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Público • Sexta-feira, 19 de Maio de 2017 • 51
famílias instaladas e bem-comportadas das
classes médias urbanas, grupos de jovens
e adolescentes podem tornar-se focos de
agitação e criatividade. Ainda adolescentes,
são socializados pelas redes sociais,
transportam no bolso a nova parafernália
de gadgets informáticos e deixam-se levar
na vertigem de um mundo encantatório,
povoado por figuras como o Pokémon ou
entram em esquemas de bullying virtual,
matéria fácil para redes criminosas de
assédio e jogos perigosos que os levam à
automutilação ou até ao suicídio (Baleia
Azul). Esses são sem dúvida temas sociais
significativos e nos quais se projeta a
sociedade no seu conjunto.
Tal como a delinquência e o crime não são
exclusivo dos que transportam o anátema
da “marginalidade”, também a criatividade
cultural e a capacidade performativa não
são exclusivo de segmentos ricos em capital
educacional. Por exemplo, os “Rolezinhos”
e outras formas
de arte de rua,
em cidades
como São Paulo,
exprimem bem as
lutas identitárias
da juventude
suburbana. Por
outro lado, grupos
de teenagers, ainda
que oriundos
de estratos
privilegiados,
excedem-se
frequentemente
em ambientes
de farra, podem
violentar e humilhar
colegas ou mesmo
vandalizar serviços
e instituições. Em
dinâmicas de grupo,
Sociólogo,professordaFaculdadede
EconomiadaUniversidadedeCoimbra
ElísioEstanque
Juventude bloqueada?
Velhas causas e novos desafios (II)
O
plural “juventudes” será
provavelmente mais
apropriado, até porque só em
momentos extraordinários
esta categoria sociológica
pode emergir como sujeito
coletivo. Entre a diversidade
individualista e o grito de
uma rebelião de massas pode
distar apenas um pequeno
passo, ou seja, entre os ambientes de
consumo, alienação e excesso e as formas
mais abertas de protesto coletivo existem
vínculos socioculturais que importa não
menosprezar. A juventude já o demonstrou
em diferentes épocas e continua a mostrá-
lo no dia-a-dia, embora muitas vezes
em latitudes distantes e fora das nossas
preocupações eurocêntricas.
O potencial das novas gerações só pode
compreender-se justapondo o passado e o
presente. As lutas marcantes da segunda
metade do século XX, incluindo meios tão
diversos como organizações bombistas ou
ações de massas, ideologias tão díspares
como os grupos anarquistas, socialistas,
nacionalistas, leninistas, maoístas, etc.,
povoaram o imaginário coletivo desde o
pós-II Guerra. E nem a implosão das velhas
utopias nem a chegada das novas promessas
e ameaças da globalização neoliberal
afastaram o protagonismo da juventude do
palco dos acontecimentos sociais e políticos
à escala mundial. Fosse com os movimentos
de resistência à repressão e os mártires
caídos em luta, fosse pela simplicidade
desarmante do movimento hippie, das flores
no cabelo e do “make love not war”, os estilos
de vida constitutivos da juventude moderna
impuseram viragens decisivas, linguagens
e reportórios inovadores nas democracias
ocidentais.
É claro que não existe homogeneidade.
A idade não apaga as diferentes classes
sociais, condições económicas e de status
que constituem a herança, desde o berço,
que marca as trajetórias pessoais de cada
um. Para entendermos estas atmosferas no
seu sentido profundo é necessário atentar
no significado político das culturas juvenis.
Neste puzzle tão policromático, a marca da
juventude pode metamorfosear-se, mas a
irreverência persiste (ainda que fora dos
eixos da política). Oriundos de bairros
periféricos das grandes metrópoles ou das
como por exemplo as praxes académicas,
as claques de futebol ou em viagens de
finalistas, estamos perante jovens “normais”
que, atraídos pelo magnetismo do coletivo,
são capazes de cometer os piores excessos e
loucuras sem se darem conta disso, a não ser
após as coisas descambarem para a tragédia.
