SlideShare uma empresa Scribd logo
1 de 2
Baixar para ler offline
12 • Público • Terça-feira, 18 de Outubro de 2016
Elísio Estanque chegou a Coimbra
em 1985, quando a reposição da
praxe já se tinha normalizado. Os
anos na cidade onde é docente
na Faculdade de Economia
e investigador do Centro de
Estudos Sociais permitiram-lhe
ir acompanhando a evolução dos
comportamentos no contexto
estudantil.
Foi com base na experiência
de observador-participante,
mas também em recolha de
informação, artigos de jornais
e entrevistas, que o sociólogo
escreveu um ensaio sobre estes
rituais académicos, editado pela
Fundação Francisco Manuel
dos Santos, com o título Praxe e
Tradições Académicas, que será
apresentado amanhã, em Coimbra.
Todas as citações referidas nas
perguntas desta entrevista são
retiradas deste livro.
“Depois de passar a usar o traje
senti-me outra.” Pedia-lhe para
comentar.
Costuma-se dizer que o hábito
faz o monge. A ideia de se ter
atingido um determinado estatuto
que, simbolicamente, representa
um reforço de poder na relação
com o grupo, com os mais novos,
acaba por influenciar a atitude. A
pessoa foi subalterna até um dado
momento e a partir dali passa a
atingir o verdadeiro estatuto de
estudante de pleno direito.
Refere que começaram a surgir
os primeiros casos de abuso
na praxe a partir dos anos
90 e início do milénio, que
corresponde a um período de
maior massificação do ensino
superior. Há uma relação?
A quantidade e qualidade nem
sempre caminham à mesma
velocidade. A partir do momento
em que se multiplica por n vezes
a presença de estudantes no
ensino superior, isso também
significa uma alteração de
qualidade. Criaram-se dinâmicas
de massificação. Note-se que
essa abertura e massificação
são resultado de democracia,
de conquistas emancipatórias
e absolutamente necessárias
para o desenvolvimento de uma
sociedade. Porém, não se pode
perder de vista que, enquanto
a universidade era mais elitista,
irreverência, violência e capital
cultural mantinham-se em algum
equilíbrio. Com o acesso ao ensino
superior, o background cultural de
muitos dos estudantes é inferior.
A modernização da sociedade
foi colocando a universidade
sobre uma lógica mercantilista.
Todo o tipo de pressões levam
a que o estudante venha para a
universidade e tenha que acabar
o curso em determinado prazo.
Por outro lado, Coimbra foi até
ao início do século XX a única
universidade do país, trazia jovens
de todas as origens geográficas, o
que ajudou a que a composição
social dos estudantes fosse muito
cosmopolita. Com a democracia
e multiplicação da oferta, as
universidades regionalizaram-
se. A proximidade estimula as
deslocações a casa semanalmente.
O período de fixação do estudante
na cidade é reduzido.
De que forma é que o menor
envolvimento com a dinâmica
da cidade se relaciona com
aumento de rituais violentos?
Não há uma relação de causa
efeito. Mas acho que isso
contribui para uma maior
superficialidade na relação do
estudante com aquilo que são
os conteúdos e o significado dos
elementos da natureza cultural,
informativa que sempre existiram
no ambiente académico — as
tertúlias, as correntes culturais
e literárias que tiveram lugar em
muitas cidades universitárias. A
sociedade de consumo estimulou
subjectividades orientadas por um
certo sentido individualista. Esse
sentimento de alguma solidão e
propensão para o consumo tem
Elísio Estanque Há uma relação entre
praxe e carreirismo político? É um dos
temas abordados num livro sobre a praxe
académica que é apresentado amanhã
Das“brincadeirasinócuas”àaceitação
do“poderdomaisforte”napraxe
A praxe não deixa
de ser um ritual
de inserção no
colectivo que
parece compensar
o excesso de
individualização
de relações sociais
Entrevista
CamiloSoldado
SOCIEDADE
vindo a ser acompanhado por
momentos e formas de atracção
que projectam as representações
da juventude e estimulam muitos
jovens a uma partilha muito
exaltada de contextos mais ou
menos lúdicos, de excitação, de
entrega identitária. A praxe não
deixa de ser um ritual de inserção
no colectivo que parece compensar
esse excesso de individualização de
relações sociais.
Nem que para isso seja
humilhado a dado ponto?
Sim. Também faço referência a
um debate em Lisboa, em que
uma estudante fala do direito
a ser humilhada. São vários
os estudantes que fazem essa
referência e são entusiasticamente
aplaudidos por toda a plateia
onde se reivindica o direito à
humilhação. Isso não deixa de
nos interpelar. Parece haver um
discurso nessas actividades que
veicula isto: “Tens que aprender a
aceitar o poder do mais forte.”
“A praxe ensina-nos isso. Tens
uma pessoa acima de ti quer
queiras, quer não.” Estes
estudantes vêem isso como
positivo.
É isso que nos deixa algo
perplexos. Sobretudo a nós,
de gerações mais velhas, que
