Camões

         Corrente renascentista
Oh! como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!

Vai se gastando a idade e cresce o dano;
perde se me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde, e da esperança.
Vocabulário:
                                             1. peregrinação: longo percurso
                                             2. vão: inútil
                                             3. discurso humano: passagem pela vida
Oh, como se me alonga, de ano em ano,        4. dano: mal, sofrimento
A peregrinação cansada minha!                5. se por experiência se adivinha: se a
Como se encurta, e como ao fim caminha       experiência permite prever o futuro
Este meu breve e vão discurso humano!        6. bem: felicidade
                                             7. falece: falta (capacidade de atingir um fim)
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;     8. parece: aparece
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece,
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.
Tema:
                                 A DESILUSÃO DE VIVER


Oh, como se me alonga, de ano em ano,
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha           Uma reflexão sobre a sua vida
Este meu breve e vão discurso humano!            suscita no poeta sentimentos
                                                 contraditórios: o cansaço de
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;         viver e pena de caminhar
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;          para o fim.
Se por experiência se adivinha,                  Lamenta ao mesmo tempo o
Qualquer grande esperança é grande engano.       prolongamento e a brevidade
                                                 da sua vida. O tempo
Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece,                    passa, as mágoas crescem e
Mil vezes caio, e perco a confiança.             desvanecem-se as últimas
                                                 esperanças.
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.
Tema: Desconcerto Pessoal




Oh, como se me alonga, de ano em ano,
                                             Passagem do tempo (peregrinação) e
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
                                             mudança para pior, que leva à perda
Este meu breve e vão discurso humano!        da confiança.

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,              Assunto: Fala sobre a esperança que o
Qualquer grande esperança é grande engano.   sujeito poético teve ao longo da sua
                                             vida e respetivas consequências
Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece,
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.
O sentido trágico da vida



                                             Os poetas maneiristas, dentre eles
Oh, como se me alonga, de ano em ano,        Camões, confrontados com a crise geral que
A peregrinação cansada minha!                se abate sobre o homem e a sociedade pós-
Como se encurta, e como ao fim caminha       renascentista, “os maneiristas passam a
Este meu breve e vão discurso humano!        integrar obsessivamente o sentimento
                                             trágico da vida, a postura melancólica e
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;     saturniana, a contemplação da morte.” Essa
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;      atitude existencial que subjaz à lírica
Se por experiência se adivinha,              maneirista tem ampla conexão com a
Qualquer grande esperança é grande engano.   convicção      dos     poetas      acerca   da
                                             predestinação do homem à dor e ao
Corro após este bem que não se alcança;      sofrimento, a uma vida transitória e
No meio do caminho me falece,                infeliz, que apenas serve como um doloroso
Mil vezes caio, e perco a confiança.         hiato entre o berço e o túmulo. Toda ela
                                             transcorrida em agonias, em dores, em
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,   pranto e em desventuras, a vida, para os
Se os olhos ergo a ver se inda parece,       maneiristas,     só      oferece     tormentos
Da vista se me perde e da esperança.         físicos, morais e espirituais. Daí o lamentoso
                                             canto camoniano, no qual o poeta tece
                                             reflexões acerca da sua dolorosa trajetória
                                             existencial.
Oh, como se me alonga, de ano em ano,        Nesse soneto, é nítido o sentimento
A peregrinação cansada minha!                trágico da vida, tipicamente maneirista.
Como se encurta, e como ao fim caminha       Ano após ano se vai alongando a cansada
Este meu breve e vão discurso humano!        peregrinação do poeta pelo mundo e se
                                             vai aproximando o fim de sua vida, que ele
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;     sente ter vivido inutilmente. Regida pela
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;      tirania de Cronos, que a todos e a tudo
Se por experiência se adivinha,              metamorfoseia e destrói, em seu fluir
Qualquer grande esperança é grande engano.   contínuo, a vida humana é concebida pelo
                                             poeta como uma dolorosa via crucis, sem
Corro após este bem que não se alcança;      sentido, vã. É uma caminhada num mundo
No meio do caminho me falece,                de enganos, sempre à espera de uma
Mil vezes caio, e perco a confiança.         esperança que nunca chega. Com o passar
                                             dos anos, veio-lhe o cansaço, cresceu-lhe o
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,   desgosto, ele perdeu a esperança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,       chegando à velhice despojado da
Da vista se me perde e da esperança.         confiança e perdido.
Oh! como se me alonga, de ano em ano,
1º momento:                                        a peregrinação cansada minha!
O poeta está cansado de viver em busca da          Como se encurta, e como ao fim caminha
felicidade. Mas, apesar de ter cada vez menos      este meu breve e vão discurso humano!
esperança de encontrar o que busca, lamenta que
o fim da vida se aproxime.                         Vai se gastando a idade e cresce o dano;
O que é verdadeiramente doloroso é a frustração    perde se me um remédio, que inda tinha;
de ter lutado por algo que não alcançou e sentir   se por experiência se adivinha,
                                                   qualquer grande esperança é grande engano.
que toda a sua vida foi em vão.

