Internacional
84 DBO dezembro 2017
renato villela
de Modena, Itália
renato.villela@revistadbo.com.br
E
ndêmica no Brasil, a diarreia viral bovina,
mais conhecida por sua sigla, BVD, está am-
plamente disseminada no rebanho nacional.
Estima-se que de 70% a 80% dos animais com idade
acima de três anos possuam anticorpos contra o vírus
da BVD 1 e 2. A doença reduz a eficiência repro-
dutiva das fêmeas, mas também pode afetar animais
confinados, causando problemas respiratórios. Agora
o produtor poderá contar com uma nova arma para
combatê-la: está chegando ao País a primeira “vacina
viva” contra a BVD, fabricada a partir de vírus
vivos, porém atenuados, enquanto as demais
usam vírus ou fragmentos de vírus inativa-
dos. O fármaco promete prevenir a morte
embrionária, maior problema causado pela
BVD, e proteger o feto de modo mais efi-
ciente, reduzindo o risco de infecção intrau-
terina, responsável pelo nascimento de animais
“persistentemente infectados” ou PI, aqueles que
resistem à infecção durante o período de gestação,
mas nascem positivos para a doença, sendo respon-
sáveis pela manutenção do vírus circulante no plan-
tel.
DBO viajou à Itália a convite da fabricante Bo-
ehringer-Ingelheim para conhecer a tecnologia usada
na obtenção da nova vacina, que consumiu 17 anos
de estudos, e também visitar fazendas que já a utili-
zam em seus plantéis. Do tour técnico, batizado de
“Bovela Experience” em alusão ao nome comercial
do produto, participaram produtores rurais, donos de
revendas agropecuárias, cooperados, pesquisadores e
professores, além de profissionais de imprensa e técni-
cos da empresa, num total de 85 pessoas. Como todas
as vacinas vivas contendo vírus atenuados, a Bove-
la – que chega ao País em março de 2018 – promete
efeito imunogênico superior, em comparação com as
vacinas inativadas, por produzir mais anticorpos e in-
duzir imunidade celular mais sólida. Isso talvez sus-
cite uma dúvida: por que somente agora esse tipo de
vacina chega ao mercado nacional? A resposta está no
próprio patógeno causador da BVD que, mesmo ate-
nuado, mantém preservada sua capacidade de trans-
por a barreira placentária e atingir o feto, provocando
aborto. Diante do risco que esse tipo de vacina poderia
trazer às fêmeas em gestação, seu uso ainda não havia
sido autorizado no Brasil.
Para chegar a uma vacina que atingisse uma boa
titulação de anticorpos – referência do status de prote-
ção contra o vírus – sem causar esses efeitos colaterais,
pesquisadores da Boehringer desenvolveram uma bio-
tecnologia chamada L2D (live double deleted) ou “vivo
duplamente deletado”, em tradução livre. Num primeiro
momento, por meio do genoma do vírus, foi identificado
e retirado o gene responsável pela virulência, caracterís-
tica diretamente relacionada à manifestação de sinais clí-
nicos da doença. O problema estava parcialmente resol-
vido porque, embora a virulência tivesse sido eliminada,
o vírus continuava sendo capaz de provocar aborto. O
passo seguinte foi vasculhar o gene que, de modo seme-
lhante ao que acontece com o zika vírus na espécie hu-
mana, lhe conferia a capacidade de transpor a placenta e
causar estragos. “Encontramos esse gene e fizemos uma
dupla deleção, o que nos permitiu chegar a uma vacina
eficiente e segura”, informa Fernando Dambrós, gerente
de Marketing da linha de produtos para bovinos. A va-
cina a ser comercializada no Brasil será produzida pela
fábrica da Boehringer nos Estados Unidos. A empresa
não informou o valor da dose.
