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Cadeia em Pauta
Medicamento está entre possíveis causas de nódulos na carcaça que motivaram
suspensão da compra de carne in natura pelos Estados Unidos
Renato Villela
D
epois da Operação Carne Fraca e das delações
da JBS, o setor produtivo sofreu mais um golpe
difícil de assimilar. No dia 22 de junho, os Esta-
dos Unidos suspenderam as importações de carne in na-
tura do Brasil. O anúncio veio um dia depois de o Minis-
tério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa),
ter descredenciado preventivamente cinco das 13 plantas
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tarde. Desde março, quando a inspeção se tornou mais
rigorosa devido à Operação Carne Fraca, até a data do
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em 11% do total embarcado. Não há consenso dentro da
cadeia, entretanto, quanto à origem dos nódulos.AAsso-
ciação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne
(Abiec) afirma que eles são provocados por reações à
vacina contra a febre aftosa. O Sindicato Nacional da In-
dústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan) rebate,
dizendo que a causa não está no medicamento, mas em
erros na aplicação por parte do produtor.
Em meio a esse fogo cruzado, o Brasil vê sua ima-
gem novamente arranhada no cenário internacional,
desta vez diante de um cliente estratégico. Principal im-
portador de carne industrializada do País, e ainda pe-
queno comprador do produto in natura, os Estados Uni-
dos são porta de entrada para outros países do mercado
não-aftósico (México, Canadá, Coreia, Japão).Abriu-se
à carne in natura brasileira em junho de 2015, após 15
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nas 10 meses (setembro de 2016 a junho de 2017), pe-
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mardelli, presidente da Abiec. Em entrevista ao Portal
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ação causada por vacina em bovinos e auditar plantas
frigoríficas que exportam para os Estados Unidos, com
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Até o fechamento desta edição, estava previsto o envio
de uma missão técnica do Mapa aos Estados Unidos no
início de julho. Segundo Luís Eduardo Rangel, secretá-
rio de Defesa Agropecuária do Mapa, o Brasil terá de
fazer um esforço ainda maior para reverter o impasse
atual. “No caso da Operação Carne Fraca, o problema
não era sanitário. Mesmo assim, demoramos algumas
semanas para acalmar os compradores e reabrir os mer-
cados. Desta vez, temos uma questão técnica envolvida.
Pode demorar pouco mais de um mês”, disse o secretá-
rio, que espera resolver a questão até meados de agosto.
Sem consenso sobre as causas
Apesar de o ministro Blairo Magi ter solicitado a re-
alização de um estudo para investigar se as reações são
causadas pela vacina antiaftosa usada no Brasil, autori-
dades sanitárias do Mapa não atribuem o problema ex-
clusivamente ao medicamento. “Nos comunicaram pre-
sença na carne de esquírola óssea (fragmentos de osso),
coágulos e possíveis abscessos, o que indica diferentes
causas”, afirma Guilherme Marques, diretor do Depar-
Novo escândalo põe em xeque
vacina contra aftosa
32 DBO julho 2017
Mercado de vacina antiaftosa movimenta
R$ 470 milhões por ano.
Cadeia em Pauta
tamento de Saúde Animal. Camardelli, da Abiec é cate-
górico: “Pelas características das lesões, pelas fotogra-
fias anexadas ao documento que nos foi enviado, posso
afirmar que a origem do problema está 100% associada
a reações indesejáveis causadas por componentes
da vacina”. Para Emílio Salani, vice-presidente
do Sindan que reúne os principais fabricantes
de produtos veterinários do Brasil, não se pode
afirmar isso. “Primeiro atribuíram o problema
à vacina, depois à qualidade dos insumos usa-
dos. Sem uma avaliação de quais tipos de pató-
genos geraram granulomas e abcessos, fica muito
difícil afirmar que o problema foi com a vacina. Es-
tão querendo desacreditar um produto estéril, validado
pelo Ministério da Agricultura. Considero essa declara-
ções um desserviço”, disse o executivo à DBO.
Nota técnica nº 6/2017, emitida pelo Mapa no dia
30 de junho, descarta a possibilidade de os abcessos te-
rem sido causados pela vacina, mas não faz referência
a granulomas.
Falta consenso, inclusive, quanto à estratégia de
reabertura do mercado norte-americano. Enquan-
to se aguarda a redução da dose da vacina de
5 mL para 2 mL, prevista para maio de 2018,
o secretário Luiz Rangel propõe fatiar todos
os cortes de dianteiro antes do embarque para
mitigar riscos. Carmadelli considera essa me-
dida insuficiente. Segundo ele, as indústrias já
vinham fatiando as peças de dianteiro (onde re-
comenda-se a aplicação da vacina) desde novem-
bro, quando o Chile alertou o Brasil sobre problemas
similares aos identificados pelos norte-americanos.
