Leitura Semiótica da "Donzela Desnuda"

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Análise semiótica de uma escultura feminina do Centro Histórico de Manaus. Abordando as categorias peirceanas de primeiridade, secundidade e terceiridade. Texto publicado na Revista FMF - Educação, Sociedade e Meio Ambiente. Vol.7, nº2, jul/dez 2007.

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Leitura Semiótica da "Donzela Desnuda"

  1. 1. Imagem, feminino: uma leitura semiótica Maria Evany do Nascimento1 Heitor Rogério Costa Lopes2Resumo Este texto se propõe a fazer uma abordagem pontual, do ponto de vista da semiótica peirceana, de uma escultura do Centro Histórico de Manaus. Detendo-se na relação signo x objeto (ícone, índice e símbolo), pretende abordar as três instâncias definidas como Primeiridade, Secundidade e Terceiridade. Buscando traçar uma cadeia de significados simbólicos, relacionando a escultura ao pensamento de uma época, que por sua vez, é uma recriação de mitos antigos e universais.Palavras-chave: Imagem – Arte - SemióticaAbstract This text if considers to make a prompt boarding, of the point of view of the peirceana semiotics, of a sculpture of the Historical Center of Manaus. Lingering in the relation sign x object (icon, index and symbol), intends to approach the three instances definite as Primeiridade, Secundidade and Terceiridade. Searching to trace a chain of symbolic meanings, relating the sculpture to the thought of a time, that in turn, is a recreation of old and universal myths.1 Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM).Coordenadora Pedagógica do Centro Social e Educacional do Lago do Aleixo (CSELA). Professora dasdisciplinas de Estética e História da Arte e Semiótica, do Curso de Design da Faculdade Martha Falcão.Especialista em História e Crítica da Arte.2 Acadêmico do Curso de Design da Faculdade Martha Falcão.
  2. 2. Keyworks: Image - Art - SemioticsIntrodução A soberania da imagem no mundo contemporâneo, torna as artesvisuais cada vez mais atuais e desperta a necessidade de estudos maiscomplexos abordando a semiótica, antropologia visual, ou outros campos quese dedicam à leitura da imagem. Essa leitura específica, tornou-se umaferramenta necessária a quem se dedica ao trabalho na área da cultura visualou a quem se interessa por esse campo. Uma das ferramentas para umaabordagem mais detalhada desse universo imagético, é a semiótica, ciênciacontemporânea que, se dedica ao estudo do signo e dos processos designificação. Dentre os teóricos que se dedicaram ao desenvolvimento destaciência, o americano Charles Sanders Peirce desenvolveu sua teoria,organizando o processo em que se dá o conhecimento dos fenômenos em trêscampos, que seriam elementos formais e universais, chamou-os dePrimeiridade, Secundidade e Terceiridade. Conhecendo mais sobre o universodos signos e sobre o processo de significação, é possível entender a força quetem o impacto das imagens, o que elas nos trazem, de que forma nos atingeme como utilizar estas ferramentas para a construção de uma comunicação maiseficaz. Este artigo se propõe a fazer uma apreciação semiótica de umaescultura, a partir destas três categorias peirceanas. Não tem a pretensão deoferecer uma análise completa mas, de provocar a utilização da ciênciasemiótica em campos do cotidiano. Para tornar o trabalho mais pontual, foiescolhido apenas a relação que o signo tem com aquilo que ele representa,para uma abordagem de Primeiridade, Secundidade e Terceiridade: Ícone,Índice e Símbolo. E como objeto de apreciação, foi escolhida uma escultura doCentro Histórico de Manaus. Esta área da cidade (Centro Antigo), apresentaum acervo de obras artísticas, em grande parte adquiridas no período áureo daborracha e trazidas de vários lugares do mundo. São esculturas que marcam afase da Belle Époque, o gosto francês e eclético que, com as devidasproporções e adaptações, foi incorporado aos costumes da cidade de Manaus,
