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Evolução do litoral português continental
Apontamentos retirados da leitura do relatório elaborado pelo Grupo de Trabalho do
Litoral, “Gestão da Zona Costeira – O Desafio da Mudança”
Lisboa (ISBN: 978-989-99962-1-2)
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Na versão anterior da sebenta sobre o relevo litoral continental traçou-se um
panorama exaustivo do que é o litoral, quais as caraterísticas que apresenta e a
evolução que sofreu ao longo dos tempos até chegar à configuração atual.
A leitura deste relatório sobre o litoral, disponível na internet, sugeriu-me que será útil
extrair partes do seu texto de modo a melhorar o conhecimento que já temos sobre
esta faixa do território continental. Isso mesmo é o que tentei fazer procurando não
adulterar o sentido original, mas enveredando pelas adaptações que entendi
adequadas ao nível de ensino da disciplina de Geografia A.
Começamos pela Introdução, e retiremos o objetivo do trabalho:
No âmbito do despacho nº6574/2014, de 20 de maio, foi constituído o Grupo de
Trabalho para o Litoral (GTL) com o objetivo de “desenvolver uma reflexão
aprofundada sobre as zonas costeiras, que conduza à definição de um conjunto de
medidas que permitam, no médio prazo, alterar a exposição ao risco, incluindo nessa
reflexão o desenvolvimento sustentável em cenários de alterações climáticas”.
Desta nota, podemos extrair duas ideias chave:
Que o litoral continua em formação e que as alterações climáticas ocupam um
papel de destaque entre os fatores que contribuem para isso.
Reconhecendo-se que as ações antrópicas são apontadas como responsáveis
diretas pela aceleração das alterações climáticas, então, competirá à
sociedade, isto é, a todos nós, contrariar as consequências que podem advir
das opções erradas dos decisores políticos e/ou económicos.
Mas, antes de prosseguirmos a consulta da introdução, de que falámos exatamente
quando referimos a zona costeira, o litoral, orla costeira ou linha de costa? É
indiferente a aplicação de qualquer um destes termos afins? Não exatamente segundo
lemos no relatório datado de dezembro de 2014.
Seguindo as definições propostas na Estratégia Nacional para a Gestão Integrada da
Zona Costeira – ENGIZC:
Zona costeira - é a porção de território influenciada direta e indiretamente, em
termos biofísicos, pelo mar (ondas, marés, ventos, biota ou salinidade) e que
tem, para o lado de terra, a largura de 2 km medida a partir da linha da máxima
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preia-mar de águas vivas equinociais e se estende, para o lado do mar, até ao
limite das águas territoriais (até às 12 milhas), incluindo o leito
Litoral - conjunto das porções de território que são influenciadas direta e
indiretamente pela proximidade do mar
Orla costeira - porção do território onde o mar, coadjuvado pela ação eólica,
exerce diretamente a sua ação e que se estende, a partir da margem até
500 m, para o lado de terra e, para o lado do mar, até à batimétrica dos 30 m;
Linha de costa - fronteira entre a terra e o mar, assumindo-se como referencial
a linha da máxima preia-mar de águas vivas equinociais.
Voltemos à introdução do relatório e selecionemos os traços essenciais da
caraterização da zona costeira continental. Assim, retirámos que, esta faixa:
Tem uma extensão aproximada de 987 km (da foz do rio Minho à foz do rio
Guadiana).
Apresenta uma grande diversidade litológica, morfológica, biológica e
paisagística.
Concentra 3/4 da população continental nos concelhos que a constituem.
Contribui com cerca de 80% para o PIB do país através das atividades
económicas que aqui se desenvolvem.
Continua a atrair uma corrente migratória persistente, que faz aumentar a
atividade económica, especialmente o turismo
É palco de frequentes pressões e conflitos ambientais fruto do excesso de
ocupação.
Porque merece tanto interesse a zona costeira e o litoral em geral? Será apanágio só
de Portugal ou é algo que afeta as zonas ribeirinhas à escala global?
Fig.1 – Esquema exemplificativo dos
conceitos associados ao de Zona
costeira
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Uma fração importante da ocupação humana à escala mundial está situada no litoral,
desde tempos remotos, devido às atividades de navegação, comércio e pescas. A
partir de meados do século XIX as populações foram atraídas para o litoral por outras
razões, relacionadas com os seus efeitos benéficos sobre a saúde, e também por ser
um local privilegiado para uma grande variedade de atividades de lazer, desporto e
turismo. Esta procura intensa valorizou imenso o território e as edificações situadas no
litoral. Porém, desde meados do século XX, que se observam por todo o mundo,
incluindo Portugal, fenómenos crescentes de erosão costeira resultantes em grande
parte de desequilíbrios provocados por ações antrópicas. Este conflito será
progressivamente agravado a médio (2050) e longo (2100) prazo pelas alterações
climáticas. Criou-se assim uma situação de conflito crescente, em que se torna
imperioso proteger o litoral para que os residentes, ou os que ali se deslocam
periodicamente, possam continuar a usufruir dos seus benefícios e para que o
território e as edificações em risco não se desvalorizem. (pág.7)
Como se deduz deste pequeno excerto, o litoral e a zona costeira são áreas de
densidade demográfica e económica que justificam uma atualização constante do seu
conhecimento aprofundado do que nela se passa e antever o seu futuro.
Comecemos, então, pelas causas da evolução da linha de costa. O seu aspeto
depende de um conjunto alargado de fatores interativos, tais como:
ondas, marés, correntes costeiras, nível médio do mar
sobre-elevação meteorológica1
e regimes de precipitação e vento
sedimentos (natureza, dimensão, disponibilidade)
contexto geomorfológico (incluindo praias, arribas, estuários, lagoas e ilhas
barreira)
intervenção antrópica
1
A sobre-elevação do nível do mar com origem meteorológica é definida como a diferença entre o nível
do mar observado e a altura da maré astronómica previsto. Como sabemos, as marés são induzidas pela
atração da Lua e do Sol, principalmente. A sobre-elevação, “storm surge” é causada pelo vento e pela
pressão atmosférica associados a perturbações frontais muito ativas.
