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PROJETO PROCESSO CRIATIVO EM DANÇA
(CONTEMPLADO COM O EDITAL PROCARTE 002/2014 - PROEXC/UFVJM)
Coordenação Geral e Direção Artística:
José Rafael Madureira*
Produção:
Guilherme Vieira Neves Lima
INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA
Desde a inauguração do Laboratório de Dança do Departamento de Educação Física da UFVJM
(campus Diamantina/MG), em abril de 2014, foi possível intensificar as atividades práticas do Grupo de
Estudos em Técnicas e Métodos de Ensino de Dança, Teatro e Música (CNPq/UFVJM), cuja produção
cênica estava um pouco limitada pela falta de um espaço adequado à pesquisa criativa.
As atividades práticas do grupo foram retomadas com a participação de antigos membros e novos
integrantes, estudantes e artistas de Diamantina e região. Os resultados desses encontros iniciais
foram bastante satisfatórios. Participamos do PRÊMIO DIAMANTINA DANÇA EM CENA, organizado
pela secretaria de cultura do município e conquistamos o primeiro lugar com o estudo coreográfico
RAPSÓDIA PARA DOIS. A criação foi concebida a partir da Rapsódia (1956) de Ernst Mahle, uma
peça escrita para violino solo e realizada em consonância com os ideais do manifesto Música Viva,
liderado por Koellreutter. A Rapsódia de Mahle inspirou a criação de um estudo coreográfico
expressionista e especialmente lúdico, que despertou a atenção de um público desacostumado com a
linguagem da dança contemporânea. A experiência fortaleceu em nós a convicção que temos sobre a
potência da arte na sensibilização dos indivíduos e sobre a intrínseca e necessária relação entre a
dança e a música.
A música tem um status garantido em Diamantina, o que não surpreende observando-se a
tradição musical da cidade, desde os tempos do Arraial do Tejuco. A dança, excetuando-se as danças
de salão dos bailes da aristocracia financeira da cidade, de forte orientação estética europeia, nunca
teve por aqui o devido destaque. É evidente que as danças de tradição ancestral, em especial aquelas
trazidas pelos povos africanos, estiveram sempre presentes, apesar de serem proibidas. O Lundu, por
exemplo, a contragosto de alguns, acabou sendo assimilado pelas danças de salão, o que é bastante
curioso.
Ainda é possível testemunhar as manifestações de grupos tradicionais de marujada e congada,
que invadem as ruas de Diamantina durante os ciclos religiosos, um fenômeno que enriquece o
panorama cultural da cidade, mas que, em geral, é visto como expressão do exótico e consumido como
produto turístico.
Neste projeto, abordaremos a dança de tradição acadêmica, compreendida como um gênero
teatral (CASINI-ROPA, 1990), que se inspirou nas danças tradicionais, mas seguiu uma orientação
bastante particular, ultrapassando as fronteiras das expressões espontâneas, sociais ou religiosas.
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No ocidente, a dança de tradição acadêmica nasceu com a dança barroca, cujas estruturas
rítmico-coreográficas foram baseadas nas danças populares como, por exemplo, a contredanse
francesa, uma versão mais austera da country-dance inglesa.
A dança barroca surgiu em meados do século XVI, tornando-se um elemento chave para a
educação corporal e gestual do cortesão, que deveria controlar seus gestos com exatidão, além de
manter-se em perfeito alinhamento vertical. Não saber dançar era considerado pela sociedade de corte
uma falta da mais elevada gravidade (CASTIGLIONI, 1997).
Devido à sua plasticidade, a dança barroca, assim como a música do mesmo período,
especializou-se, afastando-se de seu caráter social original e reorganizando-se como uma nova
linguagem artística de grande expressividade e virtuosismo, traduzida no balé de ação (MONTEIRO,
1998) que foi posteriormente denominado balé clássico.
O declínio do balé romântico, em meados do século XIX, impulsionou a modernidade na dança,
em especial na Europa - com Dalcroze, Laban, Mary Wigman, e Estados Unidos - com Isadora Duncan,
Ted Shawn e Martha Graham. O século XX possibilitou à dança investigar novas formas e pedagogias
que pudessem traduzir a realidade de um novo e trágico momento histórico, atravessado por duas
guerras mundiais (GARAUDY, 1994).
