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100 DBO maio 2017
A
pós visitar 10 fazendas, em sete
Estados brasileiros, no ano pas-
sado, para descobrir como elas
conseguiram produzir carcaças classifica-
das como desejáveis pelo Programa Farol
da Qualidade da JBS, voltamos a publicar
mais uma série de reportagens do Proje-
to Feedback, desta vez com foco em ges-
tão, um dos gargalos da produtividade pe-
cuária no Brasil. Seremos acompanhados
nessa nova jornada por técnicos da Ter-
ra Desenvolvimento Agropecuário, com
sede em Maringá, PR, uma das principais
consultorias especializadas em gestão do
setor, com atuação em mais de 180 fazen-
das no Brasil e no Paraguai. Seu trabalho
é introduzir metodologias de coleta de da-
dos, planejamento e controle financeiro
nas propriedades rurais, para que o produ-
tor possa tomar decisões mais seguras, sa-
bendo onde está e onde quer chegar.
Para reinaugurar a série Feedback, es-
colhemos a Fazenda Primavera, de 2.000
ha, que fica em Nioaque, 200 km ao sul
de Campo Grande, MS, administrada
pelo jovem veterinário Gabriel Demun-
do de Emílio. Aos 22 anos, Gabriel per-
deu o pai e sua mãe decidiu repassar a
ele e à filha, Emanuele de Emilio, uma
parte da propriedade, que era sua por he-
rança paterna. À sucessão prematura (já
em si dramática), somaram-se as dificul-
dades do negócio pecuário, baseado na
cria. “Foi um momento difícil. Eu rece-
Maristela Franco | maristela@revistadbo.com.br
Na rota da
produtividade
bi a fazenda em 2010 e tive praticamen-
te de morar lá para me inteirar das condi-
ções de produção. Não sabia o que fazer,
nem como fazer para colocar as coisas
nos trilhos. A infraestrutura estava se de-
teriorando e não tínhamos capital para in-
vestir. Junto com as terras, vieram 240
vacas de cria. A rentabilidade era baixa
e enfrentávamos muitos problemas com
diarreia de bezerros. Decidi, então, ven-
der essas matrizes e fazer recria/engor-
da”, conta o jovem produtor.
A mudança infelizmente coincidiu
com o período de alta do bezerro, mas
Gabriel driblou essa reviravolta de mer-
cado ao trabalhar somente com engorda
de fêmeas (novilhas e vacas de descar-
te), que têm custo de reposição menor
e permanecem menos tempo na fazen-
da. Suas dúvidas em relação à lucrativi-
dade do negócio, entretanto, persistiam.
Foi nesse momento que ele assistiu a um
evento de divulgação de benchmarking
da Terra. “Vi aquele monte de números
e pensei: não tenho essas informações.
Qual é meu custo de produção? Como
fulano está ganhando esse monte de di-
nheiro? O que ele faz?”, relembra Ga-
briel, ressaltando ter sentido certa an-
gústia quando começou a coletar dados
sistematicamente na fazenda para ava-
liação de resultados. “Descobri que fa-
turávamos muito menos do que pensá-
vamos”, diz ele.
Gabriel Demundo de Emilio,
com suas novilhas 1/2 sangue Angus
Produtor do MS utiliza modernas
ferramentas de gestão para planejar a
produção e faturar mais
Localização:
Nioaque, MS
Área total:
2.000 ha
Área de pastagens:
1.500 ha, sendo 870 ha
explorados por Gabriel
e sua irmã
Engorda de fêmeas:
803 em 2016
Cassificação de carcaças:
59,63% de farol verde
DBO esteve na...
Fazenda Primavera
Nioaque
Campo Grande
Capítulo 1
A partir deste mês, abriremos
espaço para divulgação de exemplos
de produtores que estão usando
ferramentas simples e acessíveis para
controlar custos e medir resultados.
