escri­ turas em hebraico com uma tradução aramaica. Hoje, manuscritos do targum existem para o Pentateuco, os livros pro­ féticos e a maior parte do restante do Velho Testamento. A Tradução Grega do Velho Testa­ mento. A tradução grega das Escrituras Hebraicas foi produzida especialmente para suprir as exigências de judeus não- palestinos, cuja língua cotidiana era o grego. Tiáham necessidade disso espe- (*) NOTA DO TRADUTOR: Em inglês, “transla­ ção” e “tradução” são a mesma palavra. Dai, um jogo de palavras impossível de seguir em português. Barclay M. Newman, Jr. cialmente os judeus do Egito, e foi ali, em Alexandria, que o Pentateuco foi traduzido durante o reinado de Ptolomeu Filadelfo (285-246 a.C.). Durante os dois séculos seguintes o restante das Escritu­ ras Hebraicas foi traduzido para o grego. A tradição é de que esta obra foi feita por um grupo de setenta (ou setenta e dois) eruditos. Por isso, ela veio a ser conheci­ da como Septuaginta (LXX), que signifi­ ca “setenta”. Versões Siríacas. Já em 150 d.C., o Novo Testamento foi traduzido para o siríaco, dialeto do aramaico falado na Síria e na Mesopotâmia. Perto do fim do quarto século as versões siríacas existen­ tes foram revisadas, com base no grego, e a tradução resultante tornou-se conheci­ da como Peshitta, ou versão “simples”. Versões Latinas. A versão Latina An­ tiga, segundo se crê, data, aproximada­ mente, do mesmo tempo que as primei­ ras versões siríacas, e parece ter-se origi­ nado no Norte da Ãfrica, embora algu­ mas pessoas argumentem que tenha sido Antioquia da Síria, ou Roma, o seu lugar de origem. O Velho Testamento não foi traduzido diretamente do hebraico, mas da Septuaginta. Aparentemente, no quarto século havia várias versões latinas competindo umas com as outras. Desta forma, o Papa comissionou Jerônimo para revisar a Bíblia latina, o que ele fez usando o texto hebraico como base para a sua versão do Velho Testamento. A tradução de Jerônimo é conhecida como a Vulgata ou versão “comum” . Versões Cópticas. O cóptico é a forma modernizada da antiga língua egípcia; é escrito com caracteres gregos, com a adição de várias letras que representam 35
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    sons consonantais quenão existem no grego. Já em 200 d.C., o Novo Testamen­ to foi traduzido para o saídico, um dos mais importantes dialetos cópticos, e no decorrer de um século a maior parte dos livros da Bíblia apareceu em saídico. Os tradutores usaram a Septuaginta como base para o trabalho com o Velho Testa­ mento. Mais tarde, foram feitas tradu­ ções em outros dialetos cópticos, sendo a mais importante a em boaírico, que final­ mente superou as outras versões cópticas. Outras Versões Antigas. A primeira versão em uma língua teutônica foi a Versão Gótica, feita pelo erudito Bispo Ulfilas, nos meados do quarto século. Uma tradução armênia foi feita no quin­ to século, por Meshrop, que inventou o alfabeto armênio, e por Sahak, o Patriar­ ca. Meshrop também inventou o alfabeto geórgio, embora não seja conhecido o autor da tradução das Escrituras em geórgio (quinto século). II. A Bíblia em Inglês 1. Antes da Versão King James Indubitavelmente, a Versão do Rei Tiago (King James Version — KJV) é a mais notória de todas as traduções da Bíblia em inglês, e foi uma importante história de acontecimentos que levou à publicação desta versão. De fato, pode-se dizer que a história da Bíblia inglesa começou com a introdução do cristia­ nismo na Bretanha durante a primeira parte do terceiro século. Nesse primeiro estágio, a mensagem bíblica deve ter passado adiante em primeiro lugar oral­ mente, época em que os homens apresen­ tavam interpretações livres da Bíblia la­ tina no vernáculo. E também, através da arte, do cântico, do drama e do ritual, as verdades bíblicas foram comunicadas às massas. Pelo menos dois fatores impedi­ ram qualquer trabalho sério de tradu­ ção. O primeiro foi o medo da Igreja de perder o controle sobre as mentes do povo, se lhe fosse permitido estudar as Escrituras por si mesmo; o segundo foi o analfabetismo generalizado. Tanto quanto se sabe, a primeira tra­ dução da Bíblia toda em inglês foi reali­ zada por John Wycliffe, que produziu o Novo Testamento no ano de 1380, se­ guido por toda a Bíblia um ou dois anos mais tarde. Visto que Wycliffe não co­ nhecia o grego, a sua tradução foi feita a partir do latim, e incluía os Livros Apó­ crifos. A esperança de Wycliffe era que a sua tradução alcançasse o povo comum; e isto foi por fim conseguido através da revisão de sua obra por seus colegas, pouco depois de sua morte, em 1384. William Tyndale produziu a primeira edição impressa da Bíblia inglesa. Por volta de 1510, ano em que Tyndale foi a Oxford, para estudar, havia acontecido um reavivamento de interesse por línguas antigas, inclusive pelo hebraico e o gre­ go, as línguas das Escrituras. Assim, quando Tyndale começou o seu trabalho com o Novo Testamento, por volta de 1522, foi capaz de usar o texto grego como base para a sua obra. Incapaz de receber apoio das autoridades eclesiásti­ cas inglesas, para os seus esforços, ele dirigiu-se à Alemanha, para conseguir esse apoio. Finalmente, na cidade de Worms, lugar em que Martinho Lutero havia sido levado a julgamento quatro anos antes, Tyndale publicou a sua pri­ meira edição do Novo Testamento, em 1525. No começo do ano seguinte, cópias de sua obra começaram a ser contraban­ deadas para a Inglaterra, onde foram ansiosamente recebidas pelas massas. Em 1530, Tyndale publicou o Pentateu- co, e, no ano seguinte, o livro de Jonas. Em 1535, saiu uma edição corrigida de seu Novo Testamento revisado. Naquele mesmo ano, ele foi traído por um “ami­ go” , aprisionado e, um ano e meio mais tarde, morto por estrangulamento e quei­ mado em uma estaca. As suas últimas palavras foram: “Senhor, abre os olhos do rei da Inglaterra.” 36
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    No outono de1535, um monge agosti- niano, chamado Miles Coverdale, tradu­ ziu o Novo Testamento. A sua obra, que ele admitiu ser baseada no latim e no alemão, e talvez ainda mais na obra de Tyndale, se destinava a tomar-se a pri­ meira Bíblia completa em inglês. Ele dedicou o seu trabalho ao Rei Henrique VIII, eliminou notas controversas e res­ taurou termos eclesiásticos favoritos, que haviam sido alterados por Tyndale, fa­ tores que fizeram de sua tradução um trabalho mais aceitável para os que esta­ vam em posição de autoridade. A primeira Bíblia a receber aprovação oficial na Inglaterra foi a chamada Bí­ blia de Matthew, por causa de sua cone­ xão com um certo Thomas Matthew. Mas, na verdade, Thomas Matthew pare­ ce ter sido o pseudônimo de John Rogers, amigo de Tyndale, que foi o primeiro dos protestantes a ser condenado à morte durante o reinado da infame Maria Tu- dor, mais conhecida como Bloody Mary (Maria, a Sanguinária). Em 1537, a Bí­ blia de Matthew foi publicada e aprova­ da por Henrique VIII para uso em leitu­ ras privadas. Até então não havia uma Bíblia que fosse oficialmente sancionada pelo rei e pelas autoridades eclesiásticas para uso na adoração pública. Foi oferecida a Coverdale a responsabilidade desta tare­ fa, cujo resultado foi a Bíblia Grande, publicada em 1539, única versão já auto­ rizada por um rei da Inglaterra. Até mesmo a KJV, freqüentemente mencio­ nada como Versão Autorizada, nunca recebeu o reconhecimento como tal por decreto oficial. Ordenou-se que a Bíblia Grande fosse colocada em todas as igre­ jas da Inglaterra. Durante os anos se­ guintes, restrições foram impostas à lei­ tura pública da Bíblia propriamente dita, e, em 1546, iniciou-se um esforço organizado para queimar todas as Bí­ blias, exceto a Bíblia Grande. As instáveis condições políticas da In­ glaterra, em seguida ao reinado de Hen­ rique VIII, fizeram necessário que os clérigos evangélicos e reformadores pro­ curassem refúgio fora do país. Um dos principais centros para onde essas pes­ soas fugiram foi Genebra, onde apare­ ceu, em 1560, a Bíblia de Genebra, com a ajuda de eruditos, como Coverdale, John Knox, João Calvino e Theodore Beza. Por várias razões, esta foi, sem comparação, a melhor Bíblia inglesa produzida até então: o Velho Testamen­ to seguia o texto hebraico mais de perto do que qualquer tradução anterior; as notas marginais não eram tão controver­ sas como nas traduções anteriores; e essa foi a primeira vez que foi usada a divisão em versículos na Bíblia toda, como à co­ nhecemos hoje. Além do mais, os tradu­ tores tiveram a vantagem de ser capazes de usar como base de seu trabalho a Bí­ blia Grande e a edição do Novo Testa­ mento feita por William Whittingham, em 1557. Por fim, a Bíblia de Genebra provou ser demasiada competição para a Bíblia Grande, mas houve forte oposição à sua adoção como Bíblia oficial para a Igreja da Inglaterra. Como tentativa para re­ solver essa situação, Matthew Parker, Arcebispo de Cantuária, propôs uma re­ visão da Bíblia por uma equipe de estu­ diosos. Por causa da predominância de bispos, nessa comissão, a tradução ficou conhecida como Bíblia dos Bispos. Ime­ diatamente depois de sua publicação, em 1568, ela tomou-se a Bíblia oficial da Igreja da Inglaterra, mas não podia com­ petir em popularidade com a Bíblia de Genebra. Embora a Igreja Romana, em princí­ pio, se opusesse à indiscriminada disse­ minação da Bíblia entre o povo comum, ela sentiu-se compelida a produzir uma Bíblia sua. O Novo Testamento apareceu em 1582 e recebeu o seu nome de Rheims, cidade francesa em que a tradu­ ção foi feita e impressa. Em 1609-1610, o Velho Testamento foi publicado em Douay, França. A Bíblia toda, conhecida 37
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    como Versão Douay,tornou-se a Bíblia oficial da Igreja Católica de fala inglesa. Ela se baseava na Vulgata, e não nas línguas originais da Escritura. 2. A Versão do Rei Tiago Quando o rei Tiago VI, da Escócia, tornou-se o rei Tiago I da Inglaterra, havia pelo menos três versões da Bíblia, em competição umas com as outras: a Bíblia de Genebra, a Bíblia Grande e a Bíblia dos Bispos. Tiago tinha pontos de vista fortemente protestantes, bem como um pronunciado interesse em estudos bíblicos e tradução da Escritura. Por isso, quando os puritanos lhe apresenta­ ram uma petição, em janeiro de 1604, requerendo que fosse feita uma nova tradução, eles se dirigiram ao homem certo. O trabalho da nova tradução começou em 1607, com um total de 47 tradutores trabalhando em seis comissões, duas das quais se reuniam em Cambridge, duas em Oxford e duas em Westminster. Cada comissão trabalhava em partes diferentes da Bíblia, e, mais tarde, uma comissão de revisão, consistindo de dois represen­ tantes de cada uma das seis comissões, se reuniu diariamente, durante nove meses, revisando as traduções. Uma revisão fi­ nal foi então feita por uma comissão de duas pessoas: Miles Smith, um dos tra­ dutores, e Thomas Bilson, que estava fora do grupo. A tradução, ou melhor, a revisão, foi publicada em 1611. Muito pode-se aprender a respeito do trabalho de tradução lendo-se as regras de procedimento e o prefácio. Infeliz­ mente, o prefácio não é incluído na maioria das edições da KJV; se ele tivesse sido publicado e lido cuidadosamente pelos leitores da KJV, muitos conceitos errados teriam sido evitados. Uma das regras mais importantes foi que a Bíblia dos Bispos devia ser seguida tanto quan­ to possível. Devia-se comparar o traba­ lho com outras traduções, especialmente as de Tyndale, Matthew, Coverdale, a Bíblia Grande e a Bíblia de Genebra; e, de fato, a tradução de Tyndale e a Bíblia de Genebra foram seguidas mais de perto do que a Bíblia dos Bispos, o que pode considerar-se crédito para os revisores. “As velhas palavras eclesiásticas” de­ viam ser conservadas; as notas marginais deviam ser limitadas a explicações das palavras hebraicas e gregas; e as divi­ sões em capítulos e versículos deviam ser alteradas o mínimo possível da linha tradicional. Como acontece com muitas outras tra­ duções, a KJV teve que enfrentar uma longa luta para conseguir a aceitação po­ pular. Por decreto oficial, ela substituiu a Bíblia dos Bispos, mas levou meio século para tomar o lugar da Bíblia de Genebra, no uso popular. Houve muitas edições subseqüentes da KJV, algumas delas contendo numerosas modificações da edição “original” . De fato, a primeira impressão foi feita por duas imprensas, e não houve exata uniformidade entre as duas publicações. Então, a edição de 1613 teve bem mais de 300 alterações, decorrentes das duas publicações ini­ ciais. A “edição-padrão” da KJV, aquela com que os leitores estão familiarizados hoje em dia, é a edição de 1769, revisada por Benjamin Blayney, de Oxford. Pou­ cas modificações foram feitas desde en­ tão. Os homens envolvidos com a KJV re­ presentavam uma ampla variedade de antecedentes eclesiásticos, bem como a mais elevada erudição da época. E o fruto de seu trabalho deixou uma in­ fluência ampla e duradoura sobre a lite­ ratura inglesa e em outros aspectos da vida do mundo de fala inglesa. Não obs­ tante, a obra que eles realizaram não foi feita sem limitações. O texto grego dis­ ponível para eles era essencialmente o texto corrompido de Erasmo, e àquela época não havia nenhuma edição-padrão do Velho Testamento hebraico. Sobretu­ do, eles não tinham acesso a importantes versões antigas, como a Velha Latina e a 38
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    Velha Siríaca, eas descobertas de papi­ ros ainda deviam ser feitas posterior­ mente. 3. A Bíblia Inglesa Desde a Versão do Rei Tiago (KJV) The English Revised Version. Já em 1810, Herbert Marsh de Cambridge decla­ rou: “É provável que a nossa Versão Auto­ rizada seja tão fiel como representação das Escrituras originais como podia sê-lo na­ quela época. Mas quando considera­ mos... que as fontes mais importantes de inteligência para a interpretação das Es­ crituras originais foram semelhantemen­ te abertas depois daquele período, não podemos pretender que a nossa Versão Autorizada não requeira emendas.” As suas palavras, evidentemente, represen­ tavam um sentimento disseminado entre os eruditos bíblicos de sua época. Porém só em 1870 a Igreja empreendeu uma ação oficial para iniciar a revisão neces­ sária. O propósito declarado era revisar a KJV, introduzindo, no texto, o mínimo possível de alterações; mas, no cômputo final, a quantidade de modificações foi enorme. Um total de 65 eruditos traba­ lhou na revisão. O Novo Testamento foi publicado em maio de 1881; o Velho e o Novo Testamentos foram publicados juntos em maio de 1885; e a revisão dos Livros Apócrifos foi completada em 1895. O Novo Testamento tomou-se imedia­ tamente um sucesso de vendas. Mas a sua popularidade teve vida curta, mesmo entre aqueles cujas simpatias eram as maiores. A razão para esta reação nega­ tiva foi o estilo do inglês, ou melhor, a falta de estilo do inglês. Os revisores haviam sido tão fiéis à ordem de pala­ vras no grego, que o inglês soava anti- natural e era, muitas vezes, obscuro. The American Standard Version. Al­ guns eruditos americanos foram consul­ tados durante a preparação da ERV, mas o Comitê Americano não ficou in­ teiramente satisfeito com a publicação final. Eles queriam uma eliminação mais ampla de palavras arcaicas e mais aten­ ção ao uso do inglês americano. Assim, o Comitê Americano decidiu publicar uma edição americana separada, e esta apa­ receu em agosto de 1901. Em alguns pontos houve melhoras sensíveis em rela­ ção à ERV, mas a ASV foi muito critica­ da, por usar “Jeová” onde os revisores ingleses haviam conservado “Senhor” ou “Deus”. Mais do que isto, a ASV conser­ va a mesma fraqueza básica da ERV: o inglês não é natural. De ambas as ver­ sões tem sido dito corretamente que elas são fortes em hebraico e grego, mas fracas em inglês. Algumas das Primeiras Traduções Mo­ dernas Para o Inglês. Pelo menos três fatores contribuíram para o aparecimen­ to de várias traduções modernas para o inglês na primeira parte deste século. O primeiro foi a descoberta de importan­ tes manuscritos bíblicos antigos, que ca­ pacitaram o tradutor a chegar mais perto do que nunca do texto original. O segun­ do foi a descoberta de grande número de documentos no Egito, escritos em papiro, dados escritos miscelâneos da época do Novo Testamento, indicando que o grego do Novo Testamento era o grego comum da época. Terceiro, a cons­ ciência cada vez mais profunda de que traduções em linguagem arcaica ou em frases de som estranho simplesmente não comunicavam adequadamente a mensa­ gem da Bíblia. A primeira tentativa digna de nota para se fazer uma tradução modema para o inglês foi The Twentieth Century New Testament, que apareceu de uma forma experimental por um grupo anôni­ mo de vinte eruditos, entre 1898 e 1901, e em forma final em 1904. Na Inglaterra, Richard F. Weymouth, competente eru­ dito em Novo Testamento, fez uma tra­ dução que esperava fosse suplementar as versões “padrão”; ela foi publicada pos­ tumamente em 1903. Em 1924, um gru­ po de três estudiosos publicou uma edi- 39
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    ção revisada desua obra. Em 1943, foi publicada uma edição americana. Em 1913, James A. Moffatt, um es­ cocês que havia-se unido ao corpo do­ cente do Seminário Teológico União, em New York, publicou a sua tradução do Novo Testamento. Ele trouxe a lume o seu Velho Testamento em 1924, e a Bíblia toda em 1926 — e, mais tarde, uma versão revisada em 1935. O objetivo de Moffatt era “apresentar os livros do Velho e Novo Testamentos em um inglês eficiente e inteligível” e “ser exato e idio­ mático” . The New Testament, an American Transiation, feita por Edgar J. Goods- peed e publicada em 1923, fez para os que falam o inglês americano o que Mof­ fatt havia feito para os que falam o inglês britânico. Em 1927, um grupo de estu­ diosos, dirigido por J. M. P. Smith, levou ao prelo um Velho Testamento em jar­ gão americano, e, em 1931, este foi pu­ blicado juntamente com o Novo Testa­ mento de Goodspeed, com o título de The Complete Bible; An American Transiation. The Revised Standard Version. Antes da publicação da ASV, em 1901, várias publicações “não-autorizadas” da ERV apareceram, com “melhoramentos” , pa­ ra o leitor americano. Para proteger o texto contra modificações ulteriores, a ASV teve reservados os direitos de publi­ cação (copyright) em 1901; e, em 1928, estes direitos reservados foram adquiri­ dos pelo International Council of Reli- gious Education, e assim tomou-se pro­ priedade das igrejas batistas dos Estados Unidos e Canadá. Uma comissão de es­ tudiosos foi indicada para ver se era ne­ cessária uma outra revisão. Depois de estudar a questão durante mais de dois anos, ela decidiu que uma revisão era necessária, e, pelo voto do Concílio, em 1937, o objetivo da revisão foi definido: “Incorporar os melhores resultados da erudição moderna quanto ao significado das Escrituras e expressar este significa­ do em linguagem moderna, e que se designe a ser usada na adoração pública e privada, e preserve as qualidades que deram à King James Version um lugar supremo na literatura inglesa.” Pelo me­ nos três fatores contribuíram para o re­ conhecimento da necessidade de revisão: o aumento de conhecimento bíblico des­ de a época da KJV, a disponibilidade de textos gregos e hebraicos melhores do que os que estavam disponíveis para os tradutores anteriores e as mudanças da língua inglesa desde 1611. A comissão foi dividida em uma seção para o Velho Testamento e outra para o Novo Testamento; e o trabalho de cada seção foi sujeito à revisão pela outra, sendo que as modificações requeriam dois terços dos votos dos membros da comissão toda. Um total de 32 eruditos serviu nessa comissão, que eram estudio­ sos da Bíblia e também homens escolhi­ dos por suas qualificações em literatura inglesa e por sua experiência em dirigir cultos. O Novo Testamento foi publicado em 1946, e a Bíblia toda, em 30 de setem­ bro de 1952. Ã semelhança da KJV, a RSV tem tido os seus oponentes. Porém a maior parte dos veementes ataques contra ela cessa­ ram, e a RSV encontrou o seu lugar na vida da Igreja, onde ela é amplamente usada na literatura para a Escola Bí­ blica Dominical e nos cultos públicos. Se os números que revelam as vendas e a distribuição dizem algo, é digno de nota que cinco milhões de cópias foram vendi­ das durante os cinco primeiros anos de publicação, e mais de doze milhões de cópias, durante os primeiros dez anos. Algumas das Mais Recentes Tradu­ ções para o Inglês. Uma das mais popu­ lares e imaginosas traduções do Novo Testamento para o inglês modemo é The New Testament in Modern English, de J. B. Phillips. Esta tradução, publicada em 1958, reúne em um só volume as suas quatro publicações anteriores, a primeira 40
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    das quais foraLetters to Young Chur- ches, em 1947. (*) Phillips entendia que os testes essenciais de tradução são três, e estes o guiaram em seu trabalho: “O pri­ meiro é que ela simplesmente não pode soar como tradução, de forma alguma... que o tradutor deve realizar a sua obra introduzindo o mínimo possível da sua própria personalidade... O terceiro teste, o final... é de ser capaz de produzir nos corações e mentes de seus leitores um efeito equivalente ao produzido pelo au­ tor sobre os seus leitores originais.” Outro tradutor perito e criativo é o erudito católico romano Ronald Knox, cujo Novo Testamento foi publicado em edição limitada em 1944 e em edição final em 1945, com muito poucas mu­ danças. Em 1948 e 1949, foi publicado o Velho Testamento em dois volumes, completando, desta forma, a Bíblia. A sua obra foi “uma tradução da Vulgata Latina, à luz dos originais hebraico e grego” ; foi publicada com autorização das hierarquias católicas romanas da In­ glaterra, Gales e Escócia. Uma tradução católica que teve gran­ de circulação entre católicos e protes­ tantes igualmente é a Bíblia de Jerusa­ lém, publicada em 1966, como equiva­ lente inglesa da popular La Bible de Jéru- salem francesa. Com a esperança de “se­ guir o ritmo dos tempos” e de “o pensa­ mento teológico cada vez mais profun­ do”, The Jerusalem Bible foi traduzida na “linguagem que usamos hoje”, com notas que não são “nem sectárias nem superficiais”. Em sua maior parte, a tradução em inglês foi feita diretamente dos originais hebraico e grego e depois comparada com a tradução francesa quanto ao significado; não obstante, em uns poucos livros do Velho Testamento a tradução foi feita do francês e depois comparada com o original hebraico, ou (*) NOTA DO TRADUTOR: Temos uma tradu­ ção desta obra de Phillips, com o título de “Cartas às Igrejas Novas” . aramaico, para “garantir completa con­ formidade com o texto antigo” .(*) A mais recente contribuição católica para as traduções da Bíblia em inglês é The New American Bible, publicada em julho de 1970. Os editores-chefes “devo­ taram vinte e cinco anos a este trabalho”, que é “a realização de cerca de cinqüen­ ta eruditos bíblicos, cujo maior número, se não todos, são católicos”. A tradução pretende ser “adequada para o uso litúr gico, leitura particular e os objetivos dos estudantes”, sendo dada prioridade ao objetivo mencionado em último lugar. O alvo é que seja tão contemporânea quanto possível, sem distorcer as carac­ terísticas estilísticas peculiares dos escri­ tores originais. Tradução que recebeu muita publici­ dade foi a The New English Bible. Os líderes eclesiásticos que iniciaram as dis­ cussões a respeito das possibilidades des­ te projeto estavam, na verdade, pensan­ do em termos de uma revisão da KJV. Contudo, por fim foi decidido que devia ser feita uma tradução completamente nova e que “os tradutores deviam sentir- se com a liberdade de empregar uma linguagem contemporânea, em vez de reproduzir o inglês ‘bíblico’ tradicional”. Uma comissão conjunta foi nomeada para encarregar-se desse projeto, e três painéis de eruditos bíblicos de várias uni­ versidades britânicas foram escolhidos para tratarem, respectivamente, do Ve­ lho Testamento, do Novo Testamento e dos Livros Apócrifos. Um painel de con­ selheiros literários foi também designa­ do, para revisar a obra dos eruditos bíblicos. A obra propriamente dita foi feita em vários estágios: um rascunho inicial de um livro era preparado por um tradutor, individualmente; uma revisão era feita detalhadamente pelo painel de tradução; outra revisão, pelo painel lite­ rário; depois, revisão novamente pelo (*) NOTA DO TRADUTOR: Veja a tradução já existente em português. 41
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    painel de tradução.Finalmente, depois que mútuo acordo era alcançado entre os tradutores e o painel literário, o manus­ crito era submetido à comissão conjunta, que se reunia duas vezes por ano. Este procedimento foi seguido desde 1948 até que o trabalho de tradução foi completa­ do. O Novo Testamento foi publicado em 1961, e a Bíblia toda, em 1970. Em 1962, a Sociedade Judaica de Pu­ blicações editou The Torah, a primeira porção da New Jewish Version, que ainda está para ser publicada como Velho Tes­ tamento completo. Este é um afastamen­ to consciente do padrão de uma tradução literal palavra por palavra, estabelecido pelos tradutores judeus da Septuaginta há mais de dois mil anos. A nova tradu­ ção será trabalho de uma comissão de eruditos “escolhidos pela capacidade de erudição, perspectivas amplas e condição reconhecida”. O seu alvo será produzir um trabalho que leve em consideração tanto “os antigos comentários... quanto os materiais extrabíblicos recentemente descobertos que tenham algo realmente pertinente para oferecer ao tradutor da Bíblia” . The Living Bible, Paraphrased (1971) é a compilação das paráfrases, de Ken- neth Taylor, das Escrituras, que começa­ ram com a publicação de Living Letters, em 1962.(*) Embora ela não tenha sido traduzida diretamente dos textos grego e hebraico, o prefácio indica que “foi sub­ metida ao exame cuidadoso de uma equi­ pe de peritos em grego e hebraico, quan­ to ao conteúdo, e de críticos em inglês, quanto ao estilo”; e o objetivo é definido como: “dizer tão exatamente quanto pos­ sível o que os escritores da Bíblia que­ riam dizer, e dizê-lo de maneira simples, expandindo, onde for necessário, para dar uma compreensão clara ao leitor (*) NOTA DO TRADUTOR: A Editora Mundo Cristão publicou, em português, “ A Bíblia Vi­ va” , com os mesmos objetivos das traduções similares em outras línguas. moderno” . O tradutor afirma que, “quando o grego ou o hebraico não é claro, a teologia do tradutor é o seu guia” , e ele indica que “a estrela-guia teológica desta obra foi uma posição rigidamente evangélica” . Embora ainda não esteja publicada como Bíblia completa, Good News for Modern Man, publicada pela Sociedade Bíblica Americana em 1966, tem tido um impacto tremendo e recebido aclama­ ção geral. Esta tradução do Novo Testa­ mento é baseada no texto grego das So­ ciedades Bíblicas Unidas, tendo sido pre­ parada por uma Comissão internacional de eruditos do Novo Testamento; e a tradução propriamente dita “procura se­ guir, neste século, o exemplo dado pelos autores dos livros do Novo Testamento que, em sua maior parte, escreveram na forma-padrão ou comum da língua grega usada no Império Romano”. Robert G. Bratcher, que preparou o esboço básico para o Novo Testamento, é o relator da comissão que ora está trabalhando no Velho Testamento. Em 1969, foram pu­ blicados os Salmos, Jó em 1971 e Provér­ bios e Eclesiastes em 1972. Prevê-se que a Bíblia toda, que deverá chamar-se To­ day’s English Version, será publicada em 1975 ou 1976. The New American Standard Bible, publicada em 1970, foi “completada de­ pois de nove anos e sete meses de traba­ lho intensivo de cinqüenta e oito estudio­ sos consagrados e dedicados”. Neste pro­ jeto, “nenhuma tradução foi feita indivi­ dualmente. Os eruditos trabalharam em comissões e depois o material foi revisa­ do por consultores críticos. O trabalho dos consultores críticos foi, então, revi­ sado pelos eruditos que fizeram a tradu­ ção, e esta tarefa foi feita em sessão plenária.” O impulso primordial para esta revisão foi o desejo de preservar a ASV “como herança para as gerações vindouras”. A tentativa foi feita para “expressar a gramática e a terminologia da ASV no inglês contemporâneo” . 42
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    III — Traduçõesda Bíblia em Português(*) É um verdadeiro milagre o fato de possuirmos a Bíblia em português. Até o último quarto do século XVI não havia versão alguma completa e impressa das Escrituras em português. A zelosa rainha D. Leonor, esposa de D. João II, tentou popularizar as Escrituras. Ela mandou traduzir e imprimir, em 1495, às suas expensas, A Vida de Cristo, que foi originalmente escrita na língua latina, pelo Dr. Ludolfo, de Saxônia, e que con­ tinha muitas citações da Bíblia. Dez anos depois ela mandou publicar na língua lusitana os Atos dos Apóstolos e as Epís­ tolas Universais de Tiago, Pedro, João e Judas. Esta nobre senhora faleceu em 1525. Em 1554, organizaram-se diversas companhias comerciais para o desenvol­ vimento das várias colônias dos países europeus. Entre estas, a Companhia das Índias Orientais, que se organizou em 1602, cuja carta patente exigiu que cui­ dasse em plantar a Igreja entre os povos e procurasse a sua conversão, nas posses­ sões tomadas aos portugueses nas índias Orientais. Foi essa Companhia que mais tarde patrocinou a revisão do Novo Tes­ tamento de João Ferreira de Almeida, em 1693. Versões de Almeida João Ferreira de Almeida nasceu em 1628, no local chamado Torre de Tavares — Portugal. Converteu-se em 1642. Co­ meçou a traduzir o Novo Testamento para o português em 1644, com 16 anos de idade, usando latim, espanhol, italia­ no e francês. Faleceu em 1691. (*) Agradecemos aos Pastores Edgar Francis Hal- lock e Zilmar Ferreira Freitas, da Imprensa Bí­ blica Brasileira, o preparo deste breve histó­ rico da Bíblia em português, que é aqui acres­ centado ao texto original, como contribuição aos leitores interessados no assunto — Nota do Departamento de Publicações Gerais. 1681 — PrimeiraediçãocompletadoNo- vo Testamento em português — impresso na cidade de Amster- dam —Holanda. 1753 — Primeira edição completa do Velho Testamento em portu­ guês — em dois volumes: 1.° Volume, de Gênesis a Ester; 2.° Volume, de Jó a Malaquias. Foi impresso na cidade de Ba- távia. 1819 — Bíblia completa de João Ferrei­ ra de Almeida publicada em um só volume, pela primeira vez, sob os auspícios da Socie­ dade Bíblica Britânica. 1840 — Primeira revisão e correção do texto da Bíblia de Almeida, chamada Revista e Emenda­ da. Foi feita por E. Whitely, capelão inglês, na cidade de Porto — Portugal, e incluiu correções de ortografia e a subs­ tituição de algumas palavras obsoletas. 1847 — Segunda revisão, que apareceu publicada pela Trinitarian Bi- ble Society de Londres. Foi obra de um inglês radicado em Portugal, Rev. Thomas Boys. Esta revisão é conhecida pelo nome de Revista e Reformada. 1875 — Apareceu ainda outra versão, chamada Revista e Correcta. Seus revisores principais foram: Manoel Soares e R. B. Girdles- tone — superintendente edito­ rial da Sociedade Bíblica Britâ­ nica e Estrangeira. 1894 — Apareceu a Versão Revista, ba­ seada na Revista e Correcta. Por iniciativa da Sociedade Bí­ blica Britânica, a comissão de revisões, liderada por J. N. Chaves e R. Stewart, com a aju- 43
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    da de 3irmãos portugueses, resolveu corrigir “erros óbvios” e melhorar a ortografia da Ver­ são Revista e Correcta. 1898 — Desta vez, já era a 5.a revisão no texto de Almeida, desta feita chamada Revista e Corrigida. Surgiu como resultado da soma do trabalho de todas as outras revisões efetuadas anteriormen­ te. Tornou-se a versão mais querida, como é até hoje. 1922 — Houve uma ligeira revisão na versão de Almeida, chamada Ligeiramente Revisada, feita por Moreton, J. dos Santos Fi­ gueiredo e A. H. da Silva. 1944 — Primeira Bíblia impressa no Brasil — IMPRENSA BÍBLI­ CA BRASILEIRA — 4 de agosto de 1944 — Tiragem ini­ cial: 22.208 Bíblias da Versão Revista e Corrigida de Almeida. 1958 — Versão Revista e Atualizada no Brasil, publicada pela Socieda­ de Bíblica do Brasil. A comis­ são revisora desta versão tra­ balhou sob a direção do Rev. Antônio Campos Gonçalves. Esta é uma excelente versão, e tem sido usada em algumas das Bíblias de estudo como tex­ to bíblico. 1967 — Surgiu a mais recente revisão da Bíblia de Almeida, chamada Versão Revisada, e já está se impondo no meio evangélico, devido à sua fidelidade às lín­ guas originais e a precisão de sua tradução. Ê conhecida pela frase que traz no frontispício: De Acordo com os Melhores Textos em Hebraico e Grego — Revisão efetuada pela Im­ prensa Bíblica Brasileira. Versões de Figueiredo Antônio Pereira de Figueiredo nasceu em Mação — Portugal, em 14 de feverei­ ro de 1725, e faleceu em 14 de agosto de 1797. 1778-1781 — Figueiredo traduziu o la­ tim da Vulgata e produziu o seu Novo Testamento em 6 volumes. 1783-1790 — Seguiu logo o Velho Tes­ tamento, impresso em 17 volumes. 1821 — Primeira edição da Bíblia em português, em um só volume, versão de Figueiredo, em Lon­ dres — na oficina de B. Bens- ley — em Bolt Coult — Fleet Street. Versões Diversas 1917 — Edição Brasileira — A Versão Fiel, que surgiu como fruto do trabalho iniciado pelas Socie­ dades Britânica e Americana em 1902, com o objetivo de preparar uma nova tradução do hebraico e grego, aproveitando as versões de Figueiredo e Al­ meida. Foi considerada versão excelente quanto à tradução. O estilo e a linguagem não aju­ daram, e finalmente deixou de ser publicada. 1927-1934 — Edição Mattos Soares, que foi traduzida da Vul­ gata, adaptando-se a lin­ guagem à semântica da época. Esta versão tem servido muito aos católi­ cos tanto da Europa quanto do Brasil. 1957 — Apareceu a Bíblia preparada pelo Centro Bíblico Católico, publicada pela Editora Ave 44
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    Maria Ltda, seguindoa tradu­ ção da Versão dos Monges Be­ neditinos de Maredsous — Bél­ gica. 1966 — As Edições Paulinas lançaram a 1®edição da Bíblia, baseada no texto do Instituto Bíblico Pontifício de Roma. Vários tra­ dutores. Coordenação e revisão dos padres Lucas Caravina e Honório Dalbosco. 1967 — Apareceu a Bíblia das Teste­ munhas de Jeová. Baseada na versão inglesa, consultando o hebraico, grego e aramaico. 1982 — A Bíblia de Jerusalém foi lan­ çada pelas Edições Paulinas. È obra monumental, tanto na tradução quanto nas notas co­ piosas, preparadas em grande parte pela Escola Bíblica de Je­ rusalém, de onde recebe o seu título. 1983 — Apareceu a Bíblia Sagrada — Edições Loyola, preparada pela Liga de Estudos Bíblicos. 1983 — Apareceu também a Bíblia Sa­ grada — Vozes, fruto de muitos anos de trabalho, incorporando as contribuições de vários tra­ dutores, cujas obras já tinham sido publicadas. 1986 — A Bíblia na Linguagem de Hoje. Está sendo preparada pa­ ra lançamento este ano, pela Sociedade Bíblica do Brasil, sob a supervisão do Dr. Wemer Kaschel. IV. As Traduções da Bíblia Como Arte e Ciência 1. A Tradução Como Arte A tradução da Bíblia é, certamente, uma arte, pois requer uma pessoa que tenha conhecimento dos recursos de sua língua e que seja perita, criativa e imagi­ nosa no uso desses recursos de lingua­ gem. Um dos fatores que têm contribuí­ do para a contínua popularidade da KJV é a sua maneira artística de usar a lín­ gua; enquanto a razão primária para a vida curta da popularidade da ASV é a sua “fraqueza” de estilo. A conclusão de que o estilo literário é importante levou muitas comissões de tradução modernas a incluir, entre os seus membros, não apenas eruditos bíblicos, mas também estilistas da língua. Um aspecto importante da arte da tradução é de ser capaz de expressar o significado do original de forma a apelar para o interesse do leitor pretendido. O nível da linguagem da TEV, por exem­ plo, é bem diferente da de J. B. Phillips, porque o auditório pretendido é diferente para cada uma dessas duas traduções. Phillips foi capaz de usar os plenos recur­ sos da língua inglesa, porque estava tra­ duzindo para um grupo mais sofisticado de leitores, enquanto o tradutor da TEV originalmente pretendia que a sua tradu­ ção alcançasse as pessoas para quem o inglês era a sua segunda língua. Não é necessária habilidade menor para produ­ zir uma tradução como a TEV do que uma como a que J. B. Phillips fez. Am­ bas requerem um toque criativo e artís­ tico, e é de se duvidar que o tradutor de uma poderia ter feito a outra igualmente bem. Pode-se ser um excelente erudito bíblico, mas um tradutor fraco, se não se tem a habilidade artística de usar a lín­ gua e um senso do nível apropriado de linguagem que apele à mente dos leitores em perspectiva. 2. A Tradução Como Ciência No entanto, por mais importante que os assuntos de estilo sejam, a responsa­ bilidade básica do tradutor é fidelidade ao original, e isto significa que a tradução da Bíblia é uma ciência que precisa seguir certas diretrizes claramente defi­ nidas. Tradicionalmente, “fidelidade ao original” tem sido levada a significar fi­ 45
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    delidade à formado original, porém cada vez maior número de tradutores começou a reconhecer que esta expressão precisa ser entendida de forma a significar fide­ lidade ao significado do original. Isto é, a tarefa do tradutor consiste em comunicar o significado do original de forma que os seus leitores tenham essencialmente a mesma reação que o escritor original pre­ tendia por parte de seus leitores origi­ nais. Para satisfazer estas necessidades básicas, o tradutor precisa exercer perí­ cia e tirocínio em quatro áreas. ConsideraçSes textuais. É axiomático que o tradutor, como o exegeta, precisa basear a sua obra nos melhores manus­ critos hebraicos e gregos disponíveis; e à luz deste axioma, os eruditos bíblicos têm preparado edições críticas dos testa­ mentos hebraico e grego. Um exemplo interessante de problema textual do Velho Testamento encontra-se em Provérbios 26:10, que aparece na KJV como: “O grande Deus que formou todas as coisas recompensa tanto o louco como os transgressores.” A versão da IBB, em português, diz: “Como o fle­ cheiro que fere a todos, assim é aquele que assalaria ao transeunte tolo, ou ao ébrio”; esta é essencialmente a tradução das versões inglesas RSV e NEB. Na TEV, este versículo está traduzido da seguinte forma: “Um empregador que contrata qualquer louco que aparece está apenas ferindo todas as pessoas envolvi­ das.” Em todas essas traduções moder­ nas em inglês há uma nota de rodapé, in­ dicando que o hebraico, neste versículo, é obscuro. Este é simplesmente um dos vários milhares de lugares do Velho Tes­ tamento em que precisa ser tomada uma decisão textual antes de o tradutor ser capaz de verter o texto em outra língua. As ilustrações de problemas textuais do Novo Testamento também podem ser multiplicadas. Algumas das mais conhe­ cidas se referem ao problema do término original do Evangelho de Marcos, se ele originalmente terminava em 16:8 ou com epílogo mais longo em 16:20 ou com outro epílogo que é encontrado em vá­ rios manuscritos antigos; e a questão de se João 7:53-8:11 (a história da mulher apanhada em adultério) fazia parte do Evangelho original. Considerações exegéticas. A importân­ cia das considerações exegéticas é tam­ bém facilmente reconhecida, visto que é impossível para o tradutor transferir o significado do original, a não ser que ele compreenda o que o escritor pretendia dizer. Uma boa regra, simples e prática, é que o tradutor deixe que a exegese de uma dada passagem seja guiada pelas conclusões dos comentários e traduções padrão; e, em casos em que a passagem permite mais de uma interpretação, ele poderá incluir uma versão alternativa no rodapé. Por exemplo, I Tessalonicenses 4:4 (ASV) diz: “Que cada um de vós saiba como possuir o seu próprio vaso em santificação e honra." Mas, o que se deseja dizer com “vaso”? No contexto, a referência é obviamente ao corpo da pes­ soa, embora possa ser ao seu próprio corpo ou ao corpo, de seu cônjuge. Por isso, o tradutor pode traduzir como a NEB: “Cada um de vós precisa aprender como obter domínio sobre o seu corpo, para santificá-lo e honrá-lo”, ou como a RSV: “Que cada um de vós saiba como conseguir para si mesmo esposa em san­ tidade e honra.” Porém, visto que a pas­ sagem é passível de qualquer uma dessas interpretações, o tradutor pode querer apresentar uma versão no texto e outra em uma nota de rodapé, como possi­ bilidade alternativa. Considerações lingüísticas. £ necessá­ rio que se entendam as características e requerimentos lingüísticos das línguas de origem e receptoras. O hebraico (e o grego do Novo Testamento, que foi in­ fluenciado por padrões hebraicos de pen­ samento) usa “e” para iniciar quase to­ das as sentenças e cláusulas, mas isto não é natural em inglês ou português. 46
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    Embora comum nogrego, não é natural no inglês ou em português iniciar um discurso direto com uma fórmula como: “E ele abriu a sua boca e começou a ensinar-lhes, dizendo.” O mesmo acon­ tece com “e aconteceu”, quando se faz uma transição em uma narrativa. O que dizer das muitas repetições de “de”, que aparecem nas traduções tradi­ cionais? Expressões como “o Deus de paz” (Rom. 15:33), “o Espírito Santo da promessa” (Ef. 1:13), “o evangelho de Jesus Cristo” (Mar. 1:1), “o livro de Moisés” (Mar. 12:26) e inúmeras outras, têm a mesma estrutura superficial; mas a relação definida por “de” difere signifi­ cativamente. “O Deus de paz” é o Deus que dá paz; “o Espírito Santo da promes­ sa” é o Espírito que prometeu; “o evan­ gelho de Jesus Cristo” é o evangelho a respeito de Jesus Cristo; e “o livro de Moisés” é o livro que Moisés escreveu. Será que o leitor sem treinamento teoló­ gico saberá que “o Espírito de verdade” significa o Espírito que revela a verdade (a respeito de Deus)? A marcação dos participantes em uma narrativa é importante, embora muitos tradutores tenham deixado de perceber como isto é realmente importante. Em muitos casos, o texto hebraico ou grego usa um pronome, onde é mais natural em inglês ou português usar um substantivo; e no inglês não há distinção entre o sin­ gular e o plural de “you” (que pode signi­ ficar tu, você, vós ou vocês), de forma que uma distinção que é clara na língua original não está ao alcance dos leitores atuais, a menos que a linguagem reque­ rida pelo inglês seja reconhecida. Considerações culturais. O tradutor precisa estar consciente das vastas dife­ renças entre o contexto histórico-cultural do relato bíblico e o de seus leitores hodi­ ernos. Note-se, por exemplo, Lucas 4:16- 20. O que significa que o Espírito “un­ giu” Jesus, e tem a preposição “sobre” mais do que um sentido locativo, na frase “o Espírito do Senhor está sobre mim”? Mais do que isto, qual é o significado do fato de Jesus ter-se sentado depois de ler as Escrituras? Será que ele fez algo inu­ sitado? Foi por isso que todos “fixaram os seus olhos nele”? A responsabilidade de entender não deve ser colocada sobre o leitor, mas sobre o tradutor, de forma que o significado do original se expresse bem para os leitores contemporâneos. O que está claramente implícito no texto precisa ser tomado explícito. Um exem­ plo disso aparece em Jeremias 7:18, em que se faz referência às mulheres que “amassam a farinha para fazerem bolos à rainha do céu”. Todos os leitores de Jeremias sabiam que a “rainha do céu” era uma deusa adorada pelo povo; mas, a fim de expressar este significado para o leitor moderno, necessário se faz tradu­ zir: “amassam a farinha para fazerem bolos para a deusa a quem chamam de rainha do céu.” Qual é o significado de “o Cristo” ou “o Messias”, quando aplicado a Jesus? No máximo, esta expressão tem pequeno significado para o leitor brasileiro co­ mum, e por isso várias traduções apre­ sentam uma nota de rodapé ou um glos­ sário para explicar o seu significado, quando seria muito mais simples tradu­ zir o título como “o Rei prometido” ou “o Salvador prometido”. Além do mais, qual é o significado de “reino de Deus” para os leitores brasileiros hoje em dia? Geralmente é considerado por eles como significando o território sobre que Deus govema, e não como o reinado ativo de Deus, que é o significado bíblico básico. As traduções precisam levar a sério a re­ estruturação deste termo em suas muitas ocorrências em o Novo Testamento. A este respeito, não são muitos os leitores que compreendem que “reino dos céus”, em Mateus, é equivalente a “reino de Deus” nos outros Evangelhos. Portanto, se o tradutor está focalizado nas necessi­ dades dos leitores, e não na reprodução verbal do texto, talvez seja melhor tra­ 47
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    duzir “reino deDeus” nas passagens de Mateus onde ocorre “reino dos céus”. Para outras línguas, pode-se também multiplicar exemplos da necessidade de levar em consideração o ambiente cultu­ ral dos leitores. Para o povo de Penang, que vive em Sarawak (Boméu, na Malá­ sia), Mateus 24:28 é traduzido assim: “Onde quer que houver uma árvore com frutas maduras na floresta, os passari­ nhos estarão enxameando.” Isto pode parecer um modo um tanto estranho de se traduzir um versículo que aparece na versão portuguesa como: “Pois onde esti­ ver o cadáver, aí se ajuntarão os abu­ tres.” Porém aves que vivem de carniça são desconhecidas daquela gente, e, de qualquer forma, a idéia desse provérbio não tem nada a ver com cadáveres nem com abutres. A intenção deste provérbio é indicar que se pode descobrir a presen­ ça de um objeto pela presença de outros objetos, e este é precisamente o significa­ do que o tradutor tentou reproduzir para os seus leitores de Penang. Como nôma­ des da floresta, eles sabem onde podem ser encontradas essas tão procuradas ár­ vores frutíferas na floresta, por causa dos passarinhos que estarão enxameando so­ bre ela quando as frutas estiverem madu­ ras. Embora as palavras em si possam soar bem diferentes das do original, o significado se expressa claramente e exa­ tamente para o leitor de Penang. V. Traduções da Bíblia e Estudo da Bíblia É óbvio que este escritor está argumen­ tando em favor de traduções inteligíveis, baseadas nos melhores manuscritos gre­ gos e hebraicos disponíveis, e de uma exegese sadia. Isto é especialmente ne­ cessário se se espera que a tradução seja entendida pelas massas que ainda estão fora da comunidade cristã. Uma tradu­ ção literal ou formal pode ser valiosa para alguém que deseje saber a ordem de palavras na língua original, mas, como um todo, ela pode comunicar um signi­ ficado insuficiente, pois deixa de reco­ nhecer que cada língua tem a sua manei­ ra característica de expressar as idéias. Portanto, se a pessoa estiver realmente interessada em saber o que dizem as Es­ crituras, que use uma tradução orientada por estas quatro considerações. Muitas traduções modernas incluem outros subsídios valiosos para os leitores, tais como introduções à Bíblia em geral e a cada livro da Bíblia, um glossário de termos técnicos (v.g., fariseu, saduceu, Festa dos Tabernáculos, etc.), notas his­ tóricas e culturais, redações alternativas ou traduções variantes e mapas. Se o leitor comum, que não tem treinamento especial, usar uma Bíblia assim, terá uma das melhores ferramentas disponí­ veis para um genuíno estudo bíblico. Para Leitura Adicional DAICHES, DAVID. The King James Version of the English Bible. Chica­ go: University of Chicago Press, 1941. GREENSLADE, S.L., ed. The West from the Reformation to the Present Day, Vol. Ill de The Cambridge History of the Bible. Cambridge: University Press, 1963. HUNT, GEOFFREY. About the New English Bible. Oxford: University Press, 1970. MacGREGOR, GEDDES. The Bible in the Making. Philadelphia: I. B. Lip- pincott Co., 1959. NIDA, EUGENE. God’s Word in Man’s Language. New York: Harper and Brothers, 1952. ________Toward a Science of Transla­ ting. Leiden: E. J. Brill, 1964. ORLINSKY, HARRY M. Notes on the New Translation of the Torah. Phi­ ladelphia: The Jewish Publication Society of America, 1969. 48
  • 50.
    ROBINSON H. WHEELER,ed. The Bi­ ble in Its Ancient and English Ver­ sions. Oxford: Clarendon Press, 1940. WEIGLE, LUTHER A. The English New Testament from Tyndale to the Revised Standard Version. New York and Nashville: Abingdon-Co- kesbury Press, 1949. WONDERLY, WILLIAM L. Bible Translations for Popular Use. Ann Arbor, Michigan: Cushing Mallory, Inc., para as Sociedades Bíblicas Unidas, 1968. 49
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    A Interpretação daBíblia Dado o fato de que a Bíblia é a nossa regra de fé e prática divinamente inspi­ rada, como deve ela ser interpretada? Não é suficiente aceitar a autoridade da Bíblia — ela precisa ser adequadamente utilizada e apropriada. O alvo da interpretação é encontrar o processo de pensamento e o significado que o escritor quis ou os escritores quise­ ram dar ao livro ou passagem a ser es­ tudada. O intérprete deve, desta forma, expressar esse significado para uma pes­ soa contemporânea. Há princípios que propiciem diretrizes para esta interpre­ tação? Há advertências e diretrizes que devam ser aprendidas com a história da interpretação bíblica? A interpretação é especialmente im­ portante em relação a um livro como a Bíblia. Para o crente, a Bíblia requer interpretação exata e adequada, por cau­ sa de seu lugar de autoridade. Ela tam­ bém necessita de interpretação porque contém idéias e pensamentos escritos en­ tre dois mil e três mil e quinhentos anos atrás. Ela foi formulada em um meio ambiente e em línguas diferentes das do mundo ocidental. I. Lições da História da Interpretação Uma perspectiva histórica mune o in­ térprete contemporâneo de advertências e diretrizes. Durante os últimos dois mil anos, numerosos exemplos do mau uso e da distorção da Bíblia ocorreram. Em outros casos, foi conseguida uma per­ cepção que nos propicia muita ajuda. John P. Newport 1. A Procura de um Significado Oculto — Alegoria A alegoria ensina que por debaixo do significado comum e óbvio de uma pas­ sagem encontra-se o significado verda­ deiro ou espiritual. O principal alvo do intérprete alegórico é procurar decifrar esses pretensos significados espirituais e ocultos. Embora desenvolvido pelos gre­ gos, este sistema de interpretação já es­ tava sendo usado pelos intérpretes judeus no primeiro século d.C. Ignorando o exemplo de Jesus, este método foi depois adotado pela maioria dos intérpretes cristãos; dominou a exegese até a Refor­ ma Protestante. Dizia-se que os versículos da Bíblia tinham dois, três e até quatro significa­ dos. Mickelson indica que “Jerusalém”, para os intérpretes medievais, podia fa­ zer referência à cidade literal na Palesti­ na. Alegoricamente, podia significar a Igreja. Moralmente, podia referir-se à alma. De uma perspectiva futura, refe­ ria-se à cidade celestial. A interpretação histórica — o significado claro, evidente — era descrito como leite, enquanto a interpretação alegórica era descrita como vinho, que produz alegria. A Bíblia foi feita para significar o que não diz abertamente. Ela se tomou uma caixa de mágica, da qual os intérpretes tiravam mistérios e verdades para deco­ rar os seus mundos imaginários. Esta busca de significados múltiplos é real­ mente uma abordagem mágica dos as­ pectos lingüísticos e literários da Bíblia. Ela remove qualquer certeza quanto ao seu significado. 51
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    A busca designificados ocultos tor­ nou-se tão extrema que foi oferecido um prêmio para o inusitado. Agostinho, no quinto século d.C., encontrou interpreta­ ções frutíferas em proporção com a sua dificuldade. Por exemplo, a arca repre­ sentava a Igreja, que é resgatada pelo madeiro em que Cristo foi dependurado. As suas próprias dimensões significam o corpo humano de Cristo, e a porta em seu lado significa a ferida do lado de Cristo. Em épocas mais modernas, homens como Emanuel Swedenborg, da Suécia, e grupos como a Unity e a Ciência Cristã utilizaram a interpretação alegórica. Tanto na Unity quanto na Ciência Cristã, a gramática, o contexto e a história são ignorados. Os significados importantes são significados ocultos ou espirituais. É óbvio que quando a abordagem gra­ matical e histórica é abandonada, não há maneira de controlar ou governar a exe­ gese. 2. Literalismo Extremo Alguns sadios princípios de interpreta­ ção foram desenvolvidos por intérpretes rabínicos como Hillel e Eliezer. Uma ên­ fase infeliz no “letrerismo” ou hiperli- teralismo, todavia, desenvolveu-se entre a maioria dos intérpretes judeus. Eles se encurvavam sobre trivialidades e sobre o incidental, e deixavam passar desperce­ bido o significado de uma dada passa­ gem. No período posterior à Reforma, os protestantes do século XVII manifesta­ ram, em vários casos, a tendência de ido­ latrar a Bíblia a tal ponto que deixaram passar despercebido o seu significado essencial. A Bíblia não devia ser vista como livro histórico e literário, mas sim­ plesmente como um dogma. Em tempos mais recentes, os Testemunhas de Jeová, outras seitas que tais e os fundamenta- listas manifestaram uma tendência na direção do hiperliteralismo. Os conteú­ dos gramaticais, históricos e literários, bem como os temas bíblicos centrais, são em grande parte ignorados. 3. Interpretação Controlada pela Igreja Concorda-se, geralmente, que, em ma­ téria de interpretação, o ponto decisivo, na Idade Média, foi a obra de Agosti­ nho. Em sua obra intitulada A Doutrina Cristã, ele esboçou princípios para a interpretação da Bíblia. Nesta mesma obra, ele estabeleceu a doutrina de que a Igreja e a tradição da IgTeja são as bases para a interpretação. Através da Idade Média, desta forma, a interpretação foi limitada por uma conformidade obtusa. A tradição da Igreja era suprema. Este tipo de interpretação foi usado pelas autoridades eclesiásticas para esta­ belecer o poderio eclesiástico. Embora apenas uma pequena quantidade da Bí­ blia fosse oficialmente interpretada, mui­ tas doutrinas oficiais acarretavam a in­ terpretação de certos versículos que se tomava obrigatória. Em reação à Reforma Protestante, o Concílio Católico Romano de Trento reu- niu-se de 1545 a 1563. A Vulgata Latina foi declarada a versão autêntica para se fazerem exposições. A interpretação não devia ser contrária aos ensinamentos da Igreja Católica. Isto significava que não era possível nenhuma discussão de inter­ pretações alternativas. Para opor-se à interpretação controla­ da pela Igreja, Calvino conclamou a dis­ cussão religiosa de passagens obscuras e difíceis entre os eruditos cristãos. Sem isto, disse Calvino, não haveria liberdade nem oportunidade para que nova luz irrompesse da Bíblia. A abordagem dogmática é freqüente­ mente chamada de “cristalização da doutrina”. Uma dedicação simulada é prestada à idéia de que a doutrina deve ser subordinada à Bíblia. De fato, a Igreja, personificada pela hierarquia eclesiástica, é considerada como mestra e intérprete infalível. A “cristalização da doutrina” é ponto de vista também encontrado em algumas 52
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    formas de ortodoxiaprotestante. Por exemplo, muitas denominações e grupos confessionais afirmam que as interpreta­ ções ensinadas pelo fundador ou pelos primeiros líderes daquele grupo são se- mi-sagradas. Na segunda geração da Re­ forma Protestante, houve uma tendência de se aceitar as declarações doutrinárias do século XVI como completamente ver­ dadeiras e bíblicas quanto ao seu conteú­ do. Na época atual, contudo, novas ma­ neiras de entender as línguas bíblicas, a história bíblica e a pesquisa científica re­ velaram os condicionamentos históricos de muitas interpretações tradicionais. A erudição crítica, combinada com uma devotada fé cristã, é a resposta para uma interpretação dogmática controlada pela Igreja. Essa erudição deve reveren­ ciar a Bíblia, e jamais sancionar qual­ quer crítica irresponsável que venha a minar a fé positiva. 4. Tentativas Para Estabelecer Princí­ pios Gramaticais, Históricos e Teo­ lógicos de Interpretação Os Reformadores Protestantes. Embo­ ra alguns esforços tenham sido envidados nos primeiros séculos, a principal tenta­ tiva de estabelecer princípios gramati­ cais, históricos e teológicos aconteceram com a Reforma Protestante, no século XVI. Em oposição à interpretação elabo­ rada e complicada dos eruditos patrísti- cos e medievais, os reformadores enfati­ zavam o sentido literal da Bíblia como única fonte de autoridade. A Bíblia devia ter prioridade sobre a tradição e devia ser ojuiz datradição, em vez de ser sua serva. Martinho Lutero abandonou a quá­ drupla interpretação do período medie­ val, e enfatizou o significado inerente e fundamental. A alegoria, disse Lutero, consistia em “truques de macaco”, para mostrar a esperteza do exegeta. O texto devia ser entendido em termos de seu significado claro e dentro de todo o con­ texto bíblico. Como o indicou Mays, isto aconteceu para garantir que o texto guia­ ria o entendimento, e não uma teologia que não se podia provar. O ponto de vista dos reformadores não era o extremo literalismo do biblicismo rabínico. Cristo e o Novo Testamento eram centrais. Os princípios de interpre­ tação deviam derivar da Bíblia. Lutero enfatizou o sentido gramatical e a neces­ sidade de estudo diligente das línguas originais e da História. João Calvino, indubitavelmente o maior intérprete da Reforma, semelhantemente interpretou as Escrituras gramatical e historica­ mente. Os Críticos Históricos do Século XIX. A tentativa seguinte para estabelecer princípios gramático-históricos (se não teológicos) de interpretação, foi a ascen­ são da crítica histórica. Reagindo contra o escolasticismo protestante do século XVII, Herder e Semler começaram, no século XVIII, a tratar a Bíblia como li­ teratura. No século XIX, os críticos his­ tóricos afirmaram que o cenário e o de­ senvolvimento históricos eram indispen­ sáveis para se compreender o significado da Bíblia. Muitos resultados úteis se originaram desse estudo. A humanidade de Jesus foi considerada seriamente, e a natureza literária da Bíblia foi reconheci­ da plenamente. Infelizmente, em muitos casos, pres­ supostos filosóficos e não-bíblicos guia­ ram a investigação histórica e a crítica da Bíblia. Pressupostos naturalistas eram geralmente aceitos. Reconstruções teóri­ cas do Velho e Novo Testamentos se ba­ seavam na filosofia dialética de Hegel e no pensamento evolucionista de Spencer. Os eruditos críticos haviam rejeitado os pressupostos dogmáticos dos escolásti­ cos protestantes. Por sua vez, no entanto, como indicou Mays, eles os substituíram pelas novas premissas dogmáticas de uma teologia determinada pelo idealis­ mo, pelo romantismo e pelo iluminismo. Os críticos históricos tiveram sucesso no trabalho textual, na gramática, na história literária e na arqueologia, mas 53
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    deixaram de enxergaro significado teoló­ gico da Bíblia. Um grande sortimento de fatos e dados foi analisado e classificado. O interesse do intérprete treinado focali- zou-se na reconstrução histórica. O sig­ nificado ou arcabouço de referência, to­ davia, estava faltando. Os princípios teo­ lógicos e práticos, em grande parte, fo­ ram ignorados. Os Intérpretes Teológicos. Desde a Primeira Guerra Mundial, a interpreta­ ção bíblica foi recondicionada, em im­ portantes círculos teológicos, de maneira que dá mais ênfase aos princípios teoló­ gicos e práticos de interpretação bíblica. Os léxicos teológicos estão fornecendo ferramentas para essa abordagem. Os comentários enfatizam a unidade estru­ tural subjacente da Bíblia. Em grande parte do trabalho exegético atual, os intérpretes estão mais uma vez procurando ser fiéis à natureza da Bíblia. A questão histórica e a teológica são ambas abordadas, quando o intérprete se aproxima da Bíblia. O que aconteceu na Bíblia e a interpretação desses aconteci­ mentos estão sendo considerados como um evento inseparável. II. Princípios de Interpretação Bíblica A teoria que está por detrás da inter­ pretação bíblica é chamada de herme­ nêutica. Interpretação ou exegese é a explicação do texto propriamente dita, usando princípios ou teoria. Há nume­ rosas maneiras como os princípios geral­ mente aceitos e básicos de interpretação bíblica podem ser apresentados. Uma abordagem conveniente e amplamente usada é considerar os princípios nas cate­ gorias gramatical, histórica, teológica e prática. Alguns escritores sugerirão mo­ dificações de arranjo, redação e de or­ dem, mas os princípios serão essencial­ mente os mesmos. As vantagens de se utilizar estes prin­ cípios são muitas. Esta abordagem exer­ ce algum controle sobre a interpretação. Uma coibição é exercida contra a tenta­ ção dos intérpretes de procurar signifi­ cados ocultos na Bíblia. Eruditos e leigos que seguem estes princípios têm feito contribuições construtivas e permanen­ tes para o conhecimento e a compreensão da Bíblia. 1. Princípio Gramatical ou Lingüístico Da interpretação geral origina-se o pri­ meiro princípio básico: o princípio gra­ matical ou lingüístico. A Bíblia é um pro­ duto histórico. Embora, quanto à sua origem final e conteúdo essencial, ela seja divina, foi escrita por homens, em línguas humanas e em condições huma­ nas. Portanto, ela deve ser interpretada com subsídios semelhantes e com a uti­ lização de alguns dos mesmos princípios que os outros livros da antiguidade. No período da Reforma, João Calvino foi o homem que mais contribuiu para restaurar o princípio lingüístico. Em época mais moderna, Emesti, erudito alemão do século XVIII, foi um pioneiro na restauração deste princípio ao seu lugar de direito. A sua obra colocou o princípio gramatical em tal posição, di­ ante do mundo, que desde então manteve a sua importância fundamental. Ele pu­ blicou os seus Principies of Interpreta- tionem 1761. Significado das Palavras — Etimolo­ gia. Um aspecto do princípio gramatical é a etimologia. Ê o segundo das raízes de que as palavras se derivaram. Na maio­ ria dos casos, o intérprete obterá mate­ rial concernente à etimologia de especia­ listas e comentários. Em Gálatas 3:24, a KJV sugere que “a lei foi o nosso mestre- escola para nos levar a Cristo”. De acor­ do com a etimologia, esta não é uma tradução exata. A palavra traduzida co­ mo mestre-escola é derivada de duas palavras gregas que significam orienta­ dor de crianças. Evidentemente, esta pa­ lavra se refere ao servo da família que levava a criança à escola e a trazia para casa. Ele não ensinava, mas mantinha a disciplina. A tradução da IBB é mais 54
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    exata: “A leise tomou nosso aio, para nos conduzir a Cristo.” Uso Corrente — Expressões Idiomáti­ cas. Outra parte do princípio gramatical abrange o uso corrente e as expressões idiomáticas. O uso do primeiro século sugere, de acordo com Stibbs, que a declaração de Lucas 15:13, “o filho mais moço, ajuntando tudo”, significa que ele calculou a sua herança e transformou-a em dinheiro. Relacionamento Entre Palavras — Sintaxe. Outro ponto a ser considerado, em relação ao princípio lingüístico ou gramatical, é a sintaxe ou relação ou ordem das palavras em uma sentença. Em loão 1:1, é afirmado que “o Verbo era Deus”. O significado é esclarecido pelo artigo que antecede “Verbo” e a omissão do artigo antes do predicado “Deus”. A sintaxe não permitirá a tra­ dução “Deus para o Verbo”. Teologica­ mente, esta última tradução, que não é permitida pela construção gramatical, significaria que Deus, em seu todo, é ex­ presso no “Verbo”. As boas traduções e os bons comentá­ rios dão grande importância aos delica­ dos significados de verbos, substantivos e cláusulas, e seus relacionamentos. O ver­ bo é especialmente importante no grego. No hebraico, o sistema verbal é menos complexo; não obstante, é importante. Método de Pensamento — Princípio Lógico. Intimamente relacionado com o princípio lingüístico e para os propósitos deste estudo, considerado como parte do princípio lingüístico, está o princípio ló­ gico ou método de pensamento de um autor. O intérprete precisa procurar en­ tender o método de raciocínio do autor bíblico. O povo da Bíblia vivia em um mundo cujo pensamento era mais fami­ liarizado com o paradoxo do que com a precisão. Eles se expressavam de manei­ ras que não podem ser forçadas nas categorias rígidas e exatas do pensamen­ to e da lógica ocidental moderna. As interpretações tradicionais podem precisar de revisão à luz do conhecimento atual das maneiras hebraicas de pensar e falar. Stibbs menciona que a frase “Amei a Jacó, e aborreci a Esaú” (Mal. 1:2,3) é a maneira como o hebraico declara uma comparação, e não uma oposição direta. Esta frase seria melhor traduzida assim: “Amei a Jacó mais do que a Esaú.” Estilo literário — Princípio Retórico. Intimamente relacionado com esta ênfa­ se dada ao método de raciocínio está o princípio retórico. Cada tipo de literatu­ ra, na Bíblia, deve ser entendido à luz de seu próprio estilo literário. Em narrativa direta, as palavras são consideradas se­ gundo o seu valor aparente. Nas seções poéticas, toma-se necessário uma abor­ dagem diferente. Felizmente, a RSV, a versão da IBB e certas outras traduções modernas indicam pela maneira de im­ primir aquilo que é formalmente poético. Jesus disse: “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o” (Mat. 5:29). Ele está sugerindo automutilação? Obvia­ mente, este versículo não pode ser enten­ dido de maneira literal. Jesus freqüente­ mente usou hipérboles e linguagem figu­ rada para enfatizar a verdade. Herodes foi chamado de “raposa” (Luc. 13:32). Paulo referiu-se a Tiago, Cefas e João como “colunas” da igreja em Jerusalém (Gál. 2:9). A palavra coluna não pode ser entendida como referência a um pilar de cimento ou tijolos. O contexto literário toma claro o seu significado. Pedro des­ creve o Diabo como leão que ruge (I Ped. 5:8). A linguagem metafórica precisa ser reconhecida como tal. A declaração: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme à nossa seme­ lhança” (Gên. 1:26) não pode ser consi­ derada como descrição das diferentes partes do homem. Se um intérprete en­ tende o paralelismo hebraico, verificará que tanto imagem quanto semelhança têm exatamente o mesmo significado. A repetição é feita por amor da ênfase. 55
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    Contexto — Imediatoe Geral. O con­ texto, tanto o imediato como o geral, é básico para qualquer compreensão de uma palavra ou versículo da Bíblia. Se os versículos são considerados em seu contexto, declara Mounce, as dificul­ dades de interpretação têm uma forma de se resolverem por si mesmas. A frase “efetuai a vossa salvação”, de Filipenses 2:12, faz sentido, se considerada em seu contexto. Ê uma conclamação para que se preocupassem com o bem-estar dos outros, como desígnio de Deus para a li­ bertação da igreja filipense de uma de­ sunião, que a ameaçava (cf. Fil. 2:1-5; 4:2,3). Esta frase pode desafiar o indiví­ duo com um senso de responsabilidade de tornar a salvação significativa em ter­ mos de entrega pessoal e crescimento. O contexto indica, todavia, que este é um significado secundário. Embora o princípio gramatical ou lin­ güístico seja básico, a descoberta do sen­ tido gramatical de forma alguma exaure a interpretação. Os princípios histórico, teológico e prático precisam também ser considerados, em relação a um determi­ nado versículo ou passagem da Bíblia, se queremos que ele seja adequadamente interpretado. 2. O Princípio Histórico O segundo princípio básico para a interpretação bíblica é geralmente desig­ nado como princípio histórico. Desde o meado do século XIX este princípio tem sido uma premissa básica para todos os intérpretes sérios. Ele inclui uma consi­ deração dos materiais geográficos (ante­ cedentes relacionados aos aspectos físi­ cos e de espaço), históricos (antecedentes temporais) e culturais (antecedentes ma­ teriais e sociais). Visto que a Bíblia se originou em um contexto histórico, ela só pode ser entendida exatamente e comple­ tamente quando este contexto é estuda­ do. De alguma forma, o intérprete pre­ cisa sair de sua pele de homem do sé­ culo XX e identificar-se com a vida e os sentimentos das épocas bíblicas. Contudo, precisa ser lembrado que o estudo dos antecedentes históricos e da cultura da época não deve distorcer o conteúdo propriamente dito que estiver sendo considerado. Para um intérprete evangélico, os escritores bíblicos são con­ siderados como homens de sua época e, não obstante, como homens que estavam além de sua época. Lucas 9:62 sugere que “ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus”. A compreen­ são deste ensinamento de Jesus é melho­ rada pelo conhecimento dos implementos agrícolas da Palestina do primeiro sé­ culo. O arado era uma ferramenta que se manejava apenas com uma mão. Se o lavrador não prestasse muita atenção, o arado fugiria ao seu controle. O ensi­ namento é claro. O reino exige atenção imediata e consideração total, de todo o coração. Em I Coríntios 9:27, Paulo usa uma figura tirada dos jogos atléticos. Ele de­ clara que esmurra o seu corpo e o subju­ ga. Um estudo dos antecedentes históri­ cos informa ao intérprete que os gregos usavam luvas de boxe feitas com um pe­ daço de madeira dura ou metal, amarra­ do ao pulso com uma correia de couro. Uma característica dos coríntios era que os seus olhos tinham a tendência de serem saltados. A palavra traduzida como “esmurrar” ou “esbofetear” (pela RSV como na Almeida antiga ou Trad. Brasileira) significa atingir a pessoa de­ baixo do olho, levando-a a nocaute. Esta é uma expressão idiomática. O prin­ cípio é óbvio. Paulo considera o seu corpo como seu oponente, e afirma que lhe dá um golpe decisivo e o leva à servidão. Isto é feito para que ele não seja desqualificado como pregador e missio­ nário. De acordo com I Coríntios 11:5, as mulheres de Corinto deviam conservar as cabeças veladas, ao orarem. Cartledge sugere que o contexto histórico ajuda a iluminar esta declaração. Na antiga Co- 56
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    rinto, as mulheresde caráter casto usa­ vam seus véus em público. Algumas das mulheres cristãs coríntias haviam decidi­ do desfazer-se dessa restrição. Paulo pro­ testou, pois não queria que as mulheres cristãs fossem confundidas com as sacer­ dotisas prostitutas do culto de Afrodite, em Corinto. O conhecimento da administração po­ lítica do Império Romano, no primeiro século d.C., ilumina inúmeras passa­ gens, como a de Filipenses 1:27. A tradu­ ção inglesa KJV declara: “Que a vossa conversação seja somente a que convém ao evangelho de Cristo.” A palavra con­ versação significa “vida de cidadão” ou “modo de vida”. Filipos era uma colônia romana (At. 16:12). Filipenses 3:20 de­ clara que a cidadania do crente está no céu. Com o conhecimento dos anteceden­ tes históricos, o intérprete pode entender o que significavam estes versículos para os leitores do primeiro século. Eles en­ tenderiam que deviam viver sob a consti­ tuição e as obrigações dos céus, da mes­ ma forma como o cidadão político vivia sob a constituição e as obrigações de Roma. Felizmente, há muito material dispo­ nível hoje em dia para estudar a História e a cultura. O intérprete deve munir-se de volumes de história da Bíblia, de atlas e estudos dos povos bíblicos e sua cul­ tura. 3. O Princípio Teológico A Bíblia é apenas incidentalmente lin­ guagem e história. Ela não foi escrita apenas com objetivos históricos e esté­ ticos. Essencialmente, ela foi escrita co­ mo livro de fé. A convicção primordial dos escritores da Bíblia é que um Deus gracioso agiu na História a fim de criar em Cristo um povo para si mesmo. A in­ terpretação precisa procurar entender es­ tes critérios teológicos. Felizmente, desde a Segunda Guerra Mundial, novas ferramentas têm sido produzidas, tais como léxicos teológicos. Estes estudos indicam, por exemplo, que Jesus não era apenas o Mestre refinado da Regra Ãurea e da paternidade geral de Deus. Pelo contrário, ele foi aceito como o Messias que cumpriu, em sua vida, morte e ressurreição, as promessas dos profetas do Velho Testamento, de que Deus na plenitude dos tempos agiria redentoramente na História. Ás narrativas bíblicas não descrevem acontecimentos externos objetivos, apre­ sentados em termos satisfatórios para os métodos classificatórios das ciências na­ turais. Os escritores e repórteres se en­ volveram nos acontecimentos, e tanto lembraram quanto interpretaram. O que aconteceu e a interpretação deles foram fundidos. Os escritores do Novo Testa­ mento receberam o impacto e ficaram atônitos com a realidade do encontro com Deus em Jesus Cristo. Eles encon­ traram nova vida nesse encontro. Segue- se, portanto, que Jesus é descrito, na Bíblia, por homens que creram nele como o Messias. O mesmo princípio se aplica ao relato da fuga dos hebreus atra­ vés do Mar Vermelho: ele é feito por homens que a lembraram, foram incluí­ dos na libertação e a consideraram como ato de Deus. Em muitos casos, há um intervalo entre os fatos bíblicos e a fixação literá­ ria da testemunha. Como o indicou Mays, a Bíblia é o resultado de um pro­ cesso complexo de formação, modelação e crescimento. Este intervalo de tempo entre os fatos e o texto não é neutro nem vazio. Ã medida que foram contados e, talvez, recontados, os acontecimentos ga­ nharam uma nova e dinâmica contempo- raneidade. As próprias testemunhas con­ firmaram e aprofundaram a sua maneira de entender e os seus conceitos sobre o evento original. O intérprete também contribui para o caráter da interpretação. Ele não é como um experimentador em química; tem pressupostos, dos quais precisa estar 57
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    cônscio. Eles precisamser provados em suas confrontações com a Bíblia; ele pre­ cisa admitir distorções e preconceitos. Em certo sentido, o intérprete teoló­ gico plenamente adequado precisa estar relacionado com um grupo cristão, de que, por fé, seja membro. A Bíblia não pode ser plenamente compreendida a partir de seu lado externo, isto é, pela gramática, lógica, retórica e história so­ mente. Ela precisa ser entendida a partir de seu centro ou imo. O centro ou imo da Bíblia revela-se melhor ao homem que tem uma relação pessoal com Deus, atra­ vés de Jesus Cristo, e que é habitado pelo Espírito de Deus. O princípio teológico também inclui o que é chamado de interpretação doutri­ nária. A interpretação deve ser feita de acordo com as ênfases centrais da Bíblia. Esta idéia ou abordagem foi recomenda­ da fortemente por Lutero, Calvino e os outros reformadores protestantes do sé­ culo XVI. Os reformadores insistiam que havia uma verdade central na Bíblia que agia como base ou pedra de toque para a interpretação. Lutero encontrou esta pedra de toque no conceito paulino de justificação pela fé, especialmente da maneira como ele é apresentado em Romanos e Gálatas. Ê óbvio que Lutero enfatizou exagerada- mente este tema, por causa de sua luta contra o legalismo e o sacramentalismo medieval católico romano. No século XIX, o conceito pauliíio de “em Cristo” foi considerado, por muitos, como a chave do pensamento de Paulo. Esta divergência do ponto de vista da Reforma levou, em anos recentes, à rea­ bertura da questão da qual é realmente a chave central de interpretação da Bíblia. Os eruditos voltaram a interrogar à pró­ pria Bíblia, para desvendar o seu centro teológico. Geralmente concorda-se que Lutero tinha conceitos válidos no afã de pro­ curar uma pedra de toque para a inter­ pretação, quando começou com Paulo. Contudo, muitos eruditos sustentam, hoje em dia, que a doutrina da justifica­ ção pela fé e o conceito de se estar em Cristo são ambos inadequados e carecem de compreensão. O tema da história sa­ grada, da história redentora ou da histó­ ria da salvação parece, para muitos teó­ logos, ser chave mais adequada para a vida e o pensamento de Paulo e também para a mensagem central da Bíblia. Esta perspectiva redentora-histórica abrange tanto o conceito de justificação pela fé como o de estarmos em Cristo, e acres­ centa dimensões adicionais. Outros estudiosos competentes acres­ centam uma palavra qualificadora à ex­ pressão “história da redenção”. Esta pa­ lavra é “escatológica” (últimas coisas). Nos primeiros anos deste século, Albert Schweitzer indicou que a escatologia é o tema dominante da Bíblia. Até então, nenhum intérprete cuidadoso fora capaz de eliminar, de seu pensamento, a cen- tralidade da orientação futura no ponto de vista do mundo bíblico. O Velho Testamento fala da contínua atividade de Deus na História; não obs­ tante, para os escritores do Velho Testa­ mento, a plenitude dos propósitos de Deus está sempre no futuro. Em o Novo Testamento, reconhecia-se que Cristo fez, por assim dizer, o primeiro paga­ mento das realidades da redenção, uma antecipação. Não obstante, a plenitude dessas realidades e a plenitude do poder que elas têm permanecem no futuro. Em Cristo, o futuro (a era por vir) veio para o presente (I Cor. 10:11). Parece que a maneira mais frutífera de expressar a chave para a interpretação da Bíblia é em termos de uma combinação das ênfases escatológica e da história sagrada. Esta abordagem pode ser de­ signada como “história escatológica sa­ grada”. O intérprete deve ir além do significa­ do verbal e histórico precisos do texto, para entender a teologia que o texto in­ forma. Isto significa que o intérprete 58
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    procura descobrir, porexemplo, não me­ ramente que diretrizes Paulo deu aos co- ríntios, mas também a teologia que o levou a dar essas diretrizes. Por detrás das parábolas de Jesus estão as afirma­ ções a respeito do reino de Deus, vindo na pessoa de Cristo, e o desafio de uma resposta radical a ele. Bright insiste que essa abordagem teológica não é uma violação dos princípios sadios de inter­ pretação. Expor o conteúdo teológico do texto é coisa que está incluída na tarefa da interpretação gramatical, histórica e teológica. Além da pedra de toque teológica cen­ tral da abordagem da história escatológi- ca sagrada, as ênfases subordinadas de­ vem ser notadas. O Novo Testamento é a norma para se interpretar o Velho Testamento. A pro­ fecia não é auto-interpretável, mas deve seguir os conceitos neotestamentários. Isto não significa que o Novo Testamento rejeita o Velho Testamento — ele o cum­ pre. As passagens sistemáticas devem ter precedência sobre as passagens inciden­ tais. Por exemplo, a justificação é tra­ tada de forma sistemática em Romanos e em Gálatas. Estes livros devem ser os guias primordiais para a discussão desta doutrina. Versículos incidentais e am­ bíguos devem ser subordinados, ou con­ siderados à luz de ênfases mais amplas e mais claras. Esta abordagem é, na ver­ dade, o tipo de procedimento que têm as pessoas eruditas, quando qualquer con­ junto de material ou sistema de pensa­ mento está sob exame. Os princípios universais devem ser procurados no meio de cerimônias locais. Foi através do lavapés que Jesus Cristo ensinou o princípio de amor e humilda­ de. A ordem de Paulo, “saudai-vos uns aos outros com ósculo santo” (Rom. 16: 16), deve ser considerada como ensina­ mento do princípio de fraternidade cris­ tã através do veículo da cerimônia co­ mum no primeiro século. As doutrinas não devem basear-se sim­ plesmente em um versículo ou em uns poucos versículos variados. Pelo contrá­ rio, o teor geral da Bíblia deve ser pro­ curado. Inevitavelmente, haverá aspectos da verdade bíblica que parecerão contra­ ditórios para as mentes finitas. Um estu­ dante reverente da Bíblia, reconhecendo que é finito, viverá com estas verdades aparentemente contraditórias. A soberana ênfase da Bíblia, em rela­ ção ao propósito salvador de Deus na História, é fator básico de todas estas ên­ fases subordinadas. Cada parte da Bíblia deve ser considerada em relação a este propósito orgânico e teleológico. No mi­ nistério público de Cristo, Deus é con­ siderado no processo de agir. Uma vinda do reino mais ampla e mais decisiva foi vista na cruz e na ressurreição. A pleni­ tude do reino, todavia, só acontecerá na Parousia. Visto da perspectiva da história escato- lógica sagrada, o conceito do mistério discutido nas parábolas de Mateus 13 é mais bem entendido. O mistério é que o reino que deve vir em poder apocalíptico já entrou no mundo antecipadamente, para operar de maneira mais ou menos aberta e dramática entre os homens. O reino, na época do ministério de Jesus, pode ter parecido fermento ou uma pe­ quena semente de mostarda, mas ainda virá em poder e glória. A ênfase da história escatológica sa­ grada propicia uma estrutura para a es­ pécie apropriada de tipologia. O Velho Testamento tem muitas figuras que têm existência e significado reais por si mes­ mas, porém representam uma coisa ou acontecimento maior e permanente, cuja materialização plena ou antítipo encon- tra-se em o Novo Testamento. Alguns in­ térpretes consideram o Velho Testamen­ to demasiadamente figurado. Outros são céticos demais com respeito à tipologia. Os intérpretes moderados e construtivos tomam o Novo Testamento como seu ponto de partida, nos estudos tipológi- 59
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    cos. O significadoemprestado aos tipos do Velho Testamento pelo Novo Testa­ mento é de importância fundamental. O princípio teológico também inclui uma consideração da literatura de inter­ pretação. A Bíblia foi escrita há centenas de anos. Muitos eruditos devotos têm es­ tudado a Bíblia. Verificando como ou­ tras pessoas a interpretaram, o intérprete contemporâneo recebe os benefícios da sabedoria e dos erros do passado. 4. O Princípio Prático O quarto princípio de exegese bíblica é o princípio prático. A culminação da interpretação bíblica é a aplicação da mensagem bíblica ao mundo moderno. Tendo encontrado o que ela quis dizer, o intérprete precisa perguntar: O que ela quer dizer? Alguns intérpretes são peritos em tor­ nar claro o que os escritores bíblicos queriam dizer em sua época. Percebem as convicções teológicas que guiaram os profetas e os apóstolos. Contudo, têm menor habilidade para relacionar este significado com o mundo contemporâ­ neo. Outros intérpretes conduzem dis­ cussões contemporâneas que têm peque­ na relação com o significado e a men­ sagem bíblica. Um intérprete cuidadoso procurará apresentar a palavra bíblica como o que Deus quer dizer aos homens em situações específicas, hoje em dia. Tal interpretação resultará em tradução em jargão moderno. Além do mais, ele procurará levar os seus ouvintes ou lei­ tores a uma implementação responsável da verdade bíblica em ação. A narrativa da criação, em Gênesis l:l-2:4, retrata o cosmos em termos de um quadro do mundo compreensível pa­ ra o mundo antigo. Um intérprete perito dirá que Deus não está interessado em apresentar ao homem os detalhes de cos­ mologia ou a metodologia detalhada de sua atividade criativa. Encontra-se, to­ davia, no relato de Gênesis, uma visão do mundo que coloca o Senhor vivo como o Criador e fim de todas as coisas. O in­ térprete deve aplicar esta ênfase central da história antiga às necessidades das pessoas que estão vivendo em uma era de vacuidade, fastio e niilismo. Isaías 6:1 descreve Deus com trono, veste a aparência corporal. Utilizando a doutrina de acomodação sugerida por João Calvino há quatro séculos, um in­ térprete contemporâneo reconhece que esta é a maneira como Deus foi represen­ tado por Isaías. A verdade para então, expressa em termos do oitavo século a.C., e para hoje, é que existe um Deus pessoal de santidade e transcendência por detrás dessa linguagem dramática. Para Isaías, Calvino e os homens de fé contemporâneos, o uso de metáforas su­ blimes, para descrever Deus, preserva a diversidade e a transcendência de Deus. A declaração de Isaías refutará para sempre qualquer identificação monista ou mística de Deus com o homem, como alguns hindus e budistas ensinam hoje em dia. O teste de uma aplicação prática é saber se o texto bíblico comunica ou não a intenção nele implícita. Por exemplo, no primeiro século, a ressurreição de Cristo significava que havia começado a nova era, Cristo havia sido entronizado, e o homem podia viver pelo poder da nova era, aqui e agora. Este princípio é apli­ cável hoje, tanto quanto sempre o foi. Depois que aprende o significado ori­ ginal de uma passagem, o intérprete está em condições de aplicá-la à vida hodier­ na. Mas a ênfase deve exercer-se em princípios, e não em minúcias específi­ cas. Os escritores do Novo Testamento constantemente avançaram através de es­ pecíficos para os princípios. É óbvio que ninguém deve tentar vestir-se como o povo do primeiro século nem seguir os seus estilos de penteado. No entanto, o princípio do que é apropriado, isto é, de mansidão e modéstia, é atingido pelos materiais bíblicos que tratam de vesti­ menta e aparência (I Ped. 3:3; I Tim. 2:9). 60
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    Os princípios esboçadosacima não devem ser considerados como regras rí­ gidas e mecânicas. Devem ser diretrizes úteis, contudo, quando o crente procurar aumentar o seu entendimento da Bíblia e apropriar-se dos recursos e da orientação que Deus deu ao homem na Bíblia e atra­ vés dela. Hábitos impróprios de inter­ pretação bíblica devem ser francamente admitidos e rejeitados. A prática cons­ tante e o diálogo com outros intérpretes devem ser encorajados. Em uma cultura em que dezenas de seitas radicais dizem estar interpretando a Bíblia adequada­ mente, é imperativo que se dê atenção ao entendimento e à prática destes princí­ pios geralmente aceitos. Para Leitora Adicional BLACKMAN, M. C. Biblical Interpreta­ tion. Philadelphia: Westminster Press, 1957. BRIGHT, JOHN. The Authority of the Old Testament. Nashville: Abing­ don Press, 1967. CARTLEDGE, SAMUEL A. The Bible: God’s Word to Man. Philadelphia: Westminster Press, 1961. DENBEAUX, FRED J. Understanding the Bible. Philadelphia: Westmins­ ter Press, 1958. MAYS, JAMES LUTHER. Exegesis as a Theological Discipline. Rich­ mond: Union Theological Seminary, 1960. MICKELSEN, A. BERKELEY. Inter­ preting the Bible. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1963. RAMM, BERNARD. Protestant Biblical Interpretation. Boston: W. A. Wil­ de Co., 1956. STIBBS, ALAN M. Understanding God’s Word. Chicago: Inter-Varsity Press, 1950. WOOD, JAMES D. The Interpretation of the Bible: An Historical Introduc­ tion. London: Duckworth Press, 1958. 61
  • 64.