                                                   Corro após este bem que não se alcança;
                                                   no meio do caminho me falece,
                                                   mil vezes caio, e perco a confiança.
 2º momento:
 A sua vida consiste numa busca incessante da
                                                   Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
 felicidade, “um bem que não se alcança”.
                                                   se os olhos ergo a ver se inda parece,
                                                   da vista se me perde, e da esperança.
Recursos de Estilo

                                             Paradoxo: ”Como se me alonga/Como se encurta”
Oh, como se me alonga, de ano em ano,
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece,
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.
Na primeira estrofe, o sujeito poético manifesta
                                             desalento em relação à vida.
                                             1. Refere as duas formas de designar a vida.
                                             1. «peregrinação»; «vão discurso humano».
Oh, como se me alonga, de ano em ano,
                                             1.1 Explicita o seu sentido.
A peregrinação cansada minha!                1.1 «peregrinação» -percurso de vida, caminhada
Como se encurta, e como ao fim caminha       difícil, com sofrimento; «vão discurso humano» - tempo
Este meu breve e vão discurso humano!        inutilmente gasto.

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;     1.2 Interpreta a expressividade do aparente contraste
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;      entre «se (...) alonga» (v. 1) e «se encurta» (v. 3).
Se por experiência se adivinha,
                                             2. 1.2 À medida que o tempo passa («alonga»), o «eu»
Qualquer grande esperança é grande engano.   poético fica mais velho e consequentemente mais perto
                                             do final da sua vida («se encurta»), da morte.
Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece,
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.
Oh, como se me alonga, de ano em ano,
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!
                                              Atenta na segunda estrofe.
                                             2.1 Explica o sentido do primeiro verso.
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;     2.1 O desgaste físico e psicológico originam a
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;      intensificação do sofrimento do «eu»,
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.   2.2 O sujeito poético afirma que se perde «um
                                             remédio, que inda tinha» (v. 6). Clarifica o significado
Corro após este bem que não se alcança;      do vocábulo «remédio».
No meio do caminho me falece,                2.2 O remédio remete para a juventude.
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.
Oh, como se me alonga, de ano em ano,
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!        3. Das últimas duas estrofes, transcreve as
                                             expressões que transmitem a ideia de luta e de
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;     busca do bem desejado.
                                             3. «Corro após este bem que não se alcança» (v. 9);
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;
                                             «Mil vezes caio» (v. 1); «Se os olhos ergo a ver se
Se por experiência se adivinha,              inda parece» (v. 13).
Qualquer grande esperança é grande engano.
                                             3.1 Refere o nome das figuras de estilo presentes
Corro após este bem que não se alcança;      nos versos 10 e 11.
No meio do caminho me falece,                Esclarece a sua expressi-vidade.
Mil vezes caio, e perco a confiança.         3.1 Metáfora e hipérbole. Metáfora - «No meio do
                                             caminho» - percurso de vida; hipérbole - «Mil vezes
                                             caio» vida cheia de obstáculos, dificuldades que o
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,   «eu», persistentemente, tenta ultrapassar/vencer.
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.         4. Identifica o tema do soneto.
                                             4. Balanço de vida.
Oh, como se me alonga, de ano em ano,
A peregrinação cansada minha!                Aprecia    o     ritmo    da     composição
Como se encurta, e como ao fim caminha       poética,     relacionando-o       com     o
Este meu breve e vão discurso humano!        desenvolvimento do tema.

