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52 | PÚBLICO,SÁB14MAI2016
A Queima das Fitas
alcoolizada
O
clima chuvoso deste ano
obrigou a uma festa estudantil
molhada. Mas esse tem sido
um traço comum nos últimos
anos, mesmo em dias de sol.
O relato que se segue refere-se
à Queima das Fitas e aplica-
se às suas últimas edições
(um tema que trato num
livro em publicação, Praxe e
Tradições Académicas, Fundação Francisco
Manuel dos Santos, 2016, no prelo). Há um
ano, fazia sol e calor, enquanto este ano o
clima era chuvoso; mas, em qualquer dos
casos, a festa estudantil de Coimbra vem-
se tornando muito liquefeita, molhada e
demasiado alcoolizada.
Cheguei junto à Praça 8 de Maio por volta
das 17h. Como é hábito, as ambulâncias
lá estavam de prevenção. Os carros
alegóricos vinham passando devagar, mas
já denunciavam alguma desordem nas
cores desbotadas das flores de papel e
nos motivos decorativos em desarranjo.
O desfile teve início por volta das 15h e
partiu do Polo 1 da Universidade. Olhando
a partir de baixo, do final da Avenida,
este “comboio” de carros decorados e
policromáticos mais parece uma gigantesca
geringonça — um “corso” carnavalesco ou
ainda uma espécie de carro de Jagrená, a
metáfora celebrizada por Anthony Giddens
por referência à modernidade desregulada
—, descendo a ladeira meio descontrolada,
com a multidão em redor a condicionar
o seu andamento mas sem conseguir
dirigi-la, aproximando-se dos carros,
recolhendo latas de cerveja e refrigerantes
para se banhar nelas em seguida. Ao lado
do desfile aparecem alguns free riders que
oportunamente se aproveitam da situação
para colecionarem bebidas em pequenos
stocks, para posteriormente lhes darem
outro destino.
Esta festa estudantil, recorde-se, foi
nos seus primórdios, em finais do século
XIX, um momento especial de convívio
entre a academia (o campo do “sagrado”
enquanto dimensão do saber/poder
legítimo) e a “sociedade civil” (a população
aqui designada de “futrica”, ou seja, o
lado “profano”), numa celebração onde a
vertente carnavalesca é bem visível, que
no fundo traduz um ritual de fim de ciclo
académico e o seu reconhecimento pelo
povo.
O desfile da Queima das Fitas é um dia
de apoteose na “cidade dos estudantes”,
uma expressão que nestes momentos
adquire em Coimbra o seu sentido mais
literal. Mas se as semelhanças com a
tradição mais remota são hoje escassas,
ao longo das últimas décadas as profundas
transformações que ocorreram na
sociedade refletem-se, necessariamente,
nos comportamentos da juventude
estudantil. Recordo os anos oitenta, quando
cheguei a Coimbra: lembro-me das filas
de cadeirinhas alinhadas ao longo das
ruas da Baixa, onde se sentavam as mães e
restante família à espera do momento em
que aplaudiam mais intensamente aquele
clímax de “glória” que o filho vivia em cima
do carro.
Hoje, permanecem os elementos
de continuidade, mas o contraste é
flagrante a vários títulos. No atual desfile,
os comportamentos alteraram-se e a
festa tornou-se, nos seus momentos
mais intensos, numa ação de massas
alcoolicamente alienadas. Os grupos
parecem mais disformes, e os aglomerados
de gente em redor dos carros mais fluidos
e instáveis, em sintonia com a oscilação
cambaleante dos grupos de fitados,
doutores e caloiros. As tradicionais
referências irónicas e corrosivas, dirigidas
ao sistema educativo, às autoridades
académicas ou ao
poder político quase
desapareceram
da iconografia da
Queima das Fitas
(ou, por exemplo,
das caricaturas dos
livros de curso),
praticamente
reduzida a
simbologias de
índole sexista.
À medida que
o cortejo desce
a Avenida Sá
da Bandeira, as
cores dos carros
alegóricos e das
flores de papel
vão começando a
desbotar.
Com ou sem
chuva, os líquidos
nunca faltam.