    A Geografia daBíblia Através da História, a Palestina tem tido uma importância inteiramente des­ proporcional em relação ao seu tamanho. Ela é a ponte que liga as duas maiores massas de terra deste planeta: a Eurásia e a Ãfrica. Está situada de tal forma que todas as grandes rotas terrestres entre esses dois continentes e também as prin­ cipais rotas marítimas orientais e ociden­ tais convergem para ela. Como resulta­ do, tem havido constante movimento de povos através da “Terra da Bíblia” , com os objetivos de migração, comércio e guerra. I. O Mundo do Velho Testamento O mundo do Velho Testamento, que em parte alguma tem mais do que algu­ mas centenas de quilômetros de compri­ mento, e, provavelmente, cento e cin­ qüenta quilômetros de largura, era cons­ tituído primordialmente de três partes: a Palestina no centro, o Egito a oeste-su- doeste e a Mesopotâmia a leste-nordeste. Estas regiões, com áreas menores entre elas, constituíram o que veio a ser conhe­ cido como o “Crescente Fértil” . A Palestina. Esta parte do mundo do Velho Testamento é a menor, mas a mais importante das três partes. As fronteiras tradicionais ao norte e ao sul da Palestina, de Dã a Berseba, ficam a cerca de 240 quilômetros de distância uma da outra. Embora tenha havido breves períodos em que a fronteira sul se estendeu até o Golfo de Ãcaba e à cidade de Eziom-Geber, a 450 quilômetros de B. E lm o Scoggin Dã, durante a maior parte do tempo os hebreus se consideraram possuidores apenas da terra desde Dã até Berseba. A margem do deserto ficava no máximo a não mais de 120 quilômetros ao leste da costa do Mediterrâneo. O centro do mundo do Velho Testa­ mento, portanto, é um retângulo de mais ou menos 120 por 240 quilômetros, cons­ tituído de montanhas, desertos, desfila­ deiros e planícies. Os vizinhos ao leste e ao oeste da Pa­ lestina, a Mesopotâmia e o Egito, eram as “terras do rio” . Cada uma delas é caracterizada por um sistema fluvial de monta, que percorre toda a sua extensão, e cada uma delas é separada da Pales­ tina por faixas de deserto. O deserto do Sinai, entre a Palestina e o Egito, é par­ ticularmente severo, e serviu de “pára- choque” entre os dois países. Egito. Este vizinho, ao sudoeste da Palestina, muitas vezes enviou os seus exércitos em direção ao norte. Em certa ocasião, eles marcharam contra os gran­ des poderes do Oriente: Síria, Babilônia, Assíria e Pérsia. Freqüentemente, os egípcios lutaram contra os habitantes da Palestina. Os depósitos de mineral ao sul da Palestina e as suas florestas ao norte também atraíram comerciantes e solda­ dos egípcios. A economia do Egito está ligada inse­ paravelmente ao rio Nilo. Ele tem partes desérticas ao leste e ao oeste do rio, mas está centralizado ao redor da faixa longa e estreita de solo de depósitos de aluvião 63
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    em ambas asmargens do Nilo. Esses depósitos se abrem no rico delta do rio, ao norte, onde ele se encontra com o Mar Mediterrâneo. Os palestinos mandavam emissários ao fértil vale do Nilo, para comprar cereal, quando o seu país não conseguia produzi-lo. Mesopotamia e Síria. Os vizinhos ao nordeste da Palestina constituíam o bra­ ço oriental do “Crescente Fértil” e, da mesma forma como o Egito ao sudoeste, são caracterizados por sistemas fluviais muito importantes: o Tigre e o Eufrates. Esses dois rios têm origem nas monta­ nhas ao sul do Mar Cáspio, e estão su­ jeitos a inundações sazonais. Canais, di­ ques e represas eram usados para contro­ lar essas inundações até certo ponto e pa­ ra irrigar os campos. Ruínas desses siste­ mas de irrigação ainda são visíveis em muitos lugares. A vida era mais difícil e menos estável na Mesopotâmia do que no vale do Nilo. Essa região fica ao norte do Egito e tem invernos mais frios. Os desertos e outras fronteiras que a separavam de seus vizi­ nhos eram menos restritivas, de forma que sucessivos invasores conquistaram a terra e estabeleceram as suas dinastias. A Palestina muitas vezes foi vítima dos conflitos entre o Egito e a Mesopotâmia, que travavam as suas guerras em solo pa­ lestino. A Síria não tem fronteiras geográficas fixas na Bíblia, e em várias épocas in­ cluiu a região entre o Sinai e a Mesopo­ tâmia. A Bíblia hebraica usa o nome de Harã para designá-la como o país dos arameus, que estabeleceram-se na re­ gião, colocando Damasco como sua capi­ tal, por volta do décimo terceiro século a.C. Eles chegaram ao auge de seu poder quase simultaneamente com os hebreus, na Palestina. A costa fenícia, partes do vale do Eu­ frates e partes da Palestina eram pouco mais do que províncias sírias, em uma época ou outra da história síria. II. O Mundo do Novo Testamento Logo depois da ressurreição de Jesus, os cristãos começaram a viajar para mui­ to além dos limites do mundo vetero- testamentário. As perseguições, as via­ gens missionárias e o comércio enviaram seguidores do Cristo por todas as terras mediterrâneas. Aí eles pregaram a sua nova fé, se reuniram em comunidades de adoradores e, mais tarde, estabeleceram igrejas. Lucas 2:1 diz que Augusto César rei­ nava sobre “todo” o mundo habitado. Esse Império Romano se estendia, a grosso modo, do Atlântico até o Eufra­ tes, e do Reno e Danúbio até os desertos Arábico e do Saara. Àsia Menor. Esta subdivisão é limita­ da ao sul pelo Mar Mediterrâneo e a Mesopotâmia; ao norte, pelo Mar Negro e o Mar Cáspio; ao leste, pela Armênia e Média; e ao oeste, pelas Ilhas Gregas e o Estreito de Bósforo e Helesponto. A Asia Menor teve considerável impor­ tância durante o período neotestamentá- rio. As viagens missionárias de Paulo se demonstraram frutíferas, nessa região, e resultaram em igrejas em muitas cida­ des. Foi da Asia Menor que o Espírito chamou Paulo para a Macedônia e a Grécia. Grécia. A disseminação do evangelho para o oeste logo aconteceu como resul­ tado da “chamada para a Macedônia”. As principais cidades gregas — entre elas, Corinto, Filipos e Tessalônica — tomaram-se as bases de fortes comunida­ des cristãs e contribuíram para o cres­ cimento e a disseminação da nova fé. Itália. Ao oeste da Grécia, atravessan­ do-se o Mar Adriático, fica a península italiana, com as ilhas de Sicília, Sarde­ nha e Córsega ao oeste. O evangelho foi bem estabelecido em Roma, no decorrer de uma geração, após a ressurreição de Jesus. Egito e África do Norte. As principais cidades do mundo mediterrâneo tinham 64
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    comunidades judaicas bemestabelecidas antes da época de Cristo. Foi a essas comunidades que as notícias do evange­ lho chegaram em primeiro lugar. A gran­ de cidade de Alexandria tornou-se um forte centro da nova fé cristã, e até che­ gou a competir com Roma e Jerusalém, em termos de predomínio. De Alexan­ dria, a fé cristã se espalhou em direção ao oeste, ao longo da costa norte-africa- na, a Cirene, Cartago e, possivelmente, até Gibraltar. O Mediterrâneo Ocidental. Hâ pessoas que pensam que Társis, cidade para onde Jonas fugiu (Jon. 1:3), pode ser a Espanha, e que o contato entre a Pales­ tina e a Espanha remonte à época vete- rotestamentária. Sabemos, de Romanos 15:28, que Paulo pretendia ir à Espa­ nha. Pode ser que Paulo ou alguém que fosse membro das comunidades ociden­ tais, influenciado por ele, tenha levado o evangelho à Inglaterra, invadida pelos romanos em 43 d.C. III. Palestina A Palestina é a terra a que estão li­ gadas a história e a geografia bíblicas. Embora o país seja pequeno, a sua posi­ ção é muito importante. 1. Fronteiras A Palestina é limitada pelo Mar Medi­ terrâneo ao oeste; pelo deserto ao leste; pela Síria ao norte; e pelo Egito ao sul. A fronteira setentrional mudou com fre­ qüência, por causa da sorte mutável da Síria ou de algum outro vizinho. A fron­ teira meridional era bem mais estável, devido ao deserto, que servia de limite natural entre a Palestina e o Egito. 2. Subdivisões Há pelo menos quatro zonas distintas na Palestina, como faixas que correm do norte ao sul. A Planície Costeira. Essa área se es­ tende em larguras variáveis, desde a “Es­ cada de Tiro” até o “Ribeiro do Egito”. A planície costeira dividia-se, natural­ mente, em três partes. A primeira delas era Zebulom. A planície chega a ter 7 quilômetros de largura ao norte, perto da Baía de Aco, mas no cume do Monte Carmelo não é mais larga do que uma ou duas centenas de metros. O Monte Car­ melo forma quase que uma saliência, que se projeta para o mar, neste ponto, e forma a belíssima Baía de Aco, em cujo lado norte ficava o porto de Aco (Juí. 1:31). A segunda divisão era Sharon. Do cume do Carmelo para o sul, a planície começa novamente a se ampliar, alcan­ çando uma largura de 23 quilômetros ou mais, em alguns pontos. Esta parte da planície fica entre o Monte Carmelo e o rio Yarkon, e é mencionada comumen- te como Sharon. Nos tempos bíblicos, ela era coberta por espessas florestas e tinha regiões pantanosas. A terceira divisão era a Filístia, nome dado à planície costeira do Yarkon para o sul. Os filisteus não apenas tinham as suas cinco maiores cidades nessa região — Asdode, Ascalom, Ecrom, Gate e Gaza — mas também emprestaram o seu nome a toda a região. A planície filistéia era mais monta­ nhosa do que Sharon. Não recebia tanta chuva quanto a região norte, e, por con­ seguinte, não era pantanosa nem densa­ mente arborizada. Essas suaves terras baixas eram adequadas para colheitas de cereais, oliveiras e uvas, embora, conti­ nuando para o sul, a água fosse de fato escassa. Gaza era a última cidade flores­ cente antes do deserto. A Cordilheira Ocidental. Conhecida como Cordilheira do Líbano, Planalto Ocidental ou Altiplano Judeu, esta cor­ dilheira começa alta, no Líbano, e conti­ nua para o sul, até a região do Sinai. Fendas, na superfície da terra, correndo de leste para oeste, fizeram que essas montanhas desçam em uma série de de­ graus. De Esdraelom para o norte, essa re­ gião é identificada como Galiléia. O ex­ tremo norte da cordilheira fica perto da 65
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    costa. É conhecidahoje como o Líbano, mas nos tempos bíblicos era conhecida como Fenícia. Era distinguida por suas grandes florestas de enormes cedros, que aumentavam a dificuldade de se passar por sobre as montanhas. Havia muitos portos excelentes nas costas rochosas da Fenícia, e as suas florestas propiciavam abundante madeira para os navios fení­ cios. O primeiro degrau, descendo-se das alturas do Líbano, é o planalto da Ga- liléia superior. A montanha mais proe­ minente dessa região é o Monte Canaã, que tem mais de 1.000 metros de altura, sendo a montanha mais alta da Palesti­ na, ao oeste do vale do Jordão. Todo o norte da Palestina é visível do alto do Monte Canaã. A Galiléia inferior fica ao sul de uma linha que corre para o leste de Aco, até o extremo norte do Mar da Galiléia. A sua característica dominante é que ela é composta de montanhas e vales ou pequenas planícies. É a região que, na conquista de Canaã, foi atribuí­ da a Zebulom e Naftali (Jos. 19:10,32). Esta região é comparativamente bem regada e importante para a produção de uvas, olivas, cereais e vegetais. A Planície de Esdraelom fica entre o planalto da Galiléia inferior e as monta­ nhas de Samária. Esta planície de forma triangular é ligada ao Mediterrâneo pelo ribeiro de Quisom, na Baía de Aco, e, ao vale do Jordão, pelo vale de Jizreel. Es­ draelom era mal drenada nos tempos bíblicos, e muitos exércitos antigos foram retidos em seus lodaçais traiçoeiros. O Monte Tabor, no canto nordeste dessa planície, é um dos locais que se considera tradicionalmente como o da transfiguração de Jesus (Mat. 17). As Montanhas Centrais se levantam da planície de Esdraelom, para formar, ao sul, a região conhecida como Samária, composta dos territórios de Manassés e Efraim. A Cordilheira do Carmelo tem menos de 700 metros de altura, mesmo em seus pontos mais altos, ao noroeste e ao su­ deste, e é muito mais baixa no meio, perto de Megido, onde é atravessada pelo Passo de Megido. Manassés é uma grande bacia que rodeia Siquém. Tem a aparência de um pires, por causa das terras altas que circundam as suas margens. Efraim, para o sul de Manassés, tem a forma de uma grande cúpula. É uma formação de cal de, aproximadamente, 1.000 metros de altitude, em alguns lugares, e, por­ tanto, é uma das áreas mais bem regadas da Palestina. O seu solo é fértil e excelen­ te para olivas, uvas e outros produtos agrícolas. A região de Benjamim fica entre Efraim e Judá. Talvez ela seja mais ca­ racterística devido ao seu fácil acesso pelo vale de Aijalom, vindo do oeste, e pelo vale que leva a Jericó, vindo do leste. O território benjamita era bordejado, ao norte, por Betei, e, ao sul, por Jerusalém. Judá e o Shephelah eram o território dos altiplanos de Judá. Esta região come­ ça pouco ao norte de Jerusalém, e esten- de-se até o ponto em que as montanhas cessam, ao norte da antiga cidade de Arade. Shephelah é o nome dado pelos antigos hebreus às colinas de pedra cal- cárea que ficam entre a planície filistéia e as montanhas de Judá. Esse termo signi­ fica “terras baixas” e referia-se à região imediatamente abaixo das regiões mon­ tanhosas habitadas pelos hebreus. Era uma “terra de ninguém” entre os he­ breus e os filisteus, e eles lutavam fre­ qüentemente para controlá-la. O Negev fica além do extremo sul das terras altas judaicas. Ele, na verdade, inclui a região que fica pouco ao oeste do extremo sul do Mar Morto, até a costa do Mediterrâneo, ao sul de Gaza. Berseba fica na fronteira norte do Negev. Ao sul, ele se perde nas vastidões desérticas do Sinai. Há poucas fontes e poços nessa área, e uma limitada atividade agrícola pode ser exercida em alguns lugares bai­ xos. 66
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    O vale doJordão. Mais exatamente conhecido como vale da Grande Fenda, o Jordão é uma depressão de diferentes profundidades, que corre através de toda a extensão da Palestina. A sua largura média é de dezesseis quilômetros. O rio Jordão está contido inteiramente nela. Em seu extremo norte, o vale está 600 metros acima do nível do mar, embora já tenha caído 500 metros quando chega à Palestina, nos pântanos de Huleh. Está 210 metros abaixo do nível do mar, no Mar da Galiléia, e cerca de 430 metros abaixo do nível do mar, nas margens do Mar Morto. Daí em diante, ele se eleva, até alcançar 250 metros acima do nível do mar, no Arabá, antes de cair nova­ mente para o nível do mar, no Mar Ver­ melho, em Elate. Por causa da profundidade do vale, há muitos declives íngremes e precipícios. As montanhas ao oeste estão 1.000 me­ tros ou mais acima do vale, em alguns lu­ gares, e são muito mais altas do que as que estão ao leste. O vale tem um clima caracteristica­ mente seu. É quente o ano todo, mesmo no norte, e tem condições desérticas ao sul. Onde ele é regado por fontes ou torrentes, a vegetação tropical é abun­ dante. O vale pode ser subdividido da se­ guinte maneira: Vale de Huleh, algumas vezes chama­ do de Ãguas de Merom. Esta região pan­ tanosa, muito úmida, fica a 70 metros acima do nível do mar, e é o lugar onde se encontram os vários braços do rio Jordão. Nos tempos bíblicos, era uma planície pantanosa, onde cresciam jun­ cos e arbustos. O Mar da Galiléia, no Velho Testa­ mento (Núm. 34:11), era chamado de Mar de Quinerete. O Novo Testamento (Luc. 5:1) o chama de lago de Geneza- ré.(*) Esse mar fica apenas 16 quilôme­ (*) NOTA DO TRADUTOR: O Evangelho de João chama este mar de Mar de Tiberíades (João 6: 1; 21: 1). tros ao sul de Huleh, distância em que o vale cai abruptamente 280 metros, fazen­ do com que as praias da Galiléia fiquem 210 metros abaixo das do mar Mediterrâ­ neo. É o único lago de água doce da Palestina. Tem 21 quilômetros de exten­ são e 11 a 14 quilômetros de largura. As suas águas frias, claras, de cor azul es­ cura, fervilham de peixes. Do alto das montanhas vizinhas, ele parece uma jóia bela e calma. Não obstante, é capaz de formar tempestades violentas. Os pequenos vales e planícies ao redor do mar são férteis e bem regados. O clima tropical os toma produtivos com profusão: ali se colhe uma grande varie­ dade de frutos e vegetais o ano todo. Cidades importantes, Magdala e Cafar- naum, por exemplo, ficavam às suas margens nos tempos bíblicos. A cidade de Tiberíades sobrevive até hoje. O vale do Jordão, entre o Mar da Galiléia e o Mar Morto, tem menos de 112 quilômetros de comprimento. Na sua extremidade norte, este vale é fértil e de luxuriante vegetação, especialmente ao norte da confluência dos rios Jordão e Iarmuque. Daí para o sul, o Jordão cortou o seu leito através de marga (cal­ cário argiloso) azul-cinza, e as margens do rio estão cheias de flora e fauna. Aproximadamente 24 quilômetros ao sul do Mar da Galiléia, o vale de Jizreel começa do oeste. O vale do Jordão se estreita aqui, até ter cerca de 40 qui­ lômetros, onde o Wadi Far’ah se junta a ele novamente, do lado do oeste. A mar­ gem oeste, do Wadi Far’ah até o Oásis de Jericó, é uma terra deserta, com poucas fontes e ribeiros. Ao leste do rio há muito mais fontes e ribeiros. Os dois maiores são o Iarmuque, mencionado acima, e o Jaboque. À margem leste se desenvolve­ ram mais cidades do que à margem oeste, por causa do suprimento superior de água. O Mar Morto era conhecido, nas épo­ cas bíblicas, como Mar Salgado. Ele fica na fissura mais profunda da terra, sem se 67
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    contar o fundodos oceanos. A linha de suas praias fica a cerca de 430 metros abaixo do nível do mar, e o mar, na sua metade norte, tem a profundidade de 400 metros. El-Lisan, “a língua”, é a penín­ sula em formato de barco, que forma uma protuberância a partir do lado leste. Acima dela, o mar tem 45 quilômetros de comprimento. Cerca de 22 quilômetros do mar ficam ao sul de El-Lisan, e ali ele não tem mais de 12 metros de profundi­ dade. A largura do Mar Morto varia de 3 quilômetros a 800 metros em El-Lisan, e de 13 a 16 quilômetros pouco acima desse lugar. A terra ao redor do mar é constituída de marga salgada. As praias são, em sua maioria, estreitas. Ao redor do mar, o calor é quase insuportável durante a maior parte do ano. Os famosos “Rolos do Mar Morto” foram descobertos em 1947, numa caver­ na do lado noroeste do Mar Morto. Ex­ plorações ulteriores e intensivas escava­ ções revelaram também um cemitério e restos de uma biblioteca e de alojamen­ tos, que pertenciam aos escribas que copiavam e preservavam esses antigos documentos. O Arabá é o nome geralmente dado à parte do vale da Grande Fenda, que per­ corre 176 quilômetros, desde o Mar Mor­ to até o Mar Vermelho. Este deserto desolado eleva-se desde 430 metros abai­ xo do nível do mar até 250 metros acima do nível do mar, e, depois, em degraus sucessivos, desce novamente para o nível do mar em Elate. A precipitação pluvial é esporádica; não obstante, algumas ve­ zes acontece uma violenta inundação no vale, por causa da água das chuvas que caem sobre as montanhas vizinhas. Os depósitos de cobre, em ambos os lados do Arabá meridional, têm sido explorados desde épocas pré-salomôni- cas. As minas de cobre e a estrada que liga Elate e o Mar Vermelho a regiões ao norte, são as características mais impor­ tantes do Arabá. Planalto Oriental. As montanhas des­ sa região são geralmente mais altas do que as do oeste. íngremes encostas, que descem para o Jordão, caracterizam o lado ocidental desse planalto. Não há uma linha de demarcação claramente definida entre o planalto e os desertos sírio e arábico ao leste. Uma precipitação pluvial comparati­ vamente grande resulta do elevamento e esfriamento do ar pelo elevado planalto. O deserto tem uma poderosa influên­ cia sobre a região ao leste do Jordão. Ventos quentes sopram durante a prima­ vera e o outono. Ventos congeladores chicoteiam do deserto no inverno. O planalto é caracterizado por quatro rios: Iarmuque, Jaboque, Amom e Zere- de. Eles começam perto do deserto orien­ tal, e correm para o norte, antes de se desviarem para o oeste. Há também mui­ tos regatos menores, que fluem na mes­ ma direção. Desta forma, a maior parte da água das chuvas que caem sobre o planalto mais tarde flue para o Jordão. A Transjordânia está dividida em qua­ tro subdivisões: A parte mais ao norte é Bashan. Fica, geralmente, ao norte do rio Iarmuque. É famosa por sua fertilidade e produtivi­ dade. Nos dias de Amós, era uma terra fabulosa, de riqueza e lazer, cujas mu­ lheres ele podia chamar de “vacas de Basã” (4:1). Gileade inclui, ao sudeste, o território amonita. Ele abrange a parte central da região leste do Jordão. É mais elevada e mais acidentada do que as outras re­ giões, elevando-se, ocasionalmente, a mais de 1.000 metros. O deserto fica apenas a 40 quilômetros do Jordão, em alguns lugares. O terreno é difícil de se atravessar, especialmente a parte oeste, que é coberta de florestas. As tribos de Rúben e Gade ocuparam a parte do sul de Gileade, onde Rúben continuou a sua existência nômade (I Crôn. 5:9). A parte norte de Gileade tomou-se um centro de população israelita ao leste do 68
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    Jordão, quando aPalestina do oeste tor- nou-se super-povoada. A tribo de Ma- nassés era a presença dominante ali. A margem oeste de Moabe é formada pelo litoral oriental do Mar Morto. Não existe uma linha definida separando-a de Gileade ao norte. É um platô elevado, que corre por toda a extensão do Mar Morto. O rio Amom divide Moabe em duas partes. O rio Zerede a separa do Edom, ao sul. Esses platôs variam de 600 metros ao norte de Amom até mais de 1.300 metros ao sul. De acordo com II Reis 3:4, a ati­ vidade era a pastoril. Edom começa mais ou menos na ex­ tremidade sul do Mar Morto e continua para o sul. Consiste de montanhas eleva­ das de granito e arenito, elevando-se ao leste do Arabá. Em alguns lugares, essas montanhas têm mais de 1.700 metros de altitude. Nas encostas ocidentais, elas têm uma precipitação pluvial adequada. A região é acidentada, e foi difícil de conquistar. 3. Montanhas As montanhas serviram de barreiras para passagem fácil através da Palestina. As passagens ou desfiladeiros entre elas eram guardados por cidades estratégicas. Os vales e planícies estreitas serviam à economia agrícola da Palestina. As montanhas e colinas propiciavam proteção contra os intrusos, localização para as cidades e solo para os campos e planícies. Também impediam o ar quen­ te de soprar durante as estações chuvo­ sas, fazendo-o elevar-se e resfriar-se, e depois precipitar a sua umidade em for­ ma de chuva. 4. Clima Duas estações principais caracterizam o clima da Palestina: o verão seco, de meados de maio até meados de outubro, e a estação chuvosa, durante os meses de novembro a abril. A estação chuvosa varia de ano em ano. Ela dificilmente é mais longa do que descrevemos aqui, embora algumas vezes seja muito mais curta. O verão longo e seco é minorado pelo abundante orvalho, tão característi­ co da região. A história do velo de Gi- deão, em Juizes 6:38, e as referências ao “orvalho da manhã”, em Oséias 6:4 e 13:3, ilustram a sua ocorrência. A estação chuvosa é muito menos re­ gular do que a seca do verão. Um in­ verno típico é quase que igualmente divi­ dido entre dias chuvosos e dias com pouca chuva ou nenhuma. Há anos, con­ tudo, em que a chuva começa somente em janeiro, e outros, quando ela vem abundantemente já em outubro. Granizo e neve não são desconhecidos, mas tam­ bém não acontecem com regularidade. Para o povo da Bíblia, o tempo era in­ teiramente dependente de Deus, e ele o usava à vontade, para abençoar e para castigar os seus filhos e os vizinhos des­ tes (Is. 5:6; I Reis 17:1-7). 5. Rios e Vales O vale do Jordão é, em todos os as­ pectos, o vale mais importante da Pales­ tina. Tem o seu próprio rio, e recebe os ribeiros que correm dos vários oásis que há ao longo de toda a sua extensão, além dos rios que fluem para ele, vindos das montanhas. O vale de Jizreel corre do oeste, atra­ vés da planície de Esdraelom, e dirige-se para o leste, para o Jordão, no ponto onde ficava a antiga Bete-Seã. Agora é ele uma estrada do Mediterrâneo, em Aco, para o vale do Jordão, que percorre essa depressão. Aijalom, Sorek e Elá são vales menores e mais estreitos, nas terras altas de Judá, correndo da planície da Filístia até os cumes das montanhas. Estes e outros vales e planícies serviam não apenas para conter as águas do inverno e dos ribeiros perenes, como o Jordão, mas também de centros agríco­ las, como desfiladeiros entre as monta­ nhas, e como rotas para as principais es­ tradas da antiguidade. Os grandes exér- 69
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    eitos da Históriase moveram através desses vales, por toda a Palestina. 6. Estradas e Caminhos A Palestina é a região que serve de ponte entre as duas “terras dos rios”, Egito e Mesopotâmia, ponte através da qual o tráfego comercial e militar viajou desde muito antes da época dos hebreus. A estrutura geográfica do país, a dis­ tribuição de planícies, vales e monta­ nhas eram tais que várias culturas e po­ vos podiam viver lado a lado em semi-iso- lamento. Esta mesma geografia, contudo, ditou a localização de importantes rotas internacionais, que permaneceram, vir­ tualmente, sem alteração até hoje. Estas estradas estratégicas também tomaram possível o fato de que esse país fragmen­ tado fosse unificado em várias épocas, muitas vezes sob controle estrangeiro. Havia quatro estradas principais que atravessavam a Palestina: A mais importante era a estrada cos­ teira, conhecida pelos geógrafos como a ViaMaris, “a via do mar” (Is. 9:1). Ela vai do Egito para o norte, entrando para o interior através do desfiladeiro de Me- gido, continuando pelo litoral como uma estrada de importância secundária. Em Megido, a estrada se bifurca, quando um dos braços margeia o Esdraelom ao oes­ te, depois passando por Jizreel, dirigin­ do-se para Aco, no caminho para o lito­ ral fenício. O segundo braço passa atra­ vés de Esdraelom, ao nordeste, perto do Monte Tabor, e segue o vale da Fenda, além do Mar da Galiléia e Hazor, em direção a Damasco. Os poderosos exér­ citos do Egito, Assíria, Babilônia e Pa­ lestina marcharam nessa estrada. A Estrada do Rei é o termo bíblico usado (Núm. 20:17) para designar a es­ trada que corre de Damasco para o sul, ao longo do Planalto Transjordaniano, para Elate e pontos além desse lugar. Pelo menos a parte sul-central desta es­ trada foi usada pelos filhos de Israel durante o Êxodo. A estrada da montanha ao oeste do Jordão era menos importante, embora não insignificante. Começava em Megi­ do, e se dirigia para o sul, passando por Siquém, Betei, Jerusalém e Hebrom, chegando a Berseba, onde cruzava com outras estradas. O vale do Jordão também propiciava uma topografia adequada para viagens. Havia duas estradas, uma de cada lado do rio. Essas estradas ficavam princi­ palmente entre Bete-Seã e Jericó, lugares em que se encontravam com outras estra­ das. Estas quatro estradas longitudinais fa­ ziam conexão com muitas vias latitudi- nais de importância secundária. Conclusão A geografia física da Palestina deixou a sua estampa indelével sobre o “povo do livro”. A sua própria pequenez contri­ buiu para que eles fossem fundidos em uma comunidade única. A sua topogra­ fia acidentada, montanhosa, ajudou a formar o seu espírito e influenciou a sua linguagem (Is. 5:1-7; 44:3; 51:1). A sua rochosidade forçou-os a labutar de ma­ neira inusitadamente árdua para obter “o fruto da vide” e o “pão do solo” . As suas estações climáticas alternadas de chuva e seca, orvalho e sequidão, calor e frio, abundância e fome, afetaram não apenas a rotina de sua existência diária, mas também tiveram muito a ver com o caráter de sua religião. Quando os israelitas falavam do “monte da casa do Senhor” (Is. 2:2), podiam imaginá-lo “alto e sublime” (Is. 6:1). Eles representavam a força e o po­ der de Deus com a figura de uma grande rocha de salvação e força (Sal. 62:6,7). Só precisa-se ver as maciças montanhas pétreas de muitas partes da Palestina, para entender a força desta e de outras figuras semelhantes de linguagem. Esta é a terra para onde Deus chamou Abraão e sua família. Insignificante em tamanho, contendo uma incrível varieda- 70
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    de de panoramas,não obstante, ela tem permanecido como terra de grande im­ portância por causa do drama desempe­ nhado ali, quando Deus trabalhou no povo que escolhera. Ele agiu poderosa­ mente na História, usando esse pequeno palco para realizar uma obra redentora que tem significado ímpar para toda a família dos homens. Para Leitura Adicional AHARONI, YOHANAN. The Land of the Bible. Trad, por A. F. RAINEY. Philadelphia: Westminster Press, 1967. AVI-YONAH, MICHAEL. The Holy Land. Grand Rapids: Baker Book House, 1966. BALY, DENIS. Palestine and the Bi­ ble. New York: Association Press, 1959. ________ The Geography of the Bible. New York: Harper & Brothers, 1957. ________ Geographical Companion to the Bible. New York: McGraw-Hill, 1963. SMITH, GEORGE ADAM. The Histori­ cal Geography of the Holy Land. Edição revisada. New York: Harper & Row, 1967. McCOWN, C. C. “Palestine, Geography of”, IDB, III. 626-639. SCHOFIELD, J. N. “The Geography of Palestine”, Peake’s Commentary on the Bible, p. 29-36. WRIGHT, G. E. e F. V. FILSON. The Westminster Historical Atlas to the Bible. Philadelphia: Westmins­ ter Press, 1956. Oxford Bible Atlas, (ed.) Herbert G. May. London: Oxford University Press, 1962. 71
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    A Arqueologia ea Bíblia A 5 quilômetros ao norte de Jerusalém fica um monte alto e redondo encimado por um montículo de terra rochosa. Os árabes, durante séculos, o têm chamado de Tell el-Ful, ou “o Monte dos Feijões” , porque esse alto é um bom lugar para se plantar feijões ou ervilhas. Este é o prin­ cipal ingrediente de um saboroso prato do Oriente Médio, popular durante pelo menos cinco mil anos. Ficando no alto do Monte dos Feijões, a pessoa pode ver, ao nordeste, um mon­ tículo alongado, de regular tamanho, na forma de um túmulo gigante. O povo chama esse local de Et-Tell, ou "A Ruí­ na”, porque era uma ruína quando os árabes chegaram à Palestina no século VII. Durante pelo menos treze séculos, ali se plantou trigo. Diretamente ao norte do Monte dos Feijões e do outro lado de um vale largo, está uma pequena aldeia de cabanas de teto chato, espalhadas pelo cume e pela encosta sul de outra montanha. Ela é chamada de Er-Ramah, nome que tem sido passado de geração em geração pelos habitantes do local. E, ao oeste, está outra aldeia, chamada de El-Jib, localizada-no ponto mais ele­ vado de outro montículo. O seu minare­ te, em forma de lápis, aponta para cima, para Alá, a divindade muçulmana. Num raio de 60 quilômetros, há, li­ teralmente, centenas de aldeias e montí­ culos de antigas cidades que descansam silenciosamente no alto de montes, perto de fontes de água. Eles são impressio­ nantes, mesmo para o observador casual. Um leitor da Bíblia percebe imediata­ mente em Er-Ramah o nome da cidade natal de Samuel, Ramá(I Sam. 7:15-17). E El-Jib não é outra senão Gibeom, Joseph A. Callaway cidade dos heveus, que negociaram paz com Josué (Jos. 9:3-15). Et-Tell é a bíbli­ ca Ai. E o Monte dos Feijões é, provavelmen­ te, a antiga Gibeá, a aldeia de Saul (I Sam. 10:26), cujas ruínas de sua cidade- fortaleza ficaram sem serem notadas du­ rante séculos, a poucos centímetros abai­ xo do sulco do arado do lavrador. Cobertas pelo pó dos séculos permane­ cem as cidades e aldeias da Bíblia, sobre­ vivendo pelo menos alguns de seus mora­ dores, de geração em geração. Aqui, num raio de 60 quilômetros, desenro­ lou-se a maior parte do drama da revela­ ção bíblica — muito antes que ela fosse escrita em um livro. E esta revelação foi experimentada por pessoas que viveram aqui antes que ela fosse escrita em um livro. E o livro, a nossa Bíblia, foi afe­ tado por toda sorte de influências que formam as experiências de um povo, isto é: raça, língua, geografia, instituições religiosas, política interna e externa, tra­ dições culturais, conhecimento cientí­ fico, literatura, arte, economia, conflitos de classes, etc. Para entender e inter­ pretar a Bíblia, devemos conhecer o povo que a passou para nós como legado de sua experiência com Deus. Ê verdade que podemos ficar familia­ rizados com o povo da Bíblia encontran­ do-o nas páginas da Escritura. Mas essas páginas são escritas apenas em duas di­ mensões, e uma tendência comum é su­ prir uma terceira dimensão, que faz com que o povo bíblico viva segundo as nossas experiências, e não as dele. Por exemplo, quantos programas de construção de igrejas têm sido promovidos com o texto: “Onde não há visão, o povo perece” 73
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    (Prov. 29:18, KJV)!Na verdade, a pala­ vra visão, neste versículo, significa reve­ lação de Deus, termo comum no Oriente Médio, usado em relação à profecia de Isaías (1:1), mas que descreve a sua vo­ cação original em 6:1 e ss. 1 Não é errado admoestar uma congre­ gação para exercer visão em planejar e edificar, mas encontrar este significado prático neste provérbio é impor a nossa própria maneira de pensar sobre uma palavra da Escritura, roubando-lhe o seu significado sagrado. A verdadeira dimensão de realidade e de importância, na Bíblia, é a sua pró­ pria vida, e não a nossa. Quando o povo da Bíblia vive a sua própria vida, ele nos fala. Por outro lado, se impusermos a experiência de nossa própria vida e ma­ neiras de pensar à Bíblia, o seu significa­ do torna-se confuso e a sua mensagem se perde. Uma busca importante dos cren­ tes conscientes, portanto, deve ser encon­ trar o povo de Deus que viveu na Escritu­ ra, pois ele é que comunica a Palavra viva. Encontrá-lo de verdade, é entrar em suas casas, comer a comida que ele come, conversar com ele nos seus santuá­ rios, pensar com ele em sua literatura, arte e símbolos, sofrer com ele por seus ideais e sua fé. A arqueologia bíblica é dedicada à tarefa de orientar o homem moderno na maneira como o mundo bíblico antigo vivia. Os restos materiais de cidades co­ mo Jerusalém são escavados com técni­ cas científicas cuidadosas. Desta forma, podemos conhecer e recuperar o exci­ tante drama da vida em Jerusalém, como, por exemplo, Isaías o experimen­ tou. O livro de sua profecia era o seu diálogo com o seu mundo. No contexto do santo matrimônio de sua profecia com 0 mundo ao qual ele falou nasceu a palavra legítima que ele nos fala. A arqueologia, portanto, procura descobrir 1 J. Lindblom, Prophecy ín Anctent Israel (Oxford: Basil Blackwel, 1962), p. 122-37, apresenta uma discussão compreensível do fenômeno de visões proféticas na Bí­ blia e no Oriente Próximo da antiguidade. as interações da História em qualquer período determinado, o uso de palavras que lhe emprestam significado e as equi- valências de dinheiro, pesos e medidas que focalizam a vida em termos con­ cretos. A arqueologia procura, igualmen­ te, descobrir os símbolos da arte e da literatura que comunicam a alma de um povo, as marcas de nível de informações concretas que o teólogo precisa levar em conta em sua doutrina, e um conheci­ mento do povo de Deus em seu con­ texto internacional que, no decorrer dos anos, cultiva as perspectivas e o entendi­ mento. Em suma, o legado da arqueo­ logia para a Bíblia é vida, a vida do povo que nos deu o livro. I. A Descoberta do Mundo Bíblico Há dois séculos o mundo bíblico era praticamente desconhecido. Os eruditos bíblicos desperdiçaram muito tempo de­ batendo problemas que poderiam ter sido rapidamente resolvidos com algu­ mas informações concretas. Por exem­ plo, nos dias de Martinho Lutero houve uma controvérsia não pequena sobre o fato de o mundo ter sido criado em 4004 ou em 6000 a.C. Na verdade, os dois lados seguiam cronologias em dois textos do Velho Testamento: o Texto Massoré- tico, que contém uma genealogia que apresenta a data de 4004 para a criação, e a Septuaginta, que apresenta a data de 6000 a.C. O Bispo Iightfoot, da Uni­ versidade de Cambridge, resolveu esse problema, em um clássico exemplo de como se pode sustentar informação limi­ tada com uma porção extra de imagina­ ção, quando estabeleceu o momento da criação como 9 horas da manhã de 23 de outubro de 4004 a.C. Nesse ínterim, a maior parte da histó­ ria do Egito dormia, em sinais ininteligí­ veis e símbolos desconhecidos, em hec­ tares de monumentos, em toda a exten­ são do Nilo. A história do imperialismo assírio e babilónico era conhecida, em grande parte, devido às narrativas sele­ cionadas da Bíblia. A biblioteca de 74
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    Assurbanipal, em Nínive,escondia as narrativas do dilúvio babilónico e da criação, em uma curiosa escrita em for­ ma de cunha, bem no fundo do coração do outeiro formado pelas ruínas da an­ tiga cidade.2A impressionante cidade de Jericó cobria os seus alicerces de 8000 a.C. debaixo de 25 metros de cidades e cidades sucessivas (Kenion, 39-42). E os ossos de um homem que viveu há 600.000 anos, ao sul do Mar da Galiléia, jazeu até recentemente entre os restos de 40 espé­ cimens de animais extintos debaixo do solo de aluvião de um campo de algodão (Emmanuel Anati descreve as primeiras evidências da presença do homem na Palestina na Parte II). Durante os últimos 150 anos, todavia, a história do mundo bíblico foi novamen­ te visualizada de maneira inteligível. O primeiro grande sucesso aconteceu quan­ do Champollion, brilhante lingüista fran­ cês, ainda jovem, decifrou a escrita pic- tória dos egípcios na Pedra de Rosetta, em 1822. Nos calcanhares do que ele realizou, um inglês persistente, Henry Rawlinson, encontrou a chave para a es­ tranha escrita em forma de cunha ou cuneiforme, existente nos monumentos e nas tabuinhas de argila encontrados no vale do Eufrates. Outras realizações igualmente significativas foram alcança­ das. A biblioteca real dos reis assírios, desde Senaqueribe até Assurbanipal, com o seu acervo de mais de 24.000 ta­ buinhas de barro inscritas, foi encontra­ da em Nínive em 1853. E o Capitão Char­ les Warren inaugurou escavações de campo, na Palestina, com a sua explo­ ração da Jerusalém subterrânea, em 1867. As escavações de campo têm sido exe­ cutadas em todos os países do Oriente Próximo onde e quando as voláteis con­ dições políticas o permitem. No entanto, uma estimativa conservadora foi publi­ 2 Cf. Pritchard, onde se encontram traduções do Enuma Elish (narrativa da criação), p. 60-72, e da Epopéia de Gilgamesh (história do dilúvio), p. 72-99. cada, de que apenas dois por-cento das antiguidades palestinas foram escavadas nestes últimos cem anos. Lingüistas bri­ lhantes têm esquadrinhado cada mate­ rial escrito conhecido em todo o Oriente Próximo, e as palavras dos antigos têm sido lidas, desde a alvorada da própria arte de escrever, em cerca de 3000 a.C. E a vasta pré-história (antes da invenção da escrita) do homem tem sido perscru­ tada obstinadamente até meio milhão de anos atrás na Palestina, e até quase dois milhões de anos na África Oriental. O que o próximo século tem reservado é algo imprevisível, mas, se as realizações do passado servem de parâmetro, os pró­ ximos dois por-cento da informação to­ tal serão suficientemente revolucionários para requerer, em todo momento, uma mente aberta e uma posição flexível dian­ te de qualquer problema histórico com que nos defrontemos no estudo bíblico. n . A Integridade da História da Bíblia O resultado de um século de descober­ tas tem sido um novo respeito pela his­ toricidade dos acontecimentos e das pes­ soas revelados pela Bíblia. Através das Escrituras, o alicerce histórico da revela­ ção é reivindicado. Agora podemos tecer as linhas dessa história, formando o teci­ do de história extrabíblica e estabele­ cendo firmemente a sua integridade bá­ sica. Os eruditos bíblicos, geralmente, não empreendem mais a tarefa de literalizar toda a Bíblia como história, porque ela é um livro complexo de poesia, profecia, hinos, provérbios e tradições, bem como de história concreta. E descobrimos que a história concreta é escrita nas formas contemporâneas dos tempos bíblicos. Contudo, a recuperação de numerosos sincronismos com acontecimentos extra- bíblicos e registros de outros países capa­ cita o estudioso da Bíblia a empreender o seu estudo com uma confiança nova e 75
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    sólida, que éessencial para uma fé bem firme na revelação. 3 Os anais assírios e babilónicos apre­ sentam muitas das referências que fazem eco e suplementam os acontecimentos relatados na Bíblia. O Obelisco de Sal- maneser III, uma coluna quadrada de cerca de dois metros de altura, encon­ trada em Nimrode, Assíria, registra o pagamento de tributos feito por vários reis da Síria-Palestina durante o décimo nono século a.C. (cf. Pritchard, p. 120: 351;290:351). Um painel mostra Jeú, rei de Israel, curvando-se diante do grande monarca, na única representação pictória conheci­ da de um rei israelita. Outro monumento de Salmaneser III menciona Acabe como um dos reis que lutou contra os assírios na batalha de Carcar, em 853 a.C. Sar- gão II deixou um registro de sua invasão de Samária em cerca de 721 a.C., e chegou às minúcias de notar que 27.290 cativos foram levados para a Assíria (cf. II Reis 17). Senaqueribe, arrogante con­ quistador, que devastou Judá na época de Isaías, registrou, em baixo-relevo, a captura de Laquis, em uma parede de seu palácio em Nínive. O seu cronista também deixou um relato do cerco de Jerusalém, em que ele diz trancado Eze- quias na cidade “como um passarinho em uma gaiola” ! Os sofrimentos de Judá, ao enfrentar a destruição, são descritos em II Reis 18:13-19:36 e Isaías 36 e 37. Um grande número de tabuinhas de barro inscritas, chamadas “A Crônica Babilónica” , registram a queda da Assí­ ria e o primeiro cativeiro de Judá na Babilônia. A data da rendição de Jeru­ salém a Nabucodonozor, em 597 a.C., corresponde a 16 de março, em nosso calendário!4 Este registro nos capacita a 3 Edwin R. Thiele, The Mysterious Nnmbers of the He* brew Kings (Chicago: Univ. Press, 1951), reconstrói a complexa cronologia da história do Velho Testamento, e a sincroniza com a história extrabíblica, usando principalmente registros assírios. 4 Cf. D. Winton Thomas (ed.), Documenta from Old Testament Umes (London: Thomas Nelson & Sons, Ltd., 1958), p. 80e81. calcular a destruição final de Jerusalém como tendo ocorrido em 587 a.C. Outras tabuinhas, encontradas perto da Porta de Ishtar na Babilônia, registram a en­ trega de rações ao rei Jeoiaquim de Judá, que permaneceu em prisão domiciliar, na Babilônia, de 597 até 562 a.C. E as Tabuinhas de Murashu, de Nipur, ao sudeste da Babilônia, relacionam clien­ tes judeus da casa bancária de Murashu, que alugavam terra e obtinham emprés­ timos no quinto século a.C. Eles, aparen­ temente, tinham lucrativos interesses co­ merciais, ao mesmo tempo que judeus zelosamente religiosos estavam recons­ truindo Jerusalém, sob a direção de Neemias. Outras descobertas, que se relacionam com a história bíblica, de maneira mais indireta, nos levam ao mundo inusitado dos patriarcas. Harã, em Gênesis 12:4, fora o ponto de início da emigração para a terra de Canaã, e uma comunicação regular foi mantida entre Canaã e a região de Harã até a descida para o Egito. As Tabuinhas de Mari, descober­ tas no Eufrates, ao sul de Harã, e data­ das de cerca de 1800 a.C., expressam a proximidade e intimidade das associa­ ções dos patriarcas com Harã. Várias cidades ostentam os nomes dos parentes de Abraão, possivelmente ten­ do-os recebido de suas respectivas famí­ lias. Por exemplo, há a cidade de Til- Turakhi, nome equivalente a Terá, em Gênesis 11:24. Harã, irmão de Abraão e filho de Terá, é o nome da cidade de onde o patriarca emigrou para Canaã. Era um florescente centro de caravanas e de comércio no décimo oitavo século a.C. O nome de Naor, irmão de Abraão, a quem Eliézer se dirigiu para conseguir uma esposa para Isaque, foi dado a uma cidade mencionada nos textos de Mari. Serugue e Pelegue, ancestrais de Abraão, são representados pelos nomes das al­ deias de Sarugi, ao oeste de Harã, e Pha- liga, às margens do Eufrates, ao sudoeste de Harã (cf. Wright, p. 41). 76
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    A coincidência destesnomes é dificil­ mente acidental. Pelo contrário, as Ta- buinhas de Mari propiciam um registro extrabíblico de lugares que têm os nomes de parentes de Abraão. Isso reflete os laços históricos básicos das narrativas patriarcais com uma região específica, na época em que devíamos esperar. Outros incontáveis exemplos de laços históricos entre a história bíblica e a extrabíblica poderiam ser citados, alcan­ çando até o período neotestamentário. Contudo, as referências selecionadas mencionadas acima são representativas, e devem indicar, sem dúvida, que a revela­ ção bíblica de fato foi apreendida no pal­ co dos acontecimentos históricos mencio­ nados. A união da revelação com a Histó­ ria não pode ser anulada! III. Ilustração de Palavras, Costumes e Idéias Bíblicas Durante o fim do século XIX, a ar­ queologia foi usada para sustentar idéias preconcebidas a respeito da Bíblia. Ela tomou-se uma serva na casa da teologia. Alguns eruditos estavam preocupados em provar acontecimentos bíblicos, e as informações históricas provenientes da arqueologia eram agarradas avidamente para confirmar as suas alegações. Sir Leonard Woolley descobriu uma camada de terra lodosa em Ur; esta des­ coberta foi citada como evidência his­ tórica do dilúvio de Noé (Gên. 6-9).5 O fato de que nenhuma camada de lodo foi encontrada a oito quilômetros dali foi ignorado, como o foram as evidências encontradas em Kish, Shurrupak, Nínive e Nipur, onde ocorreram inundações em épocas diferentes. Evidências como esta foram usadas, sem se levar em conta todos os fatos relacionados, para provar certas posições teológicas. A idéia, aqui, não é o proble­ ma do acontecimento bíblico do dilúvio, mas o uso de evidências arqueológicas. 5 Cf. Wemer KeUer, The Blble as History (London: Hod- der & Stoughton, 1959), p. 48*51. A arqueologia, na verdade, sustenta o conteúdo histórico da revelação bíblica, mas deve ser usada com integridade e nunca desprezando qualquer evidência, quer interna, quer extema, relacionada com a revelação bíblica. No século XIX, alguns eruditos com interesses teológicos diferentes usaram descobertas arqueológicas para ilustrar a Bíblia, porque resolviam os problemas históricos ou eles pensavam que resol­ viam. As descobertas serviram para ilu­ minar a casa teológica que esses estudio­ sos haviam edificado. Todavia, por volta de 1940, a iluminação penetrou até os alicerces de suas teorias históricas da evolução da religião de Israel, e os pres­ supostos dos liberais do século XIX fo­ ram modificados à luz das evidências concretas. Felizmente, a arqueologia logo se emancipou de seu papel de serva dos pressupostos teológicos. O homem que mais fez para liberar a arqueologia foi W. F. Albright, cujo discurso presiden­ cial, feito diante da Sociedade da Li­ teratura Bíblica em 1939, com efeito requereu um novo papel da arqueologia como uma espécie de moderadora entre as disciplinas bíblicas.6 O resultado tem sido uma geração de emocionantes des­ cobertas da Bíblia. Como moderadora entre as disciplinas de história, língua, literatura e teologia, significativas cate­ gorias de informações foram acumula­ das, que propiciaram diretrizes para o intérprete e uma base para entender o povo que ficava por detrás do livro. O papel de ilustração da Bíblia, con­ tudo, ainda é importante, quando as suas limitações são reconhecidas. Mui­ tas palavras ficariam sem significado, se o seu uso arcaico não tivesse sido redes- coberto. Por exemplo, somos informa­ dos, em I Samuel 13:19 e ss., que os filisteus tinham o monopólio da fabrica­ ção de ferro, e que os hebreus levavam as suas ferramentas agrícolas, feitas de fer- 6 “The Ancient Near East and the Religion of Israel” , Jotnmal of BIbiical Lite?ature, LIX, 85-112. 77
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    ro, para queos filisteus as afiassem. A palavra hebraica pim, no versículo 21, desafiava a tradução nas versões mais antigas, porque o seu uso não era conhe­ cido. Ela é traduzida como “lima” na versão da IBB, como na KJV, em vista do fato de que as ferramentas estavam sen­ do afiadas. Porém o seu verdadeiro significado foi descoberto em escavações que apresenta­ ram pequenos pesos de pedra marcados com a palavra pim em hebraico. Vários desses pesos foram descobertos nas esca­ vações de Jerusalém em 1963.7 É eviden­ te, partindo-se do peso do pim, que era cobrado um “pim” para serem afiados os arados, enxadões, etc., como a RSV inglesa traduz no versículo. Alguns costumes sociais obscuros e estranhos são expressos nas narrativas intensamente pessoais dos patriarcas. Por exemplo, há uma ansiedade inco- mum, em Abraão, por um herdeiro do sexo masculino (Gên. 15-17). Quando Sara não concebeu nenhum filho, ela deu Agar, sua serva egípcia, ao seu marido, como esposa secundária (Gên. 16:1 e ss.). Agar deu a Abraão um filho, e, em seguida, incorreu no ciúme de Sara, que a expulsou para o deserto (Gên. 21:10 e ss.). Os arquivos de cinco gerações de uma família hurriana, descobertos em Nuzi, lançam alguma luz realista sobre o pro­ blema familiar de Abraão (Wright, p. 43). Aparentemente, os herdeiros do sexo masculino eram necessários para a con­ tinuidade do sistema social e religioso da época patriarcal. No caso de nenhum herdeiro do sexo masculino nascer, para perpetuar o nome da família, praticava- se a adoção. As Tabuinhas de Nuzi con­ têm um regulamento a respeito da ado­ ção de um herdeiro, juntamente com a provisão de que um filho verdadeiro nas­ cido posteriormente teria precedência so­ 7 R. B. Y. Scott, “The Scale-Weights from Ophel, 1963- 64”, Paleftine Exploration Qnartaty, 1965, p. 128-139, e também as Figs. 5 e 7. bre o herdeiro adotado. Esta prática es­ clarece o dilema de Abraão, quando ele renovou a aliança em Gênesis 15:1 e ss., mas o herdeiro de sua casa era Eliézer, de Damasco, aparentemente adotado. Os contratos de casamento, segundo as Tabuinhas de Nuzi, obrigavam uma esposa sem filhos a conseguir uma serva para o seu marido, que gerasse filhos no lugar dela. Não há contratos semelhan­ tes declarados na Bíblia, mas a entrega de Agar a Abraão é evidência desse cos­ tume. Além do mais, em Gênesis 21:10- 14, quando Sara exigiu que Abraão lan­ çasse fora Agar, a escrava, porque Isa- que era o herdeiro legal, o desprazer de Abraão foi mais do que emocional. As Tabuinhas de Nuzi declaram a obrigação do marido para com uma esposa secun­ dária, o que indica que Abraão tinha o dever legal de abrigar Agar, e a inveja de Sara o forçou a agir injustamente para com Agar e Ismael. A vida familiar e os costumes sociais de Abraão são, por conseguinte, expres­ sos exatamente, e o patriarca simples­ mente viveu a sua vida na Escritura da mesma forma como a viveu na História. Com fraqueza humana, tanto quanto com força, e obrigado pelos costumes comumente aceitos em sua época, Abraão ainda teve fé para alcançar uma revelação que o vocacionou e à sua pos­ teridade a um propósito mais elevado de Deus na História. Talvez a idêia mais profunda da Bí­ blia, isto é, a da aliança, realmente não seja entendida por alguém que não con­ siga considerá-la segundo o seu signifi­ cado no Oriente Próximo. A aliança é mais do que um acordo, ou mesmo do que uma dedicação. É um estado de exis­ tência, uma relação profunda. Lemos, em Gênesis 15:17,18, por exemplo, que o Senhor fez uma aliança com Abraão, e que houve “um fogo fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre” os pedaços de um sacrifício. Um possível paralelo, encon- 78
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    trado na ÃsiaMenor, ilustra o significa­ do deste ritual de aliança e expressa a sua seriedade. Quando uma aliança era “cortada” (a palavra arcaica usada no Velho Testamento para a celebração de uma aliança), um sacrifício era prepara­ do, cortado na metade, e os participantes da aliança passavam entre os pedaços do sacrifício, como, presumivelmente, o faz uma representação da divindade. Ê pro­ vável que a tocha flamejante de Gênesis 15:17 representasse a presença de Deus e que o próprio Abraão andou entre as metades do sacrifício, costume ainda co­ nhecido na época de Jeremias (cf. Jer. 34:18 e ss.). Portanto, uma aliança era efetivada através de sacrifício, a doação de vida de que as duas partes precisavam ser confir­ madas em um novo relacionamento. A vida é misturada com a vida, e as duas partes entram em um estado espiritual e psicológico que tem analogia física no relacionamento de sangue. IV. Diretrizes Para a Interpretação da Bíblia Certos marcos de informação histórica têm sido descobertos e têm guiado o intérprete da Escritura. Ele não pode ignorá-los. O intérprete é, indubitavel­ mente, livre para procurar a mão de Deus na História, testemunhada pela Bíblia. Mas ele não está livre para criar a história de sua imaginação, em que a sua noção da revelação melhor se encaixar. Desta forma, a história é uma disciplina para o intérprete, uma disciplina tão inflexível quanto a lei. E para o intérpre­ te não há escape, pela fé, da disciplina da História. Talvez a descoberta recente mais co­ nhecida seja a figura rapidamente emer­ gente do homem pré-histórico. As evi­ dências encontradas em Jericó integram uma reconstrução cultural razoavelmen­ te completa do homem “natufiano”, por exemplo (cf. Anati, p. 139-80). De cons­ tituição delgada, ele tinha cerca de l,65m de altura, mas era muito ativo e criativo — um produtor de trigo e cons­ trutor de casas. A sua capacidade cra­ niana, de cerca de 1.500 cm3, sugere que ele tinha tanto cérebro quanto a pessoa moderna comum. E ele era um homem religioso — pelo menos, fundou a cidade de Jericó como santuário, em cerca de 8000 a.C. Não podemos saber qual era a reação de sua alma em relação a Deus nem a articula­ ção de sua adoração, porque ele viveu 5.000 anos antes da invenção da escrita. Mas ele adorava à sua maneira e segundo o seu entendimento, e vivia pacificamen­ te. De fato, o homem natufiano talvez fosse menos selvagem e sedento de san­ gue do que o homem moderno, que se tem empenhado em uma considerável guerra de morte e destruição em quase todas as gerações. Os objetos de arte do natufiano que foram encontrados sugerem que já há 10.000 anos ele tinha um ponto de vista compreensivo a respeito do mundo, uma protofilosofia que pode ter inspirado os desenvolvimentos revolucionários e novos de produção de alimentos e de edificação de cidades. O homem natufiano pertence à era do homem moderno, e não à vida aborígene. Ele é nosso. Encontrando-se em uma encruzilhada da pré-história, bem mais no passado, está o homem do Monte Carmelo. (Há 12 esqueletos desse período no Monte Car­ melo; cf. Anati, p. 105-9). Cerca de 50.000 anos atrás, do terraço de sua cavema-casa, no Monte Carmelo, ele ob­ servava cada dia o sol se levantar sobre a floresta da Palestina central. A sua face larga e plácida deixa trair o fato de que ele se rendeu aos caprichos da natureza quanto à casa — a caverna que ele pu­ desse encontrar — e quanto à comida, onde quer que acontecesse ela crescer. Da mesma forma como a maioria das pessoas que servem a senhores capricho­ sos, ele via uma pequena perspectiva na vida, e, desta forma, vivia sem pressa. Mas quando ele se levantava, no terraço 79
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    de sua caverna,eram l,65m de ho­ mem! O homem do Monte Carmelo tinha os atributos físicos do homem mo­ derno, inclusive cérebro, e os escassos res­ tos que sobreviveram à erosão do tempo sugerem que ele adorava a um deus des­ conhecido. E há outros: uma longa procissão de pessoas surgindo do passado, que está sendo iluminado cada vez à maior distân­ cia, a cada geração de pesquisas. Ali estão elas, e nenhum teólogo precisa dizer-lhes para irem embora. Precisa-se abrir caminho para o homem pré-históri­ co da época de Adão. O intérprete da Es­ critura não deve falar mais a respeito da criação do homem em 4004 a.C., porque os fatos da História não o permitem. Portanto, onde estão as diretrizes que a arqueologia fornece? A arqueologia descobriu o homem pré-histórico, e tor­ nou insustentável a opinião medieval simplista a respeito da origem do ho­ mem. Mas também propicia orientação para a descoberta do verdadeiro signifi­ cado do relato bíblico a respeito da ori­ gem do homem. A orientação provém de textos literários fora da Bíblia, que esclarecem o significado da narrativa bí­ blica. Em primeiro lugar, Adão, da mesma forma que o homem original encontrado em outros textos do Oriente Próximo, é um homem representativo, sendo derra­ mada em um indivíduo toda a humani­ dade. Ele é diferente do homem natufia- no, porque ele é a humanidade indivi­ dualizada que vive no mundo do pensa­ mento, que tem capacidade para comu­ nhão com Deus e é moralmente respon­ sável. Em segundo lugar, a sua linhagem é encontrada na literatura e na arte, e não em locais de sepultamento que os ar­ queólogos possam descobrir. A sua ge­ nealogia é muito mais sofisticada do que os eruditos suspeitavam, duzentos anos atrás, porque ela tem origem na revela­ ção progressiva da interpretação do ho­ mem, e não na evolução física de seu corpo. E, em terceiro lugar, Adão se alimenta de símbolos, e não de pão. De fato, o fruto que ele come é freqüentemente pintado como uma fruta literal, porque os símbolos têm raízes nas coisas con­ cretas e literais. Mas o fruto que Adão comeu evoca um significado que não po­ de ser contido em uma simples maçã. O fato de ele ter comido o fruto proibido gerou um potencial para a culpa nas ge­ rações da raça humana que ainda não haviam nascido, e a terrível verdade a respeito do ato de Adão criou uma emer­ gência nos céus, até mesmo nos conse­ lhos da Divindade. Adão é um homem, mas um homem representativo, que abrange de forma compacta e inteligível todos os homens, inclusive o homem pré- histórico e o homem moderno. Uma espécie diferente de perícia é necessária para escavar Adão e seu mun­ do. Por exemplo, como é que se pode conseguir uma datação da árvore da vida com Carbono 14? Na arte antiga, ela é uma palmeira, mas é a árvore da vida em seu significado simbólico em selos cilín­ dricos, ou descrita, por escrito, em tabui- nhas de barro ou na Bíblia. Ou como poderia um laboratório da Universidade Hebraica de Jerusalém descobrir os grãos de pólen da árvore do conhecimento do bem e do mal na amostra de terra apre­ sentada por um arqueólogo? Ou como poderia um geógrafo encontrar a latitude e a longitude do Jardim do Éden? Ele é um jardim representativo, um protótipo de todas as áreas templárias sagradas do vale do Eufrates inferior, compactadas em uma só. Para escavar Adão, começamos lendo as línguas mortas da Suméria, Babilônia, Assíria, bem como o hebraico. O apren­ dizado acumulado destas grandes cultu­ ras está bem trancado em sua literatura. Grande parte dele é comunicado em sím­ bolos, que são tão simples como Adão, o homem representante, ou como a árvore da vida; mas os símbolos são, ao mesmo 80
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    tempo, tão profundosque o escavador literário nunca alcança razoavelmente o leito rochoso, ao sondar o seu significado pleno. É neste mundo de símbolos históricos profundos, que fossilizaram a experiên­ cia e a sabedoria vivas, que descobrimos os ancestrais de Adão, e chegamos a conhecê-lo. E, quando encontramos Adão, encontramo-nos a nós mesmos. Por outro lado, quando encontramos o homem natufiano, o encontramos, e não a nós mesmos. Será isto falsificar Adão? De forma alguma. Ê encontrar a essência da subs­ tância histórica que existe nele, e tam­ bém o significado final, que é muito mais profundo do que os pedaços de esquele­ tos de qualquer homem, rodeado por suas ferramentas de corte e armas. A hu­ manidade, o Adão histórico, emergiu da criação, mas relacionou-se fisicamente com a terra. O seu parentesco físico é com o seu meio ambiente terrestre, algo que até os alunos de biologia aprendem no ginásio e algo que os sábios antigos sabiam antes da invenção da escrita. O seu parentesco espiritual é com Deus, em cuja imagem o homem foi criado, como ser moral, algo que aprendemos da Bíblia e aceitamos por fé. Se roubarmos a Adão o seu significado simbólico e simplesmente o literalizar- mos, o reduziremos a um indivíduo his­ tórico, para que o antropologista o es­ tude. O seu esqueleto pode ser medido, a capacidade de seu cérebro, calculada, possivelmente a contagem de seus glóbu­ los sanguíneos ser obtida por centrifu­ gação do pó de sua carne. Se isto, para nós, esgota o significado do homem da criação, teremos abandonado Adão de­ pressa demais! Perdemos o homem! Temos uma diretriz, que a arqueologia nos dá, portanto, para a interpretação dos primórdios do homem na Bíblia. Há muito mais que poderia ser dito, mesmo sobre os primórdios do homem. E também há diretrizes significativas para a interpretação da história narrada pela Bíblia, para a compreensão das vá­ rias formas de literatura e até para a interpretação das doutrinas de inspira­ ção e de revelação na Bíblia. Estas são desenvolvimentos recentes, que só agora estão encontrando expressão em periódi­ cos e livros. Mas são desenvolvimentos necessários e sadios do estudo da Bíblia, em uma época quando as descobertas científicas têm superado a pesquisa teo­ lógica, que em demasiadas vezes é me­ dieval demais em seus alicerces e sua perspectiva. Redescobrindo o mundo intelectual e espiritual da Bíblia, mediante a pesquisa arqueológica, temos a possibilidade de acrescentar, à Bíblia, nova percepção à sua verdade atemporal. Somos capacita­ dos para abordar a revelação bíblica assistidos pelas diretrizes firmes da his­ tória e da cultura do Oriente Próximo. E, trabalhando dentro das diretrizes ou da história propriamente dita, somos le­ vados ao mundo vivo da Bíblia, ao povo que nos deu a Bíblia. O legado da arqueologia à Bíblia é, portanto, vida, a sua própria vida. Para Leitura Adicional ADAMS, J. McKEE, e JOSEPH A. CALLAWAY. Biblical Backgroun­ ds, ed. rev. Nashville: Broadman Press, 1965, 232 páginas. ALBRIGHT, W. F. The Archaeology of Palestine. London: Penguin Books, 1954, 271 páginas. ANATI, EMMANUEL. Palestine Before the Hebrews. New York: Alfred A. Knopf, Inc., 1962, 453 + xvii pági­ nas. Biblical Archaeologist, The. Periódico publicado pela American School of Oriental Research, Cambridge, Massachusetts 02138. KENYON, KATHLEEN M. Archaeolo­ gy in the Holy Land. New York: 81
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    Frederick A. Praeger,1960, 326 pá­ ginas. PFEIFFER, CHARLES F. (ed) The Bi­ blical World. Grand Rapids: Baker Book House, 1966, 612 páginas. PRITCHARD, JAMES B. (ed.). Ancient Near Eastern Texts, Relating to the Old Testament. Princeton: Prince­ ton University Press, 1955, 544 pá­ ginas. PRITCHARD, JAMES B. (ed.). The An­ cient Near East in Pictures, Rela­ ting to the Old Testament. Prince­ ton: Princeton University Press, 1954, 351 páginas. THOMAS, D. WINTON (ed). Archaeo­ logy and Old Testament Study. Ox­ ford: The Clarendon Press, 1967, 493 páginas. WRIGHT, G. ERNEST. Biblical Ar­ chaeology. Philadelphia: The West­ minster Press, 1957), 288 páginas. 82
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    O Cânon eo Texto do Velho Testamento I. O Cânon 1. O Conceito de um Cânon A palavra cânon, da maneira como é usada no contexto do estudo das Escritu­ ras, refere-se à coleção rigidamente li­ mitada de livros que, segundo a comuni­ dade religiosa crê, foram dados por inspi­ ração de Deus, e são o guia básico para a regulamentação da vida religiosa e das instituições religiosas. A maior parte das grandes religiões do mundo possui uma coleção assim, com maior ou menor ên­ fase em sua origem como palavra divina, vinda da parte de Deus. A palavra portuguesa cânon pode ser procurada, quanto às suas origens, atra­ vés de uma palavra grega, até uma raiz semita antiga, que significa caniço. No grego, essa palavra veio a denotar qual­ quer coisa reta, tal como uma vara ou uma régua de carpinteiro. A palavra grega veio a ser usada metaforicamente, para referir-se a qualquer norma ou pa­ drão. Da maneira como é aplicada a uma coleção normativa de obras literárias, a palavra cânon foi, a princípio, usada pelos cristãos do quarto século. O con­ ceito de uma coleção sagrada, todavia, é muito mais antigo do que o uso dessa palavra. Antes desta designação, a lite­ ratura normativa das comunidades ju­ daicas e cristãs (essencialmente o Velho Testamento) era mencionada como a “Escritura” ou as “Sagradas Escritu­ ras”. Estas referências ocorrem em fon­ tes como Filo (primeira metade do pri­ meiro século), Josefo (que morreu pouco depois de 100 d.C.) e o Novo Testamen­ to. Embora descrito de maneiras diferen- Burlan A. Sizemore, Jr. tes, este conceito de uma literatura nor­ mativa reconhecida como a Palavra de Deus remonta, na tradição hebraica, a pelo menos à época da reforma de Josias e à descoberta do livro da lei (parte de Deuteronômio, II Reis 22 e 23), em 621 a.C. O processo do desenvolvimento e fixação do cânon devia, contudo, levar muitos séculos. 2. Os Livros do Cânon e a sua Ordem É importante reconhecer dois arranjos distintos do Velho Testamento: a ordem da Bíblia Hebraica e a ordem do Velho Testamento cristão. Quando o cânon das Escrituras Hebraicas finalmente foi fixa­ do, continha 24 livros, arranjados em três principais divisões. O número e a ordem dos livros, na Bíblia Hebraica, difere dos do Velho Testamento cristão, embora o conteúdo seja o mesmo, exceto que as tradições católicas romanas e al­ gumas das católicas ortodoxas incluem os Livros Apócrifos, que não faziam par­ te do cânon hebraico, fixado na Pales­ tina. Nas Bíblias hebraicas impressas, os li­ vros são: (1) A Lei: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio; (2) Os Profetas: profetas anteriores —Josué, Juizes, Samuel e Reis; profetas posterio­ res — Isaías, Jeremias, Ezequiel e O Li­ vro dos Doze (os profetas menores); (3) Os Escritos: Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, Rute, Lamenta­ ções, Ester, Daniel, Esdras-Neemias e I e II Crônicas. A diferença da ordem que prevalece na tradição cristã resulta do uso cristão pri­ mitivo de traduções gregas do Velho Tes­ tamento hebraico. Essas traduções gre- 83
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    gaseram arranjadas segundoos tópicos e cronologicamente (pelo menos isto era tentado — as decisões com respeito a datas não eram exatas, em todos os casos), enquanto a ordem hebraica re­ presenta um arranjo anterior, que, até certo ponto, expressa a ordem em que os materiais passaram a ser reconhecidos como Escritura. 3. A Formação do Cânon O estabelecimento do cânon do Velho Testamento foi um desenvolvimento do judaísmo posterior ao exílio. O processo pelo qual o cânon se tornou realidade tem sido rodeado de mistério, todavia o ponto de vista tradicional formulado pelo judaísmo antigo tem prevalecido através da maior parte da história da Igreja e através do judaísmo posterior. Josefo foi um dos primeiros a falar definitivamente de uma coleção de obras sacras, descrevendo uma coleção de 22 livros (provavelmente o mesmo material de que consistem os costumeiros 24, mas com Lamentações ligado a Jeremias, e Rute, a Juizes), dos quais ele disse que todos se originaram entre o tempo de Moisés e a época de Artaxerxes I da Pér­ sia, que fora contemporâneo de Esdras (Contra Apionem, I. 8, 95 d.C.). Josefo não dá a Esdras o crédito de nenhuma participação na formação do cânon, a não ser na última parte dele, mas outros escritores do período antigo davam ex­ pressão à opinião muito persistente de que Esdras fora responsável pela compi­ lação e preservação final do cânon. Contudo, é reconhecido geralmente, hoje em dia, que o processo através de que uma certa coleção de livros veio a ser considerada normativa era um desenvol­ vimento histórico que cobria um período bem extenso. Os materiais do Velho Tes­ tamento, aparentemente, receberam a sanção da canonicidade da ordem das três divisões do Velho Testamento na Bíblia Hebraica, e em cada caso o mate­ rial gozava de uma aceitação popular de longa data, antes que qualquer reconhe­ cimento de suas qualidades como palavra de Deus com autoridade lhe fosse em­ prestado. A Lei ou Tora. É inegável que a lei de Moisés ou Tora (Pentateuco) tenha sido a primeira parte do Velho Testamento a alcançar a condição de Escritura. Pa­ rece que uma parte da Tora recebeu o “status” de Escritura sagrada no período pré-exílico. O livro da lei encontrado por Hilquias, o sacerdote, que foi usado como base para a reforma de Josias (II Reis 22 e 23), era formado pelo menos de uma parte do livro de Deuteronômio. A honra emprestada a esse livro de lei indica pelo menos os primórdios do re­ conhecimento de uma coleção de leis que tinham autoridade. Depois do exílio, o ministério de Es­ dras demonstra uma expansão desta lei, e talvez indique a sua coleção quase com­ pleta. A Lei üda ao povo (Neemias 8) por Esdras evoca nele uma reação emocional profunda, seguida de atos de obediência que indicam uma submissão à autori­ dade dessa coleção. Até que ponto essa coleção estava completa não se pode sa­ ber, mas não é improvável que ela con­ tivesse a grande coleção sacerdotal de material primitivo, inclusive as narrati­ vas J e E incorporadas. Deuteronômio, já respeitado, pode ter sido juntado a essa coleção naquela época, ou, se não, isto certamente foi feito logo depois. A data destes acontecimentos é incerta, mas não foi posterior a 398 a.C.1 A Lei, a partir deste ponto, é a prin­ cipal força a moldar a comunidade ju­ daica pós-exílio. Pode ser que ela tenha sido modificada em algo e podem ter sido feitas adições nos anos subseqüentes, mas as mudanças não podem ter sido 1 A data da volta de Esdras tem sido motivo de muita dis­ cussão nos tempos modernos. Se a sua volta aconteceu no sétimo ano de Artaxerxes I, então a data tradicional de 457 é exata. Se o que significa é o sétimo ano de Arta­ xerxes II, o ano foi 398. Algumas pessoas, por emenda textual, datam a volta de Esdras em 428. Cf. John Bright, A History of Israel (Philadelphia: Westminster, 1959), p. 375-86. 84
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    substanciais. Esta Leifoi distribuída en­ tre os judeus por toda parte, e mui rapi­ damente recebeu uma posição canônica, que tomou literalmente impossível qual­ quer modificação de monta em seu con­ teúdo. Certamente a Lei foi basicamente aceita mais ou menos na época do cisma samaritano, porque ela foi conservada essencialmente na mesma forma pelas duas comunidades. A data do cisma sa­ maritano é incerta, mas não pode ser posterior a cerca de 300 a.C., e talvez foi anterior. 2 O prestígio canônico da lei, na antigui­ dade, é também atestado pela Septua- ginta, tradução na língua grega que foi feita nos meados do terceiro século a.C. Traduções não eram coisa comum no mundo antigo, e não é provável que uma obra de fôlego como esta fosse feita, a não ser que tivesse supremo valor reli­ gioso. Desta forma, estamos, provavelmente, certos, ao afirmar que a Lei recebeu prestígio canônico, isto é, alcançou uma forma fixa e final, e foi reconhecida como autoridade peculiar, por volta de 400 a.C. ou não muito depois. Os Profetas. A literatura profética está dividida em duas seções: os Profetas An­ teriores, seção comumente conhecida co­ mo livros históricos na Bíblia em portu­ guês, e os Profetas Posteriores, que inclui os três profetas maiores e os doze profe­ tas menores. Embora a literatura pro­ fética tivesse recebido muito respeito no período pré-exílico, ela, como o mate­ rial do Pentateuco, não alcançou o “sta- tus” de um corpo de Escritura com auto­ ridade, e estritamente limitado, senão depois do exílio, provavelmente bem de­ pois que o Pentateuco alcançou este “sta- tus” . A vindicação da mensagem pré- exílica de destruição, mediante os acon­ tecimentos, foi importante para o desen­ volvimento do interesse a respeito de um cânon profético, além da mensagem pro­ 2 O cisma tem sido datado de 432 a.C. a 122 a.C. Cf. Bright, p. 393-95. fética de esperança, que emprestou alen­ to à comunidade judaica, que muitas vezes quase fracassou, no período pós- exílico. É provável que o interesse sério pela coleção de um corpo de literatura profé­ tica com autoridade tenha acontecido depois que a instituição da profecia co­ meçou a se enfraquecer e a cair em des­ crédito. O esforço para formar uma co­ leção provavelmente desenvolveu-se no quarto século a.C., embora seja impossí­ vel dizer exatamente quando o cânon profético foi fixado firmemente. Parece claro que o processo foi completado pelo menos em 200 a.C., porque Jesus ben Sirac, em cerca de 190 a.C., refere-se a cada um dos indivíduos cujo nome é emprestado a livros no cânon profético, incluindo uma referência aos Doze Pro­ fetas (os profetas menores), como se eles fossem representados por um único livro, desta forma dando a entender toda a coleção. O fato de que o livro de Daniel, que recebeu a sua forma final no se­ gundo século a.C., não conseguiu entrar no cânon profético, mas foi incluído na terceira seção, sugere que o cânon pro­ fético foi encerrado antes de seu apareci­ mento. É bem provável que, para muitos dos judeus, o cânon profético foi encerrado e já gozava de um lugar de importância semelhante ao gozado pela Tora no fim do terceiro século a.C., embora, para grande parte do judaísmo, a lei mosaica devia permanecer como a regulamenta­ ção básica para a vida. Os Escritos. Há uma homogeneidade literária no Pentateuco e nos Profetas, que falta aos Escritos ou Hagiógrafa, a terceira seção do cânon do Velho Testa­ mento. Esta seção inclui uma tremenda variedade de materiais, que se origina­ ram em períodos enormemente diferen­ tes da História. A primeira indicação clara de que esta coleção de literatura estava alcançando condição canônica apareceu em uma declaração do neto de 85
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    Jesus ben Sirac,no prólogo de sua tradu­ ção da obra de seu avô para o grego, em cerca de 132 a.C. Ele menciona “a Lei e os Profetas e os outros livros dos nossos antepassados”, sendo presumivelmente feita esta última alusão essencialmente aos materiais que posteriormente vieram a compor a terceira parte do cânon he­ braico. O material que veio a compor a Hagió­ grafa provavelmente nunca se igualou à Lei e aos Profetas, em significado, para a comunidade hebraica, e, de fato, os ma­ teriais canônicos anteriores provavelmen­ te serviram como uma das bases para o julgamento do uso dos materiais poste­ riores. Dentre os materiais que constam dos Escritos, o Saltério, provavelmente, foi o mais importante, e foi o primeiro a ser honrado como a Palavra de Deus. Ele é, de fato, algumas vezes usado como nome da coleção toda (Luc. 24:44). Fatores vários, provavelmente, entra­ ram no processo da elevação dos vários livros à canonicidade. Muitos dos livros eram associados com nomes de pessoas meritórias, da antiguidade, e isto facili­ tou a sua aceitação (v.g., o nome de Salo­ mão com Provérbios, Eclesiastes, Cânti­ co dos Cânticos, Daniel com um profeta do sexto século, etc.). Alguns dos livros aparentemente gozavam de uso litúrgico regular, especialmente Salmos e Lamen­ tações, e Ester era associado com a popu­ lar Festa de Purim. Rute pode ter sido associado com o livro de Juizes, visto que ele se desenrola no mesmo período; e Esdras-Neemias e as Crônicas represen­ tam uma obra histórica semelhante à dos Profetas Anteriores, e também podem ter sido importantes por causa de sua exal­ tação da Lei e da adoração. Sejam quais tenham sido as razões para a canonização, houve discordância substancial acerca do fato de alguns des­ ses livros merecerem ou não um lugar no cânon da Escritura sagrada (especial­ mente Ester, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes), e finalmente determinou-se que alguns deles eram Escritura tão-so- mente por ato de um Concílio. As deci­ sões tomadas pelo Concílio de Jâmnia, em aproximadamente 90 d.C., a respei­ to do conteúdo do cânon, provaram ser definitivas, embora nem mesmo essas decisões não ficassem sem serem desafia­ das. O fato de Josefo e IV Esdras po­ derem falar do que parece ser um cânon terminado, em cerca de 100 d.C., indica que não houve discordância substancial depois deste ponto. O trabalho do Con­ cílio de Jâmnia foi, provavelmente, es­ timulado pelos desafios feitos ao judaís­ mo normativo, que fez com que fosse muito importante decidir sobre um câ­ non fixo da Escritura, que serviria como base para a fé e a prática religiosa ju­ daicas. Os Apócrifos e Pseudepígrafes. Os ma­ teriais que finalmente vieram a compor o cânon fixo indubitavelmente não exau­ rem os materiais que eram considerados importantes pela comunidade primitiva. Muitos livros, que para muitas pessoas tinham a autoridade de Escritura, nunca foram incluídos no cânon. O cânon foi produto da vida judaica na Palestina, e, na Diáspora, especialmente em Alexan­ dria, houve outras obras que parece te­ rem sido honradas de maneira igual à deferência prestada aos materiais que foram incluídos no cânon palestino. Es­ tas obras foram traduzidas para o grego, e circularam com o restante das Escri­ turas Gregas. Esses livros, que foram incluídos nas Escrituras Gregas, mas nunca haviam sido aceitos no cânon palestino, são mui­ to importantes para o cristianismo, por­ que a igreja primitiva usava as Escrituras Gregas, e, desta forma, para a maior parte dos cristãos primitivos, esses livros eram usados juntamente com o mate­ rial incluído no cânon palestino, e usa­ do presentemente como Velho Testa­ mento pela cristandade protestante. Es­ tes livros, contidos nas antigas Escrituras Gregas, mas nunca no cânon palestino, são hoje em dia conhecidos comumente 86
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    como os Apócrifos.Eles aparecem como Escritura na Bíblia Católica Romana e na de certas comunhões ortodoxas, e foram usados extensivamente no seio da cristandade até a época da Reforma Pro­ testante, quando o cânon hebraico pales­ tino se tornou normativo para um grande segmento da cristandade. Esses livros, de valor variado, são I e II Esdras, Tobias, Judite, adições ao livro de Ester, Sabe­ doria de Salomão, Eclesiástico, Baruque, História de Susana, Cântico dos Três Fi­ lhos, História de Bei e o Dragão, Oração de Manassés e I e II Macabeus. Houve outros materiais hebreus im­ portantes, que não foram aceitos nem nas Escrituras Hebraicas nem nas Bíblias Gregas. Estes livros são geralmente cha­ mados de Pseudepígrafes, palavra que significa “títulos falsos” . Esta descrição não é inteiramente exata, mas origina-se do costume de atribuir novos materiais a homens da antiguidade, tais como os “Testamentos dos Doze Patriarcas” e “O Livro de Enoque”. Alguns desses materiais, contudo, são tão antigos quanto materiais que foram incluídos no cânon; por isso parece que, em sua maior parte, eles foram rejeitados deliberada­ mente. Muitos deles mereceram elevada consideração da comunidade da igreja primitiva, e, em sua grande parte, nós o conhecemos por causa de sua preserva­ ção, efetuada pela igreja primitiva, fre­ qüentemente na linguagem da comuni­ dade eclesiástica que os usava. II. O Texto 1. O Problema do Estudo do Texto Sempre que uma comunidade religio­ sa depende de tradição escrita, para a sua identidade básica, é extremamente importante, para essa comunidade, que o texto de sua literatura sagrada seja pre­ servado, sem modificação de sua forma mais antiga e mais pura. Visto que o Velho Testamento é básico tanto para a comunidade judaica quanto para a cris­ tã, uma atenção substancial tem sido dada à preservação de seu texto, e isto tem sido feito em uma variedade de situações históricas. Por mil anos o texto do Velho Tes­ tamento tem permanecido estável. As nossas Bíblias Hebraicas são baseadas em manuscritos do nono e décimo sé­ culos d.C. Tal estabilidade, no entanto, pertence à era moderna, visto que o pro­ cesso através de que se alcançou esta estabilidade foi longo e confuso. A prin­ cipal tarefa da crítica textual do Velho Testamento é a de traçar as origens, tão longe quanto possível, da transmissão do texto do Velho Testamento através dos anos da sua formação, e procurar des­ cobrir as formas textuais mais antigas e melhores, embora isto nunca possa signi­ ficar a recuperação de um texto original. Embora isto possa ser teoricamente pos­ sível, precisamos presumir que nunca podemos esperar ter algo melhor do que o resultado de muitas gerações de copis­ tas. Precisamos presumir que toda a lite­ ratura do Velho Testamento passou por um período de uso em que não lhe foi concedida a condição de literatura canô­ nica, até que mais tarde houve um grau de esforço para preservar a sua exatidão em todos os detalhes. Além disso, somos forçados a reconhecer que mesmo depois que foi estabelecida a canonicidade, hou­ ve tradições textuais divergentes e só muitos anos depois uma única tradição textual prevaleceu. 2. A História do Texto do Velho Testa­ mento O texto hebraico que serve de base para a Bíblia Hebraica que usamos atualmente é chamado de Texto Masso- térico, nome advindo dos eruditos ju­ deus conhecidos como massoretas, que conscientemente se dedicavam à preser­ vação da tradição textual que haviam recebido. O texto básico que eles preser­ varam tão cuidadosamente parece ter sido aceito como normativo por muitos judeus (especialmente na Palestina) no começo do segundo século d.C. 87
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    Alguns estudiosos achamque um úni­ co manuscrito foi aceito como texto de autoridade, em cerca de 100 d.C., e foi a base de todas as tradições textuais que se seguiram. A maioria dos eruditos agora argu­ menta que pode ser que não tenha havido um único manuscrito que fosse aceito como normativo, mas grande parte deles concorda que deve ter havido um estrei­ tamento e restrições severas de formas textuais nessa época. É bem provável que a fixação de uma forma de autoridade do texto tenha coincidido com a fixação do texto do cânon do Velho Testamento (veja acima). O término da tarefa é geral­ mente associado com a obra do Rabi Akiba, que morreu em 132 d.C. O estabelecimento de uma forma tex­ tual de autoridade, no fim do primeiro século, não significou o fim de diferentes tradições concernentes à forma apropria­ da dos textos bíblicos. Desenvolveram- se, obviamente, mais do que um conjun­ to de tradições a respeito da forma apro­ priada do texto, tendo sido preservadas as principais versões delas na Babilônia e na Palestina. Havia importantes concen­ trações de atividade de escribas judeus nessas regiões, especialmente depois do drástico abalo infringido à vida judaica em seguida ao fim da rebelião de Bar Cochba e à vigorosa supressão dos judeus executada pelos romanos em 135 d.C. A forma palestina do texto estava destina­ da a tornar-se definitiva. O texto básico estandardizado ou pa­ dronizado no começo da era cristã era essencialmente um texto consonantal. Isto é, não havia maneira de se escrever todas as vogais necessárias para se pro­ nunciar as palavras.3 Durante o período massorético, desen­ volveu-se um sistema padrão de se es­ crever as vogais hebraicas. Parece que durante esse período houve tradições 3 Muito antes disto, as consoantes haviam sido usadas no texto para indicar algumas vogais, embora este siste­ ma fosse incompleto e irregular. Esses sinais vocálicos eram chamados de Matres Lectiones. substancialmente diferentes em relação à maneira apropriada como o antigo texto hebraico devia ser pronunciado, e, à medida que as divergências e os proble­ mas de memória cresciam, com o passar dos anos, tomou-se gradativamente im­ portante que as vogais fossem escritas no texto. Técnicas para se escrever as vogais se desenvolveram entre escolas de massore- tas palestinos e babilónicos, e o processo parece ter recebido impulso bem subs­ tancial com o aparecimento de uma seita de judeus conhecidos como Caraítas, que se preocupavam extremamente com a transmissão e interpretação exata das Escrituras Hebraicas. Embora eles não pertencessem a comunidades rabínicas que mais tarde desenvolveram o sistema de pontos vocálicos que prevaleceu, a ênfase deles provocou os eruditos rabí- nicos a desenvolverem um sistema com­ pleto de pontos vocálicos e a padroniza­ rem a pronúncia. O sistema de vocalização que poste­ riormente prevaleceu foi o desenvolvido entre os massoretas palestinos na comu­ nidade de Tiberíades. O seu sistema era o esquema de pontos vocálicos familiar ao moderno estudante de hebraico. Há mui­ tas evidências de que a reconstrução de um sistema de vocalização pode ter sido um tanto artificial, porque algumas tes­ temunhas textuais indicam uma pronún­ cia inteiramente diferente para algumas palavras. O novo sistema é chamado de tiberiano, e deve ser distinguido dos sis­ temas palestino e babilónico anterio­ res. O término da atividade massorética, o oitavo e o décimo séculos d.C., aconteceu em Tiberíades, onde havia duas famílias massoréticas principais: ben Asher e ben Naphtali. Essas duas famílias preserva­ ram edições revisadas do texto ligeira­ mente diferentes, com variações na voca­ lização. O texto ben Asher veio a ser o texto geralmente aceito, embora reda­ ções ben Naphtali muitas vezes tenham sido usadas em manuscritos posteriores. 88
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    3. O TextoProtomassorético A tarefa de se determinar a condição do texto do Velho Testamento na época pré-cristã é ingente. Os antigos Sopherim (homens do Livro), antecessores dos mas- soretas, começaram já no quarto século a.C. a estabelecer elaboradas salvaguar­ das contra a intrusão de erros no texto. O seu trabalho foi executado muito antes do surgimento do texto consonantal, que se tornou a base do Texto Massorético, e o problema tem sido determinar se esses escribas preservaram uma variedade de formas textuais que competiam entre si ou se um texto foi aceito unanimemente como normativo, em época bem remota. Até bem recentemente não havia nenhu­ ma evidência disponível que lançasse luz sobre este problema, exceto a presença do texto da Septuaginta, que obviamente subsistia em uma forma muito mais anti­ ga do que o texto hebraico recebido do décimo século d.C. A antiguidade do texto da Septuaginta não dá, entretanto, nenhuma indicação verdadeira de que ela preservou uma edição revisada me­ lhor do texto do que os seus correspon­ dentes hebraicos, representados por ma­ nuscritos posteriores. A Septuaginta tem permanecido sus­ peita para muitos estudiosos, antes de tudo porque é muito difícil chegar a qualquer consenso definitivo a respeito do caráter do texto original dela. Ele é representado em muitas variedades, de diferentes períodos e lugares, e é até representado por traduções em línguas estrangeiras, para as quais serviu de base. A dificuldade em se determinar um texto original da Septuaginta é manifes­ ta quando qualquer tentativa significati­ va é feita para se comparar a Septuagin­ ta com o Texto Massorético. Outro aspecto do problema do uso da Septuaginta para a crítica textual é a contínua incerteza a respeito da qualida­ de da tradução. Será que as diferenças com o Texto Massorético realmente ex­ pressam uma forma textual diferente, ou são simplesmente indicações de que os tradutores eram ineptos ou inclinados ao excessivo uso de paráfrases, quando fize­ ram a sua tradução? Outra fonte possível para a crítica textual tem sido o Pentateuco Samarita- no, a Escritura da seita palestina cuja origem remonta a um cisma com o ju­ daísmo pós-exílico. Não há dúvida de que o Pentateuco Samaritano representa uma tradição textual diferente, embora tam­ bém seja provável que algumas de suas variações representem um colorido sectá­ rio ou redações introduzidas pelos escri­ bas de sua comunidade, na transmissão do texto. As possibilidades de uma crítica sig­ nificativa do texto hebraico foram modi­ ficadas com o aparecimento dos rolos de Qumran, em 1947.4 Há muito tempo se supunha que ma­ nuscritos hebraicos genuinamente anti­ gos não existiam, e, desta forma, presu­ mia-se que a crítica teria que permanecer altamente especulativa. As descobertas iniciais, com os grandes rolos de Isaías, foram emocionantes, mas estas foram seguidas muito rapidamente pelas volu­ mosas descobertas da Caverna IV e ou­ tras localidades. Muito rapidamente a maioria dos livros do Velho Testamento estavam representados, pelo menos em forma fragmentária, e o mundo erudito defrontou-se com a tarefa de examinar uma grande quantidade de material que era mais antigo do que o Texto Masso­ rético fixado. Os rolos, provavelmente, datam do fim do terceiro século a.C. até os primeiros anos da era cristã. Embora até agora o trabalho de inter­ pretação dos rolos não esteja completa­ do, e muitos estudiosos ainda estejam dando atenção a eles, várias observações podem ser feitas a respeito de seu signifi­ cado. Em sua maior parte, os rolos não representam nenhuma variante impor­ 4 Outros rolos antigos do Wadi Murabba’at, datando de cerca de 135 d.C., oferecem testemunhos textuais adi­ cionais. Os rolos do Wadi Murabba’at confirmam o Texto Massorético recebido. 89
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    tante de nossastradições textuais, que demandem uma reconsideração séria do significado do material canônico. Contudo, é muito importante observar que os rolos representam várias tradições textuais, e é significativo notar que aque­ les sectários não tinham nenhum escrú­ pulo em preservar diferentes tradições textuais dentro de sua comunidade. Há lugares em que o texto dos rolos de Qumram confirma claramente a tradi­ ção textual sustentada pela Septuaginta, em contraposição ao Texto Massorético. Isto torna-se evidente a partir de um es­ tudo cuidadoso dos livros históricos e es­ pecialmente do livro de Jeremias, cujo texto difere substancialmente na Septua­ ginta, em contraposição ao Texto Masso­ rético. 5 As evidências são suficientes para con­ firmar o significado da Septuaginta para a crítica textual. As evidências dos rolos também tomam claro que o Pentateuco Samaritano, semelhantemente, represen­ ta tradições textuais antigas. Os rolos também representam, substancialmente, o Texto Protomassorético. Os rolos tornam claro que houve vá­ rias tradições textuais estabelecidas, em existência, antes da fixação substancial do texto, no começo do segundo século d.C. Havia, provavelmente, formas do texto transmitidas primordialmente no Egito, na Palestina e na Babilônia. Eles também demonstram que o texto padro­ nizado na época do Rabi Akiba não foi um texto criado na época, mas represen­ tava uma escolha ou seleção dos textos disponíveis. Desta forma, podemos estar certos de que o nosso texto recebido tem sido preservado, sem modificações subs­ tanciais desde épocas bem remotas. 4. Versões do Velho Testamento Várias versões antigas propiciam in­ formações adicionais para um estudo do 5 Grande parte das informações disponíveis para a inter­ pretação desses dados provieram de publicações de Frank Cross. Cf. Para Leitora Adicional. texto do Velho Testamento. A dissemi­ nação da Bíblia em línguas do mundo todo começou cedo, e nunca cessou. Logo depois do exílio babilónico, pará­ frases populares do Velho Testamento apareceram na língua aramaica. A prin­ cípio elas eram orais, porém, mais tarde, foram reduzidas à forma escrita, e che­ garam a nós em uma forma estabilizada, durante o começo da era cristã. Essas traduções aramaicas, chamadas Tar- guns, foram preservadas em várias for­ mas, sendo a mais importante o Targum Onkelos (o Pentateuco) e o Targum Jo- nathan (os Profetas). Temos tido ocasião de mencionar a Septuaginta, porém houve outras impor­ tantes versões gregas. Uma das mais importantes foi a de Ãqüila, um judeu prosélito de Ponto, que fez uma tradu­ ção literal, de baixa qualidade, do he­ braico, em cerca de 130 d.C. Uma segun­ da e importante tradução, a de Teodócio, é também do segundo século. Teodócio demonstra ter dependido muito da Sep­ tuaginta. Ainda mais tarde, naquele mesmo século, apareceu uma terceira tradução para o grego, de Symmachus, um trabalho no grego fluente, algumas vezes até ao ponto de sacrificar o sentido do hebraico. O cristianismo primitivo foi, provavel­ mente, responsável pela primeira tradu­ ção no siríaco, aparecendo estas obras no segundo século ou pouco antes. A tradu­ ção siríaca padrão veio a ser chamada de Peshita. A tradução siríaca, provavel­ mente, foi levada para o Ocidente por missionários cristãos primitivos. As primeiras versões latinas do Velho Testamento apareceram no Norte da Ãfrica, no fim do segundo século d.C. Estas primeiras traduções, chamadas de versões Velhas Latinas, foram substituí­ das pela Vulgata, traduzida por Jerôni- mo, em resposta a um pedido do Papa Damascus, em cerca de 382 d.C. A Vul­ gata tomou-se a Bíblia da Igreja Católica Romana. 90
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    Outras versões antigasapareceram em conexão com a disseminação da cristan­ dade primitiva. Entre essas, estão a Góti­ ca (século IV), a Armênia (século V), a Georgiana (século V), a Etíope (século IV) e as versões arábicas (a data da pri­ meira versão é desconhecida, mas exis­ tem até hoje fragmentos do século IX). Para Leitura Adicional CROSS, FRANK M. The Ancient Libra­ ry of Qumran. London: Gerald Duckworth & Co., Ltd., 1958, p. 124-45. EISSFELDT. OTTO. The Old Testa­ ment. Trad, para o inglês por PE­ TER R. ACKROYD. New York: Harper & Row, 1965, p. 560-721. JEFFEREY, ARTHUR. “The Canon of the Old Testament”, The Interpre­ ter’s Bible. Nashville: Abingdon, 1952, p. 32-45. KENYON, FREDERIC. Our Bible and the Ancient Manuscripts. New York: Harper & Row, 1958. NOTH, MARTIN: The Old Testament World. Trad, para o inglês por VICTOR I. GRUHN. Philadelphia: Fortress Press, 1966, p. 301-58. PFEIFFER, ROBERT H. “Canon of the Old Testament” , The Interpreter’s Dictionary of the Bible. Nashville: Abingdon, 1962,1, p. 498-520. ROBERTS, B. J. The Old Testament Text and Versions. Cardiff: Univer­ sity of Wales Press, 1951. THOMAS, D. WINTON. “The Textual Criticism of the Old Testament”, The Old Testament and Modern Study. Oxford: Oxford University Press, 1951, p. 238-63. WURTHWEIN, ERNST. The Text of the Old Testament. Trad, para o inglês por PETER R. ACKROYD. Oxford: Basil Blackwell, 1957. 91
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    A História deIsrael O Velho Testamento não tenta escre­ ver uma história de Israel. Pelo contrá­ rio, ele dá o seu testemunho da obra de Deus no estabelecimento da nação. Os hebreus foram o primeiro povo da anti­ guidade a ter um senso de história. Os seus contemporâneos pensavam em ter­ mos cíclicos e concebiam a história em termos de repetição. O Velho Testamen­ to considera Deus como dirigindo os acontecimentos em direção ao alvo da re­ denção de sua criação. Os seus escritores estavam interessados nos marcos ao lon­ go do caminho. Detalhes que nos teriam fascinado não eram de interesse para eles. Pelo contrário, cada acontecimento apresentado pelos escritores bíblicos é usado com um objetivo teológico. Aos primeiros livros do Velho Testa­ mento (Gênesis a Deuteronômio), que tratamos como história, eles chamavam de lei (Pentateuco); de Josué a II Reis eles chamavam de Profetas Anteriores. Para os hebreus, a história devia ensinar aos homens a vontade de Deus e adver­ ti-los a respeito de seu futuro. Eles pre­ gavam a sua história e criam que ela pre­ figurava o futuro do povo de Deus. De fato, ela era a “história da salvação”. 1 Neste estudo, tentaremos fazer o que os escritores bíblicos nunca pretenderam fazer. Procuraremos alcançar o que está por detrás do testemunho que eles deram acerca dos acontecimentos, para destilar a essência da História a partir da inter­ pretação deles. Visto que os escritores da Bíblia apresentam dados tão incompletos e frustrantes, muitos eruditos dizem que tal empreendimento não pode ter suces- 1 Alan Richardson, “Salvation”, IDB, IV, 170-71. Clyde T. Francisco so. Contudo, a arqueologia está preen­ chendo rapidamente as lacunas. Os acontecimentos da história de Israel fo­ ram os alicerces sobre que eles edifica­ ram a sua teologia. A teologia hebraica sem acontecimentos é semelhante a um espírito sem um corpo. Embora seja apropriado dizer que a teologia do Velho Testamento é a principal preocupação do intérprete, o edifício não pode permane­ cer em pé sem um alicerce firme. O testemunho histórico dos hebreus é apresentado a partir de três fontes bá­ sicas: (1) tradições populares antigas, especialmente em Gênesis-Êxodo; (2) a interpretação deuteronômica do passado de Israel, encontrado em Deuteronômio- II Reis; e (3) a história sacerdotal, que forma o arcabouço de Gênesis-Números, mas é suplementada por I e II Crônicas, Esdras e Neemias. As primeiras tradi­ ções de Gênesis remontam à antiguida­ de, mas foram escritas pelo menos por volta de 950-850 a.C., na época de Salo­ mão ou Josafá. A história deuteronômi­ ca, contendo materiais primitivos, mui­ tos dos quais são tão antigos quanto a época de Moisés, foi colocada em sua forma final mais ou menos na época da queda de Jerusalém (587 a.C.) e apresen­ ta a perspectiva daqueles tempos. Por outro lado, a história sacerdotal, que semelhantemente usou tradições an­ tigas, algumas muito mais antigas do que Moisés, foi escrita durante o exílio babi­ lónico (c. 500 a.C.) e revela os pontos de vista do grupo sacerdotal daquele perío­ do. Além do mais, o cronista fala a partir da situação vivencial de 350 a.C. Segun­ do a vontade de Deus, esses vários teste­ munhos foram preservados para serem 93
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    usados com ofim de se alcançar uma perspectiva significativa da história de Israel. É óbvio que as fontes falam-nos com mais clareza quando tratam de aconte­ cimentos que haviam ocorrido em época próxima àquela em que foram escritos. Quanto mais tempo os materiais foram sendo transmitidos oralmente, antes de serem escritos, mais fragmentados fica­ ram e mais sujeitos foram a revisões du­ rante a transmissão. Não obstante, em todo este processo, um cerne sólido de dados permanece, fornecendo-nos evi­ dências confiáveis dos atos poderosos de Deus na História. As tradições primeiras de Israel são mais claras e mais comple­ tas do que quaisquer outras no mundo antigo.2 Outro problema surge: distinguir entre a natureza do evento preservado na in­ terpretação e a interpretação dada a esse evento por diferentes escritores. Embora tanto os escritores deuteronômicos quan­ to os escritores sacerdotais tratem em comum de muitos acontecimentos, eles muitas vezes lhes dão diferentes inter­ pretações (cf. II Sam. 24:1 e ss. e I Crôn. 21:1 e ss.; a primeira interpretação atri­ bui a Deus o que a última aplica a Sata­ nás). Estas perspectivas diferentes preci­ sam ser consideradas seriamente, mas quando elas são vistas como suplementa- doras uma da outra, enriquecem a nossa compreensão da ocorrência original. I. Promessa e Cumprimento As antigas tradições de Israel se agru­ pam ao redor do tema da eleição-pro- messas de Deus e sua fidelidade à sua palavra. Isto é apresentado contra o som­ brio pano de fundo do pecado e da infi­ delidade do homem. No entanto, Deus continua avançando firmemente em dire­ ção ao cumprimento de seu propósito. O que ele começou em sua.graça, com­ pletará no devido tempo. Ele apenas espera a reação do homem que, embora 2 W. F. Albright, “The Biblical Period”, Tbe Jews, ed. Louis Finkelstein (New York: Harper, 1949), 1,3. lenta em manifestar-se, precisa preceder os seus atos confirmadores. As velhas histórias que eram comuns ao povo do Oriente Próximo da antigui­ dade, a respeito da criação e do dilúvio, eram consideradas pelos hebreus à luz dos propósitos redentores do Deus de Israel; e as narrativas de seus ancestrais, transmitidas de pai para filho, se unifi­ cavam ao redor desse tema obrigatório. O homem fora criado para servir a este Deus santo, e todos os seus problemas se originavam de sua recusa em fazê-lo. As antigas histórias de Abraão, Isaque e Jacó eram consideradas como fase ini­ cial de um padrão claro: a iniciativa de Deus no meio do trágico fracasso do ho­ mem. O que ele prometera voluntaria­ mente a Abraão, cumprira para Israel, que não era merecedor, preservando mi­ raculosamente, livrando e estabelecendo os israelitas como nação. 1. A Época Patriarcal As narrativas a respeito dos ancestrais dos hebreus não têm paralelo no mundo antigo. Em riqueza de detalhes, qualida­ de literária e percepção teológica, elas são ímpares. Elas nos informam que os antecessores dos hebreus migraram da Mesopotâmia para Canaã, e vaguearam pela Palestina sustentados pela promessa de Deus de que um dia aquela região pertenceria à sua posteridade. Muito pouco se sabe a respeito desse estágio preparatório da história de Israel, exceto o que lemos em Gênesis. A arqueologia tem confirmado o qua­ dro veterotestamentário dos tempos pa­ triarcais. Nomes semelhantes aos regis­ trados em Gênesis eram comuns na Me­ sopotâmia durante a época quando os patriarcas devem ter vivido. E também foi somente durante esse período que eles poderiam ter vagueado livremente atra­ vés de Canaã, como Gênesis relata. Os costumes revelados pelas histórias são coerentes com o que agora sabemos ter sido a situação durante aquela época. A exatidão com que as condições políti- 94
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    cas e sociaisforam apresentadas é evi­ dência significativa do cuidado com que as tradições foram preservadas. Podemos presumir com segurança, portanto, que os antepassados dos he­ breus lhes transmitiram uma convicção de que o seu Deus tinha um objetivo especial para com eles na História, que incluía a futura posse de Canaã como terra da Promessa. Eles nunca viveram para ver o cumprimento de seus sonhos, mas morreram confiantes em que uma geração posterior veria confirmadas as promessas inabaláveis de Deus. A única parte da Palestina que eles possuíram foi uma caverna para sepultamento em Macpela, onde os seus corpos foram co­ locados, como amostras de sua esperan­ ça. Eles não foram enterrados em terra estranha, mas em sua própria terra. 2. O Êxodo do Egito Geralmente os eruditos hodiernos con­ sideram que os séculos catorze e treze a.C. marcam os primórdios de Israel como nação, embora os patriarcas tives­ sem vivido vários séculos antes (c. 1700 a.C.). Foi na experiência do Êxodo (c. 1250 a.C.) que uma família tomou-se uma nação — várias tribos, um povo. A fuga do Egito. Embora não haja razão para se questionar o fato do Êxo­ do, restam muitos problemas difíceis de resolver. Eles giram em tomo do número de pessoas que participaram da experiên­ cia, da constituição das tribos partici­ pantes e da rota da viagem do Egito à Palestina. Com respeito aos números, Israel, quando entrou em Canaã, devia ser su­ ficientemente numeroso para efetuar a destruição de grandes cidades da Pales­ tina. Com respeito à constituição das tribos, é possível que nem todos os he­ breus tenham ido ao Egito com Jacó. Ou­ tros, provavelmente, deixaram o Egito antes que tivesse terminado a peregrina­ ção de todo o povo ali. Ê também pro­ vável que elementos não-hebreus tenham sido absorvidos pela vida tribal de Israel. Dentre esses estavam Calebe (Núm. 14:6)(*) e Hobabe (Núm. 10:29). Quan­ do eles se juntaram a Israel, poderia ter sido dito, com verdade, que, mediante esse ato de identificação, eles se toma­ ram parte desse povo, e verdadeiramente poderiam reivindicar Abraão como seu pai, da mesma forma como os crentes gentios o fazem hoje em dia. Os debates a respeito da rota do Êxo­ do residem principalmente ao redor do lugar em que eles atravessaram o mar. Aparentemente, a expressão “Mar Ver­ melho” (em hebraico, Mar de Juncos ou Mar dos Sargaços) pode ser aplicada a toda a expansão de água na região do Mar Vermelho, não podendo ser confi­ nada a qualquer ponto em particular. Contudo, para nós, é tão desnecessá­ rio saber o ponto exato em que eles atra­ vessaram quanto saber onde Jesus foi enterrado depois da crucificação. Durante a peregrinação no Egito, a fé dos hebreus nas promessas feitas aos pais foi duramente provada, mas a experiên­ cia do Êxodo apresentou uma confirma­ ção que testificou para sempre acerca do destino de Israel entre as nações. Sem a promessa feita aos pais, o Êxodo poderia ter sido considerado como mera coinci­ dência; sem o Êxodo, a esperança de Abraão teria parecido um sonho vão. No Êxodo, o poder latente da fé de Israel recebeu um impulso que nunca lhe foi negado. Da mesma forma como Abraão olhou para o futuro, para a posse da terra como frutificação de sua fé, o Israel de época posterior iria olhar para o pas­ sado, para a libertação do Egito, para conservar viva a sua fé. O Deus de Israel havia demonstrado que era mais podero­ so do que os deuses das nações. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó provou ser o Senhor de tudo. Ê isto que os pais ha­ (*) NOTA DO EDITOR: De acordo com Números 13:6, Calebe pertencia à tribo de Judá; portan­ to, é questionável o autor dizer que ele era ele­ mento “não hebreu absorvido por Israel”. 95
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    viam crido, sendoagora confirmado na História. A Experiência do Sinai. No Sinai, Is­ rael tornou-se o povo de Deus. Até então eles eram os herdeiros de uma promessa. Agora, se uniam com o seu Deus em um propósito comum. Podia ser que o nome de Yahweh lhes fosse conhecido antes, preservado na tradição quenita, mas agora ele assumia um novo significa­ do. Era um nome pactuai, que devia ser usado exclusivamente por Israel. No uso antigo, o ato de compartilhar o nome era uma experiência íntima. Ao dar o seu nome a Israel, Deus estava oferecendo-se a si mesmo. Até o Sinai, os hebreus eram leais ao Deus que lhes havia prometido a sua bên­ ção. Eles conheciam pouco a respeito de sua verdadeira natureza. Foi no Sinai que Deus revelou-lhes a lei (torah, “re­ velação”), dando-lhes um vislumbre de seu caráter e de seus requisitos morais. Abraão podia ter mentido a Faraó sem sentir dores de consciência, mas agora os israelitas conheciam que não deviam dar falso testemunho; Jacó podia roubar a bênção de seu pai friamente, mas agora o seu povo era informado que não devia roubar. Eles já sabiam que deviam ser fiéis somente a Deus, mas agora era confir­ mado que eles serviam a um Deus cuja semelhança nunca podia ser feita, pois ele estava sempre além do conhecimento deles, e devia ser conhecido apenas da maneira como ele resolvesse revelar-se a eles. Desta forma, foram injetados na história de Israel os elementos que a fizeram uma nação peculiar dentre todas as outras nações do Oriente Próximo. O propósito de Deus, em direção ao qual Israel se esfalfava, ainda estava para ser completamente revelado. Deus não apenas revelou o seu verda­ deiro caráter e as suas exigências no Sinai, mas foi ali que Israel, como povo, se dedicou a Deus e ao seu propósito a seu respeito. Na aliança celebrada no Sinai, Israel prometeu viver à luz das expectativas de Deus, cônscio, em todo o tempo, da bênção divina que resultaria da fidelidade àquele pacto. Essa aliança foi condicional, mas Israel foi dedicado à sua observância. Desde então, eles eram não apenas herdeiros de uma promessa, mas foram dedicados a uma causa. 3. A Conquista de CanaS O fato de que Israel hesitou no limiar de Canaã e recusou-se a entrar na terra é uma das mais surpreendentes reviravol­ tas da História. Na verdade, os espias haviam relatado que havia gigantes e cidades muradas na terra. Não obstante, como Calebe replicou, o Deus que havia feito recuar as forças de Faraó podia dar-lhes a vitória. No entanto, eles se rebelaram, para inteira surpresa de Moi­ sés. No decorrer dos longos e miseráveis anos das peregrinações pelo deserto (38 anos), ele alimentou o seu sonho e a nova geração de israelitas. Tendo morrido an­ tes de ter conseguido realizar o seu so­ nho, ele o transmitiu a Josué. Cabia a ele cumpri-lo. As Campanhas de Josué. A conquista da terra é retratada como tendo ocorrido em três estágios. Antes de tudo, houve um ataque rápido através da Palestina central, em direção a Jericó e Ai, divi­ dindo, desta forma, a terra entre o norte e o sul (Jos. 6-9). Depois os reis do sul foram vencidos (Jos. 10); e, finalmente, as fortalezas do norte foram tomadas (Jos. 11). Desta forma, Israel estabele­ ceu-se rápida e decisivamente na terra. Algumas passagens no livro de Josué parecem dar a entender que Josué con­ quistou completamente cada cidade e cada hectare de Canaã. Josué 11:23 diz: “Assim Josué tomou toda esta terra.” Mas 13:1 declara: “Ainda fica muitíssi­ ma terra para se possuir.” Ê difícil, para o leitor ocidental hodier­ no, compreender como duas opiniões di­ vergentes como estas podem aparecer no mesmo material histórico. Os editores do 96
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    livro de Josuéque declararam que ele havia conquistado toda â terra são os que incluíram o material, dizendo que a con­ quista fora apenas parcial. Uma solução é encontrada quando entendemos a ma­ neira como funcionava a mente hebraica e as formas costumeiras de expressão na literatura hebraica. Tendo escrito em época posterior e sabendo qual fora a natureza original da conquista primitiva, os escritores idealizaram a era de Josué, porque viam, no espírito dele, os recursos que certamente conquistariam a terra. Depois da contribuição dele na conquista inicial, a conquista final era apenas uma questão de tempo. Por ocasião de sua morte, ela estava praticamente realiza­ da. 3O fato de que eles incluíram os ma­ teriais originais mais historicamente ori­ entados, é a sua forma de dizer que as declarações mais compreensivas devem ser entendidas à luz desse pano de fun­ do. Eles eram homens honestos, que viam, em um momento da História, mais do que registros estatísticos podiam mos­ trar. Quanto do método da conquista de Josué era a maneira de se conduzir a guerra naquela época e quanto era or­ dem específica de Deus, é impossível descobrir. No entanto, precisamos reco­ nhecer que a ordem dada por Deus para conquistar a terra não foi, necessaria­ mente, ditada por Deus a Josué palavra por palavra. Josué entendeu a ordem da única forma possível: em termos da cul­ tura e dos tempos em que vivia. O Período dos Juizes. O livro dos Juizes continua a história de Israel após a morte de Josué. Este período foi um dos mais difíceis da história de Israel. Eles estavam na terra, mas ainda não a ha­ viam possuído totalmente. O desafio da primeira conquista acabara, mas os seus inimigos ainda estavam por lá. Eles ti­ nham espaço para viver, mas não para 3 Considerar um acontecimento futuro como já realizado é característica estilística hebraica comum, expressa por um perfeito profético. Cf. Is. 53:1 e ss. crescer. Eles podiam sobreviver sem fa­ zer nada, mas só podiam se expandir mediante um novo esforço heróico. Baalismo contra Yahweísmo. — A principal tentação que confrontou Israel foi a constante atração da adoração a Baal, praticada pelos seus vizinhos cana- neus. Baal, suprema divindade cananéia, era conhecido em cada comunidade por um título pessoal, que lhe era atribuído. É neste sentido que a sua adoração era tamanha ameaça para a religião de Is­ rael. O israelita típico não via razão por que não podia considerar Yahweh como seu deus nacional, e ainda assim expres­ sar lealdade a Baal, em sua comunidade local. O nosso conhecimento da natureza da adoração de Baal tem sido imensamente aumentado pelas descobertas ocorridas em Ugarite (Ras Shamra), um porto abandonado, no norte da Síria, pouco ao sul de Antioquia. Várias centenas de tabuinhas de barro foram encontradas ali durante os anos 1929-39. Todas elas são datadas do primeiro terço do século catorze a.C.. Essas tabuinhas contém rituais sacrificiais, epopéias mitológicas e poemas religiosos. Nelas é revelada a ver­ dadeira natureza da religião cananéia e o segredo de sua atração para os antigos israelitas. Em primeiro lugar, ela apelava para a natureza sensual. Cria-se que as relações sexuais com as prostitutas sagradas no templo de Baal garantiria a fertilidade do solo, dos animais e até da esposa do adorador. O baalismo também prometia uma forma pela qual o homem podia fazer com que os deuses fizessem a sua vontade. O baalismo ensinava que, se uma pessoa realizasse os rituais apro­ priados, ser-lhe-ia garantido o favor de Baal sobre as colheitas do ano. Quando os israelitas entraram na ter­ ra, eram pastores, e não agricultores. É certo que eles perguntaram aos nativos cananeus quais eram os segredos do su­ cesso na agricultura. Ê também igual- 97
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    mente certo queeles foram informados que a coisa mais importante era asse­ gurar o favor do Baal local. Desta forma, os israelitas foram levados à deriva, ser­ vindo a Yahweh como o grande e excelso Deus dos exércitos, da batalha, e servin­ do também a Baal como o deus que devia ser considerado o doador de conforto material. As massas dos israelitas foram desviadas, da austera adoração de Yah­ weh, para o materialismo e o sensualismo do baalismo. Um ciclo desencorfyador. — A carac­ terística primordial do livro dos Juizes é a estrutura que liga as narrativas original­ mente separadas. Ele enfatiza a filosofia deuteronômica de história que caracteri­ za a literatura histórica dos hebreus, desde o Deuteronômio até Reis: Se Israel fosse fiel a Yahweh, prosperaria econô­ mica e politicamente; se fosse infiel, in­ dubitavelmente experimentaria a catás­ trofe. A situação descrita em Juizes 2:11- 23 é a chave para a organização de todo o livro. Uma fórmula automática é reapli­ cada a cada nova crise de Israel: (1) os hebreus cedem à tentação; (2) a aposta­ sia leva à opressão; (3) defrontando-se com a adversidade, o povo se arrepende e clama a Deus, pedindo ajuda; e (4) ele ouve o seu clamor e lhe envia um liberta­ dor. Este sumário desanimador, do perío­ do, faz lembrar a visão cíclica da história que os vizinhos de Israel tinham. A pri­ meira vista, parece que os escritores ha­ viam perdido de vista qualquer alvo para o qual Israel estivesse avançando, soh a mão da divina providência. No entanto, por detrás deste sumário está a sugestão subliminar de que, embora Israel estives­ se aparentemente em um ciclo sem espe­ ranças, em sua condição pecaminosa, Deus ainda estava entronizado, guiando pacientemente o curso da História, para levá-los ao propósito que ele tinha para com eles. O ofício dejuiz. — Durante este perío­ do, os juizes foram enviados a fim de conservar Israel vivo, até que pudesse ser providenciado um caminho melhor. Es­ sesjuizes eram convocados de várias clas­ ses sociais, para liderar Israel em sua luta contra os seus inimigos. Alguns de seus mandatos, nesse ofício, aparente­ mente eram paralelos entre si, visto que o número total de anos atribuído a cada juiz ultrapassa, se somado, o período de tempo geralmente atribuído ao período (c. 1200-1050 a.C.). Nenhum deles, tanto quanto sabemos, jamais liderou um Is­ rael completamente unido. Os diferentes juizes tinham caracterís­ ticas pessoais e piedade bastante variega­ das. Todos eles, contudo, compartilha­ vam de uma coisa: haviam sido escolhi­ dos por causa da evidência de que Deus lhes havia dado qualidades pessoais de liderança. Tais qualificações são men­ cionadas como carismáticas (a posse dos dons do espírito). Este método de reco­ nhecer os governantes contrasta aguda­ mente com o costume posterior, em Judá, de escolher um rei simplesmente porque ele era o herdeiro da linhagem de Davi. II. A Monarquia Unida No fim do período dos juizes (c. 1050 a.C.), Israel estava em tristes condições. A dominação de Canaã pelos filisteus era quase completa. Esse povo marítimo, que se havia estabelecido na Palestina, tivera mais sucesso em conquistar a terra do que os hebreus. Embora os profetas de Israel dissessem que isso era devido à falta de fidelidade dos israelitas a Deus, muitos anciãos achavam que pensar as­ sim era simplificar demais o assunto; eles achavam que um rei era necessário, mas reconheciam que isso era contrário às tradições de Israel. O ideal de Israel era uma teocracia, uma nação governada por Deus, e não pelo homem. Deus era o seu rei, e eles não deviam ter outro (cf. Juiz. 8:23; 9:1 e ss.). Agora os anciãos de Israel estavam tão desesperados que estavam dispostos a 98
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    tentar ter umrei. O sistema filisteu de reinado parecia oferecer mais estabilida­ de do que Israel fora capaz de alcançar através das libertações carismáticas es­ pasmódicas, durante a era dos juizes. Muitos dos anciãos amavam (Samuel, mas temiam o futuro. Eles exerceram pressão sobre o relutante juiz para que desse a bênção de Deus sobre um rei para Israel. Que Deus continuasse a ser rei, mas que ele estabelecesse um sistema hu­ mano mais estável do que a libertação carismática dos juizes. Embora os temores de Samuel a res­ peito do reinado fossem confirmados pe­ los acontecimentos posteriores, a sabedo­ ria divina em permitir um rei provou ser ainda mais judiciosa. Como os editores do livro de Juizes perceberam, um rei era necessário para dispersar as forças cen­ trífugas que ameaçavam Israel (cf. 21: 25). O juiz ocasional não podia dar a estabilidade que uma monarquia empos­ sada propiciaria. Foi também através da monarquia que Israel começou a tomar o seu lugar entre as nações. Até o estabele­ cimento da monarquia, os hebreus se ha­ viam contentado em adquirir a sua terra e em nela viver. Logo depois eles toma­ ram consciência do mundo fora dos limi­ tes da Palestina. A coroação de um rei automaticamente propeliu Israel à comu­ nidade das nações. Foi a monarquia, tão causticamente condenada em muitas ocasiões, que, não obstante, forneceu aos profetas os con­ ceitos que elaboraram o seu sonho acerca do futuro: o reino de Deus, o rei ideal por vir e Israel supremo entre as nações. 1. O Reinado de Saul O trágico governo do filho de Quis começou em cerca de 1020 a.C. A des­ peito de seus defeitos pessoais, ele deixou uma impressão duradoura no povo de Israel, tanto como herói militar quanto como o seu primeiro rei. Davi herdou um reino já preparado para ele por Saul. A primeira vista, o regime de Saul parece ter sido um afastamento completo da antiga ordem dos juizes. O título de “rei” era estranho à cultura israelita. Havia também uma permanência da unção, coisa que os juizes não possuíam. Saul esperava que os seus filhos reinassem após a sua morte. O seu domínio, dife­ rentemente do de Abimeleque, incluía todas as tribos. No entanto, o governo de Saul afastou- se o mínimo possível do papel comum ao juiz. Conservou a peculiaridade do governo de Israel no contexto do novo título. Pouca modificação foi exercida na estrutura interna da nação. A organiza­ ção tribal foi deixada intacta. Não houve nenhuma máquina governamental com­ plexa. Saul não tinha um harém; a vida, em sua corte, como a arqueologia revela, era simples e rústica. È óbvio que Israel, certamente, a princípio, embora cedendo à pressão exercida no sentido de ter um rei, da mesma forma como o tinha o inimigo filisteu, não pretendia imitar ab­ jetamente os seus vizinhos, mas, pelo contrário, adaptar o que considerava um sistema superior de governo à vida caracteristicamente israelita. O profeta de Deus, tão fielmente retratado por Samuel, faria com que a coroa repousas­ se sempre pouco à vontade sobre a cabe­ ça do rei. Nenhuma outra nação dos tempos antigos permitia uma repreensão assim tão aberta de um monarca reinan­ te. Era o profeta o comissionado para preservar a peculiaridade dos hebreus diante de uma situação difícil. Mesmo quando o povo apedrejou os seus profe­ tas, substituiu-os por outros que, segun­ do julgava, falavam da parte de Deus. Quando o rei sustentou os profetas cul­ tuais em época posterior, que diziam o que ele queria ouvir, ele estava cedendo às exigências de que o ofício profético fosse mantido. Era na tensão entre o rei e o profeta que a peculiaridade da fé de Israel foi preservada, nas crises de sua história. O rei era necessário para conseguir a uni­ dade nacional; o profeta, para declarar a 99
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    fé. Em cadacrise, por mal ou por bem, os dois estavam lado a lado. 2. O Reino Davídico O governo de Davi se estendeu de c. 1000 a 961 a.C. Embora ele tenha encon­ trado dificuldades iniciais, devido à re­ cusa do Israel setentrional de aceitá-lo como rei, mais tarde tomou-se o gover­ nante de maior influência em toda a história de Israel. Esta não era mera­ mente a opinião ideal de uma era pos­ terior, mas a tendência dos registros que possuímos. O reino davídico foi estabelecido em uma base bem diferente da do reinado de Saul. Saul foi declarado rei por causa de um esforço conjunto da parte de todas as tribos. Davi tomou-se primeiramente rei de Judá, e depois uniu as tribos. Desta forma, a união era precária, coisa que Davi reconhecia plenamente. Ela podia ser dissolvida tão rapidamente quanto fora formada. De fato, ao se permitir ser proclamado rei de Judá an­ tes de ser aceito pelas outras tribos, Davi reconheceu a rivalidade entre as tribos do norte e do sul, de maneira tal que esse provou ser sempre um fator importante na história que se seguiu. Agora que ele era rei de todo o Israel, contudo, estava ansioso para efetuar uma ordem nacional permanente. No entanto, em primeiro lugar ele precisava enfrentar operigo fora da nação de Israel. Os filisteus sabiam bem que a elevação dele ao poder era uma ameaça à sua supremacia na Palestina. Imediata­ mente eles tentaram fazer frente ao desa­ fio que ele apresentava. Procurando se­ parar Judá das tribos do norte, eles ata­ caram perto de Jerusalém. O resultado foi uma derrota catastrófica, em dois embates, que deixou a planície filistéia aberta para uma ofensiva por Davi (II Sam. 5:17-25). Ele apressou-se a explo­ rar esta circunstância imediatamente, le­ vando os filisteus a se curvarem até o pó e quebrando o seu poderio para sempre (II Sam. 8:1). Mais tarde, os filisteus apareceram como soldados profissionais no exército de Davi! Sendo removida a ameaça filistéia, Davi agora estava livre para consolidar o seu reinado sobre Israel. Nesse ponto, o seu gênio é aparente em cada decisão. Primeiramente ele precisava decidir em relação a uma capital. Se ele se man­ tivesse em Hebrom, sede do govemo de Judá, estaria alienando as tribos do norte desnecessariamente. Uma capital ao nor­ te, iria criar antagonismo em seus leais seguidores de Judá. O fato de ele ter es­ colhido Jerusalém emerge como uma das decisões mais importantes da história hebraica. Ele não somente uniu Israel ao redor de uma localidade central, não associada com a rivalidade tribal, mas também edificou em um lugar que su­ portaria todas as tentativas de assalto por cinco séculos. Davi conhecia o valor es­ tratégico dessa localização, pois a cidade já havia suportado os ataques tanto de Israel quanto da Filístia por mais de duzentos anos. Todavia, o destino de Israel não estava limitado a uma dinastia política. A não ser que Davi pudesse estabelecer uma síntese dos aspectos religioso e político da vida de Israel, o seu reinado seria tão- somente um outro momento da História. Por isso, ele começou a tomar providên­ cias para trazer a arca para Jerusalém e declarar-se opreservador das instituições religiosas peculiares de Israel. Dal em diante Jerusalém seria a capital religiosa e política de Israel. Enquanto Saul havia alienado Samuel, pelo fato de ter usurpa­ do as suas funções sacerdotais, Davi esta­ beleceu os sacerdotes em uma posição segura, sob a proteção do monarca, ga­ nhando, desta forma, a sua lealdade à coroa. Havia ainda outras tarefas a realizar. Espalhadas pelo território de Israel, ha­ via fortalezas cananêias que ainda não haviam sido subjugadas permanente­ mente aos hebreus. Davi as conquistou 100
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    uma a uma,sujeitando-as ao domínio israelita. Embora nos primeiros dias os cananeus houvessem sido assimilados pe­ los hebreus, em sua vida tribal, agora Israel conservava os seus novos súditos segregados e separados (Noth, p. 193). Esta decisão apresentou novos problemas de ajustamento em relação à cultura e à religião cananéias. Ainda estava por ser efetuada a vitória sobre inimigos que estavam fora das fronteiras de Israel. Esses eram mais do que uma ameaça, agora que os filisteus não eram mais poderosos. Primeiro, Davi subjugou os países que colocavam em perigo as suas posições na Transjor- dânia, Amom, Moabe e Edom. O seu mais terrível inimigo era a Síria mas esta nação também caiu depressa diante dos exércitos israelitas. O poder de Davi se estendeu até Hamate e até o rio Orontes, sendo Damasco o seu maior prêmio. Proezas como tais chamaram a atenção de Hirão, rei de Tiro, que negociou um tratado de paz com Davi. Desta forma, em poucos anos, Davi havia estendido o seu território desde a tribo de Judá até a Ãsia Menor e a Mesopotâmia. Para conservar subjugado este territó­ rio recém-adquirido, uma máquina go­ vernamental mais centralizada e comple­ xa se tornava necessária. Israel já não era mais composto de doze tribos, que se go­ vernavam em uma federação de organi­ zação frouxa, mas agora era uma nação unida sob a direção de um poderoso monarca, que ainda procurava expandir mais os seus domínios. 3. A Era Salomônica Com a ascensão de Salomão, começou o período mais glorioso da história de Israel. As nações ao redor dele estavam sujeitas a Salomão ou pagavam tributos regulares a ele. A sua fama se estendera além das fronteiras do território sobre que ele reinava. Isto acontecera, em grande parte, devido às suas atividades comer­ ciais, que marcaram o verdadeiro gênio de sua administração. Não era tarefa de Salomão aumentar as fronteiras de seu reino, pois ele havia herdado o seu domí­ nio de Davi, seu pai, que até o fim de sua vida havia conquistado toda a terra atri­ buída a Israel. A responsabilidade de T Salomão era explorar os ricos recursos I que agora estavam ao seu alcance. Isto r^õi feito mediante notáveis esforços in- dustriais e comerciais^ Salomão percebeu a vantagem de Is­ rael como terra-ponte entre Leste eT)es- te, Norte e Suí. Ele também viu as possi­ bilidades que se encontravam no mar, quando de sua aliança com Hirão de Tiro. Sob a orientação de Hirão, ele construiu uma armada que navegava pelo Mar Vermelho e trazia de volta as riquezas do sul, até da Somália. A meiraviagem levou um ano, e trouxe3T volta tesouros como ouro, prata, madei­ ras raras, pedras preciosas e marfim. As suas caravanas de cajnelos viajavam ãcT Egito, através de Arábia e até o vale do Eufrates. Uma das mais importantes indústrias de Salomão eram aslüas minas Be cobre." ao sul do Mar Morto, perto de Eziom-Ge- ber (cf. Thomas, p. 437 e ss.). Outro projeto notável era o seu comércio de cavalos (I Reis 10:28,29). A princípio ele os trouxe para o seu reino para fortificar o seu exército, mas logo descobriu que podia vender essas estratégicas armas militares a outras nações, com grande lucro. Mais tarde, esta se tomou uma das suas melhores fontes de renda. Toda esta atividade comercial era um monopólio real. Os mercadores indivi­ duais trabalhavam para o governo, indo a maior parte do lucro para a corte do rei. O mercador independente, por ser pequeno, não tinha os meios financeiros para financiar empreendimentos tão grandiosos em termos comerciais. O rei era o único que podia ser considerado como Independentemente rico. Õs súdi­ tos, até mesmo os mais poderosos, po­ j 101
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    diam aproveitar-se apenasdas migalhas que caíam de sua mesa. Projetos como as minas de cobre, a armada real, as caravanas de camelos, o palácio e o Templo não podiam ser reali­ zados sem que um preço fosse pago. Os impostos eram pesados, exaustivos. O aspecto mais antipático, porém, era o esquema de mão-de-obra para o traba­ lho. Embora os israelitas não fossem feitos escravos, enquanto eles trabalha­ vam nos campos de trabalho, muitas vezes eram maltratados (I Reis 12:4). III. O Reino Dividido A divisão do reino ocorreu por ocasião da morte de Salomão, em c. 922 a.C. Vários fatores levaram ao inevitável: um jovem impetuoso (Roboão), um líder de trabalhadores esperto (Jeroboão), Impos­ tos excessivos, a inveja entre as tribos de Raquel e Lia (José e Judá), diferenças de localização geográfica, o medo da dita­ dura sobre um povo livre e a apostasia de Salomão. Para os que podiam ver, a dissolução do reino dava testemunho das terríveis conseqüências do esquecimento do destino divino de Israel. 1. Luta Pela Estabilidade Com a morte de Salomão, Roboão tornou-se rei de Judá (922-915 a.C.),4 e Jeroboão, do reino de Israel, ao norte (922-901 a.C.). As hostilidades foram contínuas entre os dois reinos. Jeroboão, que acabava de ser influenciado pela adoração dos egípcios, e apelando à in­ clinação dos israelitas, tão antiga quanto o Sinai (Êx. 32:4), colocou bezerros de ouro em Dã e em Betei, para estabelecer rivais à adoração em Jerusalém. Ele bem sabia que não poderia conservar a inde­ pendência política por muito tempo, se o seu povo continuasse a atravessar as fron­ teiras nacionais, para adorar em Sião. 4 Cf. Bright, quanto à cronologia hebraica. Estas datas são muitas vezes contestadas, visto que os registros do Velho Testamento contêm poucos pontos fixos, em re­ ferência à história mundial, e os reinados de pais e filhos freqüentemente se sobrepunham. Do que têm aprendido a respeito da adoração naquele período, muitos erudi­ tos crêem que a intenção não era levar Israel a adorar os bezerros de ouro por si próprios, mas que se supunha que eles representavam o Deus Yahweh. Os he­ breus estavam adorando o invisível Yah­ weh através dos bezerros que simboliza­ vam a sua presença. O perigo, indubita­ velmente, era que bem depressa eles iriam adorar o que enxergavam, em vez de adorar o Deus oculto. Não obstante, só no tempo de Oséias foi que um pro­ feta do Reino do Norte, segundo estã registrado, se opôs aos bezerros de ouro. Elias e Eliseu ficaram bem silenciosos a respeito. Abias (915-913), filho de Roboão, teve sucesso onde o seu pai falhou: derrotou Jeroboão, em batalha. O neto de Roboão Asa (913-873), foi um dos poucos reis recomendados pelos editores deuteronô- micos dos livros de Reis, primordialmen­ te porque ele instituiu uma extensiva campanha contra a idolatria, chegando a remover a mãe idólatra de sua posição real. O seu reinado é também notável pela derrota de Zerá, rei etíope, o que revela o crescimento efetivo do poderio militar durante o seu longo reinado. Nesse ínterim acontecia uma luta con­ tínua pelo trono no Reino do Norte: Israel. O filho de Jeroboão, Nadabe, reinou apenas dois anos, antes de ser morto, e desta forma terminou a primei­ ra dinastia. Baasa (900-877) foi um rei militarmente forte, mas foi estorvado pela elevação ao poder de Ben-Hadade I da Síria (c. 880-842). O seu filho Elá (877-876) sofreu o mesmo destino que o seu pai havia dado a Nadabe. O seu assassino Zinri reinou apenas sete dias, queimando o seu palácio sobre a sua cabeça, para evitar ser capturado pelo seu rival Onrí (876-869). 2. Os Onritas Embora os escritores da Bíblia se des­ cartem de Onri com uma rápida palavra 102
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    de condenação porseus costumes idóla­ tras, do ponto de vista secular, ele talvez tenha sido o rei mais influente que Is­ rael do norte teve. Até a sua época, o Reino do Norte havia sofrido pela falta de unidade, especialmente por­ que não havia capital permanente para simbolizar os ideais da nação. Sabia­ mente, Onri comprou a colina que se tomaria Samária, e estabeleceu o gover­ no como nenhum outro rei havia sido capaz de fazer. Ele deixou uma impres­ são permanente sobre o ascendente Im­ pério da Assíria, cujos reis daí em diante se refeririam ao rei de Israel como “filho de Onri”, e ao próprio Israel, como “terra de Onri” . Preocupado com os ne­ gócios internacionais, ele casou o seu filho Acabe com Jezabel, filha do rei de Sidom. Embora essa decisão tenha sido inteiramente condenada pelo escritor bí­ blico, ela parece ter sido uma esperta manobra política. Acabe, filho de Onri (869-850), em­ bora mais fraco que seu pai, foi, não obs­ tante, guerreiro de grande capacidade. De fato, o famoso filho de Asa, Jeosafá (873-849), pouco antes da batalha de Ramote-Gileade(I Reis 22:1 e ss.), pare­ ce ter sido vassalo de Acabe, porque não teve outra escolha, senão vestir, durante a batalha, a armadura de Acabe. Embo­ ra não fosse o guerreiro que Acabe era, Jeosafá conseguiu incomum sucesso no campo doméstico. Ele foi um rei popu­ lar, além de reformador religioso e polí­ tico. Devido ao seu incentivo, a lei foi ensinada por todo o território de Judá, e empreendimentos pacíficos prosperaram em sua mão. Com a chegada de Jezabel ao Reino do Norte, porém, o oposto estava aconte­ cendo ali. A princípio houve guerra aber­ ta entre ela e os profetas de Yahweh. A intenção dela era substituir a religião de Israel pela sua. Quando ela colidiu com Elias, encontrou um homem que estava em contato com o poder de Deus e era agente de seusjulgamentos. Durante o reinado de Acabe, um novo império mundial estava se desenvolven­ do: a Assíria, a primeira a usar carrua­ gens de ferro na guerra. Ela bem depres­ sa tomou-se o flagelo do mundo. Foi a ameaça assíria que fez com que Acabe poupasse Bene-Hadade, quando ele esta­ va irremediavelmente em suas mãos. Acabe precisava de uma Síria forte, como um pára-choque entre ele e a Assíria. Os profetas sabiam que Deus podia oferecer proteção melhor do que Bene-Hadade, mas Acabe não cogitava de Deus. A batalha de Carcar (Qarqar) foi tra­ vada em 853 a.C., aprimeira data da his­ tória do Velho Testamento a ser localiza­ da com exatidão. Esta foi uma grande batalha, entre uma coalisão de países ocidentais (inclusive Israel e Síria) e Sal- maneserlll, da Assíria (859-824). Embo­ ra o embate, provavelmente, tenha ter­ minado num empate, a maré bem logo deveria voltar-se em favor da Assíria. 3. A Dinastia de Jeú Jeorão (849-842), filho de Josafá, ca­ sou-se com Atalia, filha de Acabe e Jeza­ bel. Ela era uma verdadeira filha de Jeza­ bel. Quando o seu marido foi eliminado, no expurgo conduzido no Reino do Norte por Jeú (842-815), ela tentou matar toda a descendência real em Judá, e declarou- se rainha (842-837). Ela não conseguiu descobrir o nenê Joás, que fora escondido no Templo pelo sumo sacerdote Joiada, e, por sua vez, ela foi morta quando Joás foi coroado (837-800). O expurgo de Jeú também produziu a morte de Jeorão, filho de Acabe (849- 842), que havia sucedido o seu infortuna­ do irmão Acazias (850-849), que morrera como resultado de uma queda acidental. O reinado de Jeú tomou-se notório por ele ter destruído o baalismo sírio no Reino do Norte, embora a adoração dos baais locais de fertilidade ainda conti­ nuasse. Em 842 a.C., Jeú também pagou tributo a Salmaneser III, reconhecendo 103
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    pela primeira veza supremacia da Assí­ ria no Ocidente. Salmaneser III foi seguido, na Assíria, por um rei fraco, capacitando a Síria a levantar-se novamente, ascendendo ao poder. Conseqüentemente, leoacaz (815- 801), filho de Jeú, tornou-se vassalo de Hazael, que chegou a aproximar-se de Jerusalém, mas foi comprado por Joás, por meio dos tesouros do palácio e do templo. Contudo, a elevação de Hadade- Ninrari III ao trono da Assíria (811-783) logo sujeitou a Síria mais uma vez, capa­ citando Jeoás (801-786), filho de Jeoacaz, a recuperar o território anteriormente perdido para a Síria. Nesse ínterim, Amazias (800-783) havia sucedido o seu pai Joás no trono de Judá. Sentindo o seu poderio, depois de ter derrotado os edu- meus, ele atacou Jeoás, de Israel, mas foi fragorosamente derrotado. Em represá­ lia, o rei de Israel pilhou Jerusalém, der­ rubando uma parte de seu muro. 4. Prosperidade e Colapso Com a morte de Amazias e a coroação de Uzias (Azarias) como rei de Judá (783- 742), foi inaugurado um período de pros­ peridade incomum desde os dias de Salo­ mão. Este período teve paralelo em Is­ rael com o reinado de Jeroboão II (786- 746), cujo mandato foi marcado por su­ cesso semelhante. A razão para estes acontecimentos era dupla. Por um lado, a Assíria se fizera impotente durante esses anos e a Síria estava exaurida, dei­ xando os hebreus livres para prospera­ rem, sem serem interrompidos pela guer­ ra. Por outro lado, Uzias e Jeroboão dei­ xaram em paz um ao outro. Os grandes profetas do oitavo século (Amós, Oséias, Isaías e Miquéias) viram, por debaixo da prosperidade superficial, as sementes de uma sociedade enferma. A riqueza não era devida ao favor de Deus, como muitos pensavam, mas a uma bonança temporária nas hostilida­ des. Era a calma antes da tempestade. O fim de Israel veio rapidamente. Zaca­ rias, filho de Jeroboão, reinou apenas seis meses, antes de ser morto por Salum, que permaneceu no trono apenas um mês. Menaém, seu assassino, conseguiu reinar alguns anos mais (745-738), mas foi forçado a pagar tributo ao novo rei da Assíria, o implacável Tiglate-Pileser III (745-727). O seu filho Pecaías (738-737) foi morto, da mesma forma como seu pai havia matado um rei antes dele, por Peca (737-732). Por sua vez, este foi morto por Oséias (732-722), que era nada mais do que um títere de Tiglate-Pileser. Quando ele se rebelou contra o rei seguinte da Assíria, Salmaneser V (727-722), Samá- ria foi sitiada por este monarca, e final­ mente capturada por Sargão II (722- 705), em 722 a.C. Quais foram as causas que contribuí­ ram para a desintegração do Reino do Norte e a sua posterior extinção? (1) Des­ de 922 a.C., Israel e Judá se haviam exaurido em contender um contra o ou­ tro, sendo o Reino do Norte mais exposto ao ataque estrangeiro. (2) O trono era instável. Em um período de quase 200 anos, houve nove dinastias e dezenove reis, dez dos quais sofreram mortes vio­ lentas. (3) A chocante imoralidade do povo e a falta de preocupação pela jus­ tiça social foi fatal, trazendo o juízo de Deus contra uma nação devotada à auto- gratificação. 5. Judá e Assíria Uzias foi seguido por seu filho Jotão (742-734), durante cujo reinado Mi­ quéias começou a profetizar. O seu filho, o idólatra Acaz (735-715), subiu ao trono bem a tempo de herdar de seu pai a Guerra Siro-Efraimita. Esta fora uma tentativa, da parte de Peca, rei do Reino do Norte, e Rezim, da Síria, de forçar Judá a entrar em uma aliança contra Tiglate-Pileser. Desesperado, Acaz ape­ lou para o monarca assírio, pedindo aju­ da. Atendendo alegremente, este avançou contra os atacantes e levantou o cerco. Judá pagou um preço elevado em tributo 104
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    por esse favor,e ficou desde então sem um pára-choque entre si mesmo e a Assíria. Foi durante esta crise que Isàías pronunciou o seu famoso oráculo, acerca de Emanuel, para Acaz (Is. 7:1 e ss.). Quando Sargão morreu, em 705 a.C., isto foi ocasião para nova rebelião na Palestina, insuflada pelo Egito, e incluin­ do Ezequias (715-686 a.C.). Os assírios disseram que fecharam Ezequias “como um passarinho em uma gaiola” . II Reis 18:13-16 e as declarações de Senaqueribe estão notavelmente de acordo. Contudo, II Reis 18:17-19:37 fala de um desastre que ocorreu ao exército assírio, em que 185.000 homens pereceram. Judá não aprendeu nada com o desti­ no que feriu o Reino do Norte. O bom rei Ezequias foi sucedido por um dos piores reis de Judá, Manasses (686-638). Du­ rante o seu longo remado, a nação he- bréia afastou-se dos elevados propósitos de Deus, e cultos e costumes estrangeiros foram estimulados. A adoração no Tem­ plo deixou de ser enfatizada, e deixou-se que o próprio edifício do Templo se deteriorasse. Manassés foi assinalado, pelo autor dos livros de Reis, como o pior rei a sentar-se no trono de Davi (cf. II Reis 21:9-15; 23:3 e s.). O quadro mudou radicalmente depois de Josias (640-609) ter subido ao trono, com oito anos de idade. Nada se sabe dos anos que seguiram imediatamente à sua coroação, mas, por volta de 628 a.C., Judá (que agora era tudo o que restava de Israel) estava começando a recuperar o território perdido para a Assíria, quando Samária havia caído, um século antes. A reforma do Templo começou, em pre­ paração para a renovação da antiga fé de Israel. Em cerca de 622 a.C., uma desco­ berta emocionante foi feita. O livro da lei foi achado no Templo. Este livro, de um modo geral associado com o livro de Deuteronômio, tomou-se a base para reformas drásticas. Judá e o território de Israel foram purificados de todas as prá­ ticas estranhas, e a adoração pública de Yahweh foi reinstituída no Templo de Jerusalém. Abertamente, esta reforma foi política tanto quanto religiosa. Ela significou um rompimento completo com a Assíria. 6. Os Dias Finais de Judá Em 612 a.C. Nínive, capital da Assí­ ria, caiu diante de Ciáxares, rei da Mé­ dia, e Nabopolassar, rei da Babilônia. O exército assírio continuou a luta, ao retirar-se para o oeste, em direção ao seu aliado, o Egito. Em 609, o Faraó Neco decidiu juntar-se aos assírios, em um desesperado esforço para afastar o ata­ que fulminante que vinha do Oriente contra ele. Percebendo o objetivo egíp­ cio, e esperando, aparentemente, que ele se sairia melhor em face de uma vitória babilónica, Josias tentou fazer Neco pa­ rar. Ao invés disso, Josias foi morto, e a tristeza abateu-se sobre Judá. O seu filho Jeoacaz (Salum) foi feito rei em Jerusalém. Temendo mais problemas da parte de Judá, Neco, que nessa épo­ ca estava na Síria, deportou Jeoacaz para o Egito, depois que ele esteve apenas três meses no trono. Em seu lugar, Neco colo­ cou o seu irmão Eliaquim, cujo nome se tomou Jeoiaquim (609-597), e certificou- se de que ele permaneceria como vassalo egípcio. Tributos pesados foram exigidos de Judá. Jeoiaquim provou ser um fracasso desa- nimador. As velhas seitas pagãs da época de Manassés se insinuaram novamente, com a imoralidade que as acompanha­ vam. O ímpeto das reformas de Josias, contudo, conservou em pleno vigor a adoração no Templo, pois era também o centro das esperanças nacionalistas de Israel. Os acontecimentos estavam-se apres­ sando na direção de um clímax. Em 605 a.C., Nabucodonozor derrotou fragoro- samente os egípcios em Carquemis, e Jeoiaquim foi forçado a transferir a sua lealdade para a Babilônia. Em cerca de 598, ele havia-se rebelado novamente, fa- 105
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    zendo com queuma vez mais a Babilô­ nia mandasse um exército contra Jerusa­ lém. A misteriosa morte de Jeoiaquim, nessa ocasião, ocasionou a coroação de seu filho Joaquim (Conias), que reinou apenas três meses e em seguida foi levado cativo para a Babilônia, em 597. Junta­ mente com ele foram levados os princi­ pais cidadãos de Judá, totalizando pelo menos dez mil, bem como utensílios do Templo, de valor inestimável. Zedequias (Matanias) foi colocado no trono por Na- bucodonozor. Mais tarde, ele também participou de uma rebelião contra a Ba­ bilônia. Mais uma vez Nabucodonozor dirigiu- se a Judá, e logo estava acampado diante de Jerusalém. Quando a cidade final­ mente caiu, em 587 a.C., Nabucodono­ zor, enfurecido com as constantes provo­ cações de Judá, matou a maior parte do povo e fez, comparativamente, poucos prisioneiros. Entre esses, todavia, estava Zedequias, a quem vazaram os olhos, levando-o em cadeias para a Babilônia. Foram deixados aldeões para cultivarem a terra, enquanto alguns dos principais da terra, que eram pró-Babilônia, foram deixados em Mispá, sob o domínio de um vice-reijudeu. Antes de 597 a.C., aproxi­ madamente 150.000 pessoas estavam vi­ vendo na Palestina. Em cerca de 520, haviam sido reduzidas a não mais do que 50.000 (Bright, p. 347). IV. O Exílio e a Restauração A destruição da monarquia não signi­ ficou o fim de Israel, pois a confederação tribal havia existido durante os dois sé­ culos anteriores ao estabelecimento do reino. Israel era um povo antes da as­ censão de seus reis, e sobreviveu depois que eles cessaram de reinar. A monar­ quia havia sido apenas um episódio de sua história contínua (Noth, p. 290). Ainda permaneciam os sonhos proféticos de conquista do mundo, e havia os que ainda criam que isto estava ligado à es­ trutura política que eles haviam conheci­ do anteriormente. Não obstante, os anos que se seguiram indicaram cada vez mais que o destino de Israel precisava ser en­ tendido em termos da nova situação vi- vencial em que os judeus se encontra­ vam. Desde o princípio, as tensões referen­ tes à monarquia se haviam centralizado ao redor do perigo de Israel perder o seu caráter distintivo de povo de Deus. A his­ tória do reino é, em grande parte, um re­ trato de suas tentativas frustradas de se estabelecer a si próprio militar e politica­ mente como nação típica. Visto que não era mais possível, depois da queda de Jerusalém, a realização desses sonhos materialistas, o seu futuro só podia estar em uma direção. O exílio e a restauração propiciaram o cadinho em que foi deter­ minada a contribuição característica de Israel. 1. A Vida Hebraica Durante o Exílio O Velho Testamento não faz nenhuma tentativa para descrever minuciosamente as condições que prevaleceram durante o exílio, quer na Palestina quer na Babilô­ nia. Embora a população tivesse sido dizimada, a Palestina não estava tão desolada quanto podemos supor. Jerusa­ lém estava em ruínas, mas a vida agrí­ cola continuava. Gradualmente, uma nova aristocracia agrícola se desenvol­ veu para substituir os nobres que haviam sido deportados. Com o passar dos anos, os cultos babilónicos e cananeus chega­ ram a permear a adoração de Yahweh na Judéia (Ez. 8:3,14; Is. 57:3-8; 65:3-5; 66:3,17). Não obstante, havia alguns adoradores fiéis de Jeová que haviam permanecido na terra natal, pois Jeremias menciona oitenta peregrinos, de Siquém, Siló e Samária, que levaram ofertas para serem apresentadas no lugar do Templo des­ truído (Jer. 41:4 e ss.). Nesse ínterim, na Babilônia, os lideres judeus estavam tentando reunir os peda­ ços de suas vidas abaladas. Embora em 106
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    587 a.C. oscativos fossem tratados sem misericórdia e reduzidos à escravidão, os que foram levados para a Babilônia em 597 mereceram considerável liberdade (Jer. 29:5-7; Ez. 8:1). Foi-lhes permitido conduzirem os seus próprios negócios e adquirirem propriedade, embora lhes fosse proibida a volta para o torrão natal. Privados da oportunidade de sacrificar no Templo, eles aprenderam que Yah- weh podia ser adorado sem tais liturgias. A obediência substituiu o sacrifício. O je­ jum tornou-se mais comum, e o sábado, mais proeminente. Embora não possa­ mos ter a certeza de quando começou a adoração formal nas sinagogas,5 algu­ mas formas simples de reunião religiosa devem ter ocorrido, com antecedentes que remontam à vida religiosa das comu­ nidades primitivas em Judá, especial­ mente depois que Josias havia destruído os altares locais. Essas reuniões mais tarde seriam chamadas sinagogas. O sincretismo que se estava desenvol­ vendo na Palestina contrastou aguda­ mente com as decisivas tentativas dos exilados de preservar a sua identidade em uma terra estranha. A liberdade da vida comunal, que lhes foi permitida pelos babilônios, deu-lhes a oportunida­ de de reter os seus padrões culturais e religiosos essenciais. Estes padrões foram observados com diligência dedicada. Ta­ manha fidelidade, em circunstâncias di­ fíceis, encorajou um exclusivismo, que exalçou as diferenças não apenas entre eles e os babilónicos, mas também entre eles e os que haviam permanecido na Judéia. Eles não apenas haviam sofrido mais do que o povo que ficara na terra, mas, ao darem ouvidos às palavras dos grandes profetas de Israel, haviam sido beneficiados pelos seus infortúnios. Quando retomaram à terra, este senti­ mento de superioridade os forçou a esta­ belecer uma separação entre eles e os que haviam permanecido (Esd. 4:1 e ss.). Se 5 H. H. Rowley, Worahip In Ancicnt Israel (London: SPCK, 1967), p. 213-245. esta atitude era completamente justifica­ da ou não, não o podemos dizer; contu­ do, devido ao desenvolvimento subse­ qüente da seita samaritana, depois deste cisma, podemos chegar à conclusão de que os exilados estavam enveredando por um caminho errado (Robinson, p. 157- 60). 2. A Era Pena O ano de 559 a.C. é um marco da história mundial. Naquele ano, Ciro su­ cedeu o seu pai como rei de Anshan. Bem depressa ele estava ameaçando Astíages, rei da Média. Em 550 a.C., Ciro dirigiu um exército vitorioso através das ruas de Ecbatana, capital da Média, saquean­ do-a e levando as suas riquezas para Anshan. Conquistas ulteriores, no Orien­ te, conservaram Ciro ocupado até 539 a.C., quando ele começou a marchar contra a Babilônia. Nabonido, rei da Babilônia, não estava em condições de resistir, se o desejasse. Os seus recursos haviam sido gastos em restaurar e edifi­ car os templos dos deuses. O seu povo estava descontente com o seu rei. Achan­ do que havia desagradado à divindade principal, Marduque, eles não tinham ânimo para resistir a Ciro. Depois da queda da Babilônia, Ciro tomou-se o soberano de toda a Ãsia ocidental, estendendo-se os seus domí­ nios até as fronteiras setentrionais do Egito. Visto que essa nação era a única ameaça para o seu poder no Sul, ele começou imediatamente a meditar em alguma forma de conservá-la de fora mediante algum ardil. O seu território incluía a Palestina. Se o povo dessa re­ gião lhe fosse fiel, o seu reino estaria mais seguro contra a ambição dos faraós egípcios. Desta forma, não é estranho que ele tenha permitido o retomo dos judeus da Babilônia para a sua terra an­ cestral — embora a soberana providência seja a nossa verdadeira chave para o que aconteceu (Is. 45:1-6). A reação de al­ guns dos judeus mais prósperos não foi 107
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    entusiástica, pois umgrande número de­ les preferiu permanecer na Babilônia. Muitos outros voltaram para a Palestina com Zorobabel, em cerca de 538 a.C. A cansativa marcha consumiu um tempo considerável, bem como os problemáti­ cos preparativos necessários ao estabele­ cimento da nova comunidade. Conse­ qüentemente, os alicerces do Templo só foram lançados em 536. 3. A Restauração O Templo só foi completado em 516 a.C., depois do encorajamento ministra­ do por Ageu e Zacarias, em 520. A ci­ dade ainda não era um lugar seguro, visto que não tinha muro protetor. Ele foi levantado por Neemias em 444 a.C., qua­ se cem anos depois de a primeira leva de judeus ter voltado da Babilônia. Ciro foi sucedido por seu filho Cambises, que era mentalmente perturbado. Com a ascen­ são de Dario, o Grande (Histaspes, 522- 486), um outro momento importante aconteceu no reinado persa. A política internacional da Pérsia era bem diferente da Assíria, perpetuada pela Babilônia. O sistema de deportação foi abandonado, permitindo-se que os povos cativos voltassem para a terra na­ tal. Um governo próprio considerável foi permitido. Os persas desejavam apenas uma certeza de que um tributo regular seria pago por um governador por eles nomeado. Dario. foi sucedido por Xerxes (486- 465), que foi, provavelmente, o Assuero do livro de Ester. Artaxerxes I (Longi- manus, 465-424) seguiu-se a ele. Na or­ dem cronológica, os outros reis persas foram Xerxes II (423), Dario II Nothius, 423-404), Artaxerxes II (Mnemon, 404- 358), Artaxerxes III (Ochus), 358-338), Arses (338-336) e, finalmente, Dario III (Codomannus, 336-331), que rendeu-se ao império de Alexandre, o Grande. Há grande dificuldade em localizar Esdras neste esquema cronológico. O lu­ gar tradicional que se lhe dá é em 458 a.C., durante o ano sétimo de Artaxer­ xes I. Muitos eruditos contendem, toda­ via, em que ele voltou durante o sétimo ano de Artaxerxes II (398 a.C.). Outros ainda sugerem que “o sétimo ano” origi­ nalmente era “o trigésimo sétimo ano”, e o colocam durante o reinado de Arta­ xerxes I (428). Não há exatidão a respeito deste assunto, embora a data de 398 pareça mais improvável, visto que o sóli­ do testemunho bíblico insista que Esdras e Neemias estiveram em cena conjunta­ mente. 4. Os Primórdios do Judaísmo Sem sombra de dúvida, o judaísmo posterior desenvolveu as suas ênfases ca­ racterísticas durante a era persa. O de­ senvolvimento da escatologia caracteri­ zou esse período. Frustrados com a época contemporânea, eles se mostraram mais receptivos a pensamentos a respeito do futuro. Quando Israel foi influenciado pelo pensamento do zoroastrismo é as­ sunto de debate (Robinson, p. 165). A despeito das influências externas, os he­ breus estavam sendo levados a refinar e a desenvolver a sua própria teologia, no contexto de seu monoteísmo convicto. Não apenas estavam mudando as ati­ tudes concernentes ao futuro, mas tam­ bém os pontos de vista a respeito das responsabilidades presentes. Com a vin­ da de Esdras, uma nova direção foi im­ primida à vida dos israelitas: ênfase na lei. Enquanto, no passado, a lei havia servido aos hebreus, agora eles se tor­ navam servos da lei.6 O instrumento divino para a expressão de sua fé muitas vezes tornou-se um fim em si mesmo. A lealdade nacional estava sendo substituí­ da por lealdade à tradição, escrita e oral. Outros desenvolvimentos significativos resultaram do sistema persa de governar as suas províncias. Embora conservas­ sem o controle estrito de toda a vida polí­ tica, os persas permitiam completa li­ berdade de religião. Os hebreus, priva- 6 Gerhard von Rad, Old Testament Tbeology (London: Oliver & Boyd, 1962), I, 91. 108
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    dos de independênciapolítica, encontra­ ram um derivativo na articulação e apli­ cação novas da sua fé histórica. As frus­ trações políticas foram compensadas pelo zelo religioso. A ênfase peculiar que marcou a vida de Israel desde então encontrou expressão durante essa época: um rico vocabulário de oração e louvor (encontrado nos Salmos do Segundo Templo), uma aplicação prática dos princípios proféticos à vida diária (ex­ pressa na Literatura de Sabedoria) e, especialmente, uma recusa obstinada de ceder a qualquer pressão, social ou polí­ tica, no sentido de apostatar. Em tudo isso Deus estava guiando o seu povo na direção do propósito que tinha para com ele. Aqueles que haviam estado esperan­ do o Segundo Davi estavam sendo prepa­ rados para o Servo Sofredor. Para Leitura Adicional ALBRIGHT, W. F. From the Stone Age to Christianity. Baltimore: John Hopkins Press, 1946. ANDERSON, G. W. The History and Religion of Israel. (“The New Cla- rendon Bible” , Old Testament, Vol. I.) Oxford: University Press, 1966. BRIGHT, JOHN. A History of Israel. Philadelphia: Westminster Press, 1960. DANIEL-ROPS. Israel and the Ancient World. London: Eyre & Spottis- woodè, 1949. MANSON, T. W. A Companion to the Bible. Edinburgh: T. & T. Clark, 1943. NOTH, MARTIN. The History of Israel. 2a ed. rev. Trad, para o inglês por P. R. ACKROYD. New York: Har­ per & Row, 1960. OESTERLY, W. O. E., e T. H. ROBIN­ SON. A History of Israel. Oxford: Clarendon Press, 1932. ROBINSON, H. WHEELER. The His­ tory of Israel. London: Duckworth, 1938. SNAITH, NORMAN H. The Jews from Cyrus to Herod. Wallington: Reli­ gious Education Press, 1949. THOMAS, D. W. Archaeology and Old Testament Study. Oxford: Claren­ don Press, 1967. WELLHAUSEN, JULIUS. Prolegomena to the History of Israel. London: Adam & Charles Black, 1885. 109
