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Capa
34 DBO fevereiro 2018
Renato Villela
de Rio Maria, PA.
renato.villela@revistadbo.com.br
A
intensificação é um sonho acalentado por mui-
tos pecuaristas, que querem migrar da pecuária
extensiva, com seus modestos índices produ-
tivos, para sistemas que lhes garantam maior rentabi-
lidade. A questão é como fazer tal transição sem com-
prometer o caixa da fazenda. Essa talvez seja a maior
preocupação de quem deseja intensificar.Asolução, en-
tretanto, é mais simples do que se pensa: basta começar
pequeno para crescer com segurança.
Foi o que fez a Fazenda Santos Reis, especializada
em recria/engorda e localizada no município de Rio Ma-
ria, no sudeste do Pará, região inserida no bioma ama-
zônico. Com a rotação/adubação de apenas 8% de seus
7.413 ha de pastagens, suplementação proteico-energé-
tica dirigida e um confinamento estratégico, essa pro-
priedade conseguiu aumentar sua produção total em
183% no período de quatro anos, passando de 6,61@/
ha, em 2013/2014, para 18,7@/ha, na safra 2016/2017.
Somente nos dois primeiros anos-safra, seu lucro líqui-
do subiu de R$ 258 para R$ 688/ha. Embora esse valor
Intensificação:
por onde começar?
Veja como a Fazenda Santos Reis, no PA, enfrentou esse desafio e conseguiu
mais que duplicar sua produtividade no período de quatro anos.
Com tecnologias já consolidadas, como rotação, adubação e suplementação, o rebanho passou de 8.470 para 13.960 cabeças.
DBO fevereiro 2018 35
tenha caído 56% em 2017, devido à crise que atingiu o
setor, a fazenda está faturando bem acima da média na-
cional, que é de R$ 87/ha na recria/engorda, segundo
estimativa da consultoria catarinense Agroconsult (veja
quadro sobre resultados econômicos à pág 36).
Intensificar ou comprar terras?
Antes de optar pela intensificação, o proprietário da
Santos Reis, Roberto Paulinelli, fazia pecuária tradicio-
nal. Quando pensava em aumentar a produção, sempre
recorria à velha tática predominante na região: comprar
mais terras. No Pará, muitos ainda acreditam que, para
ser lucrativa, uma fazenda precisa ser grande, crença
que tem suas raízes na história do Estado. Há 20 anos,
com apenas 14,76@ de boi gordo se comprava 1 ha. Era
mais barato aumentar a área do que explorá-la de forma
intensiva. Hoje, a realidade é outra: um hectare custa
seis vezes mais (78@) e as margens baixas da pecuá-
ria extensiva já não garantem lucratividade, mesmo em
grandes áreas. Patina-se no atoleiro. “Eu investia um
capital alto em terras, mas não tinha retorno financei-
ro”, relata o produtor, que também é dono do Frigorífi-
co Rio Maria, no mesmo município.
Antes de se decidir pela intensificação, como mui-
tos Paulinelli se perguntou: “por onde devo começar?”
Na busca por informações, procurou o zootecnista Wa-
shington Mesquita, da Intensiva Consultoria e Plane-
jamento Pecuário, de Goiânia, GO, que o levou para
conhecer alguns projetos de pastejo rotacionado em an-
damento no Pará. “Vi que era possível aumentar a re-
ceita sem comprar mais terras e saí convencido de que
a pecuária precisa ser produtiva. Esse mito da fazenda
grande tem de acabar”, diz o produtor. A intensificação
é especialmente promissora no Pará. Enquanto, no Cen-
tro-Oeste, o produtor convive com seis meses de chu-
va e seis meses de seca, na região amazônica a estação
chuvosa dura 60 dias a mais e o índice pluviométrico
supera o patamar 100 mm/mês. “Essa vantagem, contu-
do, é muito mal explorada. Com tanta chuva, seria pos-
sível tirar maior proveito da adubação e produzir massa
forrageira suficiente para sustentar até 8,5 UA/ha, mas,
infelizmente a maioria das fazendas da região trabalha
com lotação de no máximo 1,5 UA/ha, porque o produ-
tor não usa tecnologia”, comenta Washington Mesquita.
Como começar?	
Seguro de que o caminho para a lucratividade era
a intensificação, Paulinelli deu sinal verde ao consul-
tor para elaboração de um diagnóstico técnico-econô-
mico da fazenda. Essa etapa do projeto é essencial, mas
muitos pecuaristas tendem a suprimi-la. Com isso, dei-
xam de detectar problemas previamente, erram nas de-
cisões e ficam sem referência para medir resultados.
Mesquita percorreu todos os pastos da Santos Reis, ve-
rificou as instalações e as condições das pastagens, ana-
lisou amostras de solo, estudou gráficos pluviométri-
cos, estimou a oferta forrageira, avaliou as estratégias
nutricionais adotadas, a genética dos animais, o fluxo
de caixa da fazenda e o perfil de seu proprietário, que
definirá a velocidade e o grau de intensificação. Pro-
Evolução da produtividade a pasto na
Fazenda Santos Reis, sem considerar o confinamento
25,00
20,00
15,00
10,00
5,00
0
1,06 1,26
13,20
6,23
1,37
14,16
9,16
1,54
14,40
7,55
1,63
19,88
8,70
6,61
5,00
Diagnóstico 2014/2015 2016/2017 2017/2018*2015/2016
@/ha/ano
U.A./ha
@/cab/ano
Roberto Paulinelli (de chapéu) com o consultor
Washington Mesquista: parceria afinada.
Histórido do projeto desde o diagnóstico em 2013
Indicadores Abate
Fazes do
projeto
Ciclo
pecuário
Desfrute
%
Rebanho
cab.
Animais
a pasto
Confina-
mento
Total
Diagnóstico 13/14 25% 8.470 1.328 790 2.118
1º ano 14/15 55% 10.810 5.151 795 5.946
2º ano 15/16 62% 12.558 4.453 3.333 7.786
3º ano 16/17 79% 13.960 6.628 4.400 11.028
4º ano 17/18 103% 16.841 9.846 7.500 17.346
Fonte: Intensiva Consultoria e Planejamento Pecuário. Adaptação DBO.
Fotos: Idelson Gomes
Fazenda em números
Nome: Fazenda Santos Reis
Sistema de produção: Recria-Engorda
Localização: Rio Maria, PA
Área total: 8.169 ha
Área de pastagem: 7.226 ha
Área intensificada atual: 593 ha
Belém do Pará
Rio Maria
Capa
36 DBO fevereiro 2018
jetos tecnificados demandam maiores investimentos,
avaliações constantes de resultados e acompanhamento
próximo do fazendeiro ou gerente. “Quem vive da pe-
cuária, como Paulinelli, muitas vezes possui perfil mais
adequado à intensificação, porque pode dedicar tempo
à propriedade, diferentemente de quem tem outro negó-
cio como atividade principal”, diz o consultor.
O diagnóstico técnico-econômico é como uma foto-
grafia instantânea da fazenda. Em 2013, a Santos Reis,
que tem área total de 8.169 ha, sustentava 8.247 ma-
chos comerciais em pastejo contínuo, registrando taxa
de desfrute de 25% e ciclo produtivo de 32 meses. Ti-
nha taxa de lotação de 1,06 UA/ha e produção de 6,61
@/ha/ano, índices muito próximos das médias nacio-
nais, que são baixas (0,8 UA/ha e 4,56 @/ha/ano, res-
pectivamente).Além de avaliar o sistema de exploração
pecuária da propriedade, Mesquita também estimou seu
potencial produtivo, constatando que seria possível ob-
ter de 50 a 60@/ha, nos módulos rotacionados, ou 10-
20@, na área total. Com base nisso, ele elaborou um
“plano de desenvolvimento pecuário”, cuja prioridade
inicial era rotacionar/adubar 6% das pastagens nos dois
primeiros anos, sempre tendo a suplementação e o con-
finamento como ferramentas de apoio na seca. “Proje-
tamos o fluxo de caixa e estabelecemos uma rotina de
avaliação sistemática de custos e resultados técnico-
-econômicos”, explica o consultor.