E a grande
catarse move-se na sua vida própria,
descontrolada, à medida que as caixas
de bebidas se vão esvaziando. Ao longo
do percurso, os F-R-A soam ainda
mais alto quando, por acaso, surge no
caminho um familiar, um conterrâneo ou
eventualmente um professor. Os “banhos”
adquirem aqui diversas formas, a começar
por ser um banho de multidão; noutros
casos, trata-se de despejar uma lata de
cerveja pela cabeça abaixo do colega,
amigo, conhecido ou mesmo um qualquer
desconhecido que se revele plenamente
inserido no festim; pode também incluir
uma dança coletiva sobre um repuxo de
uma fonte; e por fim (no final do dia), o
clássico mergulho no rio Mondego. Seja a
água da chuva, a cerveja ou outras bebidas
a jorrar de cima dos carros, estes banhos
coletivos imprimem à festa estudantil uma
paisagem de características únicas.
São cerca das 18h quando o carro
53 (há cerca de 100 carros, no total)
dobra a esquina junto à sede da Câmara
Municipal de Coimbra em direção à Rua
Ferreira Borges. As vias pedonais são aqui
percorridas com maior lentidão, devido à
concentração de gente e à dificuldade dos
motoristas, dado o estreito ângulo de visão
na abertura dos para-brisas das carripanas.
Seja como for, aquele “comboio” de
excitação coletiva lá vai avançando aos
solavancos por entre a multidão, enquanto
os grupos de jovens em cima de cada
carro, de rostos pintados, molhados e
cabelos a escorrer, vão tentando manter a
alegria, muitos deles já com a voz rouca,
e outros que já vomitaram alguns dos
líquidos e miscelâneas ingeridos ao longo
do percurso. Por essa hora também as
ambulâncias e prontos-socorros andam
bastante ocupados, o que confere à cidade
uma estranha paisagem — visual e sonora —,
onde se misturam a música com a gritaria, e
as sirenes do INEM em pano de fundo.
Perante o aproximar do final do cortejo,
e à medida que o sol vai declinando por
trás da colina da margem sul do Mondego,
o inevitável cansaço apodera-se dos foliões
Afesta
estudantil
deCoimbra
vem-se
tornandomuito
liquefeita,
molhadae
demasiado
alcoolizada
— note-se que a Queima começou três
dias antes, com a Serenata na Sé Velha —,
deixando transparecer um clima de fim
de festa. Transposto o momento mais
exuberante, a exaustão coletiva gera uma
sensação de amolecimento e necessidade
de “repouso”. Nos seus movimentos,
os grupos de “estudantes-doutores”, já
fatigados ao final da tarde, parecem então
render-se ao sentimentalismo, uma atitude
que, evidentemente, os efeitos etílicos
não deixam de acentuar. Os concertos
musicais do outro lado do Mondego
ainda vão continuar por mais alguns dias,
mas no dia do Cortejo, depois de uma
viagem de quatro ou cinco horas naqueles
palcos ambulantes ou atrás deles a pé, a
fadiga e o declinar da apoteose induzem
sentimentos de nostalgia (sobretudo
entre os finalistas) e comportamentos
surpreendentes. Uma sensação de vazio e
desnorte parece espelhar-se nos olhares
toldados, no semblante alucinado, nos
rostos inexpressivos ou no caminhar
descompassado de pequenos grupos pelo
meio da rua. Já pela noite dentro, em
alguns cantos da cidade, o cenário torna-se
quase dantesco, com grupos de jovens com
ar meio-perdido, em ritmo cambaleante,
casacos desabotoados e alguns rasgados,
manchas de diversas cores sobre as
camisas brancas, outros caminhando
seminus — um estudante apenas vestia
uma T-shirt, nada mais —, após o habitual
mergulho no rio.
Por volta das 20h, no Jardim do Parque,
o cenário é de sesta coletiva, em ambiente
desordenado, mas de relaxamento.
Deitados sobre a relva, encostados uns
aos outros, cobertos pelas capas negras,
descansam, namoram, dormem, meditam
talvez. Outros choram ou vomitam,
amparados por colegas. É muito comum,
nas noites mais emblemáticas das festas,
nomeadamente na Serenata Monumental,
verem-se estudantes, sobretudo raparigas,
a chorar copiosamente na rua, porventura
um choro já de saudade, porque Coimbra
tem essa magia, essa capacidade de
contagiar toda a coletividade estudantil
com o vírus da nostalgia. É que a loucura
da juventude adquire, neste contexto,
uma subjetividade vivida tão intensamente
que o seu reverso se projeta no iminente
fim à vista. Talvez o prelúdio de um
vazio, marcado pela saudade, sentida por
antecipação, ao som de uma guitarra. Mas
também nesses momentos, o álcool acicata
as emoções. Enquanto o “carro de Jagrená”
se vai desmembrando, as ruas pejadas
de latinhas, copos de plástico e restos de
vómito deixam no ar um estranho odor a
desencanto. Fica a pergunta: onde para a
irreverência estudantil?
