SlideShare uma empresa Scribd logo
UNIVERSIDADE       FEDERAL       DE       MINAS   GERAIS




   Curso de Especialização em História e Culturas Políticas

   Disciplina: Utopia e imaginação políticas




Há uma concepção utópica no pensamento marxista?




                 Renzo Martins da Silva




              Belo Horizonte, Maio de 2007.



HÁ UMA CONCEPÇÃO UTÓPICA NO PENSAMENTO MARXISTA?
2

     Quando encaminhamos uma análise do desenvolvimento da ideologia

socialista do século XIX, duas palavras emergem inexoravelmente: utopia

e   ciência.    Sendo       assim,    qual    significado    atribuir    a    essas     duas

terminologias? Sem o devido aprofundamento e uma análise acadêmica de

tais palavras, utopia é vinculada aos sonhos de uma pessoa, ou grupo de

pessoas, que dificilmente se concretizaria na vida real. Os caminhos

pensados para a concretização desses sonhos estariam desvinculados das

condições      reais   de    existência,      apresentando       um   nível   elevado     de

subjetividade. Por outro lado, a palavra ciência nos possibilita vinculá-la a

uma análise mais racional dessas condições de existência (sejam elas

políticas, sociais, econômicas, religiosas ou culturais) de uma sociedade

em um determinado contexto histórico. Esse cientificismo se fundamenta

na reflexão das informações e experiência vividas por esses sujeitos

históricos no referido contexto.

     Partindo muitas vezes dessa visão reducionista e simplista que o

senso comum atribui a essas duas palavras, podemos dizer que essa

concepção foi excluída da teoria marxista?

     Segundo o dicionário Houaiss, utopia vincula-se “a um projeto de

natureza     irrealizável,    ideia   generosa,      porém       impraticável;   quimera,

fantasia”. Sendo assim, podemos dizer que o projeto científico-marxista se

concretizou na vida real?

     Certa      vez,   um    professor,      analisando    junto   aos   seus    alunos    o

processo       de   consolidação      do      socialismo    na     URSS,      pontuou     as

contradições existentes entre a proposta de construção de uma sociedade

socialmente igualitária, mais justa, onde todos os representantes das

classes sociais que a compusesse (fossem eles operários, camponeses,

soldados, administradores burocratas ou tecnocratas) teriam vez e voz nas

discussões e nas decisões políticas do Estado, e aquela que efetivamente

se configurou após o processo revolucionário na URSS com a ascensão e
3

Stalin ao poder. Entretanto, o que se verificou foi uma verticalização do

poder      (uma     centralização      do    poder     político       fundamentada          no

unipartidarismo,      na    censura,   na    repressão     inexorável      dos     supostos

opositores ao regime instituído). Um aluno levantou então a seguinte

questão: será que podemos falar que o socialismo científico preconizado

por Karl Marx e Friedrich Engels se concretizou? Se não podemos dizer

que o socialismo cientifico é utópico, é de capital importância levantarmos

um outro questionamento: é possível identificarmos o elemento utópico no

pensamento marxista?

     A nossa principal preocupação no decorrer desse texto é verificar e

entender a existência ou não desse elemento utópico no pensamento

marxista, e se a idealização dessa sociedade socialista encaminhada pelas

classes revolucionárias da sociedade (o proletário, o camponês e os

soldados), se concretizou. Para isso, faremos uma sucinta análise do

desenvolvimento dessa concepção utópica.

     Tanto para Adolfo Sánchez Vázquez(1) quanto para Teixeira Coelho(2),

a utopia é inerente à história da humanidade. Podemos identificá-la em

meio ao pensamento sagrado das comunidades primitivas historicamente

conhecidas. Nestas, a imaginação utópica(3), termo explicitado por Teixeira

Coelho para estabelecer um vínculo entre o sonho e o real, é detectável na

formulação de crenças e lendas que apontam para um futuro melhor do que

aquele vivido. Na República idealizada por Platão, se estabeleceria uma

organização       social,   econômica,      política   e   administrativa        perfeita    e

atemporal. Apesar de todas as contradições que hoje podemos destacar

nessa proposta utópica de Platão (a manutenção da divisão social e três

classes:    aqueles     que   governam,      os   auxiliares      e   a   terceira    classe

constituída   pelo     restante   da   população;      o   estabelecimento           de   uma
4

educação somente na velhice; eleições por indicação....), era um ideal de

sociedade a ser alcançada.


