A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão
Número de palavras: 2206
A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão
Ana Luísa Costa Carneirinho
Universidade Aberta
A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão
Resumo
A análise de uma página de Facebook, criada e gerida por uma professora no
âmbito de um projeto escolar – um clube de robótica – é o ponto de partida para uma
reflexão sobre a sociedade em rede, a importância dos símbolos na atualidade, a
cibercultura, a criação de comunidades virtuais e o desenvolvimento da inteligência
coletiva.
Não pretendendo ser um trabalho sobre teorias da sociedade em rede, revisita o
pensamento de autores fundamentais - como Manuel Castells, Jean Baudrillard e Pierre
Lévy - ilustrando-o com exemplos concretos obtidos a partir da análise da referida
página.
A página de Facebook analisada, tendo sido escolhida por ter em comum a
autoria com o presente trabalho - não tencionando ser uma amostra representativa das
páginas de Facebook no âmbito de partilhas de projetos escolares - devolve-nos
situações concretas que incentivam à reflexão, essa sim extrapolável por certo para
outros contextos na esfera do ciberespaço.
Palavras-chave: sociedade em rede, Facebook, cibercultura, ciberespaço, comunidades
virtuais.
A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão
O contexto
Em março de 2015, uma professora de Física e Química da Escola Secundária D.
João II, em Setúbal, criou um blog dedicado ao estudo do arduino, uma placa eletrónica
programável, em contexto escolar, o Arduino na Escola. De acordo com a própria
professora, na publicação inicial do referido blog, este pretendia ser um meio de
“partilha de materiais e experiências no âmbito da aplicação da programação e
eletrónica em ambiente escolar.” A autora do blog descreve-o ainda como o “diário de
uma professora que um dia se lançou numa turma de 8º ano do ensino vocacional a
ensinar a programar placas arduino a alunos que se de programação sabiam pouco, de
eletricidade e eletrónica nada sabiam.”
No seguimento do trabalho realizado, é criado, em janeiro de 2016, o clube de
robótica da referida escola e, ao mesmo tempo, a página de Facebook Arduino na
Escola para partilhar as atividades realizadas. Esta página de Facebook manteve-se ativa
não só enquanto a professora lecionava na escola, nos anos letivos 2015/2016 e
2016/2017, mas também no ano letivo 2017/2018, ano em que a professora foi colocada
na Escola Secundária D. Manuel Martins, também em Setúbal, tendo criado nessa
escola novo clube de robótica e mantendo a mesma página para promover as atividades
desenvolvidas nesse contexto.
Com este artigo pretende-se revisitar alguns dos temas estudados ao longo da
unidade curricular Educação e Sociedade em Rede, no âmbito do Mestrado em
Pedagogia do E-Learning, tendo por base a referida página de Facebook.
A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão
O produto de uma sociedade em rede
O clube de robótica da Escola Secundária D. João II começou as suas atividades
em janeiro de 2016. Nesse mesmo mês foi criada a página de Facebook Arduino na
Escola para partilhar as atividades aí desenvolvidas.
O facto de a professora responsável pelo clube de robótica ter sentido a
necessidade de criar uma página nas redes sociais para promover o seu trabalho, ainda
mais numa fase tão embrionária do projeto, diz muito da sociedade atual. Sempre
existiram projetos meritórios em contexto escolar, mas a necessidade de lhes “dar
palco”, de os partilhar através da conexão virtual, de os lançar para a esfera pública é,
obviamente, recente e fruto da democratização da Internet que criou novas dinâmicas a
nível da sociedade como um todo.
A pulsão para a partilha e para a inclusão numa rede de contactos virtuais é uma
realidade da sociedade definida por Castells (2002) como sociedade em rede, uma nova
estrutura social em que as tecnologias de informação e de comunicação,
consubstanciadas na criação e utilização da Internet, surgem como determinantes nas
relações interpessoais estabelecidas nos mais diversos contextos, desde os pessoais aos
profissionais, como é o caso da página de Facebook analisada. A página em concreto é
um exemplo de como os meios digitais não se limitam a serem ferramentas
tecnológicas, sendo antes um meio para aceder ao espaço virtual – o ciberespaço – onde
se desenvolvem redes humanas de interesses comuns que podem ser de grande
complexidade.
