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Introdução       A cidade é uma teia de significações e (re) significações de uma complexidadetamanha que para decodifica-...
conferiram à cidade o traçado, as obras, a imagem e os conflitos da modernidade. Buscou-se a partir de Argan e Munford com...
Capítulo 1 - Manaus: concepção e organização do espaço públicoCidade de Manaus: suas origens e transformações ao longo da ...
Mesquita1, citando o historiador José Ribamar Bessa Freire, fala sobre o aspecto simbólicoda construção do forte:         ...
O professor Mário Ypiranga4 fala do trabalho dos jesuítas nesse período:              Ali estavam, diligentes, os missioná...
pessoas. A partir desses relatos, começa-se a se formar a imagem do homem amazônicocomo de "costumes decadentes", preguiço...
O professor Ypiranga12 fala ainda sobre o "Arruador", que seria um substituto doengenheiro ou técnico urbanista, profissio...
Obras públicas: 1860-1870        Neste período foi dado prosseguimento às obras do período anterior e iniciadasoutras nova...
Em 1871, foram calçadas as ruas Marcílio Dias e Flores (atual Guilherme Moreira).No ano seguinte estava sendo feito o desa...
para a construção de reservatórios. Inicialmente foram descartados o reservatório do Mocóe da Castelhana, pela necessidade...
A fase áurea da borracha, compreendida entre os anos de 1890 e 1910, não foi aúnica razão para a total mudança estrutural ...
mesmo cenário urbano. Foram abertas largas avenidas; urbanizadas as praças, quereceberam monumentos e diversas obras decor...
vendido ao Estado em 1917. A Cervejaria Miranda Corrêa, à margem do Rio Negro é umareprodução da arquitetura alemã do gêne...
necessidade dessa vitrine para esconder as tradições indígenas, que eram consideradas sinalde atraso. Mas por traz desta v...
As mudanças puderam ser observadas principalmente no centro da cidade, onde ossistemas mais modernos eram instalados, como...
Mas o ciclo ostentoso chega ao fim imprimindo drásticas mudanças, segundoAgnello Bittencourt29 que presenciou este período...
abrir as grandes avenidas, construir palacetes, cafés e teatros, varre para fora da cidade rica,a parte pobre da população...
depois para a Praça da Bola da Suframa. As festas religiosas também encontraram maisespaço. Além das festas católicas, out...
escolhas, pois apesar de "insignificante" naquela época, mais tarde seria, sem           dúvida, "um grande centro de comé...
industrial. E que essa mudança acarretou grandes infortúnios à ordem urbana, como osacontecidos em Manaus. Em meio ao dese...
passa a ser palco do comércio informal. O centro sofre grandes degradações, é reinventadoe repossuído pela população.     ...
de igualdade e reduzindo-os a súditos. E eis que surge a cidade: a partir do domínio detécnicas agrícolas, da produção do ...
ao materialismo e às riquezas na cidade grega, segundo Munford, deu origem às religiõesque exaltavam o espírito, em detrim...
Defende os padrões da cidade antiga em detrimento aos da cidade moderna. Seu livro AConstrução das Cidades Segundo seus Pr...
convidar a Juventude de gerações sucessivas a passar pelos caminhos daqueles        sábios ou heróis que seu país julgava ...
Mas tudo isto são características da sociedade moderna pós Revolução Industrial,quando a cidade, antes obra, passou a ser ...
Vera Pallamin49 também fala do significado da arte urbana e sua relação com oespaço público e a sociedade:                ...
substituídas - de modo insatisfatório - por aqueles quinze minutos de fama nos talk           shows da TV a que, segundo W...
pedaços da cidade são vendidos, no mercado, como mercadorias; árvores são        destruídas, praças transformadas em concr...
Capítulo 2 - Memória e PatrimônioMemória: conceitos e classificaçõesIntrodução aos conceitos de memória                   ...
hierarquizada não é unicamente uma atividade nova de organização do saber, mas umaspecto da organização de um poder novo"....
monumentos. Os quais não precisam da mão do artista para edificá-lo e que, por seu carátertrágico e simbólico para a socie...
Memória oficial        Como memória oficial, compreende-se aquela registrada e ensinada nas escolas.Escrita por quem está ...
A cidade de Manaus, hoje se depara com a imersão em alguns pontos, de elementosque estão trazendo à tona a memória subterr...
que levar à incandescência a verdade de todos os lugares de memória. Sem       vigilância comemorativa, a história depress...
E se há referência a formas gregas, é justo logo salientar o prédio da       Prefeitura Municipal, antigo palácio dos Pres...
pública estadual. A edificação perdeu sua originalidade em decorrência das muitas         transformações sofridas.80      ...
A lembrança é passado completo em sua reconstituição a mais minuciosa. É       uma memória registradora, que delega ao arq...
Patrimônio e Memória da Cidade: Monumentos do Centro Histórico de Manaus
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Dissertação de mestrado defendida em 2003, no Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia, UFAM - Universidade Federal do Amazonas.

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Patrimônio e Memória da Cidade: Monumentos do Centro Histórico de Manaus

  1. 1. Universidade Federal do Amazonas Instituto de Ciências Humanas e LetrasPrograma de Pós-Graduação “Sociedade e Cultura na Amazônia” Patrimônio e Memória da Cidade: Monumentos do Centro Histórico de Manaus Maria Evany do Nascimento Orientação: Luiz Balkar Sá Peixoto Manaus Agosto de 2003Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 1
  2. 2. Introdução A cidade é uma teia de significações e (re) significações de uma complexidadetamanha que para decodifica-la é necessário um olhar multidisciplinar. Este tipo deabordagem é muito comum hoje em debates, encontros, seminários e publicações sobre otema. Compreender a cidade a partir de um único ponto de vista não é mais possível, eprofissionais de vários setores são chamados a lançar seu olhar sobre a urbis para traçar-lheum mapa mais completo. Psicólogos, arquitetos, médicos, engenheiros, artistas, poetas,todos têm uma contribuição para dar ao estudo sobre a cidade contemporânea. Dentro dessateia, este trabalho se propõe a apresentar um enfoque temático pontual e atual em setratando da cidade de Manaus: memória, patrimônio e monumento. Discussão que permeiaencontros e debates sobre as mudanças e adaptações da sociedade moderna em todas ascidades. Memória e Patrimônio da Cidade: Monumentos do Centro Histórico de Manaustrata-se de um trabalho cuja trajetória se iniciou com o Programa Institucional de Bolsas deIniciação Científica – PIBIC, em 1997, na Universidade Federal do Amazonas. O projetointitulado Inventário e Catalogação de Obras de Arte em Logradouros Públicos do CentroHistórico de Manaus, objetivava fazer um mapeamento das obras escultóricas localizadasna área do Centro Histórico da Cidade, com o levantamento de alguns dados históricossobre as peças. O trabalho agradou e obteve o 1o lugar na Área de Ciências Humanas daUFAM, em 1998, participando ainda neste ano do VI Seminário de Iniciação Científica daUniversidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais. Em uma segunda etapa, a pesquisafoi ampliada, com enfoque sobre questões como a cidade e a preservação de suas obras dosespaços públicos. Obras de Arte em Logradouros Públicos do Centro Histórico de Manausfoi monografia de final de curso da Especialização em História e Crítica da Arte. Partedesta monografia encontra-se na Editora Valer aguardando publicação com o títuloMonumentos Urbanos de Manaus, com previsão de lançamento para este ano de 2003. Com nova reestruturação e enfoque mais pontual sobre memória e patrimônio opresente trabalho se apresenta em três capítulos. No primeiro, sentiu-se a necessidade delocalizar o objeto de pesquisa, revisando as principais modificações no traçado urbano dacidade de Manaus desde sua construção. Procurou-se registrar as ideologias que Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 2
  3. 3. conferiram à cidade o traçado, as obras, a imagem e os conflitos da modernidade. Buscou-se a partir de Argan e Munford compreender, em Manaus, as mudanças de sistema quesubstituíram a cidade como obra para a cidade considerada produto e o espaço públicosofrendo essas transformações. No segundo capítulo o enfoque versou sobre questões dememória e patrimônio, com pequeno histórico sobre cada tema e a importância destasdiscussões para a cidade com a inclusão da memória e da história dos logradouros públicosdo Centro Histórico. Utilizando-se alguns dos principais teóricos sobre o assuntopretendeu-se articular as idéias centrais destes, com a realidade da cidade de Manaus noque se refere ao tema estudado: a memória e o patrimônio da cidade. Verificou-se alegislação vigente sobre a proteção e conservação dos bens artísticos e culturais da cidade ea atuação das entidades competentes. O terceiro capítulo apresenta os quatro monumentosselecionados e estudados. Consta de histórico, condições atuais de conservação epreservação, valor histórico e valor artístico de cada obra e a relação da sociedade comestes bens. Aproveitando-se das idéias de Argan, Françoise Choay e Cristina Freire, traçou-se a participação dos monumentos selecionados na vida do cidadão amazonense, de queforma ele interage e se apropria desses bens, que significados possui estes monumentos, deque forma a memória registrada nas obras chega à população e que importância esta lheconfere. Nos comentários finais um olhar particular sobre como o poder público e ossetores governamentais competentes tratam o patrimônio da cidade, as políticasdesenvolvidas e a atuação conferida à proteção e conservação da memória e patrimônio, noque se refere ao Centro Histórico. A partir deste estudo aponta-se possibilidades de sepotencializar o conhecimento e a valorização do patrimônio da cidade de Manaus para quese resguarde a cultura, a memória e a história da cidade. Em documento anexo, encontram-se imagens das obras escultóricas localizadas nas praças do Centro de Manaus com ummapa do seu histórico e suas condições atuais de conservação. Não se trata de uma pesquisa concluída, mesmo porque no que se refere à cidade,nenhum estudo está acabado, pois a cidade está sempre em transformação. Mas externauma preocupação com a memória e a história da cidade de Manaus que aos poucos está seperdendo com a descaracterização de seus registros cristalizados em monumentosespalhados pelas praças do Centro, um bairro que abriga o centro comercial cuja política desobrevivência é a valorização do produto novo. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 3