aprendemos a valorizar os valores
democráticos, o respeito pelo
outro, as relações horizontais
e de igualdade. Preocupa-me.
Procura-se naturalizar a ideia de
uma sociedade que precisa de ser
vigiada, em que o indivíduo só
tem sucesso se aceitar o poder,
o que pode conduzir a práticas
despóticas. Essa possibilidade
de poder abusivo, muitas vezes,
Público • Terça-feira, 18 de Outubro de 2016 • 13
Este ano houve um número
maior de instituições de ensino
com programas alternativos à
praxe. Como vê estas iniciativas?
À partida, bem. A resposta à
praxe não pode ser a punição.
As instituições deveriam
investir mais em modalidades
de recepção aos novos alunos
oferecendo-lhes oportunidade
de aceder ao conhecimento,
estimular a curiosidade, mostrar
o potencial de património e de
cultura que têm na universidade
e nas cidades. Devia haver mais
sintonia [entre universidades e
autarquias]. Mas a dinamização
não pode ser confundida com
consumo desbragado de cerveja e
outros, que respondem também a
interesses comerciais.
Que corresponde à ideia de
mercantilização que referia.
Exacto. Às vezes, esses poderosos
interesses das marcas e dos
patrocinadores acabam por
ter uma força tal que contribui
para atenuar ou apagar o que
poderia ser uma intervenção
mais reguladora por parte das
universidades e autarquias.
Depois, essas iniciativas [novas de
acolhimento] foram mais evidentes
do que no passado também porque
o actual ministro tem uma postura
mais...
Declarada contra a praxe.
Não sei se dizer isso explicitamente
é positivo ou não.
Pode causar mais resistências?
Pode.
E alternativas que partam dos
estudantes?
Podem vir a ganhar relevância no
futuro se houver um maior esforço
de aproximação às estruturas
formais do associativismo
estudantil e vice-versa.
de praxe sabem que, a partir
das lealdades que se constroem
desde o início, se criam laços que
mais tarde dão frutos. Quando
mobilizam para a praxe, não há
nenhuma justificação a dar, é como
no exército. Se isso funciona assim
para um acto de praxe, pode mais
tarde funcionar para um acto
político.
Há quem argumente que a
violência que acontece no
contexto de praxe não é praxe.
Qual o seu entendimento?
Isso é a leitura que os estudantes
fazem e a justificação que os mais
sintonizados com esses rituais
veiculam frequentemente: “A
praxe é uma coisa necessária,
tem a ver com as tradições,
tem que cumprir determinada
função integradora e tem todo
um conjunto de códigos e valores
que é preciso respeitar.” No nosso
olhar, enquanto sociólogos, a
realidade é aquilo que é, mesmo
quando ela, nos seus contornos
mais particulares, distorce aquilo
que era suposto ser. Essa invocação
de uma praxe em estado puro,
por demarcação dos excessos, não
deixa de ser um elemento retórico
com pouca adesão à realidade.
Se num dia típico de praxe
encontro uma série de meninas
a gatinhar, com as “doutoras” a
dirigir o grupo com ordens; se vejo
jovens alinhados com os olhos no
chão a ouvir berros e gritaria de
quem está à frente... Posso dizer
que são brincadeiras inócuas.
Mas também posso constatar que
determinados casos espelham uma
forma de imposição de um poder,
de uma hierarquia, que veicula
uma relação de poder que tende a
dizer ao mais novo “para estares
aqui tens que te submeter”.
O exercício do poder simbólico.
Que tende a ser reiterado de
geração em geração. Mas acho
que os jovens olham mais o lado
lúdico, sobretudo depois de passar
determinados testes. O caloiro
acaba de chegar e depara-se com
uma postura mais autoritária dos
doutores mais velhos. No final da
noite vão para os copos e ali desfaz-
se um pouco aquela clivagem. O
jovem de repente fica com a ideia
de que, afinal, está a ser protegido
pelo mais velho.
camilo.soldado@publico.pt
Entrevistasa
alunoseartigos
publicados,
mastambém
aobservação
directadapraxe
emCoimbra,
sãoasbasesde
trabalhodeElísio
Estanque
ADRIANO MIRANDA
“A resposta não pode ser a punição”
PUBLICIDADE
não é posta em prática. Mas há
um pormenor: o mais velho, que
está numa posição de poder,
depois de uma expectativa de
imposição arbitrária do poder
pode condescender e não aplicar
de facto esse poder. Mas o simples
facto de estar a mostrar ao mais
fraco que “não te faço mal, mas se
eu quisesse fazia” não deixa de ser
preocupante.
Associa a cultura praxista ao
carreirismo político. Pode
explicar?
Tento questionar até que ponto
há a relação de uma coisa com
a outra. Entrevistei alguns
protagonistas que me expressaram
de forma bastante clara que os
núcleos duros mais politizados,
mais próximos de partidos
políticos, estão atentos a tudo isso.
Quando promovem iniciativas
100EmJulho,numacartaaberta,
100personalidadespediram
àsuniversidadesalternativasà
praxe.EmSetembrofoioministro
ManuelHeitorquemescreveuàs
instituiçõesapelandoaomesmo