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    A Teologia doVelho Testamento As idéias teológicas do Velho Testa­ mento referem-se à natureza e à ativida­ de do próprio Deus, à medida que ele se revela ao povo hebreu; ao relacionamen­ to da natureza para com Deus como seu Criador e Sustentador; à relação respon­ sável do homem para com Deus; e ao inter-relacionamento do homem com os seus semelhantes e com o seu meio am­ biente natural, sob os auspícios de Deus. I. A Metodologia da Teologia do Velho Testamento Precisamos lembrar que, ao estudar o pensamento do Velho Testamento, es­ tamos tratando com tradições e do­ cumentos que cobrem mil anos de his­ tória hebraica. E, porque estamos tra­ tando de revelação histórica, e não de padrões de pensamento de um período circunscrito de tempo, a teologia do Ve­ lho Testamento apresenta um problema peculiar. Precisamos decidir a respeito de alguma norma ao redor da qual edi­ fiquemos o pensamento teológico. Preci­ samos estabelecer a diferença entre os elementos permanentes do pensamento de Israel e os que são transitórios. Pre­ cisamos sistematizar, mas a sistematiza­ ção precisa ser coerente com um des- vendamento, através dos longos proces­ sos da História. Ela precisa representar fielmente o diálogo do Deus vivo com o seu povo. Como resultado destes proble­ mas, a metodologia e a atitude adotada pelos teólogos do Velho Testamento fo­ ram variegadas. Antes de tudo, precisamos diferenciar cuidadosamente a teologia do Velho Tes­ tamento da história da religião hebraica. Esta última estuda a religião de Israel E. C. Rust como fenômeno histórico, tratando de suas estruturas em mutação e de seus elementos transitórios tanto quanto dos permanentes. Ela se preocupa com o que é característico da religião de Israel, mas também se interessa pela relação da re­ ligião hebraica com as religiões das cul­ turas vizinhas. Além disso, ela considera o desenvolvimento da experiência religio­ sa de Israel e estuda a religião hebraica cronologicamente. Esse estudo é um pano de fundo valioso e um bom suple­ mento para a teologia do Velho Testa­ mento, mas a abordagem da última é diferente. Neste estudo, estamos interes­ sados nos elementos permanentes que persistem, no desenvolvimento histórico da fé de Israel, e não desaparecem de cena. Mais uma vez: a teologia do Velho Testamento procura o significado teoló­ gico das idéias teológicas de Israel, e procura edificá-las em um padrão siste­ mático. Em segundo lugar, precisamos nos perguntar como avaliar o que é de signi­ ficado permanente na fé de Israel. Visto que a maior parte dos teólogos do Velho Testamento está participando da fé cris­ ta, o tribunal de recursos final deve ser cristológico. Esses teólogos chegaram a um acordo quanto ao seguinte: de algu­ ma forma a fé do Velho Testamento aponta para a fé do Novo Testamento e propicia ao segundo o seu contexto his­ tórico. O que é de significado perene relaciona-se com o testemunho teológi­ co do Novo Testamento. Os teólogos do Velho Testamento divergem em suas opi­ niões, tanto quanto Th. C. Vriezen e G. von Rad concordam com Otto Procksch que o Velho e o Novo Testamentos são 111
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    tão interdependentes queo Velho Testa­ mento sem o Novo é como um corpo sem cabeça. O nosso padrão final para o julgamento do que é importante precisa ser, portanto, cristológico, a saber, o que aponta para o Novo Testamento e se cumpre na fé que ele esposa. Ficamos ainda com o terceiro proble­ ma: o padrão em que ordenar as idéias teológicas da fé do Velho Testamento. Aqui enfrentamos o problema de um desenvolvimento histórico em que tais idéias atingem dimensões mais ricas e também o fato de que o desvendamento de Deus está intimamente ligado ao mo­ vimento histórico da vida de Israel. Evi­ dentemente, é mais satisfatório, aqui, um padrão existencial envolvendo o con­ ceito de diálogo e do relacionamento entre Deus e a sua ordem criada. Os teólogos modernos do Velho Testa­ mento têm manifestado a tendência de avançar de uma forma puramente siste­ mática para uma abordagem mais dinâ­ mica, enfatizando a atividade divina e a relação de Deus com a sua ordem criada. No contexto desta estrutura, eles têm procurado sistematizar de várias manei­ ras. Aqui adotaremos uma posição si­ nóptica ou sistemática, centralizando- nos na relação dinâmica do Deus vivo com as suas criaturas, enfatizando as idéias teológicas que são reunidas de for­ ma transfigurada na fé neotestamentá- ria. A chave precisa ser o contínuo des­ vendamento do Deus vivo diante de Israel. II. Os Padrões Característicos do Pensamento Hebraico O hebreu era pessoa essencialmente realista. Ele aceitava o mundo da forma como ele lhe aparecia, no nível dos sen­ tidos, e percebia muito bem as forças tre­ mendas e a beleza majestosa da ordem natural. Isto é evidenciado exaustiva­ mente nos Salmos que fazem alusão à natureza (v.g., 65; 104; 148), porém ma­ nifesta-se também nas imagens usadas pelos profetas, que se aproveitaram gran­ demente da natureza em seus símiles poéticos. O hebreu também confiava em suas intuições morais e em suas visões religiosas. Em cada nível de sua expe­ riência, ele cria que estava em contato com a realidade. O seu realismo era, contudo, carac­ terizado por um peculiar senso de “intei­ reza”. Bem evidente em sua opinião a respeito da natureza e das “espécies” de animais, este senso de inteireza o é espe­ cialmente no caso do homem. O indiví­ duo, especialmente nos primeiros dias do pensamento hebraico, é sempre conside­ rado em seu contexto de um todo coleti­ vo. Ele está dentro da família, do clã, da tribo, da nação — da humanidade como um todo. Há um senso de personalidade coletiva em nível social. O que um ho­ mem faz é responsabilidade não apenas sua, mas também de sua família. Isto explica o terrível castigo infligido a toda a família e propriedade de Acã por causa do pecado dele (Jos. 7:24). A personali­ dade do indivíduo e as conseqüências do que ele faz se estendem àqueles que se relacionam com ele. Esta “extensão de personalidade” de­ pende, para sua amplitude, do significa­ do dos relacionamentos sociais do indiví­ duo em pauta. Desta forma, o rei incor­ pora em si mesmo toda a nação, e o bem-estar da nação depende do bem- estar do próprio rei. Em nível familiar, desenvolveu-se o seguinte provérbio: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram” (Ez. 18:2). Isto se reflete na aceitação da máxima de que os pecados dos pais serão visitados nos filhos até à terceira e quarta gerações (Êx. 20:5). Ao nível de qualquer grupo intimamente unido, o costume da vin­ gança do sangue requeria que o crime de um membro do grupo fosse pago pelo sangue de outro membro (II Reis 9:26). A idéia de extensão de personalidade nos ajuda a entender como todos os Sal­ mos podiam ser descritos como existentes dentro da personalidade coletiva ou ex- 112
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    tensiva de Davi,o salmista típico; todas as leis dentro da de Moisés, legislador tí­ pico; toda a sabedoria no contexto da de Salomão, o sábio típico. Finalmente, precisamos notar que a própria palavra Adão é mais uma palavra coletiva do que um nome próprio. Ela está no lugar do homem típico, e toda a humanidade deve ser descrita pela humanidade inclusive de Adão. Psicologia Hebraica. O senso de intei­ reza também permeia a maneira de o hebreu entender o próprio homem. O ho­ mem é considerado como um todo psi­ cossomático. O seu corpo é parte inte­ grante de seu ser pessoal. Isto é bastante evidente na maneira hebraica de enten­ der a “alma”. Esta palavra é muito di­ ferente, quanto ao significado, da nossa idéia comumente concebida de alma, que se origina mais do pensamento grego. O significado inicial de alma é “princípio animado”, o que faz a diferença entre os mortos e os vivos. Para o hebreu, o ho­ mem não é uma alma encarnada em nosso sentido moderno, mas um corpo animado. O hebreu não tinha uma pala­ vra para designar “corpo” ou “persona­ lidade” . Aqui verificamos o realismo he­ braico, com a sua ênfase nas coisas con­ cretas, e não nas abstratas. O corpo é o homem, e o homem é caracterizado pelo fato concreto de que o seu corpo é ani­ mado. As coisas físicas e psíquicas estar» intimamente interligadas. Se o sangue de um homem for derramado, a sua vida será literalmente derramada. Neste ní­ vel de pensamento, o significado de “alma” pode ser traduzido como “vida” (II Sam. 1:9). Em um nível mais alto, “alma” signifi­ ca o homem em sua totalidade como um “ego” pessoal, e, desta forma, é equiva­ lente a “eu” . Além disso, há a referência concreta, pois a personalidade do ho­ mem está ligada à sua condição corporal (Gên. 27:25; Sal. 13:2). A atitude psicos­ somática ainda está presente. Da forma como o homem é interiormente, ele o é exteriormente. O bem-estar da alma é comparada à gordura (Is. 55:2; cf. Jer. 31:25). A “alma” é o homem em sua unidade pessoal do princípio animado com a carne. Contudo, há uma conotação mais inte­ rior de alma, quando esta palavra é usada para descrever os desejos íntimos de um homem, tanto os físicos quanto os espirituais. Um homem de fortes desejos físicos é uma “alma gananciosa” (cf. Is. 56:11, texto hebraico), e uma alma tam­ bém tem sede de Deus (Sal. 42:2 e ss.). As emoções de amor (I Sam. 20:17) e ódio (Is. 1:14) centralizam-se na alma. Isto se toma claro na maneira do hebreu entender “coração” . O coração é o centro do pensamento e da intenção, e passa a significar especialmente o aspec­ to intrínseco do homem, que chamamos de caráter. O hebraico, por conseguinte, pode falar de “colocar uma coisa no coração” ou de “colocar o seu coração em uma coisa” , quer dizer, deixar um pensamento ou palavra agir sobre ele (Is. 57:1; Jer. 12:11; Mal. 2:2). O cora­ ção, desta forma, representa a vida ínti­ ma ou o caráter do homem. O homem é uma alma, mas também tem um cora­ ção. O coração pode, contudo, significar toda a personalidade. O coração do ho­ mem pode ser consolado, ou pode ser derramado (Gên. 18:5; Lament. 2:19). O hebreu cria que, mediante a sua pala­ vra, a pessoa podia esvaziar parte de süa “alma” em outra, e dar-lhe forças para agir. A sede dos sentimentos é semelhante­ mente considerada como as entranhas (Jer. 4:19; Is. 16:11), enquanto os rins também podem executar funções físicas, tanto quanto psíquicas (Jó 16:13). Em tudo isto, a inteireza psicossomática do homem é enfatizada. As suas condições externas e o seu estado íntimo de espí­ rito, ou caráter, são ligados e se refletem mutuamente. Daí chegamos à fácil con­ clusão de que as calamidades externas sempre resultam de um afastamento in- 113
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    terior de Deus,problema que deixava perplexo o autor de Jó. A Cosmologia Hebraica e o Ponto de Vista Hebraico da Natureza. Da mesma forma como o hebreu não compartilhava de nosso entendimento psicológico mo­ derno, ele também era pré-científico em sua maneira de entender a natureza. O seu mundo é um universo disposto em três camadas. Ele retrata uma terra cha­ ta, como um disco, com montanhas nas margens, sobre as quais repousa a cúpu­ la sólida do céu, o firmamento. Sob a terra está a sepultura familiar ampliada, o Sheol, para onde vão as sombras dos que se findam. Acima da cúpula do céu está o palácio de Deus. Gênesis 1 e Salmos 104 ilustram igualmente esta cos­ mologia. O hebreu retrata este todo como rodeado pelo “abismo”. O fato de que uma opinião semelhante prevalecia em outras partes do Oriente Próximo antigo é uma recordação de que, em sua perspectiva pré-científica, os hebreus compartilhavam de algumas das opiniões de seus contemporâneos. Quanto à natureza propriamente dita, o hebreu a entendia com o mesmo senti­ do de inteireza com quem entendia o homem. A natureza, como uma totalida­ de, e os vários grupos de fenômenos na­ turais, no contexto da totalidade, são considerados como “todos”. Sobretudo, tais “todos” são considerados como ca­ pazes de uma reação ou resposta psí­ quica. A terra, como um todo psíquico, tem um laço psíquico tanto com Deus como com o seu povo. Ela pode ser a terra de “Beulá”, casada com Deus (Is. 62:4). Os animais domésticos formam um todo psíquico e podem manifestar uma rea­ ção psíquica para com o homem. Eles têm um pacto com o homem, pelo qual se tomaram seus servos, enquanto as cria­ turas selvagens não o têm (Jó 41:4). O hebreu não tinha idéia das estrutu­ ras mecânicas de causa e efeito, com que a ciência moderna nos tomou familiari­ zados. Pelo contrário, ele pensava em cadeias de reação psíquica. Oséias pôde pensar em Deus provocando uma cadeia de reações psíquicas nos céus: o trigo, o vinho e o óleo; e Jizreel (2:21,22). Até o sol e os outros corpos celestes são retra­ tados tanto física quanto psiquicamente. O Salmo 19:4-6 toma esta idéia clara, no caso do sol, e, no Salmo 148, o sol, a lua e as estrelas são convocados para louvar a Deus. As estrelas possuem tanta vida psíquica que podiam lutar contra Sísera (Juiz. 5:20), enquanto o autor de Jó retrata as estrelas da manhã gritando juntas quando Deus criou o mundo (Jó 38:7). Isto não é mera poesia, mas um aspecto do realismo hebreu, com o seu senso de inteireza psíquica. III. O Desvendamento Divino O Velho Testamento é o testemunho do desvendamento divino na história do povo hebreu. Os hebreus, diferentemente dos gregos, não chegavam ao seu enten­ dimento de Deus pelos processos da ra­ zão humana. Deus não era considerado como um Ser estático, um padrão racio­ nal, que emprestava significado ao Uni­ verso. Ele era visto como o Deus vivo, um Ser pessoal dinâmico, que era conhecido pelo que fazia. Ele era vivo e pessoal. Essencial para esta maneira de entender Deus era a sua vontade, expressando a sua intenção, o seu propósito. Além dis­ so, a reação do homem para com Deus era o caminho da vontade, da confiança e dedicação ao desvendamento divino. Deus agia como pessoa, entregando-se ao homem, revelando-se a ele, nas vicissitu­ des de sua vida histórica. Ele não era um sistema abstrato de idéias racionais. Esta natureza pessoal e viva de Deus esclarece o testemunho do Velho Testa­ mento em todos os seus pontos. Como tal, Deus é continuamente ativo na his­ tória dos hebreus, transformando o seu curso, tratando redentoramente com Is­ rael, em juízo e em misericórdia. A per­ cepção da fé apreendia a sua realidade através dos fatos históricos e do ambiente 114
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    natural da existênciahebréia. Daí, poder o homem jurar pela vida de Deus (Juiz. 8:19). Como Deus vivo, ele fala do Sinai com a voz do trovão (Deut. 5:26) e vem socorrer o seu povo quando da invasão da Palestina (Jos. 3:10). O Nome de Deus — Yahweh. Por conseguinte, Deus se dâ aos homens em forma pessoal. Isto é verificado especial­ mente na revelação de seu nome. Para o hebreu, dar o seu nome a outrem era, em sentido real, compartilhar o conhecimen­ to do mais íntimo de seu ser. Assim, quando Deus deu o seu nome “Yahweh” a Moisés, esta foi uma auto-revelação pessoal. Este é o principal nome de Deus no Velho Testamento. De acordo com a tradição E (ou Do­ cumento Eloísta), o nome de Yahweh foi revelado a princípio a Moisés (Ex. 3:15). Há, contudo, indicações de que esse nome não era inteiramente nova para alguns grupos hebreus. A tradição J o faz remontar aos tempos primevos e o associa com Abraão (Gên. 4:26; 9:26; 15:7). Estas duas tradições não precisam ser consideradas como contraditórias. Sabemos que a invasão da Palestina, pe­ los hebreus, foi feita pouco a pouco, e pode ser que, para alguns grupos tribais, o nome de Yahweh já fosse conhecido, por exemplo, para as tribos de Lia (cf. Jacob, p. 49 e ss.). É bem evidente que o Deus vivo era conhecido dos patriarcas como ’El, o Deus dos pais. Vários indivíduos e gru­ pos de indivíduos o conheciam como o amigo e guia familiar, que os acompa­ nhava em suas peregrinações. Muitos eruditos afirmam que, entre os grupos semitas, havia um monoteísmo original, primitivo. Certamente a tradição P de­ clara que, antes do Êxodo, Deus era co­ nhecido pelo povo hebreu como ’El Shad- dai, Deus todo poderoso, e, como tal, nesta tradição, ele se havia revelado a Abraão (Êx. 6:3; Gên. 17:1; cf. 28:3). O encontro de Melquisedeque com Abraão introduz o nome ’El ‘Elyon, Deus Altíssimo. É claro que a religião dos pa­ triarcas estava associada a Deus como ’El, e este nome era associado especial­ mente a poder. Pode ter sido que o nome Yahweh também fosse usado nesse passado remo­ to e obscuro. Não obstante, para Moi­ sés, este nome veio como um novo des- vendamento da natureza Intima de Deus. Há muito tempo se perderam as vogais, na verdade, usadas no nome original, pois a devoção posterior proibiu a enun­ ciação do nome divino. Só permanecem as consoantes YHWH e, no texto sagra­ do, a sua ocorrência era sempre acompa­ nhada, na leitura, pela sua substituição pelo nome “o Senhor”, Adonai. Conse­ qüentemente, as vogais desta última pa­ lavra foram ajustadas às consoantes da primeira, para produzir o nome de Jeo­ vá. Contudo, esta não é a forma original. Paralelos primitivos e fragmentos de evi­ dências parecem indicar que a forma original é Yahweh. No entanto, se Yahweh era conhecido dos patriarcas, não o era como na reve­ lação que sobreveio a Moisés. O ’El de poder tornou-se o Deus de atividade pes­ soal, na revelação da sarça, que se quei­ mava. Deus veio a Moisés como o Deus dos pais, mas ele agora se desvendou de maneira nova. Embora fosse conhecido anteriormente, este nome teve um novo_ significado. Deus passou a ser entendido como “Aquele que é”, uma atualidade viva, contínua. As consoantes do nome divino se tornaram ligadas, na consciên­ cia de Moisés, com o verbo ser. A coisa importante é que Deus é, sendo o alicerce perene e vivo da vida de Israel. O Deus de poder tornou-se mais pessoa, a garan­ tia da redenção, de seu povo, da escravi­ dão. Deus é Yahweh, e Yahweh expres­ sa, em sua estrutura consonantal, o des- vendamento de “Eu sou” . O Desvendamento Divino — a Glória Divina. O hebreu tinha muita consciên­ cia do fato de Deus ser oculto e trans­ cendente. Deus era pessoal, e, como tal, 115
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    também estava envolvidoem mistério. Deus, ao mesmo tempo, era revelado através de suas ordens criadas, e oculto por elas. Ele era o Deus de mistério, a quem o homem não podia achar, ao procurá-lo (Is. 40:28; Jó 11:7). Ele estava além dos processos da natureza e da História, o Santo que habitava na eterni­ dade (Is. 57:15), no entanto, ele era também imanente neles. Não havia parte de seu mundo que não estivesse aberto para ele e onde ele não estivesse presente (cf. Sal. 139). Deus podia operar dentro da natureza e da História e desvendar-se pessoalmente nelas. Quando os hebreus procuravam enten­ der esta divina atividade de desvenda- mento, certas palavras características eram empregadas. Encontramos a ex­ pressão “glória divina” usada bem fre­ qüentemente. A glória de Deus é a ma­ neira como ele se manifesta — a sua apa­ rência visível, com o sentimento conse­ qüente de solenidade, da parte do ho­ mem. As teofanias em a natureza, tais como fogo e fenômenos de tempestade, manifestam a glória de Deus com apa­ rência de fogo — a sarça ardente (Êx. 3:2 e ss.), a coluna de fogo (Êx. 13:21), o fogo que queimou o sacrifício de Elias (I Reis 18:24 e ss.). A nuvem de tempes­ tade se tomou a teofania para Exeqtüel (1:26-28). O relâmpago, é, possivelmen­ te, a base física para a semelhança de serpente atribuída ao serafim nas visões proféticas (Is. 6:2 e ss.; Ez. 1:5 e ss.). No entanto, Deus se esconde ao se mostrar. A sua glória é oculta pela nu­ vem. As nuvens de incenso que se levan­ tam escondem, de Isaías, a presença de Yahweh (6:1 e ss.). Moisés vê apenas Deus pelas costas. Ver a glória de Deus em todo o seu esplendor fulgurante sig­ nifica morte (Êx. 33:17-23). Podemos dizer que a glória de Deus é o seu esplendor radiante, que ele irradia, quando aparece na tempestade e no re­ lâmpago fulgurante. O Espírito e a Palavra. Muito mais significativos para o entendimento da revelação do Velho Testamento são o Espírito e a Palavra. No pensamento he­ breu, a idéia do Espírito tem sido mais de um poder impessoal do que de uma presença pessoal, especialmente no pe­ ríodo pré-exílico. A palavra tem conota­ ções físicas. Ela também pode significar vento. O espírito ou vento das narinas de Deus faz erguerem-se num montão as águas do Mar Vermelho (Ex. 15:8). Eze- quiel, na visão do vale de ossos secos, faz um jogo de palavras com o sentido duplo desse vocábulo, como “vento” e “espí­ rito” (Ez. 37:1-14). Neste sentido físico, o Espírito divino podia, nos primeiros dias, ser associado particularmente com aspectos manifestamente violentos do comportamento humano, como, por exemplo, a força de Sansão e os paroxis­ mos de ira e loucura de Saul (Juiz. 14:6, 19; I Sam. 16:14). Todos os dons extra­ ordinários são também devidos ao Espí­ rito: a perícia de Bezaleel e a capacidade de José para interpretar sonhos (Êx. 28:3; Gên. 41:25 e ss.). O Espírito de Deus é uma extensão de sua personali­ dade em atividade poderosa, tomando posse do homem. O Espírito passou a ser associado espe­ cialmente com os profetas. Saul profeti­ zou quando o Espírito de Deus veio po­ derosamente sobre ele (I Sam. 10:10). Desta forma, o Espírito toma-se o ins­ trumento da revelação divina (cf. Miq. 3:8; Ez. 2:2; 11:5). Outro termo intimamente ligado com o desvendamento divino é a “palavra” de Yahweh. No nível humano, a palavra pode significar ato ou coisa, bem como expressão vocal, no pensamento hebrai­ co. Ao se comunicar com os outros, algo do homem impregnava a sua palavra. Tomando forma visível ou audível, ela continha em si mesma algo do próprio ser e intenção do orador. Como uma extensão de seu ser pessoal, ela minis­ trava ao ouvinte a intenção da pessoa que a havia enviado. Desta forma, a palavra 116
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    humana era uminstrumento poderoso, capaz de operar o bem ou o mal naqueles a quem era dirigida. Da mesma forma, a palavra divina era uma extensão do ser pessoal de Deus, em seu mundo. Ela comunicava, em forma poderosa, a intenção divina. Quando ela era pronunciada pelo profeta, iniciava a intenção divina, em microcosmo, na si­ tuação para a qual era dirigida. Então, ela já teria iniciado o seu trabalho obje­ tivo no mundo, e não poderia voltar vazia para Deus (Is. 55:10 e s.). Conseqüente­ mente, o profeta podia prefaciar os seus oráculos com: “Assim diz o Senhor.” Uma vez pronunciada, a palavra de Yah- weh seguia o seu caminho, contendo em si o próprio poder de Deus, e agindo independentemente da pessoa do profe­ ta. Assim sendo, a palavra podia ser enviada por Yahweh e acender-se sobre Israel em julgamento catastrófico (Is. 9:8 e ss.). O profeta não tinha uma palavra de Yahweh; ele tinha a palavra de Yah­ weh, dando a entender a plena revelação divina para a sua situação peculiar. O profeta era inspirado pelo Espírito de Yahweh, e ao mesmo tempo tinha a palavra de Yahweh. Estas características representam a imanência e a atividade reveladora de Deus em seu mundo e na História. O Desvendamento Divino e a Cons­ ciência Profética. O desvendamento divi­ no na História centraliza-se na consciên­ cia profética. Foi a presença do profeta que transformou as atualidades históri­ cas em acontecimentos revelatórios e criou uma situação de desvendamento para Israel. A palavra profética de Moi­ sés, por ocasião do Êxodo, transformou um acontecimento natural, o vento que fazia as águas recuar, em um desvenda­ mento da redenção de Yahweh para o seu povo. A palavra de Yahweh, através de Isaías, criou, a partir da invasão históri­ ca das forças assírias, um desvendamen­ to dojulgamento divino e uma conclama- ção ao arrependimento (10:5 e ss.). Deu- tero-Isaías pode declarar que Ciro, o conquistador persa, iria cumprir a inten­ ção divina, e restaurar à sua terra os exilados na Babilônia (Is. 44:28-45:7). Desde Moisés, as figuras notáveis na vida de Israel são os profetas. Esses homens se caracterizavam por uma percepção inspirada da vontade e intenção divinas. Eles sentiam o que Deus sentia, e eram constrangidos a falar e agir sob a direção dele. Podemos dizer, em linguagem moderna, que lhes havia sido dada uma percepção intuitiva dos propósitos divinos. Eles podiam enxergar o padrão da mente divina, e comparti­ lhar dos pensamentos de Deus. Eles se consideravam como extensões temporá­ rias do ser divino, em atividade histórica. O que distingue os profetas não é a psicologia de sua atividade, mas o con­ teúdo do que eles diziam e faziam. Ge­ ralmente eles parecem ser classificados em dois tipos: os extáticos e os videntes — ambos presentes em Israel. O tipo extático, que se lançava num frenesi e manifestava comportamento anormal, pode ser que anteriormente fosse conhe­ cido pela palavra agora traduzida como “profeta”. Exemplos disso podem ser encontrados nas “escolas de profetas” associadas com a obra de Samuel, Elias e Eliseu, sob o contágio de cuja influência emocional Saul também começou a pro­ fetizar (I Sam. 10:10; cf. 18:10). O tipo de vidente era caracterizado por percep­ ção calma e intuitiva, julgamento me­ diante reflexão, como Samuel e Moisés. As palavras hebraicas características tra­ duzidas como “vidente” descrevem vi­ dência e audição. Esses homens estavam intuitivamente em contato com a mente e o propósito divinos. No entanto, Samuel podia às vezes mostrar fenômenos caris­ máticos como um profeta extático. Pareceria que, ao tempo em que as nossas tradições foram reduzidas à forma escrita, a palavra profeta havia-se torna­ do um termo descritivo genérico, cobrin­ do todas as variedades de atividades pro- 117
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    féticas (cf. ISam. 9:9). Além do mais, a maior parte das grandes figuras profé­ ticas mostra uma fusão dos dois tipos de psicologia. Há elementos extáticos, em seus sonhos, visões, audições, senso de compulsão e comportamento anormal. Contudo, o aspecto extático encontra-se mais na periferia de sua consciência. No centro da consciência das grandes figuras proféticas encontramos uma percepção intuitiva firmada na mente e no propósi­ to divinos, e o exercício de um juízo moral reflexivo sobre os problemas que se levantam diante deles. Todos eles po­ dem, em certas ocasiões, ser classificados como extáticos, porém, igualmente, to­ dos eles mostram as características de videntes. A característica distintiva do conteúdo de sua mensagem é indicada, não pelo padrão psicológico do seu comportamen­ to, mas pela luta contra os falsos profe­ tas. Eles eram profetas associados com os santuários onde Yahweh era adorado: Betei, Gilgal e o Templo de Jerusalém. Indubitavelmente, muitos desses homens eram seguidores devotos e honestos de Yahweh. No entanto, uma instituição religiosa inevitavelmente dá origem a al­ guma forma de profissionalismo. Levan­ taram-se falsos profetas, que manifesta­ vam o mesmo comportamento psicológi­ co exterior, mas emitiam oráculos deso­ nestos, como, por exemplo, no episódio de Micaías ben Inlá (I Reis 22). Mi- quéias descreve os profetas mentirosos, no original hebraico, como sacos de ven­ to (2:11). A agonia de espírito de Je­ remias era ainda mais difícil de agüen­ tar, por causa dos espíritos falsos que pregavam “paz” , quando ele estava de­ clarando julgamento e exílio a Judá (23: 15 e ss.; 29:21 e ss.; cf. Miq. 3:5,11). Esses homens imitavam a maneira de os profetas se expressarem. Exteriormente, eles eram idênticos. A sua mensagem precisava ser provada de duas maneiras. O teste extrínseco era a confirmação de seus oráculos nos próprios acontecimen­ tos históricos. Micaías consiste em um bom exemplo (cf. Zac. 1:6). O teste in­ trínseco está na coerência ética da men­ sagem do profeta com a sua vida. Jere­ mias ataca os falsos profetas por causa de sua promessa de paz sem requisitos mo­ rais (22:17). Por que os falsos profetas diziam ter o Espírito de Yahweh, os profetas canô­ nicos antes do exílio enfatizavam que ti­ nham a palavra de Yahweh. Só com Ezequiel, profeta do exílio, volta a ênfase no Espírito. Porém, quer dizendo ter o Espírito quer a palavra, os profetas criam ser mensageiros de Yahweh, ex­ tensões temporárias de sua presença pes­ soal neste mundo, agentes de sua ativi­ dade. Eles consideravam Deus como ro­ deado pelo seu concílio celestial, a sua assembléia de santos, de cujas delibera­ ções eles participavam, e de onde haviam sido enviados, para declarar os decretos divinamente ordenados (Jer. 23:18,22; cf. I Reis 22:19 e ss.). Como mensagei­ ros, eles haviam sido absorvidos tempo­ rariamente na vida do próprio Deus. As suas palavras eram palavras dele, e os seus atos, atos dele. Os seus atos eram importantes. Eles falavam a palavra de Yahweh, mas tam­ bém colocavam-na em prática. Isaías re­ presenta a escravidão sob os egípcios, andando com roupa de escravo (cap. 20). Jeremias toma um vaso de barro e o arrebenta, para simbolizar o juízo de Deus (cap. 19). Ezequiel abre um buraco na parede de sua casa e tira por ele os seus móveis, retratando o cerco de Jeru­ salém, as brechas em seus muros e o povo indo para o exílio (12:1 e ss.). O profeta cria que desta forma Deus estava inician­ do, em miniatura, a sua intenção a res­ peito do seu povo. O ato iniciava a reali­ zação dos propósitos de Deus. O profeta não era apenas o guardião e porta-voz do oráculo divino, mas tam­ bém um especialista em oração interces- sória. Verificamos este fato no caso de Abraão (Gên. 20:7; Jó 42:8); Moisés (Êx. 118
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    32:11-14); Amós 7:2e ss.); e Jeremias. Em sentido muito real, os profetas eram promessas da encarnação. Eles eram me­ diadores, colocando-se entre Yahweh e o seu povo, desvendando a sua vontade para o povo e intercedendo diante dele como representantes do rebelde Israel. A Lei e o Sacerdócio. Em torno do Decálogo, dado através de Moisés no alto do Sinai, cresceu um considerável código de leis e regras. As leis propriamente ditas eram apresentadas de várias manei­ ras. Elas compreendiam, por um lado, injunções morais e cerimoniais, exempli­ ficadas pelo primeiro livro da lei, o Códi­ go do Pacto (Êx. 20:22-23:33). Lado a lado com estas, encontramos os juízos — leis civis e criminais — administrados pelo rei e pelos juizes locais. Estas leis seculares encontram-se em Êxodo 21:1- 22:7. O primeiro grupo é o cerne da Lei. Ele cristaliza as concepções do movimen­ to profético desde Moisés em diante e também os costumes sacerdotais dos san­ tuários locais. Mas o rei e os juizes também eram estabelecidos por indica­ ção divina. A unção do rei indicava a sua natureza sagrada. Assim, todas as leis eram, em última análise, alicerçadas na vontade de Deus. Assim, cresceu em Israel um código de leis que consistiam de injunções morais, regras cerimoniais, leis civis e juízos cri­ minais. Ele incluía leis que se haviam originado dos costumes sociais, dos de­ cretos de reis e juizes, das práticas litúr- gicas e cerimoniais e de injunções morais baseadas em oráculos proféticos. Por fim, todas elas foram incorporadas em nosso Pentateuco, e passaram a consti­ tuir a Lei Judaica. Deuteronômio mani­ festa bem claramente os ensinamentos dos profetas do oitavo século a.C. a res­ peito dojuízo divino. Quando a consciên­ cia profética se desvaneceu, depois do exílio, a Lei começou a ocupar o seu lugar. Deus, que havia falado aos pais através dos profetas, agora falava através das injunções de sua “lei” . A Lei foi aplicada a todos os aspectos da vida do homem, e, quando Nosso Senhor veio, os fariseus e seus mestres, os rabis, eram zelosos em sua mais detalhada aplicação. Nos dias da antiguidade, os sacerdotes se preocupavam especialmente em pre­ servar e declarar as tradições legais. Daí, Arão e seus filhos deviam ensinar a Is­ rael os estatutos divinos (Lev. 10:11). O livro de Deuteronômio declara que os sacerdotes deviam ensinar a Israel a lei deDeus(Deut. 33:10). Jeremias e Oséias associam a lei com o sacerdote (Jer. 18:18; Os. 4:6). Desta forma, os sacerdotes, bem como os profetas, eram tipo da mediação e das promessas do Senhor encarnado. Eles declaravam a vontade de Deus para o povo, da forma como estava incorporada em seus estatutos. Eles representavam o povo diante de Deus no aspecto sacri­ ficial da adoração de Israel. IV. O Deus Pactuai da Fé de Israel O Modelo Pactuai. O modelo central para a relação de Israel com Yahweh originava-se da revelação divina da ma­ neira hebraica de entender aliança ou pacto. Esta forma de relacionamento, encontrada também entre outros povos do Oriente Próximo, implicava em dedi­ cação e obrigação mútua das pessoas envolvidas. Ela aplicava-se aos rela­ cionamentos entre homens e tribos, e a descrição característica é “cortar” ou “gravar” um pacto. Isto criava uma ir­ mandade artificial entre as partes da aliança, e, desta forma, estendia o paren­ tesco de sangue para fora de seus limi­ tes naturais. Ela expressava um anseio comum, a aceitação de uma vontade e um propósito comuns. Gravar um pacto é de fato fazer “paz” (Ez. 37:26). Um exemplo típico de pacto entre indivíduos é o celebrado entre Davi e Jônatas (I Sam. 18:1 e ss.). Em um pacto, duas 119
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    “almas” são ligadasintimamente em uma. Jônatas dá até as suas roupas e a sua armadura a Davi, pois elas são ex­ tensões de sua alma. Desta iorma, a alma de Davi é envolvida pela de Jônatas. Quando os celebrantes de um pacto têm o mesmo nível, as obrigações são mútuas. Quando um celebrante é supe­ rior, como no caso de um tratado após uma guerra, este estabelece as obrigações do outro (v.g., I Reis 20:29-34). Esse tipo de pacto indica o caminho para o uso teológico do pacto. A aliança de Yahweh com Israel não é entre duas partes que estejam em pé de igualdade. O homem não pode “pechinchar” com seu Criador. Assim, no Sinai, é Yahweh quem de­ clara, através de Moisés, as suas condi­ ções, expressas no Decálogo. Tudo o que os hebreus podem fazer, sob a sombra de uma grande libertação, é aceitar. Eles não podem estabelecer nenhuma condi­ ção para o seu Libertador. Deus inicia esses relacionamentos pactuais, e só ele estabelece as condições. A relação de Israel para com Deus mostra que a ligação de Yahweh com o seu povo não era naturalista, porém mo­ ral. Ele não era um ancestral naturalista. Ele havia escolhido Israel, e Israel o havia escolhido. O relacionamento entre ambos era moral. Conseqüentemente, o modelo de marido e mulher pode ser usado para descrever o pacto divino (Os. 2; Jer. 3:20), pois o casamento é um rela­ cionamento pactuai, com implicações éti­ cas. O Deus Que Elege. Esta ênfase em escolha é imperativa. Deus havia escolhi­ do Israel, e ele o havia escolhido sem nenhuma obrigatoriedade, a não ser a de seu amor. Daí, era uma escolha voluntá­ ria. Ele havia focalizado o seu amor em Israel (Deut. 10:15). Israel não era um povo grande (Deut. 7:7 e s.), nem foi ele escolhido por causa de sua retidão de coração (Deut. 9:4 e s.). Israel não tinha nada pelo que pudesse reivindicar tal escolha. Yahweh o escolhera voluntaria­ mente dentre todas as nações. O vocabulário desta eleição divina é variegado. Deus “escolhe” Israel (Is. 43: 10; 44:1). Ele “conhece” Israel (Am. 3:2; Os. 5:3), como uma pessoa conhece ou­ tra, especialmente a sua esposa. Ele “compra” Israel (Deut. 32:6; Êx. 15:15 e s.; Sal. 74:2). A eleição remonta a tradições bem antigas, ao tempo de Abraão (Gên. 15:7; 28:13 e s.; Jos. 24:2 e s.). Ela é mais freqüentemente associada pelos profetas com o êxodo do Egito (Am. 2:10; 3:1; Os. 11:1; Ez. 20:5 e ss.; Deut. 32:10). Pelo fato de as duas tradições pertence- íem a grupos históricos diferentes, den­ tre os hebreus, as diferenças são históri­ cas. Para os grupos tribais do Egito, o êxodo se tomou o ponto focal. Para outros grupos, a memória de Yahweh remontava a Abraão e sua chamada de Abraão era mais central. A idéia é que o Deus de Israel é um Deus que elege. A estrutura pactuai da vida de Israel devia-se ao fato de Yahweh tê-lo escolhi­ do voluntariamente como seu povo. O Amor de Yahweh — Amor Que Elege e Amor Leal. A auto-revelação de Yahweh a Israel centraliza-se em seu amor. Aqui estão implicadas duas pala­ vras hebraicas. A primeira é geralmente traduzida como amor, mas tem a conota­ ção de escolha ou eleição. Ela é usada especialmente no livro de Deuteronômio, mas a encontramos também nos profetas (Deut. 7:6 e s.; 10:15; Os. 11:8 e s.; Ez. 16:8). Esta palavra tem a acepção de preferido. O seu antônimo ê “odiar”, que dá a entender não um ódio ativo, mas de “não preferido”. No entanto, essa preferência ou escolha se origina da natureza intrínseca de Yahweh. O amor é a essência de seu ser, embora seja este envolvido em mistério. Yahweh está con­ tinuamente doando-se e procurando a sua amada, uma antecipação da decla­ ração constante do Novo Testamento de que Deus é amor. Conseqüentemente, 120
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    temos os modelos,dados por Deus, de pai e filho, e do casamento, que percor­ rem toda a Bíblia (Os. 11:1; Ez. 16). A segunda palavra é traduzida de vá­ rias maneiras: longanimidade, amor ina­ balável, amor leal. As duas últimas acep­ ções são a tradução mais freqüente na RSV. Esta palavra tem a idéia de fideli­ dade ou lealdade e freqüentemente está ligada com palavras traduzidas como “fi­ delidade” (v.g., Deut. 7:9). Ela também está intimamente" ligada com o modelo do.pacto — ela é amor pactuai. No nível humano, as duas partes de um pacto se comprometem a permanecer leais ou fiéis uma a outra. Elas demonstrarão amor inabalável, como Davi e Jônatas. No nível divino, o amor de Deus, no contexto do pacto, tem esta mesma qua­ lidade de firme fidelidade (Is. 54:10; Dan. 9:4). Yahweh não abandonará o seu pacto, e permanecerá fiel ao seu povo (Os. 2:18 e s.). Estaé a base da atividade salvadora de Deus. Embora Israel não consiga observar o pacto, continua sendo seu povo, mesmo em sua rebeldia. E, porque ele é fiel, ele os buscará. O seu amor inabalável, a sua graça, não falha­ rá (Os. 2; Jer. 2:2 e s.; 3:1-4; 31:20). Da parte de Yahweh, o pacto é incondi­ cional. Mais uma vez pressagia-se a reve­ lação neotestamentária de graça divina. Yahweh Ê Justo. No entanto, os ho­ mens do Velho Testamento estavam cer­ tos de que Yahweh é um Deus justo. A palavra justo é baseada em um modelo forense. Ela toma alguém um juiz justo. Geralmente, esta palavra descreve con­ formidade com um padrão ou norma. As “veredas da justiça” são veredas que se conformam com o caminho reto ou justo, e os “sacrifícios de justiça” são os que se conformam com as regulamentações ri­ tuais (Sal. 23:3; 4:5; 51:19). A palavra justiça é freqüentemente associada com juízo, com a sentença de um juiz. Por isso pode ser chamada de justiça. No nível religioso, um ato justo é aquele que se conforma com a lei ou a justiça de Deus. Para os hebreus, justiça ou retidão é o padrão que Deus estabeleceu em seu mundo. Ao lidar com o homem, ele per­ manece fiel aos seus próprios estatutos (Deut. 32:4). As suas normas são exara­ das mediante os requisitos éticos dos pro­ fetas, inclusive o Decálogo. Ora, estas normas se originam no ca­ ráter intrínseco de Deus. Em seus juízos, ele permanece fiel a si mesmo. Ele age de acordo com a sua natureza. Ele é fiel a si mesmo, e espera que as suas criaturas sejam fiéis aos requisitos que expressam o mais íntimo de seu ser. Ele não se des­ viará, e requer que elas não o façam (Sof. 3:5). Ê nisto que se baseia o julgamento que ele faz delas. A sua justiça é a quali­ dade dinâmica de seu caráter. Ela é veri­ ficada em seus atos. Exatamente aqui o problema profético foi focalizado. Deus é amor, e exige que o seu povo se conforme com esse amor. Mas Israel é um povo rebelde e obstina­ do. Não obedece. De fato, parece inca­ paz de obedecer. Portanto, está sob o julgamento divino. Não obstante, Deus também é amor. De algum modo, o amor precisa encontrar uma forma de Deus poder ser fiel a si mesmo pelo fato de ser amor e ao mesmo tempo como sendo alguém que exige conformidade com as suas normas. Aqui está a semente da visão neotestamentária da divina graça em Cristo, pois graça é amor satisfazen­ do as suas próprias exigências na pessoa de Nosso Senhor. A Santidade de Deus. Os homens do Velho Testamento sabiam muito bem que, neste ponto, haviam tocado no mis­ tério divino. Justiça e amor se encontra­ vam na personalidade de Deus. Os seus caminhos não eram os caminhos deles nem os seus pensamentos os pensamen­ tos deles (Is. 55:8). Deus era diferente de suas criaturas. Este mistério e a persona­ lidade característica de Deus eram ex­ pressos, algumas vezes, em termos di- 121
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    mensionais. Deus habitavaa eternidade (Is. 57:15). O seu palácio ficava acima do firmamento (Sal. 104:2,3). O modelo di­ mensional é também igualado pela pala­ vra santidade. Deus é o Santo no decor­ rer de todo o livro de Isaías. A palavra “santo” descreve a natureza íntima de Deus. Outras pessoas e objetos são san­ tos tão-somente porque são apropria­ dos, e dedicados ao serviço de Deus, e usados por ele — o sábado, o primogê­ nito, o sacerdote, o santuário, e até Israel e os céus. “Santidade”, assim sendo, expressa a personalidade e transcendência misterio­ sas de Deus. Coloca Deus em uma cate­ goria exclusiva e desvenda o abismo que há entre Deus e o homem. Deus é Espí­ rito, e o homem é carne (Is. 31:3). Deus se reveste de mistério, velando a sua gló­ ria na nuvem, como na visão inaugural de Isaías. Diante de tal desvendamento de transcendência moral, o homem cai, ferido pela visão, e confessa a sua fraque­ za de criatura e debilidade moral (Is. 6:5; Ez. 1:28). Desta forma, a santidade de Deus, nos grandes profetas, tem um con­ teúdo moral. Ela descreve a peculiarida­ de e personalidade do amor e justiça divinos. Por causa desta transcendência moral, Deus tem maneiras de agir, para com o seu povo, por meio de que os seus requi­ sitos ainda serão cumpridos e o seu amor triunfará. Eles ainda serão o seu povo. V. O Povo do Deus Vivo A Estrutura Pactuai da Vida de Israel. O modelo pactuai de relacionamento para com Yahweh caracteriza a vida do povo hebreu. A idéia de aliança está cen­ tralizada no relacionamento pactuai do Sinai, estabelecida através da consciên­ cia profética de Moisés. Para essa idéia os profetas pré-exílicos voltam-se fre­ qüentemente, como norma para se en­ tender Yahweh e seus propósitos (Am. 3:2; Os. 2:15; 11:1; Jer. 31:30). Este pacto foi renovado na formação da liga tribal em Siquém (Jos. 24). Da parte de Yahweh, ele era incondicional. Ele per­ manecia firme nele. Da parte de Israel, era condicionado pela obediência de Is­ rael. Se o povo recuasse dele e transgre­ disse o pacto, este ato seria considerado como traição e rebelião, mas ele conti­ nuaria sendo ainda o povo de Deus (Os. 8:1; Is. 1:2,4; Jer. 3:20). Dentro desta estrutura pactuai do Si­ nai, outros pactos foram estabelecidos. As condições morais do Sinai foram pre­ enchidas, no pacto de tradição, que re­ monta a Abraão, pela fé de Abraão (Gên. 15:6,18). Mais uma vez ele é obri­ gatório da parte de Yahweh, com uma promessa incondicional. A descendência ou semente de Abraão se tomará uma grande nação, e através dela todas as nações da terra invocarão a bênção (Gên. 12:2 e s.; 18:18; 22:17 e s.). Esta pro­ messa divina, Israel jamais poderia es­ quecer. Mais uma vez, dentro deste pacto, havia o pacto real incondicional com Davi e seus descendentes (II Sam. 7:13- 16; 23:1-39; Sal. 89:35 e ss.; 132:17 e s.). Deus havia escolhido a linhagem davídi- ca e, embora ela tivesse fracassado em muito, ele iria estabelecer o seu Rei daví- dico sobre o trono. O rei era uma pessoa sagrada. Ele representava tanto Deus quanto o povo. A sua justiça, a sua rela­ ção reta com Deus, garantia a justiça de seu povo. Se ele fosse injusto, o povo seria injusto (Sal. 72). Associado com este tema de realeza, muitos eruditos sugerem que havia um festival anual de ano-novo, para a renovação do pacto, em que o rei desempenhava um papel im­ portante. Muitos salmos confirmam esta teoria. A Natureza do Pecado. O tema dos grandes profetas era que Israel agira trai­ çoeiramente para com Yahweh e quebra­ ra continuamente o pacto. Por que o pac­ to era com a nação, os profetas estavam mais preocupados com o pecado coletivo do que com o pecado individual, antes do 122
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    exílio. As palavrasmais características, por meio de que eles descreviam a obs­ tinação de Israel, são traduzidas, geral­ mente, como pecado e transgressão. A primeira palavra ocorre freqüentemente e significa fundamentalmente um desvio dos padrões éticos estabelecidos pelas exigências de Yahweh no pacto (Deut. 19:15; Êx. 32:32,34; Lev. 4:3). Desta forma, ela se refere menos ao aspecto interior da pecaminosidade do que ao comportamento externo. A relação com Deus está condicionada à obediência, e isto é manifesto nos atos do homem. Israel havia-se desviado do caminho cer­ to. Esse “pecado” podia ser não intencio­ nal; um comportamento errado não se origina, necessariamente, de motivações erradas. O “pecado” se aplica a atos, e é usado freqüentemente no plural. A outra palavra importante ocorre fre­ qüentemente em forma verbal. Muitas vezes traduzida como transgressão e transgredir, ela é mais bem traduzida como rebelião e rebelar-se (Am. 4:4; Os. 14:9; Is. 1:2,28; 43:27; 44:22; 50:1; 53:5, 8; Jer. 2:29). Aqui fomos além das esti­ pulações, e chegamos a atitudes pessoais. O pecado toma-se rebelião contra Deus, uma arrogante oposição da vontade, de todo o homem, contra as graciosas rei­ vindicações de Yahweh. Ele se relaciona com o espírito interior. Desta forma, Is­ rael tem “o espírito de prostituição” (Os. 4:12; 5:4). A análise mais profunda de pecado se acha na história do Jardim do Éden (Gên. 3). Nela, o homem se levanta como figura representativa de toda a humani­ dade. A sugestão da mulher a ele, “Serás como Deus”, é a chave. O homem é tentado a tomar em suas próprias mãos a sua vida e os poderes dela. Parcialmente, devido ao orgulho que há em si mesmo, parcialmente por medo de que Deus não dirija as coisas tão bem quanto ele, su­ cumbe à arrogância pecaminosa. As se­ qüelas da rebeldia do homem são tam­ bém significativas. De maneira simbó­ lica, é pintado um quadro dos terríveis resultados da motivação rebelde do ho­ mem. Ele se vê de volta ao deserto, do qual Deus o chamara, com sua falta de significado, frustração e separação de Deus. O homem não pode nem voltar àquela comunhão com Deus que a vida no jardim simboliza. O portão fechado e o anjo com a espada flamejante se inter­ põem em seu caminho. Julgamento e Arrependimento. Salva­ ção e graça são exibidas, no contexto da história hebraica, à luz de um pano de fundo de julgamento. A História propi­ cia a arena em que Yahweh está pondo em prática a sua intenção e levando à consumação o seu relacionamento pac­ tuai. No entanto, a História foi também a cena da rebeldia de Israel. A traição ao pacto devia, inevitavelmente, acarretar conseqüências terríveis. Os grandes pro­ fetas sabiam muito bem quais eram os elementos do julgamento na História. Nós os encontramos também nas obras históricas deuteronômicas (Deut., Jos., Juí., I e II Reis), que foram especial­ mente influenciadas por preceitos pro­ féticos. Por detrás do julgamento encon­ tra-se a ira divina (Deut. 1:34; 9:18 e s.). A Assíria é a vara da ira de Deus (Is. 10:5 e s.). Deus entrega o seu povo nas mãos da Babilônia, em sua ira (Is. 47:6). Nessa atitude divina de rejeição, Deus entrega os homens às forças da natureza e da História (Sal. 21:9; 89:38; 90:11). Essa ira se dirigia especialmente contra o povo do pacto, mas também funcionava con­ tra as nações estrangeiras, especialmente as usadas como instrumentos do julga­ mento contra Israel (Is. 10:5-19). O juízo divino de Israel era efetuado através de forças históricas, como As­ síria ou Babilônia, ou através de forças naturais, como fome, seca, locustas, pes­ tilência (cf. Am. 4:6-11). No pensamento prê-exílico, a ênfase principal era coleti­ va — a nação (Am. 9:1-4) e a família (Os. 1:4; Êx. 34:7). Contudo, havia tam­ bém a ênfase individual, embora mesmo 123
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    aí a famíliatambém fosse incluída, como no caso de Amazias (Am. 7:17). Com o exílio, e depois dele, a ênfase mudou do grupo para o indivíduo. O provérbio popular: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram” foi atacado tanto por Ezequiel (cap. 18) como por Jeremias (31:29,30). Cada ho­ mem deverá morrer devido à sua própria iniqüidade. Esta ênfase individual tem eco em Deuteronômio 24:7. Não obstan­ te, mesmo assim os inocentes são incluí­ dos com os culpados, e o aspecto coletivo permanece. A injustiça de um governan­ te pode acarretar desastre para o seu povo. O elemento de ira e juízo permane­ ce, como um aspecto permanente do tes­ temunho bíblico. No entanto, este juízo tinha um alvo evangelístico. O juízo tinha o interesse de levar Israel ao arrependimento. A palavra arrependimento tinha uma cono­ tação ativa. Ela não significava meros sentimentos, mas uma mudança ativa da vontade. Arrependimento significava uma volta a Yahweh, em obediência ativa aos requisitos de seus pacto (I Reis 8:45-50). Era um ato da vontade, e in­ cluía uma confissão do pecado, um ato de submissão penitente, um afastamento da idolatria (Os. 14:2,3). Nessa base, o homem podia apelar para o perdão di­ vino (Sal. 51:1,17). A última palavra de Deus é misericórdia, e assim encontra­ mos os profetas insistindo com Israel (Am. 5:14; Os. 10:12; Is. 30:18). Perdão e Salvação. As três palavras hebraicas que significam perdão são tra­ duzidas de diferentes maneiras, mas geralmente têm o sentido de perdão, com a conseqüente remoção da culpa (Êx. 34:9; II Crôn. 30:18). Tal perdão divino é alicerçado na magnanimidade divina (Is. 55:7-9), porém as condições morais precisam ser satisfeitas. Israel precisa buscar o perdão ardentemente. Uma vez que ele se tenha arrependido verdadeira­ mente e o seu coração tenha sido reno­ vado, o perdão de Deus é certo (Jer. 31:34). Perdão sempre significa restau­ ração ao relacionamento do pacto com Yahweh. A palavra salvação, no Velho Testa­ mento, parefce ter pouco a ver com peca­ do, e, desta forma, não tem uma cono­ tação espiritual. Contudo, precisamos lembrar a íntima relação entre as coisas exteriores e interiores no pensamento hebraico. A natureza psicossomática do homem significava que a retidão interior com Deus tinha as correspondências ex­ teriores de saúde e prosperidade — cren­ ça que mais tarde levantou verdadeiros problemas para homens como o autor de Jó! Desta forma também acontecia com a nação. Retidão para com Deus signifi­ cava prosperidade nacional e paz. Conseqüentemente, salvação dos inimi­ gos externos podia também significar salvação no nível espiritual — uma res­ tauração ao relacionamento pactuai. Neste sentido, algumas passagens falam de Yahweh salvando Israel das mãos de nações estrangeiras (Êx. 14:30 e s.; I Sam. 10:18). Todos os salvadores terrestres, tais como os reis e juizes, são eficientes tão- somente porque recebem seu poder de Yahweh. Eles triunfam apenas na sal­ vação dele (Sal. 20:5,6). Tal salvação, quando se trata da mãó de Deus, signi­ fica paz, palavra pactuai característica que implica em saúde, perfeição, pros­ peridade. Todavia, o aspecto interno e espiritual da salvação é desvendado nos Salmos. Ali a ênfase recai não tanto nas bênçãos materiais, como na comunhão espiritual com Deus (Sal. 69:1,3; 31:1, 2.5). O indivíduo salvo conhece a alegria da presença de Deus em sua vida. Além da palavra salvação, temos as duas palavras que dão a idéia de salva­ ção. Uma palavra, na verdade, é mais bem traduzida como “resgatar”, embora seja costumeiramente traduzida como “redimir” . Intimamente ligada com ela está o substantivo resgate. A ênfase no 124
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    resgate pago encontra-seem Isaías 43:3. Israel havia sido resgatado e Yahweh havia pago o resgate. Mais freqüente­ mente, contudo, o pensamento de um preço de resgate desaparece (Deut. 9:26). Aqui também há uma progressão da nação como um todo para o indivíduo; v.g., Sal. 34:22; 49:15. Uma vez mais é o aspecto exterior que é enfatizado. Só em Salmos 130:8 a re­ denção é especificamente relacionada com iniqüidade e pecado. Outras passa­ gens enfatizam a libertação de calami­ dades externas; não obstante, essa liber­ tação é sinal de perdão e restauração ao relacionamento pactuai. A outra palavra traduzida com reden­ ção é muito mais importante teologica­ mente. Ela dá a idéia do parente vinga­ dor, pessoa que fazia o papel de parente e cumpria as obrigações de parente. Ele redime a sua parentela da escravidão (Lev. 25:48 e s.). Boaz, desempenhando um papel semelhante, redime a terra e salva a família de Rute da extinção (Rute 4:1-11). O próprio Yahweh é o parente remidor do infeliz Jó, mesmo depois da morte deste (Jó 19:25). Isaías usa fre­ qüentemente esta palavra em relação a Yahweh (v.g., Is. 44:6,22,24; 52:3). Aqui temos a promessa da encarnação, uma identificação de Deus com o homem, em que Deus desempenha o papel de parente e ele mesmo cumpre as obri­ gações disso decorrentes. A Esperança Escatológica. Israel per­ manecera obstinado e impenitente (Os. 4:16; cf. Jer. 13:23). O Festival de Reno­ vação do Pacto devia ser realizado em todo outono, mas o ritual exterior não significava nenhum arrependimento in­ terior. De fato, ele bem podia dar a idéia de que tudo ia bem. Eles ainda eram o povo de Deus, e ele se havia obrigado a cuidar deles! Os profetas enfatizam esta idéia. Jeremias adverte contra uma falsa confiança no Templo como sinal da pre­ sença de Yahweh entre o seu povo (7: 26). Amós fala dos que esperavam um futuro glorioso a despeito de seus desvios morais. O Dia de Yahweh era uma caracterís­ tica central da esperança profética. Este era aquele tempo futuro que estaria cheio do reinado de Yahweh, o dia de seu triunfo. Esta esperança se alicerçava na promessa feita a Abraão. O fracasso do Dia da Renovação do Pacto uma vez por ano também pode ter fixado os olhos dos homens em um Dia futuro, quando o pacto seria de fato renovado, e cumpri­ do o propósito de Yahweh. No pensa­ mento popular, ele parece ter sido pin­ tado, antes do exílio, como um tempo de glória para Israel. No entanto, os pro­ fetas pré-exílicos, de Amós em diante, o consideravam primordialmente como um dia de juízo e purificação (Am. 5:18; Os. 5:9; Miq. 2:4; Is. 2:12,17; 7:18 e ss.; 10:3; 13:9-11,13; Sof. 1:7,8,14 e s.; Jer. 25:33). Eles eram, em certo sentido, profetas do desastre. Depois do exílio, a ênfase mudou. Ezequiel, Deutero- Isaías, Joel e os outros consideram o Dia de Yahweh como de salvação e restau­ ração para o seu povo, embora o tema de juízo ainda permaneça. A diferença entre escatologia pré- exílica e pós-exílica é mais do que apenas de ênfase. No período pré-exílico, o Dia de Yahweh seria iniciado por forças his­ tóricas, como Assíria e Babilônia. Acon­ tecimentos naturais incomuns podem acompanhar esses conquistadores, mas a cena histórica propicia o veículo do ato final de Deus e a consumação tem lugar nesta terra. Contudo, do exílio em di­ ante, os intermediários humanos dão lugar a uma intervenção divina direta (v. g., Zac. 14), a transcendência de Deus é enfatizada, convulsões anormais da natureza acompanham o ato, e o movi­ mento é na direção de uma ordem dife­ rente da que existe neste mundo, como consumação final. A escatologia pós-exí­ lica vai-se tornando apocalíptica, embora Daniel seja o único representante verda­ deiro deste tipo de pensamento. Nos 125
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    Evangelhos, tanto aênfase histórica da escatologia pré-exílica quanto a ênfase supra-histórica da escatologia pós-exílica são reunidas na pessoa de Nosso Senhor. O Dia de Yahweh manifesta o início de um padrão, vários fragmentos do qual foram apreendidos e enfatizados por alguns profetas individualmente. Ne­ nhum deles, todavia, alinhavou esses diversos elementos, fazendo deles um padrão integrado, nem apreendeu o pleno significado do que estava dizendo. Não obstante, a sua esperança e a sua promessa apontavam para aquele ato cristológico em que Deus agiu em seu Filho para libertar o homem e restabe­ lecer um povo de Deus: a Igreja. Um elemento do padrão é o rema- nascente que sobreviverá à purificação e julgamento de Israel (Is. 1:25 e s.; 4:2-4; 10:20-22; Sof. 2:3; Joel 2:32; Am. 9:8-10; Miq. 4:4-7; Mal. 3:16-18; 4:2). Sobre o “povo de Deus” restaurado, Yahweh estabelecerá como rei o seu Messias, o Ungido da linhagem davídica (Jer. 23:5,6; Sal. 2:6-9; 110). Possuindo uma medida especial do Espírito de Yahweh, o Ungido é um rei humano, cuja justiça vai garantir a justiça de seu povo. (Is. 9:6,7; 11:1-5). Ele não é re­ tratado como homem de guerra. Pelo contrário, é Yahweh que o estabelecerá em seu trono (Sal. 2:6). Ele reina pela força de Yahweh (Miq. 5:2-4). O reinado do Messias será mundial (Miq. 5:4; Zac. 9:9 e s.). Aqui, a atitude para com as outras nações varia. Al­ gumas vezes temos um nacionalismo exclusivo e inflexível. Ester é o exemplo supremo. Era uma promessa de judaís­ mo futuro. Em outras ocasiões, temos um espírito missionário manifesto em vários graus de intensidade. Jonas dá um bom exemplo deste aspecto, mas este é expresso em grau inferior em passagens como Malaquias 1:11 e Isaías 19:18-25. Pessoas de todas as nações clamarão ao nome de Yahweh. A Assíria e o Egito compartilharão com Israel das bênçãos dessa época futura. O tema missionário e evangelístico é focalizado na figura do Servo Sofredor (Is. 42:1-4; 49:1-6; 50:4-9; 52:13-53:12). Aqui, também temos um tema escatoló- gico. A identificação do Servo varia entre os eruditos. É ele uma figura coletiva, representando Israel, ou é individual? Se a última hipótese é a verdadeira, é ele alguma figura profética, trazida de volta à vida, como Moisés, por exemplo, ou é ela messiânica? A melhor solução parece apegar-se ao reconhecimento de que uma figura individual como a de um rei pode, não obstante, ser também coletiva, visto que, em sentido bem real, a nação do remanescente remido é corporificada nele. Se assim é, o Servo, que aparece em alguns poemas como indivíduo e em outros como Israel, na verdade, pode ser uma figura messiânica, agindo em lugar do remanescente e com ele. Temos aí a visão messiânica mais sublime do Velho Testamento — alguém que redime atra­ vés de seus sofrimentos e traz a nação para perto de si através da oferta de si mesmo pela culpa, feita a Yahweh. A visão de Isaías 52:13-58:12 é plena de significado evangélico. Ela é o evangelho em promessa antes de se ter tomado verdadeira em Nosso Senhor. Se, através de seu sofrimento, o Servo constitui o remanescente, outros profetas propiciam outros aspectos da dimensão redentora do “Dia” . Ezequiel vê Deus recriando o homem de dentro para fora, dando-lhe um coração novo e um espírito reto, fazendo com que ele se torne o seu povo (11:19; 18:31; 36:26). Jeremias vê Yahweh fazendo um novo pacto com o seu povo, que será interior e individual (31:31-34). Ezequiel capta a visão do vale dos ossos secos, em que um Israel morto é ressuscitado pelo Espírito de Deus (37:1-14). Assim, a promessa de um novo Espírito dentro do homem, um novo pacto e um rompimento criativo do Es­ pírito Santo apontam para o futuro, 126
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    para a “plenitudedo tempo” . Esta nova situação será, contudo, individual. O povo de Deus ressuscitará com base no tratamento de Deus para com cada indi­ víduo, e não para com a nação como um todo. VI. O Deus Vivo e o Homem Individualmente Á Imagem de Deus. A ênfase no indi­ víduo, sem dúvida, nunca esteve ausente. Porém é significativo que a compreensão mais profunda da natureza humana aconteceu com o exílio, quando Jeremias e Ezequiel enfatizaram a responsabili­ dade individual. A este período pertence a versão final de Gênesis 1:26 e ss., com a sua descrição do homem na imagem di­ vina. As duas palavras — imagem e seme­ lhança — são tentativas de salvaguardar contra qualquer idéia de réplica exata, sendo que a segunda qualifica a primei­ ra, neste ponto. Para os hebreus, o ho­ mem era um todo psicossomático, e, como tal, é a imagem de Deus. Não no sentido de uma divindade em miniatura, mas no de ser capaz de comunhão com Deus. A história anterior de Gênesis 2 expressa a mesma idéia. Yahweh anda com o homem no jardim. O homem tem a capacidade de manter um relaciona­ mento responsável com Deus. Sobre­ tudo, ele mostra a sua imagem divina ao viver responsavelmente diante de seus semelhantes. O homem e a mulher são feitos conjuntamente à imagem de Deus, tipo de todas as relações sociais. O ho­ mem é social e moralmente responsável. Finalmente, a imagem divina do homem é vista em sua autoridade sobre o seu mundo. Ele tem capacidade para a ciên­ cia e para a tecnologia, para moldar e controlar a criação de Deus. Juntamente com esta referência solitá­ ria ao homem na imagem divina, preci­ samos colocar a compreensão crescente do lugar do espírito. À época do exílio, espírito já não era mais apenas uma descrição do Espírito de Yahweh, inva- sivo e inspirador. O homem também tinha um “espírito” como posse perma­ nente. Ele servia à mesma função que o coração, na psicologia hebraica. Com ele, a vontade e o intelecto se associavam — todas as mais elevadas qualidades espirituais do homem tinham sua sede em seu espírito (Jó 32:8; Is. 26:9). Assim, existe no homem, algo que lhe propicia uma espécie de parentesco com Deus, que é Espírito. Sobrevivência Humana. Uma vez que a ênfase no indivíduo se tornou central, o problema da vida além da morte tam­ bém se tornou central. Enquanto se pensava que Deus se relacionava com o indivíduo através do grupo, uma pessoa podia pensar que iria sobreviver à morte na vida de seus descendentes. Eles eram extensões de sua pessoa, através do tem­ po. Assim, ele queria ter quantos filhos possível fosse, e, para si mesmo, uma vida que durasse setenta anos (Jó 5:25; II Sam. 14:7). Quanto a si mesmo, cercado pelo nas­ cimento e pela morte, o israelita pensava em sua vida na terra como sua verda­ deira existência. Além da morte, ele ain­ da tinha um grau um tanto vago de existência no Seol. Essa caverna subter­ rânea era o todo que abrangia todas as sepulturas familiares. Para ele, os ho­ mens iam como “sombras” , como “en­ fraquecidos” , como “almas” esvaziadas de sua vitalidade e capacidade de verda­ deira vida. Ali cessavam todas as distin­ ções morais e sociais (Jó 3:17 e ss.; cf. Ez. 32:18-32). Os mortos nada sabem (Ecl. 9:4 e ss.). Não pode haver adora­ ção a Deus no Seol (Sal. 6:5). O amor pactuai de Deus não opera ali (Sal. 88: 10-12). O sepulcro é o vestíbulo do Seol, terra de trevas, corrupção e dos vermes (Jó 10:21 e s.; 17:14 e ss.). A vida real termina com a morte, e o Seol é quase uma não-existência. Porém, uma vez que a ênfase no indi­ víduo se tornou central, dois problemas 127
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    surgiram: sofrimento imerecidoe sobre­ vivência individual. A pessoa não podia mais culpar os pecados de seus pais pelos seus sofrimentos (Ez. 18); e também não podia pensar em sobrevivência na pessoa de seus filhos. Jó trata de ambos os pro­ blemas. O sofrimento imerecido do justo Jó é enfrentado com três respostas. Os seus amigos ortodoxos dizem que o seu sofrimento era necessário porque ele pecou. Ele sabe que isso não é verdade. No fim, Jó enfrenta a terrível majestade e o mistério de Deus, e encontra consolo em sua crença de que Deus entende (42:1-6). Esta é a segunda resposta. O sofrimento precisa ser deixado nas mãos de Deus, que deve ter um significado para ele. Assim, vem a terceira resposta, oculta de Jó, e contida no prólogo. Ele precisava sofrer para provar que a sua fé não dependia da prosperidade exterior. Jó mostra, nesse drama, que amava a Deus por amor ao próprio Deus. Ligado à segunda resposta, encontra- se o primeiro vislumbre de sobrevivência pessoal. Jó morrerá e irá para o Seol, mas no fim Deus se lembrará dele. Yahweh chamará Jó do túmulo e, fora de sua pele, ele verá Deus e será vindicado (14:13-15; 19:25-27). Esta vaga expres­ são de esperança ganhou conteúdo no desvendamento divino. Visto que o ho­ mem é um todo psicossomático, esta esperança não é a imortalidade da alma grega, mas ressurreição do todo pessoal. Encontramos esta expressão, depois do exílio, em Isaías 25:6-8; 26:19 e Daniel 12:2. Em dois Salmos encontra-se a chave. O homem sobrevive à morte por­ que está em comunhão com Deus aqui e agora (49:15; 73:23 e ss.). Assim, o cami­ nho estava preparado para a fé do Novo Testamento. Soava para o hebreu piedo­ so o clamor da esperança quando se dava significado individual a esta idéia. VII. Deus, o Criador O interesse dos hebreus em Yahweh como Salvador de Israel continha impli­ cações a respeito da origem do homem e de seu mundo. Por ocasião do êxodo, Yahweh havia criado Israel como nação. Efe havia demonstrado que era o Reden­ tor de Israel, através das vicissitudes de sua história. Deutero-Isaías, retratando a volta de Israel do exílio babilónico, considera Yahweh nivelando e transfor­ mando o deserto, para que o seu povo possa voltar em segurança (Is. 42:14 e ss.; 55:10 e ss.). Este profeta combina o modelo do Criador com o do Redentor, em sua descrição de Yahweh (Is. 43:1, 14 e ss.). A lógica implícita do desven­ damento divino pareceria ser que ele que pode refazer a natureza deve ter dado origem a ela. Já antes do exílio fora preparado o caminho para esta fé, mediante a mol­ dagem da tradição de Israel, represen­ tada pelas sagas da criação de Gênesis l:l-2:4a e 2:4b-25. Embora tivessem sido influenciadas grandemente pelas his­ tórias da criação dos povos circunvizi­ nhos, as sagas hebraicas são cheias de conteúdo revelador do desvendamento divino a Israel. A ênfase teística subs­ titui toda associação naturalista. Toda a estrutura das idéias acerca da criação tem sido historiada e exalçada na ex­ periência histórica de Israel com o Deus vivo. A criação de Israel pela mão de Yahweh no mar dos juncos tomourse a base histórica. Aqui, ele age no meio do caos, para produzir o seu povo, da mes­ ma forma como inicialmente dera forma ao abismo caótico e ao vazio sem forma, para produzir o seu mundo bem orde­ nado (Is. 51:9 es.). A história da criação, em Gênesis 1, pertence à tradição P ou de Jerusalém, e recebeu a sua forma presente mais ou menos no mesmo período em que Deu- tero-Isaías desempenhou o seu minis­ tério. Tanto a história quanto o profeta usam uma palavra que é traduzida como “criar”. Diferentemente das palavras traduzidas como “fez” e “formou” (RSV), este verbo é usado somente tendo Deus como sujeito. Ele nunca é qualifi- 128
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    cado pela referênciaa qualquer material preexistente, do qual essa entidade ti­ vesse sido criada. Implícita, mas não explícita, está a fé em Deus como Cria­ dor absoluto. A criação é inicialmente “do nada” . Gênesis 1:1 pinta um quadro de Deus moldando o caos: este tema da luta de Yahweh com o abismo sem forma é um elemento constante no pensamento veterotestamentário. Mas quando levado a este ponto, a mente hebraica teria confessado que até o caos existia pela vontade de Deus. Álém do mais, criação do mundo e do homem é um ato da vontade de Deus, a sua presença ativa no cosmos em desen­ volvimento. Deus fala e o mundo se toma. Da mesma forma como a palavra pronunciada é uma extensão da perso­ nalidade do orador, a palavra de Deus é Deus se estendendo em um ato criativo, a sua imanência em sua ordem criativa — por isso João 1 está alicerçado no pensa­ mento do Velho Testamento. Seme­ lhantemente, o Espírito de Yahweh paira sobre o abismo caótico (Gên. 1:2). A transcendência de Deus é, desta forma, igualada pela sua imanência. Ele se en­ volve com a sua criação. A imanência de Deus é a razão da preocupação hebraica com a dimensão vertical de profundidade e de altura, mais do que com dimensão horizontal de causa física, que preocupa a ciência mo­ derna. No mesmo ponto em que o cien­ tista contemporâneo procura as rela­ ções causais ou observáveis entre as enti­ dades do mundo, os hebreus se preo­ cupavam com a relação dessas entidades com Yahweh (cf. Os. 2:21 e s.). Todas as coisas, inclusive o homem e os seus “tem­ pos” , se apoiavam diretamente em Deus. Até um milagre ou um “prodígio” não era uma interrupção ou quebra das leis fixas de Deus, um “rompimento” divino, mas uma manifestação especial da pre­ sença graciosa de Deus, que ao mesmo tempo estava em toda parte, ordenando o mundo de Yahweh. Um prodígio podia ser normal ou anormal, a formação de um embrião (Sal. 139:14), uma tempes­ tade trovejante ou um acontecimento extraordinário (Gên. 18:14). Os hebreus não reconheciam a aguda divisão entre as coisas naturais e sobrenaturais, que levantou tantas interrogações em nossa época. Paia Leitura Adicional EICHRODT, W. Theology of the Old Testament. Vols. I e IL Philadel­ phia: Westminster Press, 1961, 1967. JACOB, E. F. Theology of the Old Testa­ ment. Trad, para o inglês por A. W. HEATHCOTE e P. J. ALLCOCK. New York: Harper & Brothers, 1958. KOHLER, L. Old Testament Theology. Trad, para oinglês por A. S. TODD. Philadelphia: Westminster Press, 1957. ROBINSON, H. W. Inspiration and Re­ velation in the Old Testament. Oxford: Clarendon Press, 1946. ________ Religious Ideas of the Old Testament. London: Gerald Duck­ worth & Co., Ltd., 1956. RUST, E. C. Salvation History. Rich­ mond: John Knox Press, 1963. 129
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    Abordagens Contemporâneas noEstudo do Velho Testamento O estudo do Velho Testamento hoje em dia é vigoroso e extensivo, em termos de abordagem. O erudito contemporâ­ neo precisa reconhecer que tem uma dívida de gratidão para com os eruditos que trabalharam antes dele, e que ele faz parte de um processo contínuo de pes­ quisas e testes que se fazem com essas pesquisas. Mas ele deve também reco­ nhecer, como os que viveram antes dele o fizeram, que a palavra que ele der não será final; o estudo bíblico, acima de tudo, convence o estudioso da qualidade vivente da palavra do Deus que continua a falar. O objetivo deste artigo é descrever em breves palavras os caminhos básicos de abordagem que há no estudo contem-« porâneo do Velho Testamento. Devido às limitações de espaço, pouco pode ser dito a respeito da história dessas abordagens. Pela mesma razão, precisam ser omitidos os detalhes da pesquisa bíblica realizada para o uso dessas abordagens. Nas pági­ nas que se seguem, os problemas, méto­ dos e recursos fundamentais do estudo atual do Velho Testamento são enume­ rados e tratados, resumidamente, em três categorias básicas: (1) o texto do Velho Testamento como o temos; (2) como esse texto veio a existir; e (3) aspectos do significado do texto. I. Abordagem do Texto do Velho Testamento O Velho Testamento é um livro e, ao mesmo tempo, uma biblioteca. Ele é de grande importância para três das maio­ res religiões do mundo. Contudo, não se tem conhecimento da existência de có­ pias originais dele, e há muitas e dife- John I. Durham rentes versões de seu texto. Além disso, ele foi composto durante um longo pe­ ríodo de tempo, em uma língua que, embora outrora tivesse sido viva, cessou de ser uma língua viva há muito tempo. Portanto, é apropriado que o estudo de um livro assim comece com o próprio texto, e depois passe a uma compreensão do que o texto diz, palavra por palavra. 1. Crítica Textual do Velho Testamento A crítica textual ou crítica baixa pro­ cura fazer a reconstrução a mais exata possível do texto, com atenção à sua forma mais primitiva conhecida, e à his­ tória de sua transmissão dos tempos pri­ mitivos até o presente. O seu objetivo é abordar tão de perto quanto possível a forma mais pura e mais original do texto do Velho Testamento. Com exceção de pouco mais de nove capítulos,1 este texto foi escrito em he­ braico. Através da gama dos 39 livros, que constituem o Velho Testamento, o estilo e qualidade da língua hebraica variam consideravelmente, fato que di­ ficilmente é surpreendente, se levarmos em conta que o Velho Testamento é a criação de muitas mentes inspiradas, no decorrer de um período que chega a ser de mil e duzentos a mil e quinhentos anos. O estado de preservação deste texto hebraico também varia consideravel­ mente de livro para livro, e algumas vezes de texto para texto, dentro de um mesmo livro. A tarefa do especialista textual é tão complicada quanto possibilitada 1 Esdras 4:8-6:18; 7:12-26; Daniel 2:4-7:28; Jeremias 10: 11 e palavras ocasionais estão no aramaico. 131
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    pela herança afortunadade uma varie­ dade de tradições do texto hebraico do Velho Testamento, tanto como um todo quanto como em suas várias partes. Ele precisa procurar chegar à melhor apro­ ximação do Velho Testamento da ma­ neira como ele foi originalmente compi­ lado, e o faz mediante uma análise mi­ nuciosa e exaustiva de todas as versões disponíveis; antes de tudo, as versões hebraicas, e depois outras versões antigas que são traduções do original hebraico nessas línguas, como o grego, o aramai- co, o siríaco ou o latim. Na busca de um texto puro, o espe­ cialista se defronta com omissões, erros dos escribas e outras corrupções que se insinuam no texto bíblico durante o longo processo da transmissão. Visto que as palavras do texto hebraico eram origi­ nalmente escritas sem vogais e sem pon­ tuação, alguns manuscritos preservam a adição de pontos vocálicos errados e uma divisão imprópria de palavras e até de sentenças. Em alguns casos, letras e pa­ lavras foram omitidas; em outros, foram acrescentadas. A tarefa do especialista nos estudos textuais é tomar nota de todos esses erros e omissões, e reconstruir o texto hebraico como deve ter sido originalmente, com base em uma análise comparativa de to­ das as evidências textuais disponíveis, tão exatamente quanto possível. Em alguns casos, os críticos textuais têm sido inca­ pazes de fazer uma só reconstrução que seja plenamente satisfatória. Nesses casos, pode ser que se apresente ao leitor uma alternativa.2 É claro, pelo que tem sido dito acima, que o estudo do texto do Velho Testamen­ to precisa ser um estudo contínuo. Isto é exigido não apenas pelo surgimento de novas evidências, mas também pela necessidade de um reexame periódico das evidências antigas. A pesquisa tex­ tual só pode terminar quando um texto 2 Note-se, por exemplo, o texto da RSV em Gên. 4:8, Deut. 28:22,1 Sam. 3:13 e Sal. 74:11. original é descoberto e então estabele­ cido como tal, e isto ainda não aconteceu na história do texto bíblico. Da mesma forma, esta abordagem do estudo contemporâneo do Velho Testa­ mento também não é tal que não ofereça um desafio contínuo. A coleção de rolos e de fragmentos de rolos da região do Mar Morto, que se torna cada vez maior, e a expansão de recursos materiais para a análise textual na era dos computadores oferecem ao erudito textual um campo mais amplo do que nunca. A Privilegierte Würtenbergische Bibelanstalt continua a fazer as necessárias revisões na edição crítica padrão do Velho Testamento hebraico, levando avante a obra de R. Kittel e seu capaz sucessor, o falecido Paul Kahle. O Projeto da Bíblia da Uni­ versidade Hebraica tem estado em ope­ ração há doze anos, e agora publicou o seu primeiro exemplar de uma edição nova e muito necessária do Velho Testa­ mento hebraico.3 O fato de que esta publicação apresenta nada menos do que oito páginas impressas de notas acerca de quatro capítulos do livro de Isaías é um claro testemunho da intensidade do estu­ do textual do Velho Testamento nos dias hodiernos. Finalmente, deve notar-se que o texto do Velho Testamento é notavelmente bem preservado, considerando-se a dura­ ção de sua história e as circunstâncias complicadas em que ele foi transmitido. 2. A Filologia e a Compreensão da Gra­ mática do Velho Testamento Uma segunda abordagem do texto do Velho Testamento, embora dependa da crítica textual, vai além dos limites da pesquisa acerca do que o texto é, che­ gando ao que o texto diz. Esta aborda­ gem refere-se a três coisas: vocabulário hebraico, gramática hebraica e padrões hebraicos de pensamento. 3 M. H. Goshen-Gottstein, The Book of Iaaiah: Sample Edition with Introductlon (Jerusalém: At the Magnes Press, 1965). 132
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    O primeiro passoda abordagem do tradutor ao Velho Testamento, ao estu- dá-lo, precisa ser um conhecimento ope­ racional do vocabulário hebraico, e isto inclui consultas aos dicionários hebrai­ cos. Armado com este conhecimento fundamental, o tradutor pode, então, expandir o seu entendimento a respeito de uma determinada palavra ou de uma família de palavras (cognatas) através do uso de uma concordância e do uso de palavras cognatas e de grupos de palavras em línguas relacionadas. A concordân­ cia, relacionando, como o faz, todas as vezes em que uma dada palavra ocorre na Bíblia, capacita o pesquisador a che­ gar à sua própria definição. No caso da maioria das palavras da Bíblia, não é uma tarefa difícil examinar a maneira diversa como uma palavra importante é usada em cada caso, processo que muitas vezes lança muita luz sobre o seu signi­ ficado. O exame dos sinônimos do Velho Testamento e de palavras equivalentes, em línguas da mesma família do hebrai­ co da Bíblia, muitas vezes se estende além do alcance do entendimento adqui­ rido pelas palavras do texto. Há muito interesse no vocabulário do Velho Testamento nos dias de hoje. Nos anos 1951-53 foi publicado um novo léxico do Velho Testamento que tem quase 1.500 páginas,4 e agora mesmo ele está sendo publicado novamente em uma edição completamente revisada. Inu­ meráveis artigos de extensão vária, tra­ tando de palavras e frases hebraicas, têm sido publicados em anos recentes, e erudi­ tos, como Thorlief Boman e James Barr, se têm empenhado em um aceso debate a respeito dos problemas mais amplos da semântica hebraica. Da mesma forma como as palavras que compõem um texto precisam ser conhecidas tão plenamente quanto pos­ sível por si mesmas, a maneira como elas 4 L. Koehler e W. Baumgartner, Lexicon in Veteris Testa­ ment! Libros and Suplementum (Leiden: £ . J. Brill, 1958). são arranjadas em frases e sentenças também precisa ser estudada e compre­ endida. O hebraico, como o inglês e o português, perdeu os sufixos indicadores dos casos (como no latim), que outrora tomavam característica a função gra­ matical das principais palavras de uma sentença, e por isso depende tantas vezes do arranjo das palavras para obter a nuança específica de significado. Por­ tanto, é essencial que o tradutor entenda tanto as formas específicas5 em que as palavras aparecem, como também a relação dessas palavras umas com as outras dentro da sentença,6 se ele quiser traduzir exatamente em outra língua o que o texto bíblico, na verdade, está dizendo. O estudo contemporâneo do Velho Testamento está levando em considera­ ção cada vez mais o fato de que os gra­ máticos hebreus clássicos, a despeito de sua laboriosa atenção aos detalhes e sua incalculável contribuição, muitas vezes forçaram a gramática hebraica a entrar em formas gramaticais ocidentais. Isto obscureceu muitas das melhores expres­ sões do hebraico bíblico, e hoje em dia existe uma preocupação justificada de remediar esta deficiência através de uma análise intensiva das formas da narrativa e da poesia hebraica, e através de um estudo comparativo da forma gramatical em línguas relacionadas com o hebraico da Bíblia. Estudiosos como G. R. Driver, D. W. Thomas, A. Sperber, C. H. Gor- don, M. Dahood e o falecido C. Bro- ckelmann representam um número cres­ cente de especialistas em Velho Testa­ mento interessados nestes problemas. Outra preocupação do estudo contem­ porâneo do Velho Testamento relaciona- se com o pensamento hebraico. Mesmo quando o texto já foi estabelecido e as suas palavras adequadamente definidas, analisadas gramaticalmente e relaciona­ das com o seu contexto, não obstante, é 5 Isto é chamado de morfologia. 6 Isto é chamado de sintaxe. 133
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    possível ainda produzirtraduções como: “O meu humor (secreção líquida do corpo) se tornou em sequidão de estio” (Sal. 32:4) ou: “Turbadas estão as mi­ nhas entranhas, o meu fígado se derra­ mou pela terra” (Lam. 2:11). Aqui, obviamente, há necessidade de comuni­ car idéias hebraicas em termos mais cor- relatos à expressão moderna; assim, a passagem dos salmos pode ser melhor traduzida como: “A minha força foi gasta como no calor do verão” ; e a sen­ tença de Lamentações: “Sinto um nó no estômago, o meu coração está peque­ nininho.” Muita atenção, por conseguinte, tem sido dada nos anos recentes às peculia­ ridades especiais do pensamento hebrai­ co, e grande parte desta atenção tem sido estimulada, de uma forma ou de outra, pela monumental obra de Johannes Pe- dersen,7 que apareceu primeiramente em inglês, em 1926 (Vols. I-II) e em 1940 (Vols. III-IV). A lista de eruditos que abordaram o entendimento do texto do Velho Testamento desta maneira teria que incluir estudiosos não só como H. Wheeler Robinson, A. R. Johnson, C. Tresmontant e G. E. Wright, mas tam­ bém os teólogos do Velho Testamento. O seu trabalho tem sido realizado, em parte, com o objetivo de que idéias pro­ fundas não se tornem ridículas na tra­ dução literal, mas, pelo contrário, sejam compreendidas e então convertidas aos padrões contemporâneos de pensamento. II. As Abordagens da História Literária do Velho Testamento Outra abordagem do estudo do Velho Testamento, empreendida hoje em dia, se refere ao que está por detrás do texto. Quem compôs originalmente o texto e quando? Em que formas e estilos foi ele composto, e como chegou à forma em que o recebemos? Esta pesquisa, cha- 7 Israel« Its Life and Culture, Vols. I-IV (London: Oxford University Press, 1959). mada de alta crítica, pode ser descrita amplamente em três categorias: estudo das fontes da literatura do Velho Testa­ mento; estudo das formas da literatura do Velho Testamento; e estudo da histó­ ria da literatura do Velho Testamento. 1. Análise das Fontes da Literatura do Velho Testamento O estudo das fontes da literatura do Velho Testamento começou com os cinco primeiros livros da Bíblia, chamados de Pentateuco. O Velho Testamento pro­ priamente dito não designa um autor para estes livros, mas a tradição os atri­ buiu a Moisés, tanto por causa de sua identificação com este material em refe­ rências como Deuteronômio 1:1, II Reis 14:6, Esdras 6:18, II Crônicas 25:4; Marcos 12:26, quanto porque a litera­ tura judaica primitiva8 expressamente menciona Moisés como seu autor. Esta tradição foi aproveitada pela igreja pri­ mitiva, embora não sem sofrer restrições em alguns de seus quadros.9 Nos pri­ meiros mil anos da era cristã, contudo, vários versículos e curtas passagens fo­ ram atribuídas a outros autores, e a unidade literária do Pentateuco foi ques­ tionada repetidamente. Depois da Idade Média, tanto o número quanto a precisão dessas interrogações aumentaram, e os eruditos bíblicos apresentaram longas listas de passagens, que pareciam ser contra a autoria mosaica e a unidade do Pentateuco.10 A abordagem, do estudo contempo­ râneo do Velho Testamento, da crítica do Pentateuco deve muito às interrogações destes eruditos do passado. Mas ela tam­ bém tem uma dívida de gratidão para com o trabalho de isolamento e análise de várias fontes dentro do Pentateuco, começado no século XVIII e continuado, com tentativas, erros e grande proveito, 8 Veja Filo, Josefo e o Talmude. 9 Veja Porfírio e Celso, e vários escritores gnósticos. 10 Veja Carlstad, Masius, Hobbes, Spinoza e Richard Slmon. 134
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    desde então. Eleestá associado princi­ palmente com eruditos como Julius We- lhausen, H. Holzinger, S. R. Driver, A. C. Welch, W. O. E. Oersterley, T. H. Robinson, e, mais recentemente, com R. H. Pfeiffer, A. Bentzen, C. A. Simp- son, C. R. North, Otto Eissfeldt, S. Mowinckel, Martin Noth, G. von Rad e Karl Elliger. Esta abordagem, reconhecendo, dentro do Pentateuco, anacronismos, repetição, narrativas conflitantes, uma variedade de pequenas e grandes discrepâncias, concepções diferentes a respeito de Deus, e várias diferenças marcantes em termos de estilo literário, levou a maioria dos eruditos contemporâneos a esposar a opinião de que o Pentateuco que conhe­ cemos não é nem uma unidade nem, considerado como um todo, uma com­ posição de Moisés. Isto não quer dizer que Moisés não fez nenhuma contribuição para o Pentateuco ou que a tradição bíblica que o associa com a “lei” e o “livro da lei” não é confiável. Embora alguns eruditos mo­ dernos neguem até a historicidade de Moisés, a grande maioria esposa o ponto de vista de que há dentro do Pentateuco conceitos e acontecimentos que são ge­ nuinamente mosaicos. O estudo atual do Pentateuco reco­ nhece, em termos amplos, dentro do Pentateuco, a presença de três níveis de fontes: fontes orais, fontes escritas e fontes redatoriais ou editoriais. De fato, pode ser notado que uma estrutura si­ milar é aplicada, quanto a fontes, em vários graus, aos outros livros do Velho Testamento. A possibilidade de que tradições orais servem de base para as fontes escritas do Velho Testamento foi apresentada com alguma convicção no fim do século XIX. Contudo, foi nos últimos quarenta anos que o caso das fontes orais foi apresen­ tado mais persuasivamente, especial­ mente por eruditos como H. S. Nyberg, Ivan Engnell e Eduard Nielsen. A palavra falada tinha para o homem do Velho Testamento muito mais signi­ ficado do que para os homens de hoje em dia; tinha uma dinâmica toda sua. A palavra falada surgiu, em criatividade espontânea, das situações reais da vida e da fé que os homens enfrentaram, e, até certo ponto, também preservou esta mesma criatividade espontânea. De fato, foi pela palavra falada que a maioria dos homens aprendeu as histórias da fé e as afirmações nelas baseadas. As histórias familiares e emocionantes dos pais e de sua fé, os hinos e poesias devocionais, a pungente sabedoria dos sábios, as declarações pessoais de depen­ dência de um Deus presente e ativo, os discursos de políticos, os oráculos e jul­ gamentos de sacerdotes e até os sermões dos profetas, pronunciados para serem lembrados e repetidos, foram lembrados e repetidos. Além disso, a presença de fontes orais, no desenvolvimento do Velho Testamen­ to, não foi descontinuada quando come­ çou um estágio verdadeiramente literá­ rio. No decorrer de, virtualmente, toda a história da composição do Velho Testa­ mento, uma tradição oral contínua sus­ tenta o verdadeiro desenvolvimento lite­ rário. Esta tradição oral era, sem dúvida, extensiva, antes que a escrita se tomou mais normativa, com o advento da verda­ deira nacionalidade; desse ponto em diante ela diminuiu em proporção, à medida que ia sendo reduzida à forma escrita. Mas nunca cessou de ter influ­ ência, enquanto o texto do Velho Testa­ mento não foi fixado de maneira mais ou menos definida, e por uma boa razão: uma criatividade verbal inspirada está na base do processo criativo do desenvolvi­ mento de grande parte da literatura do Velho Testamento. Os grandes profetas se referiam a tais verbalizações, trazidas a eles pelo ruah ou espírito de Yahweh, como “a palavra de Yahweh”.11 11 Cf. I Reis 22; Miq. 1:1; Is. 43:1 e ss.; Jer. 23:16-22; Ez. 3:4. 135
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    Em sua formamais básica, essas uni­ dades orais eram breves, consistindo de histórias isoladas, leis, ditados, poemas e coisas semelhantes. No entanto, com o tempo, narrativas orais relacionadas entre si foram reunidas, processo que se tomou um estímulo para o estágio lite­ rário, e também foi incrementado pelo processo literário, por sua vez. É a este verdadeiro período literário que devemos a maior parte do Velho Testamento, como o conhecemos. Quan­ do as fontes orais começaram a ser reu­ nidas e reduzidas à forma escrita, o resultado não foi livros bíblicos inteiros, como os conhecemos, mas, sim, o que agora são passagens ou livretes dentro de nossos livros maiores. Ao lado dessas coleções escritas, de fontes originalmente orais, havia, mui provavelmente, blocos de material composto inicialmente por escrito, alguns inspirados por material oral mais antigo e alguns sem nenhum estágio pré-literário. Há boas razões para se crer que parte desse material escrito era de fato muito antigo, antedatando até algumas das fontes orais. E então, com o tempo, essas coleções escritas se tornaram as fontes que vieram a constituir os livros de nosso Velho Testamento. O livro de Salmos é um bom exemplo deste processo. Grande parte desses poemas foram criações da comunidade adoradora de Israel, e fa­ ziam parte da tradição oral viva do culto. Gradualmente, foram sendo feitas cole­ ções desses hinos, de acordo com os objetivos, pela influência de grupos espe­ ciais de musicistas e com base em seu conteúdo. Assim, há hinos de louvor, hinos da coleção de Asafe, coleções para ocasiões especiais, e assim por diante. Essas coleções, por sua vez, foram rear- ranjadas de acordo com critérios ainda diferentes, como, por exemplo, a divisão um tanto arbitrária, em cinco livros, do Saltério bíblico. Nesse estágio, indu­ bitavelmente, toda a coleção foi reunida para formar o nosso atual livro de Sal­ mos. Processo semelhante é observável na maioria dos outros livros maiores do Ve­ lho Testamento, embora isso seja muito menos óbvio em uma leitura superficial e apesar de, sem dúvida, a abordagem ao estudo de cada livro precisar levar em consideração a natureza especial desse livro. A terceira camada de fontes presentes no Velho Testamento é o resultado do trabalho editorial. No que concerne à extensão do material, esta é a menor das três camadas relativas a fontes. Ao mes­ mo tempo, ela é fonte mais determinante no que tange ao nosso Velho Testamen­ to, pois é a fonte que em grande parte governou a compilação final do Velho Testamento que chegou às nossas mãos. O material adicionado ao Velho Tes­ tamento pelas mãos dos que o compila­ ram consiste, na maior parte, das notas introdutórias e explicativas, seções de transição e, em alguns casos, de comen­ tários expositivos. A verdadeira contri­ buição dos editores está em sua seleção e arranjo das fontes disponíveis. Em alguns casos, a sua tarefa foi realizada com tal respeito pelo material e com tal perícia que a mão do editor é virtual­ mente invisível. Em outros livros (e algu­ mas vezes no mesmo livro), as suturas são óbvias e evidentes. Assim, por exem­ plo, as duas narrativas da criação, no livro de Gênesis,12 provêm, obviamente, de duas fontes diferentes — representam interesses diferentes e o editor não fez nenhum esforço para conciliá-los. Assim também acontece com o primeiro versí­ culo do livro de Amós, que representa o que um publicador moderno colocaria na página de rosto, de um livro, ou no prefácio. Em alguns casos, a obra dos editores foi feita com grande objetividade; assim, por exemplo, se dá com o fato de eles terem incluído a grande “História da 12 Gên. 1:1,2:4a vis-à-vis com 2:4b-25. 136
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    Corte do ReiDavi”,13 qué relaciona de maneira muito cândida a sucessão ao trono de Davi. Em outros casos, interes­ ses especiais influenciaram muito, como nos livros das Crônicas, que apresentam uma imagem glorificada da dinastia davídica, excluindo tanto quanto pos­ sível a história do Reino do Norte. 2. Análise da Forma da Literatura do Velho Testamento Outra abordagem fundamental da literatura do Velho Testamento procura isolar e analisar as maneiras especiais como esta literatura foi estruturada. Esta abordagem, chamada de crítica da for­ ma, foi sugerida no começo deste século por Hermann Gunkel. Ela foi empre­ gada com crescente entusiasmo por eru­ ditos do Velho Testamento, porque lança luz não apenas sobre as formas literárias em si, mas também sobre as fontes que as utilizaram e sobre os temas teológicos que aparecem repetidamente nessas fon­ tes. Seguindo a direção de Gunkel, vie­ ram eruditos como Hugo Gressmann, Leonhard Rost, Albrecht Alt, Martin Noth, Gerhard von Rad, T. H. Robin- son, E. A Leslie, e, ainda mais recente­ mente, Claus Westermann, B. W. An- derson e Walter Beyerlin. A questão que temos aqui, sem dúvi­ da, é como o texto foi composto; isto é, em que formas e estilos, não importa se a composição foi escrita ou oral. A subs­ tância dessa abordagem, no estudo do Velho Testamento, reside nas seções e unidades menores de material discemí- veis dentro das fontes que perfazem os livros de nosso Velho Testamento atual. O estudo de crítica formal revelou, por exemplo, que estilos e padrões consis­ tentes são empregados em sermões pro­ féticos, em bênçãos e maldições sacer­ dotais, em exposições da lei, em louvor através de hinos ou no lamento do ado­ rador individual, através de todo o Velho 13 II Samuel 6-1 Reis 2. Testamento. Ainda maior iluminação deve ser encontrada na comparação das formas literárias do Velho Testamento com a literatura dos vizinhos de Israel antigo no Oriente Próximo — literatura que nos tem sido provida em abundância pelas escavações arqueológicas. Desta forma, Gunkel, e depois Sig- mund Mowinckel, e ainda mais recente­ mente Artur Weiser, Westermann e H. J. Kraus, procuraram entender melhor os Salmos e o contexto de vida do qual eles vieram, colocando juntos salmos de conteúdo e forma similares. Hinos de louvor, por exemplo, são encontrados sempre contendo uma conclamação im­ perativa à adoração (105:1-4; 113:1-3) e uma base doutrinária, como a de um credo, para louvor em adoração (105:5 e s.; 113:4 e s.). Um trabalho semelhante, na análise formal da literatura legal do Velho Testamento, foi feito por Alt, G. E. Mendenhall, J. J. Stamm e R. Smend; na literatura histórica, por Alt, Noth e John Bright; e na literatura profética, por H. Wildberger, E. Würthwein, Wes­ termann, H. W. Wolff e H. Reventlow. As vantagens mais expressivas desta útil abordagem são: (1) que ela nos capa­ cita a ver o Velho Testamento em sua forma mais básica, embrionária e (2) que ela, muitas vezes, faz jorrar abundante luz sobre passagens em particular, aju­ dando-nos a vê-las em comparação com o padrão literário mais amplo, tanto den­ tro quanto fora do Velho Testamento, de que elas fazem parte. Muitos tipos de literatura e estilos de composição estão presentes, sem dúvida, no Velho Testamento, e essas Introdu- ções-padrão ao Velho Testamento, como as de Eissfeldt, Bentzen, Weiser e Foh- rer, apresentam listas extensas. Contudo, com o objetivo mais geral que temos em vista, consideraremos três categorias: poesias, prosa e declarações formais de estado e de culto. Aproximadamente um terço do Velho Testamento consiste de poesia. Esta 137
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    poesia está delimitadapor formas cuida­ dosamente reguladas, que variam sur­ preendentemente pouco, mesmo no de­ correr do período de tempo que levaram a composição e a compilação do Velho Testamento. Estas formas são formas compartilhadas, aparecendo também na poesia dos vizinhos dos hebreus — cana- neus, babilônios e egípcios. Ê o conteúdo da poesia hebraica, e não a sua forma ou estilo, que é peculiar, mas o estilo é importante, porque descreve e ajuda a interpretar o seu conteúdo. O poeta hebreu não era livre, como os poetas de hoje em dia, para improvisar formas novas e originais; a forma que a sua poesia assumia era ditada, em grande medida, pelo assunto que ele ia abordar. Ê por esta razão que o isolamento e análise da forma poética hebraica pro­ piciaram tanta ajuda para o entendi­ mento do Velho Testamento. A característica interna mais impor­ tante da poesia hebraica é, felizmente, uma característica que não se perde com a tradução. É pelo ritmo do pensamen­ to, ou paralelismo, que uma segunda linha reforça, mediante a repetição, de alguma forma, a idéia da primeira li­ nha. Há algumas elaborações complica­ das deste princípio básico, mas a teoria básica permanece virtualmente a mes­ ma. 14 O reconhecimento deste artifício é básico para se entender a poesia do Ve­ lho Testamento, mas é um dos artifícios poéticos mais óbvios de todos e reaparece no decorrer de toda a poesia hebraica. A métrica e artifícios como rima e ono­ matopéia são muito mais complicados, sendo claro que são intraduzíveis. Eles são importantes para o especialista em hebraico, para quem eles são recom­ pensadores por si mesmo e para quem eles muitas vezes propiciam chaves úteis a respeito de problemas textuais. 14 Veja, por exemplo, Salmos 24:1*3, onde cada versículo sucessivo contém a mesma idéia duas vezes. Ou cf. Provérbios 14:28, Saimos 14:1,2, Isaías 1:3, para en­ contrar variações deste principio. De importância ainda maior para o estudo geral do Velho Testamento, con­ tudo, é o estudo das formas externas da poesia hebraica. O isolamento e análise dos tipos de poesia lança muita luz sobre cada tipo separado como espécie, cada poema separado dentro de uma dada espécie, e, sem dúvida, sobre a poesia como substrato substancial do texto do Velho Testamento. Parte da poesia do Velho Testamento consiste de cânticos de muitos tipos: cân­ ticos de trabalho (Núm. 21:17,18),15 cânticos de amor (Cant. 2:8-14), cânticos de batalha (Juí. 5:2-31), cânticos para funerais (II Sam. 1:19-27), cânticos para ocasiões festivas (Is. 22:13), cânticos de zombaria e escárnio (Núm. 21:27-30). Ela apresenta muitos “ditados” : provér­ bios folclóricos (Ez. 18:2), enigmas (Juí. 14:14), fábulas (Juí. 9:8-15), aforismos (Prov. 11:22), lições sucintas dos sábios mestres de Israel (Prov. 1:7). Além disso, há a poesia do culto, uma coleção espalhada por todo o Velho Testamento e que constitui a maior por­ ção da poesia do Velho Testamento. Nes­ ta poesia religiosa encontram-se: as fór­ mulas sacerdotais de ritual sacrificial (Lev. 9:1-4) e de bênção (Núm. 6:24-26), de maldição (Deut. 27:15-19), os orá­ culos (Is. 14:28-32) e partes dos sermões dos profetas (Am. 3:3-11), os grandes hinos de louvor dos salmos confessionais em responsório (Sal. 95:1-7), os poemas de lamentação e declaração de fé indi­ viduais (Sal. 13) e uma variedade de hinos e salmos para ocasiões especiais (Sal. 45, celebrando um casamento real). Cada um desses tipos poéticos tem uma forma exclusivamente sua, que é facilmente reconhecível e geralmente varia apenas um pouquinho em suas várias ocorrências. O estudo de uma dada forma, em seu uso repetido, lança grande luz não apenas sobre a forma 15 £ claro que os exemplos podem se multiplicar, mas só um é apresentado a respeito de cada tipo, devido às limitações de espaço. 138
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    como padrão, mastambém sobre os poemas, individualmente, que usam essa forma. Da mesma forma, esse estudo compa­ rativo do estilo literário não tem sido restringido à literatura poética do Velho Testamento. Embora as formas poéticas sejam mais fáceis de identificar, o uso deste mesmo processo revelou padrões literários que se repetem também na prosa do Velho Testamento. O tipo lite­ rário mais usado em prosa é a narrativa, que, por seu turno, é subdividida em variegadas formas de narrativa, como as que descrevem os primórdios dos povos (Gên. 27) e suas instituições (Gên. 28: 10-22); as que preservam fábulas (II Reis 14:9) e histórias populares (Juí. 15:1-8); e as que recontam a história de maneira mais oficial (II Sam. 9-20). Tipos de prosa mais curtos existem nos discursos de políticos (II Sam. 15:1-6); nos sermões dos sacerdotes e profetas (Deut. 4); nos documentos sociais e co­ merciais, como cartas (I Reis 21:8-10); nos contratos (I Reis 5:2-9); em genea­ logias (Gên. 5) e relações de pessoal (II Sam. 8:15-18); nos comentários edito­ riais (Jer. 1:1-3), porém mais do que tudo no que pode ser chamado de declara­ ções formais que dizem respeito ao esta­ do e culto. A esta categoria pertencem a literatura legal extensa do Velho Testa­ mento, os regulamentos e instruções do culto, as notícias e editos reais, as leis da terra e os mandamentos de Deus. Aqui, também, cada tipo tem a sua forma distinta; e aqui, também, o tipo de con­ teúdo dita a forma a ser empregada. 3. Análise Histórico-Tradicional da Li­ teratura do Velho Testamento Uma terceira abordagem ampla do estudo contemporâneo do Velho Testa­ mento combina os resultados da pesquisa de fontes e da análise de formas, em uma tentativa de chegar a uma história lite­ rária do Velho Testamento. A preocupa­ ção, aqui, é estabelecer o Velho Testa­ mento em seu contexto histórico e, usan­ do todas as evidências disponíveis, re­ construir a sua biografia seqüencial. Basicamente, a questão, neste caso, é a autoria, mas a resposta é muito com­ plexa, no caso do Velho Testamento. Ela precisa se preocupar com a origem do conteúdo e das formas em que este con­ teúdo é expresso, o tempo e as circuns­ tâncias da composição das várias partes do Velho Testamento e a sua compilação na ordem de livros que conhecemos. E, também, esta questão não pode ser res­ pondida de forma tradicional, pois o Velho Testamento é produto de vários autores, dos quais não poucos perma­ neceram completamente anônimos. Muito trabalho útil tem sido realizado pelos eruditos, no sentido da reconstru­ ção de uma história literária do Velho Testamento, e este trabalho pode ade­ quadamente ser chamado de contem­ porâneo, visto que a maior parte dele tem sido feito neste século. Estes esforços podem ser associados, antes de tudo, com Hermann Gunkel e Hugo Gres- smann, que enfatizaram o estudo das formas e temas literários do Velho Testa­ mento em relação ao seu contexto do Oriente Próximo antigo. Edificando sobre esta pesquisa e utilizando as exten­ sivas descobertas da arqueologia bíblica moderna, eruditos como Johannes Hem- pel, Otto Eissfeldt, Martin Noth, Ger- hard von Rad, Gustaf Hõlscher, Adolphe Lods, Artur Weiser, e, ainda mais recen­ temente, H. H. Rowley, A. Robert, A. Feuillet, P. Auvray, G. W. Anderson, S. Sandmel, L. Rost, e G. Fohler procura­ ram recuperar a “situação vivencial” dos escritos do Velho Testamento. Estes eruditos traçaram a história da literatura do Velho Testamento desde um estágio pré-literário, onde ele existia em tradições orais sucintas, através de um estágio intermediário e verdadeira­ mente literário de composição escrita, até um estágio final de composição edito­ rial. Desde o início deste processo e 139
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    através de seudesenvolvimento, a influ­ ência dos povos e nações de quem surgi­ ram os israelitas e com quem eles convi­ veram, pode ser facilmente reconhecida. Porém desde o início a estampa distintiva de um povo cujo espírito tutelar era a presença de seu Deus pode ser desco­ berta, moldando o conteúdo e utilizando a forma e o estilo com propósitos mais elevados e com declarações mais pro­ fundas. Desde o princípio da transmissão e da composição por escrito, a mão anônima do editor é verificada, arranjando, rear- ranjando, propiciando cenário e contexto e, algumas vezes, declarando aquela verdade de maneira diferente. A primei­ ra tarefa desses editores, segundo se pensa, era coletar e preservar, na melhor forma possível, o que chegara às suas mãos. Mas eles também sentiam profun­ damente a necessidade de tornar a he­ rança literária tão significativa e rele­ vante quanto possível, para a sua época, e, com esta preocupação, algumas vezes eles tornavam o texto mais difícil para as gerações posteriores. Obviamente, também é verdade que esse texto em crescimento algumas vezes se tomou inadvertidamente complicado, por causa de erros dos copistas e da transmissão, e mesmo devido à perda de uma parte de um manuscrito. Em alguns casos, o material dado aos escribas, para copiar, estava mal organizado ou mes­ mo em forma fragmentária. Este é o caso, sem dúvida, especialmente dos livros proféticos, cuja freqüente desor­ dem muitas vezes os toma muito difícil de entender. É precisamente por estas razões que o estudo contemporâneo do Velho Testa­ mento tem-se preocupado tanto com a história da literatura do Velho Testa­ mento. E, embora essa . preocupação tenha significado muito trabalho esta­ fante, ela continua a pagar grandes divi­ dendos em termos de compreensão do texto. Além disso, o resultado final deste estudo tem salientado a natureza pro­ videncial da composição e da preservação do texto do Velho Testamento, como também tem revelado a riqueza do Velho Testamento em muitas dimensões novas. Finalmente, não pode ser esquecido que as abordagens do estudo do Velho Testamento esboçadas acima são ferra­ mentas empregadas com um propósito. Esse propósito é uma melhor compreen­ são do Velho Testamento que temos. Para conseguir esse entendimento, sem dúvida, é necessário considerar o Velho Testamento em suas partes constituintes: as mais amplas fontes literárias, os livros que as contêm e as unidades menores que compreendem os livros. Porém o Velho Testamento é um livro por si mesmo. Além do mais, o arranjo do texto na forma em que o recebemos tem também um objetivo. Por ilumina- dor que continue a ser o estudo das fontes individuais e das formas literárias, precisamos ao mesmo tempo ter em vista o texto todo como um produto final. Da mesma forma como as pessoas que com­ puseram as tradições orais e as que com­ puseram as fontes escritas foram inspira­ das, também o foram os compiladores e editores que deram ao nosso Velho Tes­ tamento a sua forma atual. III. As Abordagens do Significado do Velho Testamento Armados com as informações a res­ peito do que é o texto do Velho Testa­ mento, como ele veio a existir e o que ele diz, a nossa abordagem final do estudo do Velho Testamento é concernente ao que o texto significa. Esta correlação é manifesta, sobretudo, em duas direções: (1) o significado do texto para os que o compuseram e para os seus contemporâ­ neos, e (2) o seu significado para o homem hodierno. Algumas vezes, nesta busca, uma consideração acerca do que o texto significou, através da História, para as pessoas que o leram e estudaram 140
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    é de grandevalia. E é sempre de interes­ se, porque o Velho Testamento é uma parte tão grande de nossa Bíblia, é uma consideração do seu significado para o homem em todas as épocas. 1. O Significado da Adoração no Velho Testamento Durante a segunda metade do século passado, e até o primeiro quarto do atual, havia muito interesse entre os estu­ diosos do Velho Testamento quanto à natureza e à história das instituições reli­ giosas de Israel. O fascínio contemporâ­ neo pela teologia do Velho Testamento, que pode convenientemente ser datado desde o aparecimento, em 1933, do pri­ meiro volume da Theologie des Alten Testaments, de Walther Eichrodt, eclip­ sou esse interesse. Contudo, recente­ mente surgiu um novo interesse pela religião do Velho Testamento. Embora nenhum outro erudito tenha tido influ­ ência tão profunda, sobre este reaviva- mento, quanto Sigmund Mowinckel, muitos outros fizeram importantes con­ tribuições a ele. Entre estes encontram-se R. de Vaux, H. J. Kraus, H. Ringgren, Th. C. Vriezen e H. H. Rowley, que publicaram obras importantes, a esse respeito, desde 1960. Embora seja verdade que estes erudi­ tos, necessariamente, estão interessados na história da religião do Velho Testa­ mento e nas suas formas de adoração, eles estão também muito ocupados com o seu significado para a fé israelita e para a compreensão bíblica contemporânea. Desta forma, a abordagem do signifi­ cado da adoração do Velho Testamento procura isolar, dos períodos aos quais elas estão subordinadas, as formas de adoração do Velho Testamento. Feito isto, o significado destas formas é consi­ derado como chave para uma compreen­ são mais profunda do povo que as empre­ gou e de sua concepção do Deus a quem ele dirigia o seu culto. Tal estudo precisa, indubitavelmente, considerar assuntos como os lugares, rituais, pessoal envolvido, regulamentos, tempos, cerimônias especiais, equipa­ mento, música e literatura da adoração do Velho Testamento, com referência aos antecedèntes e circunstâncias do Ori­ ente Próximo antigo. Acima de tudo, entretanto, precisa considerar a base ló­ gica desta adoração. Ésse estudo não pode, também, ser feito apenas uma vez, e ser aplicado em seguida a todo o Velho Testamento. Vis­ to que tão grande espaço de tempo se passou e tanta diferenciação de circuns­ tâncias aconteceu, o estudo precisa ser feito em relação ao seu contexto, e depois reunido em uma revisão da evolução contínua de uma religião viva. Porém, quando isto for feito, as formas de ado­ ração do Novo Testamento e, depois, as nossas formas de adoração, hoje em dia, assumirão dimensões novas e emocio­ nantes de significado. 2. O Significado da Fé do Velho Testa­ mento Uma segunda abordagem do signifi­ cado do Velho Testamento refere-se ao significado de sua teologia ou fé. O obje­ tivo dos eruditos, aqui, é descobrir, do texto do Velho Testamento, que é a afirmação da fé do homem hebreu, o que essa fé na verdade era. Não poucos eruditos têm dado impor­ tantes contribuições a esta abordagem, mas os mais importantes de todos eles são W. Eichrodt e G. von Rad. Eichrodt, em particular, teve uma influência for­ madora sobre a exposição contempo­ rânea da fé veterotestamentária; mas o impacto da principal obra de von Rad, dois volumes da qual foram publicados em 1957 e 1960, respectivamente, tam­ bém é crescentemente evidente. Espe­ cialmente valiosas também são as pes­ quisas, a respeito deste assunto, feitas por H. H. Rowley, E. Jacob, Th. C. 141
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    Vriezen, R. C.Dentan, G. E. Wright, G. A. F. Knight e Norman Porteous. Estes eruditos reconhecem que o estu­ do da teologia do Velho Testamento pre­ cisa, antes de tudo, se concentrar na teologia de períodos determinados da história do Velho Testamento, cada qual com as suas circunstâncias históricas e seus problemas. Isto quer dizer que o pesquisador precisa considerar as teolo- gias do Velho Testamento, cada qual em relação à sua própria época, antes de poder considerar a teologia do Velho Testamento. Esses estudiosos dizem que, não obstante, existe uma teologia do Velho Testamento, da mesma forma como há uma teologia bíblica mais am­ pla, que ela preconiza (e da qual, sem dúvida, é parte constituinte). Em contraste com o estudo da religião do Velho Testamento, que é concernen­ te, entre outras coisas, à metodologia e à base lógica da adoração, a teologia do Velho Testamento se preocupa com a crença — fé — da forma como ela é de­ clarada e vivida pelo povo de Israel. In­ cluído neste interesse está o conceito de Deus, que tinha o homem hebreu, à medida que ele experimentava a auto- revelação de Deus e também à medida que ele correspondia a essa revelação. Desta forma, a teologia do Velho Tes­ tamento trata de assuntos como a natu­ reza de Deus no Velho Testamento — o que é a pessoa de Deus, quais são os seus atributos, os seus atos, como ele se torna conhecido e quais são os seus propósitos e planos? Neste processo, ela considera assuntos como os nomes e títulos dados a Deus no Velho Testamento; as maneiras como Deus se revela aos homens; o envol­ vimento ativo de Deus no mundo, da criação em diante; a base das exigências de Deus sobre o homem; o entendimento de Deus, manifestado em diferentes níveis de vida e em épocas diferentes; e o relacionamento de Deus com toda a criação e com todos os homens. Em suma, pode ser dito que a teologia do Velho Testamento se preocupa, como o seu nome diz, com as declarações de Deus e com Deus no Velho Testamento. 3. O Significado da História do Velho Testamento O estudo do significado da história de Israel pode ser chamado de abordagem, por parte dos teólogos, da história do Velho Testamento, dependendo da abor­ dagem do historiador, mas ao mesmo tempo diferente dela. O historiador pro­ cura, primeiramente com base no que o texto do Velho Testamento diz e utili­ zando as valiosas informações secundá­ rias das fontes extrabíblicas da antigui­ dade e das pesquisas arqueológica e geo­ gráfica, reconstruir a história de Israel. A história do Velho Testamento é abor­ dada desta forma no estudo contempo­ râneo, e os excelentes livros e artigos de homens como Albrecht Alt, W. F. Al- bright, Martin Noth, Johannes Hempel, Kurt Galling, John Bright e G. W. An- derson são resultados desta abordagem. Graças a esse trabalho, agora somos capazes de dizer que conhecemos bas­ tante da história do povo do Velho Tes­ tamento com um elevado grau de exa­ tidão. Esta história, todavia, permanece como história reconstruída e bem dife­ rente, em termos de ênfase básica, da apresentação que o próprio Velho Testa­ mento faz da história. Em anos recentes, os eruditos têm dado cada vez mais aten­ ção à história de Israel tal como é regis­ trada pelo Velho Testamento, principal­ mente por causa do que esse estudo revela a respeito da fé de Israel. C. R. North contribuiu com um dos primeiros estudos desse assunto, em 1946, e foi seguido por uma hoste de estudiosos, entre os quais se destacam R. C. Den­ tan, Millar Burrows, H. H. Rowley, G. E. Wright, G. von Rad, R. A. F. Mackenzie e John Bright. Ultimamente, também tem havido muito interesse na ênfase especial e nos estilos da redação 142
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    da história noVelho Testamento, e fo­ ram publicados muitos artigos e mono­ grafias que tratam do estudo da crítica da forma da história de Israel. A abordagem, por parte do teólogo, da redação da história do Velho Testa­ mento reconhece que a história apresen­ tada no texto do Velho Testamento tem um propósito mais elevado do que de fazer reportagem. É uma história com significado, uma história que apropria­ damente foi chamada de história da sal­ vação. É história teologicamente inter­ pretada, que procura primordialmente estabelecer o movimento ativo e propo­ sital de Deus na vida de seu povo. Ê uma história confessional, e, desta forma, é uma fonte bastante recompensadora, na busca do significado do Velho Testa­ mento. 4. O Significado da Mensagem Bíblica Uma quarta abordagem do significado do Velho Testamento focaliza-se em um significado que é mais amplo do que o próprio Velho Testamento. De fato, esta abordagem abrange o significado do Velho Testamento para a mensagem bíblica como um todo e para o homem no passado, no presente e nas eras futuras. Esta questão fascinante atraiu conside­ rável interesse para o estudo bíblico con­ temporâneo e provocou não pequena ati­ vidade entre os eruditos do Velho Testa­ mento, em parte por causa de sua rela­ ção com a importante questão da auto­ ridade do Velho Testamento. Ela inclui, de uma forma ou de outra, quase todas as abordagens do estudo do Velho Tes­ tamento. A erudição bíblica recentemente refe- riu-se a este assunto de maneira gené­ rica, com a ampla designação de “her­ menêutica”, que, essencialmente, abran­ ge a interpretação. Para o Velho Testa­ mento, pode-se dizer que esta interpre­ tação tem três níveis. Antes de tudo, qual é o significado preciso do texto propria­ mente dito? Literalmente, o que desejava o escritor dizer à sua própria época? Isto só pode ser determinado com base em uma pesquisa gramatical e histórica cuidadosa. Em segundo lugar, qual é o significado teológico do texto em seu contexto? Qual é a base, na fé, para o que o texto está dizendo? O que motivou a declaração? De que forma é ele uma expressão da teologia mais ampla de que ele faz parte? A teologia de que o texto se origina é que apresenta uma importância mais uni­ versal, a mensagem viva da Palavra de Deus. Terceiro, qual é o significado do texto para a teologia bíblica, em relação ao Novo Testamento, tanto quanto ao Velho Testamento? É neste ponto, particular­ mente, que o crente precisa focalizar as abordagens do estudo do Velho Testa­ mento e aplicá-las ao entendimento bíbli­ co. É neste ponto também que a recente discussão acerca da hermenêutica do Velho Testamento foi mais acesa e pro­ vocante, visto que há grandes diferenças de opinião a respeito de como os Testa­ mentos se relacionam. Desta forma, eru­ ditos como G. von Rad e H. W. Wolff sugerem uma conexão tipológica entre os Testamentos, representando o Velho Testamento a prefiguração, o início do que o Novo Testamento é o fim. W. Vischer continua sendo o mais completo expoente do ponto de vista cristológico: “Em todas as partes a escritura refere- se apenas a Cristo.” R. E. Brown, J. Coppens e N. Lohfink têm advogado a idéia de que o “sentido mais completo” está por detrás do sentido literal da Escritura do Velho Testamento. Muito influenciados por von Rad, eruditos como W. Zimmerli, G. E. Wright e, até certo ponto, John Bright, esposam um rela­ cionamento de promessa-cumprimento. Juntamente com esses estudiosos, ho­ mens como Claus Westermann, B. W. Anderson, F. Bâumgartel, W. Eichrodt, Franz Hesse, W. Pannemberg, James Barr e Daniel Lys escreveram impor­ 143
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    tantes artigos oulivros a respeito do assunto. Sem dúvida, é verdade que a relação entre os Testamentos é muito complexa, acarretando tanto continuidade quanto descontinuidade, e, até agora, nenhum princípio interpretativo sugerido é ade­ quado em todos os pontos. Para uma adequada compreensão do Velho Testa­ mento, é essencial a honestidade, por parte do leitor, de permitir que ele fale a sua palavra de Deus característica. Igualmente importante para o crente é o significado da mensagem do Velho Tes­ tamento, em vista da presença, em sua própria vida, de Cristo como Senhor res­ suscitado. Afinal de contas, é a vinda de Cristo que cumpre o Velho Testamento e torna o Novo Testamento verdadeira­ mente novo. Quando, através do exer­ cício de todas as abordagens do texto do Velho Testamento, o erudito vem a co­ nhecê-lo como ele era, a saber, também o que ele está dizendo e qual era o seu significado para os que o ouviram ou leram em primeiro lugar, então ele pre­ cisa torná-lo pessoalmente seu, fazendo a descoberta mais proveitosa de todas: o que é que ele está lhe dizendo, em sua situação e em sua época? Ê neste pro­ cesso que o estudante começa a conhe­ cer a unidade da Bíblia, que o Velho Testamento e o Novo Testamento na verdade são um, e também o que a Bíblia está dizendo ao homem em todas as épocas. Estas, em amplitude e num esboço resumido, são as principais abordagens do estudo contemporâneo do Velho Tes­ tamento. Elas requerem longa prepara­ ção e a disciplina de uma mente dedi­ cada. Requerem trabalho árduo e cansa­ tivo — trabalho que, muitas vezes, se refere aos menores detalhes, até mesmo às próprias letras do texto. Porém, não se pode esquecer que estas minúcias, até essas letras, fazem parte da palavra viva de Deus. Não se pode esquecer que, neste texto, desde a época de sua composição, Deus não cessou de falar. Desta forma, o estudo do Velho Testa­ mento, manejando as suas ferramentas com cuidado e honestidade amorosos, continua na busca de um propósito basi­ camente religioso, um propósito motiva­ do pela mesma força que compeliu os que iniciaram o longo processo com a primeira composição. A tentativa per­ pétua é ouvir Deus falando cada vez mais claramente. Para Leitura Adicional AP-THOMAS, D. R. A Primer of Old Testament Text Criticism. 2® ed. rev. Philadelphia: Fortress Press, 1966. AUVRAY, PAUL. “Hebrew and Ara­ maic”, em The Sacred Languages, por AUVRAY, POULAIN e BLAI­ SE. Trad, para o inglês por S. J. TESTOR. London: Bums & Oates, 1960, p. 11-71. BRIGHT, JOHN. The Autority of the Old Testament. Nashville: Abing­ don Press, 1967. HAHN, HERBERT F. The Old Testa­ ment on Modem Research, com “A Survey of Recent Literature”, por H. D. HUMMEL. Philadelphia: Fortress Press, 1966. JACOB, EDMOND. Theology of the Old Testament. Trad, para o inglês por A. W. HEATHCOTEe P. J. AL­ LCOCK. New York: Harper & Bro­ thers Publishers, 1958. OTWELL, JOHN H. I Will Be Your God. Nashville: Abingdon Press, 1967. KOCK, KLAUS. The Book of Books: The Growth of the Bible. Trad, para o inglês por M. KOHL. London: SCM Press Ltd., 1968. RINGGREN, HELMER. Israelite Religion. Trad, para o inglês por D. E. GREEN. Philadelphia: For­ tress Press, 1966. 144
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    SCHOFIELD, J. N.Introducing Old Testament Theology. Philadelphia: Westminster Press, 1964. WESTERMANN, CLAUS. Handbook to the Old Testament. Trad, para o ingles e edit, por R. H. BOYD. Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1967. WRIGHT, ERNEST e R. H. FULLER. The Book of the Acts of God. An­ chor Book 222. Garden City: Dou­ bleday & Company Inc., 1960. 145
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    Gênesis CLYDE T. FRANCISCO Introdução I.O Livro de Gênesis 1. O Título Este livro é chamado de “Gênesis” (começo, origem) devido ao título da Septuaginta grega, seguida mais tarde peía Vulgata Latina. Esta é a palavra grega usada para traduzir a hebraica toledoth (origens, gerações) em Gênesis 2:4a. Os judeus simplesmente o chama­ vam de Bere’shith, primeira palavra he­ braica em 1:1 (no principio). O título em grego é bem escolhido, pois o livro foca­ liza os primórdios do povo hebraico (caps. 12-50), tendo como pano de fundo o cenário das origens do Universo, da ter­ ra e da humanidade (caps. 1-11). Este li­ vro retrata a entrada do pecado no mun­ do, os problemas da primeira família, os inícios das civilizações antigas e as lutas iniciais em busca de uma fé. Não obstante, o seu âmbito vai além de um interesse em antiguidades. Israel é apresentado como saindo do seio das nações, a fim de mostrar que Deus tem um destino mundial para o seu povo (12:1 e ss.). No entanto, Israel está sob as luzes dos refletores do palco do mundo. Este livro dos começos reflete profunda­ mente os conceitos israelitas sobre o des­ tino dessa nação e do tempo do fim. Quando os grandes profetas perscru­ taram o futuro ideal, viram Israel entre as nações, tendo recuperado o Paraíso. Os escritores do Novo Testamento sem­ pre estavam cônscios do cumprimento do Velho Testamento na fé cristã. De fato,, temas apresentados em Gênesis tornam- se conceitos de importância em o Novo Testamento: a responsabilidade do ho­ mem diante do seu Criador, a instituição divina do casamento, a queda do ho­ mem, o julgamento do dilúvio, a salva­ ção pela fé, a vida piedosa como uma peregrinação e a promessa que aguarda cumprimento. 2. A Estrutura Há uma indisfarçável tentativa, neste livro, de arranjar o seu conteúdo sob o título: “Eis as origens” ou “estas são as gerações (toledoth, gerações) de...” Esta expressão ocorre pela primeira vez em 2:4, mas neste caso vem em seguida ao material ao qual ela se refere, e não antes, como nas outras ocorrências. A sua posição incomum, em 2:4, é, prova­ velmente, devida ao desejo do escritor de colocar Deus em primeiro lugar na nar­ rativa. De outra forma, pareceria que o Universo se gerou a si mesmo. Em 5:1, esta fórmula introduz os descendentes de Adão, em 6:9 a história familiar de Noé. Os filhos de Noé vêm em seguida, em 10:1, Sem em 11:10, Tera em 11:27. As gerações de Isaque (25:19) ocorrem entre as de Ismael (25:12) e de Esaú (36:19). Jacó é o último que tem as suas gerações relacionadas (37:2). Desta for­ ma, o material do livro de Gênesis é arranjado dentro dos títulos gerais de dez gerações. Sem considerações quanto à natureza de suas fontes, ele dá todas as 149
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    indicações de tersido, em última análise, arranjado em um padrão unificado. 3. Gênesis e o Pentateuco Gênesis não se apresenta por si mesmo na Bíblia. Desde séculos pré-cristãos, ele tem sido considerado como o primeiro livro do Pentateiico. Os judeus o consi­ deravam como parte integrante da Tora (Lei), e não como um livro separado, e como o princípio da “Tora de Moisés”. A referência à autoria mosaica no Tal- mude (Baba Bathra, fólio 14b) é bem conhecida. Esta opinião antiquíssima merece uma análise cuidadosa. Obvia­ mente, os judeus não criam que Moisés escrevera todo o Pentateuco, pois a Josué se dá o crédito do relato da morte de Moisés, nos últimos oito versículos de Deuteronômio. A referência especial à “seção de Balaão” certamente reflete discussões entre os rabis, e talvez Moisés não fosse o autor desse material, reque­ rendo, desta forma, uma afirmação especial, da parte das autoridades. O nome de Moisés não ocorre no livro de Genesís, exceto nos títulos que apa­ recem modernamente nas versões oci­ dentais. Não há referências específicas à sua autoria nem no Velho Testamento nem em o Novo Testamento. Contudo, é claro que, quando a Bíblia fala na “lei de Moisés” (cf. Mal. 4:4; Dan. 9:13; Luc. 2:22; At. 15:5), está-se referindo a todo o Pentateuco, inclusive Gênesis, visto que os judeus daquela época consideravam esta parte da Bíblia uma unidade. To­ davia, esta não ê uma declaração irres­ trita de autoria, mas de relacionamento. O restante do Pentateuco trata do perío­ do em que Moisés viveu, enquanto Gênesis relata a história da redenção até um tempo vários séculos anterior à época de Moisés. Numerosas passagens indicam o ponto de vista de um escr >rposterior a Moisés (cf. 12:6: “Nesst tempo estavam os cananeus na terra” ; 13:8, a menção de Hebrom, que não parece assumir esse nome senão na época de Josué, como em Jos. 14:15; 15:13; Gên. 22:14: “donde se diz até o dia de hoje”; 36:31: “antes que reinasse rei algum sobre os filhos de Israel”; 40:15: “da terra dos hebreus”). A relação de Moisés com Gênesis deve ter sido mais de compilador do que de autor, e o processo de redação deve ter conti­ nuado depois de sua época, com mate­ rial posto em ordem e adicionado. A opinião sólida dos escritores bíblicos é que Moisés é a principal figura da Tora. Desta forma, qualquer ponto de vista que procure ser coerente com a deles procurará a mão de Moisés em Gênesis, bem como em todo o Pentateuco. II. Data e Autoria 1. Os Primórdios da Pesquisa Histórica Por mais de 1.600 anos sustentou-se, entre os cristãos, que Moisés era o autor do Pentateuco, e, portanto, de Gênesis. Contudo, freqüentemente foi evocado o problema se o livro de Gênesis fora colo­ cado na forma presente depois da época de Moisés, Irineu (antes de 130 d.C.) questionou a autoria mosaica dos pri­ meiros cinco livros do Velho Testamento, e o debate foi continuado por Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano e Jerônimo. O eminente erudito judeu Ibn Ezra (1088-1167) duvidava especialmente que Moisés escrevera T2:6 ou 22:14. O pri­ meiro ataque concatenado contra a opi­ nião tradicional ocorreu, porém, entre 1650 e 1250, liderado por Hobbes, Spi- noza e Richard Simon. Em 1753, um físico francês, Jean Astruc, publicou uma obra que deu imcio à crítica moderna. Ele pensava que havia encontrado, em Gênesis, dois documentos principais, um empregando, para referir-se a Deus, Elohim, e o outro, Jeová (por isso cha­ mados “eloístico” e “jeovístico”) e, de­ pois, documentos menores. A Introduc- tion to the Old Testament (1782), de Eichhom, fortificou a divisão imaginada 150
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    por Astruc, aduzindoargumentos oriun­ dos das diferenças de estilo. Astruç e Eichhron, embora separando Gênesis em vários documentos, diziam que Moisés era o autor do Pentateuco. Tudo isto parecia especulação inofensiva, mas era o início de uma nova direção na pesquisa bíblica. Em 1800, Alexander Geddes decompôs o Pentateuco em vários fragmentos sem conexão lógica ou cronológica. Vater (1802-1805) e Hartmann (1831) ensina­ ram que o Pentateuco consistia de vários fragmentos breves pós-mosaicos, que cresceram, até serem combinados em nosso Pentateuco atual. A ordem e a unidade das narrativas, contudo, eram aparentes demais para permitir que uma hipótese destas ganhasse aceitação. O caminho para uma nova hipótese foi aberto por De Wette, que, em 1805, escreveu um livro que marcou época a respeito da data em que Deuteronômio foi escrito, data que ele colocou pouco antes da reforma realizada por Josias, em 621 a.C. Bleek (1830), Tuch (1838), Staehelin (1843) e Knobel (1852) perten­ ceram a esta escola. De acordo com esta hipótese, o documento Elohim formou a base do Pentateuco sobre que o escritor da seção Jeová baseou o seu trabalho, ao fazer ulteriores adições e modificações. Esta escola também negava a autoria mosaica. O suposto documento original, quan­ do separado das chamadas adições jeo- vísticas, era incompleto, faltando-lhe as passagens atribuídas ao jeovístico. Além disso, na seção eloística havia referências a eventos registrados nas seções atribuí­ das à jeovística. Keil, Hengstenberg e outros defenderam a unidade e autenti­ cidade do Pentateuco. O termo “Hexa- teuco” então começou a ser usado, pois o livro de Josué havia chegado a ser consi­ derado como parte necessária da história primitiva, visto que continha evidências desses documentos. 2. A Hipótese Documentária Clássica Hupfeld (1853) afirmou que, além de Deuteronômio^ há três composições his­ tóricas na base do Pentateuco, duas eloísticas e uma jeovística. Desde 1853 até hoje, os eruditos têm insistido em quatro fontes principais (J, E, D, P). Esta teoria foi sustentada imediatamente por Schrader, Noeldeke, Dillman e outros. Em 1865, Graf transferiu toda a legis­ lação, como agora se encontra em Êxo­ do, Levítico e Números, para um tempo subseqüente ao exílio babilónico (586 a.C.). Ele, a princípio, afirmou que as seções históricas espalhadas através des­ ses livros eram mais antigas, porém depois as levou, de maneira semelhante, ao período posterior ao cativeiro. Wel- Ihausen adotou esta teoria e colocou o importante documento Sacerdotal em cerca de 500 a.C. Desta forma há, de acordo com os eruditos modernos, qua­ tro partes componentes principais do Hexateuco: J. Narrativa do décimo século a.C. (c. 950), escrita em Judá, em que JHWH (Senhor) é o nome da divindade. Ela é chamada de javista ou yahwista. O autor é considerado como patriótico e é o mes­ tre do estilo de narrativa. E ele que inclui os detalhes de interesse humano que tomam tão inesquecíveis as histórias do Pentateuco. A sua concepção de Deus é definidamente antropomórfica (cf. a lista de Driver, de nada menos de 16 verbos, usados, pelo escritor, para des­ crever as atividades de Deus, p. xx e s.). Esta fonte se encontra em 2:4b-3:26; 6:1-8; 7:1-5,7-10,12,16b,22,23; 8:2b,3a, 6-12,13b,20-22; 9:18-27; 11:1-9; “e (exceto aqui e ali, um versículo ou dois — raramente mais alguns versículos — per­ tencem a E ou P)”12; 13; 15; 16; 18; 19; 24; 25:21-34; 26; 27:1-45; 29:2-14; 29: 31-30:24 (a narrativa principal); 44; 46: 28-34; 47; 49; 50:1-11,14 (Driver, p. xii). E. Narrativa do oitavo século a.C. (c. 750), por um profeta de Efraim (Rei­ 151
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    no do Norte),usando Elohim (Deus) co­ mo o nome da divindade até Êxodo 3, quando o nome JHWH (Yahweh) foi re­ velado a Moisés. Depois desta ocorrên­ cia, ambos os nomes são usados para designar Deus. O autor é chamado de eloísta (anteriormente chamado de se­ gundo eloísta). Este documento não é descoberto até Gênesis 15, pois começa com Abraão. O eloísta tem mais interesse antiquário do que o autor do documento J. Para ele, Deus é sublime e majestoso e é concebido em termos menos antro­ pomórficos do que em J. No entanto, ele parece mais remoto dos homens. Por­ tanto, mais ênfase é dada em meios se­ cundários de revelação, como sonhos e anjos. O eloísta também parece estar mais cônscio de questões morais do que o anterior autor de J. Esta fonte se encon­ tra em 15:1,2,5; 20; 21:6-21,22-32a; 22; 1-14,19; 28:11-12,17,18,20-22; 29:1, 15- 23,25-28a,30; 30:1-3,6,17-20a,c,21-23; 31:2,4-18a,19-45,51-55; 32:1; 33:18b-20; 35:1-8; 37:5-11,19,20,22-25a,28a,c,29- 30,36; 40-42 (exceto algumas poucas passagens isoladas); 45 (com exceções semelhantes); 46:1-5; 48:1,2,8-22; 50:15- 26. Os documentos J e E, verificou-se esta­ rem intimamente relacionados em estilo e espírito e serem mais difíceis de serem desemaranhados. Afirma-se que eles fo­ ram fundidos em uma narrativa por um escritor que usava JHWH (Yahweh) para designar Deus, a quem Wellhausen chama de jeovista. A narrativa profética combinada é representada pelo símbolo JE. D. Autor de Deuteronômio, cuja mão também é detectada em partes de Josué; datado de antes de 621 a.C., durante o remado de Manassés. Há uma tendência mais recente de datar as passagens bási­ cas de Deuteronômio em período ante­ rior a Manassés. A fonte D, contudo, não se acredita que esteja em Gênesis. P. Escritor (ou escola de escritores) sacerdotal, que compôs as seções legis­ lativas e a história ligada com as leis; datado de cerca de 500 a.C. O estilo do documento P é ineludível. (Cf. Gênesis 1 e o livro de Levítico.) Ele é formal, repe­ titivo, preciso e abstrato na descrição de Deus. No entanto, é minuciosamente concretado na descrição de olyetos de interesse sacerdotal, tais como o taberná­ culo ou métodos de sacrifício. O autor (ou autores) tinha uma mente legal, estando interessado especialmente em ge­ nealogias e detalhes estatísticos. Os seus personagens estão mais afastados da vida do que os de J e E. Ele difere tanto de J e E quanto o autor de Crônicas da atitu­ de dos escritores dos livros de Samuel e Reis. A maior parte do material não atribuído a J e E é contribuição do escri­ tor sacerdotal (cf. Driver para uma aná­ lise detalhada). O escritor ou escola de escritores, provavelmente, colocou o Pentateuco na forma atual, e particular­ mente Gênesis-JVúmeros. 3. Análise da Crítica da Forma No início do século, a análise de Graf- Wellhausen sofreu severos ataques da parte dos eruditos que eram da opinião de que o Pentateuco se havia originado de várias tradições orais e escritas. Essas tradições, ou strata, têm certas afinida­ des naturais de estilo e conceito, que dão a impressão de documentos. Grande par­ te dessa tradição remonta a épocas con­ sideravelmente anteriores às datas suge­ ridas por Wellhausen. Os escritores do Pentateuco não inventaram a história, mas, pelo contrário, escreveram o que era a tradição do povo hebraico daquela época, nairativas que haviam sido trans­ mitidas durante séculos. Os pioneiros neste campo foram Her­ mann Gunkel e Hugo Gressmann, que enfatizaram as formas estilizadas (Gat- tungen) através das quais os antigos, ao se expressarem, revelaram a situação vi- vencial original que existia na época em 152
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    que os relatosse originaram. Desta for­ ma, o contexto de uma passagem básica (perícope) não é apenas o seu contexto atual, na literatura do Velho Testamen­ to, mas a base original a qual ela perten­ cia. Embora a crítica da forma muitas vezes difira de Wellhausen, a respeito de como as fontes J, E e P vieram a existir, no cômputo geral, o agrupamento de materiais nessas três categorias ainda caracteriza essa abordagem. Há muito menos inclinação, contudo, de se dividir versículos em fragmentos e crescente dúvida de que a análise detalhada de S. R. Driver possa ser seguida ininter­ ruptamente através do livro de Gênesis. 4. Análise Histórico-Tradicional Tendo como pioneira a obra de Her- mann Gunkel e Hugo Gressmann, esta metodologia foi ulteriormente refinada pelos eruditos escandinavos Ivan Engnell e Sigmund Mowinckel, bem como por Albrecht Alt e Martin Noth (Alemanha) e H. H. Rowley (Inglaterra). Estes eru­ ditos, embora usem a metodologia de crítica literária e de forma, estão mais preocupados com a história da literatura do que com a maneira como ela come­ çou. Eles se concentram em traçar as origens do material desde o estágio oral, através do processo contínuo de edição, até a forma final. Este ponto de vista final é da maior importância, pois revela o propósito que está por detrás da Escri­ tura, como ela agora se nos apresenta, a verdadeira razão por que, afinal de contas, a narrativa foi incluída na Bíblia (cf. John I. Durham: “Abordagens Con­ temporâneas do Estudo do Velho Testa­ mento”, p. 87-98 deste volume, para uma discussão mais detalhada). 5. A Situação Atual Durante a maior parte do período mo­ derno, os eruditos judeus estavam igno­ rando Wellhausen ou adaptando as suas interpretações ao sistema dele. Há pouco mais de uma década, um grupo de cultos eruditos israelenses começou a atacar a abordagem de Wellhausen. Yehezkel Kauffmann1afirmou que o Pentateuco é pré-exílico, e que a fonte P veio antes da D. Umberto Cassuto fez um ataque fron­ tal contra a hipótese documentária, em 1941. Nessa obra, ele disse ter destruído todos os argumentos sobre que se basea­ va essa hipótese. Em 1963, Marvin Pope revisou a obra dele, com esta observação: “Embora Cassuto pensasse ter remo­ vido os alicerces da hipótese documen­ tária, ainda há eruditos que não deser­ taram inteiramente dessa estrutura, mas estão ocupados em remodelar e redecorar o seu interior.”2 No entanto, deve ser notado que ele disse que ainda há eruditos que não desertaram “inteiramente” dessa estru­ tura. Mesmo entre os defensores mais leais da hipótese, está em andamento uma revisão total de análise e de datas. A hipótese documentária não está sen­ do atacada apenas pelos israelitas, mas muitos de seus dogmas originais estão sendo questionados, por parte de muitas outras instâncias.3 Em 1969, Morton Smith observou que “qualquer revisão honesta do estado presente dos estudos a respeito do Velho Testamento precisa reportar-se ao fato de que não há, de forma alguma, qualquer moda que esteja prevalecendo; a verdadeira situação não tem paralelo no estudo de qualquer outro grupo de documentos do mundo medi­ terrâneo antigo. O campo é uma cena de intensa pesquisa, resultando em desa­ cordo generalizado.”4 No entanto, parece ainda haver algum consenso. Raramente é argumentado, 1 The Religion of Israel (Chicago: University of Chicago Press, 1960). 2 Journal of Biblical Literature, LXXXII, p. 360. 3 Na escola de Upsala (Suécia), o grupo de eruditos de Albright (cf. W. F. Albright, From The Stone Age to Christianity; Garden City: Doubleday & Co., Inc., 1957); O. Eissfeldt, The Old Testament, an Introduc­ tion (New York: Harper & Row, 1965); e Derek Kidner, Genesis (“The Tyndale Old Testament Commentaries”); Downers Grove, Illinois: Inter-Varsity Press, 1968. 4 Journal of Biblical Literature, LXXXVIII, p. 19. 153
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    por um lado,que Moisésj j ô s Gênesis em sua forma atual, embora haja grande controvérsia a respeito da extensão de sua contribuição. Por outro lado, a for­ ma Clássica da hipótese documentária é universalmente rejeitada, com os seus pressupostos hegelianos e sua tendência em direção à dissecação subjetiva da lite­ ratura em fragmentos. No entanto, mes­ mo Cassuto ou a escola escandinava precisa postular algo muito semelhante à posição Jiistôrica crítica tradicional. O que C. R. North disse, em 1951, ainda é verdade: “Parece bem claro que, se enterrarmos os ‘documentos’- precisa-, remos ressuscitá-los — ou algo muito semelhante a eles” .5 Nos anos futuros, esta intensiva inves­ tigação dos materiais que formam as fontes de Gênesis continuará. Conclusões ulteriores, provavelmente, serão alcança­ das a respeito do delineamento desses materiais. Novos esquemas de datação serão sugeridos, tanto para os estratos originais quanto para os materiais com­ pletos. No entanto, continua sendo ver­ dade que há dois grupos básicos de mate­ riais em Gênesis, que são geralmente designados como P e J (E como fonte distinta, e não como uma coleção limita­ da de materiais independentes, é cada vez mais questionada). Quando esta ter­ minologia é usada, não significa, neces­ sariamente, que Moisés escreveu ou não esta obra. Há claramente duas maneiras distintas de a história do passado de Israel ser contada. Ê necessário que o estudante perceba a sua presença, não importa como as date. Neste comentário de Gênesis, essas fontes primárias, por causa das conotações ambíguas da ter­ minologia clássica, serão chamadas de fonte Judia e fonte Sacerdotal. O mate­ rial comumente atribuído a E será ano­ tado como sendo da fonte Israelita do Norte, Precisa ser lembrado que o problem 5 The Old Testament and Modem Studj, H. H. Rowley. ed. (Oxford: Clarendon Press), p. 77. essencial, no estudo do Pentateuco, não é a existência de fontes para a sua redação, mas a sua inspiração e confiabilidade. No século XVII, Melchior Canus escre­ veu: “Não é tanto o problema material... se qualquer livro foi escrito por este õu aquele autor, conquanto que se creia que foi o Espírito de Deus que foi o seu a u to r.P o is não importa com que pena o Rei escreve a sua carta, se é verdade que ele a escreveu.” 6 III. A Natureza do Material O livro de Gênesis é dividido em três partes principais: capítulos 1-11; 12-36; 37-50. Cada uma dessas unidades trata de um diferente período da história e tem características distintivas. Os capítulos 1-11 se preocupam com eventos prime­ vos e temas característicos à literatura do Oriente Próximo antigo. Os capítulos 12-36 se concentram em tradições carac­ teristicamente hebraicas, que não se encontram em nenhuma outra parte do mundo, e os capítulos 37-50 contêm a história inigualável de José, através da qual há uma perfeita e dramática uni­ dade literária. Cada uma dessas divisões precisa ser analisada, se quisermos re­ conhecer as suas características salientes. 1. A História Primeva (1-11) As maiores ênfases desta seção, a cria­ ção e o dilúvio, têm paralelo na literatura do Oriente Próximo antigo, especial­ mente na da Babilônia (cf. Pritchard, ANET, para as fontes primárias). Duas obras literárias da antiguidade ajudam a lançar luz sobre os padrões de pensamento de Gênesis: 1) A Narrativa Babilónica da Criação7 Esta narrativa, chamada de Enuma Elish, começa com estas duas palavras, 6 Briggs, C. A., GeneralIntrodnction to the Study of Hol; Scripture(New York: C. Scribner, 1899), p. 249. Para uma discussão mais ampla deste assunto pelo crit r deste comentário, cf. The Blbllcal World, Char- v i . Pfesffer, ed. (Grand Rapids: Baker Book House, ’66) p 224-29 154
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    que em portuguêssão traduzidas como “quando acima” ou “quando nas altu­ ras” . Esta grande epopéia era desconhe­ cida do mundo moderno até os anos 1848-1876, quando Austen H. Layard, Hormuz Rassam e George Smith desco­ briram fragmentos de sete tabuinhas de barro, sobre as quais estava escrita esta história, na biblioteca de Assurbanipal, rei da Assíria no sétimo século a.C. Data da Composição. — Não podemos ter certeza quando este poema foi com­ pletado em sua forma semítica clássica. Embora as cópias constantes da biblio­ teca de Assurbanipal sejam do sétimo século a.C., as evidências internas, tanto de língua quanto de contexto, colocariam a epopéia original em cerca de 1700 a.C. Semelhanças com a Narrativa da Cria­ ção no Velho Testamento. — O fenô­ meno mais surpreendente que se apre­ senta ao leitor é a sua conspícua corres­ pondência do esboço. Ambas as narra­ tivas têm a seguinte ordem: caos prime­ vo, vinda da luz, criação do firmamen­ to, aparecimento da terra seca, criação dos luminares, criação do homem e o descanso da divindade. Tem havido muita discussão a respeito da relação de Tiamate com a palavra hebraica tehom (abismo) em Gênesis 1:2. Contudo, há muita discordância a respeito de qualquer relação etimológica íntima. Parece melhor concluir que tehom, ao invés de ser derivado de Tia­ mate, se relaciona com uma palavra mais antiga, da qual ambas derivam. Todas as evidências confirmam que o quadro de um universo em três camadas, na Enuma Elish, se reflete em a narrativa hebraica. Em ambas as fontes, um fir­ mamento fixo divide as águas acima dele das que estão debaixo dele. Sob a terra há as águas do abismo. Desta forma, há três níveis de água, conservadas em limites determinados pelo firmamento e pela terra seca. A palavra hebraica que se traduz como firmamento tem a idéia de “algo martelado” como um metal que é trabalhado. A palavra portuguesa sim­ plesmente significa algo firme ou sólido. Diferenças nas Narrativas. — Um poli­ teísmo cru permeia a Enuma Elish. Os primeiros estágios da criação são atri­ buídos à união sexual. De todas as for­ mas os deuses se comportam como os piores dos seres humanos. Um avô decide matar os seus netos porque eles pertur­ bam o seu descanso. Inveja e ambição descontrolada lançam os deuses em cons­ tante torvelinho. Eles chegam a se em­ briagar quando deviam participar de uma assembléia séria, tendo as suas mentes claras e alerta. O contraste no Velho Testamento é tão aparente que dificilmente é necessário mencioná-lo. Ali, o Deus de Israel nunca é retratado com uma consorte do sexo feminino. Só pronomes masculinos são associados com a divindade. Até os anjos são sempre masculinos, ao contrário da opinião popular. Embora Deus seja re­ tratado algumas vezes em termos antro­ pomórficos, ele nunca é caracterizado pelos vícios ou pela atividade sexual do homem. Há uma unidade em sua natu­ reza que não dá lugar para um céu dividido. Em sua pessoa, ele transcende toda a natureza, e nunca faz parte dela. Relação do Gênesis com a Enuma Elish. — Não há dúvida de que existe uma relação genética entre as duas nar­ rativas. O problema reside em a natureza dessa relação. Obviamente, há várias opiniões. Primeiro, há os que procuram provar que os babilônios tomaram em­ prestado dos hebreus, mas isto dificil­ mente é provável, porque a epopéia ba­ bilónica é muito mais antiga do que a forma final da hebraica. Uma segunda teoria supõe que os he­ breus tomaram emprestado dos habilô- nios. Esta opinião tem sido muito popu­ lar desde a descoberta da Enuma Elish. Contudo, as correspondências não são tão notáveis, ao ponto de tomar essa conclusão inevitável. Na verdade, é errô­ 155
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    neo sugerir queos hebreus se aproveita­ ram da narrativa babilónica. É bem pos­ sível que tal literatura como a Enuma Elish tenha sido apropriada pela própria cultura hebraica. Tendo adotado como sua a língua cananéia, os hebreus assi­ milaram grande parte da cultura da re­ gião, ao mesmo tempo. Existe ainda outra posição: Ê provável que tanto o relato hebraico quanto o babilónico se tenham originado de uma fonte mais antiga do que qualquer um dos dois. De que outra forma pode ser explicada a diferença de nomes pessoais? Sabe-se muito bem que o relato sumério está baseado em uma história suméria mais antiga. Possivelmente, as duas nar­ rativas estão baseadas em temas antigos da criação, que remontam à época muito mais antiga na História. Se isto ocorreu, séculos de desenvolvimento independente teriam deixado menos numerosas cor­ respondências do que agora existem. Uma conclusão mais plausível seria que os patriarcas levaram consigo uma his­ tória da criação proveniente de antece­ dentes semelhantes aos da Enuma Elish. Contatos literários posteriores com a Babilônia modificaram ainda mais o relato hebraico e influenciaram a sua abordagem, tornando-a semelhante à história da criação que então circulava. Importância Para a Interpretação. — Comparando-se a narrativa hebraica com a babilónica, é óbvio que Deus estava operando na primeira, tanto para guiar como para inspirar. É igualmente óbvio que Deus não ditou as passagens para os escritores da Escritura. Eles ex­ pressaram a revelação que lhes sobre­ veio, nos padrões de pensamento comuns e significativos para a sua época. Preci­ samos ser livres para expressar a mesma revelação em termos que vão ao encontro da nossa geração de homerts, onde quer que eles vivam. Se a Escritura original falou, à geração com que se defrontou, em sua própria linguagem, precisamos constantemente estar alerta para permi­ tir que ela fale de maneira igualmente significativa para a nossa. 2) A Epopéia de Gilgamesh: História Babilónica do Dilúvio Essa importante narrativa foi escrita, provavelmente, antes da Enuma Elish e conta a história de um herói, Gilgamesh, que sai em busca do segredo da vida eterna. Ele ouviu falar que certo homem, Utnapishtim, recebera a vida eterna por­ que preservara a raça humana durante uma grande inundação. Depois de mui­ tas aventuras, ele encontra o homem, que corresponde a Noé nos relatos bíbli­ cos. Gilgamesh é informado que Utna­ pishtim conseguira a imortalidade co­ mendo uma planta vivificadora. Depois de viajar até onde ela ficava, o herói a arranca e se prepara para comê-la. Po­ rém, cansado de sua longa jornada, Gil­ gamesh mergulha na água para se refres­ car. Então uma serpente sai da água e devora a planta. Desta forma a imorta­ lidade é perdida para a humanidade para sempre. Além da referência à serpente como agente que privou o homem da vida eterna, a epopéia de Gilgamesh corres­ ponde intimamente à narrativa do Velho Testamento, em sua descrição do dilúvio. Aqui as correspondências com a nar­ rativa bíblica são, obviamente, mais evi­ dentes do que qualquer passagem da Enuma Elish. É claro que a história hebraica depende da babilónica, ou ambas derivam de uma fonte comum. A última hipótese é mais provável, visto que os nomes, nas duas histórias, são tão diferentes. E também as duas versões diferem fundamentalmente em seus con­ ceitos de Deus. Além disso, na Babilô­ nia, uma antiga história de uma grande inundação é contada, para descrever as aventuras de seu herói frustrado; entre os hebreus ela é contada a fim de testificar acerca de como o Senhor controla a História. Como no exemplo da Enuma Elish, está claro que Deus não contou aos 156
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    hebreus a históriado dilúvio, para que eles a pudessem escrever. Eles usaram uma narrativa que já possuíam, para ensinar o que Deus colocara em seus corações a respeito de seus tratamentos para com o homem. Portanto, a inter­ pretação válida precisa fazer distinção entre a revelação original e o veículo cultural através de que ela foi expressa. 3) Literal e Figurada? Quanto de Gênesis 1-11 é figurado e quanto é literal? Algumas pessoas diriam que, visto que as narrativas estão na Bíblia, todas elas devem ser interpre­ tadas literalmente. Não obstante, o leitor mais casual observará que a Bíblia con­ tém prosa e poesia. Faz parte da própria natureza da poesia a licença de ela ser interpretada com imaginação. Inter­ pretar um poema como prosa é fazer violência à forma de literatura usada por um escritor inspirado da Escritura. Igualmente desastrosa é a interpretação de uma passagem em prosa, como se fosse poesia. O problema é literário, e não teológico. A questão importante é descobrir a forma literária da passagem, e entendê-la sob essa luz. Se, mediante a declaração “A Bíblia é literalmente ver­ dadeira”, entende-se que sempre pode­ mos crer no que ela diz, então essa declaração é verdadeira. No entanto, a Bíblia nem sempre usa linguagem literal. Quando Jesus disse que os seus segui­ dores precisam comer a sua carne e beber o seu sangue, ele não pretendia ser en­ tendido literalmente, e sim, ser levado a sério. Todavia, Adão não é tanto um homem simbólico, como um homem representa­ tivo. Em Gênesis 4 e 5, ele tem filhos, a quem dá nomes. Gênesis 5 chega a apre­ sentar a sua idade quando morreu. Em sua tradição, o escritor havia recebido Adão como o primeiro homem, e ele usa a história para ilustrar ainda mais a nossa ascendência comum. Pelo fato de uma passagem ser consi­ derada figurada, isso não significa que ela não seja verdadeira. Freqüentemente, mais profundas verdades são encontra­ das em literatura figurada do que em literatura literal. O fato de que algo aconteceu pode não ser tão importante quanto o que isso significa. Não obstan­ te ambas as coisas são importantes. O acontecimento é o pino em que está dependurado o significado. Um casaco é útil por si mesmo, quer dependurado em um pino, quer não; mas que utilidade tem o pino se não for para dependurar algo nele? A questão é: Como podemos saber se uma passagem é literal ou figurada? Há muitas pessoas que acham mais simples considerar tudo literalmente, enquanto outras a interpretam simbolicamente, quando têm dificuldade em crer nela. Como podemos ter a certeza de que forma literária temos diante de nós? Este problema não é simples, e precisa ser abordado com toda a humildade, reconhecendo que temos a responsabili­ dade de reconhecer a natureza do mate­ rial. Todavia, há algumas regras que ajudam nesse mister. (1) Devemos reco­ nhecer o tipo literário. Se é poesia, ela é certamente figurada. Algumas espécies de prosa são figuradas, como as parábo­ las ou alegorias. (2) O escritor pode dizer claramente que está usando linguagem simbólica. (3) Se a forma literária é incerta, devemos tentar primeiramente o significado literal, mas se ele não é ade­ quado, devemos tentar o figurado. Seja qual for a chave que abrir a passagem, provavelmente ela é a correta. No en­ tanto, é necessário ter cuidado, para não preferir uma interpretação à outra de maneira distorcida. Não há substituto para a sensibilidade à direção do Espírito Santo. 2. O Período Patriarcal (12-36) O tipo literário básico desta seção é a história de tradição (saga), que também 157
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    é ocasionalmente encontradaem 1-11. Essas narrativas contam fatos, nas vidas dos ancestrais do povo hebreu, que ha­ viam sido passados aos israelitas. Essas narrativas geralmente são contadas de maneira abreviada (tendo em média me­ nos de vinte versículos) e são arranjadas como pérolas em um cordão. São facil­ mente reconhecíveis, visto que cada nar­ rativa conta uma história completa. Exemplos notáveis deste tipo literário são Gênesis 12:10-20 (peregrinação de Abra­ ão ao Egito); 13:2-13 (Abraão e Ló); 15:1-21 (a aliança com Abraão); 20:1-18 (Sara e Abimeleque); 22:1-13 (o sacrifí­ cio de Isaque). Estas histórias circulavam separada­ mente, e foram coligidas, para o uso, no livro de Gênesis. Dizer que elas tiveram um longo período de transmissão não significa que não sejam narrativas histó­ ricas confiáveis. As velhas histórias no­ rueguesas a respeito de sua descoberta da América, segundo agora se sabe, preser­ vam a verdadeira história daquele perío­ do. Não há razão para se ver menos autenticidade nos relatos hebraicos. Naquilo em que a arqueologia tem sido capaz de investigar as histórias do Gêne­ sis, a respeito dos ancestrais dos hebreus, ela tem verificado a sua veracidade. Agora temos textos aos milhares que são contemporâneos do período da origem de Israel: os textos de Mari, do décimo oitavo século na Babilônia; os textos capadócios (décimo nono século); os textos de Nuzi da Babilônia (décimo quinto século); as tabuinhas de Alalakh (décimo sétimo e décimo quinto séculos); e os textos de Execração, do Egito (vi­ gésimo e décimo oitavo séculos). O conforto das viagens da Babilônia para Canaã é revelado nos textos de Mari. Nomes semelhantes aos dos pa­ triarcas são comuns. Os textos de Exe­ cração, do Egito, indicam que a Pales­ tina estava aberta para uma nova popu­ lação, naquela época. O território atra­ vessado por Abraão, em Canaã, não era uma região de paz em sua época. As condições sociais das épocas reveladas nos textos de Nuzi são as retratadas nas histórias patriarcais, e não as de uma época posterior (cf. Speiser, p. xl-xliii). Embora a arqueologia não tenha pro­ vado a existência de Abraão, ela demons­ trou que as histórias a respeito dele têm um sabor de autenticidade, reforçando, desta forma, a historicidade das narra­ tivas que se referem a ele. A transmissão das histórias de Israel, a respeito de seus primórdios, certamente teve controles mais fortes do que simplesmente a reci­ tação popular de contos do passado ao redor de fogos de acampamentos tribais. Grande parte do material deve ter sido preservado em santuários, e, desta forma, a sua integridade foi preservada. Estas histórias de tradição natural­ mente ostentam a marca de sua origem na História e de sua transmissão através dos séculos. O ponto mais saliente a ser reconhecido, todavia, é de que o escritor bíblico de Gênesis recebeu essas histórias em sua tradição, e as usou em seu teste­ munho. Ele não as modificou, para se coadunarem com a sua época ou seus conceitos. Tendo recebido as suas reve­ lações de Deus, ele usou as antigas his­ tórias como veículo para expressar a ver­ dade que Deus havia colocado em seu coração. A interpretação válida de Gê­ nesis precisa distinguir entre a revelação original e a história usada para expressá- la. O escritor não supõe um dilúvio uni­ versal; a sua tradição ',á o declara de antemão. Até que ponto o acontecimento origi­ nal foi remodelado na transmissão da tradição? Quão extensivo foi o dilúvio, realmente? Na verdade, quanto tempo viveu Matusalém? Estas interrogações têm a ver com a diferença entre Ges- chichte (história interpretada) e Historie (acontecimentoem si). Infelizmente, não temos as ferramentas críticas para deter­ minar aresposta. Da maneira como o livro de Gênesis está agora, ele é Geschichte.
