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Público • Terça-feira, 11 de Julho de 2017 • 47
de contribuição e, praticamente, elimina
o direito à aposentação de milhões de
cidadãos, em especial os que se encontram
na zona da economia informal.
Com as sondagens a revelar uma
“popularidade” nuns míseros 7%, o índice
mais baixo em três décadas, é difícil
acreditar que a campanha pelas eleições
“diretas já!” não tenha ainda arrancado no
país. Naturalmente, existem muitas razões
para isso. No entanto, e apesar do esforço
dos movimentos sociais, em especial, da
Frente Povo sem Medo, uma coligação
liderada pelo Movimento dos Trabalhadores
sem Teto (MTST)
e de alguns
partidos políticos
esquerdistas, caso
do PSOL, por
exemplo, a verdade
é que a mobilização
popular contra
Michel Temer tem
esbarrado nos
últimos tempos
numa certa
reticência por
parte da principal
liderança popular da
história brasileira:
Luiz Inácio Lula da
Silva.
Claro favorito
às eleições
presidenciais
marcadas para
o próximo ano,
Lula da Silva
parece sentir-se
Sociólogo,professordaUniversidade
deSãoPaulo;sociólogo,professor
daFaculdadedeEconomia
daUniversidadedeCoimbra
RuyBragaeElísioEstanque
Uma “geringonça” para o Brasil?
A
atual situação do Brasil suscita
da parte da opinião pública
internacional sentimentos
contraditórios, alguns dos
quais duvidando da própria
viabilidade da democracia e
de um projeto progressista
neste país. Após as inegáveis
conquistas alcançadas pelos
primeiros governos do PT,
a economia entrou em recuo e, com o
polémico processo de deposição da ex-
Presidente Dilma Rousseff, a sociedade
brasileira mostra-se mais dividida do
que nunca sem que se vislumbre no
horizonte uma saída credível. É perante
esse cenário e animados pela inquietação
daí decorrente que apresentamos uma
leitura (assumidamente engajada) da atual
conjuntura política do país, a partir dos
olhares cruzados de cada um dos lados
do Atlântico.
A absolvição da chapa Dilma-Temer no
passado dia 9 de junho (numa votação 4-3
e contra o parecer do relator, o ministro
Herman Benjamin), por parte do Tribunal
Superior Eleitoral, pareceu garantir algum
fôlego ao governo Temer. No entanto, a
denúncia apresentada no Congresso pelo
procurador-geral da República (PGR),
Rodrigo Janot, acusando Temer de ser o
real destinatário do pagamento de 500
mil reais numa mala enviada pela empresa
JBS — propriedade dos irmãos Batista (José,
Joesley e Wesley), é hoje um dos maiores
grupos económicos brasileiros, atuando
no setor das carnes, fundado em Goiás na
década de 1950 e que beneficiou dos apoios
do Banco Nacional do Desenvolvimento/
BNDES —, veio repor os termos do dilema
brasileiro: não há saída para a atual crise
política que dispense a soberania popular,
ou seja, a mobilização da sociedade civil.
As recentes manobras do presidente do
Parlamento, Rodrigo Maia, tramando contra
o atual Presidente não deixam dúvidas: o
governo Temer balança trôpego entre a
sua defesa jurídica perante a abundância
de provas de corrupção produzida pela
Polícia Federal e a tentativa, cada dia mais
desesperada, de aprovar as suas reformas
antipopulares: a legislação laboral, que
suprime direitos e fragiliza o sistema de
proteção do trabalhador brasileiro, e a
Segurança Social, que aumenta o tempo
desconfortável com as implicações de um
eventual derrube do governo ilegítimo
de Temer por um maciço movimento
popular impulsionado por forças políticas
à esquerda do seu partido. Quais seriam
as implicações políticas de um movimento
desta natureza para a “governabilidade”
do país, leia-se, para os acordos com os
possíveis aliados no Congresso para a
formação de um novo governo liderado
pelo PT? “De que adianta Temer cair
pela pressão popular se não houver uma
mudança na composição do Congresso
Nacional?”, parece ser esta a angústia de
Lula da Silva. Isso talvez ajude a explicar as
atuais negociações da direção majoritária do
PT (com o deputado conservador Rodrigo
Maia) para afastar Michel Temer do poder.
Além disso, o PT está muito mais
preocupado em defender Lula das
acusações da operação Lava-Jato,
assegurando assim a sua participação na
eleição agendada para o próximo ano,
do que investir na mobilização das suas
bases sindicais a fim de derrubar o atual
governo. A desmarcação da greve geral
inicialmente prevista para o dia 30 de junho
aponta nesse sentido. Fica claro que Lula
da Silva está com a cabeça em 2018. Por
outro lado, a liderança petista está ciente
de que Lula da Silva pode muito bem ser
condenado nas duas primeiras instâncias do
sistema judiciário brasileiro, situação que
inviabilizaria a sua candidatura em 2018. A
somar a tudo isso paira no ar o problema
nevrálgico de um eventual terceiro mandato
do líder petista: com qual agenda social e
económica Lula irá governar?