Em Diamantina, a presença da dança moderna, de orientação acadêmica, é bastante tímida,
limitando-se a um pequeno grupo de artistas, professores e coreógrafos. Entre os primeiros
profissionais da dança que estiveram por aqui, destacamos Natália Lessa, natural de São João da
Chapada, uma figura emblemática que fundou a primeira escola de dança de Minas Gerais, inaugurada
em Belo Horizonte no ano de 1934, e que vinha para Diamantina com frequência para ministrar cursos
e oficinas de dança (CHAVES, 2013).
A dança como área de conhecimento acadêmico foi legitimada nesta universidade com a criação
do curso de licenciatura em Educação Física, cuja matriz curricular prevê a presença desse
conhecimento. Além da disciplina Dança, destinada aos alunos do curso de Educação Física como
componente curricular e oferecida todos os semestres, coordenamos o Grupo de Estudos em Métodos
e Técnicas de Ensino de Dança, Teatro e Música (CNPq/UFVJM), fundado em 2010, responsável pela
produção científica sobre a temática.
Alguns projetos de extensão já foram desenvolvidos pelo grupo como, por exemplo: OS TIPOS
POPULARES DE DIAMANTINA, realizado em parceria com o Museu do Diamante, A DANÇA E A
FORMAÇÃO INTEGRAL DA CRIANÇA, realizado em parceria com a Vila Educacional de Meninas e
RÍTMICA DALCROZE A E FORMAÇÃO DE CRIANÇAS MUSICISTAS, realizado em parceria com o
Conservatório Estadual de Música Lobo de Mesquita , sendo que dois últimos foram comtemplados
pelo edital PIBEX (PROEXC/UFVJM).
Este projeto, além de agregar membros da comunidade acadêmica e artistas de Diamantina e
região, poderá contribuir com a produção cultural da cidade na área das dança/artes cênicas, através
3
da criação de estudos coreográficos a serem publicamente apresentados. É importante ressaltar a
parceria com os músicos da cidade, o que irá contribuir na interação entre os artistas-criadores a partir
da pesquisa e execução de diversos gêneros musicais e coreográficos.
Em relação às Metas do Plano Nacional de Cultura, destacamos a consonância deste projeto com
a META DE NÚMERO 22, que aponta para o apoio, o incentivo e a valorização de grupos e coletivos
locais, pois: [...] são espaços privilegiados para a experimentação e inovação tanto amadora como
profissional. Além disso, são lugares nos quais as manifestações artísticas podem ser divulgadas e a
diversidade cultural, valorizada.” (BRASIL, 2012, p. 68). E como temos o propósito de levar a produção
criativa deste projeto até as escolas municipais e estaduais de Diamantina e região, nos aproximamos
da META DE NÚMERO 14, que propõe: “Oferecer atividades de arte e cultura em 100 mil escolas
públicas de ensino básico”. (ibidem, p. 50).
Por fim, dentro dos objetivos específicos deste projeto e observando-se a inexistência de cursos
superiores de artes nesta região, pretendemos promover oficinas destinadas aos professores de artes,
de modo a compartilhar o pensamento, as técnicas e os métodos de pesquisa que sustentam o
processo criativo em dança, o que nos aproxima da META DE NÚMERO 13: “Proporcionar
aperfeiçoamento profissional à 20 mil professores de Artes do Ensino Médio em escolas Públicas”.
(ibidem, p. 48).
OBJETIVO GERAL
Criar 08 estudos coreográficos a partir de obras musicais formais e experimentações sonoras a
serem apresentados em escolas públicas de ensino infantil, fundamental e médio de Diamantina e
região com a participação de músicos convidados.
METODOLOGIA
Os encontros práticos de estudo e criação serão realizados preferencialmente no Laboratório de
Dança (DEFI-UFVJM), que dispõe de condições ideais para a execução desta proposta (piso de
madeira flutuante, sistema de som amplificado e instrumentos musicais).
I. DOS ENCONTROS DE PESQUISA CRIATIVA
Os encontros de pesquisa criativa serão realizados semanalmente com duração de 6 horas
divididas em duas sessões. Cada sessão será organizada em três momentos: 1) Preparação
técnico-expressiva com base na técnica da Eutonia aplicada à dança e nos estudos prático-
teóricos da Rítmica de Jaques-Dalcroze, da Estética Aplicada de François Delsarte e da
Coreologia de Rudolf Laban; 2) Improvisação temática individual e em grupo; 3) Organização do
material expressivo desenvolvido e composição de estudos coreográficos.
