Durante um ano, viajou pela Europa. Finalmente, instala-se em Lisboa, no Ramalhete, cheio de projectos, entre os quais o de montar um laboratório. Por influência de Vilaça, estabelece consultório no Rossio.
Carlos surpreendeu os amigos da família, ao preferir Medicina a Direito. Em Coimbra, esteve instalado no que se chamaria depois «Paço de Celas» (onde, por vezes, se hospedava o avô). Amigo de João da Ega, tem vida boémia, interessa-se pelas vanguardas literárias e artísticas, mais do que estuda. Tem namoros de ocasião (primeiro, uma mulher casada; depois, uma concubina).
O consultório estava mobilado mais como uma rica residência do que como gabinete ao serviço da medicina. Tudo aí convocava Carlos para a dispersão, para o ócio. Por outro lado, a vida no Rossio e a ausência de doentes que o procurassem não despertavam o recém-licenciado para o trabalho.
objecto  «acção» que pratica o seu gabinete dormia as três janelas   bebiam a luz as poltronas  estendiam os seus braços o teclado branco  ria e esperava
Qual é o tempo verbal predominante em todo o texto?  Imperfeito do Indicativo . (Transcreve três formas verbais dessas:  dormia ;  faziam ;  bebiam .) Que efeito produz o uso desse tempo (que tem que ver com o seu valor aspectual; e que é coerente com o clima que se pretende transmitir no resto do relato)?  Confere a cada acção uma ideia de repetição, de hábito, de monotonia .
Também relacionado com o valor aspectual, surge bastante uma forma nominal do verbo, o gerúndio, de que Eça, segundo os seus detractores, abusaria: escorregando,  vadiando ,  penetrando ,  resvalando ,  fumando ,  murmurando . O gerúndio tem o valor (aspecto-temporal) de  simultaneidade  e  continuidade , que acaba por acentuar a  monotonia  vivida durante o dia de trabalho de Carlos.
Quem era o «John» referido na linha 14?  João da Ega . Quem era o «avô» (l. 18)?  Afonso da Maia . Quem era «a besta d [o]  Cohen» (19)?  Jacob Cohen, banqueiro.   «a besta da Cohen» (19)?  Raquel Cohen .
João da Ega era ateu, rebelde, «satânico». (E, aliás, gostava de alardear o que em si fosse radical, iconoclasta.) De ascendência vagamente fidalga, tinha uma parente rica que o sustentava mas o preferia longe. É um irreverente, loquaz e irónico, que gosta de exibir os seus projectos excêntricos, sendo quase sempre o centro das atenções dos círculos em que se movimentava.
 
jaquetão  = casaco sobrecasaca  = casaco comprido dolente  = triste plácido  = sereno cocotte  = mulher elegante e de costumes fáceis pilhéria  = chiste, piada trigueiro  = moreno quebranto  = fraqueza, prostração nédio  = anafado, gordo
 
Nas ll. 20-24 há discurso  indirecto livre , o que podemos reconhecer por, não havendo travessões ou outra delimitação que isolasse o discurso do narrador e a fala da personagem, aparecerem marcas típicas da oralidade reportada directamente (o ponto de  exclamação ,
a expressão « que diabo », até as reticências) mas, por outro lado, os tempos dos verbos estarem adaptados como se faria no discurso indirecto (introduzido por «disse» ou por algum outro verbo  dicendi  no pretérito  perfeito ).
—  Então,  que diabo, os rapazes  quiseram !... Mas  eu , realmente, não  posso  apresentar um cavalo decente, com as  minhas  cores, senão d aqui  a quatro anos. De resto, não  apuro  cavalos para  esta  melancolia de Belém. Não  imaginem  os amigos que  (eu)   sou  tão patriota: o  meu  fim  é  ir a Espanha, bater os cavalos do Caldillo...  — explicou o visconde de Darque.
Não posso  senão  daqui a quatro anos. posso  apenas   advérbio   Se   não  queres,  tudo  bem. conj. condicional  +  «não»
Tempos quiseram ( Pretérito Perfeito ) | tinham querido (Pretérito Mais-que-perfeito [Composto]) posso (Presente do Indicativo) | podia ( Imperfeito do Indicativo )
apuro ( Presente do Indicativo ) | apurava (Imperfeito do Indicativo) não imaginem (Imperativo negativo / Presente do Conjuntivo) | não imaginassem ( Imperfeito do Conjuntivo )
sou (Presente do Indicativo) |  era  (Imperfeito do Indicativo) é  (Presente do Indicativo) | era (Imperfeito do Indicativo)
Pessoa posso, apuro, sou (1.ª) | podia, apurava, era ( 3.ª ) quiseram, imaginem, era ( 3.ª ) | tinham querido, imaginassem, era (3.ª)
minhas (1.ª)  | suas ( 3.ª ) meu ( 1.ª )  |  seu (3.ª) esta (1.ª) |  aquela  (3.ª) [d] aqui  (1.ª) | [d]ali (3.ª)
Em «vestidos sérios» (l. 43) e «fila muda» (l. 40) há a figura de estilo que designamos  «hipálage» , já que o adjectivo, no fundo, não se reporta aos objectos que qualifica («vestidos» e «fila») mas antes às senhoras a quem aqueles objectos  «pertenciam» .