De forma simplificada, pode-se
afirmar que a evolução da posição da
linha de costa pode ser, em grande
medida, explicada através da
interação entre as ondas, o
fornecimento sedimentar e as
variações do nível médio relativo do
mar
Fig.2 – Esquema dos processos que
condicionam a posição da linha de costa
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Destacando a subida do nível do mar, uma das consequências já diagnosticada como
sendo um efeito direto das alterações climáticas, que soluções podem ser encaradas
desde já? Para os autores há três tipos de Estratégias de adaptação: relocalização,
acomodação e proteção em cenários de alterações climáticas, sendo que, na prática,
as soluções escolhidas incluem frequentemente uma combinação das três estratégias.
De forma sucinta o que significa cada uma delas?
Relocalização – é a deslocalização dos usos e da ocupação para uma área
mais afastada do litoral (usada quando falham a proteção e a acomodação)
Acomodação – é a alteração da ocupação e das atividades humanas no litoral
e a adaptação flexível das infraestruturas
Proteção – é a manutenção, ou mesmo o avanço, da linha de costa por meio
da alimentação artificial com sedimentos (areia e cascalho), com a construção
de dunas artificiais ou, ainda, com a construção de estruturas rígidas tais como
esporões, quebra-mares destacados e proteções longitudinais, por exemplo,
diques.
Fig.3 – As três estratégias de adaptação.
Fonte: http://www.apambiente.pt/_zdata/DESTAQUES/2015/GTL_Relatorio Final_20150416.pdf
Conhecidas as causas mais imediatas da evolução do litoral e as três estratégias
apontadas como possíveis soluções, perguntemos, agora, o que mais tem influenciado
a configuração da linha de costa?
A variação do nível médio do mar (NMM):
o há cerca de 18 000 anos, em pleno último máximo glaciar (UMG)
 NMM entre 120 a 140 m abaixo do nível atual
 posição da linha de costa algumas dezenas de quilómetros da
atual
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o Entre os 18 000 e os 7 000 anos atrás, com o aumento geral da
temperatura
 degelo e consequente subida global do NMM
 inundação dos vales e das terras baixas
 configuração costeira mais recortada, com rias e estuários
profundamente embutidos para o interior.
Dominância do fornecimento sedimentar:
o Há́ aproximadamente 3500 anos atrás, estabilização do NMM e padrão
de circulação atmosférica sem grandes alterações
 o balanço sedimentar influenciou a mobilidade da linha de costa
 superavit sedimentar, costa migrou em direção ao mar
 défice sedimentar, a linha de costa migrou em direção a terra
(erosão/recuo).
 assoreamento generalizado dos estuários, lagunas, golfos e
rias.
Tendência regressiva (recuo) do litoral facilitando “invasões do mar”:
o A partir de finais do século XIX, geralmente relacionado com a redução
do fornecimento sedimentar associado à atividade antrópica
 construção de barragens (responsáveis pela retenção de mais
de 80% dos volumes de areias antes transportadas pelos rios)
 extração de inertes (areias) nos cursos de água e albufeiras
 práticas agrícolas que visam a conservação do solo
 construção de obras portuárias
Como facilmente reconhecemos, o balanço sedimentar continua, hoje, a ser o principal
responsável pela evolução da linha de costa, facto que vem dos finais do século XIX.
Aliás, a nível comunitário, este balanço está de tal modo associado à erosão costeira
que foi desenvolvido o projeto europeu Conscience.
Fig.4 – Representação de uma célula
sedimentar, uma unidade autónoma
do ponto de vista sedimentar que
permite gerir de forma coerente o
balanço sedimentar, definido através
da quantificação das entradas (fontes)
e saídas (sumidouros) de sedimento da
célula sedimentar
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Partindo do conceito de célula sedimentar, os autores do relatório delimitaram a orla
costeira continental em 8 células e caraterizaram a situação atual de cada uma delas.
Vejamos cada uma dessas células sedimentares.
Célula 1 – Minho à Nazaré
Subcélula 1a – Minho a Douro
Subcélula 1b – Douro a cabo
Mondego
Subcélula 1c – Mondego à Nazaré
Célula 2 – Nazaré a Peniche
Célula 3 – Peniche a cabo Raso
Célula 4 – cabo Raso a cabo Espichel
Célula 5 – cabo Espichel a Sines
Célula 6 – Sines a cabo S. Vicente
Célula 7 – cabo S. Vicente a Olhos de
Água (Barlavento algarvio)
Célula 8 – Olhos de Água a foz do rio
Guadiana (Sotavento)
Fig. 5 – Geomorfologia simplificada do
litoral português e divisão em células
sedimentares
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Célula 1 – Foz do rio Minho à Nazaré
Subcélula 1a – Foz do rio Minho à foz do rio Douro
Fig.5
Caraterísticas principais:
costa rochosa e baixa com orientação NNW-SSE
numerosas praias de areia e cascalho
pequenos tômbolos enraizados em afloramentos graníticos (Maciço Antigo)
planície litoral que corresponde a uma plataforma de abrasão, por vezes,
coberta por dunas (regressão marinha)
Situação atual:
acentuada redução no fornecimento sedimentar potenciada pela intensa
atividade antrópica no litoral e nas bacias hidrográficas (construção de
barragens com diminuição significativa do caudal sólido arenoso transportado
pelos rios até à foz)
tendência de erosão, consequentemente
recuo generalizado das praias arenosas
existência de numerosas obras rígidas de engenharia costeira (paredões e
esporões) para contrariar a situação, logo, crescente artificialização da linha de
costa
numerosas operações de dragagem e extração de sedimentos realizadas no
domínio hídrico numa combinação que tem levado a que, o estuário de alguns
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rios passasse, na prática, a funcionar como sumidouro (escoadouro)
sedimentar.