(1) VÁZQUEZ,A. Sánchez.Entre a realidade e a utopia: ensaios sobre política, moral e socialsmo.Rio

      de Janeiro: Civilizção Brasileira,2001. pág.354.

(2) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.14.

(3) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.08/11.


      Teixeira,     citando        Karl   Mannhein,      menciona     a    exitência    de   “(...)

diversos tipos de mentalidade utopista, cada um deles implicando um

programa especifico”.        (4)


      O primeiro deles está ligado ao surgimento de uma mentalidade

messiânica marcada pelo fanatismo religioso. Para essa corrente utópica,

embora recorram ao elemento religioso como norteador de seus ideais,

almejam     a sua      concretização nesta vida. Ao contrário                   daquela visão

utópica medieval, segunda a qual, a idealização e realização de uma vida

melhor não se completaria nesta vida, mas após findada nossa existência.

Contudo,     tais    utopias       messiânicas,       não   apresentam       uma      consciência

plena, para não dizer racional-científica, intrínceca à sua condição, que a

possibilitasse encaminhar uma revolução social.

      O segundo modelo de mentalidade utópica apontado por Teixeira,

está ligado à ”(...) presença de ideias liberal-humanitárias”(5). Um dos

representantes         desse        modelo      foi      Thomas      More.     Embora        tenha

desenvolvido um projeto de sociedade mais justa do que aquela apresenta

por    Platão,      ainda    assim        apresentava       uma      postura    reacionária       e

conservadora.        More     era     um    homem        vinculado    ao     poder.     Advogado

respeitado, membro da corte de Henrique VIII, não explicitou em sua obra

mais conhecida e publicada em 1516, Utopia, uma visão revolucionária da

realidade da qual fazia parte. Essa sociedade de Utopia não teria dia e

hora marcada para concretizar-se. Muito menos um movimento que saísse
5

das   camadas       populares.      A    configuração          deste   modelo        de   sociedade

realmente apresentaria elementos bem mais justos e igualitários, como por

exemplo: redução da jornada de trabalho de oito horas; a inexistência da

propriedade privada; e havendo eleições, mesmo sendo estas indiretas.

Seria concretizado num futuro indefinido e sem assumir um caráter de

movimento revolucionário articulado pelas camadas populares de forma

consciente de sua condição social, política e econômica, que visse na luta

armada, o único meio de concretização de uma sociedade socialmente

igualitária através da abolição da propriedade privada burguesa.

(4) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.51/52.

(5) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.52.


      O terceiro modelo apresentado por Teixeira representa uma sintonia

com o contexto aos quais seus idealizadores estão inseridos. Entretanto, o

conservadorismo é traço marcante. Embora o que importa é o aqui e o

agora, procura resgatar valores e crenças do passado sem assumir uma

postura     revolucionária.      Thomas         Hobbes        e    William    Morris      seriam    os

idealizadores dessa corrente utópica.

       O quarto tipo representa o programa socialista-comunista que foi se

configurando       no   decorrer        do     século       XIX.   Este      rompe     com   aquela

concepção liberal que a antecede, buscando dar um caráter revolucionário

à realidade, destacando a concretização desse novo modelo utópico a

partir do fim do capitalismo. Nesse contexto surgem os socialistas que

mais tarde vão ser denominados por Marx e Engels de utópico: R. Owen,

H. de Saint’Simon e C. Fourier. Estes, denominados de utópicos, estão

inseridos    num     contexto     que        dividem    a    concepção       utópica-liberal       dos

séculos XVI / XVII e aquela utopia revolucionária que foi se configurando

no decorrer do século XIX(6).

      Não cabe aqui nos debruçarmos sobre cada uma dessas propostas

utópicas de Owen, Fourier e Saint’Simon por não constituir objeto de
6

nossa análise. Mas vale ressaltar sucintamente as razões que levaram

Marx e Engels a rotulá-los de utópicos para assim retomarmos as questões

levantadas no início desse trabalho.