II. DA PESQUISA DE REPERTÓRIO E EXPERIMENTAÇÃO DE TRILHAS SONORAS
Realizaremos, durante todo processo pesquisa de repertório musical erudito e tradicional que seja
adequado à proposta, ou seja, peças curtas e dinâmicas que possibilitem a transcriação da música
em dança. Também está previsto a criação de trilhas sonoras a partir de arquivos digitais (efeitos,
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ruídos, sampler), que serão produzidas especialmente para os estudos coreográficos, o que nos
lança num processo de experimentação bastante interessante e presente na música concreta e no
conceito de landscape ou paisagem sonora de Schafer (2012).
III. DAS PERFORMANCES E INTERVENÇÕES
Os estudos coreográficos serão apresentados em escolas de educação infantil, fundamental e
médio da rede pública de ensino de Diamantina e região com o propósito de despertar a
imaginação das crianças e incitar neles a vontade de fazer arte.
IV. REGISTRO E DIVULGAÇÃO OS ESTUDOS COREOGRÁFICOS
Os estudos, assim que finalizados e publicamente experimentados, serão filmados, editados em
linguagem videográfica e divulgados na rede.
METAS
1. Criar um total de 08 estudos coreográficos.
2. Realizar um total de 30 apresentações durante o ano letivo de 2015 em escolas públicas de
ensino infantil, fundamental e médio de Diamantina e região.
3. Divulgar os 08 estudos coreográficos através de edições em vídeo a serem disponibilizadas na
rede.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ADORNO, Theodor. O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição. Textos Escolhidos. 2. Ed. São
Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 165-191.
ALEXANDER, Gerda. Eutonia: um caminho para a percepção corporal. 2. Ed. São Paulo: Martins
Fontes, 1991.
ALMEIDA. Milton José de. Imagens e Sons: a nova cultura oral. São Paulo: Cortez, 1994.
APPIA, Adolphe. A Obra de Arte Viva. Lisboa: Editora Arcádia, (s. d.).
BARBA, Eugenio e SAVARESE, Nicola. A Arte Secreta do Ator: dicionário de antropologia teatral. São
Paulo-Campinas: Hucitec e Editora da UNICAMP, 1995.
BRASIL. Ministério da Cultura. As Metas do Plano Nacional de Cultura. Brasília, 2012.
BURNIER, Luis Otávio. A Arte de Ator: da técnica à representação. Campinas: Unicamp, 2001.
CASTIGLIONE, Baldassare. O Cortesão. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
CHAVES, Elisângela. Uma escola de graça, saúde e beleza: Natália Lessa, a dança e a educação da
feminilidade. Belo Horizonte: Faculdade de Educação da UFMG, 2013, 233 p. (tese de doutorado).
DOSSIER AUTOUR DE RUDOLF LABAN. Nouvelles de Danse. Bruxelles, n. 25, 1995.
DUPUY, Françoise. On ne danse jamais seule. Paris: Ressouvenances, 2012.
5
FINDLAY, Elsa. Rhtythm and Movement: applications of Dalcroze Eurthymics. California: Summy-
Birchard Inc., 1971.
GARAUDY, Roger. Dançar a Vida. 6. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
GRAMANI, José Eduardo. Rítmica. São Paulo: Perspectiva, 2009.
HARNONCOURT, Nikolaus. O diálogo musical. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.
JAQUES-DALCROZE, Émile. La Rythmique. Lausanne: Jobin & Cie, 1916.
_________. Le Rythme, la Musique et L’Éducation [1965]. Lausanne: Editions Fœtisch.
KATER, Carlos. Música Viva e H. J. Koellreutter: movimentos em direção à modernidade. São Paulo:
Musa, 2001.
LABAN, Rudolf. O Domínio do Movimento. 3. Ed. São Paulo: Summus, 1978.
LOUPPE, Laurence. Poètique de la Danse Contemporaine. Paris: Contre Danse, 1997.
MADUREIRA, José Rafael. A estética aplicada de François Delsarte: entre memórias e esquecimentos,
Imaginário (USP). São Paulo, n.17-18, p.310-345, 2009.
MILLER, Jussara. A Escuta do Corpo: sistematização da técnica Klauss Vianna. São Paulo: Summus
Editorial, 2007.