Que área escolher?
O “plano de desenvolvimento pecuário” funciona
como uma bússola para o projeto, mas, para colocá-lo
em prática, é preciso definir qual a primeira área a in-
tensificar. A tendência dos produtores é escolher os pio-
res pastos, na intenção de “matar dois coelhos com uma
só cajadada”, ou seja, recuperar pastagens degradadas
ao mesmo tempo em que intensificam seu uso. “O mais
indicado, porém, é começar pelas áreas férteis, porque
gasta-se menos com adubo e a resposta é melhor”, ex-
plica Mesquita. Seguindo essa premissa, em meados de
Potencial produtivo do rotacionado é de 50 a 60@/ha
Quanto rendeu e quanto custou?
A intensificação melhorou todos os indicadores da Fazenda San-
tos Reis. A capacidade de suporte dos módulos rotacionados e adu-
bados passou de 4,51 para 5,78 UA/ha, em quatro anos, puxando a
lotação geral da propriedade de 1,06 para 1,54 UA/ha, com projeção
para 1,63 UA/ha, nesta safra. Como a produção nas áreas intensivas,
passou de 27 para 51@/ha, no mesmo período, projetando-se 60@
em 2017/2018, o índice geral da fazenda pulou de 6,61para 14,40 @/
ha/ano. Nesta safra, quando 17% da área estará intensificada (1.239
ha), a perspectiva é de se produzir 19,88@ a pasto. Somando-se o
confinamento, serão 27,2@/ha. O rebanho, que era de 8.470 bovi-
nos, em 2013/2014, subirá para 16.841 cabeças, em 2017/2018. A
taxa de desfrute, antes de 25% e hoje de 79%, deverá alcançar os
103%. Mesquisa calcula esse índice dividindo o número de animais
abatidos pelo estoque médio anual da fazenda ; no caso, 17.321 por
16.841 previstos para este ano.
Com uma evolução tão positiva dos indicadores zootécnicos,
era de se esperar uma lucratividade também ascendente, o que,
aliás, vinha ocorrendo, até aparecerem a Operação Carne Fraca
e a deleção da JBS no meio do caminho. O lucro operacional da
fazenda despencou de R$ 689/ha, em 2015/2016, para R$ 302/ha
em 2016/2017. “Além da queda drástica no valor da arroba, tive-
mos de amortizar um ágio de 30% a 40% no preço originalmente
pago na compra do bezerro”, relembra o consultor. As perspectivas
para este ano parecem mais promissoras. Com a estabilidade nos
preços dos animais de reposição e a melhoria no mercado do boi
gordo, espera-se obter lucro de R$ 568/ha. A crise de 2017 afetou
os resultados da área intensiva, cujo lucro operacional foi de R$
1.386/ha, praticamente o mesmo valor alcançado no início do pro-
jeto, mas, para o ciclo atual, que se encerra em agosto, a projeção
é bem mais positiva: R$ 2.200/ha.
Falta, contudo, responder a uma pergunta importantíssima:
quanto custou esse projeto de intensificação? “O produtor pen-
sa que caro é adubar, mas está enganado. A despesa maior é
com animais. Para cada R$ 1 gasto em adubação, são dispen-
didos R$ 7 com compra de gado”. Na Fazenda Santos Reis, fo-
Rentabilidade da Fazenda Santos Reis
800
700
600
500
400
300
200
100
R$ –
258
Diagnóstico 2014/2015
688 689
302
568
2015/2016 2016/2017 2017/2018*
*Projeção
IdelsonGomes
DBO fevereiro 2018 37
2013, o consultor escolheu uma área de 257 ha, que es-
tava em boas condições e tinha menor diversificação de
gramíneas. A facilidade logística também pesou nessa
escolha. Após correção e adubação fosfatada da área,
ela foi estruturada em seis módulos de 38 a 55 ha, for-
mados por oito piquetes cada. Como a infraestrutura fi-
cou pronta somente no final da seca, pouco antes de se
iniciar o projeto, o produtor teve de trabalhar com agua-
das naturais. Hoje, todos os módulos são abastecidos
por bebedouros artificiais. “Não faz sentido investir em
intensificação e fornecer água de má qualidade para os
animais”, diz Mesquita.
No mesmo ano, outra área foi escolhida para inten-
sificação: a chamada Chácara Umary, de 336 ha. Esse
retiro não seria normalmente incluído no projeto, por
ter muitas grotas e estar com as pastagens degradadas,
mas, devido à sua proximidade da rodovia, o produtor
decidiu transformá-la em vitrine do sistema rotaciona-
do na região, apesar do maior investimento. As pasta-
gens já reformadas foram divididas em oito módulos,
com 38 a 40 ha, subdivididos em oito piquetes cada. No
ano anterior, Paulinelli havia tentado produzir silagem
de milho nessa gleba, mas a umidade excessiva do solo
durante a estação das chuvas impediu o trabalho opera-
cional. Máquinas e tratores atolaram. “Entendemos que
a área não tinha aptidão agrícola, mas pecuária”, diz.
Para formação dos módulos, optou-se pelo mombaça,
capim produtivo e mais resistente ao excesso de umida-
de do solo e do ar, condições que desencadeiam a sín-
drome da morte do braquiarão, principal causa de de-
gradação de pastagens no bioma amazônico. A cultivar
também é menos susceptível ao ataque de cigarrinhas,
problema comum na região.
Em que ritmo intensificar?
Dos 593 ha escolhidos inicialmente para o projeto,
383 ficaram prontos para pastejo rotacionado na safra
2014/2015, o equivalente a 5,3% da área total de pasta-
gem. Embora os módulos tivessem potencial para sus-
tentar 8,5 UA/ha naquela safra, a ocupação foi de 4,51
UA/ha. Mesquita explica o porquê. “Ninguém está pre-
parado para a máxima intensificação no primeiro ano.
Nem o solo, nem a planta, nem a equipe da fazenda.
O ideal é começar aos poucos e crescer gradativamen-
te, aprendendo com erros e acertos”, diz. Muitas situa-
ções são novas e justificam essa cautela. Em pastagens
extensivas não adubadas, por exemplo, normalmente
se trabalha com lotações baixas e sobra de capim, para
enfrentar eventuais veranicos. Já quando se faz uso de
adubação e altas lotações, é diferente. Se faltar chuva e
a produção de forragem cair bastante, o produtor pode
ser obrigado a tirar o gado do piquete de uma hora para
outra. “Os riscos são maiores, por isso é preciso estar
preparado e ter uma estratégia, como reserva de volu-
mosos ou uma área pulmão, para onde se possa levar o
gado, caso necessário”, explica o consultor.
Ajustar o manejo à espécie forrageira é outro desa-
fio de quem intensifica. Nos módulos rotacionados adu-
bados da Fazenda Santos Reis, predomina o mombaça
(40%), cujos piquetes são pastejados por dois a quatro
dias, com período de descanso de apenas 16-24 dias, por-
que esse capim rebrota mais rápido do que os do gênero
Brachiaria.As alturas de entrada e saída dos piquetes são
de 70 e 30 cm, respectivamente. Nos módulos de braqui-
ária (31% da área intensiva), a ocupação é de quatro dias
e o descanso mais longo (24 a 28 dias). Os animais en-
tram no piquete quando o capim atinge 30 cm de altura
e saem quando ele chega a 15 cm. Nas demais pastagens
da fazenda, são usados três sistemas de pastejo diferen-
tes: o contínuo, o alternado (20-30 dias de ocupação) e o
rotacionado sem adubação. Neste último sistema, adota-
-se descanso de 24-28 dias, para o mombaça, e de 28-32
ram investidos no projeto R$ 11.314/ha, mas apenas 9,5% desse valor
(R$ 1.080) foram usados na compra de adubo, ante 69,2% (R$ 7.830/ha)
aplicados em gado, considerando-se uma taxa de lotação de 5 UA/ha. “Por
isso, um dos pontos mais importantes de um projeto de intensificação é o
fluxo de caixa. De nada adianta investir em adubação, se o produtor não
tiver dinheiro para comprar animais”, lembra o consultor. Os gastos com
nutrição representaram 8,7% do total (R$ 985/ha); os custos operacionais
efetivos (mão-de-obra, óleo diesel, depreciação, vacinas, vermífugos) res-
ponderam por 7,6% (R$ 864/ha) e os investimentos em infraestrutura (be-
bedouros, cercas, cocho, estradas) somaram 4,9% (R$ 555/ha).