Envie seus comentários para o
e-mail: maristela@revistadbo.com.br,
e veja mais detalhes sobre o projeto no
Portal DBO www.portaldbo.com.br
maio 2017 DBO 101
Ponto de partida – Essa constatação
(difícil, mas transformadora) somente foi
possível graças ao diagnóstico zootécni-
co e financeiro da propriedade, feito na
safra 2014/2015, pelo consultor da Ter-
ra, Luciano Mota Braga. Após percorrer
toda a propriedade, levantar dados climá-
ticos locais (importantes para projeções
de lotação), vistoriar a infraestrutura,
compilar despesas e estimar a produção
de arrobas por hectare, Braga concluiu
que a fazenda poderia faturar bem mais.
E sugeriu começar com medidas sim-
ples, como a divisão das pastagens, que
eram antigas, mas não estavam superpas-
tejadas. “Caprichando no manejo e cons-
truindo cercas, ele já teria melhores re-
sultados”, diz Braga.
A evolução tem sido lenta, mas contí-
nua. Na safra 2014/2015, quando foi re-
alizado o diagnóstico, Gabriel produziu
5,18@/ha. Com as sugestões feitas por
Braga, já conseguiu aumentar esse índi-
ce em 25%, obtendo 6,48@/ha; neste ano,
deve ultrapassar 7@ e em 2019/20120, a
projeção é de 9,42@/ha, resultado já bem
próximo do patamar de 10@, considera-
do bom pela Terra. Na Fazenda Primave-
ra, a dificuldade de atingir esse patamar se
deve à falta de recursos para compra de
gado, um grande limitador da produção
pecuária. “É o capital para investimen-
to em infraestrutura, pastagens e animais
que determina a velocidade de evolução
das fazendas, mas o importante é avan-
çar”, explica Braga. No próximo ano, Ga-
briel pretende solicitar uma linha de crédi-
to para comprar mais fêmeas e aumentar
a lotação de 0,6-0,7 UA/ha para 1 UA/ha
em 2019/2020. “Com isso, quebraremos a
barreira da baixa produtividade”, diz ele.
Muitos pecuaristas no País permane-
cem, durante anos, em uma espécie de
“pântano do baixo rendimento”, de onde
não conseguem sair por falta de capital,
mas também por falta de uma “luz no
fim do túnel”. Segundo Luciano Braga,
é fundamental abrir-se para mudanças.
A Fazenda Esperança nada tem de dife-
rente, mas Gabriel Demundo de Emilio
sim. “Ele possui o perfil necessário para
avançar: é comprometido com o plane-
jamento da fazenda, tem olhar de longo
prazo, acredita que pode produzir mais e
quer atingir as metas estabelecidas. Isso
faz total diferença”, explica o consultor
da Terra. Na safra 2015/2016, Gabriel co-
mercializou 948 animais, dos quais 803
foram abatidos, sendo 626 novilhas, que
pesaram 392 kg (13,4@ limpas). Mais
importante do que esses números, porém,
é o resultado operacional da atividade,
que subiu de R$ 92,62/ha, em 2014/2015,
para R$ 297,87, em 2015/2016, devendo
chegar a R$ 732,79 até 2020.
Sistema de produção – A Fazenda
Primavera tem 1.500 ha de pastagens,
mas apenas 857 forem entregues a Ga-
briel e sua irmã. A área restante perten-
ce à mãe e é utilizada para engordar no-
vilhos trazidos de outra propriedade, a
Novilhas Nelore garantem média de 13,4@ limpas no abate
Evolução zootécnico-financeira da Fazenda Primavera
Indicadores
Safras de produção pecuária1
2014/15 2015/16 2016/17 2019/202
Lotação UA/ha 0,53 0,66 0,59 1,00
GMD/Cab 0,475 0,542 0,585 0,520
Produção @/ha 5,18 6,48 4,75 9,42
Desembolso R$ cab/mês 45,30 42,46 66,59 42,51
Desembolso/R$/@ 94,00 77,21 106,62 80,83
Margem/ Venda (%) 27,49 42,76 21,44 40,13
TIR (a.m) em % 0,20 2,09 1,33 1,50
Resultado R$/ha 92,62 297,87 166,63 732,79
1 Começa dia 1º de julho e termina dia 30 de junho; 2 meta. Fonte: Terra Desenvolvimento
40,37%
59,63%
Farol da Qualidade
Machos de até 6 dentes, 16 a
23@ e gordura 3 (mediana) ou 4
(uniforme).