MOMENSOHN, Maria e PETRELA, Paulo. (orgs.) Reflexões sobre Laban o mestre do movimento. São
Paulo: Summus, 2006.
MONTEIRO, Marianna. Noverre: cartas sobre a dança. São Paulo: Edusp, 1998.
RENGEL, Lenira. Dicionário Laban. 3. Ed. São Paulo: Anadarco, 2014.
ROBATTO, Lia. Dança em Processo: a linguagem do indizível. Bahia: Centro Editorial da UFBA, 1994.
CASINI-ROPA, Eugenia. (org.). Alle Origine della Danza Moderna. Bologna: Il Mulino, 1990.
SCHAFER, Murray. Afinação do Mundo. 2. Ed. São Paulo: Editora da UNESP, 2012.
WISNIK, José Miguel. O som e o sentido. 2. Ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1999.
* JOSÉ RAFAEL MADUREIRA possui mestrado e doutorado em Educação, Linguagem e Arte pela UNICAMP. É professor
de Dança e Rítmica junto ao Departamento de Educação Física da UFVJM e líder do Grupo de Estudos em Métodos e
Técnicas de Ensino de Dança, Teatro e Música (CNPq/UFVJM). Realizou especializações no Centre d’Études et
Recherches en Danse Contemporaine - Mas de la Danse (França) e no Dipartimento di Musica e Spettacolo - Universitá
degli Studi di Bologna (Itália). Foi professor na Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás e no
Departamento de Linguagem e Arte da Faculdade de Educação da UNICAMP. Estuda a Estética Aplicada de François
Delsarte e a Rítmica de Jaques-Dalcroze, cujos desdobramentos orientam trabalhos sobre a expressão dramática na dança
e sobre métodos e técnicas de ensino de dança, teatro e música. Escreveu e dirigiu diversas obras cênicas, destacando-se:
Échasse (Goiânia, BH, SP, RJ, Buenos Aires e Chile), Homenagem à Augusta Faro (Goiás/GO), Cinzas (Muzambinho/MG),
Retirantes (Muzambinho/MG), Julie (Americana/SP), Colapso (SESC Santos/SP), O Sonho de Sarah (SESC Campinas/SP)
e, em Diamantina, O Sublime Labroque, Oblivion, Rapsódia, Para Aline e Rapsódia para Dois.

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  • 1. 1 PROJETO PROCESSO CRIATIVO EM DANÇA (CONTEMPLADO COM O EDITAL PROCARTE 002/2014 - PROEXC/UFVJM) Coordenação Geral e Direção Artística: José Rafael Madureira* Produção: Guilherme Vieira Neves Lima INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA Desde a inauguração do Laboratório de Dança do Departamento de Educação Física da UFVJM (campus Diamantina/MG), em abril de 2014, foi possível intensificar as atividades práticas do Grupo de Estudos em Técnicas e Métodos de Ensino de Dança, Teatro e Música (CNPq/UFVJM), cuja produção cênica estava um pouco limitada pela falta de um espaço adequado à pesquisa criativa. As atividades práticas do grupo foram retomadas com a participação de antigos membros e novos integrantes, estudantes e artistas de Diamantina e região. Os resultados desses encontros iniciais foram bastante satisfatórios. Participamos do PRÊMIO DIAMANTINA DANÇA EM CENA, organizado pela secretaria de cultura do município e conquistamos o primeiro lugar com o estudo coreográfico RAPSÓDIA PARA DOIS. A criação foi concebida a partir da Rapsódia (1956) de Ernst Mahle, uma peça escrita para violino solo e realizada em consonância com os ideais do manifesto Música Viva, liderado por Koellreutter. A Rapsódia de Mahle inspirou a criação de um estudo coreográfico expressionista e especialmente lúdico, que despertou a atenção de um público desacostumado com a linguagem da dança contemporânea. A experiência fortaleceu em nós a convicção que temos sobre a potência da arte na sensibilização dos indivíduos e sobre a intrínseca e necessária relação entre a dança e a música. A música tem um status garantido em Diamantina, o que não surpreende observando-se a tradição musical da cidade, desde os tempos do Arraial do Tejuco. A dança, excetuando-se as danças de salão dos bailes da aristocracia financeira da cidade, de forte orientação estética europeia, nunca teve por aqui o devido destaque. É evidente que as danças de tradição ancestral, em especial aquelas trazidas pelos povos africanos, estiveram sempre presentes, apesar de serem proibidas. O Lundu, por exemplo, a contragosto de alguns, acabou sendo assimilado pelas danças de salão, o que é bastante curioso. Ainda é possível testemunhar as manifestações de grupos tradicionais de marujada e congada, que invadem as ruas de Diamantina durante os ciclos religiosos, um fenômeno que enriquece o panorama cultural da cidade, mas que, em geral, é visto como expressão do exótico e consumido como produto turístico. Neste projeto, abordaremos a dança de tradição acadêmica, compreendida como um gênero teatral (CASINI-ROPA, 1990), que se inspirou nas danças tradicionais, mas seguiu uma orientação bastante particular, ultrapassando as fronteiras das expressões espontâneas, sociais ou religiosas.