Experiência italiana
Com o objetivo de conhecer mais de perto a re-
alidade de uma fazenda na Itália e constatar os re-
sultados do uso da Bovela, que foi introduzida há
dois anos na Europa, a comitiva brasileira foi até a
Fazenda San Rocco, situada no pequeno município
Combate mais eficaz contra a BVD
Chega ao Brasil primeira “vacina viva” contra a Diarreia Viral Bovina,
que garante proteção mais efetiva das fêmeas prenhes.
Vacina já é usada há dois anos por pecuaristas italianos
EnricoChiavassa
Vacina eficiente
e segura”.
Fernando
Dambrós, da
Boehringer.
O que a infecção pode causar
Dias de gestação Consequências para o feto
Até 40 dias Morte embrionária
40 a 120 dias
Animal persistentemente
infectado (PI)
120 a 190 dias
Defeitos congênitos e
abortamento
Final da gestação
Produção de anticorpos
e eliminação viral (pode
haver comprometimento do
desenvolvimento corporal
Fonte: Instituto Biológico
de Monteveglio, na região conhecida como Emília-
-Romanha, na província de Bolonha. A propriedade
é especializada na produção do famoso Parmegiano-
-Reggiano, o verdadeiro queijo parmesão, com de-
nominação de origem controlada. Somente cinco
municípios da Planície do Rio do Pó, na região norte
da Itália, estão autorizados a fabricá-lo. Enquanto a
turma se deliciava experimentando os Parmeigiano-
-Reggiano de todas as idades – tinha de 12, 24 e 36
meses de maturação – ou a inesquecível (na opinião
deste repórter) Cattiota, um tipo de queijo fresco ita-
liano, Marcos Ablondi, consultor da Boehringer na
Itália, explicava o processo de funcionamento do
novo fármaco. A fazenda tem 380 vacas em lactação
e decidiu adotar um protocolo de vacinação contra
a BVD, que se constitui no principal problema re-
produtivo nos plantéis de gado leiteiro europeu. “Em
dois anos conseguimos reduzir as perdas embrioná-
rias de 24% para 13%”, afirmou Ablondi, que presta
assistência à propriedade.
A experiência do uso da vacina no gado de cor-
te foi apresentada por Enrico Chiavassa, renomado
veterinário italiano, que discorreu sobre a prevenção
da BVD na fábrica da Ferrari, em Maranello, local
escolhido para a apresentação oficial da Bovela aos
convidados brasileiros. Mostrando os números de um
rebanho de Piemontês, Chiavassa comparou o inter-
valo entre partos do plantel na safra 2014/2015, quan-
do as fêmeas não haviam sido vacinadas, com a safra
2016/2017, após o efeito da vacinação, realizada em
julho de 2015. O resultado foi a redução de 26 dias no
intervalo entre partos, que passou de 400 dias (13,3
meses) para 374 dias (12,4 meses). Para mostrar o
efeito disso sobre a eficiência reprodutiva do plantel,
o veterinário multiplicou as fêmeas do rebanho (157)
pelo número de dias que foram “economizados” entre
um parto e outro (26). O total (4.082 dias) foi dividido
pelo período de gestação (290 dias) e então se chegou
a um ganho de 14 bezerros a favor das fêmeas vacina-
das contra a BVD.
Para Chiavassa, tão importante quanto a melhora
no índice reprodutivo é a possibilidade de erradicar a
doença do plantel. “A vacinação impede o nascimento
de animais PI (persistentemente infectados),
que disseminam a doença para o restante do
rebanho”, disse o veterinário. A erradicação
da BVD está na pauta dos países com tradi-
ção pecuária na Europa, que já se livraram de
doenças importantes como a febre aftosa, a bru-
celose e a tuberculose.AItália tornou compulsória
a vacinação contra a BVD, assim como a Alemanha,
que instituiu a obrigatoriedade em 2011. Em seis anos,
este último país reduziu a prevalência de animais PI,
que são a principal fonte de disseminação da doença,
de 0,5% para 0,03%. Nas propriedades, o uso da vaci-
na aliada a outras medidas de controle, como a elimi-
nação de animais PI, reduziu a prevalência de 3,44%,
em 2011, para 0,16%, em 2016.
