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46 • Público • Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2018
já os desígnios da modernidade europeia
vislumbravam sinais emancipatórios de uma
hipotética revolução social: primeiro, sob
influência do liberalismo, em que às classes
trabalhadoras se oferecia a utopia de que se
poderiam libertar dos grilhões da pobreza
através do empreendedorismo individual,
à imagem de um Eldorado oriundo do
continente americano. Numa primeira fase
da modernidade, a emancipação dos pobres
na Europa, curiosamente, encontrou na
Revolução Americana o maior exemplo de
prosperidade. Exemplo esse que ofereceu
aos clássicos da economia europeia (como
John Locke e Adam Smith) o argumento
para afirmarem a importância do labor e
do trabalho duro
como via para o
enriquecimento
individual e
já não apenas
como sinónimo
de exploração.
Mas, apesar da
permeabilidade do
exemplo americano
nos meios filosóficos
do Velho Continente,
as novas rebeliões
das massas
trabalhadoras e os
seus movimentos
ignoraram essa via.
Ao longo do século
XIX surgiriam novas
correntes ideológicas
e lutas sociais,
muitas delas já sob
ElísioEstanque
O outro lado da Revolução (II)
S
e a atenção dedicada à
Revolução Russa por ocasião
do seu primeiro centenário
foi uma oportunidade para a
reinterpretação desse legado,
o mesmo poderá vir a ocorrer
este ano, a propósito do
cinquentenário do Maio de 68 ou
até do próximo aniversário do 25
de Abril de 1974, temas em que,
evidentemente, a ideia de revolução pode, na
sua polissemia, adequar-se a novas análises
e reflexões. E, por isso, serão certamente em
breve objeto de análise.
Dando sequência a um texto anterior,
pretendo agora explorar o próprio conceito
de “revolução” e o seu significado ao
longo dos tempos. Nos seus primórdios
mais longínquos, a noção de mutatio
rerum (‘mudar as coisas’) abriu caminho
ao pensamento lógico sobre a mudança
social e o seu ritmo. Nos tempos do império
romano e de guerra civil da pólis grega
tornou-se conhecida a noção platónica
de transmutação, ou seja, como explicou
Hannah Arendt (On Revolution, 1963), a
passagem de uma forma de governo a outra.
Na sua origem latina, a palavra — revolutìo
ónis — significa uma transformação rápida
da sociedade ou viragem abrupta no poder
político. A mudança política e a violência
que lhe é muitas vezes inerente já eram
características conhecidas na Antiguidade,
mas nem uma nem outra eram associadas
ao surgimento de algo inteiramente novo.
Aristóteles e Platão referiam-se à importância
da “motivação económica” como justificação
para o derrube de governos ou pelos ricos
para instaurar oligarquias ou pelos pobres
para instaurar democracias. Já naquela época
os letrados sabiam que, por regra, os tiranos
acedem ao poder com o apoio da plebe e que
a melhor forma de o preservar é prometer
aos pobres a igualdades de condições. Mas
é só na era moderna que a “questão social”
entra verdadeiramente em cena, e é então —
quando a pobreza deixa de ser considerada
inerente à condição humana — que a
clivagem ricos/pobres emerge como principal
fonte de injustiça, suscitando a denúncia de
setores crescentes da população, em especial
aqueles que estavam condenados à miséria.
Mesmo antes do triunfo da Revolução
Francesa e da difusão em larga escala das
promessas progressistas do Iluminismo,
a influência do marxismo e, a partir das
primeiras décadas do século XX, animadas
também pela vitória dos bolcheviques de
1917. Os protestos operários de Chicago
em 1 de Maio de 1886 tiveram o efeito de
contágio que atravessou o Atlântico com
as primeiras lutas operárias da indústria
moderna dos EUA, marcadas pela violência.
Todavia, como é sabido, o vírus do 1.º de
Maio enquanto momento de revolta do
trabalho contra o capital propagou-se, não
nos EUA mas na velha Europa. Entretanto,
os impactos da Revolução Industrial inglesa
abriam caminho a um forte movimento
operário e sindical, dando expressão política
às principais correntes revolucionárias. Com
as ideologias da época a digladiarem-se entre
si, reforma ou revolução, social-democracia,
assistencialismo, anarquismo, socialismo
utópico ou comunismo forneceram ao
operariado industrial europeu toda uma
panóplia de referenciais de mudança radical.
Mas, à luz das teorias que a inspiraram, a
“Revolução proletária” acabou por acontecer
no lugar “errado”, enquanto o capitalismo
ocidental começava a ceder e a adaptar-se
aos clamores populares por justiça social e
democracia.