Há uma espécie de oscilação pendular
entre este tipo de fenómenos de “anomia”
e as ações de protesto coletivo, que tende a
alternar-se em função das crises, esperanças
e bloqueios que em cada ciclo se atravessam
no horizonte das camadas jovens. Acresce
que, no seio dos grandes palcos da rebelião,
o dramatismo e a festa convivem lado a lado.
Das últimas décadas do século XX à entrada
no novo milénio, de Tiananmen a Seattle,
de Paris a Santiago do Chile, de Londres a
São Paulo, de Atenas a Madrid, de Kiev a
Nova Iorque, a Primavera Árabe, o Maidan,
o Occupy Wall Street, os Indignados, a
Geração à Rasca e o Que Se Lixe a Troika, o
Movimento Passe Livre, etc., são todos eles
nomes que invocam lugares e movimentos
reveladores do protagonismo da juventude
e da sua relevância sociopolítica nas mais
diversas latitudes e momentos históricos.
Em Portugal, lembramo-nos bem do slogan
de 2011 “Precários nos querem, rebeldes
nos terão!”, gritado no momento em que se
intensificava o flagelo da precariedade, cujo
alvo principal é a juventude. Em sucessivos
protestos, ocupações e manifestações de
rua nas últimas décadas, foram os jovens,
com os seus iPhones, as suas selfies e
vídeos, que rapidamente contaminaram
o ciberespaço “público” e mobilizaram
milhões. O hedonismo e o narcisismo não
desaparecem perante a indignação coletiva.
Individualismo e coletivismo tornaram-
se elementos decisivos e indissociáveis na
própria estruturação identitária da atual
juventude.
Hoje, quando a “opinião publicada” é
Aatual
juventude
internacional
éportadora
deumsentido
cosmopolitae
humanista
geralmente tão pessimista em relação a
cenários de futuro, um estudo recente
(Generation What?) sobre atitudes e práticas
da juventude europeia em cerca de 30 países
trouxe-nos alguns dados curiosos: 62%
dos jovens europeus afirmam-se dispostos
a integrar um levantamento geral contra
os governos; 57% concordam que a UE é
um projeto necessário ou o único que lhes
pode oferecer um futuro; 76% afirmam
sentir-se “europeus” (em Portugal, 79%);
63% preocupam-se com o crescimento do
nacionalismo na Europa; 71% afirmam ter
amigos noutros países europeus; 62% dizem-
se otimistas quanto ao futuro; 91% são contra
as injustiças; 62% contra o individualismo;
84% afirmaram que podem ser felizes fora
do seu país natal (em Portugal 85%); 74%
concordam que a crise económica afetou as
suas vidas; 83% não confiam nos políticos
(em Portugal 87%); 89% concordam que a
banca e o dinheiro governam o mundo; e
80% sabem que não se alcança o sucesso
sem alguma solidariedade.
Estes dados são bem ilustrativos do
sentido cosmopolita e humanista de que a
atual juventude internacional é portadora.
Sem dúvida que estão em marcha profundas
transformações sociais e estas incluem
não apenas os momentos de rutura e
conflito, mas também os períodos de
sedimentação de novas referências e valores,
até que novos paradigmas e modos de vida
ganhem visibilidade. Há uma revolução
lenta e silenciosa que está em curso,
nomeadamente devido ao efeito dos cerca
de cinco milhões de bolsas Erasmus ao
longo de três décadas. E esta juventude, que
nasceu e cresceu em democracia, habituada
à mobilidade transnacional, que domina
em pleno os novos meios informáticos e
que usa as plataformas interativas como o
principal meio de socialização, informação
e politização, é a geração que está a forjar
o mundo de amanhã. Um mundo onde a
imprevisibilidade e fluidez das relações
obedecem a novos critérios; um mundo
onde o sentido do tempo, as formas
de trabalho e de lazer se estão a alterar
radicalmente. Um mundo onde as novas
tecnologias, a robótica, a Internet das Coisas,
etc., estão a alterar os nossos modos de vida,
mas no qual o individualismo e a desafetação
dos laços sociais no face-a-face dificilmente
podem ser substituídos por essa nova
simbologia difundida pelas redes virtuais do
ciberespaço. Como a juventude de amanhã
reafirmará a sua vontade e capacidade
transformadora no plano cívico-político-
cultural é uma questão para a qual as “bolas
de cristal” da inteligência artificial ainda não
têm uma resposta.