  3. 3. no período também denominado fin de siècle. Entre as esculturas, destaca-seesta figura feminina desnuda que se encontra nos jardins do Centro CulturalPalácio Rio Negro, na avenida 7 de Setembro. Trata-se de uma obra intrigantepela falta de informações a respeito de seu período exato de aquisição, autoriae significados simbólicos. Alguns autores a chamam de “Donzela Desnuda” eoutros de “Medusa”, mas ela bem poderia ser chamada de “Eva” ou amaterialização do mito da “fêmea fatal”. Este trabalho pretende descobriralguns possíveis significados desta obra belíssima, que veio para adornar osjardins de um grande comerciante da borracha e que continua, ainda hoje, aintrigar os olhares visitantes. Figura 1: Medusa Foto: Heitor LopesE para início de conversa qual é o nosso objeto? 1. Ficha técnica
  4. 4. a. Nome da obra: “Donzela Desnuda” ou “Medusa” ou “Eva” (recentemente restaurada) b. Nome do artista: sem identificação na peça c. Técnica empregada: Escultura em bronze d. Medidas: 1,34cm de altura e. Local onde se encontra: Jardim frontal do Centro Cultural Palácio Rio Negro, Av. 7 de Setembro – Centro Histórico de Manaus/Am. 2. Palácio Rio Negro De acordo com Mesquita (1999), o prédio onde hoje funciona o CentroCultural Palácio Rio Negro, pertenceu, até a primeira década do século XX, aocomerciante alemão Waldemar Scholz, um dos barões da borracha. Após odeclínio da economia da borracha, foi adquirido pelo Estado em 1918,passando a abrigar a sede do governo. Foi tombado pelo Patrimônio HistóricoEstadual em 3 de outubro de 1980 e em 1996, passou a funcionar como CentroCultural, abrigando exposições e apresentações artísticas. É um dos mais bemconservados exemplos da arquitetura eclética construída em Manaus entre aúltima década do século XIX e a primeira década do século XX. Suas colunas eelementos decorativos, apresentam-se como elementos comuns ao estiloeclético, o diferencial deste prédio é o comedimento no uso destes adornos, oque confere à arquitetura um aspecto que nos lembra os padrões clássicos.3. A escultura: um objeto ou um signo? Para Peirce, um signo é “uma coisa que representa outra coisa paraalguém, sobre determinado aspecto” e um objeto é qualquer coisa passível derepresentação. A nossa escultura se encaixa nos dois processos. É um objeto,existente, físico, palpável. E é um signo, por nos trazer uma cadeia de outrossignificados além do que é: uma escultura. E iremos em busca destespossíveis significados ao longo deste texto.Primeiros olhares – possibilidades da Primeiridade Num primeiro olhar, percebe-se uma escultura feminina, em bronze. Ecom um olhar cuidadoso e um pouco mais demorado, poderia ser assim
  5. 5. descrita: uma figura feminina em pé, desnuda, apoiada no pé esquerdo;seubraço esquerdo está apoiado na cintura e o braço direito estendido; seu rostoapresenta uma expressão séria, olhos abertos e lábios cerrados; possuibrincos de argola; seus cabelos, compostos por um emaranhado de serpentes,tem ainda um cacho de uvas do lado esquerdo; descendo pelo pescoço, emdireção ao seio direito, encontra-se uma serpente com a cabeça levementelevantada; esta serpente circunda um medalhão em forma de caveira, preso auma pequena corrente; em sua mão direita segura um punhal que não podeser visto quando a escultura é observada de frente; no braço direito, encontra-se uma serpente enrolada, com a cabeça em posição de ataque. Junto com aserpente, a figura segura uma máscara de teatro e uma fruta, semelhante auma maçã. A escultura pode ser vista de vários ângulos, pois se encontra nomeio do jardim. E parece ter sido construída para lhe serem rodeados todos osolhares. Esse primeiro contato e essas primeiras impressões, referem-se, deacordo com as tricotomias peirceanas, à categoria da Primeiridade. Não hánada de particular, apenas aspectos gerais: é uma escultura. Em sua relaçãocom o objeto, trata-se de uma representação feminina, um ícone de umamulher, permeada de outras representações existentes: fruto, punhal,serpentes, etc. É isto que a obra nos faz pensar quando avaliamos aPrimeiridade.Segundos olhares – particularidades da Secundidade Sobre o aspecto da Secundidade, é um índice, um existente e como tal,é um fenômeno temporal e espacial, mantendo conexões com outrosexistentes. O índice é, portanto, parte daquilo que representa e dessa forma,incorpora uma característica particular: a de ter potencial para significar,simplesmente por existir e apresentar-se como ponto de ligação com outrosfenômenos, igualmente existentes. No caso da nossa escultura, é uma obra embronze, que nos remete ao material, ao período em que foi feito, ao espaçoocupado, ao prédio, à cidade de Manaus, etc. Sendo dessa forma, um índiceda produção do artista, do estilo do final do século XIX e início do século XX;índice das necessidades decorativas do período chamado Belle Époque; índice