  4. 4. Capítulo 1 - Manaus: concepção e organização do espaço públicoCidade de Manaus: suas origens e transformações ao longo da história Manaus foi um povoado que nasceu ao redor de uma fortaleza, fato comum emmuitas cidades, transformou-se em vila, passou de vila à cidade. Não foi planejadainicialmente. O forte foi construído para proteger a região de expedições invasoras. Depois da fundação da cidade de Belém (a partir do Forte do Presépio, em 1616), asterras do Rio Negro passaram a ser alvo de expedições que traziam soldados e missionários.Estas expedições procuravam garantir as terras que ficavam além dos limites do Tratado deTordesilhas e também aprisionar índios, não só para serem usados como escravos emBelém, mas para serem levados para os aldeamentos indígenas (agrupamentos formadosinicialmente pelos jesuítas para catequizar os índios, ensinando-lhes uma nova cultura).Este trabalho dos jesuítas funcionava como um equilíbrio entre as prisões e o povoamentoefetivo da região, uma vez que os soldados regressariam com os índios capturados e osjesuítas ficariam instalados em aldeamentos. Mas, por volta de 1661, os jesuítas começam aser expulsos da região. Neste mesmo período, os holandeses começavam a atacar peloOrinoco e os espanhóis pelo Solimões. O Governo do Estado do Grão-Pará, mandou entãoconstruir uma fortaleza para defender o rio Negro e o Solimões.Manaus: de aldeia à capital da Província (1669-1852)Da fortaleza o primeiro nome da cidade O forte que deu origem à cidade de Manaus, foi construído em 1669 e recebeu onome de: forte de São José da Barra do Rio Negro. Ao seu redor reuniram-se índios devários grupos; índios e militares deram início à aldeia que passou a se chamar Lugar daBarra. A construção do forte marca também a chegada da "civilização", de uma cultura quese impõe e que, tempos depois determinará os costumes da cidade. O professor Otoni Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 4
  5. 5. Mesquita1, citando o historiador José Ribamar Bessa Freire, fala sobre o aspecto simbólicoda construção do forte: ...o historiador José Ribamar Bessa Freire afirma que a fortaleza foi construída sobre um cemitério indígena e interpreta esse ato como "um fato sugestivo carregado de simbolismo que, como imagem, sintetiza por si todo o processo colonial". Sem dúvida, a imagem é bastante forte e pode ser interpretada como a real intenção dos portugueses em relação às manifestações nativas. Quanto aos aspectos formais tratava-se de uma construção muito simples, emrelação às outras fortalezas construídas em outras cidades brasileiras. No entanto, como dizo professor Otoni2: Apesar da simplicidade da obra, essa edificação assumiu grande importância, por ser a primeira construção de vulto na região, tornando-se um marco do domínio português na área do Rio Negro e a instalação de uma arquitetura européia. Em 1783, após a instalação da capitania de São José do Rio Negro, em 1757 e sem operigo das ameaças dos holandeses e espanhóis, o forte da Barra foi desativado. A artilhariafoi transferida para Mariuá por ser a capital e por estar próxima aos limites da áreadisputada pelas coroas portuguesa e espanhola. O que nos resta do forte hoje, é uma placaindicativa do lugar de sua construção, em uma área pouco visitada da cidade, poispertencente à administração do Porto de Manaus.O Lugar da Barra A partir de 1695, os padres carmelitas vieram substituir os jesuítas e construíram aprimeira capela de Nossa Senhora da Conceição. A presença dos missionários serviu paralegalizar a mestiçagem através dos casamentos entre portugueses e índios. No períodocolonial, a igreja não desempenhava apenas um papel religioso: "Uma das funções urbanasmais importantes no período colonial foi a função religiosa, sendo a Igreja não somente ocentro das práticas religiosas como da sociabilidade e da vida cultural."31 MESQUITA, Otoni. Manaus: História e Arquitetura (1852-1910). Manaus: Editora Valer, 1999, p. 24.2 Idem, p. 26.3 COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Editora Grijalbo,1977, p. 184. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 5
  6. 6. O professor Mário Ypiranga4 fala do trabalho dos jesuítas nesse período: Ali estavam, diligentes, os missionários e oficiais, assistindo e disciplinando o gentio. E ao abrigo dessas duas forças díspares desenvolveu-se, no terreno adjacente ao forte, o povoado da Barra, simples arraial mal organizado a que os teupares transmitiam impressão bárbara de promiscuidade. Ao falar das ruas, as palavras de Ypiranga5 lembram Munford, quando se refere aoplanejamento das primeiras cidades. Nada mais natural, a cidade está se organizando. No período colonial a rua é apenas o caminho sem expressão, desvestido do tônus estético, aberto à revelia dos pés caminheiros nas manchas verdes do mato, por necessidade urgente ou por comodidade, não raro para abreviar distâncias. O Lugar da Barra modifica-se lentamente neste período provincial. Mas algunsmelhoramentos urbanos são executados, como a abertura de ruas e praças e a construção depontes. De acordo com Mário Ypiranga6, a praça como logradouro público surge nesseperíodo. Continuando, afirma que as ruas e becos recebiam o nome do morador emevidência ou do acontecimento mais marcante. As mudanças políticas ocorridas em 1833,promovem o lugar à categoria de vila, que passa a se chamar então Vila de Manáos,permanecendo como capital da nova comarca.7 Por esse período a vila já possuía casas deestilo europeu, segundo relatos de viajantes, e onze ruas e uma praça, possivelmente aPraça Dom Pedro II. A partir de 1848, quando a vila é elevada à categoria de cidade, com onome de Cidade da Barra do Rio Negro, e com a elevação do Amazonas à categoria deProvíncia, em 1850, a região passa a receber inúmeros estrangeiros: ... a região passou a despertar um crescente interesse internacional, atraindo grande número de viajantes: pesquisadores, cronistas, cientistas e aventureiros que eventualmente divulgavam os relatos de suas investigações e observações sobre vários aspectos da cidade.8 Percebe-se pelas falas dos visitantes que aqui desembarcaram e que vinham comuma visão burquesa-européia, o preconceito externado em relação ao comportamento das4 MONTEIRO, Mário Ypiranga. Fundação de Manaus. Manaus, 1948, p. 33.5 Idem, p. 51.6 Idem, p. 55.7 MESQUITA, op. cit, p. 28.8 Idem, p. 29. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 6
  7. 7. pessoas. A partir desses relatos, começa-se a se formar a imagem do homem amazônicocomo de "costumes decadentes", preguiçoso. Isso porque, segundo Otoni9: Os acidentes geográficos, a topografia e os hábitos regionais faziam do lugar um exótico aglomerado urbano, que misturava elementos ocidentais aos traços nativos e em muito pouco se assemelhava ao padrão europeu surpreendendo e impressionando os viajantes estrangeiros, cuja formação cultural e hábitos eram completamente diferentes. Manaus era uma cidade com características que em nada deveria assemelhar-se aos aglomerados europeus, que naquela época já usufruíam alguns benefícios introduzidos pela indústria e pelas modernas noções de higiene. O traçado da capital da Província do Amazonas obedecia praticamente aos ditames da natureza: era desenhada por vários igarapés, seu relevo era bastante acidentado, com morros e ladeiras; além disso, era comum nas construções residenciais o uso de materiais da região, tais como a madeira, a palha e o barro. Em relação ao espaço urbano ocupado nesse período, sabe-se que: À época da instalação da Província do Amazonas (1852) o sítio urbano de Manaus compreendia seis bairros (São Vicente, Campina, Costa dÁfrica, Espírito Santos, República e Remédios) e estava restrito nos espaços compreendidos entre dois grandes igarapés, o da Cachoeira Grande e o da Cachoeirinha, segundo informações deixadas por Bento Aranha que também esboçou um croqui da cidade naquele período.10 O primeiro presidente da Província, João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha,ao chegar em 1852 e instalar definitivamente a Província, descreveu em seu relatório ascondições do lugar e a falta de melhoramentos urbanos, principalmente em relação aosprédios públicos, que se encontravam em ruínas. A partir da autonomia da Província,Manaus começa a receber melhoramentos e enfrenta as dificuldades da falta de material emão-de-obra. A cidade começa a mudar sua aparência e as pessoas, os hábitos. As ruas vão sendo alargadas, arejadas pela própria necessidade das edificações, do trânsito de pedestres, de carroças de condução ou de transporte de água à domicílio. Praças são abertas com o feitio de uma cidade orgânica e para que em futuro remoto fossem aterradas, pois algumas delas ficavam colocadas em covões, outras em bôca-de-lobos.119 Idem, p. 36.10 PINHEIRO, M ª Luiza Ugarte. A cidade sobre os ombros: trabalho e conflito no porto de Manaus -1889-1925. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 1999, p. 28.11 MONTEIRO, Ypiranga. Op. cit., p. 62. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 7
  8. 8. O professor Ypiranga12 fala ainda sobre o "Arruador", que seria um substituto doengenheiro ou técnico urbanista, profissional que atuava desde, pelo menos, o período daVila de Manaus. A ele competia marcar os limites dos bairros e alinhamentos das casas.Manaus: as transformações urbanas na capital da Província (1852-1890)Obras públicas no período imperial A partir da elevação do Amazonas à categoria de Província, fato ocorrido em 1850,mas efetivado em 1852, com a chegada do então presidente João Baptista de FigueiredoTenreiro Aranha, a cidade começa a sofrer transformações relevantes. As informaçõessobre as obras públicas deste período foram tiradas da obra de Antônio Loureiro13, "OAmazonas na época Imperial". Obras Públicas: 1852-1860 No início do Período Imperial, a cidade sofreu muito com a falta de mão-de-obraespecializada, de materiais e ferramentas. Não existiam pedreiras,olarÒÂæ@Ê@æÊääÂäÒÂæ@àÂäÂ@ÂàäÞìÊÒèÂä@Â@àÊÈäÂX@Þ@ÄÂääÞ@Ê@Â@ÚÂÈÊÒäÂ@âêÊ@ÐÂìÒÂ@ÊÚ@ÂÄêÜÉÄÜÆÒÂX@ÜÞ@ÊæèÂÈÞ@ÜÂèêäÂØ@¨ÊØÐÂæ@Ê@èÒÔÞØÞæ@ÊäÂÚ@èäÂôÒÈÞæ@ÈÞ@ ÂåÂ@Ê@æÊê@àäËÎÞ@ÂêÚÊÜèÂìÂ@ÚêÒèÞ@ÆÞÚ@Þ@ÌäÊèÊ@Ê@Âæ@àÊäÈÂæ@ÈêäÂÜèÊ@Â@ìÒÂÎÊÚ@‚àÊæÂä@ÈÊææÊæ@àäÞÄØÊÚÂæX@ÚêÒèÞ@ÌÞÒ@ÒÜìÊæèÒÈÞ@ÜÊæèÊ@àÊåÚÞÈÞX@Âæ@àäÒÜÆÒàÂÒæ@ÞÄäÂæ@äÊÂØÒôÂÈÂæ@ÌÞäÂÚt@Â@ÆÞÜÆØêçÆÞ@ÈÞ@ÊÈÒÍÚÆÒÞ@ÈÞæ@ŠÈêÆÂÜÈÞæ@‚äéÚÌÒÆÊæX@ÊÚ@bpjnv@Þ@ÆÊÚÒéÒäÒÞ@ÈÞæ@¤ÊÛÒÈÒÞæX@ÂÄÊäèÞ@ÊÚ@bpjhX@Ê@ÊÜÆÊääÂÈÞX@ÊÚ@bpjlX@ÈÊìÒÈÞ@Â@ÊàÒÈÊÚÒÂ@ÈÊ@ÌÊÄäÊ@ÂÚÂäÊØÂv@Þ@ÆÊÚÒéÒäÒÞ@ÈÊ@§ÆÞ@”ÞçÒX@ÂÄÊäèÞ@ÊÚ@bpjlv@o início da construção da atual Matriz; a contratação da iluminação agasogênio, num total de 26 lampiões.12 Idem, p. 130/131.13 LOUREIRO, Antonio José Souto. O Amazonas na época imperial. Edição Comemorativa 45º aniversáriode T. Loureiro Ltda. Manaus, 1989. Informações retiradas do capítulo "Obras Públicas". Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 8
  9. 9. Obras públicas: 1860-1870 Neste período foi dado prosseguimento às obras do período anterior e iniciadasoutras novas como: a abertura da estrada Epaminondas, em 1865, e o aterro e calçamentoda praça Tamandaré e algumas ruas. Em 1867, era aberta a praça de São Sebastião e umarua a seu lado, a rua do Progresso, hoje 10 de Julho. Em março de 1868 foram divulgadasalgumas medidas em relação ao urbanismo, como: a proibição do corte de árvores, varas earbustos de mais de cinco palmos, nos riachos e igarapés, sob pena de multa. Também foiproibido fazer escavações, revolver lama, deitar paus, lixo, material orgânico apodrecido ouqualquer matéria que pudesse afetar a pureza das águas. Ficou proibido a lavagem de roupae animais nos igarapés da Cachoeira grande e Pequena. Essas determinações foram tomadasporque toda a população usava a água dos igarapés para beber e cozinhar alimentos. Mastambém, porque queria-se imprimir práticas e comportamentos "civilizados" à populaçãoque era constituída em sua maioria de índios e mestiços. Em relação a energia, em 1869, foicontratada a iluminação por 60 lampiões a querosene, em postes de madeira, de 20 palmosde altura, e a cidade voltou a ser iluminada a noite, o que não ocorria desde 1863. Oslampiões seriam acesos meia hora após o pôr do sol e até as cinco horas da manhã, e, nasnoites de luar, meia hora após a saída da lua. Essa realidade era comum em muitas cidadesdo interior do Brasil, como atesta Emília Viotti14: Nas cidades do interior os únicos edifícios dignos de registro eram as igrejas e conventos, e mais raramente os edifícios da Câmara e da cadeia. O abastecimento de água era precário, ficando os moradores na dependência de poços e chafarizes. Dada a falta de esgotos, os dejetos eram despejados nos ribeirões ou no mar (quando a cidade era litorânea), escorregando, freqüentemente, pelo meio das ruas. A iluminação era precária, prevalecendo o óleo de peixe. Nas noites de luar a cidade ficava às escuras, iluminada apenas pela luz da lua. Obras públicas: 1870-187914 COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Editora Grijalbo,1977, p. 186. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 9