  • 2. 2 No ocidente, a dança de tradição acadêmica nasceu com a dança barroca, cujas estruturas rítmico-coreográficas foram baseadas nas danças populares como, por exemplo, a contredanse francesa, uma versão mais austera da country-dance inglesa. A dança barroca surgiu em meados do século XVI, tornando-se um elemento chave para a educação corporal e gestual do cortesão, que deveria controlar seus gestos com exatidão, além de manter-se em perfeito alinhamento vertical. Não saber dançar era considerado pela sociedade de corte uma falta da mais elevada gravidade (CASTIGLIONI, 1997). Devido à sua plasticidade, a dança barroca, assim como a música do mesmo período, especializou-se, afastando-se de seu caráter social original e reorganizando-se como uma nova linguagem artística de grande expressividade e virtuosismo, traduzida no balé de ação (MONTEIRO, 1998) que foi posteriormente denominado balé clássico. O declínio do balé romântico, em meados do século XIX, impulsionou a modernidade na dança, em especial na Europa - com Dalcroze, Laban, Mary Wigman, e Estados Unidos - com Isadora Duncan, Ted Shawn e Martha Graham. O século XX possibilitou à dança investigar novas formas e pedagogias que pudessem traduzir a realidade de um novo e trágico momento histórico, atravessado por duas guerras mundiais (GARAUDY, 1994). Em Diamantina, a presença da dança moderna, de orientação acadêmica, é bastante tímida, limitando-se a um pequeno grupo de artistas, professores e coreógrafos. Entre os primeiros profissionais da dança que estiveram por aqui, destacamos Natália Lessa, natural de São João da Chapada, uma figura emblemática que fundou a primeira escola de dança de Minas Gerais, inaugurada em Belo Horizonte no ano de 1934, e que vinha para Diamantina com frequência para ministrar cursos e oficinas de dança (CHAVES, 2013). A dança como área de conhecimento acadêmico foi legitimada nesta universidade com a criação do curso de licenciatura em Educação Física, cuja matriz curricular prevê a presença desse conhecimento. Além da disciplina Dança, destinada aos alunos do curso de Educação Física como componente curricular e oferecida todos os semestres, coordenamos o Grupo de Estudos em Métodos e Técnicas de Ensino de Dança, Teatro e Música (CNPq/UFVJM), fundado em 2010, responsável pela produção científica sobre a temática. Alguns projetos de extensão já foram desenvolvidos pelo grupo como, por exemplo: OS TIPOS POPULARES DE DIAMANTINA, realizado em parceria com o Museu do Diamante, A DANÇA E A FORMAÇÃO INTEGRAL DA CRIANÇA, realizado em parceria com a Vila Educacional de Meninas e RÍTMICA DALCROZE A E FORMAÇÃO DE CRIANÇAS MUSICISTAS, realizado em parceria com o Conservatório Estadual de Música Lobo de Mesquita , sendo que dois últimos foram comtemplados pelo edital PIBEX (PROEXC/UFVJM). Este projeto, além de agregar membros da comunidade acadêmica e artistas de Diamantina e região, poderá contribuir com a produção cultural da cidade na área das dança/artes cênicas, através
  • 3. 3 da criação de estudos coreográficos a serem publicamente apresentados. É importante ressaltar a parceria com os músicos da cidade, o que irá contribuir na interação entre os artistas-criadores a partir da pesquisa e execução de diversos gêneros musicais e coreográficos. Em relação às Metas do Plano Nacional de Cultura, destacamos a consonância deste projeto com a META DE NÚMERO 22, que aponta para o apoio, o incentivo e a valorização de grupos e coletivos locais, pois: [...] são espaços privilegiados para a experimentação e inovação tanto amadora como profissional. Além disso, são lugares nos quais as manifestações artísticas podem ser divulgadas e a diversidade cultural, valorizada.” (BRASIL, 2012, p. 68). E como temos o propósito de levar a produção criativa deste projeto até as escolas municipais e estaduais de Diamantina e região, nos aproximamos da META DE NÚMERO 14, que propõe: “Oferecer atividades de arte e cultura em 100 mil escolas públicas de ensino básico”. (ibidem, p. 50). Por fim, dentro dos objetivos específicos deste projeto e observando-se a inexistência