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Rodrigo Belinaso Guimarães Tecnologia Travesseiro:  fotógrafos estudantes do ensino médio
Todas as fotografias apresentadas neste texto foram produzidas para um trabalho escolar no IFRS  campus  Bento Gonçalves no primeiro semestre de 2011. Os alunos precisavam refletir sobre suas relações com a tecnologia através de imagens.
Pergunto sobre a possibilidade de adolescentes produzirem, nas atividades de ensino, conceitos, idéias e pensamentos para além do que é sistematizado nos livros didáticos como sendo o currículo escolar.
A análise das fotografias nega a conformação subjetiva por qualquer ambiente tecnológico e, com isso, deposita nele várias possibilidades de invenção e de criatividade. Novas sensações, disposições e questionamentos foram criados a partir de objetos cotidianos.
O título foi idéia de um grupo de alunos e mote para essa reflexão sobre o significado das imagens apresentadas.   Travesseiro pode expressar comodidade, conforto, ou seja, as facilidades múltiplas que a tecnologia imprime em nosso cotidiano.
Entretanto, pode metaforizar a solidão e o isolamento do sono diário e, também, o sonho de comunicação antes só pensado na ficção científica. Travesseiro   pode ser um elemento da angústia em qualquer noite de insônia em que a preocupação e o estresse nos impeçam de dormir.
Tudo vai depender do modo como é usada pelo ser que a utiliza. Por exemplo, o celular, objeto controverso e proibido nas salas de aula, foi o principal meio de produção dessas “idéias” fotográficas.
A tecnologia refere-se ao aprimoramento da ciência nos maquinários com o intuito de atingir uma eficiência produtiva maior (...). A aplicação do conhecimento na produção a partir do mundo material. A tecnologia envolve a criação de instrumentos materiais (como máquinas) utilizados na interação humana com a natureza (GIDDENS, 2005 p. 307-576).
A tecnologia rompe seus limites econômicos iniciais como maquinaria produtiva e insere-se definitivamente na cultura, ou seja, é indispensável para criação e divulgação de qualquer significado.
Todos os aparelhos privilegiam um determinado tipo de saber que envolve habilidades específicas para utilizá-los. Nesse sentido, o ensino técnico e tecnológico para capacitação nessas habilidades específicas tornou-se indispensável tanto no âmbito do trabalho como para as relações íntimas em nossa sociedade contemporânea.
A técnica envolve conhecimento para a realização de determinada tarefa, como desempenhar-se de certo modo. Assim, ela se define como um saber fazer, referindo-se a habilidades, a uma bateria de procedimentos que se criam, se aprendem, se desenvolvem. As técnicas se distribuem por todas as áreas do fazer humano (SANTAELLA, 2007, p. 257).
As habilidades para operar qualquer equipamento, quando estes são sempre renovados, fazem com que o “saber fazer” requerido apresente um prazo de validade de alguma forma já previsível. Nesse sentido, habilidades como o “aprender por si mesmo” são valorizadas socialmente tal como um “seguro” contra as rápidas mudanças tecnológicas.
Tecnologia pode ser conceituada como a capacidade humana de inscrever e sintetizar habilidades técnicas em máquinas. Em outras palavras, como exemplo banal, as habilidades técnicas envolvidas na produção do fogo e em sua conservação, ainda no raiar da história humana, estão sistematizadas no fósforo e na vela . a
Do ponto de vista da comunicação e interação humanas, a utilização da tecnologia para além da produção econômica revela novas potencialidades, até mesmo uma relativa “democratização da criatividade”, já que muitos aparelhos tecnológicos sintetizam também antigas e complexas habilidades artísticas.
De fato, Revolução Industrial fez surgir não apenas máquinas capazes de ampliar a força física muscular do homem ou dos animais utilizados para transporte e trabalhos pesados, mas também uma máquina sutil e sofisticada, capaz de produzir imagens reprodutíveis: a câmera fotográfica, que permitiu o registro da realidade visível a um simples toque de botão, sem a intermediação da mão do artista (SANTAELLA, 2007, p. 258).
Para além da reprodutibilidade, há cada vez mais a necessidade de uma apropriação criativa e inovadora dos recursos tecnológicos disponíveis, criando valores e informações subjetivadas e facilmente divulgáveis.
Uma economia imaterial que produz sobretudo informação, imagens, serviços, não pode basear-se na força física, no trabalho mecânico, no automatismo burro, na solidão compartimentada. São requisitados dos trabalhadores sua inteligência, sua imaginação, sua criatividade, sua conectividade, sua afetividade – toda uma dimensão subjetiva e extra-econômica antes relegada ao domínio exclusivamente pessoal e privado, no máximo artístico. (PELBART, 2003, p. 23-24).