Aparentemente, a resposta é simples.
Umeventual
novogoverno
petistateráde
rompercom
tudoaquilo
quedeuerrado
nopassado
recente
Lula da Silva está prometendo uma versão
atualizada dos “PAC”, Programas de
Aceleração do Crescimento, já testados em
seus mandatos. Trata-se de um plano de
investimentos em infraestruturas associado
a estímulos ao agronegócio, às mineradoras
e ao setor do petróleo, encimado pela
oferta de crédito para os consumidores
adquirirem frigoríficos, carro e casa própria.
Uma repetição dos anos 2006-2014, como
é possível perceber. Além dos limites
impostos ao sucesso deste modelo de
desenvolvimento pelo fim do superciclo das
“commodities” e pela crise da globalização
iniciada em 2008, a verdade é que tal
modelo foi incapaz de produzir empregos
de qualidade para a classe trabalhadora, de
sustentar o crescimento económico ou de
reverter a desindustrialização promovida
pela globalização. Na realidade, este
modelo multiplicou o trabalho precário e
o endividamento das famílias dos setores
subarternos.
No momento em que a crise política
se agrava e a economia não dá sinais
consistentes de reação, o Brasil apela a um
modelo alternativo de desenvolvimento.
O país carece de um novo caminho que
aposte na proteção do trabalhador, na
defesa dos direitos sociais, na retomada
do investimento público, na distribuição
de renda, na redução das desigualdades
e na preservação ambiental. Para tanto,
seria fundamental que as forças políticas
progressistas fossem capazes, primeiro, de
desenhar uma aliança realista e consistente
entre elas e, segundo, ousassem enfrentar
a financeirização e o estímulo ao rentismo
(que no Brasil se alimenta de uma das mais
altas taxas de juro praticadas no planeta).
Para caminhar nessa direção, um eventual
novo governo petista terá de romper com
tudo aquilo que, na sua essência, deu errado
no passado recente. Já basta de “mais do
mesmo”. Há que por fim a esquemas entre
o poder político e o mundo empresarial
(como os casos da Odebrecht ou da JBS). O
Brasil necessita de uma agenda económica
e social capaz de fortalecer o seu frágil
Estado social. Para tanto, o PT precisa dar
uma guinada radical à esquerda. A recente
reunião entre representantes da Frente
Povo sem Medo, do PSOL e de grupos da
esquerda do PT avança nesta direção. A
reação mal-humorada de Lula da Silva ao
encontro das esquerdas denota o tamanho
do desafio que os progressistas brasileiros
estão enfrentando. O país necessita de
uma “saída portuguesa”. Precisa de uma
“geringonça”.
FERNANDO BIZERRA JR./EPA
No momento em que a crise
se agrava, o Brasil apela
a um modelo alternativo
de desenvolvimento
ESPAÇOPÚBLICO

Uma 'geringonça' para o Brasil?

  • 1.
    Os direitos depropriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A. Público • Terça-feira, 11 de Julho de 2017 • 47 de contribuição e, praticamente, elimina o direito à aposentação de milhões de cidadãos, em especial os que se encontram na zona da economia informal. Com as sondagens a revelar uma “popularidade” nuns míseros 7%, o índice mais baixo em três décadas, é difícil acreditar que a campanha pelas eleições “diretas já!” não tenha ainda arrancado no país. Naturalmente, existem muitas razões para isso. No entanto, e apesar do esforço dos movimentos sociais, em especial, da Frente Povo sem Medo, uma coligação liderada pelo Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) e de alguns partidos políticos esquerdistas, caso do PSOL, por exemplo, a verdade é que a mobilização popular contra Michel Temer tem esbarrado nos últimos tempos numa certa reticência por parte da principal liderança popular da história brasileira: Luiz Inácio Lula da Silva. Claro favorito às eleições presidenciais marcadas para o próximo ano, Lula da Silva parece sentir-se Sociólogo,professordaUniversidade deSãoPaulo;sociólogo,professor daFaculdadedeEconomia daUniversidadedeCoimbra RuyBragaeElísioEstanque Uma “geringonça” para o Brasil? A atual situação do Brasil suscita da parte da opinião pública internacional sentimentos contraditórios, alguns dos quais duvidando da própria viabilidade da democracia e de um projeto progressista neste país. Após as inegáveis conquistas alcançadas pelos primeiros governos do PT, a economia entrou em recuo e, com o polémico processo de deposição da ex- Presidente Dilma Rousseff, a sociedade brasileira mostra-se mais dividida do que nunca sem que se vislumbre no horizonte uma saída credível. É perante esse cenário e animados pela inquietação daí decorrente que apresentamos uma leitura (assumidamente engajada) da atual conjuntura política do país, a partir dos olhares cruzados de cada um dos lados do Atlântico. A absolvição da chapa Dilma-Temer no passado dia 9 de junho (numa votação 4-3 e contra o parecer do relator, o ministro Herman Benjamin), por parte do Tribunal Superior Eleitoral, pareceu garantir algum fôlego ao governo Temer. No entanto, a denúncia apresentada no Congresso pelo procurador-geral da República (PGR), Rodrigo Janot, acusando Temer de ser o real destinatário do pagamento de 500 mil reais numa mala