  6. 6. da economia do período da borracha; índice do pensamento do homem emrelação à mulher, na passagem do século XIX para o século XX. Esta obraexiste, e pode nos conduzir há vários caminhos.Terceiros olhares – reflexões interpretativas da Terceiridade A Terceiridade, onde moram os aspectos simbólicos, é, de fato, ogrande interesse deste texto. E a escultura escolhida nos brinda com um lequede possibilidades de significados: um êxtase para a busca dos sentidos. Então,vamos nos deter nos seus índices e buscar alguns significados simbólicos.CORPO DESNUDO O simbolismo cristão já distinguia na Idade Média a: nuditas virtualis (pureza e inocência) da nuditas criminalis (luxúria ou exibição vaidosa). Por isso toda nudez tem e terá sempre um sentido ambivalente, uma emoção equívoca; se por um lado eleva ao puro clímax da mera beleza física e, por analogia platônica, à compreensão e identificação da beleza moral e espiritual, por outro lado quase não pode perder seu lastro demasiado humano da atração irracional arraigada nas profundezas insensíveis ao intelecto. Evidentemente a expressão da forma, seja natural ou artística, induz ao contemplador a uma ou a outra direção. ((Cirlot, 1984) Ao entrar em contato com a obra, seu poder de signo icônico já nos trazà mente diversos significados pela sua exposição de corpo desnudo. Este,pode ser considerado como símbolo de sedução, provocação, pela posição emque se encontra, como a convidar o olhar do espectador, a passear por suascurvas sinuosas, estando assim mais ligado à luxúria e exibição vaidosa, que àpureza e inocência. Isso se dá pela posição em que se encontra e pelosdiversos elementos simbólicos que lhe complementam.AS SERPENTES Entre os muitos que podemos encontrar para a serpente, Cirlot (1984)nos apresenta alguns que complementam o pensamento aqui apresentado:
  7. 7. ... fisicamente, a serpente simboliza a sedução da força pela matéria (Jasão por Medeia, Hércules por Onfale, Adão por Eva), constituindo a manifestação concreta dos resultados da involução, a persistência do inferior no superior, do anterior no ulterior ... a serpente é o símbolo, não da culpa pessoal, mas sim do princípio do mal inerente a tudo o que é terreno. Apresentada dessa forma, as serpentes conferem à nossa escultura, umsentido de maldade, sedução e traição, associando à mulher todas as figurasde divindades terríveis. A mulher é uma sedutora e representa o “principio domal inerente a tudo o que é terreno”.CACHO DE UVASEm seus cabelos, além das serpentes, é possível perceber um cacho de uvas.Esta fruta é um símbolo de Dionísio ou Baco, deus do vinho e das festasdionisíacas ou bacanais. Rituais que envolviam, além de muita bebida, sexolivre e diversos parceiros, sendo portanto, a festa dos prazeres carnais. Cirlot(1984), acrescenta que por ser um fruto, a uva nos remete à fertilidade etambém, por sua ligação ao sangue, ao sacrifício.O CRÂNIO O medalhão em forma de crânio, que a figura traz em seu pescoço,pode fazer uma referência à inteligência e à morte, mas também simbolizamtransitoriedade. Talvez afirmando que a beleza física é um atributo finito. Moraes (2002), traz uma passagem bastante interessante, quandoanalisa o significado da caveira, na figura do acéfalo: O acéfalo, diz Bataille ao descrever a anatomia do monstro, “reúne numa mesma erupção o Nascimento e a Morte”. Isso significa que, nesse caso, a caveira não é apenas um símbolo fúnebre mas também, e ao mesmo tempo, uma evocação da vida: na qualidade de signo que identifica o gênero humano, ela constitui o imperecível, o que perdura do corpo mesmo depois da morte. Seria difícil encontrar melhor imagem para expressar a “existência eterna” da matéria – ou, se quisermos, da coisa humana – assim como pra sustentar, com tal