de cursos superiores de artes nesta região, pretendemos promover oficinas destinadas aos professores de artes, de modo a compartilhar o pensamento, as técnicas e os métodos de pesquisa que sustentam o processo criativo em dança, o que nos aproxima da META DE NÚMERO 13: “Proporcionar aperfeiçoamento profissional à 20 mil professores de Artes do Ensino Médio em escolas Públicas”. (ibidem, p. 48). OBJETIVO GERAL Criar 08 estudos coreográficos a partir de obras musicais formais e experimentações sonoras a serem apresentados em escolas públicas de ensino infantil, fundamental e médio de Diamantina e região com a participação de músicos convidados. METODOLOGIA Os encontros práticos de estudo e criação serão realizados preferencialmente no Laboratório de Dança (DEFI-UFVJM), que dispõe de condições ideais para a execução desta proposta (piso de madeira flutuante, sistema de som amplificado e instrumentos musicais). I. DOS ENCONTROS DE PESQUISA CRIATIVA Os encontros de pesquisa criativa serão realizados semanalmente com duração de 6 horas divididas em duas sessões. Cada sessão será organizada em três momentos: 1) Preparação técnico-expressiva com base na técnica da Eutonia aplicada à dança e nos estudos prático- teóricos da Rítmica de Jaques-Dalcroze, da Estética Aplicada de François Delsarte e da Coreologia de Rudolf Laban; 2) Improvisação temática individual e em grupo; 3) Organização do material expressivo desenvolvido e composição de estudos coreográficos. II. DA PESQUISA DE REPERTÓRIO E EXPERIMENTAÇÃO DE TRILHAS SONORAS Realizaremos, durante todo processo pesquisa de repertório musical erudito e tradicional que seja adequado à proposta, ou seja, peças curtas e dinâmicas que possibilitem a transcriação da música em dança. Também está previsto a criação de trilhas sonoras a partir de arquivos digitais (efeitos,
  • 4. 4 ruídos, sampler), que serão produzidas especialmente para os estudos coreográficos, o que nos lança num processo de experimentação bastante interessante e presente na música concreta e no conceito de landscape ou paisagem sonora de Schafer (2012). III. DAS PERFORMANCES E INTERVENÇÕES Os estudos coreográficos serão apresentados em escolas de educação infantil, fundamental e médio da rede pública de ensino de Diamantina e região com o propósito de despertar a imaginação das crianças e incitar neles a vontade de fazer arte. IV. REGISTRO E DIVULGAÇÃO OS ESTUDOS COREOGRÁFICOS Os estudos, assim que finalizados e publicamente experimentados, serão filmados, editados em linguagem videográfica e divulgados na rede. METAS 1. Criar um total de 08 estudos coreográficos. 2. Realizar um total de 30 apresentações durante o ano letivo de 2015 em escolas públicas de ensino infantil, fundamental e médio de Diamantina e região. 3. Divulgar os 08 estudos coreográficos através de edições em vídeo a serem disponibilizadas na rede. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADORNO, Theodor. O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição. Textos Escolhidos. 2. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 165-191. ALEXANDER, Gerda. Eutonia: um caminho para a percepção corporal. 2. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991. ALMEIDA. Milton José de. Imagens e Sons: a nova cultura oral. São Paulo: Cortez, 1994. APPIA, Adolphe. A Obra de Arte Viva. Lisboa: Editora Arcádia, (s. d.). BARBA, Eugenio e SAVARESE, Nicola. A Arte Secreta do Ator: dicionário de antropologia teatral. São Paulo-Campinas: Hucitec e Editora da UNICAMP, 1995. BRASIL. Ministério da Cultura. As Metas do Plano Nacional de Cultura. Brasília, 2012. BURNIER, Luis Otávio. A Arte de Ator: da técnica à representação. Campinas: Unicamp, 2001. CASTIGLIONE, Baldassare. O Cortesão. São Paulo: Martins Fontes, 1997. CHAVES, Elisângela. Uma escola de graça, saúde e beleza: Natália Lessa, a dança e a educação da feminilidade. Belo Horizonte: Faculdade de Educação da UFMG, 2013, 233 p. (tese de doutorado). DOSSIER AUTOUR DE RUDOLF LABAN. Nouvelles de Danse. Bruxelles, n. 25, 1995. DUPUY, Françoise. On ne danse jamais seule. Paris: Ressouvenances, 2012.