Uma explosão só ocorre quando não
existem válvulas de escape, ou seja, o
pluralismo político e a institucionalização
do conflito na Europa do pós-guerra
permitiram substituir as rebeliões de
massas por mudanças reformistas, muito
embora se possa concluir que sem o
impulso dos movimentos revolucionários
os programas sociais-democratas, o
keynesianismo e muitas das conquistas
Emsuma,éa
urgênciada
emancipação
queabre
caminhoà
revolução
civilizacionais que hoje conhecemos não
teriam sido alcançadas. Uma liderança
carismática e um bom discurso demagogo
podem sempre ser decisivos. Todavia, a
revolução é sobretudo fruto de condições de
urgência e crescentes descontentamentos
coletivos; não principalmente resultado do
trabalho organizativo de “revolucionários
profissionais” ou de uma qualquer
“vanguarda”. Em que condições pode então
ocorrer uma revolução? Historiadores e
cientistas sociais — como Theda Skocpol
(States and Social Revolutions, 1979), entre
outros — reportam-se à Revolução como
um processo em que se conjugam diversas
revoltas populares, incluindo conflitos
de interesses envolvendo o Estado, as
elites e as classes trabalhadoras e que tem
como resultado uma alteração profunda
das estruturas de classe e da sociedade. A
revolução só pode triunfar, afirmou Lenine,
quando os de baixo não querem e os de cima
não podem continuar a viver como dantes. Na
definição de Charles Tilly (From Mobilization
to Revolution, 1978), há três condições para
se poder falar de revoluções: (1) quando
existem claras discrepâncias entre o que os
governos exigem dos seus cidadãos mais bem
organizados e a sua capacidade para fazê-los
cumprir; (2) quando os governos impõem
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coletivas ou violam direitos associados a essas
identidades; e (3) quando o poder da elite
dominante visivelmente diminui em relação à
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Um conhecido sociólogo francês que
se celebrizou pelos muitos estudos sobre
movimentos sociais (Alain Touraine)
afirmou que o poder transformador de uma
revolução nunca se traduziu na substituição
das classes dominantes pelas dominadas,
antes abriu espaço a uma mudança na
estrutura de classes, na qual, não raramente,
se transformou antigos revolucionários
em novos oligarcas. A acomodação às
cadeiras do poder e o deslumbramento
perante o novo status tendem a subverter
as intenções iniciais (ainda que estas sejam
as mais generosas). O próprio Friedrich
Engels já alertava em finais do século XIX,
a propósito da revolução, para o risco de
divórcio entre a teoria e a prática, razão pela
qual “os revolucionários descobrem no dia
seguinte que a revolução que fizeram não era
aquela que deviam ter feito”. Em suma, é a
urgência da emancipação que abre caminho
à revolução — ou seja, se é verdade que “as
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não está necessariamente do lado de lá do
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ProfessordaFaculdadedeEconomia
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  • 1. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A. 46 • Público • Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2018 já os desígnios da modernidade europeia vislumbravam sinais emancipatórios de uma hipotética revolução social: primeiro, sob influência do liberalismo, em que às classes trabalhadoras se oferecia a utopia de que se poderiam libertar dos grilhões da pobreza através do empreendedorismo individual, à imagem de um Eldorado oriundo do continente americano. Numa primeira fase da modernidade, a emancipação dos pobres na Europa, curiosamente, encontrou na Revolução Americana o maior exemplo de prosperidade. Exemplo esse que ofereceu aos clássicos da economia europeia (como John Locke e Adam Smith) o argumento para afirmarem a importância do labor e do trabalho duro como via para o enriquecimento individual e já não apenas como sinónimo de exploração. Mas, apesar da permeabilidade do exemplo americano nos meios filosóficos do Velho Continente, as novas rebeliões das massas trabalhadoras e os seus movimentos ignoraram essa via. Ao longo do século XIX surgiriam novas correntes ideológicas e lutas sociais, muitas delas já sob ElísioEstanque O outro lado da Revolução (II) S e a atenção dedicada à Revolução Russa por ocasião do seu primeiro centenário foi uma oportunidade para a reinterpretação desse legado, o mesmo poderá vir a ocorrer este ano, a propósito do cinquentenário do Maio de 68 ou até do próximo aniversário do 25 de Abril de 1974, temas em que, evidentemente, a ideia de revolução pode, na sua polissemia, adequar-se a novas análises e reflexões. E, por isso, serão certamente em breve objeto de análise. Dando sequência a um texto anterior, pretendo agora explorar o próprio conceito de “revolução” e o seu significado ao longo dos tempos. Nos seus primórdios mais longínquos, a noção de mutatio rerum (‘mudar as coisas’) abriu caminho ao pensamento lógico sobre a mudança social e o seu ritmo. Nos tempos do império romano e de guerra civil da pólis grega tornou-se conhecida a noção platónica de transmutação, ou seja, como explicou Hannah Arendt (On Revolution, 1963), a passagem de uma forma de governo a outra. Na sua origem latina, a palavra — revolutìo ónis — significa uma transformação rápida da sociedade ou viragem abrupta no poder