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    Alguns teólogos presumemque ele está baseado em Historie confiável. Outros eruditos enfatizam a autoridade dos ensi­ namentos exarados pela passagem, e não a sua historicidade. A posição deste co­ mentarista, visto que as passagens estão na Bíblia, cuja autoridade foi verificada por Jesus Cristo, em seus ensinos e em sua ressurreição, é que fazemos bem em presumir a historicidade das narrativas, até que seja provado, além de qualquer dúvida (o que ainda não aconteceu), o contrário; mas também reconhecer que, se puder ser provado que certas perícopes não são históricas, a autoridade de seu impulso básico não será afetada. Elas assim mesmo continuam sendo o veículo da revelação, e não a revelação propria­ mente dita — tesouro em vasos de barro. 3. A História de José (Gên. 37:1-50:26) A história de José é o melhor exemplo de narrativa histórica de Gênesis. Ela difere das outras histórias patriarcais pelo fato de não ser uma coleção mal alinhavada de tradições independentes, mas uma unidade dramática, com uma trama claramente concebida. As prin­ cipais fontes, Judia e Israelita do Norte, foram tão bem fundidas em uma só estrutura literária, que é difícil, se não impossível, desemaranhá-las. Como de costume, o material Sacer­ dotal é facilmente reconhecido, mas é fragmentário, e parece ter sido imposto à narrativa básica. Ele é geralmente identificado em 37:1,2a; 41:46; 46:6-27; 47:5,6a, 7-11,27b,28; 48:3-6,7; 49:1a, 28b-33; 50:12,13. No capítulo 38, a história de Judá e Tamar é claramente uma inserção edito­ rial da tradição Judia, e 49:1-27, a bên­ ção de Jacó, é uma unidade anterior independente. O restante do material é a história original de José. A despeito das dificuldades de análise, várias unidades têm sido atribuídas a fontes diferentes, com a alegação de que a diferença do material anterior reside na presença de longas seções de cada um, e não de seções curtas alternadas (cf. Driver, Skinner, Speiser, von Rad). Desta forma, todo o capítulo 39 é atribuído à fonte Judia, os capítulos 40-42 à Israelita do Norte (exceto 41:46a, Sacerdotal, e 42: 27,28, Judia), e os capítulos 43-44 nova­ mente à Judia. Com exceções de menor importância, Driver atribuiu o capítulo 45 ao relato Israelita do Norte, mas Speiser acha impossível separar as fon­ tes, nesta passagem, e designa o material como JE. Os capítulos 37 e 46-50 são comumente considerados como compos­ tos, mas, comparativamente, mais fáceis de desemaranhar. Os eruditos estão cada vez mais céti­ cos, todavia, a respeito de sua capaci­ dade de separar os materiais das fontes Judia e Israelita do Norte, na história de José. O problema é que os critérios usu­ ais para fazer distinção entre os relatos das fontes Judia e Israelita do Norte não aparecem aqui: vocabulário, estilo, teo­ logia e o uso dos nomes divinos Yahweh e Elohim. O nome “Yahweh” (Senhor) aparece apenas oito vezes, em toda a seção, e somente em um capítulo (39). No entanto, o estilo e a teologia deste capítulo são os mesmos das seções que usam “Elohim” (Deus). Uma base prin­ cipal para se identificar as duas fontes é o uso das palavras distintivas (“Israel” na Judia, “Jacó” na Israelita do Norte e na Sacerdotal; duas palavras diferentes para o saco de grãos carregado pelos irmãos). Os nomes de Israel e Jacó, todavia, são usados indiferentemente em 46:2 e 48:2. A palavra judia supostamente exclusiva para designar o saco de cereal (’amta- chat) é encontrada no meio de uma re­ conhecida passagem Israelita do Norte (42:27,28), que introduz a necessidade de uma separação um tanto arbitrária desses versículos do restante do capí­ tulo. O método primário de se distinguir entre as duas fontes, contudo, é enfatizar 159
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    as aparentes contradiçõesdas duas nar­ rativas — declarações que os expositores mais conservadores defendem também fortemente como compatíveis. Precisa ser admitido que a análise dos materiais das fontes Judia e Israelita do Norte, nos capítulos 37-50, está hoje em um estado de alteração contínua. Sem se considerar a sua história, o material é hoje uma unidade tal que precisa ser tratado como um todo. Esta unidade pode ser devida, como o suspeita Skin- ner, e Eissfeldt sustenta, a uma fonte original, da qual dependem os relatos Judeu e Israelita do Norte» ou a história pode ser uma obra literária independen­ te, que, embora sofrendo a influência das fontes Judia ou Israelita do Norte, não segue o material de nenhuma delas muito de perto. A narrativa de José tem sido avaliada, por Driver, como satisfazendo, inques­ tionavelmente, os padrões de drama for­ mulados por Aristóteles: “reversão” de um efeito pretendido e “reconhecimen­ to” pelo herói atribulado. Ela também é comparada com a história de Ulisses, contada por Homero, em relação a que, em muitos aspectos, é superior, em ter­ mos de conceito. Nesta narrativa, há um tema básico: a soberania de Deus (45:4 e ss.; 50:19,20), mas esse tema é seguido por uma história “secular” , que raramente menciona o lugar de Deus nela. Não há milagres propriamente ditos, e, em contraste com as histórias anteriores, os homens de­ sempenham os papéis principais, com Deus sempre em segundo plano. No en­ tanto, Deus determina o resultado. O herói é José, o homem ideal. Como observa Skinner, ele é “o filho ideal, o irmão ideal, o servo ideal, o administra­ dor ideal”. Isto entra em agudo contraste com o retrato geralmente apresentado, de um patriarca, com todos os seus defei­ tos, bem como com todas as suas virtu­ des. Por que o quadro é tão radical­ mente diferente? T. G. Smothers, notan­ do a correspondência entre as histórias de José e a literatura de sabedoria, tanto em termos de vocabulário, quanto de pontos de vista, chegou à conclusão de que a história fora, obviamente, contada como instrumento de ensino, para co­ municar, em forma de narrativa, os pa­ drões morais do homem sábio.8 As vir­ tudes básicas ensinadas pelo livro de Provérbios são encontradas aqui nas histórias de José: sabedoria, temor do Senhor, respeito pelos anciãos, auto- disciplina e paciência. Este uso da narrativa explicaria por que José sempre se conduziu de maneira tão exemplar. A história era contada a fim de encorajar comportamento seme­ lhante. Contudo, há nuanças que não devem ser ignoradas. O mexerico de José para o seu pai não era uma característica nobre nem o foi o seu casamento com a filha de um sumo sacerdote egípcio, mas isso foi deixado para as gerações poste­ riores discernirem. A história de José, especialmente o capítulo 41, revela um surpreendente conhecimento dos costumes e da cultura egípcia, que só podiam ter vindo de uma tradição autêntica, talvez do próprio Moisés (cf. comentários sobre 50:1-14). O escritor, conhecendo de alguma forma que Faraó e sua corte se barbeavam totalmente, fez com que José se bar­ beasse (cabelo e barba) antes de entrar na presença de Faraó. O posto que Faraó deu a José, agora se sabe ter sido o ofício típico de vizir (41:43). O vizir era cha­ mado de o “portador do selo do Rei”, e a José foi dado o selo real (41:42). Outro costume egípcio era o presente de uma corrente de ouro. Os nomes associados com a família em que José se casou são tipicamente egípcios (41:45). O grito de “Abrek” diante de sua carruagem é tão egípcio que nem os eruditos hebreus nem os arqueólogos modernos têm certe­ 8 “The Joseph Narrative and Wisdom” (tese n&o publi- cada: The Southern Baptist Theological Seminary, Louisville, Ky., 1964). 160
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    za quanto aoseu significado. Em 41:1-8, há três palavras emprestadas do egípcio, traduzidas como “Nilo”, “carriçal” (“canas”, na tradução Novo Mundo) e “adivinhadores”9,. Quem era o Faraó diante de quem José apareceu, aquele que “conhecia José”? 0 indício mais forte é o fato de que, em 41:39, ele se referiu a Deus com reve­ rência óbvia. Os faraós egípcios nativos se consideravam como deuses. Isto suge­ re que este faraó, provavelmente, era um governante hicso (c. 1720-1750 a.C.). pois esses governantes hicsos eram es­ trangeiros, de origem semelhante à dos hebreus. Isto também explicaria a sua cordialidade para com José e sua família. Os dados cronológicos do Velho Testa­ mento favorecem esta era (cf. Êx. 12:40; 1Reis 6:1). Porém, tanto as evidências arqueo­ lógicas modernas quanto os dados genea­ lógicos do Velho Testamento (cap. 46; Êx. 6; Núm. 26) favorecem uma data posterior, durante a era Amarna (c. 1417-1362 a.C.). (Veja o comentário so­ bre Êxodo, neste volume, para discussões mais detalhadas.) Speiser (p. 316) é exato, quando obser­ va que “a narrativa que está diante de nós fornece uma base fraca demais para que dela tiremos uma dedução histó­ rica” . Isto também pode ser dito em relação às evidências arqueológicas. O debate continua, sem amainar. IV. Interpretação do Livro de Gênesis Quando um homem diz que crê que a Bíblia é a Palavra de Deus, isso pode significar muito pouco. A questão básica é o método usado para interpretá-la. É bem comum o povo ler na Bíblia o que realmente crê ou obter dela o que deseja ouvir. 9 Cf. J. Vergote, Joseph en Egypte (Louvain, 1959), para uma discussão completa a respeito dos elementos egí­ pcios autênticos dessa história. 1. Metodologia Errônea Na história da Igreja, foram usadas, prejudicialmente, muitas abordagens de interpretação, mas algumas delas apre­ sentam mais perigos do que valor posi­ tivo. Alegoria. O verbo grego que significa alegorizar originalmente quer dizer “fa­ lar diferentemente”. Uma alegoria, por­ tanto, é um discurso figurado, em que as idéias abstratas são personificadas. Onde há alguma alegoria na Bíblia, como em Juizes 9:7 e ss. ou Ezequiel 16:1 e ss., ela deve ser interpretada como tal. A refe­ rência, feita por Paulo, em Gálatas 4:21 e ss. tem encorajado o uso do método alegórico. Neste exemplo, Agar era um símbolo, e o Monte Sinai, outro. Paulo diz ao povo que não são filhos de escra­ vos. No versículo 24, ele diz: “O que se entende por alegoria.” O método alegó­ rico ignora o contexto histórico de uma passagem. Embora Paulo use aqui o método rabínico, ele não ignora o con­ texto. Allegoroumena não é um substan­ tivo, mas um particípio. Paulo disse: “Isto é falar em outro sentido.” Ele admite, com esta expressão, que não está apresentando o significado histórico lite­ ral da passagem, mas procurando encon­ trar a idéia principal aplicável. Ele não nega o fato de Agar nem o fato do Monte Sinai, mas procura descobrir o significa­ do básico, ao dizer: “De modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre.” Ele cria uma alegoria, em vez de interpretar a passagem como alegoria. Ao alegorizar, a Bíblia torna-se, por toda parte, a serva de seu intérprete. Gênesis 14 é tão significativo para nós quanto Mateus 1. Se alguém alega que todo o Velho Testamento é alegórico, então palavras encontradas em qualquer' parte da Escritura são tão importantes quanto as encontradas nas outras partes. Onde o sentido histórico de uma passa­ gem é negligenciado, não pode haver nenhum princípio regulador válido que governe a sua interpretação. 161
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    Espiritualização. Neste métodode interpretar as Escrituras, a pessoa tam­ bém ignora o seu sentido histórico, ten­ tando ler verdades neotestamentárias no Velho Testamento. Tertuliano, ao fazer comentário a Amós 2:6 — “Vendem o justo por dinheiro, e o necessitado por um par de sapatos” — disse que esta era uma predição feita por Amós de que Judas iria vender Jesus por um preço. Na Epístola de Bamabé, que foi escri­ ta em cerca de 100 a.C., o escritor, ao referir-se a Gênesis 14, disse que os 318 homens treinados (que se escreve TIE em grego) representam a cruz. O “T” era a cruz, e o “IE” (as duas primeiras letras do nome de Jesus em grego) prediziam que Jesus iria morrer na cruz. Ser culpa­ do de espiritualizar é fazer do Velho Testamento um enigma, para o qual supostamente o Novo Testamento supre a resposta. Tipologia. O tipo (cópia, figura), da maneira como é visto pelo tipologista costumeiro, é um desvendamento divi­ namente planejado, de eventos futuros, revelados em uma pessoa, lugar, acon­ tecimento, objeto ou instituição. Por exemplo, Abraão é figura ou tipo de Jesus. Em Hebreus 9:23 e ss. e em He­ breus 10:1, não podemos negar a apli­ cação prática desta teoria. Mas o povo de Gênesis não era simples figura. Eles eram pessoas reais. Contudo, há outra tipologia, que é mais realista. A idéia que é a princípio apenas implícita, mais tarde se torna clara. Há uma definida seme­ lhança de impulso, quando o primeiro e o segundo exemplo são comparados. Von Rad emprega uma abordagem seme­ lhante, em seu comentário a Gênesis. Apogese. O estudante deve tomar cui­ dado com a falácia da eisegese, isto é, de ler na Escritura o que realmente não está ali, mas também deve tomar cuidado com um erro ainda mais mortal, que podemos chamar de apogese, isto é, deixar de tirar da passagem o seu verda­ deiro significado. Embora a erudição histórica tenha advertido corretamente contra o primeiro erro, ela tem dema­ siadas vezes se caracterizado por ser useira e vezeira do segundo. É signifi­ cativo que Jesus nunca advertiu os ho­ mens a respeito do perigo de verem mais dele no Velho Testamento do que está ali, mas de verem menos: “Õ néscios, e tardos de coração para crerdes tudo o que os profetas disseram!” (Luc. 24:25). 2. Uma Hermenêutica Bíblica Básica: Princípios de Interpretação O único corretivo confiável para os erros a que os métodos acima citados estão sujeitos é uma exegese sadia, histó­ rica. Deve-se tentar entender as Escri­ turas em seu contexto original. Reconhecer a Situação Vivencial. — A Escritura precisa ser estudada a fim de se descobrir o que ela significou para a sua própria geração. Só depois que aprende­ mos o que ela disse ao povo de sua época, ela pode falar a nós com clareza. Este pressuposto está por detrás de todos os estudos históricos minuciosos deste co­ mentário. Isto é verdade especialmente em relação aos fatores sociais e econô­ micos. Sabemos muito a respeito dessas condições durante a época dos patriar­ cas, pois os registros antigos dos babilô­ nios, cananeus, egípcios, hititas e huria- nos têm sido recuperados aos milhares. É especialmente importante localizar os patriarcas na época em que viveram, pois seria irreal julgá-los pelos padrões morais que passamos a reconhecer pela lei de Moisés, que veio muito mais tarde, e especialmente pelos padrões cristãos. De acordo com Speiser (p. xl), quando Abraão anunciou que Sara era sua irmã, ele não estava meramente protegendo-se, estava também estabelecendo os direitos de sua esposa. Pela lei huriàna, uma esposa gozava de proteção especial se fosse declarada irmã de seu marido, quer isso fosse verdade, mediante as linhagens sanguíneas, quer não. Semelhantemente, ele assevera que era costume aceito um 162
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    pai declarar emtestamento o direito de primogenitura para um filho favorito, quer ele fosse o mais velho, quer não. A sugestão de Sara para que Abraão mantivesse relações sexuais com a sua escrava também era costume comum da época. A criança seria o filho legal da esposa principal. O fato de Abraão ser instruído a sacrificar o seu filho Isaque deve ser visto à luz dos padrões éticos da época. Por esses é que ele deve ser julga­ do. Sem dúvida, os homens de hoje em dia não gostariam de ser julgados pelos padrões e pela consciência mais fina­ mente sintonizada de amanhã. Julgados pelos padrões de sua época, os patriarcas saíram-se muito melhor do que a maioria de nós, que, a despeito de nosso conhe­ cimento mais amplo, não nos elevamos tanto. Identificar a Forma Literária. — Só depois que o tipo de literatura é identi­ ficado é que a literatura pode ser adequa­ damente interpretada (cf. comentários acima, a respeito das três principais partes de Gênesis). Se uma passagem tem o objetivo de ser figurada, e nós a interpretamos literalmente, pecamos con­ tra ela. Sobretudo, se ela é história, e nós a espiritualizamos, erramos de maneira semelhante. O tipo literário é o veículo da revelação. Se o seu caráter funda­ mental for ignorado, nunca poderemos abrir a porta, e descobrir o seu tesouro. Descobrir o Motivo. — Embora cada palavra, em uma determinada perícope, seja importante e contribua para uma compreensão do significado, o propósito do intérprete deve ser descobrir a preo­ cupação primária da passagem. Isto é feito de maneira mais perfeita verifican­ do-se o que ela significava em seu ambi­ ente original. Para quem ela foi escrita, e por quê? O que ela dizia àquelas pes­ soas? Quando as respostas destas inter­ rogações são definidas, as chaves do ímpeto básico são difíceis de ignorar. Contudo, quando há pequena concor­ dância, entre os eruditos, a respeito do ambiente original, pode-se ainda per­ guntar: Não importa a quem foi escrita ou quando, qual é o objetivo essencial da passagem? Fazer esta pergunta é evitar demorar-se demasiadamente em concei­ tos periféricos, e colocar-se na torrente central da revelação bíblica. É óbvio, por exemplo, que o motivo de Gênesis 1 é que Deus fez o homem à sua própria imagem, para representá-lo neste mundo. Os que são versados em ciência precisam debater a importante questão de Gênesis e a ciência. A pessoa comum fará bem, entretanto, em escutar com atenção o debate, mas depois rela­ cionar o problema ao ímpeto de Gênesis 1: Não importa como ou quando o ho­ mem foi criado, Deus o criou, e o homem é responsável diante de Deus pelo que faz com a sua vida. Os cientistas podem saber mais acerca do mundo natural do que o escritor de Gênesis, mas assim mesmo eles são responsáveis diante do Deus desse escritor. A principal ênfase deste comentário se centralizará no ímpeto básico de cada perícope. Os assuntos críticos históricos serão enfrentados realisticamente, mas não se permitirá que um exame deles obscureça o significado mais importante de uma passagem. Pelo contrário, tais estudos serão realizados a fim de ajudar o leitor a entender a mensagem. V. Os Ensinamentos Religiosos de Gênesis 1. Importantes Contribuições das Fontes As três fontes básicas de Gênesis va­ riam em sua ênfase a respeito da natu­ reza de Deus. A narrativa da fonte Judia fala de Deus em termos altamente antro­ pomórficos: Ele forma o homem com as suas mãos como um oleiro molda o bar­ ro; ele faz Eva de uma costela tirada de Adão; ele anda pelo jardim na viração do dia; ele “desce” para ver a torre de Babel. Não obstante, ele é ta m b é m o Deus da criação e o Senhor da História. 163
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    Não se podecometer o erro de supor que estas descrições podem ser coloca­ das de lado, como irrelevantes para a nossa era mais sofisticada. A ênfase é exercida vigorosamente sobre o relacio­ namento íntimo que pode haver entre Deus e seu povo. Ele não é o “movedor inamovível” da filosofia grega, mas o Criador que se preocupa com o seu mun­ do e que está intimamente envolvido em tudo o que está acontecendo aqui. A fonte Israelita do Norte é menos extensiva do que a Judia e muito menos unificada em sua perspectiva. Ao con­ trário da narrativa da fonte Judia, ela não fala de Deus como Yahweh (Se­ nhor) antes de Êxodo 3:14 e s., quando ele apareceu a Moisés. Esta fonte está interessada em esclarecer alguns dos problemas morais associados com as his­ tórias tradicionais dos patriarcas (os materiais começam com Abraão). Nela Deus é mais remoto de um relaciona­ mento direto com o homem. As suas experiências com Deus são retratadas em termos de sonhos e de visitações angé­ licas. A grande obra-prima desta fonte é o capítulo 22, a história em que Abraão sacrifica Isaque. Aqui, as exigências de Deus, de obediência completa, são apre­ sentadas claramente. A narrativa Sacerdotal apresenta Deus como transcendente e santo. Logo no começo, no capítulo 1, Deus é retratado criando (um ato exclusivo de Deus) pelo simples ato de proferir a sua palavra. Daquele momento em diante ele está no controle absoluto do curso da História. O interesse da fonte em genealogias vem de duas direções: o interesse sacerdotal por esses registros, devido ao seú dever, e o processo de funil, pelo qual Deus moveu-se da humanidade em geral até Abraão em particular. Foi a escola Sa­ cerdotal que editou o livro de Gênesis, e a sua mão é vista claramente em sua estrutura genealógica. O interesse da narrativa nos acontecimentos cósmicos e mundiais baseia-se no lugar que Israel ocupava ou devia ocupar na História. O processo da História é seguido desde a criação, avançando para o dilúvio, a chamada de Abraão, os seus anos desfru­ tando Canaã e a peregrinação ao Egito. Depois, em Êxodo 6:2 e s., chega-se ao clímax, quando Deus apareceu a Moisés e disse: “Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó, como o Deus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome Jeová, não lhes fui conhe­ cido.” Todos os acontecimentos regis­ trados em Gênesis haviam sido prepara­ tórios de uma nova revelação da natu­ reza de Deus a Moisés. Foi então que o verdadeiro caráter de Deus foi revelado. O Deus que apareceu a Moisés era o mesmo Deus que falara aos patriarcas, mas a Moisés ele apareceu em uma nova dimensão. As diferenças de ênfase, nessas narra­ tivas, não obscurecem a sua concordân­ cia básica a respeito da natureza de Deus e de sua relação para com o homem. Foi ele que fez da humanidade uma unidade e que considera o homem responsável pela direção de sua vida. O homem tem resistido obstinadamente aos esforços de Deus para que ele viva de acordo com a vontade divina, mas Deus, inexoravel­ mente, avança em direção ao seu alvo para com o homem: a livre expressão da imagem de Deus, que lhe foi dada por ocasião da criação. 2. O Deus dos Patriarcas O problema mais sério, no fato de o livro de Gênesis retratar Deus, é se os conceitos da natureza de Deus que os seus escritores esposavam eram com­ partilhados pelos próprios patriarcas. Èm um ensaio definitivo a respeito de “The God of the Fathers” (O Deus dos Pais) Albrecht Alt assumiu a posição de que havia tanto diferenças quanto seme­ lhanças. 10 Ele negou que os patriarcas 10 Cf. Essays In Old Testament History and Religion (Garden City: Doubleday & Co., 1967). 164
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    chamassem o seuDeus de “Yahweh” , mas cria que cada patriarca chamava o seu Deus pessoal por um nome diferente (“O Deus de Abraão”, “o Temor de Isaque”, “o Poderoso de Jacó”). Só bem depois estes três “deuses” foram com­ binados sob o título de Yahweh. Porém, a despeito do fato de que os “deuses” de Abraão, Isaque e Jacó tinham nomes diferentes, a espécie de “deus” era a mesma, diferindo radicalmente dos deuses de Canaã, que eram sempre rela­ cionados com um lugar. O “deus dos país” estava ligado a cada tribo em sepa­ rado por um pacto pessoal, e ia com eles onde quer que viajassem. Desta forma, ali estava a semente que levaria ao Deus da criação, que se relacionaria pessoal­ mente com a humanidade, onde quer que ele estivesse. Sob o título de Yahweh, adotado na era mosaica, estes velhos conceitos foram unidos e ampliados até o ponto como os temos hoje. A narrativa de Gênesis apresenta um quadro diferente. A fonte Judia diz que os homens clamaram ao “nome de Yahweh” antes do dilúvio (4-'26). Isto não significa, necessariamente, que o nome propriamente dito foi usado, pois não existe evidência arqueológica segura de que esse título fosse usado antes da era mosaica, mas que o mesmo Deus que era adorado pelos patriarcas mais. tarde apareceu a Moisés. Até as narrativas bíblicas (Israelita do Norte e Sacerdotal) sugerem que Deus era conhecido ante­ riormente por um nome diferente, mas era o mesmo Deus. Abraão mandou buscar, em Harã, uma esposa para Isaque, da mesma for­ ma como Jacó voltou lã para buscar a esposá, não apenas porque eles eram parentes, mas porque compartilhavam da mesma herança religiosa. Labão usa o nome de Yahweh, que só os crentes^ podiam usar (24:31,50,51). Alt afirma que o Deus de Jacó e o Deus de Labão são deuses diferentes, visto que na decla­ ração “O Deus de Abraão e o Deus de Naor, o Deus do pai deles, julgue entre nós” (31:53) o verbo está no plural. Desta forma, a tradução seria “os deu­ ses... julguem” . Contudo, o nome dado a Deus (Elohim) algumas vezes usa o verbo no plural, por concordância gramatical (cf. 35:7), mesmo quando se está falando do Deus de Jacó. Em 31:49, Labão refe­ re-se a Deus como Yahweh (o Senhor), coisa que não é permitida a um incrédulo fazer, segundo as fontes bíblicas. Ao con­ trário de Alt, Labão não jura pelo seu deus e Jacó pelo seu. Só Jacó jura, e o faz pelo Deus de seu pai Isaque. Parece, portanto, que “o Deus dos Pais” era o mesmo que o Deus de Moisés e o da narrativa patriarcal. Ele atendia por diferentes nomes, em épocas dife­ rentes, e os ancestrais hebreus também adoravam outros deuses ao mesmo tem­ po (Jos. 24:2,14 e s.). Abraão não foi chamado para abandonar o Deus de seu pai Terá, mas para purificar a fé. Moisés não seguiu um novo Deus, más foi-lhe dada uma revelação maior do Deus de seus pais, que desde então desejou ser chamado e conhecido como Yahweh. 3. A Mensagem Religiosa de Gênesis Os escritores de Gênesis falam não apenas da natureza de Deus, mas, ainda mais, com as implicações dessa reálidade na vida do homem. Se o homem está fora da comunhão com o seu Criador santo e justo, existe alguma forma de reatá-la? Que evidências há de que Deus está ainda interessado no mundo que ele for­ mou, e que ele está fazendo a este res­ peito? O ímpeto das perícopes de Gênesis não apenas nos leva para a torrente prin­ cipal da revelação bíblica, mas também nos propicia orientação para meditação em Deus e para agirmos por sua direção. As passagens que enfatizam temas signi­ ficativos sempre acarretam implicações corolárias para a vida do homem. Os Propósitos de Deus (cap. 1). — Embora Deus tenha criado o Universo e entrado em seu dia de descanso, ainda há 165
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    trabalho para ohomem realizar. A sua tarefa é levar toda a natureza ao domí­ nio de Deus (fazer com que ela realize o propósito divinamente pretendido), mas primeiramente o homem precisa, ele mesmo, andar nessa vontade divina. A Condição Decaída do Homem (caps. 2 e 3). — A descrição da recusa obstina­ da de Adão em reconhecer a sua condi­ ção de criatura chama a atenção para a rebelião de todos os homens contra Deus e para a sua alienação dele, com o mes­ mo resultado desastroso. A Ira de Deus (caps. 4-8). — Em sua separação de Deus, a vida do homem é algumas vezes caracterizada por atos religiosos sinceros, porém inaceitáveis (cap. 4), por mera existência biológica (nascer, ter filhos, cap. 5), ou por imora­ lidade grosseira (cap. 6). O primeiro padrão resulta em alienação entre os homens, que diferem acerca de religião, o segundo na ausência de qualquer senso de propósito significativo, e o terceiro em julgamento direto da parte de Deus. Desta forma, a ira de Deus se manifesta tanto em conseqüências naturais como em ação pessoal específica. A Ünica Família dos Homens (caps. 9 e 10). — Os sobreviventes do dilúvio, todos pertenciam a uma só família. To­ dos os homens que viveram sobre a terra desde então são descendentes deles, e, desta forma, se relacionam uns com os outros por parentesco. Por conseguinte, nenhuma raça de homens é, por natu­ reza, inferior a qualquer outra. A Impropriedade da Ira (caps. 9-11). — Embora o dilúvio tenha eliminado os piores dentre os pecadores, ele não rea­ lizou nenhum resultado positivo. Os so­ breviventes continuaram a demonstrar as suas inclinações pecaminosas: Noé, por ter exposto inconscientemente a sua própria vergonha; Cão, expondo cons­ cientemente a fraqueza de seu pai; e os edificadores de Babel, lutando para alcançar os seus alvos distorcidos. A Intervenção de Deus (caps. 9-12). — O Senhor não deixa o homem por sua própria conta. Ele está julgando-o (Cão e Noé), perturbando-o (Babel) ou cha­ mando-o (Abraão). Salvação Pela Fé (caps. 12-21). — O único cantinho para o homem voltar a uma existência que tem significado sob os auspícios de Deus é pela fé. Um homem de fé é aceito, não por causa de seus méritos, mas por causa do que agora Deus pode fazer com ele. A Natureza da Fé Salvadora (caps. 15, 22). — Embora a salvação tenha início com uma aberta responsividade para com Deus (cap. 15), o supremo teste de sua validade não é tanto o que o homem crê que Deus possa fazer por ele, quanto o que ele está disposto a dar a Deus (cap. 22). O Perigo da Apostasia (cap. 24). — Quando Abraão proibiu que Isaque vol­ tasse a Harã, estava consciente do risco quanto ao cumprimento da promessa, se Isaque não voltasse da terra que Abraão fora vocacionado a abandonar. Para o povo de Deus não pode haver retomo. A Presciência de Deus (caps. 25-28). — Jacó e Esaú tinham que descobrir a sua maneira de funcionar da forma já pre­ vista por Deus. Tanto eles quanto seus pais tentaram usurpar essa vontade ou opor-se a ela. Os resultados desalenta- dores de ambos os lados indicam que precisa haver um método melhor: reco­ nhecer a primazia da vontade de Deus, e reagir criativamente a ela. Os Resultados Negativos da Poligamia (caps. 29 e 30).- Os múltiplos problemas e tensões resultantes da rivalidade entre Lia e Raquel para obter a aceitação de Jacó são argumentos suficientes em favor da monogamia. Persistência na Oração (cap. 32). — Se as bênçãos de Deus são asseguradas, não é porque pechinchamos com ele (cap. 28) ou porque temos força de vontade (lutan­ do com o anjo), mas, pelo contrário, porque rogamos tenazmente pela bên­ 166
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    ção. Importunação éa chave para as orações respondidas, não porque Deus precisa ser persuadido, mas porque esta atitude reconhece a verdadeira fonte da bênção, a confiança do homem no doa­ dor da bênção e a sua desesperada neces­ sidade de ajuda. A Soberania de Deus (caps. 37-50). — A história de José ilustra vivamente o fato de que os atos mais egoísticos dos homens podem ser usados por Deus para alcançar os seus propósitos, embora ele possa usar melhor aqueles que dese­ jam a sua vontade. Embora a sua mão raramente, seja vista mesmo pelos seus, Deus está constantemente em ação. O seu cuidado providencial é visto melhor em retrospecto (45:5-7; 50:20). Base dos Valores Éticos (cap. 39). — A vitoriosa resistência de José à esposa de Potifar foi primeiramente devida à sua consciência dos padrões estabelecidos por Deus. Os mais fortes códigos de ética estão arraigados em a natureza de um Deus que está cônscio de sua infração. Perdão e Reconciliação (caps. 42-45). O que parece ser a manipulação dos irmãos, feita por José, pelo contrário, é uma tentativa cuidadosa de determinar se a reconciliação épossível Isto pode ser alcançado somente onde há verdadeiro arrependimento. A capacidade de José de perdoar os seus irmãos se baseava não apenas em seu amor por eles, mas em sua consciência de que os propósitos de Deus a serem alcançados, para todos eles, incluindo ele próprio, eram mais impor­ tantes do que as ofensas passadas. A Chave Para o Futuro (caps. 49 e 50). — O futuro pertence aos que, tendo promessas para cumprir, não as negli­ genciam. As esperanças de Israel já esta­ vam começando a se centralizar na vinda de um governante prometido para a tribo de Judá (49:10). Esboço do Livro de Gênesis I. História Primeva (1:1-11:32) 1. A Criação (l:l-2:4a) 1) O Princípio (1:1,2) 2) O Primeiro Dia (1:3-5) 3) O Céu e a Terra (1:6-13) 4) O Sole a Lua(1:14-19) 5) Os Peixes e as Aves (1:20-23) 6) Os Animais e o Homem (1:24- 31) 7) Descanso da Criação (2: l-4a) 2. A Queda do Homem (2:4b-3:24) 1) O Jardim do Éden (2:4b-17) 2) A Criação de Eva (2:18-25) 3) A Tentação e a Queda (3:1-7) 4) As Conseqüências da Queda (3:8-24) 3. A História de Caim (4:1-26) 1) Caim e Abel (4:1-16) 2) Caim e a Civilização (4:17-26) 4. Os Patriarcas Antediluvianos (5: 1-32) 1) De Adão a Enoque (5:1-20) 2) De Enoque a Noé (5:21-32) 5. O Grande Dilúvio (6:1-9:29) 1) A Causa do Dilúvio (6:1-8) 2) Preparação (6:9-22) 3) Instruções Adicionais (7:1-5) 4) A Extensão do Dilúvio (7:6-8: 19) 5) O Sacrifício de Noé (8:20-22) 6) A Aliança com Noé (9:1-17) 7) A Maldição de Canaã (9:18-29) 6. Os Descendentes de Noé (10:1-32) 7. A Torre de Babel (11:1-9) 8. Os Ancestrais de Abraão (11:10- 26) 9. A Família de Terá (11:27-32) II. As Narrativas Sobre Abraão (12:1- 25:18) 1. A Chamada de Abrão(12:l-3) 2. Abrão em Canaã (12:4-9) 3. A Peregrinação no Egito (12:10- 13:1) 4. Abrão eLó (13:2-18) 1) A Separação (13:2-13) 2) Renovação da Promessa (13: 14-18) 5. Abrão, o Cidadão do Mundo (14: 1-24) 1) Ló e os Reis Tiranos (14:1-12) 167
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    2) Abrão eMelquisedeque (14:13- 24) 6. O Pacto com Abrão (15:1-21) 1) A Fé de Abrão (15:1-6) 2) Prevendo o Pacto (15:7-11) 3) As Promessas do Pacto (15:12- 16) 4) Confirmando o Pacto (15:17- 21) 7. Abrão eAgar (16:1-16) 1) Sarai eAgar (16:1-6) 2) Promessa Divina a Agar (16:7- 16) 8. O Pacto da Circuncisão (17:1-27) 1) Bênçãos do Pacto (17:1-8) 2) O Rito da Circuncisão (17:9- 14) 3) A Promessa de um Herdeiro (17:15-21) 4) A Confirmação de Abraão (17: 22-27) 9. Abraão É Visitado por Deus (18: 1-33) 1) Um Hospedeiro Ansioso (18:1- 8) 2) Uma Hospedeira Incrédula (18:9-15) 3) Conversa Intima (18:16-21) 4) Sondagem de Mentes (18:22- 33) 10. A Destruição de Sodoma (19:1- 38) 1) A Degradação de Sodoma (19: 1- 11) 2) A Fuga de Sodoma (19:12-23) 3) Ira e Graça (19:24-29) 4) Ló e Suas Filhas (19:30-38) 11. Sara eAbimeleque (20:1-18) 1) Abimeleque É Enganado (20: 1-7) 2) Abimeleque Restitui (20:8-18) 12. Tensão Entre Isaque e Ismael (21: 1-21) 1) O Nascimento de Isaque (21:1- 7) 2) A Inveja de Sara (21:8-14) 3) Promessa Divina a Agar (21: 15-21) 13. Pacto com Abimeleque (21:22-34) 14. O Sacrifício de Isaque (22:1-24) 1) A Fidelidade de Abraão (22:1- 14) 2) A Promessa Renovada (22:15- 19) 3) Notícias da Família (22:20-24) 15. A Morte de Sara (23:1-20) 1) Os Preparativos Para o Sepul- tamento (23:1-16) 2) Uma Sepultura da Família (23: 17-20) 16. Conseguindo uma Esposa Para Isaque (24:1-67) 1) O Encargo de Eliézer (24:1-9) 2) A Oração de Eliézer (24:10-14) 3) Rebeca Junto ao Poço (24:15- 27) 4) A Resposta de Labão (24:28- 33) 5) O Discurso de Eliézer (24:34- 49) 6) O Sucesso da Visita (24:50-61) 7) Isaque Se Encontra com Rebe­ ca (24:62-67) 17. Os Ültimos Dias de Abraão (25:1- 18) 1) A Terceira Família de Abraão (25:1-6) 2) A Morte de Abraão (25:7-11) 3) A Genealogia de Ismael (25:12- 18) III. As Narrativas Sobre Isaque (25:19- 28:9) 1. O Nascimento de Esaú e Jacó (25: 19-26) 2. A Barganha de Jacó com Esaú (25:27-34) 3. As Passagens Sobre Isaque (26:1- 35) 1) A Fome de Isaque (26:1-5) 2) Abimeleque e Rebeca (26:6-11) 3) A Inveja dos Filisteus (26:12- 16) 4) Conflitos a Respeito de Poços (26:17-22) 5) Teofania em Berseba (26:23- 25) 6) Tratado com Abimeleque (26: 26:33) 168
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    7) Tristeza porCausa das Esposas de Esaú (26:34,35) 4. A Usurpação de uma Bênção (27: 1-45) 1) Conspiração e Contraconspira- ção (27:1-17) 2) A Bênção de Jacó (27:18-29) 3) A Bênção de Esaú (27:30-40) 4) O Ódio de Esaú Contra Jacó (27:41-45) 5. A Bênção de Isaque Como Despe­ dida (27:46-28:5) 6. O Casamento Tardio de Esaú (28: 6-9) IV. As Narrativas Sobre Jacó (28:10-35: 29) 1. Jacó em Betei (28:10-22) 2. Os Casamentos de Jacó (29:1-30) 1) Jacó Se Encontra com Raquel (29:1-14) 2) Labão Engana Jacó (29:15-30) 3. A Rivalidade Entre Léia e Raquel (29:31-30:24) 1) Os Filhos Mais Velhos de Léia (29:31-35) 2) Os Filhos da Serva de Raquel (30:1-8) 3) Os Filhos da Serva de Léia (30: 9-13) 4) O Trato por Meio de Mandrá- goras(30:14-24) 4. O Contrato com Labão (30:25-43) 1) A Parte de Jacó (30:25-36) 2) O Estratagema de Jacó (30:37- 43) 5. Jacó Separa-se de Labão (31:1-55) 1) Ordens de Marcha de Jacó (31: 1-16) 2) A Partida Secreta (31:17-24) 3) A Inquirição de Labão (31:25- 35) 4) A Resposta Irada de Jacó (31: 36-42) 5) O Pacto em Mizpá (31:43-55) 6. O Reencontro de Jacó e Esaú (32: 1-33:20) 1) A Caminho (32:1,2) 2) A Ameaça de Esaú (32:3-8) 3) A Oração de Jacó (32:9-12) 4) A Sua Espera Estratégica (32: 13-21) 5) Jacó no Jaboque (32:22-31) 6) O Encontro com Esaú (33:1- 11) 7) Trilham Caminhos Separados (33:12-20) 7. Jacó em Siquém (34:1-31) 1) O Defloramento de Diná (34:1- 7) 2) As Exigências dos Hebreus (34: 8-17) 3) Concordância Bisonha (34:18- 24) 4) O Massacre dos Siquemitas (34:25-31) 8. De Volta a Betei (35:1-15) 1) A Preparação (35:1-4) 2) Acontecimentos em Betei (35: 5-15) 9. As Conseqüências de Betei (35: 16-29) 1) A Morte de Raquel (35:16-21) 2) Os Filhos de Jacó (35:22-26) 3) A Morte de Isaque (35:27-29) V. As Genealogias de Esaú (36:1-43) 1. A Família de Esaú (36:1-19) 1) A Genealogia Básica (36:1-5) 2) Esaú e Seir (36:6-8) 3) Genealogia Ampliada (36:9-14) 4) Líderes Tribais Edomeus (36: 15-19) 2. A Genealogia Horéia (36:20-30) 3. Reis e Chefes Edomeus (36:31-43) VI. As Histórias de José (37:1-50:26) 1. José em Canaã (37:1-36) 1) Sonhos de Juventude (37:1-11) 2) Ã Procura dos Irmãos (37:12- 24) 3) José É Traído (37:25-36) 2. Judá e Tamar (38:1-30) 1) O Infortúnio de Tamar (38:1- H) 2) Tamar É Enganada (38:12-23) 3) Ela É Vingada (38:24-30) 3. José e Potifar (39:1-23) 1) O Favor de Potifar (39:l-6a) 2) A Esposa de Potifar (39:6b-18) 3) José É Preso (39:19-23) 169
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    4. José naPrisão (40:1-23) 1) Os Oficiais de Faraó (40:1-8) 2) O Sonho do Copeiro (40:9-15) 3) O Sonho do Padeiro (40:16-19) 4) O Cumprimento dos Sonhos (40:20-23) 5. O Enigmático Sonho de Faraó (41:1-57) 1) O Fracasso dos Videntes (41: 1-8) 2) José Diante de Faraó (41:9-24) 3) O Significado do Sonho (41:25- 36) 4) A Recompensa de José (41:37- 45) 5) Os Anos de Abundância (41: 46-57) 6. Os Irmãos de José no Egito (42:1- 38) 1) EmCanaã(42:l-5) 2) Os Irmãos Diante de José (42: 6-17) 3) Ê Exigido um Refém (42:18- 25) 4) A Volta Para Casa (42:26-34) 5) A Reação de Jacó (42:35-38) 7. Benjamim no Egito (42:1-34) 1) A Petição de Judá a Jacó (43:1- 15) 2) Diante do Mordomo de José 43:16-25) 3) O Banquete com José (43:26- 34) 8. Benjamim em Perigo (44:1-34) 1) O Incidente do Copo de Adivi­ nhação (44:1-17) 2) Os Fervorosos Rogos de Judá (44:18-34) 9. O Reconhecimento (45:1-28) 1) A Reconciliação com os Irmãos (45:1-15) 2) A Palavra Encorajadora de Faraó (45:16-21) 3) A Viagem de Volta a Jacó (45: 22-28) 10. A Reunião da Família (46:1-47: 12) 1) A Viagem Para o Egito (46:1-7) 2) A Genealogia de Jacó (46:8-27) 3) Jacó no Egito (46:28-47:12) 11. A Fome Continua (47:13-26) 1) Um Povo Desesperado (47:13- 19) 2) Novos Impostos Reais (47:20- 26) 12. Os Ultimos Dias de Jacó (47:27- 48:22) 1) O Pedido de Jacó Quanto ao Seu Sepultamento (47:27-31) 2) Os Filhos de José Entre os Do­ ze (48:1-7) 3) As Bênçãos de Efraim e Ma- nassés (48:8-22) 13. O Testamento de Jacó (49:1-27) 1) As Tribos de Léia (49:1-15) 2) As Tribos das Concubinas (49: 16-21) 3) As Tribos de Raquel (49:22-27) 14. A Morte e o Sepultamento de Jacó (49:28-50:14) 1) A Morte de Jacó (49:28-33) 2) O Sepultamento de Jacó (50:1- 14) 15. Os Anos de José (50:15-26) Bibliografia Selecionada CASSUTO, UMBERTO. A Commentary on the Book of Genesis, 2 vols. Trad, para o inglês por Israel Abra­ hams. Jerusalém: Magnes Press, 1961,’64. ________The Documentary Hypothesis. Trad, para o inglês por Israel Abra­ hams. Jerusalém: Magnes Press, 1961. DAVIES, G. HENTON. “Genesis”, The Broadman Bible Commentary, Vol. 1. Nashville: Broadman Press, 1969. DELITZSCH, FRANZ. New Commenta­ ry on Genesis, 2. vols. Edinburgh, 1888, 89. DRIVER, SAMUEL ROLLES. The Book of Genesis. (“Westminster Commentaries”). London: Methuen and Co., 1904. EISSFELDT, OTTO. The Old Testa­ ment. Trad, para o inglês por Peter 170
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    R. Ackroyd NewYork: Harper and Row, 1965. ELLIOTT, RALPH H. The Message of Genesis. Nashville: Broadman Press, 1961. FRITSCH, C. T. Genesis. (“Layman’s Bible Commentaries”). London: SCM Press Ltd., 1969. GOODSPEED, CALVIN e WELTON, D. M. “The Book of Genesis”, An American Commentary on the Old Testament. Philadelphia: American Baptist Publication Society, 1909. HABEL, NORMAN C. Literary Criti­ cism of the Old Testament. Phila­ delphia: Fortress Press, 1971. HERBERT, A. S. Genesis 12-50: Abra­ ham and His Heirs. (“Torch Bible Commentaries”). London: SCM Press Ltd., 1962. HOLT, JOHN M. The Patriarchs of Israel. Nashville: Vanderbilt Uni­ versity Press, 1964. HOOKE, SAMUEL HENRY. “Gene­ sis”, Peake’s Commentary on the Bible. New York: Thomas Nelson and Sons, 1962. KIDNER, F. DEREK. Genesis. (“The Tyndale Old Testament Commenta­ ries”). Downers Grove, Illinois: In­ ter-Varsity Press, 1968. LANGE, JOHN PETER. “Genesis” , A Commentary on the Holy Scriptu­ res. Trad, para o ingles por Phillip Schaff. New York: Charles Scrib­ ner’s Sons, 1884. LEUPOLD, H. C. Exposition of Genesis. Grand Rapids: Baker Book House, 1950. PRITCHARD, JAMES B. Ancient Near Eastern Texts. Princeton: Princeton University Press, 1950. RAST, WALTER E. Tradition History and the Old Testament. Philadel­ phia: Fortress Press, 1972. RICHARDSON, ALAN. Genesis 1-11. (“Torch Bible Commentaries”). London: SCM Press Ltd., 1953. SIMPSON, CUTHBERT A. “The Book of Genesis”, The Interpreter’s Bi­ ble, Vol. I. Nashville: Abingdon- Cokesbury Press, 1952. SKINNER, JOHN. Genesis. (“Internatio­ nal Critical Commentary”), 2a ed. Edinburgh: T & T. Clark, 1963. SPEISER, EPHRAIM AVIGDOR. Ge­ nesis (“Anchor Bible”). Garden City: Doubleday & Co., Inc., 1964. TUCKER, GENE M. Form Criticism of the Old Testament. Philadelphia: Fortress Press, 1971. VAWTER, BRUCE. A Path Through Genesis. London: Sheed & Ward, 1957. VON RAD, GERHARD. Genesis. Trad, para o inglês por J. H. Marks (“The Old Testament Library”). Philadel­ phia: The Westminster Press, 1961. Comentário Sobre o Texto I. História Primeva (1:1-11:32) Esta seção de Gênesis é uma introdu­ ção à história específica de Israel, que começa com Abraão. Ela coloca a cha­ mada de Abraão onde ela deve ser enten­ dida: à luz do propósito de Deus no mundo e para o mundo. Os materiais usados pelo escritor, ou escritores, fo­ ram, em grande parte, os recebidos em suas tradições, as narrativas de seus an­ cestrais, passadas até eles de geração em geração. Essas fontes pertencem primor­ dialmente a dois grupos tradicionais bá­ sicos: um sacerdotal e um popular. A fonte Sacerdotal preserva o legado do 171
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    passado do pontode vista dos líderes reli­ giosos, enquanto a fonte popular contém as histórias como eram conhecidas entre o povo. Essas duas linhas tradicionais não devem ser consideradas como con­ tradições, mas como duas maneiras legí­ timas, embora diferentes, de ver a mes­ ma história. O tema básico de Gênesis 1-11 resume o pensamento de todos os escritores bíbli­ cos. Dá-se constante ênfase à promessa de Deus, seguida pelo pecado do homem e a ira de Deus, mas sempre com um raio de esperança. Portanto, em última aná­ lise, precisamos interpretar Gênesis não como um livro que contém histórias sepa­ radas, diferentes, mas como um livro em que as várias histórias dos pais foram combinadas, a fim de apresentar um registro unificado da obra de Deus no seu mundo. O capítulo 1 (relato sacerdotal) abre-se com um glorioso quadro dos atos criadores de Deus e de seus encargos e promessas ao homem. Mas é seguido pela narrativa da queda, nos capítulos 2 e 3 (narrativa judaica). Narrativas de duas tradições diferentes foram coloca­ das lado a lado, a fim de apresentar o quadro completo do que aconteceu. Não somente Deus está operando neste mun­ do, com o seu bom propósito para tudo, mas a serpente também está presente; a personalidade demoníaca está semeando dúvida e discórdia no mundo. Os editores (ou redatores) de Gênesis foram tão indispensáveis à mensagem deste livro quanto os responsáveis pelas fontes Judia ou Sacerdotal. O processo todo deve ser visto à luz da obra criativa de Deus entre o seu povo. Gênesis 1-11 foi, obviamente, escrito para nos preparar para entender por que Deus escolheu o povo hebreu como seu povo. A história primeva do homem ilus­ tra claramente o fracasso universal da humanidade. O primeiro casal falhou miseravelmente. Abel, o justo, foi assas­ sinado por seu irmão invejoso. Noé, um homem “perfeito em suas gerações”, depois do dilúvio teve a oportunidade de construir um desafiador mundo novo, mas ficou bêbado em sua tenda. O esfor­ ço mais ambicioso do homem, em termos de construção, a torre de Babel, acabou abortivamente em hostilidade e divisão. O homem mais uma vez estava de volta para viver, ter filhos e morrer (cf. o cap. 5 com 11:10 e ss.). Da mesma forma como Enoque quebrou o ciclo de exis­ tência sem significado, no capítulo 5, Abrão entrou em cena no fim das genea­ logias, no capítulo 11. Deus estava fazen­ do uma nova tentativa de alcançar o seu propósito no mundo. Em Abraão ele teria sucesso. 1. A Criação (1: l-2:4a) Esta é a passagem mais notável da fonte Sacerdotal. A sua beleza sugere que ela é o resultado de longa labuta de amor. Os seus conceitos ainda são desa­ fiadores para a mente científica. A des­ crição básica do processo da criação é surpreendentemente coerente com os conceitos modernos. A criação é consi­ derada como tendo ocorrido durante um período indefinido de tempo, e tendo procedido das formas inferiores para as superiores. Não existe maneira de os dias de Gê­ nesis 1poderem ser limitados a 24 horas. O termo “dia” (heb., yom) é usado de três maneiras diferentes nos capítulos le2. Em 1:5a, ele é usado a respeito da luz, em contraste com as trevas. Em 1:5b, ele é usado a respeito da combina­ ção da luz e trevas (tarde e manhã). Em 2:4b, todo o período da criação é mencio­ nado como um dia. O sol, que é respon­ sável pelo nosso dia de 24 horas, não foi colocado em seu lugar senão no quarto dia. O fim de cada dia é marcado pela fórmula “e foi a tarde e a manhã” , porém não é usada essa fórmula nem outra semelhante a respeito do sétimo dia. O escritor do livro de Hebreus afir­ ma que o dia do descanso de Deus nunca terminou, mas que Deus tem estado em 172
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    seu descanso desdea criação. Obviamen­ te, o sétimo dia não pode ser um dia de 24 horas nem a redação de Gênesis re­ quer que os outros sejam. Eles podem ser de 24 horas, mas o escritor não pretende que eles sejam, necessariamente, limita­ dos a essa duração de tempo. Não há necessidade de se considerar o Gênesis e as teorias científicas como sen­ do conflitantes entre si. Gênesis não foi escrito como obra científica. Gênesis foi escrito como testemunho do fato de que foi Deus que nos fez, e que somos seus. As ciências naturais não são capazes de nos fornecerem as chaves para o propó­ sito ou as primeiras causas da criação. Com as suas evidências, elas apenas des­ crevem o processo natural. O teólogo fala da experiência intuitiva de um crente a respeito de um mundo que ele conhece tão bem quanto o cientista conhece o seu. As suas descobertas se suplementam, ao invés de se contradizerem. Onde a ciên­ cia desiste, a revelação bíblica se aplica. Sem a ciência, a religião pode tomar-se superstição. Sem fé, a ciência torna-se materialismo crasso. Depois de notar as características da fonte Sacerdotal, neste primeiro capí­ tulo, reconhecemo-la facilmente em ou­ tros lugares. O seu estilo é formal e preciso. As frases são repetidas, e há uma redundância de linguagem, reve­ lando uma predileção por certas palavras ou expressões. “Frutificai e multiplicai- vos” é uma expressão favorita (1:22,28), que podemos esperar de um grupo sacer­ dotal. A despeito de sua tendência de ser preciso e prosaico, o escritor Sacerdotal alcança o ápice de sua excelência lite­ rária em Gênesis 1. Mediante o seu uso de repetição, ele causa uma impressão inesquecível ao leitor. De fato, esta passagem, provavelmente, era usada liturgicamente. Ela era recitada pelo sa­ cerdote ou pelo povo reunido em adora­ ção pública, e devia ser ouvida, e não dissecada. Ao ouvir, os homens sentem que estão participando de novo dos pri­ mórdios do Universo. 1) O Princípio (1:1,2) 1 No princípio criou Deus os céus e a terra. 2 A te rra e ra sem form a e vazia; e havia trev as sobre a face do abism o, m as o E sp í­ rito de D eus p airav a sobre a face das águas. O versículo 1 descreve a atividade de Deus que l:2-2:4a apresentarão em deta­ lhes. Os céus e a terra é uma expressão que significa todo o Universo, todo o mundo. Neste versículo, o escritor está dizendo: “Deus criou tudo o que há no mundo.” Começando com o versículo 2, ele descreve o processo da criação de maneira mais específica. A condição da terra é mencionada como sem forma (tohu) e vazia (bohu). Este, sem dúvida, é um jogo de palavras, pois os dois termos hebraicos têm um som muito semelhante. Tohu significa que a terra ainda não alcançara forma. Bohu significa que não havia nada na terra. Ela não tinha conteúdo. Estas expressões são a forma de o escritor dizer que a terra, como a conhecemos, não existia nem tinha qualquer outra forma ou conteúdo. Contudo, ele não parece ir tão longe ao ponto de dizer que a terra não existia nessa época, mas, se existia, éra só na mèfftè de Deus, e não em qualquer forma objetiva. Alguns eruditos, ao abordar este pro­ blema, asseveram que o versículo 2 des­ creve uma catástrofe, que sobreveio à terra depois da criação mencionada no versículo 1. Eles assim interpretam esta passagem: “A terra se tomou sem forma e vazia (desolada e vazia).” Eles fazem uma conexão deste acontecimento com a queda de anjos, os ossos de homens e animais pré-históricos e a idade antiga da terra. Há três razões por que esta teoria amplamente aceita não é satisfatória: (1) O' verbo hebraico está no passado per­ feito, que descreve uma condição (era), e não ação subseqüente (se tornou). Uma 173
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    ação subseqüente requereriauma conjun­ ção com um passado imperfeito, em uma passagem de narrativa. (2) A condição da terra não era apenas desolada e vazia. Ela era sem forma e vazia. Não existe nenhum sinal de um estado anterior, e certamente de nenhuma rocha ou ossos antigos. (3) João, em Apocalipse 21:1, considerou a terra em que vivemos como a primeira terra, e não a segunda. A sua interpretação deve merecer o peso de um intérprete cristão. Deve-se notar que o primeiro versículo não diz literalmente (heb.): “No princí­ pio.” Não existe artigo. Pelo contrário, a expressão hebraica diz: “Em princípio Deus...” Gênesis 1 não começa no prin­ cípio propriamente dito, pois não houve o princípio. Deus sempre existiu. Claro que houve um princípio do Universo, e o capítulo 1 começa aí. Contudo, o abismo aquoso (heb., tehom) parece qüe existira nessa época, estando a terra em uma condição informe e vazia no meio de profundas trevas. Nada se diz, em Gêne­ sis, a respeito de ter Deus criado o abis­ mo. Aparentemente, ele já estava ali. Será que Gênesis 1 começa com a origem do mundo material, ou existia matéria antes que Deus começou a operar em Gênesis 1? Isto é um tanto perturbador para al­ guns leitores, pois parece que esta passa­ gem pode ensinar a existência eterna da matéria ou uma perspectiva dualista do Universo (espírito e matéria). Isto certa­ mente não è verdade. É lógico supor que Deus havia criado o abismo anterior­ mente, e que a terra só existia em sua mente. Isto é indicado ainda pelo verbo criar (bara). Embora bara venha de uma raiz que significa apegar-se ou partir ao meio, e descreva a atividade de um car­ pinteiro, esta forma usada em Gênesis nunca ê aplicada a ninguém mais a não ser a Deus. O homem não pode bara. Só Deus pode Bara. Isto è atividade exclu­ siva de Deus. Este verbo nunca é usado com o acusativo dos materiais emprega­ dos; desta forma, ele certamente aponta para a direção da criação ex nihilo (do nada). Embora o versículo 2 comece depois que o abismo foi criado, é lógico concluir-se que ele foi trazido à existên­ cia por Deus anteriormente, e que a criação mencionada no versículo 1 inclui o abismo. O versículo 2 começa depois disto, e não no princípio da criação. Este problema, todavia, não consistia em preocupação para o escritor Sacer­ dotal. Ele não estava interessado na questão da origem do abismo, ou como a terra podia exístír, embora sem forma e vazia. O seu significado é que quando Deus decidiu criar o Universo, não havia nada que pudesse impedi-lo. A criação foi um ato que só Deuspodia executar, e, se o abismo reagiu a cada palavra de Deus, por que teria ele que ficar preo­ cupado a respeito de como ele veio a existir? Os hebreus preferiam fé à espe­ culação filosófica. A sua fé certamente não é contraditada pelo pensamento filo­ sófico sadio, mas eles manifestavam a tendência de ir até o cerne do problema da fé. Ao invés de ficarem imobilizados pela especulação, a sua fé exigia a sua devoção leal a um Deus que podia fazer o que desejava, no seu mundo, quer eles o entendessem, quer não. Admitimos que não podemos ficar satisfeitos sem mais inquirição filosófica, mas isto não nos deve cegar quanto à centralidade da fé. O verbo bara é uma forma masculina no singular. O sujeito que o governa, Deus (’Elohim), está no masculino plu­ ral. Deus é considerado como sendo, em certo sentido, tanto singular como plu­ ral. Há várias explicações para o fato de ’Elohim estar no plural. (1) Alguns di­ zem que esta palavra retém algo de seus antecedentes politeístas. Embora ’Elo­ him geralmente use um verbo no singular, quando é usado em relação aos deuses pagãos esta palavra rege um verbo no plural. O singular e constantemente usa­ do quando o Deus de Israel é o seu sujeito. Contudo, o verbo no plural é 174
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    usado a respeitodo Deus de Israel em 1:26: “Façamos o homem.” (2) Oütros consideram-na como um plural de ma­ jestade. Freqüentemente os hebreus plu- ralizavam um substantivo, para enfatizar a sua importância ou magnificência. Isto certamente seria apropriado em relação a Deus. (3) Alguns dizem que ela fala da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. A melhor maneira de abordar este problema, visto que não sabemos a razão para este fenômeno, parece ficar com aquilo do que podemos ter certeza. Gê­ nesis 1 está dizendo que, em algum sen­ tido, Deus é tanto singular quanto plu­ ral. Para o judeu, dizer que ele é apenas singular, é algo contrário ao Velho Testa­ mento. Por outro lado, o cristão dizer que Gênesis fala da Trindade é mais do que podemos provar. É suficiente notar que esta passagem ensina a unidade e a pluralidade da Divindade. Deste fato, a doutrina posterior da Trindade se desen­ volveu logicamente. Aqui estão as suas raízes, mas ainda não o conceito plena­ mente desenvolvido. O Espírito (ruach) de Deus pode ser interpretado como o “vento de Deus” ou “vento poderoso”, e, provavelmente, é um quadro de um forte vento, como o de um furacão* agitando frementemente o abismo caótico. O versículo 2, portanto, não é uma descrição de Deus pairando sobre o abismo como um pássaro, ou flutuando sobre éle, a fim de impregná- lo. Os atos criativos que interessam ao escritor começam com a palavra de Deus no versículo 3. O versículo 2 coloca a terrível confusão do abismo tenebroso em contraste com a condição ordenada que resultou do “haja” de Deus, que se se­ gue. O “cala-te, aquieta-te” de Jesus faz eco com a tranqüilízação do abismo pri­ mevo, pela palavra de Deus na criação. Comojá vimos, este versículo não dá a entender que antes de ter Deus começado a criar a terra o abismo estava fora do domínio da criação. Visto que se diz que Deus criou o céu e a terra (o Universo), o abismo é incluído sob esta rubrica. O versículo 2 não começa no princípio da criação, mas com os atos de criação imediatamente relacionados com a terra. O capítulo 1 não se refere aos atos da criação anteriores â formação da terra. Eles nãosão descritos, porém presumidos. 2) O Primeiro Dia (1:3-5) 3 D isse D eus: H aja luz. E houve luz. 4 Viu D eus que a luz e ra boa; e fez separação entre a luz e as trev as. 5 D eus cham ou à luz dia, e à s trev as noite. E foi a tard e e a m anhã, o dia prim eiro. O versículo 3 assevera que a criação foi realizada pela palavra de Deus. Ele fa­ lou, e aconteceu. A sua palavra é lei. Esta passagem, que trata da criação da luz, é a primeira das “dez declarações" de Deus na criação. As outras tratam do firmamento, da terra seca, das plantas, das estrelas, dos peixes e pássaros, dos animais, do homem, da tarefa do homem e do alimento do homem. A luz, a primeira criação da palavra de Deus, é, neste sentido, a sua primogênita. Da mesma forma como o Logos (Verbo) em João 1:1-14 fez todas as coisas, tor­ nou-se carne e foi visto como o Unigénito do Pai, assim também a luz reflete a natureza da palavra que a trouxe à exis­ tência. Nas trevas das perplexidades da vida, a palavra de Deus ainda ilumina o homem em seu caminho. Depois de separar a luz das trevas, Deus se dirige a cada uma delas por sua vez. O hebraico é palpitante: “E Deus chamou à luz ‘Dial’ e às trevas, noite!’” Estes seriam os seus nomes para sempre. O Criador tinha o direito de dar nome à sua nova criação, mas também de dar nome às trevas primevas. Isto também éstava dentro de seu domínio. A fórmula “E foi a tarde e a manhã” vem no fim de cada novo dia da criação. Literalmente, a palavra traduzida como “tarde” (‘erev) significa lusco-fusco. A palavra traduzida como “manhã” (bo- ker) literalmente significa alvorada. 175
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    Alvorada e ocasocompuseram o primeiro dia e cada dia subseqüente. Esta expres­ são pode ser um exemplo de sinédoque, isto é, do uso de parte no lugar do todo, mas é uma expressão idiomática inco- mum, neste contexto. Ela pode ser uma indicação adicional de que os dias não são de 24 horas, com o nosso ocaso, noite, alvorada e dia. Esta frase possi­ velmente descreve um longo período de ocaso durante um novo processo criativo, seguido por uma erupção de luz plena, quando esse aspecto da criação era com­ pletado. Pode ser feita esta pergunta: A criação da luz foi a primeira luz que Deus co­ nheceu? Será que ele habitava nas trevas até o primeiro dia da criação? Claro que não. Como declara Apocalipse 22:5: “E ali não haverá mais noite, e não neces­ sitarão de luz de lâmpada nem de luz do sol, porque o Senhor Deus os alumiará.” A luz criada era um reflexo da luz eterna da pessoa de Deus. 3) OCéueaTerra(l:6-13) 6 E disse D eus: H aja um firm am ento no m elo d as águas, e h a ja separação entre águas e ág u as. 7 Fez, pois, D eus o firm a ­ m ento, e separou as águas que estavam debaixo do firm am ento das que estav am por cim a do firm am ento. E assim foi. 8 Cham ou D eus ao firm am ento céu. E foi a tard e e a m anhã, o dia segundo. 9 E disse D eus: Ajun- tem -se num só lu g ar as ág uas que estão debaixo do céu, e ap a re ç a o elem ento seco. E assim foi. 10 Cham ou D eus ao elem ento seco te rra , e ao ajuntam ento das águas m ares. E viu D eus que isso e ra bom . 11 E disse D eus: Produza a te rra relva, ervas que dêem sem ente, e árvores fru tíferas que, segundo as suas espécies, dêem fruto que tenha em sl a su a sem ente, sobre a te rra . E assim foi. 12 A te rra , pois, produziu relva, erv as que davam sem ente segundo as suas espécies, e árv ores que davam fruto que tinha em si a sua sem ente, segundo as suas espécies. E viu D eus que isso e ra bom . 13 E foi a tard e e a m anhã, o dia terceiro. A palavra firmamento originalmente significava ‘‘algo martelado”, e, portan­ to, normalmente dá a entender uma substância sólida. Muitos eruditos estão convencidos de que este versículo expres­ sa o conceito de um Universo em três andares, comum no Oriente Próximo da antiguidade. Os antigos criam que havia três camadas de água no mundo: sob a terra, sobre a terra e acima da terra. Da mesma forma como a terra separava as águas abaixo e sobre ela, um céu sólido (firmamento) continha a água acima da terra. Quando vinham chuvas pesadas, elas saíam de janelas ou portas abertas no firmamento (cf. Mal. 3:10). Desta forma, o escritor de Gênesis pode estar usando os conceitos de sua época, para dar o seu testemunho acerca da criação (cf. a Introdução). Contudo, esta palavra também pode ter um uso figurado, e significar “uma expansão”, sem denotar, necessariamente, uma substância sólida. A ordem de Deus, aos mares, para recuarem, expondo a terra seca, foi um testemunho do controle que ele exercia sobre o caos primevo, mas também era um lembrete de que, se ele removesse a sua palavra proibitiva, o mar tragaria a terra novamente. No livro de Apocalipse, João não fica satisfeito enquanto a amea­ ça do mar não é eliminada para sempre (Apoc. 21:1). 4) O Sole a Lua (1:14-19) 14 E disse D eus: H aja lum inares no firm a­ m ento do céu, p a ra fazerem separação entre o dia e a noite; sejam eles p a ra sinais e p a ra estações, e p a ra dias e anos; 15 e sirvam de lum inares no firm am ento do céu, p a ra alu m iar a te rra . E assim foi. 16 D eus, pois, fez os dois grandes lu m in ares: o lum i­ n a r m aior p a ra governar o dia, e o lum inar m enor p a ra governar a noite; fez tam bém as estrelas. 17 E D eus os pôs no firm am ento do céu p a ra alu m iar a te rra , 18 p a ra gover­ n a r o dia e a noite, e p a ra fazer separação en tre a luz e a s trev as. E viu D eus que isso era bom . 19 E foi a tard e e a m anhã, o dia quarto. O sol e a lua só foram colocados em seus lugares no quarto dia. Alguns intér­ pretes sugerem que o sol foi criado ante­ riormente, e subseqüentemente a terra 176
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    foi atraída àsua esfera de influência. Outros dizem que uma pesada capa de nuvens escondia o sol de quem estivesse na terra. A menção do sol, a esta altura, é, provavelmente, mais teológica do que cronológica. É significativo que os nomes hebraicos para o sol e lua não ocorrem neste capítulo, mas apenas luminar maior e luminar menor. O escritor he­ breu não tinha o desejo de encorajar a adoração desses corpos celestes, mencio­ nando-os em a narrativa da criação, par­ ticularmente no primeiro dia, o que teria sugerido aos adoradores da natureza que eles eram divindades primárias, somente a um passo do grande Deus, Elohim. A declaração de que ele fez também as estrelas é um exemplo notável da ma­ neira como o interesse do escritor estava sendo influenciado pela época em que vivia. A astronomia moderna dificil­ mente teria se descartado das estrelas de maneira tão sumária. Para o escritor bíblico, elas eram remotas e desconhe­ cidas demais para requererem qualquer atenção mais detida. Contudo, todo o nosso Universo é captado nessa frase, que tudo inclui. (5) Os Peixes e as Aves (1:20-23) 20 E disse D eus: Produzam a s águas c a r­ dum es de seres viventes; e voem a s aves acim a da te rra no firm am ento do céu. 21 Criou, pois, D eus os m onstros m arinhos, e todos os seres viventes que se a rra sta m , os quais a s águas produziram abundantem ente segundo as su as espécies; e toda ave que voa, segundo a su a espécie. E viu D eus que isso e ra bom . 22 E ntão D eus os abençoou, dizendo: F ru tificai e m ultiplicai-vos, e en­ chei as águas dos m a re s ; e m ultipliquem -se as aves sobre a te rra . 23 E foi a tard e e a m anhã, o dia quinto. A primeira menção da vida animal é enfatizada pelo uso de bara’ (criar) no versículo 21. Esta vida originalmente consistia de criaturas que enxameavam no mar, porém culminavam nos grandes monstros marinhos, e, posteriormente, nos pássaros. O autor observa sabia­ mente a íntima relação entre animais aquáticos e aves. Eles foram criados no mesmo dia. Gênesis insiste que a evolu­ ção aconteceu dentro das espécies, e não de uma para outra. Era segundo as suas espécies. 6) Os Animais e o Homem (1:24-31) 24 E disse D eus: Produza a te rra seres viventes segundo as suas espécies: anim ais dom ésticos, répteis, e anim ais selvagens segundo a s suas espécies. E assim foi. 25 D eus, pois, fez os anim ais selvagens segun­ do a s su as espécies, e os anim ais dom ésticos segundo as suas espécies, e todos os répteis da te rra segundo a s suas espécies. E viu Deus que isso e ra bom . 28 E disse D eus: F açam os o hom em à nossa im agem , conform e a nossa sem elhança; dom ine ele sobre os peixes do m ar, sobre as aves do céu, sobre os anim ais dom ésticos, e sobre toda a te rra , e sobre todo réptil que se a rra s ta sobre a te rra . 27 Criou, pois, D eus, o hom em à sua im agem ; à im agem de D eus o criou; hom em e m ulher os criou. 28 E ntão D eus os abençoou e lhes disse: F ru tificai e m ultiplicai-vos; enchei a te rra e sujeitai-a; dom inai sobre os peixes do m a r, sobre a s aves do céu e sobre todos os anim ais que se a rra sta m sobre a te rra . 29 D isse-lhes m ais: E is que vos tenho dado todas as erv as que produzem sem ente, as quais se acham sobre a face de toda a te rra , bem como todas as árvores em que há fruto que dê sem ente; ser-vos-ão p a ra m an ti­ m ento. 30 E a todos os anim ais da te rra , a todas as aves do céu e a todo se r vivente que se a rra s ta sobre a te rra , tenho dado todas as erv as verdes com o m antim ento. E assim foi. 31 E viu D eus tudo quanto fizera, e eis que e ra m uito bom . E foi a tard e e a m anhã, o dia sexto. Esta passagem destaca dois fatos im­ portantes. O homem compartilha sua natureza tanto com os animais quanto com Deus. Ele foi criado no mesmo dia em que os animais de ordem mais ele­ vada foram formados, e, desta forma, está aparentado com eles, mas ele tam­ bém possui a imagem de Deus. Esta imagem de Deus no homem é carac­ terística de todos os homens, mas não dos animais. Uma imagem é “algo entalhado”, como um ídolo (II Reis 11:18). Ela des­ creve uma semelhança exata, como um 177
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    filho que éa própria imagem do pai. Os reis antigos colocavam tais efígies de si mesmos nas cidades que governavam. Semelhança (aparência) é um termo mais indefinido e enfatiza que, embora o ho­ mem seja como Deus, ele não é Deus. O homem não é divindade, mas reflete a natureza divina em sua humanidade. Portanto, o que é a imagem de Deus no homem, que o toma tão peculiar? As respostas sugeridas são numerosas. A explicação mais comum, hoje em dia, é que o homem tem uma alma, e os animais não. Contudo, Gênesis 2:7 de­ clara que o homem tomou-se “alma vi­ vente”. O original diz “uma nephesh viva”, palavra que, no hebraico, signi­ fica alma. No pensamento hebraico, o homem não tem uma alma; ele é uma alma. A alma é a pessoa total. Em 2:19, a idéia é semelhante. “Tudo o que o homem chamou a todo ser vivente” lite­ ralmente é “cada nephesh vivente” . Os animais também são almas — neste sentido. A diferença entre o homem e os animais não está em que um tem uma alma e os outros não, mas no tipo de alma que o homem é. E esta é uma diferença radical! Temos a tendência de pensar na ima­ gem de Deus em termos da revelação total de Deus na Escritura. O escritor do Velho Testamento estava, provavel­ mente, pensando em a natureza de Deus em relação à maneira que ele próprio retratava as características de Deus. Em Gênesis 1, Deus é retratado criando li­ vremente. Da mesma forma o homem, embora incapaz de atingir a criatividade que é peculiar a Deus, também tem a capacidade de fazer um novo começo, tomar o mundo melhor ou pior. Os animais vivem por instinto, mas o ho­ mem é feito para coisas melhores. Aos animais foi dito apenas que procriassem. O homem tem a atribuição adicional de estabelecer domínio e subjugar. Se um homem está com frio, ele pode acender um fogo; se está com calor, pode cons­ truir um condicionador de ar. Os ani­ mais, dentro dos limites de seus instin­ tos, precisam ajustar-se ao meio ambi­ ente, que não conseguem mudar. O ho­ mem pode mudá-lo para melhor ou para pior. Na criação, Deus levou a terra até certo ponto e depois colocou-a nas mãos do homem, para que dela se encarre­ gasse. Ela não fora ainda “subjugada” nem ainda colocada completamente sob o domínio de Deus. O homem devia apressar este processo. Era seu privilégio e desafio. Tem sido a tragédia da história do homem que ele pensou que o domínio sobre a natureza, que lhe havia sido dado, era para o seu benefício pessoal. Assim pensando, ele esbanjou os recur­ sos da terra. Agora está começando a perceber que o seu domínio consiste na responsabilidade de ajudar cada aspecto da natureza a atingir o seu alvo mais elevado. Em certo sentido, ele deve jun- tar-se a Deus, na tremenda tarefa de continuar a obra da criação. Esta imagem de Deus em nós também toma disponível uma comunhão entre o homem e Deus, que não é possível para as outras criaturas. Pertencemos à famí­ lia de Deus. Embora em Gênesis Deus não ordene adoração, é claro que o ho­ mem não pode executar as suas tarefas sem tal comunhão (Jó 35:10,11). O pró­ prio Deus deseja tanto a confiança do homem quanto a sua companhia (Gên. 2e 3). É curioso notar que, originalmente, nem o homem nem os animais receberam licença de comer carne. Eles deviam ser vegetarianos (v. 29 e 30). Isto não signi­ fica que a “lei de unhas e dentes” não tivesse prevalecido desde o princípio, mas que ela não tem lugar no alvo supre­ mo da História. De fato, só foi permi­ tido ao homem comer came depois do dilúvio (9:1-3). Posteriormente, contudo, Deus ainda pretende que todo morticínio seja eliminado (Is. 11:6-9). 178
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    7) Descanso daCriação (2:l-4a) 1 A ssim foram acabados os céus e a te rra , com todo o seu exército. 2 O ra, havendo D eus com pletado no dia sétim o a obra que tinha feito, descansou nesse dia de toda a obra que fizera. 3 Abençoou D eus o sétim o dia, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que c ria ra e fizera. 4 E is as origens dos céus e da te rra , quando foram criados. Quando o escritor diz que Deus des­ cansou de toda a obra que fizera, não dá a entender que, exausto de seus esforços, ele se deitou para tirar uma soneca. A fórmula que encerra cada dia (“e foi a tarde e a manhã”) não ocorre em refe­ rência ao sétimo dia. Com discernimento incomum, o escritor do livro de Hebreus conclui, com isto, que o sétimo dia nunca teve fim (4:1-7). Desde a criação Deus tem estado em seu dia de descanso. Pela fé, precisamos nos juntar a ele. Obvia­ mente, o “descanso de Deus” não signi­ fica inatividade, mas uma mudança de atividade. Deus parou de criar, e come­ çou as obras de providência. O nosso descanso no céu não serão férias infindá­ veis, mas uma ocasião de desafio agra­ dável sem fim. 2. A Queda do Homem (2:4b-3:24) Esta passagem é bem diferente de Gênesis 1, em sua forma literária. Ela não usa um padrão litúrgico, mas apre­ senta-se em simples estilo de narrativa. Ela tem algo da forma de uma parábola, pois a história dos inícios do homem é contada a fim de ensinar uma lição. Todavia, ela não é uma história inventa­ da, para ilustrar uma afirmação, como as parábolas dos ensinamentos de Jesus, mas está baseada nas antigas tradições a respeito do passado primevo do ho­ mem. A queda do homem é considerada como um acontecimento real da história, e Gênesis 2 e 3 testificam a respeito do significado desse trágico momento. Ao contar esta história, o escritor com­ bina eficientemente a descrição literal com as imagens eloqüentes. A serpente que tenta Eva também representa o po­ der do mal no mundo (3:15), pois a guerra descrita não é apenas entre pes­ soas e cobras, mas entre a humanidade e o reino demoníaco. A árvore da vida fala de vida eterna, que o homem não possuía na criação, devendo alcançá-la posteriormente. A árvore do conheci­ mento era a cultura que o homem podia adquirir por si mesmo, sem fé em Deus. Embora Adão e Eva sejam, na verdade, nossos ancestrais (é-nos informada, em 5:5, a idade de Adão quando morreu), a descrição deles é colorida pelo conhe­ cimento do escritor da maneira como os homens e as mulheres agiam em sua época. 1) O Jardim do Éden (2:4b-17) No dia em que o Senhor D eus fez a te rra e os céus 5 não hav ia ainda nenhum a planta do cam po n a te rra , pois nenhum a erv a do cam po tinha ain d a b ro tad o ; porque o Senhor D eus não tinha feito chover sobre a te rra , nem havia hom em p a ra la v ra r a te rra . 6 Um vapor, porém , subia da te rra , e reg av a toda a face da te rra . 7 E form ou o Senhor D eus o hom em do pó da te rra , e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o hom em tom ou- se alm a vivente. 8 E ntão plantou o Senhor D eus u ra jard im , da banda do oriente, no É d en ; e pôs ali o hom em que tinha form ado. 9 E o Senhor D eus fez b ro tar da te rra toda qualidade de árv o res agradáveis à v ista e boas p a ra com ida, bem com o a árvore da vida no m eio do jard im , e a árvore do co­ nhecim ento do bem e do m al. 10 E saía um rio do É den p a ra re g a r o ja rd im ; e dali se dividia e se to rn av a em quatro braços. 11 O nom e do prim eiro é P isom : este é o que rodeia toda a te rra de H avilá, onde h á ouro; 12 e o ouro dessa te rra é bom ; ali há o bdélio, e a p ed ra de berilo. 13 O nom e do segundo rio é G iom : este é o que rodeia toda a te rra de Cuche. 14 O nom e do terceiro rio é T igre: este é o que corre pelo oriente da A ssíria. E o quarto rio é o E u frates. IS Tomou, pois, o Senhor Deus o hom em , e o pôs no jard im do É den, p a ra o la v ra r e g uardar. 16 Ordenou o Senhor D eus ao hom em , dizendo: De toda árvore do ja rd im podes com er livrem ente; 17 m as da árvore do conhecim ento do bem e do m al, dessa não com erás; porque no dia em que dela com eres, certam ente m o r­ rerás. 179
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    Em contraste como tema de caos cósmico de Gênesis 1, esta passagem fala de deserto e oásis, e é claramente da fonte Judia (cf. A Introdução). Até o tempo em que o homem foi criado não tinha havido chuva na terra, porém ela era regada por um vapor ou, mais pro­ vavelmente, por uma fonte artesiana que jorrava do oceano subterrâneo. Esta fonte era, provavelmente, a fonte do rio que fluía do Jardim do Éden (v. 10). Nesta narrativa, o homem foi formado quando Deus moldou o pó da terra como um oleiro molda o seu barro. Depois que Deus sopra o seu próprio fôlego nele, o homem toma-se alma vivente. E também é igualmente certo que Deus pode retirar o seu fôlego, e o homem voltará ao pó, de onde veio. Éden significa lugar agradável. Mais tarde, a LXX traduziu esta palavra he­ braica, que significa jardim, com uma palavra emprestada do persa: paradei- sos, paraíso. Algumas árvores foram colocadas no jardim para propiciar co­ mida, mas oufras ali foram colocadas apenas para torná-lo mais bonito. Ê cla­ ro que Deus queria que a vida de Adão fosse de prazer e felicidade. Os versículos 10-14 são uma perícope independente, que revela a localização geográfica do Jardim do Éden. Dois dos rios, Tigre e o Eufrates, são facilmente identificáveis, mas os outros dois têm desafiado todas as tentativas de locali­ zação específica. O Pisom, embora iden­ tificado como o Indo, mais provavelmente devia encontrar-se na Arábia. Se o Giom é o Nilo, como muitos crêem, por que o escritor não usa o nome comumente dado ao Nilo, como faz com o Tigre e o Eufrates? Não existe região que satisfaça à descrição de um rio se abrindo em quatro braços, dois dos quais são o Tigre e o Eufrates. À luz destes problemas, há três expli­ cações primárias possíveis desta passa­ gem. (1) O escritor, que não é estudante de geografia, está dizendo que todos os rios da terra vieram de uma só fonte primeva (von Rad). (2) Esta passagem está considerando estes rios do ponto de vista de um marinheiro, sendo a fonte dos rios o Golfo Pérsico, e a foz dos quatro rios encontra-se nele (Kidner). (3) Os quatro rios expressam tradições a respeito das grandes civilizações do mundo antigo: Extremo Oriente (Indo), Egito (Nilo) e Mesopotâmia (Tigre e Eufrates). Essas civilizações tiveram a sua fonte em uma cultura original, o Jardim do Éden ideal. A responsabilidade de Adão era lavrar o solo do jardim. Desta forma, Gênesis ensina a dignidade do trabalho na cria­ ção original. O resultado da queda não foi o trabalho, mas a labuta em face de forças intoleráveis. A tarefa de Adão era simples e agradável, sem espinhos, car­ dos ou ervas daninhas para tomá-lo frus­ trado. Sem um trabalho construtivo, o homem não pode obter da vida uma verdadeira satisfação. Ócio não era o modo de vida no Éden. A árvore do conhecimento do bem e do mal (heb., “árvore do conhecimento, bem e mal”, o que significa que ela incluía todo conhecimento) foi proibida ao homem, porque ela o destruiria. Co­ mo pode acontecer o conhecimento des­ truir o homem? Freqüentemente, o ho­ mem modemo é incünado a pensar que o conhecimento (cultura) resolverá os seus problemas. Contudo, com toda a cultura que a nossa geração obteve, não somos, na maioria, tão realizados quanto os nossos antepassados. Gênesis está dizen­ do que quando a busca do conhecimento substitui a confiança na palavra de Deus, o naufrágio é inevitável. O conhecimen­ to, que é potencialmente bom, destruirá o homem que não tem a fé, para enten­ dê-lo ou direcioná-lo. Que conexão tem a árvore do conhe­ cimento com o sexo? O verbo “conhecer” (4:1) é usado para designar relações sexuais. Depois que Adão e Eva peca­ ram, eles cobriram os seus órgãos geni- 180
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    tais (3:7). Aopinião popular é que o pecado original do primeiro casal foi o contato sexual. Nada podia estar mais longe da verdade. Há várias razões por que isto não pode ser verdade. (1) Em Gênesis 1, Deus lhes havia ordenado para serem frutíferos e se multiplicarem (v. 28). (2) Eva cometeu o pecado quando estava sozinha. (3) Menciona-se que Deus tinha a espécie de conhecimento que eles obtiveram da árvore (3:22). A explicação mais plausível é que, quando eles comeram da árvore do co­ nhecimento, tomaram consciência de sua diferença como homem e mulher. O que antes fora natural e sadio, agora se tomara uma fonte de vergonha. 2) A Criação de Eva (2:18-25) 18 D isse m ais o Senhor D eus: Não é bom que o hom em esteja só; far-lhe-ei u m a aju- dadora que lhe seja idônea. 19 D a te rra form ou, pois, o Senhor D eus todos os an i­ m ais do cam po e todas as aves do céu, e os trouxe ao hom em , p a ra v er com o lhes ch am aria; e tudo o que o hom em cham ou a todo ser vivente, isso foi o seu nom e. 20 A ssim o hom em deu nom es a todos os an i­ m ais dom ésticos, às aves do céu e a todos os anim ais do cam po, m as p a ra o hom em não se ach av a ajud ad o ra idônea. 21 E ntão o Senhor fez c a ir um sono pesado sobre o hom em , e este adorm eceu; tom ou-lhe, en­ tão, um a das costelas, e fechou a carne em seu lu g ar; 22 e da costela que o Senhor D eus lhe to m ara, form ou a m ulher e a trouxe ao hom em . 23 E ntão disse o hom em : E sta é agora osso dos m eus ossos e carne da m inha carn e; ela se rá cham ada v aroa, porquanto do varão foi tom ada. 24 P ortanto, deixará o hom em a seu pai e a su a m ãe, e unir-se-á à sua m ulher; e serão um a só carne. 25 E am bos estav am nus, o hom em e su a m u ­ lher ; e não se envergonhavam . Ao fim de cada ato criador por parte de Deus, Gênesis 1 diz “E viu Deus que isso era bom.” Agora, quando Deus olha para Adão, observa que o que vê não é bom! O homem necessitava de uma companheira “correspondente a ele” . Não se dá nenhum indício da infe­ rioridade da mulher. Da mesma forma como haverá um leão e uma leoa, haverá um homem e uma mulher. Com uma profunda compreensão do senso de co­ munidade da humanidade, o escritor nota que primeiramente os animais são trazidos ao homem, para ver se algum deles satisfaria as suas necessidades, mas eles não se qualificam. Finalmente, Deus formou (construiu) Eva de uma costela de Adão, e apresentou-a a ele. Um velho ditado nota: “Deus não tirou um osso da cabeça de Adão, para que ela dominasse sobre ele; nem de seu pé, para que ele dominasse sobre ela; mas de debaixo de seu braço, para que ele a protegesse, de perto de seu coração, para que ele a amasse.” Um comentarista modemo diz, joco­ samente, que a razão por que Deus usou a costela era que este era o único osso que ele podia tirar do corpo de Adão sem aleijá-lo! Todavia, a idéia apresentada é que, pelo fato de que Adão e Eva originalmente eram um, eles podiam tomar-se um mais uma vez. Ao ver Eva, Adão irrompe, muito apropriadamente, em um poema: Esta é ela! Osso dos meus ossos, Carne de minha carne! Mulher será ela chamada, Porque do homem foi tomada. Há treze palavras hebraicas neste pequeno poema. A primeira é “esta uma”, bem como a décima terceira e a sétima, que está exatamente no meio. Não há dúvida de que Adão está dizendo: “Esta mulher, em primeiro lugar, em último e sempre!” Não há dúvida quanto ao seu júbilo; ele quer que Deus não vá adiante na busca de uma companheira para ele. O versículo 24 é uma palavra dirigida a todas as gerações, proclamando o prin­ cípio de colonização no casamento. Cada novo casamento é uma nova colônia, com as suas lealdades primordiais aos seus próprios relacionamentos internos. A incomum declaração deve ser notada, de que o homem deve deixar seu pai e sua 181
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    mãe, e apegar-seà sua esposa. Era de se esperar o oposto, que a mulher aban­ donasse os seus pais. 3) A Tentação e a Queda (3:1-7) lO ra, a serpente e ra o m ais astuto de todos os anim ais do cam po que o Senhor D eus tinha feito. E esta disse à m ulher: É assim que D eus disse: N ão com ereis de toda árvore do jard im ? 2 R espondeu a m ulher à serpente: Do fruto das árvores do jard im podem os com er, 3 m as do fruto da árvore que está no m eio do jard im , disse D eus: Não com ereis dele, nem nele tocareis, p a ra que não m orrais. 4 D isse a serpente à m ulher: C ertam ente não m orrereis. 5 P orque D eus sabe que no d ia em que com erdes desse fruto, vossos olhos se ab rirão , e sereis como D eus, conhecendo o bem e o m al. 6 E ntão, vendo a m ulher que aquela árv o re e ra boa p a ra se com er, e ag rad áv el aos olhos, e árvore desejável p a ra d a r entendim ento, tom ou do seu fruto, com eu, e deu a seu m arido, e ele tam bém com eu. 7 E ntão fo­ ra m abertos os olhos de am bos, e conhece­ ra m que estav am nus; pelo que coseram folhas de figueiras, e fizeram p a ra si aven­ tais. A tragédia desta primeira família é retratada como um fracasso tanto quanto como uma queda. Foi uma queda, por­ que o homem se afastou das decisões responsáveis concernentes ao seu desti­ no, e deixou os seus desejos dominarem- no. O escritor judeu, considerando o homem da maneira como ele se havia tomado, sabia que Deus não podia ter criado a humanidade daquela forma. Algo que acontecera de errado no prin­ cípio havia desde então colocado o ho­ mem em situação desvantajosa. O ho­ mem nunca veio a ser o que Deus pre­ tendia que ele fosse; assim, falhou em realizar o propósito de Deus para com ele. Ele se recusa continuamente a admi­ tir que é criatura, e a se submeter à vontade de Deus. A idéia de que Adão e Eva eram completos antes da queda dificilmente pode ser coerente com as Escrituras. Eles eram sem pecado, mas não completos. O corpo do homem havia alcançado o seu pleno potencial, a sua mente, a sua saga­ cidade pretendida, mas o homem ideal precisa ser mais do que uma mente sã em um corpo são. Deus o criou e o colocou no jardim para que ele se tornasse uma pessoa responsável. Defrontando-se com a escolha entre os seus próprios desejos e a vontade de Deus, o homem rejeitou o propósito de Deus para com ele, e seguiu o seu cami­ nho de forma egoísta. Ele nunca chegou ao seu fim. Tanto a palavra hebraica quanto a grega, que significam pecado, dão a idéia de “errar o alvo” ou falhar. O pecado não é apenas a prática de imoralidade, mas também a insubmissão à vontade de Deus na vida. Gênesis 3 começa apresentando a ser­ pente. Ela não é retratada aqui como Satanás, mas como o mais astuto animal que Deus fizera. O escritor toma o cuida­ do de mostrar que o problema no Jardim do Éden não começou de fora da ordem criada. Gênesis não vê nenhuma tensão entre Deus e uma força maligna inde­ pendente. Seja o que for que tenha ini­ ciado o problema do mal, está dentro do domínio de Deus, e, portanto, sujeito às suas disposições. Quem é esta serpente, portanto, que começou tudo? É claro que ela é um animal mesmo. A conexão do mal com serpentes é um tema familiar. De fato, a Epopéia de Gilgamesh, do segundo mi­ lênio a.C., na Babilônia, diz que uma serpente foi responsável pelo fato de o homem não ter alcançado a vida etema (cf. Pritchard, p. 96). No relato de Gênesis, a serpente é con­ denada a rastejar sobre o seu ventre, uma referência óbvia ao estilo de vida das cobras. Isto leva alguns estudiosos a ver, nesta narrativa, uma explicação etio- lógica de por que as cobras rastejam. No entanto, a serpente significa mais do que uma cobra. A luta entre a des­ cendência da serpente e a raça humana (3:15) ê mais do que uma contenda entre homens e ofídios. Como assevera von Rad, o escritor de Gênesis vê na serpente 182
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    “um ser malignoque assumiu forma, que está inexplicavelmente presente em nosso mundo atual e que focalizou contra o homem os seus ataques, está à sua es­ preita, e, por toda parte, trava contra ele uma batalha de vida ou morte” (p. 89 e 90). Embora von Rad tivesse negado anteriormente que a serpente corporifica um poder “demoníaco” (p. 85), aqui ele admite que o conceito é estranhamente ligado àquele. A explicação mais simples deste pro­ blema é que o escritor de Gênesis usou uma antiga história que explica por que as serpentes rastejam sobre os seus ven­ tres, para ensinar o papel do poder de­ moníaco na queda do homem. O homem caiu quando foi influenciado por forças que estavam dentro da criação de Deus, mas fora de si próprio. A serpente primeiro atrai a atenção de Eva por insinuação, chegando a dizer: “É verdade o que eu ouvi, que Deus não permitirá que vocês comam de nenhuma das árvores do jardim?” Foi a primeira vez que ela ouvira alguém duvidar de Deus. Não sabia que isso era uma opção existente. Como qualquer pessoa confi­ ante, cuja fé em Deus é desafiada, ela ficou indignada. Deus de fato era bom; ele havia proibido apenas uma árvore. Contudo, como nunca antes, a atenção dela foi atraída para esse objeto. Agora a serpente alega que Deus está privando a mulher de seus direitos. Deus está conservando-a ignorante, porque não quer compartilhar sua sabedoria com ela. Além disso, a serpente asse- gura-lhe que a ameaça de Deus era vazia. Ela não morreria. Ao admirar a árvore, que não ousara examinar mais detidamente antes, ela nota que ela parecia boa para comer, atraente para pegar e certamente ilumi- nadora para a sua mente (visto que se chamava de a árvore do conhecimento). Impulsivamente, ela estende a mão, toca-a, esperando que Deus a fulmine. Em vez disso, aparentemente ela é dei­ xada inteiramente só, e pode saborear o fruto. Rapidamente ela o reparte com seu marido. Deve-se notar que a queda de Adão foi arranjada mais facilmente do que a de Eva. Para a serpente tentar Eva com sucesso, foi necessário astúcia incomum, mas tudo o que foi necessário para a queda de Adão foi Eva oferecer-lhe o fruto! O restante do capítulo trata dos resul­ tados desta aventura aparentemente bem-sucedida. A princípio nada acon­ teceu. Depois, eles notaram que estavam nus, e assim se cobriram com folhas de' figueira. A serpente havia dito a Eva que eles teriam o conhecimento que Deus possuía. O que haviam eles aprendido? Que estavam nus. Que profundo! Com todo o extasiante conhecimento que o homem adquiriu neste século, onde este o deixou quanto à sua alma? Vencido por uma esmagadora sensação de culpa a respeito de si mesmo e da sociedade em que vive. Sempre acontece assim, está dizendo o escritor, quando a busca do conhecimento não é dirigido pela fé (veja os comentários sobre 2:17). 4) As Conseqüências da Queda (3:8-24) 8 E , ouvindo a voz do Senhor D eus, que passeav a no ja rd im à tardinha, esconde­ ram -se o hom em e su a m ulher da presença do Senhor D eus, en tre a s árvores do jard im . 9 M as cham ou o Senhor D eus ao hom em , e perguntou-lhe: Onde estás? 10 Respondeu- lh eo h o m em : Ouvi a tu a voz no jard im e tive m edo, porque estav a nu; e escondi-m e. 11 Deus perguntou-lhe m ais: Q uem te m ostrou que estav as nu? C om este da árvore que te ordenei que não com esses? 12 Ao que re s­ pondeu o hom em : A m ulher que m e deste por com panheira deu-m e da árvore, e eu com i. 13 P erguntou o Senhor D eus à m u lh er: Que é isto que fizeste? R espondeu a m ulher: A serpente enganou-m e, e eu com i. 14 E ntão o Senhor D eus disse à serp en te: Porquanto fizeste isso, m aldita serás tu dentre todos os anim ais dom ésticos, e dentre todos os anim ais do cam po; sobre o teu ventre an d arás, e pó com erás todos os dias d a tu a vida. 183
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    I 15 P oreiinim izade en tre ti e a m ulher, e en tre a tu a descendência e a sua descendência; e sta te fe rirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar. 16 E á m ulher disse: M ultiplicarei grandem ente a dor da tua conceição; em dor d a rá s à luz filhos; e o teu desejo se rá p a ra o teu m arido, e ele te dom inará. 17 E ao hom em disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua m ulher, e com este da árvore de que te ordenei, dizendo: N ão com erás d e la ; m aldita é a te rra por tu a cau sa; em fadiga com erás dela todos os dias da tu a vida. 18 E la te produzirá espinhos e abrolhos; e com erás das erv as do cam po. 19 Do suor do teu rosto com erás o teu pão, até que tornes à te rra , porque dela foste tom ado; porquanto és pó, e ao pó to rn arás. 20 Cham ou Adão à sua m ulher E v a, p or­ que e ra a m ãe de todos os viventes. 21 E o Senhor D eus fez túnicas de peles p a ra Adão e sua m ulher, e os vestiu. 22 E ntão disse o Senhor D eus: E is que o hom em se tem tom ado com o um de nós, conhecendo o bem e o m al. O ra, não suceda que estenda a sua m ão, e tom e tam bém d a árv o re d a vida, e com a e viva eternam ente. 23 O Senhor Deus, pois, o lançou fora do ja rd im do É den, p a ra la v ra r a te rra , de que fora tom ado. 24 E havendo lançado fora o hom em , pôs ao o ri­ ente do ja rd im do É den os querubins, e um a espada flam ejante que se volvia por todos os lados, p a ra g u ard ar o cam inho da árvore da vida. A consciência de sua nudez, depois de ter adquirido o conhecimento provindo do fruto proibido por Deus, era essen­ cialmente o resultado de sua alienação de Deus no processo. Anteriormente, Adão e Eva estavam vivendo em uma comu­ nhão sadia um com o outro e com Deus. Eles não se consideravam em contrapo­ sição a Deus e um com o outro, mas aceitavam cada relacionamento sem questionar. Agora repentinamente tor­ navam-se cônscios das diferenças exis­ tentes entre eles. “Adão está olhando para mim” , cisma Eva, e ela precisava esconder-se dele, e vice-versa. “Não pos­ so deixar Deus me ver desta forma”, sentiam ambos. “Eu e tu” substituem o “nós” de seu relacionamento anterior. Quando Eva foi induzida pela serpente a pensar que Deus, na verdade, não se interessava por ela, a alienação já tivera início. Quando ela comeu do fruto, a dita alienação foi consumada. “Deus é Deus e eu sou eu, e eu estou preparada para me virar sozinha.” O que Jesus ensina tão claramente, que a separação de Deus resulta na separação de nossos seme­ lhantes, o Velho Testamento também dramatiza nesta passagem. Hoje em dia os objetivos do homem não devem ser apenas minimizar as diferen­ ças que descobriu existirem entre ele e outrem, mas enfatizar a sua unidade essencial. Isto pode ser conseguido ape­ nas se a cerca quebrada for consertada no lugar certo, onde a princípio o ho­ mem abandonou o domínio de seu Cria­ dor. Só quando os homens se tomam um ' com Deus e se perdem na vontade divina, é que podem abandonar o seu próprio senso de vergonha em relação a outrem^ Originalmente, Adão e Eva eram um, porque nunca haviam notado particular­ mente como eram diferentes. Uma vez tendo sido feitos conscientes disso, os nossos ancestrais originais jamais pude­ ram esquecê-lo. Parar aí, contudo, é permanecer em uma condição decaída. Avançar em uma unidade por entre a diversidade é o alvo da criação. O homem, em sua alienação, se escon­ de de Deus, que não o deixará por conta própria, mas vem, para lembrar-lhe as conseqüências do fato de ele ter negado o seu relacionamento apropriado com ele. O destino da serpente enfatiza o golpe dado em seu orgulho; a sua astúcia é rasteira e limitada à sua trilha através do pó. A condição da mulher é tríplice: as dores do parto, a criação de muitos filhos (Mais do que ela pode dar conta? O verbo hebraico “multiplicar” também 184
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    govema “conceição” .A RSV a considera como hendíadis, figura em que se usam dois substantivos ligados por e, em vez de um substantivo e um adjetivo) e a domi­ nação de seu marido. (Note-se que esta é uma regra pelo consentimento da gover­ nada. Ê porque ela o deseja, que ele pode governar sobre ela!) Ê nestas três áreas que as mulheres têm lutado para se liber­ tarem, neste último século: o uso de anestésicos no parto, o controle da nata­ lidade e os direitos iguais da mulher perante a lei. Ê nas culturas cristãs que estes alvos têm sido alcançados em pri­ meiro lugar. A declaração da guerra que iria ser travada entre a serpente e a mulher tem sido chamada de Protevangelium, o primeiro evangelho, as primeiras boas- novas. Dificilmente este era o significado para Adão e Eva. Significava, para eles, uma luta de morte entre os poderes de­ moníacos e humanos, com pequena espe­ rança de sobrevivência para ambos ou um dos dois. Algum consolo pode ser encontrado na destruição certa do pode­ rio demoníaco (esmagada a cabeça da serpente). Pois os dentes inoculadores mortais da serpente, para ferir o calca­ nhar da humanidade até que ela seja esmagada, normalmente implicam em morte também para o homem. Obvia­ mente, este versículo, por si mesmo, oferece pouca esperança — só uma re­ mota possibilidade. A esperança é en­ contrada claramente no contexto, po­ rém, quando Deus mesmo veste Adão e Eva. Outro elemento de esperança encon­ tra-se no fato de que a porta do jardim não foi trancada nem o jardim destruído como a vinha de Isaías 5. O portão foi guardado pelos querubins (misteriosos protetores da santidade de Deus, seme­ lhantes às figuras aladas, parcialmente humanas e parcialmente animais, que guardavam os templos antigos), dando a entender, possivelmente, que estavam ali não apenas para impedir que os homens entrassem, mas também para permitir a entrada, no caso de que alguém que tivesse ganho o favor de Deus aparecesse. Alguns expositores sugerem que a ser­ pente estava certa em sua declaração a Eva, de que eles não morreriam como resultado de terem comido o fruto proi­ bido, pois eles não morreram “no dia em que dela” comeram, e posteriormente teriam morrido de qualquer forma. To­ davia, 2:17b pode ser lido desta forma: “No dia em que dela comeres, começarás a morrer.” O processo da morte espi­ ritual começou quando eles pecaram, em sua alienação de Deus, fonte de toda a vida. Se eles não tivessem pecado, ainda podiam ter morrido fisicamente, mas esta seria a forma de entrar em um estado de existência ainda mais aben­ çoado. Quando o pecado separou os homens de Deus, a morte já lhes havia sobrevindo. A morte do corpo físico so­ mente enfatizou o seu estado irreme­ diável de prisão às coisas terrenas. O fato de Adão ter dado à sua mulher o nome de Eva (vivente), em face da sentença de Deus com respeito a morte sem significado, acentuou a determina­ ção obstinada do homem de perseverar, a despeito de perspectivas impossíveis, e a sua consciência de que qualquer espe­ rança do futuro estava ligada e dependia do ventre fértil de sua esposa. A morte lhe sobreviria e à sua esposa, mas através dela uma nova vida surgiria para gera­ ções que ainda não haviam nascido. O homem precisa abandonar o jardim, para impedir que ele coma da árvore da vida, pois, em tal condição de rebeldia, a sua existência contínua na terra iria apenas poluir o Universo. A árvore da vida representa a vida eterna, perdida para ele, a menos que lhe seja facultada por Deus. Em a narrativa acerca da árvore da vida e da árvore do conheci­ mento, alguns expositores encontram um conflito entre os dois relatos, achando que no original ocorre, na verdade, apenas uma árvore (Simpson e von Rad). 185
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    Ambas as árvores,contudo, estão agora em a narrativa e são necessárias para o seu entendimento. Pelo fato de ter comi­ do da árvore do conhecimento, o homem perdeu o direito à árvore da vida. Como estão erradas as pessoas que pensam que no cristianismo o principal propósito de Deus é propiciar a vida eterna! Adão podia tê-la conseguido sim­ plesmente se tivesse sido deixado por sua própria conta no jardim. A ênfase da Escritura é que Deus não permitirá que o homem viva para sempre, enquanto ele não o capacitar a tomar-se um bom mordomo de sua existência. Em Cristo, somos as novas criaturas a quem ele deu o poder de viver a vida proposta por ele, não em perfeição, enquanto neste corpo, mas movendo-nos em direção a esse alvo quando a obstinação da came será anu­ lada, e substituída por submissão, sendo assim glorificada na ressurreição final. 3. A História de Caim (4:1-26) Estas passagens estão arraigadas pro­ fundamente na antiguidade. No hebrai­ co, a palavra Caim é similar ao nome dos “queneus” (Núm. 10:29 e s.), uma tribo nômade do deserto cuja história é, pro­ vavelmente, expressa aqui (cf. von Rad, p. 104). A narrativa, como a temos, todavia, não parece ser uma história tribal disfarçada, pois os descendentes de Caim não seguem o seu modo de vida. Eles eram, provavelmente, urbanos (Cassuto). No capítulo 4, conforme consta, existe uma tensão considerável entre pastor e lavrador (v. 1-16) e entre a sociedade rural e a urbana (v. 17-26). Os ancestrais dos hebreus eram originalmente pasto­ res; os cananeus, que foram desapossa­ dos, eram lavradores. 1) Caim e Abel (4:1-16) 1 Conheceu Adão a E v a, su a m ulher; ela concebeu e, tendo dado à luz a Caim , disse: A lcancei do Senhor um v arão . 2 Tornou a d ar à luz a um filho — a seu irm ão Abel. Abel foi p asto r de ovelhas, e C aim foi la v ra ­ dor da te rra . 3 Ao cabo de dias trouxe Caim do fruto da te rra um a oferta ao Senhor. 4 Abel tam bém trouxe dos prim ogênitos das suas ovelhas, e da su a gordura. O ra, atentou o Senhor p a ra Abel e p a ra a su a oferta, 5 m as p a ra C aim e p a ra a su a o ferta não atentou. Pelo que irou-se C aim fortem ente, e descaiu-lhe o sem blante. 6 E ntão o Senhor perguntou a C aim : P o r que te iraste? e P o r que está descaído o teu sem blante? 7 P o r­ v entu ra se procederes bem , não se h á de lev an tar o teu sem blante? e se não p roce­ deres bem , o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo; m as sobre ele tu deves dom inar. 8 F alou C aim com o seu irm ão Abel. E , estando eles no cam po, C aim se levantou contra o seu irm ão Abel, e o m atou. 9 Perguntou, pois, o Senhor a C aim : Onde está Abel, teu irm ão? R espondeu ele: N ão sei; sou eu o g u ard a do m eu irm ão? 10 E disse D eus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irm ão está clam ando a m im desde a te rra . 11 A gora m aldito és tu desde a te rra , que abriu a sua boca p a ra da tu a m ão rece­ b er o sangue de teu irm ão. 12 Quando la v ra ­ res a te rra , não te d a rá m ais a sua força; fugitivo e vagabundo serás na te rra . 13 E n ­ tão disse C aim ao Senhor: É m aior a m inha punição do que a que eu possa suportar. 14 E is que hoje m e lanças d a face da te rra ; tam bém da tu a presença ficarei escondido; serei fugitivo e vagabundo na te rra ; e qual­ quer que m e encontrar m atar-m e-á. 15 O Senhor, porém , lhe disse: P ortanto, quem m a ta r a C aim , sete vezes sobre ele c airá a vingança. E pôs o Senhor um sinal em Caim , p a ra que não o ferisse quem quer que o encontrasse. 16 E ntão saiu C aim d a p resen ­ ça do Senhor, e habitou n a te rra de Node, ao oriente do É den. No Velho Testamento, a palavra “co­ nhecer” é usada a respeito de relações sexuais, como no versículo 1. Richardson descreve a sua forma de pensamento: “Isto não ê um mero eufemismo. No pensamento hebraico “conhecer’ não é meramente acadêmico ou ‘intelectual’; sempre dá a entender a entrada em rela­ ções pessoais ativas com a pessoa conhe­ cida.” Os escritores bíblicos sabiam que a este respeito o conhecimento sexual é uma das experiências mais significativas possíveis para os seres hutiianos. O uso de ish (homem) para um recém- nascido não se encontra em nenhuma 186
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    outra parte doVelho Testamento. Pode ser que aqui esteja enfatizando o poten­ cial dessa criança. Caim é “um homen­ zinho” ou esta expressão pode mais sim­ plesmente estar significando “um ma­ cho” . Com a ajuda do Senhor, ou alcan­ cei do Senhor, significa literalmente “com o Senhor”. Das muitas sugestões a respeito do significado da palavra hebrai­ ca eth (sinal do acusativo, ou a prepo­ sição com), a mais provável é a tradução da RSV, “com a ajuda de”. Eva consi­ dera o nascimento de seu filho como um dom de Deus. Mesmo agora, que sabe­ mos mais acerca de hereditariedade, o mistério da vida ainda continua com Deus. Cada nascimento é ainda um novo milagre. Abel significa vaidade ou fraqueza, mas o significado do nome não é indica­ do na história. Neste contexto, é um apelido estranho. Seria ele débil fisica­ mente? Se assim era, ele venceu essa fraqueza, pois a vida de pastor era bem rude. Alguns expositores têm sugerido que talvez Eva esperava que Caim fosse a “descendência” que iria esmagar a ser­ pente. Se assim foi, ela notou logo a natureza teimosa dele, mesmo enquanto pequeno. O nome que ela deu ao segun­ do filho pode ter expressado a sua deses­ perança diante de mais um filho, pois a maldição de Deus sobre ela estava fazendo-se sentir. A despeito da maldição sobre a terra, Caim tomou-se lavrador, enquanto Abel decidiu-se pela profissão de pastor. E, então, cada um deles trouxe volun­ tariamente uma oferta a Deus, pois ela não fora ordenada. Caim apropriada­ mente trouxe de seu produto, enquanto Abel trouxe ovelhas. No entanto, Deus aceitou Abel e sua oferta, e rejeitou Caim e sua dádiva. O que acontecera de erra­ do? Ambos haviam sido sinceros. Eles haviam trazido os seus presentes por vontade própria. Mas nem então nem agora a sinceridade é suficiente. A dife­ rença estaria nos materiais ofertados? Será que Deus rejeitou Caim porque trouxe produto da terra, em vez de fazer oferenda de sangue? Dificilmente isto seria verdade, pois a oferta de cereais (“ofertas de manjares”, Lev. 2:1) era uma das principais ofertas do sistema sacrificial posterior. Obviamente Deus se agradara mais da oferta de sangue, que era a principal no Velho Testamento, mas não teria rejeitado a de cereais, a não ser como uma oferta pelo pecado (holocausto). Não há, aqui, nenhuma indicação de que o caso é de uma oferta pelo pecado. Uma chave valiosa é encontrada na menção de primogênitos na oferta de Abel. O termo “primícias” é usado cor­ respondentemente em relação a produtos da terra, no Velho Testamento. Da mes­ ma forma como os primogênitos eram os mais preciosos entre os animais, as “pri­ mícias” o eram entre os cereais. A ausên­ cia desse termo correspondente em refe­ rência a Caim é óbvia. A despeito da opinião de Gunkel, bem como de grande parte dos comentaristas modernos, de que o contexto dá a entender que Caim trouxe “a fina flor” dos cereais, ou, do ponto de vista do Talmude, de que a sua oferta era da pior qualidade, esta pas­ sagem dá a entender, obviamente, que, em contraste com o melhor que Abel havia trazido, Caim simplesmente trouxe a Deus algo. Não que fosse da pior qualidade; não era o melhor do que ele tinha. Caim estava agradecido a Deus por um rendoso ano agrícola; ele queria agra­ decer-lhe pela sua ajuda; por isso trouxe- lhe um presente. Abel, ao dar a Deus o que tinha de melhor, como mais tarde os homens iriam fazer diante dos gover­ nantes humanos, testificou de sua com­ pleta dependência de Deus e do quanto devia a ele. Caim agradeceu a Deus por servi-lo. Abel confessou-se servo de Deus. Não somos informados como foi que estes homens descobriram a reação de Deus à sua oferta. Talvez isto se tornou 187
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    aparente quando orebanho de Abel se multiplicou, enquanto a colheita seguin­ te de Caim foi um fracasso. Seja como for que Deus a tenha feito conhecida, a reação de Caim foi hostil, evidência sufi­ ciente de sua atitude errada para com o seu Criador. Um verdadeiro homem de fé ainda continua crendo na bondade de Deus, mesmo quando as circunstâncias são difíceis (v. 7a). Caim é advertido de que o seu ressentimento poderia levá-lo ao desastre, se ele não o reprimisse. Saiamos ao campo é uma adição feita pela RSV (versão da Bíblia em inglês que serve de base para este Comentário em inglês) ao texto recebido do hebraico, seguindo várias versões antigas, espe­ cialmente a LXX e o Pentateuco Sama- ritano. Faltam, ao texto hebraico, as palavras que Caim disse. Há muitas ten­ tativas para resolver o problema, quer por emenda textual, quer por significa­ dos alternativos do verbo falou. É bem possível que o que ele disse tenha-se perdido para a posteridade. Onde está... teu irmão? Agora se se­ gue a “Onde estás?” de 3:9. Desta for­ ma, as duas perguntas fundamentais, que Deus propõe ao homem, já foram feitas. Ao redor destas duas questões se agruparão os Dez Mandamentos, o rela­ cionamento do homem com Deus e de­ pois com o seu irmão. A sarcástica res­ posta de Caim: Sou eu o guarda (pastor) do meu irmão? não é respondida por Deus de maneira direta, mas a parábola do bom samaritano é a resposta. Neste contexto, esta parábola não significaria que um homem é qualificado para tomar as decisões finais a respeito do papel ,de outra pessoa na vida, como um pastor governa o seu rebanho, porque poucos homens querem ser “guardados” neste sentido. Pelo contrário, esta resposta de Caim dá a entender que ele não se sente responsável pelo que acontece ao seu irmão. A impropriedade óbvia desta res­ posta não requeria resposta. A expressão usada a respeito da terra, que abriu a sua boca, concorda com o conceito, encontrado no decorrer de todo o Velho Testamento, de que as entra­ nhas da terra (Seol, a sepultura) têm um apetite insaciável de homens, devorando em todas as oportunidades. Deus nada tem dessa insensibilidade. O Seol não é tão profundo que Deus não possa ouvir o clamor dos sangues (plural em heb., como acontece muitas vezes em refe­ rência a sangue derramado, cf. I Reis 2:5,31; Is. 1:15; 9:5) de Abel. É quase tão difícil esconder um homicídio dos outros homens quanto de Deus, pois esse clamor vem da própria terra, para ser ouvido por aqueles que o desejarem. O castigo de Caim foi adequado. A parceria dele com a terra que o alimen­ tava com os seus produtos, e que ele acabara de alimentar com o sangue de seu irmão, é dissolvida. Nunca mais ele se sentiria à vontade na terra, nem ela produziria para ele a sua força (produ­ tos). Ele responde, dizendo, literalmen­ te: “Minha iniqüidade é mais do que eu posso carregar”, com ênfase no castigo de Deus, que automaticamente se segue. De fato, esta é a condição de todos os homens. Ninguém consegue carregar o peso de sua própria iniqüidade. É signi­ ficativo que o Servo Sofredor, de Isaías 53, diz esse texto, levou as tristezas e iniqüidades do homem (Is. 53:4, 11b, 12b). Aqui, Deus não promete carregar as iniqüidades de Caim, mas de fato alivia a sua carga, protegendo-o da pro­ babilidade de ser morto, colocando sobre ele uma marca especial. Deve-se notar que a marca colocada em Caim, seja ela o que possa ter sido, não fazia parte de seu castigo, mas era um ato de misericórdia. Quando se diz que Saiu Caim da presença do Senhor, o significado não é que ele abandonou o domínio de Yahweh propriamente dito, pois, em Gênesis, ele é o Deus de toda a terra. Pelo contrário, a idéia é que entre eles não havia comunhão possível. Isto 188