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;     O ritmo é lento nas duas primeiras quadras e
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;      rápido nos dois tercetos.
Se por experiência se adivinha,              Nas quadras, o balanço do eu poético realiza-
Qualquer grande esperança é grande engano.   se de modo claramente denso, revelando um
                                             pesado desânimo e pessimismo em relação à
Corro após este bem que não se alcança;      sua vida.
No meio do caminho me falece,                Nos tercetos, o ritmo é rápido, concretizado
Mil vezes caio, e perco a confiança.         através de vocábulos com menor número de
                                             sílabas e de sentido dinâmico.
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,   Note-se, contudo, que o último verso
Se os olhos ergo a ver se inda parece,       recupera o ritmo lento inicial com a palavra
Da vista se me perde e da esperança.         «esperança», pois que a sua conotação
                                             positiva é anulada pela forma verbal «perde».
Tendo em conta o seu esquema
                                             estrófico, classifique esta composição
Oh, como se me alonga, de ano em ano,
                                             poética.
A peregrinação cansada minha!
                                             O poema é um soneto, pois é constituído
Como se encurta, e como ao fim caminha
                                             por duas quadras e dois tercetos.
Este meu breve e vão discurso humano!
                                             Atente na estrutura formal do texto.
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;           Apresente o seu esquema rimático e
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;            classifique as rimas que o integram.
Se por experiência se adivinha,              O poema apresenta o seguinte esquema
Qualquer grande esperança é grande engano.   rimático: ABBA / ABBA / CDC / CDC. A rima
                                             é interpolada (A__A) e emparelhada (_BB_)
Corro após este bem que não se alcança;      nas quadras e cruzada nos tercetos.
No meio do caminho me falece,
Mil vezes caio, e perco a confiança.               Faça a escansão do primeiro verso e
                                                   classifique-o.
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,   “Oh!| Co|mo| se| me a|lon|ga,| de a|no
Se os olhos ergo a ver se inda parece,       em| a|no” – Trata-se de um verso de dez
Da vista se me perde e da esperança.         sílabas métricas; é, portanto, um decassílabo
                                             (verso decassilábico).
Disciplina: Português
Prof.ª: Helena Maria Coutinho