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

O partidismo ufano de francisco assis set_2014
O partidismo ufano de francisco assis set_2014O partidismo ufano de francisco assis set_2014
O partidismo ufano de francisco assis set_2014
Elisio Estanque
 
Inúteis para o mundo por vera da silva telles trabalhando o texto
Inúteis para o mundo por vera da silva telles  trabalhando o textoInúteis para o mundo por vera da silva telles  trabalhando o texto
Inúteis para o mundo por vera da silva telles trabalhando o texto
Carmem Rocha
 
O que foi 31 de março de 1964
O que foi 31 de março de 1964O que foi 31 de março de 1964
O que foi 31 de março de 1964
Janaína Corrêa
 
Adorno teoria da semicultura
Adorno teoria da semiculturaAdorno teoria da semicultura
Adorno teoria da semicultura
Nivaldo Freitas
 
Metodismo releitura-latino-americana
Metodismo releitura-latino-americanaMetodismo releitura-latino-americana
Metodismo releitura-latino-americana
Paulo Dias Nogueira
 
Educacao apos auschwitz
Educacao apos auschwitzEducacao apos auschwitz
Educacao apos auschwitz
Vanessa Zaniol
 
O abandono da razão descolonização de discursos sobre infância e família, 1999
O abandono da razão   descolonização de discursos sobre infância e família, 1999O abandono da razão   descolonização de discursos sobre infância e família, 1999
O abandono da razão descolonização de discursos sobre infância e família, 1999
Pedro Bevilaqua Pupo Alves
 

Mais procurados (18)

O partidismo ufano de francisco assis set_2014
O partidismo ufano de francisco assis set_2014O partidismo ufano de francisco assis set_2014
O partidismo ufano de francisco assis set_2014
 
A depressão como mal estar contemporâneo
A depressão como mal estar contemporâneoA depressão como mal estar contemporâneo
A depressão como mal estar contemporâneo
 
Inúteis para o mundo por vera da silva telles trabalhando o texto
Inúteis para o mundo por vera da silva telles  trabalhando o textoInúteis para o mundo por vera da silva telles  trabalhando o texto
Inúteis para o mundo por vera da silva telles trabalhando o texto
 
POR QUE A CRIMINOLOGIA EXPLICA?
POR QUE A CRIMINOLOGIA EXPLICA?POR QUE A CRIMINOLOGIA EXPLICA?
POR QUE A CRIMINOLOGIA EXPLICA?
 
Escravos sem senhores: escravidão, trabalho e poder no Mundo Romano
Escravos sem senhores: escravidão, trabalho e poder no Mundo RomanoEscravos sem senhores: escravidão, trabalho e poder no Mundo Romano
Escravos sem senhores: escravidão, trabalho e poder no Mundo Romano
 
WOLMER A.C & WOLKMER Ma Fatima- Pluralismo jurídico y Constitucionalismo ema...
WOLMER A.C & WOLKMER Ma Fatima- Pluralismo jurídico y Constitucionalismo ema...WOLMER A.C & WOLKMER Ma Fatima- Pluralismo jurídico y Constitucionalismo ema...
WOLMER A.C & WOLKMER Ma Fatima- Pluralismo jurídico y Constitucionalismo ema...
 
Onde pára o socialismo ee publico_02.06.14
Onde pára o socialismo ee publico_02.06.14Onde pára o socialismo ee publico_02.06.14
Onde pára o socialismo ee publico_02.06.14
 
O que foi 31 de março de 1964
O que foi 31 de março de 1964O que foi 31 de março de 1964
O que foi 31 de março de 1964
 
Adorno teoria da semicultura
Adorno teoria da semiculturaAdorno teoria da semicultura
Adorno teoria da semicultura
 
Violência como espetáculo: o pão. o sangue e o circo
Violência como espetáculo: o pão. o sangue e o circoViolência como espetáculo: o pão. o sangue e o circo
Violência como espetáculo: o pão. o sangue e o circo
 
Margareth rago gênero e história
Margareth rago gênero e históriaMargareth rago gênero e história
Margareth rago gênero e história
 
Metodismo releitura-latino-americana
Metodismo releitura-latino-americanaMetodismo releitura-latino-americana
Metodismo releitura-latino-americana
 
Negri e possivel ser comunista sem marx
Negri e possivel ser comunista sem marxNegri e possivel ser comunista sem marx
Negri e possivel ser comunista sem marx
 
978 613-9-60525-5
978 613-9-60525-5978 613-9-60525-5
978 613-9-60525-5
 
Educacao apos auschwitz
Educacao apos auschwitzEducacao apos auschwitz
Educacao apos auschwitz
 
Parentalidade3
Parentalidade3Parentalidade3
Parentalidade3
 
Transfeminismo: Teoria e Práticas
Transfeminismo: Teoria e PráticasTransfeminismo: Teoria e Práticas
Transfeminismo: Teoria e Práticas
 
O abandono da razão descolonização de discursos sobre infância e família, 1999
O abandono da razão   descolonização de discursos sobre infância e família, 1999O abandono da razão   descolonização de discursos sobre infância e família, 1999
O abandono da razão descolonização de discursos sobre infância e família, 1999
 

Destaque

Os sentidos do trabalho a ee
Os sentidos do trabalho a eeOs sentidos do trabalho a ee
Os sentidos do trabalho a ee
Elisio Estanque
 
Público 1 autarquicas democracia 07.01.2013
Público 1 autarquicas democracia 07.01.2013Público 1 autarquicas democracia 07.01.2013
Público 1 autarquicas democracia 07.01.2013
Elisio Estanque
 
Classes e rebeliões sociais no brasil publico 09.06.2014
Classes e rebeliões sociais no brasil publico 09.06.2014Classes e rebeliões sociais no brasil publico 09.06.2014
Classes e rebeliões sociais no brasil publico 09.06.2014
Elisio Estanque
 
Portugues com sotaque publico 2014-11jan_ee
Portugues com sotaque publico 2014-11jan_eePortugues com sotaque publico 2014-11jan_ee
Portugues com sotaque publico 2014-11jan_ee
Elisio Estanque
 
Juventude e rebelioes s 2013 31dez
Juventude e rebelioes s 2013 31dezJuventude e rebelioes s 2013 31dez
Juventude e rebelioes s 2013 31dez
Elisio Estanque
 
àS portas do trabalho escravo ee 6.08.2012
àS portas do trabalho escravo ee 6.08.2012àS portas do trabalho escravo ee 6.08.2012
àS portas do trabalho escravo ee 6.08.2012
Elisio Estanque
 
Público 16 o regresso do povo 3.11.2012
Público 16 o regresso do povo 3.11.2012Público 16 o regresso do povo 3.11.2012
Público 16 o regresso do povo 3.11.2012
Elisio Estanque
 
Ambivalências da sociologia ee 14.04.14
Ambivalências da sociologia ee 14.04.14Ambivalências da sociologia ee 14.04.14
Ambivalências da sociologia ee 14.04.14
Elisio Estanque
 