Investimento – R$ 11.314/ha
0,8
0,7
0,6
0,5
0,4
0,3
0,2
0,1
0
R$ 250 R$ 180 R$ 90 R$ 35 R$ 864 R$ 985 R$ 1.008 R$ 7.830
2,2% 1,6% 0,8% 0,3%
7,6% 8,7% 9,5%
69,2%
Cercas Água Cocho
Maior custo da intensificação é o gado
Estradas Nutrição Adubação AnimaisCOE
Animais são
comprados com
peso médio
de 180 kg e
já recebem
suplementação
RenatoVillela
Capa
38 DBO fevereiro 2018
dias, para a braquiária. As alturas de entrada e saída nes-
sas áreas são mais conservadoras (90 e 40 cm, para o pa-
nicum e 40 e 20 cm, para a braquiária).
As adubações são realizadas no início de novem-
bro e finalizadas em março/abril, dependendo das chu-
vas. As aplicações são feitas no máximo quatro dias
após a saída dos animais do piquete. Com base na aná-
lise do solo e no balanço de massa forrageira, hoje os
módulos rotacionados da Santos Reis recebem fertili-
zante suficiente para sustentar potencialmente 7 UA/ha
nas águas. São 320 kg de N, 80 Kg de P2O5 e 50 Kg
de K2O/ha/ano, em seis parcelas”, diz o consultor. Es-
sas parcelas não são iguais; podem variar por ciclo de
pastejo, conforme a necessidade. “Nossa meta é atingir
uma correlação de 5,3 kg N aplicado para cada @/ha”,
informa Mesquita, acrescentando que as aplicações de
calcário e gesso são feitas ano sim, ano não, para o man-
ter o pH do solo próximo de 6, com 80% de saturação
de base.
Como sustentar altas lotações?
Com a intensificação das pastagens nas águas, a fa-
zenda precisou adotar estratégias para sustentar o mes-
mo número de animais na seca. Uma solução foi fa-
zer suplementação dirigida, usando desde proteinados
de baixo consumo até proteico-energéticos em grandes
quantidades, conforme a categoria animal e o sistema
de pastejo. “Nosso objetivo é aumentar o ganho indivi-
dual que, associado ao aumento na taxa de lotação, ga-
rante maior produtividade de carne por hectare”, expli-
ca o consultor. Como antes a fazenda fornecia apenas
sal mineral comum no cocho, o novo modelo de suple-
mentação foi sendo introduzido aos poucos, mediante
treinamento da equipe e ajustes na infraestrutura da pro-
priedade. Os cochos, por exemplo, eram baixos (70 cm)
e muito curtos (1,5 cm linear/cabeça), inadequados mes-
mo para o fornecimento de sal mineral, e tiveram de ser
reformados, de acordo com o tipo de suplemento a ser
Rota da suplementação
A mudança na estratégia de suple-
mentação dos animais, com fornecimento
de produtos em grandes quantidades (alto
consumo), exigiu ajustes na logística de
distribuição da fazenda. Antes, o sal mi-
neral era levado até os piquetes em uma
carreta puxada por trator e armazenado
em bombonas plásticas com capacida-
de para 8 a 10 sacos. Rapidamente, esse
sistema se mostrou incapaz de garantir a
reposição dos estoques com a agilidade
requerida. “Foi aí que imaginei como ga-
nharíamos eficiência operacional se usás-
semos um caminhão Munck para distribuir
o sal armazenado em bags”, relata o con-
sultor Washington Mesquita. Comuns na
agricultura, os big bags (embalagens com
capacidade para até 1,5 t) armazenam de
25 a 30 sacos de sal. Para suspendê-los
já carregados, é necessário um Munck,
termo utilizado para designar um tipo de
guindaste com comando hidráulico, proje-
tado para facilitar a colocação de objetos
pesados em cima dos caminhões.
Hoje, a logística de trato funciona da se-
guinte forma: o funcionário pega os sacos
de sal armazenados no barracão e coloca-
-os sobre uma esteira rolante, que joga-os
dentro do bag. Depois de cheio, esse bag é
dependurado no Munck, por meio de alças,
e conduzido até a carroceria do caminhão.
Carregado, o veículo está pronto para per-
correr a “rota do sal”, como são chamados
os corredores que cortam os piquetes. Os
bags são deixados em pontos estratégicos
ao longo do corredor (um recipiente para
cada quatro piquetes), onde ficam arma-
zenados em estrados feitos com madeira
reciclada (lascas quebradas ou oriundas de
cercas antigas), revestidas com lona plásti-
ca para proteger os sacos da chuva. Com
o estoque à mão, fica fácil para o tratador,
que se desloca de moto, fazer a reposição
do suplemento no cocho.
As vantagens do caminhão Munck
não se restringem à facilidade operacio-
nal. A nova estratégia permite economia
significativa em maquinário, combustível
e mão de obra. Para abastecer os co-
chos de 18.000 animais, meta estabele-
cida pela fazenda, estima-se que seriam
necessários de três a quatro tratores ro-
dando diariamente. Além do gasto com
óleo diesel, a fazenda teria de destinar
até oito funcionários para essa tarefa:
dois para cada trator, mais dois para o
caminhão (motorista e ajudante). “No final
das contas, o Munck sai mais barato”, diz
Mesquita. É preciso ressaltar, porém, que
o trator tira de letra terrenos mais aciden-
tados, enquanto o caminhão Munk exige
melhor infraestrutura para transitar. “Tive-
mos de melhorar as estradas e fazer ma-
nutenção de todo o trajeto, anualmente”,
afirma o consultor.
Um tamanho de cocho para
cada suplemento
Sal mineral linha branca 3
Suplemento de baixo consumo 12
Suplemento de alto consumo 30
Ração 40
Medidas usadas na Fazenda Santos Reis, PA, em centímetros
lineares, por cabeça.
“Munck” ergue
bag carregado
de sacos de sal.
RenatoVillela
Capa
40 DBO fevereiro 2018
fornecido (veja quadro da pág 38), e tiveram sua área
de acesso, antes esburacada, preenchida com cascalho.
No primeiro ano do projeto, foram suplementados
apenas alguns lotes com proteinado de baixo consumo
(0,5 g/kg de peso vivo), para que os peões pudessem se
acostumar à nova rotina e o produtor avaliasse o retor-
no da tecnologia. Somente depois disso, Mesquita ini-
ciou um programa efetivo de suplementação, que foi
reforçado há dois anos pela adoção do “sequestro” de
bezerros, sistema já bastante difundido no Centro-Oes-
te. Essa técnica também se mostrou vantajosa no Pará,
porque a região, que historicamente tem média pluvio-
métrica de 1.800 mm de chuvas/ano, começou a regis-
trar secas atípicas. Em 2016, a Santos Reis chegou a ter
de comprar volumoso para tratar o gado, mas agora está
produzindo 13.000 t de silagem de milho e capim, parte
dela destinada ao sequestro de bezerros, estratégia que
favorece a reposição. “Consigo comprar bezerro mais
barato, porque a maioria dos produtores está com falta
de pasto nesse período”, conta Roberto Paulinelli.