Observando a evolução da página de Facebook Arduino na Escola, é notória a
construção ao longo dos anos da personalidade online da autora e da própria imagem do
A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão
projeto. Se as primeiras publicações são algo “asséticas”, pouco personalizadas e sem
fotos, torna-se evidente que, ao longo dos anos, começaram a surgir imagens dos alunos
(primeiro desfocadas, depois já sem filtro), imagens da própria professora, o nome dos
alunos da professora, a partilha de sucessos e fracassos, uma perspetiva do ambiente
escolar, tudo contribuindo para a criação de uma narrativa com o objetivo de envolver
os “seguidores”. A Figura 1 pretende ilustrar essa evolução que se observa ao longo dos
anos.
Figura 1
Evolução da partilha de fotos entre 2016 e 2018
À medida que a professora aumenta a exposição, é notória o aumento de partilha
de emoções e estados de alma. Os textos, apesar de continuarem a ser maioritariamente
escritos na primeira pessoa do plural, ganham um cunho humano que apela à empatia de
terceiros. Se no início de 2016 as partilhas passam maioritariamente por textos algo
descaraterizados como “Mais uma sessão do Espaço Programação Eletrónica. Desta
vez, explorámos o funcionamento dos servo-motores, componentes muito versáteis em
ambiente de projeto - desde braços robóticos a cancelas, as aplicações vão onde a
nossa imaginação nos levar!” (2 de feveiro de 2016), altura em que a professora usa a
página de Facebook quase como livro de ponto, para sumariar as sessões realizadas, em
A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão
junho de 2016 há a publicação de uma foto da professora com um texto muito mais
pessoal: “Foi com um prazer enorme que recebemos o 4º lugar no concurso de clubes
que aconteceu no E-Tech 2016. Temos consciência que connosco concorriam clubes
com muito mais experiência, com uma dimensão muito maior e com muitas provas
dadas - por isso, para nós, este foi um verdadeiro Prémio Esperança, que nos deu
alento para continuar a construir um caminho que nem sempre é fácil...”. Em maio de
2017, o entusiasmo é evidente na descrição de uma atividade do clube: “Que dia em
cheio! Depois do lançamento do satélite, eis que o nosso fica em parte incerta e
ninguém o descobre, embora esteja a emitir e seja possível recolher os dados! Missão
secundária: camuflagem!”. A entrega de um prémio em maio de 2018 é um pretexto
para um tributo emotiva aos alunos envolvidos “foi com enorme orgulho que recebemos
o prémio de 2º lugar no concurso dos clubes de robótica! Um reconhecimento do
trabalho que temos realizado ao longo do ano e que vai direitinho para todos os alunos
que participaram nas atividades do clube mas em especial para os que contribuíram
decisivamente para este prémio com o seu empenho durante estes dois dias - André,
Celso, Diogo, Santiago, Tiago BV, Tiago Caldeira e Wilson - este prémio é muito
vosso!”.
Não conhecemos, através desta página de Facebook, a dimensão familiar ou até
profissional em ambiente letivo desta professora. Conhecemos uma faceta, a de
coordenadora de um clube de robótica, que se humaniza ao longo do período em que a
página esteve ativa. Vamos criando uma imagem da docente, criando até laços com a
sua personagem e o seu projeto, mas não podemos deixar de nos perguntar…a imagem
com que nos relacionamos tem correspondência com a realidade? E, talvez mais
importante ainda…essa correspondência é importante para nós?