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    não é porqueo homicídio é pecado sem perdão, mas porque Caim não expres­ sara nenhum arrependimento pelo seu pecado e não fizera nenhum pedido de reconciliação com Deus. Não era que Deus tivesse falta de misericórdia; era que Caim tinha falta de fé. 2) Caim e a Civilização (4:17-26) 17 Conheceu C aim a sua m ulher, a qual concebeu, e deu à luz a Enoque. C aim edifi­ cou u m a cidade, e lhe deu o nom e do filho, Enoque. 18 A Enoque nasceu Irad e, e Irade gerou aM eüjael, e M eüjael gerou a M etusael, e M etusael gerou a L am eque. 19 L am eque tom ou p a ra si duas m ulheres: o nom e dum a e ra Ada, e o nom e da o u tra Zila. 20 E Ada deu à luz Ja b a l; este foi o pai dos que habitam em tendas e possuem gado. 21 O nom e do seu irm ão e ra Ju b al; este foi o pai de todos os que tocam h arp a e flauta. 22 A Zila. tam bém nasceu um filho, Tubal-Caim , fabricante de todo instrum ento cortante de cobre e de ferro ; e a irm ã de Tubal-Caim foi N aam a. 23 D isse L am eque a suas m ulheres: Ada e Zila, ouvi a m inha voz; escutai, m ulheres de L am eque, as m inhas p a la v ra s; pois m atei um hom em por m e ferir, e um m ancebo por m e pisar. 24 Se C aim h á de se r vingado sete vezes, com certeza L am eque o será seten ta e sete vezes. 25 Tornou Adão a conhecer sua m ulher, e ela deu à luz u m filho, a quem pôs o nom e de Sete; porque, disse ela, D eus m e deu outro filho em lu g ar de A bel; porquanto Caim o m atou. 26 A Sete tam bém nasceu um filho, a quem pôs o nom e de Enos. Foi nesse tem po que os hom ens com eçaram a invocar o nom e do Senhor. Conheceu Caim a sua mulher. Onde ele a conseguiu? Eruditos rabínicos e cristãos têm sugerido que ele casou-se com uma de suas irmãs, pois se diz que Adão teve filhas (5:4). Parece que o escritor desta narrativa presume que Caim não teve dificuldade em encontrar uma esposa na terra de Node, como se já existisse outro povo vivendo ali. Caim anteriormente havia expresso o seu temor de que qualquer pessoa que o encontrasse o matasse. De quem teria ele medo? Naquela época existiam apenas o seu pai e a sua mãe. Parece que ele estava sabendo da exis­ tência de outras pessoas “lá fora, al­ gures” . Contudo, a explicação mais provável do casamento de Caim é a tradicional. Quando Caim diz que qualquer pessoa que o encontrasse o mataria, na mente do escritor isto significava que qualquer pessoa era parente, pois o clã era res­ ponsável pela vingança do sangue derra­ mado, naquela época. Esta perícope (v. 17-26, mas especial­ mente os v. 17-24) era originalmente independente de 4:1-16. Ela foi colocada aqui para descrever o desenvolvimento da linhagem de Caim, em contraste com a de Sete. Os descendentes de Caim começaram todas as principais iniciati­ vas da civilização material: cidades, do­ mesticação do gado, música e trabalho em metal. Muitos expositores conside­ ram imprecisão do escritor dizer que o ferro era trabalhado naquela época re­ mota, mas não sabemos quando ele foi usado pela primeira vez. A Idade do Ferro (quando armas de ferro eram co­ muns) foi muito posterior. A tragédia foi que o progresso mate­ rial da linhagem de Caim não foi igua­ lado pelas conquistas morais e religiosas. Eles não apenas deram início à poliga­ mia, mas também Lameque representa o fim da linhagem — homem que não precisa mais da proteção de Deus, que se ufana de que com armas que ele mesmo manufaturou pode defender-se. O ho­ mem é um “rapaz novo” (yeledh). Neste contexto, esta palavra pode significar jo­ vem em seus verdes anos, mas não é este o seu sentido costumeiro. Esta cantiga pode estar expondo ironicamente a jac­ tância vazia de um homem oco. Jesus inverte a jactância de Lameque de uma vingança setenta e sete vezes, ensinando uma quantidade correspondente de perdão (Mat. 18:22). Em contraste com a linhagem de Caim, uma nova direção tem início, com 189
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    o nascimento deSete a Adão e Eva. Desta vez, a alegria de Eva é misturada com tristeza, e ela usa um termo mais impessoal para referir-se a Deus. Quan­ do nasceu um filho a Sete, que lhe deu o nome de Enos (fraqueza), os homens começaram a invocar o nome do Senhor (Yahweh). Em sua força, a linhagem de Caim não sentira necessidade de Deus; em sua fraqueza, Enos reconheceu que tinha necessidade dele. A força de Caim por fim de nada lhe adiantaria. Enos iria estabelecer uma linhagem que nunca teria fim. A declaração desta fonte (Judia), de que o nome de “Yahweh” era usado nesta época remota, está aberta à acusa­ ção de que ela pode ser anacrônica. Tanto Êxodo 3:13 e ss. (fonte Israelita do Norte) quanto Êxodo 6:2 e ss. (fonte Sacerdotal) dizem que este nome foi dado a Moisés por revelação de Deus. Elas não usam esse nome até a época de Moisés. A fonte Judia retrata os homens usando-o desde a época de Adão. Isto pode significar simplesmente que o Deus adorado pelos patriarcas era Yahweh, seja qual for o nome pelo qual ele era chamado; ou é bem possível que o nome “Yahweh” fosse usado em época anterior à de Moisés e que um conteúdo revelador novo tivesse sido aplicado a esse título, na época mosaica (cf. Speiser). 4. Os Patriarcas Antediluvianos (5:1-32) Esta passagem continua o relato Sa­ cerdotal de Gênesis 2:4a. Ela tornou-se famosa como o “capítulo gerou” por cau­ sa da maneira como as traduções em por­ tuguês bem assim a KJV traduzem o refrão hebraico que a RSV verte como “ele tornou-se o pai de” (5:4,6,9, et ál). O impacto primordial deste capítulo so­ bre o leitor comum é a inusitada longe­ vidade dos patriarcas, que alcançaram a média superior a novecentos anos. Al­ guns intérpretes supõem que havia uma forma diferente de contar os anos entre os antigos. Embora sempre tenha havido maneiras diferentes de contar o número de dias em um ano, quando as estações voltam, um ano é um ano em qualquer civilização. Outros têm sugerido que temos a duração da vida de tribos rela­ cionadas neste capítulo, mas dificilmente Enoque e Noé seriam tribos. O problema é complicado, pelo fato de que a LXX e o Pentateuco Samaritano diferem ambos do Texto Massorético e um do outro. O argumento de Cassuto, de que o Texto Massorético, provavel­ mente, é mais confiável, neste capítulo, do que as outras versões, possivelmente é correto, mas, em alguns lugares, os outros podem estar preservando uma redação mais antiga. A Lista de Reis Sumérios também precisa ser considerada. Ela chegou até nós tanto através de Berossus, historia­ dor grego, como através de textos sumé­ rios pertencentes ao fim do terceiro milê­ nio a.C. ou ao começo do segundo mi­ lênio. Da mesma forma como no capí­ tulo 5, há em Berossus e em um texto sumério dez notáveis dignitários entre a criação e o dilúvio. O outro texto sumé­ rio tem oito nomes, correspondentes aos oito patriarcas constantes no texto acerca de Caim, em Gênesis 4. Os nomes das listas sumérias não se parecem com os do Velho Testamento, mas há uma correspondente diminuição ou encurtamento da longevidade depois do dilúvio, e o seu sétimo dignitário, como Enoque, é removido sobrenatural­ mente. A duração da vida de seus reis ultrapassa a idade de qualquer patriarca do Velho Testamento; variam de 18.000 a 65.000 anos. É também significativo que os seus dignitários da antiguidade eram reis que eram parcialmente divinos, enquanto os patriarcas do Velho Testa­ mento eram inteiramente humanos. Não pode haver dúvida de que há alguma relação entre a lista suméria e a que está na Bíblia. Seria o relato hebrai­ co um desenvolvimento posterior do sumério, como o sugerem Speiser e Cas- 190
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    suto, ou ambosdescendem de um relato mais antigo do que eles? Grande parte dos intérpretes modernos presume que os hebreus adaptaram a Lista dos Reis Su- mérios aos seus objetivos teológicos, encurtando a duração da vida deles a uma extensão mais razoável, mas fazen­ do os patriarcas antediluvianos viverem mais do que os que vieram depois do dilúvio, a fim de enfatizar o contínuo preço do pecado sobre a raça humana. Todavia, não é provável que os histo­ riadores hebraicos tivessem distorcido a história para satisfazer às suas idéias teológicas. Sem dúvida, eles rearran- jaram e remterpretaram a história, a fim de enfatizar a sua própria perspectiva, mas não fizeram nenhuma tentativa para inventá-la. Eles tinham demasiado res­ peito pela História e pelo lugar de Deus naqueles acontecimentos do passado. £ muito mais provável que os relatos he­ braico e sumério tivessem descendido de uma fonte comum. Não há nenhuma forma de provar que os patriarcas não viveram tanto quanto o Velho Testamento diz que viveram. Con­ tudo, seria bem natural que, no processo de contar e repetir a história, anos fos­ sem adicionados à vida dos patriarcas antediluvianos. Certamente os escritores bíblicos não adicionaram ou subtraíram anos das genealogias que receberam. As idades registradas refletem o contexto da tradição quando as fontes foram compostas. 1) De Adão a Enoque (5:1-20) 1 E ste é o livro das gerações de Adão. No dia em que D eus criou o hom em , à sem e­ lhança de D eus o fez. 2 H om em e m ulher os criou; e os abençoou, e os cham ou pelo nom e de hom em , no dia em que foram criados. 3 Adão viveu cento e trin ta anos, e gerou um filho à sua sem elhança, conform e à sua im agem , e pôs-lhe o nom e de Sete. 4 E foram os dias de Adão, depois que gerou a Sete, oitocentos anos; e gerou filhos e filhas. 5 Todos os dias que Adão viveu foram nove­ centos e trin ta anos; e m orreu. 6 Sete viveu cento e cinco anos, e gerou a Enos. 7 V iveu Sete, depois que gerou a E nos, oitocentos e sete anos; e gerou filhos e filhas. 8 Todos os dias de Sete foram novecentos e doze a n o s; e m orreu. 9 E nos viveu noventa anos, e gerou a Q uenã. 10 Viveu Enos, depois que gerou a Quenã, oitocentos e quinze anos; e gerou filhos e filhas. 11 Todos os dias de Enos foram novecentos e cinco anos; e m orreu. 12 Q uenã viveu seten ta anos, e gerou a Ma- alalel. 13 Viveu Q uenã, depois que gerou a M aalalel, oitocentos e q u aren ta an o s; e ge­ rou filhos e filhas. 14 Todos os dias de Q uenã foram novecentos e dez anos; e m orreu. 15 M aalalel viveu sessenta e cinco anos, e gerou a Jared e. 16 V iveu M aalalel depois que gerou a Jared e, oitocentos e trin ta an o s; e gerou filhos e filhas. 17 Todos os dias de M aalalel foram oitocentos e noventa e cinco anos; e m o rre u . 18 Ja re d e viveu cento e ses­ senta e dois anos, e gerou a Enoque. 19 Vi­ veu Jare d e , depois que gerou a Enoque, oitocentos anos; e gerou filhos e filhas. 20 Todos os dias de Ja re d e foram novecentos e sessenta e dois a n o s; e m orreu. Este é o livro das gerações de Adão pode significar que outrora havia um livro com esse nome, que era usado como fonte de material para o livro de Gênesis, pelos editores Sacerdotais. Esta obra forneceu, presumivelmente, o esboço básico do livro de Gênesis. Outros mate­ riais foram reunidos de várias fontes e inseridos nessa estrutura. Contudo, livro significa, literalmente, escrito, e pode ser simplesmente uma declaração referente ao que deve seguir-se no capítulo 5. Quando se diz que Adão gerou um filho à sua semelhança, conforme à sua imagem, afirma-se o fato de que ele passou para o seu filho tanto a imagem que lhe fora dada por Deus quanto a forma contaminada dela, que o pecado havia deixado nele. A fonte Sacerdotal não tem uma história da qued$ do ho­ mem, como a Judia (caps. 2 e 3), mas dá-o a entender aqui e no encurtamento da vida do homem depois do dilúvio. É a fonte Sacerdotal que se interessa parti­ cularmente pelas idades exatas dos ho­ mens quando os seus filhos nasceram, e quando morreram, e ela, conseqüente­ mente, preservou estes dados. 191
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    O solene refrãoque se repete neste capítulo propicia notável percepção da natureza da existência para o homem médio. Tudo o que pode ser dito a res­ peito dele é que ele nasceu, teve filhos e morreu. O mundo não fica melhor nem pior por ele ter estado nele; ele é apenas um elo entre gerações. O obituário médio hoje em dia ainda consiste da mesma sorte de informações. Embora esta passagem seja o livro das gerações de Adão, não se menciona Caim na fonte Sacerdotal, a não ser que Quenã deva ser identificado com ele (v. 9-14). Isto significaria que em uma tradição Caim seria um bisneto de Adão (mas, assim mesmo, no sentido hebraico, seu filho). Se isto era verdade, o problema de onde ele arrumou a sua esposa estaria facilmente resolvido. Contudo levantaria outros problemas, especialmente um conflito com o capítulo 4, em que Adão e Eva são retratados como um casal que fica sem filhos, quando Caim mata Abel e é expulso de casa. Portanto, é mais satisfatório concluir que Caim é deixado fora da genealogia Sacerdotal porque ele não estava na “verdadeira linhagem da igreja, de Adão até Noé” (Richardson, p. 90). O cronista segue a mesma prática em sua genealogia. Gênesis 5 não se propõe a ser um registro familiar com­ pleto. 2) De Enoque a Noé (5:21-32) 21 Enoque viveu sessenta e cinco anos, e gerou a M atusalém . 22 Andou Enoque com D eus, depois que gerou a M atusalém , tr e ­ zentos anos; e gerou filhos e filhas. 23 Todos os dias de Enoque foram trezentos e ses­ senta e cinco anos. 24 Enoque andou com D eus; e não ap areceu m ais, porquanto Deus o tom ou. 25 M atusalém viveu cento e oitenta e sete anos, e gerou a Lam eque. 26 Viveu M atusalém , depois que gerou a Lam eque, setecentos e oitenta e dois anos; e gerou filhos e filhas. 27 Todos os dias de M atusa­ lém foram novecentos e sessenta e nove anos; e m orreu. 28 L am eque viveu cento e oitenta e dois anos, e gerou um filho, 29 a quem cham ou Noé, dizendo: E ste nos con­ so lará a c erca de nossas obras e do trabalho de nossas m ãos, os quais provêm d a te rra que o Senhor am aldiçoou. 30 Viveu L am e­ que, depois que gerou a Noé, quinhentos e noventa e cinco an o s; e gerou filhos e filhas. 31 Todos os dias de L am eque foram sete­ centos e seten ta e sete anos; e m orreu. 32 E e ra Noé da idade de quinhentos anos; e gerou Noé a Sem , Cão e Jafé. A inclusão da perícope de Enoque neste capítulo é um golpe de pena magis­ tral. O solene refrão é subitamente que­ brado pela revelação de que para um homem a vida foi diferente. Embora tivesse começado da mesma forma que para os outros, ela desenvolve-se de maneira bem diferente, porque Enoque andou com Deus. Esta é uma forma vívida de retratar uma íntima comunhão entre os dois. Pretende esta passagem dizer que o caminhar com Deus começou quando Matusalém nasceu? É possível, pois o nascimento de um primogênito muitas vezes leva o homem a ter pensa­ mentos mais sérios. No entanto, o cami­ nhar de Enoque com Deus podia ter sido um relacionamento que durou a vida toda. E não apareceu mais significa que ele subitamente desapareceu, e não pôde ser encontrado na terra. Sem ter conhe­ cido a morte da forma como a experi­ mentamos, ele foi trasladado, para estar com Deus. Aqui está o destino ideal que Deus devia ter para Adão, se ele não tivesse pecado. Esta passagem é colocada aqui para dispersar o pessimismo de Gênesis 3. Por fim se permite que alguém entre no Jardim do Éden espiritual. Eno­ que andou com Deus. Este se tornou o ideal que guiou as gerações futuras. Em Salmos 73:24, o verdadeiro crente decla­ ra: “e depois me receberás em glória.” O verbo traduzido como “receberás” é o mesmo vertido como tomou no v. 24. Deus não faz acepção de pessoas. Se ele tomou Enoque, que andou com ele, tomará qualquer crente verdadeiro. Matusalém ostenta a distinção de ter vivido mais do que qualquer outro ho­ mem na Bíblia. Todavia, tudo o que 192
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    pode ser ditodele é que ele viveu, teve filhos e morreu. O seu pai viveu, nesta terra, um terço do que ele viveu, mas realizou muito mais. O verdadeiro signi­ ficado da vida não consiste na longevi­ dade, mas na qualidade dos anos vividos De acordo com a cronologia Sacerdo­ tal, Matusalém morreu no ano do dilú­ vio. Se o dilúvio não tivesse acontecido, talvez ele teria estabelecido recordes ainda maiores! No entanto, o Texto Sa- maritano lhe dá apenas setecentos e vinte anos. Obviamente, não se pode exagerar a sua longevidade. O versículo 29 parece ter sido tirado da fonte Judia, pois contém o nome de Yahweh e duas frases familiares dos capítulos 3 e 4; do trabalho de nossas mãos (cf. 3:17, 19) e a terra que o Senhor amaldiçoou (cf. 3:17; 4:11). O editor Sacerdotal o incluiu a fim de fazer uma preparação apropriada para Noé, outro homem que andou com Deus (6:9). O consolo mencionado por Lameque pro­ vavelmente se relacionava com a pers­ pectiva de ter outro trabalhador em suas plantações. Contudo, ela foi cumprida além de seus sonhos, com a remoção da maldição lançada sobre a terra, como tributo de Deus à parte que Noé desem­ penhou no dilúvio (8:21). Alguns expo­ sitores supõem que isto tinha referência ao cultivo da vinha por Noé (Cassuto). No versículo 32, pela primeira vez a genealogia menciona mais de um filho de um dos patriarcas; diz que Noé é o pai de Sem, Cão e Jafé. A sua presença na arca deu-lhes posição especial na lista. Outros homens tiveram filhos e filhas demais para serem mencionados. Os filhos de Noé foram todos os homens que restaram na terra. Por analogia, só Sem devia ser mencionado, se não fosse o dilúvio. Ã época em que o livro de Gênesis foi escrito, a combinação dos nomes de Sem, Cão e Jafé, provavelmente, já era pro­ verbial. De acordo com este capítulo, o tempo que se passou entre a criação de Adão e o dilúvio foi 1.656 anos. Abraão nasceu, de acordo com a fonte Sacerdotal, cerca de 300 anos depois. Isto significa que se passaram cerca de dois mil anos entre a criação e Abraão. Visto que se sabe que Abraão viveu cerca de dois mil anos antes de Cristo, o Bispo Ussher (1650-54 d.C.) deduziu que o mundo foi criado em cerca de 4004 a.C. Outros relacionamentos interessantes são aparentes nas genealogias. De acordo com elas, nove dos dez patriarcas ante- diluvianos estiveram vivos ao mesmo tempo, num dado momento. Adão só morreu depois de nascer Lameque, pai de Noé. Noé ainda estava vivo quando Abraão nasceu, e também Sem, que alguns intérpretes supõem ser Melqui- sedeque! De fato, Abraão morreu antes de Sem. Será que a fonte Sacerdotal pretendia dar a entender uma sociedade contem­ porânea de patriarcas? Von Rad (p. 70), persuadido quanto a esta afirmativa, cita Martinho Lutero: Foi realmente uma idade de ouro, em compa­ ração com a qual a nossa mal pode ser chamada de uma droga, pois nove patriarcas viveram ao mesmo tempo, com todos os seus descendentes... Esta é a maior glória do primeiro mundo, que nele ao mesmo tempo estavam pessoas que eram muito mais piedosas, sábias e santas. Esta interpretação está aberta ao ques­ tionamento. Como é que uma era tão ideal podia produzir a degeneração que requereu um dilúvio, para apagá-la? Nada se diz a respeito da retidão de qualquer um dos patriarcas antediluvia- nos, a não ser a de Enoque, e ele foi re­ movido daquele mundo pecador. Há pequena probabilidade de que a terra tenha sido criada em 4004 a.C. Os arqueólogos insistem que a civilização remonta a pelo menos 7000 a.C., e que o homem tem estado aqui há muito mais tempo. Ou a cronologia bíblica está er­ rada, ou ela precisa ser entendida sob luz diferente: que os anos do relato do Gê­ nesis não são, necessariamente, conse­ cutivos. Ao invés de dizer que nove pa­ 193
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    triarcas viveram aomesmo tempo, a fonte simplesmente conta a história da forma como foi recebida. É interessante que o capítulo 5 não soma os seus alga­ rismos para chegar a um número total de anos. Nem uma só vez a narrativa fala de um contato pessoal entre os patriarcas de gerações tão separadas. Os escritores de Gênesis têm um senso muito mais exato de história do que de fazer tal tentativa. A fonte Sacerdotal “escolheu dez no­ mes (e, em 11:10e ss., outros dez, de Noé a Abraão) como marcos separados, e não como elos contínuos” (Kidner). Quando se diz que com a idade de noventa anos Enos gerou Quenã, pode ser que ele gerou um ancestral de Quenã, e então viveu outros oitocentos e quinze anos, antes de morrer. Quanto tempo se pas­ sou até que, na verdade, Quenã nasceu não é importante; o fato de que Enos era seu pai é a verdade básica. Nesse mesmo padrão, a fim de formar três grupos de quatorze nomes, Mateus, em 1:8b, diz que Jorâo “gerou” Uzias, que, na ver­ dade, era seu tataraneto. 5. O Grande DUúvio (6:1-9:29) Histórias referentes a um grande dilú­ vio encontram-se em meio à maioria dos povos da terra, (*) mas as tradições mais próximas da narrativa bíblica foram preservadas entre os babilônios, espe­ cialmente na Epopéia de Gilgamesh. As correspondências entre os relatos hebraico e babilónico são tão notáveis, que não podem ser apenas coincidência. Ê provável que os dois tenham sido ba­ seados em um antecedente comum, do qual se desenvolveram, com suas ênfases características. As diferenças, entre essas narrativas são ainda mais significativas do que as semelhanças, e consistem, pri­ mordialmente, na razão dada para o dilú­ vio e em a natureza do Deus que a enviou (cf. a Introdução). (•) NOTA DO EDITOR: Interessante ê verificar a tradição dos índios brasileiros a este respeito. O relato bíblico não exige que se inter­ prete que cada metro quadrado da terra tenha sido coberto pela água, assim como também a declaração de Atos 2:5, de que estavam em Jerusalém “homens piedosos de todas as nações que há de­ baixo do céu” não significa que até habi­ tantes das Américas estavam lá! Da mesma forma como Atos declara que estavam em Jerusalém homens de todo o mundo civilizado, a declaração essencial em Gênesis 6 é que as águas cobriram toda a terra habitada. Visto que Gênesis 5 não pode ser usado como base para cronologia (cf. os comentários sobre o cap. 5), não pode haver exatidão quanto a este assunto. Alguns expositores judeus afirmam que Ezequiel 22:24: “Tu és uma terra que não está purificada, nem rega­ da de chuvas no dia da indignação”, significa que a terra de Canaã não foi coberta pelo dilúvio. O próprio Monte Arará (8:4) tem 5.700 metros de altura, mas não se diz que a arca repousou sobre ele, mas sobre “os montes de Arará”. Diz-se, todavia, que as águas cobriram todas as montanhas das regiões abran­ gidas, o que certamente inclui o Monte Arará. Se o dilúvio foi primevo, como certa­ mente foi, pode ser que tenha coberto toda a terra. Alguns intérpretes dizem que os arqueólogos têm evidências conclu­ sivas em favor de um dilúvio universal, mas este não é o caso. (Há evidências de inundações em todas as partes da terra, mas estas não foram, necessariamente, simultâneas.) Da mesma forma, a ar­ queologia também não pode produzir evidências contra um dilúvio primevo universal. Alguns escritores propõem que, ao tempo dessa inundação, os mon­ tes não eram tão altos como são agora. Salmos 104:6-8 pode ser assim inter­ pretado: as águas estavam sobre as montanhas. Ã tua repreensão fugiram; à voz do teu trovão puseram-se em fuga. Elevaram-se as montanhas, 194
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    desceram os vales, atéo lugar que lhes determinaste. É mais provável, porém, que esta pas­ sagem se refira à criação, e não ao di­ lúvio. A abordagem essencial a este proble­ ma é reconhecer que, quando o escritor recebeu esta história, o dilúvio já estava sendo descrito como universal. Ele certa­ mente não tomou o relato de uma inun­ dação local e a universalizou para alcan­ çar os seus objetivos pessoais. Ele usou a história como a recebeu, a fim de ensi­ nar os caminhos de Deus para com os homens (cf. a Introdução). Ele não teria sido levado a usar uma história que não estava arraigada na verdadeira história do homem. Por outro lado, a história original podia ter ganho acréscimos em sua transmissão. É claro que o dilúvio foi um aconte­ cimento ímpar, que não se repetiu (9:11 e ss.); portanto, ele, obviamente, não po­ dia ser a inundação de um rio, como é proposto por Woolley.11 A expressão bíblica dá a entender que houve quase uma volta ao caos original, com águas de cima e de baixo convergindo uma vez mais (7:11). Um tufão, acompanhado por uma onda gigantesca, produzida por um maremoto do Golfo Pérsico, pode ter dado origem à catástrofe, seguida por outras reações em cadeia, em outros lugares. 1) A Causa do Dilúvio (6:1-8) 1 Sucedeu que, quando os hom ens com e­ çaram a m ultiplicar-se sobre a te rra , e lhes nasceram filhas, 2 v iram os filhos de D eus que as filhas dos hom ens eram form osas; e to m aram p a ra si m ulheres de todas as que escolheram . 3 E ntão disse o Senhor: O m eu E spírito não p erm an ecerá p a ra sem pre no hom em , porquanto ele é carne, m as os seus dias serão cento e vinte anos. 4 N aqueles dias estavam os nefilins na te rra , e tam bém depois, quando os filhos de D eus conhe­ ceram as filhas dos hom ens, as quais lhes d eram filhos. E sses nefilins eram os valen- 11 Leonard Woolley, F.xcavationsat Ur (New York: Apollo Editions, 1954). tes, os hom ens de renom e, que houve na antiguidade. 5 Viu o Senhor que e ra grande a m aldade do hom em n a te rra , e que toda a im aginação dos pensam entos de seu co ra­ ção e ra m á continuam ente. 6 E ntão a rre ­ pendeu-se o Senhor de h av er feito o hom em na te rra , e isso lhe pesou no coração. 7 E disse o Senhor: D estruirei da face d a te rra o hom em que criei, tanto o hom em com o o anim al, os rép teis e a s aves do céu; porque m e arrependo de os h av er feito. 8 Noé, po­ rém , achou g raças aos olhos do Senhor. Norman Gottwald declara que “não há exemplos mais gritantes de mito hebrai­ co” 12 do que em Gênesis 6:1-4. Con­ tudo, como a história está, ela, obvia­ mente, não é um mito. Um mito teria declarado abertamente que os gigantes (nefilins) da terra eram descendentes do casamento “misto” entre seres divinos e humanos. A história hebraica evita cui­ dadosamente dizer tanto, mas declara recatadamente apenas que havia gigan­ tes na terra quando aquele casamento “misto” estava tendo lugar (cf. von Rad). Por esta razão, alguns eruditos chamam esta passagem de “mito quebrado” e presumem que ela era originalmente uma explicação etiológica do apareci­ mento de gigantes, mas então servia a um propósito diferente. Cassuto sugere que esta passagem refuta a declaração do mito original de que os seres humanos foram elevados à divindade mediante esse casamento dos filhos de Deus (anjos) com mulheres. Pelo contrário, a narra­ tiva declara que o homem precisa ainda ser mortal, a despeito dessa união com seres divinos. Outros comentaristas negam que esta declaração tenha referência a seres divi­ nos. Os filhos de Deus são os filhos de Sete (homens piedosos) e as filhas dos homens são as filhas de Caim. O argu­ mento mais forte para esta posição é o fato de que têm lugar casamentos legais. Por que seria que os anjos iriam se preo­ cupar em legitimar essas ligações? 12 A Light to the Nations (New York: Harper & Brothers, 1959), p. 26. 195
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    No versículo la,contudo, a referência é a homens em geral, e não a um grupo específico. As suas filhas se casam com os filhos de Deus. Esta mesma expressão idiomática aparece, em outras passa­ gens, somente em Jó 1:6; 2:1; 38:7. Ali, ela se refere claramente a anjos. Por­ tanto, esta narrativa diz claramente que anjos se casaram com mulheres, e pode dar a entender que os nefilins ("gigan­ tes”, na LXX) foram os seus descenden­ tes, visto que a palavra nephilim é o particípio ativo plural do verbo hebraico “cair” . Os “decaídos” ou “decadentes” estavam na terra naquela época. Tal acontecimento não seria estranho ao conceito hebraico a respeito dos anjos. Eles nunca têm asas e sempre aparecem como homens. Eles comem com Abraão e parecem ser tão humanos que os sodo­ mitas tentam pecar com eles. É impossível determinar se o escritor de Gênesis está apresentando esta histó­ ria como literal ou usando uma narrativa antiga, para ensinar, de maneira simbó­ lica, que a pecaminosidade do Jiomem era devida à invasão da terra por esses anjos decaídos. Em qualquer caso, a lição é a mesma. Da mesma forma como, no Jardim do Éden, a serpente tentou Eva, agora seres divinos decaídos cor­ rompem a humanidade. O homem está sendo perturbado por algo que está fora dele próprio e que não pode ser repre­ sentante de um Deus santo, sendo, sem dúvida, demoníaco. (*) O verbo permanecerá, no versículo 3, é de significado incerto, mas as outras versões, bem como palavras em línguas semitas da mesma família sugerem este significado. Deus permitirá que o ho­ mem viva apenas cento e vinte anos, pois a carne não pode herdar o espírito. Note- se o mesmo contraste na declaração de I Pedro 3:18: “morto na carne, mas vivi­ ficado no espírito.” Em Gênesis 6:1-4, (*) NOTA DO EDITOR: Quanto aos nefilins, veja-se Números 13:33, onde a mesma pala­ vra é usada. Veja-se também Judas 6. o mundo espiritual estava sendo puxado para baixo, para o nível da carne. Em Cristo, o Espírito venceu a batalha con­ tra a carne. Os cento e vinte anos dados ao homem são interpretados, por algumas pessoas, como aplicação à duração da vida depois do dilúvio (Richardson e von Rad), mas os homens continuam a viver mais do que isso, através de Gênesis. Ê mais provável que “o período de cento e vinte anos se toma um tempo de provação, em face de todos os sinais de que a destruição não pode ser evitada” (Speiser, p. 46). A declaração do v. 5 é a afirmação mais forte do Velho Testamento à res-~— peito da depravação humana. A situação não podia ser pior: toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente. Obviamente, os fatos dos versículos 1 a 4 precedem esta de­ claração, para explicar como este estado de coisas veio a existir. O verbo arrependeu-se (literalmente, suspirar) descreve o fato de se arrepender e de ficar triste apenas em sentido deri- vadp. O escritor não cjuer dizer que Deus lamenta ter criado o homem, mas que ele suspira de tristeza com o que está acon­ tecendo. Üma coisa era prever o pecado do homèm; outra, enfrentá-lo. Os três verbos deste versículo: arrependeu-se, feito e pesou provêm da mesma raiz, da mesma forma como as três principais palavras da declaração de Lameque, em 5:29: “consolará... obras... trabalho.” “Da mesma forma como ás obras dos seres humanos lhes produziam dores, os seus atos na esfera moral causaram so­ frimentos ao seu Criador” (Cassuto). Destruirei literalmente significa apa­ gar, como se faz com borracha ou apa-~ gãdor. Esta declaração parece significar que a intenção de Deus, em sua tristeza^ era remover toda a raça- humana da terra, bem como os animais, mas en­ quanto ele estava esperando que se pas­ sassem os cento e vinte anos da graça, para sua grande alegria, a sua atenção 196
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    foi chamada parauma diferente espécie de homem: Noé. A ousada linguagem antropomórfica, usada nesta passagem, é característica do Velho Testamento. Estas descrições não consistiam em tentativa para huma­ nizar Deus, mas para torná-lo acessível ao homem, e revelá-lo como pessoa. 2) Preparação (6:9-22) 9 E stas sáo a s gerações de Noé. E ra ele hom em justo e perfeito em su as gerações, e an dava com D eus. 10 G erou Noé três ÍUhos: Sem, Cão e Jafé. 11 A te rra , porém , estav a corrom pida diante de D eus, e cheia de vio­ lência. 12 Viu D eus a te rra , e eis que estav a corrom pida; porque toda a carn e havia co r­ rom pido o seu cam inho sobre a te rra . 13 E ntão disse Deus a N oé: O fim de toda carne é chegado p eran te m im ; porque a te rra está cheia d a violência dos hom ens; eis que os destruirei juntam ente com a te rra . 14 F aze p a ra ti u m a a rc a de m ad eira de gôfer: farás com partim entos na a rc a , e a rev es­ tirá s de betum e por dentro e por fora. IS D esta m an eira a fa rá s: o com prim ento da a rc a será de trezentos côvados, a sua la r­ gura de cinqüenta e a sua a ltu ra de trin ta. 16 F a rá s na a rc a u m a jan ela e lhe d a rá s um côvado de a ltu ra ; e a p o rta d a a rc a porás no seu lado; fá-la-ás com an d ares: baixo, segundo e terceiro. 17 Porque eis que eu trag o o dilúvio sobre a te rra , p a ra des­ tru ir, de debaixo do céu, toda a carne em que h á espírito de vid a; tudo o que h á na te rra ex p irará. 18 M as contigo estabelecerei o m eu pacto; e n tra rá s n a a rc a , tu e contigo teus filhos, tu a m ulher e as m ulheres de teu s filhos. 19 De tudo o que vive, de to d a a carne, dois de cada espécie, fa rá s e n tra r n a a rc a , p a ra os conservare« vivos contigo; m acho e fêm ea serão. 20 D as aves segundo a s suas espécies, do gado segundo a s su as espécies, de todo rép til da te r ra segundo as suas espécies, dois de cad a espécie virão a ti, p a ra os conservares em vida. 21 L eva con­ tigo de tudo o que se com e, e ajunta-o p a ra ti; e te será p a ra alim ento, a ti e a eles. 22 A ssim fez Noé; segundo tudo o que D eus lhe m andou, assim o fez. Gênesis 6:1-8 é geralmente atribuído à fonte Judia, e 6:9-22, à Sacerdotal, pois muitas das formas estilísticas familiares vistas nesta última fonte em Gênesis agora aparecem (cf. os comentários sobre o cap. 1). Noé é descrito em maiores detalhes do que na passagem anterior, onde não somos informados por que ele encontrara favor diante de Deus. Agora ficamos sabendo que foi porque ele era justo e perfeito (heb., perfeitamente justo), em uma geração em que tais ca­ racterísticas eram quase desconhecidas. Ã semelhança de Enoque, ele andava com Deus. Por que, portanto Deus não o tomou também? Foi porque tinha um trabalho para ele realizar. Quando Noé, mais tarde, pecou, essa íntima comu­ nhão foi manchada, e disso resultou morte. Existe um trágico contraste entre Viu Deus a terra, e eis que estava corrom­ pida e a declaração de 1:31: “E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.” Que diferença os anos haviam feito! A palavra hebraica traduzida como arca é uma palavra emprestada do egíp­ cio, ocorrendo no Velho Testamento apenas no relato do dilúvio, em Gênesis, e em Êxodo 2:3 e s. Richardson (p. 99) chama a arca de “grande engradado flu­ tuante”; Kidner (p. 81) refere-se a ela como um “caixão” ; enquanto von Rad (p. 123) a chama de “casa-barco” . Na literatura egípcia, esta palavra podia significar caixão de defuntos ou caixa em geral ou (com sufixo feminino) gaiola de pássaros. Em a narrativa babilónica, a inferência é claramente de um navio, pois a sua navegação foi confiada a mari­ nheiros, mas, em Gênesis, o único obje­ tivo da arca era sobreviver ao dilúvio. As suas dimensões (calculando um cô­ vado como 44 centímetros) eram, apro­ ximadamente, de 135 metros de compri­ mento, 23 de largura e 13,5 de altura. Isto era mais ou menos a metade do comprimento do Queen Elizabeth e mais do que a metade de sua largura. Ri­ chardson acha que a forma da arca era oblonga, enquanto Cassuto está certo de que era um paralelepípedo! Certamente ela não foi construída para navegar, mas para subsistir. 197
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    A natureza damadeira de gôfer (pala­ vra hebraica transliterada) não é conhe­ cida. Algumas pessoas sugerem cipreste (cf. von Rad). Este termo era desconhe­ cido para a LXX, que a traduz como “madeira quadrangular”. A Vulgata a chama de “madeira alisada”. Devia ser uma qualidade rara e especialmente adequada. As árvores que supriram essa madeira de uso marítimo devem ter sobrevivido ao dilúvio e ter continuado a se propagar. A menção do pacto com Noé (v. 18) é a primeira vez em que esta palavra é usada no Velho Testamento. Ele abrange a família de Noé e dois exemplares de cada espécie de animal. A sugestão a respeito do alimento é previdente: tudo o que se come. A mesma dieta poderia ser problemática durante um ano a bordo da arca. Como podiam eles arma­ zenar suprimento para alimentar os ani­ mais durante um ano? Muitas de suas necessidades, consideravelmente dimi­ nuídas pela inatividade, foram supridas por ovos e leite! Finalmente, somos infor­ mados de que Noé executou todas as instruções de Deus, que não era tarefa simples. Ela, contudo, foi aliviada pelo fato de que Deus trouxe os animais a Noé; ele não teve que procurá-los (v. 20b). 3) Instruções Adicionais (7:1-5) 1 Depois disse o Senhor a Noé: E n tra na arc a , tu e toda a tu a casa, porque tenho visto que és justo diante de m im n esta geração. 2 De todos os anim ais lim pos lev arás contigo sete e sete, o m acho e sua fêm ea; m as dos anim ais que não são lim pos, dois, o m acho e sua fê m e a ; 3 tam bém das aves do céu sete e sete, m acho e fêm ea, p a ra se conservar em vida su a espécie sobre a face de toda a te rra . 4 P orque, passados ainda sete dias, farei chover sobre a te rra quaren ta dias e quarenta noites, e ex term inarei da face da te rra todas as criatu ras que fiz. 5 E Noé fez segundo tudo o que o Senhor -lhe ordenara. Esta passagem continua a fonte Judia, que apresenta uma nota adicional. Não apenas estavam na arca dois exemplares de cada espécie de animal, mas os ani­ mais limpos totalizam sete pares, pois mais tarde eles iriam ser usados para sacrifício e para alimentação. A fonte Sacerdotal não menciona sacrifício até a época de Moisés, quando o sistema sa­ crificial recebeu sanção de Yahweh. Isto não significa que o escritor Sacerdotal não tinha conhecimento desse costume anteriormente. De fato, os sacerdotes foram, provavelmente, os editores finais do Pentateuco, e conscientemente incluí­ ram esse material da fonte Judia. A sua relutância em mencionar sacrifícios anteriores era devida ao seu desejo de enfatizar a importância do sacerdócio levítico. As diferenças entre a fonte Judia e a Sacerdotal são questões de ênfase, e não de discordância básica. 4) A Extensão do Dilúvio (7:6-8:19) 6 Tinha Noé seiscentos anos de idade, quando o dilúvio veio sobre a te rra . 7 Noé entrou na a rc a com seus filhos, sua m ulher e as m ulheres de seus filhos, por causa das águas do dilúvio. 8 Dos anim ais lim pos e dos que não são lim pos, das aves, e de todo réptil sobre a te rra , 9 e n traram dois a dois p a ra junto de Noé na arca, m acho e fêm ea, como Deus ordenara a Noé. 10 P assados os sete dias, vieram sobre a te rra as águas do dilú­ vio. 11 No ano seiscentos da vida de Noé, no m ês segundo, aos dezesseis dias do m ês, rom peram -se todas as fontes do grande abism o, e as jan elas do céu se ab riram , 12 e caiu chuva sobre a te rra quaren ta dias e quarenta noites. 13 N esse m esm o dia entrou Noé na arc a , e juntam ente com ele seus filhos Sem, Cão e Jafé, como tam bém sua m ulher e as três m ulheres de séus filhos, 14 e com eles todo anim al segundo a sua espé­ cie, todo o gado segundo a sua espécie, todo réptil que se a rra s ta sobre a te rra segundo a sua espécie, e toda ave segundo a sua espé­ cie, pássaros de toda qualidade. 15 E n tra ­ ra m p a ra junto de Noé n a arc a , dois a dois de toda a carne em que havia espírito de vida. 16 E os que en traram eram m acho e fêm ea de toda a carne, com o D eus lhe tinha orde­ nado; e o Senhor o fechou dentro. 17 Veio o dilúvio sobre a te rra durante q uaren ta d ia s; e as águas cresceram e lev an taram a arca, e ela se elevou por cim a da te rra . 18 P re v a ­ leceram as águas e cresceram grandem ente sobre a te rra ; e a a rc a vogava sobre as 198
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    águas. 19 Aság u as p rev aleceram excessiva­ m ente sobre a te rra ; e todos os altos m ontes que havia debaixo do céu foram cobertos. 120 Quinze côvados acim a deles prevalece­ ram as ág u as; e assim foram cobertos. 21 P ereceu toda a carne que se m ovia sobre a te rra , tanto ave como gado, anim ais selva­ gens, todo rép til que se a rra s ta sobre a te rra , e todo hom em . 22 Tudo o que tinha fôlego do espírito de vida em suas narinas, tudo o que havia na te rra seca, m orreu. 23 A ssim foram exterm inadas todas as c ria ­ tu ras que havia sobre a face da te rra , tanto o hom em como o gado, o réptil, e as aves do céu; todos foram exterm inados da te rra ; ficou som ente Noé, e os que com ele e sta ­ vam na a rc a . 24 E prevaleceram as águas sobre a te rra cento e cinqüenta dias. 1 Deus lem brou-se de Noé, de todos os anim ais e de todo o gado, que estav am com ele na a rc a ; e Deus fez p assar um vento sobre a te rra , e as águas com eçaram a dim inuir. 2 C erra­ ram -se as fontes do abism o e as jan elas do céu, e a chuva do céu se d etev e; 3 as águas se foram retirando de sobre a te rra ; no fim de cento e cinqüenta dias com eçaram a m in­ guar. 4 No sétim o m ês, no dia dezessete do m ês, repousou a a rc a sobre os m ontes de A rará. 5 E as águas foram m inguando até o décim o m ês; no décim o m ês, no prim eiro dia do m ês, ap areceram os cum es dos m on­ tes. 6 Ao cabo de quaren ta dias, abriu Noé a jan ela que havia feito na a rc a ; 7 soltou um corvo que, saindo, ia e voltava até que as águas se secaram de sobre a te rra . 8 Depois soltou um a pom ba, p a ra v er se as águas tinham m inguado de sobre a face da te rra ; 9 m as a pom ba não achou onde pousar a planta do pé, e voltou a ele p a ra a a rc a ; porque as águas ainda estavam sobre a face de toda a te rra ; e Noé, estendendo a m ão, tom ou-a e a recolheu consigo na arc a . 10 E sperou aind a outros sete dias, e tornou a soltar a pom ba fora d a arc a . 11 Â tard in h a a pom ba voltou p a ra ele, e eis no seu bico u m a folha verde de oliveira; assim soube Noé que as águas tinham m inguado de sobre a te rra . 12 E ntão esperou ainda outros sete dias, e soltou a pom ba; e esta não tornou m ais a ele. 13 No ano seiscentos e um , no m ês prim eiro, no prim eiro dia do m ês, seca- ram -se as águas de sobre a te rra . E ntão Noé tirou a cobertura da arc a , e olhou, e eis que a face da te rra estav a enxuta. 14 No segundo m ês, aos vinte e sete dias do m ês, a te rra estav a seca. 15 E ntão falou D eus a Noé, dizendo: 16 Sai da a rc a , tu, e juntam ente contigo tua m ulher, teus filhos e as m ulhe­ res de teus filhos. 17 Todos os anim ais que estão contigo, de toda a carne, tanto aves como gado e todo réptil que se a rra s ta sobre a te rra , traze-os p a ra fora contigo; p a ra que se reproduzam abundantem ente n a te rra , frutifiquem e se m ultipliquem sobre a te rra . 18 E ntão saiu Noé, e com ele seus filhos, sua m ulher e as m ulheres de seus filhos; 19 todo anim al, todo réptil e toda ave, tudo o que se m ove sobre a te rra , segundo as suas fam í­ lias, saiu da arc a . Nestas narrativas, a análise das fontes toma-se muito mais difícil, pois elas estão entremeadas, não mais sendo con­ secutivas, daqui por diante. Várias gerações de eruditos elaboraram um esquema de análise que Skinner (p. 147) descreveu como “justamente reconhecido como uma das mais brilhantes realiza­ ções da crítica literária” . O seu con­ senso é como se segue: Fonte Judia 6:1-8 7:1-5,7-10,12 7:16b (as últimas seis palavras) 7:17b,22,23 8:2b-3a,6-12 8:13b,20-22 Fonte Sacerdotal 6:9-22 7:6,ll,13-16a 7:18-21,24 8:l,3b-5,13a 8:14-19 9:1-17 Se esta análise é legítima, as duas fontes primárias estão em agudo desa­ cordo a respeito da extensão do dilúvio. A fonte Judia declara que choveu duran­ te quarenta dias. No fim daquele período Noé abriu a janela da arca e soltou o corvo. O relato Sacerdotal posterior diz que o dilúvio durou mais de um ano, e chegou a cobrir as montanhas. Desta forma, da maneira como a tradição era contada, o dilúvio tornou-se de duração maior, e as águas mais profundas. Esta situação é possível, visto que os relatos ainda estariam concordando ba­ sicamente, cada um deles dando teste­ munho independente a respeito do acon­ tecimento original do dilúvio catastró­ fico. Não obstante, tal análise de “tesou­ ra e cola” está sendo questionada seria­ mente hoje em dia. Eruditos responsá­ veis estão não apenas fazendo análises mais detalhadas, mas também outros 199
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    estão duvidando dopróprio método. Pre­ cisamos considerar seriamente a obser­ vação de Cassuto, que passa zelosamente a refutar a posição crítica aceita com a confiança de um líder em uma guerra santa (Vol. II, p. 33-42). Embora ele não tenha sucesso em convencer o leitor não influenciado anteriormente a respeito da não existência de dois relatos dessa his­ tória, de fato prova que o processo de análise detalhada deve ser questionado seriamente. De fato, não há razão válida por que a narrativa do dilúvio não possa ser inter­ pretada de maneira direta, sem colocar declarações contraditórias a respeito de sua extensão. Depois que choveu sobre a terra por quarenta dias e as fontes do abismo se haverem aberto, as águas per­ maneceram em nível de inundação até um total de cento e cinqüenta dias (7:24), quando seu nível baixou o suficiente para a arca repousar em terra firme. Só um mês depois, os topos das montanhas apa­ receram (8:5). Levou mais dois meses para as águas se escoarem do resto da terra (8:13), mas levou mais do que outro mês para que ela estivesse suficien­ temente seca para se poder andar nela. O período total de tempo foi pouco mais de um ano. A observação de que o Senhor o fechou dentro é uma declaração importante. Com homens se afogando ao seu redor, o justo Noé certamente não era surdo aos seus clamores. Quando Deus o fechou dentro da arca, ele não tinha mais como abrir a porta. Deus lembrou-se de Noé, de todos os animais e de todo o gado. Isto não signi­ fica que ele os tinha esquecido, mas que parecia para eles que estavam abando­ nados. Este pode ser o significado do grito de Cristo na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mat. 27:46). Quando se diz que Deus lembrou-se de Noé, este ousado antropomorfismo mar­ ca o que von Rad chama de “uma virada para a salvação, em direção à salvação até o evento em Jesus Cristo” . Deus não havia desistido de operar no mundo, embora pudesse parecer a Noé que tudo estava perdido, que Deus, depois de tê-lo instruído tão cuidadosamente, o havia deixado sobre as ondas revoltas de um mar sem fim, para morrer ali. Deus não havia esquecido Noé nem os propósitos que tinha para com a humanidade. Quando se diz que repousou a arca, a mesma raiz de que deriva o nome de Noé é usada. A promessa que havia em seu nome por fim havia sido cumprida. O envio de um corvo e de uma pomba é mencionado também na Epopéia de Gilgamesh, com a adição de uma ando­ rinha, mas a ordem é inversa, sendo enviada em primeiro lugar a pomba, e em último, o corvo. Esta história expres­ sa o costume antigo de levar pássaros em longas viagens marítimas. A direção para onde voavam quando eram soltos reve­ lava onde, possivelmente, se encontraria terra. Corvo e pomba constituem um agudo contraste na Escritura. Um é preto, e a outra, branca; um impuro, e a outra, pura; o primeiro selvagem, e a outra, domesticada. Era bem adequado que a mansa pomba trouxesse boas notícias a Noé. A folha verde de oliveira era rebento de uma árvore que começara a brotar de novo. O fato de que o corvo ia e voltava não era vôo constante sem descanso, mas indo e voltando para a arca, até poder aterrizar. Embora o retorno da pomba tivesse indicado que a terra estava começando a secar, Noé continuou esperando duran­ te quase dois meses, antes de sair da arca; ele estava esperando uma direção de Deus. Esse deve ter sido um período de provação, mas sair da arca cedo de­ mais iria expor os passageiros a doenças e outros problemas. Libertar um animal colocaria em risco a perda de uma espé­ cie. Tanto Jesus como Paulo sabiam co­ mo esperar as ordens de Deus para eles. 200
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    A vida deNoé de fato é uma lição de paciência. 5) O Sacrifício de Noé (8:20-22) 20 Edificou Noé um a lta r ao Senhor; e tom ou de todo anim al lim po e de toda ave lim pa, e ofereceu holocausto» sobre o a lta r. 21 Sentiu o Senhor o suave cheiro e disse em seu coração: Não to rn arei m ais a am ald i­ çoar a te rra por causa do hom em ; porque a im aginação do coração do hom em é m á desde a sua m eninice; nem to m arei m ais a ferir todo vivente, com o acabo de fazer. 22 E nquanto a te rra d u rar, não deixará de h aver sem enteira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, d ia e noite. Sentiu o Senhor o suave cheiro tem um paralelo claro na Epopéia de Gilgamesh. Os antigos criam que os deuses eram de fato revigorados e sustentados pelo fumo fortificante das ofertas queimadas. O relato do Velho Testamento não apre­ senta indícios de politeísmo, e a idéia é, provavelmente, já figurada na mente do escritor. O escritor bíblico é surpreendente­ mente ousado, ao dizer que conhecia a mente de Deus: ele disse em seu coração. Um homem não podia ser mais presun­ çoso do que isto, a não ser que, na verdade, Deus lhe tivesse revelado a sua mente. Esta é a reivindicação da Bíblia. Ou ela é verdadeiramente a Palavra de Deus, ou é patentemente enganosa. Esta conclusão da narrativa Judia do dilúvio revela o propósito primário em contar essa história. Embora a intenção do dilúvio fosse purificar a terra de seus habitantes ímpios, ele não resolveu o problema do pecado de uma vez por todas. Logo depois o justo Noé ficaria bêbado em sua tenda, e o seu filho exploraria a situação. Conhecendo a contínua pecaminosidade do homem, os preocupados habitantes da terra teme­ riam outro dilúvio universal, a cada chu­ va pesada. A história do dilúvio é conta­ da não tanto para enfatizar a ira de Deus, quanto a sua graça. Com a volta regular das estações do ano, o homem podia ficar seguro de sua graça contínua. A ira de Deus contra o pecado pode ter precisado tomar outras formas, mas a ameaça da volta do caos aquoso primevo estava removida para sempre. 6) A Aliança com Noé (9:1-17) 1 Abençoou D eus a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: F ru tificai e m ultiplicai-vos, e enchei a te rra . 2 T erão m edo e pavor de vós todo anim al d a te rra , toda ave do céu, tudo o que se m ove sobre a te rra e todos os peixes do m a r; nas vossas m ãos são entregues. 3 Tudo quanto se m ove e vive vos serv irá de m antim ento, bem com o a erv a verde; tudo vos tenho dado. 4 A carne, porém , com sua vida, isto é, com seu sangue, não com ereis. 5 C ertam ente requererei o vosso sangue, o sangue d as vossas vidas; de todo anim al req u ererei; como tam bém do hom em , sim , da m ão do irm ão de cada um requererei a vida do hom em . 6 Q uem d e rra m a r sangue de hom em , pelo hom em te rá o seu sangue derram ad o ; porque Deus fez o hom em à sua im agem . 7 M as vós frutificai, e m ultiplicai- vos ;povoai abundantem ente a te rra , e m ulti­ plicai-vos nela. 8 D isse tam bém D eus a Noé, e a seus filhos com ele: 9 E is que estab e­ leço o m eu pacto convosco e com a vossa descendência depois de vós, 10e com todo ser vivente que convosco e stá: com as aves, com o gado e com todo anim al d a te rra ; com todos os que sa íra m da arc a , sim , com todo anim al da te rra . 11 Sim , estabeleço o m eu pacto convosco; não será m ais destruída toda a carne pelas águas do dilúvio; e não h av erá m ais dilúvio, p a ra d estru ir a te rra . 12 E disse D eus: E ste é o m eu sinal do pacto que firm o entre m im e vós e todo ser vivente que está convosco, por gerações perpétuas: 13 O m eu arco tenho posto n as nuvens, e ele será por sinal de h av er um pacto en tre m im e a te rra . 14 E acontecerá que, quando eu trouxer nuvens sobre a te rra , e ap arecer o arco nas nuvens, 15 então m e lem b rarei do m eu pacto, que está en tre m im e vós e todo ser vivente de toda a carn e; e as águas não se to m arão m ais em dilúvio p a ra destru ir toda a carne. 16 O arco e sta rá nas nuvens, e olharei p a ra ele a fim de m e lem b rar do pacto perpétuo en tre D eus e todo ser vivente de toda a carne que está sobre a te rra . 17 Disse D eus a Noé ainda: E sse é o sinal do pacto que tenho estabelecido en tre m im e toda a carne que está sobre a te rra . Da mesma forma como Deus abençoa­ ra Adão e Eva no Jardim do Éden, ele 201
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    agora abençoa Noée seus filhos. De fato, este foi um novo começo. Não havia outros homens na terra, exceto esta famí­ lia, e até mesmo os sobreviventes dentre os animais eram os que reagiam mais favoravelmente a Deus, pois eles haviam obedecido ao seu chamado à arca (6: 20b). Adão e Eva haviam tido a desvan­ tagem de ter que começar em um mundo onde ninguém havia andado antes. Noé e sua família tinham o conhecimento da longa e frustrante história do homem até aquele dia. Agora, por fim, podia ser estabelecido um mundo segundo a von­ tade de Deus, embora a natureza exata das expectativas de Deus não fosse ex­ pressa de forma positiva. Noé e seus filhos não foram informados de como jogar o jogo da vida, mas informados claramente onde estariam fora dos limi­ tes. Devia ser claro para a família de Noé, depois da experiência do dilúvio, que Deus iria continuar a olhar favora­ velmente para um homem justo, e não iria tolerar o pecado de forma alguma. Instruções específicas foram dadas a Noé em relação ao respeito que o homem precisa ter pela vida dos animais e de seu semelhante. Ã luz do dilúvio, quando Deus havia destruído a vida de maneira tão coletiva, era fácil os homens terem a impressão de que a vida tinha pouco valor, e tirá-la sendo assunto de somenos importância. Deus tornou claro que esta inferência seria falsa. Por que então Deus permitiu que o homem comesse carne, visto que o havia proibido a princípio? Era uma extensão do domínio original do homem. “O ho­ mem primitivo vivia em constante medo das bestas selvagens; agora o domínio do homem devia ser demonstrado pelo temor e pavor que elas tinham dele” (Richardson, p. 107). O fato de que os animais devem a sua própria existência a Noé é também um fator importante, em adição à situação vivencial. Algum tempo se passaria antes que se colhesse alguma coisa. Nesse ínterim Noé podia comer a carne dos animais, alguns dos quais deviam ter-se multiplicado consi­ deravelmente durante um ano que ha­ viam passado na arca. O homem havia errado grandemente, ao supor que a entrega dos animais em suas mãos dava a entender que ele pode matar à vontade e explorar o mundo animal. O lembrete de que ele deve res­ peitar a vida (heb., alma) que há no sangue indica que há algo alheio à verda­ deira natureza da existência no fato de o homem comer carne. Isaías previu que chegaria o tempo quando nem homem nem animais comerão mais carne (Is. 11:6-9). Enquanto não chega esse tempo, o entendimento deste comentarista é que o mundo ainda não alcançou o alvo estabelecido para ele, que estava na men­ te de Deus desde o princípio. A razão dada para a seriedade do ho­ micídio é o respeito devido não somente à vida, mas também à imagem de Deus que há em cada homem. Quando o ho­ mem não tem respeito a Deus, tem pouco respeito ao valor de outro homem. Nesta passagem, Deus decreta que o homem terá a responsabilidade de vingar a morte de outro homem. É aqui que é dada a sanção divina para o governo civil da sociedade humana, com o poder de vida e morte sobre os seus membros. Richard­ son (p. 110) cita William Temple, que disse: “É dada ao Estado a força para que ele possa impedir que os marginais usem a força” (cf. Rom. 13:1-7; I Ped. 2:13-17; I Tim. 2:1-3). Como o refere Alan Richardson: “O Estado não ‘mur­ chará’ nesta era mundial, pois ele é estabelecido pelo ‘pacto eterno’ de Deus com a humanidade” (p. 109). O pacto previsto em 6:18 agora é feito com Noé e seus descendentes, desta for­ ma, com todos os homens que viverão. Ele é entre Deus e a humanidade, dife­ rindo a este respeito do efetuado com Abraão (Gên. 12) e com Israel (Êx. 19). Não é na forma de um acordo mútuo, como o que foi feito com Israel. Pelo 202
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    contrário, Deus iniciao acordo, decla­ rando o que fará; ele nunca mais des­ truirá a terra por um dilúvio. As palavras são mais uma declaração do que um pacto, se vistas isoladamente. Isto é o que Deus, em sua graça, fará, não im­ porta o que o homem faça. Portanto, como é que isto pode ser considerado um pacto, se apenas uma das partes envol­ vidas fala? Pacto, neste contexto, pro­ vavelmente, significa um vínculo ou acordo, não necessariamente mútuo. Em sua graça, Deus concorda em nunca mais enviar outro dilúvio universal. Con­ tudo, envolvida neste pacto, está a sua expectativa de que o homem respeitará a vida, como é declarado na passagem anterior, pois ele é baseado nessa admo­ estação. Espera-se que o homem mani­ feste esta consciência, como base das declarações de Deus. Se o homem falhar em suas responsabilidades, Deus ainda assim não negará a sua promessa. Ele pagará a desobediência do homem de outras formas (v. 5). 7) A Maldição de Canaã (9:18-29) 18 O ra, os filhos de Noé, que saíram da arca, foram Sem , Cão e Ja fé ; e Cão é o pai de C anaã. 19 E stes trê s foram os filhos de N oé; e destes foi povoada toda a te rra . 30 E com eçou Noé a cultivar a te rra e plantou um a vinha. 21 Bebeu do vinho, e em briagou- se ; e achava-se nu dentro da sua tenda. 22 E Cão, pai de C anaã, viu a nudez de seu pai, e o contou a seus dois irm ãos, que estavam fora. 23 E ntão to m aram Sem a Jafé um a capa, e puseram -na sobre os seus om bros, e andando virados p a ra trá s, cobriram a n u ­ dez de seu pai, tendo os rostos virados, de m aneira que não viram a nudez de seu pai. 24 D espertado que foi Noé do seu vinho, soube o que seu filho m ais m oço lhe fizera; 25 e d isse: M aldito seja C an aã; servo dos servos será de seus irm ãos. 26 D isse m a is: Bendito seja o Senhor, o D eus de S em ; e seja-lhe C anaã por servo. 27 A largue Deus a Jafé, e habite Jafé nas tendas de Sem ; e seja-lhe C anaã por servo. 28 Viveu Noé, depois do dilúvio, trezentos e cinqüenta anos. 29 E foram todos os dias de Noé novecentos e cinqüenta anos; e m orreu. Dificilmente encontraremos uma pas­ sagem do Velho Testamento mais difícil de interpretar.13 Esta passagem era o texto favorito dos pregadores sulistas, durante a Guerra Civil nos Estados Uni­ dos, ao declararem o direito do homem branco de escravizar os negros. Usada freqüentemente, em tempos recentes, para defender a segregação, esta passa­ gem é a fonte não reconhecida do ditado comum nos Estados Unidos (e quiçá na Ãfrica do Sul): “Um negro está bem em seu lugar”, pelo qual se infere que a sua posição apropriada é secundária, em relação ao branco. Esta passagem começa mencionando os três filhos de Noé em sua ordem comum: Sem, Cão e Jafé, dos quais todos os homens são considerados descenden­ tes. As dificuldades de interpretação começam com o versículo 20. A versão da IBB diz: E começou Noé a cultivar a terra, e plantou uma vinha, que não apresenta nenhum problema para o lei­ tor brasileiro. Se ele pudesse ler a RSV inglesa, porém, ficaria em dúvida; ela diz: “Noé foi o primeiro lavrador do solo. Ele plantou uma vinha.” Isto está em direta contradição com as passagens anteriores de Gênesis, que asseveram que Adão era jardineiro e Caim lavrador. Os que esposam esta tradução admitem prontamente este fato, mas consideram que o versículo vem de fonte diversa. Dizem que o hebraico não pode permitir outra tradução. Quais sãos os fatos? Uma tradução literal seria: “E Noé, o homem da terra, começou e plantou uma vinha.” O termo peculiar “homem da terra” pode dar a entender um lavrador, ou, como suge­ re Cassuto, “senhor da terra” . Antes do dilúvio, provavelmente, existiam vinhas; mas até essa época, aparentemente, Noé não havia plantado uma. Porém é até 13 Cf. artigo por Clyde T. Francisco, em Chrfstfaníty Today, 24 de abril de 1964, p. 8-10. 203
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    possível que elecultivasse vinhas antes do dilúvio. Esta passagem não resolve esta questão, mas dá a entender um novo empreendimento de Noé. O seu pai, La- meque, era lavrador, e esta, provavel­ mente, era a ocupação de Noé antes do chamado de Deus para preparar-se para o dilúvio (5:29). Não somos informados se Noé estava familiarizado com os efeitos do vinho. Certamente devia estar. Jesus disse que “comiam e bebiam” antes do dilúvio (Mat. 24:38), frase que, provavelmente, se refere a beber vinho (cf. I Sam. 30:16; Mat. 11:18,19). Talvez a tentação de provar o produto de seu trabalho tenha sido forte demais para Noé, e ele logo ficou bastante bêbado, revelando que não estava acostumado com aquele hábi­ to. A pessoa que se embriaga apenas uma vez não é um bêbado; é um tolo. Emerge da bebedeira como um homem açoitado. A cena que se segue é familiar. O justo Noé havia sido o veículo do triunfo de Deus sobre as forças do mal no mundo. Os ímpios haviam sido destruídos, e Noé e sua família haviam sido poupados, para edificarem um novo mundo. Mas o homem que havia enfrentado ser ridi­ cularizado por seus vizinhos e toda a tempestade do dilúvio não era capaz de enfrentar o desafio dos tempos de paz. Com a oportunidade de dar início a uma sociedade ideal, Noé foi encontrado bê­ bado em sua tenda. Alguns comentaristas notam que não há nenhuma palavra de condenação contra Noé por sua bebedice; toda a culpa parece recair sobre Cão. No entan­ to, dificilmente se pode ignorar os versí­ culos 28 e 29 à luz de 6:9, onde se diz que Noé “andava com Deus” . No capítulo 5 é usada a mesma expressão a respeito de Enoque, cuja recompensa foi a sua trasladação para o céu. Teria sido esta também a experiência de Noé, se ele não tivesse pecado? Qual foi o pecado de Cão? Alguns sugerem que o versículo 24 dá a entender que ele havia cometido um ato homos­ sexual com seu pai (cf. Lev. 18:7 e ss.). Esta interpretação não se justifica, e revela uma falta de compreensão tanto da atitude hebraica a respeito da nudez quanto da passagem. O mundo moderno tem sido influenciado tão fortemente pela glorificação grega do corpo, que é bem difícil entender as atitudes dos antigos hebreus. No Jardim do Éden, as folhas de figueira não podiam cobrir suficiente­ mente a nudez de Adão e Eva; por isso Deus os vestiu com peles. Quando os profetas descrevem os horrores do exílio, um dos mais terríveis é a nudez forçada dos cativos. Durante o fim da era dos Macabeus, os judeus piedosos ficaram grandemente perturbados pela inaugura­ ção, em Jerusalém, de um ginásio grego, onde se exercitavam homens nus. O que foi que Cão fez ao seu pai? Ele desonrou-o, expondo ao mundo a sua vergonha. Cão não poderia ter sido cul­ pado por tropeçar em seu pai bêbado, mas foi culpado por relatar aos outros a condição de seu pai. O que seus irmãos fizeram, ele deveria ter feito: devia ter coberto seu pai, e não ter dito nada a respeito. Há dois argumentos convin­ centes contra a idéia de que Cão cometeu um ato homossexual: (1) ele contou a seus irmãos, sem que eles tenham ficado irados contra ele; (2) “Se cobrir a nudez foi o remédio adequado, segue-se que o delito fora confinado a ver” (Cassuto, II, p. 151). Como foi que Noé ficou sabendo o que Cão lhe havia feito? Será que Sem e Jafé lho contaram? Isto é de se duvidar, pois, se eles o tivessem feito, seriam também culpados de expor a vergonha de seu irmão, da mesma forma como ele fizera com a de seu pai. Noé, provavelmente, ficou curioso por causa da roupa estra­ nha que estava sobre ele, e fez inqui­ rições. 204
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    Alguns comentaristas enfatizamque Noé estava em um estupor de embria­ guez ou no meio de uma terrível “res­ saca”, quando pronunciou as suas famo­ sas palavras. As observações de um ho­ mem, em tal condição, não deviam ser levadas a sério, concluem eles. Contudo, Noé parece que estava suficientemente bem para perceber o que lhe havia acon­ tecido. Não somos informados quanto tempo se passou, mas é evidente que Noé estava na posse de todas as suas facul­ dades quando pronunciou o seu oráculo. Mesmo que não estivesse, as suas pala­ vras teriam sido levadas a sério pelos hebreus. Como observa S. R. Driver: “Era crença dos antigos que a maldição ou bênção de um pai não era meramente a expressão de uma esperança ou desejo intensos, mas que ela exercia um poder real na determinação do futuro de um filho” (p. 109). A tarefa mais perturbadora que se defronta com a interpretação tradicional desta passagem é a de dar uma explica­ ção adequada para o fato de a maldição ter caído sobre Canaã, e não sobre Cão. Há várias soluções aventadas para este enigma, sendo uma delas considerar o oráculo de Noé como uma predição de maldição. Noé, tendo recebido per­ cepção a respeito do futuro das nações, vê as conseqüências do pecado de Cão manifestando-se no destino de seu filho. Com um pai como Cão, o filho estava perdido. Outra possibilidade é que a história do pecado de Cão foi contada por muitos anos entre semitas e hebreus. Depois que os hebreus se estabeleceram na Palestina e se tornaram familiarizados com os ca- naneus, perceberam que o pecado de Cão estava se cumprindo em Canaã. As con­ seqüências de seu pecado estavam sendo sentidas pelos seus descendentes, na Palestina. Os versículos 25 a 27 foram compostos para expressarem este fato em poesia imortal. O desprazer de Noé havia caído sobre Canaã. Desta forma, a mal­ dição não é um exemplo de como um homem inocente estava sendo culpado pelo pecado de seu pai, mas de como um povo estava sofrendo as conseqüências do pecado de um seu ancestral. Eram os çananeus de fato descenden­ tes de Cão? Pouco sabemos a respeito de sua origem, mas é certo que etnicamente ou politicamente ou de ambas as formas eles eram descendentes de Cão. Outra coisa é clara: eles não eram negros. A maldição sobre Canaã de forma alguma tem algo a ver com os vexatórios pro­ blemas entre brancos e pretos, em nossos dias. Alguns expositores insistem, toda­ via, que a maldição de Noé deve ter caído sobre todos os descendentes de Cão. Canaã foi individualizado por Noé; mas, obviamente, dizem eles, o próprio Cão deve ter sido amaldiçoado, se o seu filho sofreu golpe tão rude, de outra forma, Deus não seria justo. Portanto, dizem eles, os negros, como descendentes de Cão, devem também ter sofrido a mal­ dição! Objeções óbvias se levantam contra esta posição. Primeiro, embora seja apa­ rente que Cão recebeu a culpa pelo seu pecado, não sabemos qual foi o seu cas­ tigo. A Escritura silencia a este respeito, e qualquer conjetura é perigosa. Segun­ do, significa isto que os outros povos camíticos — egípcios, líbios, sul-arábios — também serviriam aos europeus e hebreus? Em outras palavras, um ho­ mem livre deveria escravizar a outro? Poucas pessoas esposariam este ponto de vista. Terceiro, se nos tempos de igno­ rância, Deus permitiu tal servidão, as implicações do Novo Testamento elimi­ nariam tal tipo de relacionamento para o crente, hoje em dia. 6. Os Descendentes de Noé (10:1-32) 1 E stas, pois, são a s gerações dos filhos de Noé: Sem , Cão e Jafé, aos quais nasceram filhos depois do dilúvio. 2 Os filhos de Jafé: G om er, M ágogue, M adai, Ja v ã , T ubal, Me- seque e T iras. 3 Os filhos de G om er: Asque- naz, R ifate e T ogarm a. 4 Os filhos de Ja v ã : E lisá, T ársis, Q uitim e D odanim . 5 P o r estes 205
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    foram rep artidas as Ilhas das nações nas suas te rra s, cad a quál segundo a sua língua, segundo a s suas fam ílias, en tre a s suas nações. 6 Os filhos de C ão: Cuche, M izraim . P ute e C anaã. 7Os filhos de C uche: Seba, Ha- vilá, Sabtá, B aam á e S abtecá; e os filhos de R aam á são Sebá e D edã. 8 Cuche tam bém gerou a N inrode, o qual foi o prim eiro a ser poderoso n a te rra . 9 E le e ra poderoso caça­ dor diante do Senhor; pelo que se diz: Como N inrode, poderoso caçador diante do Senhor. 10 O princípio do seu reino foi Babel, Ere- que, A cade e Calné, na te rra de Sinar. 11 D esta m esm a te rra saiu ele p a ra a As­ síria e edificou N ínive, R eobote-Ir, C alá, 12 e R ésen, entre N ínive e C alá (esta é a grande cidade). 13 M izraim gerou a Ludim , A nam im , L eabim , N aftuim , 14 P atru- sim , C asluim (donde sa íra m os filisteus) e C aftorim . IS C anaã gerou a Sidom, seu prim ogênito, e H ete, 16 e ao jebuseu, o am orreu, o girgaseu, 17 o heveu, o ar- queu, o sineu, 18 o arvadeu, o zem areu e o ham ateu. Depois se esp alh aram a s fam í­ lias dos cananeus. 19 Foi o term o dos cana- neus desde Sidom, em direção a G erar, até G aza; e daí em direção a Sodom a, G om orra, A dm á e Zeboim , até L asa. 20 São esses os filhos de Cão segundo as suas fam ílias, se­ gundo as suas línguas, em suas te rra s, em suas nações. 21 A Sem , que foi o p ai de todos os filhos de E b er e o irm ão m ais velho de Jafé, a ele tam bém n asceram filhos. 22 Os filhos de Sem fo ram : E lão, A ssur, Arfa- xade, Lude e A rão. 23 Os filhos de A rão : Uz, Hul, G eter e M ás. 24 A rfaxade gerou a Selá; e Selá gerou a E b er. 25 A E b er n a s­ ceram dois filhos: o nom e de um foi Pele- gue, porque nos seus dias foi dividida a te rra ; e o nom e de seu irm ão foi Joctã. 26 Jo ctã gerou a A lm odá, Selefe, H azarm avé, Je rá , 27 H adorão, U sai, D icla, 28 O bal, Abi- m ael, Sebá, 29 Ofir, H avilá e Jo b ab e: todos esses foram filhos de Jo ctã. 30 E foi a sua habitação desde M essa a té Sefar, m ontanha do oriente. 31 E sses são os filhos de Sem segundo as suas fam ílias, segundo as suas línguas, em suas te rra s, segundo as suas nações. 32 E ssas são as fam ílias dos filhos de Noé, segundo as suas gerações, em suas nações; e delas foram dissem inadas as nações na te rra depois do dilúvio. Não existe um relato da situação inter­ nacional da antiguidade tão compreen­ sivo como a tabela de nações encontra­ da neste capítulo da Bíblia. O âmbito geográfico dos povos se estende, ao nor­ te, até o Mar Negro, ao leste, até o planalto iraniano, ao sul, até as nascentes do Nilo, e, ao oeste, até a Espanha. Este capítulo não faz nenhuma tentativa para incluir todas as nações debaixo do sol, pois ele mesmo dá a entender que havia outros povos não mencionados (cf. 10: 4b, 30b). São incluídas as nações que tinham fronteira com a Palestina ou nela viviam. Há considerável evidência de que há um arranjo esquemático definido nesta lista. O número de nações totaliza, apro­ ximadamente, setenta, total que era pre­ sumido pelos comentários rabínicos pos­ teriores. Esses setenta devem ser com­ parados com as setenta pessoas da famí­ lia de Jacó que desceram ao Egito. O hebraico de Deuteronômio 32:8 significa literalmente: “Ele fixou os limites dos povos de acordo com o número dos filhos de Israel” , comentário que certamente identifica o número como esses mesmos setenta. Israel era considerado como “um microcosmo, similar ao macro- cosmo, quanto à forma” (Cassuto, II, p. 180). A RSV segue a LXX, que, provavelmente, preserva uma opinião rabínica de que havia setenta anjos mi­ nistrando ao redor do trono de Deus. Quando Jesus enviou os setenta (Luc. 10:1), isso pode ter simbolizado a sua missão, em última análise, ao mundo todo. Também existe um aparente jogo com os números 7 e 12, nesta lista. Jafé tem sete filhos, e os seus netos também são sete. O total de filhos e netos de Cuche é sete, bem como a soma dos descendentes do Egito (Mizraim). Canaã teve doze filhos; Sem tem doze descendentes, até Pelegue; e Joctã tem quatorze. Ao invés de ser vista como uma lista étnica com­ pleta, ela deve ser considerada como artifício mnemónico para ajudar a lem­ brar o nome dos habitantes do mundo na região palestina. Toda uma literatura tem sido criada ao redor deste capítulo. Speiser fez as mais valiosas contribuições para o nosso 206
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    conhecimento. (Veja oseu comentário, onde há uma análise detalhada de iden­ tificações possíveis.) Contudo, muitos desses nomes são-nos desconhecidos, exceto a sua menção nesta lista. É bem possível que muitos deles não fossem entendidos nem mesmo pelos compila­ dores desta lista, mas foram incluídos porque faziam parte de sua informação tradicional. Há muitas correspondências entre os nomes de Gênesis 10 e o livro de Ezequiel (cf. Ez. 27-28; 32; 38-39); mas não é provável que Ezequiel meramente copiou de Gênesis, pois ele está ciente de material diferente do encontrado aqui. Deve ter havido outras fontes das quais ambos os compiladores conseguiram os seus materiais. Quando foi compilada a lista de Gêne­ sis 10? Von Rad sugere que foi durante o último século do Reino de Judá. Cassuto insiste que foi muito antes. Tudo o que pode ser dito com certeza é que grande parte deste material é bem antigo, como pode ser toda a lista. A análise das fontes tradicionais divide este capítulo como se segue: fonte Sacer­ dotal, versículos 1-7,20,22,31,32; fonte Judia, versículos 8-19,21,24-30. Este pro­ cesso é seriamente debatido nos anos recentes, e é necessário proceder-se com grande cautela, nesta área. A me­ lhor parte da sabedoria, em face de tanta incerteza, é trabalhar com o fluxo básico da passagem, que é fiel, sem se considerar quando ela foi compilada. A opinião de muitos eruditos é que o material desta lista tem valor pequeno ou nulo para se reconstruir a relação étnica verdadeira dos povos em questão. “As pessoas mencionadas são epônimas; isto quer dizer que são pessoas chamadas à existência para dar razão ao nome de um povo ou país... Esta lista tem pequeno valor científico, à luz da etnologia mo­ derna” (Richardson, p. 116-17). Kidner tem opinião diferente: “A maior parte desses nomes parece ser de indivíduos, embora eles se encontrem mais tarde no Velho Testamento como povos, tanto quanto os nomes pessoais de Israel, Edom e Moabe” (p. 105). O fato de que alguns desses nomes da lista estão cla­ ramente na forma plural (os que termi­ nam em im, como “Quitim”) não signi­ fica que todos eles estejam no plural; pelo contrário, o autor está combinando nomes individuais com nomes étnicos. Esta lista é, obviamente, mais orienta­ da geograficamente do que etnicamente, embora o fator étnico não possa ser ignorado. As tribos de Jafé se localizam na região do Egeu e da Ãsia Menor; o povo camita ao sul e leste da Palestina, os semitas ao nordeste (primariamente a região do Crescente Fértil). Se uma nação vivia em território ocupado por certo grupo étnico, podia ser classificada com o grupo prevalecente. Desta forma os cananeus podem ser considerados aparentados com Cão, porque naquela época eles estavam sujeitos ao Egito. Os assírios chamavam os reis do Reino do Norte (Israel) de “filhos de Onri” muito tempo depois que a dinastia de Onri foi destruída. Samuel foi considera­ do filho de Levi depois de sua adoção por Eli. Quando um povo se mudava para território de outra nação, tornava-se “filho” desse país. Não importa a origem nacional, todos os brasileiros são consi­ derados pelos outros povos como parte da mesma cepa étnica. Desta forma, Seba e Havilá podiam ser colocados tanto no grupo de Cão como no de Sem, pois, embora um homem possa ter um só pai, um povo pode colocar-se sob a influência de várias culturas. O pior insulto que Ezequiel podia fazer a Israel era dizer: “Teu pai era amorreu, e a tua mãe hetéia” (Ez. 16:3). Aqui, ele não está descrevendo ascendência étnica, mas a influência sofrida pelo seu modo de vida. Desta forma, Oséias fez insulto seme­ lhante a Israel, quando vociferou: “Ca- naã!” (Os. 12:7, heb. lit.). Seu pai era Canaã, e não Abraão. 207
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    Esta lista dasnações é a primeira tentativa do mundo antigo de compor um relato compreensivo dos habitantes do mundo. Revela como os escritores bíbli­ cos tinham consciência de que Israel precisava ser considerado em relação ao resto do mundo. O escritor não se con­ tenta em avançar em um processo de afunilamento, de Adão até Abraão. Antes de se voltar para Abraão, ele faz os seus leitores se lembrarem do mundo em que ele veio à luz. 0 seu objetivo principal não pode ser perdido de vista, em meio ao exame minucioso de dados antropológicos. Ele está asseverando que todos os povos são descendentes de um só homem, Noé, e que, portanto, pertencem a uma só famí­ lia. Quando ele diz que elas se espalha­ ram, está usando o mesmo verbo empre­ gado em 2:10, a respeito do rio que sai do jardim, abrindo-se em quatro braços. A tragédia da história humana é que os homens se tornaram tão divididos que a sua irmandade essencial foi obscure­ cida. Se os homens pertencem a uma só família, devem ser capazes de viverem juntos, em paz; e, como os profetas de Israel sonharam, um dia eles o farão. A tarefa de cada pessoa e de todas as gerações é aproximar-se desse alvo final o máximo possível. 7. A Torre de Babel (11:1-9) 1 O ra, toda a te rra tinha um a só língua e um só idiom a. 2 £ deslocando-se os hom ens p a ra o oriente, ach aram um vale na te rra de Sinar; e ali h ab itaram . 3 D isseram uns aos outros: E ia, pois, façam os tijolos, e quei­ m em o-los bem . Os tijolos lhes serv iram de p edras e o betum e de arg am assa. 4 D isse­ ra m m ais: E ia, edifiquem os p a ra nós um a cidade e u m a to rre cujo cum e toque no céu, e façam o-nos um nom e, p a ra que não. seja­ m os espalhados sobre a face de toda a te rra . 5 E ntão desceu o Senhor p a ra ver a cidade e a torre que os filhos dos hom ens edificavam ; 6 e disse: E is que o povo é um , e todos têm um a só língua; e isto é o que com eçam a fa z e r; ag o ra não h av erá restrição p a ra tudo o que eles Intentarem fazer. 7 E ia, desça­ m os, e confundam os ali a sua linguagem , p a ra que não entenda um a língua do outro. 8 A ssim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a te rra ; e cessaram de edificar a cidade. 9 P o r isso se cham ou o seu nom e B abel, porquanto ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a te rra , e dali o Senhor os espalhou sobre a face de toda a to rra. Os acontecimentos descritos neste ca­ pítulo precedem grande parte da disper­ são mencionada no capítulo 10. A Lista das Nações é colocada em primeiro lu­ gar, tanto porque a ocasião da morte de Noé requeria um sumário genealógico, como se a dispersão ocorrida depois do incidente na torre de Babel devesse ser vista à luz da unidade essencial do ho­ mem. O objetivo principal desta passagem não é dar resposta à questão das dife­ renças de linguagem diretamente suge­ ridas. Ela procura falar a respeito desse problema, porém é, primordialmente, uma condenação da insensibilidade e do orgulho que caracterizaram aquele pro­ jeto. O acontecimento central, nesta histó­ ria, é a edificação de uma torre ciyo cume toque os céus. Expressões seme­ lhantes de fato eram usadas pelos babi­ lônios a respeito de seus templos, parti­ cularmente o dedicado a Marduque, na Babilônia. Quando os versículos 1 a 19 foram escritos, o zigurate existente na Babilônia, construído, provavelmente, no período de Hamurabi (décimo oitavo e décimo sétimo séculos a.C.) estava em ruínas, que falavam eloqüentemente de sua glória passada. Contudo, esta refe­ rência não é a uma catástrofe que ocor­ rera tão perto da época de Abraão, mas a uma bem mais anterior. Speiser está correto em presumir que esta narrativa depende mais da história da criação dos babilônios do que do zigurate da Babi­ lônia propriamente dito. Sem dúvida, os hebreus tinham as suas tradições a res­ peito de uma tentativa, antes mesmo que o local se chamasse Babel, de edificar ali um templo que precedera o esforço de Hamurabi. Este último fora uma tenta­ tiva de reconstruir as ruínas anteriores, à luz da Enuma Elish. 208
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    Desde a análiseminuciosa desta pas­ sagem, feita por Gunkel, os eruditos têm manifestado a tendência de ver aqui duas edições revisadas: uma história da “tor­ re” e uma história da “cidade” . Cassuto, de maneira característica, responde a esses esforços com a seguinte observação: “Nenhum escritor hebreu inteligente teria produzido textos insípidos assim” (II, p. 236). Ele acha que esta narrativa é um exemplo chocante de arte literária (p. 231-34). É suficiente observar que esta passagem passa facilmente de cida­ de para torre, não porque há duas edi­ ficações, mas porque em uma cidade ba­ bilónica típica a área do templo era a sua razão de ser. A cidade era um adjunto do zigurate, que era a sua estrutura mais evidente. Bem semelhante às cidade- zinhas do interior brasileiro, onde a torre da igreja católica é a estrutura mais im­ ponente. O que havia de errado em se construir uma torre ciyo cume toque no céu (um arranha-céu)? Para o escritor da narra­ tiva de Gênesis, o pecado residia em sua motivação. Façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados. O homem fora feito para viver para a glória de Deus, e a sua busca legítima de um nome bom e permanente precisa ser realizado nesse contexto. Deus apelou para Abraão com base no engrandecimento de seu nome (12:1-3), mas isso devia ser reali­ zado no serviço de Deus. Desde o prin­ cípio, Deus tinha ordenado ao homem para ser frutífero e multiplicar-se e en­ cher a terra, e a ordem fora reiterada a Noé. O homem devia encher a terra toda, e não apenas um canto dela. Até o dia de hoje o problema populacional não é essencialmente de falta de espaço na terra para todo o seu povo, mas o fato de que as pessoas desejam viver no mesmo lugar (as cidades) e não se preocupam com as partes do mundo menos afortu­ nadas do que aquela em que estão. Para os babilônios, a palavra Babel significava “portão de Deus”. Para o escritor inspirado, ela passou a ter um significado hebraico: “lugar de confu­ são” . Todos os esquemas utópicos em que os homens se preocupam apenas consigo mesmos e com a sua prosperi­ dade pessoal terminam em caos seme­ lhante a esse. Os homens egoístas sem­ pre serão insensíveis aos pensamentos e às necessidades dos outros, e as suas tentativas de edificar por fim fracas­ sarão. O escritor não diz como aconteceu a confusão de línguas. Ele está mais inte­ ressado na razão para ela, em quem a ocasionou e o seu resultado final. Deus usa várias maneiras de efetivar a sua vontade, mas ele reage sempre de manei­ ra semelhante ao comportamento do homem, com resultados comparáveis. A intenção do escritor é ensinar que, sem­ pre que o homem se preocupar apenas com as suas tentativas pessoais de alcan­ çar a fama, esses esforços estão conde­ nados ao fracasso. Enquanto os homens não se espalharem voluntariamente, ele os dispersará compulsoriamente, em­ pregando os diversos meios que lhe estão à disposição, para realizar os seus pro­ pósitos finais. Uma só língua e um só idioma. Esta não é uma tradução satisfatória. O es­ critor certamente estava cônscio de que, na ocasião de tal acontecimento, os ho­ mens haviam desenvolvido um vocabu­ lário extenso. O hebraico mais literal é “uma linguagem e uma (a mesma) pala­ vra (s)”. Os povos português e brasileiro falam a mesma língua, mas nem sempre usam as mesmas palavras (moço-gar- çom, etc.). Naquela época remota, está dizendo o escritor, eles não falavam ape­ nas a mesma língua: usavam as mesmas palavras. Não se haviam desenvolvido ainda dialetos diferentes. Isto significa que considera-se que este acontecimento teve lugar em épocas bem remotas, bem distantes do escritor. Não precisamos procurar esta situação vivencial no ter­ ceiro e segundo milênios a.C. A época 209
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    exata está perdidanas brumas do pas­ sado, mas a sua memória continua. Eía, edifiquemos. Note-se a repetição desta expressão no v. 4, e a resposta idên­ tica de Deus no v. 7. Os tjjolos lhes servi­ ram de pedras. O escritor palestino não estava impressionado com os materiais de construção, em que eles haviam feito investimento tão grande. Então desceu o Senhor. Não para descobrir (ele já sa­ bia), mas para inspecionar mais de perto. Esta expressão constitui uma iro­ nia antropomórfica. Eles estavam edifi­ cando uma torre até o céu, e Deus tinha que “descer” para inspecioná-la. Filhos dos homens é a exata contrapartida he­ braica da frase “filhos de Deus” em 6:2. Agora não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer. Um grande elogio. Só um fator impede determinados homens de alcançarem os seus objetivos: a vontade de Deus. Deixados por conta própria, os homens podem alcançar os alvos que planejam e pelos quais traba­ lham criativamente. Contudo, a não ser que trabalhem dentro da vontade de Deus, eles não serão deixados à vontade. 8. Os Ancestrais de Abraão (11:10-26) 10 E stas são as gerações de Sem . Tinha ele cem anos, quando gerou a A rfaxade, dois anos depois do dilúvio. 11 E viveu Sem, depois que gerou a A rfaxade, quinhentos anos; e gerou filhos e filhas. 12 A rfaxade viveu trin ta e cinco anos, e gerou a Selá. 13 Viveu A rfaxade, depois que gerou a Selá, quatrocentos e trê s anos; e gerou filhos e filhas. 14 Selá viveu trin ta anos, e gerou a E b er. 15 Viveu Selá, depois que gerou a E b er, quatrocentos e trê s anos; e gerou filhos e filhas. 16 E b er viveu trin ta e quatro anos, e gerou a Pelegue. 17 Viveu E ber, depois que gerou a Pelegue, quatrocentos e trin ta anos; e gerou filhos e filhas. 18 P ele­ gue viveu trin ta anos, e gerou a R eú. 19 Viveu Pelegue, depois que gerou a Reú, duzentos e nove a n o s; e gerou filhos e filhas. 20 R eú viveu trin ta e dois anos, e gerou a Serugue. 21 Viveu R eú, depois que gerou a Serugue, duzentos e sete anos; e gerou filhos e filhas. 22 Serugue viveu trin ta anos, e gerou a N aor. 23 Viveu Serugue, depois que gerou a N aor, duzentos an o s; e gerou filhos e filhas. 24 N aor viveu vinte e nove anos, e gerou a T era. 25 Viveu N aor, depois que gerou a T era, cento e dezenove anos; e gerou filhos e filhas. 26 T era viveu setenta anos, e gerou a A brão, a N aor e a H arã. Até aqui, o pecado do homem havia sido sempre acompanhado por um ato de graça. Adão e Eva foram vestidos; Caim foi protegido; aos sobreviventes do dilú­ vio foi feita uma promessa. Para as famí­ lias dos homens dispersas não vem ne­ nhuma palavra confortadora de Deus, de fato, nenhuma palavra, absolutamen­ te. Significa isto que Deus finalmente desistiu de amparar o homem? Pode ter parecido que isto aconteceu durante sé­ culos, pois não há indícios de comuni­ cação direta entre Deus e o homem. Imediatamente depois da catástrofe da torre de Babel, a narrativa repete o mo­ nótono refrão de Gênesis 5: “Viveu, e gerou.” Mais uma vez o homem se havia acomodado a viver os seus dias sem esperança. Contudo, o leitor depressa olhará para diante, e verá que 11:10 e ss. está pre­ parando o palco para o ato mais signi­ ficativo desde a criação: a chamada de Abraão. A graça de Deus estava ali o tempo todo, esperando um receptáculo apropriado. A experiência da torre de Babel provou que só um refinamento radical nos relacionamentos entre Deus e o homem redundaria satisfatório. Nem a criação nem a ira haviam garantido o propósito de Deus para o homem. Onde estas iniciativas haviam falhado., a graça agora precisava ter êxito. Esta passagem está colocada aqui, cla­ ramente, para preparar para a chamada de Abraão. Não se menciona Israel no capítulo 10, na Lista de Nações, omissão que deve ser devida a uma grande restri­ ção da parte do escritor. Agora ele avan­ ça diretamente para o seu alvo: o nasci­ mento de Abraão. Quando as genealo­ gias desta passagem são comparadas com as do capítulo 5, há muitas seme­ lhanças, mas as diferenças são ainda mais notórias. Sem viveu apenas um 210
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    pouco mais dametade de um patriarca antediluviano típico, e a longevidade cai drasticamente para 400 anos, nas três gerações seguintes. Depois de Eber, ela é cortada novamente pela metade, e conti­ nua em cerca de 200 anos, até Tera. Obviamente, os 120 anos decretados por Deus em 6:3 não se aplicavam à duração da vida dos indivíduos, mas aos anos de graça antes do dilúvio. Será que era o pecado que estava encurtando a vida do homem? As evidências científicas dispo­ níveis indicam que a duração da vida do homem primitivo era menor do que hoje em dia, mas, obviamente, toda pessoa falecida não teve o seu corpo exumado e examinado. Aparentemente, o escritor está enfatizando o declínio gradual da energia dada ao homem por ocasião da criação. 9. A Família de Tera (11:27-32) 27 E stas são as gerações de T era: T era gerou a A brão, a N aor e H arã; e H ará gerou a Ló. 28 H arã m orreu antes de seu pai T era, na te rra do seu nascim ento, em U r dos C aldeus. 29 A brão e N aor to m aram m ulhe­ res p a ra si: o nom e da m ulher de A brão e ra S arai, e o nom e da m ulher de N aor e ra Milca, filha de H arã, que foi pai de M ilca e de Iscá. 30 S arai e ra e sté ril; não tinha filhos. 31 Tomou T era a A brão seu filho, e a Ló filho de H arã, filho de seu filho, e a S arai sua nora, m ulher de seu filho A brão, e saiu com eles de U r dos C aldeus, a fim de ir p a ra a te rra de C anaã; e vieram a té H arã, e ali h abitaram . 32 F o ram os dias de T era duzen­ tos e cinco anos; e m orreu T era em H arã. Tanto Ur como Harã eram importan­ tes centros de adoração da lua, e o fato de Tera ter vivido lá provavelmente indi­ ca que ele estava envolvido com esse culto. Porém, o fato de que Tera prati­ cava a idolatria (Jos. 24:2) não significa que ele também não estivesse familia­ rizado com o verdadeiro Deus. Labão afirma que o Deus de Naor e Tera era o Deus de Abrão (31:53). Quando Abrão foi chamado, não lhe foi necessário aban­ donar o deus de seus pais, mas apenas purificar a sua adoração a ele. Muitas das tradições peculiares do Velho Testa­ mento foram preservadas pelos ances­ trais de Abraão, enquanto eles estavam também praticando a idolatria. Há uma variação significativa na fór­ mula usada para as genealogias do capí­ tulo 11* quando elas são comparadas com as do capítulo 5. A fórmula “viveu, gerou, morreu”, no capítulo 5, é revisa­ da, sendo omitida, no capítulo 11, em cada caso, a frase “e morreu” até o fale­ cimento de Harã, filho de Tera. No caso de Tera, é usada novamente a velha fórmula (v. 32). Esta omissão em relação às biografias anteriores deve ter sido intencional. O versículo 28 diz, literal­ mente, que Harã “morreu diante da face de seu pai” . As palavras “ele morreu” haviam sido excluídas anteriormente, a fim de enfatizar a importância da morte de Harã. Nas genealogias, era incomum o fato de os filhos morrerem antes de seus pais. Esta perda deve ter influenciado a família, levando-a a abandonar Ur e se mudar para a direção de Canaã. Uma família piedosa havia ficado absorvida demais com a vida pagã de Ur, e havia comprometido a sua fé. Gênesis 11:26 diz que “Tera viveu setenta anos, e gerou a Abrão, a Naor e a Harã”. Isto não significa que eles eram trigêmeos, pelo contrário, eles nasceram depois que ele completou setenta anos, tendo nascido o mais velho naquele ano. Abrão. Este nome pode ter várias interpretações. Há duas idéias básicas nesta palavra: “pai” e “exaltado”, mas a relação entre as duas é discutível. Signi­ fica “pai exaltado”, ou “aquele que exal­ ta o seu pai”? Um pai daria a seu filho o nome de “pai exaltado”? Embora este seja o significado mais provável, a situa­ ção sugere que este nome foi dado para expressar o orgulho do pai com o nasci­ mento de um filho. Ur dos Caldeus. Os caldeus não vie­ ram a controlar a região de Ur senão bem depois da época de Abraão. Esta pode ser simplesmente uma expressão explica­ tiva, usada para facilitar a compreensão 211
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    de uma geraçãoposterior. Contudo, esta expressão deve ter sido usada em refe­ rência a tribos nômades semítico-oci- dentais, localizadas nesta região na pri­ meira parte do segundo milênio a.C. (Cassuto). Sacai. Este nome significa princesa ou rainha. A forma dada a este nome, Sara, no pacto, é simplesmente uma redação variante. Ela dificilmente poderia supe­ rar este nome. Ali habitaram. Aparentemente, Tera foi a única causa de eles não terem ido adiante, pois fora ele quem os dirigira, ao sairem de Ur. O fato de que eles se dirigiam a Canaãindica que Abrão deve ter influenciado a sua decisão de sair de Ur. Uma coisa era sair de lá para Harã, pois essa região, provavelmente, era a terra natal de Tera; porém, sair de Harã importava em uma mudança no estilo de vida que, de alguma forma, ele não podia suportar. Desta forma, estava preparado o palco para o grande empreendimento de Abraão pela fé. II. As Narrativas Sobre Abraão (12:1-25:18) Gênesis 11 nos faz lembrar que, depois dos notáveis eventos associados com o grande dilúvio, a vida voltou ao ciclo aparentemente sem significado de nascer, ter filhos e morrer. No capítulo 5, Eno­ que interrompera a cadeia de aconteci­ mentos, mas com seu filho Matusalém o estado de coisas anterior voltou. Com a chamada de Abrão, a história tomou uma nova direção, que nunca permitiria uma volta ã normalidade. Deus estava empreendendo algo novo; ele chamou Abrão para colocar esse empreendimento em movimento. Os capítulos 1-11 haviam sido preparatórios para este momento. De Agora em diante Deus não iria tra­ balhar apenas com indivíduos; ele iria chamar um povo para servi-lo. As narrativas preservadas nesta seção podem ser testadas pela arqueologia mo­ derna, não somente porque os eventos descritos pertencem a períodos atestados pelos registros seculares, mas também porque numerosas escavações e desco­ bertas de manuscritos antigos têm lança­ do considerável luz sobre a situação cul­ tural geral da época.14 Com esses mate­ riais aprendemos que nomes semelhantes aos das genealogias hebraicas eram co­ muns na época (décimo oitavo século a.C.), que costumes peculiares mencio­ nados eram praticados nesse período, e não em Israel, posteriormente, e que as viagens de Abrão através de Canaã eram possíveis porque as regiões que ele mais freqüentemente ocupou com os seus re­ banhos eram habitadas bem esparsa- mente na época. Obviamente, estes fatos não provam, por si mesmos, a exatidão de cada declaração histórica desta seção de Gênesis. Nem sempre os arqueólogos têm sido capazes de verificar a exatidão das narrativas de Gênesis. E também não têm sido capazes de provar que elas são inexatas. Onde quer que eles tenham en­ contrado evidências, elas reforçaram as declarações bíblicas. 1. A Chamada de Abrão (12:1-3) 1 O ra, o Senhor disse a A brão: Sai-te da tu a te rra , d a tu a parentela, e da casa de teu pai, p a ra a te rra que eu te m ostrarei. 2 E u farei de ti u m a grande n a ç ã o ; abençoar-te- ei, e engrandecerei o teu n o m e; e tu, sê um a bênção. 3 A bençoarei aos que te abençoa­ rem , e am aldiçoarei àquele que te am ald i­ çoar; e em ti serão benditas todas as fam í­ lias d a te rra . Ora, o Senhor disse a Abrão. A cha­ mada de Abrão aconteceu em Ur ou em Harã? Em o Novo Testamento, Estêvão diz que ela aconteceu em Ur (At. 7:2). É bom que se note que Estêvão não foi um escritor da Escritura. O fato de que Estêvão conhecia o Senhor não prova mais o seu conhecimento detalhado do Velho Testamento do que de qualquer pessoa que tenha as mesmas caracterís­ ticas hoje em dia. Se ler o relato de 14 Cf. John Bright, A HIstory of Israel (Philadelphia: Westminster Press, 1959), p. 60-86. 212
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    Gênesis sem tomarconhecimento da pas­ sagem de Atos, nunca ocorrerá ao leitor que Abrão foi chamado em outro lugar que não tenha sido Harã. Contudo, não há razão por que não nos possamos identificar com Estêvão, e concluir que a chamada de Abrão aconteceu tanto em Ur quanto em Harã, não porque a passagem o diga claramente, mas porque isso está implícito, pois a família se dirigiu a Canaã quando saiu de Ur (11:31). Abrão, provavelmente, havia influenciado o seu pai a viajar para Canaã quando estavam em Ur. Agora Tera não queria ir além, e assim a chamada foi renovada de forma mais clara. Sai-te da tua teria, da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. Aqui temos as exigências cla­ ras que Deus fez a um homem de fé. Assim como Paulo ensina em Gálatas 3, estamos mais perto do Novo Testamento nesta passagem do que na lei do Sinai. Eu farei de ti. Como ensinavam os rabis do Talmude, a promessa feita a Abrão foi sétupla(cf. Cassuto): (1) Ele seria o pai de uma grande nação. A palavra hebraica usada aqui é goy, e não am (povo). É um conceito político, implicando em uma base terri­ torial (Speiser). Aqui de fato se encon­ trava o teste da fé de Abraão em Deus, porque com setenta e cinco anos ele ainda não tinha herdeiro! (2) Deus o abençoaria durante a sua vida. Isto significava que ele iria ser protegido de qualquer dano e que ele gozaria do favor de Deus de formas ainda não imaginadas. (3) O próprio Abrão seria uma figura mundial (o seu nome iria ser grande). Não se pode culpar um homem por que­ rer ser conhecido em círculos mais am­ plos. O erro está na razão indigna para esse desejo e nos métodos questionáveis empregados para alcançá-lo. (4) Ele seria uma bênção para outras pessoas. Não é suficiente querer um lugar de destaque só por amor à fama. Abrão seria abençoado por Deus para que pu­ desse ajudar os outros. Cargos elevados devem inspirar um senso de responsa­ bilidade, e não de mero gozo dos privi­ légios especiais neles inerentes. (5) As suas bênçãos seriam comparti­ lhadas com aqueles que o recebessem, pois desta forma eles declarariam a sua abertura para com Deus. (6) Os que amaldiçoassem (degradas­ sem, desprezassem) Abrão, com esse ato revelariam insensibilidade para com Deus, que estava operando nele, e preci­ pitariam a ira de Deus sobre si próprios. (7) A sua influência benéfica seria uni­ versal. “Temos, aqui, a primeira alusão ao conceito do universalismo inerente na fé de Israel.” 2. Abrão em Canaã (12:4-9) 4 P artiu , pois, A brão, como o Senhor lhe ordenara, e Ló foi com ele. Tinha A brão seten ta e cinco anos quando saiu de H arã. 5 A brão levou consigo a S arai, su a m ulher, e a Ló, filho de seu irm ão, e todos os bens que haviam adquirido, e as alm as que lhes acresceram em H arã; e saíram a fim de irem à te rra de C anaã; e à te rra de Canaã. chegaram . 6 P assou A brão pela te rra a té o lugar de Siquém , a té o carvalho de M oré. N esse tem po estav am os cananeus n a te rra . 7 A pareceu, porém , o Senhor a A brão, e disse: À tu a sem ente d arei esta te rra . A brão, pois, edificou ali um a lta r ao Senhor, que lhe ap arecera. 8 E ntão passou dali p a ra o m onte ao oriente de Betei, e arm ou a sua tenda, ficando-lhe B etei ao ocidente, e Ai ao oriente; tam bém ali edificou um a lta r ao Senhor, e invocou o nom e do Senhor. 9 D e­ pois continuou A brão o seu cam inho, se ­ guindo ain d a p a ra o sul. Esta passagem ensina claramente que a fé de Abrão era tal que ele tomou uma decisão positiva de aceitar o desafio de Deus. O único problema era o fato de que Ló o estava acompanhando. Isto acontecia, aparentemente, não por con­ vite de Abrão, mas por iniciativa de Ló. De fato, Abrão estava disposto a deixar Ló para trás, mas ainda não era neces­ sário. O homem que está disposto a abandonar tudo pode nem sempre ser 213
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    solicitado a fazê-lo.Acontecimentos pos­ teriores o tomariam necessário, mas agora isso não era requerido. As almas que lhes acresceram em Harã. Como observa Cassuto, não é pro­ vável que esta passagem se refira a escra­ vos, pois eles seriam incluídos nos bens mencionados; e o termo lhes acresceram (heb., fizeram) dificilmente seria a pa­ lavra usada para a aquisição de um escravo. É mais provável que ela se apli­ que às pessoas de Harã que haviam sido convencidas da causa de Abrão. Uma comunidade religiosa já estava come­ çando! O carvalho de Moré era, provavelmen­ te, a cena de um santuário cananeu. O lugar de Siquém pode indicar isto, pois este termo freqüentemente se aplicava a um lugar sagrado, embora não em todos os casos. Isto não significa que Abrão endossava a adoração pagã ali executa­ da, mas que ele demonstrava uma ado­ ração mais apropriada do verdadeiro Deus, como Paulo o faria em Atenas. Ele construiu um novo altar nesse lugar sa­ grado. Era para isso que a adoração cananéia estava apontando o tempo todo. Estavam os cananeus na terra. Isto não quer dizer, necessariamente, que na época do escritor eles não estavam mais na terra. O significado era que estava sendo dada a Abrão uma terra já ocupa­ da por outrem. Como é que ela podia tomar-se dele? Mais uma vez a sua fé estava sendo testada. A tensão é um tanto relaxada quando Deus informa a Abrão que ele a vai dar aos seus des­ cendentes. É-lhe dito que o processo levará séculos (15:12-16). Mais uma vez ele é chamado para crer em Deus. Deve- se notar que Abrão não sabia que terra deveria ser sua até tê-la percorrido. Ra­ ramente uma pessoa conhece antecipa­ damente a vontade final de Deus para com ela. Ela vai encontrá-la à medida que seguir o seu Senhor em fé. 3. A Peregrinação no Egito (12:10-13:1) 10 O ra, havia fom e naquela te rra ; A brão, pois, desceu ao E gito, p a ra p ereg rin ar ali, porquanto e ra grande a fom e n a te rra . 11 Quando ele estav a p restes a e n tra r no Egito, disse a Sarai, sua m ulher: O ra, bem sei que és m ulher form osa à v ista; 12 e acontecerá que, quando os egípcios te virem , dirão: E sta é m ulher dele. E m e m atarão a m im , m as a ti te g uardarão em vida. 13 Dize, peço-to, que és m inha irm ã, p a ra que m e vá bem por tu a causa, e que viva a m inha alm a em atenção a ti. 14 E aconteceu que, e n tran ­ do A brão no E gito, v iram os egípcios que a m ulher e ra m ui form osa. 15 Até os prínci­ pes de F a ra ó a viram e g abaram -na diante dele; e foi levada a m ulher p a ra a ca sa de F araó . 16 E ele trato u bem a A brão por cau sa dela; e este velo a te r ovelhas, bois e Jum entos, servos e serv as, jum entas e c a ­ m elos. 17 F eriu , porém , o Senhor a F a ra ó e a sua casa com grandes p rag as, por cau sa de S arai, m ulher de A brão. 18 E ntão cham ou F a ra ó a A brão, e disse: Que é isto que m e fizeste? por que não m e disseste que ela e ra tu a m ulher? 19 P o r que disseste: É m inha irm ã? de m an eira que a tom ei p a ra ser m inha m ulher. A gora, pois, eis aqui tu a m ulher; tom a-a e vai-te. 20 E F araó deu ordens aos seus guardas a respeito dele, os quais o despediram a ele, e a su a m ulher, e a tudo o que tinha. 1 Subiu, pois, A brão do Egito p a ra o N egebe, levando su a m ulher e tudo o que tinha, e Ló o acom panhava. Esta história tem paralelo em 20:1-18 (Sara e Abimeleque) e 26:6-11 (Rebeca e Abimeleque). Muitos eruditos (cf. von Rad) consideram estas três narrativas como edições revistas de uma história original de um patriarca expondo a sua esposa. O relato original agora está pre­ servado em três narrativas diferentes. Nome como o de Yahweh (Senhor) ocorre no capítulo 12, enquanto Elohim (Deus) aparece no capítulo 20. Como é que Abi­ meleque podia ser enganado duas vezes por esse estratagema, levado a efeito por pai e filho? Será que o justo Abrão seria capaz mais uma vez de manifestar tal du­ plicidade, depois de ter sido prejudicado no Egito? Tais considerações estão por detrás da teoria de uma história original comum. 214
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    Outros eruditos (cf.Kidner) defendem esses relatos como independentes. A pas­ sagem, da maneira como agora a temos, não diz que era costume de Abraão agir de maneira enganosa como essa (20:13, que alguns comentaristas consideram uma tentativa do redator de conciliar os dois relatos). Seria natural que um filho, especialmente Isaque, imitasse o seu pai. O Abimeleque do capítulo 26 pode não ser o mesmo do capítulo 20. Pais e filhos, da mesma forma como hoje em dia, tinham o mesmo nome de nobreza. Dentre outros problemas existentes nesta passagem, o principal é o de Sara ser tão bela com a idade de 65 anos. Cassuto argumenta que as idades não devem ser consideradas literalmente, mas elas aparecem desta forma pelo amor à “harmonia numérica” : Abrão viveu 75 anos com seu pai, 25, em Canaã, sem filho, e 75 com seu filho Isaque. Cassuto argumenta que os antigos não conservavam estatísticas de nascimentos da maneira como as sociedades ociden­ tais modernas fazem. Nenhuma tenta­ tiva era feita de serem exatos em termos de idade. O objetivo da história toda, no entan­ to, é dizer que Sara não era apenas velha demais para ter filhos, mas velha demais para ter prazer sexual (18:12). É o relato Sacerdotal que afirma que Abraão tinha 75 anos (e, por conseguinte, Sara tinha 65) quando eles entraram em Canaã. Muitos expositores acham que este pre­ sente relato da fonte Judia considerava Sara muito mais nova quando eles entra­ ram na Palestina. Ninguém pode negar como algumas mulheres de 65 anos de idade são atraentes. Faraó não teria hesi­ tado em acrescentar ao seu harém uma notável mulher de idade, para dar-lhe variedade. Era muito mais fácil conse­ guirjovens do que uma raridade dessas! Há algumas pessoas que tentam de­ fender Abrão. Speiser diz que, visto que alguns antigos freqüentemente elevavam a esposa à condição de irmã, foi isto que Abraão fez. Gerações posteriores não sabiam que ato nobre fora aquele, e o confundiram com um ato de duplicida­ de! Essa solução levanta mais interroga­ ções do que o problema original. Cassuto sugere que Abrão queria ficar vivo para que pudesse rechaçar quaisquer tenta­ tivas de se apropriarem de Sara. Por outro lado, outras pessoas censu­ ram Abrão fortemente. Holzinger afirma que Abrão, “com vergonhosa baixeza, abandona a sua esposa à concupiscên­ cia de um potentado estrangeiro, e con­ segue vantagens materiais de seu negócio sujo” (traduzido por Cassuto, II, p. 348). Gunkel, todavia, enfatiza as falhas do autor do texto, que parece se deleitar com a capacidade de Abrão de exceder em esperteza os seus inimigos no Egito. Cassuto suspeita, com razão, que tais pontos de vista resultam de “uma falta de simpatia para com Israel e sua Tora” (uma forma indireta de acusar de anti- semitismo!). Na realidade, o autor simplesmente registrou a história, sem comentários, da maneira como ela lhe chegou às mãos, nem endossando nem criticando o com­ portamento de Abrão. Ele, Abrão, é retratado como um homem desprepara­ do para um teste como esse, completa­ mente desmoralizado e agindo comple­ tamente sem compostura, como os me­ lhores homens o fazem tão freqüente­ mente. Não obstante, há uma corrente subjacente, nesta história, que critica claramente a duplicidade de Abrão. Era muito embaraçoso, para o pai dos ju­ deus, ser deportado do Egito por um Faraó cujo senso de direito era mais elevado do que o seu. E não se deve igno­ rar que, provavelmente, entre os presen­ tes que ele aceitou de Faraó, estava uma serva egípcia, chamada Agar. Deve ter ocorrido muitas vezes, nos anos seguin­ tes, que Abrão deplorou ter aceito este presente. A ênfase primordial desta história, todavia, é freqüentemente esquecida, no 215
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    debate a respeitoda análise das fontes e torpeza moral. Como o explica von Rad (p. 164 e s.) de maneira tão eloqüente: Yahweh não permite que a sua obra aborte logo no princípio; ele a resgata e preserva além de todos os fracassos humanos... Se Yahweh não se desviou em sua obra de história sagrada por causa do fracasso e da culpa dos receptores da promessa, então a sua palavra deve realmente merecer crédito. A narrativa de como Abrão colocou em perigo a promessa é uma recordação de que a pessoa a quem a promessa é feita é muitas vezes o seu maior inimigo. 4. Abrão eLó (13:2-18) Abrão é lembrado, em Israel, como um homem de fé (cf. 12:1 e ss.; 15:6; Rom. 4:3; Tiago 2:21,23); Ló é conhe­ cido como homem justo (cf. 19:1 e ss.; II Ped. 2:6-8). Estes conceitos derivaram corretamente da descrição feita, dos dois homens, nos relatos de Gênesis. Embora ambos cressem em Deus e numa vida reta, Abrão estava pronto para seguir a Deus até o desconhecido, enquanto Ló fazia o que achava correto. Quando co­ meçaram a sua viagem, a diferença entre os dois era notada apenas no fato de que Abrão dirigia a caravana. Mais tarde, as diferenças entre eles se tornaram tão marcantes que ambos verificaram a ne­ cessidade de seguirem caminhos sepa­ rados. 1) A Separação (13:2-13) 2 A braão e ra m uito rico em gado, em p ra ta e em ouro. 3 N as suas jo rn ad as subiu do Negebe p a ra B etei, a té o lugar onde outrora estiv era a su a tenda, entre B etei e Ai, 4 até o lu g ar do a lta r, que dantes ali fizera; e ali invocou A brão o nom e do Se­ nhor. 5 E tam bém Ló, que ia com A brão, tinha rebanhos, gado e tendas. 6 O ra, a te rra não podia sustentá-los, p a ra eles h abitarem ju n to s; porque os seus bens e ram m uitos; de modo que não podiam h ab itar juntos. 7 Pelo que houve grande contenda entre os pasto­ res do gado de A brão, e os pastores do gado de Ló. E nesse tem po os cananeus e os perizeus habitavam n a te rra . 8 D isse, pois, A brão a Ló: O ra, não h a ja contenda entre m im e ti, e entre os m eus~pastores e os teus pastores, porque som os irm ãos. 9 P orven­ tu ra não está toda a te rra diante de ti? Bogo-te que te ap artes de m im . Se tu esco­ lheres a esquerda, irei p a ra a d ireita; e se a d ireita escolheres, irei eu p a ra a esquerda. 10 E ntão Ló levantou os olhos, e viu toda a planície do Jordão, que e ra toda bem reg ad a (antes de h av er o Senhor destruído Sodom a e G om orra), e e ra com o o jard im do Senhor, como a te rra do E gito, até chegar a Zoar. 11 E Ló escolheu p a ra si toda a planície do Jordão, e p artiu p a ra o oriente; assim se ap a rta ra m um do outro. 12 H abitou A brão na te rra de C anaã, e Ló habitou nas cidades da planície, e foi arm ando a s suas tendas até chegar a Sodom a. 13 O ra, os hom ens de Sodom a e ra m m aus e grandes pecadores contra o Senhor. Abrão e Ló continuaram a sua viagem juntos, usando a mesma rota de sua peregrinação anterior, até Betei, mas não de volta a Siquém. Em Betei, Abrão reno­ vou os seus votos a Deus, e não avançou mais em direção à sua terra natal. Será que a tentação de voltar a Harã teria sido grande demais, se eles tivessem chegado até Siquém? A riqueza de Abrãc, gran­ demente aumentada pela aventura no Egito, consistia de ouro e prata, bem como de gado. A riqueza de Ló ainda se baseava em seus rebanhos e manadas. Com a ulterior multiplicação de seus animais, os dois parentes se defrontaram com outro teste de fé. Canaã não era apenas uma terra onde podiam ocorrer secas, com a conseqüente fome, mas os seus pastos podiam apenas sustentar limitados rebanhos (v. 6a). Os servos de Abrão e os pastores de Ló começaram a discutir a respeito do direito que tinham sobre as pastagens. Tendo os cananeus a rodeá-los por todos os lados (v. 7) tal conflito civil podia ser suicida. Desta forma, as diferenças que surgi­ ram por causa do problema da riqueza e crescimento tomaram necessária uma separação. Porém este foi apenas o ato final de um prolongado drama. Por al­ gum tempo os acontecimentos se haviam movido para essa direção. Geralmente amigos íntimos não concordam com uma separação final, só porque os seus servos 216