  10. 10. Em 1871, foram calçadas as ruas Marcílio Dias e Flores (atual Guilherme Moreira).No ano seguinte estava sendo feito o desaterro da Praça 28 de Setembro (hoje PraçaHeliodoro Balbi, ou Praça da Polícia), nesta obra foram empregados 35 índios. Em 1875 chegaram os sinos da Matriz, que em agosto de 1877 já estava concluída,mas só foi benta e inaugurada a 15 de agosto de 1878. Neste ano, a praça da Matriz foidesaterrada e outras praças e ruas foram melhoradas, com o trabalho dos cearenses. Ailuminação a querosene foi substituída por gás globe, pela Lei n.º 411, de 7 de abril de1879. A professora Luiza Ugarte15, complementa: As intervenções iniciais do poder público no sentido do "aformoseamento" urbano ocorreram por volta da década de 1870 na praça da Imperatriz, onde também havia sido construído o primeiro cais da cidade, chamado de "Cais da Imperatriz". Obras públicas: 1880-1889 Este foi o período mais fértil de obras públicas de todo o Império, devido aoaumento da produção da borracha. Antônio Loureiro16 descreve bem esse crescimento: A cidade de Manaus dobrou de tamanho e de população, crescendo, a partir da praça Pedro II, ao longo da estrada Epaminondas, até a praça da Saudade; pela atual 7 de Setembro, rumo à praça 28 de Setembro; para os Remédios, com a inauguração da nova ponte de ferro, sobre o igarapé do Aterro, e para a praça de São Sebastião; além do início do povoamento da estrada Correa de Miranda, a atual Joaquim Nabuco. E, 1883, a iluminação pública ainda era feita com gás globe, e estava sendoampliada com a encomenda de 182 colunas de ferro, das quais 39 já haviam chegado. Noano seguinte, o contrato foi rescindido para a instalação da luz elétrica. Quanto ao serviço de águas, só foi providenciado a partir de 1880, antes, apopulação apanhava a água no igarapé de Manaus, onde se lavava roupa, limpava-seanimais e tomava-se banho (sem roupa). Esses banhos foram considerados imorais eproibidos em 1880, também por uma questão de implementação de novos comportamentose costumes à população local. A partir desse período começaram a ser idealizados projetos15 PINHEIRO, M ª Luiza Ugarte. A cidade sobre os ombros: trabalho e conflito no porto de Manaus -1889-1925. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 1999, p. 29.16 Op. cit., p. 170. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 10
  11. 11. para a construção de reservatórios. Inicialmente foram descartados o reservatório do Mocóe da Castelhana, pela necessidade de represamento e bombas a vapor para a elevação daágua. Foi escolhido então o igarapé da Cachoeira Grande, que possuía a 3 quilômetros dafoz, uma cachoeira, além de ter água limpa, sem matérias orgânicas ou ferrosas. A represaficou construída em 1884, um ano antes, todo o material para a distribuição da água jáhavia sido contratado, inclusive várias fontes, para a população que não receberia a águadiretamente. Durante os anos seguintes, as obras foram paralisadas por diversas vezes; até 1887,nada havia sido entregue e já se chegava à conclusão de que o abastecimento não atenderiaa toda a população. O serviço começou a funcionar, após algumas experiências, emdezembro de 1888. No ano seguinte, o abastecimento atendia diretamente a poucos prédiospúblicos, tendo a população que pegar a água das fontes e bicas espalhadas pela cidade. Agnello Bittencourt17 registra uma passagem interessante: De certa feita, passava eu numa esquina, onde fora instalada uma bica dágua para o público, quando uns seis ou sete garotos brincavam de abrir a torneira e jogar água uns nos outros. Eis que surge a cavalo o Governador [Eduardo Ribeiro] acompanhado de um cavalariano e, rebenque em punho, põe a correr a meninada, aos gritos de - "Moleques! Esta água é para as lavadeiras!" Além do melhoramento dos serviços básicos, começaram a ser projetados econstruídos grandes edifícios, como o Teatro Amazonas, cuja construção foi autorizadapela Lei n.º 546, de 14 de janeiro de 1881, e iniciada em 1884, no governo de TeodoretoSouto; seguiu-se a construção da Igreja de São Sebastião, cuja pedra fundamental foilançada em 1879; continuou-se as obras do Palacete provincial (hoje Quartel da Polícia, naPraça da Polícia); o chalet de ferro da praça Dom Pedro II começou a ser colocado a 9 demaio de 1887 e foi concluído em fevereiro de 1888.Manaus: a borracha e a modernização do espaço urbano (1890-1920)17 Op. cit. p. 39. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 11
  12. 12. A fase áurea da borracha, compreendida entre os anos de 1890 e 1910, não foi aúnica razão para a total mudança estrutural e cultural da cidade de Manaus, embora essamudança já viesse sendo efetivada. Outros fatores colaboraram para isso: a Proclamação daRepública; a imigração nordestina por conta da seca no nordeste e da oferta de emprego nosseringais; a abertura dos portos do Amazonas às nações amigas, que possibilitou a entradade produtos e empresas estrangeiras, e com eles costumes e hábitos de outras culturas; odesenvolvimento da indústria automobilística que exigia grande quantidade de gomaelástica; e a administração do governador Eduardo Ribeiro, responsável pela reformulaçãoestrutural da cidade, seguindo os padrões mais modernos ditados pela França. Por volta da Proclamação da República (1889), Manaus possuía 10.000 habitantes,enquanto Belém, possuía 60.000 e era uma das grandes cidades brasileiras desse tempo. Oque favoreceu, sem precedentes, as mudanças acontecidas na cidade de Manaus foi aeconomia da borracha e toda a estrutura que se formou por ela e para ela. No período de1890 a 1920, a população passou de 10.000 para 75.000 habitantes. Antes mesmo que todaessa população chegasse à cidade, sua estrutura já estava modificada pela importantefunção comercial e portuária que a cidade possuía. Seu crescimento rápido é comparado aocrescimento da cidade de São Paulo, que no mesmo período cresceu devido a produção decafé. No entanto, enquanto São Paulo controlou a expansão ferroviária, a imigraçãoestrangeira e a indústria; Manaus com sua economia de coleta extensiva, dependia daimigração interna e do comércio pelos rios, além do fato de não estar sozinha, pois Belémtambém produzia borracha e era a maior cidade do norte do país, deixando Manaus emsegundo lugar. No limiar da década de 1890, estava desenhada no cenário, uma nova cidade, com calçamento, coreto na praça, obediente ao figurino francês, percebido nos muitos chalets e palacetes com compoteiras ou subordinados ao modelo inglês de parques e jardins, com seus indefectíveis chafarizes de ferro fundido.18 Estruturalmente Manaus foi modificada seguindo os padrões modernos ditados pelaFrança e seguidos por todas as cidades que queriam fazer parte deste mundo moderno. NoBrasil, cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, entre outras, tinham o18 MARTINS, Ana Luiza. A invenção e/ou eleição dos símbolos urbanos: história e memória da cidadepaulista. In Imagens da Cidade - Séculos XIX e XX. São Paulo: ANPUH/São Paulo - Marco Zero -FAPESP, 1993, p. 186. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 12
  13. 13. mesmo cenário urbano. Foram abertas largas avenidas; urbanizadas as praças, quereceberam monumentos e diversas obras decorativas; foram aterrados os igarapés;construído o porto (na época, o maior porto fluvial do país), o mercado e o TeatroAmazonas. De 1892 a 1896, o Estado viveu o seu período mais próspero em receitas, peloimposto cobrado da saída da borracha (nesse período, a Amazônia era a única exportadoramundial de borracha). E como a exportação só crescia, os cofres do Estado estavam fartos.Foi o período da administração de Eduardo Ribeiro, que muito investiu no melhoramentourbano. Os costumes da elite manauara eram os mesmos europeus, com as devidasadaptações. O comércio estava abarrotado de produtos importados, os mais raros, caros einacessíveis. Neste período, as opções de lazer não deixavam nada a desejar à qualquercidade européia. As inúmeras apresentações teatrais, óperas, concertos, ou mesmoencontros nos cafés, eram boas opções para este público, pequeno mas muito exigente erico. Quanto aos mais pobres ou os pequenos comerciantes, chegavam a trabalhar 14 horaspor dia. Somente a partir de 1908, com a determinação do fechamento do comércio às 6 datarde, as pessoas podiam se dedicar ao lazer ou a cursos de artes e mesmo de primeirasletras, antes impossível pela rotina de trabalho. A cidade, na administração de Eduardo Ribeiro, passou por uma reformulação eplanejamento urbano; todas as praças foram arborizadas e foram construídos os maisimponentes prédios de Manaus (alguns dos quais, passam hoje por uma restauração). Os prédios construídos nesse período são adaptações de estilos europeus, comoportuguês, francês, inglês e italiano. Correspondem aos estilos muito difundidos nessespaíses no final do século XIX. Entre as principais construções encontram-se: O Teatro Amazonas, inaugurado em 1896; erguido no topo de uma colina, pode servisto de quase todos as partes do centro. Suas características são predominantemente artnouveau, fachadas neoclássicas; além dos detalhes venezianos com os mármores, espelhose candelabros importados de Veneza. O Palácio da Justiça em estilo neoclássico. O Palácio Rio Negro (hoje CentroCultural), possui elementos que identificam o gosto francês do início do século, oneoclássico e o art nouveau. Foi construído pelo comerciante alemão Ernesto Scholtz, e Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 13
  14. 14. vendido ao Estado em 1917. A Cervejaria Miranda Corrêa, à margem do Rio Negro é umareprodução da arquitetura alemã do gênero. O prédio da Alfândega veio da Inglaterra empeças, de arquitetura eclética, é reprodução de prédio inglês comum nas ruas de Londres de1900. O mercado Adolfo Lisboa, em alguns aspectos arquitetônicos, é uma miniatura domercado de Paris. O professor Otoni Mesquita19, em sua obra Manaus: História e Arquitetura,descreve e analisa esses e outros prédios importantes do período e conclui que a arquiteturade Manaus é uma arquitetura eclética. Além desses marcos, podemos encontrar ainda namaioria das ruas do centro, os inúmeros palacetes (que correspondem às mansões de hoje) eque pertencia à elite manauara que enriqueceu com a borracha. A população adquiriugostos europeus e se acostumou com a presença constante de empresas européias, comomenciona a professora Luiza Ugarte20: ... na Manaus do início do século, praticamente todos os serviços urbanos estavam, por concessão, nas mãos de firmas inglesas que passaram a agenciar melhoramentos ou mesmo criar serviços até então insistentes na cidade. Empresas como a Manáos Markets, Manaus Tramways and Light, Manáos Improvements, Amazon Engineering, Amazon Telegraph, Booth Line e Amazon River começaram a fazer parte do cotidiano da população manauara. A esse conjunto de transformações Otoni Mesquita21 chama de vitrine: Como resultado das mudanças ocorridas no final do XIX, surgia com o novo século uma outra cidade, que pode ser interpretada como a imagem da vitrine instalada, resultado de uma série de transformações. Todo processo de mudanças, com suas obras públicas, a introdução de novos costumes e a adoção de modernos serviços públicos podem ser simbolicamente compreendidos como um “rito de passagem” do processo de branqueamento através do qual a cultura local despia- se das tradições de origem indígena e vestia-se com características ocidentais. Esse "processo de branqueamento" ao qual se refere o professor Otoni, começa comas normas determinantes da mudança de hábitos na população, como os decretos queproibiam os banhos nos igarapés. As primeiras construções de estilo europeu ainda noperíodo colonial e as impressões pré-conceituosas deixadas pelos viajantes marcam a19 Op. cit.20 Op. Cit., p. 38.21 MESQUITA, Otoni. Manaus: história e arquitetura (1852-1910). Manaus: Editora Valer, 1999, p. 147. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 14
