Este poema descreve o trabalho diário dos calceteiros em Lisboa através de três estações do ano - primavera, verão e outono. Através de comparações e detalhes vívidos, o poema capta a dureza física do seu trabalho e a pobreza das suas vidas.
“Cristalizações”
Localização temporal do poema
―Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros
Vibra uma imensa claridade crua‖
Primavera
Sinestesia: referências tácteis e visuais
3.
“Cristalizações”
De cócoras, emlinha, os calceteiros, /
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
/Calçam de lado a lado a longa rua.
4.
“Cristalizações”
De cócoras porquenem sequer tinham o banquinho de mestre calceteiro
Em linha – os calceteiros têm de trabalhar em equipa e muitos dos ajudantes
eram trazidos da prisão agrilhoados e teriam que manter forçosamente a fila
5.
“Cristalizações”
Com lentidão –devido ao esforço dispendido, os aguilhoados teriam
forçosamente os seus movimentos muito mais lentos do que os homens
libertos, se bem que este trabalho fosse sempre moroso e penoso
Terrosos – adquiriam o tom da terra e da pedra ainda por limpar; quase que
fazem parte do próprio solo
6.
“Cristalizações”
Grosseiros – nãose trata de uma grosseria em relação a estes homens, mas
antes um libelo sobre a penosa situação em que se encontravam. Para se chegar
a mestre calceteiro era necessário começar a profissão aos sete ou oito anos de
idade dado que mais tarde as articulações das mãos já não lhes permitia
flexibilidade, tornando-se desajeitadas para o ofício
“Cristalizações”
A frialdade exigeo movimento – roupas pouco adequadas em que o trabalho
era a única forma de aquecerem
E as poças de água, como em chão
vidrento – a água reflecte-se nos olhos,
como se fora um vidro colocado no chão,
assim como nas habitações
9.
“Cristalizações”
A molhada casaria– molhada por ter chovido e,
muitas vezes, os próprios revestimentos das casas,
tantas vezes em mosaico, não serem propícios a
secarem rapidamente
10.
“Cristalizações”
Casaria – éinteressante notar que esta palavra é pouco vulgar empregando-
se o seu masculino „casario‟. Casaria são filas de casas tal como os calceteiros
são filas de homens. „Casaria‟ empregue no final da segunda estrofe liga-se
harmoniosamente a longa rua, localizada no final da primeira estrofe
ficando os calceteiros no meio, fechados por este cenário.
“Cristalizações”
Em pé eperna, dando aos rins que a marcha
agita, / Disseminadas, gritam as peixeiras;
/Luzem, aquecem na manhã bonita, /Uns
barracões de gente pobrezita /E uns
quintalórios velhos com parreiras.
13.
“Cristalizações”
Cesário burila, àmaneira de Baudelaire, a descrição das peixeiras
• Sinédoque (toma o todo pela parte) para destacar elementos mais
importantes para o exercício da dura profissão: pé e perna
14.
“Cristalizações”
• Metonímia -Dando aos rins que a marcha agita – (causa/efeito) para
conseguirmos visualizar o bambolear das ancas que devido ao peso e à
caminhada provoca dores nos rins, começando a estrofe por afirmar: em pé,
ligando novamente o pé à caminhada
15.
“Cristalizações”
Paralelamente ao trabalhodos calceteiros, as peixeiras com o seu ar gingão e
sonoro pregão espalham-se pela cidade dando brilho onde só há barracões de
gente pobre
16.
“Cristalizações”
Luzem, aquecem namanhã bonita – Luzem, hipérbole (exagero poético)
sublinhando assim que são elas que dão luminosidade aos seres opacos do
quotidiano; aquecem porque calcorreiam as ruas vergadas ao peso da canasta
(sentido denotativo) e um outro subentendido (conotativo), aquecem o
coração dos homens. A manhã bonita interliga-se também às peixeiras que
alegram as manhãs dos pobres
17.
“Cristalizações”
E uns quintalóriosvelhos com parreiras – os
únicos que podem assistir ao duro trabalho
dos calceteiros porque Não se ouvem aves;
nem o choro duma nora! /Tornam por outra
parte os viandantes
18.