NELSON GARRIDO
Individualismo e coletivismo
tornaram-se elementos
decisivos e indissociáveis
da atual juventude
ESPAÇOPÚBLICO

Ee juventude bloqueada (ii) publico_2017.05

  • 1.
    Os direitos depropriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A. Público • Sexta-feira, 19 de Maio de 2017 • 51 famílias instaladas e bem-comportadas das classes médias urbanas, grupos de jovens e adolescentes podem tornar-se focos de agitação e criatividade. Ainda adolescentes, são socializados pelas redes sociais, transportam no bolso a nova parafernália de gadgets informáticos e deixam-se levar na vertigem de um mundo encantatório, povoado por figuras como o Pokémon ou entram em esquemas de bullying virtual, matéria fácil para redes criminosas de assédio e jogos perigosos que os levam à automutilação ou até ao suicídio (Baleia Azul). Esses são sem dúvida temas sociais significativos e nos quais se projeta a sociedade no seu conjunto. Tal como a delinquência e o crime não são exclusivo dos que transportam o anátema da “marginalidade”, também a criatividade cultural e a capacidade performativa não são exclusivo de segmentos ricos em capital educacional. Por exemplo, os “Rolezinhos” e outras formas de arte de rua, em cidades como São Paulo, exprimem bem as lutas identitárias da juventude suburbana. Por outro lado, grupos de teenagers, ainda que oriundos de estratos privilegiados, excedem-se frequentemente em ambientes de farra, podem violentar e humilhar colegas ou mesmo vandalizar serviços e instituições. Em dinâmicas de grupo, Sociólogo,professordaFaculdadede EconomiadaUniversidadedeCoimbra ElísioEstanque Juventude bloqueada? Velhas causas e novos desafios (II) O plural “juventudes” será provavelmente mais apropriado, até porque só em momentos extraordinários esta categoria sociológica pode emergir como sujeito coletivo. Entre a diversidade individualista e o grito de uma rebelião de massas pode distar apenas um pequeno passo, ou seja, entre os ambientes de consumo, alienação e excesso e as formas mais abertas de protesto coletivo existem vínculos socioculturais que importa não menosprezar. A juventude já o demonstrou em diferentes épocas e continua a mostrá- lo no dia-a-dia, embora muitas vezes em latitudes distantes e fora das nossas preocupações eurocêntricas. O potencial das novas gerações só pode compreender-se justapondo o passado e o presente. As lutas marcantes da segunda metade do século XX, incluindo meios tão diversos como organizações bombistas ou ações de massas, ideologias tão díspares como os grupos anarquistas, socialistas, nacionalistas, leninistas, maoístas, etc., povoaram o imaginário coletivo desde o pós-II Guerra. E nem a implosão das velhas utopias nem a chegada das novas promessas e ameaças da globalização neoliberal afastaram o protagonismo da juventude do palco dos acontecimentos sociais e políticos à escala mundial. Fosse com os movimentos de resistência à repressão e os mártires caídos em luta, fosse pela simplicidade desarmante do movimento hippie, das flores no cabelo e do “make love not war”, os estilos de vida constitutivos da juventude moderna impuseram viragens decisivas, linguagens e reportórios inovadores nas democracias ocidentais. É claro que não existe homogeneidade. A idade não apaga as diferentes classes sociais, condições económicas e de status que constituem a herança, desde o berço, que marca as trajetórias pessoais de cada um. Para entendermos estas atmosferas no seu sentido profundo é necessário atentar no significado político das culturas juvenis. Neste puzzle tão policromático, a marca da juventude pode metamorfosear-se, mas a irreverência persiste (ainda que fora dos eixos da política). Oriundos de bairros periféricos das grandes metrópoles ou das como por exemplo as praxes académicas, as claques de futebol ou em viagens de finalistas, estamos perante jovens “normais” que, atraídos pelo magnetismo do coletivo, são capazes de cometer os piores excessos e loucuras sem se darem conta disso, a não ser após as coisas descambarem para a tragédia. Há uma espécie de oscilação pendular entre este tipo de fenómenos de “anomia” e