Subcélula 1b – Foz do rio Douro ao cabo Mondego
Fig.6
Caraterísticas principais:
troço norte, da foz do Douro até Espinho, costa rochosa e baixa de orientação
NNW-SSE
troço central de orientação NNE-SSW (orientação alpina), mais extenso, de
costa arenosa e baixa, com extensas praias lineares limitadas por dunas
interrompidas pela barra de Aveiro; integra o cordão litoral que separa a laguna
de Aveiro do oceano
troço sul em arriba marginado por praia e que termina no cabo Mondego
(constitui uma barreira natural ao transporte sedimentar)
Situação atual:
défice sedimentar extremamente elevado a sul da foz do rio Douro
forte erosão do litoral a sul de Espinho (recuo médio de 3m/ano entre Maceda
e Torrão do Lameiro entre 1958-2010)
progradação da linha de costa (aumento da largura da praia) a sul da Torreira
elevada estabilidade da praia a sul da praia de Mira
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Subcélula 1c – Cabo Mondego à Nazaré
Fig.7
Caraterísticas principais:
costa rochosa talhada em arriba e com presença de plataforma de abrasão
imediatamente a sul do cabo Mondego
praia arenosa a norte da barra do Mondego por efeito de acumulação a
barlamar2
do molhe do porto da Figueira da Foz
recuo da linha de costa a sotamar do molhe
litoral baixo, arenoso e retilíneo a sul da Figueira da Foz com orientação NNE-
SSW (orientação alpina)
costa de arriba a sul de S. Pedro de Moel
costa arenosa a norte do promontório da Nazaré
sumidouro a coincidente com o canhão da Nazaré.
2 A construção de estruturas pesadas de engenharia, tais como molhes e esporões,
perpendiculares à linha de costa, são, atualmente, considerados verdadeiros desastres como
solução para obstar ao avanço do mar. Como a deriva litoral tem uma orientação N/S, paralela
à linha de costa, a barlamar (parte a norte das estruturas, mais batida pela deriva) regista-se
sedimentação, ao passo que, a sotamar (parte a sul das estruturas, abrigada da deriva) vai
verificar-se avanço do mar e consequente erosão.
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Situação atual:
sedimentação volumosa a sul do cabo Mondego
retenção sedimentar a barlamar do molhe norte da barra do Mondego com
crescimento excecional da praia da Figueira da Foz
erosão acentuada na costa a sotamar da Figueira da Foz
subtração de enorme volume sedimentar na canhão da Nazaré (sumidouro)
Fig.8 – Praia de Ofir: resultado da construção de um esporão para proteção das Torres de Ofir.
Sedimentação a barlamar e erosão a sotamar.
Fig.9 – Esquema que mostra o que sucede, frequentemente, com a edificação de estruturas
fixas perpendiculares à linha de costa. Para resolver a erosão causada pelo primeiro esporão
construído cria-se novo esporão e, assim, sucessivamente. Para além das alterações na linha
de costa é-se confrontado com custos de construção e manutenção elevadíssimos. Donde, a
discussão que se mantém acesa sobre este tipo de soluções.
Fonte das imagens - lugar-pedrinhas.blogspot.pt
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Célula 2 – Nazaré a Peniche
Fig.10
Caraterísticas principais/ situação atual:
Litoral de orientação NE-SW (orientação alpina)
Costa de arribas a norte da lagoa de Óbidos
Praias lineares, geralmente estreitas, a sul da lagoa de Óbidos
Concha de S. Martinho, um dos acidentes mais caraterísticos da costa
ocidental
Sumidouros significativos desempenhados pela lagoa de Óbidos e pelo
sistema dunar de Peniche
Fraca influência antrópica no processo de sedimentação.
Fig. 11
Lagoa de
Óbidos
(Reparemos na costa de arriba a N da lagoa, o cordão em frente ao sumidouro, a própria lagoa)
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Célula 3 – Peniche a cabo Raso
Fig.12
Caraterísticas principais/situação atual:
Costa geralmente em arriba, calcária, de orientação sensivelmente N-S
Numerosas praias encaixadas, as mais largas e curtas na dependência das
fozes de linhas de água, as estreitas e extensas associadas a promontórios
naturais que contribuem para a retenção de sedimentos
Sumidouro principal associado ao sistema dunar do Guincho
Fig.13 – Cabo Raso, concelho de Cascais
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Célula 4 – Cabo Raso a cabo Espichel
Caraterísticas principais/situação atual:
Litoral em arriba entre o cabo Raso e Carcavelos
Praias encaixadas e abrigadas da agitação de NW de pequena dimensão
Costa arenosa e contínua da Costa da Caparica até à praia das Bicas
Das Bicas até ao cabo Espichel, costa em arriba viva em rochas calcárias
Pequenas praias encaixadas de areia e cascalho
Presença de várias estruturas costeiras – esporões e paredões – para
combater o processo de erosão iniciado no segundo quartel do século XX no
litoral da Costa da Caparica
Fornecimento de areia garantido pelo corredor eólico do Guincho, antes, ativo
Enorme défice sedimentar, atualmente, em parte devido a extrações e
dragagens muito volumosas desde os anos 40 do século XX
Alguma diminuição do risco costeiro obtida com recurso a operações de
alimentação artificial.