(Em «Os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperança» (59-60) há processo similar: o advérbio aplica-se a acção praticada pelos olhos, mas reporta-se a  Carlos .)
Surgem vários  diminutivos  com valor depreciativo (ou ridicularizador): «as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas» (48); «vestidas de  xadrezinho » (49); «um canteirinho de camélias meladas» (61); «uma  duvidazinha » (31).
Quanto a «gentleman» (16), «cocottes» (26), «High Life» (50), até por estarem em itálico, são identificáveis como  estrangeirismos .   (Já «chique» ou «champanhe» devem ser considerados como  empréstimos , porque, apesar da origem estrangeira, estão já bastante integrados no português.)
encolheu os ombros, cerrou os olhos, como um homem  que se sacrifica  (19-20)   Restritiva
Carlos fora falar à sua velha amiga D. Maria da Cunha [,]   que, havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de boa mamã  (63-65) Explicativa
Era a única senhora  que ousara descer do retiro ajanelado da tribuna  (65-66)   Restritiva
Tinha consigo uma parenta  que apresentou a Carlos  (71-72) Restritiva  (mas podia ser Explicativa, desde que houvesse vírgula)
[A parenta] era uma senhora espanhola,  que seria bonita se não fossem as olheiras negras  (72-72) Explicativa   (mas não era impossível ser Restritiva, se não houvesse vírgula)
TPC Continuar a ler  Os Maias . Ir também revendo gramática.

Apresentação para décimo primeiro ano, aula 48

  • 1.
  • 2.
  • 3.
  • 4.
  • 5.
    Durante um ano,viajou pela Europa. Finalmente, instala-se em Lisboa, no Ramalhete, cheio de projectos, entre os quais o de montar um laboratório. Por influência de Vilaça, estabelece consultório no Rossio.
  • 6.
    Carlos surpreendeu osamigos da família, ao preferir Medicina a Direito. Em Coimbra, esteve instalado no que se chamaria depois «Paço de Celas» (onde, por vezes, se hospedava o avô). Amigo de João da Ega, tem vida boémia, interessa-se pelas vanguardas literárias e artísticas, mais do que estuda. Tem namoros de ocasião (primeiro, uma mulher casada; depois, uma concubina).
  • 7.
    O consultório estavamobilado mais como uma rica residência do que como gabinete ao serviço da medicina. Tudo aí convocava Carlos para a dispersão, para o ócio. Por outro lado, a vida no Rossio e a ausência de doentes que o procurassem não despertavam o recém-licenciado para o trabalho.
  • 8.
    objecto «acção»que pratica o seu gabinete dormia as três janelas bebiam a luz as poltronas estendiam os seus braços o teclado branco ria e esperava
  • 9.
    Qual é otempo verbal predominante em todo o texto? Imperfeito do Indicativo . (Transcreve três formas verbais dessas: dormia ; faziam ; bebiam .) Que efeito produz o uso desse tempo (que tem que ver com o seu valor aspectual; e que é coerente com o clima que se pretende transmitir no resto do relato)? Confere a cada acção uma ideia de repetição, de hábito, de monotonia .
  • 10.
    Também relacionado como valor aspectual, surge bastante uma forma nominal do verbo, o gerúndio, de que Eça, segundo os seus detractores, abusaria: escorregando, vadiando , penetrando , resvalando , fumando , murmurando . O gerúndio tem o valor (aspecto-temporal) de simultaneidade e continuidade , que acaba por acentuar a monotonia vivida durante o dia de trabalho de Carlos.
  • 11.
    Quem era o«John» referido na linha 14? João da Ega . Quem era o «avô» (l. 18)? Afonso da Maia . Quem era «a besta d [o] Cohen» (19)? Jacob Cohen, banqueiro. «a besta da Cohen» (19)? Raquel Cohen .
  • 12.