BVD abre caminho para outras doenças
Os problemas reprodutivos são a face mais visível
da BVD, que, junto com a IBR e a leptospirose,
constituem as três mais importantes doen-
ças reprodutivas, mas ela causa outros
danos, quase sempre imperceptíveis.
“O vírus causador da moléstia é imuno-
depressor, ou seja, tem a capacidade de
deprimir o sistema imunológico, abrindo
as portas para outras doenças, em especial as respi-
ratórias, principal problema sanitário em confinamen-
dezembro 2017 DBO 85
Aborto é um dos problemas causados pela doença
MaristelaPituco/IB-SP
Comitiva brasileira em visita a fazenda no norte da Itália
AltairAlbuquerque/TextoAssessoria
BVD abre portas
para outras
doenças”.
Amauri Alfieri,
da UEL
Itália
Modena
Roma
Internacional
86 DBO dezembro 2017
to”, afirma Amauri Alfieri, professor da Universidade
Estadual de Londrina (UEL). O professor explica que
o trato respiratório superior dos bovinos é habitado por
bactérias (microbiota), que “convivem” em harmonia
com o animal saudável. Quando o vírus da BVD en-
tra em ação, provoca um baque em seu sistema de
defesa. Imunodeprimido, o organismo baixa a
guarda. “As bactérias se aproveitam disso e se
multiplicam. Essa superpopulação desce para
o trato respiratório inferior, desencadeando
infecções secundárias, em especial a pneumo-
nia”, afirma.
Para Alfieri, um aspecto inerente à Bovela
pode favorecer seu uso em confinamentos no Bra-
sil. Enquanto para uma vacina inativada o tempo de
resposta imunológica varia de 15 a 20 dias, a produção
de anticorpos, numa vacina viva, começa no quinto
dia. “Isso pode fazer total diferença no manejo sani-
tário, uma vez que os problemas respiratórios no con-
finamento costumam ocorrer nos primeiros 15 dias”,
afirma, recomendando, porém, cautela. “Antes de va-
cinar os animais, o produtor deve fazer uma classifica-
ção de risco dos lotes que entrarão no confinamento.
Aqueles que viajam mais de 500 km, sem parada ou
que não são submetidos a uma dieta de adaptação, cer-
tamente podem ser classificados como de alto risco e
devem ser vacinados. O mesmo não acontece com os
criados na fazenda, adaptados ou que não percorreram
grandes distâncias”, alerta.  n
Convidada a ministrar uma palestra
durante o evento, a pesquisadora Ma-
ristela Pituco, do Instituto Biológico, de
São Paulo, SP, apresentou um panora-
ma da doença no Brasil e explicou por
que a prevalência no rebanho nacional
é alta. “Não temos programas de con-
trole coordenados pelas autoridades
sanitárias. As ações são voluntárias, de
produtores que tiveram prejuízo com a
doença”, explicou. Para a pesquisadora,
o que mais preocupa são os animais PI,
que apresentam essa condição quando a
­infecção de suas mães pelo vírus da BVD
se dá no intervalo entre o 40º e 120º dia
de gestação (veja quadro na página 85).
“Eles têm uma carga viral muito alta e
disseminam o vírus para todos os outros
animais susceptíveis do rebanho.”
Por ser um produto novo no mercado,
a vacina suscitou dúvidas nos participan-
tes e gerou discussões técnicas sobre a
BVD. Durante almoço servido na Acetaia
Terra del Tuono, estabelecimento familiar
especializado na produção de azeite bal-
sâmico (desde 1892), José Omero Dor-
nele, produtor e dono de uma revenda
agropecuária em Alegrete, RS, lançou à
mesa a seguinte questão. “Por que usar
uma vacina exclusivamente para a BVD
se há no mercado vacinas polivalentes,
que protegem também contra a IBR e
leptospirose?” Para Fernando Dambrós,
da Boehringer, a resposta está na garan-
tia de proteção superior conferida por
uma vacina viva. “A produção de anticor-
pos é maior, o que faz toda a diferença na
prevenção da doença, principalmente se
o desafio epidemiológico for alto.” Para
o veterinário Christian Guidarini, gerente
técnico global do produto, a Bovela não
se restringe à prevenção de problemas
reprodutivos. “Muitos produtores euro-
peus a estão usando no confinamento
para evitar doenças respiratórias”, disse.