A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão
Esta reflexão levo-nos inevitavelmente ao pensamento de Baudrillard (1981)
segundo o qual a realidade perdeu importância, e passámos a viver a representação da
realidade difundida, na sociedade pós-moderna, pelos média. De acordo com esta teoria,
os signos (as representações virtuais) evoluíram, tomaram conta do mundo e hoje
dominam-no, ganhando mais peso e mais força do que a própria realidade. Neste
sentido, será de facto a professora real – a que se aborrece nas aulas, que chega cansada
a casa, que tem vida familiar – mais importante que a personagem da página de
Facebook? Para a maioria dos leitores da referida página, o signo (a personagem – que
só existe no mundo virtual) tem maior peso, mais influência, mais importância que a
pessoa real que a criou e a mantém, surgindo neste contexto o termo "simulacro", uma
simulação que não corresponde ao real mas que, contraditoriamente, é mais atraentes ao
espetador do que o próprio objeto reproduzido.
Comunidades virtuais
Curiosamente, e apesar de existir naturalmente feedback por parte de outros alunos,
colegas e famílias (contactos offline, portanto), muitas das conexões que se percebem da
análise da página de Facebook – pelos comentários, pelas partilhas - foram
estabelecidas com uma comunidade muito mais alargada, com especial relevância para a
comunidade educativa brasileira. É frequente, a partir de dada altura, a conversação com
professores e projetos do outro lado do Atlântico, como ilustrado na Figura 2, com
publicação datada de outubro de 2016. Pode mesmo falar-se, não tanto da criação, mas
da inclusão dos envolvidos no projeto numa comunidade educativa abrangente, num
processo enriquecedor e motivador para novas atividades.
A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão
Figura 2
Exemplo de colaboração com projeto de uma escola de Niterói (Brasil)
Esta criação de comunidades virtuais foi estudada por Pierre Lévy enquanto
desenvolvia a noção de cibercultura. Segundo Lévy (1999) cibercultura corresponde ao
“conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de
pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do
ciberespaço.” Na cibercultura, a conexão é um bem em si. E talvez seja essa a chave
para compreender a necessidade que a professora sentiu de criar uma página de
Facebook mal iniciou um novo projeto, como referido no início deste trabalho.
A questão das comunidades virtuais referidas remete-nos para a construção, nas
palavras de Lévy (1999) de um coletivo “inteligente, mais imaginativo, mais rápido,
mais capaz de aprender”. É desta forma que se cria a inteligência coletiva – resultado da
possibilidade ampla de partilha de conteúdos que estão à nossa disposição, sendo
acrescentados e agregados novos conteúdos todos os dias. Desta forma, é possível que
A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão
cada um, dentro do seu espaço, do seu país, possa colaborar de forma inédita na história
da humanidade na ampliação do conhecimento, levando a aumentar a inteligência
coletiva. Talvez esta seja uma perspetiva muito otimista, mas a verdade é que as
colaborações que se percebem ao longo do trabalho refletido na página de Facebook,
remetem-nos para perceções muito positivas por parte dos envolvidos e uma evidente
ampliação de conhecimento só possível com a interconexão global em que vivemos.
Conclusão
A sociedade do mundo moderno está indelevelmente associada ao progresso
tecnológico e, mais importante ainda, ao advento da Internet que modificou não só
estruturas funcionais a nível institucional e empresarial, como, talvez mais importante,
as relações humanas e a forma como comunicamos e nos relacionamos.
Neste trabalho, foi possível revisitar várias dimensões da sociedade em rede.
A primeira dimensão a merecer reflexão foi a pulsão para a partilha do trabalho
no mundo virtual, como se o facto do projeto permanecer apenas offline lhe diminuísse
a importância. Esta necessidade de existência no ciberespaço, de inclusão na sociedade
em rede, é parte integrante da cibercultura, que reconhece a conexão como um bem em
si própria, tornando-a como fator fundamental da existência diária.
Interessante foi também observar a evolução da imagem projetada pela
professora ao longo dos meses e dos anos. De facto, ao longo da linha do tempo, torna-
se evidente a humanização da professora que gere a página, o que permite o
envolvimento e a criação de uma relação empática com os “seguidores”. Este criar de
uma relação afetiva – porque é fácil sentirmos simpatia pelos alunos, satisfação pelos
A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão
seus sucessos...é curiosa porque reflete a autenticidade das emoções criadas no
ciberespaço.