O relevante é transformar qualquer dado da realidade numa experiência subjetiva, ou seja, naquela em que o próprio indivíduo atribui sentido e significado com o intuito de postá-la em rede.
Os significados produzidos e consumidos por cada indivíduo só se completam quando disponibilizados. Os sentidos atribuídos devem ser consumidos imediatamente por todos aqueles que se interessam pelo sujeito da experiência ou por aquilo que está sendo experimentado.
Na vida cotidiana, não é mais possível separar a dimensão tecnológica da existencial e dessa da conectividade em rede. Isso tudo pode ser traduzido pela rapidez da informação e por não mais haver necessidade do deslocamento de um corpo no espaço que a transporte.
Os tempos mudaram, porque a informação pode agora mover-se independentemente dos corpos físicos. Com isso, a velocidade das comunicações já não é mantida pelos limites a ela impostos por pessoas e objetos materiais. Para todos os fins práticos, a comunicação é agora instantânea, e, assim, as distâncias não importam, pois qualquer canto do globo pode ser alcançado ao mesmo tempo. No que diz respeito ao acesso e à programação da informação, “estar perto” e “estar longe” já não tem a importância de outrora. Os grupos de internet não sentem a distância geográfica como impedimento à seleção dos integrantes de uma conversação (BAUMAN; MAY, 2010, p. 178-179).
Num primeiro plano está a imbricação entre tecnologia e vida cotidiana, revelando certa naturalização da existência conectada.
Do mesmo modo, uma nostalgia, talvez mais sentimental do que qualquer outra coisa, por uma vida mais “natural”, mais “simples”, certo pavor com o avanço da tecnologia por áreas consideradas “naturalmente” humanas, um medo da dependência social e individual para com a tecnologia que poderia ser similar ao vício em drogas.
Por fim, um olhar prazeroso, lúdico, que enfatiza a interação festiva e o divertimento comum através da tecnologia e da comunicação instantânea.
A criatividade na composição das imagens e a capacidade dos educandos em analisarem suas próprias produções revelam que a Sociologia pode se envolver com a capacidade criativa e imaginativa dos educandos.
FIM

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  • 1. Rodrigo Belinaso Guimarães Tecnologia Travesseiro: fotógrafos estudantes do ensino médio
  • 2. Todas as fotografias apresentadas neste texto foram produzidas para um trabalho escolar no IFRS campus Bento Gonçalves no primeiro semestre de 2011. Os alunos precisavam refletir sobre suas relações com a tecnologia através de imagens.
  • 3. Pergunto sobre a possibilidade de adolescentes produzirem, nas atividades de ensino, conceitos, idéias e pensamentos para além do que é sistematizado nos livros didáticos como sendo o currículo escolar.
  • 4. A análise das fotografias nega a conformação subjetiva por qualquer ambiente tecnológico e, com isso, deposita nele várias possibilidades de invenção e de criatividade. Novas sensações, disposições e questionamentos foram criados a partir de objetos cotidianos.
  • 5. O título foi idéia de um grupo de alunos e mote para essa reflexão sobre o significado das imagens apresentadas. Travesseiro pode expressar comodidade, conforto, ou seja, as facilidades múltiplas que a tecnologia imprime em nosso cotidiano.
  • 6. Entretanto, pode metaforizar a solidão e o isolamento do sono diário e, também, o sonho de comunicação antes só pensado na ficção científica. Travesseiro pode ser um elemento da angústia em qualquer noite de insônia em que a preocupação e o estresse nos impeçam de dormir.
  • 7. Tudo vai depender do modo como é usada pelo ser que a utiliza. Por exemplo, o celular, objeto controverso e proibido nas salas de aula, foi o principal meio de produção dessas “idéias” fotográficas.
  • 8. A tecnologia refere-se ao aprimoramento da ciência nos maquinários com o intuito de atingir uma eficiência produtiva maior (...). A aplicação do conhecimento na produção a partir do mundo material. A tecnologia envolve a criação de instrumentos materiais (como máquinas) utilizados na interação humana com a natureza (GIDDENS, 2005 p. 307-576).
  • 9. A tecnologia rompe seus limites econômicos iniciais como maquinaria produtiva e insere-se definitivamente na cultura, ou seja, é indispensável para criação e divulgação de qualquer significado.
  • 10. Todos os aparelhos privilegiam um determinado tipo de saber que envolve habilidades específicas para utilizá-los. Nesse sentido, o ensino técnico e tecnológico para capacitação nessas habilidades específicas tornou-se indispensável tanto no âmbito do trabalho como para as relações íntimas em nossa sociedade contemporânea.