Oh! como se me alonga, de ano em ano

  • 1.
    Camões Corrente renascentista
  • 2.
    Oh! como seme alonga, de ano em ano, a peregrinação cansada minha! Como se encurta, e como ao fim caminha este meu breve e vão discurso humano! Vai se gastando a idade e cresce o dano; perde se me um remédio, que inda tinha; se por experiência se adivinha, qualquer grande esperança é grande engano. Corro após este bem que não se alcança; no meio do caminho me falece, mil vezes caio, e perco a confiança. Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, se os olhos ergo a ver se inda parece, da vista se me perde, e da esperança.
  • 3.
    Vocabulário: 1. peregrinação: longo percurso 2. vão: inútil 3. discurso humano: passagem pela vida Oh, como se me alonga, de ano em ano, 4. dano: mal, sofrimento A peregrinação cansada minha! 5. se por experiência se adivinha: se a Como se encurta, e como ao fim caminha experiência permite prever o futuro Este meu breve e vão discurso humano! 6. bem: felicidade 7. falece: falta (capacidade de atingir um fim) Vai-se gastando a idade e cresce o dano; 8. parece: aparece Perde-se-me um remédio, que inda tinha; Se por experiência se adivinha, Qualquer grande esperança é grande engano. Corro após este bem que não se alcança; No meio do caminho me falece, Mil vezes caio, e perco a confiança. Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, Se os olhos ergo a ver se inda parece, Da vista se me perde e da esperança.
  • 4.
    Tema: A DESILUSÃO DE VIVER Oh, como se me alonga, de ano em ano, A peregrinação cansada minha! Como se encurta, e como ao fim caminha Uma reflexão sobre a sua vida Este meu breve e vão discurso humano! suscita no poeta sentimentos contraditórios: o cansaço de Vai-se gastando a idade e cresce o dano; viver e pena de caminhar Perde-se-me um remédio, que inda tinha; para o fim. Se por experiência se adivinha, Lamenta ao mesmo tempo o Qualquer grande esperança é grande engano. prolongamento e a brevidade da sua vida. O tempo Corro após este bem que não se alcança; No meio do caminho me falece, passa, as mágoas crescem e Mil vezes caio, e perco a confiança. desvanecem-se as últimas esperanças. Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, Se os olhos ergo a ver se inda parece, Da vista se me perde e da esperança.
  • 5.
    Tema: Desconcerto Pessoal Oh,como se me alonga, de ano em ano, Passagem do tempo (peregrinação) e A peregrinação cansada minha! Como se encurta, e como ao fim caminha mudança para pior, que leva à perda Este meu breve e vão discurso humano! da confiança. Vai-se gastando a idade e cresce o dano; Perde-se-me um remédio, que inda tinha; Se por experiência se adivinha, Assunto: Fala sobre a esperança que o Qualquer grande esperança é grande engano. sujeito poético teve ao longo da sua vida e respetivas consequências Corro após este bem que não se alcança; No meio do caminho me falece, Mil vezes caio, e perco a confiança. Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, Se os olhos ergo a ver se inda parece, Da vista se me perde e da esperança.
  • 6.
    O sentido trágicoda vida Os poetas maneiristas, dentre eles Oh, como se me alonga, de ano em ano, Camões, confrontados com a crise geral que A peregrinação cansada minha! se abate sobre o homem e a sociedade pós- Como se encurta, e como ao fim caminha renascentista, “os maneiristas passam a Este meu breve e vão discurso humano! integrar obsessivamente o sentimento trágico da vida, a postura melancólica e Vai-se gastando a idade e cresce o dano; saturniana, a contemplação da morte.” Essa Perde-se-me um remédio, que inda tinha; atitude existencial que subjaz à lírica Se por experiência se adivinha, maneirista tem ampla conexão com a Qualquer grande esperança é grande engano. convicção dos poetas acerca da predestinação do homem à dor e ao Corro após este bem que não se alcança; sofrimento, a uma vida transitória e No meio do caminho me falece, infeliz, que apenas serve como um doloroso Mil vezes caio, e perco a confiança. hiato entre o berço e o túmulo. Toda ela transcorrida em agonias, em dores, em Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, pranto e em desventuras, a vida, para os Se os olhos ergo a ver se inda parece, maneiristas, só oferece tormentos Da vista se me perde e da esperança. físicos, morais e espirituais. Daí o lamentoso canto camoniano, no qual o poeta tece reflexões acerca da sua dolorosa trajetória existencial.