  • 5. 5 FINDLAY, Elsa. Rhtythm and Movement: applications of Dalcroze Eurthymics. California: Summy- Birchard Inc., 1971. GARAUDY, Roger. Dançar a Vida. 6. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994. GRAMANI, José Eduardo. Rítmica. São Paulo: Perspectiva, 2009. HARNONCOURT, Nikolaus. O diálogo musical. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. JAQUES-DALCROZE, Émile. La Rythmique. Lausanne: Jobin & Cie, 1916. _________. Le Rythme, la Musique et L’Éducation [1965]. Lausanne: Editions Fœtisch. KATER, Carlos. Música Viva e H. J. Koellreutter: movimentos em direção à modernidade. São Paulo: Musa, 2001. LABAN, Rudolf. O Domínio do Movimento. 3. Ed. São Paulo: Summus, 1978. LOUPPE, Laurence. Poètique de la Danse Contemporaine. Paris: Contre Danse, 1997. MADUREIRA, José Rafael. A estética aplicada de François Delsarte: entre memórias e esquecimentos, Imaginário (USP). São Paulo, n.17-18, p.310-345, 2009. MILLER, Jussara. A Escuta do Corpo: sistematização da técnica Klauss Vianna. São Paulo: Summus Editorial, 2007. MOMENSOHN, Maria e PETRELA, Paulo. (orgs.) Reflexões sobre Laban o mestre do movimento. São Paulo: Summus, 2006. MONTEIRO, Marianna. Noverre: cartas sobre a dança. São Paulo: Edusp, 1998. RENGEL, Lenira. Dicionário Laban. 3. Ed. São Paulo: Anadarco, 2014. ROBATTO, Lia. Dança em Processo: a linguagem do indizível. Bahia: Centro Editorial da UFBA, 1994. CASINI-ROPA, Eugenia. (org.). Alle Origine della Danza Moderna. Bologna: Il Mulino, 1990. SCHAFER, Murray. Afinação do Mundo. 2. Ed. São Paulo: Editora da UNESP, 2012. WISNIK, José Miguel. O som e o sentido. 2. Ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1999. * JOSÉ RAFAEL MADUREIRA possui mestrado e doutorado em Educação, Linguagem e Arte pela UNICAMP. É professor de Dança e Rítmica junto ao Departamento de Educação Física da UFVJM e líder do Grupo de Estudos em Métodos e Técnicas de Ensino de Dança, Teatro e Música (CNPq/UFVJM). Realizou especializações no Centre d’Études et Recherches en Danse Contemporaine - Mas de la Danse (França) e no Dipartimento di Musica e Spettacolo - Universitá degli Studi di Bologna (Itália). Foi professor na Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás e no Departamento de Linguagem e Arte da Faculdade de Educação da UNICAMP. Estuda a Estética Aplicada de François Delsarte e a Rítmica de Jaques-Dalcroze, cujos desdobramentos orientam trabalhos sobre a expressão dramática na dança e sobre métodos e técnicas de ensino de dança, teatro e música. Escreveu e dirigiu diversas obras cênicas, destacando-se: Échasse (Goiânia, BH, SP, RJ, Buenos Aires e Chile), Homenagem à Augusta Faro (Goiás/GO), Cinzas (Muzambinho/MG), Retirantes (Muzambinho/MG), Julie (Americana/SP), Colapso (SESC Santos/SP), O Sonho de Sarah (SESC Campinas/SP) e, em Diamantina, O Sublime Labroque, Oblivion, Rapsódia, Para Aline e Rapsódia para Dois.