Sociólogo, investigador do Centro de
Estudos Sociais e professor da Faculdade
de Economia da Universidade de Coimbra
DR
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  • 1. 52 | PÚBLICO,SÁB14MAI2016 A Queima das Fitas alcoolizada O clima chuvoso deste ano obrigou a uma festa estudantil molhada. Mas esse tem sido um traço comum nos últimos anos, mesmo em dias de sol. O relato que se segue refere-se à Queima das Fitas e aplica- se às suas últimas edições (um tema que trato num livro em publicação, Praxe e Tradições Académicas, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2016, no prelo). Há um ano, fazia sol e calor, enquanto este ano o clima era chuvoso; mas, em qualquer dos casos, a festa estudantil de Coimbra vem- se tornando muito liquefeita, molhada e demasiado alcoolizada. Cheguei junto à Praça 8 de Maio por volta das 17h. Como é hábito, as ambulâncias lá estavam de prevenção. Os carros alegóricos vinham passando devagar, mas já denunciavam alguma desordem nas cores desbotadas das flores de papel e nos motivos decorativos em desarranjo. O desfile teve início por volta das 15h e partiu do Polo 1 da Universidade. Olhando a partir de baixo, do final da Avenida, este “comboio” de carros decorados e policromáticos mais parece uma gigantesca geringonça — um “corso” carnavalesco ou ainda uma espécie de carro de Jagrená, a metáfora celebrizada por Anthony Giddens por referência à modernidade desregulada —, descendo a ladeira meio descontrolada, com a multidão em redor a condicionar o seu andamento mas sem conseguir dirigi-la, aproximando-se dos carros, recolhendo latas de cerveja e refrigerantes para se banhar nelas em seguida. Ao lado do desfile aparecem alguns free riders que oportunamente se aproveitam da situação para colecionarem bebidas em pequenos stocks, para posteriormente lhes darem outro destino. Esta festa estudantil, recorde-se, foi nos seus primórdios, em finais do século XIX, um momento especial de convívio entre a academia (o campo do “sagrado” enquanto dimensão do saber/poder legítimo) e a “sociedade civil” (a população aqui designada de “futrica”, ou seja, o lado “profano”), numa celebração onde a vertente carnavalesca é bem visível, que no fundo traduz um ritual de fim de ciclo académico e o seu reconhecimento pelo povo. O desfile da Queima das Fitas é um dia de apoteose na “cidade dos estudantes”, uma expressão que nestes momentos adquire em Coimbra o seu sentido mais literal. Mas se as semelhanças com a tradição mais remota são hoje escassas, ao longo das últimas décadas as profundas transformações que ocorreram na sociedade refletem-se, necessariamente, nos comportamentos da juventude estudantil. Recordo os anos oitenta, quando cheguei a Coimbra: lembro-me das filas de cadeirinhas alinhadas ao longo das ruas da Baixa, onde se sentavam as mães e restante família à espera do momento em que aplaudiam mais intensamente aquele clímax de “glória” que o filho vivia em cima do carro. Hoje, permanecem os elementos de continuidade, mas o contraste é flagrante a vários títulos. No atual desfile, os comportamentos alteraram-se e a festa tornou-se, nos seus momentos mais intensos, numa ação de massas alcoolicamente alienadas. Os grupos parecem mais disformes, e os aglomerados de gente em redor dos carros mais fluidos e instáveis, em sintonia com a oscilação cambaleante dos grupos de fitados, doutores e caloiros. 