      Marx e Engels fundamentaram suas críticas na impossibilidade de

tais “teóricos utópicos” elaborarem seus modelos de sociedade de forma

subjetiva,     sem     levar     em    consideração          a    participação       das        massas

populares, sobretudo o proletariado, na condução de uma transformação

revolucionária e total da realidade que lhe é inerente. A consecução dessa

nova sociedade imaginada pelos “utópicos”, deveria se dar de forma

pacífica e por aqueles que tivessem recursos financeiros e matérias. Ela

surgiria assim, de uma concessão da elite liberal-burguesa e de cima para

baixo. E não através de uma ação revolucionária das camadas populares.

(6) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.55.

Dessa forma, essa elite liberal-burguesa jamais abriria mão de seus

privilégios    políticos     e   econômicos       em    beneficio         de    um     “bando”      de

agitadores      desvairados       e    incompetentes.            Tais    modelos,       apesar      de

basearem      suas    teorias    e    críticas   nas   contradições            engendradas        pelo

desenvolvimento do capitalismo de seu tempo (falamos assim do início do

século XIX, momento do processo de consolidação do capitalismo através

da   Revolução       Industrial),      possuíam     “(...)       um     excesso   de       objetivos,

desconhecimento da realidade a transformar; fraqueza ou imaturidade dos

temas históricos e sociais que podem levar a cabo a revolução, assim

como a inadequação dos meios que se recorre para cumprir objetivos -,

seus esforços em consumar sua utopia redundam em fracasso”                           (7)
                                                                                           .

      A partir dessa crítica feita por Marx e Engels aos ditos pensadores do

socialismo utópico do início do século XIX, retomamos o questionamento

inicial:   podemos      dizer    que    a   concepção        utópica      faz   parte      da    teoria

marxista? A sociedade idealizada por Marx e Engels se concretizou?
7

      Para entendermos esses questionamentos, recorreremos as seguintes

colocações, no tocante à concepção utópica no marxismo, de Teixeira(8):

      E chega-se com isto ao limiar daquela que seria a mentalidade utopista de tipo

socialista-comunista, identificada exemplarmente nos projetos marxistas. Mas é aqui

que surge o problema: a teoria marxista configura de fato uma utopia? Segundo

Mennheim, sim – pois, classicamente, nenhum outro projeto de sociedade poderia

melhor se encaixar naquela que é a quarta forma de mentalidade utopista do que

marxismo.”


      Só para lembrarmos, o quarto tipo da mentalidade utópica pontuada

por Teixeira, passa pelo estabelecimento de análise crítica da realidade

histórica e social, baseada no projeto revolucionário. E na perspectiva de

concretizá-la com a derrocada do capitalismo.

(7) VÁZQUEZ,A. Sánchez.Entre a realidade e a utopia: ensaios sobre política, moral e socialsmo.Rio

      de Janeiro: Civilizção Brasileira,2001. pág.358.

(8) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.60.




      Vázquez também destaca esse elemento utópico na obra de Marx da

seguinte forma(9):

      Embora voltemos mais adiante a este “marxismo frio” – expressão também de

Bloch -, que interpreta à sua maneira determinista a crítica marxista clássica ao

“socialismo utópico”, vamos destacar desde já que a utopia, ou mais exatamente um

aspecto ou ingrediente utópico, não só faz parte do pensamento de Marx e do

marxismo “quente”, como também constitui um aspecto ou componente essencial dele,

em   unidade   indissolúvel    com   outros   que    também   o   são,   a   saber:   a   crítica   do

existente, o conhecimento da realidade que se critica e se pretende transformar e sua

vocação prática, ou vínculo com a ação.