“Existem abscessos de todos os tamanhos, pequenos,
médios e grandes. Mesmo cortando a carne em peda-
ços pequenos, não há como garantir que 100% dos nó-
dulos (muitos não visíveis) serão encontrados. As in-
dústrias perdem 1,2 t de carne por dia nesse processo”,
diz o presidente da Abiec.
Problema antigo
Queixas de efeitos adversos provocados pela vaci-
na antiaftosa não são novidade, como mostrou reporta-
gem de DBO na edição de agosto do ano passado, sob
o título “Reação vacinal: onde está o problema?”. Mas
antes de abordar suas causas, é preciso distinguir abs-
cessos de granulomas. Os primeiros, segundo o profes-
sor Enrico Ortolani, da Faculdade de Medicina Veteri-
nária e Zootecnia da USP, são salientes, moles e cheios
de pus, como mostra um vídeo supostamente feito por
um inspetor no frigorífico e que viralizou nas redes so-
ciais. “Esse tipo de problema normalmente está relacio-
nado à falta de higiene durante a vacinação e à ação
de bactérias” diz Ortolani. Já os granulomas são nódu-
los de consistência mais firme, com pouco ou nenhum
pus, decorrente de uma reação alérgica de cunho retar-
dado, que alguns animais apresentam à vacina. Segun-
do a Abiec, os norte-americanos teriam relatado princi-
palmente esse tipo de problema.
Especialistas ouvidos por DBO dizem que a ocor-
rência de granulomas aumentou depois que o Mapa al-
terou as regras do teste sorológico para avaliação da
potência da vacina, obrigatório para todas as partidas
fabricadas.Antes de 1995, os animais vacinados tinham
que apresentar, na sorologia, quantidade de anticorpos
indicativa de imunização adequada 90 dias após a apli-
cação. Depois dessa data, por orientação do Centro Pa-
namericano de Febre Aftosa (Panaftosa), a avaliação
passou a ser feita 28 dias após a vacinação. Para que o
organismo animal pudesse dar uma resposta imunoló-
gica semelhante em tempo tão curto, os fabricantes au-
mentaram tanto a quantidade de partículas virais quanto
de adjuvantes nas vacinas. “Adjuvantes são substâncias
utilizadas para aumentar a resposta imune do animal,
mas que podem provocar reações de hipersensibilidade
cutânea”, explica Ortolani
Um desses adjuvantes é a saponina, que, na presen-
ça de um veículo oleoso, é muito irritante. Amplamente
usado em vacinas aquosas, ela foi retirada das oleosas
justamente por isso, mas depois voltou a ser usada, prin-
cipalmente a partir de 2008. Coincidência ou não, os re-
latos de reação vacinal aumentaram desde então. “Como
algumas vacinas começaram a ser reprovadas nos testes
oficiais de sorologia, os fabricantes aumentaram a quan-
tidade de saponina no produto”, diz Sebastião Guedes,
vice-presidente Conselho Nacional de Pecuária de Corte,
que defende ou aumento no prazo do teste sorológico e a
proibição desse adjuvante. O Mapa diz que outras vaci-
nas, como a da raiva e das clostridioses, contêm saponina
e não provocam reações, mas, segundo fonte uma fonte
do mercado, isso acontece justamente porque elas con-
têm quantidade bem menor do adjuvante. Ortolani acre-
dita que a retirada do vírus “C” da composição da vacina
contra aftosa, decisão tomada na reunião da Comissão
Sul-Americana para a Luta contra a Febre Aftosa (Co-
salfa), em abril deste ano, deve minimizar o problema.
“Menos vírus significa menor quantidade de adjuvantes,
o que reduz o risco de reação vacinal”. n
34 DBO julho 2017
Camardelli,
da Abiec:
problema é a
vacina.
Salani, do
Sindan:
erro está na
aplicação.
Nódulos provocados por reação vacinal: perda
de 2,4 kg de carne, em média.

