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Saúde Animal
132 DBO agosto 2017
Higiene é a chave
para evitar abscessos
Conheça algumas medidas que ajudam a reduzir a
formação de nódulos nos animais após a vacinação
Renato Villela
renato.villela@revistadbo.com.br
G
arantir a higiene no ato de vacinar é a me-
dida mais eficaz para evitar a formação de
abscessos, aqueles nódulos protuberantes
que se caracterizam pela presença de pus, sinal de
infecção normalmente provocada por sujeira (não
confundir com os granulomas causados por vacina
e que foram a causa do fechamento do mercado nor-
te-americano à carne brasileira). A falta de higieni-
zação adequada das agulhas é uma das principais
responsáveis pelo o aparecimento de abscessos.
Segundo o professor Iveraldo dos Santos Dutra, da
Unesp de Araçatuba, SP, as agulhas devem primeiro
ser limpas com água corrente e sabão; depois colo-
cadas em água fervente, durante 15 minutos, para
que se consiga uma boa desinfecção; secadas com
papel toalha e guardadas em local limpo. Dutra de-
saconselha o uso de iodo ou quaisquer outros de-
sinfetantes com essa finalidade. “Trata-se de prática
antiga, que deve ser abolida, pois não acrescenta
nada”, afirma. O professor explica que o efeito
bactericida dessas soluções tende a se perder
à medida que aumenta a concentração de
material orgânico nos recipientes onde as
agulhas sujas são colocadas para assepsia.
“Em vez de desinfetar, esse meio se transfor-
ma numa fonte de contaminação, pois os pató-
genos se desenvolvem nele”, diz.
Como nem sempre é possível esterilizar as agu-
lhas durante a vacinação, o ideal é que o produtor
trabalhe com um jogo de peças, de acordo com o
número de animais a serem vacinados. “Uma para
cada dez animais é uma proporção excelente”, afirma
Dutra. Para esse tipo de vacinação, recomendam-se
agulhas com dimensões de 10 x 15 mm, 10 x 18 mm
ou 15 x 15 mm. A via de administração subcutânea
(embaixo da pele) é a mais comum na rotina das fa-
zendas. O responsável pelo manejo deve se certifi-
car de que a agulha seja nova e esteja com a ponta
afiada e íntegra, pois, assim, ao retirá-la do animal
após a aplicação da dose, o corte em bisel (em sen-
tido “transversal”) se “fecha”, como se fosse uma
tampa. “Se estiver cega ou rombuda, a agulha não
corta, mas perfura a pele, abrindo uma porta para
entrada de contaminantes e sujeiras, causa de mui-
tos abscessos”, explica o consultor Marcus Rezende,
com atuação na Região Norte do País. Deve-se evitar
ainda o contato com o corpo da agulha. “Se os dedos
estiverem sujos, a contaminação é levada para dentro
do frasco e injetada no animal junto com o medica-
mento”, adverte Dutra.
Sensibilidade à temperatura
Outro cuidado diz respeito à conservação da va-
cina. Compostas por agentes que induzem a resposta
imune no animal (bactérias, vírus atenuados ou ina-
tivos), vacinas são sensíveis à luz, ao calor e ao frio
extremo. Altas temperaturas, por exemplo, podem
matar os vírus atenuados da vacina contra a bruce-
lose, tornando-a inviável. O congelamento, por sua
vez, é capaz de, mesmo por poucos segundos, estra-
gar uma vacina antirrábica, já que altera a emulsão
(mistura entre líquidos imiscíveis), separando seus
componentes, o que compromete a resposta imune.
Além disso, quando a vacina é congelada, os adju-
vantes, substâncias utilizadas para aumentar a pro-
dução de anticorpos, se desprendem dos antígenos
aos quais estavam ligados. “Quando os adjuvantes
Do jeito certo: Puxe a pele do pescoço e aplique a
vacina em posição paralela à do corpo do animal.