  8. 8. poder de síntese, a tarefa dialética de desmentir e manter os traços da figura humana.A MAÇÃ A maçã ou o fruto que a figura segura em sua mão esquerda, nosremete ao fruto do “pecado original”, que levou Adão ao pecado e àconseqüente expulsão do paraíso; também pode significar desejo e o caminhopara o conhecimento, já que descrita na Bíblia como “o fruto da árvore do beme do mal”. Significa ainda fertilidade, amor, imortalidade e vida. Em Cirlot(1984) encontramos: Como forma quase esférica, significa uma totalidade. É símbolo dos desejos terrenos, de seu desencadeamento. A proibição de comer a maçã vinha por isto da voz suprema, que se opõe à exaltação dos desejo materiais. O intelecto, a sede de conhecimento é – como sabia Nietzsche – uma zona apenas intermediária entre a dos desejos terrenos e a da pura e verdadeira espiritualidade. A escultura aqui analisada, traz a maçã escondida na mesma mão quesegura uma máscara de teatro. Este fruto não pode ser visto quando a figura éobservada frontalmente. Como se a sedução se fizesse em etapas, primeirocom a nudez, depois com as serpentes e finalmente com o fruto do pecado.Como vimos até aqui, a obra nos remete, com todos os seus elementos, aodesencadeamento dos desejos materiais.MÁSCARA DE TEATRO Esta máscara pode significar a personificação de espíritos e poderes,bem como o “espetáculo da vida”, representado pelas máscaras teatrais nofinal da Antigüidade. Como elemento teatral ela significa disfarce. Embora seusignificado simbólico seja bem maior que isso, chegando a representar ametamorfose, é o que nos traz Cirlot (19834): Todas as transformações têm algo de profundamente misterioso e de vergonhoso ao mesmo tempo, posto que o equívoco e o ambíguo se produz no momento em que algo se modifica o bastante para ser já “outra coisa”, mas ainda continua sendo o que era. Por isto, as
  9. 9. metamorfoses têm que ocultar-se; daí a máscara. A ocultação tende à transfiguração, a facilitar a passagem do que se é ao qe se quer ser; este é o seu caráter mágico... Inserida no emaranhado de outros elementos simbólicos, a máscara nosremete a pensar a metamorfose humana, a transformação do sedutor paraoutra coisa. A máscara ainda não foi colocada, ela se esconde assim como amaçã. Num desencadeamento que induz a pensar que a partir da sedução,depois um outro caráter habitará o corpo nu.PUNHAL A figura traz, oculto em sua mão direita, um punhal, acrescentando alista dos elementos que não se mostram de mediato ao espectador, fazendo-nos pensar numa seqüência lógica e narrativa para a peça. Este punhal, setomado como arma, significa poder e serve tanto para o ataque quanto para adefesa. No entanto, da forma como este aparece, nos faz crer que estápreparado para o ataque. Com ele, se poderia pensar que o ciclo se fecha: ocorpo nu e sensual chama, num primeiro momento à sedução pelo olhar;depois, as serpentes enfeitiçam, o fruto é oferecido, a máscara é colocada e opunhal se mostra fatal. Sedução, traição e fatalidade, seriam possíveis leituraspara esta peça intrigante.
  10. 10. Figura 2: Medusa, detalhes: 1) cacho de uvas e serpentes; 2) serpentes eexpressão séria; 3) e 4) - serpentes no braço e máscara de teatro; 5) fruto damão esquerda; 6) serpente e medalhão em forma de caveira, no pescoço; 7)punhal na mão direita.Fotos: Heitor LopesTecendo redes de significados simbólicosEva É interessante buscar na literatura algumas referências à figura da Eva,porque a escultura, através de sua carga de elementos simbólicos (serpente efruto), nos remete a essa personagem. O livro do Gênesis, que discorre sobreos primórdios da humanidade, no conta que Deus criou os céus e a terra etodas as coisas vivas. Ao ver que isso era bom, criou o homem à sua imageme semelhança e de sua costela, Eva foi gerada. De acordo com Robles (2006), para Adão, Eva representou umacompanheira submissa desde sua concepção, uma vez que é gerada de umade suas costelas. No entanto, mesmo submissa ao homem, cabe a ela aescolha pelo “conhecimento da verdade” através do fruto da árvore proibida.