as ações de protesto coletivo, que tende a alternar-se em função das crises, esperanças e bloqueios que em cada ciclo se atravessam no horizonte das camadas jovens. Acresce que, no seio dos grandes palcos da rebelião, o dramatismo e a festa convivem lado a lado. Das últimas décadas do século XX à entrada no novo milénio, de Tiananmen a Seattle, de Paris a Santiago do Chile, de Londres a São Paulo, de Atenas a Madrid, de Kiev a Nova Iorque, a Primavera Árabe, o Maidan, o Occupy Wall Street, os Indignados, a Geração à Rasca e o Que Se Lixe a Troika, o Movimento Passe Livre, etc., são todos eles nomes que invocam lugares e movimentos reveladores do protagonismo da juventude e da sua relevância sociopolítica nas mais diversas latitudes e momentos históricos. Em Portugal, lembramo-nos bem do slogan de 2011 “Precários nos querem, rebeldes nos terão!”, gritado no momento em que se intensificava o flagelo da precariedade, cujo alvo principal é a juventude. Em sucessivos protestos, ocupações e manifestações de rua nas últimas décadas, foram os jovens, com os seus iPhones, as suas selfies e vídeos, que rapidamente contaminaram o ciberespaço “público” e mobilizaram milhões. O hedonismo e o narcisismo não desaparecem perante a indignação coletiva. Individualismo e coletivismo tornaram- se elementos decisivos e indissociáveis na própria estruturação identitária da atual juventude. Hoje, quando a “opinião publicada” é Aatual juventude internacional éportadora deumsentido cosmopolitae humanista geralmente tão pessimista em relação a cenários de futuro, um estudo recente (Generation What?) sobre atitudes e práticas da juventude europeia em cerca de 30 países trouxe-nos alguns dados curiosos: 62% dos jovens europeus afirmam-se dispostos a integrar um levantamento geral contra os governos; 57% concordam que a UE é um projeto necessário ou o único que lhes pode oferecer um futuro; 76% afirmam sentir-se “europeus” (em Portugal, 79%); 63% preocupam-se com o crescimento do nacionalismo na Europa; 71% afirmam ter amigos noutros países europeus; 62% dizem- se otimistas quanto ao futuro; 91% são contra as injustiças; 62% contra o individualismo; 84% afirmaram que podem ser felizes fora do seu país natal (em Portugal 85%); 74% concordam que a crise económica afetou as suas vidas; 83% não confiam nos políticos (em Portugal 87%); 89% concordam que a banca e o dinheiro governam o mundo; e 80% sabem que não se alcança o sucesso sem alguma solidariedade. Estes dados são bem ilustrativos do sentido cosmopolita e humanista de que a atual juventude internacional é portadora. Sem dúvida que estão em marcha profundas transformações sociais e estas incluem não apenas os momentos de rutura e conflito, mas também os períodos de sedimentação de novas referências e valores, até que novos paradigmas e modos de vida ganhem visibilidade. Há uma revolução lenta e silenciosa que está em curso, nomeadamente devido ao efeito dos cerca de cinco milhões de bolsas Erasmus ao longo de três décadas. E esta juventude, que nasceu e cresceu em democracia, habituada à mobilidade transnacional, que domina em pleno os novos meios informáticos e que usa as plataformas interativas como o principal meio de socialização, informação e politização, é a geração que está a forjar o mundo de amanhã. Um mundo onde a imprevisibilidade e fluidez das relações obedecem a novos critérios; um mundo onde o sentido do tempo, as formas de trabalho e de lazer se estão a alterar radicalmente. Um mundo onde as novas tecnologias, a robótica, a Internet das Coisas, etc., estão a alterar os nossos modos de vida, mas no qual o individualismo e a desafetação dos laços sociais no face-a-face dificilmente podem ser substituídos por essa nova simbologia difundida pelas redes virtuais do ciberespaço. Como a juventude de amanhã reafirmará a sua vontade e capacidade transformadora no plano cívico-político- cultural é uma questão para a qual as “bolas de cristal” da inteligência artificial ainda não têm uma resposta. NELSON GARRIDO Individualismo e coletivismo tornaram-se elementos decisivos e indissociáveis da atual juventude ESPAÇOPÚBLICO