político. A mudança política e a violência que lhe é muitas vezes inerente já eram características conhecidas na Antiguidade, mas nem uma nem outra eram associadas ao surgimento de algo inteiramente novo. Aristóteles e Platão referiam-se à importância da “motivação económica” como justificação para o derrube de governos ou pelos ricos para instaurar oligarquias ou pelos pobres para instaurar democracias. Já naquela época os letrados sabiam que, por regra, os tiranos acedem ao poder com o apoio da plebe e que a melhor forma de o preservar é prometer aos pobres a igualdades de condições. Mas é só na era moderna que a “questão social” entra verdadeiramente em cena, e é então — quando a pobreza deixa de ser considerada inerente à condição humana — que a clivagem ricos/pobres emerge como principal fonte de injustiça, suscitando a denúncia de setores crescentes da população, em especial aqueles que estavam condenados à miséria. Mesmo antes do triunfo da Revolução Francesa e da difusão em larga escala das promessas progressistas do Iluminismo, a influência do marxismo e, a partir das primeiras décadas do século XX, animadas também pela vitória dos bolcheviques de 1917. Os protestos operários de Chicago em 1 de Maio de 1886 tiveram o efeito de contágio que atravessou o Atlântico com as primeiras lutas operárias da indústria moderna dos EUA, marcadas pela violência. Todavia, como é sabido, o vírus do 1.º de Maio enquanto momento de revolta do trabalho contra o capital propagou-se, não nos EUA mas na velha Europa. Entretanto, os impactos da Revolução Industrial inglesa abriam caminho a um forte movimento operário e sindical, dando expressão política às principais correntes revolucionárias. Com as ideologias da época a digladiarem-se entre si, reforma ou revolução, social-democracia, assistencialismo, anarquismo, socialismo utópico ou comunismo forneceram ao operariado industrial europeu toda uma panóplia de referenciais de mudança radical. Mas, à luz das teorias que a inspiraram, a “Revolução proletária” acabou por acontecer no lugar “errado”, enquanto o capitalismo ocidental começava a ceder e a adaptar-se aos clamores populares por justiça social e democracia. Uma explosão só ocorre quando não existem válvulas de escape, ou seja, o pluralismo político e a institucionalização do conflito na Europa do pós-guerra permitiram substituir as rebeliões de massas por mudanças reformistas, muito embora se possa concluir que sem o impulso dos movimentos revolucionários os programas sociais-democratas, o keynesianismo e muitas das conquistas Emsuma,éa urgênciada emancipação queabre caminhoà revolução civilizacionais que hoje conhecemos não teriam sido alcançadas. Uma liderança carismática e um bom discurso demagogo podem sempre ser decisivos. Todavia, a revolução é sobretudo fruto de condições de urgência e crescentes descontentamentos coletivos; não principalmente resultado do trabalho organizativo de “revolucionários profissionais” ou de uma qualquer “vanguarda”. Em que condições pode então ocorrer uma revolução? Historiadores e cientistas sociais — como Theda Skocpol (States and Social Revolutions, 1979), entre outros — reportam-se à Revolução como um processo em que se conjugam diversas revoltas populares, incluindo conflitos de interesses envolvendo o Estado, as elites e as classes trabalhadoras e que tem como resultado uma alteração profunda das estruturas de classe e da sociedade. A revolução só pode triunfar, afirmou Lenine, quando os de baixo não querem e os de cima não podem continuar a viver como dantes. Na definição de Charles Tilly (From Mobilization to Revolution, 1978), há três condições para se poder falar de revoluções: (1) quando existem claras discrepâncias entre o que os governos exigem dos seus cidadãos mais bem organizados e a sua capacidade para fazê-los cumprir; (2) quando os governos impõem exigências que ameaçam as identidades coletivas ou violam direitos associados a essas identidades; e (3) quando o poder da elite dominante visivelmente diminui em relação à força crescente dos seus opositores. Um conhecido sociólogo francês que se celebrizou pelos muitos estudos sobre movimentos sociais (Alain Touraine) afirmou que o poder transformador de uma revolução nunca se traduziu na substituição das classes dominantes pelas dominadas, antes abriu espaço a uma mudança na estrutura de classes, na qual, não raramente, se transformou antigos revolucionários em novos oligarcas. A acomodação às cadeiras do poder e o deslumbramento perante o novo status tendem a subverter as intenções iniciais (ainda que estas sejam as mais generosas). O próprio Friedrich Engels já alertava em finais do século XIX, a propósito da revolução, para o risco de divórcio entre a teoria e a prática, razão pela qual “os revolucionários descobrem no dia seguinte que a revolução que fizeram não era aquela que deviam ter feito”. Em suma, é a urgência da emancipação que abre caminho à revolução — ou seja, se é verdade que “as revoluções começam sempre num beco sem saída”, o efeito libertário e emancipatório não está necessariamente do lado de lá do muro, mas no próprio ato de saltar. ProfessordaFaculdadedeEconomia einvestigadordoCentrodeEstudos SociaisdaUniversidadedeCoimbra NELSON GARRIDO Arevoluçãoésobretudo frutodecondiçõesde urgênciaecrescentes descontentamentoscolectivos ESPAÇOPÚBLICO