Machos de até 8 dentes, 16 a 26@
e gordura 2 (escassa)
Animais com menos de 16
ou mais de 26@, até 8 dentes
e gordura 1 (ausente) ou 5
(excessiva)
FotosMaristelaFranco
102	 DBO maio 2017
Rancho Alegre, localizada no município
de Dois Irmãos do Buriti, MS. Embora
Gabriel gerencie todas as propriedades,
estamos focalizando apenas a gleba que
ele recebeu da mãe, onde tem feito expe-
riências interessantes, como a recria/en-
gorda de fêmeas, que lhe garante desfrute
de 62%, bem acima do patamar conside-
rado bom pela Terra (40%). Esse nicho
de mercado pode ser bem lucrativo, es-
pecialmente no MS, que tem programas
de premiação para fêmeas jovens, bem
acabadas, adquiridas a preço de macho,
quando atingem peso acima de 15@.
Na Fazenda Primavera, as bezerras
são adquiridas em vários momentos do
ano, mas com maior concentração no fi-
nal das águas. Quando DBO visitou a Fa-
zenda Esperança, na segunda quinzena
de abril, Gabriel estava em pleno esforço
de reposição. No ano passado, ele conse-
guiu comprar lotes com média de 214 kg;
neste ano, quer bater a meta de 230 kg, o
que reduz os custos de produção.	 D o
momento que chegam à propriedade até o
abate, as bezerras são suplementadas, ini-
cialmente com 1 g de proteinado por kg
de peso vivo e depois 4 a 5 g de proteico-
-energético, para garantir sua terminação.
Como esses produtos ficam armazenados
no campo, em grandes recipientes plás-
ticos (veja foto), basta um funcionário ir
até o local de moto, todos os dias, e distri-
bui-lo nos cochos. A taxa de mortalidade
geral é relativamente baixa, em torno de
1,2%, mas pode ser melhorado.
Todos os animais são pesados pelo
menos cinco vezes durante o processo
de recria/engorda: nos períodos de vaci-
nação contra a febre aftosa e outras três
ocasiões. Entre julho de 2016 e março
de 2017, o ganho médio de peso regis-
trado pela fazenda foi de 542 g/cab/dia,
desempenho acima da meta estabelecida
(450 g/cab/dia) e da média das fazendas
top mais rentáveis acompanhadas pela
Terra, que é de 438 g/cab/dia. Isso mos-
tra que o sistema de produção da fazenda
está ajustado, como ilustra o feedback do
frigorífico. Segundo relatório da unida-
de da JBS em Campo Grande, em 2017
a propriedade produziu apenas animais
classificados nos faróis verde (59,63%) e
amarelo (40,37%). Mais de 82% dessas
carcaças tinham gordura mediana (3 a 6
m de espessura) e 40,4% idade precoce
(zero dente).
Poder da integração – Com bom de-
sempenho individual e qualidade de car-
caça, o principal foco de Gabriel é real-
mente aumentar a lotação por hectare.
Esse item tem um peso enorme na ren-
tabilidade do produtor. Na tabela, é pos-
sível observar um aumento de 145% no
resultado operacional da fazenda, no
comparativo entre a safra de 2015/2016
e a projetada para 2019/2020, justamen-
te em função da lotação (que passará de
0,66 para 1 UA/ha), apenas investindo na
compra de mais animais e dando conti-
nuidade ao trabalho de “colheita” mais
eficiente da pastagem. “Já construímos
mais de 14 km de cercas para dividir pi-
quetes, fazemos pastejo alternado e esta-
mos montando módulos de rotacionado”,
informa o produtor.
Seu projeto, contudo, é ir além, che-
gando a 2 UA/ha. “Para isso, preciso tra-
Wilson Gonzales (o Tatu) é responsável por
fazer as anotações sobre o rebanho
Bezerras foram adquiridas com peso médio de 214 kg, mas meta é chegar a 230 kg.
balhar com integração lavoura-pecuária,
que garante forragem de qualidade na
seca e possibilita a reforma de pastagens,
com troca de cultivares, como a braquiá-
ria decumbens, por outras mais produti-
vas, a custo quase zero”, explica Gabriel.