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Célula 5 – Cabo Espichel a Sines
Caraterísticas principais/situação atual
Costa em arribas altas entre o cabo Espichel e a foz do rio Sado
Pequenas praias encaixadas
Costa arenosa, contínua, entre a foz do rio Sado e Sines
Lagoas costeiras de Melides, Sancha e Santo André
Fornecimento sedimentar quase exclusivamente sustentado pela erosão das
arribas da costa da Galé (entre a praia do Carvalhal e a lagoa de Melides)
Fig.14 – Sines: Praia do Cerro da Águia (pequena praia encaixada numa costa rochosa)
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Célula 6 – De Sines a Cabo de São Vicente
Caraterísticas principais/situação atual:
Costa em arribas, geralmente altas, no contacto entre o mar e rochas da
Meseta Ibérica, muito antigas e resistentes
Numerosas praias de areias e cascalho e de largura reduzida
Costa de direção N-S
Cabedelos formados nas desembocaduras das linhas de água
Principais sumidouros: sistemas dunares que se desenvolvam na foz das
principais linhas de água.
Fig.15 – Foz do rio Mira: forte acumulação sedimentar
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Célula 7 – Cabo de São Vicente a Olhos de Água (Barlavento Algarvio)
Caraterísticas principais/situação atual:
Costa em arribas talhadas em rochas calcárias
Praias formadas entre promontórios resistentes
Frequentes leixões, arcos e algares
Sedimentação deficitária
Fig.16 – Cabo de S. Vicente:
arribas vigorosas no
contacto do mar com rochas
calcárias
Fig.17 – Armação de
Pera: forte
sedimentação num
cordão a separar o mar
de um sistema lagunar
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Célula 8 – Olhos de Água à foz do rio Guadiana
Caraterísticas principais/situação atual:
Costa arenosa fruto de forte acumulação, dominada pelo sistema de
ilhas-barreira da ria Formosa e pela planície costeira da Manta Rota – Vila
Real de Stº António
Adaptação na zona costeira (pág. 231)
Algumas notas retiradas deste item da obra consultada:
A ocupação do litoral em Portugal continental é um fenómeno recente
A reduzida ocupação do litoral no passado justificava-se por duas razões
principais: tempestades mais danosas nas zonas baixas e arenosas e atos de
pirataria que tornavam inseguros os territórios ribeirinhos
Exemplos de modificações em costa arenosa são os aglomerados
populacionais da região Centro entre Ovar e Marinha Grande – 2, Buarcos e
Figueira da Foz (ambos assentes em estrato rochoso), são anteriores ao
século XX, e, 16, são posteriores e todos em áreas arenosas. Ovar, Ílhavo,
Vagos, Mira, Cantanhede, Pombal, Leiria e Marinha Grande são sedes de
concelho que se localizam fora da atual orla costeira de sedimentação recente.
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Um exemplo do risco a que está sujeito o nosso litoral é o que se passou em
Espinho, em particular, entre o final do século XIX e o início do século XX, uma
sucessão de intensos galgamentos que destruíram parte da frente de mar
Para alguns especialistas, as investidas de mar foram consequência das obras
de construção do porto artificial de Leixões e foz do Douro
Os dois primeiros esporões transversais (distanciados entre si 90 m)
construídos no país foram, exatamente, em 1911 em Espinho
Foi no século XX até à década de sessenta, que foram construídas a maioria
das grandes barragens e arrancaram ou consolidaram os trabalhos nos
principais portos nacionais, conjunto de obras de engenharia que inverteram
drasticamente o ciclo sedimentar nas bacias hidrográficas e nas áreas
portuárias devido ao volume de dragagens efetuadas, com reflexos negativos
na evolução do litoral
Igualmente negativo é o período de tempo a partir da década de 70, do século
XX, com uma ocupação urbana progressiva da faixa litoral
Isto é, além da ação da Natureza, a erosão costeira tem origem
predominantemente antrópica: 90% do recuo da linha de costa do nosso litoral
Contudo, o que se tem verificado é uma opção que tem privilegiado a defesa
da ocupação humana junto ao mar
Construção de esporões de forma progressiva tem conduzido a uma
artificialização crescente e corresponde a uma atuação reativa em vez de se
optar por uma política de planeamento prospetivo.
há essencialmente três estratégias de adaptação:
Fig. 18 - A função principal de um esporão é a
de reter a deriva litoral minimizando os
problemas de erosão costeira a barlamar da
estrutura (na costa ocidental, a N do esporão).
Devido à sua disposição transversal, os
esporões interrompem a deriva litoral (pelo
menos na fase inicial), o que induz acumulação
de areia a barlamar e, consequentemente,
confere proteção efetiva às construções aí
existentes.
Por outro lado, pela mesma razão, provocam
erosão suplementar a sotamar (na costa
ocidental, a S do esporão), o que,
normalmente, obriga à construção de outros
esporões. Por essa razão, nos trechos
costeiros intervencionados existem,
geralmente, campos de esporões, isto é,
conjuntos, maiores ou menores, de estruturas
deste tipo.
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Os autores do relatório:
defendem três estratégias de adaptação a aplicar na defesa do litoral, a
saber, relocalização (recuo planeado), proteção e acomodação.
Identificaram os troços da orla costeira que podem ser atingidos por
galgamento, inundação e erosão
Indicaram as causas de ordem humana responsáveis por estes riscos,
por um lado, obras de engenharia que influenciam as fontes de
sedimentos, por outro lado, a excessiva ocupação urbana em zonas
costeiras vulneráveis
Preveem o agravamento dos riscos devido às alterações climáticas
motivadas pelo aquecimento global, nomeadamente, com a subida do
nível médio das águas do mar
Apontam para duas soluções preferenciais para reduzir o risco costeiro:
alimentação artificial para redução da erosão e relocalização ordenando
a ocupação do espaço costeiro.