  • 7.
    Oh, como seme alonga, de ano em ano, Nesse soneto, é nítido o sentimento A peregrinação cansada minha! trágico da vida, tipicamente maneirista. Como se encurta, e como ao fim caminha Ano após ano se vai alongando a cansada Este meu breve e vão discurso humano! peregrinação do poeta pelo mundo e se vai aproximando o fim de sua vida, que ele Vai-se gastando a idade e cresce o dano; sente ter vivido inutilmente. Regida pela Perde-se-me um remédio, que inda tinha; tirania de Cronos, que a todos e a tudo Se por experiência se adivinha, metamorfoseia e destrói, em seu fluir Qualquer grande esperança é grande engano. contínuo, a vida humana é concebida pelo poeta como uma dolorosa via crucis, sem Corro após este bem que não se alcança; sentido, vã. É uma caminhada num mundo No meio do caminho me falece, de enganos, sempre à espera de uma Mil vezes caio, e perco a confiança. esperança que nunca chega. Com o passar dos anos, veio-lhe o cansaço, cresceu-lhe o Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, desgosto, ele perdeu a esperança, Se os olhos ergo a ver se inda parece, chegando à velhice despojado da Da vista se me perde e da esperança. confiança e perdido.
  • 8.
    Oh! como seme alonga, de ano em ano, 1º momento: a peregrinação cansada minha! O poeta está cansado de viver em busca da Como se encurta, e como ao fim caminha felicidade. Mas, apesar de ter cada vez menos este meu breve e vão discurso humano! esperança de encontrar o que busca, lamenta que o fim da vida se aproxime. Vai se gastando a idade e cresce o dano; O que é verdadeiramente doloroso é a frustração perde se me um remédio, que inda tinha; de ter lutado por algo que não alcançou e sentir se por experiência se adivinha, qualquer grande esperança é grande engano. que toda a sua vida foi em vão. Corro após este bem que não se alcança; no meio do caminho me falece, mil vezes caio, e perco a confiança. 2º momento: A sua vida consiste numa busca incessante da Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, felicidade, “um bem que não se alcança”. se os olhos ergo a ver se inda parece, da vista se me perde, e da esperança.
  • 9.
    Recursos de Estilo Paradoxo: ”Como se me alonga/Como se encurta” Oh, como se me alonga, de ano em ano, A peregrinação cansada minha! Como se encurta, e como ao fim caminha Este meu breve e vão discurso humano! Vai-se gastando a idade e cresce o dano; Perde-se-me um remédio, que inda tinha; Se por experiência se adivinha, Qualquer grande esperança é grande engano. Corro após este bem que não se alcança; No meio do caminho me falece, Mil vezes caio, e perco a confiança. Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, Se os olhos ergo a ver se inda parece, Da vista se me perde e da esperança.
  • 10.
    Na primeira estrofe,o sujeito poético manifesta desalento em relação à vida. 1. Refere as duas formas de designar a vida. 1. «peregrinação»; «vão discurso humano». Oh, como se me alonga, de ano em ano, 1.1 Explicita o seu sentido. A peregrinação cansada minha! 1.1 «peregrinação» -percurso de vida, caminhada Como se encurta, e como ao fim caminha difícil, com sofrimento; «vão discurso humano» - tempo Este meu breve e vão discurso humano! inutilmente gasto. Vai-se gastando a idade e cresce o dano; 1.2 Interpreta a expressividade do aparente contraste Perde-se-me um remédio, que inda tinha; entre «se (...) alonga» (v. 1) e «se encurta» (v. 3). Se por experiência se adivinha, 2. 1.2 À medida que o tempo passa («alonga»), o «eu» Qualquer grande esperança é grande engano. poético fica mais velho e consequentemente mais perto do final da sua vida («se encurta»), da morte. Corro após este bem que não se alcança; No meio do caminho me falece, Mil vezes caio, e perco a confiança. Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, Se os olhos ergo a ver se inda parece, Da vista se me perde e da esperança.
  • 11.