Desinfecção da
agulha só com
água quente”
Iveraldo Dutra,
da Unesp-
Araçatuba, SP
ficam livres, o risco de provocarem uma reação de
hipersensibilidade cutânea (abscessos assépticos) é
muito maior”, explica Enrico Ortolani, professor
da FMVZ (Faculdade de Medicina Veterinária
da USP.) Segundo Ortolani, é preciso ficar
atento à regulagem da temperatura das ge-
ladeiras na fazenda. As vacinas devem ser
conservadas em temperatura entre 2 e 8 ºC.
De nada adiantam todos esses cuidados
com a higiene dos utensílios e a conservação
da vacina se o manejo for feito de forma apres-
sada, seja por despreparo ou por uma nociva compe-
tição entre os vaqueiros para eleger “o mais rápido”
da vacinação. “Às vezes o vaqueiro é muito confiante
e vacina os animais com pressa, aí surgem os proble-
mas”, diz Dutra. Na opinião do professor, convém o
produtor fazer uma “vistoria” no rebanho dez dias
após a vacinação, tempo suficiente para que eventuais
reações à vacina se manifestem. “Daí tem que ave-
riguar quem aplicou, como aplicou (a vacina), para
O
zootecnistaAdriano Páscoa, da BEAConsultoria
e Treinamentos, de Jaboticabal, SP, teve uma óti-
ma ideia para melhorar o manejo de vacinação e,
de quebra, reduzir o número de abscessos causados por
sujeira: fazer um furo na tampa de uma caixa de isopor
para nela depositar a seringa de cabeça para baixo, man-
tendo a vacina dentro do recipiente em temperatura ade-
quada. A princípio a intenção era evitar danos à agulha
quando o equipamento era colocado às pressas na caixa
entre uma vacinação e outra. “Muitas vezes, a ponta da
agulha batia no gelo e entortava”, conta Páscoa.
Não demorou, porém, para que o zootecnista perce-
besse que este não era o único problema ocorrido durante
o processo de vacinação. “À medida que o gelo começa-
va a derreter, devido ao abre e fecha da tampa, a água su-
java por entrar em contato direto com o gatilho, parte da
seringa que o vacinador segura.” Como é difícil manter
as mãos limpas durante o manejo de vacinação, mesmo
com o uso de luvas, Páscoa fez o furo na tampa de modo
a deixar o gatilho do lado de fora e o cilindro dentro da
caixa. “Assim, não corro o risco de entortar a agulha nem
contaminar a seringa com sujidades”, afirma. Os frascos
de vacina devem ficar em outro isopor.
A ideia da tampa vazada
_
posteriormente aperfei-
çoada pelo zootecnista Helton Miranda, que colocou
um anel de tecnil no furo para dar maior sustentação à
seringa
_
foi colocada em prática em 2013, na Fazenda
São Luiz, em Paragominas, PA, que participa do Pro-
jeto Pecuária Verde. Segundo Páscoa, esta e outras me-
didas, como o uso do tronco de contenção individual, a
troca de agulha a cada 10 animais e o manejo adequa-
do, ajudou a reduzir em 80% a ocorrência de abscessos
na propriedade. n
Ideia criativa ajuda a reduzir abscessos em 80%
Para evitar a
contaminação
dentro do isopor,
a seringa é
encaixada na
tampa da caixa.
Desse modo, a
vacina permanece
sempre resfriada,
mas sem contato
com gelo ou água.
corrigir eventuais erros. É fundamental qualificar o
vacinador, com critérios claros e objetivos”, afirma.
A condução dos animais também deve ser feita com
calma, sem correria ou gritos.
Dentro do curral, o produtor deve trabalhar
com lotes de, no máximo, 20 animais; nunca encha
o tronco coletivo a ponto de apertá-los. Nas man-
gas, devem ocupar no máximo metade do espaço
disponível. Outra recomendação é conduzir um a
um os animais até o tronco de contenção. Antes de
imobilizar o bovino em troncos que têm pescoceira,
é importante fechar a porteira dianteira e somente
depois baixar o dispositivo. A utilização da pesco-
ceira para parar os animais, além de machucá-los,
diminui a vida útil do tronco. Mais dicas importan-
tes sobre como proceder podem ser encontradas no
Manual “Boas Práticas de Manejo _ Vacinação”, do
Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Eco-
logia Animal (Etco), disponível para download gra-
tuitamente no site http://www.grupoetco.org.br. n
Agulha rombuda
é causa
de muitos
abscessos.”