Se não tivessem destruído as dunas para construir casas se não tivessem ampliado o molhe do porto
para poderem sair ao mar com os vossos maravilhosos veleiros (a ria não chega!), nada disto
acontecia... E quando o mar galgar o que resta das dunas e chegar às casas, quem é que paga?
Fonte - Arcádia
Fig.19
Fig.20

Sebenta de Geo A_ Evolução do litoral continental

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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 1 de 20 Evolução do litoral português continental Apontamentos retirados da leitura do relatório elaborado pelo Grupo de Trabalho do Litoral, “Gestão da Zona Costeira – O Desafio da Mudança” Lisboa (ISBN: 978-989-99962-1-2)
  • 2.
    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 2 de 20 Na versão anterior da sebenta sobre o relevo litoral continental traçou-se um panorama exaustivo do que é o litoral, quais as caraterísticas que apresenta e a evolução que sofreu ao longo dos tempos até chegar à configuração atual. A leitura deste relatório sobre o litoral, disponível na internet, sugeriu-me que será útil extrair partes do seu texto de modo a melhorar o conhecimento que já temos sobre esta faixa do território continental. Isso mesmo é o que tentei fazer procurando não adulterar o sentido original, mas enveredando pelas adaptações que entendi adequadas ao nível de ensino da disciplina de Geografia A. Começamos pela Introdução, e retiremos o objetivo do trabalho: No âmbito do despacho nº6574/2014, de 20 de maio, foi constituído o Grupo de Trabalho para o Litoral (GTL) com o objetivo de “desenvolver uma reflexão aprofundada sobre as zonas costeiras, que conduza à definição de um conjunto de medidas que permitam, no médio prazo, alterar a exposição ao risco, incluindo nessa reflexão o desenvolvimento sustentável em cenários de alterações climáticas”. Desta nota, podemos extrair duas ideias chave: Que o litoral continua em formação e que as alterações climáticas ocupam um papel de destaque entre os fatores que contribuem para isso. Reconhecendo-se que as ações antrópicas são apontadas como responsáveis diretas pela aceleração das alterações climáticas, então, competirá à sociedade, isto é, a todos nós, contrariar as consequências que podem advir das opções erradas dos decisores políticos e/ou económicos. Mas, antes de prosseguirmos a consulta da introdução, de que falámos exatamente quando referimos a zona costeira, o litoral, orla costeira ou linha de costa? É indiferente a aplicação de qualquer um destes termos afins? Não exatamente segundo lemos no relatório datado de dezembro de 2014. Seguindo as definições propostas na Estratégia Nacional para a Gestão Integrada da Zona Costeira – ENGIZC: Zona costeira - é a porção de território influenciada direta e indiretamente, em termos biofísicos, pelo mar (ondas, marés, ventos, biota ou salinidade) e que tem, para o lado de terra, a largura de 2 km medida a partir da linha da máxima
  • 3.
    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 3 de 20 preia-mar de águas vivas equinociais e se estende, para o lado do mar, até ao limite das águas territoriais (até às 12 milhas), incluindo o leito Litoral - conjunto das porções de território que são influenciadas direta e indiretamente pela proximidade do mar Orla costeira - porção do território onde o mar, coadjuvado pela ação eólica, exerce diretamente a sua ação e que se estende, a partir da margem até 500 m, para o lado de terra e, para o lado do mar, até à batimétrica dos 30 m; Linha de costa - fronteira entre a terra e o mar, assumindo-se como referencial a linha da máxima preia-mar de águas vivas equinociais. Voltemos à introdução do relatório e selecionemos os traços essenciais da caraterização da zona costeira continental. Assim, retirámos que, esta faixa: Tem uma extensão aproximada de 987 km (da foz do rio Minho à foz do rio Guadiana). Apresenta uma grande diversidade litológica, morfológica, biológica e paisagística. Concentra 3/4 da população continental nos concelhos que a constituem. Contribui com cerca de 80% para o PIB do país através das atividades económicas que aqui se desenvolvem. Continua a atrair uma corrente migratória persistente, que faz aumentar a atividade económica, especialmente o turismo É palco de frequentes pressões e conflitos ambientais fruto do excesso de ocupação. Porque merece tanto interesse a zona costeira e o litoral em geral? Será apanágio só de Portugal ou é algo que afeta as zonas ribeirinhas à escala global? Fig.1 – Esquema exemplificativo dos conceitos associados ao de Zona costeira
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 4 de 20 Uma fração importante da ocupação humana à escala mundial está situada no litoral, desde tempos remotos, devido às atividades de navegação, comércio e pescas. A partir de meados do século XIX as populações foram atraídas para o litoral por outras razões, relacionadas com os seus efeitos benéficos sobre a saúde, e também por ser um local privilegiado para uma grande variedade de atividades de lazer, desporto e turismo. Esta procura intensa valorizou imenso o território e as edificações situadas no litoral. Porém, desde meados do século XX, que se observam por todo o mundo, incluindo Portugal, fenómenos crescentes de erosão costeira resultantes em grande parte de desequilíbrios provocados por ações antrópicas. Este conflito será progressivamente agravado a médio (2050) e longo (2100) prazo pelas alterações climáticas. Criou-se assim uma situação de conflito crescente, em que se torna imperioso proteger o litoral para que os residentes, ou os que ali se deslocam periodicamente, possam continuar a usufruir dos seus benefícios e para que o território e as edificações em risco não se desvalorizem. (pág.7) Como se deduz deste pequeno excerto, o litoral e a zona costeira são áreas de densidade demográfica e económica