  15. 15. necessidade dessa vitrine para esconder as tradições indígenas, que eram consideradas sinalde atraso. Mas por traz desta vitrine, a população mais pobre via este crescimento mas nãousufruía dele. A cidade não se modernizava para todos, apenas para uma parcela dapopulação. Sobre esta época de luxo tem-se vasta bibliografia, mas sobre os contrastesexistentes, pouco se tem registrado. De acordo com a professora Luiza Ugarte Pinheiro, Essa memória de uma Manaus enquanto "cidade criada pela borracha” ganhou força nas palavras de Eduardo Ribeiro, que ao entregar o cargo de governador, orgulhava-se de ter recebido uma aldeia e ter deixado em seu lugar uma cidade moderna, o que acabou por cristalizar-se na produção historiográfica sobre o tema.22 No período da borracha, dois espaços se apresentavam contrastantes para ahistoriografia regional: de um lado tinha-se o seringal, um lugar de morte, um verdadeiroinferno; do outro, a cidade, um lugar de prazeres e riqueza. A professora Luiza Ugarte 23argumenta sobre a origem dessa historiografia de caráter saudosista, que vê nesse período,apenas a cidade próspera e moderna, negligenciando suas desigualdades e conflitosinternos. Segundo ela, os escritores que ajudaram a cristalizar a imagem da cidade como"Paris das Selvas", pertencem a gerações que presenciaram o declínio da economiagomífera e que se voltam à "ilusão do fausto", pela sensação de perda vivenciada nos anos40. A professora Francisca Deusa24 também comenta sobre as duas realidades queconviviam no mesmo espaço urbano neste período: Parafraseando Giulio Carlo Argan, a Manaus ideal e a Manaus real, existiram concomitantemente. O trabalhador e outros segmentos populares habitavam o centro - lugar de ostentação do luxo - e os limites do perímetro urbano. Eles aí se mantiveram em maioria, segregados não do espaço físico, mas da visibilidade pública. as reformas que deram novo visual à cidade por meio de desapropriações, demolições, e a renovação do parque arquitetônico ou os bens culturais, objetivaram suplantar a imagem do atraso e do antiprogresso ligado à pobreza.22 PINHEIRO, M ª Luiza Ugarte. A cidade sobre os ombros: trabalho e conflito no Porto de Manaus -1889-1925. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 1999, p. 25.23 Op. cit.24 COSTA, Francisca Deusa Sena da. Quando viver ameaça a ordem urbana. In Cidades. São Paulo:Programa de História PUC-SP / Editora Olho dÁgua, 1999, p. 86. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 15
  16. 16. As mudanças puderam ser observadas principalmente no centro da cidade, onde ossistemas mais modernos eram instalados, como bondes, energia elétrica, teatros, praçasarborizadas e ornamentadas com esculturas e monumentos. Deusa Sena25 explica o porquêdas mudanças nesta área: A principal área de investimentos durante as décadas de 1890 e 1910 foi o centro da cidade. Sua valorização se deu por fatores conhecidos: transporte, arruamento e pavimentação, iluminação pública, água encanada, esgotos etc. enfim, serviços urbanos que, somados à proximidade do local de trabalho, faziam desse espaço o lugar preferencial para a população da cidade. Em relação às praças comenta: As praças, o ajardinamento, as grandes avenidastinham como função social trazer para dimensão pública um setor elitizado dapopulação.26 A função das praças era levar a público a riqueza de uma minoria. Os passeiosde bondes aos domingos era uma diversão de muitas famílias. Dos bondes se via a Manausglamourosa, seus prédios requintados, praças ornamentadas.27 Mas as classes mais pobresinsistiam em usar o espaço e as praças eram palco para manifestações e comemorações pós-conquistas, até esse "privilégio" também ser negado, pois o poder público se aliava aosinteresses da elite, ou melhor, esta classe impunha determinações ao poder público. Durantea greve geral de 1919, conta-nos a professora Luiza Ugarte28, vários setores reivindicavamo cumprimento das 8 horas de trabalho, após uma trégua solicitada pelo governo, esteaplica uma punhalada aos trabalhadores, tirando-lhe o direito de se reunirem nas praçaspara se organizarem em protesto aos empresários, a maioria ingleses. Foi construída umacidade para um grupo específico, para atender ao gosto reinante da época; buscando-secom isso, apagar a imagem de povoado indígena. Desapropriou-se do uso do espaço,grande parte da população.25 Idem, p. 98.26 COSTA, Deusa. Op. cit, p. 94.27 COSTA, Selda Vale da. Eldorado das ilusões: Cinema e Sociedade: Manaus (1897-1935). Manaus:Editora da Universidade do Amazonas, 1996, p. 7.28 Op. cit. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 16
  17. 17. Mas o ciclo ostentoso chega ao fim imprimindo drásticas mudanças, segundoAgnello Bittencourt29 que presenciou este período: Durante os anos da Guerra de 1914-1918 e no período seguinte, com a depressão econômica mundial, Manaus entrou em crise. Mais de um milhar de prédios residenciais desalugados. Era comum pedir-se por favor que alguém ocupasse uma casa, a título gratuito, ao menos para conservá-la. Nesse período, é claro, praticamente nada se construiu. Apenas o Governador Pedro d Alcântara Bacelar adquiriu o Palacete Scholz, hoje Palácio Rio Negro, para sede própria (a primeira!) do Governo Estadual, em 1918, por duzentos contos de réis.Manaus depois da crise da borracha (1920-1967) O período entre 1920 a 1967, é considerado por muitos historiadores como operíodo da cidade em crise. Manaus estava vivendo o fim do ciclo da borracha, no períodoanterior à instalação da Zona Franca. Mas para o professor José Aldemir30, este é naverdade um período de festa. O professor José Vicente31, em seu trabalho Manaus: praça,café, colégio e cinema nos anos 50 e 60, também segue esse pensamento e apresenta a vidapública pulsante neste período. Com a expansão da borracha, toda a cidade teve de se adaptar e modificar suaestrutura para esse momento. As pessoas também tiveram seus modos e costumesadaptados à riqueza do período. No entanto, nem todos participavam disso igualmente, agrande maioria vivia das migalhas e era afastada das transformações que a cidade pudesselhe oferecer. Nesse período, tentou-se construir uma paisagem homogênea, rica eglamourosa, afastando os pobres desse cenário. Isso pode ser observado nos textos quetratam do período da borracha e principalmente nas fotografias e postais da época. Vê-seuma cidade organizada e planejada, fruto de um urbanismo técnico e racional, que para29 BITTENCOURT, Agnello. Fundação de Manaus: pródromos e seqüências. Manaus: Governo do Estadodo Amazonas/Secretaria de Estado da Cultura e Turismo/Editora da Universidade do Amazonas, 1999, p. 46.30 OLIVEIRA, José Aldemir de. Cidade de Manaus: a homogeneidade do conjunto e a fragmentação dodetalhe. Texto extraído da Tese de Concurso Titular do autor apresentado no ICHL em 1999.31 AGUIAR, José Vicente de Souza. Manaus: praça, café, colégio e cinema nos anos 50 e 60. Manaus:Editora Valer/Governo do Estado do Amazonas, 2002. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 17
  18. 18. abrir as grandes avenidas, construir palacetes, cafés e teatros, varre para fora da cidade rica,a parte pobre da população. Com o declínio da borracha, essa cidade dos ricos dá lugar à cidade dos pobres, evieram à tona os contrastes e conflitos antes abafados. A cidade em crise para os ricos é afesta dos pobres pelo acesso, pelo direito à cidade. Esse acesso era facilitado pelas catraias,pelos bondes, depois os ônibus, pelas balsas e pequenas embarcações. Até os anos quarenta,as catraias eram o único meio de transporte coletivo para os bairros de Educandos e de SãoRaimundo. Nos anos cinqüenta, eram o transporte alternativo 50% mais barato que osônibus. Quanto aos bondes, mais que transporte, era estilo de vida, diversão, ponto deencontro. Entre as diversões estava o “Morcegar”, pegar o bonde em movimento e saltarem seguida, e fazer “cerol”, colocando vidro nos trilhos para os bondes transformarem empó. Depois dos bondes vieram os ônibus, e a primeira empresa privada de transportecoletivo de Manaus foi a Ana Cássia, na avenida Waupés, no bairro da Cachoeirinha. O porto, na escadaria dos Remédios, era o ponto de chegada de muitas pessoas dointerior para a capital. Na década de cinqüenta, os barcos ancoravam na cidade flutuante,que para quem chegava, dava a impressão de passageiro, improvisado, feio. Os igarapés que antes funcionavam como lazer para a elite extrativista,consolidaram-se como locais de encontro e festa para grande parte da população. Nesseespaço e nesse tempo todos pareciam iguais. As pessoas divertiam-se mais porque eraexigido menos tempo para o trabalho. Foi um período de proliferação de clubes por toda acidade, que ofereciam festas aos adultos (com recomendação de elegância para os homens eboa conduta para as mulheres), e manhãs de sol aos jovens, das 10:00 às 12:00, aosdomingos e com entrada franca. Na área esportiva, além do futebol (que até a década de sessenta era amador), havia,no bairro da Cachoeirinha (no quarteirão formado pelas ruas Santa Izabel, Urucará eSilves), o Velódromo. Era um amplo estádio com pistas de patinação e quadras para váriosesportes. Nele aconteciam corridas ciclísticas e de motocicletas, das quais participavamcorredores de todo o Brasil e do exterior. O Velódromo foi construído no final do séculoXIX e funcionou até a década de cinqüenta. A partir de 1957, começou a acontecer o Festival Folclórico do Amazonas,realizado inicialmente na Praça General Osório (hoje campo do Colégio Militar), passando Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 18
  19. 19. depois para a Praça da Bola da Suframa. As festas religiosas também encontraram maisespaço. Além das festas católicas, outras aconteciam fora da área da igreja. Um dos marcosfoi o Centro Umbandista de Joana Galante “situado na subida da estrada de São Jorge, queteve papel importante na expansão da cidade, pois foi a partir do terreiro, que se iniciou aocupação da parte noroeste da cidade, culminando com a construção da ponte sobre oigarapé da Cachoeira Grande e a abertura da estrada para a Ponta Negra”. Na área cultural o que marcou esse período foi o Clube da Madrugada, surgido a 22de novembro de 1954. Os integrantes (intelectuais, músicos, escritores) se propunham acompensar meio século de atraso na área da literatura e das artes na cidade. Outro eventofoi o cinema, inicialmente exibido para a elite no Teatro Amazonas e Polytheama eposteriormente popularizando-se em locais mais acessíveis e também nas praças públicas. Quanto às obras públicas, o professor Agnello Bittencourt32 comenta: ... o Dr. Araújo Lima, quando Prefeito (1926-1930), promoveu o embelezamento dos jardins da Capital, com a realização de algumas obras públicas, como o Relógio da Avenida Eduardo Ribeiro, próximo ao edifício dos Correios, além da demolição de muitos cortiços existentes no perímetro urbano, vários cobertos de palha. Diante desses fatos podemos ter um outro pensamento: que a Manaus da crise éuma cidade com espaço mais socializável; que o tempo da crise é um tempo de menostrabalho e mais diversão; que as pessoas varridas para fora da cidade, nesse período fazemparte dela e são usuárias de uma estrutura que antes lhes era negada.Manaus: cidade-comércio Manaus, antes mesmo de se constituir cidade, já despontava como entrepostocomercial, devido a sua localização, um ponto estratégico na confluência dos rios Negro eSolimões. Otoni33 registra que: Elizabeth Agassiz (ao passar por Manaus em 1865) ressaltou que a situação da cidade, na junção dos rios Negro e Amazonas, fora uma das mais felizes32 Op. cit., p. 46.33 MSQUITA, Otoni. Op. cit., p. 40. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 19