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Os “banhos” adquirem aqui diversas formas, a começar por ser um banho de multidão; noutros casos, trata-se de despejar uma lata de cerveja pela cabeça abaixo do colega, amigo, conhecido ou mesmo um qualquer desconhecido que se revele plenamente inserido no festim; pode também incluir uma dança coletiva sobre um repuxo de uma fonte; e por fim (no final do dia), o clássico mergulho no rio Mondego. Seja a água da chuva, a cerveja ou outras bebidas a jorrar de cima dos carros, estes banhos coletivos imprimem à festa estudantil uma paisagem de características únicas. São cerca das 18h quando o carro 53 (há cerca de 100 carros, no total) dobra a esquina junto à sede da Câmara Municipal de Coimbra em direção à Rua Ferreira Borges. As vias pedonais são aqui percorridas com maior lentidão, devido à concentração de gente e à dificuldade dos motoristas, dado o estreito ângulo de visão na abertura dos para-brisas das carripanas. Seja como for, aquele “comboio” de excitação coletiva lá vai avançando aos solavancos por entre a multidão, enquanto os grupos de jovens em cima de cada carro, de rostos pintados, molhados e cabelos a escorrer, vão tentando manter a alegria, muitos deles já com a voz rouca, e outros que já vomitaram alguns dos líquidos e miscelâneas ingeridos ao longo do percurso. Por essa hora também as ambulâncias e prontos-socorros andam bastante ocupados, o que confere à cidade uma estranha paisagem — visual e sonora —, onde se misturam a música com a gritaria, e as sirenes do INEM em pano de fundo. Perante o aproximar do final do cortejo, e à medida que o sol vai declinando por trás da colina da margem sul do Mondego, o inevitável cansaço apodera-se dos foliões Afesta estudantil deCoimbra vem-se tornandomuito liquefeita, molhadae demasiado alcoolizada — note-se que a Queima começou três dias antes, com a Serenata na Sé Velha —, deixando transparecer um clima de fim de festa. Transposto o momento mais exuberante, a exaustão coletiva gera uma sensação de amolecimento e necessidade de “repouso”. Nos seus movimentos, os grupos de “estudantes-doutores”, já fatigados ao final da tarde, parecem então render-se ao sentimentalismo, uma atitude que, evidentemente, os efeitos etílicos não deixam de acentuar. Os concertos musicais do outro lado do Mondego ainda vão continuar por mais alguns dias, mas no dia do Cortejo, depois de uma viagem de quatro ou cinco horas naqueles palcos ambulantes ou atrás deles a pé, a fadiga e o declinar da apoteose induzem sentimentos de nostalgia (sobretudo entre os finalistas) e comportamentos surpreendentes. Uma sensação de vazio e desnorte parece espelhar-se nos olhares toldados, no semblante alucinado, nos rostos inexpressivos ou no caminhar descompassado de pequenos grupos pelo meio da rua. Já pela noite dentro, em alguns cantos da cidade, o cenário torna-se quase dantesco, com grupos de jovens com ar meio-perdido, em ritmo cambaleante, casacos desabotoados e alguns rasgados, manchas de diversas cores sobre as camisas brancas, outros caminhando seminus — um estudante apenas vestia uma T-shirt, nada mais —, após o habitual mergulho no rio. Por volta das 20h, no Jardim do Parque, o cenário é de sesta coletiva, em ambiente desordenado, mas de relaxamento. Deitados sobre a relva, encostados uns aos outros, cobertos pelas capas negras, descansam, namoram, dormem, meditam talvez. Outros choram ou vomitam, amparados por colegas. É muito comum, nas noites mais emblemáticas das festas, nomeadamente na Serenata Monumental, verem-se estudantes, sobretudo raparigas, a chorar copiosamente na rua, porventura um choro já de saudade, porque Coimbra tem essa magia, essa capacidade de contagiar toda a coletividade estudantil com o vírus da nostalgia. É que a loucura da juventude adquire, neste contexto, uma subjetividade vivida tão intensamente que o seu reverso se projeta no iminente fim à vista. Talvez o prelúdio de um vazio, marcado pela saudade, sentida por antecipação, ao som de uma guitarra. Mas também nesses momentos, o álcool acicata as emoções. Enquanto o “carro de Jagrená” se vai desmembrando, as ruas pejadas de latinhas, copos de plástico e restos de vómito deixam no ar um estranho odor a desencanto. Fica a pergunta: onde para a irreverência estudantil? Sociólogo, investigador do Centro de Estudos Sociais e professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra DR DebateTradiçõesacadémicas ElísioEstanque