Marcus
Rezende,
consultor
Saúde Animal
134 DBO agosto 2017

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  • 1. Saúde Animal 132 DBO agosto 2017 Higiene é a chave para evitar abscessos Conheça algumas medidas que ajudam a reduzir a formação de nódulos nos animais após a vacinação Renato Villela renato.villela@revistadbo.com.br G arantir a higiene no ato de vacinar é a me- dida mais eficaz para evitar a formação de abscessos, aqueles nódulos protuberantes que se caracterizam pela presença de pus, sinal de infecção normalmente provocada por sujeira (não confundir com os granulomas causados por vacina e que foram a causa do fechamento do mercado nor- te-americano à carne brasileira). A falta de higieni- zação adequada das agulhas é uma das principais responsáveis pelo o aparecimento de abscessos. Segundo o professor Iveraldo dos Santos Dutra, da Unesp de Araçatuba, SP, as agulhas devem primeiro ser limpas com água corrente e sabão; depois colo- cadas em água fervente, durante 15 minutos, para que se consiga uma boa desinfecção; secadas com papel toalha e guardadas em local limpo. Dutra de- saconselha o uso de iodo ou quaisquer outros de- sinfetantes com essa finalidade. “Trata-se de prática antiga, que deve ser abolida, pois não acrescenta nada”, afirma. O professor explica que o efeito bactericida dessas soluções tende a se perder à medida que aumenta a concentração de material orgânico nos recipientes onde as agulhas sujas são colocadas para assepsia. “Em vez de desinfetar, esse meio se transfor- ma numa fonte de contaminação, pois os pató- genos se desenvolvem nele”, diz. Como nem sempre é possível esterilizar as agu- lhas durante a vacinação, o ideal é que o produtor trabalhe com um jogo de peças, de acordo com o número de animais a serem vacinados. “Uma para cada dez animais é uma proporção excelente”, afirma Dutra. Para esse tipo de vacinação, recomendam-se agulhas com dimensões de 10 x 15 mm, 10 x 18 mm ou 15 x 15 mm. A via de administração subcutânea (embaixo da pele) é a mais comum na rotina das fa- zendas. O responsável pelo manejo deve se certifi- car de que a agulha seja nova e esteja com a ponta afiada e íntegra, pois, assim, ao retirá-la do animal após a aplicação da dose, o corte em bisel (em sen- tido “transversal”) se “fecha”, como se fosse uma tampa. “Se estiver cega ou rombuda, a agulha não corta, mas perfura a pele, abrindo uma porta para entrada de contaminantes e sujeiras, causa de mui- tos abscessos”, explica o consultor Marcus Rezende, com atuação na Região Norte do País. Deve-se evitar ainda o contato com o corpo da agulha. “Se os dedos estiverem sujos, a contaminação é levada para dentro do frasco e injetada no animal junto com o medica- mento”, adverte Dutra. Sensibilidade à temperatura Outro cuidado diz respeito à conservação da va- cina. Compostas por agentes que induzem a resposta imune no animal (bactérias, vírus atenuados ou ina- tivos), vacinas são sensíveis à luz, ao calor e ao frio extremo. Altas temperaturas, por exemplo, podem matar os vírus atenuados da vacina contra a bruce- lose, tornando-a inviável. O congelamento, por sua vez, é capaz de, mesmo por poucos segundos, estra- gar uma vacina antirrábica, já que altera a emulsão (mistura entre líquidos imiscíveis), separando seus componentes, o que compromete a resposta imune. Além disso, quando a vacina é congelada, os adju- vantes, substâncias utilizadas para aumentar a pro- dução de anticorpos, se desprendem dos antígenos aos quais estavam ligados. “Quando os adjuvantes Do jeito certo: Puxe a pele do pescoço e aplique a vacina em posição paralela à do corpo do animal. Desinfecção da agulha só com água quente” Iveraldo Dutra, da Unesp- Araçatuba, SP