Outro benefício do “sequestro” está no melhor de-
sempenho dos animais na fase inicial da recria. Se-
gundo Washington Mesquita, se os bezerros fossem
suplementados na seca, quando os pastos estão ruins,
engordariam no máximo 200 g/cab/dia. Já recebendo
80% de silagem de milho e 20% de concentrado no co-
cho, por dois meses, ganham 700g/cab/dia. A dieta é
ajustada para que esse índice seja inferior ou igual ao do
rotacionado nas águas, pois o bovino precisa ter ganho
crescente, nunca decrescente. O custo por arroba pro-
duzida é menor no “sequestro”: R$ 130, ante R$ 200 a
pasto, onde os bezerros ganham uma arroba a menos.
Além disso, a liberação das pastagens na seca aumenta
sua longevidade, pois a gramínea consegue mobilizar
livremente suas reservas de carboidrato para uma nova
rebrota e produção de massa verde. “Se os animais co-
mem essa rebrota, o capim cresce menos, o solo fica
mais exposto, as invasoras aparecem e, paulatinamente,
ele começa a degradar”, diz o consultor.
Por que suplementar nas águas?
Quando saem do sequestro e voltam para o pasto, os
garrotes continuam sendo suplementados, para que eles
não percam ritmo de ganho e o produtor possa explorar
todo o potencial produtivo das pastagens. Aqueles ani-
mais com peso médio acima de 180 kg em outubro são
apartados e conduzidos para os módulos rotacionados
adubados, onde recebem de 1 a 3 g de proteinado ou
proteico-energético por quilo de peso vivo, conforme
as condições do mercado. “Se o preço do milho estiver
baixo e houver boa perspectiva para a arroba, usamos
proteico-energético em maiores quantidades”, explica
Mesquita. Os garrotes permanecem na área rotaciona-
da/adubada por seis a oito meses, ganhando em média
800 g/cab/dia. Quando atingem peso de 360 a 420 kg,
no início da seca do ano seguinte, são transferidos para
o confinamento.
Os bons resultados obtidos com a suplementação
nas águas surpreendeu Paulinelli. “Como outros produ-
tores, eu pensava que somente se fazia suplementação
na seca, porque nas águas o pasto está bom e por isso
não há necessidade”, conta o produtor, que ainda não
pensava em termos de custo por arroba ganha. Como
os pastos, especialmente aqueles bem manejados e adu-
bados, têm qualidade nesse período, o suplemento fica
mais barato, devido ao menor teor de proteína bruta
(18% a 20%, ante 40% do produto fornecido na seca).
Com isso, o custo da arroba nas águas cai para R$ 70,
em contraste com R$ 200, na seca. Como há fartura de
capim, os animais comem menos proteinado, sem per-
der desempenho, mesmo sob altas lotações. “É mais fá-
cil empurrar o carro na descida”, compara Mesquita.
Nas pastagens não intensificadas, a estratégia é di-
ferente. Os bezerros são adquiridos no início das águas,
com 180 kg, e suplementados com proteinado de bai-
xo consumo (1 a 1,5 g/kg de peso vivo), ganhando, em
média, 750 g/cab/dia. Como a pastagem é de pior qua-
lidade, o produto é mais proteico (25% a 30% de PB).
Quando os garrotes atingem 300 kg, a suplementação é
mantida no mesmo nível, se as condições de mercado
forem favoráveis, ou diminuída para 0,5 g/kg de PV, se
não forem. Segundo Mesquita, animais com esse peso
respondem melhor à suplementação, o que possibili-
ta reduzir a quantidade fornecida, em caso de encare-
cimento dos grãos, sem prejudicar seu ganho de peso.
A partir dos 420 kg, tem início a fase de terminação a
pasto, com suplementação mais pesada. Os animais re-
cebem de 3 a 5 g de proteico-energético contendo gor-
dura protegida por quilo de peso vivo e engordam, em
média, 1,1 kg/cab/dia. No ano passado, foram abatidos
No extensivo,
terminação
é feita com
suplemento
de alto
consumo.
RenatoVillela
Capa
42 DBO fevereiro 2018
com 560 kg aos 28-30 meses, apresentando rendimento
de 54% a 55%, com GMC (ganho médio em carcaça)
de 720 g/cab/dia.
Qual o papel do confinamento?
Os animais recriados nos módulos rotacionados
adubados são majoritariamente terminados em con-
finamento (70% a 80%). Apenas o fundo fica a pasto
para abate no ano seguinte, recebendo o mesmo tipo
de suplementação fornecida aos das áreas não intensifi-
cadas. Atualmente, com capacidade estática para 4.400
cabeças, o confinamento também ajuda a dar suporte,
na seca, às altas lotações obtidas nas águas. A fazenda
poderia ter escolhido outras alternativas – arrendamen-
to de pastos, irrigação, semiconfinamento –, mas optou
pela engorda exclusivamente a cocho, porque ela con-
fere maior velocidade ao sistema produtivo como um
todo, além de poupar terras. Como todas as tecnologias
adotadas na fazenda, o confinamento começou pequeno
e cresceu de forma gradativa. Em 2014, foram arraço-
ados apenas 790 bois, com ração à base de silagem de
milho e capim, mais concentrado. Em 2016, esse núme-
ro pulou para 3.333; em 2017, para 4.400 e, neste ano,
a fazenda planeja confinar 7.500 bois.
A maioria desses animais é proveniente do rotacio-
nado intensivo adubado. Eles entram nas instalações
no início da seca (junho/ julho), pesando 360 a 420 kg.
Para que já comecem ganhando peso, são “pré-condi-
cionados” a pasto por 60 dias. Recebem em cochos mó-
veis de 3 a 5 g de proteico-energético por quilo de peso
vivo. “É uma forma de subsidiar o ganho compensa-
tório que teríamos nas primeiras semanas, que tecni-
camente não nos interessa, pois representa ganho em
vísceras e não em carcaça”, explica o consultor. A pro-
priedade faz apenas um giro de confinamento, com du-
ração média de 110 dias. Os bois ganham de 1 a 1,1 kg
de carcaça/cab/dia, totalizando 7,2@/cab no período.
São abatidos com 20-24 meses, pesando 19@.
Esse sistema de engorda ganhou participação
crescente no sistema de produção da fazenda. Em
2014/2015, ele respondeu por apenas 8% das 6,61@
produzidas na propriedade. Sua participação no lucro
líquido foi de R$ 42,5/ha, 16,45% do total registrado
(R$ 258,52/ha). Já no ciclo 2016/2017, o confinamen-
to garantiu 23% da produção (4,3 das 18,7 @ha) e 42%
do lucro. Trata-se de uma participação expressiva, mas
é bom olhar para o retrovisor. Em 2016, ano de má me-
mória para os confinadores, pois o preço do milho es-
tourou e a arroba não ultrapassou os R$ 129, o confi-
namento deu prejuízo de R$ 54,33/ha. Nem por isso, a
fazenda abandonou essa estratégia de engorda. “Não se
pode abrir mão de uma tecnologia por causa de um ci-
clo ruim. O confinamento é uma ferramenta gerencial
para aumento da produtividade e rentabilidade do siste-
ma intensivo, por isso persistimos”, diz Mesquita. 	 n
“Mula de patrão”
Musa, Jóia, Clara, Famosa...
O ritmo cadenciado da marcha
macia, confirmada pelo conforto do
cavaleiro, encanta o criador que,
debruçado sobre o cercado de ma-
deira, observa seus animais “desfi-
larem” na pista de areia. “As mulas
são a paixão do meu pai”, entrega
a filha Bruna Paulinelli. Não é difícil
constatar isso. O gosto pela criação
de muares, herança afetiva deixada
pelo pai João Paulinelli, está expres-
so nas palavras e, acima de tudo, no
olhar carinhoso que Roberto dedica
a suas mulas marchadeiras. Com
um plantel-base de 130 éguas, entre
mangalarga marchador e mangalar-
ga paulista, 20 jumentas e 200 mu-
las, o criador faz uma seleção crite-
riosa, tanto do sêmen dos jumentos
quanto dos animais híbridos nasci-
dos. “Sempre busquei produzir uma
tropa marchadeira e de boa índole,
que eu chamo de ‘mula de patrão’”.