Para viabilizar esse projeto, ele buscou
parceria com agricultores da região, mas,
como a Fazenda Primavera está em uma
região de baixa altitude, logo após a Ser-
ra de Maracaju, a produtividade da soja
é prejudicada. “Fizemos uma experiência
de dois anos, em 80 ha, recebendo como
pagamento o pasto de safrinha de piatã.
Para a pecuária foi excelente, mas a la-
voura ainda enfrenta desafios”, diz.
Além de dar continuidade ao proje-
to de integração, Gabriel quer engordar
maior número de animais com alto poten-
cial de ganho, como as novilhas Nelore-
-Angus. Hoje, essas fêmeas são o xodó
do veterinário, que comprou o primeiro
lote no ano passado e está entusiasmado
com seu desempenho. “Elas chegaram à
fazenda com 235 kg e vão ser abatidas
com 15-16@ aos 15-18 meses, pois têm
maior facilidade de acabamento e boa ge-
nética, já que são produto de inseminação
artificial em tempo fixo (IATF)”. Por oca-
sião de nossa visita, Gabriel havia arre-
matado mais um lote de cruzadas Angus
em leilão com 270 kg à desmama, 70 kg
a mais do que as Nelore à venda. A escala
de abate é feita por meio da Associação
Sul-matogrossense de Produtores de No-
vilho Precoce, do qual Gabriel faz parte.
Controle necessário – Todo o esforço
para aumentar a produtividade, entretan-
to, poderia se perder se o produtor não ti-
vesse como avaliar o impacto das medidas
tomadas. Na Fazenda Primavera, tudo é
controlado, a começar pelo rebanho. Nas-
cimentos, mortes, acidentes, compras e
vendas são anotados pelo encarregado da
fazenda, Wilson Gonzales (mais conheci-
do como Tatu) em um “livro” feito espe-
cialmente para isso. “Antes, eu fazia os
registros em uma cadernetinha de bolso,
mas alguma coisa sempre se perdia”, con-
ta Tatu. No final de cada mês, ele faz um
inventário do gado, que é lançado no com-
putador, em um software específico.
“Nosso controle financeiro, antes feito
em planilhas de Excell, melhorou muito.
Mesmo quando tínhamos informação, não
sabíamos como analisá-la direito. Agora,
recebemos relatórios mensais com tudo
detalhado e faróis de alerta (previsto x re-
alizado). Isso dá maior segurança às de-
cisões”, explica Gabriel, que trabalha em
cima de um planejamento anual, feito em
junho, antes do início da safra, que come-
ça dia 1º de julho. Esse planejamento é
rediscutido a cada três meses, para even-
tuais revisões de metas e ações previs-
tas. “Colocaram a gente na estrada, com
GPS na mão. Agora sabemos que riscos
e potenciais resultados nos aguardam em
cada direção, ganhamos segurança”, diz
o produtor, repetindo uma frase já famo-
sa deAntônio Chacker, diretor do Inttegra:
“Quem planta acho, colhe quase”.
A Fazenda Primavera também faz
controle do parque de máquinas e ma-
nutenção preventiva. Gastos com equi-
pamentos usados não podem ultrapassar
10% do valor dos novos. O grau de utili-
zação também é importante, pois impac-
ta o custo da arroba produzida. A fazenda
possui um “plano de contas”, subdividi-
do em subcentros (mão-de-obra, nutri-
ção, máquinas, agricultura etc), que de-
talha todos os desembolsos por cabeça/
mês: custeio, mais investimentos rela-
tivos à produção, fora compra de gado,
item discriminado à parte. “O plano de
contas mostra onde está seu calo, onde é
que dói no bolso. Trata-se de uma ferra-
menta muito legal para identificar proble-
mas. Descobrimos, por exemplo, que tí-
nhamos um custo de administração alto
e corrigimos isso”, relata Gabriel, refor-
çando que as ferramentas modernas de
gestão facilitam, inclusive, a comunica-
ção dentro da família. “Agora ficou mais
fácil mostrar a minha mãe e minha irmã
o que produzimos, gastamos e ganhamos.