que justificam uma atualização constante do seu conhecimento aprofundado do que nela se passa e antever o seu futuro. Comecemos, então, pelas causas da evolução da linha de costa. O seu aspeto depende de um conjunto alargado de fatores interativos, tais como: ondas, marés, correntes costeiras, nível médio do mar sobre-elevação meteorológica1 e regimes de precipitação e vento sedimentos (natureza, dimensão, disponibilidade) contexto geomorfológico (incluindo praias, arribas, estuários, lagoas e ilhas barreira) intervenção antrópica 1 A sobre-elevação do nível do mar com origem meteorológica é definida como a diferença entre o nível do mar observado e a altura da maré astronómica previsto. Como sabemos, as marés são induzidas pela atração da Lua e do Sol, principalmente. A sobre-elevação, “storm surge” é causada pelo vento e pela pressão atmosférica associados a perturbações frontais muito ativas. De forma simplificada, pode-se afirmar que a evolução da posição da linha de costa pode ser, em grande medida, explicada através da interação entre as ondas, o fornecimento sedimentar e as variações do nível médio relativo do mar Fig.2 – Esquema dos processos que condicionam a posição da linha de costa
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 5 de 20 Destacando a subida do nível do mar, uma das consequências já diagnosticada como sendo um efeito direto das alterações climáticas, que soluções podem ser encaradas desde já? Para os autores há três tipos de Estratégias de adaptação: relocalização, acomodação e proteção em cenários de alterações climáticas, sendo que, na prática, as soluções escolhidas incluem frequentemente uma combinação das três estratégias. De forma sucinta o que significa cada uma delas? Relocalização – é a deslocalização dos usos e da ocupação para uma área mais afastada do litoral (usada quando falham a proteção e a acomodação) Acomodação – é a alteração da ocupação e das atividades humanas no litoral e a adaptação flexível das infraestruturas Proteção – é a manutenção, ou mesmo o avanço, da linha de costa por meio da alimentação artificial com sedimentos (areia e cascalho), com a construção de dunas artificiais ou, ainda, com a construção de estruturas rígidas tais como esporões, quebra-mares destacados e proteções longitudinais, por exemplo, diques. Fig.3 – As três estratégias de adaptação. Fonte: http://www.apambiente.pt/_zdata/DESTAQUES/2015/GTL_Relatorio Final_20150416.pdf Conhecidas as causas mais imediatas da evolução do litoral e as três estratégias apontadas como possíveis soluções, perguntemos, agora, o que mais tem influenciado a configuração da linha de costa? A variação do nível médio do mar (NMM): o há cerca de 18 000 anos, em pleno último máximo glaciar (UMG)  NMM entre 120 a 140 m abaixo do nível atual  posição da linha de costa algumas dezenas de quilómetros da atual
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 6 de 20 o Entre os 18 000 e os 7 000 anos atrás, com o aumento geral da temperatura  degelo e consequente subida global do NMM  inundação dos vales e das terras baixas  configuração costeira mais recortada, com rias e estuários profundamente embutidos para o interior. Dominância do fornecimento sedimentar: o Há́ aproximadamente 3500 anos atrás, estabilização do NMM e padrão de circulação atmosférica sem grandes alterações  o balanço sedimentar influenciou a mobilidade da linha de costa  superavit sedimentar, costa migrou em direção ao mar  défice sedimentar, a linha de costa migrou em direção a terra (erosão/recuo).  assoreamento generalizado dos estuários, lagunas, golfos e rias. Tendência regressiva (recuo) do litoral facilitando “invasões do mar”: o A partir de finais do século XIX, geralmente relacionado com a redução do fornecimento sedimentar associado à atividade antrópica  construção de barragens (responsáveis pela retenção de mais de 80% dos volumes de areias antes transportadas pelos rios)  extração de inertes (areias) nos cursos de água e albufeiras  práticas agrícolas que visam a conservação do solo  construção de obras portuárias Como facilmente reconhecemos, o balanço sedimentar continua, hoje, a ser o principal responsável pela evolução da linha de costa, facto que vem dos finais do século XIX. Aliás, a nível comunitário, este balanço está de tal modo associado à erosão costeira que foi desenvolvido o projeto europeu Conscience. Fig.4 – Representação de uma célula sedimentar, uma unidade autónoma do ponto de vista sedimentar que permite gerir de forma coerente o balanço sedimentar, definido através da quantificação das entradas (fontes) e saídas (sumidouros) de sedimento da célula sedimentar
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 7 de 20 Partindo do conceito de célula sedimentar, os autores do relatório delimitaram a orla costeira continental em 8 células e caraterizaram a situação atual de cada uma delas. Vejamos cada uma dessas células sedimentares. Célula 1 – Minho à Nazaré Subcélula 1a – Minho a Douro Subcélula 1b – Douro a cabo Mondego Subcélula 1c – Mondego à Nazaré Célula 2 – Nazaré a Peniche Célula 3 – Peniche a cabo Raso Célula 4 – cabo Raso a cabo Espichel Célula 5 – cabo Espichel a Sines Célula 6 – Sines a cabo S. Vicente Célula 7 – cabo S. Vicente a Olhos de Água (Barlavento algarvio) Célula 8 – Olhos de Água a foz do rio Guadiana (Sotavento) Fig. 5 – Geomorfologia simplificada do litoral português e divisão em células sedimentares