Elites, lideres e revoluções
Elites, lideres e revoluçõesElites, lideres e revoluções
Elites, lideres e revoluções
Elisio Estanque
 
Público 12 passos troikados ee_16.09.2012
Público 12 passos troikados ee_16.09.2012Público 12 passos troikados ee_16.09.2012
Público 12 passos troikados ee_16.09.2012
Elisio Estanque
 
Para redefinir a classe média ee 16.08.2013
Para redefinir a classe média ee 16.08.2013Para redefinir a classe média ee 16.08.2013
Para redefinir a classe média ee 16.08.2013
Elisio Estanque
 
Público 11 passos inseguros ee_3.09.2012
Público 11 passos inseguros ee_3.09.2012Público 11 passos inseguros ee_3.09.2012
Público 11 passos inseguros ee_3.09.2012
Elisio Estanque
 
Visto do brasil greves, manifs e passeatas ee
Visto do brasil greves, manifs e passeatas eeVisto do brasil greves, manifs e passeatas ee
Visto do brasil greves, manifs e passeatas ee
Elisio Estanque
 
T11 a questao social sec xxi
T11 a questao social sec xxiT11 a questao social sec xxi
T11 a questao social sec xxi
Elisio Estanque
 

Destaque (20)

Os 'lambe cus', público_27.10.2016
Os 'lambe cus', público_27.10.2016Os 'lambe cus', público_27.10.2016
Os 'lambe cus', público_27.10.2016
 
A ucrania e o maniqueísmo neo sovietico ee-nn
A ucrania e o maniqueísmo neo sovietico ee-nnA ucrania e o maniqueísmo neo sovietico ee-nn
A ucrania e o maniqueísmo neo sovietico ee-nn
 
Os sentidos do trabalho a ee
Os sentidos do trabalho a eeOs sentidos do trabalho a ee
Os sentidos do trabalho a ee
 
Público 1 autarquicas democracia 07.01.2013
Público 1 autarquicas democracia 07.01.2013Público 1 autarquicas democracia 07.01.2013
Público 1 autarquicas democracia 07.01.2013
 
Classes e rebeliões sociais no brasil publico 09.06.2014
Classes e rebeliões sociais no brasil publico 09.06.2014Classes e rebeliões sociais no brasil publico 09.06.2014
Classes e rebeliões sociais no brasil publico 09.06.2014
 
Portugues com sotaque publico 2014-11jan_ee
Portugues com sotaque publico 2014-11jan_eePortugues com sotaque publico 2014-11jan_ee
Portugues com sotaque publico 2014-11jan_ee
 
Juventude e rebelioes s 2013 31dez
Juventude e rebelioes s 2013 31dezJuventude e rebelioes s 2013 31dez
Juventude e rebelioes s 2013 31dez
 
Ee .carta aberta de um ex militante-jun_2014
Ee .carta aberta de um ex militante-jun_2014Ee .carta aberta de um ex militante-jun_2014
Ee .carta aberta de um ex militante-jun_2014
 
àS portas do trabalho escravo ee 6.08.2012
àS portas do trabalho escravo ee 6.08.2012àS portas do trabalho escravo ee 6.08.2012
àS portas do trabalho escravo ee 6.08.2012
 
Público 16 o regresso do povo 3.11.2012
Público 16 o regresso do povo 3.11.2012Público 16 o regresso do povo 3.11.2012
Público 16 o regresso do povo 3.11.2012
 
Ambivalências da sociologia ee 14.04.14
Ambivalências da sociologia ee 14.04.14Ambivalências da sociologia ee 14.04.14
Ambivalências da sociologia ee 14.04.14
 
Elites, lideres e revoluções
Elites, lideres e revoluçõesElites, lideres e revoluções
Elites, lideres e revoluções
 
Público 12 passos troikados ee_16.09.2012
Público 12 passos troikados ee_16.09.2012Público 12 passos troikados ee_16.09.2012
Público 12 passos troikados ee_16.09.2012
 
Para redefinir a classe média ee 16.08.2013
Para redefinir a classe média ee 16.08.2013Para redefinir a classe média ee 16.08.2013
Para redefinir a classe média ee 16.08.2013
 
Público 11 passos inseguros ee_3.09.2012
Público 11 passos inseguros ee_3.09.2012Público 11 passos inseguros ee_3.09.2012
Público 11 passos inseguros ee_3.09.2012
 
Visto do brasil greves, manifs e passeatas ee
Visto do brasil greves, manifs e passeatas eeVisto do brasil greves, manifs e passeatas ee
Visto do brasil greves, manifs e passeatas ee
 
Rccs 103 rebeliao de classe media_pp53-80_ee
Rccs 103 rebeliao de classe media_pp53-80_eeRccs 103 rebeliao de classe media_pp53-80_ee
Rccs 103 rebeliao de classe media_pp53-80_ee
 
2ª aula educadores e educandos - prof. heder - 09 a13 de março 2015
2ª aula   educadores e educandos - prof. heder - 09 a13 de março 20152ª aula   educadores e educandos - prof. heder - 09 a13 de março 2015
2ª aula educadores e educandos - prof. heder - 09 a13 de março 2015
 
T11 a questao social sec xxi
T11 a questao social sec xxiT11 a questao social sec xxi
T11 a questao social sec xxi
 
Ps, pc e a esquerda desavinda publico 01.10-2014
Ps, pc e a esquerda desavinda publico 01.10-2014Ps, pc e a esquerda desavinda publico 01.10-2014
Ps, pc e a esquerda desavinda publico 01.10-2014
 

Semelhante a Ee_publico_entrevista-1

Serviosocialeeducao 121109181036-phpapp02
Serviosocialeeducao 121109181036-phpapp02Serviosocialeeducao 121109181036-phpapp02
Serviosocialeeducao 121109181036-phpapp02
Thiago Garcez
 