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FeedBack - Gestão / Na rota da produtividade

  • 1. 100 DBO maio 2017 A pós visitar 10 fazendas, em sete Estados brasileiros, no ano pas- sado, para descobrir como elas conseguiram produzir carcaças classifica- das como desejáveis pelo Programa Farol da Qualidade da JBS, voltamos a publicar mais uma série de reportagens do Proje- to Feedback, desta vez com foco em ges- tão, um dos gargalos da produtividade pe- cuária no Brasil. Seremos acompanhados nessa nova jornada por técnicos da Ter- ra Desenvolvimento Agropecuário, com sede em Maringá, PR, uma das principais consultorias especializadas em gestão do setor, com atuação em mais de 180 fazen- das no Brasil e no Paraguai. Seu trabalho é introduzir metodologias de coleta de da- dos, planejamento e controle financeiro nas propriedades rurais, para que o produ- tor possa tomar decisões mais seguras, sa- bendo onde está e onde quer chegar. Para reinaugurar a série Feedback, es- colhemos a Fazenda Primavera, de 2.000 ha, que fica em Nioaque, 200 km ao sul de Campo Grande, MS, administrada pelo jovem veterinário Gabriel Demun- do de Emílio. Aos 22 anos, Gabriel per- deu o pai e sua mãe decidiu repassar a ele e à filha, Emanuele de Emilio, uma parte da propriedade, que era sua por he- rança paterna. À sucessão prematura (já em si dramática), somaram-se as dificul- dades do negócio pecuário, baseado na cria. “Foi um momento difícil. Eu rece- Maristela Franco | maristela@revistadbo.com.br Na rota da produtividade bi a fazenda em 2010 e tive praticamen- te de morar lá para me inteirar das condi- ções de produção. Não sabia o que fazer, nem como fazer para colocar as coisas nos trilhos. A infraestrutura estava se de- teriorando e não tínhamos capital para in- vestir. Junto com as terras, vieram 240 vacas de cria. A rentabilidade era baixa e enfrentávamos muitos problemas com diarreia de bezerros. Decidi, então, ven- der essas matrizes e fazer recria/engor- da”, conta o jovem produtor. A mudança infelizmente coincidiu com o período de alta do bezerro, mas Gabriel driblou essa reviravolta de mer- cado ao trabalhar somente com engorda de fêmeas (novilhas e vacas de descar- te), que têm custo de reposição menor e permanecem menos tempo na fazen- da. Suas dúvidas em relação à lucrativi- dade do negócio, entretanto, persistiam. Foi nesse momento que ele assistiu a um evento de divulgação de benchmarking da Terra. “Vi aquele monte de números e pensei: não tenho essas informações. Qual é meu custo de produção? Como fulano está ganhando esse monte de di- nheiro? O que ele faz?”, relembra Ga- briel, ressaltando ter sentido certa an- gústia quando começou a coletar dados sistematicamente na fazenda para ava- liação de resultados. “Descobri que fa- turávamos muito menos do que pensá- vamos”, diz ele. Gabriel Demundo de Emilio, com suas novilhas 1/2 sangue Angus Produtor do MS utiliza modernas ferramentas de gestão para planejar a produção e faturar mais Localização: Nioaque, MS Área total: 2.000 ha Área de pastagens: 1.500 ha, sendo 870 ha explorados por Gabriel e sua irmã Engorda de fêmeas: 803 em 2016 Cassificação de carcaças: 59,63% de farol verde DBO esteve na... Fazenda Primavera Nioaque Campo Grande