Segundo ele, de 2015 para cá, a vaci-
na vendeu 6,3 milhões de doses, sendo
40% desse montante destinado ao gado
de corte.
Membro da comitiva brasileira, o pro-
fessor Amauri Alfieri, da UEL, questionou
sobre o posicionamento da vacina no
mercado nacional após a sessão plenária,
evento que encerrou o tour técnico e an-
tecedeu a visita ao museu de Enzo Ferrari,
para conhecer suas supermáquinas. En-
quanto a Bovela foi mostrada como uma
ferramenta importante para a erradicação
da doença, Alfieri acredita que o foco em
território brasileiro seja outro. “Nossos
rebanhos são grandes, o que torna a er-
radicação muito difícil. Acredito que a va-
cina deva ser usada de modo estratégico
para controle das doenças reprodutivas
e problemas respiratórios.” Segundo o
professor, as análises que chegam ao la-
boratório da UEL indicam, em alguns ca-
sos, taxas de sorologia positiva para BVD
acima de 80%, principalmente em vacas
multíparas, índice que deve ser levado em
conta na decisão de vacinar. “Se tiver um
rebanho de 1.000 vacas, considerando
que 80% delas sejam positivas para a do-
ença, não faz sentido vacinar todo o reba-
nho para proteger os 20% susceptíveis.”
Para Alfieri, o mais indicado é fazer uma
“fotografia epidemiológica” do rebanho
antes de vacinar. “Em muitos situações,
preconizei a vacinação somente das novi-
lhas e primíparas, que têm mais chances
de ainda não terem entrado em contato
com o vírus. Mas é preciso analisar caso
a caso. Cada rebanho tem sua particulari-
dade”, afirma.
Plenária técnica aqueceu
debate sobre a vacina
DBO viajou à Itália a convite da Boehringer-Ingelheim
Animal com secreção nasal denuncia
problema respiratório no confinamento
AmauriAlfieri/UEL
BVD tem
prevalência alta
no Brasil”.
Maristela
Pituco, do
Instituto Biológico

Bvd linkedin

  • 1.
    Internacional 84 DBO dezembro2017 renato villela de Modena, Itália renato.villela@revistadbo.com.br E ndêmica no Brasil, a diarreia viral bovina, mais conhecida por sua sigla, BVD, está am- plamente disseminada no rebanho nacional. Estima-se que de 70% a 80% dos animais com idade acima de três anos possuam anticorpos contra o vírus da BVD 1 e 2. A doença reduz a eficiência repro- dutiva das fêmeas, mas também pode afetar animais confinados, causando problemas respiratórios. Agora o produtor poderá contar com uma nova arma para combatê-la: está chegando ao País a primeira “vacina viva” contra a BVD, fabricada a partir de vírus vivos, porém atenuados, enquanto as demais usam vírus ou fragmentos de vírus inativa- dos. O fármaco promete prevenir a morte embrionária, maior problema causado pela BVD, e proteger o feto de modo mais efi- ciente, reduzindo o risco de infecção intrau- terina, responsável pelo nascimento de animais “persistentemente infectados” ou PI, aqueles que resistem à infecção durante o período de gestação, mas nascem positivos para a doença, sendo respon- sáveis pela manutenção do vírus circulante no plan- tel. DBO viajou à Itália a convite da fabricante Bo- ehringer-Ingelheim para conhecer a tecnologia usada na obtenção da nova vacina, que consumiu 17 anos de estudos, e também visitar fazendas que já a utili- zam em seus plantéis. Do tour técnico, batizado de “Bovela Experience” em alusão ao nome comercial do produto, participaram produtores