  • 2. ficam livres, o risco de provocarem uma reação de hipersensibilidade cutânea (abscessos assépticos) é muito maior”, explica Enrico Ortolani, professor da FMVZ (Faculdade de Medicina Veterinária da USP.) Segundo Ortolani, é preciso ficar atento à regulagem da temperatura das ge- ladeiras na fazenda. As vacinas devem ser conservadas em temperatura entre 2 e 8 ºC. De nada adiantam todos esses cuidados com a higiene dos utensílios e a conservação da vacina se o manejo for feito de forma apres- sada, seja por despreparo ou por uma nociva compe- tição entre os vaqueiros para eleger “o mais rápido” da vacinação. “Às vezes o vaqueiro é muito confiante e vacina os animais com pressa, aí surgem os proble- mas”, diz Dutra. Na opinião do professor, convém o produtor fazer uma “vistoria” no rebanho dez dias após a vacinação, tempo suficiente para que eventuais reações à vacina se manifestem. “Daí tem que ave- riguar quem aplicou, como aplicou (a vacina), para O zootecnistaAdriano Páscoa, da BEAConsultoria e Treinamentos, de Jaboticabal, SP, teve uma óti- ma ideia para melhorar o manejo de vacinação e, de quebra, reduzir o número de abscessos causados por sujeira: fazer um furo na tampa de uma caixa de isopor para nela depositar a seringa de cabeça para baixo, man- tendo a vacina dentro do recipiente em temperatura ade- quada. A princípio a intenção era evitar danos à agulha quando o equipamento era colocado às pressas na caixa entre uma vacinação e outra. “Muitas vezes, a ponta da agulha batia no gelo e entortava”, conta Páscoa. Não demorou, porém, para que o zootecnista perce- besse que este não era o único problema ocorrido durante o processo de vacinação. “À medida que o gelo começa- va a derreter, devido ao abre e fecha da tampa, a água su- java por entrar em contato direto com o gatilho, parte da seringa que o vacinador segura.” Como é difícil manter as mãos limpas durante o manejo de vacinação, mesmo com o uso de luvas, Páscoa fez o furo na tampa de modo a deixar o gatilho do lado de fora e o cilindro dentro da caixa. “Assim, não corro o risco de entortar a agulha nem contaminar a seringa com sujidades”, afirma. Os frascos de vacina devem ficar em outro isopor. A ideia da tampa vazada _ posteriormente aperfei- çoada pelo zootecnista Helton Miranda, que colocou um anel de tecnil no furo para dar maior sustentação à seringa _ foi colocada em prática em 2013, na Fazenda São Luiz, em Paragominas, PA, que participa do Pro- jeto Pecuária Verde. Segundo Páscoa, esta e outras me- didas, como o uso do tronco de contenção individual, a troca de agulha a cada 10 animais e o manejo adequa- do, ajudou a reduzir em 80% a ocorrência de abscessos na propriedade. n Ideia criativa ajuda a reduzir abscessos em 80% Para evitar a contaminação dentro do isopor, a seringa é encaixada na tampa da caixa. Desse modo, a vacina permanece sempre resfriada, mas sem contato com gelo ou água. corrigir eventuais erros. É fundamental qualificar o vacinador, com critérios claros e objetivos”, afirma. A condução dos animais também deve ser feita com calma, sem correria ou gritos. Dentro do curral, o produtor deve trabalhar com lotes de, no máximo, 20 animais; nunca encha o tronco coletivo a ponto de apertá-los. Nas man- gas, devem ocupar no máximo metade do espaço disponível. Outra recomendação é conduzir um a um os animais até o tronco de contenção. Antes de imobilizar o bovino em troncos que têm pescoceira, é importante fechar a porteira dianteira e somente depois baixar o dispositivo. A utilização da pesco- ceira para parar os animais, além de machucá-los, diminui a vida útil do tronco. Mais dicas importan- tes sobre como proceder podem ser encontradas no Manual “Boas Práticas de Manejo _ Vacinação”, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Eco- logia Animal (Etco), disponível para download gra- tuitamente no site http://www.grupoetco.org.br. n Agulha rombuda é causa de muitos abscessos.” Marcus Rezende, consultor Saúde Animal 134 DBO agosto 2017