A violencia escolar_e_a_crise_da_autoridade_docente
A violencia escolar_e_a_crise_da_autoridade_docenteA violencia escolar_e_a_crise_da_autoridade_docente
A violencia escolar_e_a_crise_da_autoridade_docente
Amorim Albert
 
A escola faz juventudes?
A escola faz juventudes?A escola faz juventudes?
A escola faz juventudes?
ivideira
 
São vários os problemas que se perpetuam e se intensificam nesse novo milênio
São vários os problemas que se perpetuam e se intensificam nesse novo milênioSão vários os problemas que se perpetuam e se intensificam nesse novo milênio
São vários os problemas que se perpetuam e se intensificam nesse novo milênio
Tania Braga
 

Semelhante a Ee_publico_entrevista-1 (20)

"A rigidez do modelo educativo é uma rigidez militar". Entrevista com Jurjo T...
"A rigidez do modelo educativo é uma rigidez militar". Entrevista com Jurjo T..."A rigidez do modelo educativo é uma rigidez militar". Entrevista com Jurjo T...
"A rigidez do modelo educativo é uma rigidez militar". Entrevista com Jurjo T...
 
Serviosocialeeducao 121109181036-phpapp02
Serviosocialeeducao 121109181036-phpapp02Serviosocialeeducao 121109181036-phpapp02
Serviosocialeeducao 121109181036-phpapp02
 
Teoria queer e as diferenças
Teoria queer e as diferençasTeoria queer e as diferenças
Teoria queer e as diferenças
 
A violencia escolar_e_a_crise_da_autoridade_docente
A violencia escolar_e_a_crise_da_autoridade_docenteA violencia escolar_e_a_crise_da_autoridade_docente
A violencia escolar_e_a_crise_da_autoridade_docente
 
2014 -Tese de DR. Ciencias Sociais. Da ordem e das Desordens
2014 -Tese de DR. Ciencias Sociais. Da ordem e das Desordens2014 -Tese de DR. Ciencias Sociais. Da ordem e das Desordens
2014 -Tese de DR. Ciencias Sociais. Da ordem e das Desordens
 
Carta Programa Chapa 3 - Eleições DCE Unicap 2017
Carta Programa Chapa 3 - Eleições DCE Unicap 2017Carta Programa Chapa 3 - Eleições DCE Unicap 2017
Carta Programa Chapa 3 - Eleições DCE Unicap 2017
 
A escola faz juventudes?
A escola faz juventudes?A escola faz juventudes?
A escola faz juventudes?
 
Tcc de yuri kieling gama na ufsc em 2011
Tcc de yuri kieling gama na ufsc em 2011Tcc de yuri kieling gama na ufsc em 2011
Tcc de yuri kieling gama na ufsc em 2011
 
ARQUIVO Claudete menegatt
ARQUIVO Claudete menegattARQUIVO Claudete menegatt
ARQUIVO Claudete menegatt
 
Monografia Alone Pedagogia 2011
Monografia Alone Pedagogia 2011Monografia Alone Pedagogia 2011
Monografia Alone Pedagogia 2011
 
Slide de Imaginação.pptx
Slide de Imaginação.pptxSlide de Imaginação.pptx
Slide de Imaginação.pptx
 
Tese de adriana coelho saraiva na un b em 2010
Tese de adriana coelho saraiva na un b em 2010Tese de adriana coelho saraiva na un b em 2010
Tese de adriana coelho saraiva na un b em 2010
 
Modulo 10 hist
Modulo 10 histModulo 10 hist
Modulo 10 hist
 
Repensar a educacao - Inger Enkvist
Repensar a educacao - Inger EnkvistRepensar a educacao - Inger Enkvist
Repensar a educacao - Inger Enkvist
 
São vários os problemas que se perpetuam e se intensificam nesse novo milênio
São vários os problemas que se perpetuam e se intensificam nesse novo milênioSão vários os problemas que se perpetuam e se intensificam nesse novo milênio
São vários os problemas que se perpetuam e se intensificam nesse novo milênio
 
Trailer cidade educadora
Trailer cidade educadoraTrailer cidade educadora
Trailer cidade educadora
 
Bella isec
Bella isecBella isec
Bella isec
 
Não-Escolas
Não-EscolasNão-Escolas
Não-Escolas
 
Diferentes fontes de informação sobre sexualidade.
Diferentes fontes de informação sobre sexualidade.Diferentes fontes de informação sobre sexualidade.
Diferentes fontes de informação sobre sexualidade.
 
Fluzz & Escola
Fluzz & EscolaFluzz & Escola
Fluzz & Escola
 

Mais de Elisio Estanque

Mais de Elisio Estanque (20)

O outro lado da revol (ii) publico20180215
O outro lado da revol (ii) publico20180215O outro lado da revol (ii) publico20180215
O outro lado da revol (ii) publico20180215
 
O outro lado da reovol (i) publico 20180214
O outro lado da reovol (i) publico 20180214O outro lado da reovol (i) publico 20180214
O outro lado da reovol (i) publico 20180214
 
Uma 'geringonça' para o Brasil?
Uma 'geringonça' para o Brasil?Uma 'geringonça' para o Brasil?
Uma 'geringonça' para o Brasil?
 