Esta autenticidade já pode ser posta em causa quanto à imagem com que nos
relacionamos – a professora, os alunos – já que é apenas e só com uma imagem que se
estabelece a relação online (por vezes esta relação online pode sofrer translação para o
mundo real – e esse seria um tema interessante - mas tal não foi possível verificar neste
exemplo). Neste sentido, ganha corpo a teoria do simulacro em que, para todos os
efeitos, a imagem com que nos relacionamos, que existe no ciberespaço, ganha mais
importância para o “seguidor” que o próprio objeto que a cria e a mantém.
A análise desta página de Facebook permitiu ainda verificar a existência de
comunidades virtuais, a partir das quais é possível que se gere uma inteligência coletiva,
com troca de informação e de experiências. Nas palavras de Moreira & Januário (2014),
“estas comunidades virtuais têm-se afirmado como uma importante alternativa à
aprendizagem e aos contextos organizacionais tradicionais e, ao serem suportadas pelas
tecnologias, tornaram-se mais visíveis na atualidade “. Como nunca na história humana,
é possível que cada um, individualmente, possa colaborar na ampliação do
conhecimento global, levando a aumentar a inteligência coletiva.
A visibilidade que a Internet – e o Facebook em particular – permite, pode
contribuir para, além da inclusão em comunidades virtuais – com todas as vantagens
associadas - como já foi referido, o estímulo de fazer mais e melhor, contribuição a ter
em conta no elevar da qualidade dos projetos que se fazem nas nossas escolas.
A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão
Referências
Baudrillard, J. (1981). Simulacros e Simulação. Relógio d'água
Castells, M. (2002). A Sociedade em Rede (6ª ed.). Paz e Terra.
Moreira, A. & Januário, S. (2014). Redes sociais e educação: reflexões acerca do
Facebook enquanto espaço de aprendizagem. DOI:10.7476/9788578792831.0005.
Lévy. P. (1999). Cibercultura. Editora 34

A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão

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    A partilha deum projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão Número de palavras: 2206 A partilha de um projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão Ana Luísa Costa Carneirinho Universidade Aberta
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    A partilha deum projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão Resumo A análise de uma página de Facebook, criada e gerida por uma professora no âmbito de um projeto escolar – um clube de robótica – é o ponto de partida para uma reflexão sobre a sociedade em rede, a importância dos símbolos na atualidade, a cibercultura, a criação de comunidades virtuais e o desenvolvimento da inteligência coletiva. Não pretendendo ser um trabalho sobre teorias da sociedade em rede, revisita o pensamento de autores fundamentais - como Manuel Castells, Jean Baudrillard e Pierre Lévy - ilustrando-o com exemplos concretos obtidos a partir da análise da referida página. A página de Facebook analisada, tendo sido escolhida por ter em comum a autoria com o presente trabalho - não tencionando ser uma amostra representativa das páginas de Facebook no âmbito de partilhas de projetos escolares - devolve-nos situações concretas que incentivam à reflexão, essa sim extrapolável por certo para outros contextos na esfera do ciberespaço. Palavras-chave: sociedade em rede, Facebook, cibercultura, ciberespaço, comunidades virtuais.