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    respectivos haviam estadoa discutir. Primeiro vieram a dúvida, os pressenti­ mentos, e, finalmente, a certeza de que eles não poderiam mais peregrinar jun­ tos. As suas almas se haviam separado; o homem de fé e o homem justo. Isto é revelado claramente pela sua maneira de agir na hora da crise. (*) A Atitude de Abrão. — Seja qual tenha sido a perda material de Abrão, precisava haver paz entre esses irmãos de sangue. O homem mais favorecido deu preferência ao menos favorecido, embora ele pudesse dizer justificadamente a Ló: “Esta terra é minha, e se você não con­ seguir controlar os seus servos, vá embo­ ra”, ou: “Visto que não existe espaço suficiente aqui para nós dois, eu vou além; você fique com o que sobrar.” Pelo contrário, ele deu a Ló a oportunidade de escolher. A Atitude de Ló. — É claro que a escolha de Ló não foi sábia, à luz da conhecida depravação das cidades da planície (v. 13). Dois fatores levaram-no a escolher esse território: (1) A fertili­ dade daquela região. Para ele, ela pare­ cia com o Jardim do Êden, pois era como o Egito, quando pela primeira vez eles haviam chegado lá, fugindo da fome que havia em Canaã. Se eles vivessem em uma região assim, o medo da fome (ou mesmo da perda de sua esposa, em outra crise no Egito) seria removido para sem­ pre. (2) Ló não escolheu uma região que Abrão prezava. Ao escolher o Vale do Jordão, ele foi para uma área que Abrão não havia demonstrado nenhuma incli­ nação para visitar. De fato, Ló escolheu terra que desejava, mas também era ter­ ritório que ele sabia muito bem não interessar a Abrão. (*) NOTA DO EDITOR: Em tudo isto, a mão invi­ sível de Deus estava por detrás dos aconteci­ mentos. A palavra a Abrão (12:1) fora para sair do meio de seus parentes. Contudo, quiçá por ignorância, ele continuava com um parente, seu sobrinho Ló. Este acontecimento veio com­ pletar esse propósito de Deus para a vida de Abrão. Contudo, a decisão de Ló, por lógica e correta que lhe parecesse, tinha várias falhas evidentes: (1) Ele agiu impulsiva­ mente demais. A atitude prudente teria sido reagir à generosidade de Abrão sugerindo que Abrão fizesse a escolha em primeiro lugar, e que ele ficasse com o que sobrasse. O imponente panorama da planície bem regada, com a chance de que ela fosse sua, foi mais do que a que ele podia resistir. (2) Ele não considerou as últimas conseqüências de sua decisão. Pensou que iria meramente viver fora das cidades ímpias (v. 12b), mas logo estava dentro delas, estando a sua famí­ lia exposta a todas as tentações a que a sua alma justa era imune. (3) Ele não fez tentativa para discernir a vontade de Deus no assunto. Talvez não soubesse como fazê-lo. Até então havia seguido a Abrão, e não a Deus. Quando Abrão o deixou à vontade, ele estava inteiramente por sua própria conta. Nessa hora, reti­ dão nunca é suficiente. Só a fé é sufi­ ciente. 2) Renovação da Promessa (13:14-18) 14 £ disse o Senhor a A brão, depois que Ló se apartou dele: L evanta ag o ra os olhos, e olha desde o lu g ar onde estás, p a ra o norte, p a ra o sul, p a ra o oriente e p a ra o ocidente; 15 porque toda esta te rra que vês, te hei de d ar a ti, e à tu a descendência, p a ra sem pre. 16 E farei a tu a descendência com o o pó da te rra ; de m an eira que se puder ser contado o pó da te rra , então tam bém poderá ser contada a tua descendência. 17 L evanta-te, percorre esta te rra , no seu cum prim ento e n a sua la rg u ra ; porque a d arei a ti. 18 E ntão m udou A brão as suas tendas, e foi h ab itar junto dos carvalhos de M anre, em H ebrom ; e ali edificou um a lta r ao Senhor. As afirmações de Deus a Abrão são feitas não apenas em resposta à sua cuidadosa atuação em relação a Ló, mas à luz do fato de que finalmente Abrão havia cumprido a obrigação de deixar todos os seus parentes (12:1). A sua separação para o serviço de Deus agora estava completa. A promessa agora con­ tinha outras ênfases novas: (1) Pela pri­ meira vez Abrão era informado de que 217
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    aquela terra lheseria dada. Em 12:7, ela devia ser dada aos seus descendentes. (2) Portanto, foi-lhe dito que percorresse a terra, não mais como peregrino, mas como seu novo proprietário. A posse propriamente dita precisava esperar séculos, mas a escritura já estava em suas mãos! (3) Os seus descendentes não se­ riam apenas numerosos (12:2), mas inu­ meráveis como o pó da terra sobre que os pés de Abrão estavam firmados (13:16). (4) Foi-lhe dito que olhasse na mesma direção que Ló olhara (cf. v. 10 com v. 14), bem como em todas as outras di­ reções. O que Ló escolhera, mais tarde pertenceria a Abrão e a seus descen­ dentes. O homem de fé tinha feito a decisão correta. Arriscando tudo, ele receberia ainda mais. Embora tivesse sido dito a Abrão para andar por toda a largura e comprimento da terra, reivindicando-a toda, ele se satisfez em mudar-se para Hebrom, como sua localização preferida. Mesmo um homem de fé fica cansado de conti­ nuar avançando para a cidade invisível. Descansar em Hebrom era suficiente­ mente tranqüilizador. Não obstante, Deus tinha outros planos. É desconhecido o lugar verdadeiro do altar de Abrão em Hebrom. Na anti­ guidade, grandes árvores caracterizavam esse lugar. Sozomen, historiador da Igre­ ja (quinto século d.C.), relata que o local de terebintos que lá havia era lugar de uma famosa feira, freqüentada por gran­ de número de judeus, cristãos e árabes. Escavações mais recentes indicaram que esse lugar foi ocupado desde a Era do Bronze até o período moderno, e parti­ cipara das civilizações cananéia, isra­ elita, romana, bizantina e árabe. Essa região ainda é sagrada, tanto para árabes quanto para judeus. 5. Abrão, o Cidadão do Mundo (14:1-24) Speiser expressa a opinião dos intér­ pretes do Velho Testamento em geral, quando observa que “Gênesis 14 se so­ bressai como ímpar entre todos os relatos do Pentateuco, se não de toda a Bíblia. O palco é internacional, a abordagem é impessoal, e a narrativa, notável, por seu estilo e vocabulário inusitados” (p. 105). Este capítulo não tem nenhuma das características das outras fontes, e não pode ser classificado como material das fontes Judia, Israelita do Norte ou Sa­ cerdotal. De fato, ele apresenta evidências de ter-se derivado de uma fonte autentica­ mente não judia (cf. Speiser): (1) A guer­ ra é datada segundo o reinado de reis estrangeiros (os invasores), quando o costume era datar um evento segundo o reinado dos reis locais. (2) A fórmula com que este capítulo tem início (“Nos dias de”) não é tipicamente hebraica, porém mais provavelmente adaptação da palavra babilónica enuma (enquanto). (3) Os nomes dos invasores não são fictícios, e, sim, têm um toque de auten­ ticidade. (4) Os nomes dos defensores também não são imaginários, pois, do contrário, o escritor não teria hesitado em criar um nome para o rei de Belá (v. 2)! (5) Abrão é mencionado como “o hebreu” (v. 13), termo jamais aplicado no Velho Testamento a um judeu, exceto por alguém que não fosse judeu ou por um judeu identificando-se para um não- judeu (cf. 39:14; 40:15; 43:32; Jon. 1:9). (6) O título do Deus de Melquisedeque, bem como a existência desse ofício de Sacerdote em Jerusalém, são atestados pelos materiais recentemente descobertos no Oriente Próximo. Por que os editores finais de Gênesis, de todos os materiais que lhes estavam disponíveis, estranhos às fontes Judia, Israelita do Norte e Sacerdotal, escolhe­ ram esta narrativa em particular, para incluí-la no livro? Parece haverem duas razões básicas: (1) Era o único material existente, em fontes estranhas a Israel, que atestava da existência histórica do homem Abrão. “Na falta de um texto não-israelita, mencionando um Abrão, 218
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    filho de Tera,ou um Isaque filho de Abrão, este é o mais próximo, a que podemos chegar, de um testemunho epigráfico direto do patriarca” (Speiser). (2) Esta narrativa reforça as reivindi­ cações da linhagem real de Davi sobre a lealdade israelita (cf. Sal. 110). Se Abrão reconheceu o sacerdócio real desse antigo rei de Jerusalém, Melquisedeque, os seus descendentes não deveriam fazer menos que isso. Abrão se curva apenas diante de Melquisedeque, dentre os imponen­ tes reis da narrativa. A referência implí­ cita ao governo davídico é, provavelmen­ te, a indicação mais convincente de uma data para a redação final do material constante do capítulo 14: a última parte do reinado de Davi. Isto não significa que o material histórico foi criado com objetivos de propaganda, mas, pelo con­ trário, já estava disponível em sua forma antiga, para utilização legítima naquela época. 1) Ló e os Reis Tiranos (14:1-12) 1 Aconteceu nos dias de A nrafel, rei de Sinar, Arioque, rei de E lasar, Quedorlao- m er, rei de E lão, e Tidal, rei de Goiim, 2 que estes fizeram g u erra a B era, rei de Sodoma, a B irsa, rei de G om orra, a Sinabe, rei de A dm á, a Sem eber, rei de Zeboim, e ao rei de B elá (esta é Z oar). 3 Todos estes se a ju n ta ­ ram no vale de Sidim (que é o M ar Salgado). 4 Doze anos haviam servido a Quedorlao- m er, m as ao décim o terceiro ano reb ela­ ram -se. 5 P o r isso, ao décim o quarto ano veio Q uedorlaom er, e os reis que estavam com ele, e feriram aos refains em A sterote- C arnaim , aos zuzins em Hão, aos em ins em Savé-Q uiriataim , 6 e aos horeus no seu m on­ te Seir, até E l-P arã, que está junto ao de­ serto. 7 Depois v oltaram e vieram a En- M ispate (que é C ades), e feriram toda a te rra dos am alequitas, e tam bém aos am or- reus, que habitavam em H azazom -T am ar. 8 E ntão saíram os reis de Sodoma, de Go­ m o rra, de A dm á, de Zeboim e de B elá (esta é Z oar), e ordenaram batalh a contra eles no vale de Sidim, 9 contra Q uedorlaom er, rei de E lão, T idal, rei de Goiim, A nrafel, rei de Sinar, e Arioque, rei de E la sa r; quatro reis contra cinco. 10 O ra, o vale de Sidim estava cheio de poços de betum e; e fugiram os reis de Sodom a e de G om orra, e caíram ali; e os restan tes fugiram p a ra o m onte. 11 T om a­ ram , então, todos os bens de Sodom a e de G om orra como todo o seu m antim ento, e se foram . 12 T om aram tam bém a Ló, filho do irm ão de A brão, que h abitava em Sodoma, e os bens dele, e p artira m . Não mais se sugere seriamente que Anrafel deva ser identificado com Hamu- rabi, pois as diferenças lingüísticas são insuperáveis, e o líder teria sido ele, Anrafel, e não Quedorlaomer. Contudo, estè nome é amorreu ou acádio; e Sinar é babilónico. Anrafel era, provavelmente, um príncipe de menor importância na Mesopotâmia Inferior (Speiser). O objetivo da invasão parece ter sido não apenas punir os reis insurgentes, mas também assegurar a importante rota comercial para o Mar Vermelho e as ricas minas na região do Golfo de Acaba. Isto explica a rota um tanto circular que eles seguiram, através do deserto, em direção a Cades, antes de enfrentarem, em batalha, a coalisão cananéia. É inte­ ressante notar que a conexão da batalha com Abrão não é mencionada antes do último versículo desta perícope (v. 12), o que dá provas da independência desta narrativa em relação à tradição bíblica costumeira. 2) Abrão e Melquisedeque (14:13-24) 13 E ntão veio um que escap ara, e o contou a A brão o hebreu. O ra, este habitava junto dos carvalhos de M anre, o am orreu, irm ão de E scol e de A ner; estes eram aliados de A brão. 14 Ouvindo, pois, A brão, que seu irm ão estav a preso, levou os seus hom ens treinados, nascidos em sua casa, em núm e­ ro de trezentos e dezoito, e perseguiu os reis até D ã. 15 Dividiu-se contra eles de noite, ele e os seus servos e os feriu, perseguindo-os até Hobá, que fica à esquerda de D am asco. 16 A ssim tornou a tra z e r todos os bens, e tornou a trazer tam bém a Ló, seu irm ão, e os bens dele, e tam bém a s m ulheres e o povo. 17 Depois que A brão voltou de ferir a Q uedorlaom er e aos reis que estavam com ele, saiu-lhe ao encontro o rei de Sodom a, no vale de Savé (que é o vale do rei). 18 O ra, M elquisedeque, rei de Salém , trouxe pão e vinho; pois e ra sacerdote do D eus A ltís­ sim o ; 19 e abençoou a A brão, dizendo: Bendito seja A brão pelo D eus Altíssimo, o C riador dos céus e da te r r a ! 219
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    20 E benditoseja o D eus A ltíssim o, que entregou os teus inim igos nas tu as m ãos! E A brão deu-lhe o dízim o de tudo. 21 E n tão o rei de Sodom a disse a A brão: D á-m e a m im as pessoas; e os bens tom a-os p a ra ti. 22 Abrão, porém , respondeu ao rei de Sodom a: Levanto m inha m ão ao Senhor, o D eus A ltís­ sim o, o C riador dos céus e da te rra , 23 ju ­ rando que não tom arei coisa algum a de tudo o que é teu, nem um fio, nem u m a co rreia de sapato, p a ra que não digas: E u enriqueci a A brão; 24 salvo tão-som ente o que os m ancebos com eram , e a p arte que toca aos hom ens A ner, E scol e M anre, que foram com igo; que estes tom em a sua p arte. Nesta perícope, Abrão aparece da maneira como deve ter parecido aos seus contemporâneos: um xeque poderoso — e não da maneira como era lembrado entre os hebreus: o fundador de sua religião. No entanto, ambos os aspectos de seu caráter são genuínos. Evidências contemporâneas revelam que esses potentados nômades usavam jumentos e asnos, para carregarem as suas merca­ dorias, e se equipavam com bandos armados, para a sua proteção pessoal. Quando a comunhão de Abrão com o seu sobrinho Ló foi ameaçada por dis- sensões internas, a respeito de direitos, ele preferiu renunciar a eles, por amor dos laços de família. Contudo, quando Ló foi capturado por um inimigo, Abrão estava pronto a lutar por ele. Uma coisa é insistir nos direitos pessoais, e outra é defender os direitos dos outros. O comportamento de Abrão, quando ouviu falar da captura de Ló, é um exemplo vivo da atitude certa a ser to­ mada quando um irmão está em dificul­ dades. (1) Ele agiu prontamente. A expressão hebraica traduzida como levou significa esvaziar, como quando se tira a espada da bainha (cf. Êx. 15:9). Não havia tempo a perder. Qualquer demora teria significado a perda de toda a oportunidade de ajudar. (2) Ele agiu decisivamente. Tomando os seus homens mais leais e bem treinados, ele os dividiu, de forma a tirar o máximo proveito de suas forças limitadas, e caiu sobre o inimigo de noite, provavelmente depois que ele estava celebrando a sua vitória. O fato de ter agido rapidamente teria sido de pequeno valor, se ele não soubes­ se o que fazer. (3) Ele prosseguiu até ter certeza de que a vitória seria perma­ nente. Se ele não os tivesse perseguido até o norte de Damasco, eles se teriam reagrupado e voltado. O histórico encontro de Abrão com Melquisedeque é cheio de mistério e desafio. Esse nome significa “o rei é justo” (zedek, palavra certamente em voga na antiga Canaã; cf. Adoni-zede- que, Jos. 10:1). Possuímos, agora, por­ ções de correspondência entre Faraó e reis das cidades da Palestina, e uma carta é de um príncipe de Jerusalém. Salem deve, certamente, ser identificada como Jerusalém. De fato, não era inco- mum, na antiga Canaã, que um rei ser­ visse também de sacerdote. O título Deus Altíssimo (’El Elyon) tem sido en­ contrado em materiais ugaríticos. Desta forma, neste capítulo, Melqui­ sedeque é retratado como um verdadeiro sacerdote-rei, funcionando em Jerusa­ lém, ministrando tanto a gentios quanto a Abrão, o hebreu. Assim, a “sua ordem” (Sal. 110) era servir como sacer­ dote universal, tanto a judeus quanto a gentios. O escritor do livro aos Hebreus injeta neste quadro outro aspecto, quan­ do acrescenta: “Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre” (7:3). Com isto, ele não quer dizer que Melquisedeque, na ver­ dade, não tinha pai nem mãe nem fim de governo, referindo-se, desta forma, a Jesus Cristo pré-encarnado, mas está fazendo uma comparação literária. Da mesma forma como Melquisedeque aparece subitamente em Gênesis 14, sem genealc^ia e sem menção de sua morte, assim também Cristo, na verdade, não teve princípio e não terá fim. O autor do livro de Hebreus também ficara impres­ sionado com a independência desta nar­ 220
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    rativa, em relaçãoao restante de Gênesis! Qual era a natureza do Deus de Mel- quisedeque, chamado de Deus Altíssimo (’El Elyon)? Ele era semelhante, quanto à natureza, ao Deus de Abrão, pois ambos os homens haviam procedido de antecedentes amorreus. De fato, no texto hebraico, Abrão identifica ’El Elyon como Yahweh (o Senhor), seu Deus, no v. 22. A LXX não apresenta esta identificação, provavelmente porque os tradutores acharam este conceito difícil demais, e o diluíram. Ele está dizendo principalmente ao rei de Sodo- ma: “Melquisedeque chama o Deus dele de ’El Elyon, eu chamo o meu de Yahweh, mas adoramos o mesmo Deus.” Esta declaração a respeito de um Deus cana- neu não tem paralelo no Velho Testa­ mento e dá testemunho do tipo peculiar de fé que Abrão reconheceu em Melqui­ sedeque, que certamente devia com­ partilhar da tradição dos ancestrais de Abrão, como o faziam Labão e sua famí­ lia (cf. 31:53). O encontro pacífico entre Abrão e o rei-sacerdote coloca-se em agudo con­ traste com o havido entre ele e o rei de Sodoma. Para um, ele respeitosamente deu o seu dízimo; do outro, ele não quis pegar nem um cordão. O homem de fé recusou-se a transigir diante dos presen­ tes de um rei tão ímpio. Mesmo antes que a oferta fosse feita a ele, a sua decisão já havia sido tomada (v. 22). Escolhas assim difíceis são mais bem feitas quando elas mereceram antecipa­ damente a devida consideração. O que parecia uma oferta generosa era, na verdade, um estratagema desesperado. O fato de que Abrão dera o dízimo dos despojos levara o rei de Sodoma a pensar que ele estava reivindicando tudo o que havia capturado. A sua sugestão era uma tentativa para obter algo para si. A recusa de Abrão, de reter qualquer propriedade do rei de Sodoma, coloca-se também em agudo contraste em relação à sua aceitação irrestrita dos presentes anteriormente feitos por Faraó. Esta mudança de atitude devia-se, certa­ mente, a vários fatores: (1) a má repu­ tação do rei de Sodoma; (2) o fato de que Abrão já estava rico; (3) o fato de que ele aprendera, com a experiência no Egito, a confiar mais em Deus, com respeito ao seu futuro. A sua sugestão, quanto aos quinhões de seus confedera­ dos, revela como ele compreendia a diferença entre eles e ele próprio. Eles precisavam de seu quinhão, e o haviam ganho em uma causa que não era deles. 6. O Pacto com Abrão (15:1-21) Muitos eruditos descobrem, neste capítulo, a primeira evidência da pre­ sença de uma fonte do Pentateuco até então não aparente em Gênesis: O estra­ to Israelita do Norte. Há evidências claras de que estão presentes, aqui, duas fontes diferentes. Nos versículos 1 a 6, a ação se desenvolve à noite (Abrão pode ver as estrelas), enquanto nos versículos 7 e ss. é durante o dia. Os versículos 2 e 3 contêm duas formas diferentes da mesma declaração, talvez indicando edições diferentes das tradições antigas. Nenhum desses grupos de materiais pode ser atribuído à fonte Sacerdotal, e os versículos 7 e ss. são claramente da fonte Judia. O segundo tipo de tradição tem as características da fonte Nortista. Em­ bora não esteja presente ’Elohim, o nome divino que caracteriza esse estrato, outras marcas distintivas aparecem. Os habitantes da Palestina são chamados de “amorreus” (v. 16), termo preferido no Norte. A forma profética do material, nos versículos 1 a 6, é incomum no Hexateuco. A expressão “veio a palavra do Senhor” (v. 1 e 4) não ocorre em outros textos dos primeiros sete livros do Velho Testamento, mas é comum nos profetas. A fonte Israelita do Norte não foi completada, provavelmente, antes do oitavo século a.C., quando deve ter-se tornado comum a terminologia profética. Exceto nas narrativas acerca de Balaão, 221
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    de material umtanto independente (Núm. 24:4,6), não há outra referência a uma visão profética no Hexateuco. Embora haja alguma evidência da presença de pelo menos duas fontes no capítulo 15, elas foram interligadas tão bem, que não é possível desemaranhá- las agora, de forma a diferenciar uma da outra. 1) A Fé de Abrão (15:1-6) 1 Depois destas coisas veio a p alav ra do Senhor a A brão num a visão, dizendo: Não tem as, A brão; eu sou o teu escudo, o teu galardão se rá grandíssim o. 2 E ntão disse A brão: Ó Senhor D eus, que m e d arás, visto que m orro sem filhos, e o herdeiro de m inha casa é o dam asceno E liézer? 3 D isse m ais A brão: A m im não m e tens dado filhos; eis que um nascido na m inha casa será o m eu herdeiro. 4 Ao que lhe veio a p alav ra do Senhor, dizendo: E ste não será o teu h e r­ deiro; m as aquele que sa ir das tu as e n tra ­ nhas, esse será o teu herdeiro. 5 então o levou p a ra fora, e disse: O lha ag o ra p a ra o céu, e conta as estrelas, se as podes contar; e acrescentou-lhe: A ssim será a tu a des­ cendência. 6 E creu A brão no Senhor, e o Senhor im putou-lhe isto como justiça. Não temas, Abrão. Aparentemente, o patriarca estava ficando um tanto ansioso a respeito do cumprimento das promessas divinas. Porque este versícu­ lo, segundo se pensa, dá início à fonte Israelita do Norte, alguns eruditos insis­ tem que ele forma um paralelo com o material da fonte Judia de 12:1, que é o relato Nortista da chamada de Abrão. Contudo, esta crise de fé aconteceu bem mais tarde, na carreira de Abrão, pois ele tivera tempo de se preocupar a respeito do cumprimento da promessa (morro sem filhos). A referência a Deus como escudo é um termo litúrgico encontrado nos Salmos (3:3; 28:7; 33:20). Esta palavra ocorre em Gênesis apenas nesta passagem. Deus podia estar dizendo: “Eu sou teu escudo tanto quanto galardão”, como Lutero o traduziu, mas o infinitivo absoluto usado aqui (traduzido como “galardão”) é mais naturalmente um predicado, como na versão da IBB e RSV. Galardão, na literatura posterior, significa o dom gratuito de Deus (Is. 40:10; 62:11; Jer. 31:16). O herdeiro de minha casa. O hebraico, aqui, é estranho, dizendo literalmente: “... o filho da propriedade de minha casa é Damasco Eliézer.” A palavra tradu­ zida como propriedade (meshek) é, apa­ rentemente, usada, por amor da rima, com Dammesek (Damasco). Contudo, não há conexão sintática entre Damme­ sek e Eliézer; ambos são substantivos independentes. É possível que haja, aqui, alguma corrupção textual, mas o sentido é esclarecido pelo versículo 3. Um nascido na minha casa. Sabemos que tais artifícios eram comuns no Ori­ ente Próximo antigo, embota o Velho Testamento não o menciofte em ne­ nhuma outra parte (Speiser). Conta as estrelas. Este é um interes­ sante contraste com a referência encon­ trada na fonte Judia, para contar o pó, em Gênesis 13:16. Ali, a atenção foi chamada para a promessa da terra; aqui, para as ilimitadas perspectivas do futuro. E creu Abrão no Senhor. O verbo traduzido como “creu” é aman, do qual deriva a nossa palavra “amém”. A raiz simples significa “ser forte”, a causativa “apoiar-se em”, “confiar na força de”. Uma tradução mais exata seria: “E ele se apoiou (confiou) no Senhor”, ou uma verdadeira paráfrase: “E ele levou o Senhor ao pé da letra.” Também deve ser notado que o verbo é um passado per­ feito, com uma conjunção simples. O sentido é: “E ele estava se apoiando no Senhor.” Abrão estivera todo o tempo confiando em Deus. Agora ele precisava de uma palavra de reafirmação. E o Senhor imputou-lhe isto como justiça. Literalmente: “Ele considerou isto como justiça para ele.” Justiça, no Velho Testamento, não é uma norma absoluta, mas uma relação dinâmica entre o homem e Deus, que torna o ho­ mem aceitável a Deus. Imputação era uma função dos sacerdotes (Lev. 7:18; 222
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    17:4; Núm. 18:27).Aqui, o procedi­ mento não era dirigido por um oficial eclesiástico, mas pelo próprio Deus. A base para a declaração de justiça não era nada que Abrão tivesse produzido ou feito, tal como um sacerdote teria exi­ gido. A sua firme aceitação da palavra de Deus era a única base de sua justificação. Todavia, como 12:1 ensina, a sua acei­ tação incluía um estilo de vida coerente com as suas convicções. Esta declaração da justiça de Abrão (a satisfação dos requisitos de Deus para se ter comunhão com ele) esclarece para sempre o.papel da fé e das obras. O que Deus deseja, antes de tudo, é confiança nele. Se um homem é aberto e respon- sivo para com o Criador, Deus pode fazer o resto, ao trabalhar com ele em um relacionamento de amor e confiança. 2) Prevendo o Pacto (15:7-11) 7 Disse-lhe m a is: E u sou o Senhor, que te tirei de U r dos C aldeus, p a ra te d a r esta te rra em herança. 8 Ao que lhe perguntou A brão: Ó Senhor D eus, com o saberei que hei de herdá-la? 9 Respondeu-lhe: Tom a-m e um a novilha de trê s anos, u m a cab ra de três anos, um carneiro de três anos, u m a rola e um pom binho. 10 E le, pois, lhe trouxe todos estes anim ais, partiu-os pelo m elo, e pôs cada p arte deles em frente da ou tra; m as as aves não p artiu. 11 E as aves de rap in a desciam sobre os cad áv eres; A brão, porém , as enxotava. Eu sou o Senhor. Isto é freqüentemen­ te chamado de “auto-kérigma”, a auto- proclamação de Deus, pois é a declara­ ção feita por Deus acerca de sua natu­ reza. Esta frase é absoluta. Deus é o que ele é, conhecido do homem apenas das maneiras pelas quais ele escolhe revelar- se. As qualidades específicas de Deus, dentro dessas fórmulas auto-revelatórias, são costumeiramente declaradas por uma cláusula relativa, que começa com “quem”, como aqui. Essas cláusulas descritivas são parciais, pois excluem todas as outras. A forma mais plena de se descrever Deus, portanto, é a simples: “Eu sou o Senhor.” Ê significativo que, depois que a con­ fiança de Abrão nas promessas de Deus foi declarada de forma tal que ele se tomou aceitável para com Deus, ele ainda precisava de uma ulterior reafir­ mação da fidelidade de Deus. É ainda mais surpreendente que Deus fosse tão paciente com ele. Isto ilustra o fato de que Deus é amigo de uma pessoa que duvida honestamente, alguém que o ama e confia nele, mas ainda tem a tendência de falsear o pé. Desta vez, Deus não lhe daria apenas uma promes­ sa, a sua palavra, mas faria um contrato formal com ele. Abrão recebeu ordens para preparar animais sacrificiais, como prelúdio de uma cerimônia em que se faria o pacto. Esse ritual era conhecido na época de Abrão. Ele é descrito em Jeremias 34: 17-19. Parece que o significado era que quando as pessoas que celebravam o pacto caminhavam entre as carcaças dissecadas, estavam declarando sole­ nemente um destino semelhante para si próprios, se quebrassem o acordo. Mas as aves não partiu, provavelmen­ te, à luz de Levítico 1:17. Devido ao seu pequeno tamanho, os dois pássaros foram considerados como uma unidade e separados pelo espaço, e não pela faca, ao serem colocados opostos um ao outro. Abrão, porém, as enxotava. Isto simbo­ liza as dúvidas de Abrão e, mais tarde, de Israel, durante a opressão egípcia. 3) As Promessas do Pacto(15:12-16) 12 O ra, ao pôr-do-sol, caiu um profundo sono sobre A brão; e eis que lhe sobrevieram grande pavor e densas trev as. 13 E ntão disse o Senhor a A brão: Sabe com certeza que a tu a descendência se rá p ereg rin a em te rra alheia, e será reduzida a escravidão, e se rá afligida por quatrocentos anos; 14 sabe tam bém que eu ju lg arei a nação à qual ela tem de serv ir; e depois sa irá com m uitos bens. 15 Tu, porém , irá s em paz p a ra teus p ais; em boa velhice serás sepultado. 16 N a q u arta geração, porém , voltarão p a ra cá; porque a m edida da iniqüidade dos am or- reus não está ainda cheia. 223
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    Caiu um profundosono (cf. 2:21). Este fenômeno marcou outra ocasião momen­ tosa. Desta vez, porém, havia os terríveis presságios, antevendo os anos negros da opressão egípcia. Os versículos 13 a 16 são geralmente considerados como uma interpretação posterior do acontecimento, embora eles pudessem bem ser da fonte Israelita do Norte. Será que esta passagem represen­ ta uma declaração, na verdade, feita a Abrão antes da peregrinação no Egito, ou é comentário feito segundo a perspec­ tiva de uma época posterior? Poderia ser ambas as coisas. Abrão, certamente, foi informado que a promessa teria o seu cumprimento grandemente retardado. Gerações posteriores aprenderam os de­ talhes, e devem ter preenchido a seqüên­ cia cronológica incipiente na palavra ori­ ginal. E será afligida por quatrocentos anos. Aqui está um número redondo. Em Êxo­ do 12:40, consta 430 anos/*) Irás em paz para teus pais. Esta frase é usada mais freqüentemente a respeito do sepulta- mento no cemitério familiar, mas pode referir-se à unidade familiar no próprio Seol (cf. Deut. 32:50). Aqui, obviamen­ te, ela tem este significado, pois Abraão foi sepultado em Hebrom, e não na Babi­ lônia. O fato de que as famílias eram reunidas no Seol propiciava pouco con­ solo para os hebreus, pois se pensava que a existência naquele lugar era umbrosa, carecendo de consciência significativa (cf. Jó 10:21,22;3:13). Na quarta geração. Alguns expositores relacionam esta frase com Êxodo 6:16- 20, onde há quatro gerações, de Jacó a Moisés, e enfatizam a aparente contradi­ ção entre estas narrativas, dizendo que uma geração não pode ser de cem anos, e (») TíOTA DO EDITOR: Não há contradição entre estas duas passagens, pois o texto em pauta fala de 400 anos em que a descendência de Abrão será “afligida”, enquanto Êxodo 12:40 afirma que os filhos de Israel “moraram” no Egito 430 anos. Obviamente durante 30 anos não foram afligidos. que a genealogia de Exodo 6 é completa. Todavia, a palavra traduzida como “ge­ ração” (dor) é um termo que geralmente significa duração de tempo indefinido. A narrativa de Êxocte pode ser uma abre­ viatura, mencionando apenas os nomes mais importantes. Speiser (p. 118) está correto, quando diz: “Portanto, não se podem tirar quaisquer conclusões desta passagem em relação à data do Êxodo.” Porque a medida da iniqüidade dos amorreus não está ainda cheia. Deus é justo em todos os seus caminhos. Ele não permitirá que os hebreus desapossem os cananeus enquanto estes não se tiverem desqualificado completamente como pos­ suidores de sua terra. A iniqüidade men­ cionada é a corrupção sexual dos habi­ tantes da Palestina (cf. Lev. 18:19-28). 4) Confirmando o Pacto (15:17-21) 17 Quando o sol já estav a posto, e e ra escuro, eis u m fogo fum egante e um a tocha de fogo, que p assaram por entre aquelas m etades. 18 N aquele m esm o dia fez o Se­ nhor um pacto com A brão, dizendo: À tu a descendência tenho dado esta te rra , desde o rio do Egito até o grande rio E u fra te s; 19 e o queneu, o quenizeu, o cadm oneu, 20 o heteu, o perizeu, os refains, 21 o am or- reu, o cananeu, o girgaseu e o jebuseu. Um fogo fumegante. Este era, prova­ velmente, um vaso de barro portátil, como os que ainda são usados no Orien­ te. Tinham cerca de um metro de altura, e a forma de um cone truncado. Podia ser também um incensário, como os que eram usados na adoração naquela época. A tocha de fogo era o fogo que saía da boca do vaso ou a tocha usada com os incensários antigos. Esta é uma cena inesquecível, diferente de qualquer outra mencionada no Velho Testamento. Spei­ ser (p. 113) nota que descrições seme­ lhantes foram feitas a respéito de encan­ tamentos mágicos na Acádia: “Enviei repetidamente contra você um forno ‘pre­ parado’ (isto é, aceso), um fogo que pegou.” Pode ser que este processo fosse usado pelos que praticavam mágica na 224
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    Palestina. Assim, Deusestava enviando a sua palavra em uma forma especialmen­ te significativa para a geração de Abrão. Contudo, na referência de Speiser, a linguagem é figurada. Aqui, o vaso ou incensário é que passa por entre as par­ tes. Por que deveria ser usado um forno (ou vaso)? Era semelhante ao que Sara usava todos os dias para fazer os seus assados. Que símbolo melhor podia o Senhor usar para retratar a sua fideli­ dade às gerações futuras do que o objeto mais familiar de todas as casas? O in­ censário enfatizaria a solenidade da oca­ sião. O aspecto característico de todo o epi­ sódio é que só o Senhor garante o pacto. Geralmente, as duas partes de um pacto andavam entre os pedaços. Aqui, não foi nenhuma das duas partes: só o símbolo escolhido da presença de Yahweh. A responsabilidade de Abrão, quanto ao sucesso futuro do pacto, era aceitá-lo. Ele estava garantido para sempre somen­ te por Deus. É este tipo de pacto que Je­ remias prevê que um dia seria celebrado com todo o Israel (Jer. 31:31 e ss.) e que o Novo Testamento afirma que foi feito em Cristo (cf. Heb. 8:6 e ss.) Desde o rio do Egito. Esta expressão só pode dar a entender o Nilo. Geralmente, o limite meridional da Terra Prometida se localizava no wadi ou regato, agora chamado de Wadi el-Arish (I Reis 8:65). A palavra hebraica traduzida como rio tem as consoantes nhr. As consoantes da palavra hebraica que significa regato são nhl. Pode ser que haja alguma confusão textual aqui. A extensão da terra mencionada aqui é a que chegou a ser completamente con­ quistada durante o reinado de Salomão (I Reis 4:21). A maior parte dos povos relacionados aqui é encontrada nas listas do capítulo 10, mas deve notar-se que os queneus e quenizeus foram absorvidos pela tribo de Judá. Cadmoneu significa oriental. 7. Abrão eAgar (16:1-16) Esta narrativa tem notáveis paralelos em Gênesis 21:8-21, pois ambas as histó­ rias descrevem Agar em conflito com Sarai. Em cada narrativa Agar vai para o deserto, e um anjo a conforta, ao encon­ trá-la perto de um poço, e promete a bênção de Deus sobre Ismael. Há tam­ bém diferenças impressionantes. No capítulo 16, Agar está grávida; no capítulo 21, Ismael é um rapaz feito. De acordo com 16:16, Ismael nasceu quando Abrão tinha 86 anos de idade. Quando Isaque nasceu, Abrão tinha cem anos de idade. Ao tempo do conflito registrado no capítulo 21, Isaque havia sido desmamado. Este fato normalmente ocorria aos três anos de idade, mais ou menos. Por esta cronologia, Ismael devia ter seus 17 anos de idade. No capítulo 16, Abrão entrega Agar à ira de Sarai, enquanto, no capítulo 21, ele a deixa ir-se só depois de ser instruído por Deus a fazê-lo e depois de ter dado a ela as provisões necessárias. Neste capí­ tulo, Agar foge de Abrão e Sarai; no outro, ela é enviada para o exílio. O nome de Deus, no capítulo 16, é Yahweh (Senhor), porém é Elohim (Deus) no ca­ pítulo 21. No capítulo 16, o mensageiro divino é chamado de anjo do Senhor; no outro, anjo de Deus. O anjo do Senhor se encontra com Agar perto de um poço, enquanto o anjo de Deus fala a ela dos céus. Aparentemente, temos um exemplo de relato da fonte Judia, no capítulo 16, e de relato da fonte Israelita do Norte, no capítulo 21. Esta narrativa tem a tendên­ cia de retratar Deus como mais transcen­ dente (o anjo fala dos céus) e tem muito maior consciência dos problemas éticos das narrativas. Uma identificação das duas narrativas não leva, necessariamente, à conclusão de que elas são meramente edições dife­ rentes da mesma história. O capítulo 21 se interessa claramente por um aconteci­ mento posterior na vida de Agar. A se- 225
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    melhança de formada narrativa não deve obscurecer o testemunho bíblico de uma distinção entre os dois acontecimentos. 1) Sarai e Agar (16:1-6) 1 O ra, S arai, m ulher de A brão, não lhe dava filhos. T inha ele u m a serv a egípcia, que se cham ava A gar. 2 D isse S arai a A brão: E is que o Senhor m e tem im pedido de te r filhos; tom a, pois, a m inha serv a; porventura terei filhos por m eio dela. E ou­ viu A brão a voz de S arai. 3 A ssim Sarai, m ulher de A brão, tom ou a A gar a egípcia, sua serv a, e a deu por m ulher a A brão seu m arido, depois de A brão te r habitado dez anos n a te rra de C anaã. 4 E ele conheceu a A gar, e ela concebeu; e vendo ela que con­ cebera, foi sua senhora desprezada aos seus olhos. 5 E ntão disse S arai a A brão: Sobre ti seja a afronta que m e é dirigida a m im ; pus a m inha serv a em teu reg aço ; vendo ela agora que concebeu, sou desprezada aos seus olhos; o Senhor julgue en tre m im e ti. 6 Ao que disse A brão a S a ra i: E is que tu a serv a está nas tu a s m ão s; faze-lhe como bem te p arecer. E S arai m altratou-a, e ela fugiu de su a face. Depois da imponente ratificação do pacto, feito no capítulo 15, a vida de Abrão continuou no mesmo jeito de an­ tes. Ainda não havia herdeiro para ele. Agora vemos que Sarai estava começan­ do a ficar ansiosa, e com boas razões. Deus ainda não dissera que o herdeiro seria, necessariamente, seu filho. Talvez Abrão tomasse outra esposa, que lhe desse um filho, e deixasse Sarai em des­ graça. Por isso, ela sugeriu o que agora sabemos que foi um arranjo perfeitamen­ te legal. A sua serva seria elevada à con­ dição de concubina, mas o filho que ela tivesse pertenceria a Sarai. Abrão obedientemente seguiu o conse­ lho de Sarai, pois esse era um costume social aceitável, e a coisa sensata a ser feita. Talvez Deus estivesse esperando que eles tomassem alguma iniciativa quanto a esse assunto. Esta foi, provavel­ mente, a maneira até então oculta de cumprir a promessa. Não há, aqui, ne­ nhuma indicação de qualquer interesse romântico em Agar, da parte de Abrão. Foi um casamento de conveniência. O erro foi Abrão não ter procurado saber qual era a vontade de Deus, nesse assunto. De fato, pode ser que ele tives­ se receio de perguntar. É muito difícil que ele estivesse preparado para outra longa espera. Muitas vezes os atos que são legais e sensatos não são a vontade de Deus para a vida dos homens. A ação precipitada de Abrão foi executada mui­ to antes do tempo específico, determina­ do por Deus, para o nascimento de Isa- que, através de Sarai (cap. 18). Os mais cuidadosos planos dos ho­ mens saem errados. Agar concebeu, mas, em vez de considerar Sarai como a mãe legítima, fê-la saber que agora se considerava como superior a Sarai. Esta, profundamente ferida, levou o assunto ao conhecimento de Abrão, que era o único que podia resolvê-lo. Ela não estava culpando o seu esposo por um casamento que ela mesma havia sugerido, mas chamou a sua atenção para a responsabilidade que tinha, de corrigir aquela situação inesperadamen­ te má. Ela chegou a apelar a Deus como testemunha de que Abrão precisava cum­ prir o seu dever de marido. A lei antiga declarava especificamente que, se uma escrava promovida a concubina ou espo­ sa não conseguisse manter-se na nova posição com o devido decoro, devia vol­ tar ao seu estado anterior. Ao entregar Agar a Sarai para o que ela desejasse lhe fazer, Abrão demons­ trou preocupação demasiadamente pe­ quena pela serva, mas a própria Agar é que era a culpada. Que homem tem a sabedoria necessária para colocar-se en­ tre duas mulheres ciumentas uma da ou­ tra? Pode-se dar a Abrão, aqui, o cré­ dito de ter tido sabedoria em uma situa­ ção difícil, mas também o débito de falta de interesse pela escrava. O tratamento severo que Sarai admi­ nistrou provavelmente foi castigo físico, mas consistiu de tarefas subalternas ex­ cessivamente numerosas e hostilização geral. Certamente, este episódio não 226
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    pode ser lançadoao crédito de Sarai, mas na época pareceu-lhe a coisa lógica a fazer. Aparentemente, funcionou em parte, pois, quando Agar voltou a Sarai, essa guerra aberta não recomeçou. Ela, evidentemente, foi substituída por uma guerra fria, como os acontecimentos pos­ teriores revelam. 2) Promessa Divina a Agar (16:7-16) 7 E ntão o anjo do Senhor, achando-a junto a um a fonte no deserto, a fonte que está no cam inho de Sur, 8 perguntou-lhe: A gar, se r­ va de S arai, donde vieste, e p a ra onde vais? R espondeu ela: D a presença de Sarai, m i­ nha senhora, vou fugindo. 9 D isse-lhe o anjo do Senhor: Torna-te p a ra tu a senhora, e hum ilha-te debaixo das suas m ãos. 10 Disse- lhe m ais o anjo do Senhor: M ultiplicarei sobrem aneira a tu a descendência, de m odo que não será contada, por num erosa que será. 11 Disse-lhe ainda o anjo do S enhor: E is que concebeste, e te rá s um filho, a quem ch am arás Ism ael; porquanto o Senhor ou­ viu a tua aflição. 12 E le será como um ju ­ m ento selvagem entre os hom ens; a sua m ão será contra todos, e a m ão de todos contra ele; e h ab itará diante d a face de todos os seus irm ãos. 13 E ela cham ou o nom e do Senhor, que com ela falava, El- Rói; pois disse: N ão tenho eu tam bém olha­ do neste lu g ar p a ra aquele que m e vê? 14 Pelo que se cham ou aquele poço B eer- Laai-Rói; ele está entre C ades e B erede. 15 E A gar deu um filho a A brão; e A brão pôs o nom e de Ism ael no seu filho que tiv era de A gar. 16 O ra, tinha A brão oitenta e seis anos, quando A gar lhe deu Ism ael. O aqjo do Senhor aparece aqui pela primeira vez no Velho Testamento. A pa­ lavra hebraica mal’ak significa mensa­ geiro de qualquer sorte, humano ou di­ vino. A grega angelos tem o mesmo significado. A latina angelus, na Vulga- ta, foi o primeiro termo fixo para se designar seres celestiais. Seres celestiais intermediários, que operam entre Deus e os homens, não eram comuns no concei­ to do Israel antigo a respeito de Deus, pois o próprio Senhor era ativo na his­ tória em todos os lugares. O aiyo do Senhor, todavia, é esse intermediário em algumas passagens do Velho Testamen­ to. Exceto para os inimigos de Deus, ele nunca é um ser temível, mas sempre beneficente. Ele é o instrumento dos atos graciosos de Deus em favor de Israel (cf. Êx. 14:19; 23:20; Núm. 22:22; I Reis 19:7; II Reis 19:35). Em Gênesis, toda­ via, o anjo do Senhor não é apenas o porta-voz de Deus, mas também não há nenhuma diferença entre ele e o próprio Senhor. Quando fala, ele é tanto um anjo quanto o Senhor (cf. 16:10,13; 21:17,19; 22:11). Ele é o próprio Deus aparecendo em forma humana, de maneira que os homens possam percebê-lo. Neste senti­ do, ele tem “conspícuas qualidades cris- tológicas... Ele é um tipo ou ‘sombra’ de Jesus Cristo” (von Rad, p. 189). Isto não significa que ele é Jesus Cristo pré-encar- nado, mas que a manifestação temporá­ ria de Deus em forma humana, no Velho Testamento, aponta para a encarnação de Cristo. Agar se encontra com um anjo perto de uma fonte que ficava no caminho de Sur. Não sabemos qual seja a localiza­ ção exata de Sur, mas ficava perto da fronteira egípcia (cf. cap. 20; 25:18). Ela, obviamente, estava para atravessar a fronteira e entrar em sua terra natal. As duas perguntas que lhe são feitas, aqui, estão no âmago da existência hu­ mana: (1) De onde você está vindo e (2) para onde está indo? A resposta à primeira pergunta devia afetar a manei­ ra como ela compreendia a segunda. Visto que ela era escrava de Sarai, o que estava fazendo, dirigindo-se ao Egito? Quando os homens tentam determinar quem são e a direção futura de suas vidas, não podem ignorar as suas origens. O fato de Agar se divorciar do passado, ao enfrentar o futuro, era o mesmo que deixar de cumprir o seu destino. Ela devia voltar à sua senhora, e encontrar, naquele relacionamento, o seu lugar na História. O Senhor ouviu a tua aflição. O subs­ tantivo vem da mesma raiz de maltra- tou-a (v. 6). Portanto, esta é uma refe­ 227
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    rência não àsua tribulação presente, no deserto, mas aos maus-tratos infligidos a ela por Sarai. Esta passagem declara, de maneira insofismável, que Deus cuida da situação dos desprivilegiados, até mesmo de uma indefesa escrava do Egito. Não é de se admirar que ela tenha dado, ao Deus que a encontrou perto da fonte, o nome de aquele que me vê (heb., ’El roi), pois agora sabia que, afinal de contas, não se encontrava abandonada. A seme­ lhança entre esta passagem e Isaías 7:14 é notável. Ali, ‘almah também designa a criança, embora o homem geralmente executasse este ato. Jacó podia dominar Raquel (Gên. 35:18). O fato de a mulher dar o nome ao filho indica algo inusitado no relacionamento entre homem e mu­ lher naquela época remota. Em Isaias 7:14, este é um mistério que só pode ser esclarecido em Cristo. Ele será como um jumento selvagem entre os homens. Esta palavra pode signi­ ficar um jumento selvagem ou um cavalo selvagem (Speiser; cf. Jó 11:12; Gên. 49:11,14). Ele seria um beduíno nômade típico, não curvando a cabeça a homem algum, sendo livre até das limitações das lealdades familiares. Ele iria habitar di­ ante da face de todos os seus irmãos. Esta expressão geralmente significa “a leste de”, e, literalmente, “diante da face de” (cf. I Reis 11:7). Aqui, contudo, ela é usa­ da, provavelmente, no sentido de “contra a face de”, “cara a cara” (cf. Jó 1:11; 6: 28; 21:31). Um homem assim selvagem, independente, seria uma fonte de orgulho para a rebelde Agar. O que ela, como escrava de Sarai, não tinha a liberdade de fazer, o seu filho realizaria. A des­ crição dos ismaelitas não deve ser consi­ derada como depreciadora, pois reflete uma indisfarçável admiração por esses temerários xeques do deserto. Não tenho eu também olhado neste lu­ gar para aquele que me vê? Este é o signi­ ficado literal do original hebraico. Signi­ fica que Agar havia experimentado duas coisas, no encontro com o anjo. Desco­ brira que, embora pensasse que ninguém se importava com ela, Deus estava cui­ dando dela. Este fato, por si só, foi re­ confortante. Ela não percebera apenas o providencial interesse de Deus por ela, como o têm feito as pessoas de fé em todas as épocas, mas havia “olhado” para ele (heb. ’achare) e reconhecido que, na verdade, era Deus que falava com ela. Outro aspecto da declaração de Agar é a sua surpresa pelo fato de aquele encontro com Deus ter ocorrido não em algum santuário religioso nem na tenda levanta­ da por Abrão, mas no deserto vazio: “Não tenho eu também olhado...?” Da mesma forma, Jesus disse, à mulher sa- maritana, que Deus pode ser adorado onde quer que corações estejam abertos para ele. O nome que Agar deu ao poço significa, literalmente, “o poço do vivente que vê” . Desde então, ela jamais duvidaria que Deus cuidava dela e estava vivo para ajudá-la. A serva egípcia logo afastou-se da torrente central dos eventos bíblicos, mas de fato ela estava no curso certo em sua maneira de entender Deus. Berede não nos é conhecido de forma alguma, mas a menção de Cades (a 50 milhas ao sul de Berseba) indica a sua localização aproximada no deserto. Os versículos 15e 16 são geralmente de­ signados como parte da fonte Sacerdotal, por causa de seus interesses genealógi­ cos. Tal raciocínio, contudo, pode estar dando a questão como provada. Suspei­ ta-se que a outra fonte também tenha interesse nestes assuntos. Não aparece nenhuma outra marca da fonte Sacerdo­ tal. Aqui, somos informados que Abrão deu ao filho de Agar o nome de Ismael, como o anjo a havia instruído. Obvia­ mente, ela lhe contou por que havia volta­ do. A sua experiência certamente deve ter melhorado os relacionamentos fami­ liares. Encontros com um Deus comum ligavam, em uma nova comunidade de 228
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    interesses, pessoas que,de outra forma, eram incompatíveis. 8. OPactodaCircuncisão(17:l-27) Estecapítulo contémorelato Sacerdotal do pacto com Abrão. Ele é paralelo do quadro da fonte Judia do capítulo 15. Ali, a ênfase era dada à fé de Abrão; aqui, ela é colocada sobre a sua fideli­ dade. Ali, ele era chamado para crer na palavra que Deus dera; aqui, precisa iniciar o ritual da circuncisão. Ali, Deus confirmara o pacto, enquanto aqui Abrão sela-o com o seu ato de obediên­ cia. Ambas as ênfases são necessárias em qualquer experiência religiosa sadia, pois a fé válida precisa, certamente, manifes- tar-se através de comportamento correto. A circuncisão era comum entre os vizi­ nhos de Israel: os egípcios, edomitas, amorreus e moabitas. Os filisteus não a praticavam (II Sam. 1:20), e ela também não era observada na Mesopotâmia. So­ mente Israel, contudo, executava esse ritual em criancinhas. Os outros povos o observavam quando os seus componentes do sexo masculino alcançavam a puber­ dade. A observação de que Ismael tinha treze anos de idade quando foi circunci­ dado (17:25) pode referir-se também à prática comum dos ismaelitas na história posterior. Os hebreus do sexo masculino eram circuncidados quando recém-nas­ cidos, para simbolizar a sua entrada na comunidade por ocasião do nascimento. Pelo fato de a fonte Sacerdotal ter sido completada, provavelmente, mais tarde (c. 500 a.C.) e visto que a fonte anterior, em Gênesis, não menciona a circuncisão, alguns eruditos têm achado que o costu­ me generalizado entre osjudeus só come­ çou a ser praticado depois do exílio babi­ lónico. Contudo, o fato de que este ritual ocorria entre os vizinhos de Israel e que os filisteus eram proverbialmente “incir- cuncisos” indicaria que este costume, de fato, era tão velho quanto os patriarcas. Embora não haja razão para se duvidar de que Abraão foi quem deu início a este ritual, é bem possível que gerações pos­ teriores o tenham reinterpretado, e que ele veio a ter um significado espiritual mais profundo em épocas posteriores. Isto significaria que o escritor Sacerdotal viu, na circuncisão, mais do que Abraão, mas que o significado estava presente o tempo todo. Por outro lado, não há argumentos convincentes de que os regulamentos re­ gistrados neste capítulo não se tenham originado no período patriarcal. De fato, tais regras deviam pertencer mais natu­ ralmente a um período anterior do que a um posterior. Dificilmente se pode pen­ sar na circuncisão como um avanço para uma religião mais amadurecida. Isto foi realizado por aqueles que mais tarde falaram da circuncisão do coração. Esta figura de linguagem teria pequeno signi­ ficado, se a circuncisão física não fosse já um costume comum em Israel (cf. Lev. 26:41; Deut. 10:16; Jer. 4:4; 9:25; Ez. 44:7). 1) BênçãosdoPacto(17:l-8) 1 Quando A brão tin h a noventa e nove anos, apareceu-lhe o Senhor e lhe disse: E u sou D eus Todo-Poderoso; anda em m inha presença, e sê perfeito; 2 e firm arei o m eu pacto contigo, e sobrem aneira te m ultipli­ carei. 3 Ao que A brão se prostrou com rosto em te rra , e Deus falou-lhe, dizendo: 4 Q uan­ to a m im , eis que o m eu pacto é contigo, e serás p ai de m u itas nações; 5 não m ais serás cham ado A brão, m as A braão será o teu n o m e; pois por p ai de m uitas nações te hei posto; 6 far-te-ei frutificar sobrem anei­ ra , e de ti farei nações, e reis sairão de ti; 7 estabelecerei o m eu pacto contigo e com a tu a descendência depois de ti em suas g era­ ções, com o pacto perpétuo, p a ra te ser por Deus a ti e à tu a descendência depois de ti. 8 D ar-te-ei a ti e à tu a descendência depois de ti a te rra de tu as peregrinações, toda a te rra de C anaã, em perpétua possessão; e serei o seu Deus. O uso do título Deus Todo-Poderoso consiste em paralelo a “Eu sou Yahweh” do capítulo 15. Este fato é coerente com a afirmação da fonte Sacerdotal em Êxodo 6:3: “Apareci a Abraão, a Isaque e a 229
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    Jacó, como oDeus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome Jeová, não lhes fui conhe­ cido.” Isto não significa que o nome “o Senhor” não era usado em épocas mais remotas, mas que ele não continha o conteúdo de revelação dado a Moisés no Egito. A fonte Sacerdotal não usa o nome “Senhor” (Yahweh) antes de Êxo­ do 6:2. A fonte Judia fala de maneira bem diferente, mas não se coloca em contradição com ela. Aquela fonte popu­ lar simplesmente usa o nome que era familiar para o povo de sua época. Por exemplo, Israel, provavelmente, chama­ va Deus de Yahweh, mas os modernos preferem o termo “o Senhor” (Adonai), porque é mais agradável aos ouvidos. O nome ’El Shaddai (Deus Todo-Pode- roso) é misterioso. Albright tentou pes­ quisar as suas origens até uma palavra acádia que significa montanha (Deus da Montanha), mas este significado é duvi­ doso (cf. Speiser). A Septuaginta fre­ qüentemente o traduz por uma palavra que significa Todo-Poderoso (mas não aqui), e esta era a opinião dos rabis anti­ gos. Até que uma explicação melhor seja apresentada, Deus Todo-Poderoso ainda é preferível. Anda em minha presença. Enoque (5: 24) e Noé (6:9) são mencionados como pessoas que andaram com Deus. A des­ peito da fé de Abraão, a distância entre Deus e o homem parecia maior do que antes do dilúvio. Diz-se, em 17:22, que Deus “subiu... de diante dele (de Abra­ ão)” . Ele viera visitá-lo temporariamen­ te, mas agora ia embora para o céu, dei­ xando Abraão a andar na presença dele e a ser perfeito em sua maneira de viver. Esta última palavra é tamim, e significa completo, maduro. Não dá a entender perfeição moral, porém devoção a Deus de coração (cf. Deut. 18:13). Em 20:5, Abimeleque usa uma forma dessa palavra (tam), que a IBB traduz como sinceri­ dade ou “integridade". Literalmente, se­ ria “a integridade ou inteireza (sem mo­ tivações ulteriores) do meu coração” . Abraão é desafiado a se dar ao serviço de seu Deus sem reservas. O requisito mí­ nimo a este respeito será a circuncisão. A resposta de Abraão à teofania foi sem palavras. Ele caiu sobre a sua face, em concordância silenciosa à soberana von­ tade de Deus. A resposta de Deus foi que ele faria um pacto formal com ele, que lhe garantiria uma multidão de descen­ dentes distintos. O seu nome seria mu­ dado de Abrão (“o pai é exaltado”) para Abraão. Os eruditos discordam quanto ao significado do novo nome. A fonte Sacerdotal liga-o com pai e multidão, conotação que o som dessa palavra cer­ tamente tem. Muitos comentaristas con­ sideram Abraão simplesmente como uma forma alongada de Abrão (von Rad). Mais importante do que o significado desse nome é o fato de que ele recebeu um novo nome. Isto significou o raiar de uma nova era para a humanidade. Deus estava estabelecendo um novo povo, e Abraão seria o pai dele. A maioria dos intérpretes associa as nações e os reis do versículo 6 com os idu- meus, ismaelitas e filhos de Quetura. Von Rad, por outro lado, insiste que as nações mencionadas neste contexto de­ viam estar dentro da comunidade do pac­ to; ele o considera como uma promessa da conversão de nações gentílicas ao Deus de Abraão. Toda a terra de Canaã, em perpétua possessão. A palavra traduzida como perpétua é ‘olam, que provém da raiz “estar escondido” . Portanto, o significa­ do literal é “tão longe quanto se possa ver” ou “até o obscuro desconhecido” . Não há palavra, no hebraico, para desig­ nar perpetuidade; ‘olam é mais bem tra­ duzida como perpétua. 2) O Rito da Circuncisão (17:9-14) 9 D isse m ais D eus a A braão: O ra, quanto a ti, g u ard arás o m eu pacto, tu e a tu a descendência depois de ti, nas suas g era­ ções. 10 E ste é o m eu pacto, que guardareis entre m im e vós, e a tua descendência de- 230
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    pois de ti : todo v arão dentre vós será circun­ cidado. 11 Circuncidar-vos-eis na carne do prepúcio; e isto se rá por sinal de pacto entre m im e vós. À idade de oito dias, todo v arão dentre vós será circuncidado, por to ­ das as vossas gerações, tanto o nascido em casa como o com prado por dinheiro a qu al­ quer estrangeiro, que não for da tua linha­ gem . 13 Com efeito será circuncidado o n a s­ cido em tu a casa, e o com prado por teu d i­ nheiro; assim e sta rá o m eu pacto n a vossa carne como pacto perpétuo. 14 M as o incir- cunciso, que não se circuncidar n a carne do prepúcio, essa alm a será extirp ad a do seu povo; violou o m eu pacto. Israel devia observar o pacto da circun­ cisão nas suas gerações. Isto é mais claro do que ‘olam. Pode-se imaginar a dificul­ dade que os judeus cristãos primitivos tiveram quando começaram a entrar gen­ tios na igreja. Os judaizantes nem sem­ pre eram perturbadores cegos. Alguns deles eram bem sinceros. E o pacto abraâmico? Todos os que estivessem dentro dele deviam ser circuncidados. Claro que a fé em Cristo era mais im­ portante, mas o fato de deixar de ser circuncidado fazia com que a pessoa se colocasse fora do povo de Deus. O pro­ blema teve que ser resolvido com base em o novo ato de Deus em Cristo. Se Cor- nélio pôde ser salvo sem ter sido circun­ cidado, qualquer outra pessoa podia sê- lo. Era uma transição difícil, todavia, para os que levavam as Escrituras judai­ cas a sério (cf. At. 15:1-29; 21:21; Rom. 2:25-4:12; I Cor. 7:19; Gál. 5:2-12; 6:12-16). Será por sinal de pacto. A circuncisão não era um fim em si mesma. Era um sinal da devoção a Deus de todo o cora­ ção, que devia caracterizar o seu povo. O cuidado deste em observar esse rito o encorajaria a observar os assuntos mais ponderosos do pacto. Todavia, negligen­ ciar este ponto significava excomunhão de Israel. Ser extirpado não significava morte, mas exclusão da comunidade. Je­ sus sugere isto, não para os incircunci- sos, mas para os irreconciliáveis (Mat. 18). 3) APromessadeumHerdeiro(17:15-21) 15 D isse D eus a A braão: Q uanto a Sarai, tu a m ulher, não lhe ch am arás m ais Sarai, porém S ara se rá o seu nom e. 16 Abençoá-la- el, e tam bém dela te d arei um filho; sim , abençoá-la-ei, e ela será m ãe de nações; reis de povos sairão dela. 17 Ao que se prostrou A braão com o rosto em te rra , e riu- se e disse no seu coração: A um hom em de cem anos há de nascer um filho? D ará à luz Sara, que tem noventa anos? 18 Depois disse A braão a D eus: O xalá que viva Ism ael dian­ te de til 10 E D eus lhe respondeu: N a v e r­ dade, S ara, tu a m ulher, te d a rá á luz um filho, e lhe ch am arás Isaq u e; com ele e sta ­ belecerei o m eu pacto como pacto perpétuo p ara a sua descendência depois dele. 20 E quanto a Ism ael, tam bém te tenho ouvido; eis que o tenho abençoado, e fá-lo-ei frutifi­ car, e m ultiplicá-lo-ei grandissim am ente; doze príncipes g erará, e dele farei um a grande nação. 210 m eu pacto, porém , e sta ­ belecerei com Isaque, que S ara te d ará à luz neste tem po determ inado, no ano vindouro. Agora Sarai também recebe um novo nome. Ambos os nomes aparentemente significam a mesma coisa: princesa. Sa­ rai é a forma mais antiga desse nome, e Sara, a mais comum. Na verdade, por­ tanto, era um nome novo, embora não tivesse um novo significado. Original­ mente, era ela chamada de “princesa”; agora realmente se tornaria princesa. Pela primeira vez Deus declarou especifi­ camente que Sara seria a mãe do her­ deiro. Diante deste anúncio, Abraão fez mais do que questionar Deus; ele riu-se. Este verbo é um jogo com a palavra Isaque, que significa riso. Duas outras associa­ ções com este nome encontram-se em Gênesis: Sara rindo diante da idéia de ter um filho (18:12, fonte Judia) e outras pessoas rindo de alegria com a chegada do filho (21:6, fonte Israelita do Norte?). Estas passagens não são conflitantes, pois pode ser que todas estas reações tenham ocorrido. Alguns expositores traduzem “riu-se” como “regozijou-se” e dizem que o riso de Abraão foi de regozijo. A sua reação foi, provavelmente, uma combinação de 231
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    crença e dúvida,sendo provada a sua aceitação pelo fato de ele ter caído com o rosto em terra. “Combinado com o gesto patético de reverência, manifesta-se uma risada quase horrível, mortalmente in­ tensa, não de mofa, mas trazendo bem próximas a fé e a incredulidade” (von Rad, p. 198). Seguiu-se uma reação humana nor­ mal. Abraão sugeriu que Deus o poupas­ se de se envolver em tal paradoxo. Pa­ recia muito melhor edificar sobre o que Abraão já possuía: o seu filho Ismael. Depois de treze anos, o patriarca apren­ dera a amar muito o seu filho e a contar com ele como seu verdadeiro herdeiro. Deus não permitiu nenhuma vacilação, e negou categoricamente esse recurso. De fato Sara se tornaria mãe, e — que notí­ cias alegres! — seria dentro de um ano. O acontecimento há muito esperado esta­ va próximo. Novamente, a fórmula de nascimento foi usada, mas desta vez o pai daria nome ao filho. O pacto que estava sendo feito com Abraão seria transferido para Isaque, na geração se­ guinte. Estabelecerei o meu pacto. A forma costumeira para esta declaração é “cor­ tar” um pacto. Embora a narrativa da fonte Judia (cap. 10) tivesse a liberdade de retratar Deus ratificando o seu pacto em padrões culturais aceitos (bissecação dos animais), a fonte Sacerdotal evita fazer tal implicação. A confirmação da intenção de Deus está somente em sua palavra. Nenhum outro ato é necessário. Desde então, Abrão e Sarai serão cha­ mados sempre de Abraão e Sara. Até então, apenas os nomes anteriores ocor­ riam, mesmo em fontes que não a Sacer­ dotal, embora elas não registrassem a mudança de nomes. Isto pode ser devido à cuidadosa compilação dos outros ma­ teriais, feita pela escola Sacerdotal, e seria uma evidência a mais de que este grupo serviu como redator final do Pen- tateuco. 22 Ao ac a b a r de falar com A braão, subiu Deus de diante dele. 23 Logo tom ou A braão a seu filho Ism ael, e a todos os nascidos na sua casa e a todos os com prados por seu dinheiro, todo varão en tre os da casa de A braão, e lhes circuncidou a carn e do p re ­ púcio, naquele m esm o dia, como D eus lhe o rdenara. 24 A braão tinha noventa e nove anos, quando lhe foi circuncidada a carne do prepúcio. 25 E Ism ael, seu filho, tinha treze anos, quando lhe foi circuncidada a carne do prepúcio. 26 No m esm o dia foram circuncidados A braão e seu filho Ism ael. 27 E todos os hom ens d a sua casa, assim os nascidos em casa, como os com prados por dinheiro ao estrangeiro, foram circuncida­ dos com ele. A referência ao fato de que Deus “su­ biu tem paralelo em 35:13. Em outras passagens, ele fala do céu (21:17; 22:11). O que esta declaração significa essencial­ mente é que Deus está além da terra, e não pode, em termos de operação, ser limitado a ela. Como Israel veio a verifi­ car, Deus é imanente em todo o Univer­ so (Sal. 139), mas está também além dele, é maior do que a soma de suas partes, visto que ele foi criado por ele. Naquele mesmo dia. Esta expressão é usada duas vezes (v. 23 e 26), para mostrar o desejo de Abraão de obedecer, mas também a sua determinação de que nada de sua parte retardaria o cumpri­ mento da promessa. Este era um proce­ dimento perigoso e exigia considerável fé da parte de Abraão. Visto que todos os seus homens foram circuncidados no mesmo dia, o clã ficou indefeso diante de seus inimigos. Reminiscências desta ex­ periência devem ter dado, mais tarde, aos filhos de Jacó, a idéia de seu estra­ tagema contra os siquemitas (34:13 e ss.). Só os machos foram circuncidados, embora em algumas culturas se sabe ter sido praticada também a circuncisão das mulheres. Estas foram incjuídas no pacto com base no princípio da solidariedade da família. 4) A Confirmação de Abraão (17:22-27)
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    Este capítulo começaa narrativa da fonte Judia, da destruição de Sodoma e Gomorra, que continua no capítulo se­ guinte. Esta é uma das unidades mais longas do livro de Gênesis e é caracteris­ ticamente antropomórfica e vívida. De imediato, somos confrontados com uma das passagens mais misteriosas do Velho Testamento, e, por isso, uma das mais disputadas. A igreja primitiva era da opinião de que ela falava da Trindade, visto que o Senhor aparece em três pes­ soas. Muitos eruditos modernos estão convencidos de que uma exegese sadia não chegará a esta conclusão, como o demonstrará um exame mais detido des­ ta passagem. Contudo, dizer que ela não descreve a Trindade não é dizer que ela não tenha um peso ponderável no desen­ volvimento dessa doutrina. 1) Um Hospedeiro Ansioso (18:1-8) 1 Depois apareceu o Senhor a A braão ju n ­ to aos carvalhos de M anre, estando ele sen­ tado à p o rta da tenda, no m aior calor do dia. 2 Levantando A braão os olhos, olhou e eis trê s hom ens de pé em frente dele. Quando os viu, correu da p o rta da tenda ao seu encon­ tro, e prostrou-se em te rra , ã e disse: M eu Senhor, se ag o ra tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo. 4 E ia, traga-se um pouco d ’água, e lavai os pés e recostai-vos debaixo da árvo- d e ; 5 e tra re i um bocado de p ã o ; refazei as vossas forças, e depois p assareis adiante; porquanto por isso chegastes até o vosso servo. R esponderam -lhe: F aze assim como disseste. 6 A braão, pois, apressou-se em ir te r com S ara n a tenda, e disse-lhe: A m as­ sa depressa três m edidas de flor de farinha, e faze bolos. 7 E m seguida correu ao gado, apanhou um bezerro tenro e bom e deu-lhe ao criado, que se apressou em prepará-lo. 8 E ntão tom ou queijo fresco, e leite, e o bezerro que m an d ara p re p a ra r, e pôs tudo diante deles, ficando em pé ao lado deles debaixo da árvore, enquanto com iam . Este capítulo começa dizendo que o Senhor apareceu a Abraão no calor do dia, quando estava sentado à porta de sua tenda. Ao levantar os olhos, de re­ 9. Abraão Ê Visitado por Deus (18:1-33) pente ali estavam três homens diante dele. Ele dirigiu-se a um deles como meu Senhor; a palavra hebraica usada é Ado- nai, termo veterotestamentário usado ex­ clusivamente para Deus. Com vogais di­ ferentes, ele pode significar “meu se­ nhor”, título de respeito, que podia ser usado em relação a outro homem. Con­ tudo, o Texto Massorético, ou recebido, declara, insofismavelmente, que ele per­ cebeu imediatamente quem eram eles. De fato, provavelmente ele estava orando e esperando tal visita por muito tempo. As outras versões antigas também con­ firmam o texto tradicional. Os intérpre­ tes modernos o emendam, fazendo figu­ rar nele “meu senhor”, porque acham que os antigos haviam interpretado na saudação o que Abraão percebeu apenas depois de algum tempo de conversa. Como é que ele podia saber que era Deus? Sem se considerar a base para que ele os reconhecesse, coisa que o escritor não discute, é óbvio que Abraão sabia quem eram. Ele não apenas chamou um dos homens de Adonai, como também os seus esforços frenéticos para acomodar os visitantes inesperados durante o ca­ lor do dia excedem até a proverbial hos­ pitalidade oriental. E também o seu medo de que os homens passassem dele dificilmente seria a atitude de um vetera­ no do deserto. Ele sabia bem que quando Deus viesse, ele precisaria aproveitar a ocasião ao máximo. Ele não viria daque­ la forma outra vez, e quanto muito, não permaneceria muito tempo. Embora esta seja claramente a base para se considerar que ele os reconheceu à primeira vista, não significa que a Trindade apareceu na forma de três ho­ mens. Abraão, usando pronomes singu­ lares no versículo 3, dirigiu-se a Adonai como líder do grupo. E então, nos versí­ culos seguintes, incluiu os outros, em seu convite geral. No versículo 22, os dois homens (chamados de anjos, em 19:1) foram para Sodoma, enquanto o Senhor 233
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    ficou para trás,para conversar com Abraão. Aqui, está claro que os dois homens devem ser diferenciados do Se­ nhor propriamente dito, que também aparecera em forma humana. Não obs­ tante, as evidências não são só estas. No versículo 21, o Senhor disse: “Des­ cerei agora, e verei”, mas ficou para trás, e os dois anjos desceram. Desta forma, quando eles entraram em Sodoma, o próprio Senhor entrou, senão não teria cumprido a sua palavra. E, novamente, um dos anjos que estava com Ló dis­ se que ele, pessoalmente, era capaz de subverter Sodoma. Quando esse ato foi realizado, “o Senhor, da sua parte, fez chover do céu enxofre e fogo sobre So­ doma e Gomorra” (19:24). Coerentemente, apesar de o Pai, o Filho e o Espírito Santo não serem apre­ sentados em Gênesis 18 e 19, o escritor não hesita em dar a entender que, embo­ ra os anjos não fossem o Senhor, o Se­ nhor foi representado neles. Portanto, este é um conceito muito fluido da natu­ reza da Divindade. “Todo o discurso de Abraão é um óti­ mo exemplo da cortesia profusa, deferen­ te, autodepreciadora, característica das boas maneiras orientais” (Skinner, p. 300). Ele lhes prometeu um pouco de água, mas trouxe tanto queijo fresco (em outras versões, uma espécie de iogur­ te) quanto leite. Ele propôs um bocado de pão, e fez Sara assar um considerável número de litros de farinha. A isso tudo ele adicionou a carne de um novilho cevado. De maneira tipicamente orien­ tal, ele ficou de pé, enquanto eles co­ miam, e atendeu a todas as suas necessi­ dades. Tal tipo de hospitalidade, teria sido oferecida a quaisquer estranhos que fossem bem-vindos. O que tomou a cena tão incomum foi o ritmo acelerado em um dia quente e sufocante. Algo inusitado estava para acontecer, e Abraão fora capaz de prevê-lo. O aspecto mais incomum da cena, todavia, foi o fato de o Senhor ter consen­ tido em comer à mesa de Abraão. Isto é acontecimento sem precedentes no Velho Testamento. Em Juizes 13, o anjo do Senhor recusou-se a comer com Manoá. Um notável paralelo é o convite de Jesus em Apocalipse 3:20: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei...” 2) Uma Hospedeira Incrédida (18:9-15) 9 P erguntaram -lhe e le s: Onde está S ara, tu a m ulher? E le respondeu: E stá ali na tenda. 10 E um deles lhe d isse: C ertam ente tornarei a ti no ano vindouro; e eis que S ara tu a m ulher te rá um filho. E S ara estav a escutando à p o rta da tenda, que estav a a trá s dele. 11 O ra, A braão e S ara e ram já velhos, e avançados em idade; e a S ara havia cessado o incôm odo das m ulheres. 12 S ara então riu-se consigo, dizendo: Terei ainda deleite depois de haver envelhecido, sendo tam bém o m eu senhor já velho? 13 Perguntou o Senhor a A braão: P o r que se riu Sara, dizendo: Ê verdade que eu, que sou velha, darei à luz um filho? 14 H á, porven­ tu ra, algum a coisa difícil ao Senhor? Ao tem po determ inado, no ano vindouro, to m a ­ rei a ti, e S ara te rá um filho. 15 E ntão S ara negou, dizendo: N ão m e ri; porquanto ela teve m edo. Ao que ele respondeu: Não é a ssim ; porque te riste. Visto que os visitantes perguntaram por Sara, é evidente que ela ainda não se encontrara com eles, embora tivesse pre­ parado a refeição. Abraão, provavelmen­ te, não lhe tinha revelado a identidade deles. Mesmo que o tivesse feito, a sua incredulidade a respeito daquele anúncio é compreensível. Certamente tornarei a ti no ano vin­ douro possivelmente se refere ao período de nove meses de uma gestação. O ori­ ginal hebraico diz literalmente: “Eu vol­ tarei a você daqui ao intervalo de uma vida, mais ou menos.” O incômodo das mulheres é uma referência ao período menstrual. Depois de haver envelhecido é literalmente: “depois que me gastei” co­ mo um vestido (cf. Deut. 8:4). Há, porventura, alguma coisa difícil ao Senhor? O hebraico literal é um pou- 234
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    quinho diferente destatradução. “Algu­ ma coisa” não está presente, e o verbo empregado é “ser diferente”, “ser ma­ ravilhoso” . Significa simplesmente: “É isso miraculoso demais para o Senhor?” O substantivo derivado do verbo “é difí­ cil” é a palavra que designa milagre no Velho Testamento, ou seja, algo inusita­ do, diferente do ordinário (cf. Is. 9:6). A idéia que o escritor deseja expressar não depende do reconhecimento de Sara de que o próprio Senhor estava falando. Ela havia rido da palavra de Deus. Quem a havia comunicado não era o caso. Por­ que ela vièra de Deus, devia ser honrada. Acostumada a guardar os seus pensa­ mentos para si mesma, Sara havia rido apenas interiormente, e ficou atônita porque o visitante pôde sondar o seu coração. A sua surpresa com esta revela­ ção a fez abrir-se. Agora ela reconhecia que estava em sérias dificuldades, e ten­ tava negar a sua leviandade. A sua ale­ gação de inocência foi negada categorica­ mente. Deus, como sempre, teve a última palavra. 3) Conversa Intima (18:16-21) 16 E levantaram -se aqueles hom ens dali, e olharam p a ra a banda de Sodom a; e A braão ia com eles, p a ra os encam inhar. 17 E disse o S enhor: O cultarei eu a A braão o que faço, 18 visto que A braão certam ente virá a ser um a grande e poderosa nação, e por m eio dele serão benditas todas as nações da te r ­ ra ? 19 P orque eu o tenho escolhido, a fim de que ele ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, p a ra que guardem o cam inho do Senhor, p a ra praticarem retidão e ju stiç a ; a fim de que o Senhor faça vir sobre A braão o que a respeito dele tem falado. 20 D isse m ais o Senhor: Porquanto o clam or de Sodoma e G om orra se tem m ultiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado m uito, 21 desce­ rei agora, e verei se em tudo têm praticado segundo o seu clam or, que a m im tem che­ gado; e se não, sabê-lo-ei. Os expositores chamam os versículos 17 a 19 de “Solilóquio de Deus”,, pois aqui ele é descrito como alguém que pensa em voz alta, enquanto nos é permi­ tido ouvi-lo. Abraão precisava saber o que Deus estava para fazer, para que pudesse interpretar corretamente os ca­ minhos de Deus para os seus descenden­ tes. Do destino iminente de Sodoma e Gomorra ele aprenderia indelevelmente qual era a atitude de Deus para com o pecado e a desobediência. Sabendo-o an­ tecipadamente, Abraão não iria atribuir aquele desastre ao acaso. Da mesma forma, Deus mais tarde iria falar atra­ vés de seus profetas, antes de outras catástrofes históricas, para que Israel pudesse compreender os seus caminhos. Não era por acaso que os grandes pro­ fetas vieram em grupos. Eles estavam preparando Israel para as suas grandes decisões na História: Elias ei Eliseu na crise de Baal; Àmôs, Oséias, Miquéias e Isaías no período assírio; Sofonias, Ha- bacuque, Jeremias e Ezequiel durante o cativeiro babilónico; Ageu, Zacarias e Malaquias na época da restauração. A fim de que o Senhor faça vir sobre Abraão o que a respeito dele tem falado. Para ser fiel a si mesmo, Deus não pode abençoar Abraão e seus descendentes, a não ser que eles se entreguem à justiça e à retidão. Ele trabalhará com eles cons­ tantemente, para ver isso acontecer! Em Cristo, nada menos do que isso pode acontecer. A palavra traduzida como clamor é ze’akah, termo técnico legal, que designa os gritos de uma pessoa que sofre grande injustiça. Na verdade, a palavra usada no hebraico, para clamores contra a injus­ tiça, era chamas: violência, procedimen­ to incorreto! (cf. Hab. 1:2; Jer. 20:8; Jó 19:7). Descerei agora, e verei (cf. os comen­ tários 11:5). Não que Deus não estivesse percebendo o que estava acontecendo, mas ele não destruiria nem mesmo a obviamente pecaminosa Sodoma sem que antes todas as evidências fossem exa­ minadas. Ele não aceita nada por ouvir falar, mas age apenas depois que todas as evidências são apresentadas. 235
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    22 E ntãoos hom ens, virando os seus ro s­ tos dali, foram -se em direção a Sodom a; m as A braão ficou ainda em pé diante do Se­ nhor. 23 E chegando-se A braão, d isse : D es­ tru irás tam bém o justo com o ím pio? 24 Se porventura houver dnqU enta justos n a ci­ dade, d estru irás e não pouparás o lu g ar por causa dos cinqüenta justos que ali estão? 25 Longe de ti que faças ta l coisa, que m ates o justo com o ím pio, de m odo que o justo seja como o ím pio; esteja isto longe de ti. Não fftrá ju stiça o Juiz de toda a te rra ? 26 E ntão disse o Senhor: Se eu ac h a r em Sodom a cin­ qüenta justos dentro d a cidade, pouparei o lugar todo por cau sa deles. 27 Tornou-lhe A braão, dizendo: E is que agora m e atrev i a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza. 28 Se porventura de cinqüenta justos fa lta ­ rem cinco, d estru irás toda a cidade por causa dos cinco? R espondeu e le : N ão a des­ truirei, se eu ac h a r ali quaren ta e cinco. 29 Continuou A braão ainda a falar-lhe, e d isse: Se po rventura se ach arem ali q uaren­ ta? M ais um a vez assentiu: F o r causa dos q uarenta não o farei. 30 D isse A braão: O ra, não se ire o Senhor, se eu ainda falar. Se porventura se ach arem ali trin ta? De novo assentiu: Não o farei, se ach ar ali trin ta. 31 Tornou A braão: E is que o u tra vez m e atrev i a fa la r ao Senhor. Se porventura se acharem ali vinte? R espondeu-lhe: P o r cau ­ sa dos vinte não a destruirei. 32 D isse ainda A braão: O ra, não se ire o Senhor, pois só m ais esta vez falarei. Se porventura se acharem ali dez? A inda assentiu o Senhor: P o r causa dos dez não a destruirei. 33 E foi- se o Senhor, logo que acabou de falar com A braão; e A braão voltou p a ra o seu lugar. O solilóquio e a declaração feita nos versículos anteriores são seguidos por um diálogo entre Deus e Abraão, que sonda os caminhos secretos de Deus com os homens. Abraão ficou ainda em pé diante do Senhor. Os escribas posteriores ao exílio mudaram, o seu texto recebido, para a redação dada na versão da IBB e da RSV. Originalmente, ele declarava que “o Senhor ainda ficou na presença de Abraão”. Os eruditos modernos discor­ dam a respeito da legitimidade dessa mudança (cf. Skinner). Pode ser que tenhamos aqui um quadro incomum de Deus demorando-se um pouco mais, 4) Sondagem de Mentes (18:22-33) para permitir que Abraão comece a son­ dar os seus caminhos. As perguntas de Abraão relacionam- se com a qualidade preservadora de uma minoria piedosa entre uma grande maio­ ria de pessoas ímpias. Ele aprendera que “até mesmo um número muito pequeno de homens inocentes é mais importante aos olhos de Deus do que uma maioria de pecadores, e é suficiente para frustrar o julgamento” (von Rad, p. 209). É significativo que, à medida que Abraão continuou a interrogar a Deus, embora ficasse cada vez mais ousado em suas perguntas, jamais se esqueceu de que era a Deus que ele estava se dirigin­ do. A abertura de Deus para com ele era uma fonte de certeza de que ele estava dentro da vontade de Deus. De fato, Deus estava pronto a responder afirmati­ vamente a todas as sugestões de miseri­ córdia. Obviamente, ele estava mais pronto para perdoar do que para des­ truir. É uma surpresa o fato de Abraão ter parado em dez. No fundo, embora nunca o mencionasse, ele estava preocupado com Ló. Será que a presença deste salva­ ria a situação? Algumas pessoas sugerem que, na verdade, havia dez membros na família de Ló: Ló, a sua esposa, as suas duas filhas casadas e seus maridos, e as duas solteiras que saíram com ele (Spei- ser). Visto que Ló não conseguiu persua­ dir quatro dessas pessoas a saírem, não teve número suficiente de pessoas para salvar a cidade. Porém parece mais pro­ vável que Ló tinha apenas duas filhas (veja os comentários sobre o cap. 19). Abraão não prosseguiu de dez para me­ nos porque não era necessário que o fi­ zesse. Agora ele conhecia o coração de Deus. O Senhor salvaria a todos os que pudesse. Abraão podia deixar o resto por conta dele. 10. A Destruição de Sodoma (19:1-38) Este capítulo retoma a história de Ló onde a narrativa o deixara no capítulo 236
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    13. De fato,o cuidadoso delineamento psicológico da desintegração gradual do caráter de Ló é peculiar, único no Velho Testamento. E sugere que a história de Ló deve ter sido preservada como tradi­ ção separada, e incorporada à narrativa da fonte Judia (von Rad). De maneira semelhante, muitas facetas da narrativa da destruição de Sodoma podem ter sido preservadas independentemente, antes de serem incluídas no registro bíblico. Surpreende que “Sodoma e Gomorra” geralmente sejam combinadas em união inseparável, mas nada se diz do que estava acontecendo em Gomorra. Apa­ rentemente, havia outras tradições a res­ peito dessa cidade, que não foram re­ gistradas no Velho Testamento. O que foi incluído é o material mais útil para se entender tanto o curso da vida de Abraão quanto a de seu sobrinho Ló, que esco­ lheu outro rumo. 1) A Degradação de Sodoma (19:1-11) 1 Â tard e chegaram os dois anjos a Sodo­ m a. Ló estav a sentado à p o rta de Sodoma e, vendo-os, levantou-se p a ra os receb er; prostrou-se com o rosto em te rra , 2 e d isse: E is agora, m eus senhores, entrai, peço-vos, em casa de vosso servo, e passai nela a noite, e lavai os pés; de m adrugada vos levantareis e ireis vosso cam inho. R espon­ d eram eles: N ão; antes n a p raça p a ssa re ­ m os a noite. 3 E ntretanto, Ló Insistiu m uito com eles, pelo que foram com ele e e n tra ­ ra m em su a c a sa ; e ele lhes deu um banque­ te, assando-lhes pães ázim os, e eles com e­ ram . 4 M as antes que se deitassem , cerca­ ra m a casa os hom ens da cidade, isto é, os hom ens de Sodom a, tanto os m oços com o os velhos, sim , todo o povo de todos os lad o s; 5 e, cham ando a Ló, perguntaram -lhe: Onde estão os hom ens que en traram esta noite em tua casa? Traze-os cá fora a nós, p a ra que os conheçam os. 6 E ntão Ló saiu-lhes à porta, fechando-a a trá s de si, 7 e d isse: M eus ir ­ m ãos, rogo-vos que não procedais tão p e r­ versam ente; 8 eis aqui, tenho duas filhas que ainda não conheceram v arão ; eu vo-las tra re i p a ra fora, e lhes fareis com o bem vos p arecer; som ente nada façais a estes ho­ m ens, porquanto e n traram debaixo da som ­ b ra do m eu telhado. 9 E les, porém , disse­ ra m ; Sai daí. D isseram m ais: E sse indi­ víduo, com o estrangeiro velo aqui h ab itar, e quer se a rv o ra r em juiz! A gora te fa re ­ m os m ais m al a ti do que a eles. E a rre m e s­ saram -se sobre o hom em , isto é, sobre Ló, e aproxim avam -se p a ra arro m b ar a porta. 10 A queles hom ens, porém , estendendo as m ãos, fizeram Ló e n tra r p a ra dentro da casa, e fecharam a p o rta; 11 e feriram de cegueira os que estavam do lado de fora, tanto pequenos com o grandes, de m an eira que can saram de p ro cu rar a porta. O leitor não precisa ficar surpreso com o fato de os dois mensageiros (anjos) terem chegado a Sodoma na mesma tar­ de do banquete com Abraão. A distância era de cerca de sessenta quilômetros, através de território acidentado, e nor­ malmente levaria dois dias. Mas aqueles não eram homens comuns. Sem dúvida, Ló não suspeitava disso. Como vimos, os acontecimentos que acabaram de descre­ ver-se no capítulo 18 não se referem a “sem o saberem, hospedaram anjos” (Heb. 13:2), pois Abraão reconheceu a presença de Deus. Ló, todavia, não tinha tanta percepção, embora fosse justo e hospitaleiro. O fato de ele ter curvado o rosto em terra, em contraste com a sau­ dação mais restrita de Abraão (18:2), era um sinal de impulsividade que emergiria mais visivelmente nos acontecimentos se­ guintes. Ló estava sentado à porta de Sodoma, onde se congregavam os homens. Só ele correu para saudar os estranhos e ofere­ cer-lhes a hospitalidade de seu lar. A princípio, eles recusaram abruptamente, pois não haviam vindo para uma visita social, como fora com Abraão. Porém, diante de sua insistência, aceitaram. A primeira vista, a sugestão de Ló de que eles fossem embora de madrugada pare­ ce uma falta da consideração apropriada para com a companhia deles, porém ela se originava do conhecimento que ele tinha da cidade. Seria do interesse de seu bem-estar que eles saíssem de Sodo­ ma o mais rápido possível. O pedido dos homens de Sodoma de conhecer os visitantes era, provavelmen­ te, uma exigência de relações homosse- 237
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    xuais. Desta forma,a palavra “sodomia” encontrou sua origem. De fato, a cidade era tão má quanto o “clamor” havia indi­ cado. Ló, com impulsividade ainda maior, saiu para fora de sua casa, fechou a porta detrás de si, para proteger os seus hóspedes, e tentou arrazoar ousadamen­ te com a turba. Chegou a oferecer-lhes as suas filhas. A sua sugestão é repulsiva para a mente moderna, mas para Ló era o supremo ato de hospitalidade. O seu dever era proteger os seus hóspedes a qualquer custo. Contudo, a oferta de suas filhas fora feita com demasiada facilidade, e talvez tenha influenciado a própria falta de respeito delas para com o pai, quando, mais tarde, se viram sozi­ nhas numa caverna com ele. A reação da malta foi fazer ameaças contra a pessoa do próprio Ló. Eles ha­ viam-se deixado levar demasiadamente longe em suas perversões, para voltarem atrás pela oferta das duas moças. Só a intervenção dos anjos salvou Ló. Os ho­ mens que estavam do lado de fora foram feridos com uma espécie temporária de cegueira (cf. II Reis 6:18), e a fútil tentativa de Ló de agir heroicamente resultou no fato de ele ser protegido pelos seus hóspedes! Então ele ficou sabendo que os seus hóspedes não eram homens mortais. 2) A Fuga de Sodoma( 19:12-23) 12 E ntão disseram os hom ens a L ó : Tens m ais alguém aqui? Teu genro, e teus filhos, e tuas filhas, e todos quantos tens na cida­ de, tira-os p a ra fora deste lu g ar; 13 porque nós vam os d estru ir este lugar, porquanto o seu clam or se tem avolum ado diante do Senhor, e o Senhor nos enviou a destruí-lo. 14 Tendo saído Ló, falou com seus genros, que haviam de ca sa r com suas filhas, e dis­ se-lhes: Levantai-vos, saí deste lugar, p or­ que o Senhor há de d estru ir a cidade. M as ele pareceu aos seus genros com o quem estava zom bando. 15 E ao- am anhecer os anjos ap ertav am com Ló, dizendo: L evanta- te, tom a tu a m ulher e tu as duas filhas que aqui estão, p a ra que não pereças no castigo da cidade. 16 E le, porém , se dem orava; pelo que os hom ens pegaram -lhe pela m ão, a ele, à sua m ulher, e às suas duas filhas, sendo-lhe m isericordioso o Senhor. A ssim o tirara m e o puseram fora da cidade. 17 Quando os tinham tirado p a ra fora, disse um deles: E scapa-te, salva a tu a vida; não olhes p ara trá s de ti, nem te detenhas em toda esta p lan ície; escapa-te lá p a ra o m on­ te, p ara que não pereças. 18 Respondeu-lhes Ló: Ah, assim não, m eu Senhor! 19 E is que agora o teu servo tem achado graça aos teus olhos, e tens engrandecido a tua m isericór­ dia que a m im m e fizeste, salvando-me a v id a; m as eu não posso escapar-m e p a ra o m onte; não seja caso m e apanhe antes este m al, e eu m o rra. 20 E is ali perto aquela cidade, p a ra a qual eu posso fugir, e é pequena. P erm ite que eu m e escape p a ra lá (porventura não é pequena?), e viverá a m inha alm a. 21 D isse-lhe: Quanto a isso tam bém te hei atendido, p a ra não subverter a cidade de que acabas de falar. 22 A pressa- te, escapa-te p a ra lá; porque nada poderei fazer enquanto não tiveres ali chegado. Por isso se cham ou o nom e da cidade Zoar. 23 T i­ nha saído o sol sobre a te rra , quando Ló entrou em Zoar. Os anjos completaram a sua inquiri­ ção, e o julgamento foi declarado. Eles não sabiam o total dos membros da famí­ lia de Ló, ou usaram uma forma polida de apressá-lo a reunir os seus familiares. Teu genro, e teus filhos, e tuas filhas. Ê estranho que o genro (um só) é men­ cionado antes de filhos e filhas, e é possí­ vel que tenha havido alguma deslocação no texto. O anjo concorda com a possi­ bilidade de que houvesse um bom núme­ ro de pessoas associadas com Ló que quisessem abandonar a cidade com ele; se assim fosse, o total de pessoas chegaria a mais do que os dez do capítulo 18. Por que estavam eles tão decididos a destruir a cidade? O seu destino já não era iminente, visto que o verdadeiro número de justos fora determinado? É provável que o anjo já conhecesse a resposta à pergunta que fizera a Ló, mas o patriarca precisava descobrir a verdade por si mesmo. Ou será que esta passa­ gem está dizendo que Sodoma era pior do que havia transpirado? O que podia ser feito era apenas poupar os justos. Isto era o que realmente Abraão estava pe­ 238
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    dindo: a libertaçãode Ló, e não de Sodoma. O Senhor nos enviou a destruí-lo. Mes­ mo antes da hora em que foi feita a inves­ tigação, a destruição da cidade já havia sido decretada. Durante todo o tempo em que Deus havia estado tranqüilizando Abraão, ele sabia a que missão havia enviado os anjos. Por que, então, ele se deu ao trabalho de investigar? Evidente­ mente, para estar absolutamente certo de que não estava cometendo nenhum erro. Deus estava disposto, no último momen­ to, mesmo depois de ter decretado a des­ truição de Sodoma, a mudar de idéia diante de qualquer sinal de esperança (cf. Jer. 18:1 e ss.; Jon. 1-3). Que haviam de casar com suas filhas. O hebraico pode dar a entender isto (von Rad) ou “que haviam-se casado com suas filhas” (Speiser, com reservas). É mais provável que a tradução da IBB, e da RSV, seja correta, pois, se não fosse, o escritor certamente teria mencionado os rogos de Ló por suas filhas casadas, e não apenas por seus genros. As suas únicas filhas estavam em casa. A ordem para não olhar para trás nos faz lembrar que, quando Deus intervém na terra, o homem não pode adotar a posição de espectador. Ou ele escapa, ou é destruído. Havia chegado a hora de Ló escolher. Não havia uma terceira alterna­ tiva. Muitos expositores sugerem que a história a respeito da esposa de Ló se originou a fim de explicar algumas for­ mações da região, em forma de mulher (von Rad). É mais provável que a história de sua morte trágica, já presente na tradição dos judeus, os levou a identifi­ car uma formação local como o seu corpo petrificado. E então Ló tomou-se incoerente. Ele não podia fugir para as montanhas de Moabe, pois a ascensão difícil retardaria os seus passos, de forma que a catástrofe iminente o apanharia. Com palavras tro­ peçando em palavras, ele rogou que lhe fosse permitido parar em Zoar, que era tão pequena que certamente Deus a dei­ xaria passar despercebida em seu plano. Em outras palavras, para Ló, qualquer cidade serviria. O pensamento de viver fora de área urbana era insuportável para ele. Ele estava irremediavelmente orientado em direção à sociedade urba­ na. O anjo, admitindo que trazia ordens estritas para não destruir Sodoma en­ quanto Ló não estivesse a salvo, fez-lhe esta concessão. As promessas feitas a Abraão iriam ser cumpridas. A origem apresentada para a palavra Zoar (heb., pequeno) é uma das poucas explicações etimológicas do Velho Tes­ tamento que os eruditos geralmente acei­ tam como exata. A maioria delas é con­ siderada como conotações populares que têm pequena relação com o verdadeiro significado das palavras. A preservação de tais impressões populares, todavia, é também um valioso repositório das ex­ periências de Israel com a sua história. 3) Ira e Graça (19:24-29) 24 E ntão o Senhor, da sua p arte, fez cho­ ver do céu enxofre e fogo sobre Sodom a e G om orra. 25 E subverteu aquelas cidades, e toda a planície, e todos os m oradores das cidades, e o que nascia da te rra . 26 M as a m ulher de Ló olhou p a ra trá s e ficou conver­ tida em u m a estátu a de sal. 27 E A braão le ­ vantou-se de m adrugada, e foi ao lugar onde estivera em pé diante do Senhor; 28 e, con­ tem plando Sodom a e G om orra e toda a te rra da planície, viu que subia da te rra fum aça como a de um a fornalha. 29 O ra, aconteceu que, destruindo D eus a s cidades da planície, lem brou-se de A braão, e tirou Ló do m eio da destruição, ao subverter aquelas cidades em que Lé hab itara. É possível que o enxofre e o fogo fossem gases de petróleo incendiados por fogos subterrâneos. A palavra subverteu pode preservar a memória de um terre­ moto, que abriu a terra, para permitir que esses gases escapassem. Tal cataclis- ma pode ter feito com que tenha cedido a terra ao sul do Mar Morto, e a água tenha coberto a região ocupada por So­ doma. Tradições concernentes a essa ca- 239
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    tástrofe ocorrem nodecorrer de todo o Velho Testamento, embora as diferentes passagens descrevam o pecado de Sodo- ma de maneira diversa. Isaías põe a culpw em sua injustiça (1:10; 3:9), Eze- quiel descreve o seu orgulho e ócio prós­ pero (16:49), enquanto Jeremias fala de adultério e mentira (23:14). As seme­ lhanças entre a cena diante da casa de Ló e a infâmia ocorrida em Gibéa (Juí. 19) sugerem uma relação entre essas his­ tórias, mas a sua natureza exata não é visível. Com toda a probabilidade, as categorias de pecado em Sodoma eram tão variadas que cada profeta podia es­ colher uma delas, para ilustrar os seus oráculos, sem exaurir as outras possibili­ dades! Enquanto Ló estava fugindo para Zoar, Abraão estava se levantando de madrugada, para ver o que estava acon­ tecendo em Sodoma. Tudo o que ele pôde ver foi o fumo que se elevava, mar­ cando o rasto do desastre. O seu silêncio foi eloqüente, pois deve ter-lhe parecido que todos os seus rogos diante de Deus em favor de Ló haviam sido em vão. Mal sabia ele que Deus havia cumprido a sua palavra, de maneira que lhe era des­ conhecida. Da mesma forma, os homens muitas vezes desesperam diante da perda aparente de um sonho que Deus conser­ vara vivo de maneiras que vão além da compreensão deles. Só um homem que tenha observado as ruínas fumegantes de suas orações a Deus pode compreender a dor que Abraão sentiu e como ele ficou desanimado. A maneira misteriosa como Deus cumpriu a sua palavra a Abraão deve ser uma fonte de ânimo para todos os fiéis que se lamentam diante de seus senhos desfeitos. O versículo 29 evidentemente provém da fonte Sacerdotal e acrescenta uma observação que falta em outros episó­ dios. Foi por amor a Abraão que Ló fora liberto. Desta forma, um homem justo fora a causa da libertação de outro me­ nos digno do que ele. O princípio que Abraão descobrira em a natureza de Deus estava funcionando. 4) Lóe Suas Filhas (19:30-38) 30 E subiu Ló de Zoar, e habitou no m onte, e as suas duas filhas com e le ; porque tem ia h ab itar em Z oar; e habitou num a caverna, ele e as suas duas filhas. 31 E ntão a prim o­ gênita disse à m e n o r: Nosso pai é já velho, e não h á varão n a te rra que en tre a nós, segundo o costum e de to da a te rra ; 32 vem , dem os a nosso pai vinho a beber, e deitem o- nos com ele, p a ra que conservem os a des­ cendência de nosso pai. 33 D eram , pois, a seu pai vinho a beber naquela noite; e, entrando a prim ogênita, deitou-se com seu p a i; e não percebeu ele quando ela se deitou, nem quando se levantou. 34 No dia seguin­ te disse a prim ogênita à m en o r: E is que eu ontem à noite m e deitei com m eu p ai; de- mos-lhe vinho a beber e tãm bém esta no ite; e então, entrando tu, deita-te com ele, p a ra que conservem os a descendência de nosso pai. 35 T ornaram , pois, a d ar a seu pai vinho a beber tam bém naquela no ite; e, levantando- se a m enor, deitou-se com ele, e não perce­ beu ele quando ela se deitou, nem quando se levantou. 36 A ssim as duas filhas de Ló conceberam de seu pai. 37 A prim ogênita deu à luz um filho e cham ou-lhe M oabe; este é o pai dos m oabitas de hoje. 38 A m enor tam bém deu à luz um filho, e cham ou-lhe Ben-Ami; este é o pai dos am onitas de hoje. Ló não permaneceu por muito tempo em Zoar, pois, aparentemente, reconhe­ ceu naquela pequena cidade os mesmos sintomas que havia verificado em Sodo­ ma. Temendo outra manifestação da ira de Deus, ele finalmente fugiu, com suas filhas, para a montanha a princípio suge­ rida pelo anjo. Segue-se uma estranha história de incesto. Alguns intérpretes sugerem que esta história era contada em Israel para expli­ car a origem dúbia de seus vizinhos. Outros, que ela era recordada com orgu­ lho por moabitas e amonitas, para expli­ car a sua origem ou pedigree “puro”, mediante o ato corajoso de duas mulhe­ res fortes (Gunkel). Ainda outros fazem este relato remontar a uma história do homem primitivo, quando, depois de uma catástrofe universal, apenas um ho­ 240
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    mem e suasduas filhas permaneceram vivos. A filha de Ló diz: Não há varão na terra que entre a nós (cf. von Rad). Contudo, esta expressão pode significar não que não havia restado nenhum ho­ mem, mas que as filhas — mantidas por seu pai quase como prisioneiras, como estavam, em uma caverna da montanha — pensavam que não sobrevivera ne­ nhum homem. O que tornou a situação pior era o fato que as moças estavam para se casar quando foram forçadas a abandonar Sodoma. Este não foi o fim do caso. Há um pequeno livro, no Velho Testamento, o livro de Rute, que fala de uma jovem moabita, descendente deste ato incestuo­ so. Ela se lança aos pés de um parente, Boaz, que a chama de sua “filha” (Rute 3:10), mas o propósito dela não era con­ seguir um filho através de engano. Me­ diante o seu ato, ela estava conclamando o mais elevado senso de dever daquele parente. Essa mulher nobre redimiu para sempre o nome de Ló. O bem que estava latente nele finalmente emergiu, de for­ ma que o Novo Testamento podia olhar para Ló com todas as suas fraquezas, e assim mesmo chamá-lo de “justo” (II Ped. 2:7). Não que ela tenha conseguido fazer expiação pelas falhas de Ló. Pelo contrário, uma descendente evidenciou características latentes que só Deus po­ dia perceber e aceitar originalmente. 11. Sara eAbimeleque (20:1-18) Esta história é semelhante a 12:10-20. Em ambas as narrativas, Abraão disse a um monarca que Sara era sua irmã. Em cada caso, o rei tomou-a como sua espo­ sa, e sofreu pragas por isso. Quando des­ cobriu que havia sido enganado, repreen­ deu Abraão asperamente. Contudo, Abraão emergiu de ambos os encontros mais rico do que antes. Há também marcantes diferenças en­ tre estas histórias. O nome divino de Yahweh (o Senhor) é usado no capítulo 12, mas Elohim (Deus) no que estamos estudando. Em a narrativa anterior, Fa­ raó era o rei; nesta, foi Abimeleque. No Egito, o engano foi descoberto depois que pragas sobrevieram à casa de Faraó, ao passo que Deus veio a Abimeleque em sonhos. No capítulo 12, a relação marital de Sara com Faraó não está clara; no capítulo 20, se diz claramente que a união jamais foi consumada. A descober­ ta do engano fez com que Faraó expul­ sasse Abraão do Egito como persona non grata. Em Gerar, o patriarca recebeu um convite amável para permanecer na terra. Nenhuma tentativa foi feita para explicar a base para a prevaricação do capítulo 12; aqui, Abraão explicou que Sara era sua meia-irmã, bem como sua esposa. Todas as características da fonte Is­ raelita do Norte são encontradas no ca­ pítulo 20, levando muitos estudiosos a colocar a passagem em foco nesta clas­ sificação. O uso de um sonho, preocupa­ ção com problemas éticos, a ênfase na função profética de Abraão, tudo aponta para uma fonte diferente da Judia, que aparece no capítulo 12 (von Rad). Embora seja evidente que o capítulo 20 contém material bem diferente do que consta no capítulo anterior e provém, possivelmente, da fonte Israelita do Nor­ te, não está bem claro se ambas as histórias se baseiam no mesmo aconteci­ mento ou em duas ocorrências separa­ das. Muitos eruBitos acham que os três relatos da exposição da esposa de um patriarca (12:10-20; 20:1-18; 26:6-11) são edições diferentes do mesmo evento básico, especialmente os capítulos 12 a 20 (Skinner). Contudo, é bem possível que Abraão tenha tentado a mesma ma­ nobra uma segunda vez, que aparente­ mente funcionara bem da primeira vez. Se ele o fez, a sua integridade era um tanto menor do que comumente se supu­ nha. O fato de ter saído do Egito como indesejável e ter tentado a mesma espé­ cie de fraude mais uma vez dificilmente se ajustava com um caráter reto. 241
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    Os capítulos 20a 23 são, em grande parte, da fonte Israelita do Norte, e preservam narrativas da vida de Abraão que se relacionam com sua permanência nas imediações de Berseba. Até então, ele estivera habitando em Hebrom. O fato de ele ter saído de Hebrom pode estar ligado com a destruição de Sodoma e Gomorra. Talvez ele tenha decidido se distanciar mais dessa região. Há a possi­ bilidade de que se iniciou algum comér­ cio entre ele e as cidades da planície. Mais provavelmente, porém, ele estava seguindo o costume de outros nômades do deserto, que raramente permaneciam um longo período no mesmo lugar, pois as condições de pasto se deterioravam, depois de vários anos nas mesmas ime­ diações. 1) Abimeleque Ê Enganado (20:1-7) 1 P a rtiu A braão dali p a ra a te rra do Ne- gebe, e habitou entre C ades e S ur; e p ere­ grinou em G erar. 2 E havendo A braão dito de Sara, sua m ulher: É m inha irm ã ; enviou A bim eleque, rei de G erar, e tom ou a Sara. 3 D eus, porém , veio a A bim eleque, em so­ nhos, de noite, e disse-lhe: E is que estás p ara m o rrer por causa d a m ulher que to ­ m aste; porque ela tem m arido. 4 O ra, Abi­ m eleque ainda não se havia chegado a ela; perguntou, pois: Senhor, m a ta rá s porven­ tu ra tam bém um a nação ju sta? 5 N ão m e disse ele m esm o: É m inha irm ã? e ela m esm a m e disse: E le é m eu irm ão ; na sinceridade do m eu coração e na inocência das m inhas m ãos fiz isto. 6 Ao que D eus lhe respondeu em sonhos: B em sei eu que na sinceridade do teu coração fizeste isto; e tam bém te tenho im pedido de pecar contra m im ; por isso não te p erm iti tocá-la; 7 ago­ ra , pois, restitu i a m ulher a seu m arido, porque ele é profeta, e intercederá por ti, e viverás; se, porém , não lha restituíres, sabe que certam ente m o rrerás, tu e tudo o que é teu. Partiu Abraão dali. O lugar de onde ele iniciou a sua viagem certamente não era Moabe, do capítulo anterior. Desta forma, não podemos ter certeza quanto à seqüência cronológica desses aconteci­ mentos. A própria Gerar não ficava entre Cades e Sur. O que significa, provavel­ mente, a declaração do versículo 1 é que Abraão regularmente vivia no Negebe, mas temporariamente se mudara para Gerar. Deus, porém, veio a Abimeleque. “Ê uma audácia de nosso narrador con­ siderar o pagão digno de uma visitação, de fato, de uma conversa pessoal com Yahweh” (von Rad, p. 223). Deus não apenas veio a Abimeleque, mas o rei chamou-o de Adonai (Senhor, v. 4), ter­ mo usado comumente pelos hebreus. Há uma semelhança definida entre o quadro de Abimeleque e o de Melquisedeque, pois a palavra hebraica que significa rei (melek) aparece em ambos os nomes. Embora fosse um monarca não-israelita, Abimeleque aparentemente adorava o mesmo Deus que Abraão, embora com outro nome. As suas idéias de moralida­ de neste caso eram de fato mais elevadas do que as de Abraão. De fato, o seu comportamento, depois da descoberta de que fora enganado, foi da mais elevada qualidade, mesmo me­ diante os padrões cristãos. Ao invés de expulsar Abraão, ele deu-lhe livre acesso a toda a sua terra, tomando providências para que fosse permitido a Abraão salvar as aparências diante da população. Ao dirigir-se a Sara, ele reconheceu Abraão de fato como “irmão” dela (seria sar­ casmo?), e deu-lhe um presente em di­ nheiro que tornaria claro, a qualquer pessoa, que ele não o considerava respon­ sável pela situação perigosa que havia sido criada. Na verdade, ele pagou o mal com o bem, e tudo foi devido ao seu respeito pelo Deus de Abraão, com quem tivera uma conversa íntima em seu so­ nho. Abraão não estava esperando en­ contrar tal piedade em Canaã (20:11). A verdadeira fé às vezes aparece nos luga­ res mais inesperados. Ora, Abimeleque ainda não se havia chegado a ela. Isto é bem estranho. Al­ guns expositores notam que, se este capítulo segue os capítulos 17 e 18 em termos cronológicos, Sara teria cerca de 242
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    noventa anos deidade. Ela dificilmente teria atraído o interesse de Abimeleque (von Rad). Todavia, pode ser que ele tivesse se casado com ela por razões alheias à atração física. Os haréns não eram formados apenas por causa dos apelos sexuais, e com jovens. Muitas vezes os reis colecionavam esposas de todas as sortes e idades por causa de uma variedade de razões pessoais e políticas. O casamento de Sara e Abimeleque po­ de ter selado um contrato comercial entre ele e Abraão. Se Sara era avançada em idade, mas ainda atraente, isso podia explicar a demora dele em se aproximar dela. É ainda mais provável que ele sofresse de uma enfermidade que limitas­ se a sua atividade marital (cf. 20:17). Desta forma Deus o impedira de pecar (v. 6). Visto que este capítulo não está ligado aos outros definidamente em uma se­ qüência cronológica, é bem provável que 0 acontecimento registrado aqui tenha ocorrido em época muito mais remota do gue os capítulos 17 e 18. Porque ele é profeta é a primeira refe­ rência do Velho Testamento a um “pro­ feta” . Usualmente os profetas viviam pregando. Aqui, Abraão está interceden­ do. Agora sabemos que esta era uma das funções mais importantes dos primeiros profetas, particularmente ao realizarem tarefas relativas ao culto (cf. Deut. 9:20; 1Sam. 7:5; 12:19,23; Jer. 7:16; 27:18). Não é incomum haver uma passagem que fale que um homem é um verdadeiro profeta de Deus em época em que o seu comportamento ético foi menos do que ideal. Os profetas canônicos posteriores não teriam nada a ver com um compor­ tamento tão incoerente (cf. Jer. 23). No entanto, é importante notar que Deus" Abimeleque e a Escritura presumem que a função de Abraão como intercessor não dependia de sua perfeição moral, mas do fato de ele ter sido escolhido por Deus para ser o seu instrumento no mundo. Certamente Abraão haveria de pagar por seus pecados; de fato, ele foi exposto ao escárnio público, que lhe sobreveio quan­ do um rei pagão foi obviamente mais correto do que ele. O convite de Abi­ meleque para Abraão mover-se livremen­ te em seu país expressou a sua convicção de que a presença do patriarca, a despei­ to de suas falhas, seria uma fonte de bênçãos divinas para o reino. Aqui te­ mos, portanto, o papel peculiar de Abraão como “mediador culpado” (von Rad, p. 223). 2) Abimeleque Restitui (20:8-18) 8 Levantou-se A bim eleque de m an h ã cedo e, cham ando a todos os seus servos, falou- lhes aos ouvidos todas estas p alav ras, e os hom ens tem eram m uito. 9 E ntão cham ou A bim eleque a A braão e lhe perguntou: Que é que nos fizeste? e em que pequei contra ti, p a ra trazeres sobre m im e sobre o m eu reino tam anho pecado? Tu m e fizeste o que não se deve fazer. 10 Perguntou m ais Abi­ m eleque a A braão: Com que intenção fizes­ te isto? 11 Respondeu A braão: Porque pen­ sei : C ertam ente não h á tem or de D eus neste lu g ar; m atar-m e-ão por causa d a m inha m ulher. 12 Além disso, ela é realm ente m i­ nha irm ã, filha de m eu pai, ainda que não de m inha m ãe; e veio a ser m inha m ulher. 13 Quando Deus m e fez sa ir erran te da casa de m eu pai, eu lhe disse a ela: E sta é a g raça que m e fa rá s: em todo lu g ar aonde form os, dize de m im : E le é m eu Irm ão. 14 E ntão tom ou A bim eleque ovelhas e bois, e servos e servas, e os deu a A braão; e lhe restituiu S ara, sua m ulh er; 15 e disse-lhe A bim eleque: E is que a m inha te rra está diante de ti; h ab ita onde bem te p arecer. 16 E a S ara d isse: E is que tenho dado a teu irm ão m il m oedas de p ra ta ; isto te seja por véu dos olhos a todos os que estão contigo; e perante todos estás reabilitada. 17 Orou A braão a D eus, e D eus sarou A bim eleque, e a sua m ulher e as suas se rv a s; de m aneira que tiv eram filhos; 18porque o Senhor havia fechado totalm ente todas as m ad res da casa de A bim eleque, por causa de S ara, m ulher de A braão. Nesta seção, Abimeleque é retratado como pessoa reta que foi tratada mal por Abraão. O patriarca tentou apresentar algumas desculpas esfarrapadas por ter agido tão desonestamente, mas a fraque­ za de seus argumentos o traiu. A sua 243