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 8 de 20 Célula 1 – Foz do rio Minho à Nazaré Subcélula 1a – Foz do rio Minho à foz do rio Douro Fig.5 Caraterísticas principais: costa rochosa e baixa com orientação NNW-SSE numerosas praias de areia e cascalho pequenos tômbolos enraizados em afloramentos graníticos (Maciço Antigo) planície litoral que corresponde a uma plataforma de abrasão, por vezes, coberta por dunas (regressão marinha) Situação atual: acentuada redução no fornecimento sedimentar potenciada pela intensa atividade antrópica no litoral e nas bacias hidrográficas (construção de barragens com diminuição significativa do caudal sólido arenoso transportado pelos rios até à foz) tendência de erosão, consequentemente recuo generalizado das praias arenosas existência de numerosas obras rígidas de engenharia costeira (paredões e esporões) para contrariar a situação, logo, crescente artificialização da linha de costa numerosas operações de dragagem e extração de sedimentos realizadas no domínio hídrico numa combinação que tem levado a que, o estuário de alguns
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 9 de 20 rios passasse, na prática, a funcionar como sumidouro (escoadouro) sedimentar. Subcélula 1b – Foz do rio Douro ao cabo Mondego Fig.6 Caraterísticas principais: troço norte, da foz do Douro até Espinho, costa rochosa e baixa de orientação NNW-SSE troço central de orientação NNE-SSW (orientação alpina), mais extenso, de costa arenosa e baixa, com extensas praias lineares limitadas por dunas interrompidas pela barra de Aveiro; integra o cordão litoral que separa a laguna de Aveiro do oceano troço sul em arriba marginado por praia e que termina no cabo Mondego (constitui uma barreira natural ao transporte sedimentar) Situação atual: défice sedimentar extremamente elevado a sul da foz do rio Douro forte erosão do litoral a sul de Espinho (recuo médio de 3m/ano entre Maceda e Torrão do Lameiro entre 1958-2010) progradação da linha de costa (aumento da largura da praia) a sul da Torreira elevada estabilidade da praia a sul da praia de Mira
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 10 de 20 Subcélula 1c – Cabo Mondego à Nazaré Fig.7 Caraterísticas principais: costa rochosa talhada em arriba e com presença de plataforma de abrasão imediatamente a sul do cabo Mondego praia arenosa a norte da barra do Mondego por efeito de acumulação a barlamar2 do molhe do porto da Figueira da Foz recuo da linha de costa a sotamar do molhe litoral baixo, arenoso e retilíneo a sul da Figueira da Foz com orientação NNE- SSW (orientação alpina) costa de arriba a sul de S. Pedro de Moel costa arenosa a norte do promontório da Nazaré sumidouro a coincidente com o canhão da Nazaré. 2 A construção de estruturas pesadas de engenharia, tais como molhes e esporões, perpendiculares à linha de costa, são, atualmente, considerados verdadeiros desastres como solução para obstar ao avanço do mar. Como a deriva litoral tem uma orientação N/S, paralela à linha de costa, a barlamar (parte a norte das estruturas, mais batida pela deriva) regista-se sedimentação, ao passo que, a sotamar (parte a sul das estruturas, abrigada da deriva) vai verificar-se avanço do mar e consequente erosão.
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 11 de 20 Situação atual: sedimentação volumosa a sul do cabo Mondego retenção sedimentar a barlamar do molhe norte da barra do Mondego com crescimento excecional da praia da Figueira da Foz erosão acentuada na costa a sotamar da Figueira da Foz subtração de enorme volume sedimentar na canhão da Nazaré (sumidouro) Fig.8 – Praia de Ofir: resultado da construção de um esporão para proteção das Torres de Ofir. Sedimentação a barlamar e erosão a sotamar. Fig.9 – Esquema que mostra o que sucede, frequentemente, com a edificação de estruturas fixas perpendiculares à linha de costa. Para resolver a erosão causada pelo primeiro esporão construído cria-se novo esporão e, assim, sucessivamente. Para além das alterações na linha de costa é-se confrontado com custos de construção e manutenção elevadíssimos. Donde, a discussão que se mantém acesa sobre este tipo de soluções. Fonte das imagens - lugar-pedrinhas.blogspot.pt
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 12 de 20 Célula 2 – Nazaré a Peniche Fig.10 Caraterísticas principais/ situação atual: Litoral de orientação NE-SW (orientação alpina) Costa de arribas a norte da lagoa de Óbidos Praias lineares, geralmente estreitas, a sul da lagoa de Óbidos Concha de S. Martinho, um dos acidentes mais caraterísticos da costa ocidental Sumidouros significativos desempenhados pela lagoa de Óbidos e pelo sistema dunar de Peniche Fraca influência antrópica no processo de sedimentação. Fig. 11 Lagoa de Óbidos (Reparemos na costa de arriba a N da lagoa, o cordão em frente ao sumidouro, a própria lagoa)
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 13 de 20 Célula 3 – Peniche a cabo Raso Fig.12 Caraterísticas principais/situação atual: Costa geralmente em arriba, calcária, de orientação sensivelmente N-S Numerosas praias encaixadas, as mais largas e curtas na dependência das fozes de linhas de água, as estreitas e extensas associadas a promontórios naturais que contribuem para a retenção de sedimentos Sumidouro principal associado ao sistema dunar do Guincho Fig.13 – Cabo Raso, concelho de Cascais
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 14 de 20 Célula 4 – Cabo Raso a cabo Espichel Caraterísticas principais/situação atual: Litoral em arriba entre o cabo Raso e Carcavelos Praias encaixadas e abrigadas da agitação de NW de pequena dimensão Costa arenosa e contínua da Costa da Caparica até à praia das Bicas Das Bicas até ao cabo Espichel, costa em arriba viva em rochas calcárias Pequenas praias encaixadas de areia e cascalho Presença de várias estruturas costeiras – esporões e paredões – para combater o processo de erosão iniciado no segundo quartel do século XX no litoral da Costa da Caparica Fornecimento de areia garantido pelo corredor eólico do Guincho, antes, ativo Enorme défice sedimentar, atualmente, em parte devido a extrações e dragagens muito volumosas desde os anos 40 do século XX Alguma diminuição do risco costeiro obtida com recurso a operações de alimentação artificial.