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    A partilha deum projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão O contexto Em março de 2015, uma professora de Física e Química da Escola Secundária D. João II, em Setúbal, criou um blog dedicado ao estudo do arduino, uma placa eletrónica programável, em contexto escolar, o Arduino na Escola. De acordo com a própria professora, na publicação inicial do referido blog, este pretendia ser um meio de “partilha de materiais e experiências no âmbito da aplicação da programação e eletrónica em ambiente escolar.” A autora do blog descreve-o ainda como o “diário de uma professora que um dia se lançou numa turma de 8º ano do ensino vocacional a ensinar a programar placas arduino a alunos que se de programação sabiam pouco, de eletricidade e eletrónica nada sabiam.” No seguimento do trabalho realizado, é criado, em janeiro de 2016, o clube de robótica da referida escola e, ao mesmo tempo, a página de Facebook Arduino na Escola para partilhar as atividades realizadas. Esta página de Facebook manteve-se ativa não só enquanto a professora lecionava na escola, nos anos letivos 2015/2016 e 2016/2017, mas também no ano letivo 2017/2018, ano em que a professora foi colocada na Escola Secundária D. Manuel Martins, também em Setúbal, tendo criado nessa escola novo clube de robótica e mantendo a mesma página para promover as atividades desenvolvidas nesse contexto. Com este artigo pretende-se revisitar alguns dos temas estudados ao longo da unidade curricular Educação e Sociedade em Rede, no âmbito do Mestrado em Pedagogia do E-Learning, tendo por base a referida página de Facebook.
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    A partilha deum projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão O produto de uma sociedade em rede O clube de robótica da Escola Secundária D. João II começou as suas atividades em janeiro de 2016. Nesse mesmo mês foi criada a página de Facebook Arduino na Escola para partilhar as atividades aí desenvolvidas. O facto de a professora responsável pelo clube de robótica ter sentido a necessidade de criar uma página nas redes sociais para promover o seu trabalho, ainda mais numa fase tão embrionária do projeto, diz muito da sociedade atual. Sempre existiram projetos meritórios em contexto escolar, mas a necessidade de lhes “dar palco”, de os partilhar através da conexão virtual, de os lançar para a esfera pública é, obviamente, recente e fruto da democratização da Internet que criou novas dinâmicas a nível da sociedade como um todo. A pulsão para a partilha e para a inclusão numa rede de contactos virtuais é uma realidade da sociedade definida por Castells (2002) como sociedade em rede, uma nova estrutura social em que as tecnologias de informação e de comunicação, consubstanciadas na criação e utilização da Internet, surgem como determinantes nas relações interpessoais estabelecidas nos mais diversos contextos, desde os pessoais aos profissionais, como é o caso da página de Facebook analisada. A página em concreto é um exemplo de como os meios digitais não se limitam a serem ferramentas tecnológicas, sendo antes um meio para aceder ao espaço virtual – o ciberespaço – onde se desenvolvem redes humanas de interesses comuns que podem ser de grande complexidade. Observando a evolução da página de Facebook Arduino na Escola, é notória a construção ao longo dos anos da personalidade online da autora e da própria imagem do
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    A partilha deum projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão projeto. Se as primeiras publicações são algo “asséticas”, pouco personalizadas e sem fotos, torna-se evidente que, ao longo dos anos, começaram a surgir imagens dos alunos (primeiro desfocadas, depois já sem filtro), imagens da própria professora, o nome dos alunos da professora, a partilha de sucessos e fracassos, uma perspetiva do ambiente escolar, tudo contribuindo para a criação de uma narrativa com o objetivo de envolver os “seguidores”. A Figura 1 pretende ilustrar essa evolução que se observa ao longo dos anos. Figura 1 Evolução da partilha de fotos entre 2016 e 2018 À medida que a professora aumenta a exposição, é notória o aumento de partilha de emoções e estados de alma. Os textos, apesar de continuarem a ser maioritariamente escritos na primeira pessoa do plural, ganham um cunho humano que apela à empatia de terceiros. Se no início de 2016 as partilhas passam maioritariamente por textos algo descaraterizados como “Mais uma sessão do Espaço Programação Eletrónica. Desta vez, explorámos o funcionamento dos servo-motores, componentes muito versáteis em ambiente de projeto - desde braços robóticos a cancelas, as aplicações vão onde a nossa imaginação nos levar!” (2 de feveiro de 2016), altura em que a professora usa a página de Facebook quase como livro de ponto, para sumariar as sessões realizadas, em