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    resposta às acusaçõesé uma ilustração clássica da tendência dos melhores ho­ mens de racionalizar os seus atos. Para trazeres sobre mim e sobre o meu reino tamanho pecado. Embora Abime- leque não soubesse que Sara já era casa­ da, assim mesmo pecou por levá-la para o seu harém. Fizeste o que não se deve fazer. Abi- meleque revela uma consciência mais sensível do que Abraão, a este respeito. Como é fácil as pessoas que foram esco­ lhidas por Deus pensarem que o fato de terem sido escolhidas as torna isentas dos códigos morais que governam as outras pessoasl Esta situação não era devida ao fato de que Abraão não sabia que a sua atitude fora errada. Ele via a situação como uma exceção à regra. Visto que fora escolhido por Deus para abençoar o mundo todo, ele precisava tomar cuidado para não ser morto, e assim ser frustrado todo o propósito de Deus. Como falhou em fé o pai dos que crêem! Certamente o Deus que o havia chamado o havia de proteger. Ela é realmente minha irmã. A tenta­ tiva para se esconder por detrás de uma meia-verdade foi mais enganosa do que uma mentira sem rebuços. Não é difícil demais perceber a falsidade. É a meia- verdade que é mais difícil de identificar. Quando Deus me fez sair errante. Aqui, Abraão estava pondo a culpa de sua situação precária em Deus, bem seme­ lhantemente a Adão, antes dele. Um verbo plural é usado em relação a Deus, e poderia ser traduzido: “Quando deuses me fizeram.” Abraão parecia um pagão conversando com um pagão. Elohim, que é um substantivo plural, raramente é usado com um verbo plural para descre­ ver o Deus de Israel (cf. Gên. 35:7; Êx. 22:9; II Sam. 7:23). Em todo lugar. Isto pode ser uma tentativa de explicar a multiplicidade de histórias em que o patriarca pôs em risco a sua esposa. Mais uma vez, este pode ser um retrato exato do comportamento de Abraão (cf. Kidner). A despeito da defesa obviamente fraca de Abraão, Abimeleque fez quatro coisas inusitadas e totalmente inesperadas: (1) Pagou o mal com o bem, deu a Abraão presentes semelhantes aos dados como dote. Quando cabia a Abraão fazer restituição, Abimeleque o fez por ele. O ato estranho de Abimeleque torna ainda mais notável o fracasso de Abraão em expressar qualquer tristeza pelo que havia feito. Por que Deus não exigiu o arrependimento de Abraão? É possível que esses antigos narradores bíblicos não vissem necessidade de que ele se arrependesse. De fato, pode ser que eles tenham achado que este era um exemplo da astúcia hebraica, necessária para sobreviver em uma terra estranha. Contudo, é provável que eles procuras­ sem dar a impressão de que o embaraço público foi castigo suficiente, e as descul­ pas desajeitadas, uma admissão óbvia da culpa. (2) Ao chamar Abraão de “irmão” de Sara, Abimeleque lhe deu o dinheiro que ordinariamente era pago aos parentes de uma mulher quando ela era injuriada (cf. Êx. 22:15 e s.; Deut. 22:23 e ss.). Ao chamar Abraão de “irmão” dela, ele foi capaz de evitar a idéia ofensiva de que o patriarca estava sendo recompensado por sua astúcia no episódio. Como “ma­ rido”, Abraão não fora injuriado; ele havia injuriado Abimeleque. Como “ir­ mão”, ele podia receber restituição pela ofensa. (3) Abimeleque deu a Abraão liberda­ de de se estabelecer onde quer que dese­ jasse, em sua terra. Pode-se pensar que ele teria ficado feliz em saber que o patriarca abandonara para sempre o seu país. De fato, o convite pode ser inter­ pretado como significando que ele devia sair da cidade e procurar pastos mais distantes, no território do reino. Contu­ do, ele, provavelmente, estava sendo sin­ cero. Abimeleque respeitava tanto o 244
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    Deus de Abraão,que recebia com prazer a presença de alguém a quem Deus havia escolhido, embora não pudesse confiar nesse alguém! (4) Abimeleque também declarou que Sara estava livre de qualquer culpa. Isso te seja por véu dos olhos é expressão literal que, provavelmente, significa que aquilo a protegeria de qualquer crítica. Desta forma, ele estava declarando que não a considerava culpada de qualquer ofensa. Como juiz supremo da terra, ele a havia declarado inocente. Até que ponto o comportamento de Abimeleque era devido a um espírito gra­ cioso e até que ponto a uma forma engenhosa de “amontoar brasas de fogo” sobre a cabeça de Abraão, é impossível de determinar. Sem dúvida, entretanto, a mão de Deus estava operando aqui, preparando de maneira estranha e mis­ teriosa o povo de Israel para a vinda do Mediador lusto. 12. Tensão Entre Isaque e Ismael (21:1-21) Esta seção continua a seqüência de Berseba-Gerar, dos capítulos 20 a 23, que provém primordialmente da fonte Israelita do Norte. Os cinco primeiros versículos são geralmente designados como fonte Sacerdotal, tentando a mão de um redator ligar 20:18 com 21:1, ao colocar “o Senhor” (Yahweh) no lugar do original “Deus” (Elohim). Contudo, é bem possível que o escritor Sacerdotal, que conhecia bem o nome de Yahweh, o tivesse usado ocasionalmente, embora ordinariamente tivesse o cuidado de não ser anacrônico. As marcas da fonte Sacerdotal se en­ contram claramente em 21:1-5. Há uma referência à circuncisão no oitavo dia, que continua o relato Sacerdotal do capí­ tulo 17. Chama-se a atenção para a idade de Abraão. Elohim é o nome costumeiro para a divindade, nesta passagem (v. 2 e 4). A presença da fonte Israelita do Norte é sugerida pelo fato de que um relato paralelo da fonte Judia ocorre no capítu­ lo 16. Ali, Agar estava grávida; aqui, Ismael já nasceu. Em ambas as narrati­ vas um anjo a tranqüilizou, e ela refres- cou-se num poço. As características típi­ cas da fonte Israelita do Norte encon­ tradas aqui são: (1) preocupação com problemas éticos (Abraão relutou em mandar Agar embora, enquanto, no cap. 16, ele deixou Sara fazer o que desejava); (2) preocupação com os menos privile­ giados (Agar era a escrava indefesa, que, aparentemente, não fizera nada de erra­ do); (3) uma ênfase na transcendência de Deus (o anjo fala do céu, em vez de encontrá-la na terra, como no cap. 16); (4) o uso de Elohim como nome da divin­ dade. Será que temos duas edições diferen­ tes do mesmo evento, relatos que se desenvolveram em diferentes direções, a partir de uma fonte comum? Skinner pensa que assim é, mas não pode haver uma conclusão definitiva a respeito deste assunto. É bem possível que Agar tenha sido expulsa para o deserto tanto antes quanto depois do nascimento de Ismael, e que o fato de a fonte Israelita do Norte ter lembrado esse episódio tenha sido colorido pela narrativa da fonte Judia. 1) O Nascimento de Isaque (21:1-7) 10 Senhor visitou a S ara, com o tinha dito, e lhe fez como havia prom etido. 2 S ara concebeu, e deu a A braão um filho na sua velhice, ao tem po determ inado, de que Deus lhe fa la ra ; 3 e A braão pôs no filho que lhe n ascera, que S ara lhe d era, o nom e de Is a ­ que. 4 E A braão circuncidou a seu filho Is a ­ que, quando tinha oito dias, conform e D eus lhe ordenara. 5 O ra, A braão tinha cem anos, quando lhe nasceu Isaque, seu filho. 6 Pelo que disse S ara: D eus preparou riso p a ra m im ; todo aquele que o ouvir, se rirá com i­ go. 7 E acrescentou: Q uem d iria a A braão que S ara havia de am am en tar filhos? No entanto, lhe dei um filho na sua velhice. As tentativas mais antigas para identi­ ficar a narrativa da fonte Judia, nos dois 245
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    primeiros versículos (cf.Skinner), foram abandonadas, em face da convicção mais recente de que as redundâncias e outras peculiaridades são devidas ao estilo Sa­ cerdotal propriamente dito e a revisões editoriais posteriores. No versículo 6, podemos ter a conota­ ção Israelita do Norte do nome de “Isa- que”. Todos rirão com Sara por causa do acontecimento incrível do nascimento de um filho, para os dois, em sua idade avançada. A fonte Sacerdotal havia rela­ cionado esse nome com a incredulidade de Abraão (17:17), enquanto o escritor da fonte Judia lembrou-se da increduli­ dade de Sara (18:12). Von Rad considera o significado como “possa a divindade sorrir (sobre a criança)”, mas, para con­ seguir este significado, ele precisa con­ jecturar que ’El (divindade) perdeu-se desse nome. O significado literal de “Isa- que”, como o temos agora, é “riso” ou “um sorriso”. As gerações posteriores encontraram, nesta palavra, significados que, possivelmente, eram desconhecidos para os que deram nome à criança. Não obstante, quem pode provar que as três conotações sugeridas pela Escritura não estavam presentes originalmente? O nas­ cimento dè Isaque foi um acontecimento incongruente, de qualquer perspectiva possível. A maioria das tentativas moder­ nas de se definir o seu nome ignoram esta acepção do nome original — a natureza surpreendente do nascimento propria­ mente dito. 2) A Inveja de Sara (21:8-14) 8 C resceu o m enino, e foi d esm am ado; e A braão fez um grande banquete no dia em que Isaque foi desm am ado. 9 O ra, S ara viu brincando o filho de A gar a egípcia, que esta d era à luz a A braão. 10 Pelo que disse a A braão: D eita fora esta serv a e o seu filho; porque o filho d esta serva não será herdeiro com m eu filho, com Isaque. 11 P areceu isto bem duro aos olhos de A braão, por causa de seu filho. 12 D eus, porém , disse a A braão: Não p areça isso duro aos teus olhos por causa do moço e por causa da tu a se rv a ; em tudo o que S ara te diz, ouve a sua voz; porque em Isaque será cham ada a tu a des­ cendência. 13 M as tam bém do filho desta serv a farei um a nação, porquanto ele é da tu a linhagem . 14 E ntão, se levantou A braão de m anhã cedo e, tom ando pão e um odre de água, os deu a A gar, pondo-os sobre o om bro dela; tam bém lhe deu o m enino e despe­ diu-a ; e ela p artiu e foi andando erran te pelo deserto de Beer-Seba. A época costumeira para o desmame era mais ou menos aos três anos de idade. Gênesis 17:24,25 (fonte Sacerdo­ tal) diz que Abraão tinha noventa e nove anos de idade quando foi circuncidado, e Ismael tinha treze. Agora Abraão tinha pelo menos cem, e Ismael quatorze. Se Isaque foi desmamado aos três anos, Ismael devia ter dezessete! Devido à avançada idade de Sara, contudo, Isa­ que, provavelmente, foi desmamado mais cedo. Sara viu brincando o filho de Agar. O nome de Ismael jamais é mencionado neste capítulo, embora haja um jogo de palavras com o seu nome, que significa “Deus ouviu” (v. 17). “Caçoava de Isa­ que”, é o que diz a Versão Atualizada da SBB. Deste verbo é que provém a pala­ vra Isaque. Falta, ao texto hebraico, a expressão “de Isaque”, que aparece na LXX e na Vulgata. O problema é o significado do particípio. O sentido cos­ tumeiro do verbo é “brincar”, mas pode significar rir de alguém, insultar ou zom­ bar, como em 39:14,17, onde a esposa de Potifar acusou José. Nessa passagem a preposição be (sobre, a respeito de) é usada com o verbo. Aqui ela não ocorre, pois o verbo não tem nenhum objeto. Os rabis desenvolveram a teoria de que nesta passagem esta palavra não significa zombar, citando Êxodo 32:6, II Samuel 2:14 e Provérbios 26:19 como evidência de que este termo tinha uma conotação pejorativa. O apóstolo Paulo, quando se referiu a Ismael perseguindo Isaque, estava ba­ seando a sua opinião na interpretação rabínica. O fato de que eles tinham uma compreensão adequada da palavra é uma 246
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    opção viável, vistoque as evidências pre­ sentes não são conclusivas. Ismael era suficientemente crescido para saber que Isaque o substituíra, e deve ter desen­ volvido algum ressentimento. É o contex­ to, e não a palavra isoladamente, que sugere o significado proposto pelos rabis. Pareceu isto bem duro aos olhos de Abraão. Muito antes, até mesmo de Isa­ que nascer, Abraão aprendera a amar Ismael, e esse amor não havia diminuído. O filho de Agar era também uma garan­ tia extra do cumprimento da promessa, no caso de que algo acontecesse com Isaque. Ouve a sua voz. Isto era difícil para um homem na época de Abraão. No capítulo 16, Sara apelara para ele, e ele lhe dera liberdade para agir. Aqui, ela exigiu o que desejava, e Abraão não estava acos­ tumado a receber ordens dela. Além disso, as exigências dela eram desapieda­ das e desumanas. O fato de Deus ficar do lado dela foi bastante inesperado. No Velho Testamento, ele geralmente está do lado dos oprimidos. Desta vez, po­ rém, ele está preparando Abraão para o teste do capítulo 22. Se Ismael ainda fosse uma opção para Abraão, o chama­ do para sacrificar Isaque não seria tão severo. Pondo-os sobre o ombro dela; também lhe deu o menino. Outras versões (a LXX e a Siríaca) dizem claramente que o menino foi colocado no ombro dela (cos­ tas), juntamente com o odre de água. O hebraico é ambíguo. Isto pode ser devido aos problemas que os editores en­ frentaram em relação à idade de Ismael. Se ele tinha quinze anos, dificilmente ela poderia tê-lo carregado. 3) Promessa Divina a Agar (21:15-21) 15 E consum ida a água do odre, A gar deitou o m enino debaixo de um dos arbustos, 16 e foi assentar-se em frente dele, a boa distância, como a de um tiro de a rc o ; p o r­ que d izia: Que não veja eu m o rrer o m enino. Assim sentada em frente dele, levantou a sua voz e chorou. 17 M as Deus ouviu a voz do m enino; e o anjo de D eus, bradando a A gar desde o céu, disse-lhe: Que tens, A gar? não tem as, porque D eus ouviu a voz do m enino desde o lugar onde está. 18 E rgue-te, levanta o m enino e tom a-o pela m ão, porque dele farei um a grande nação. 19 E abriu-lhe os olhos, e ela.v iu um poço; e foi encher de água o odre e deu de beber ao m enino. 20 D eus estav a com o m enino, que cresceu, e, m orando no deserto, tom ou-se flecheiro. 21 E le habitou no deserto de P a rã ; e sua m ãe tom ou-lhe um a m ulher da te rra do Egito. Levantou a sua voz. O hebraico diz que ela levantou a sua voz, mas seria estranho a passagem dizer que ela levan­ tou a voz e Deus ouviu a voz do menino (v. 17), e não a dela. Aparentemente, ambos estavam soluçando. Nenhum de­ les estava orando, mas Deus ouviu o seu clamor de tristeza como se fosse uma oração. Toma-o pela mão, foi dito a Agar, porque o futuro dele estava nas mãos dela. Não tendo pai, ele precisaria da constante devoção dela. Note-se que Agar teve que conseguir-lhe casamento, dever que geralmente era o pai que de­ sempenhava. Naturalmente, ela se voltou para a sua terra natal, o Egito, procuran­ do uma esposa para o seu filho. 13. Pacto com Abimeleque (21:22-34) 22 N aquele m esm o tem po A bim eleque, com Ficol, o chefe do seu exército, falou a A braão, dizendo: D eus é contigo em tudo o que fazes; 23 agora, pois, jura-m e aqui por Deus que não te h av erás falsam ente com i­ go, nem com o m eu filho, nem com o filho do m eu filho; m as, segundo a beneficência que te fiz, m e farás a m im , e à te rra onde peregrinaste. 24 K espondeu A braão: E u ju ­ rarei. 25 A braão, porém , repreendeu a Abi­ m eleque por causa de um poço de água, que os servos de Abim eleque haviam tom ado à força. 28 Respondeu-lhe A bim eleque: Não sei quem fez isso ; nem tu mo fizeste saber, nem tam pouco ouvi eu falar nisso, senão hoje. 21 Tomou, pois, A braão, ovelhas e bois, e os deu a A bim eleque; assim fizeram entre si um pacto. 28 Pôs A braão, porém , à p arte, sete cordeiras do rebanho. 29 E perguntou Abimeleque a A braão: Que significam estas sete cordeiras que puseste à p arte? 30 R es­ pondeu A braão: E stas sete cordeiras rece- 247
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    b erás dam inha m ão p a ra que m e sirv am de testem unho de que eu cavei este poço. 31 P e ­ lo que cham ou aquele lu g ar Beer-Seba, p or­ que ali os dois ju ra ra m . 32 A ssim fizeram um pacto em Beer-Seba. Depois se lev an ta­ ra m Abim eleque e Ficol, o chefe do seu exército, e to rn aram p a ra a te rra dos filis­ teus. 33 A braão plantou u m a tam arg u eira em Beer-Seba, e Invocou ali o nom e do Se­ nhor, o D eus eterno. 34 £ peregrinou A braão n a te rra dos filisteus m uitos dias. Alguns expositores encontram, nesta seção, duas narrativas de pactos celebra­ dos: um selado pelo presente de Abraão, de ovelhas e bois, dando, desta forma, ao nome de Beer-Seba o significado de “Po­ ço do Juramento” (v. 22-24,27,31), e o outro, confirmado pelo presente de sete cordeiras, conferindo, desta forma, a Beer-Seba o significado de “Poço das Sete” (v. 25,26 28-30,32). Gunkel insis­ tiu que o último relato era da fonte Judia, mas von Rad e comentaristas mais recen­ tes asseveram que toda a passagem deri­ va da fonte Israelita do Norte, que con­ tém as duas narrativas do pacto. Speiser propõe que a história não requer recons­ trução tão radical, e a considera como ocorrendo em uma só peça. Houve uma cerimônia com duas partes. Na primeira parte, Abimeleque pediu a boa vontade de Abraão, e isso foi selado com os presentes de Abraão. Na outra, Abraão pediu de Abimeleque o reconhecimento de seus direitos sobre o poço de Beer- Seba, e presenteou-o com as sete cordei­ ras como oferta de paz. A cerimônia de- senrolou-se em dois estágios, porque um precisava tratar do problema de Abime­ leque, e o outro, o problema de Abraão. O aspecto estranho do caso, entretanto, foi que Abraão teve que fazer presentes em ambas as vezes. Geralmente, havia troca de presentes. Aqui, Abraão, o pere­ grino, reconhecia a soberania de Abi­ meleque. Segundo a benevolência que te fiz sig­ nifica, literalmente, “mas de acordo com a chesed (lealdade) que pratiquei para com você”. Esta é uma declaração bas­ tante incomum. A palavra hebraica che­ sed, traduzida como “bondade”, “ama­ bilidade” ou “longanimidade”, é pala­ vra geralmente usada exclusivamente em termos de relações com o pacto entre Yahweh e Israel. É amor no contexto do pacto. Israel praticava chesed para com Deus, e Deus, para com Israel. Os he­ breus tinham chesed uns para com os outros, mas não para com os gentios, nem se diz que Deus tinha chesed para com os gentios. No entanto, aqui se faz menção de um relacionamento de chesed entre um rei gentio e Abraão. De fato, a fonte Israelita do Norte é sempre generosa para com Abimeleque. Talvez o escritor, estando fora de Judá, fosse geralmente mais condescendente para com os gentios. Ele sabia o que era ser rejeitado por não estar identificado com as instituições de Jerusalém. Ele também estava sendo profético, ao retra­ tar Abimeleque, tanto aqui como no capítulo 20, como sendo, em muitas ma­ neiras, moralmente superior a Abraão. Talvez ele estivesse dizendo que freqüen­ temente é verdade que os escolhidos de Deus são ultrapassados em virtude por aqueles que estão fora da fé. Nem tu mo fizeste saber. Com que freqüência um pastor tem feito esta ob­ servação, quando o povo se queixa a ele de negligência acerca de fatos de que ele não está sabendo! Como pode ele saber, se não lhe contarem? Invocou ali o nome do Senhor, o Deus etemo, é geralmente atribuído à fonte Judia, mas este é, na verdade, um dos conceitos mais antigos de Gênesis. Quan­ do Deus é chamado de ’El ‘Olam (Deus Sempiterno), significa que ele é o Deus do passado e do futuro. ‘Olam significa, literalmente, “oculto”, e se refere tanto ao passado quanto ao futuro ocultos, tão distantes quanto se possa imaginar. Esta referência pode significar que Deus já era adorado com este nome no santuário de Beer-Seba. Abraão verificou que o Deus de Beer-Seba era o seu Deus, e incorporou este conceito na estrutura 248
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    da adoração deYahweh. Desta forma, os hebreus não conquistaram apenas a terra de Canaã; apropriaram-se dos as­ pectos da religião cananéia, que eram coerentes com a deles. Pode ser que Abraão não tivesse pensado em Yahweh como “eterno” até que notou que o povo de Beer-Seba estava chamando Deus de ’El ‘Omam. Então ele percebeu que Yah­ weh, na verdade, merecia também esse título. Isto não significa que ele adotou costumes cananeus de culto, mas que ele pode ter feito concessões aos seus concei­ tos, quando coerentes com a sua fé, para enriquecer ainda mais o seu entendi­ mento de Deus. Na terra dos filisteus. Esta declaração pode ser editorial. Von Rad declara-a “um grosseiro anacronismo” (p. 232). Os filisteus só invadiram a Palestina de­ pois da época de Abraão. Contudo, este anacronismo não seria um erro grosseiro. O escritor podia saber que os filisteus não estavam ali na época de Abraão, mas usou esta expressão para identificar a região, para os seus leitores, em uma época respectiva. 14. O Sacrifício de Isaque (22:1-24) Este capítulo expressa os conceitos mais profundos encontrados nas narrati­ vas patriarcais. Ele é elaborado mais cuidadosamente do que qualquer passa­ gem de Gênesis, exceto o capítulo 1. A sua narrativa faz inquirições à mais profunda compreensão do relacionamen­ to de Deus com o homem. Isaque não era apenas o filho amado de Abraão; ele representava o objetivo de toda a vida dele e todas as promessas que Deus havia feito a ele. Se ele entregasse Isaque a Deus, não restaria mais nada. O que Deus dera, parecia que agora estava to­ mando de volta. Não se esperava que Abraão entendesse; esperava-se apenas que ele obedecesse. Esta narrativa é atribuída à fonte Is­ raelita do Norte por quase todos os erudi­ tos. Há todas as indicações de que esta pode ser a obra desse escritor. Deus fala do céu em seu anjo; Elohim (Deus) é o termo costumeiro que designa a divin­ dade; e a história é profundamente teo­ lógica. A retratação vívida dos aconteci­ mentos, em a narrativa, contudo, é mais semelhante à narrativa da fonte Judia. Isto leva Speiser a sugerir que esta his­ tória originalmente era material da fonte Judia, que foi modificado pela substitui­ ção de Yahweh (Senhor) por ’Elohim (Deus). É provável que o escritor da fonte Israelita do Norte, trabalhando com perí­ cia adicional, por causa de seu maior cuidado, produziu, aqui, sob a direção de Deus, a sua obra-prima. O uso de “o Senhor”, neste capítulo, é devido à obra de um redator, ou pode revelar o que ficou implícito acima, embora a pre­ ferência do nome de Elohim, para Deus, não seja adversa ao uso de Yahweh. 1) A Fidelidade de Abraão (22:1-14) 1 Sucedeu, depois destas coisas, que D eus provou a A braão, dizendo-lhe: A braãot E este respondeu: E is-m e aqui. 2 Prosseguiu D eus: Tom a ag o ra o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem a m a s; vai à te rra de M oriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um dos m ontes que te hei de m o strar. 3 L e­ vantou-se, pois, A braão, de m an h ã cedo, albardou o seu jum ento, e tom ou consigo dois dos seus m oços e Isaque, seu filho; e, tendo cortado lenha p a ra o holocausto, p a r­ tiu p a ra ir ao lu g ar que D eus lhe dissera. 4 Ao terceiro dia levantou A braão os olhos, e viu o lugar de longe. 5 E disse A braão a seus m oços: Ficai-vos aqui com o jum ento, e eu e o m ancebo irem os a té lá; depois de a d o ra r­ m os, voltarem os a vós. 6 Tomou, pois, A braão a lenha do holocausto e a pôs sobre Isaque, seu filho; tom ou tam bém n a m ão o fogo e o cutelo, e foram cam inhando juntos. 7 E ntão disse Isaque a A braão, seu p ai: M eu pai! Respondeu A braão: E is-m e aqui, m eu filho! Perguntou-lhe Isaque: E is o fogo e a lenha, m as onde está o cordeiro p a ra o holo­ causto? 8 Respondeu-lhe A braão: Deus p ro ­ v erá p a ra si o cordeiro p a ra o holocausto, m eu filho. E os dois iam cam inhando juntos. 9 H avendo eles chegado ao lugar que D eus lhe dissera, edificou A braão ali o a lta r e pôs a lenha em o rd em ; e am arro u Isaque, seu filho, e o deitou sobre o a lta r em cim a da lenha. 10 E , estendendo a m ão, pegou no 249
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    cutelo p ara im olar a seu filho. 11 M as o anjo do Senhor lhe bradou desde o céu, e d isse: A braão, A braão! E le respondeu: Eis-m e aqui. 12 E ntão disse o anjo: Não estendas a m ão sobre o m ancebo, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que tem es a D eus, visto que não m e negaste teu filho, o teu único filho. 13 Nisto levantou A braão os olhos e olhou, e eis a trá s de si um carneiro em b a ra ­ çado pelos chifres no m ato ; e foi A braão, tom ou o carneiro e o ofereceu em holocausto em lugar de seu filho. 14 Pelo que cham ou A braão àquele lugar Jeová-Jlré ; donde se diz a té o dia de h o je: No m onte do Senhor se proverá. Esta narrativa começa alertando o lei­ tor para o fato de que esta foi uma prova a que Deus estava para submeter Abraão. Não foi uma prova que Abraão apresen­ tou a si mesmo. Provavelmente, Abraão já se havia perguntado se amava o seu Deus tanto quanto os seus vizinhos pa­ gãos amavam os seus, quando lhes ofe­ reciam os seus filhos. Não estamos certos de como os sacrifícios humanos eram comuns naquela época, mas há evidên­ cias de que eles eram praticados (cf. Speiser). Embora Abraão pudesse ter-se feito pergunta tão difícil de responder, um homem dirigido e abençoado por Deus de maneira tão notória teria que ouvir do próprio Deus o imperativo para fazer tal sacrifício. Como podia o Deus de amor revelado por Jesus Cristo ter pedido tal coisa de um homem? Hoje em dia, ele certamente não faria isto, pois sabemos, através da própria lei de Israel e dos seus profetas, que certamente se basearam no resultado deste acontecimento, que o sacrifício hu­ mano não ê aceitável a Deus. Na época de Abraão não é provável que houvesse uma compreensão clara da atitude de Deus para uma oferta dessas. De fato, por meio desta ordem a Abraão, Deus, mais tarde, seria capaz de demonstrar positivamente que não queria esse sacri­ fício de forma alguma. Ele só desejava que Abraão estivesse disposto a fazê-lo. Embora Abraão não tenha demons­ trado nenhuma percepção deste fato, na época (I Ped. 1:19,20), Deus certamente tinha em mente o que um dia realizaria através de seu Filho amado, Jesus Cristo. O mundo um dia entenderia melhor o coração de Deus, quando o visse permi­ tindo o sacrifício de seu próprio Filho. O que Deus não permitiu que um pai terreno fizesse, ele mesmo fez. A prova registrada aqui é diferente das outras registradas em Gênesis. No capí­ tulo 12, Deus pediu a Abraão para deixar o seu passado. Isto ele fez sem hesitação. Nos anos que se seguiram, Deus esperou que ele deixasse a sua ansiedade a respei­ to do fato de que Deus iria cumprir a sua palavra. No capítulo 15, ele passou nessa prova. Agora, ele lhe pedia que abrisse mão de seu futuro. Esta, embora fosse de todas a decisão mais dolorosa, ele tam­ bém estava disposto a tomar. Confiando em Deus, ele seguiria para onde ele o dirigisse, pois o futuro estava em Suas mãos. O teu único filho, Isaque. Que dizer de Ismael? Para Abraão, não havia voltar atrás. Este era, da parte de Deus, um lembrete a esse respeito. E também nos permite ver que Deus compreendia ple­ namente a agonia que esta decisão causa­ ria a Abraão. Vai à terra de Moriá. O único indício que temos a respeito da localização desta região é a declaração que consta em II Crônicas 3:1, de que o Templo de Salomão foi construído sobre o Monte Moriá. Contudo, o cronista relaciona esta localização com o encontro de Davi com o Senhor naquele lugar. Se o cronis­ ta soubesse que a prova de Abraão tam­ bém tivera lugar ali, não a teria mencio­ nado também? Por outro lado, ele sabia que os seus leitores já sabiam disso, pois, na sua época, o Pentateuco já estava completo. Levantou-se, pois, Abraão de manhã cedo, antes que Sara acordasse. Ele não ousava demorar-se. Voltaremos a vós. No verbo, é encon­ trada a mesma pessoa que na expressão anterior: “nós voltaremos a vós” — em 250
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    outras palavras, Abraãoe Isaque volta­ riam. O escritor do livro de Hebreus devia ter este fato em mente, quando declarou: “Julgando que Deus era pode­ roso para até dos mortos o ressuscitar” (Heb. 11:19). Deus havia prometido a Abraão que seria através de Isaque que a promessa seria cumprida. Agora Deus estava pedindo a Abraão para entregar- lhe Isaque, e parecia que este era o fim também da promessa. Mas Abraão con­ fiava que Deus cumpriria a sua promes­ sa. Como poderia isto acontecer, se Isa­ que estivesse morto? Ele não o sabia, mas cria que, de alguma forma, quando voltasse daquela montanha, ao descê-la, Isaque haveria de estar com ele: “volta­ remos a vós.” Se Isaque precisava mor­ rer, isso seria o prelúdio de outro milagre de Deus. Ou será que estas palavras foram usa­ das simplesmente para tranqüilizar os seus escravos, que a essa altura certa­ mente já estavam esperando o pior? Esta é a única alternativa da insinuação per­ cebida pelo autor do livro de Hebreus. A sua notável percepção continua sendo o melhor comentário deste versículo. A pôs sobre Isaque, seu filho. Isaque era suficientemente crescido para carre­ gar a lenha montanha acima e para se preocupar com o animal que precisariam para o sacrifício. Ele tinha, provavel­ mente, nove anos, no mínimo. Deus proverá. Isto não significa que Abraão previa que seria isentado de sua obrigação. Ele simplesmente falou as pa­ lavras de confiança, que seriam cumpri­ das além de sua compreensão. Com uma certeza nascida da coragem de Abraão, os pais fiéis, através dos séculos, têm usado essas mesmas palavras para con­ fortar os seus filhos. Agora sei que temes a Deus. “Temer” a Deus, no Velho Testamento, significa segui-lo em absoluta obediência (Gên. 20:11; 42:18; II Reis 4:1; Is. 11:2; Prov. 1:7; Jó 1:1). O que ele diz você fará. O que desejaria dizer o anjo (que realmen­ te era Deus, pois Abraão não havia nega­ do o seu filho “de mim”), ao falar: “Agora sei...”? Será que ele não sabia antes? Deus não conhece todas as coi­ sas? O verbo usado significa “conhecer por experiência”, e assim as palavras podem significar que Deus agora vira Abraão fazer, na verdade, o que sabia que estava em seu coração. Os atos de Abraão haviam confirmado a confiança que Deus depositava nele. Eis atrás de si um carneiro. Ele estive­ ra ali o tempo todo, mas se Abraão o tivesse visto antes, não teria feito diferen­ ça. Deve-se notar que Deus não pediu para Abraão sacrificar o cordeiro; ele apenas lhe disse para não sacrificar Isa­ que. O sacrifício do cordeiro foi a reação de Abraão à graça de Deus, pois ele o ofereceu em lugar de seu filho. O nome do lugar onde a prova ocorreu é citado como Yhaweh Yireh, “o Senhor proverá” (cf. 22:8, onde o mesmo verbo é usado; também significa ver, mas não neste contexto). É estranho que o autor não tenha dado o nome de um santuário mais familiar a esta história. Von Rad e outros ficam perplexos com isto, pois estas histórias geralmente se desenvol­ vem e são preservadas em torno de um santuário. Obviamente, esta não teve tal origem. Não é a história de um santuário cuja localização original se perdeu. Ela nunca esteve ligada com um santuário em particular. O escritor pretendia dei­ xar toda a narrativa no nível de mis­ tério, em que ninguém ousa entrar. A sua falta de localização definida é para­ lela ao mistério do lugar de sepulta- mento de Jesus. Ele era sagrado demais para ser secularizado por peregrinos curiosos. A mudança do verbo, nesse provérbio, do ativo para o passivo, indica que o ditado era usado em contextos religiosos à época do escritor. Talvez a sua relu­ tância de mencionar Jerusalém, mesmo neste contexto, devia-se ao fato de que esta é a fonte Israelita do Norte. Para ele, 251
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    a aplicação daverdade do provérbio não se limitava a Judá. 2) A Promessa Renovada (22:15-19) 15 E ntão o anjo do Senhor bradou a A braão pela segunda vez desde o céu, 16 e disse: P o r m im m esm o ju rei, diz o Senhor, porquanto fizeste isto, e não m e ne­ gaste teu filho, o teu único filho, 17 que deve­ ra s te abençoarei, e grandem ente m ultipli­ carei a tu a descendência, como as estrelas do céu, e como a a re ia que está n a p ra ia do m a r; e a tu a descendência possuirá a porta dos seus inim igos; 18 e em tu a descendência serão benditas todas as nações d a te rra ; porquanto obedeceste à m inha voz. 19 E ntão voltou A braão aos seus m oços e, levantando- se, foram juntos a B eer-Seba; e A braão habitou em B eer-Seba. Esta passagem, dizem alguns intérpre­ tes, é obra de um redator, especialmente os versículos 15 a 18. A menção de uma segunda vez nos alerta para a possibili­ dade de uma outra perícope. Todavia, a ocasião era ideal para uma renovação da promessa. Quer ela tenha sido ou não mencionada na primeira parte do capítu­ lo, certamente é apropriada. Aqui, os superlativos vão além de qualquer outra promessa anterior. A vitória em Moriá foi maior do que a conquista em Dã (Gen. 14). Por mim mesmo jurei. Esta é a única vez que esta expressão ocorre no livro de Gênesis, embora seja usada pelos profe­ tas. Deus jurou por si mesmo, pois não havia outro mais alto por quem jurar. Ele não precisava fazer isto para tomar a promessa mais válida, mas para enfati­ zar a sua natureza compulsória em rela­ ção a si próprio. Não houve outras condi­ ções, pois a prova estava terminada. Diz o Senhor é uma expressão comum quando os profetas falam em lugar de Deus, mas aqui ela ocorre no meio de um discurso do próprio Deus, o que é inco- mum. Ela foi colocada aqui também para enfatizar a finalidade da promessa feita a Abraão. Desta vez, Deus deveras o abençoará. Pela primeira vez é-lhe asse­ gurado que os seus descendentes não apenas impressionarão os seus inimigos, mas os vencerão, possuirão a porta deles. Em Mateus 16, Jesus aplica esta promes­ sa à Igreja, na batalha contra o Hades. Quando Abraão voltou a Beer-Seba, fica-se pensando o que ele disse a Sara. Nada se diz a respeito dos pensamentos dela durante aquela misteriosa semana. De fato, o capítulo seguinte apresenta o relato de sua morte. Poderia ela estar relacionada com aquelas horas de incer­ teza? Uma tradição judaica posterior diz que, quando Abraão lhe disse o que havia acontecido, ela emitiu sete gritos e morreu! 3) Notícias da Família (22:20-24) 20 Depois destas coisas anunciaram a A braão, dizendo: E is que tam bém MUca tem dado à luz filhos a N aor, teu irm ão; 21 Uz o seu prim ogênito, e Buz seu irm ão, e Q uemuel, pai de A rão, 22 e Q uesede, Hazo, Pildas, Jidlafe e Betuel. 23 E B etuel gerou R ebeca. E sses oito deu à luz M ilca e N aor, irm ão de A braão. 24 E a sua concubina, que se cham ava R eum á, tam bém deu à luz a Teba, G aão, T aás e M aacá. Quando Abraão se acomodou a uma idade avançada e tranqüila, em Beer- Seba, chegaram-lhe notícias de seus pa­ rentes em Harã. Da mesma forma como nò caso de Ismael (25:13 e ss.) e Jacó, doze tribos procederam de Naor. Esta lista parece ser uma antiga genealogia araméia, que foi incluída em a narrativa, a fim de preparar para as histórias de Isaque e Rebeca. ~~ Quesede é, provavelmente, o ancestral dos caldeus (heb., Kasdim). Betuel é mencionado como pai de Rebeca. Con­ tudo, Labão, que é irmão dela, é men­ cionado em 29:5 como filho de Naor, o que a faria filha de Naor. No entanto, à luz da insofismável declaração de 24:15, 24, de que Rebeca era filha de Betuel, podemos concluir seguramente que a pa­ lavra “filho” foi usado por Jacó no senti­ do de “descendente”, ocorrência que é comum no Velho Testamento. 252
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    Porque este capítulotem as caracte­ rísticas básicas do material Sacerdotal — cronologia precisa e interesse em deta­ lhes — ele é comumente atribuído a essa fonte. Von Rad diz que tais qualidades removem toda a dúvida de que ele per­ tence à fonte Sacerdotal. No entanto, Speiser estava convencido de que apenas o primeiro versículo provém desse mate­ rial, pois o estilo vívido da narrativa é mais semelhante às histórias da fonte Judia. Uma frase que ocorre neste capí­ tulo, “todos os que entravam pela porta da sua cidade” (v. 10 e 18), tem paralelo em 34:24: “todos os que saíam da porta da cidade”, em uma narrativa reconheci­ damente da fonte Judia. Tal desacordo sublinha o fato de que as tradições bási­ cas de Gênesis não são identificadas tão facilmente como alguns intérpretes gos­ tariam de fazer os leitores crerem. Em alguns lugares, as várias fontes são evi­ dentes; em outros, elas são mais difíceis de se identificar. Só podemos ter a certe­ za de que estavam trabalhando escritores que hoje chamamos de Sacerdotais, Ju­ deus ou Israelitas do Norte. Onde ou quando eles, na verdade, escreveram, ou qual a amplitude de seu material, é coisa ainda discutível. Embora grupos identi­ ficáveis de material estejam evidentes em Gênesis, a sua verdadeira origem ainda está por ser descoberta. Seja qual for a fonte literária deste capítulo, ela baseou a sua narrativa, in­ questionavelmente, em materiais autên­ ticos. Ao retratar os costumes de compra e venda na época, ela descreve detalhes exatos, como o confirma a arqueologia moderna (cf. Speiser). O aspecto mais claro da narrativa é a sua natureza secular. Exceto em uma expressão idiomática, o nome de Deus não aparece de forma alguma. É uma história que trata dos momentos mais íntimos da existência: os problemas da vida e da morte. Ao tratar de emoções humanas tão intensas, ela fala apenas de 15. A Morte de Sara (23:1-20) relacionamentos humanos. Visto que o homem desprezou, devido ao pecado, a sua oportunidade de uma vida com signi­ ficado depois da morte, não havia nada de sagrado a respeito da morte. Para os sobreviventes, havia apenas a patética tentativa dé enterrar o morto no lugar que ficasse fora da vista deles (v. 4-6), para que eles não tivessem que observar a decomposição do corpo daquele a quem amavam. Dentre todas as causas para lamentação nos Salmos, não há nem um único grito de tristeza acerca da perda de um ente querido pela morte. Claro que eles manifestavam tristeza intensa, como Abraão fez, mas a morte era o destino inevitável de cada pessoa. Ela precisava ser encarada com a resignação inflexível que cada homem precisa manifestar com todas as forças que lhe restarem, em sua batalha perdida contra o tempo. Por que, então, todo um capítulo foi dedicado às negociações de Abraão de um lugar de sepultamento para a sua família? Não era a maneira de o escritor dizer que essa compra lhe dava direito à posse da Terra da Promessa, pois era apenas parcial. Da mesma forma, não era simplesmente devido ao desejo de Abraão de ter o túmulo de Sara sob os seus cuidados, para que os ossos dela não fossem perturbados, embora este fosse o seu intento evidente. Gerações posterio­ res viram, nesse ato, mais importância do que apenas isso. Abraão não precisa­ va morrer sem ver cumprida uma peque­ na parte da promessa, pois agora possuía o seu próprio cemitério. Esta foi uma promessa do cumprimento final para os seus descendentes. A caverna de Macpe- la não foi apenas escatologia realizada; ela falou do escaton que ainda estava por acontecer. Gerações posteriores, de hebreus, apa­ rentemente não consideraram os túmulos de Macpela com tanta reverência quanto os árabes. A mesquita de Hebrom pode estar bem em cima do lugar onde este sepultamento teve lugar. Na época do 253
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    exílio, Hebrom jáestava, provavelmente, fora de território judaico, não tendo feito os hebreus nenhuma tentativa para re­ cuperá-lo (cf. von Rad, p. 245). Obvia­ mente, portanto, o relato da compra da sepultura tem mais que dizer a respeito da reivindicação de Israel quanto à terra do que a respeito de qualquer atestado concernente ao significado da morte. Depois que Israel tomou posse da terra, Macpela perdeu grande parte de seu significado. A falta de um tema teológi­ co, nesta passagem, sublinha fortemente o interesse de Israel antigo na vida com Deus em sua própria terra. 1) Os Preparativos Para o Sepultamento (23:1-16) 1 O ra, os anos da vida de S ara fo ram cento e vinte e sete. 2 E m orreu S ara em Q uiriate- A rba, que é H ebrom , n a te rra de C anaã; e velo A braão lam entá-la e ch o rar por ela. 3 Depois se levantou A braão de diante do seu m orto, e falou aos filhos de H ete, dizendo: 4 E strangeiro e peregrino sou eu en tre v ó s; dai-m e o direito de um lu g ar de sepultura entre vós, p a ra que eu sepulte o m eu m orto, rem ovendo-o de diante da m inha face. SRes- ponderam -lhe os filhos de H ete: 6 Ouve-nos, senhor; príncipe de D eus és tu entre nós; en terra o teu m orto na m ais escolhida de nossas sep u ltu ras; nenhum de nós te v ed a­ r á a su a sepultura, p a ra e n terrares o teu m orto. 7 E ntão se levantou A braão e, incli- nando-se diante do povo d a te rra , diante dos filhos de H ete, 8 falou-lhes, dizendo: Se é de vossa vontade que eu sepulte o m eu m orto de diante de m inha face, ouvi-me e in te r­ cedei por m im junto a E from , filho de Zoar, 9 p a ra que ele m e dê a cova de M acpela, que possui no fim do seu cam po; que m a dê pelo devido preço em posse de sepulcro no m eio de vós. 10 O ra, E from estav a sentado no m eio dos filhos de H ete; e respondeu E from , o heteu, a A braão, aos ouvidos dos filhos de H ete, isto é, de todos os que en trav am pela porta da sua cidade, dizendo: 11 N ão, m eu senhor; ouve-m e. O cam po te dou, tam bém te dou a cova que nele e s tá ; n a presença dos filhos do m eu povo ta dou; sepulta o teu m orto. 12 E ntão A braão se inclinou diante do povo d a te rra , 13 e falou á E from , aos ouvidos do povo da te rra , dizendo: Se te ag rad a, peço-te que m e ouças. D arei o preço do cam po; tom a-o de m im , e sepultarei ali o m eu m orto. 14 Respondeu E from a A braão: IS M eu senhor, ouve-m e. Um terreno do valor de quatrocentos siclos de p rata! que é isto entre m im e ti? Sepulta, pois, o teu m orto. 16 E A braão ouviu a E from , e pesou- lhe a p ra ta de que este tinha falado aos ouvidos dos filhos de H ete, quatrocentos si­ clos de p ra ta , m oeda corrente en tre os m e r­ cadores. A idade de Sara é a única mencionada em relação a uma mulher, no Velho Tes­ tamento. Pode-se imaginar que ela fazia lembrar todas as pessoas de sua idade como Deus lhe dera um filho aos noventa anos. A sua morte antes da de Abraão também nos faz lembrar que, nos anos passados, os homens geralmente sobrevi­ viam às suas esposas, algumas vezes a várias esposas. O lugar da morte e sepultamento de Sara foi Hebrom, que anteriormente era chamada de Quiriate-Arba, “Cidade dos Quatro” . Este nome, aplicado ao antigo túmulo dos pais, pode ter inspirado o conceito da “cidade quadrangular” , em Ezequiel e Apocalipse. Quando vimos Abraão pela última vez, em Gênesis 22, ele ainda estava em Beer-Seba. Estrangeiro e peregrino, Abraão não tinha direitos que lhe permitissem pos­ suir terras. Ele pediu um privilégio espe­ cial dos “filhos de Hete”, que é a expres­ são idiomática hebréia no decorrer deste capítulo, traduzida como “hititas” na RSV, versão em inglês que serve de base para este comentário nesta língua. A narrativa usa intencionalmente este no­ me para aplicá-lo aos aborígenes cana- neus (15:20). Pode ser que eles tivessem descendido originalmente dos hititas da Ãsia Menor, mas haviam assimilado a cultura palestina (cf. 10:15). Este povo não-cananeu estava mais inclinado a ven­ der terra a Abraão do que os cananeus mais firmemente estabelecidos. Príncipe de Deus és tu. A versão ingle­ sa RSV diz: “tu és um príncipe podero­ so”, mas a versão da IBB traduz mais fielmente o original hebraico. Esta, pro­ vavelmente, era uma expressão idiomá- 254
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    tica que enfatizavao poderio de Abraão. A palavra traduzida como “príncipe” provém da raiz “eleito” , e, geralmente, designava alguém eleito para cargo pú­ blico. Embora a expressão “eleito de Deus” fosse apenas um pouquinho de lisonja oriental, descrevia Abraão melhor do que eles sabiam! Um terreno do valor de quatrocentos siclos foi a maneira polida de Efrom dar preço ao campo. Não há maneira de avaliar comparativamente o preço que Abraão teve que pagar. Contudo, me­ diante todos os padrões que nos são conhecidos, ele foi exorbitante. Nos re­ gistros seculares existentes, a respeito dessa região, o preço médio para a venda de aldeias inteiras era de cem a mil siclos. Toda a colina de Samária foi comprada por Onri por seis mil siclos, ou dois talentos (I Reis 16:24). Obviamente, Efrom estava explorando a situação. Abraão não estava na posição de rega­ tear. Para ele, valia esse preço, embora não fosse o seu valor comercial. As igre­ jas que se recusam a pagar mais do que o valor comercial, por alguma propriedade de que necessitem, não demonstram tan­ ta sabedoria quanto Abraão. Para ele, o problema não era: “Estou sendo defrau­ dado?” mas: “Sou capaz de comprar o que preciso obter?” Moeda corrente entre os mercadores. Naqueles dias não havia padrões estabe­ lecidos de peso e medida. O consumidor tanto quanto o produtor dependiam de padrões estabelecidos pelos mercadores da região. 2) Uma Sepultura da Família (23:17-20) 17 Assim o cam po de E from , que estava em M acpela, em frente de M anre, o cam po e a cova que nele estav a, e todo o arvoredo que havia nele, por todos os seus lim ites ao redor, se confirm aram 18 a A braão em pos­ sessão na p resença dos filhos de H ete, isto é, de todos os que entravam pela porta da sua cidade. 19 Depois sepultou A braão a S ara sua m ulher na cova do cam po de M acpela, em frente de M anre, que é H ebrom , n a te rra de C anaã. 20 A ssim o cam po e a cova que nele estav a foram confirm ados a A braão pelos filhos de H ete em possessão de sepul­ tu ra. As especificações seguem de perto a terminologia de transações legais. A la- vratura da escritura foi devidamente tes­ temunhada por toda a comunidade. Não se pouparam esforços para tornar a ven­ da de validade em qualquer tempo. Abraão sabia mui bem que o contrato legál haveria de sobreviver a ele próprio, e era a única proteção contínua para o sepulcro da família. Ali, ele iria ser se­ pultado, seguido por Rebeca, Isaque (35: 29), Léia (49:31) eJacó (50:13). Neste capítulo, vemos Abraão no mo­ mento de sua tristeza mais intensa, de­ monstrando uma notável clareza de ra­ ciocínio, negociando com os filhos de Hete com uma prontidão incomum em situações como essa. A fé não o capa­ citava apenas a caminhar com Deus; ela lhe dava dignidade em face aos seus vizinhos. 16. Conseguindo uma Esposa Para Isa­ que (24:1-67) Esta narrativa da fonte Judia é a mais longa e a mais encantadora de todas as histórias patriarcais. Sendo três vezes mais longa do que as narrativas indepen­ dentes, em média, é a unidade mais com­ prida de Gênesis. Não é uma história tradicional, mas uma historieta curta, em forma literária, um relato indepen­ dente em si mesmo. Chamá-lo de histo­ rieta independente não quer dizer que ele não esteja baseado em fatos, pois esta narrativa é, certamente, verdadeira e fiel à situação vivencial da época, como tem sido verificado por todos os critérios dis­ poníveis. É uma história baseada em evento que realmente ocorreu, mas con­ tada com a perícia consumada de um grande artista literário. 1) O Encargo de Eliézer (24:1-9) 1 O ra, A braão e ra já velho e de idade av a n ç a d a ; e em tudo o Senhor o havia aben­ 255
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    çoado. 2 Edisse A braão ao seu servo, o m ais antigo da casa, que tinha o governo sobre tudo o que po ssu ía: Põe a tu a m ão debaixo da m inha coxa, 3 p a ra que eu te faça ju ra r pelo Senhor, D eus do céu e da te rra , que não to m arás p a ra m eu filho m ulher dentre as filhas dos cananeus, no m eio dos quais eu habito; 4 m as que irá s à m inha te rra e à m inha paren tela, e dali to m arás m ulher p a ra m eu filho Isaque. 5 Perguntou-lhe o servo: Se porventura a m ulher não quiser seguir-m e a esta te rra , farei, então, to rn ar teu filho à te rra donde saíste? 6 Respondeu- lhe A braão: G uarda-te de fazeres to m a r p a ra lá o m eu filho. 7 O Senhor, D eus do céu, que m e tirou da casa de m eu pai e da te rra da m inha parentela, e que m e falou, e que m e jurou, dizendo: À tu a sem ente d arei esta te rra ; ele enviará o seu anjo adiante de ti, p a ra que tom es de lá m ulher p a ra m eu filho. 8 Se a m ulher, porém , não quiser seguir-te, serás livre deste m eu ju ram en to ; som ente não farás m eu filho to m a r p a ra lá. 9 E ntão pôs o servo a sua m ão debaixo da coxa de A braão seu senhor, e jurou-lhe sobre este negócio. Não somos informados qual era o nome do servo que é o centro de atenções neste capítulo, mas a declaração de 15:2 sugere que pode ter sido Eliézer. Se assim foi, encontrar uma esposa para Isaque era, para ele, o mais elevado ato de lealdade ao seu senhor Abraão. Se Isaque não encontrasse esposa e não tivesse herdeiros, Eliézer seria o seguinte na linhagem para receber a herança. Servo (heb., ‘ebed) pode significar o de qualquer papel, desde o de um escravo comum até o de ministro do conselho real. Aqui, o ofício devia ser o de um mordomo responsável. Embora a identi­ ficação não seja, de forma alguma, certa, na discussão deste capítulo, o servo que mereceu tanta confiança será menciona­ do como Eliézer, visto que não há outro nome mais conveniente para se usar. Põe a tua mão debaixo da minha coxa. Esta maneira de selar um juramento é apresentada apenas aqui e em 47:29, sendo ocasionadas ambas as ocorrências pela morte iminente de um patriarca. A palavra “coxa” é a costumeiramente usada para essa parte do corpo, signifi­ cando a parte inferior do tronco ou a superior da perna. Alguns estudiosos (von Rad e Skinner) presumem que se refere aos órgãos genitais, pois a frase “que saíram da sua coxa” é usada em relação à geração de filhos (cf. 46:26; Ex. 1:5). Admitem que se desconhece qualquer razão para este ato.Alguns su­ gerem que era a conservação da noção antiga da santidade dos órgãos de uma divindade; outros lembram a circunci­ são, o dever de futuras gerações de obser­ var ojuramento ou uma maldição sobre a descendência daquele que quebrasse o juramento que estava fazendo. Contudo, nada sabemos a respeito de um toque nos órgãos genitais para fazer um juramento, quer no Velho Testamen­ to quer entre os povos antigos do Oriente Próximo. Por que Eliézer colocou a sua mão debaixo da coxa de Abraão, e não sobre ela? Também é possível que Eliézer simplesmente tivesse colocado a sua mão sob a coxa de Abraão, para simbolizar o fato de que Abraão estava dando o seu peso à (sentando sobre, confiando) sua promessa. Embora a mesma palavra não seja usada em 15:6, a mesma idéia está presente ali, quando se diz que Abraão “confiou” no Senhor, creu nele ou acre­ ditou nele. Deus do céu e da terra. Embora seja comum na literatura posterior, esta ex­ pressão, nas histórias patriarcais, só se encontra aqui. Tomarás mulher para meu filho signi­ fica literalmente “obterás uma esposa” : dá e faze o que for necessário para obtê- la. Fosse qual fosse o preço, Abraão es­ tava disposto a pagá-los. Obviamente, o seu pedido não se baseava primordial­ mente em um desejo de conservar a pureza racial, mas de preservar as tra­ dições religiosas que eram propriamente comuns de sua família (cf. 24:50, em que Labão e Betuel já conheciam o Senhor e eram leais à sua palavra). Se a mulher, porém, não quiser. No versículo anterior, Abraão havia dito a 256
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    Eliézer que elenão precisava temer, pois o Senhor enviaria o seu anjo adiante dele, para assegurar o sucesso de seu empreen­ dimento. Se ela fizesse ouvidos moucos até para com o anjo de Deus (o próprio Deus), mesmo nesse caso, Eliézer não devia deixar Isaque voltar ao país natal. Para Abraão e seus descendentes, as pontes que os ligavam a Harã haviam sido queimadas para sempre. Os hebreus jamais teriam o direito de voltar, se o quisessem. Da mesma forma como a promessa de Deus e Abraão era irrevogá­ vel, a decisão de Abraão de segui-lo tam­ bém o era. 2) A Oração de Eliézer (24:10-14) 10Tomou, pois, o servo dez dos cam elos do seu senhor, porquanto todos os bens de seu senhor estavam em sua m ão; e, partindo, foi p a ra a M esopotâm ia, à cidade de N aor. 11 F ez ajoelhar os cam elos fora d a cidade, junto ao poço de água, pela tard e, à hora em que as m ulheres saíam a tira r a água. 12 E disse: Ó Senhor, Deus de m eu senhor A braão, dá-m e hoje, peço-te, bom êxito, e usa de benevolência p a ra com o m eu senhor A braão. 13 E is que eu estou em pé junto à fonte, e as filhas dos hom ens d esta cidade vêm saindo p a ra tira r ág u a; 14 faze, pois, que a donzela a quem eu d isser: A baixa o teu cântaro, peço-te, p a ra que eu beba; e ela responder: Bebe, e tam bém d arei de beber aos teus cam elos; seja aquela que designas­ te p a ra o teu servo Isaque. A ssim reconhe­ cerei que usaste de benevolência p a ra com o m eu senhor. As referências a camelos, nesta passa­ gem, têm ocasionado enorme debate. A certa altura, os estudiosos estavam certos de que os camelos ainda não haviam sido domesticados na época de Abraão, mas agora se sabe que, embora isto não fosse comum, era possível (cf. Speiser). Não há evidências suficientes em contrário, para negar a historicidade dos camelos nesta narrativa. O fato de Abraão ter possuído camelos era uma indicação de sua ri­ queza. A viagem, que levou cerca de um mês, é mencionada pelo escritor apenas de passagem. De repente estamos lá. Quan­ do os camelos se ajoelharam, Eliézer orou. Humildemente, em nome de Abraão (e não em seu próprio nome), ele pediu o favor de Deus. Dá-me... bom êxito é, literalmente: “Fá-lo encontrar-se” , “Faze as coisas se encontrarem” ou “acontecerem cor­ retamente”. Esta expressão, da mes­ ma forma como “prosperar o seu cami­ nho” (v. 21, 40, 42, 56), não faz parte do vocabulário tradicional, de piedade, no Velho Testamento. Um homem secular estava aprendendo a trabalhar com Deus. Assim conhecerei. Eliézer estava pe­ dindo um sinal, não a fim de fortalecer a sua fé (como Gideão), mas para ajudá- lo a tomar a decisão certa. O seu pedido não foi de um sinal arbitrário, para confirmar a obra de Deus (como no caso do relógio de sol de Acaz), mas o sinal pedido e o tipo de esposa que Isaque precisava estavam intimamente relacio- dos. Isaque necessitava de uma esposa que fosse ambiciosa tanto quanto dispos­ ta a fazer mais do que se lhe requeria. 3) Rebeca Junto ao Poço (24:15-27) 15 A ntes que ele acabasse de falar, eis que R ebeca, filha de B etuel, filho de M ilca, m u ­ lher de N aor, irm ão de A braão, saia com o seu cântaro sobre o om bro. 16 A donzela e ra m uito form osa à vista, virgem , a quem v a ­ rão não havia conhecido; ela desceu à fonte, encheu o seu cântaro e subiu. 17 E ntão o servo correu-lhe ao encontro, e disse: Dei- xa-m e beber, peço-te, um pouco de água do teu cântaro. 18 R espondeu ela: Bebe, m eu senhor. E ntão com p resteza abaixou o seu cântaro sobre a m ão e deu-lhe de beber. 19 E quando acabou de lhe d ar de beber, disse: T irarei tam bém água p a ra os teus cam elos, a té que acabem de beber. 20 T am ­ bém com presteza despejou o seu cântaro no bebedouro e, correndo outra vez ao poço, tirou água p a ra todos os cam elos dele. 21 E o hom em a contem plava atentam ente, em silêncio, p a ra saber se o Senhor havia tornado próspera a sua jo rnada, ou não. 22 Depois que os cam elos a cab aram de b e ­ ber, tom ou o hom em um pendente de ouro, de m eio siclo de peso, e duas pulseiras p a ra as m ãos dela, do peso de dez siclos de o u ro ; 257
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    23 e perguntou:De quem és filha? dize-mo, peço-te. H á lu g ar em casa de teu p ai p ara nós pousarm os? 24 E la lhe respondeu: E u sou filha de B etuel, filho de M ilca, o qual ela deu a N aor. 25 D isse-lhe m ais: T em os palha e forragem bastante, e lu g ar p a ra pousar. 26 E ntão lnclinou-se o hom em e adorou ao Senhor; 27 e disse: Bendito seja o Senhor Deus de m eu senhor A braão, que não retirou do m eu senhor a su a benevolência e a sua verdade; quanto a m im , o Senhor m e guiou no cam inho â ca sa dos irm ãos de m eu senhor. Enquanto Eliézer estava ainda orando — pois antes de ele poder terminar de expressar o seu pedido, Deus já estava providenciando as coisas — Rebeca che­ gou ao poço! Ela não apenas tomou a iniciativa de dar de beber aos camelos, mas era uma jovem bonita, uma virgem (bethulah), a quem nenhum homem ha­ via conhecido (cf. 4:1). Este capitulo tem várias referências que se relacionam com o significado de Isaías 7:14, onde ‘almah (jovem) ocorre. Se Isaías queria dizer que a mãe do menino era virgem, dizem al­ guns intérpretes, teria usado bethulah. No entanto, a fim de tomar claro que Rebeca era virgem, o escritor teve que usar uma frase qualificadora., em adição à palavra bethulah. No versículo 43, Elié­ zer usou a palavra ‘almah como sinônimo de bethulah. Só duas vezes, no Velho Testamento, os tradutores da LXX usam parthenos (virgem) para traduzir ‘almah: em Isaías 7:14 e aqui no versículo 43, onde, pelo contexto, eles podiam ter cer­ teza que Rebeca era virgem. 4) A Resposta de Labão (24:28-33) 28 A donzela correu, e relatou estas coisas aos da ca sa de su a m ãe. 20 O ra, R ebeca tinha um irm ão, cujo nom e e ra L abão, o qual saiu correndo ao encontro daquele ho­ m em a té a fonte; 30 porquanto tinha visto o pendente, e as pulseiras sobre as m ãos de sua irm ã, e ouvido as p alav ras de sua irm ã R ebeca, que dizia: A ssim m e falou aquele hom em ; e foi te r com o hom em , que estava em pé junto aos cam elos ao lado da fonte. 31 E disse: E n tra, bendito do Senhor; por que estás aqui fora? pois eu já prep arei a casa, e lugar p a ra os cam elos. 32 E ntão veio o hom em & casa, e desarreou os cam e­ los; d eram palha e fo rragem p a ra os cam e­ los, e água p a ra lav ar os pés dele e dos hom ens que estav am com ele. 33 Depois puseram com ida diante dele. E le, porém , disse: N ão com erei, a té que tenha exposto a m inha incum bência. R espondeu-lhe L abão: F ala. Labão é a personificação do arameu astuto. O quadro é claro quando o escri­ tor nos informa: Porquanto tinha visto o pendente, e as pulseiras... £ disse: En­ tra, bendito do Senhor. Comida foi colo­ cada diante de Eliézer, mas ele recusou- se a comer enquanto não tivesse relatado o propósito de sua jornada. De fato, faminto e cansado como ele estava, assim mesmo nem comida nem descanso eram tão importantes, para ele, quanto o su­ cesso de seu empreendimento, que agora se aproximava tão rapidamente de sua fase final. 5) O Discurso de Eliézer (24:34-49) 34 E ntão disse: E u sou o servo de A braão. 35 O Senhor tem abençoado m uito ao m eu senhor, o qual se tem engrandecido; deu- lhe rebanhos e gado, p ra ta e ouro, escravos e escravas, cam elos e jum entos. 36 E Sara, a m ulher do m eu senhor, m esm o depois de velha deu um filho a m eu senhor; e o p ai lhe deu todos os seus bens. 37 O ra, o m eu senhor m e fez ju ra r, dizendo: N ão to m arás m ulher p a ra m eu filho d as filhas dos cananeus, em cuja te rra habito; 38 irá s, porém , à casa de m eu p ai, e à m inha parentela, e to m arás m ulher p a ra m eu filho. 39 E ntão respondi ao m eu senhor: P orv en tu ra não m e seguirá a m ulher. 40 Ao que ele m e disse: O Senhor, em cuja presença tenho andado, en v iará o seu anjo contigo, e p ro sp erará o teu cam i­ nho ; e da m inha p aren tela e da casa de m eu pai to m arás m ulher p a ra m eu filho; 41 então serás livre do m eu juram ento, quando chegares á m inha paren tela; e se não ta derem , livre serás do m eu juram ento. 42 E hoje cheguei &fonte, e d isse: Ó Senhor, Deus de m eu senhor A braão, se é que agora prosperas o m eu cam inho, o qual venho seguindo, 43 eis que estou junto à fonte; faze, pois, que a donzela que sa ir p a ra tira r água, a quem eu disser: D á-m e, peço-te, de beber um pouco de água do teu cântaro, 44 e ela m e responder: Bebe tu, e tam bém tira re i água p a ra os teus cam elos; seja a 258
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    m ulher queo Senhor designou p a ra o filho de m eu senhor. 45 O ra, an tes que eu a c ab as­ se de falar no m eu coração, eis que R ebeca saía com o seu cântaro sobre o om bro, d es­ ceu à fonte e tirou ág u a; e eu lhe disse: D á-m e de beber, peço-te. 46 E ela, com presteza, abaixou o seu cântaro do om bro, e disse: Bebe, e tam bém d arei de beber aos teus cam elos; assim bebi, e ela deu tam bém de beber aos cam elos. 47 E ntão lhe pergun­ tei : De quem és filha? E ela d isse: F ilha de Betuel, filho de N aor, que M ilca lhe deu. E ntão lhe pus o pendente no nariz e as pulseiras sobre as m ãos; 48 e, inclinando- m e, adorei e bendisse ao Senhor, D eus do m eu senhor A braão, que m e havia conduzi­ do pelo cam inho direito p a ra to m ar p a ra seu filho a filha do irm ão do m eu senhor. 49 Ago­ ra , pois, se vós haveis de u sa r de benevo­ lência e da verdade p ara com o m eu senhor, declarai-m o; e se não, tam bém m o decla­ rai, p a ra que eu vá ou p a ra a direita ou p a ra a esquerda. Este longo discurso parece inteiramen­ te desnecessário ao leitor moderno, pois grande parte dele repete o que acontece­ ra anteriormente. Contudo, tal “parti­ cularidade épica” era uma prática literá­ ria comum no antigo Oriente Próximo. Ela se encontra no relato babilónico da criação (Enuma Elish) e na história babi­ lónica do dilúvio (Epopéia de Gilga- mesh). O autor deste capítulo usa a narrativa de Eliézer para fazer adições sutis à trama. Abraão havia dito que, se a jovem não estivesse disposta, Eliézer estaria li­ vre de seu juramento (24:8). Quando o servo se dirigiu à família de Rebeca, disse que, se a parentela não estivesse dispos­ ta, ele estaria desobrigado de seu dever. A decisão precisava ser a de membros responsáveis da família. Ele, provavel­ mente, havia previsto a reação afirmati­ va de Rebeca, pelo fato de ter ela agido de maneira tão notável no contexto da obra soberana de Deus. Começando o seu discurso com um relato deslumbrante da riqueza e da fama de Abraão, ele acrescentou que Isaque, o filho único, já havia recebido todas as propriedades do pai. Concluiu o discurso perguntando-lhes se eles iriam agir lealmente (com chesed) para com o seu parente, se iriam consentir com a evi­ dente direção providencial de Deus. Se não, ele iria adiante, para fazer a oferta a outrem. Então eles teriam evidenciado falta de fé em Deus e de fidelidade para com o seu parente, e teriam perdido o melhor dote que poderiam encontrar pa­ ra a moça. 6) Ò Sucesso da Visita (24:50-61) 50 E ntão responderam Labão e B etuel: Do Senhor procede este negócio; nós não podem os falar-te m al ou bem . 51 E is que R ebeca está diante de ti, tom a-a e vai-te; seja ela a m ulher do filho de teu senhor, como tem dito o Senhor. 52 Quando o servo de A braão ouviu as p alav ras deles, p ro s­ trou-se em te rra diante do Senhor; 53 e tirou o servo jóias de p ra ta , e jóias de ouro, e vestidos, e deu-os a R ebeca; tam bém deu coisas preciosas a seu irm ão e à sua m ãe. 54 E ntão com eram e beberam , ele e os hom ens que com ele estavam , e p assaram a noite. Quando se lev an taram de m anhã, disse o servo: D eixai-m e ir a m eu senhor. 55 D isseram o irm ão e a m ãe da donzela: Fique ela conosco alguns dias, pelo m enos dez d ias; e depois irá. 56 E le, porém , lhes respondeu: N ão m e detenhais, visto que o Senhor m e tem prosperado o cam inho; dei- xai-m e p artir, p a ra que eu volte a m eu senhor. 57 D isseram -lhe: C ham arem os a donzela, e perguntarem os a ela m esm a. 58 C ham aram , pois, a R ebeca, e lhe pergun­ ta ra m : Irá s tu com este hom em ? R espon­ deu ela: Irei. 59 E ntão despediram a R ebe­ ca, sua irm ã, e à sua a m a e ao servo de A braão e a seus hom ens; 60 e abençoaram a R ebeca, e disseram -lhe: Irm ã nossa, sê tu a m ãe de m ilhares de m iríades, e possua a tu a descendência a p o rta de seus aborrecedo­ res! 61 Assim R ebeca se levantou com as suas m oças e, m ontando nos cam elos, se ­ guiram o hom em ; e o servo, tom ando a R ebeca, partiu. A menção de Labão e Betuel é pro­ blemática. Embora já tenhamos visto (22:23) que não há razão convincente para não se crer nas declarações sem rodeios deste capítulo (v. 15 e 24), que Betuel era o pai de Rebeca, há muitas evidências de que nessa época ele já não estava mais vivo. Rebeca correu para a casa de sua mãe, e não de seu pai (v. 28); 259
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    foram dados, porEliézer, presentes ao irmão e à mãe de Rebeca, mas não ao seu pai (v. 53); a mãe e o irmão dela falaram por ela (v. 55); embora não fosse costume mencionar o filho antes do pai, o versí­ culo 50 apresenta o nome de Labão antes do de Betuel. O relato é um exemplo típico do costume antigo, quando o ir­ mão deu a irmã em casamento (cf. Spei- ser). O nome de Betuel entrou no ver­ sículo 50 pela mão de um escriba, ou então esse homem foi completamente obscurecido por um filho ambicioso e uma esposa dominadora. 7) Isaque Se Encontra com Rebeca (24:62-67) 62 O ra, Isaque tinha vindo do cam inho de B eer-Laai-R ói; pois h abitava na te rra do N egebe. 63 S aíra Isaque ao cam po à tard e, p a ra m ed itar; e levantando os olhos, viu, e eis que vinham cam elos. 64 R ebeca tam bém levantou os olhos e, vendo a Isaque, saltou do cam elo 65 e perguntou ao serv o : Quem é aquele hom em que vem pelo cam po ao nosso encontro? Respondeu o servo: É m eu se ­ nhor. E ntão ela tom ou o véu e se cobriu. 66 Depois o servo contou a Isaque tudo o que fizera. 67 Isaque, pois, trouxe R ebeca p a ra a tenda de S ara, sua m ãe; tom ou-a e ela lhe foi por m ulher; e ele a am ou. A ssim Isaque foi consolado depois da m orte de su a m ãe. Alguns comentaristas acham que um relato da morte de Abraão e do novo lugar de residência de Isaque (25:11b) devem ter originalmente seguido 24:61 (von Rad). Contudo, se a morte de Abraão já tivesse ocorrido, o relato Sa­ cerdotal incorreu em erro a respeito de sua idade na época de sua morte, pois Isaque tinha quarenta anos quando se casou com Rebeca (25:20), e Abraão, nessa época, devia ter cerca de cento e quarenta anos. O capítulo 25:7 (fonte Sa­ cerdotal) apresenta cento e setenta e cin­ co anos como a sua idade ao morrer. O fato de Eliézer ter dito que Abraão havia dado todas as suas propriedades a Isaque (24:36) não significa que Abraão já estivesse morto. De 25:5,6, aprende­ mos que Abraão distribuiu a sua proprie­ dade antes de morrer, para impedir dis­ cussões entre os seus herdeiros depois de sua morte. O fato de Eliézer chamar Isaque de meu senhor não constitui pro­ blema. O Isaque de quarenta anos de idade era o superior de Eliézer. Saíra Isaque... para meditar. A forma peculiar do verbo que ocorre aqui en­ contra-se apenas nesta passagem. Uma forma cognata encontra-se nos Salmos, e significa meditar. A LXX assim o enten­ de. O verbo particular usado nos Salmos está associado com lamentos. Aceitando- se esta acepção tradicional, ela sugere que Isaque estava ainda meditando e se lamentando por causa da morte de sua mãe, que havia ocorrido havia três anos. O texto hebraico se refere a “Sara, sua mãe” depois de para a tenda. Embora esta expressão não tenha conexão sintáti­ ca com o resto da sentença, sugere, pun­ gentemente, assim mesmo, que Rebeca preencheu o lugar de Sara na vida de Isaque. Ela não foi a última esposa cha­ mada para preencher o papel de mãe, tanto quanto de esposa para o seu ma­ rido. A despeito do fato de, por várias emen­ das e conjecturas, ter sido sugerido que Isaque, ao invés de estar meditando, fora “prosear” , “orar" ou “no mato, para encontrar alívio”, a interpretação tradicional, embora incerta, tem mais peso em favor de meditar. Isto é substan- ciado pela declaração final do capítulo, de que Isaque de fato ainda estava cho­ rando a morte de sua mãe. . E ela lhe foi por mulher; e ele a amou. Isto é o inverso da ordem de nossa li­ teratura romântica: duas pessoas se apai­ xonam e depois se casam. Isaque e Rebe­ ca se casaram, e depois se apaixonaram. 17. Os Últimos Dias de Abraão (25:1-18) Esta seção apresenta evidências das fontes Judia e Sacerdotal, mas, em notas sumárias como esta, a análise da respec­ tiva fonte é mais incerta do que em outras passagens. Não se levando em 260
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    conta o gêneroliterário do material, é óbvio que ele não é arranjado em ordem cronológica, em relação ao material que fica ao seu redor. Alguns intérpretes acham difícil crer que Abraão, depois dos cento e quarenta anos (quando Isaque se casou, v. 20), fosse suficientemente viril para ter a grande família descrita nos versículos 1-4; por isso, presumem que ele se casou com Quetura antes de Sara falecer. Até Kidner se inclina para este ponto de vista. I Crônicas 1:32 (cf. o v. 6) diz que Quetura era concubina de Abraão. É possível que, depois da morte de Sara, ela tenha sido elevada da posição de concubina para a de esposa. Embora não seja improvável que Abraão se tenha casado com Quetura depois que Sara morreu, e que, na ver­ dade, 25:1-11 segue cronologicamente o capítulo 24, está claro que 25:7-11 está fora de ordem em relação a 25:19 e ss. Ao invés de morrer antes de Jacó e Esaú nasceram, como a seqüência presente indica, Abraão viveu quinze anos depois do nascimento deles. Isto não significa que as duas passagens são contraditó­ rias, mas que não são arranjadas crono­ logicamente. 1) A Terceira Família de Abraão (25:1-6) lO ra , A braão tom ou outra m ulher, que se cham ava Q uetura. 2 E la lhe deu à luz a Z inrã, Jocsã, M edã, M idiã, Isbaque e Suá. 3 Jocsã gerou a Seba e D edã. Os filhos de D edã foram A ssurlm , L etusim e L eum im . 4 Os filhos de M idiã foram E fá, E fer, Hano- que, A bidá e E ld á; todos estes foram filhos de Q uetura. 5 A braão, porém , deu tudo quanto possuía a Isaq u e; 6 no entanto, aos filhos das concubinas que A braão tinha, deu ele dádivas; e, ainda em vida, os separou de seu filho Isaque, enviando-os ao O riente, p a ra a te rra oriental. O nome Quetura significa “a perfu­ mada”, o que leva algumas pessoas a pensarem que ela era uma personificação da indústria árabe de especiarias, e não uma pessoa verdadeira (cf. Skinner). De- litzsch está perto da verdade, quando considera absurda esta opinião. £ sacri­ légio contra os mortos relegar uma pes­ soa real ao reino da fantasia, sem evidên­ cias suficientes. Quetura deve permane­ cer sendo uma pessoa até que possa ser provado que ela não era real. Há uma tribo Katura, relacionada nas genealo­ gias árabes. É bem provável que Abraão se tenha casado depois da morte de Sara. Isto seria um cumprimento a ela, e não um ato de desrespeito. Exceto Midiã, que se tomou proemi­ nente nos dias de Gideão, pouco se sabe a respeito dos descendentes de Quetura. Suá é mencionado em Jó 2:11 como an­ cestral de Bildade. Essas tribos de Que­ tura viveram ao norte da Arábia, no limi­ te com a Palestina. Os queneus eram uma tribo midianita (Núm. 10:29; Juí. 1:16). Moisés se casou com a filha de um sacerdote midianita (Reuel ou Jetro). Al­ guns comentaristas supõem que Moisés recebeu o nome, pelo qual chamou Deus, de Jetro, mas é mais provável que ele e o sacerdote midianita compartilhassem de uma tradição comum, preservada em diferentes ramos da família de Abraão (cf. Davies). Enviando-os. Para os filhos de Agar e de Quetura (“suas concubinas” , embora elas jamais sejam chamadas por esse nome em outras passagens de Gênesis) ele deu-lhes a herança enquanto ainda estava vivo, e os mandou embora, como havia feito com Ismael. Esta era uma garantia de que a porção de Isaque não iria ser contestada quando Abraão mor­ resse. Desta vez Sara não estava por perto para insistir a esse respeito, mas Abraão havia aprendido bem a sua lição. Ele nem mesmo precisava de uma pala­ vra da parte de Deus para saber o que fazer. 2) A Morte de Abraão (25:7-11) 7 E stes, pois, são os dias dos anos da vida de A braão, que ele viveu: cento e setenta e 261
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    cinco anos. 8E A braão expirou, m orrendo em boa velhice, velho e cheio de d ia s ; e foi congregado ao seu povo. 9 E ntão Isaque e Ism ael, seus filhos, o sepultaram na cova de M acpela, no cam po de E from , filho de Zoar, 0 heteu, que estav a em frente de M anre, 10 o cam po que A braão com prara aos filhos de H ete. Ali foi sepultado A braão, e Sara, sua m ulher. 11 Depois d a m orte de A braão, D eus abençoou a Isaque, seu filho; e h ab ita­ va Isaque junto a Beer-Laai-Rói. O patriarca, tendo vivido em Canaã exatamente cem anos, morreu em boa velhice, velho e cheio de dias. Em Israel, na antiguidade, só uma morte prematura suscitava questionamentos a respeito dos caminhos de Deus. Se um homem vives­ se completamente os seus dias, podia enfrentar a morte sem rebelião ou frus­ tração, pois recebera da vida o seu qui­ nhão. Não que não se desejasse mais, porém parecia que não havia chances de tal coisa acontecer. O homem não fazia nenhuma “reivindicação desafiadora à imortalidade” (von Rad, p. 257), mas desde o princípio aceitava a sua vida como limitada (Gên. 35:29; Jó 42:17; 1Crôn. 23:1; 29:28; II Crôn.'24:15). A expressão foi congregado ao seu povo se referia originalmente ao sepulta- mento no túmulo da família. Abraão foi sepultado na caverna de Macpela; assim, obviamente, os seus ossos não foram colocados com os de seus ancestrais. Por­ tanto, esta frase se aplica, aqui, à exis­ tência no Seol (cf. Jó 3:11-19). Os he­ breus nunca creram que a existên­ cia humana terminava por ocasião da morte, mas que a vida no Seol era nebu­ losa e sem significado. No entanto, o fato de que a vida continuava oferecia certa consolação e esperança. Talvez fosse me­ lhor do que eles comumente supunham. Por outro lado, para os ímpios podia ser pior(cf. Ez. 32). A menção da presença de Isaque e de Ismael por ocasião do funeral não é uma confusão do texto, mas um fato da vida. Nessa ocasião de perda de um ente queri­ do, geralmente irmãos que estavam sepa­ rados por um momento se unem. Que bom se o pai estivesse ali para ver essa cena! 3) A Genealogia de Ismael (25:12-18) 12 E stas sito as gerações de Ism ael, filho de A braão, que A gar, a egípcia, serv a de S ara, lhe deu; 13 e estes são os nom es dos filhos de Ism ael pela sua ordem , segundo as suas g eraçõ es: o prim ogênito de Ism ael e ra N ebaiote, depois Q uedar, Abdeel, Mib- são, 14 M ism a, D um á, M assá, 15 H adade, Tem a, Jetu r, N afis e Q uedem á. 16 E stes são os filhos de Ism ael, e estes são os seus nom es pelas suas vilas e pelos seus acam p a­ m entos : doze príncipes segundo as suas tr i­ bos. 17 E estes são os anos da vida de Ism ael, cento e trin ta e sete anos; e ele expirou e, m orrendo, foi congregado ao seu povo. 18 E les então h ab itaram desde H avilá até Sur, que está em frente do Egito, como quem vai em direção da A ssíria; assim Ism ael se estabeleceu diante da face de todos os seus irm ãos. As tribos de Ismael ocuparam toda a área do deserto do noroeste da Arábia, tocando apenas as tribos de Naor ao norte (cf. 20:20-24). Elas formavam uma confederação de doze tribos, muito seme­ lhante à liga hebréia. Os líderes eram chamados de nesFim (príncipes), termo que era aplicado a um dignitário reli- gioso-político, que representava uma tri­ bo quando os chefes se reuniam para deliberações. O centro de sua vida parece ter sido o conhecido oásis de Tema (Is. 21:14; Jer. 25:23; Jó 6:19), que é men­ cionado por Tiglate-Pileser da Assíria, em suas inscrições, e onde Nabonido, último rei nativo da Babilônia, estava vivendo na época da invasão de Ciro. Este mesmo Nabonido provavelmente estabeleceu judeus em alguns oásis men­ cionados nesta passagem, fato que pode explicar esta familiaridade com regiões que não são conhecidas comumente dos escritores do Velho Testamento. Ele se estabeleceu diante da face de todos os seus irmãos pode significar que Ismael viveu mais nas profundezas do deserto do que qualquer outra tribo abraâmica (Davies), mas nem sempre isto foi verdade. Esta expressão, prova­ 262
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    velmente, significa quehavia guerras in- ter-tribais, a despeito do encontro ocasio­ nal dos príncipes (Speiser, cf. os comen­ tários sobre 16:12b). III. As Narrativas Sobre Isaque (25:19-28:9) Esta passagem começa as gerações (toledoth) de Isaque. Era de se esperar que, depois da menção de Abraão e Isaque, a lista genealógica continuasse, como no caso de Tera, em 11:27, ou de Ismael, em 25:12. Contudo, ela é subita­ mente interrompida pelas narrativas so­ bre Jacó e Esaú. Essas “gerações” de Isaque continuam até o fim do capítulo 35, que fala do nascimento de Bénja- mim, com que a família de Jacó se completou. As gerações de Jacó come­ çam em 37:2 e continuam até a morte dele, no capítulo 50. Desta forma, o livro de Gênesis parece estar sempre uma ge­ ração atrasado. As histórias de Abraão são contadas com o nome de Tera, as histórias de Jacó sob o nome de Isaque e as histórias de José sob o nome de Jacó! A maneira antiga de pensar era bem diferente da nossa. A verdadeira contri­ buição da vida de um homem pode ser encontrada no que ele contribui para uma geração posterior, e não para a sua própria geração. Embora 25:19-35:29 contenham as toIedoth de Isaque, só 25:19-28:9, na ver­ dade, retratam as atividades de Isaque. Esta passagem bem pode ser estudada como uma unidade, pois depois que Jacó saiu da casa, dirigindo-se a Harã, ele ocupou o centro do palco. 1. O Nascimento de Esaú e lacó (25:19-26) 19 E estas são a s gerações de Isaque, filho de A braão: A braão gerou a Isaq u e; 20 e Is a ­ que tinha quaren ta anos quando tom ou por m ulher a R ebeca, filha de B etuel, aram eu de P adã-A rã, e irm ã de L abão, aram eu . 21 O ra, Isaque orou insistentem ente ao Se­ nhor por sua m ulher, porquanto ela e ra estéril; e o Senhor ouviu as suas orações, e R ebeca, sua m ulher, concebeu. 22 E os fi­ lhos lutavam no ventre dela; então ela dis­ se: P o r que estou eu assim ? E foi consultar ao Senhor. 23 R espondeu-lhe o Senhor: D uas nações h á no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas en tran h as, e um povú será m ais forte do que o outro povo, e o m ais velho serv irá ao m ais m oço. 24 C um pridos que foram os dias p a ra ela d ar à luz, eis que havia gêm eos no seu ventre. 25 Saiu o prim eiro, ruivo, todo ele como um vestido de pêlo; e cham aram -lhe E saú. 26 Depois saiu o seu irm ão, ag a rra d a sua m ão ao calcan h ar de E saú ; pelo que foi cham ado Jacó. E Isaque tinha sessenta anos quando R ebeca os deu à luz. Exceto por algumas poucas notas ge­ nealógicas e cronológicas (v. 19, 20, 26b) e embora falte, a esta seção, a viva­ cidade concreta geralmente encon­ trada na fonte Judia, ela é comumente atribuída a esse material. A natureza in­ definida de algumas declarações causa considerável especulação entre os intér­ pretes. Isaque orou insistentemente ao Senhor por sua mulher. Não se faz menção que Abraão tenha orado por Sara quando ela era estéril. Isto não significa que ele não 0 tenha feito, mas Isaque sabia, devido ao milagre de seu próprio nascimento, que Deus podia ajudar. Deus ouviu a sua oração (heb., se deixou ser rogado, ou, numa expressão bem nossa, não se fez de rogado), não apenas porque Isaque pedi­ ra, mas porque esta era a sua vontade. Isaque, mediante a sua intercessão, não havia persuadido a Deus para fazer algo que ele não estava inclinado a fazer, mas, pelo fato de colocar a sua vida e a de Rebeca diante do seu Deus, ele apresen­ tou a Deus a oportunidade de operar. Por que estou eu assim? O hebraico literal diz: “Onde, pois, estou eu?” Esta interrogação provavelmente significa não que ela não encontrasse razão para viver, mas que, com medo de um aborto, não via futuro em sua gravidez. E foi consultar ao Senhor. Segundo 1 Samuel 9:9, I Reis 22:5, II Reis 1:2, 263
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    parece que elase dirigiu a um santuário, pois, se “foi” a algum lugar para interro­ gar, não estava simplesmente orando. Que santuário havia ali, e que espécie de sacerdote consultou ela, para receber uma palavra do Senhor (Yahweh)? Será que o sacerdote precisava “conhecer o Senhor”, para que Deus falasse através dele? Será que Melquisedeque ainda vi­ via? Havia outros sacerdotes como ele? Quanto os antigos hebreus usavam os santuários locais? Todas as interrogações sobrevêm aos comentaristas, sem que haja respostas certas. Tudo o que sabe­ mos é que Deus falou a ela através de um sacerdote que aparentemente não era hebreu, visto que Isaque era o único descendente reconhecido de Abraão. A palavra que ela recebeu não fazia re­ ferência à forma de bênção, que nos é familiar, da maneira como foi dada a Abraão, em várias ocasiões (12:2,3; 13: 14; e ss.; 22:15 e ss.). Foi a espécie de oráculo que era comumente dado em santuários locais. Através dele, todavia, Deus falou com Rebeca e a tranqüilizou. Teria sido melhor se ela se tivesse dirigi­ do diretamente a Deus, em vez de a um intermediário, mas Deus foi ao encontro dela onde ela estava. Um jogo de palavras popular, com os nomes de Esaú e Jacó, é o que se segue. Esaú é associado com a palavra “cabe­ ludo” ou Seir, o primeiro nome do terri­ tório de Edom. Era de se esperar que a associação fosse com o nome posterior, Edom, pois a palavra hebraica que signi­ fica “vermelho” é quase a mesma. O sig­ nificado original de Esaú parece ser “pressionar ou esmagar”, mas, na tra­ dição popular, significava “cabeludo”, pois, quando o povo ouvia esse nome, pensava em Seir. Originalmente, Jacó era composto com ’EI, nome para Deus, e, provavelmente, significava “possa Deus proteger”. ’EI perdeu-se desse nome, na pronúncia ou ao dar-se o nome a um filho. Sem o ’El, ele é associado com a palavra que de­ signa calcanhar. Para os seus descenden­ tes, o nome dele significava “o agarrador de calcanhar” , “aquele que tenta sobre­ pujar o seu companheiro”, o astuto, su- plantador. Pode-se ver facilmente que aqui temos uma tradição que não é favo­ rável a nenhum dos dois homens. Um tinha um “casaco de peles por natureza” (von Rad, p. 260), uma regressão ao ani­ mal; o outro era supremamente ambicio­ so, tentando passar à frente depressa demais. 2. A Barganha de Jacó com Esaú (25:27-34) 27 C resceram os m eninos; e E saú tom ou- se perito caçador, hom em do cam po; m as Jacó, hom em sossegado, que habitava em tendas. 28 Isaque am av a a E saú, porque com ia da su a caça; m as R ebeca am av a a Jacó. 29 Jacó h avia feito um guisado, quan­ do E saú chegou do cam po, m uito can sad o ; 30 e disse E saú a Jacó : D eixa-m e, peço-te, com er desse guisado verm elho, porque e s­ tou m uito cansado. P o r isso se cham ou Edom . 31 R espondeu Ja c ó : Vende-me prim eiro o teu direito de prim ogenitura. 32 E ntão replicou E saú : E is que estou a ponto de m o rrer; logo, p a ra que m e serv irá o direito de prim ogenitura? 33 Ao que disse Jacó : Jura-m e prim eiro. Jurou-lhe, pois; e vendeu o seu direito de prim ogenitura a Jacó. 34 Jacó deu a E saú pão e o guisado de lentilhas; e ele com eu e bebeu; e, levantan­ do-se, seguiu seu cam inho. A ssim desprezou E saú o seu direito de prim ogenitura. A narrativa da fonte Judia continua com uma de suas cenas mais espetacula­ res. Novamente é enfatizado' o contraste entre os dois irmãos, de maneira enfáti­ ca. Esaú levava uma vida selvagem, de caçador, e Jacó vivia vida mais sedentá­ ria, de pastor. A história reflete uma época em que a Palestina era mais den­ samente arborizada do que agora, quan­ do o homem podia ganhar a vida caçan­ do. Não obstante, era uma vida incerta, pois algumas vezes o caçador chegava em casa com as mãos vazias. O pastor sem­ pre podia matar uma ovelha ou orde­ nhar uma cabra. 264
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    Descreve-se Jacó comohomem sosse­ gado (tom).. O significado radicular deve ser “inteiro” ou “completo”, e algures é traduzido como “imaculado” (RSV) ou “perfeito” (KJV). Em Gênesis 6:9, apli­ ca-se a Noé; em Jó 1:1, a Jó. Ninguém a traduz desta forma nesta passagem. Von Rad sugere o significado “ordeiro” ou “responsável”. Speiser recomenda “pes­ soa de gostos simples”, “quieto” , “in­ trospectivo” . O significado mais apro­ priado é amadurecido, crescido, adulto. Como Noé e Jó, Jacó era um homem amadurecido, crescido. A palavra por si mesma é aparentemente um termo se­ cular, da mesma forma como o seu equi­ valente português, hoje em dia, e não tem conotação ética alguma. Os homens amadurecidos são de todas as espécies, eticamente. Outras palavras são usadas com tam, para descrever as qualidades morais de Noé e Jó. A única caracterís­ tica de que compartilham os homens maduros é que eles não agem como crianças. Esaú não tinha esta caracterís­ tica. O seu comportamento era infantil e imaturo; ele não podia ver o futuro, dian­ te da urgência do presente. Contudo, não pode ser esquecido que Jacó estava em boa companhia quando lhe atribuímos a mesma qualidade, tam, que caracteriza­ va Noé e Jó. Talvez qualidades mais po­ sitivas estavam em sua natureza do que os comentaristas têm percebido. A Escritura não diz: “Desta forma laeó roubou, ao seu irmão, o seu direito de primogenitura” , mas, pelo contrário, A ssim desprezou Esaú o seu direito de primogenitura. Jacó não foi desculpado, mas Esaú foi mais culpado. Ele não reconheceu o valor do direito de primo­ genitura. De fato, nós também não o reconhece­ mos. Não há indicação, nas narrativas de Gênesis, que se esperava que um patriar­ ca desse a sua bênção espiritual ao filho mais velho. Nada se diz, aqui, a respeito da promessa patriarcal. Tudo parecia ser um arranjo comercial, e a bênção de Isa- que ainda devia ser obtida, para se ga­ rantir a verdadeira sucessão. Portanto, o que se quer dizer quando se afirma que Esaú desprezou o seu direito de primogenitura? Uma explica­ ção seria que, visto que ele desistiu tão facilmente de seus direitos, como o filho mais velho, evidentemente dava pouco valor à bênção espiritual. Os conceitos materiais e espirituais estavam ligados intimamente na mente hebraica. O fato de Esaú renunciar uma, significava a sua renúncia da outra. Uma razão mais pro­ vável era que Esaú deu pequeno valor à providência de Deus. Ele devia ter visto que o Deus que a havia dado o pouparia para que ele pudesse gozá-la depois de passados todos os dias de tribulação. Como diz o escritor do livro de Hebreus, Esaú foi um homem “profano” (KJV) (Heb. 12:16, “irreligioso”, RSV). Esta é uma palavra grega que traduz o homem “secular”, o homem que tinha pouco respeito pelas coisas sagradas. O pe­ cado principal de Esaú foi que ele deixou Deus do lado de fora de seus planos. Porque comia da sua caça mostra a verdadeira fonte da relação tensa entre os irmãos. Os seus pais a estimulavam me­ diante o favoritismo. Isaque preferia Esaú, porque o sabor de sua caça permi­ tia-lhe escapar por alguns momentos de sua domesticação completa. Esaú era o seu alter ego, o que ele algumas vezes desejava que tivesse ousado ser: um ho­ mem selvagem, emancipado, e não o Isaque paciente, gentil. Rebeca favorecia Jacó pela razão oposta: ele era muito parecido com ela. Deixa-me, peço-te, comer. Literal­ mente, “deixa-me devorar". Desse guisa­ do vermelho. A palavra traduzida como quisado não está no texto hebraico. Não sabendo o que era, Esaú o chamou de “essa (coisa) vermelha”. Alguns intér­ pretes sugerem que Jacó estava tentando enganar o seu irmão, levando-o a pensar que havia feito uma “sopa de sangue” , que lhe daria mais energia. Só depois que 265
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    fez a barganha,foi que Esaú descobriu que era apenas sopa de vegetais (von Rad). Este ponto de vista é baseado na acusação de Esaú de que Jacó o havia enganado duas vezes (27:36). Contudo, a versão da IBB o chama de “enganador” (27:36) e não de “suplantador”, ao fazer um jogo de palavras com o nome de Jacó. E se Esaú queria dizer que Jacó o enga­ nara, isso expressaria apenas a sua pon­ deração depois do incidente. Na história propriamente dita não há indicação de que Esaú pensou que estava sendo enga­ nado. Ele seguiu o seu caminho sem se queixar, satisfeito de ter vendido a bên­ ção material futura de Deus por um prato de sopa de vegetais! 3. As Passagens Sobre Isaque (26:1-35) Ao invés da forma de uma narrativa, este capítulo toma a forma de um mosai­ co de breves historietas sobre Isaque. É um “tronco antigo de tradições” que não “desenvolveu folhagem e rebentos” como as de Jacó e Abraão (von Rad, p. 264-65). Isto aconteceu, provavelmen­ te, devido ao caráter suave de Isaque, que não excitava os historiadores de Is­ rael. As narrativas encontradas aqui pro­ vavelmente foram preservadas, em forma antiga, em centros de adoração. Portan­ to, estes relatos, embora menos empol­ gantes, podem ser mais antigos do que os mais extensos. Há referências, neste ca­ pítulo, ao episódio entre Jacó e Esaú citado nos capítulos 25 e 27. As suas his­ tórias são colocadas aqui, pelos editores, como coleção de material sobre Isaque. 1) A Fome de Isaque (26:1-5) 1 Sobreveio à te rra u m a fom e, além da prim eira, que ocorreu nos dias de A braão. P or isso foi Isaque a A bim eleque, rei dos filisteus, em G erar. 2 E apareceu-lhe o Se­ nhor e disse: N ão desças ao E gito; habita na te rra que eu te d isse r; 3 peregrina n esta te rra , e serei contigo e te abençoarei; p o r­ que a ti, e aos que descenderem de ti, darei todas estas te rra s, e confirm arei o ju ram en ­ to que fiz a A braão teu p a i; 4 e m ultiplicarei a tu a descendência como as estrelas do céu, e lhe d arei todas estas te rra s ; e por m eio dela serão benditas todas as nações d a te r­ ra ; 5 porquanto A braão obedeceu à m inha voz, e guardou os m eus estatutos e a s m i­ nhas leis. Quando veio a fome, Isaque parecia estar se dirigindo ao Egito, como o fizera seu pai Abraão. Quando ele havia che­ gado a Gerar, foi impedido pelo próprio Deus de ir adiante. Este foi o seu teste inicial de fé, não a aventura de seguir a Deus para uma terra que não conhecia, mas a capacidade de persistência para ficar naquela terra quando tudo estava difícil. Esta foi uma prova mais difícil do que a enfrentada inicialmente por Abraão, pois nada era mais difícil do que permanecer em um lugar, para morrer de fome, quando havia cereal no Egito. Isaque enfrentou o teste sem murmura­ ção, e, como conseqüência, tomou-se mais próspero do que Abraão jamais fora (v. 12-16). A promessa a ele feita é essencialmente a mesma que a em 12:1 e ss. foi feita a Abraão, se ele deixasse a sua terra natal. Essa mesma promessa seria de Isaque, se ele permanecesse em sua terra! A sua tarefa não era tanto ser pioneiro, quanto consolidar posições Kidner). 2) Abimeleque e Rebeca (26:6-11) 6 Assim habitou Isaque em G erar. 7 E ntão os hom ens do lu g ar perguntaram -lhe acerca de sua m ulher, e ele respondeu: É m inha irm ã; porque tem ia dizer: É m inha m ulher; p ara que porventura, dizia ele, não m e m a ­ tassem os hom ens daquele lugar por am or de R eb eca; porque e ra ela form osa à vista. 8 O ra, depois que ele se d em o rara ali m uito tem po, A bim eleque, rei dos filisteus, olhou por um a jan ela, e viu, e eis que Isaque estav a brincando com R ebeca, sua m ulher. 9 E ntão cham ou A bim eleque a Isaque, e disse: E is que n a verdade é tu a m ulher; como, pois, disseste: É m inha irm ã? R es­ pondeu-lhe Isaque: Porque eu dizia: P a ra que eu porventura não m o rra por su a causa. 10 Replicou A bim eleque: Que é isso que nos fizeste? F acilm ente se te ria deitado alguém deste povo com tu a m ulher, e tu terias tra z i­ do culpa sobre nós. 11 E A bim eleque orde­ 266
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    nou a todoo povo, dizendo: Q ualquer que tocar neste hom em ou em sua m ulher, c e r­ tam ente m o rrerá. Esta passagem é paralela a 12:10-20 (fonte Judia) e 20:1-18 (Israelita do Nor­ te), que também falam de um patriarca pondo em risco a sua esposa. Não há pro­ blema essencial quando examinamos o capítulo 12, pois é bem possível que Isa- que tentasse repetir a manobra aparente­ mente bem-sucedida de seu pai, no Egi­ to. O fato de que ambas as narrativas es­ tão entre os materiais da fonte Judia reforça esta opinião. É o capítulo 20 que apresenta a dificul­ dade. Ali também o rei se chamava Abi- meleque, mas agora pelo menos setenta e cinco anos se haviam passado desde o engano de Abraão. Se ele ainda estivesse vivo, não conheceria os relacionamentos de família de Abraão ou não teria suspei­ tado do artifício de seu filho? Talvez a sua própria suspeita o levara a espionar Isaque e Rebeca. O fato de o seu coman­ dante militar também se chamar Ficol (v. 26) indica, aparentemente, que o mesmo Abimeleque está sendo mencio­ nado. Contudo, tanto nomes reais como militares podiam ser mantidos pela gera­ ção seguinte (Kidner). A principal diferença entre esta histó­ ria e a outra é que Rebeca não foi toma­ da de Isaque. A sua mentira foi descober­ ta de antemão. Isto pode ser devido ao desenvolvimento de grupos tradicionais separados ou indicar um acontecimento diferente, em que o Abimeleque original (que podia ser bem jovem quando Abraão o encontrou pela primeira vez) ou seu filho se defrontaram com a fraude de um patriarca hebreu. Olhou por uma janela e viu, e eis que Isaque estava brincando com Rebeca. A casa do rei era geralmente mais alta do que as outras, e permitia-lhe ter uma vista de toda a área. A palavra traduzida como “brincando” é outro jogo de pala­ vras com o nome de Isaque. A raiz verbal básica significa rir, gracejar ou brincar. Este mesmo verbo foi usado pela esposa de Potifar, em seu relatório vingativo a respeito de José: “Vede! meu marido trouxe-nos um hebreu para nos insultar” (39:14), que Speiser, nesta passagem, traduz, forçando um pouco o sentido: “fazer amor.” A preposição usada com o verbo, nesta passagem, “brincando com”, não é usada em nenhuma outra passagem com este verbo. Seria um erro presumir que o verbo está descrevendo relações sexuais íntimas (cf. Êx. 32:6, onde o mesmo verbo é usado). Um meio- termo é a tradução da SBB em sua Versão Atualizada: “Isaque acariciava a Rebeca.” 3) A Inveja dos Filisteus (26:12-16) 12 Isaque sem eou naquela te rra , e no m es­ m o ano colheu o cêntuplo; e o Senhor o abençoou. 13 E engrandeceu-se o hom em ; e foi-se enriquecendo até que se tom ou m ui poderoso; 14 e tinha possessões de rebanhos e de gado, e m uita gente de serviço; de modo que os filisteus o invejavam . 15 O ra, todos os poços que os servos de seu pai tinham cavado nos dias de seu pai A braão, os filisteus entu lharam e encheram a te rra . 16 E A bim eleque disse a Isaque: A parta-te de n ó s; porque m uito m ais poderoso te tens feito do que nós. Agora Isaque começara a colher os frutos de sua permanência na Palestina durante a fome. Esta é a primeira men­ ção de colheita dentre os patriarcas. Com a semeadura de sua semente, Isaque marcou uma nova era no estabelecimento dos hebreus em Canaã. A colheita de cem vezes mais não era inusitada em anos bons (von Rad). De modo que os filisteus o invejavam. No caso de Jó (Jó 1:3), a sua grande riqueza lhe causava respeito; na situação de Isaque, ela suscitou inveja. Ambas as reações são comuns. Aparta-te de nós. Abimeleque havia desejado que Abraão permanecesse, na esperança de que a sua proximidade causasse bênçãos sobre os seus vizinhos (20:15; 21:22 e ss.). Agora os filisteus 267
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    haviam tido temposuficiente para perce­ ber que a bênção enviada sobre os he­ breus podia ser exclusivamente deles pró­ prios. Quanto mais se multiplicavam os seus rebanhos e manadas, menos espaço havia para os seus vizinhos. Essa inveja, mais tarde, levou os egípcios a escravizar os hebreus (Êx. 1:8 e ss.). Da mesma forma como Abraão havia feito com Jó, Abimeleque sugeriu que eles se separas­ sem. Aparentemente, a sugestão foi re­ forçada por alguma ação persuasiva, pois os filisteus entulharam os poços usados por Isaque, o que de fato foi um indício importante de que os hebreus já não eram mais bem-vindos. Talvez o fato de ter sido enganado pelo pai e pelo filho também determinara parte dos senti­ mentos de Abimeleque contra os he­ breus. 4) Conflitos a Respeito de Poços (26:17-22) 17 E ntão Isaque p artiu dali e, acam pando no vale de G erar, lá habitou. 18 E Isaque tornou a cav ar os poços que se haviam c a ­ vado nos dias de A braão seu pai, pois os filisteus os haviam entulhado depois da m orte de A braão ; e deu-lhes os nom es que seu pai lhes d era. 19 C avaram , pois, os servos de Isaque naquele vale, e ach aram ali um poço de águas vivas. 20 E os pastores de G erar contenderam com os pastores de Isaque, dizendo: E sta ág u a é nossa. E ele cham ou ao poço E seque, porque contende­ ra m com ele. 21 E ntão cav aram outro poço, pelo qual tam bém contenderam ; por isso cham ou-lhe Sitna. 22 E p artiu dali, e cavou ainda outro poço; por este não contende­ ra m ; pelo que cham ou-lhe Reobote, dizen­ do: P ois ag o ra o Senhor nos deu largueza, e havem os de crescer n a te rra . A atividade de Isaque, como perfura­ dor de poços, teve lugar em três fases: (1) Ele cavou de novo os poços que seu pai havia aberto. (2) Ele abandonou os poços novos quando os filisteus disputa­ ram com ele. (3) Ele abriu, novos poços que ninguém contestou, e permaneceu ali. Esta passagem dá uma visão impor­ tante do caráter de Isaque. O fato de ele dar aos poços os mesmos nomes que seu pai lhes dera, ao cavá-los (v. 18), mos­ trou o seu respeito pelo passado. O fato de ele evitar as áreas contestadas revelou a sua natureza pacífica, uma virtude po­ sitiva, como Jesus ensinou, pois ele “ofe­ receu a outra face” . O fato de ele con­ tinuar a procurar e encontrar novos su­ primentos de água fala de sua paciência e perseverança. E o fato de ele se estabele­ cer agradecidamente onde não foi desa­ fiado, retrata a sua capacidade de con­ tentar-se. De fato, Isaque tinha uma série de virtudes que os homens respei­ tam nos outros, mas geralmente não desejam para si próprios. 5) Teofania em Beer-Seba (26:23-25) 23 Depois subiu dali a Beer-Seba, 24 E a p a ­ receu-lhe o Senhor n a m esm a noite e d isse: E u sou o D eus de A braão, teu p a i; não te ­ m as, porque eu sou contigo; e te abençoarei e m ultiplicarei a tu a descendência por am or do m eu servo A braão. 2S Isaque, pois, edifi­ cou ali um a lta r e invocou o nom e do Se­ nhor; então arm o u ali a su a tenda, e os seus servos cav aram um poço. Deus apareceu a Isaque como o Deus de seu pai, não como um deus da nature­ za ou um deus associado com um santuá­ rio em particular. Ele era um Deus que ia com a família em todas as suas jornadas, e que renovava o seu pacto com ela em cada nova geração. O pacto não era mais condicional, como nos versículos 1-5, porque Isaque havia-se tornado plena­ mente aceitável, como sucessor de seu pai, pois o pacto da promessa feita a Abraão foi repetido para com ele (v. 24). Agora, pela primeira vez, ele edificou o seu próprio altar no lugar em que Abraão havia apenas plantado uma tamargueira (21:33). Embora fosse o Deus de seu pai que Isaque adorou, ele não era o Deus do próprio Isaque. Desde então a tenda de Isaque ficaria perto do altar. Ele jamais se contentaria com sucesso secular. 6) Tratado com Abimeleque (26:26-33) 26 E ntão A bim eleque veio a ele de G erar, com Attzate, seu am igo, e Ficol, o chefe do 268
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    seu exército. 27E perguntou-lhes Isaque: P o r que viestes te r com igo, visto que m e odiais, e m e repelistes de vós? 28 Responde­ ra m eles: Tem os visto claram ente que o Senhor é contigo, pelo que dissem os: H aja agora ju ram ento entre nós, entre nós e ti; e façam os um pacto contigo, 29 que não nos farás m al, assim como nós não te havem os tocado, e te fizem os som ente o bem , e te dei­ xam os ir em paz. A gora tu és o bendito do Senhor. 30 E ntão Isaque lhes deu um b an ­ quete, e com eram e b eberam . 31 E levanta - ram -se de m anhã cedo e ju ra ra m de p arte a p a rte ; depois Isaque os despediu, e eles se despediram dele em paz. 32 N esse m esm o dia vieram os servos de Isaque e deram -lhe notícias a c e rc a do poço que haviam cavado, dizendo-lhe: Tem os achado água. 33 E ele cham ou o poço S eba; por isso é o nom e da cidade B eer-Seba até o d ia de hoje. Este episódio é semelhante ao registra­ do em 21:22-24. Só o nome de Aüzate, vizir ou conselheiro do rei (cf. II Sam. 15:37; 16:16; I Reis 4:5), é novo. Visto que pelo menos setenta e cinco anos se haviam passado desde os acontecimentos do capítulo 21 (aparentemente, Isaque não era então nascido, e agora Abraão estava morto, depois de ter vivido cento e setenta e cinco anos), não é provável que este fosse o mesmo Abimeleque, e certa­ mente não tinha ele o mesmo conselheiro militar! É possível que tanto Abimeleque quanto Ficol fossem títulos, e não nomes pessoais (cf. os comentários sobre 26:6- 11). O pacto entre os dois homens foi feito segundo um padrão estabelecido durante este período. A verdadeira diferença en­ tre este tratado e o feito com Abraão está na condição relativa das duas partes. Abraão deu presentes a Abimeleque, como figura superior. Aqui, Abimeleque comeu da mesa de Isaque, como hóspe­ de e suplicante. O homem manso havia herdado mais da terra do que o seu pai Abraão. A associação do nome de Beer-Seba com este pacto, e não com o pacto feito por Abraão, sugere que Isaque pode ter sido a pessoa que pela primeira vez deu nome ao poço em questão. No entanto, bem pode ser que Abraão também o tenha feito, e o tratado de Isaque com Abimeleque propiciara o meio de se pre­ servar o nome, que, de outra forma, seria esquecido, de um poço que havia sido entulhado. 7) Tristeza por Causa das Esposas de Esaú (26:34-35) 34 O ra, quando E saú tinha quaren ta anos, tom ou por m ulher a Judite, filha de B eeri, o heteu, e a B asem ate, filha de E lom , o heteu. 35 E estas foram p a ra Isaque e R ebeca um a a m arg u ra de espírito. Este extrato da fonte Sacerdotal intro­ duz a narrativa de Esaú e Jacó, que deve seguir-se, e prepara o leitor para a rejei­ ção de Esaú, como herdeiro seguinte da promessa. Ele havia rejeitado a Deus antes de ser rejeitado por ele. Isaque e Rebeca ficaram entristecidos com os seus casamentos; eles revelaram a falta de preocupação de Esaú pela responsabili­ dade de levar avante as suas tradições familiares e religiosas. Embora Jacó fosse egoísta, ele não era indiferente. 4. A Usurpação de uma Bênção (27:1-45) Pensava-se, antigamente, que este ca­ pítulo continha uma combinação de ma­ teriais das fontes Judia e Israelita do Norte, mas o que os intérpretes antiga­ mente consideravam como evidência de autoria dupla, os comentaristas atuais consideram como redundância caracte­ rística da literatura do Oriente Próximo e esta seção geralmente como sendo da fonte Judia. Embora Jacó e Rebeca revelassem, nos capítulos 24 e 25, muita coisa a respeito de Isaque e Esaú, aprendemos ainda mais deste capítulo. Aqui, a simpatia do leitor é focalizada em Isaque e Esaú, vítimas da astuta manobra de Rebeca e Jacó. Somos comovidos especialmente pela inofensividade patética de Isaque (v. 33) e pelo selvagem grito de angústia de Esaú (v. 34). Embora o autor das 269
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    narrativas não julgueabertamente ne­ nhum dos personagens, cada um deles, de certa forma, era digno de culpa, e cada pecado obteve a sua devida colheita ou recompensa. Isaque e Rebeca morre­ ram entristecidos, Esaú perdeu a sua bênção e Jacó foi exilado. É óbvio que 27:1-45 foi colocado entre as duas referências a Esaú em 26:34,35 e 27:46, ambas provenientes da fonte Sa­ cerdotal. Embora esse escritor não fale pessoalmente da duplicidade de Jacó, e fale de ele ir para Harã como missão para conseguir uma esposa, o fato de que os editores finais incluíram o material da fonte Judia enfatiza a sua disposição de deixar o leitor saber outras facetas do caráter de Jacó. Desta forma, as fontes Judia e Sacerdotal foram consideradas não como contraditórias, mas como su­ plementares. 1) Conspiração e Contraconspiração (27:1-17) 1 Quando Isaque já estav a velho, e se lhe enfraqueciam os olhos, de m an eira que não podia ver, cham ou a E saú , seu filho m ais velho, e disse-lhe: M eu filho I E le lhe respon­ deu: Eis-m e aqui! 2 Disse-lhe o p a i: E is que agora estou velho, e não sei o dia da m inha m o rte; 3 tom a, pois, as tu as arm as, a tu a aljav a e o teu arco ; e sai ao cam po, e apanha p a ra m im algum a caça; 4 e faze-m e um guisado saboroso, com o eu gosto, e tr a ­ ze-mo, p a ra que eu com a; a fim de que a m inha alm a te abençoe, antes que m o rra. 5 O ra, R ebeca estav a escutando quando Is a ­ que falou a E saú, seu filho. Saiu, pois, E saú ao cam po p a ra ap an h ar caça e trazê-la. 6 D isse então R ebeca a Jacó, seu filho: E is que ouvi teu pai falar com E saú, teu irm ão, dizendo: 7 T raze-m e caça, e faze-m e um guisado saboroso, p a ra que eu com a, e te abençoe diante do Senhor, antes d a m inha m orte. 8 A gora, pois, filho m eu, ouve a rainha voz naquilo que eu te ordeno: 9 Vai ao rebanho, e traze-m e de lá das cab ras dois bons cab rito s; e eu farei um guisado saboro­ so p a ra teu pai, com o ele g o sta; 10 e levá-lo- à s a teu p ai, p a ra que o com a, a fim de te abençoar an tes d a sua m orte. 11 R espondeu, porém , Jacó a R ebeca, su a m ãe: E is que E saú, m eu irm ão, é peludo, e eu sou liso. 12 P orventura m eu pai m e ap alp a rá e serei a seus olhos com o enganador; assim tra re i sobre m im u m a m aldição, e não u m a bên­ ção. 13 Respondeu-lhe sua m ã e : M eu filho, sobre m im caia essa m aldição; som ente obedece à m inha voz, e vai trazer-m os. 14 E ntão ele foi, tomou-os e os trouxe a sua m ãe, que fez u m guisado saboroso, com o seu pai gostava. 15 Depois R ebeca tom ou as m elhores vestes de E saú , seu filho m ais velho, que tinha consigo em casa, e vestiu a Jacó, seu filho m ais m oço; 16 com as peles dos cabritos cobriu-lhe a s m ãos e a lisura do pescoço; 17 e pôs o guisado saboroso e o pão que tinha preparado, n a m ão de Jacó, seu filho. Não sei o dia da minha morte dificil­ mente expressa realmente o que Isaque desejava dizer, pois ninguém sabe esse dia. A expressão idiomática significa: “Não sei quanto vou viver ainda.” Aprendemos, em 35:28, que Isaque mor­ reu com cento e oitenta anos. Se a sua morte estava tão perto quanto ele supu­ nha, os seus filhos já eram homens velhos, nessa ocasião. Tendo nascido quando ele tinha sessenta anos (25:25 e s.), eles teriam então cem anos de idade! Se a idade de Esaú é um indício da época desses eventos (40, em 26:34), Isaque tinha cem anos na época. Em uma idade quando Abraão havia visto o nascimento de seu herdeiro, Isaque estava perdendo o dele! Ou a cronologia Sacerdotal estava errada, ou Isaque estava preocupado prematuramente — ocorrência mais pro­ vável. Não é incomum pessoas de dispo­ sição débil, como a de Isaque, viverem longas vidas depois de se tornarem inca­ pacitadas. Faze-me um guisado saboroso. Spei- ser considera a versão da RSV inglesa (“prepara-me comida saborosa”) como “uma tradução pobre do inglês” . Ele a parafraseia, apresentando-a como “um prato festivo” . Devia ser um petisco es­ pecialmente delicioso, pois foi usado o plural para enfatizar a qualidade da co­ mida. É um mistério por que Isaque precisava comer esse prato antes de abençoar Esaú. Algumas pessoas suge­ rem que era uma refeição sacrificial, 270
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    invocando a divindade(Gunkel). Von Rad vê nela implicações mágicas (o he­ braico incomum, literalmente, “que a minha alma possa te abençoar”, que também ocorre nos versos 19,25 e 31, dando a entender que ele daria a força de sua alma a Esaú). É bem possível que Isaque estivesse pensando que, tendo si­ lenciado a sua consciência, ele estaria mais disposto para abençoar o seu filho depois de comer o seu prato favorito. Rebeca certamente lhe havia falado a respeito do oráculo de 25:23, que havia predito que Jacó iria ser o herdeiro da promessa. Te abençoe diante do Senhor. De acor­ do com o versículo 4, Isaque não mencio­ nou o nome de Deus. Rebeca é que deu às suas palavras essa interpretação, pois sabia que essa bênção seria compulsória. A crença antiga de que as bênçãos e maldições dos pais eram compulsórias sobre os filhos está mais perto da verdade do que a nossa crença de que as palavras descuidadas têm pequeno efeito. É quase tão impossível chamar de volta uma pa­ lavra dita ao filho como recobrar uma alma de entre os mortos. De fato, Rebeca revelou-se mulher de notável astúcia, que entendia bem o seu marido. Embora Isaque amasse a caça de Esaú, Rebeca sabia bem que, na verda­ de, ele não conhecia a diferença entre carne de cabra e de veado! O fato de ele gostar da caça de Esaú residia na idéia que fazia dela, e não no sabor. Isaque admirava a selvageria de seu filho, mas tinha pouco dela em si mesmo. Serei a seus olhos como enganador. Jacó estava relutando em praticar aquele engano, não porque aquilo era contrário à sua consciência, mas porque tinha medo de ser pego. Rebeca havia cuidado de todos os detalhes. Ela bem sabia como Isaque era bisonho! Como é que Esaú podia falar com a voz de Jacó (v. 22)? Por que Isaque não tentou arrancar pêlos das mãos de Jacó? Tal simplicidade de alma não era realmente um defeito, mas uma virtude. Isaque era tão incapaz de tal duplicidade, que não a esperava dos outros. O único problema a respeito de um homem assim é que ele se toma alvo natural de todos os manipuladores. Sobre mim caia essa maldição. Nunca um juramento se cumpriu mais dolorosa­ mente. Ela haveria de perder a compa­ nhia de seu filho por pelo menos vinte anos, provavelmente enquanto ela viveu. Embora seja possível que ela ainda esti­ vesse viva quando Jacó finalmente retor­ nou (cf. 35:8,27-29), a Escritura silencia a respeito dela. O seu pior destino foi ser deixada sozinha com um marido cego e frustrado, a quem ela havia traído. 2) A Benção de Jacó (27:18-29) 18 E veio Jacó a seu pai, e cham ou: M eu pai! E ele disse: Eis-m e aqui; quem és tu, m eu filho? 19 R espondeu Jacó a seu p a i: E u sou E saú, teu prim ogênito; tenho feito como m e disseste; levanta-te, pois, senta-te e com e da m inha caça, p a ra que a tu a alm a m e abençoe. 20 Perguntou Isaque a seu fi­ lho: Como é que tão depressa a achaste, filho m eu? R espondeu e le : Porque o Senhor, teu D eus, a m andou ao m eu encontro. 21 E ntão disse Isaque a Ja c ó : Chega-te, pois, p a ra que eu te apalpe e v eja se és m eu filho E saú m esm o, ou não. 22 Chegou-se Jacó a Isaque, seu pai, que o apalpou, e d isse: A voz é a voz de Jacó, porém a s m ãos são a s m ãos de E saú. 23 E não o reconheceu, porquanto a s su as m ãos estav am peludas, como as de E saú seu irm ão; e abençoou-o. 24 No entanto, p erguntou: Tu és m esm o m eu filho E saúí^E ele declaro u : E u o sou. 25 Dis- se-lhe então seu p a i: Traze-m o, e com erei da caça de m eu filho, p a ra que a m inha alm a te abençoe. E Jacó lho trouxe, e ele com eu; trouxe-lhe tam bém vinho, e ele b e­ beu. 26 D isse-lhe m ais Isaque, seu p ai: A proxim a-te agora, e beija-m e, m eu filho. 27 E ele se aproxim ou e o beijou; e seu pai, sentindo o cheiro das vestes, o abençoou, e disse: E is que o cheiro de m eu filho é como o cheiro de um cam po que o Senhor abençoou. 28 Que D eus te dê do orvalho do céu, e dos lugares férteis da terra, e abundância de trigo e de m osto; 29 sirvam -te povos, e nações se encurvem a ti; sê senhor de teus irm ãos, e os filhos d a tu a m ãe se encurvem a t i ; 271