  • 11. A técnica envolve conhecimento para a realização de determinada tarefa, como desempenhar-se de certo modo. Assim, ela se define como um saber fazer, referindo-se a habilidades, a uma bateria de procedimentos que se criam, se aprendem, se desenvolvem. As técnicas se distribuem por todas as áreas do fazer humano (SANTAELLA, 2007, p. 257).
  • 12. As habilidades para operar qualquer equipamento, quando estes são sempre renovados, fazem com que o “saber fazer” requerido apresente um prazo de validade de alguma forma já previsível. Nesse sentido, habilidades como o “aprender por si mesmo” são valorizadas socialmente tal como um “seguro” contra as rápidas mudanças tecnológicas.
  • 13. Tecnologia pode ser conceituada como a capacidade humana de inscrever e sintetizar habilidades técnicas em máquinas. Em outras palavras, como exemplo banal, as habilidades técnicas envolvidas na produção do fogo e em sua conservação, ainda no raiar da história humana, estão sistematizadas no fósforo e na vela . a
  • 14. Do ponto de vista da comunicação e interação humanas, a utilização da tecnologia para além da produção econômica revela novas potencialidades, até mesmo uma relativa “democratização da criatividade”, já que muitos aparelhos tecnológicos sintetizam também antigas e complexas habilidades artísticas.
  • 15. De fato, Revolução Industrial fez surgir não apenas máquinas capazes de ampliar a força física muscular do homem ou dos animais utilizados para transporte e trabalhos pesados, mas também uma máquina sutil e sofisticada, capaz de produzir imagens reprodutíveis: a câmera fotográfica, que permitiu o registro da realidade visível a um simples toque de botão, sem a intermediação da mão do artista (SANTAELLA, 2007, p. 258).
  • 16. Para além da reprodutibilidade, há cada vez mais a necessidade de uma apropriação criativa e inovadora dos recursos tecnológicos disponíveis, criando valores e informações subjetivadas e facilmente divulgáveis.
  • 17. Uma economia imaterial que produz sobretudo informação, imagens, serviços, não pode basear-se na força física, no trabalho mecânico, no automatismo burro, na solidão compartimentada. São requisitados dos trabalhadores sua inteligência, sua imaginação, sua criatividade, sua conectividade, sua afetividade – toda uma dimensão subjetiva e extra-econômica antes relegada ao domínio exclusivamente pessoal e privado, no máximo artístico. (PELBART, 2003, p. 23-24).
  • 18. O relevante é transformar qualquer dado da realidade numa experiência subjetiva, ou seja, naquela em que o próprio indivíduo atribui sentido e significado com o intuito de postá-la em rede.
  • 19. Os significados produzidos e consumidos por cada indivíduo só se completam quando disponibilizados. Os sentidos atribuídos devem ser consumidos imediatamente por todos aqueles que se interessam pelo sujeito da experiência ou por aquilo que está sendo experimentado.
  • 20. Na vida cotidiana, não é mais possível separar a dimensão tecnológica da existencial e dessa da conectividade em rede. Isso tudo pode ser traduzido pela rapidez da informação e por não mais haver necessidade do deslocamento de um corpo no espaço que a transporte.
  • 21. Os tempos mudaram, porque a informação pode agora mover-se independentemente dos corpos físicos. Com isso, a velocidade das comunicações já não é mantida pelos limites a ela impostos por pessoas e objetos materiais. Para todos os fins práticos, a comunicação é agora instantânea, e, assim, as distâncias não importam, pois qualquer canto do globo pode ser alcançado ao mesmo tempo. No que diz respeito ao acesso e à programação da informação, “estar perto” e “estar longe” já não tem a importância de outrora. Os grupos de internet não sentem a distância geográfica como impedimento à seleção dos integrantes de uma conversação (BAUMAN; MAY, 2010, p. 178-179).
  • 22. Num primeiro plano está a imbricação entre tecnologia e vida cotidiana, revelando certa naturalização da existência conectada.
  • 23. Do mesmo modo, uma nostalgia, talvez mais sentimental do que qualquer outra coisa, por uma vida mais “natural”, mais “simples”, certo pavor com o avanço da tecnologia por áreas consideradas “naturalmente” humanas, um medo da dependência social e individual para com a tecnologia que poderia ser similar ao vício em drogas.
  • 24. Por fim, um olhar prazeroso, lúdico, que enfatiza a interação festiva e o divertimento comum através da tecnologia e da comunicação instantânea.
  • 25. A criatividade na composição das imagens e a capacidade dos educandos em analisarem suas próprias produções revelam que a Sociologia pode se envolver com a capacidade criativa e imaginativa dos educandos.
  • 26. FIM