“Cristalizações”
Não se ouvemaves; nem o choro duma nora! – é Verão - perífrase
Nem o choro duma nora! – muito provavelmente os poços estavam secos
como tantas vezes aconteceu no estio lisboeta
Tornam por outra parte os viandantes – Quem pode parte para a sua
aldeia ou vai “a ares‖
19.
“Cristalizações”
E o ferroe a pedra — que união
sonora! — /Retinem alto pelo
espaço fora, /Com choques rijos,
ásperos, cantantes.
20.
“Cristalizações”
O ferro dosinstrumentos do calceteiro: pá, picareta, forquilha, baldes (para
molhar a calçada), formas para os desenhos artísticos
21.
“Cristalizações”
Pedra – basaltoou calcário empregues para a calçada
A união áspera dos sons do ferro e da pedra criam uma harmónica
dissonante
22.
“Cristalizações”
Bom tempo. Eos rapagões, morosos,
duros, braços, /Cuja coluna nunca se
endireita, /Partem penedos. Cruzam-se
estilhaços. /Pesam enormemente os
grossos maços, /Com que outros batem a
calçada feita.
23.
“Cristalizações”
Bom tempo – A marcha do tempo
e dos calceteiros não pára.
Chegámos ao Verão, mas a
lentidão e a postura curvada do
corpo continuam
24.
“Cristalizações”
A expressão hiperbólicapartem penedos mostra o trabalho duro e pesado
Cruzam-se estilhaços – os calceteiros cortam as meias-pedras (assim
denominadas) na mão, em postura de concha, de uma forma irregular, com a
face superior aparelhada saltando as lascas e quase se entrechocando no ar
com as dos outros trabalhadores. Mostra também que o trabalho não é
solitário e que é realizado numa área contígua
25.
“Cristalizações”
Pesam enormemente osgrossos maços – é o peso do instrumento e a pressão
do trabalhador sobre o maço ou marreta que faz com que as pedras se
enterrem na argamassa
Com que outros batem a calçada – frisando novamente um trabalho
colectivo
26.
“Cristalizações”
A sua barbaagreste! A lã dos seus
barretes!/ Que espessos forros! Numa das
regueiras/Acamam-se as japonas, os
coletes;/E eles descalçam com os
picaretes,/Que ferem lume sobre
pederneiras.
27.
“Cristalizações”
A sua barbaagreste! – Cesário insurge-se muitas vezes ao longo da sua
vida, com o número de horas de trabalho que faz com que os trabalhadores
não tenham tempo para cuidar deles próprios. Assim a barba é descuidada e
áspera devido ao pó e a deficientes lavagens
28.
“Cristalizações”
A lã dosseus barretes!/ Que espessos forros! – carapuços também forrados a
lã e com um debrum largo para o suor ser ensopado e não escorrer para os
olhos.
A admiração de Cesário em relação aos forros é sublinhada pelo ponto de
exclamação
29.
“Cristalizações”
Acamam-se as japonas,os coletes – os trabalhadores dobram as jaquetas e os
coletes, colocando-os geralmente em cima de uma pedra, quase rente ao chão.
É interessante notar que este verso liga-se ao da primeira quintilha seguinte
porque japonas também significa arbustos que ficam acamados em bacelos
durante o Outono e Inverno. Este verso faz a ligação com a próxima estação
do ano que irá estar presente: o Outono
30.
“Cristalizações”
E nesse rudemês, que não consente as
flores, /Fundeiam, como esquadra em fria
paz, /As árvores despidas. Sóbrias cores!/
Mastros, enxárcias, vergas. Valadores/
Atiram terra com as largas pás.
31.
“Cristalizações”
E nesse rudemês, que não consente as
flores (…) As árvores despidas. Sóbrias
cores! - No Outono as árvores perdem as
folhas e as cores que elas espalham pelo
chão são verdes escuras e castanhos de
vários matizes
32.
“Cristalizações”
Fundeiam, como esquadra em
fria paz – é de salientar a
comparação entre a inércia da
natureza com os navios parados
durante o tempo de sossego
33.
“Cristalizações”
Mastros, enxárcias, vergas– Cesário continua a comparar o trabalho dos
arruamentos com a frota de guerra e mais particularmente com os apetrechos
náuticos e a interdependência entre si
No trabalho de calcetaria os homens usam um pau a prumo ao qual está
ligado um fio que indicará o desnível do passeio
O pau atravessado como o da verga é indispensável porque faz de compasso
para a marcação dos desenhos na calçada
34.