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    A partilha deum projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão junho de 2016 há a publicação de uma foto da professora com um texto muito mais pessoal: “Foi com um prazer enorme que recebemos o 4º lugar no concurso de clubes que aconteceu no E-Tech 2016. Temos consciência que connosco concorriam clubes com muito mais experiência, com uma dimensão muito maior e com muitas provas dadas - por isso, para nós, este foi um verdadeiro Prémio Esperança, que nos deu alento para continuar a construir um caminho que nem sempre é fácil...”. Em maio de 2017, o entusiasmo é evidente na descrição de uma atividade do clube: “Que dia em cheio! Depois do lançamento do satélite, eis que o nosso fica em parte incerta e ninguém o descobre, embora esteja a emitir e seja possível recolher os dados! Missão secundária: camuflagem!”. A entrega de um prémio em maio de 2018 é um pretexto para um tributo emotiva aos alunos envolvidos “foi com enorme orgulho que recebemos o prémio de 2º lugar no concurso dos clubes de robótica! Um reconhecimento do trabalho que temos realizado ao longo do ano e que vai direitinho para todos os alunos que participaram nas atividades do clube mas em especial para os que contribuíram decisivamente para este prémio com o seu empenho durante estes dois dias - André, Celso, Diogo, Santiago, Tiago BV, Tiago Caldeira e Wilson - este prémio é muito vosso!”. Não conhecemos, através desta página de Facebook, a dimensão familiar ou até profissional em ambiente letivo desta professora. Conhecemos uma faceta, a de coordenadora de um clube de robótica, que se humaniza ao longo do período em que a página esteve ativa. Vamos criando uma imagem da docente, criando até laços com a sua personagem e o seu projeto, mas não podemos deixar de nos perguntar…a imagem com que nos relacionamos tem correspondência com a realidade? E, talvez mais importante ainda…essa correspondência é importante para nós?
  • 7.
    A partilha deum projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão Esta reflexão levo-nos inevitavelmente ao pensamento de Baudrillard (1981) segundo o qual a realidade perdeu importância, e passámos a viver a representação da realidade difundida, na sociedade pós-moderna, pelos média. De acordo com esta teoria, os signos (as representações virtuais) evoluíram, tomaram conta do mundo e hoje dominam-no, ganhando mais peso e mais força do que a própria realidade. Neste sentido, será de facto a professora real – a que se aborrece nas aulas, que chega cansada a casa, que tem vida familiar – mais importante que a personagem da página de Facebook? Para a maioria dos leitores da referida página, o signo (a personagem – que só existe no mundo virtual) tem maior peso, mais influência, mais importância que a pessoa real que a criou e a mantém, surgindo neste contexto o termo "simulacro", uma simulação que não corresponde ao real mas que, contraditoriamente, é mais atraentes ao espetador do que o próprio objeto reproduzido. Comunidades virtuais Curiosamente, e apesar de existir naturalmente feedback por parte de outros alunos, colegas e famílias (contactos offline, portanto), muitas das conexões que se percebem da análise da página de Facebook – pelos comentários, pelas partilhas - foram estabelecidas com uma comunidade muito mais alargada, com especial relevância para a comunidade educativa brasileira. É frequente, a partir de dada altura, a conversação com professores e projetos do outro lado do Atlântico, como ilustrado na Figura 2, com publicação datada de outubro de 2016. Pode mesmo falar-se, não tanto da criação, mas da inclusão dos envolvidos no projeto numa comunidade educativa abrangente, num processo enriquecedor e motivador para novas atividades.
  • 8.