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    sejam m alditosos que te am aldiçoarem , e benditos sejam os que te abençoarem . O Senhor teu Deus a mandou ao meu ei contro foi a mais ousada das menti­ ras de Jacó, chegando às raias da blasfê­ mia. No entanto, em certo sentido, ele estava certo. Por alguma razão desconhe­ cida, Deus estava permitindo que ele conseguisse o seu intento com a sua duplicidade. “A história trata de um ato de Deus, que usa soberanamente o ato humano mais ambíguo e o incorpora nos seus planos” (von Rad, p. 275). E abençoou-o (v. 23). Não é provável que Isaque tenha abençoado Jacó antes de comer. É melhor traduzir com Spei- ser: “quando estava para abençoá-lo”, construção que o passado imperfeito no hebraico permite, sem dúvida. Aproxima-te agora, e beya-me foi a última tentativa de Isaque de aquietar as suas suspeitas, e foi o maior momento de ansiedade de Jacó, pois os orientais mui­ tas vezes têm um agudo senso de olfato. A bênção de Isaque foi uma reafirmação da que lhe havia sido dada, mas com uma ênfase adicional em fertilidade agrí­ cola e superioridade nacional. Isto, pro­ vavelmente, devia-se à situação em que viviam, que era mais de residência fixa, e por isso constantemente ameaçada pe­ los seus vizinhos. Abraão podia levantar acampamento e mudar-se em um mo­ mento. Isaque, depois da mobilidade ini­ cial, havia criado raízes. 3) A Bênção de Esaú (27:30-40) 30 Tão logo Isaque aca b a ra de abençoar a Jacó, e este sa íra da presença de seu pai, chegou da caça E saú , seu Irm ão; 31 e fez tam bém ele um guisado saboroso e, trazen- do-o a seu pai, disse-lhe: L evanta-te, m eu pai, e com e da caça de teu filho, p a ra que a tu a alm a m e abençoe. 32 Perguntou-lhe Is a ­ que, seu p ai: Quem és tu ? R espondeu ele: E u sou teu filho, o teu prim ogênito, E saú. 33 E ntão estrem eceu Isaque.de um estre ­ m ecim ento m uito g rande; e disse: Quem, pois, é aquele que apanhou caça e m a tro u ­ xe? E u com i de tudo, antes que tu viesses, e abençoei-o, e ele se rá bendito. 34 E saú ao ouvir a s p alav ras de seu pai, bradou com grande e m ui am argo brado, e disse a seu p ai: Abençoa-m e tam bém a m im , m eu pai! 35 R espondeu Isaque: Veio teu irm ão e com sutileza tom ou a tu a bênção. 36 D isse E saú : Não se cham a ele com razão Jacó, visto que já por duas vezes m e enganou? tirou-m e o direito de prim ogenitura, e eis que ag o ra m e tirou a bênção. E perguntou: Não re se rv a s­ te um a bênção p a ra m im ? 37 Respondeu Isaque a E saú : E is que o tenho posto por senhor sobre ti e todos os seus irm ãos lhe tenho dado por serv o s; e de trigo e de m osto o tenho fortalecido. Que, pois, poderei eu fazer por ti, m eu filho? 38 Disse E saú a seu p ai: P orventura tens u m a única bênção, m eu pai? Abençoa-m e tam bém a m im , m eu pai. E levantou E saú a voz, e chorou. 39 R es­ pondeu-lhe Isaque, seu p ai: Longe dos lu g a­ res férteis da te rra se rá a tu a habitação, longe do orvalho do alto céu; 40 pela tu a e s­ pada viverás, e a teu irm ão se rv irá s; m as quando te to rn ares im paciente, então s a ­ cudirás o seu jugo do teu pescoço. Então estremeceu Isaque de um es­ tremecimento muito grande; isto foi uma notável exibição de emoção. Usualmen­ te, ele conservava os seus sentimentos bem escondidos, pois era um homem inteiramente disciplinado. Em resposta à descoberta de que havia sido enganado, ele exibiu uma força de caráter marcan­ te. A árvore foi sacudida, mas não caiu. Ele sabia que a vontade de Deus fora feita. Tendo tentado seguir o seu próprio caminho, uma vez na vida, ele agora se resignava em ser mais uma vez o sacrifí­ cio que não se queixava. Bradou com grande e mui amargo brado. Isto e os soluços do versículo 38 são quase como o grito de alguma “cria­ tura pega numa armadilha” (Skinner, citando Davidson). Jacó... me enganou. Este é um jogo de palavras com o nome de Jacó. As palavras hebraicas traduzi­ das como direito de primogenitura e bên­ ção são muito semelhantes: bekorati, bir- kati. E levantou Esaú a voz, e chorou. Antes desta declaração, a LXX introduz a frase “E Isaque ficou silencioso”, o que explica o novo irrompimento de Esaú. Sacudirás o seu jugo. Embora Isaque não pudesse dar a bênção a Esaú, podia tomá-lo livre de Jacó (Israel). Esse isola­ 272
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    mento mais tardelevou ao desapareci­ mento de Edom das páginas da História. 4) O Ódio de Esaú Contra Jacó (27:41-45) 41 E saú, pois, odiava a Jacó por causa da bênção com que seu pai o tinha abençoado, e disse consigo: V êm chegando os dias de luto por m eu p ai; então hei de m a ta r Jacó, m eu irm ão. 42 O ra, foram denunciadas a R ebeca estas p alav ras de E saú, seu filho m ais v e­ lho ; pelo que ela m andou ch am ar Jacó, seu filho m ais m oço, e lhe disse: E is que E saú teu irm ão se consola a teu respeito, propon­ do m atar-te. 43 A gora, pois, m eu filho, ouve a m inha voz; levanta-te, refugia-te na casa de L abão, m eu irm ão, em H arã, 44 e dem o­ ra-te com ele alguns dias, até que passe o furor de teu irm ã o ; 45 até que se desvie de ti a ira de teu irm ão, e ele se esqueça do que lhe fizeste; então m andarei trazer-te de lá ; por que seria eu desfilhada de vós am bos num só dia? A palavra empregada para designar o ódio de Esaú foi usada, mais tarde, pelos filhos de Jacó, quando eles teme­ ram que José os odiasse por terem-no traído como o seu pai havia traído Esaú (50:15 e ss.). Eles também ficaram com medo, depois da morte de seu pai, que José se voltasse contra eles. Mas ele era uma pessoa diferente. A sua fé em Deus conservava em equilíbrio a sua perspec­ tiva da vida. Tanto quanto o sabemos, Esaú tinha pouca inclinação para as coi­ sas espirituais. Ele se esqueça do que lhe fizeste. Rebeca achava que Esaú era incapaz de se concentrar em qualquer assunto por muito tempo. Pode ser que ela estivese correta, mas subestimava a memória de Deus. Desfilhada de vós ambos. Ela podia não estar referindo-se à lei de vingança familiar, pois não havia ninguém para executá-la. Devia estar temendo que eles dois se matassem, pois seria um entreve- ro imprevisível. Embora Esaú fosse um caçador, Jacó foi capaz de lutar com um anjo, empatando! Rebeca percebeu que ela precisava arriscar perder o seu filho, para salvá-lo. 5. A Benção de Isaque Como Despedida (27:46-28:5) 46 E disse R ebeca a Isaque: E nfadada estou da m inha vida, por causa das filhas de H ete; se Jacó to m ar m ulher dentre as filhas de H ete, tais com o estas, dentre a s filhas desta te rra , p a ra que viverei? 1 Isaque, pois, cham ou Jacó, e o abençoou, e ordenou-lhe, dizendo: N ão tom es m ulher dentre as filhas de C anaã. 2 L evanta-te, vai a Padã-A rã, à ca sa de B etuel, p ai de tu a m ãe, e tom a de lá um a m ulher dentre as filhas de L abão, irm ão de tu a m ãe. 3 Deus Todo-Poderoso te abençoe, te faça frutificar e te m ultiplique, p a ra que venhas a ser um a m ultidão de povos; 4 e te dê a bênção de A braão, a ti e ã tu a descendência contigo, p a ra que herdes a te rra de tu as p ereg rin a­ ções, que Deus deu a A braão. 5 A ssim despe­ diu Isaque a Jacó , o qual foi a Padã-A rã, a L abão, filho de Betuel, aram eu , irm ão de R ebeca, m ãe de Jacó e de E saú. Agora retornamos à fonte Sacerdotal. Alguns expositores acham que o narra­ dor deste relato não tinha conhecimento dos acontecimentos de 27:1-45. A aten­ ção é chamada para o fato de que Isaque, em aparente contradição com a passa­ gem precedente, revela os seus sentimen­ tos duros em relação a Jacó. É bem pro­ vável, contudo, que Isaque era a espécie de homem que podia perdoar e não guardar ressentimento contra o seu filho. A sua atitude para com Rebeca pode ter sido outro assunto, pois certamente ele ficou sabendo de quem era a mão que preparara tudo. Para que venhas a ser uma multidão de povos. A palavra qahal (multidão) é a costumeiramente usada no Velho Tes­ tamento para designar assembléia, con­ gregação. Ela é usada aqui pela primeira vez. Mais tarde ela se tornará a palavra de onde se origina “igreja” . Aqui, a ênfase é dada à “coerência tanto quanto à multiplicidade” (Kidner, p. 158). Da mesma forma como Abraão fora o pai dos fiéis, dos crentes diante de Deus, individualmente, Jacó se tornaria o pai de Israel, o povo de Deus, a congregação reunida. É bem possível que esta passa- 273
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    gem antecipe “acomunidade de nações universal, escatológica e temente a Deus” (von Rad, p. 277). 6. O Casamento Tardio de Esaú (28:6-9) 6 O ra, viu E saú que Isaque abençoara Jacó e o enviara a P adã-A rã, p a ra to m ar de 1Âm ulher p a ra si, e que, abençoando-o, lhe ordenara, dizendo: N ão tom es m ulher den­ tre as filhas de C anaã, 7 e que Jacó, obede­ cendo a seu pai e a sua m ãe, fora a Padã- A rã; 8 vendo tam bém E saú que a s filhas de C anaã e ra m m ás aos olhos de Isaque seu pai, 9 foi-se E saú a Ism ael e, além das m ulheres que já tinha, tom ou por m ulher a M aalate, filha de Ism ael, filho de A braão, irm ã de Nebaiote. A fonte Sacerdotal, continuada aqui, estava mais interessada nos problemas de casamentos estrangeiros do que as narra­ tivas anteriores, escritas em uma época cm que o problema não era tão impor­ tante. Com o retomo de Israel do exílio babilónico, a sobrevivência da fé estava sendo ameaçada por tais alianças. Era assunto de grande preocupação para Es- dras, Neemias e Malaquias. Ê estranho que Esaú não tivesse per­ cebido como os seus casamentos anterio­ res haviam desagradado aos seus pais. Isso revela, em primeiro lugar, que ele não tinha percepção e também que a sua mãe e seu pai não se haviam aberto com ele a respeito desse assunto. A sua ten­ tativa de pacificá-los, casando-se com uma ismaelita, é típica das tentativas ineptas do homem secular de aparentar religiosidade. IV. As Narrativas Sobre Jacó (28:10-35:29) Exceto pelo capítulo 36, que contém listas genealógicas da tribo de Esaú, esta seção é caracterizada por uma interliga­ ção bem tramada das fontes Judia e Israelita do Norte, com uma notação ou outra do relato Sacerdotal. Em grande parte do material, é muito difícil distin­ guir as duas fontes populares uma da outra. Contudo, há indicações de que elas estão presentes. 1. Jacó em Betei (28:10-22) 10 P artiu , pois, Jacó de B eer-Seba e se foi em direção a H arã; 11 e chegou a um lugar onde passou a noite, porque o sol já se havia posto; e, tom ando u m a d as p ed ras do lu gar e pondo-a debaixo da cabeça, deitou-se ali p ara dorm ir. 12 E ntão sonhou: estav a posta sobre a te rra u m a escada, cujo topo chega­ v a ao céu ; e eis que os anjos de D eus subiam e desciam por e la ; 13 por cim a dela estav a o Senhor, que d isse: E u sou o Senhor, o Deus de A brão teu pai, o D eus de Isaque; esta te rra em que estás deitado, eu a d arei a ti e à tu a descendência; 14 e a tu a descendência será como o pó da te r r a ; d ila ta r-te-ás p a ra o ocidente, p a ra o oriente, p a ra o norte e p a ra o sul; por m eio de ti e da tu a descendência serão benditas todas as fam ílias da te rra . 15 E is que estou contigo, e te g uardarei por onde quer que fores, e te farei to rn ar a esta te rra ; pois não te deixarei até que h aja cum prido aquilo de que te tenho falado. 16Ao aco rd ar Jacó do seu sono, disse: R eal­ m ente o Senhor está neste lu g ar; e eu não o sabia. 17 E tem eu, e disse: Quão terrív el é este lugar! E ste não é outro lugar senão a casa de D eus; e esta é a porta dos céus. 18 Jacó levantou-se de m anhã cedo, tom ou a p edra que p u sera debaixo da cabeça, e a pôs como coluna; e derram ou-lhe azeite em cim a. 19E cham ou aquele lugar B etei; porém o nom e da cidade antes e ra Luz. 20 Fez tam bém Jacó um voto, dizendo: Se D eus for comigo e m e gu ard ar neste cam inho que vou seguindo, e m e d er pão p a ra com er e vestes p a ra vestir, 21 de modo que eu volte em paz à casa de m eu pal, e se o Senhor for o m eu D eus, 22 então esta p ed ra que tenho posto como coluna se rá casa de D eus; e de tudo quanto m e deres, certam ente, te d arei o dizimo. Reconhece-se, geralmente, que a fonte Israelita do Norte se encontra nos versí­ culos 10-12, 17-18, 20-22, e a narrativa da fonte Judia nos versículos 13-16,19. Esta análise é baseada sobre (1) a alter­ nação de “Deus” e “o Senhor” nos ver­ sículos consecutivos (12 e 13; 16 e 17); (2) a referência a um sonho (v. 12) — característica da fonte Israelita do Norte — que apresenta anjos e a escada, en­ quanto a passagem que usa “o Senhor” fala de uma teofania (v. 13); (3) a redun­ 274
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    dância das exclamaçõesnos versículos 16e 17. Todavia, estes argumentos dificilmen­ te são base confiável para uma recons­ trução. Indicam a presença provável de ambos os relatos, mas os detalhes de aná­ lise parecem sct um tanto aibitiários. Só a variação de nomes da divindade não é evidência suficiente para distinguir as narrativas; as referências a sonhos são comuns em toda espécie de literatura; a literatura do Oriente Próximo antigo é redundante por natureza. A despeito da história literária do ma­ terial, esta passagem é um relato unifi­ cado do que aconteceu com Jacó em Betei. Seja o quadro ou não uma com­ posição de dois relatos, ele retrata vivi- damente um único evento. E chegou a um lugar. O hebraico diz “ao lugar”. Embora esta expressão possa simplesmente estar descrevendo um lo­ cal, ela freqüentemente refere-se a um santuário. Aqui, o artigo designa-o como um lugar particularmente sagrado. Al­ guns expositores acham que Jacó parou no local de um santuário cananeu (von Rad). Isto é baseado no fato de que, de acordo com descobertas arqueológicas, Betei já existiu em 2000-1600 a.C. Al­ guns eruditos consideram o nome de Betei como o de um deus, bem como de uma cidade (Am. 5:4 e ss.; ler. 48:13). A alegação de que Betei era um lugar sagrado antes da época de Jacó é paten­ temente fraca. O próprio Jacó viveu em cerca de 1600 a.C., e as evidências ar­ queológicas de uma ocupação de Betei anteriormente não são conclusivas. Os exemplos do nome relacionado em Amós e Jeremias são ambos casos de paralelis­ mo hebraico, em que Yahweh é paralelo a Betei. Os profetas não pretendiam apresentar uma correspondência com os nomes de deuses pessoais, mas uma re­ tratação do fato de que o Reino do Norte havia substituído o Deus vivo pelo san­ tuário de Betei. É improvável que um deus se chamasse Betei, “casa de Deus”. Betei é chamado de “o” lugar porque era um conhecido santuário na época dos escritores bíblicos. Este capítulo é o rela­ to de seu descobrimento. Ele tomou-se um centro importante durante o remado de Jeroboão I (I Reis 12:26-29). Mesmo depois da queda de Samária, ele tinha significado (II Reis 17:28), porém mais tarde foi destruído por Josias (II Reis 23:15). Então sonhou: estava posta sobre a terra uma escada. A palavra traduzida como “escada” vem de uma raiz que significa amontoar ou levantar, e, por­ tanto, provavelmente, significa uma rampa ou escadaria. Os zigurates babi­ lónicos (cf. 11:1 e ss.) tinham escadarias assim, e os homens criam que os deuses desciam para visitar o “alpendre” ou a câmara que ficava no topo do templo. O significado babilónico da palavra Ba­ bel era “portão de Deus” (cf. “porta dos céus”, v. 17). Era apropriado, visto que Jacó estava viajando para a Babilônia, que a substância de seu sonho tratasse de símbolos babilónicos. Yahweh estava no topo da escada, contudo, e não Mar- duque. Os aqjos de Deus subiam e desciam por ela. Devia-se esperar que os anjos estivessem “descendo e subindo” , ao in­ vés do exposto, que é o inverso. A ordem pode ser coincidente, mas, da maneira como está, a ênfase é sobre o movimento dos mensageiros da terra para Deus e de volta à terra, e não no fato de eles saírem da presença de Deus e voltarem. Portan­ to, o significado é que as hostes dos céus estavam prontas para servir às necessida­ des dos homens, particularmente de Jacó. Acima deles Deus desceu do céu e ficou sobre a escada, acima de Jacó. A promessa que Deus deu a Jacó é calcada em termos já familiares a nós, pois constam nas suas promessas feitas a Abraão e a Isaque. Pela primeira vez ele anunciou que havia escolhido Jacó como portador da promessa. Nenhuma palavra de condenação foi pronunciada para o 275
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    homem culpado. Estaera uma certeza baseada na graça e providência de Deus, e de forma alguma dava a entender que Jacó era digno da bênção. De fato, a sú­ bita mudança dos acontecimentos to- mou-o completamente de surpresa. Não podia haver um momento em que ele precisasse mais de encorajamento divino do que então, nem um momento em que ele o esperasse menos. Eis que estou contigo. Este não foi nenhum deus local da Palestina que fa­ lou com Jacó. Ele era o “Deus dos Pais” (Alt), que iria acompanhá-lo a Harã e garantir o seu regresso em segurança. A reação de Jacó ao sonho aconteceu em dois estágios. Primeiramente somos informados do que ele disse, e então do que ele fez. A sua reação vocal foi trí­ plice: (1) Realmente o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia. Ele pensara que estava em uma região solitária, abando­ nada, mas Deus estava ali o tempo todo. Da mesma forma outros homens têm-se sentido desertados por Deus, quando não obstante ele estava operando em suas vidas; muita gente tem falhado muitas vezes em sentir a presença de Deus em uma atuação que ele mesmo inspirou. (2) Quão terrível é este lugar! Esta é a única vez, em Gênesis, em que uma teofania por fim suscitou uma reação de medo. Geralmente. Deus assegurou ao patriarca que ele não devia temer. Talvez esta seja a forma de o escritor enfatizar a repreensão de Deus a Jacó. Foi a sua presença que condenou-o, e não a sua palavra. (3) Este não é outro lugar senão a casa de Deus... a porta dos céus. Jacó estava tão enganado quanto muitos outros têm estado, ao pensar que o lugar onde se en­ contrara com Deus era o único lugar em que Deus podia ser encontrado. Tanto quanto conhecemos, a despeito de Deus ter assegurado que iria com ele, Jacó não demonstrou nenhuma inclinação para adorá-lo publicamente em Harã. Só quando voltou a Betei ele realizou outro ato religioso abertamente. O que Jacó fez como reação ao sonho é descrito de duas maneiras: (1) A pedra sobre a qual ele sonhara, estabeleceu como coluna (massebah). Von Rad afir­ ma que seria necessária força sobre-hu- mana para fazê-lo, visto que tais pedras muitas vezes tinham mais de dois metros de altura. Contudo, esta Jacó havia mo­ vido na noite anterior, para fazer dela um travesseiro. Dificilmente ele teria mo­ vido uma pedra pesada com esse objeti­ vo. A unção de objetos, quando eram dedicados a Deus (cf. Êx. 30:26 e ss.; Lev. 8:10 e ss.; Gên. 31:13), também era praticada fora de Israel. (2) Jacó fez um voto. Algumas pessoas têm criticado este ato como tentativa típica de fazer uma barganha com Deus, mas ele estava longe disso. Jacó não pediu fama nem riquezas. Tudo o que ele desejou foi pão e roupa, até poder voltar. Ele era um rapaz saudoso de casa, com um único desejo: voltar para casa. Al­ guns indivíduos, não sentindo necessida­ de profunda de suas famílias, são incapa­ zes de saudade. O pedido de Jacó a Deus revelou claramente uma profunda neces­ sidade que ele sentia de sua família, a despeito de todas as tensões que havia entre eles. Este fato, por si mesmo, nos informa que essencialmente ele não era uma pessoa egoísta. Se fosse de outra forma, ao invés de desejar voltar para a dura realidade de uma família infeliz, a sua cabeça estaria cheia de novos sonhos, ali colocados por Deus. A condição do voto foi colocada de tal forma que a sua conclusão pode ser depois da palavra “paz”, no versículo 21 ou no fim desse versículo. A RSV, se­ guindo a KJV, colocou a conclusão (apó- dose) depois de “paz”, porque normal­ mente a apódose começa com a ocorrên­ cia de um novo sujeito (aqui é Senhor). Contudo, à luz do sonho que acabara de ter, é improvável que Jacó tivesse dito: “Se Deus me abençoar, farei dele o meu 276
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    Deus.” Isto dariaa entender que, se Deus não se manifestasse, Jacó o rejei­ taria. É muito mais razoável traduzir o voto, como o hebraico permite, de forma que “o Senhor será meu Deus” seja uma parte da prótase (a cláusula “se): “Se Deus for comigo... me guardar... me der... e o Senhor for meu Deus, então esta pedra...” Portanto, no voto, Jacó de fato estava fazendo uma barganha com Deus, mas não estava pedindo muito nem condicio­ nando a sua aceitação de Deus sobre o cumprimento de seus desejos. Se Deus guardasse a sua palavra para com ele, possibilidade que Jacó achava mais difí­ cil de crer quando o sonho se desvane­ ceu, então ele construiria um santuário em Betei, e ali daria o dízimo de tudo o que Deus lhe viesse a dar. Embora, quando de sua volta a Betei, Jacó, na verdade, tenha edificado um altar (não uma “casa” , 35:7), não há registro de que ele jamais tenha pago o dízimo. Incidentalmente, o dízimo de Abraão a Melquisedeque e a promessa de Jacó de dar o dízimo são testemunhos do fato de que o conceito de dizimar era mais antigo do que a lei mosaica, e não depende dela. Da mesma forma como no caso de Abraão, Jacó prometeu dar o dízimo, como reação à graça de Deus, e não como obrigação legal. O fato de que Jacó não deu o dízimo prometido — tanto quanto os registros revelam — é desconcertante. Será que ele encontrou problemas de saber a quem pagá-lo? A que sacerdotes ele o confia­ ria? É mais provável que Jacó tenha achado demasiado inconveniente dar o dízimo, depois que acumulou a sua ri­ queza. Uma coisa era prometer o dízimo de sua comida e de sua roupa, mas bem outra tirar um animal de cada vez de seus numerosos rebanhos. Raramente um ho­ mem começa a dar o dízimo depois que se torna rico. É mais comum que o dizi- mador rico começou a exercitar esse cos­ tume quando o dízimo era pequeno. Se Jacó tivesse dizimado durante toda a sua permanência em Harã, seria mais fácil fazê-lo em Betei. 2. Os Casamentos de Jacó (29:1-30) Os comentaristas mais antigos encon­ tram, neste capítulo, a fonte Israelita do Norte, tanto quanto a Judia. Contudo, nenhuma das costumeiras marcas do ma­ terial Israelita do Norte se apresenta, tais como o uso de ’Elohim (Deus) para a divindade, a menção de sonhos e anjos, e certas expressões características. A base primordial para se verificar evidências de material Israelita do Norte aqui é o que Speiser chamava de “uma ilusão de óti­ ca, induzida por divisões erradas de ver­ sículos”. Supunha-se, visto que acontece uma interrupção entre os versículos 14 e 15, que o escritor da fonte Judia pen­ sava que a permanência total de Jacó em Harã foi de um mês, período mencio­ nado no versículo 14. Visto que a passa­ gem que começa com o versículo 15 conta a história da peregrinação de Jacó duran­ te vinte anos, deve ser uma fonte dife­ rente! Se o versículo 15 é considerado como continuação do versículo 14, então o problema é removido. O sentido seria: “Quando Jacó ficou com ele um mês inteiro, perguntou Labão...” continuan­ do o versículo 15 a história, e não come­ çando uma nova seção. Também há pequena possibilidade de que os versículos 24 e 25 (a menção das concubinas) seja proveniente da fonte Sacerdotal, como antigamente se supu­ nha. Os materiais Nuzi (veja a Introdu­ ção) têm uma passagem paralela em que o presente de uma serva para a noiva é mencionado da mesma forma abrupta. Desta forma, o capítulo 29 pode ser considerado como unidade literária úni­ ca, proveniente da fonte Judia. 1) Jacó Se Encontra com Raquel (29:1-14) 1 E ntão pôs-se Jacó a cam inho e chegou à te rra dos filhos do O riente. 2 E olhando, viu 277
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    ali um poçono cam po, e trê s rebanhos de ovelhas deitadas junto d ele; pois desse poço se dava de beber aos rebanhos; e havia um a grande p ed ra sobre a boca do poço. 3 A jun­ tavam -se ali todos os rebanhos; os pastores rem oviam a p ed ra da boca do poço, davam de beber às ovelhas e to m av am a pôr a p ed ra no seu lu g ar sobre a boca do poço. 4 Perguntou-lhes J a c ó : M eus irm ãos, donde sois? R esponderam eles: Somos de H arã. 5 Perguntou-lhes m a is : Conheceis a Labão, filho de N aor? R esponderam : Conhecem os. 6 Perguntou-lhes ainda: Vai ele bem ? R es­ ponderam : Vai b em ; e eis ali R aquel, sua filha; que vem chegando com as ovelhas. 7 Disse ele: E is que ainda vai alto o dia; não é hora de se aju n ta r o gado; dai de beber às ovelhas, e ide apascentá-las. 8 R esponde­ ram : Não podem os, até que todos os re b a ­ nhos se ajuntem , e seja rem ovida a p ed ra da boca do poço; assim é que dam os de beber às ovelhas. 9 E nquanto Jacó ainda lhes fala­ va, chegou R aquel com as ovelhas de seu p a i; porquanto e ra ela quem as ap ascen ta­ va. 10 Quando Jacó viu a R aquel, filha de Labão, irm ão de sua m ãe, e as ovelhas de Labão, irm ão de su a m ãe, chegou-se, revol­ veu a p ed ra da boca do poço e deu de beber às ovelhas de L abão, irm ão de sua m ãe. 11 E ntão Jacó beijou a R aquel e, levantando a sua voz, chorou. 12 E Jacó anunciou a R aquel que ele e ra irm ão de seu pai, e que era filho de R ebeca. R aquel, pois, foi co r­ rendo p a ra anunciá-lo a seu pai. 13 Quando Labão ouviu essas novas de Jacó, filho de sua irm ã, correu-lhe ao encontro, abraçou-o, beijou-o e o levou a sua casa. E Jacó relatou a Labão todas essas coisas. 14 Disse-lhe L a­ bão: V erdadeiram ente tu és m eu osso e m i­ nha carne. E Jacó ficou com ele um m ês inteiro. O significado literal de pôs-se Jacó a caminho é “Jacó levantou o seu pé”, ex­ pressão que ocorre só esta vez no Velho Testamento. É um quadro vivo de sua ansiedade, depois de sua experiência em Betei. Ela deve ser vista como agudo contraste com a maneira como ele deve ter-se arrastado de casa até Betei. Os pastores removiam a pedra é a in­ terpretação da RSV do texto, segundo a LXX e o Pentateuco Samaritano. O Tex­ to Massorético apresenta apenas “eles rolavam a pedra”, o que faz parecer que o sujeito de “rolavam” é “os rebanhos” . A redação da RSV é, certamente, uma forma correta de entender a situação. Os pastores esperavam até que todos os rebanhos estivessem ali, não apenas porque a tampa de pedra era tão pesada, mas, provavelmente, porque todos com­ partilhavam dos direitos sobre a água, e não queriam que estes fossem violados. Ao remover a pedra do poço, Jacó estava arriscando-se a tornar-se alvo da ira de toda a comunidade. Jacó ansiosamente loquaz estava em agudo contraste com os taciturnos pasto­ res. Eles pareciam indolentes demais para expressarem mais do que as reações essenciais. Apenas moderadamente sur­ presos, pelo fato de ele querer que eles modificassem os seus padrões costumei­ ros de comportamento, eles chegaram a ser plácidos demais para se ressentirem da tentativa de Jacó de apressá-los. Parece estranho que Raquel estivesse vindo com suas ovelhas naquela hora. Certamente, ela sabia qual era a hora da abertura do poço, e ainda estavam no começo da tarde. Será que ela viera mais cedo ao poço, para conversar com os outros pastores, para encontrar com es­ tranhos interessantes que estivessem pas­ sando, ou para ser a primeira da fila para dar água ao rebanho? O súbito fluxo de adrenalina que ca­ pacitou Jacó a remover a pesada pedra da boca do poço era devido não apenas à aparência da bela Raquel, mas também à óbvia riqueza da família dela, eviden­ ciada pelo rebanho de ovelhas que ela apascentava (v. 10). O ato incomum e cavalheiresco de Jacó deve ter conquista­ do o coração de Raquel imediatamente. Alguns intérpretes ficam perplexos com o fato de Jacó ter beijado Raquel de maneira tão ousada. João Calvino ex­ pressou a opinião de que esta declaração foi um erro de redação de Moisés, ao relatar o fato. Agora sabe-se, todavia, que no vale superior da Mesopotâmia naquela época, as mulheres tinham mui­ to mais liberdade do que na Palestina 278
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    posteriormente. Uma pastoradificilmen­ te ia trabalhar usando véu. Obviamente, ela devia saber como se defender. O com­ portamento de Jacó, evidentemente, não foi tão ofensivo quanto surpreendente. 2) Labão Engana Jacó (29:15-30) 13 Depois perguntou Labão a Jacó : P o r seres m eu irm ão h ás de se rv ir-me de g raça? D eclara-m e, qual será o teu salário? 16 O ra, Labão, tinha duas filhas; o nom e da m ais velha e ra L éia, e o da m ais m oça R aquel. 17 L éia tinha os olhos enferm os, enquanto que R aquel e ra form osa de porte e de sem ­ blante. 18 Jacó, porquanto am av a a R aquel, disse: Setè anos te servirei p a ra te r a R a ­ quel, tua filha m ais m oça. 19 R espondeu L abão: M elhor é que eu a dê a ti do que a outro; fica com igo. 20 A ssim serviu Jacó sete anos por causa de R aquel; e estes lhe pareciam como poucos dias, pelo m uito que a am ava. 21 E ntão Jacó disse a L abão: Dá-m e m inha m ulher, porque o tem po já está cum prido; p a ra que eu a tom e por m ulher. 22 R euniu, pois, Labão todos os hom ens do lugar, e fez um banquete. 23 Â tarde tom ou a L éia, sua filha, e a trouxe a Jacó, que esteve com ela. 24 E Labão deu sua serv a Zilpa por serva a L éia, sua filha. 25 Quando am anheceu, eis que e ra L éia; pelo que perguntou Jacó a L ab ão : Que é isto que m e fizeste? P orventura não te servi em troca de R aquel? P or que, então, m e enga­ naste? 28 R espondeu L abão: N ão se faz assim em nossa te rra ; não se dá a m enor antes da prim ogênita. 27 C um pre a sem ana d esta; então te darem os tam bém a outra, pelo trabalho de outros sete anos que ainda m e servirás. 28 Assim fez Jacó, e cum priu a sem ana de L éia; depois Labão lhe deu por m ulher sua filha R aquel. 29 E Labão deu sua serva Bila por serv a a R aquel, su a filha. 30 E ntão Jacó esteve tam bém com R aquel; e am ou a R aquel m uito m ais do que a L é ia ; e serviu com Labão ainda outros sete anos. A reação de Labão às novidades trazi­ das por Raquel foi aberta e generosa. Em contraste com Eliézer, Jacó obvia­ mente não tinha nada para lhe oferecer. Contudo, Labão o recebeu de maneira igualmente principesca, como havia re­ cebido o rico servo de Abraão. Aqui, o esperto manipulador revelou que não era de todo mau, e que era capaz de interesse e cortesia verdadeiros. Jacó também revelou-se como pessoa bem diferente da que geralmente se en­ tende que ele era. Trabalhou para Labão um mês sem levantar o assunto de salá­ rios. A sua sugestão a Labão de trabalhar sete anos por Raquel dificilmente pode ser chamada de atitude inflexível nos negócios. Talvez ele pudesse obtê-la por menos, mas ele não se arriscaria a ser rejeitado. E também aqueles sete anos pareceram poucos dias! Nenhum homem que amasse de maneira tão desprendida podia ser uma pessoa essencialmente egocêntrica. Este não é o retrato de um homem cujo primeiro pensamento era explorar outras pessoas, para se benefi­ ciar. Léia e Raquel são contrastes típicos de caráter. Raquel era uma jovem atraente, vivaz, que suscitava a admiração dos homens, enquanto Léia era do tipo “violeta” , para quem seu pai temia não encontrar marido. Léia é descrita com olhos enfermos ou fracos, mas uma tra­ dução melhor seria “baços”. O nome dela significa “vaca”. O nome de Raquel significa “ovelha” . Alguns intérpretes acham que estes nomes expressam a his­ tória tribal das famílias de Léia e de Raquel, sendo a primeira composta de lavradores, e a última, de pastores (cf. von Rad). Se isto é verdade, não sig­ nifica que a Léia e Raquel eram apenas personificações de histórias tribais, mas que os seus descendentes cumpriram os nomes de suas mães. Não se dá a menor antes da primogê­ nita. Como uma espada, estas palavras devem ter atravessado o coração de Jacó, pois ele acabara de participar de uma mudança de posições semelhantes a com o seu irmão Esaú. É claro que Jacó não esperou outros sete anos por Raquel. Nada o poderia ter persuadido a fazê-lo. Depois dos sete dias da festa de casamento para Léia, e mediante a promessa de Jacó de traba­ lhar outros sete anos, Raquel lhe foi dada. (Lev. 18:18 e ss. proíbe casamento 279
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    com duas irmãs.A proibição, sem dúvi­ da, resultou dos problemas experimenta­ dos nesta família.) 3. A Rivalidade Entre Léia e Raquel (29:31-30:24) Os intérpretes identificam as fontes Judia e Israelita do Norte, nesta seção, mas as duas estão emaranhadas de ma­ neira tão intricada que é difícil discrimi­ nar entre as duas.15 As mudanças do nome divino dão um indício, embora, por si mesmas, elas não sejam suficientes para a identificação das fontes. A evidên­ cia mais convincente é a apresentação de duas explicações para o significado da maioria dos nomes dos filhos de Jacó. A forma usual das narrativas dos nasci­ mentos é uma única explicação. Contu­ do, a explicação dupla pode ser simples­ mente devida ao desejo de enfatizar o fato narrado. A narrativa Judia é geral­ mente identificada com 29:31-35; 30:3-5; 30:7-16; 30:20b (começando com “agora morará comigo meu marido”); 30:24. A mão Israelita do Norte é sentida em 30:1,2, 6 ,17-20a, 21-23. Os significados dados aos vários nomes dos filhos de Jacó devem ser considera­ dos como tradições autênticas. Os edito­ res do livro de Gênesis, ao registrarem as interpretações dos nomes, preservaram, para nós, os significados que eles tinham para os descendentes desses homens. O que temos é o significado que gerações posteriores viram nos nomes, e que eles criam que as mães dos patriarcas tam­ bém perceberam. Ao invés de tentar har­ monizar as explicações, os compiladores dos materiais os transmitiram da manei­ ra como chegaram às suas mãos, e, desta forma, preservaram o seu valor histórico. Se Léia e Raquel, na verdade, percebe­ ram ou não todo o significado dado aos nomes de seus filhos, pelas gerações pos­ teriores, não importa: o seu significado 15 Cf. Joe B. Lewis, “An Analysis of Uteraiy Forms in the Jacob Narratives", 1964. Dissertação doutoral não publicada, Southern Baptist Theological Seminary. estava presente o tempo todo. Visto que foram as mães que deram os nomes, não é irrelevante creditar a elas o entendi­ mento dos significados que os seus des­ cendentes viram nesses nomes. Este não é um “jogo etimológico extremamente livre, em que o narrador reluz” (von Rad, p. 289), mas uma compilação res­ ponsável. Concordando com Noth, von Rad (p. 291) duvida que Léia e Raquel real­ mente foram esposas deJacó. Pelo contrá­ rio, diz que elas representam dois grupos independentes de tribos que chegaram à Palestina em épocas diferentes, e então se uniram em uma liga de doze tribos. “A figura de Jacó como receptor da revelação e fundador de uma religião se ligou genealogicamente com esta confe­ deração de doze somente posterior­ mente.” O caráter do material desta passagem argumenta contra a posição de von Rad. Não há nenhuma indicação, nesta seção, de que estas historietas são história tri­ bal disfarçada. Todas as referências ao ato de dar nome aos filhos são pessoais, enfatizando o conflito entre Léia e Ra­ quel, pelo amor de Jacó. Os relatos têm todas as características de antigas tradi­ ções de família a respeito de ancestrais comuns, histórias que os pais contavam aos seus filhos. Eles formam “uma parte bastante lembrada de uma tradição co­ nhecida” (Davies). 1) Os Filhos Mais Velhos de Léia (29:31-35) 31 Viu, pois, o Senhor que L éia e ra desp re­ zada, e tom ou-lhe fecunda a m ad re; R a ­ quel, porém , e ra estéril. 32 E L éia concebeu e deu à luz um filho, a quem cham ou R ú b en ; pois disse: Porque o Senhor atendeu à m i­ nha aflição; ag o ra m e a m a rá m eu m arido. 33 Concebeu outra vez, e deu à luz um filho; e disse: Porquanto o Senhor ouviu que eu e ra desprezada, deu-m e tam bém este. E lhe cham ou Sim eão. 34 Concebeu ain da outra v eze deu à luz um filho; e disse: A gora esta vez se unirá m eu m arido a m im , porque três filhos lhe tenho dado. P ortanto lhe cham ou Levi. 35 De novo concebeu e deu à luz um 280
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    filho; e disse:E sta vez louvarei ao Senhor. P o r isso lhe cham ou Ju d á. E cessou de te r filhos. Léia era desprezada. O verbo não significa “odiada”, como na versão ingle­ sa RSV, porém não amada, desprezada, como na versão da IBB (cf. Deut. 21:15). Uma palavra semelhante, em acádio, tem o significado de renúncia. A palavra usada aqui ocorre também em Mala- quias 1:3, onde, na verdade, Deus diz: “e eu fui repelido por Esaú.” Nesta passagem, Deus é revelado como o Deus dos “párias”. Quando Raquel estava na pior, ele a ajudou também (30:22). Os acontecimentos haviam tomado um rumo não previsto por Raquel. Léia esta­ va cumprindo produtivamente o seu nome (vaca); Raquel, a pequena “ove­ lha”, era estéril. Léia deu à luz o filho mais velho de Jacó, Rúben. O significado básico de seu nome parece ser “Veja, um filho”, que descreve as alegres notícias do nascimento de um herdeiro. Léia, contudo, segundo os registros, deu um significado muito diferente a esse nome. Para ela, ele significava que Deus havia visto a sua aflição e interviera, para que o seu marido a amasse. Não há razão por que a mãe não pudesse ter feito tal jogo de palavras com o nome do filho. Rúben pode ter sido tão sintético como alguns dos nomes que pais apaixonados ainda dão aos seus filhos. 0 significado que Léia deu ao nome Simeão (de shama, ele ouviu) não apre­ senta nenhuma dificuldade. Da mesma forma, o nome de seu filho seguinte, Levi (lawah, juntar-se). O nome Judá tem um significado questionável, mas a conota­ ção é tão persuasiva quanto as outras teorias. 2) Os F u jo s da Serva de Raquel (30:1-8) 1Vendo R aquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irm ã, e disse a Jacó : D á-m e filhos, senão eu m orro. 2 E ntão se acendeu a ira de Jacó contra R aquel; e d isse: P orv en tu ra estou eu no lu g ar de Deus que te im pediu o fruto do ventre? 3 R espon­ deu e la : E is aqui m inha serv a B ila; receba-a por m ulher, p a ra que ela dê à luz sobre os m eus joelhos, e eu deste m odo tenha filhos por ela. 4 Assim lhe deu a B ila, sua serva, por m u lh er; e Jacó a conheceu. 5 Bila concebeu e deu à luz um filho a Jacó. 6 E ntão disse R aquel: Julgou-m e D eus; ouviu a m inha voz e m e deu um filho; pelo que lhe cham ou D ã. 7E B ila, serv a de R aquel, concebeu o u tra vez e deu à luz um segundo filho a Jacó . 8 E ntão disse R aquel: Com grandes lutas tenho lu ­ tado com m inha irm ã, e tenho vencido; e cham ou-lhe N aftali. O principal foco desta passagem é que os filhos da escrava, ao contrário do que aconteceu no episódio de Agar, foram também considerados como herdeiros le­ gítimos. A liga tribal foi formada sobre este conceito de igualdade. Estou eu no lugar de Deus? É possível que Jacó tenha entendido Raquel errada­ mente, pois, obviamente, ele pensou que ela estava culpando-o por sua esterilida­ de. É provável que ela estava apenas preparando o terreno para sugerir que ele coabitasse com sua serva, Bila. Para que ela dê à luz sobre os meus joelhos. Originalmente, no momento do nascimento, pode ser que a mãe que estava em trabalho de parto se colocasse sobre o corpo da mãe adotiva, mas por esse tempo o contexto já não tinha mais o significado original. Relatos hurrianos, da era patriarcal, indicam que o filho era normalmente colocado sobre os joelhos do pai, para dar a entender que ele aceitava aquele filho como seu. Aqui, o desejo da mãe de ser credi­ tada com um filho levou-a a assumir o papel normalmente desempenhado pelo pai. É digno de nota que Jacó nem sequer participou do ato de dar nome aos seus filhos. Abraão havia escolhido o nome de Isaque (21:3); Isaque e Rebeca haviam dado o nome a Jacó e Esaú (25:25 e s.). De fato, parece que Jacó estava irreme­ diavelmente encurralado entre aquelas duas mulheres rixentas. Elas decidiam entre elas a qual delas ele iria visitar (30:16). O nome Dã significa julgado ou vingado. Naftali relaciona-se com “lutas 281
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    poderosas” (heb., naptule’Elohim, lutas de Deus). Possivelmente, Raquel estava convicta de que a sua batalha contra a sua irmã fora vencida por forças divinas identificadas com a sua causa. Contudo, também é provável que Raquel estivesse usando a palavra ’elohim em sentido de adjetivo, sem conotação com uma divin­ dade. Em caso de ser esta a verdade, o nome do filho significaria simplesmente poderoso. A referência certamente não é às lutas de oração, pois ela estava lu­ tando com sua irmã, e não com Deus. 3) Os Filhos da Serva de Léia (30:9-13) 0 T am bém L éia, vendo que cessara de te r filhos, tom ou a Zilpa, sua serva, e a deu a Jacó por m ulher. 10 £ Zilpa, serv a de L éia, deu à luz um filho a Jacó. 11 E ntão disse L éia: A fortunadaI e cham ou-lhe Gade. 12 Depois Zilpa, serv a de Léia, deu à luz um segundo filho a Jacó. 13 E ntão disse L éia: Feliz sou eu! porque a s filhas m e cham arão feliz; e cham ou-lhe A ser. Léia, para não ser sobrepujada, con­ vocou a sua serva à batalha pela afeição de seu marido. Gade significa fortuna, e era o nome de um deus bastante conhe­ cido (Is. 65:11; Jos. 11:17; 15:37). Isto tem levado à associação da tribo de Gade com esse deus, mas o relacionamento não conseguiu ser estabelecido. Léia, prova­ velmente, quis dizer que não precisava desse deus pagão. O próprio Senhor lhe dera toda a fortuna de que ela necessita­ va. Aser significa feliz. O jogo duplo de palavras não significa, necessariamente, que houve duas fontes (a Judia e a Is­ raelita do Norte), pois a bênção foi dupla­ mente enfatizada por esta expressão. Ela não apenas estava feliz, mas todas as suas amigas também reconheceriam as suas bênçãos assinaladas. A felicidade pessoal e a aprovação social nem sempre coincidem. 4) O Trato por Meio de Mandrágoras (30:14-24) 14 O ra, saiu R úben nos dias d a ceifa do tri­ go e achou m andrágoras no cam po, e a s trou­ xe a L éia, sua m ãe. E ntão disse R aquel a L éia: D á-m e, peço, das m an d rág o ras de teu filho. 15 Ao que lhe respondeu L éia: É já pouco que m e h ajas tirado m eu m arido? queres tira r tam bém a s m andrágoras de m eu filho? Prosseguiu R aquel: P o r isso ele se d eitará contigo esta noite pelas m an d rá­ goras de teu filho. 16 Quando, pois, Jacó veio à tard e do cam po, saiu-lhe L éia ao encontro e d isse; H ás de e sta r com igo, porque c e rta ­ m ente te aluguei pelas m andrágoras de m eu filho. E com ela deitou-se Jacó aquela noite. 17 E ouviu D eus a L éia, e ela concebeu e deu a Jacó um quinto filho. 18 E ntão disse L éia: D eus m e tem dado o m eu galardão, p o r­ quanto dei m inha serva a m eu m arido. E cham ou ao filho Issacar. 10 Concebendo L éia outra vez, deu a Jacó um sexto filho; 20 e d isse: D eus m e deu um excelente d o te; ag o ra m o rará com igo m eu m arido, porque lhe tenho dado seis filhos. E cham ou-lhe Zebulom . 21 Depois disto deu à luz u m a fi­ lha, e cham ou-lhe D iná. 22 T am bém lem ­ brou-se D eus de R aquel, ouviu-a e a tornou fecunda. 27 De m odo que ela concebeu e deu à luz um filho, e disse: Tirou-m e D eus o opróbrio. 24 E cham ou-lhe José, dizendo: A crescente-m e o Senhor ainda outro filho. A planta de mandrágoras (mandrago- ra officinarum) tem uma raiz que se parece remotamente com um homem, e um fruto que parece uma pequena maçã. O fruto era usado como afrodisíaco. Pen- sava-se que, se a mulher o comesse, daria à luz um filho varão. Léia não precisava das mandrágoras, e elas não fizeram bem nenhum a Raquel. Alguns intérpretes descobrem duas ex­ plicações para o nome de Issacar nos versículos 16, 17 e 18, sendo o versí­ culo 16 da fonte Judia e os versículos 17 e 18 da fonte Israelita do Norte. Contudo, Léia não ligou porque certamente te alu­ guei (sakor sekartika) com o nome de Issacar. Outra forma (nominal) desta palavra se relaciona diretamente com o nome de Issacar. É estranho que Léia considerasse Issacar como seu aluguel (recompensa), por ter dado a sua serva a Jacó (v. 18). Pode-se supor que os dois filhos de Zilpa fossem assim considera­ dos. Esta expressão indica que para Léia foi uma decisão difícil compartilhar Jacó com mais outra mulher. É fora de dúvida 282
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    a sua devoçãoirremovível a Jacó. A atitu­ de de Raquel em relação a ele era mais ambivalente. Léia continuou a supor que, quanto mais filhos desse a Jacó, mais probabili­ dade tinha de ganhar a afeição dele. Zebulom recebeu o seu nome porque foi ò ato apoteótico de Deus em reconhecer que, afinal de contas, ela era uma ver­ dadeira esposa (Deus havia suprido o dote). É estranho o fato de que na morte Léia conseguiu o que lhe fora tão ilusório em vida. O próprio Jacó reque­ reu que ele fosse sepultado ao lado dela na caverna de Macpela (49:31). Raquel foi sepultada perto de Efrata (35:19). Visto que não é dada nenhuma expli­ cação para o nome de Diná (heb., jul­ gamento), alguns estudiosos pensam que ele é uma adição feita posteriormente a esta seção, tirada do capítulo 34. A falta de detalhes, contudo, pode ser devida ao fato de que ela era mulher. Naquela época ela foi privilegiada por seu nome, afinal de contas, ter sido pelo menos mencionado (cf. 37:35; 46:7). A explicação dupla do nome de José é a mais clara da passagem. Ele se rela­ ciona com ’sp, “remover” (v. 23, fonte Israelita do Norte), e com ysp, “acres­ centar” (v. 24, relato da fonte Judia). Todavia, não há razão por que o seu nome, para Raquel, não pudesse ter am­ bas as conotações. Ele tinha um signifi­ cado presente tanto quanto futuro. Deus finalmente havia removido o opróbrio de Raquel, mas também lhe havia dado razões para esperar mais filhos no futu­ ro. Raquel ainda estava perdendo a cor­ rida. Mal sabia ela que o cumprimento de seu desejo importaria em sua morte. 4. O Contrato com Labão (30:25-43) Devido à natureza aparentemente composta deste material, Wellhausen en­ controu as fontes Judia e Israelita do Norte neste capítulo. Duas vezes Jacó pediu a Labão que lhe permitisse voltar ao lar (v. 25 e 26). Duas vezes Labão pediu a Jacó para estipular o seu preço (v. 28 e 31). Dois arranjos diferentes são registrados. Primeiro, nos versículos 32 a 34, Jacó teria a permissão de ficar ape­ nas com as ovelhas e cabras salpicadas e malhadas e as ovelhas escuras, que de­ viam ser menos numerosas; segundo, nos versículos 31,35-43, ele não receberia nada no momento, mas poderia ficar com.todas as ovelhas e cabras sem man­ chas ou marcas, no futuro. Desta forma, os versículos 26,28,32-34 foram atribuí­ dos, por Wellhausen, à fonte Israelita do Norte e o resto à Judia. Com algumas reservas, von Rad ainda se inclina na direção da análise do­ cumentária clássica. Speiser, contudo, não vê razão para tal divisão em fontes, mas considera esta passagem como uma unidade, de maneira clara. Era natural, na literatura do Oriente Próximo antigo, repetir-se, e isso não pode ser julgado pelos padrões da crítica literária ociden­ tal moderna. De fato, a narrativa faz sentido da maneira como está. Labão pedira que Jacó designasse o seu próprio salário. Para surpresa de Labão, o seu sobrinho não queria nada na hora, mas apenas os animais com listras ou manchas nascidos no futuro (cf. “ovelhas”, v. 33). Jacó separaria os animais de Labão que fos­ sem tenuemente marcados (listados, as cabras salpicadas e ovelhas escuras) dos imaculados (cabras escuras e ovelhas brancas). Labão, contudo, não confiava em Jacó, para conservar os rebanhos separados. Ele mesmo os separou e man­ dou os seus filhos à distância de três dias dos rebanhos de Jacó, deixando Jacó apenas com os imaculados. Mediante as­ tutas manobras, Jacó conseguiu fazer com que as ovelhas brancas parissem crias escuras, e as cabras escuras pro­ duzissem listados e salpicados! 1) A Parte de Jacó(30:25-36) 25 Depois que R aquel deu à luz a José, disse Jacó a L abão: D espede-m e a fim de 283
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    que eu vá p a ra m eu lugar e p a ra m inha te rra . 26 D á-m e a s m inhas m ulheres, e os m eus filhos, pelas quais te tenho servido, e deixa-m e ir; pois tu sabes o serviço que te prestei. 27 L abão lhe respondeu: Se tenho achado g raça aos teus olhos, fica com igo; pois tenho percebido que o Senhor m e ab en ­ çoou por am o r de ti. 28 E disse m a is : D eter­ m ina-m e o teu salário, que to darei. 29 Ao que lhe respondeu Jacó : Tu sabes com o te hei servido, e com o tem passado o teu gado comigo. 30 Porque o pouco que tinhas antes da m inha vinda tem se m ultiplicado abun­ dantem ente; e o Senhor te tem abençoado por onde quer que eu fui. A gora, pois, quan­ do hei de trab alh ar tam bém por m inha casa? 31 Insistiu L abão: Que te d arei? E n ­ tão respondeu Jacó : N ão m e d a rá s nada; to m arei a ap ascen tar e a g u ard ar o teu rebanho se m e fizeres isto: 32 P a ssa re i hoje por todo o teu rebanho, separando dele todos os salpicados e m alhados, e todos os escuros entre as ovelhas, e os m alhados e salpicados entre as cab ras; e isto será o m eu salário. 33 De m odo que responderá por m im a m i­ nha ju stiça no dia de am anhã, quando vires v er o m eu salário assim exposto diante de ti: tudo o que não for salpicado e m alhado entre as cab ras e escuro en tre a s ovelhas, esse, se for achado comigo, se rá tido por furtado. 34 Concordou L abão, dizendo: Seja conform e a tu a p alav ra. 35 E separou n a ­ quele m esm o dia os bodes listrados e m a ­ lhados e todas a s cab ras salpicadas e m a ­ lhadas, tudo em que havia algum branco, e todos os escuros entre os cordeiros e os deu nas m ãos de seus filhos; 36 e pôs trê s dias de cam inho entre si e J a c ó ; e Jacó ap ascen ta­ va o restan te dos rebanhos de Labão. Tenho percebido, literalmente, “tenho sido informado por adivinhação” . Labão estava admirado por que os negócios estavam indo tão melhor desde que Jacó viera morar com ele. Não sabendo como consultar a Deus pessoalmente, ele havia procurado a direção divina de alguma outra forma (cf. 44:5,15). No contexto mesopotâmico, isto significa inquirir me­ diante o uso de augúrios. Determina-me o teu salário. Labão estava-se arriscando perigosamente, mas então ele já sabia que Jacó iria ser razoá­ vel. Não me darás nada (cf. Abraão e o rei de Sodoma, 14:24). Jacó estava indigna­ do pela maneira como fora tratado. E isto será o meu salário. Não estes animais em particular, mas os semelhan­ tes a eles que nasceram no futuro. 2) O Estratagema de Jacó (30:37-43) 37 E ntão tom ou Jacó v a ra s verdes de es- toraque, de am endoeira e de plátano e, d es­ cascando nelas riscas b rancas, descobriu o branco que nelas h avia; 38 e as v a ra s que descascara pôs em frente dos rebanhos, nos cochos, isto é, nos bebedouros, onde os r e ­ banhos bebiam ; e conceberam quando v i­ nham beber. 39Os rebanhos concebiam dian ­ te das v aras, e a s ovelhas davam crias lis­ trad as, salpicadas e m alhadas. 40 E ntão separou Jacó os cordeiros, e fez os rebanhos olhar p a ra os listrados e p a ra todos os e s­ curos no rebanho de L abão; e pôs o seu rebanho à p arte, e não o pôs com o rebanho de L abão. 41 E todas as vezes que conce­ biam as ovelhas fortes, punha Jacó a s v aras nos bebedouros, diante dos olhos do re b a ­ nho, p a ra que concebessem diante das v a ­ ra s ; 42 m as quando e ra fraco o rebanho, ele não as punha. A ssim as fracas eram de Labão, e as fortes de Jacó. 43 E o hom em se enriqueceu sobrem aneira, e teve grandes rebanhos, servas e servos, cam elos e ju m en ­ tos. O plano básico de Jacó se alicerçava em uma antiga crença de que as expe­ riências traumáticas dos animais quando concebiam afetariam a natureza de suas crias. Jacó arranjou três varas parcial­ mente descascadas (em listas e em man­ chas) diante das cabras mais fortes, quando elas estavam se acasalando, na expectativa de que daí resultariam cabri­ tos listrados e manchados. A palavra hebraica traduzida como “rebanho” pode aplicar-se tanto a ovelhas quanto a cabras; o termo “cordeiro” também pode significar cabrito. Para a produção de ovelhas escuras, ele inventou um processo diferente. Ele simplesmente as fez olhar para os bodes escuros que Labão deixara com ele, e a vista de carneiros pretos afetou as suas crias. Esse estratagema parecia bem plausí­ vel para Jacó e seus descendentes, na época veterotestamentária. No entanto, os criadores de hoje em dia menosprezam as perspectivas de qualquer sucesso para 284
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    manobras como essas.Em 31:9-12 (fonte Israelita do Norte), o próprio Jacó reco­ nheceu o problema, e admitiu que o seu ardil teria pequenas probabilidades de sucesso, se Deus não tivesse feito com que os carneiros certos (manchados e lis­ trados, v. 10) se acasalassem. 5. Jacó Separa-se de Labão (31:1-55) Esta passagem é primordialmente pro­ duto da fonte Israelita do Norte (ênfase em sonhos e anjos, uso do nome Elohim para a divindade), depois de uma intro­ dução proveniente da narrativa Judia, nos versículos 1-3. A maioria dos erudi­ tos críticos atribui o versículo 2 ao escri­ tor da fonte Israelita do Norte, pofque ele parece dar uma explicação diferente para a decisão, de Jacó, de partir. No versículo 1, somos informados de que era devido aos filhos de Labão, enquanto, no versículo 2, de que era por causa do próprio Labão. Estilisticamente, não há argumentos convincentes para uma mu­ dança de fonte. O escritor da fonte Judia facilmente poderia ter atribuído o desas­ sossego de Jacó à atitude mutável de Labão, tanto quanto à de seus filhos. As seções da fonte Israelita do Norte jamais mencionam os filhos de Labão, e alguns expositores chegam à conclusão, devido a isso, de que a opinião da fonte era que ele não tinha nenhum filho varão, só filhas (Skinner). Isto colocaria essa fonte em conflito com o material da fonte Judia, a não ser que se interprete “filhos” como parentes (cf. Speiser). Todavia, o silêncio da fonte Israelita do Norte, a respeito do assunto, pode não significar, necessaria­ mente, falta de conhecimento. Os filhos de Labão podiam estar incluídos entre os parentes (v. 23). A referência a Padã- Arã, no versículo 18, geralmente é identi­ ficada com a fonte Sacerdotal, visto que nenhuma das fontes populares emprega este nome comumente. Ela é, provavel­ mente, editorial, e não de outra fonte. O pacto entre Jacó e Labão (v. 43-54) é geralmente considerado como uma com­ posição de materiais das fontes Judia e Israelita do Norte, visto que dois símbo­ los são estabelecidos: uma coluna e um montão de pedras, e duas explicações são dadas para o nome “Galeede” . A versão da fonte Israelita do Norte diz que Jacó levantou tanto as pedras quanto a co­ luna (v. 45 e 46), e o suposto relato da fonte Judia atribui ambos os atos a Labão (v. 51). Isto leva a uma intricada especulação a respeito de como isso pode ter acontecido, se as narrativas da “co­ luna” e do “montão” estavam original­ mente separadas (von Rad, Speiser). É melhor considerar esta perícope como uma coerente continuação da narrativa da fonte Israelita do Norte. Jacó e Labão erigiram os monumentos, referindo-se cada um deles, em seus discursos, à parte que havia desempenhado no processo. Visto que ambos participaram da ereção, cada um deles deu nome aos monumen­ tos. Num ato final de boa vontade, Labão consentiu em usar o nome dado por Jacó. 1) Ordens de Marcha de Jacó (31:1-16) 1 Jacó, entretanto, ouviu as palavras dos filhos de L abão, que diziam : Jacó tem lev a­ do tudo o que e ra de nosso pai, e do que e ra de nosso p ai adquiriu ele todas estas rique­ zas. 2 Viu tam bém Jacó o rosto de Labão, e eis que não e ra p a ra com ele com o dantes. 3 D isse o Senhor, então, a J a c ó : V olta p a ra a te rra de teus pais e p a ra a tu a p aren tela; e eu serei contigo. 4 Pelo que Jacó m andou cham ar a R aquel e a L éia ao cam po, onde estav a o seu rebanho, 5 e lhes disse: Vejo que o rosto de vosso pai p a ra com igo não é como an terio rm en te; porém o D eus de m eu pai tem estado com igo. 6 O ra, vós m esm as sabeis que com todas as m inhas forças te ­ nho servido a vosso p ai. 7 M as vosso pai m e tem enganado, e dez vezes m udou o m eu salário; D eus, porém , não lhe perm itiu que m e fizesse m al. SQuando ele dizia assim : Os salpicados serão o teu salário, então todo o rebanho dava salpicados. E quando ele dizia a ssim : Os listrados serão o teu salário, então todo o rebanho d ava listrados. 9 De modo que D eus tem tirado o gado de vosso pai, e m o tem dado a m im . 10 Pois sucedeu que, a« tem po em que o rebanho concebia, levantei os olhos e num sonho vi que os bodes que cobriam o rebanho eram listrados, salpica- 285
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    dos e malhados. 11 Disse-m e o anjo de Deus no sonho: Jacó! E u respondi: E is-m e aqui. 12 Prosseguiu o a n jo : L evanta os teus olhos e vê que todos os bodes que cobrem o rebanho são listrados, salpicados e m alhados; p or­ que tenho visto tudo o que L abão te vem fazendo. 13 E u sou o D eus de B etei, onde ungiste u m a coluna, onde m e fizeste um voto; levanta-te, pois, sai-te d esta te rra e volta p a ra a te rra da tu a parentela. 14 Então lhe responderam R aquel e L éia: Tem os nós ainda p arte ou h eran ça n a casa de nosso pai? 15N ão som os tidas por ele com o e stran ­ geiras? pois nos vendeu, e consum iu todo o nosso preço. 16 T oda a riqueza que D eus tirou de nosso pai é nossa e de nossos filhos; portanto, faze tudo o que D eus te m andou. Tendo visto que havia perdido o favor de Labão e de seus filhos, Jacó estava pronto para ouvir a direção de Deus para voltar ao lar. A ordem de Deus era oposta à dada a Abraão. Abraão recebe­ ra instruções para abandonar a sua terra e a sua parentela; Jacó devia voltar à sua. Assim mesmo, cada geração precisa sa­ ber qual é a vontade de Deus para a sua situação em particular. Dez vezes mudou o meu salário. Esta é uma expresssão figurada de um número grande, indefinido. Por esta declaração ficamos sabendo que Labão revisara muitas vezes o acordo feito com Jacó. Respeitando o aspecto do acordo que lhe era favorável, Labão sempre conservava as ovelhas brancas e as cabras escuras. Algumas vezes, contudo, ele limitava a parte de Jacó apenas às listradas ou às malhadas. Não obstante, cada vez os animais se multiplicavam a favor de Jacó. Os bodes que cobrem o rebanho são listrados, salpicados e malhados. Não fora a esperteza de Jacó a responsável pela multiplicação prolífica da espécie de animais que lhe cabia. Deus providen­ ciara para que os animais certos se aca­ salassem. Levanta os teus olhos e vê. Von Rad considera esta expressão, bem como todo o versículo 12, como uma “inserção inep­ ta”, feita por um editor posterior, pri­ mordialmente porque ela interrompe a declaração de Deus a respeito de si mes­ mo. De acordo com a analogia de outras teofanias, o Eis-me aqui da resposta de Jacó devia ser seguido imediatamente por Eu sou o Deus de Betei. Essa alteração de forma é simplesmente uma maneira pela qual o hebraico expressa ênfase. Deus queria que Jacó visse o que estava acontecendo, antes de dirigir a sua aten­ ção para si próprio. Eu sou o Deus de Betei, onde é literal­ mente “Eu sou o Deus Betei, onde” . Obviamente, o texto sofreu durante a transmissão, visto que “onde” não tem um antecedente apropriado. Seguindo a LXX e outras versões antigas, a maioria dos intérpretes concorda com a RSV. A reação das esposas de Jacó, ao dis­ curso dele, nos versículos 5 a 13, expres­ sa tanto a amargura delas contra o seu pai quanto a sua lealdade a Jacó. Se ele estava pensando em partir sem elas, po­ dia esquecê-lo. O pai delas as havia ven­ dido a ele, e elas também eram proprie­ dade dele. Se ele queria partir, elas esta­ vam com ele entusiasticamente. 2) A Partida Secreta (31:17-24) 17 Levantou-se, pois, Jacó e fez m ontar seus filhos e suas m ulheres sobre os cam e­ los ; 18 e levou todo o seu gado, e toda a sua fázenda, que havia adquirido, o gado que possuía, que hav ia adquirido em Padã-A rã, a fim de ir te r com Isaque, seu pai, à te rra de C anaã. 19O ra, tendo Labao ido tosquiar as suas ovelhas, R aquel furtou os ídolos que pertenciam a seu pai. 20 Jacó iludiu a Labão, o aram eu , não lhe fazendo sab er que fugia; 21 e fugiu com tudo o que e ra seu; e, levantando-se, passou o Rio, e foi em d ire­ ção à m ontanha de G ileade. 22Ao terceiro dia foi Labão avisado de que Jacó havia fugido. 23 E ntão, tom ando consigo seus irm ãos, se ­ guiu a trá s de Jacó jo rnada de sete d ia s; e alcançou-o n a m ontanha de G ileade. 24 M as D eus ap areceu de noite em sonho a Labão, o aram eu, e disse-lhe: G uarda-te, que não fales a Jacó nem bem nem m al. Jacó escolheu a hora adequada para viajar. Labão e seus filhos estavam ocupados com a tosquia das ovelhas, a três dias de caminho dele. 286
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    Raquel furtou osídolos que perten­ ciam a seu pai. Como observa Speiser, a tradução “furtou” é um pouco forte para a situação. A posse dos deuses do lar ou familiares (heb., teraphim, coisas iner­ tes, um termo pejorativo) era prova legal do direito de herança. Visto que Raquel cria que a propriedade devia ser deles, ela se “apropriou” do que considerava ser seu de direito. Isto não fez com que o ato se tomasse menos errado. Os tera- fins eram estatuetas, algumas vezes em forma humana, talvez de tamanho de um homem (I Sam. 19:13,16), embora aqui fossem suficientemente pequenas para Raquel carregá-las e se assentar sobre elas (v. 34). Labão, o arameu. Este termo é usado a respeito de Labão, Betuel (28:5) e Jacó (Deut. 26:5). No versículo 47, Labão até falou em aramaico. “No entanto, os ara- meus, como tais, não têm verificação in­ dependente, a não ser a partir dos últi­ mos séculos do segundo milênio” (Spei­ ser, p. 246). Os escritores estavam usan­ do uma designação posterior para essas pessoas de época mais remota, ou os ara- meus estavam em cena muito antes do que geralmente se presume. Jacó iludiu a Labão. O hebraico diz, literalmente: “E Jacó furtava o coração de Labão” (cf. II Sam. 15:6). Furtar o coração era roubar a mente, remover de outrem a consciência da realidade, enga­ nar a outrem, fazê-lo parecer estúpido. Seguiu atrás de Jacó jornada de sete dias. A distância entre Harã e Gileade é de cerca de quinhentos e sessenta qui­ lômetros. Não é provável que Jacó pudes­ se ter chegado tão longe em dez dias, visto que os rebanhos avançavam tão vagarosamente. A palavra “sete” pode ser figurativa. Ela é freqüentemente usa­ da para designar um período completo de tempo. Guarda-te, que não fales a Jacó nem bem nem mal. Ou Labão não obedeceu à direção de Deus e, assim mesmo, re­ preendeu Jacó, o que não é provável, ou “nem bem nem mal” tinha um significa­ do diferente do que se possa supor. A proibição de Deus significava que Labão não devia acusar Jacó de nenhuma ação má, quer fosse verdade quer não. Ele não devia dizer-lhe para voltar para casa nem devia eximir-se de vê-lo. No encontro, ele teve todo o cuidado de não acusar Jacó de pecado. Ele simplesmente pediu-lhe para responder a uma série de interrogações a respeito de delitos aparentes! 3) A Inquirição de Labão (31:25-35) 25 Alcançou, pois, L abão a Jacó. O ra, Jacó tinha arm ado a sua tenda na m ontanha; arm ou tam bém L abão com os seus irm ãos a sua tenda na m ontanha de G ileade. 26 E ntão disse Labão a Ja c ó : Que fizeste, que m e ilu­ diste e levaste m inhas filhas com o cativas da espada? 27 P o r que fugiste ocultam ente, e m e iludiste e não m o fizeste sab er, p a ra que eu te enviasse com aleg ria e com cân ti­ cos, ao som de tam bores e de harp as? 28 P o r que não m e p erm itiste b eijar m eus filhos e m inhas filhas? O ra, assim procedes­ te nesciam ente. 29 E stá no poder da m inha m ão fazer-vos o m al, m as o D eus de vosso pai falou-m e ontem à noite, dizendo: G uarda- te, que não fales a Jacó nem bem nem m al. 30 M as ainda que quisesse ir em bora, p o r­ quanto tinhas saudades d a casa de teu pai, por que fu rtaste os m eus deuses? 31 Respon- deu-lhe J a c ó : Porque tive m edo; pois dizia comigo que tu m e a rre b a ta ria s as tuas fi­ lhas. 32 Com quem ach ares os teus deuses, porém , esse não viv erá; diante de nossos irm ãos descobre o que é teu do que está co­ m igo, e leva-o contigo. Pois Jacó não sabia que R aquel os tinha furtado. 33 E ntrou, pois, L abão n a tenda de Jacó, na tenda de L éia e na tenda das duas servas, e não os achou; e, saindo da tenda de L éia, entrou na tenda de R aquel. 34 O ra, R aquel havia tom ado os ídolos e os havia m etido n a alb ard a do c a ­ m elo, e se a ssen tara em cim a deles. La.bão apalpou toda a tenda, m as não os achou. 35 E ela disse a seu p a i: N ão se acenda a ira nos olhos de m eu senhor, por eu não m e poder lev an tar na tu a presença, pois estou com o incôm odo das m ulheres. A ssim ele procurou, m as não achou os ídolos. Jacó tinha armado a sua tenda na montanha. Era de se esperar que aqui se achasse o nome da região, talvez Mizpá (31:49), mas, com base na dupla repeti- 287
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    ção dessa palavraem 31:54, Speiser con­ jectura que era um lugar chamado de “Elevação”. Armou também Labão com os seus irmãos a sua tenda. O hebraico diz lite­ ralmente: “Labão armou os seus ir­ mãos” ! Obviamente, se requer uma cor­ reção textual aqui; ’chlw (tendas) deve ser interpretação em lugar de ’chyw (pa­ rentes). Que me iludiste. A mesma expressão idiomática, encontrada no versículo 20, pode ser traduzida como “que me fizes­ te parecer estúpido”. Com alegria e com cânticos. Esta é a única referência do Velho Testamento a esse costume em despedidas. Labão, in­ dignado, estava fazendo os papéis in­ congruentes de “pai ferido a vingador aturdido” (Kidner). Ele descreveu mi­ nuciosamente o antigo costume, mas Jacó sabia que esse não seria o tipo de despedida que Labão teria preparado, se lhe tivesse contado seus planos com antecedência. Respondeu-lhe Jacó: Porque tive medo. Labão estivera fazendo perguntas em sucessão tão rápida que Jacó estava apenas começando a responder à sua pri­ meira pergunta, a saber, porque ele o fizera parecer tão estúpido, quando La- bâo lhe perguntara a respeito dos tera- fins. Então Jacó respondeu a respeito desse assunto. Labão chamou os tera- fins de seus “deuses” . Raquel não mos­ trou a mesma consideração para com eles, pois sentar-se sobre eles na sua “im­ pureza” era o insulto máximo (cf. Lev. 15:19 e ss.). Com quem achares os teus deuses, po­ rém, esse não viverá. Aqui o suspense aumenta. Sem o saber, Jacó estava arris­ cando a vida de Raquel, a esposa que mais amava. Mais uma vez esta fonte está retratando Jacó como homem ínte­ gro, que não imagina que alguém em sua família pudesse ter roubado algo de La­ bão. Na albarda do camelo. Speiser traduz a palavra hebraica como “almofadas”, enquanto Driver faz sua versão como “li­ teira” ou “howdah” (palanquim). Era uma sela especial para mulheres, que podia ser usada como uma espécie de cadeira quando elas estavam nas tendas. Embora ela usualmente tivesse uma co­ berta tecida, quando usada em viagem, não é provável que Raquel estivesse sen­ tada em um palanquim coberto, quando estava em sua tenda, pois senão ela certa­ mente seria suspeita de engano. Se a albarda tinha uma coberta, ela havia sido tirada. O incômodo das mulheres. Raquel de­ clarou que estava em seu período mens­ trual, declaração que podia ser verda­ deira. 4) A Resposta Irada de Jacó (31:36-42) 36 E ntão irou-se Jacó e contendeu com Labão, dizendo: Qual é a m inha tra n sg re s­ são? qual é o m eu pecado, que tão furiosa­ m ente m e tens perseguido? 37 Depois de teres apalpado todos os m eus m óveis, que achaste de todos os m óveis da tu a casa? Põe-no aqui diante de m eus irm ãos e de teus irm ãos, p a ra que eles julguem entre nós am bos. 38 E stes vinte anos estive eu conti­ go ; as tu as ovelhas e as tu as cab ras nunca abortaram , e não com i os carneiros do teu rebanho. 39 N ão te trouxe eu o despedaçado; eu sofri o dano; da m inha m ão requerias tanto o furtado de dia com o o furtado de noite. 40 A ssim andava eu ; de dia m e con­ sum ia o calor, e de noite a geada; e o sono m e fugia dos olhos. 41 E stive vinte anos em tu a casa; catorze anos te servi por tu as duas filhas, e seis anos por teu rebanho; dez vezes m udaste o m eu salário. 42 Se o Deus de m eu pai, o D eus de A braão e o T em or de Isaque não fora por m im , certam ente hoje m e m an d arias em bora vazio. M as D eus tem visto a m inha aflição e o trabalho das m i­ nhas m ãos, e repreendeu-te ontem à noite. Este discurso é uma obra-prima literá­ ria. Pois finalmente Jacó podia defender a sua inocência de qualquer culpa, e o fez com grande eloqüência. Toda a frustra­ ção represada de vinte anos se abateu espumejante. 288
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    Nesta passagem vemosa vida difícil do pastor (“o trabalho das minhas mãos”, v. 42), bem como Labão havia maltrata­ do Jacó (“a minha aflição”). Era da responsabilidade do pastor providenciar para que os rebanhos tivessem crias sem abortos e que fossem protegidos de ani­ mais selvagens e de ladrões humanos. Ele cuidara dos animais durante os opressi­ vos dias quentes e as noites miseravel­ mente frias, enquanto o seu sono lhe “fugia” dos olhos (v. 40). Algumas vezes o pastor tinha dificuldades para ficar acordado durante a sua vigília; Jacó, por causa do ealor e do frio, não podia dor­ mir quando queria! Labão tomara a sorte dura de Jacó ainda mais difícil, não lhe permitindo comer os cordeiros do rebanho, forçan­ do-o a dar contas de todas as perdas e mudando o seu salário repetidamente (“dez vezes”). O versículo 42 expressa claramente que o Deus de Isaque e o Deus de Abraão eram o mesmo Deus, pois o verbo “não fora” está no singular, re­ querendo um sujeito simples, e não com­ posto. Obviamente, Jacó adorava o mes­ mo Deus que eles adoravam, pois está se referindo a ele nesta passagem. Nomes diferentes para o mesmo Deus eram usa­ dos pelos patriarcas (cf. Sal. 18:2 e Apoc. 15:3, onde termos diferentes são usados para designar o mesmo Deus único). O significado do título Temor de Isaque é obscuro, pois ocorre apenas neste capí­ tulo. Speiser o traduz como “o Terrível de Isaque” e relaciona este título com o de “Provação de Isaque” , quando Abraão estava para sacrificá-lo sobre a montanha (Gên. 22). Albright sugeriu que significa “Parente”, visto que pala­ vras cognatas, em outras línguas do Ori­ ente Próximo, têm este significado. 16 Na verdade, esta expressão descreve com exatidão o estilo de vida religiosa de Isaque. Enoque andou “com” Deus (em 16 Albright, From the Stone Age to Christlanity (New York: Doubleday & Co., Inc., 1946), p. 248 n). comunhão íntima), Abraão “diante” de Deus (consciente de sua presença), e Isa­ que, como servo obediente. Hoje me mandarias embora vazio. Jacó disse que Labão teria prevalecido, se Deus não interviesse. Ele deu a Deus o crédito de toda a sua prosperidade, não porque Deus reconhecesse os seus atribu­ tos morais, mas porque se apiedara de Jacó em sua aflição. 5) O Pacto em Mizpá (31:43-55) 43 Respondeu-lhe L abão: E stas filhas são m inhas filhas, e estes filhos são m eus filhos, e este rebanho é m eu rebanho, e tudo o que vês é m eu; e que farei hoje a estas m inhas filhas, ou aos filhos que elas tiveram ? 44 A gora pois vem , e façam os um pacto, eu e tu, e sirva ele de testem unha entre m im e ti. 45 E ntão tom ou Jacó um a pedra, e a erigiu como coluna. 46 E disse a seus irm ãos: A juntai p edras. T om aram , pois, pedras e fizeram um m ontão, e ali junto ao m ontão com eram . 47 Labão lhe cham ou Jegar-Saa- duta, e Jacó cham ou-lhe G aleede. 48 Disse, pois, L ab ão : E ste m ontão é hoje testem unha entre m im e ti. P o r isso foi cham ado G a­ leede ; 49 e tam bém M lzpá, porquanto d isse: Vigie o Senhor en tre m im e ti, quando esti­ verm os apartad o s um do outro. 50 Se afligi­ res as m inhas filhas, e se tom ares outras m ulheres além das m inhas filhas, em bora ninguém esteja conosco, lem bra-te de que Deus é testem unha entre m im e ti. 51 Disse ainda L abão a J a c ó : E is aqui este m ontão, e eis aqui a coluna que levantei entre m im e ti. 52 Seja este m ontão testem unha, e seja esta coluna testem unha de que, p a ra m al, nem passarei eu desse m ontão a ti, nem p assarás tu deste m ontão e d esta coluna a m im . 53O D eus de A braão e o D eus de N aor, o Deus do pai deles, julgue entre nós. E jurou Jacó pelo T em or de seu pai, Isaque. 54 E ntão Jacó ofereceu um sacrifício na m ontanha, e convidou seus irm ãos p a ra com erem p ã o ; e, tendo comido, p assaram a noite n a m onta­ nha. 55 Levantou-se Labão de m an h ã cedo, beijou seus filhos e suas filhas e os ab en ­ çoou ; e, partindo, voltou p a ra o seu lugar. Tudo o que vês é meu. De início, o leitor é inclinado a sentir simpatia por Labão. O lucro de Jacó fora o prejuízo de Labão, inteiramente. Embora ele não pudesse mais reter a sua descendência, restava uma última responsabilidade: as- 289
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    segurar-se de queela receberia um trata­ mento condigno da parte de um homem em quem ele não confiava. Ele insistiu que fizessem um pacto, tendo Deus como testemunha, entre ele e Jacó, garantindo às suas filhas um tratamento condigno. Os nomes que Labão e Jacó deram ao lugar do pacto significam a mesma coisa: “montão do testemunho”; Labão usou a língua aramaica, sua língua nativa, e Jacó, o hebraico. Finalmente Labão con­ cordou em chamá-lo pelo nome que Jacó lhe dera (Galeede, daí Gileade?), pois queria que tanto Jacó quanto os seus descendentes compreendessem clara­ mente o que ele significava. O aspecto mais interessante do pacto é que por ele Jacó deu garantias a Labão, enquanto Labão não garantiu nada. Era fácil fazer um acordo com Jacó. Visto que Labão realmente era o perdedor, este foi para ele um procedimento que salvou as apa­ rências. O fato de terem comido depois de terem colocado as pedras (v. 46) e outra vez mais tarde (v. 54) não indica, aqui, duas fontes. Simplesmente significa que eles primeiramente fizeram um acordo amigável com uma refeição social, e de­ pois o selaram, mais tarde, no mesmo dia, com uma refeição sacrificial. E também Mizpá. A RSV acrescenta “coluna” neste verso. O texto recebido diz: “Portanto ele o chamou de Galeede e Mizpá.” Em outras palavras, Labão deu a “ele” dois nomes. Aparentemente, Jacó e Labão erigiram uma coluna de pedra (msbh, massebah) e amontoaram pedras ao redor dela, para proteção futura; La­ bão deu ao monumento acabado o nome de Galeede e Mizpá (msph), um.jogo de palavras com msbh. Ao invés de ser evi­ dência de duas narrativas, a coluna e o montão foram combinados em uma só designação, Mizpá, na forma de um obe­ lisco completo. O nome Galeede confir­ mou o pacto entre os dois homens. Mizpá (torre de vigia) enfatizou a garantia de sua validade futura. A famosa “bênção de Mizpá” não foi uma expressão de boa vontade da parte de Labão, mas uma declaração que di­ zia, de fato: “Possa Deus conservar você honesto enquanto eu não estou lá para vê-lo.” Ele estava lendo a sua própria desonestidade no comportamento de Jacó. Contudo, isto não significa que as suas palavras não podem ser usadas, hoje em dia, em sentido positivo. A expressão de Labão pode ter uma conotação bem diferente da que ele pretendia. As pala­ vras expressando desconfiança em um contexto podem, em outro, ser legitima­ mente usadas para pronunciar uma bên­ ção. Temos visto que freqüentemente, em Gênesis, as gerações posteriores encon­ traram, nas palavras, algum significado que não era aparente a princípio, mas que estava ali para ser discernido em época diferente. Este montão é hoje testemunha. Quan­ do Labão começou esta declaração, ela soava como se ele estivesse querendo dizer que ele e Jacó não cruzariam aquela linha jamais. Bem no fim da sentença ele acrescentou: “para mal.” O Deus do pai deles é expressão con­ siderada, por muitos eruditos, como edi­ torial (cf. Speiser, von Rad). Visto que ela não aparece na LXX, é considerada como tentativa de explicar a menção do Deus de Abraão e do Deus de Naor. A frase explicativa declara que eles são o mesmo Deus, o Deus de Tera. Esta opi­ nião é baseada no fato de que julgue está no plural. Costumeiramerite, quando é caracterizado o Deus de Israel, o subs­ tantivo plural ’Elohim usa um verbo no singular (cf. Gên. 1:1). Algumas vezes, no entanto, quando ’Elohim se refere ao Deus de Israel, é regido por um verbo no plural (cf. 1:26: “Façamos o homem”). Alega a opinião politeísta que tanto La­ bão quanto Jacó invocaram o Deus indi­ vidual de seus respectivos pais, para tes­ temunhar o pacto. Se este fosse o sentido da passagem, por que precisaria o escri­ tor mencionar especificamente que Jacó 290
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    invocou o Temorde seu pai Isaque, mas omitiu o fato de que Labão invocou o seu Deus? A expressão o Deus do pai deles, quer editorial, quer não, afirma que eles serviam ao mesmo Deus. Desta forma, ela precisa ser levada a sério. Este é outro exemplo de eoncordância gramatical en­ tre ’Elohim e o seu verbo, sem implica­ ções teológicas especiais. Se a expressão é editorial, ela foi inserida porque era ne- cessária para impedir uma interpretação politeísta. Abraão jamais teria desejado conseguir esposa para Isaque na família de Naor só porque eles eram parentes. Eles adoravam o mesmo Deus. Labão... os abençoou. Deve-se notar que ele não abençoou Jacó. Ele não esta­ va qualificado nem inclinado a fazê-lo. 6. O Reencontro de lacó e Esaú (32:1-33:20) Com exceção de duas curtas passagens da fonte Israelita do Norte, que dão início e fim a esta seção (32:1,2; 33:18b- 20), ela é quase inteiramente atribuída à fonte Judia. O escritor Sacerdotal recebe costumeiramente o crédito de 33:18a) por causa da menção de Padã-Arã), mas isso pode ser simplesmente uma expan­ são editorial. Von Rad, seguindo Wellhausen, iden­ tifica 32:13b-21 como material Israelita do Norte, mas deve-se concordar com Speiser que os seus argumentos não são convincentes. Nestes capítulos vemos Ja­ có tomando-se o verdadeiro herdeiro da promessa, e Esaú retirando-se honrosa­ mente da cena bíblica. 1) A Caminho (32:1,2) 1 Jacó tam bém seguiu o seu cam inho ; e encontraram -no os anjos de D eus. 2 Quando Jacó os viu, disse : E ste é o exército de Deus. E cham ou àquele lugar M aanaim . Esta passagem é tão misteriosa quanto breve. Maanaim é uma forma dupla he­ braica, uma construção gramatical usa­ da para descrever algo que aparece em pares, como olhos, ouvidos ou mãos. A palavra básica é a traduzida como “bando”, no versículo 8. Desta forma, a palavra pode significar exército, acampa­ mento, bando. O verbo traduzido como encontraram-no expressa o significado de contato físico. Sendo isto verdade, a passagem pode ser a versão da fonte Israelita do Norte da história de Penuel. Assim, o encontro pode ser considerado como ataque hostil, mas, provavelmente, consistiu em boas-vindas celestiais a Ca- naã (Driver). Da mesma forma como Jacó foi visitado por anjos quando saiu da Palestina, era agora encontrado por eles ao voltar. A forma dupla pode apli­ car-se a dois bandos de anjos, um subin­ do e outro descendo, como em Betei. Ê mais provável que Jacó tenha notado como o seu acompanhamento terreno (a sua família) era comparável ao ce­ lestial. Visto que a sua família também era povo de Deus, ele pôde usar a forma dupla. Correspondente aos anjos do céu está o povo de Deus na terra (Kidner). São os dois lados da família celestial. Jacó saíra sozinho, e voltava como um exército. A verdadeira localização de Maanaim não é conhecida. De fato, isto também é verdade em relação a Galeede e Mizpá (cf. Driver, que trata detalhadamente das evidências). Von Rad acha que Maa­ naim fica ao sul do Jaboque, enquanto Driver o localiza ao norte. O primeiro imagina que Jacó jornadeou do leste, aproximando-se do Jaboque vindo do sul, e o segundo tem opinião contrária. Seja qual for a posição que for tomada, é claro que Jacó ainda não havia atravessa­ do o Jaboque (o moderno Nahr ez-Zer- qa). 2) A Ameaça de Esaú (32:3-8) 3 E ntão enviou Jacó m ensageiros diante de si a E saú, seu irm ão, à te rra de Seir, o território de E dom , 4 tendo-lhes ordenado: D este m odo falareis a m eu senhor E saú : Assim diz Jacó, teu serv o : Como peregrino m orei com L abão, e com ele fiquei até ago­ ra ; 5 e tenho bois e jum entos, rebanhos, servos e serv as; e m ando com unicar isso a m eu senhor, p a ra ac h a r g raça aos teus 291
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    olhos. 6 Depoisos m ensageiros v oltaram a Jacó, dizendo: Fom os te r com teu Irm ão E saú ; e, em verdade, vem ele p a ra encon­ trar-te, e quatrocentos hom ens com ele. 7 Jacó teve m uito m edo e ficou aflito ; divi­ diu em dois bandos o povo que estav a com ele, bem como os rebanhos, os bois e os cam elos; 8 pois dizia: Se E saú vier a um bando e o ferir, o outro bando escap ará. Em suas comunicações, Jacó não se dirigiu a Esaú como seu irmão, porém como seu senhor. Ele chegou a usar esse título quando conversou com os seus mensageiros, de forma que não houvesse dúvidas em suas mentes a respeito da posição superior de Esaú. O uso primo­ roso que Jacó fez da diplomacia é claro aqui. No entanto, parecia que ele havia falhado, pois os mensageiros relataram que Esaú estava vindo ao encontro de Jacó com quatrocentos homens, presumi­ velmente armados e com intenção hostil. O fato notável foi que os mensageiros de Jacó foram capazes de exceder em velo­ cidade ao bando de Esaú, que estava mais familiarizado com a região. Ou os homens de Jacó haviam voltado quando viram Esaú à distância, ou Esaú não estava com pressa. Isto por si mesmo daria a entender que as suas intenções não eram hostis. Influenciado por sua experiência com dois exércitos em Maanaim, Jacó dividiu a sua família em dois grupos. Desta vez, como no resto do capítulo, a palavra é um plural verdadeiro, e não um duplo. 3) A Oração de Jacó (32:9-12) 9 D isse m ais Jacó : Ó Deus de m eu pai A braão, Deus de m eu pai Isaque, ó Senhor, que m e d isseste: V olta p a ra a tu a te rra , e p a ra a tu a parentela, e eu te farei bem ! 10 Não sou digno da m enor de todas as tuas beneficências e de toda a fidelidade que tens usado p a ra com o teu serv o ; porque com o m eu cajado passei este Jordão, e agora volto em dois bandos. 11 Livra-m e, peço-te, da m ão de m eu irm ão, da m ão de E saú, porque eu o tem o; acaso não venha ele m atar-m e, e a m ãe com os filhos. 12 Pois tu m esm o d isseste: C ertam ente te farei bem , e farei a tu a descendência como a areia do m ar, que pela m ultidão não se pode contar. A oração de Jacó é um exemplo clássi­ co da oração de um leigo (von Rad). Contém pouca coisa do vocabulário dos Salmos, cuja linguagem é, em grande parte, litúrgica. A fonte Judia revela que ele estava derramando o coração à sua maneira. Antes de tudo, ele lembrou Deus de sua promessa de ir com ele, se ele voltasse. E, depois, admitiu que não era digno do favor divino, mas que no passado os seus méritos pessoais não haviam sido o critério pelo qual Deus havia agido para com ele. E esperava que a situação não tivesse mudado, pois esta­ va amedrontado com a aproximação de Esaú, e pedia para ser liberto dele, e não para vencê-lo. Ao concluir a oração, ele fez Deus lembrar-se outra vez que lhe havia prometido a sua bênção. Jacó plei­ teou o cumprimento das promessas de Deus. 4) A Sua Esperta Estratégia (32:13-21) 13 P assou ali aquela n o ite; e do que tinha tom ou um presente p a ra seu irm ão E saú : 14 duzentas cab ras e vinte bodes, duzentas ovelhas e vinte carneiros, 15 trin ta cam elas de leite com su as crias, quarenta vacas e dez touros, vinte ju m en tas e dez jum enti- nhos. 16 E ntão os entregou n as m ãos dos seus servos, cada m an ad a em separado; e disse a seus serv o s: P assai adiante de m im e ponde espaço entre m anada e m anada. 17 E ordenou ao prim eiro, dizendo: Quando E saú, m eu irm ão, te encontrar e te pergun­ ta r: De quem és, e p a ra onde vais, e de quem são estes diante de ti? 18 E ntão re s­ ponderás: São de teu servo Jacó, presente que envia a m eu senhor, a E saú, e eis que ele vem tam bém a trá s de nós. 19 Ordenou igualm ente ao segundo, e ao terceiro, e a todos os que vinham a trá s das m anadas, dizendo: D esta m aneira falareis a E saú quando o achard es. 20 E direis tam bém : E is que o teu servo Jacó vem a trá s de nós. Porque dizia: Aplacá-lo-ei com o presente, que vai adiante de m im , e depois verei a sua face; porventura ele m e aceitará. 21 Foi, pois, o presente adiante dele; ele, porém , passou aquela noite no arraial. A ansiedade de Jacó não o privara de sua engenhosidade. Ele mandou um im­ ponente presente de animais, cada grupo 292
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    espaçado por intervalosapropriados, pa­ ra que o impacto pudesse ser maior sobre Esaú. Desta forma, visto que as suas palavras conciliatórias aparentemente não haviam impressionado Esaú, ele es­ perava que o seu presente o fizesse. Deve- se notar como Jacó procedeu neste capí­ tulo (cf. Kidner): ele planejou (v. 7 e 8), orou (v. 9-12), planejou (v. 13-21), orou (v. 22-32), planejou (33:1-3). Ele era um verdadeiro protótipo do ativista piedoso! Aplacá-lo-ei. Literalmente: “cobrirei a sua face”, “vendarei a sua face” (Spei- ser). O verbo hebraico é kippur (cobrir, expiar), do qual se deriva a expressão Yom Kippur (dia da expiação). É a ter­ minologia levítica para designar expiação mediante sacrifício. Face (panim) é usada idiomaticamen­ te cinco vezes nos versículos 20 e 21, antecipando a cena de Peniel (face de ’El, Deus), que se seguirá. 5) Jacó no Jaboque (32:22-32) 22 N aquela m esm a noite levantou-se e, tom ando as suas duas m ulheres, suas duas servas e seus onze filhos, passou o vau de Jaboque. 23 Tomou-os, e fê-los p assar o r i­ beiro, e fez p assar tudo o que tinha. 2AJacó, porém , ficou só; e lutava com ele um ho­ m em até o rom per do dia. 25 Quando este viu que não prevalecia contra ele, tocou-lhe a ju n tu ra d a coxa, e se deslocou a ju n tu ra da coxa de Jacó, enquanto lutava com ele. 26 D isse o hom em : D eixa-m e ir, porque já vem rom pendo o dia. Jacó, porém , respon­ deu: Não te deixarei ir, se m e não abençoa­ res. 21 Perguntou-lhe, pois: Qual é o teu nom e? E ele respondeu: Jacó. 28 E ntão disse: N ão te ch am arás m ais Jacó, m as Israel; porque tens lutado com D eus e com os hom ens e tens prevalecido. 29 Perguntou- lhe Jacó : Dize-m e, peço-te, o teu nom e. R es­ pondeu o hom em : P o r que perguntas pelo m eu nom e? E ali o abençoou. 30 Pelo que Jacó cham ou ao lugar Peniel, dizendo: P o r­ que tenho visto D eus face a face, e a m inha vida foi preservada. 31E n ascia o sol, quan­ do ele passou de P en u el; e coxeava de u m a perna. 32 P or isso os filhos de Israel não com em até o dia de hoje o nervo do quadril, que está sobre a ju n tu ra d a coxa, porquanto o hom em tocou a ju n tu ra da coxa de Jacó no nervo do quadril. Esta é uma das passagens mais cuida­ dosamente estruturadas do livro de Gê­ nesis, pois ela é tanto uma das mais antigas como uma das mais importantes. Ela marca um ponto decisivo na vida de Jacó; alguns estudiosos consideram esta como a sua crise mais significativa. No entanto, Jacó não era do tipo de homem que se transformasse subitamente em outra espécie de pessoa. Ele não era de todo mau antes do Jaboque nem perfeito depois disso. No decorrer de sua vida, ele continuou a sua peregrinação de apren­ dizado. Podemos concordar com Speiser na idéia de que o encontro em Penuel pode ser encarado como um teste de apti­ dão de Jacó para as tarefas mais impor­ tantes que estavam por ser-lhe confiadas. Deus provou Abraão pedindo-lhe algo que ele possuía; provou Jacó demons­ trando como ele desejava intensamente uma coisa que só Deus podia lhe dar. A tentação de Abraão foi conservar o que Deus lhe havia dado; a tendência de Jacó era fazer as coisas por conta própria. Peniel e Penuel são variações etimoló­ gicas do mesmo substantivo. Aparente­ mente, Peniel é usada para mostrar mais claramente a conexão com o significado “face de Deus”, e não com o conhecido lugar que tem o nome de Penuel (Juí. 8:8 e s.; I Reis 12:25). Desde a época de Gunkel, muitos co­ mentaristas têm enfatizado a natureza etiológica desta passagem: uma história litúrgica é contada para explicar a ori­ gem de um santuário em Penuel. Esta antiga narrativa retrata uma luta com o demônio noturno que guardava o Jabo­ que. A princípio, esse conto não tinha conexão com Jacó, porém mais tarde o seu nome foi associado com ele (Skinner, von Rad). Esta sugestão precisa ser con­ siderada seriamente, pois tais histórias eram comuns naquela parte do mundo. Se isto é o que aconteceu, o escritor da fonte Judia estava tomando uma historie­ ta antiga, que lhe havia sido transmitida, e a estava usando para ensinar uma ver- 293
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    dade permanente arespeito de Deus e do homem. Esta historieta falaria mais da peregrinação de Israel com Deus do que dade Jacó. Contudo, parece mais plausível, se uma historieta litúrgica estava nos ante­ cedentes dela, que, na verdade, Jacó teve uma experiência traumática com Deus, no Jaboque, e que, à medida que a história foi sendo contada, no decorrer dos séculos, houve uma mistura da nar­ rativa litúrgica com o encontro histórico. Juntos eles se tornaram o veículo da ver­ dade (cf. a Introdução). As dificuldades com a interpretação etiológica, todavia, são sérias. Não sa­ bemos que tenha havido nenhum santuá­ rio em Penuel nem de alguma crença de que residisse no Jaboque algum demônio noturno. É bem possível que ambos os fenômenos tenham sido produto da ima­ ginação fértil dos intérpretes bíblicos. Quando Jacó se encontrou com o anjo, ele já havia mandado a família atraves­ sar o Jaboque no escuro, e sem interfe­ rência. Ele mesmo, provavelmente, havia ido com eles e voltado mais tarde (veja adiante). Nessa hora, onde estava o pro­ tetor do ribeiro? O argumento primário para a presença do demônio da noite, nesta historieta, é o fato de que “o homem” pediu a Jacó que o deixasse ir, porque “o dia estava rompendo”. Ao alvorecer, esses seres ge­ ralmente perdiam o seu poder. Contudo, há outras alternativas. Esse pedido foi entendido por um “midrash” judaico posterior, com o improvável significado: “Preciso cantar no coral da manhã ante o trono de Deus” (citado por von Rad, p. 316). Uma sugestão mais provável é que o pedido foi feito por amor de Jacó, e não para o bem de seu antagonista (Leupold, p. 878). Como declarou Jacó mais tarde, e como ele cria na ocasião, um homem não podia encarar Deus diretamente e sobreviver (cf. Êx. 33:20). Quando Jacó foi aleijado pelo toque do antagonista, percebeu que estava lutando com mais do que sangue e carne. Se ele não deixas­ se o anjo ir-se, estava correndo perigo mortal. Em vez de perder a oportunidade de receber uma bênção, quando Deus estava tão perto, Jacó preferiu arriscar a vida. A bênção significava muito para ele. Esta foi a sua prova suprema. Signi­ ficava o favor de Deus mais do que a própria vida? Jacó não seria perfeito depois dessa experiência, mas nunca mais ele seria simplesmente um homem moral, vivendo conscientemente sob a direção de Deus, purificado e transfor­ mado por ele. Portanto, esta historieta se refere à crise suprema na vida de Jacó, seja ela considerada como relato de um encontro acontecido fisicamente ou como quadro antropomórfico de uma confron­ tação espiritual. Passou o vau de Jaboque. O Jaboque, o moderno Zerqa (“rio azul” , por causa de suas claras águas azuis de montanha), desagua no Jordão, a meio caminho entre o Mar da Galiléia e o Mar Morto, mais ou menos. Freqüentemente, durante o verão, ele seca nas montanhas, mas sem­ pre existe água em sua foz, onde ele precisa ser vadeado. Nas vizinhanças, onde Jacó o atravessou, ele tem margens íngremes, cerca de dez metros de largura e, ordinariamente, água que chega à cintura de um homem, ou menos. , Surge alguma dificuldade à luz da declaração de que ele atravessou e não obstante ficou para trás. Mais uma vez, isto não significa que estão presentes duas fontes diferentes, mas que Jacó, provavelmente, atravessou com sua fa­ mília e voltou, visto que isto poderia ser feito com facilidade. Por que vadeou ele o Jaboque de noite, quando seria mais simples durante o dia? Provavelmente, o seu medo de Esaú o impedira de fazê-lo antes, mas agora, um tanto tardiamente, ele expressava a sua fé na direção de Deus ao entrar na Terra Prometida. De­ pois voltou para ficar a sós com os seus pensamentos, e certamente com o seu 294
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    Deus. Quão freqüentementeJesus se re­ tirou assim! Lutava com ele um homem. A princí­ pio, nada se diz a respeito da verdadeira identidade do atacante, nem a nós nem a Jacó. No julgamento dele, era Esaú, pois o acometera subitamente no escuro. Mais tarde, foi Oséias quem, em primeiro lugar, o chamou de anjo (Os. 12:3,4). E então tomou-se claro que não era um mero homem com quem Jacó lutou a noite toda, mas o próprio Deus na forma de homem. Só um mensageiro divino o abençoaria e mudaria o seu nome. O ver­ bo traduzido como lutava (’abaq) ocorre apenas aqui, e é um jogo de palavras com Jaboque. O estranho foi que, quando Jacó orou, nos versículos 9-12, não recebeu nenhuma resposta de Deus. Aqui estava a resposta de Deus, tardia e inesperada. Deus é retratado como o antagonista do homem que procura prevalecer contra ele. Em Êxodo 4:24-26, esta idéia é le­ vada mais adiante, pois ali Deus veio com o propósito de matar Moisés. Deus como inimigo é tema constante no livro de Jó. O patriarca considerava Deus tan­ to como seu inimigo quanto como seu amigo. Este conceito retrata vividamente as realidades da vida. Nas experiências do homem com Deus, ele descobre Deus tanto como destruidor quanto como re­ dentor. Esta tem sido a experiência de Israel como povo de Deus, no decorrer de sua história. Observar a sua adversidade é ver Deus como seu inimigo. Uma per­ cepção aguçada verá o processo como a atividade purificadora de seu amor, pois, na adversidade, aprendemos a confiar em Deus e desta forma a receber mais do que alguma vez poderíamos alcançar so­ zinhos. Como no caso de Jó, prevalece­ mos quando cedemos. Qual é o teu nome? Esta pergunta foi feita, não porque o anjo não conhecesse a resposta, mas para que, ao declará-lo, Jacó expusesse a sua verdadeira nature­ za. Ele era o “suplantador”, o “ardilo­ so”, o homem ambicioso, que vivia por sua própria sagacidade. O novo nome, Israel, significava que desde então a sua vida tomaria uma nova direção. Israel significa, literalmente, “Deus prevalece”, mas a explicação in­ verteu o significado para “prevaleceste” . A implicação é que Jacó tornou-se verda­ deiramente vitorioso na vida quando re­ conheceu a supremacia de Deus. Ante­ riormente, ele havia clamado a Deus para ajudá-lo a alcançar os seus próprios objetivos. Agora ele preferia morrer a perder o que Deus, em sua misericórdia, queria lhe dar. O que Deus, por sua graça, lhe desse era mais do que Jacó podia alcançar pelos seus próprios esfor­ ços. Quando Deus prevaleceu, Jacó pre­ valeceu. Ainda assim, foi uma batalha desigual (até mesmo nos últimos capítu­ los de Gênesis, o nome de Israel jamais aderiu de verdade a Jacó da forma como o novo nome de Abraão aderiu a ele), mas ele estava sempre no caminho da vitória. Tens lutado com Deus e com os ho­ mens. Jacó havia aprendido o que todo homem precisa aprender. Ele havia pre­ valecido contra Labão e, até então, sobre Esaú, pelo fato de ser mais forte e mais astuto. Agora ele prevalecera contra Deus, não pelo fato de sobrepujá-lo, mas por ter-se apegado a ele e rogado uma bênção. Deus se deixara “vencer” . O anjo poderia ter escapado facilmente das mãos de Jacó. Assim como deslocara a coxa do patriarca, ele poderia ter feito o mesmo com os seus braços. A determina­ ção de Jacó era mais patética do que ameaçadora. O anjo, em sua misericór­ dia, vendo o desespero de Jacó, aben­ çoou-o. Da mesma forma, mais tarde Jesus ensinaria que a importunação na oração é um requisito importante para se obter a resposta de Deus (Luc. 11), não porque Deus não esteja disposto, mas porque ele honra a nossa persistência, que é evidência de nossa abertura para com ele. 295
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    Dize-me, peço-te, oteu nome. Esta não é uma expressão de curiosidade fútil. Cria-se que, pelo fato de saber o nome de uma pessoa, alguém obtinha certos pode­ res sobre ela, talvez com objetivos de en­ cantamento e feitiçaria. As pessoas que ficavam conhecendo o nome secreto de Deus podiam pedir-lhe favores especiais. Esta narrativa fala da necessidade do ho­ mem de encontrar Deus e levá-lo a com­ prometer-se com ele. Isto Deus não per­ mitiria a Jacó. Mais tarde, porém, de uma forma tremendamente dramática, ele revelaria o seu nome a Israel no Sinai, comprometendo-se para sempre com o seu povo mediante esse pacto. Em con­ trário, de acordo com a fonte Judia, todos os patriarcas, inclusive Jacó, co­ nheciam o nome de Deus (Yahweh). Pro­ nunciar o nome de Yahweh, quando os dois estavam lutando, significaria com­ prometer o nome santo. Quando a luta terminou, o nome não precisava ser dito a Jacó, pois ele sabia com quem havia-se encontrado. A minha vida foi preservada. Ao con­ tinuar a conversa, ela, provavelmente, se tomou suficientemente leve para Jacó ver a face do anjo. Em sua misericórdia, Deus o havia permitido. Contudo, ver a face do anjo não era a mesma coisa que ver Deus como ele era (Êx. 33), mas apenas como ele aparecia em forma hu­ mana. Coxeava de uma perna. Em lugar ne­ nhum se diz que este foi um ferimento permanente. Quando ele parou de lutar com Deus, as marcas de sua luta ainda estavam presentes. Que contraste com as seqüelas de Betei! Ali (29:1) se diz que ele “apanhou os seus pés”; aqui, ele começou a andar como aleijado. Lá, ele enfrentara o futuro com esperança; aqui (33:1), se diz que ele “levantou os olhos”, pois estivera a andar cabisbaixo. Lá, novos panoramas se lhe haviam aberto: uma porta para o céu; aqui, a ambição foi quebrada para sempre. Em Betei, ele esteve na “casa de Deus”; em Jaboque, esteve sozinho no deserto. Ali, a sua rea­ ção fora de admiração com a glória do momento; aqui, com a graça de Deus para com um pobre e fraco mortal. Ali, ele tivera uma experiência que podia entender e na qual podia se gloriar. Aqui, o encontro o deixara ponderando no que ele significava, temendo as suas conseqüências, mas reconhecendo a sua validade. Agora ele se conhecia, à sua alma interior. Nunca mais poderia ficar satisfeito com coisas materiais ou com uma multidão de filhos. Ele precisava ter Deus. 0 nervo do quadril. Não há referência a esta proibição na lei mosaica, mas era praticada posteriormente em Israel, bem como na época do escritor. Por que ela não foi mencionada na lei? Talvez por­ que, para as gerações posteriores, Deus não quisesse enfatizar as fraquezas de Jacó tanto quanto a fonte de sua força. Desta forma, deu-lhe o nome de Israel, para o levar consigo permanentemente, e não o seu caminhar coxeante. A ativida­ de física de Jacó no capítulo seguinte indica que ele estava sarando rapida­ mente. A maior parte dos eruditos identifica o “nervo” em questão como o nervo ciá­ tico. Delitzsch, que era judeu conver­ tido, diz que na prática judaica é uma veia existente nessa região. Para nós, hoje em dia, representa a cicatriz feita na alma, deixada pelo nosso combate mor­ tal com Deus, quando ele nos fez lembrar o seu domínio sobre nós.' Juntamente com Jacó, podemos ficar admirados de ainda termos sobrevivido, sabendo bem que foi apenas por causa da “incrível graça” de Deus. 6) O Encontro com Esaú (33:1-11) 1L evantou Jacó os olhos, e olhou, e eis que vinha E saú, e quatrocentos hom ens com ele. E ntão rep artiu os filhos en tre L éia, e R a ­ quel, e as duas serv as. 2 Pôs as serv as e seus filhos na frente, L éia e seus filhos a trá s destes, e R aquel e José por últim os. 3 M as ele m esm o passou adiante deles, e inclinou- 296
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    se em terra sete vezes, a té chegar perto de seu irm ão. 4 E ntão E saú correu-lhe ao en ­ contro, abraçou-o, lançou-se-lhe ao pescoço, e o beijou; e eles choraram . 5 E levantando E saú os olhos, viu a s m ulheres e os m eninos, e perguntou: Q uem são estes contigo? R es­ pondeu-lhe Jacó : Os filhos que D eus bondo­ sam ente tem dado a teu servo. 6 E ntão che- garam -se a s serv as, elas e seus filhos, e in- clinaram -se. 7 C hegaram -se tam bém L éla e seus filhos, e inclinaram -se; depois chega­ ram -se José e R aquel, e se inclinaram . 8 Perguntou E saú : Que queres dizer com todo este bando que tenho encontrado? R es­ pondeu J a c ó : P a ra ac h a r g raça aos olhos de m eu senhor. 9 M as E saú disse: Tenho b a s­ tante, m eu irm ão ; seja teu o que tens. 10 Repllcou-lhe Jacó : N ão, m as se ag o ra tenho achado g raça aos teus olhos, aceita o presente da m inha m ão; porquanto tenho visto o teu rosto, como se tivesse visto o rosto de D eus, e tu te ag rad aste de m im . 11A ceita, peço-te, o m eu presente, que eu te trouxe; porque D eus tem sido bondoso p a ra comigo, e porque tenho de tudo. E insistiu com ele, e ele o aceitou. Algo do velho Jacó ainda restara, pois ele colocou os membros menos amados de sua família na frente da comitiva, no caso de um encontro hostil com Esaú. Imagine-se como aquelas crianças não se sentiram, mas é claro que os filhos das escravas, da mesma forma como no inci­ dente entre Sara e Agar, não estavam no mesmo nível, exatamente, em que esta­ vam os das livres, nem o mais velho acima do mais novo. A aparente falta de sensibilidade para com os sentimentos deles foi mitigada pelo fato de Jacó ir na frente de todos eles. Antes de Peniel ele enviara presentes e pessoas adiante de si, enquanto ele ficara para trás. Obviamente, ainda ele estava ansioso, pois, apesar de todo o trauma da luta com o anjo, nada específico fora dito acerca da crise de Esaú. Quando ele avançou em direção a Esaú, aparente­ mente estava tendo poucas dificuldades com a sua coxa, pois não apenas foi caminhando à frente de todos, mas tam­ bém curvou-se sete vezes “em terra” diante de Esaú. Esta era a maneira como príncipes de menor importância, segun­ do as cartas de Amama (décimo quarto século a.C.), se curvavam diante de Fa­ raó. Costumeiramente, uma mesura era suficiente (18:2; 19:1). Jacó estava exage­ rando um pouco, para manifestar respei­ to ao seu próprio irmão! Esaú apeou e correu ao seu encontro, mas, ao invés de cair sobre ele, como o assaltante noturno havia feito, abra- çou-o com amor e afeição. Um midrash judaico posterior mudou as palavras “beijou-o” para “refreou-o”, o que dis­ torceu completamente o significado (von Rad, p. 322). Da mesma forma como no capítulo 27 atraiu a nossa simpatia, aqui ele merece a nossa admiração. Que queres dizer com todo este ban­ do? Esta expressão, em outras passa­ gens, é usada a respeito da família de Jacó, mas aqui ela é usada a respeito dos presentes que ele havia enviado a Esaú. Visto que se disse que Jacó dividiu tudo o que tinha em dois grupos (32:7), alguns expositores supõem que ele ofereceu a Esaú metade de sua propriedade. Não é provável ter sido este o caso. O presente enviado a Esaú em vários rebanhos, em­ bora considerável (32:14,15), provavel­ mente não consistia em metade do que ele possuía. Por que Esaú não sabia qual era o objetivo do presente? Os servos de Jacó não lhe haviam contado? Antes de o terem informado, eles podem ter corrido de volta para advertir Jacó (cf. os co­ mentários sobre 32:6). Ê mais provável que Esaú ignorara as palavras dos servos, e procurara saber a verdade diretamente do próprio Jacó. Tenho visto o teu rosto, como se tives­ se visto o rosto de Deus. Como é que Jacó podia, ao olhar para o rosto de Esaú, ter- se lembrado da “face de Deus”? Era certamente a fisionomia de perdão de Esaú, a mesma expressão que Jacó pro­ vavelmente vira na face do anjo (cf. v. 10b). Aceita, peço-te, o meu presente. A palavra hebraica traduzida como “pre- 297
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    sente” significa bênção,oferta de boa vontade (cf. I Sam. 25:27; 30:26; II Reis 5:15). O fato de Esaú recusá-la signifi­ caria que ele, na verdade, não havia perdoado o seu irmão. Se a sua afeição era sincera, a oferta de Jacó não lhe deixava outra alternativa senão aceitá-la. Jacó apresentou duas razões por que ele podia permitir-se o luxo de dar aque­ les presentes. Primeiro, Deus o havia abençoado e esperava-se que continuaria a fazê-lo. Segundo, ele tinha tudo o de que necessitava (heb., “tenho tudo”). Antes disso, Esaú não dissera “tenho o suficiente” (v. 9), mas “tenho bastante” . O que Jacó queria dizer era que tinha tudo o de que precisava. A expressão de Esaú abriu caminho para outra oferta.__ 7) Trilham Caminhos Separados (33:12-20) 12 E ntão E saú disse: Ponham o-nos a c a ­ m inho e vam os; eu irei adiante de ti. 13 R es­ pondeu-lhe Jacó : M eu senhor sabe que estes Olhos são tenros, e que tenho com igo ove­ lhas e v acas de le ite ; se forem obrigadas a cam inhar dem ais por um só dia, todo o rebanho m o rrerá. 14 P asse o m eu senhor adiante de seu servo; e eu seguirei, condu­ zindo-os calm am ente, conform e o passo do gado que está diante de m im , e conform e o passo dos m eninos, até que chegue a m eu senhor em Seir. 15 Ao que disse E saú : P e r­ m ite ao m enos que eu deixe contigo alguns da m inha gente. Replicou Jacó : P a ra quê? B asta que eu ache g raça aos olhos de m eu senhor. 16 A ssim tornou E saú aquele dia pelo seu cam inho em direção a Seir. 17 Jacó, porém , partiu p a ra Sucote, e edificou p a ra si um a casa, e fez b a rra c a s p a ra o seu g ad o ; por isso o lu g ar se ch am a Sucote. 18 D epois chegou Jacó em paz à cidade de Siquém , que está n a te rra de C anaã, quando veio de P adã-A rã; e arm ou a su a tenda diante da cidade. 19 E com prou a p arte do cam po, em que estendera a sua tenda, dos filhos de H am or, p ai de Siquém , por cem peças de dinheiro. 20 E ntão levantou ali um a lta r, e cham ou-lhe E l-E loé-Israel. Nesta seção Esaú revelou a face prin­ cipesca de sua natureza. Devido à sua maneira de agir, Lutero argumentou elo­ qüentemente que Esaú havia chegado à fé. Ele ofereceu a Jacó toda sorte de ajuda, coisa que o seu irmão rejeitou fir­ memente. Primeiro, ele se ofereceu para escoltá-lo até Seir, serviço que Jacó rejei­ tou, dizendo que isso retardaria desne­ cessariamente o contingente de Esaú. Em seguida, Esaú quis emprestar uma escolta para protegê-lo. Isto também Jacó recusou, dizendo que o fato de Esaú ter-lhe concedido o seu perdão era tudo o que ele podia pedir. Por que precisava ele de proteção, se Deus estava com ele? Já então estava meridianamente claro para Esaú que Jacó não queria que ele ficasse por perto. E foi suficientemente benevolente para não acusar Jacó de falta de afeição fraternal. Ele simplesmente se afastou, provavelmente pesaroso, para aparecer na história bíblica apenas mais uma vez por ocasião da morte de Isaque (35:29). Até que chegue a meu senhor em Seir. Dificilmente esta parecia ser a intenção de Jacó, pois logo que Esaú se afastou, ele se moveu na direção contrária. Con­ tudo, não se pode ser demasiadamente crítico, pois na hora pode ser que ele ten­ cionasse fazê-lo, mas, tendo refletido me­ lhor, mudou de idéia. Além disso, Esaú fê-lo lembrar demasiadamente da vida que eles haviam tido, que não devia voltar a ocorrer. Por outro lado, a suspei­ ta pode ter levado Jacó a mentir aberta­ mente a respeito de todas as sugestões de Esaú. A sua purificação final não fora conseguida plenamente em Penuel. Este processo levaria mais tempo do que Jacó tivera à sua disposição. Von Rad e outros estão convictos de que há duas tradições a respeito do lugar em que Esaú morava na época, uma dé que era no extremo sul (Edom) e outra de que era na região ao leste do Jordão, onde o vemos nesta passagem. Uma tribo como a dele, todavia, tinha considerável mobilidade. Sucote significa cabanas, como na Fes­ ta dos Tabernáculos (das cabanas). Ali Jacó edificou uma “casa”. Pode ser tam­ bém que ela tenha sido uma estrutura 298
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    temporária, embora algunsexpositores presumam uma permanência mais pro­ longada (Kidner). Não conhecemos a sua localização. Chegou Jacó em paz à cidade de Si- quém. A palavra traduzida como “em paz” é interpretada como uma cidade, “Salem” , na KJV, e existe uma aldeia com o nome de Salim perto de Siquém. A raiz da palavra é shalam (estar segu­ ro), e daí shalom, “paz, segurança para voce . Nada sabemos do valor do dinheiro que ele pagou pela propriedade perto de Siquém. Esta foi a segunda compra de terra em Canaã efetuada por um patriar­ ca. Mais tarde, José foi sepultado ali (Jos. 24:32). Tanto Abraão quanto Jacó adquiriram propriedades no sul, mas com objetivos diferentes: Abraão para lugar de sepultamento para os seus mor­ tos e Jacó para espaço onde a sua famí­ lia em crescimento pudesse viver. Levantou ali um altar. Em nenhum outro lugar este verbo é usado em relação a um altar. Ele costumeiramente des­ cre