  • 2. Capítulo 1 A partir deste mês, abriremos espaço para divulgação de exemplos de produtores que estão usando ferramentas simples e acessíveis para controlar custos e medir resultados. Envie seus comentários para o e-mail: maristela@revistadbo.com.br, e veja mais detalhes sobre o projeto no Portal DBO www.portaldbo.com.br maio 2017 DBO 101 Ponto de partida – Essa constatação (difícil, mas transformadora) somente foi possível graças ao diagnóstico zootécni- co e financeiro da propriedade, feito na safra 2014/2015, pelo consultor da Ter- ra, Luciano Mota Braga. Após percorrer toda a propriedade, levantar dados climá- ticos locais (importantes para projeções de lotação), vistoriar a infraestrutura, compilar despesas e estimar a produção de arrobas por hectare, Braga concluiu que a fazenda poderia faturar bem mais. E sugeriu começar com medidas sim- ples, como a divisão das pastagens, que eram antigas, mas não estavam superpas- tejadas. “Caprichando no manejo e cons- truindo cercas, ele já teria melhores re- sultados”, diz Braga. A evolução tem sido lenta, mas contí- nua. Na safra 2014/2015, quando foi re- alizado o diagnóstico, Gabriel produziu 5,18@/ha. Com as sugestões feitas por Braga, já conseguiu aumentar esse índi- ce em 25%, obtendo 6,48@/ha; neste ano, deve ultrapassar 7@ e em 2019/20120, a projeção é de 9,42@/ha, resultado já bem próximo do patamar de 10@, considera- do bom pela Terra. Na Fazenda Primave- ra, a dificuldade de atingir esse patamar se deve à falta de recursos para compra de gado, um grande limitador da produção pecuária. “É o capital para investimen- to em infraestrutura, pastagens e animais que determina a velocidade de evolução das fazendas, mas o importante é avan- çar”, explica Braga. No próximo ano, Ga- briel pretende solicitar uma linha de crédi- to para comprar mais fêmeas e aumentar a lotação de 0,6-0,7 UA/ha para 1 UA/ha em 2019/2020. “Com isso, quebraremos a barreira da baixa produtividade”, diz ele. Muitos pecuaristas no País permane- cem, durante anos, em uma espécie de “pântano do baixo rendimento”, de onde não conseguem sair por falta de capital, mas também por falta de uma “luz no fim do túnel”. Segundo Luciano Braga, é fundamental abrir-se para mudanças. A Fazenda Esperança nada tem de dife- rente, mas Gabriel Demundo de Emilio sim. “Ele possui o perfil necessário para avançar: é comprometido com o plane- jamento da fazenda, tem olhar de longo prazo, acredita que pode produzir mais e quer atingir as metas estabelecidas. Isso faz total diferença”, explica o consultor da Terra. Na safra 2015/2016, Gabriel co- mercializou 948 animais, dos quais 803 foram abatidos, sendo 626 novilhas, que pesaram 392 kg (13,4@ limpas). Mais importante do que esses números, porém, é o resultado operacional da atividade, que subiu de R$ 92,62/ha, em 2014/2015, para R$ 297,87, em 2015/2016, devendo chegar a R$ 732,79 até 2020. Sistema de produção – A Fazenda Primavera tem 1.500 ha de pastagens, mas apenas 857 forem entregues a Ga- briel e sua irmã. A área restante perten- ce à mãe e é utilizada para engordar no- vilhos trazidos de outra propriedade, a Novilhas Nelore garantem média de 13,4@ limpas no abate Evolução zootécnico-financeira da Fazenda Primavera Indicadores Safras de produção pecuária1 2014/15 2015/16 2016/17 2019/202 Lotação UA/ha 0,53 0,66 0,59 1,00 GMD/Cab 0,475 0,542 0,585 0,520 Produção @/ha 5,18 6,48 4,75 9,42 Desembolso R$ cab/mês 45,30 42,46 66,59 42,51 Desembolso/R$/@ 94,00 77,21 106,62 80,83 Margem/ Venda (%) 27,49 42,76 21,44 40,13 TIR (a.m) em % 0,20 2,09 1,33 1,50 Resultado R$/ha 92,62 297,87 166,63 732,79 1 Começa dia 1º de julho e termina dia 30 de junho; 2 meta. Fonte: Terra Desenvolvimento 40,37% 59,63% Farol da Qualidade Machos de até 6 dentes, 16 a 23@ e gordura 3 (mediana) ou 4 (uniforme). Machos de até 8 dentes, 16 a 26@ e gordura 2 (escassa) Animais com menos de 16 ou mais de 26@, até 8 dentes e gordura 1 (ausente) ou 5 (excessiva) FotosMaristelaFranco