rurais, donos de revendas agropecuárias, cooperados, pesquisadores e professores, além de profissionais de imprensa e técni- cos da empresa, num total de 85 pessoas. Como todas as vacinas vivas contendo vírus atenuados, a Bove- la – que chega ao País em março de 2018 – promete efeito imunogênico superior, em comparação com as vacinas inativadas, por produzir mais anticorpos e in- duzir imunidade celular mais sólida. Isso talvez sus- cite uma dúvida: por que somente agora esse tipo de vacina chega ao mercado nacional? A resposta está no próprio patógeno causador da BVD que, mesmo ate- nuado, mantém preservada sua capacidade de trans- por a barreira placentária e atingir o feto, provocando aborto. Diante do risco que esse tipo de vacina poderia trazer às fêmeas em gestação, seu uso ainda não havia sido autorizado no Brasil. Para chegar a uma vacina que atingisse uma boa titulação de anticorpos – referência do status de prote- ção contra o vírus – sem causar esses efeitos colaterais, pesquisadores da Boehringer desenvolveram uma bio- tecnologia chamada L2D (live double deleted) ou “vivo duplamente deletado”, em tradução livre. Num primeiro momento, por meio do genoma do vírus, foi identificado e retirado o gene responsável pela virulência, caracterís- tica diretamente relacionada à manifestação de sinais clí- nicos da doença. O problema estava parcialmente resol- vido porque, embora a virulência tivesse sido eliminada, o vírus continuava sendo capaz de provocar aborto. O passo seguinte foi vasculhar o gene que, de modo seme- lhante ao que acontece com o zika vírus na espécie hu- mana, lhe conferia a capacidade de transpor a placenta e causar estragos. “Encontramos esse gene e fizemos uma dupla deleção, o que nos permitiu chegar a uma vacina eficiente e segura”, informa Fernando Dambrós, gerente de Marketing da linha de produtos para bovinos. A va- cina a ser comercializada no Brasil será produzida pela fábrica da Boehringer nos Estados Unidos. A empresa não informou o valor da dose. Experiência italiana Com o objetivo de conhecer mais de perto a re- alidade de uma fazenda na Itália e constatar os re- sultados do uso da Bovela, que foi introduzida há dois anos na Europa, a comitiva brasileira foi até a Fazenda San Rocco, situada no pequeno município Combate mais eficaz contra a BVD Chega ao Brasil primeira “vacina viva” contra a Diarreia Viral Bovina, que garante proteção mais efetiva das fêmeas prenhes. Vacina já é usada há dois anos por pecuaristas italianos EnricoChiavassa Vacina eficiente e segura”. Fernando Dambrós, da Boehringer.
  • 2.
    O que ainfecção pode causar Dias de gestação Consequências para o feto Até 40 dias Morte embrionária 40 a 120 dias Animal persistentemente infectado (PI) 120 a 190 dias Defeitos congênitos e abortamento Final da gestação Produção de anticorpos e eliminação viral (pode haver comprometimento do desenvolvimento corporal Fonte: Instituto Biológico de Monteveglio, na região conhecida como Emília- -Romanha, na província de Bolonha. A propriedade é especializada na produção do famoso Parmegiano- -Reggiano, o verdadeiro queijo parmesão, com de- nominação de origem controlada. Somente cinco municípios da Planície do Rio do Pó, na região norte da Itália, estão autorizados a fabricá-lo. Enquanto