Entre o populismo e o euroceticismo
Entre o populismo e o euroceticismo Entre o populismo e o euroceticismo
Entre o populismo e o euroceticismo
 
Ee juventude bloqueada (ii) publico_2017.05
Ee juventude bloqueada (ii) publico_2017.05Ee juventude bloqueada (ii) publico_2017.05
Ee juventude bloqueada (ii) publico_2017.05
 
Ee juventude bloqueada (i) publico_18.05.17
Ee juventude bloqueada (i) publico_18.05.17Ee juventude bloqueada (i) publico_18.05.17
Ee juventude bloqueada (i) publico_18.05.17
 
Passado e futuro do trabalho (II)
Passado e futuro do trabalho (II)Passado e futuro do trabalho (II)
Passado e futuro do trabalho (II)
 
Passado e futuro do trabalho (I)
Passado e futuro do trabalho (I)Passado e futuro do trabalho (I)
Passado e futuro do trabalho (I)
 
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
 
Des globalização do trabalho ee
Des globalização do trabalho eeDes globalização do trabalho ee
Des globalização do trabalho ee
 
Alentejo ee público_11.03.2016
Alentejo ee público_11.03.2016Alentejo ee público_11.03.2016
Alentejo ee público_11.03.2016
 
03_english_rccs annual review_e_estanque_rev2
  03_english_rccs annual review_e_estanque_rev2  03_english_rccs annual review_e_estanque_rev2
03_english_rccs annual review_e_estanque_rev2
 
(Des)globalização do trabalho publico 2016.07.14
(Des)globalização do trabalho publico 2016.07.14(Des)globalização do trabalho publico 2016.07.14
(Des)globalização do trabalho publico 2016.07.14
 
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
 
Alentejo ee público_11.03.2016
Alentejo ee público_11.03.2016Alentejo ee público_11.03.2016
Alentejo ee público_11.03.2016
 
Uma critica construtiva ao sindicalismo
Uma critica construtiva ao sindicalismoUma critica construtiva ao sindicalismo
Uma critica construtiva ao sindicalismo
 
Rebeliao de classe media_precariedade de movimentos sociais
Rebeliao de classe media_precariedade de movimentos sociaisRebeliao de classe media_precariedade de movimentos sociais
Rebeliao de classe media_precariedade de movimentos sociais
 
Middle class rebellions_2015
Middle class rebellions_2015Middle class rebellions_2015
Middle class rebellions_2015
 
GLU column
GLU column  GLU column
GLU column
 
Cromos e cargos_31.12-2015
Cromos e cargos_31.12-2015Cromos e cargos_31.12-2015
Cromos e cargos_31.12-2015
 

Último

O Reizinho Autista.pdf - livro maravilhoso
O Reizinho Autista.pdf - livro maravilhosoO Reizinho Autista.pdf - livro maravilhoso
O Reizinho Autista.pdf - livro maravilhoso
VALMIRARIBEIRO1
 
Manual dos Principio básicos do Relacionamento e sexologia humana .pdf
Manual dos Principio básicos do Relacionamento e sexologia humana .pdfManual dos Principio básicos do Relacionamento e sexologia humana .pdf
Manual dos Principio básicos do Relacionamento e sexologia humana .pdf
Pastor Robson Colaço
 
PPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 final
PPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 finalPPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 final
PPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 final
carlaOliveira438
 

Último (20)

O Reizinho Autista.pdf - livro maravilhoso
O Reizinho Autista.pdf - livro maravilhosoO Reizinho Autista.pdf - livro maravilhoso
O Reizinho Autista.pdf - livro maravilhoso
 
bem estar animal em proteção integrada componente animal
bem estar animal em proteção integrada componente animalbem estar animal em proteção integrada componente animal
bem estar animal em proteção integrada componente animal
 
EB1 Cumeada Co(n)Vida à Leitura - Livros à Solta_Serta.pptx
EB1 Cumeada Co(n)Vida à Leitura - Livros à Solta_Serta.pptxEB1 Cumeada Co(n)Vida à Leitura - Livros à Solta_Serta.pptx
EB1 Cumeada Co(n)Vida à Leitura - Livros à Solta_Serta.pptx
 
Sismologia_7ºano_causas e consequencias.pptx
Sismologia_7ºano_causas e consequencias.pptxSismologia_7ºano_causas e consequencias.pptx
Sismologia_7ºano_causas e consequencias.pptx
 
Livro infantil: A onda da raiva. pdf-crianças
Livro infantil: A onda da raiva. pdf-criançasLivro infantil: A onda da raiva. pdf-crianças
Livro infantil: A onda da raiva. pdf-crianças
 
Apresentação sobre Robots e processos educativos
Apresentação sobre Robots e processos educativosApresentação sobre Robots e processos educativos
Apresentação sobre Robots e processos educativos
 
o-homem-que-calculava-malba-tahan-1_123516.pdf
o-homem-que-calculava-malba-tahan-1_123516.pdfo-homem-que-calculava-malba-tahan-1_123516.pdf
o-homem-que-calculava-malba-tahan-1_123516.pdf
 
Manual dos Principio básicos do Relacionamento e sexologia humana .pdf
Manual dos Principio básicos do Relacionamento e sexologia humana .pdfManual dos Principio básicos do Relacionamento e sexologia humana .pdf
Manual dos Principio básicos do Relacionamento e sexologia humana .pdf
 
Movimento Negro Unificado , slide completo.pptx
Movimento Negro Unificado , slide completo.pptxMovimento Negro Unificado , slide completo.pptx
Movimento Negro Unificado , slide completo.pptx
 
Atividade do poema sobre mãe de mário quintana.pdf
Atividade do poema sobre mãe de mário quintana.pdfAtividade do poema sobre mãe de mário quintana.pdf
Atividade do poema sobre mãe de mário quintana.pdf
 
Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....
Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....
Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....
 