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 15 de 20 Célula 5 – Cabo Espichel a Sines Caraterísticas principais/situação atual Costa em arribas altas entre o cabo Espichel e a foz do rio Sado Pequenas praias encaixadas Costa arenosa, contínua, entre a foz do rio Sado e Sines Lagoas costeiras de Melides, Sancha e Santo André Fornecimento sedimentar quase exclusivamente sustentado pela erosão das arribas da costa da Galé (entre a praia do Carvalhal e a lagoa de Melides) Fig.14 – Sines: Praia do Cerro da Águia (pequena praia encaixada numa costa rochosa)
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 16 de 20 Célula 6 – De Sines a Cabo de São Vicente Caraterísticas principais/situação atual: Costa em arribas, geralmente altas, no contacto entre o mar e rochas da Meseta Ibérica, muito antigas e resistentes Numerosas praias de areias e cascalho e de largura reduzida Costa de direção N-S Cabedelos formados nas desembocaduras das linhas de água Principais sumidouros: sistemas dunares que se desenvolvam na foz das principais linhas de água. Fig.15 – Foz do rio Mira: forte acumulação sedimentar
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 17 de 20 Célula 7 – Cabo de São Vicente a Olhos de Água (Barlavento Algarvio) Caraterísticas principais/situação atual: Costa em arribas talhadas em rochas calcárias Praias formadas entre promontórios resistentes Frequentes leixões, arcos e algares Sedimentação deficitária Fig.16 – Cabo de S. Vicente: arribas vigorosas no contacto do mar com rochas calcárias Fig.17 – Armação de Pera: forte sedimentação num cordão a separar o mar de um sistema lagunar
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 18 de 20 Célula 8 – Olhos de Água à foz do rio Guadiana Caraterísticas principais/situação atual: Costa arenosa fruto de forte acumulação, dominada pelo sistema de ilhas-barreira da ria Formosa e pela planície costeira da Manta Rota – Vila Real de Stº António Adaptação na zona costeira (pág. 231) Algumas notas retiradas deste item da obra consultada: A ocupação do litoral em Portugal continental é um fenómeno recente A reduzida ocupação do litoral no passado justificava-se por duas razões principais: tempestades mais danosas nas zonas baixas e arenosas e atos de pirataria que tornavam inseguros os territórios ribeirinhos Exemplos de modificações em costa arenosa são os aglomerados populacionais da região Centro entre Ovar e Marinha Grande – 2, Buarcos e Figueira da Foz (ambos assentes em estrato rochoso), são anteriores ao século XX, e, 16, são posteriores e todos em áreas arenosas. Ovar, Ílhavo, Vagos, Mira, Cantanhede, Pombal, Leiria e Marinha Grande são sedes de concelho que se localizam fora da atual orla costeira de sedimentação recente.
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 19 de 20 Um exemplo do risco a que está sujeito o nosso litoral é o que se passou em Espinho, em particular, entre o final do século XIX e o início do século XX, uma sucessão de intensos galgamentos que destruíram parte da frente de mar Para alguns especialistas, as investidas de mar foram consequência das obras de construção do porto artificial de Leixões e foz do Douro Os dois primeiros esporões transversais (distanciados entre si 90 m) construídos no país foram, exatamente, em 1911 em Espinho Foi no século XX até à década de sessenta, que foram construídas a maioria das grandes barragens e arrancaram ou consolidaram os trabalhos nos principais portos nacionais, conjunto de obras de engenharia que inverteram drasticamente o ciclo sedimentar nas bacias hidrográficas e nas áreas portuárias devido ao volume de dragagens efetuadas, com reflexos negativos na evolução do litoral Igualmente negativo é o período de tempo a partir da década de 70, do século XX, com uma ocupação urbana progressiva da faixa litoral Isto é, além da ação da Natureza, a erosão costeira tem origem predominantemente antrópica: 90% do recuo da linha de costa do nosso litoral Contudo, o que se tem verificado é uma opção que tem privilegiado a defesa da ocupação humana junto ao mar Construção de esporões de forma progressiva tem conduzido a uma artificialização crescente e corresponde a uma atuação reativa em vez de se optar por uma política de planeamento prospetivo. há essencialmente três estratégias de adaptação: Fig. 18 - A função principal de um esporão é a de reter a deriva litoral minimizando os problemas de erosão costeira a barlamar da estrutura (na costa ocidental, a N do esporão). Devido à sua disposição transversal, os esporões interrompem a deriva litoral (pelo menos na fase inicial), o que induz acumulação de areia a barlamar e, consequentemente, confere proteção efetiva às construções aí existentes. Por outro lado, pela mesma razão, provocam erosão suplementar a sotamar (na costa ocidental, a S do esporão), o que, normalmente, obriga à construção de outros esporões. Por essa razão, nos trechos costeiros intervencionados existem, geralmente, campos de esporões, isto é, conjuntos, maiores ou menores, de estruturas deste tipo.
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    Geografia A _Recursos marítimos Pág. 20 de 20 Os autores do relatório: defendem três estratégias de adaptação a aplicar na defesa do litoral, a saber, relocalização (recuo planeado), proteção e acomodação. Identificaram os troços da orla costeira que podem ser atingidos por galgamento, inundação e erosão Indicaram as causas de ordem humana responsáveis por estes riscos, por um lado, obras de engenharia que influenciam as fontes de sedimentos, por outro lado, a excessiva ocupação urbana em zonas costeiras vulneráveis Preveem o agravamento dos riscos devido às alterações climáticas motivadas pelo aquecimento global, nomeadamente, com a subida do nível médio das águas do mar Apontam para duas soluções preferenciais para reduzir o risco costeiro: alimentação artificial para redução da erosão e relocalização ordenando a ocupação do espaço costeiro. Se não tivessem destruído as dunas para construir casas se não tivessem ampliado o molhe do porto para poderem sair ao mar com os vossos maravilhosos veleiros (a ria não chega!), nada disto acontecia... E quando o mar galgar o que resta das dunas e chegar às casas, quem é que paga? Fonte - Arcádia Fig.19 Fig.20