Roberto explica os atributos que o
animal deve possuir para merecer
tal alcunha. “Tem de ter andamento
macio, ser manso e de confiança.
Sabe como é: nem sempre o patrão
é bom cavaleiro, então precisa de
um animal confortável, que não re-
fuga, nem dá coice”.
Roberto Paulinelli: paixão pelas
mulas desde criança.
Maioria dos
animais do
confinamento
vem do
rotacionado
RenatoVillela
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Pg 34

  • 1. Capa 34 DBO fevereiro 2018 Renato Villela de Rio Maria, PA. renato.villela@revistadbo.com.br A intensificação é um sonho acalentado por mui- tos pecuaristas, que querem migrar da pecuária extensiva, com seus modestos índices produ- tivos, para sistemas que lhes garantam maior rentabi- lidade. A questão é como fazer tal transição sem com- prometer o caixa da fazenda. Essa talvez seja a maior preocupação de quem deseja intensificar.Asolução, en- tretanto, é mais simples do que se pensa: basta começar pequeno para crescer com segurança. Foi o que fez a Fazenda Santos Reis, especializada em recria/engorda e localizada no município de Rio Ma- ria, no sudeste do Pará, região inserida no bioma ama- zônico. Com a rotação/adubação de apenas 8% de seus 7.413 ha de pastagens, suplementação proteico-energé- tica dirigida e um confinamento estratégico, essa pro- priedade conseguiu aumentar sua produção total em 183% no período de quatro anos, passando de 6,61@/ ha, em 2013/2014, para 18,7@/ha, na safra 2016/2017. Somente nos dois primeiros anos-safra, seu lucro líqui- do subiu de R$ 258 para R$ 688/ha. Embora esse valor Intensificação: por onde começar? Veja como a Fazenda Santos Reis, no PA, enfrentou esse desafio e conseguiu mais que duplicar sua produtividade no período de quatro anos. Com tecnologias já consolidadas, como rotação, adubação e suplementação, o rebanho passou de 8.470 para 13.960 cabeças.
  • 2. DBO fevereiro 2018 35 tenha caído 56% em 2017, devido à crise que atingiu o setor, a fazenda está faturando bem acima da média na- cional, que é de R$ 87/ha na recria/engorda, segundo estimativa da consultoria catarinense Agroconsult (veja quadro sobre resultados econômicos à pág 36). Intensificar ou comprar terras? Antes de optar pela intensificação, o proprietário da Santos Reis, Roberto Paulinelli, fazia pecuária tradicio- nal. Quando pensava em aumentar a produção, sempre recorria à velha tática predominante na região: comprar mais terras. No Pará, muitos ainda acreditam que, para ser lucrativa, uma fazenda precisa ser grande, crença que tem suas raízes na história do Estado. Há 20 anos, com apenas 14,76@ de boi gordo se comprava 1 ha. Era mais barato aumentar a área do que explorá-la de forma intensiva. Hoje, a realidade é outra: um hectare custa seis vezes mais (78@) e as margens baixas da pecuá- ria extensiva já não garantem lucratividade, mesmo em grandes áreas. Patina-se no atoleiro. “Eu investia um capital alto em terras, mas não tinha retorno financei- ro”, relata o produtor, que também é dono do Frigorífi- co Rio Maria, no mesmo município. Antes de se decidir pela intensificação, como mui- tos Paulinelli se perguntou: “por onde devo começar?” Na busca por informações, procurou o zootecnista Wa- shington Mesquita, da Intensiva Consultoria e Plane- jamento Pecuário, de Goiânia, GO, que o levou para conhecer alguns projetos de pastejo rotacionado em an- damento no Pará. “Vi que era possível aumentar a re- ceita sem comprar mais terras e saí convencido de que a pecuária precisa ser produtiva. Esse mito da fazenda grande tem de acabar”, diz o produtor. A intensificação é especialmente promissora no Pará. Enquanto, no Cen- tro-Oeste, o produtor convive com seis meses de chu- va e seis meses de seca, na região amazônica a estação chuvosa dura 60 dias a mais e o índice pluviométrico supera o patamar 100 mm/mês. “Essa vantagem, contu- do, é muito mal explorada. Com tanta chuva, seria pos- sível tirar maior proveito da adubação e produzir massa forrageira suficiente para sustentar até 8,5 UA/ha, mas, infelizmente a maioria das fazendas da região trabalha com lotação de no máximo 1,5 UA/ha, porque o produ- tor não usa tecnologia”, comenta Washington Mesquita. Como começar? Seguro de que o caminho para a lucratividade era a intensificação, Paulinelli deu sinal verde ao consul- tor para elaboração de um diagnóstico técnico-econô- mico da fazenda. Essa etapa do projeto é essencial, mas muitos pecuaristas tendem a suprimi-la. Com isso, dei- xam de detectar problemas previamente, erram nas de- cisões e ficam sem referência para medir resultados. Mesquita percorreu todos os pastos da Santos Reis, ve- rificou as instalações e as condições das pastagens, ana- lisou amostras de solo, estudou gráficos pluviométri- cos, estimou a oferta forrageira, avaliou as estratégias nutricionais adotadas, a genética dos animais, o fluxo de caixa da fazenda e o perfil de seu proprietário, que definirá a velocidade e o grau de intensificação. Pro- Evolução da produtividade a pasto na Fazenda Santos Reis, sem considerar o confinamento 25,00 20,00 15,00 10,00 5,00 0 1,06 1,26 13,20 6,23 1,37 14,16 9,16 1,54 14,40 7,55 1,63 19,88 8,70 6,61 5,00 Diagnóstico 2014/2015 2016/2017 2017/2018*2015/2016 @/ha/ano U.A./ha @/cab/ano Roberto Paulinelli (de chapéu) com o consultor Washington Mesquista: parceria afinada. Histórido do projeto desde o diagnóstico em 2013 Indicadores Abate Fazes do projeto Ciclo pecuário Desfrute % Rebanho cab. Animais a pasto Confina- mento Total Diagnóstico 13/14 25% 8.470 1.328 790 2.118 1º ano 14/15 55% 10.810 5.151 795 5.946 2º ano 15/16 62% 12.558 4.453 3.333 7.786 3º ano 16/17 79% 13.960 6.628 4.400 11.028 4º ano 17/18 103% 16.841 9.846 7.500 17.346 Fonte: Intensiva Consultoria e Planejamento Pecuário. Adaptação DBO. Fotos: Idelson Gomes Fazenda em números Nome: Fazenda Santos Reis Sistema de produção: Recria-Engorda Localização: Rio Maria, PA Área total: 8.169 ha Área de pastagem: 7.226 ha Área intensificada atual: 593 ha Belém do Pará Rio Maria
  • 3. Capa 36 DBO fevereiro 2018 jetos tecnificados demandam maiores investimentos, avaliações constantes de resultados e acompanhamento próximo do fazendeiro ou gerente. “Quem vive da pe- cuária, como Paulinelli, muitas vezes possui perfil mais adequado à intensificação, porque pode dedicar tempo à propriedade, diferentemente de quem tem outro negó- cio como atividade principal”, diz o consultor. O diagnóstico técnico-econômico é como uma foto- grafia instantânea da fazenda. Em 2013, a Santos Reis, que tem área total de 8.169 ha, sustentava 8.247 ma- chos comerciais em pastejo contínuo, registrando taxa de desfrute de 25% e ciclo produtivo de 32 meses. Ti- nha taxa de lotação de 1,06 UA/ha e produção de 6,61 @/ha/ano, índices muito próximos das médias nacio- nais, que são baixas (0,8 UA/ha e 4,56 @/ha/ano, res- pectivamente).Além de avaliar o sistema de exploração pecuária da propriedade, Mesquita também estimou seu potencial produtivo, constatando que seria possível ob- ter de 50 a 60@/ha, nos módulos rotacionados, ou 10- 20@, na área total. Com base nisso, ele elaborou um “plano de desenvolvimento pecuário”, cuja prioridade inicial era rotacionar/adubar 6% das pastagens nos dois primeiros anos, sempre tendo a suplementação