Nós Propomos! Sertã 2024 - Geografia C - 12º ano
Nós Propomos! Sertã 2024 - Geografia C - 12º anoNós Propomos! Sertã 2024 - Geografia C - 12º ano
Nós Propomos! Sertã 2024 - Geografia C - 12º ano
 
Conteúdo sobre a formação e expansão persa
Conteúdo sobre a formação e expansão persaConteúdo sobre a formação e expansão persa
Conteúdo sobre a formação e expansão persa
 
PPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 final
PPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 finalPPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 final
PPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 final
 
análise obra Nós matamos o cão Tinhoso.pdf
análise obra Nós matamos o cão Tinhoso.pdfanálise obra Nós matamos o cão Tinhoso.pdf
análise obra Nós matamos o cão Tinhoso.pdf
 
"Nós Propomos! Mobilidade sustentável na Sertã"
"Nós Propomos! Mobilidade sustentável na Sertã""Nós Propomos! Mobilidade sustentável na Sertã"
"Nós Propomos! Mobilidade sustentável na Sertã"
 
prova do exame nacional Port. 2008 - 2ª fase - Criterios.pdf
prova do exame nacional Port. 2008 - 2ª fase - Criterios.pdfprova do exame nacional Port. 2008 - 2ª fase - Criterios.pdf
prova do exame nacional Port. 2008 - 2ª fase - Criterios.pdf
 
Slides Lição 8, Betel, Ordenança para confessar os pecados e perdoar as ofens...
Slides Lição 8, Betel, Ordenança para confessar os pecados e perdoar as ofens...Slides Lição 8, Betel, Ordenança para confessar os pecados e perdoar as ofens...
Slides Lição 8, Betel, Ordenança para confessar os pecados e perdoar as ofens...
 
Planejamento 2024 - 1º ano - Matemática 38 a 62.pdf
Planejamento 2024 - 1º ano - Matemática  38 a 62.pdfPlanejamento 2024 - 1º ano - Matemática  38 a 62.pdf
Planejamento 2024 - 1º ano - Matemática 38 a 62.pdf
 
As Mil Palavras Mais Usadas No Inglês (Robert de Aquino) (Z-Library).pdf
As Mil Palavras Mais Usadas No Inglês (Robert de Aquino) (Z-Library).pdfAs Mil Palavras Mais Usadas No Inglês (Robert de Aquino) (Z-Library).pdf
As Mil Palavras Mais Usadas No Inglês (Robert de Aquino) (Z-Library).pdf
 