enviada pela empresa JBS — propriedade dos irmãos Batista (José, Joesley e Wesley), é hoje um dos maiores grupos económicos brasileiros, atuando no setor das carnes, fundado em Goiás na década de 1950 e que beneficiou dos apoios do Banco Nacional do Desenvolvimento/ BNDES —, veio repor os termos do dilema brasileiro: não há saída para a atual crise política que dispense a soberania popular, ou seja, a mobilização da sociedade civil. As recentes manobras do presidente do Parlamento, Rodrigo Maia, tramando contra o atual Presidente não deixam dúvidas: o governo Temer balança trôpego entre a sua defesa jurídica perante a abundância de provas de corrupção produzida pela Polícia Federal e a tentativa, cada dia mais desesperada, de aprovar as suas reformas antipopulares: a legislação laboral, que suprime direitos e fragiliza o sistema de proteção do trabalhador brasileiro, e a Segurança Social, que aumenta o tempo desconfortável com as implicações de um eventual derrube do governo ilegítimo de Temer por um maciço movimento popular impulsionado por forças políticas à esquerda do seu partido. Quais seriam as implicações políticas de um movimento desta natureza para a “governabilidade” do país, leia-se, para os acordos com os possíveis aliados no Congresso para a formação de um novo governo liderado pelo PT? “De que adianta Temer cair pela pressão popular se não houver uma mudança na composição do Congresso Nacional?”, parece ser esta a angústia de Lula da Silva. Isso talvez ajude a explicar as atuais negociações da direção majoritária do PT (com o deputado conservador Rodrigo Maia) para afastar Michel Temer do poder. Além disso, o PT está muito mais preocupado em defender Lula das acusações da operação Lava-Jato, assegurando assim a sua participação na eleição agendada para o próximo ano, do que investir na mobilização das suas bases sindicais a fim de derrubar o atual governo. A desmarcação da greve geral inicialmente prevista para o dia 30 de junho aponta nesse sentido. Fica claro que Lula da Silva está com a cabeça em 2018. Por outro lado, a liderança petista está ciente de que Lula da Silva pode muito bem ser condenado nas duas primeiras instâncias do sistema judiciário brasileiro, situação que inviabilizaria a sua candidatura em 2018. A somar a tudo isso paira no ar o problema nevrálgico de um eventual terceiro mandato do líder petista: com qual agenda social e económica Lula irá governar? Aparentemente, a resposta é simples. Umeventual novogoverno petistateráde rompercom tudoaquilo quedeuerrado nopassado recente Lula da Silva está prometendo uma versão atualizada dos “PAC”, Programas de Aceleração do Crescimento, já testados em seus mandatos. Trata-se de um plano de investimentos em infraestruturas associado a estímulos ao agronegócio, às mineradoras e ao setor do petróleo, encimado pela oferta de crédito para os consumidores adquirirem frigoríficos, carro e casa própria. Uma repetição dos anos 2006-2014, como é possível perceber. Além dos limites impostos ao sucesso deste modelo de desenvolvimento pelo fim do superciclo das “commodities” e pela crise da globalização iniciada em 2008, a verdade é que tal modelo foi incapaz de produzir empregos de qualidade para a classe trabalhadora, de sustentar o crescimento económico ou de reverter a desindustrialização promovida pela globalização. Na realidade, este modelo multiplicou o trabalho precário e o endividamento das famílias dos setores subarternos. No momento em que a crise política se agrava e a economia não dá sinais consistentes de reação, o Brasil apela a um modelo alternativo de desenvolvimento. O país carece de um novo caminho que aposte na proteção do trabalhador, na defesa dos direitos sociais, na retomada do investimento público, na distribuição de renda, na redução das desigualdades e na preservação ambiental. Para tanto, seria fundamental que as forças políticas progressistas fossem capazes, primeiro, de desenhar uma aliança realista e consistente entre elas e, segundo, ousassem enfrentar a financeirização e o estímulo ao rentismo (que no Brasil se alimenta de uma das mais altas taxas de juro praticadas no planeta). Para caminhar nessa direção, um eventual novo governo petista terá de romper com tudo aquilo que, na sua essência, deu errado no passado recente. Já basta de “mais do mesmo”. Há que por fim a esquemas entre o poder político e o mundo empresarial (como os casos da Odebrecht ou da JBS). O Brasil necessita de uma agenda económica e social capaz de fortalecer o seu frágil Estado social. Para tanto, o PT precisa dar uma guinada radical à esquerda. A recente reunião entre representantes da Frente Povo sem Medo, do PSOL e de grupos da esquerda do PT avança nesta direção. A reação mal-humorada de Lula da Silva ao encontro das esquerdas denota o tamanho do desafio que os progressistas brasileiros estão enfrentando. O país necessita de uma “saída portuguesa”. Precisa de uma “geringonça”. FERNANDO BIZERRA JR./EPA No momento em que a crise se agrava, o Brasil apela a um modelo alternativo de desenvolvimento ESPAÇOPÚBLICO