e o con- finamento como ferramentas de apoio na seca. “Proje- tamos o fluxo de caixa e estabelecemos uma rotina de avaliação sistemática de custos e resultados técnico- -econômicos”, explica o consultor. Que área escolher? O “plano de desenvolvimento pecuário” funciona como uma bússola para o projeto, mas, para colocá-lo em prática, é preciso definir qual a primeira área a in- tensificar. A tendência dos produtores é escolher os pio- res pastos, na intenção de “matar dois coelhos com uma só cajadada”, ou seja, recuperar pastagens degradadas ao mesmo tempo em que intensificam seu uso. “O mais indicado, porém, é começar pelas áreas férteis, porque gasta-se menos com adubo e a resposta é melhor”, ex- plica Mesquita. Seguindo essa premissa, em meados de Potencial produtivo do rotacionado é de 50 a 60@/ha Quanto rendeu e quanto custou? A intensificação melhorou todos os indicadores da Fazenda San- tos Reis. A capacidade de suporte dos módulos rotacionados e adu- bados passou de 4,51 para 5,78 UA/ha, em quatro anos, puxando a lotação geral da propriedade de 1,06 para 1,54 UA/ha, com projeção para 1,63 UA/ha, nesta safra. Como a produção nas áreas intensivas, passou de 27 para 51@/ha, no mesmo período, projetando-se 60@ em 2017/2018, o índice geral da fazenda pulou de 6,61para 14,40 @/ ha/ano. Nesta safra, quando 17% da área estará intensificada (1.239 ha), a perspectiva é de se produzir 19,88@ a pasto. Somando-se o confinamento, serão 27,2@/ha. O rebanho, que era de 8.470 bovi- nos, em 2013/2014, subirá para 16.841 cabeças, em 2017/2018. A taxa de desfrute, antes de 25% e hoje de 79%, deverá alcançar os 103%. Mesquisa calcula esse índice dividindo o número de animais abatidos pelo estoque médio anual da fazenda ; no caso, 17.321 por 16.841 previstos para este ano. Com uma evolução tão positiva dos indicadores zootécnicos, era de se esperar uma lucratividade também ascendente, o que, aliás, vinha ocorrendo, até aparecerem a Operação Carne Fraca e a deleção da JBS no meio do caminho. O lucro operacional da fazenda despencou de R$ 689/ha, em 2015/2016, para R$ 302/ha em 2016/2017. “Além da queda drástica no valor da arroba, tive- mos de amortizar um ágio de 30% a 40% no preço originalmente pago na compra do bezerro”, relembra o consultor. As perspectivas para este ano parecem mais promissoras. Com a estabilidade nos preços dos animais de reposição e a melhoria no mercado do boi gordo, espera-se obter lucro de R$ 568/ha. A crise de 2017 afetou os resultados da área intensiva, cujo lucro operacional foi de R$ 1.386/ha, praticamente o mesmo valor alcançado no início do pro- jeto, mas, para o ciclo atual, que se encerra em agosto, a projeção é bem mais positiva: R$ 2.200/ha. Falta, contudo, responder a uma pergunta importantíssima: quanto custou esse projeto de intensificação? “O produtor pen- sa que caro é adubar, mas está enganado. A despesa maior é com animais. Para cada R$ 1 gasto em adubação, são dispen- didos R$ 7 com compra de gado”. Na Fazenda Santos Reis, fo- Rentabilidade da Fazenda Santos Reis 800 700 600 500 400 300 200 100 R$ – 258 Diagnóstico 2014/2015 688 689 302 568 2015/2016 2016/2017 2017/2018* *Projeção IdelsonGomes
  • 4. DBO fevereiro 2018 37 2013, o consultor escolheu uma área de 257 ha, que es- tava em boas condições e tinha menor diversificação de gramíneas. A facilidade logística também pesou nessa escolha. Após correção e adubação fosfatada da área, ela foi estruturada em seis módulos de 38 a 55 ha, for- mados por oito piquetes cada. Como a infraestrutura fi- cou pronta somente no final da seca, pouco antes de se iniciar o projeto, o produtor teve de trabalhar com agua- das naturais. Hoje, todos os módulos são abastecidos por bebedouros artificiais. “Não faz sentido investir em intensificação e fornecer água de má qualidade para os animais”, diz Mesquita. No mesmo ano, outra área foi escolhida para inten- sificação: a chamada Chácara Umary, de 336 ha. Esse retiro não seria normalmente incluído no projeto, por ter muitas grotas e estar com as pastagens degradadas, mas, devido à sua proximidade da rodovia, o produtor decidiu transformá-la em vitrine do sistema rotaciona- do na região, apesar do maior investimento. As pasta- gens já reformadas foram divididas em oito módulos, com 38 a 40 ha, subdivididos em oito piquetes cada. No ano anterior, Paulinelli havia tentado produzir silagem de milho nessa gleba, mas a umidade excessiva do solo durante a estação das chuvas impediu o trabalho opera- cional. Máquinas e tratores atolaram. “Entendemos que a área não tinha aptidão agrícola, mas pecuária”, diz. Para formação dos módulos, optou-se pelo mombaça, capim produtivo e mais resistente ao excesso de umida- de do solo e do ar, condições que desencadeiam a sín- drome da morte do braquiarão, principal causa de de- gradação de pastagens no bioma amazônico. A cultivar também é menos susceptível ao ataque de cigarrinhas, problema comum na região. Em que ritmo intensificar? Dos 593 ha escolhidos inicialmente para o projeto, 383 ficaram prontos para pastejo rotacionado na safra 2014/2015, o equivalente a 5,3% da área total de pasta- gem. Embora os módulos tivessem potencial para sus- tentar 8,5 UA/ha naquela safra, a ocupação foi de 4,51 UA/ha. Mesquita explica o porquê. “Ninguém está pre- parado para a máxima intensificação no primeiro ano. Nem o solo, nem a planta, nem a equipe da fazenda. O ideal é começar aos poucos e crescer gradativamen- te, aprendendo com erros e acertos”, diz. Muitas situa- ções são novas e justificam essa cautela. Em pastagens extensivas não adubadas, por exemplo, normalmente se trabalha com lotações baixas e sobra de capim, para enfrentar eventuais veranicos. Já quando se faz uso de adubação e altas lotações, é diferente. Se faltar chuva e a produção de forragem cair bastante, o produtor pode ser obrigado a tirar o gado do piquete de uma hora para outra. “Os riscos são maiores, por isso é preciso estar preparado e ter uma estratégia, como reserva de volu- mosos ou uma área pulmão, para onde se possa levar o gado, caso necessário”, explica o consultor. Ajustar o manejo à espécie forrageira é outro desa- fio de quem intensifica. Nos módulos rotacionados adu- bados da Fazenda Santos Reis, predomina o mombaça (40%), cujos piquetes são pastejados por dois a quatro dias, com período de descanso de apenas 16-24 dias, por- que esse capim rebrota mais rápido do que os do gênero Brachiaria.As alturas de entrada e saída dos piquetes são de 70 e 30 cm, respectivamente. Nos módulos de braqui- ária (31% da área intensiva), a ocupação é de quatro dias e o descanso mais longo (24 a 28 dias). Os animais en- tram no piquete quando o capim atinge 30 cm de altura e saem quando ele chega a 15 cm. Nas demais pastagens da fazenda, são usados três sistemas de pastejo diferen- tes: o contínuo, o alternado (20-30 dias de ocupação) e o rotacionado sem adubação. Neste último sistema, adota- -se descanso de 24-28 dias, para o mombaça, e de 28-32 ram investidos no projeto R$ 11.314/ha, mas apenas 9,5% desse valor (R$ 1.080) foram usados na compra de adubo, ante 69,2% (R$ 7.830/ha) aplicados em gado, considerando-se uma taxa de lotação de 5 UA/ha. “Por isso, um dos pontos mais importantes de um projeto de intensificação é o fluxo de caixa. De nada adianta investir em adubação, se o produtor não tiver dinheiro para comprar animais”, lembra o consultor. Os gastos com nutrição representaram 8,7% do total (R$ 985/ha); os custos operacionais efetivos (mão-de-obra, óleo diesel, depreciação, vacinas, vermífugos) res- ponderam por 7,6% (R$ 864/ha) e os investimentos em infraestrutura (be- bedouros, cercas, cocho, estradas) somaram 4,9% (R$ 555/ha). Investimento – R$ 11.314/ha 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 0,2 0,1 0 R$ 250 R$ 180 R$ 90 R$ 35 R$ 864 R$ 985 R$ 1.008 R$ 7.830 2,2% 1,6% 0,8% 0,3% 7,6% 8,7% 9,5% 69,2% Cercas Água Cocho Maior custo da intensificação é o gado Estradas Nutrição Adubação AnimaisCOE Animais são comprados com peso médio de 180 kg e já recebem suplementação RenatoVillela