  20. 20. escolhas, pois apesar de "insignificante" naquela época, mais tarde seria, sem dúvida, "um grande centro de comércio e navegação". O comércio em Manaus já havia sido desenvolvido no período da borracha, noentanto, a criação da Zona Franca implementa um comércio mais intensivo e transforma aestrutura urbana da cidade.A Zona Franca: os progressos e problemas causados em Manaus Criada pela Lei 3173, de 6 de junho de 1957, a partir do projeto do DeputadoFederal Francisco Pereira da Silva, a Zona Franca de Manaus só foi regulamentada em1960 e começou a funcionar em agosto de 1967. Tinha o objetivo de promover odesenvolvimento do interior da Amazônia, de acordo com a política desenvolvimentista dogoverno militar e funcionaria por 30 anos. A partir de seu funcionamento, a vida em Manaus foi modificada radicalmente.Como uma avalanche foram surgindo novas casas comerciais e novamente a cidade seencheu de gente nova em busca de enriquecimento rápido. Novamente a estrutura urbana deManaus teve de se adaptar às necessidades do comércio livre: houve um desenvolvimentodos meios de transporte (navios de longo curso e aviões), começam a ser realizados vôosdiários; também há um crescimento dos meios de comunicação, como a TV (havia quatroestações, uma educativa montada pelo Governo do Estado e três particulares e em cores);canais de telefonia (com a instalação de uma delegacia da EMBRATEL). Tambémexpandiram o turismo (pelas belezas naturais e pela facilidade da compra de produtosestrangeiros) e o setor imobiliário, inclusive com edifícios. A receita tributária domunicípio aumentou e o poder aquisitivo das pessoas também. Com isso, era alto oconsumo de gêneros alimentícios importados. Como uma segunda fase desse projeto dedesenvolvimento, foi construído um distrito industrial com infra-estrutura própria(urbanização, serviços de água e iluminação). Como esse pólo necessitava também de mão-de-obra qualificada, instituiu-se como apoio a Universidade Tecnológica do Amazonas(UTAM). Sendo a cidade um produto artístico, Argan34 declara que é natural que a mudançado sistema de produção tenha transformado o que era um produto artístico, em produto34 ARGAN, G. C. op. cit. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 20
  21. 21. industrial. E que essa mudança acarretou grandes infortúnios à ordem urbana, como osacontecidos em Manaus. Em meio ao desenvolvimento vieram os problemas causados pelaimplantação da Zona Franca como: o deslocamento em massa da população do interior,causando um esvaziamento nesses municípios e vilarejos e um inchaço em Manaus,resultando na formação de muitas favelas; o comércio ilegal de mercadorias; oaparecimento de falsas indústrias, que se estabeleciam e algum tempo depois desapareciamdeixando o prejuízo ao Estado; o aumento da prostituição feminina e masculina,principalmente na área central; o prejuízo ecológico causado pelos desmatamentos para aconstrução de conjuntos habitacionais e a poluição dos igarapés e balneários; também umadiminuição na produção de alimentos. Aos poucos, nas praças e ruas de Manaus, foidestacando-se mais o valor de troca que o valor de uso. A busca pelo novo modificou apaisagem do antigo centro, as casas tornaram-se lojas de departamentos, novas vitrinesmodernas. Nesse período muitas praças cederam seu espaço a estacionamentos e novasconstruções como o terminal de integração da Matriz. Muitas esculturas e monumentos queornamentavam estas praças foram removidos ou destruídos, enfim, a paisagem urbana foinovamente renovada visando esquecer o período da crise. Mas o declínio de muitas empresas da Zona Franca fez crescer nas ruas um grandenúmero de vendedores autônomos que se apropriaram das praças e ruas, tornando-asespaços de troca. Hoje a área central da cidade é um espaço onde reina o comércio emtodos os sentidos. Não existe mais a perspectiva de construir a cidade para o futuro;constrói-se para o aqui e agora. O fascínio pelo novo impede a valorização de monumentose construções antigas. E a falta desse olhar cuidadoso para o passado nos impede decristalizar as memórias presentes nas obras, nos impede de construir nossa própriaidentidade. Manaus foi perdendo as características de aldeia e foi transformada, no período daborracha, em uma cidade cosmopolita, com uma estrutura urbana seguindo padrõeseuropeus. O centro da cidade foi projetado para a elite. Com o declínio da produçãogomífera, o espaço urbano recebeu novos usos, as praças principalmente, se transformaramem ambiente coletivo. Nova adaptação acontece quando da implantação da Zona Franca,onde a estrutura precisa se adequar aos novos padrões comerciais, à era dos arranha-céus. Ocentro histórico se transforma em centro comercial e com o declínio de algumas empresas, Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 21
  22. 22. passa a ser palco do comércio informal. O centro sofre grandes degradações, é reinventadoe repossuído pela população. Hoje, a área do Centro Histórico passa por algumas intervenções. São projetos comoBelle époque, que está restaurando alguns prédios antigos e conferindo-lhes uso; as praçastambém estão sendo recuperadas, mas esse processo muitas vezes não é cuidadoso e, naintenção de melhorar, descaracteriza-se os lugares e obras. A própria seleção do querestaurar é um ato arbitrário, pois prevê a conservação de alguns marcos enquanto outros,de igual importância são fadados ao desaparecimento. As intervenções operadas no tecidourbano não seguem um pensamento contínuo, mas idéias individuais de seusadministradores.De cidade-obra para cidade-produto: as mudanças da modernidade Cada período da história pede transformações, as necessidades se modificam, ohomem evolui. Com isso, transforma tudo à sua volta e a cidade é o reflexo de todas essasmudanças. E como ela vai assimilando essas transformações, podemos usar bem as palavrasde Argan ... nenhuma cidade jamais nasceu da invenção de um gênio, a cidade é o produtode toda uma história que se cristaliza e manifesta35. Os vários períodos históricos da cidadede Manaus, estão cristalizados nas obras. Complementando, podemos usar Munford, queassim a descreve: Em verdade, a partir de suas origens, a cidade pode ser descrita como uma estrutura especialmente equipada para armazenar e transmitir os bens da civilização e suficientemente condensada para admitir a quantidade máxima de facilidades num mínimo de espaço, mas também capaz de um alargamento estrutural que lhe permite encontrar um lugar que sirva de abrigo às necessidades mutáveis e às formas mais complexas de uma sociedade crescente e de sua herança acumulada. 36 Com o objetivo de concentrar facilidades num único espaço, a cidade organizouuma força de trabalho mais qualificada, concentrou a distribuição de renda e operou umadistinção entre seus moradores e os moradores de núcleos vizinhos, tirando-lhes a condição35 ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte como História da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1990, p.244.36 MUNFORD, Lewis. p. 38/39. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 22
  23. 23. de igualdade e reduzindo-os a súditos. E eis que surge a cidade: a partir do domínio detécnicas agrícolas, da produção do excedente e da divisão de classes. Embora sendouniversal, a cidade é concebida a partir das particularidades de cada cultura, de acordo comos utensílios, conhecimento, economia, sociedade e política. E essas formas sãomodificadas com o tempo. Entre outras necessidades, o homem busca a cidade para viver bem, nesse sentido éa cidade grega que vai estabelecer inicialmente padrões estéticos e artísticos, como modelopara o viver bem na cidade. A sociedade grega é quem estabelece os padrões culturais paratodo o ocidente, é o modelo de organização em todos os aspectos. Munford37 conta-nos queo cidadão grego não vivia confortavelmente, mas que a beleza que encantava-lhe os olhos eouvidos, o mantinha satisfeito. Contudo, os avanços tecnológicos que, procuravammelhorar a vida cotidiana, lhe tiravam a criatividade. O moderno urbanismo helenísticoproduziu uma cidade de fachadas. O comércio e o crescente número de pessoas aumentou acirculação. Na arquitetura, esse efeito se deu na padronização de prédios e fachadas. Osmonumentos eram vistos de vários ângulos, mas o edifício público helenístico deveria servisto por uma avenida principal. Tal princípio também fundamentou o processo deurbanização adotado no século XIX, no qual se inspirou Eduardo Ribeiro, ao projetar oPalácio do Governo ao final da grande avenida (hoje Av. Eduardo Ribeiro), cujos prédiostinham fachadas padronizadas.As ruas largas, a arquitetura, monumentos e obras de arte, fizeram da cidade helenística acidade do espetáculo, um recipiente de espectadores. E esse papel de espectador unia atodos, pobres e ricos, nobres e humildes. O Império Romano também deixou suas marcasna história da cidade. Os espaços abertos das cidades romanas, não sofreram mudançasradicais até o século XVII. As cidades gregas e romanas serviam de museu a céu aberto, efuncionaram assim até a institucionalização destes, no século XVIII. A beleza era usadacomo um bálsamo para curar a perda da liberdade política e a criatividade cultural dascidades gregas. Arquitetos e planejadores da era helenística, trabalhavam para alcançarefeitos estéticos. O imperador Augusto orgulhava-se de ter encontrado uma cidade emtijolos e ter deixado-a em mármore (a Eduardo Ribeiro costumou-se empregar que eleencontrou uma aldeia e a transformou em cidade). Toda essa ostentação e vaidade, apego37 Idem. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 23