      E Vázquez vai um pouco além, destacando que Marx “(...) escaldado

pelos excessos de imaginação dos “socialista utópicos”, foi muito tímido na

descrição da nova sociedade (...)”(10).
8

       Baseado nessas observações, quando idealizamos um futuro melhor a

partir das críticas que fazemos ao nosso tempo, não podemos dissociá-la

do seu caráter imaginativo. Quando Teixeira explica no início de seu livro

o que ele denomina de “imaginação utópica”, caracterizada pelo sonho,

pelo    sentimento       e   pela    intuição        (o   insight),     como    sendo     elementos

fundamentais         para    que     criemos         as     condições        necessárias    para    a

concretização desses sonhos. O que não podemos deixar acontecer, é que

fiquemos apenas tentando pensar esse mundo que vivemos apenas na

perspectiva       do   racional.      Sem       o    sonho,    como         menciona    Teixeira,   a

realidade “(...) é uma droga narcotizante como outra qualquer e a vida,

uma sequência de banalidades insípidas.                        (11)
                                                                      ”. E mais, excluindo essa

“imaginação utópica” da vida humana, estaríamos condenando essa mesma

sociedade       humana       à   morte.     E       nessa    linha     de   raciocínio,    considero

pertinente a observação de Teixeira quando menciona que:

(9) VÁZQUEZ,A. Sánchez.Entre a realidade e a utopia: ensaios sobre política, moral e socialsmo.Rio

       de Janeiro: Civilizção Brasileira,2001. pág.358.

(10) VÁZQUEZ,A. Sánchez.Entre a realidade e a utopia: ensaios sobre política, moral e socialsmo.Rio

       de Janeiro: Civilizção Brasileira,2001. pág.359.

(11) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.8 e 9.




       É ela (a imaginação utópica – destaque meu) que aponta para a pequena brecha

por onde o sucesso pode surgir, é ela que mantém em pé a crença numa outra vida.

Explodindo os quadros minimizadores da rotina, dos hábitos circulares, é ela que,

militando pelo otimismo, levanta a única hipótese capaz de nos manter vivos: de

mudar a vida. (12)


       E o pior de tudo, quando negligenciamos esse elemento digamos,

imaginativo e sonhador (do insight) da concepção utópica, corremos o

risco de criar monstros que tornarão essa sociedade uma verdadeira

barbárie. Ou no mínimo se colocarão acima da maioria da sociedade

impondo-lhes sua maneira de ver, pensar e agir no mundo. Nem que para

isso seja necessário a utilização da violência e eliminação física dos
9

supostos opositores. Essa dissociação fica evidente, principalmente nos

dias de hoje, quando Teixeira desenvolve a seguinte análise:

       Consciência hoje marginalizada (a do insight, a intuitiva – destaque meu),

reprimida      por    um   processo    cultural   ao    qual     interessa    a   máscara   de    um   falso

pensamento racional que encontra no estanqueamento, na separação dos modos de

pensar, uma maneira de controlar o grupo social. Quando a consciência meramente

racionalista, que se separa da outra (e que portanto não é consciência, nem racional,

porque perdeu sua unidade), prevalece na imaginação utópica (e não só nesta), de

fato   acaba    produzindo,     senão       monstros,     pelo   menos    excrescências     nos    projetos

utópicos.” (12)


       Quando nos deparamos com essa análise de Teixeira, começamos a

entender        as    distorções       na    teoria     marxista,      engendradas          a    partir   da

implantação do socialismo real após a Revolução Russa de 1917. Mas

devemos         deixar      claro     que     essa      distorção        da   “imaginação         utópica”

explicitada          por   Teixeira,     não      criou     monstro       somente      na       concepção

socialista marxista. Os fascismos que emergiram no período entre guerras

também são exemplos dessa dissociação no interior da unidade utópica.


(12) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.36.




       Essa distorção, de certa maneira também foi enfatizada por Leon

Trotsky no contexto da Revolução Russa. Este não criticou a eficácia da

fórmula revolucionária de Lênin. Mas criticou a cooptação da pequena e

média burguesia, por parte dos dirigentes do Estado, para obtenção de

privilégios e benesses de um Estado burocratizado. E ai Trotsky explicita:

       “Os chefes da classe média tinham subido àquelas alturas devido à força

formidável dos soldados, enquanto os membros da classe operária, exceto os

mais evoluídos, estavam obrigados                     a acatar os diretores do movimento e

manter-se em contato com eles, com risco de ficarem separados das massas

camponesas.” (13)
10

       E   ai    percebemos         que    as    críticas          formuladas               por        Trotsky,         se

confirmaram:        não     se   implantou       uma        Ditadura            do      Proletariado               como

preconizou Marx e Engels, mas sim, uma Ditadura sobre o Proletariado,

como o que está apresentado a seguir:

       Em momento nenhum Trotsky discute a eficácia da fórmula leninista. De sua perspectiva da
revolução como um processo social geral, o que teme é a ruptura entre o partido e a classe. A
anteposição do partido à classe (ou se quiser, do político ao social). Com a burocratização do aparelho
e a subseqüente perda da democracia interna consubstanciada em sua tradicional fórmula: “a
organização do partido substituirá o próprio partido;.o comitê central se sobreporá ao partido; e
finalmente, um ditador se imporá ao comitê central.”