  • 5. Capa 38 DBO fevereiro 2018 dias, para a braquiária. As alturas de entrada e saída nes- sas áreas são mais conservadoras (90 e 40 cm, para o pa- nicum e 40 e 20 cm, para a braquiária). As adubações são realizadas no início de novem- bro e finalizadas em março/abril, dependendo das chu- vas. As aplicações são feitas no máximo quatro dias após a saída dos animais do piquete. Com base na aná- lise do solo e no balanço de massa forrageira, hoje os módulos rotacionados da Santos Reis recebem fertili- zante suficiente para sustentar potencialmente 7 UA/ha nas águas. São 320 kg de N, 80 Kg de P2O5 e 50 Kg de K2O/ha/ano, em seis parcelas”, diz o consultor. Es- sas parcelas não são iguais; podem variar por ciclo de pastejo, conforme a necessidade. “Nossa meta é atingir uma correlação de 5,3 kg N aplicado para cada @/ha”, informa Mesquita, acrescentando que as aplicações de calcário e gesso são feitas ano sim, ano não, para o man- ter o pH do solo próximo de 6, com 80% de saturação de base. Como sustentar altas lotações? Com a intensificação das pastagens nas águas, a fa- zenda precisou adotar estratégias para sustentar o mes- mo número de animais na seca. Uma solução foi fa- zer suplementação dirigida, usando desde proteinados de baixo consumo até proteico-energéticos em grandes quantidades, conforme a categoria animal e o sistema de pastejo. “Nosso objetivo é aumentar o ganho indivi- dual que, associado ao aumento na taxa de lotação, ga- rante maior produtividade de carne por hectare”, expli- ca o consultor. Como antes a fazenda fornecia apenas sal mineral comum no cocho, o novo modelo de suple- mentação foi sendo introduzido aos poucos, mediante treinamento da equipe e ajustes na infraestrutura da pro- priedade. Os cochos, por exemplo, eram baixos (70 cm) e muito curtos (1,5 cm linear/cabeça), inadequados mes- mo para o fornecimento de sal mineral, e tiveram de ser reformados, de acordo com o tipo de suplemento a ser Rota da suplementação A mudança na estratégia de suple- mentação dos animais, com fornecimento de produtos em grandes quantidades (alto consumo), exigiu ajustes na logística de distribuição da fazenda. Antes, o sal mi- neral era levado até os piquetes em uma carreta puxada por trator e armazenado em bombonas plásticas com capacida- de para 8 a 10 sacos. Rapidamente, esse sistema se mostrou incapaz de garantir a reposição dos estoques com a agilidade requerida. “Foi aí que imaginei como ga- nharíamos eficiência operacional se usás- semos um caminhão Munck para distribuir o sal armazenado em bags”, relata o con- sultor Washington Mesquita. Comuns na agricultura, os big bags (embalagens com capacidade para até 1,5 t) armazenam de 25 a 30 sacos de sal. Para suspendê-los já carregados, é necessário um Munck, termo utilizado para designar um tipo de guindaste com comando hidráulico, proje- tado para facilitar a colocação de objetos pesados em cima dos caminhões. Hoje, a logística de trato funciona da se- guinte forma: o funcionário pega os sacos de sal armazenados no barracão e coloca- -os sobre uma esteira rolante, que joga-os dentro do bag. Depois de cheio, esse bag é dependurado no Munck, por meio de alças, e conduzido até a carroceria do caminhão. Carregado, o veículo está pronto para per- correr a “rota do sal”, como são chamados os corredores que cortam os piquetes. Os bags são deixados em pontos estratégicos ao longo do corredor (um recipiente para cada quatro piquetes), onde ficam arma- zenados em estrados feitos com madeira reciclada (lascas quebradas ou oriundas de cercas antigas), revestidas com lona plásti- ca para proteger os sacos da chuva. Com o estoque à mão, fica fácil para o tratador, que se desloca de moto, fazer a reposição do suplemento no cocho. As vantagens do caminhão Munck não se restringem à facilidade operacio- nal. A nova estratégia permite economia significativa em maquinário, combustível e mão de obra. Para abastecer os co- chos de 18.000 animais, meta estabele- cida pela fazenda, estima-se que seriam necessários de três a quatro tratores ro- dando diariamente. Além do gasto com óleo diesel, a fazenda teria de destinar até oito funcionários para essa tarefa: dois para cada trator, mais dois para o caminhão (motorista e ajudante). “No final das contas, o Munck sai mais barato”, diz Mesquita. É preciso ressaltar, porém, que o trator tira de letra terrenos mais aciden- tados, enquanto o caminhão Munk exige melhor infraestrutura para transitar. “Tive- mos de melhorar as estradas e fazer ma- nutenção de todo o trajeto, anualmente”, afirma o consultor. Um tamanho de cocho para cada suplemento Sal mineral linha branca 3 Suplemento de baixo consumo 12 Suplemento de alto consumo 30 Ração 40 Medidas usadas na Fazenda Santos Reis, PA, em centímetros lineares, por cabeça. “Munck” ergue bag carregado de sacos de sal. RenatoVillela
  • 6. Capa 40 DBO fevereiro 2018 fornecido (veja quadro da pág 38), e tiveram sua área de acesso, antes esburacada, preenchida com cascalho. No primeiro ano do projeto, foram suplementados apenas alguns lotes com proteinado de baixo consumo (0,5 g/kg de peso vivo), para que os peões pudessem se acostumar à nova rotina e o produtor avaliasse o retor- no da tecnologia. Somente depois disso, Mesquita ini- ciou um programa efetivo de suplementação, que foi reforçado há dois anos pela adoção do “sequestro” de bezerros, sistema já bastante difundido no Centro-Oes- te. Essa técnica também se mostrou vantajosa no Pará, porque a região, que historicamente tem média pluvio- métrica de 1.800 mm de chuvas/ano, começou a regis- trar secas atípicas. Em 2016, a Santos Reis chegou a ter de comprar volumoso para tratar o gado, mas agora está produzindo 13.000 t de silagem de milho e capim, parte dela destinada ao sequestro de bezerros, estratégia que favorece a reposição. “Consigo comprar bezerro mais barato, porque a maioria dos produtores está com falta de pasto nesse período”, conta Roberto Paulinelli. Outro benefício do “sequestro” está no melhor de- sempenho dos animais na fase inicial da recria. Se- gundo Washington Mesquita, se os bezerros fossem suplementados na seca, quando os pastos estão ruins, engordariam no máximo 200 g/cab/dia. Já recebendo 80% de silagem de milho e 20% de concentrado no co- cho, por dois meses, ganham 700g/cab/dia. A dieta é ajustada para que esse índice seja inferior ou igual ao do rotacionado nas águas, pois o bovino precisa ter