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  • 2. Cadeia em Pauta tamento de Saúde Animal. Camardelli, da Abiec é cate- górico: “Pelas características das lesões, pelas fotogra- fias anexadas ao documento que nos foi enviado, posso afirmar que a origem do problema está 100% associada a reações indesejáveis causadas por componentes da vacina”. Para Emílio Salani, vice-presidente do Sindan que reúne os principais fabricantes de produtos veterinários do Brasil, não se pode afirmar isso. “Primeiro atribuíram o problema à vacina, depois à qualidade dos insumos usa- dos. Sem uma avaliação de quais tipos de pató- genos geraram granulomas e abcessos, fica muito difícil afirmar que o problema foi com a vacina. Es- tão querendo desacreditar um produto estéril, validado pelo Ministério da Agricultura. Considero essa declara- ções um desserviço”, disse o executivo à DBO. Nota técnica nº 6/2017, emitida pelo Mapa no dia 30 de junho, descarta a possibilidade de os abcessos te- rem sido causados pela vacina, mas não faz referência a granulomas. Falta consenso, inclusive, quanto à estratégia de reabertura do mercado norte-americano. Enquan- to se aguarda a redução da dose da vacina de 5 mL para 2 mL, prevista para maio de 2018, o secretário Luiz Rangel propõe fatiar todos os cortes de dianteiro antes do embarque para mitigar riscos. Carmadelli considera essa me- dida insuficiente. Segundo ele, as indústrias já vinham fatiando as peças de dianteiro (onde re- comenda-se a aplicação da vacina) desde novem- bro, quando o Chile alertou o Brasil sobre problemas similares aos identificados pelos norte-americanos. “Existem abscessos de todos os tamanhos, pequenos, médios e grandes. Mesmo cortando a carne em peda- ços pequenos, não há como garantir que 100% dos nó- dulos (muitos não visíveis) serão encontrados. As in- dústrias perdem 1,2 t de carne por dia nesse processo”, diz o presidente da Abiec. Problema antigo Queixas de efeitos adversos provocados pela vaci- na antiaftosa não são novidade, como mostrou reporta- gem de DBO na edição de agosto do ano passado, sob o título “Reação vacinal: onde está o problema?”. Mas antes de abordar suas causas, é preciso distinguir abs- cessos de granulomas. Os primeiros, segundo o profes- sor Enrico Ortolani, da Faculdade de Medicina Veteri- nária e Zootecnia da USP, são salientes, moles e cheios de pus, como mostra um vídeo supostamente feito por um inspetor no frigorífico e que viralizou nas redes so- ciais. “Esse tipo de problema normalmente está relacio- nado à falta de higiene durante a vacinação e à ação de bactérias” diz Ortolani. Já os granulomas são nódu- los de consistência mais firme, com pouco ou nenhum pus, decorrente de uma reação alérgica de cunho retar- dado, que alguns animais apresentam à vacina. Segun- do a Abiec, os norte-americanos teriam relatado princi- palmente esse tipo de problema. Especialistas ouvidos por DBO dizem que a ocor- rência de granulomas aumentou depois que o Mapa al- terou as regras do teste sorológico para avaliação da potência da vacina, obrigatório para todas as partidas fabricadas.Antes de 1995, os animais vacinados tinham que apresentar, na sorologia, quantidade de anticorpos indicativa de imunização adequada 90 dias após a apli- cação. Depois dessa data, por orientação do Centro Pa- namericano de Febre Aftosa (Panaftosa), a avaliação passou a ser feita 28 dias após a vacinação. Para que o organismo animal pudesse dar uma resposta imunoló- gica semelhante em tempo tão curto, os fabricantes au- mentaram tanto a quantidade de partículas virais quanto de adjuvantes nas vacinas. “Adjuvantes são substâncias utilizadas para aumentar a resposta imune do animal, mas que podem provocar reações de hipersensibilidade cutânea”, explica Ortolani Um desses adjuvantes é a saponina, que, na presen- ça de um veículo oleoso, é muito irritante. Amplamente usado em vacinas aquosas, ela foi retirada das oleosas justamente por isso, mas depois voltou a ser usada, prin- cipalmente a partir de 2008. Coincidência ou não, os re- latos de reação vacinal aumentaram desde então. “Como algumas vacinas começaram a ser reprovadas nos testes oficiais de sorologia, os fabricantes aumentaram a quan- tidade de saponina no produto”, diz Sebastião Guedes, vice-presidente Conselho Nacional de Pecuária de Corte, que defende ou aumento no prazo do teste sorológico e a proibição desse adjuvante. O Mapa diz que outras vaci- nas, como a da raiva e das clostridioses, contêm saponina e não provocam reações, mas, segundo fonte uma fonte do mercado, isso acontece justamente porque elas con- têm quantidade bem menor do adjuvante. Ortolani acre- dita que a retirada do vírus “C” da composição da vacina contra aftosa, decisão tomada na reunião da Comissão Sul-Americana para a Luta contra a Febre Aftosa (Co- salfa), em abril deste ano, deve minimizar o problema. “Menos vírus significa menor quantidade de adjuvantes, o que reduz o risco de reação vacinal”. n 34 DBO julho 2017 Camardelli, da Abiec: problema é a vacina. Salani, do Sindan: erro está na aplicação. Nódulos provocados por reação vacinal: perda de 2,4 kg de carne, em média.