  11. 11. Então, Eva carrega para todo o sempre a culpa de ter levado o homem apecar, de ter sido expulsa do paraíso e de ter começado uma vida de trabalho,sofrimento e morte para a humanidade. Eva, então, carrega o princípio da vidahumana, da finitude humana.Medusa Não foi sempre que Medusa carregou o fardo pelo qual é conhecida. Eramuito bela e imortal, mas conseguiu enfurecer a poderosa deusa Atena aocopular com Poseidon (deus do Mar) em um de seus templos. Como castigoesta a transformou, junto com suas irmãs, em criaturas medonhas, megerasrepugnantes. Contrastando com a beleza de outrora, agora apresentavam apele escamosa, cabelos em forma de serpentes venenosas, mãos de bronze easas de ouro; suas línguas eram protuberantes, cercada por presas de javali.Medusa foi a mais castigada, virou mortal e mais petrificadora das três. O olhar de medusa foi o seu pior castigo. Por transformar em pedra tudoo que a fitasse, este a impedia de manter contato com qualquer outra criatura.Vivia reclusa com suas irmãs no extremo do mundo e sua morada formavafronteira com o reino das trevas. Ao seu redor se espalhavam figuraspetrificadas de homens e animais que, por descuido, olharam-lhe. Medusa foi morta por Perseu, fundador de Micenas. Quando criança,junto com sua mãe Dânea, foi lançado ao mar por seu avô, o rei de Argos –Acrísio –, temendo a concretização de uma profecia: Perseu o mataria. Foramresgatados e entregues ao rei de Sérifo, Polidectes. Passado anos, já adulto,Perseu recebeu a missão de matar Medusa e entregar sua cabeça a Atena.Auxiliado por esta, equipou-se com sandálias aladas, elmo de invisibilidade,escudo brilhante e a espada de Hermes, e seguiu para o reino das Górgonas.Fazendo uso de suas ferramentas mágicas, conseguiu aproximar-se deMedusa, sem ser petrificado, e a decapitou. Do sangue, que escorria dacabeça decapitada, formou-se dois seres, o gigante Crisaor e o cavalo Pégaso.Perseu recolheu o sangue de Medusa; da veia esquerda saiu um poderosoveneno, da direita um remédio capaz de ressuscitar os mortos. Moraes (2002) faz uma leitura contemporânea desse mito:
  12. 12. ... o rosto de Medusa é uma máscara que apresenta a “face do Outro, nosso duplo, o Estranho, em reciprocidade com nosso rosto como uma imagem no espelho”, mas compondo uma figura ambígua “que seria ao mesmo tempo menos e mais que nós mesmos, simples reflexo e realidade do além”. O homem que encara a Górgona mortal “deixa de ser o que é, de ser vivo para tornar-se, como ela, Poder de morte”. Ou seja, nesse confronto, ele perde sua identidade para assumir uma posição de simetria em relação ao deus, o que implica simultaneamente “dualidade – o homem e o deus que se encaram – e inseparabilidade, ou até identificação”. Da aparência mítica de Medusa, podemos abstrair inúmeros significadossimbólicos e percebemos o quanto são importantes para se entender o homemno contexto social e psíquico. Medusa trazia em si o remédio da vida, massempre fez uso do veneno da morte. Da mesma forma a mulher foi vista pelasociedade em vários períodos da história, e ainda hoje. Tem o poder de dar àluz, mas sempre foi relegada ao segundo plano por ser considerada umacriatura vil e traiçoeira. Esse pensamento é fruto de uma sociedade patriarcalque sempre reprimiu a sabedoria e os poderes sacerdotais e xamânicosfemininos. O mito de Medusa nos alerta sobre nosso mundo interior, oinconsciente. Se entrarmos despreparados nesse mundo, podemos ficarparalisados com o que lá encontraremos. A culpa é o nosso olhar petrificante eo arrependimento é a cura imediata.O Mito da Fêmea Fatal Algumas leituras podem ser feitas a respeito dessas personagensfemininas, tão recorrentes na história da arte. No entanto, é preciso entenderum pouco porque elas ganham tão grande destaque no final do século XIX einício do século XX. Moraes (2002), faz um retrospecto do pensamento doperíodo e nos situa no final do romantismo, primeira metade do século XIX,