“Cristalizações”
Eu julgo-me noNorte, ao frio — o
grande agente! — /Carros de mão, que
chiam carregados, /Conduzem saibros,
vagarosamente; /Vê-se a cidade,
mercantil, contente: /Madeiras, águas,
multidões, telhados!
35.
“Cristalizações”
Eu julgo-me noNorte, ao frio — o grande agente!
É Inverno e duro como são os do norte do país, esta estação do ano
provoca mudanças na natureza e na vida das pessoas
36.
“Cristalizações”
Negreiam os quintaisenxuga a alvenaria; /Em arco, sem as nuvens
flutuantes, /O céu renova a tinta corredia; /E os charcos brilham tanto, que
eu diria /Ter ante mim lagoas de brilhantes!
Sinédoque: as casas abarracadas interligam-se e reagem com o tempo
atmosférico, não chove e as casas têm a oportunidade de secarem
37.
“Cristalizações”
E os charcosbrilham tanto, que eu diria /Ter ante mim lagoas de
brilhantes! - metáfora
E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos – a natureza brilha e
renova-se como nos é descrita nos últimos versos, mas o homem vai
envelhecendo, minguando, tema da mudança tão querido a Camões
38.
“Cristalizações”
Eu tudoencontro alegremente exacto. /Lavo, refresco, limpo os meus
sentidos. /E tangem-me, excitados, sacudidos, /O tacto, a vista, o ouvido, o
gosto, o olfacto! – Cesário o poeta das sinestesias, mistura as sensações
ligadas aos cincos sentidos
Na quintilha seguinte continua a mostrar a interligação quase simbiótica
entre a natureza e o seu próprio ser
39.
“Cristalizações”
Com ela sofres,bebes, agonizas:/ Listrões de vinho lançam-lhe divisas,/ E os
suspensórios traçam-lhe uma cruz! – o povo desfeito como as suas roupas
refugia-se no vinho; é a sua única consolação, mas também essa o leva à
agonia (morte) que se torna visível nas manchas da roupa que são as suas
“medalhas”. Os suspensórios que prendem a vestimenta têm o formato de uma
cruz, simbolizando o sofrimento da vida que têm de acarretar
40.
“Cristalizações”
O martírio dopovo denuncia poderosamente a injustiça social que está na
base “mercantil” da cidade contente, pondo em questão a própria ideologia
do progresso que nela se baseia
Como os trabalhadores são camponeses, a exploração do campo pela cidade
fica também implícita nesta cristalização
41.
“Cristalizações”
De escuro, bruscamente,ao cimo da barroca,
/Surge um perfil direito que se aguça; /E ar
matinal de quem saiu da toca, /Uma figura
fina, desemboca, /Toda abafada num casaco
à russa.
42.
“Cristalizações”
Uma figura fina,desemboca, /Toda abafada num casaco à russa – no contexto
do poema uma figura fina tem duas leituras: fina por pertencer a uma classe
social mais privilegiada e por ser esguia
43.
“Cristalizações”
Donde ela vem!A actriz que tanto
cumprimento /E a quem, à noite na plateia,
atraio /Os olhos lisos como polimento!
/Com seu rostinho estreito, friorento,
/Caminha agora para o seu ensaio.
44.
“Cristalizações”
Os olhos lisoscomo polimento! /Com seu rostinho estreito, friorento,
/Caminha agora para o seu ensaio. – descrição da mulher amada: olhos
brilhantes e rosto magro
Esta figura feminina quebra a monotonia da pobreza, mas só por instantes
45.
“Cristalizações”
E aos outroseu admiro os dorsos, os costados /Como lajões. Os bons
trabalhadores! /Os filhos das lezírias, dos montados: /Os das planícies,
altos, aprumados; /Os das montanhas, baixos, trepadores!
– a frágil figura feminina amada, que quebrou a monotonia da pobreza, é o
contraste em relação ao povo das diferentes regiões do país: ribatejanos,
alentejanos, estremanhos ou transmontanos
46.
“Cristalizações”
Nesta composição, opoeta relata a azáfama citadina constatada por ele,
associando-a à injustiça que vitima as classes trabalhadoras
Através de pensamentos expressos em linguagem simbólica, surge a vida
campestre, como denunciadora da exploração dos grandes meios urbanos