                                                  ( MIRANDA,Orlando.Introdução. In: Trotsky: Política. SP: Ed. Ática, 1981. )

       Ninguém, e não faço exceção de Hitler, aplicou ao socialismo um golpe

tão mortal. Hitler ataca as organizações operárias no exterior. Stalin as ataca

no interior. Hitler destrói o marxismo; Stalin o prostitui. Não há princípio que

permaneça intacto; não há uma ideia que não tenha sido enlameada. Até mesmo

os termos socialismo e comunismo foram gravemente comprometidos, agora que

a   gendarmaria       incontrolável,       com     diplomas           de      ‘comunistas’,              chama          de

socialismo ao regime que impõe. Repugnante profanação!

                    (TROTSKY, Leon.Stalin e a burocracia. Trotsky: Política. São Paulo, Ática, 1981.)


(13) TROTSKY,Leon.Como fizemos a revolução; a revolução de novembro. 3ª ed.,São Paulo: Global,

        1978



       Podemos        assim      dizer    que,     quando            Marx         aborda           o     socialismo

pequeno-burguês no Manifesto Comunista, deixa nas entrelinhas o caráter

reacionário dessa classe que “deveria” se apresentar como a verdadeira

força motriz de uma transformação revolucionária da história. E até num

certo momento, foi realmente revolucionária. Mas, quando passou a ter a

possibilidade de desfrutar das sinecuras da estrutura montada no interior

dessa sociedade liberal-burguesa, assumiu uma conduta reacionária como

apresentado nessa passagem de sua obra:

       Nos países onde se desenvolveu a civilização moderna, formou-se uma

nova pequena burguesia, que está suspensa entre o proletariado e a burguesia
11
e se reconstitui sempre como parte complementar da sociedade burguesa; os

indivíduos que a compõe, no entanto, são constantemente precipitados no

proletariado pela concorrência e, com o desenvolvimento da grande indústria,

vêem aproximar-se o momento no qual desaparecerão completamente como

parte independente da sociedade moderna e serão substituídos por capatazes e

empregados no comércio, na manufatura, na agricultura.                    (14)


       Em outro momento dessa mesma obra, quando faz uma análise do

socialismo conservador ou burguês, esse caráter reacionário pequeno-

burguês novamente insurge:

       Uma parte da burguesia deseja remediar os males sociais para garantir a

existência da sociedade burguesa.        (15)


       Será     que    podemos      dizer       que      a      utopia   marxista,       mesmo         se

fundamentando em métodos científicos na análise das contradições da vida

humana, em nenhum aspecto se efetivou no plano real? Será que o fim do

socialismo real da URSS em 1991, colocou em xeque os paradigmas

utópicos das sociedades contemporânea?

(14)   ENGELS,Friedrich,MARX,Karl.Manifesto     do    Partido    Comunista.   3ª   ed.,Rio   de   Janeiro:

        Vozes,1990, pág.90.

(15)   ENGELS,Friedrich,MARX,Karl.Manifesto     do    Partido    Comunista.   3ª   ed.,Rio   de   Janeiro:

        Vozes,1990, pág.94.




       O desenvolvimento e consolidação do capitalismo desde o século

XVIII vem, paulatinamente minando a capacidade dos sujeitos históricos

de viabilizar suas utopias em um futuro próximo. Indiscutivelmente, essa

exacerbação do consumismo, do hedonismo e do egoísmo, somado à crise

moral e de valores pela qual as sociedades atuais enfrentam, reduz nossa

existência a um imediatismo sem a devida compreensão da realidade, nos

impossibilitando de projetar para um futuro melhor. Mas Vázquez, ao

mesmo tempo que destaca a crise dos paradigmas utópicos, enfatiza-os

como condição essencial da existência humana:
12
        Sua desaparição significaria a morte da sociedade em que ocorresse.