  • 3. 102 DBO maio 2017 Rancho Alegre, localizada no município de Dois Irmãos do Buriti, MS. Embora Gabriel gerencie todas as propriedades, estamos focalizando apenas a gleba que ele recebeu da mãe, onde tem feito expe- riências interessantes, como a recria/en- gorda de fêmeas, que lhe garante desfrute de 62%, bem acima do patamar conside- rado bom pela Terra (40%). Esse nicho de mercado pode ser bem lucrativo, es- pecialmente no MS, que tem programas de premiação para fêmeas jovens, bem acabadas, adquiridas a preço de macho, quando atingem peso acima de 15@. Na Fazenda Primavera, as bezerras são adquiridas em vários momentos do ano, mas com maior concentração no fi- nal das águas. Quando DBO visitou a Fa- zenda Esperança, na segunda quinzena de abril, Gabriel estava em pleno esforço de reposição. No ano passado, ele conse- guiu comprar lotes com média de 214 kg; neste ano, quer bater a meta de 230 kg, o que reduz os custos de produção. D o momento que chegam à propriedade até o abate, as bezerras são suplementadas, ini- cialmente com 1 g de proteinado por kg de peso vivo e depois 4 a 5 g de proteico- -energético, para garantir sua terminação. Como esses produtos ficam armazenados no campo, em grandes recipientes plás- ticos (veja foto), basta um funcionário ir até o local de moto, todos os dias, e distri- bui-lo nos cochos. A taxa de mortalidade geral é relativamente baixa, em torno de 1,2%, mas pode ser melhorado. Todos os animais são pesados pelo menos cinco vezes durante o processo de recria/engorda: nos períodos de vaci- nação contra a febre aftosa e outras três ocasiões. Entre julho de 2016 e março de 2017, o ganho médio de peso regis- trado pela fazenda foi de 542 g/cab/dia, desempenho acima da meta estabelecida (450 g/cab/dia) e da média das fazendas top mais rentáveis acompanhadas pela Terra, que é de 438 g/cab/dia. Isso mos- tra que o sistema de produção da fazenda está ajustado, como ilustra o feedback do frigorífico. Segundo relatório da unida- de da JBS em Campo Grande, em 2017 a propriedade produziu apenas animais classificados nos faróis verde (59,63%) e amarelo (40,37%). Mais de 82% dessas carcaças tinham gordura mediana (3 a 6 m de espessura) e 40,4% idade precoce (zero dente). Poder da integração – Com bom de- sempenho individual e qualidade de car- caça, o principal foco de Gabriel é real- mente aumentar a lotação por hectare. Esse item tem um peso enorme na ren- tabilidade do produtor. Na tabela, é pos- sível observar um aumento de 145% no resultado operacional da fazenda, no comparativo entre a safra de 2015/2016 e a projetada para 2019/2020, justamen- te em função da lotação (que passará de 0,66 para 1 UA/ha), apenas investindo na compra de mais animais e dando conti- nuidade ao trabalho de “colheita” mais eficiente da pastagem. “Já construímos mais de 14 km de cercas para dividir pi- quetes, fazemos pastejo alternado e esta- mos montando módulos de rotacionado”, informa o produtor. Seu projeto, contudo, é ir além, che- gando a 2 UA/ha. “Para isso, preciso tra- Wilson Gonzales (o Tatu) é responsável por fazer as anotações sobre o rebanho Bezerras foram adquiridas com peso médio de 214 kg, mas meta é chegar a 230 kg.