    Oh, como seme alonga, de ano em ano, A peregrinação cansada minha! Como se encurta, e como ao fim caminha Este meu breve e vão discurso humano! Atenta na segunda estrofe. 2.1 Explica o sentido do primeiro verso. Vai-se gastando a idade e cresce o dano; 2.1 O desgaste físico e psicológico originam a Perde-se-me um remédio, que inda tinha; intensificação do sofrimento do «eu», Se por experiência se adivinha, Qualquer grande esperança é grande engano. 2.2 O sujeito poético afirma que se perde «um remédio, que inda tinha» (v. 6). Clarifica o significado Corro após este bem que não se alcança; do vocábulo «remédio». No meio do caminho me falece, 2.2 O remédio remete para a juventude. Mil vezes caio, e perco a confiança. Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, Se os olhos ergo a ver se inda parece, Da vista se me perde e da esperança.
  • 12.
    Oh, como seme alonga, de ano em ano, A peregrinação cansada minha! Como se encurta, e como ao fim caminha Este meu breve e vão discurso humano! 3. Das últimas duas estrofes, transcreve as expressões que transmitem a ideia de luta e de Vai-se gastando a idade e cresce o dano; busca do bem desejado. 3. «Corro após este bem que não se alcança» (v. 9); Perde-se-me um remédio, que inda tinha; «Mil vezes caio» (v. 1); «Se os olhos ergo a ver se Se por experiência se adivinha, inda parece» (v. 13). Qualquer grande esperança é grande engano. 3.1 Refere o nome das figuras de estilo presentes Corro após este bem que não se alcança; nos versos 10 e 11. No meio do caminho me falece, Esclarece a sua expressi-vidade. Mil vezes caio, e perco a confiança. 3.1 Metáfora e hipérbole. Metáfora - «No meio do caminho» - percurso de vida; hipérbole - «Mil vezes caio» vida cheia de obstáculos, dificuldades que o Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, «eu», persistentemente, tenta ultrapassar/vencer. Se os olhos ergo a ver se inda parece, Da vista se me perde e da esperança. 4. Identifica o tema do soneto. 4. Balanço de vida.
  • 13.
    Oh, como seme alonga, de ano em ano, A peregrinação cansada minha! Aprecia o ritmo da composição Como se encurta, e como ao fim caminha poética, relacionando-o com o Este meu breve e vão discurso humano! desenvolvimento do tema. Vai-se gastando a idade e cresce o dano; O ritmo é lento nas duas primeiras quadras e Perde-se-me um remédio, que inda tinha; rápido nos dois tercetos. Se por experiência se adivinha, Nas quadras, o balanço do eu poético realiza- Qualquer grande esperança é grande engano. se de modo claramente denso, revelando um pesado desânimo e pessimismo em relação à Corro após este bem que não se alcança; sua vida. No meio do caminho me falece, Nos tercetos, o ritmo é rápido, concretizado Mil vezes caio, e perco a confiança. através de vocábulos com menor número de sílabas e de sentido dinâmico. Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, Note-se, contudo, que o último verso Se os olhos ergo a ver se inda parece, recupera o ritmo lento inicial com a palavra Da vista se me perde e da esperança. «esperança», pois que a sua conotação positiva é anulada pela forma verbal «perde».
  • 14.
    Tendo em contao seu esquema estrófico, classifique esta composição Oh, como se me alonga, de ano em ano, poética. A peregrinação cansada minha! O poema é um soneto, pois é constituído Como se encurta, e como ao fim caminha por duas quadras e dois tercetos. Este meu breve e vão discurso humano! Atente na estrutura formal do texto. Vai-se gastando a idade e cresce o dano; Apresente o seu esquema rimático e Perde-se-me um remédio, que inda tinha; classifique as rimas que o integram. Se por experiência se adivinha, O poema apresenta o seguinte esquema Qualquer grande esperança é grande engano. rimático: ABBA / ABBA / CDC / CDC. A rima é interpolada (A__A) e emparelhada (_BB_) Corro após este bem que não se alcança; nas quadras e cruzada nos tercetos. No meio do caminho me falece, Mil vezes caio, e perco a confiança. Faça a escansão do primeiro verso e classifique-o. Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, “Oh!| Co|mo| se| me a|lon|ga,| de a|no Se os olhos ergo a ver se inda parece, em| a|no” – Trata-se de um verso de dez Da vista se me perde e da esperança. sílabas métricas; é, portanto, um decassílabo (verso decassilábico).
  • 16.