Ee_publico_entrevista-1

  • 1. 12 • Público • Terça-feira, 18 de Outubro de 2016 Elísio Estanque chegou a Coimbra em 1985, quando a reposição da praxe já se tinha normalizado. Os anos na cidade onde é docente na Faculdade de Economia e investigador do Centro de Estudos Sociais permitiram-lhe ir acompanhando a evolução dos comportamentos no contexto estudantil. Foi com base na experiência de observador-participante, mas também em recolha de informação, artigos de jornais e entrevistas, que o sociólogo escreveu um ensaio sobre estes rituais académicos, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, com o título Praxe e Tradições Académicas, que será apresentado amanhã, em Coimbra. Todas as citações referidas nas perguntas desta entrevista são retiradas deste livro. “Depois de passar a usar o traje senti-me outra.” Pedia-lhe para comentar. Costuma-se dizer que o hábito faz o monge. A ideia de se ter atingido um determinado estatuto que, simbolicamente, representa um reforço de poder na relação com o grupo, com os mais novos, acaba por influenciar a atitude. A pessoa foi subalterna até um dado momento e a partir dali passa a atingir o verdadeiro estatuto de estudante de pleno direito. Refere que começaram a surgir os primeiros casos de abuso na praxe a partir dos anos 90 e início do milénio, que corresponde a um período de maior massificação do ensino superior. Há uma relação? A quantidade e qualidade nem sempre caminham à mesma velocidade. A partir do momento em que se multiplica por n vezes a presença de estudantes no ensino superior, isso também significa uma alteração de qualidade. Criaram-se dinâmicas de massificação. Note-se que essa abertura e massificação são resultado de democracia, de conquistas emancipatórias e absolutamente necessárias para o desenvolvimento de uma sociedade. Porém, não se pode perder de vista que, enquanto a universidade era mais elitista, irreverência, violência e capital cultural mantinham-se em algum equilíbrio. Com o acesso ao ensino superior, o background cultural de muitos dos estudantes é inferior. A modernização da sociedade foi colocando a universidade sobre uma lógica mercantilista. Todo o tipo de pressões levam a que o estudante venha para a universidade e tenha que acabar o curso em determinado prazo. Por outro lado, Coimbra foi até ao início do século XX a única universidade do país, trazia jovens de todas as origens geográficas, o que ajudou a que a composição social dos estudantes fosse muito cosmopolita. Com a democracia e multiplicação da oferta, as universidades regionalizaram- se. A proximidade estimula as deslocações a casa semanalmente. O período de fixação do estudante na cidade é reduzido. De que forma é que o menor envolvimento com a dinâmica da cidade se relaciona com aumento de rituais violentos? Não há uma relação de causa efeito. Mas acho que isso contribui para uma maior superficialidade na relação do estudante com aquilo que são os conteúdos e o significado dos elementos da natureza cultural, informativa que sempre existiram no ambiente académico — as tertúlias, as correntes culturais e literárias que tiveram lugar em muitas cidades universitárias. A sociedade de consumo estimulou subjectividades orientadas por um certo sentido individualista. Esse sentimento de alguma solidão e propensão para o consumo tem Elísio Estanque Há uma relação entre praxe e carreirismo político? É um dos temas abordados num livro sobre a praxe académica que é apresentado amanhã Das“brincadeirasinócuas”àaceitação do“poderdomaisforte”napraxe A praxe não deixa de ser um ritual de inserção no colectivo que parece compensar o excesso de individualização de relações sociais Entrevista CamiloSoldado SOCIEDADE vindo a ser acompanhado por momentos e formas de atracção que projectam as representações da juventude e estimulam muitos jovens a uma partilha muito exaltada de contextos mais ou menos lúdicos, de excitação, de entrega identitária. A praxe não deixa de ser um ritual de inserção no colectivo que parece compensar esse excesso de individualização de relações sociais. Nem que para isso seja humilhado a dado ponto? Sim. Também faço referência a um debate em Lisboa, em que uma estudante fala do direito a ser humilhada. São vários os estudantes que fazem essa referência e são entusiasticamente aplaudidos por toda a plateia onde se reivindica o direito à humilhação. Isso não deixa de nos interpelar. Parece haver um discurso nessas actividades que veicula isto: “Tens que aprender a aceitar o poder do mais forte.” “A praxe ensina-nos isso. Tens uma pessoa acima de ti quer queiras, quer não.” Estes estudantes vêem isso como positivo. É isso que nos deixa algo perplexos. Sobretudo a nós, de gerações mais velhas, que aprendemos a valorizar os valores democráticos, o respeito pelo outro, as relações horizontais e de igualdade. Preocupa-me. Procura-se naturalizar a ideia de uma sociedade que precisa de ser vigiada, em que o indivíduo só tem sucesso se aceitar o poder, o que pode conduzir a práticas despóticas. Essa possibilidade de poder abusivo, muitas vezes,
  • 2. Público • Terça-feira, 18 de Outubro de 2016 • 13 Este ano houve um número maior de instituições de ensino com programas alternativos à praxe. Como vê estas iniciativas? À partida, bem. A resposta à praxe não pode ser a punição. As instituições deveriam investir mais em modalidades de recepção aos novos alunos oferecendo-lhes oportunidade de aceder ao conhecimento, estimular a curiosidade, mostrar o potencial de património e de cultura que têm na universidade e nas cidades. Devia haver mais sintonia [entre universidades e autarquias]. Mas a dinamização não pode ser confundida com consumo desbragado de cerveja e outros, que respondem também a interesses comerciais. Que corresponde à ideia de mercantilização que referia. Exacto. Às vezes, esses poderosos interesses das marcas e dos patrocinadores acabam por ter uma força tal que contribui para atenuar ou apagar o que poderia ser uma intervenção mais reguladora por parte das universidades e autarquias. Depois, essas iniciativas [novas de acolhimento] foram mais evidentes do que no passado também porque o actual ministro tem uma postura mais... Declarada contra a praxe. Não sei se dizer isso explicitamente é positivo ou não. Pode causar mais resistências? Pode. E alternativas que partam dos estudantes? Podem vir a ganhar relevância no futuro se houver um maior esforço de aproximação às estruturas formais do associativismo estudantil e vice-versa. de praxe sabem que, a partir das lealdades que se constroem desde o início, se criam laços que mais tarde dão frutos. Quando mobilizam para a praxe, não há nenhuma justificação a dar, é como no exército. Se isso funciona assim para um acto de praxe, pode mais tarde funcionar para um acto político. Há quem argumente que a violência que acontece no contexto de praxe não é praxe. Qual o seu entendimento? Isso é a leitura que os estudantes fazem e a justificação que os mais sintonizados com esses rituais veiculam frequentemente: “A praxe é uma coisa necessária, tem a ver com as tradições, tem que cumprir determinada função integradora e tem todo um conjunto de códigos e valores que é preciso respeitar.” No nosso olhar, enquanto sociólogos, a realidade é aquilo que é, mesmo quando ela, nos seus contornos mais particulares, distorce aquilo que era suposto ser. Essa invocação de uma praxe em estado puro, por demarcação dos excessos, não deixa de ser um elemento retórico com pouca adesão à realidade. Se num dia típico de praxe encontro uma série de meninas a gatinhar, com as “doutoras” a dirigir o grupo com ordens; se vejo jovens alinhados com os olhos no chão a ouvir berros e gritaria de quem está à frente... Posso dizer que são brincadeiras inócuas. Mas também posso constatar que determinados casos espelham uma forma de imposição de um poder, de uma hierarquia, que veicula uma relação de poder que tende a dizer ao mais novo “para estares aqui tens que te submeter”. O exercício do poder simbólico. Que tende a ser reiterado de geração em geração. Mas acho que os jovens olham mais o lado lúdico, sobretudo depois de passar determinados testes. O caloiro acaba de chegar e depara-se com uma postura mais autoritária dos doutores mais velhos. No final da noite vão para os copos e ali desfaz- se um pouco aquela clivagem. O jovem de repente fica com a ideia de que, afinal, está a ser protegido pelo mais velho. camilo.soldado@publico.pt Entrevistasa alunoseartigos publicados, mastambém aobservação directadapraxe emCoimbra, sãoasbasesde trabalhodeElísio Estanque ADRIANO MIRANDA “A resposta não pode ser a punição” PUBLICIDADE não é posta em prática. Mas há um pormenor: o mais velho, que está numa posição de poder, depois de uma expectativa de imposição arbitrária do poder pode condescender e não aplicar de facto esse poder. Mas o simples facto de estar a mostrar ao mais fraco que “não te faço mal, mas se eu quisesse fazia” não deixa de ser preocupante. Associa a cultura praxista ao carreirismo político. Pode explicar? Tento questionar até que ponto há a relação de uma coisa com a outra. Entrevistei alguns protagonistas que me expressaram de forma bastante clara que os núcleos duros mais politizados, mais próximos de partidos políticos, estão atentos a tudo isso. Quando promovem iniciativas 100EmJulho,numacartaaberta, 100personalidadespediram àsuniversidadesalternativasà praxe.EmSetembrofoioministro ManuelHeitorquemescreveuàs instituiçõesapelandoaomesmo