    A partilha deum projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão Figura 2 Exemplo de colaboração com projeto de uma escola de Niterói (Brasil) Esta criação de comunidades virtuais foi estudada por Pierre Lévy enquanto desenvolvia a noção de cibercultura. Segundo Lévy (1999) cibercultura corresponde ao “conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço.” Na cibercultura, a conexão é um bem em si. E talvez seja essa a chave para compreender a necessidade que a professora sentiu de criar uma página de Facebook mal iniciou um novo projeto, como referido no início deste trabalho. A questão das comunidades virtuais referidas remete-nos para a construção, nas palavras de Lévy (1999) de um coletivo “inteligente, mais imaginativo, mais rápido, mais capaz de aprender”. É desta forma que se cria a inteligência coletiva – resultado da possibilidade ampla de partilha de conteúdos que estão à nossa disposição, sendo acrescentados e agregados novos conteúdos todos os dias. Desta forma, é possível que
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    A partilha deum projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão cada um, dentro do seu espaço, do seu país, possa colaborar de forma inédita na história da humanidade na ampliação do conhecimento, levando a aumentar a inteligência coletiva. Talvez esta seja uma perspetiva muito otimista, mas a verdade é que as colaborações que se percebem ao longo do trabalho refletido na página de Facebook, remetem-nos para perceções muito positivas por parte dos envolvidos e uma evidente ampliação de conhecimento só possível com a interconexão global em que vivemos. Conclusão A sociedade do mundo moderno está indelevelmente associada ao progresso tecnológico e, mais importante ainda, ao advento da Internet que modificou não só estruturas funcionais a nível institucional e empresarial, como, talvez mais importante, as relações humanas e a forma como comunicamos e nos relacionamos. Neste trabalho, foi possível revisitar várias dimensões da sociedade em rede. A primeira dimensão a merecer reflexão foi a pulsão para a partilha do trabalho no mundo virtual, como se o facto do projeto permanecer apenas offline lhe diminuísse a importância. Esta necessidade de existência no ciberespaço, de inclusão na sociedade em rede, é parte integrante da cibercultura, que reconhece a conexão como um bem em si própria, tornando-a como fator fundamental da existência diária. Interessante foi também observar a evolução da imagem projetada pela professora ao longo dos meses e dos anos. De facto, ao longo da linha do tempo, torna- se evidente a humanização da professora que gere a página, o que permite o envolvimento e a criação de uma relação empática com os “seguidores”. Este criar de uma relação afetiva – porque é fácil sentirmos simpatia pelos alunos, satisfação pelos
  • 10.
    A partilha deum projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão seus sucessos...é curiosa porque reflete a autenticidade das emoções criadas no ciberespaço. Esta autenticidade já pode ser posta em causa quanto à imagem com que nos relacionamos – a professora, os alunos – já que é apenas e só com uma imagem que se estabelece a relação online (por vezes esta relação online pode sofrer translação para o mundo real – e esse seria um tema interessante - mas tal não foi possível verificar neste exemplo). Neste sentido, ganha corpo a teoria do simulacro em que, para todos os efeitos, a imagem com que nos relacionamos, que existe no ciberespaço, ganha mais importância para o “seguidor” que o próprio objeto que a cria e a mantém. A análise desta página de Facebook permitiu ainda verificar a existência de comunidades virtuais, a partir das quais é possível que se gere uma inteligência coletiva, com troca de informação e de experiências. Nas palavras de Moreira & Januário (2014), “estas comunidades virtuais têm-se afirmado como uma importante alternativa à aprendizagem e aos contextos organizacionais tradicionais e, ao serem suportadas pelas tecnologias, tornaram-se mais visíveis na atualidade “. Como nunca na história humana, é possível que cada um, individualmente, possa colaborar na ampliação do conhecimento global, levando a aumentar a inteligência coletiva. A visibilidade que a Internet – e o Facebook em particular – permite, pode contribuir para, além da inclusão em comunidades virtuais – com todas as vantagens associadas - como já foi referido, o estímulo de fazer mais e melhor, contribuição a ter em conta no elevar da qualidade dos projetos que se fazem nas nossas escolas.
  • 11.
    A partilha deum projeto escolar numa página de Facebook. Breve reflexão Referências Baudrillard, J. (1981). Simulacros e Simulação. Relógio d'água Castells, M. (2002). A Sociedade em Rede (6ª ed.). Paz e Terra. Moreira, A. & Januário, S. (2014). Redes sociais e educação: reflexões acerca do Facebook enquanto espaço de aprendizagem. DOI:10.7476/9788578792831.0005. Lévy. P. (1999). Cibercultura. Editora 34