a turma se deliciava experimentando os Parmeigiano- -Reggiano de todas as idades – tinha de 12, 24 e 36 meses de maturação – ou a inesquecível (na opinião deste repórter) Cattiota, um tipo de queijo fresco ita- liano, Marcos Ablondi, consultor da Boehringer na Itália, explicava o processo de funcionamento do novo fármaco. A fazenda tem 380 vacas em lactação e decidiu adotar um protocolo de vacinação contra a BVD, que se constitui no principal problema re- produtivo nos plantéis de gado leiteiro europeu. “Em dois anos conseguimos reduzir as perdas embrioná- rias de 24% para 13%”, afirmou Ablondi, que presta assistência à propriedade. A experiência do uso da vacina no gado de cor- te foi apresentada por Enrico Chiavassa, renomado veterinário italiano, que discorreu sobre a prevenção da BVD na fábrica da Ferrari, em Maranello, local escolhido para a apresentação oficial da Bovela aos convidados brasileiros. Mostrando os números de um rebanho de Piemontês, Chiavassa comparou o inter- valo entre partos do plantel na safra 2014/2015, quan- do as fêmeas não haviam sido vacinadas, com a safra 2016/2017, após o efeito da vacinação, realizada em julho de 2015. O resultado foi a redução de 26 dias no intervalo entre partos, que passou de 400 dias (13,3 meses) para 374 dias (12,4 meses). Para mostrar o efeito disso sobre a eficiência reprodutiva do plantel, o veterinário multiplicou as fêmeas do rebanho (157) pelo número de dias que foram “economizados” entre um parto e outro (26). O total (4.082 dias) foi dividido pelo período de gestação (290 dias) e então se chegou a um ganho de 14 bezerros a favor das fêmeas vacina- das contra a BVD. Para Chiavassa, tão importante quanto a melhora no índice reprodutivo é a possibilidade de erradicar a doença do plantel. “A vacinação impede o nascimento de animais PI (persistentemente infectados), que disseminam a doença para o restante do rebanho”, disse o veterinário. A erradicação da BVD está na pauta dos países com tradi- ção pecuária na Europa, que já se livraram de doenças importantes como a febre aftosa, a bru- celose e a tuberculose.AItália tornou compulsória a vacinação contra a BVD, assim como a Alemanha, que instituiu a obrigatoriedade em 2011. Em seis anos, este último país reduziu a prevalência de animais PI, que são a principal fonte de disseminação da doença, de 0,5% para 0,03%. Nas propriedades, o uso da vaci- na aliada a outras medidas de controle, como a elimi- nação de animais PI, reduziu a prevalência de 3,44%, em 2011, para 0,16%, em 2016. BVD abre caminho para outras doenças Os problemas reprodutivos são a face mais visível da BVD, que, junto com a IBR e a leptospirose, constituem as três mais importantes doen- ças reprodutivas, mas ela causa outros danos, quase sempre imperceptíveis. “O vírus causador da moléstia é imuno- depressor, ou seja, tem a capacidade de deprimir o sistema imunológico, abrindo as portas para outras doenças, em especial as respi- ratórias, principal problema sanitário em confinamen- dezembro 2017 DBO 85 Aborto é um dos problemas causados pela doença MaristelaPituco/IB-SP Comitiva brasileira em visita a fazenda no norte da Itália AltairAlbuquerque/TextoAssessoria BVD abre portas para outras doenças”. Amauri Alfieri, da UEL Itália Modena Roma
  • 3.