  24. 24. ao materialismo e às riquezas na cidade grega, segundo Munford, deu origem às religiõesque exaltavam o espírito, em detrimento dos bens materiais. Foi uma revolta contra o nívelque atingira a civilização e sua sede por poder e riqueza. Mas se a beleza produzida emRoma juntava pobres e ricos, em Manaus a classe mais pobre não se apropriava dela, não avivenciava como sua, não se sentiam parte dela. Na concepção de cidade antiga, o uso dos espaços públicos e dos monumentosmerecia destaque. As plantas obedeciam o caminhar, o traçado natural, eram plantasorgânicas. Durante a Antigüidade Clássica, Idade Média e Renascença, havia umapreocupação artística em harmonizar prédios públicos, praças e monumentos. A cidade eraconstruída como uma obra, privilegiando o caminhar e o deliciar-se com fontes, esculturase monumentos. As ruas tortuosas possibilitavam o descobrir belezas. Havia umapreocupação estética, uma necessidade de beleza. A cidade barroca primou pela organização, e a avenida foi o fator principal. Passoua ser um lugar para reunir espectadores; estes contemplavam o que se passava à sua frentesem lhes pedir licença. Esse passar sem pedir licença era colocado em prática peloengenheiro militar italiano, que idealizava um plano para a cidade e o executava, ainda quepara isso tivesse que destruir habitações, monumentos, lojas, igrejas. É interessante notar asemelhança de funções entre o engenheiro militar barroco e o engenheiro militar do séculoXX. Eduardo Ribeiro era engenheiro militar e, inspirado nas mudanças promovidas pelobarão Haussmann, implementou modificações significativas no tecido urbano da cidade,abrindo avenidas e aterrando igarapés. Munford, critica a ação do barão, pois ao abriravenidas, abriu também feridas nas relações sociais e na história do lugar. Esse mesmopensamento pôs em prática o prefeito Jorge Teixeira, que em 1975, a fim dedescongestionar a cidade, abriu inúmeras avenidas e construiu pontes. Por outro lado,passou por cima de praças e monumentos do Centro Histórico da Cidade. Essa visão que presa pela geometria, pelo progresso, pela necessidade demodernidade, é chamada de planejamento progressista, é ele que rege as modificaçõesoperadas em Manaus. Em oposição a essa concepção de cidade, o século XIX tambémdiscute o urbanismo culturalista, que toma como modelo a cidade antiga. Camillo Sitte38, éconsiderado o iniciador do urbanismo culturalista, era arquiteto e historiador da arte.38 SITTE, Camillo. Op. cit. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 24
  25. 25. Defende os padrões da cidade antiga em detrimento aos da cidade moderna. Seu livro AConstrução das Cidades Segundo seus Princípios Artísticos, defende essa tese de modeloideal da cidade baseada na antiga concepção de organização urbana: espaços fechados,praças cercadas por prédios públicos e adornadas por esculturas. Quanto aos espaços abertos, a praça não desapareceu na cidade barroca, apenasganhou uma nova finalidade urbana. Até então não havia sido utilizada para finsresidenciais. No barroco, a praça servia para aglomerar pessoas do mesmo ofício e posição,ou melhor. As novas praças, na verdade, atendiam a uma nova necessidade da classe superior, ou melhor, a toda uma série de necessidades. Eram originariamente construídas para famílias aristocráticas ou de mercadores, com o mesmo padrão de vida, os mesmos hábitos. Se as fachadas uniformes da praça ocultavam diferenças de opinião política e fé religiosa, havia talvez, no século XVII, necessidade extra justamente deste tipo de arbítrio manto de classe, ocultar suas disparidades, rivalidades e inimizades emergentes: gente nobre mostrava uma frente comum de classe, que polidamente ocultava suas diferenças ideológicas e de partido. Aqueles que residiam numa praça tinham, por esse simples fato, alcançado uma distinção extra; e presumivelmente, poderia ter uma carruagem e cavalos... Os espaços abertos da praça não eram concebidos, na verdade, como lugares para caminhar e relaxar os músculos ao ar livre, como são usados hoje em dia; constituíam, antes, locais de estacionamentos para veículos... Aquelas praças abertas, ademais, podiam-se conduzir os convidados para uma grande festa, em carruagens, sem causar exagerado congestionamento.39 No século XVIII, as praças tornaram-se jardins comuns, sem a visível barreirasocial. Após três revoluções: inglesa, americana e francesa, que derrubaram o podercentralizado, o Estado pode tomar o poder de novo. O novo traçado urbano deveriafavorecer o poder do Estado, o que pode ser observado na construção de Washington, paraa qual foi chamado, segundo Munford, o francês Pierre – Charles L‟Efant. L’Efant acreditava, em suas próprias palavras, que o “modo de tomar posse de um distrito inteiro e melhorá-lo deve a princípio deixar à posteridade uma grande idéia do interesse patriótico que o promoveu”: assim, até mesmo suas praças deveriam ser transformadas em santuários com figuras esculpidas, “para39 MUNFORD, Lews. Op. cit. p. 429. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 25
  26. 26. convidar a Juventude de gerações sucessivas a passar pelos caminhos daqueles sábios ou heróis que seu país julgava conveniente celebrar”.40 As praças e ruas de Manaus, à época da República, ganharam elementos(monumentos, nomes, esculturas), referentes a figuras importantes do momento político.Assim como em todo o Brasil, ganhou obras para celebrar a República. Da industrialização resulta a urbanização, o uso do espaço como mercadoria. Ondepredomina a troca pelas possibilidades de uso, embora toda mercadoria tenha seu valormonetário e de uso. A forma da cidade é modificada. As ruas tornam-se retas e largas e nãohá mais a preocupação com a harmonização de prédios, praças e monumentos. Inicia-se umperíodo de velocidade no olhar e no caminhar. Sobre esse caminhar na cidade moderna,James Hillman41 diz que: Caminhar hoje é principalmente um caminhar com os olhos. Não queremos labirintos, nem surpresas. Sacrificamos os pés pelos olhos. Cidades mais antigas quase sempre cresciam em torno dos rastros dos pés: trilhas, esquinas, caminhos, entroncamentos. Essas cidades seguiam os padrões inerentes aos pés, em vez de plantas desenhadas pelos olhos. Há grande nostalgia nas palavras de Camillo Sitte, apaixonado pela cidade-obra-de-arte, ao dizer que: As transformações em nossa vida pública foram tantas e tão irreparáveisque muitas das antigas formas de construção perderam seu sentido – e quanto a isso nadapodemos fazer42. E uma das grandes mudanças foi a nova concepção de praça. Sitte43estabelece a diferença entre as praças da cidade antiga e as praças da cidade moderna.Nestas, as obras, de caráter monumental para produzir efeito, são colocadas ao centro,ocupando assim todo o espaço; enquanto que naquelas, as obras eram dispostas ao longo dapraça, permitindo a colocação de várias obras e deixando o centro livre. Podemos visualizarestas definições com a Praça São Sebastião, com um único monumento ao centro e a PraçaHeliodoro Balbi, um jardim onde várias obras estão dispostas.40 Idem, p. 437.41 HILLMAN, James. Cidade e Alma. São Paulo: Studio Nobel, 1993.42 SITTE, Camillo. A Construção das Cidades Segundo Seus Princípios Artísticos. São Paulo: Ática, 1992,p. 112.43 Idem. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 26
  27. 27. Mas tudo isto são características da sociedade moderna pós Revolução Industrial,quando a cidade, antes obra, passou a ser considerada produto. Antes da industrialização, aestrutura da cidade correspondia a: centros de vida social e política, onde se acumulam nãoapenas as riquezas como também os conhecimentos, as técnicas e as obras (obras de arte,monumentos)44. Os investimentos aconteciam na cidade porque ela representava umpatrimônio, por isso eram construídas as obras de arte. Mas a cidade como obra, na visãodo período industrial, era muito dispendiosa e não oferecia vantagem econômica. Arealidade era outra, o capitalismo comercial e bancário tornou móvel a riqueza epossibilitou a transferência; e a cidade tornou-se produto. Nesse contexto, os núcleos urbanos transformaram-se para continuar existindo nacidade tomada pela indústria; os centros antigos então, passaram a desempenhar doispapéis: tornaram-se ao mesmo tempo lugar de consumo e consumo do lugar, tornaram-secentros de consumo. E quanto ao centro comercial, ressurgiu, mas apenas como lembrançado que foi a cidade antiga45. Este é o caso de Manaus e das suas praças que ganharam novafunção: lugar de consumo, sem perder a função de consumo do lugar.Arte urbana e espaço público A arte pública só se torna necessária quando tem uma função, quando é necessária para alguém. Claudia Büttner46 Na obra História da Arte como História da Cidade47, Giulio Carlo Argan, fala doespaço urbano como espaço de objetos. Estes objetos, por sua vez, constituirão equalificarão a imagem da cidade, sendo o monumento a auto-representação da cidade e desua história. Cita que: O que a produz [a obra de arte] é a necessidade, para quem vive eopera no espaço, de representar para si de uma forma autêntica ou distorcida a situaçãoespacial em que opera.4844 LEFEBVRE, Henry. O Direito à Cidade. São Paulo; Editora Moraes, 1991, p. 4.45 Idem, p. 12/13.46 BÜTTNER, Claudia. Projetos artísticos nos espaços não institucionais de hoje. In Cidade e Cultura:esfera pública e transformação urbana. Vera M. Pallamin (org). São Paulo: Estação Liberdade, 2002, p. 88.47 ARGAN, J. C. História da Arte como História da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1998. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 27
  28. 28. Vera Pallamin49 também fala do significado da arte urbana e sua relação com oespaço público e a sociedade: Sendo partícipe na produção simbólica do espaço urbano, a arte urbana - compreendida no plano das relações sociais e não reduzida a uma sua dimensão estetizada - repercute as contradições, conflitos e relações de poder que o constituem. Nesse registro específico de sua tematização, associa-se direta e indiretamente à natureza constituinte do espaço público, a questões de identidade social e urbana, de gênero e expressões culturais que possam ou não nele vir a ocorrer, às condições de cidadania e democracia. Em relação às representações sociais que a arte nos espaços públicos tem para asociedade, Vera complementa: Em meio aos espaços públicos, as práticas artísticas são apresentação e representação dos imaginários sociais. Sendo um campo de indeterminação, a arte urbana adentra a camada das construções simbólicas dos espaços públicos urbanos, intervindo nos modos diferenciais da produção de seus valores de uso, sua validade ou legitimação, assim como de discursos e formas sedimentadas de representação cultural ali expostas. Pode criar situações de visibilidade e presença inéditas, apontar ausências notáveis no domínio público ou resistências às exclusões aí promovidas, desestabilizar expectativas e criar novas convivências, abrindo-se a uma miríade de motivações.50 As manifestações artísticas efetivadas em locais públicos da área urbana, dizemrespeito à sociedade que a manifesta e usufruiu. Certamente estão embutidas nela, o poder eas características peculiares do momento histórico. Hoje, especialmente, as formas de arteapresentadas em locais públicos precisam inserir a população, ou melhor, precisam darespaço para que as pessoas se sintam parte dessas obras, precisam dar-lhe oportunidade deinteragir. Cláudia Büttner comenta a respeito: Uma forma de arte a ser assimilada em público e que representa sobretudo o próprio cidadão no espaço público parece ser uma das funções mais importantes da arte pública numa democracia. Vivemos num tempo em que funções importantes do ambiente público, como, por exemplo, a de ver e ser visto, desapareceram das praças para serem49 PALLAMIN, Vera M. Arte urbana como prática crítica. In Cidade e Cultura. Op. cit, p. 106.50 Idem, p. 108. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 28