ganho crescente, nunca decrescente. O custo por arroba pro- duzida é menor no “sequestro”: R$ 130, ante R$ 200 a pasto, onde os bezerros ganham uma arroba a menos. Além disso, a liberação das pastagens na seca aumenta sua longevidade, pois a gramínea consegue mobilizar livremente suas reservas de carboidrato para uma nova rebrota e produção de massa verde. “Se os animais co- mem essa rebrota, o capim cresce menos, o solo fica mais exposto, as invasoras aparecem e, paulatinamente, ele começa a degradar”, diz o consultor. Por que suplementar nas águas? Quando saem do sequestro e voltam para o pasto, os garrotes continuam sendo suplementados, para que eles não percam ritmo de ganho e o produtor possa explorar todo o potencial produtivo das pastagens. Aqueles ani- mais com peso médio acima de 180 kg em outubro são apartados e conduzidos para os módulos rotacionados adubados, onde recebem de 1 a 3 g de proteinado ou proteico-energético por quilo de peso vivo, conforme as condições do mercado. “Se o preço do milho estiver baixo e houver boa perspectiva para a arroba, usamos proteico-energético em maiores quantidades”, explica Mesquita. Os garrotes permanecem na área rotaciona- da/adubada por seis a oito meses, ganhando em média 800 g/cab/dia. Quando atingem peso de 360 a 420 kg, no início da seca do ano seguinte, são transferidos para o confinamento. Os bons resultados obtidos com a suplementação nas águas surpreendeu Paulinelli. “Como outros produ- tores, eu pensava que somente se fazia suplementação na seca, porque nas águas o pasto está bom e por isso não há necessidade”, conta o produtor, que ainda não pensava em termos de custo por arroba ganha. Como os pastos, especialmente aqueles bem manejados e adu- bados, têm qualidade nesse período, o suplemento fica mais barato, devido ao menor teor de proteína bruta (18% a 20%, ante 40% do produto fornecido na seca). Com isso, o custo da arroba nas águas cai para R$ 70, em contraste com R$ 200, na seca. Como há fartura de capim, os animais comem menos proteinado, sem per- der desempenho, mesmo sob altas lotações. “É mais fá- cil empurrar o carro na descida”, compara Mesquita. Nas pastagens não intensificadas, a estratégia é di- ferente. Os bezerros são adquiridos no início das águas, com 180 kg, e suplementados com proteinado de bai- xo consumo (1 a 1,5 g/kg de peso vivo), ganhando, em média, 750 g/cab/dia. Como a pastagem é de pior qua- lidade, o produto é mais proteico (25% a 30% de PB). Quando os garrotes atingem 300 kg, a suplementação é mantida no mesmo nível, se as condições de mercado forem favoráveis, ou diminuída para 0,5 g/kg de PV, se não forem. Segundo Mesquita, animais com esse peso respondem melhor à suplementação, o que possibili- ta reduzir a quantidade fornecida, em caso de encare- cimento dos grãos, sem prejudicar seu ganho de peso. A partir dos 420 kg, tem início a fase de terminação a pasto, com suplementação mais pesada. Os animais re- cebem de 3 a 5 g de proteico-energético contendo gor- dura protegida por quilo de peso vivo e engordam, em média, 1,1 kg/cab/dia. No ano passado, foram abatidos No extensivo, terminação é feita com suplemento de alto consumo. RenatoVillela
  • 7. Capa 42 DBO fevereiro 2018 com 560 kg aos 28-30 meses, apresentando rendimento de 54% a 55%, com GMC (ganho médio em carcaça) de 720 g/cab/dia. Qual o papel do confinamento? Os animais recriados nos módulos rotacionados adubados são majoritariamente terminados em con- finamento (70% a 80%). Apenas o fundo fica a pasto para abate no ano seguinte, recebendo o mesmo tipo de suplementação fornecida aos das áreas não intensifi- cadas. Atualmente, com capacidade estática para 4.400 cabeças, o confinamento também ajuda a dar suporte, na seca, às altas lotações obtidas nas águas. A fazenda poderia ter escolhido outras alternativas – arrendamen- to de pastos, irrigação, semiconfinamento –, mas optou pela engorda exclusivamente a cocho, porque ela con- fere maior velocidade ao sistema produtivo como um todo, além de poupar terras. Como todas as tecnologias adotadas na fazenda, o confinamento começou pequeno e cresceu de forma gradativa. Em 2014, foram arraço- ados apenas 790 bois, com ração à base de silagem de milho e capim, mais concentrado. Em 2016, esse núme- ro pulou para 3.333; em 2017, para 4.400 e, neste ano, a fazenda planeja confinar 7.500 bois. A maioria desses animais é proveniente do rotacio- nado intensivo adubado. Eles entram nas instalações no início da seca (junho/ julho), pesando 360 a 420 kg. Para que já comecem ganhando peso, são “pré-condi- cionados” a pasto por 60 dias. Recebem em cochos mó- veis de 3 a 5 g de proteico-energético por quilo de peso vivo. “É uma forma de subsidiar o ganho compensa- tório que teríamos nas primeiras semanas, que tecni- camente não nos interessa, pois representa ganho em vísceras e não em carcaça”, explica o consultor. A pro- priedade faz apenas um giro de confinamento, com du- ração média de 110 dias. Os bois ganham de 1 a 1,1 kg de carcaça/cab/dia, totalizando 7,2@/cab no período. São abatidos com 20-24 meses, pesando 19@. Esse sistema de engorda ganhou participação crescente no sistema de produção da fazenda. Em 2014/2015, ele respondeu por apenas 8% das 6,61@ produzidas na propriedade. Sua participação no lucro líquido foi de R$ 42,5/ha, 16,45% do total registrado (R$ 258,52/ha). Já no ciclo 2016/2017, o confinamen- to garantiu 23% da produção (4,3 das 18,7 @ha) e 42% do lucro. Trata-se de uma participação expressiva, mas é bom olhar para o retrovisor. Em 2016, ano de má me- mória para os confinadores, pois o preço do milho es- tourou e a arroba não ultrapassou os R$ 129, o confi- namento deu prejuízo de R$ 54,33/ha. Nem por isso, a fazenda abandonou essa estratégia de engorda. “Não se pode abrir mão de uma tecnologia por causa de um ci- clo ruim. O confinamento é uma ferramenta gerencial para aumento da produtividade e rentabilidade do siste- ma intensivo, por isso persistimos”, diz Mesquita. n “Mula de patrão” Musa, Jóia, Clara, Famosa... O ritmo cadenciado da marcha macia, confirmada pelo conforto do cavaleiro, encanta o criador que, debruçado sobre o cercado de ma- deira, observa seus animais “desfi- larem” na pista de areia. “As mulas são a paixão do meu pai”, entrega a filha Bruna Paulinelli. Não é difícil constatar isso. O gosto pela criação de muares, herança afetiva deixada pelo pai João Paulinelli, está expres- so nas palavras e, acima de tudo, no olhar carinhoso que Roberto dedica a suas mulas marchadeiras. Com um plantel-base de 130 éguas, entre mangalarga marchador e mangalar- ga paulista, 20 jumentas e 200 mu- las, o criador faz uma seleção crite- riosa, tanto do sêmen dos jumentos quanto dos animais híbridos nasci- dos. “Sempre busquei produzir uma tropa marchadeira e de boa índole, que eu chamo de ‘mula de patrão’”. Roberto explica os atributos que o animal deve possuir para merecer tal alcunha. “Tem de ter andamento macio, ser manso e de confiança. Sabe como é: nem sempre o patrão é bom cavaleiro, então precisa de um animal confortável, que não re- fuga, nem dá coice”. Roberto Paulinelli: paixão pelas mulas desde criança. Maioria dos animais do confinamento vem do rotacionado RenatoVillela Foto:IdelsonGomes