    Internacional 86 DBO dezembro2017 to”, afirma Amauri Alfieri, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O professor explica que o trato respiratório superior dos bovinos é habitado por bactérias (microbiota), que “convivem” em harmonia com o animal saudável. Quando o vírus da BVD en- tra em ação, provoca um baque em seu sistema de defesa. Imunodeprimido, o organismo baixa a guarda. “As bactérias se aproveitam disso e se multiplicam. Essa superpopulação desce para o trato respiratório inferior, desencadeando infecções secundárias, em especial a pneumo- nia”, afirma. Para Alfieri, um aspecto inerente à Bovela pode favorecer seu uso em confinamentos no Bra- sil. Enquanto para uma vacina inativada o tempo de resposta imunológica varia de 15 a 20 dias, a produção de anticorpos, numa vacina viva, começa no quinto dia. “Isso pode fazer total diferença no manejo sani- tário, uma vez que os problemas respiratórios no con- finamento costumam ocorrer nos primeiros 15 dias”, afirma, recomendando, porém, cautela. “Antes de va- cinar os animais, o produtor deve fazer uma classifica- ção de risco dos lotes que entrarão no confinamento. Aqueles que viajam mais de 500 km, sem parada ou que não são submetidos a uma dieta de adaptação, cer- tamente podem ser classificados como de alto risco e devem ser vacinados. O mesmo não acontece com os criados na fazenda, adaptados ou que não percorreram grandes distâncias”, alerta. n Convidada a ministrar uma palestra durante o evento, a pesquisadora Ma- ristela Pituco, do Instituto Biológico, de São Paulo, SP, apresentou um panora- ma da doença no Brasil e explicou por que a prevalência no rebanho nacional é alta. “Não temos programas de con- trole coordenados pelas autoridades sanitárias. As ações são voluntárias, de produtores que tiveram prejuízo com a doença”, explicou. Para a pesquisadora, o que mais preocupa são os animais PI, que apresentam essa condição quando a ­infecção de suas mães pelo vírus da BVD se dá no intervalo entre o 40º e 120º dia de gestação (veja quadro na página 85). “Eles têm uma carga viral muito alta e disseminam o vírus para todos os outros animais susceptíveis do rebanho.” Por ser um produto novo no mercado, a vacina suscitou dúvidas nos participan- tes e gerou discussões técnicas sobre a BVD. Durante almoço servido na Acetaia Terra del Tuono, estabelecimento familiar especializado na produção de azeite bal- sâmico (desde 1892), José Omero Dor- nele, produtor e dono de uma revenda agropecuária em Alegrete, RS, lançou à mesa a seguinte questão. “Por que usar uma vacina exclusivamente para a BVD se há no mercado vacinas polivalentes, que protegem também contra a IBR e leptospirose?” Para Fernando Dambrós, da Boehringer, a resposta está na garan- tia de proteção superior conferida por uma vacina viva. “A produção de anticor- pos é maior, o que faz toda a diferença na prevenção da doença, principalmente se o desafio epidemiológico for alto.” Para o veterinário Christian Guidarini, gerente técnico global do produto, a Bovela não se restringe à prevenção de problemas reprodutivos. “Muitos produtores euro- peus a estão usando no confinamento para evitar doenças respiratórias”, disse. Segundo ele, de 2015 para cá, a vaci- na vendeu 6,3 milhões de doses, sendo 40% desse montante destinado ao gado de corte. Membro da comitiva brasileira, o pro- fessor Amauri Alfieri, da UEL, questionou sobre o posicionamento da vacina no mercado nacional após a sessão plenária, evento que encerrou o tour técnico e an- tecedeu a visita ao museu de Enzo Ferrari, para conhecer suas supermáquinas. En- quanto a Bovela foi mostrada como uma ferramenta importante para a erradicação da doença, Alfieri acredita que o foco em território brasileiro seja outro. “Nossos rebanhos são grandes, o que torna a er- radicação muito difícil. Acredito que a va- cina deva ser usada de modo estratégico para controle das doenças reprodutivas e problemas respiratórios.” Segundo o professor, as análises que chegam ao la- boratório da UEL indicam, em alguns ca- sos, taxas de sorologia positiva para BVD acima de 80%, principalmente em vacas multíparas, índice que deve ser levado em conta na decisão de vacinar. “Se tiver um rebanho de 1.000 vacas, considerando que 80% delas sejam positivas para a do- ença, não faz sentido vacinar todo o reba- nho para proteger os 20% susceptíveis.” Para Alfieri, o mais indicado é fazer uma “fotografia epidemiológica” do rebanho antes de vacinar. “Em muitos situações, preconizei a vacinação somente das novi- lhas e primíparas, que têm mais chances de ainda não terem entrado em contato com o vírus. Mas é preciso analisar caso a caso. Cada rebanho tem sua particulari- dade”, afirma. Plenária técnica aqueceu debate sobre a vacina DBO viajou à Itália a convite da Boehringer-Ingelheim Animal com secreção nasal denuncia problema respiratório no confinamento AmauriAlfieri/UEL BVD tem prevalência alta no Brasil”. Maristela Pituco, do Instituto Biológico