  • 4. balhar com integração lavoura-pecuária, que garante forragem de qualidade na seca e possibilita a reforma de pastagens, com troca de cultivares, como a braquiá- ria decumbens, por outras mais produti- vas, a custo quase zero”, explica Gabriel. Para viabilizar esse projeto, ele buscou parceria com agricultores da região, mas, como a Fazenda Primavera está em uma região de baixa altitude, logo após a Ser- ra de Maracaju, a produtividade da soja é prejudicada. “Fizemos uma experiência de dois anos, em 80 ha, recebendo como pagamento o pasto de safrinha de piatã. Para a pecuária foi excelente, mas a la- voura ainda enfrenta desafios”, diz. Além de dar continuidade ao proje- to de integração, Gabriel quer engordar maior número de animais com alto poten- cial de ganho, como as novilhas Nelore- -Angus. Hoje, essas fêmeas são o xodó do veterinário, que comprou o primeiro lote no ano passado e está entusiasmado com seu desempenho. “Elas chegaram à fazenda com 235 kg e vão ser abatidas com 15-16@ aos 15-18 meses, pois têm maior facilidade de acabamento e boa ge- nética, já que são produto de inseminação artificial em tempo fixo (IATF)”. Por oca- sião de nossa visita, Gabriel havia arre- matado mais um lote de cruzadas Angus em leilão com 270 kg à desmama, 70 kg a mais do que as Nelore à venda. A escala de abate é feita por meio da Associação Sul-matogrossense de Produtores de No- vilho Precoce, do qual Gabriel faz parte. Controle necessário – Todo o esforço para aumentar a produtividade, entretan- to, poderia se perder se o produtor não ti- vesse como avaliar o impacto das medidas tomadas. Na Fazenda Primavera, tudo é controlado, a começar pelo rebanho. Nas- cimentos, mortes, acidentes, compras e vendas são anotados pelo encarregado da fazenda, Wilson Gonzales (mais conheci- do como Tatu) em um “livro” feito espe- cialmente para isso. “Antes, eu fazia os registros em uma cadernetinha de bolso, mas alguma coisa sempre se perdia”, con- ta Tatu. No final de cada mês, ele faz um inventário do gado, que é lançado no com- putador, em um software específico. “Nosso controle financeiro, antes feito em planilhas de Excell, melhorou muito. Mesmo quando tínhamos informação, não sabíamos como analisá-la direito. Agora, recebemos relatórios mensais com tudo detalhado e faróis de alerta (previsto x re- alizado). Isso dá maior segurança às de- cisões”, explica Gabriel, que trabalha em cima de um planejamento anual, feito em junho, antes do início da safra, que come- ça dia 1º de julho. Esse planejamento é rediscutido a cada três meses, para even- tuais revisões de metas e ações previs- tas. “Colocaram a gente na estrada, com GPS na mão. Agora sabemos que riscos e potenciais resultados nos aguardam em cada direção, ganhamos segurança”, diz o produtor, repetindo uma frase já famo- sa deAntônio Chacker, diretor do Inttegra: “Quem planta acho, colhe quase”. A Fazenda Primavera também faz controle do parque de máquinas e ma- nutenção preventiva. Gastos com equi- pamentos usados não podem ultrapassar 10% do valor dos novos. O grau de utili- zação também é importante, pois impac- ta o custo da arroba produzida. A fazenda possui um “plano de contas”, subdividi- do em subcentros (mão-de-obra, nutri- ção, máquinas, agricultura etc), que de- talha todos os desembolsos por cabeça/ mês: custeio, mais investimentos rela- tivos à produção, fora compra de gado, item discriminado à parte. “O plano de contas mostra onde está seu calo, onde é que dói no bolso. Trata-se de uma ferra- menta muito legal para identificar proble- mas. Descobrimos, por exemplo, que tí- nhamos um custo de administração alto e corrigimos isso”, relata Gabriel, refor- çando que as ferramentas modernas de gestão facilitam, inclusive, a comunica- ção dentro da família. “Agora ficou mais fácil mostrar a minha mãe e minha irmã o que produzimos, gastamos e ganhamos. O número se torna acessível”, comemora. Realização oferecimento iniciativa Animais são suplementados tanto na seca quanto nas águas Recipiente plástico para armazenagem de proteinado no campo