  29. 29. substituídas - de modo insatisfatório - por aqueles quinze minutos de fama nos talk shows da TV a que, segundo Warshol, todos têm direito.51 Claudia acrescenta que por causa dessa necessidade, os artistas procuram inserir onome das pessoas nos espaços públicos, para que estas sintam atendidas as suasnecessidades de se destacarem no anonimato que as grandes cidades causam. E ainda que,representar os moradores e incentivar a comunicação entre as pessoas, deveriam ser osobjetivos da arte pública. Como possibilidade de comunicação, Claudia defende a função da arte comotransformadora da sociedade: ... é justamente a arte que oferece a possibilidade de dar forma aos processos de comunicação. Enquanto na sociedade não existir um consenso sobre conteúdo, tipo e função de monumentos, a falta de capacidade para o discurso político exigirá uma arte que se estenda como uma oportunidade de comunicação ou catalisadora de participação ativa e debate discursivo. A arte é uma linguagem altamente desenvolvida, que criou estratégias e processos diversos para transmitir conteúdos e atitudes. Já que ela foi capaz de explicar realidades complexas em séculos passados, poderia passar a ver hoje a sua missão mais nobre na tarefa de transformar indivíduos apolíticos e associais em cidadão comunicativos e responsáveis.52 Observando os espaços públicos do Centro de Manaus e suas obras, percebemos oinverso às tendências atuais da arte pública, mesmo porque há muito não se empreendeobjetos artísticos nos locais públicos. As obras encontradas dizem respeito a um outrotempo que não encontra significado para a maioria das pessoas porque estas desconhecemsua própria história. As transformações urbanas, tão inevitáveis, acabam por destruir asreferências que as pessoas tentam formar dos lugares. Sobre esse processo detransformação urbana que provoca incessante transformação na sociedade, Ana Fanicomenta: A vida das pessoas se modifica com a mesma rapidez com que se reproduz a cidade. O lugar da festa, do encontro quase desaparecem; o número de brincadeiras infantis nas ruas diminui - as crianças quase não são vistas; os51 BÜTTNER, Claudia. Op. cit, p. 85.52 Idem, p. 79. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 29
  30. 30. pedaços da cidade são vendidos, no mercado, como mercadorias; árvores são destruídas, praças transformadas em concreto... Por outro lado, os habitantes parecem perderem na cidade suas próprias referências. A imagem de uma grande cidade hoje é tão mutante que se assemelha à de um grande guindaste, aliás, a presença maciça destes, das britadeiras, das betoneiras nos dão o limite do processo de transformação diária ao qual está submetida a cidade.53 A esse respeito, Nicolau Sevcenko fala que, no momento em que a sociedade atingeseu mais alto nível de tecnologia e crescimento econômico, enfrentamos uma crise devalores morais. E essa crise se dá pelo imediatismo reinante, ou seja, por uma "prática éticado presentismo", que valoriza apenas o "presente imediatamente definido", e esquece opassado.54 Sem a atenção ao passado, destrói-se os lugares e a vida reinante neles,comprometendo as referências das pessoas e a própria história e memória destes lugares.Essas transformações têm ainda outra razão de ser: ... o espaço da cidade é o instrumento ideal de exteriorização do poder. Aos governantes, não bastam marcos edificados, obeliscos de vitórias, edificações alusivas de suas gestões. Importa interferir na imagem da cidade, pois registram nela, indelével, a marca de sua perpetuidade.55 Essa marca hoje se faz com a interferência, por vezes inescrupulosa, nos lugarespúblicos e em suas obras. A retirada e colocação de objetos de um lugar para outro é umacaracterística não só da nossa cidade, mas da cidade que se moderniza e prima pelopresente imediato. A falta de cuidados com as obras e monumentos reflete o descuido coma história e a memória da cidade.53 CARLOS, Ana Fani A. A Cidade. São Paulo: Contexto, 2001, p. 19.54 SEVCENKO, Nicolau. O desafio das tecnologias à cultura democrática. In Cidade e Cultura. Op. cit., p.39.55 MARTINS, Luiza. Op. cit, p.189. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 30
  31. 31. Capítulo 2 - Memória e PatrimônioMemória: conceitos e classificaçõesIntrodução aos conceitos de memória A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia.56 No século XVIII, o Século das Luzes, a história declara independência da religião.Há uma necessidade de reescrever uma história racional, universal, sem os infortúnios dascrenças. Segundo Edgar Salvadori57: ... o campo da memória, entendido como o lugar da transmissão dos valores e das crenças, deveria ser investigado incansavelmente, por métodos adequados para que se pudesse extrair desse universo de erros e equívocos a própria verdade histórica. A memória torna-se objeto da história que a transforma em dicionários eenciclopédias. É a lógica do período, todo o conhecimento é disposto de forma ordenada;conhecer é classificar. Por isso, "o dicionário e a enciclopédia tornaram-se o conhecimentodo mundo por meio do uso do método racional".58 Mas esta iniciativa não é inovadora, as civilizações antigas, segundo Le Goff 59, apartir da escrita passaram a criar listas, glossários e tratados, para eles nomear tambémsignificava conhecer. E acrescenta que "A memorização pelo inventário, pela lista56 LE GOFF, Jacques. Por amor às cidades: conversações com Jean Lebrun. São Paulo: Fundação Editorada UNESP, 1998, p, 476.57 DECCA, Edgar Salvadori de. As desavenças da história com a memória. In: SILVA, Zélia Lopes da (Org.).Cultura Histórica em Debate. São Paulo: Editora Unesp, 1995.58 Idem.59 LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1992, p. 435. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 31
  32. 32. hierarquizada não é unicamente uma atividade nova de organização do saber, mas umaspecto da organização de um poder novo".60 A instalação desta “historiografia profana”, que se opunha aos mitos, lendas esuperstições, "comprometeu sensivelmente o campo da memória coletiva e também aspercepções sobre a memória e seu lugar no campo do conhecimento”61. “Com odesenvolvimento da escrita estas “memórias vivas” transformam-se em arquivistas.”62 O passado deveria ser sistematizado, para tanto, a memória no século XVIII, ... deveria ser objeto de uma nova definição, para que ela pudesse servir de fonte para a crítica racionalista e ao mesmo tempo ser reinventada como um novo lugar possível de acumulação e ampliação de conhecimentos. Não mais um lugar onde imperasse as superstições e as crenças religiosas, mas o espaço material de transmissão do conhecimento racional por meio de enciclopédias e dicionários e de organização documental sistemática pela constituição de arquivos do passado.63 No século XIX, diz Le Goff, levanta-se uma civilização da inscrição, valorizandomonumentos, placas comemorativas, ... o movimento científico, destinado a fornecer à memória coletiva das nações os monumentos de lembrança, acelera-se. Entre as manifestações importantes ou significativas da memória coletiva, encontra-se o aparecimento, no século XIX e no início do século XX, de dois fenômenos. O primeiro, em seguida a Primeira Guerra Mundial, é a construção de monumentos aos mortos. (...)64 O segundo é a fotografia, que revoluciona a memória: multiplica-a e democratiza-a, dá-lhe uma precisão e uma verdade visuais nunca antes atingidas, permitindo assim guardar a memória do tempo e da evolução cronológica.65 Em relação aos monumentos aos mortos, Françoise Choay66 os classifica de"comemorativos", e exemplifica com algumas "relíquias" das guerras transformadas em60 Idem, p. 436.61 DECCA, Edgar Salvadori de. Op. cit.62 LE GOFF, Jacques. Op. cit., p. 437.63 Idem.64 LE GOFF, op. cit., p. 464.65 Idem, p. 465 e 466.66 CHOAY, Françoise. A Alegoria do Patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade: editora UNESP, 2001,p.23/24. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 32
  33. 33. monumentos. Os quais não precisam da mão do artista para edificá-lo e que, por seu carátertrágico e simbólico para a sociedade, produzem tanto efeito. No século XIX, Manaus passa por um grande processo de modernização eembelezamento das praças, com a importação de obras monumentais e artísticas, efeito dasrecentes transformações pelas quais passava a Europa. A lembrança deste período estápresente nos logradouros e prédios erguidos à essa época e são fontes constantes para aretomada da história da cidade nesse período. É o que Michael Pollak67 menciona comodispositivos da memória, pontos de referência para a memória coletiva, e o que PierreNora68 denominou de lugares de memória.Memória individual - Memória coletiva - Memória histórica Maurice Halbwachs69 escreveu depois da II Guerra Mundial, publicou seulivro sobre as memórias coletivas em 1950, no momento em que se começava a ternoção do papel do indivíduo; quando se constitui as ciências sociais e estastransformam a memória coletiva. Colaboram a sociologia, a psicologia social, aantropologia, aliados ao medo de uma perda de memória; é nesse período então,diz Le Goff, que a memória torna-se objeto da sociedade de consumo. Halbwachsdefiniu esses três conceitos de memória: memória individual, memória coletiva ememória histórica. Segundo ele, a memória individual precisa da coletiva, embora não se confundacom ela e o indivíduo participa dessas duas espécies de memória. Não está totalmentefechada, isolada, precisa emprestar palavras e idéias do seu meio. E como somos produtodo meio, a memória individual é construída a partir da memória coletiva. Halbwachstrabalha com duas categorias: tempo e lugar.67 POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Rio de Janeiro: Estudos históricos, vol. 2.1989.68 NORA, Pierre, op. cit.69 HALBWACHS, Maurice. Memória Coletiva. São Paulo: Vértice, 1990. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 33
  34. 34. Memória oficial Como memória oficial, compreende-se aquela registrada e ensinada nas escolas.Escrita por quem está no poder. Cristalizada nas denominações oficiais de ruas e praças ena construção de monumentos. Caracteriza-se também por criar heróis simbólicos, datas efestas comemorativas de interesse do Estado. Os monumentos analisados neste trabalho,dizem respeito à este tipo de iniciativa, são classificados como monumentoscomemorativos, implantados para a construção de uma memória histórica e coletiva. Memória subterrânea Quem trabalha o conceito de memória subterrânea é Michael Pollak70, no seu artigo“Memória, Esquecimento, Silêncio”, onde estabelece também o conceito de memória emdisputa: ... Ao privilegiar a análise dos excluídos, dos marginalizados e das minorias, a história oral ressaltou a importância de memórias subterrâneas que, como parte integrante das culturas minoritárias e dominadas, se opõem à “memória oficial”, no caso a memória nacional. (...) essas memórias subterrâneas que prosseguem seu trabalho de subversão no silêncio e de maneira quase imperceptível afloram em momentos de crise em sobressaltos bruscos e exacerbados. A memória entra em disputa. Os objetos de pesquisa são escolhidos de preferência onde existe conflito e competição entre memórias concorrentes71. Ainda sobre a memória subterrânea, Pollak acrescenta: A fronteira entre o dizível e o indizível, o confessável e o inconfessável, separa, em nossos exemplos, uma memória coletiva subterrânea da sociedade civil dominada ou de grupos específicos, de uma memória coletiva organizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam passar e impor.7270 POLLAK, Michael, op. cit.71 Idem, p. 4.72 Idem, p. 8. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 34