  13. 13. onde a figura da mulher fatal disputava espaço com um homem conquistador evil: O libertino oitocentista, desprezando as convenções de uma burguesia que lutava para impor seus valores, insistia em preservar a herança dos devassos do século anterior, num elogio a Casanova e Sade. Era na figura masculina que se evidenciavam as marcas da desordem moral e do excesso licencioso; fossem bandidos, vampiros ou libertinos, eram os homens a encarar o tipo fatal. Na segunda metade do século XIX, começam a ganhar destaque asversões femininas dessa decadência moral. A literatura e o teatro,popularizaram essas personagens conferindo-lhes um destaque dramático aosseus aspectos diabólicos e sedutores: A partir de então, o mito do eterno feminino se uniu irremediavelmente à maldade: as últimas décadas do século se renderam aos apelos imaginários da mulher fatal, deixando-se fascinar pelas histórias das grandes cortesãs, das rainhas cruéis e das pecadoras famosas. Dalilas, Cleópatras, Evas, Elenas, Circes e Armidas proliferaram nas artes e na literatura finiseculares... É nesse momento que se constrói essa imagem da mulher, comoresponsável pela decadência do homem e por todos os males que assolam ahumanidade. A escultura aqui analisada, nos oferece a possível materializaçãodesse pensamento, sendo o retrato da Medusa ou de Eva. Em todos oselementos há um caráter de dualidade, valores morais que tendem para o beme para o mal. No entanto, sabendo que no período provável da construção dapeça (final do século XIX e início do século XX), o pensamento corrente dava àmulher esse papel de fêmea fatal, a leitura dos signos buscou essa teia designificados.
  14. 14. Comentários finais Em todos os tempos a arte se apresenta como expressão do humano. Oartista capta os humores do seu tempo e o transforma em algo material eduradouro. Os pensamentos se modificam, mas a arte permanece para noslembrar do processo. E em um momento em que a leitura da imagem é o quehá de mais evidente e explorado, vale a pena retomar nossas obras públicas ebuscar nelas a relação com nosso passado, construindo assim, a nossahistória. Assim como vale a pena passear pelos logradouros públicos da cidadee observar as obras ali colocadas. Elas têm um porquê de estarem ali, trazemuma história. Seria interessante sair em busca desses significados e relacionarcom a história da cidade, assim perceberíamos o que temos de particular euniversal. O mito da fêmea fatal, representado na escultura do Centro CulturalPalácio Rio Negro, permanece até hoje, nas músicas, nos filmes, noscomerciais de TV, nas novelas. É a mulher, sedutora que desencadeia todo omal. O corpo feminino hoje é um dos principais apelos da comunicação demassa, se tornou produto. É um outro processo de mudança de mentalidade:de fêmea fatal para produto comercial. Mas daí, já são outros significados queexigem outra leitura. Contudo, o estudo da semiótica peirceana pode ser umcaminho para a busca desses sentidos.ReferênciasCIRLOT, Juan-Eduardo. Dicionário de Símbolos. São Paulo: Editora Moraes,1984.COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. São Paulo: Editora Martin Claret,2006.FRANCHINI, A. S.; SEGANFREDO, Carmen. As 100 melhores histórias damitologia – deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana. 8.ªed. Porto Alegre: L&PM, 2006.
  15. 15. MESQUITA, Otoni. Manaus: História e Arquitetura (1852-1910). Manaus:Editora Valer, 1999.MORAES, Eliane Robert. O Corpo Impossível. São Paulo: Iluminuras, 2002.NASCIMENTO, Maria Evany do. Patrimônio e Memória da Cidade:Monumentos do Centro Histórico de Manaus. Dissertação de Mestrado –UFAM, 2003.ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas: o feminino através dostempos. Tradução William Lagos, Débora Dutra Vieira. São Paulo: Aleph,2006.SANTAELLA, Lucia. Semiótica Aplicada. São Paulo: Pioneira ThomsonLearning, 2005.http://pt.wikipedia.org/wiki/Medusa_(mitologia)

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