    João da Egaera ateu, rebelde, «satânico». (E, aliás, gostava de alardear o que em si fosse radical, iconoclasta.) De ascendência vagamente fidalga, tinha uma parente rica que o sustentava mas o preferia longe. É um irreverente, loquaz e irónico, que gosta de exibir os seus projectos excêntricos, sendo quase sempre o centro das atenções dos círculos em que se movimentava.
  • 13.
  • 14.
    jaquetão =casaco sobrecasaca = casaco comprido dolente = triste plácido = sereno cocotte = mulher elegante e de costumes fáceis pilhéria = chiste, piada trigueiro = moreno quebranto = fraqueza, prostração nédio = anafado, gordo
  • 15.
  • 16.
    Nas ll. 20-24há discurso indirecto livre , o que podemos reconhecer por, não havendo travessões ou outra delimitação que isolasse o discurso do narrador e a fala da personagem, aparecerem marcas típicas da oralidade reportada directamente (o ponto de exclamação ,
  • 17.
    a expressão «que diabo », até as reticências) mas, por outro lado, os tempos dos verbos estarem adaptados como se faria no discurso indirecto (introduzido por «disse» ou por algum outro verbo dicendi no pretérito perfeito ).
  • 18.
    — Então, que diabo, os rapazes quiseram !... Mas eu , realmente, não posso apresentar um cavalo decente, com as minhas cores, senão d aqui a quatro anos. De resto, não apuro cavalos para esta melancolia de Belém. Não imaginem os amigos que (eu) sou tão patriota: o meu fim é ir a Espanha, bater os cavalos do Caldillo... — explicou o visconde de Darque.
  • 19.
    Não posso senão daqui a quatro anos. posso apenas advérbio Se não queres, tudo bem. conj. condicional + «não»
  • 20.
    Tempos quiseram (Pretérito Perfeito ) | tinham querido (Pretérito Mais-que-perfeito [Composto]) posso (Presente do Indicativo) | podia ( Imperfeito do Indicativo )
  • 21.
    apuro ( Presentedo Indicativo ) | apurava (Imperfeito do Indicativo) não imaginem (Imperativo negativo / Presente do Conjuntivo) | não imaginassem ( Imperfeito do Conjuntivo )
  • 22.
    sou (Presente doIndicativo) | era (Imperfeito do Indicativo) é (Presente do Indicativo) | era (Imperfeito do Indicativo)
  • 23.
    Pessoa posso, apuro,sou (1.ª) | podia, apurava, era ( 3.ª ) quiseram, imaginem, era ( 3.ª ) | tinham querido, imaginassem, era (3.ª)
  • 24.
    minhas (1.ª) | suas ( 3.ª ) meu ( 1.ª ) | seu (3.ª) esta (1.ª) | aquela (3.ª) [d] aqui (1.ª) | [d]ali (3.ª)
  • 25.
    Em «vestidos sérios»(l. 43) e «fila muda» (l. 40) há a figura de estilo que designamos «hipálage» , já que o adjectivo, no fundo, não se reporta aos objectos que qualifica («vestidos» e «fila») mas antes às senhoras a quem aqueles objectos «pertenciam» .
  • 26.
    (Em «Os olhosde Carlos procuravam, inquietamente e sem esperança» (59-60) há processo similar: o advérbio aplica-se a acção praticada pelos olhos, mas reporta-se a Carlos .)
  • 27.
    Surgem vários diminutivos com valor depreciativo (ou ridicularizador): «as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas» (48); «vestidas de xadrezinho » (49); «um canteirinho de camélias meladas» (61); «uma duvidazinha » (31).
  • 28.
    Quanto a «gentleman»(16), «cocottes» (26), «High Life» (50), até por estarem em itálico, são identificáveis como estrangeirismos . (Já «chique» ou «champanhe» devem ser considerados como empréstimos , porque, apesar da origem estrangeira, estão já bastante integrados no português.)
  • 29.
    encolheu os ombros,cerrou os olhos, como um homem que se sacrifica (19-20) Restritiva
  • 30.
    Carlos fora falarà sua velha amiga D. Maria da Cunha [,] que, havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de boa mamã (63-65) Explicativa
  • 31.
    Era a únicasenhora que ousara descer do retiro ajanelado da tribuna (65-66) Restritiva
  • 32.
    Tinha consigo umaparenta que apresentou a Carlos (71-72) Restritiva (mas podia ser Explicativa, desde que houvesse vírgula)
  • 33.
    [A parenta] erauma senhora espanhola, que seria bonita se não fossem as olheiras negras (72-72) Explicativa (mas não era impossível ser Restritiva, se não houvesse vírgula)
  • 34.
    TPC Continuar aler Os Maias . Ir também revendo gramática.