  35. 35. A cidade de Manaus, hoje se depara com a imersão em alguns pontos, de elementosque estão trazendo à tona a memória subterrânea. São os artefatos indígenas que estãosendo encontrados e que revelam uma cidade subterrânea com história e memória diferenteda cidade construída. A cidade construída no período da borracha, visava passar umaimagem de modernidade por uma necessidade de fazer parte do mundo moderno,enterrando e escondendo qualquer resquício de atraso, representado não só pela culturaindígena, mas por vários grupos que foram excluídos. Essa visão surge hoje, com algunstrabalhos acadêmicos que colocam em disputa essa memória da cidade moderna com amemória subterrânea, vivida por essa sociedade esquecida. A análise que se pretende comeste trabalho, busca localizar entre essas memórias, a importância dos monumentosconstruídos, como reflexo da modernização, da necessidade de construir uma memóriacoletiva, de guardar datas, mas também de materializar momentos históricos importantespara a cidade. Porque, como afirma Pierre Nora73, as memórias não são espontâneas, énecessário que se mantenham os "lugares de memória" e esses monumentos incorporamessa função. Outro fator importante, é o de que não há um passado uníssono, bem como nãoexistem lugares sem conflito, daí surgem as memórias em disputa. Logo, cada monumentoanalisado, cada espaço da cidade guarda diferentes memórias e histórias.O lugar como cristalização da memória Pierre Nora74 discute a questão dos lugares como cristalização da memória e sualocalização entre a memória e a história. Declara o fim das sociedades–memória, dasideologias-memória e por isso a necessidade desses lugares de memória. Esse estudo doslugares, segundo ele, está entre dois movimentos, um estritamente historiográfico e outrohistórico, que declara o fim da memória. Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais. É por isso a defesa, pelas minorias, de uma memória refugiada sobre focos privilegiados e enciumadamente guardados nada mais faz do73 NORA, Pierre, op. cit.74 Idem. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 35
  36. 36. que levar à incandescência a verdade de todos os lugares de memória. Sem vigilância comemorativa, a história depressa os varreria. São bastões sobre os quais se escora. Mas se o que eles defendem não estivesse ameaçado, não se teria, tampouco, a necessidade de construí-los. Se vivêssemos verdadeiramente as lembranças que eles envolvem, eles seriam inúteis. E se, em compensação, a história não se apoderasse deles para deformá-los, transformá-los, sová-los e petrificá-los eles não se tornariam lugares de memória. É este vai-e-vem que os constitui: momentos de história arrancados do movimento da história, mas que lhe são devolvidos. Não mais inteiramente a vida, nem mais inteiramente a morte, como as conchas na praia quando o mar se retira da memória viva.75 Além dos monumentos, objeto desta pesquisa, algumas construções do entorno daPraça Dom Pedro II, constituem lugares de memória, como o Palácio Rio Branco, o prédioda antiga Prefeitura, o Arquivo Público e o Hotel Cassina. Valem aqui algumas reflexõessobre eles. O Palácio Rio Branco, também conhecido como “prédio da AssembléiaLegislativa”, de acordo com Wanderley Martins76, teve sua construção iniciada em 1905,mas as obras passaram longo período paralisadas, retornando apenas em 1934. O prédio foiinaugurado em 7 de setembro de 1938. Em 1993 sofreu reforma. É um ícone daarquitetura da belle époque, um símbolo do poder do Estado, principalmente pelo seu uso, aAssembléia Legislativa. Atualmente no seu hall de entrada, funciona um museu. À suaentrada fica um guarda que orienta quem procura os parlamentares e apresenta asexposições. Como toda a praça está fechada para reforma, eventualmente este prédio podesofrer algumas interferências, além das adaptações feitas em sua estrutura. Quanto ao prédio da antiga Prefeitura, Conhecido como “Paço Municipal”, seu verdadeiro nome é “Paço da Liberdade”, sua construção foi iniciada em 1874. Em 1879 ele passa a abrigar a sede do Governo Provincial e, posteriormente, com a Proclamação da República, passa a ser utilizado como Administração do Governo Republicano. Novamente, em 1917, começa a sediar o Governo Municipal, quando o Governo do Estado instala- se no Palácio Rio Negro.77 Sobre ele Leandro Tocantins escreveu:75 Idem, p. 13.76 SANTOS, Wanderley Martins dos. AMAZONAS. Assembléia Legislativa. Sinopse Histórica: 1852-1994. Manaus: Imprensa Oficial, 1994.77 CAMINHANDO por Manaus. P. 61. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 36
  37. 37. E se há referência a formas gregas, é justo logo salientar o prédio da Prefeitura Municipal, antigo palácio dos Presidentes de província, na Praça Pedro II, construído dentro das linhas do neoclassicismo brasileiro de Grandjean de Montigny. Seu tranqüilo pórtico de colunas gregas e frontão reto empresta-lhe majestade imperial. É o mais harmonioso edifício da capital. 78 “O mais harmonioso edifício da capital”, encontra-se há um ano, desativado ecercado por compensados com a intenção de deter a ação de vândalos, o que, segundo aspessoas na praça, não acontece. O prédio que é o mais antigo da cidade e que foi erguidodurante o período imperial para servir ao Presidente da Província, está abandonado, aguardareforma e nova adaptação que o tornará um museu, possivelmente. No canto da praça, vê-se a estrutura em ruínas do antigo Hotel Cassina, De propriedade do comerciante italiano Andréa Cassina, foi construído em 1899 e durante anos foi hotel de 1º classe, que hospedava ricos comerciantes e atores teatrais famosos, de passagem por Manaus, vindos do sul do país ou do exterior. (...) A Prefeitura de Manaus planeja restaurá-lo para devolvê-lo à comunidade em toda a sua beleza do início do século, mas pertence ainda, a uma família local. A história do Amazonas da época da borracha está muito ligada ao jogo e ao Hotel Cassina, (...) Com a crise dos anos 20 e 30 e o conseqüente empobrecimento das populações o hotel pouco-a-pouco transformou-se em pensão e cabaré. Havia dança no térreo e jogo no 1º andar. Nos anos 40 decai mais ainda tornando-se lugar de prostituição e encerra as suas atividades nos anos 50. Desde então abandonado, hoje ainda é conhecido como Cabaré Chinelo, em decorrência da decadência que caracterizou seus últimos anos de boêmia.79 Este prédio representa hoje, um retrato vivo da decadência da borracha. Mas está depé, na sua função de lugar de memória, como a "imortalizar a morte". O prédio onde fica localizado o Arquivo Público, já é um lugar de memória pela suaidealização, além do seu significado histórico e arquitetônico: ... o prédio onde funciona o Arquivo Público do Estado do Amazonas, [foi] criado em 1852 e regulamentado em 1897, que possui vasto acervo, inclusive com manuscritos da época da Província, e documentos oriundos da administração78 TOCANTINS, Leandro. O rio comanda a vida. Manaus: Editora Valer/Edições Governo do Estado, 2000,p. 229.79 CAMINHANDO por Manaus, p. 59, 60, 61. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 37
  38. 38. pública estadual. A edificação perdeu sua originalidade em decorrência das muitas transformações sofridas.80 Esse significado se torna maior pelos documentos que guarda. É uma casa damemória, como falou a professora Socorro Jatobá, em uma palestra intitulada “O museu: acasa da memória”, proferida no Museu Amazônico, no dia 5 de fevereiro de 2002. Naocasião ela explicou que o museu foi criado na Antigüidade por Ptolomeu II, emhomenagem ao personagem mítico Orfeu, que prestava serviço às musas. Era um espaçopara reflexão, nele se reuniam pessoas para falar sobre arte, ler poemas. E essa iniciativadurou quase 7 séculos. Lembrou que os antigos não tinham as noções de acervo,patrimônio, obras de arte que temos hoje. Falou da importância do museu hoje, em quevivemos uma supervalorização do presente. O museu realizaria, através de seus objetos, umexercício de memória; seria uma força de resistência à manipulação da memória. O museuteria o papel de educar o olhar. Além dos museus seriam casas de memória os arquivos,bibliotecas, galerias de arte. No Arquivo Público da praça Pedro II estão guardados registros antigos da históriada cidade. Alguns ainda podem ser consultados, outros não. Quem precisar ir ao Arquivovai se surpreender com as condições do lugar e de seu acervo. Há apenas uma bibliotecáriaque é a Diretora; poucos documentos estão organizados em ordem cronológica; não há arcondicionado, apenas um ventilador na sala do acervo; no espaço destinado a consultas,cadeiras sem estofamento, uma mesa e as janelas abertas para iluminar o ambiente pois aslâmpadas estão queimadas. Os próprios funcionários parecem não saber do valor queaquele ambiente e as obras que ali se encontram, tem para a história e a memória da cidade. Em relação a guardar a memória em arquivos, fato preponderante em nosso século,Pierre Nora comenta: Menos a memória é vivida no interior, mais ela tem necessidade de suportes exteriores e de referências tangíveis de uma existência que só vive através delas. Daí a obsessão pelo arquivo que marca o contemporâneo e que afeta, ao mesmo tempo, a preservação integral de todo o presente e a preservação integral de todo o passado.81 (...)80 CAMINHANDO por Manaus. p. 61.81 NORA, Pierre, op. cit. p. 14. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 38
  39. 39. A lembrança é passado completo em sua reconstituição a mais minuciosa. É uma memória registradora, que delega ao arquivo o cuidado de se lembrar por ela e desacelera os sinais onde ela se deposita, como a serpente sua pele morta. (...) O que nós chamamos de memória e, de fato, a constituição gigantesca e vertiginosa do estoque material daquilo que nos é impossível lembrar, repertório insondável daquilo que poderíamos ter necessidade de nos lembrar. (...) À medida em que desaparece a memória tradicional, nós nos sentimos obrigados a acumular religiosamente vestígios, testemunhos, documentos, imagens, discursos, sinais visíveis do que foi, como se esse dossiê cada vez mais prolífero devesse se tornar prova em não se sabe que tribunal da história. (...) Assim, a materialização da memória, em poucos anos, dilatou-se prodigiosamente, desacelerou-se, descentralizou-se, democratizou-se.82 Esse processo é causado pelo efeito globalização, pelos meios de comunicação quelançam muitas informações com pouco tempo para assimilá-las, então para não esquecer énecessário registrar, guardar em arquivos. No Globo Repórter, exibido pela Rede Globo em22 de março de 2002, uma psicóloga comenta a “curta memória” dos jovens, ao estudar osmecanismos pelos quais os mais velhos conseguiram guardar informações históricas elembrar de personalidades e datas marcantes da história do mundo e da história do Brasil.Para ela, na época lembrada pelos idosos, não havia tanta informação para ser assimilada ehavia tempo para esse processo de fixação; enquanto que hoje, tudo acontece muito rápido,a realidade é on line, a mente não está preparada para memorizar tantos dados. Outro dado importante é que não se tem a necessidade de armazenar estes dados namemória, pois eles estão escritos nos jornais, transmitidos na televisão, saem em revistas,são publicados em livros, podem ser arquivados no computador, em disquetes. A memóriaestá à mão, sempre. É o que diz Nora: “Produzir arquivo, é o imperativo da época.”83Françoise Choay84, refere-se às novas formas de memória citando Victor Hugo, que previua morte do monumento depois da invenção da imprensa. Ela diz: Sua intuição visionária foi confirmada pela criação e pelo aperfeiçoamento de novas formas de conservação do passado: memória das técnicas de gravação da imagem e do som, que aprisionam e restituem o passado sob uma forma mais concreta, porque se dirigem diretamente aos sentidos e à82 Idem, p. 15.83 Idem, p. 16.84 CHOAY, Françoise. A Alegoria do Patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade: editora UNESP, 2001,p.21. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 39

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