“Com o abandono das utopias”, diz Mannheim, “o homem perderia sua vontade

de dar forma à história e, portanto, sua capacidade de compreendê-la.”                              (16)


        Seguindo a mesma linha de raciocínio, Leandro Konder faz a seguinte

observação:

        Sem ceder à tentação de discorrer mais profusamente sobre o tema,

podemos dizer que, ao constituírem expressões das condições presentes em

que o utopista sonha o futuro, as utopias influem de algum modo sobre a

disposição com que as pessoas passarão a enxergar os problemas do que está

por vir. (...) A utopia é uma fonte que alimenta inquietações generosas, nobres

ímpetos justiceiros e uma preciosa disposição para a busca da felicidade

universal.     (17)


        Assim fica evidente esse caráter inerente dos paradigmas utópicos

em relação à condição humana de existência. Uma sociedade sem utopias

estaria fadada a um presente contínuo. Nortear a história da vida humana

na     Terra     a    um      modelo    exclusivamente             cientificista        seria   inibir      as

possibilidades, os desafios e as incertezas que a vida nos coloca. Seria

(16) VÁZQUEZ,A. Sánchez.Entre a realidade e a utopia: ensaios sobre política, moral e socialsmo.Rio

          de Janeiro: Civilizção Brasileira,2001. pág.369.

(17)   FILHO,Daniel   Aarão   Reis,COUTINHO,Carlos   Nelson   et    all.O   Manifesto   Comunista    150   anos

          depois: Karl Marx e Friedrich Engels.Rio de Janeiro: Contraponto, 1998. pág.71


vivermos num mundo totalmente previsível. O que tornaria a vida muito

chata. É o homem querendo brincar de Deus. O que na prática não deixa

de ser também uma grande utopia. São esses desafios e incertezas, e a

possibilidade de superá-los que nos mantém vivos e construindo a nossa

história. Seja para o “mau” ou para o “bem”. Pensando, é claro, que esse

mau e esse bem devem ser relativizados.

        Embora a sociedade igualitária e justa preconizada pelo marxismo,

que se efetivaria a partir de uma ação revolucionária do proletariado não
13

tenha se concretizado, o legado deixado por esses dois pensadores do

século XIX é inegável. A introdução de métodos de análise das relações

sociais,    políticas,     econômica,        ideológicas         e    culturais,    somado     às

categorias criadas (mais valia; luta de classes, materialismo histórico,

materialismo dialético....) são fundamentais para uma melhor compreensão

das contradições das sociedades humana.

      Portanto, mesmo que cheguemos à conclusão de que a “utopia”

marxista     não     se    concretizou,      é    de       capital     importância      tomarmos

conhecimento       das    críticas    que    Marx      e   Engels      fizeram     da   sociedade

capitalista para que assim, possamos compreendê-la melhor e projetarmos

as nossas novas utopias para um futuro por nós determinado. E mesmo

que    a   concepção       utópica     marxista        tivesse       sido   concretizada,    com

menciona Teixeira:

      “Há sempre um excedente utópico a funcionar como mola de um novo

ciclo imaginativo, há sempre algo de irrealizável que busca realizar-se

numa nova projeção.

      A imaginação utópica se impõe, quer desenrolar-se. Sempre existiu e

continuará existindo, sob pena, em caso contrário, de aniquilamento do

homem.”    (18)


      O que fica é que precisamos de utopias para nos manter vivos. E

mesmo que tornemos realidade parte dessas utopias pessoais, que nos

apropriemos desse excedente utópico e assim, estabelecer novas utopias

para continuarmos nossa jornada nos palcos da vida. CARPE DIEM.

(18) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.12.




                                     BIBLIOGRAFIA


COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981.
14

ENGELS,Friedrich,MARX,Karl.Manifesto do Partido Comunista. 3ª ed.,Rio

   de Janeiro: Vozes,1990, pág.90.


FILHO,Daniel      Aarão    Reis,COUTINHO,Carlos            Nelson    et all.O Manifesto

  Comunista      150    anos    depois:    Karl   Marx     e   Friedrich   Engels .Rio   de

  Janeiro: Contraponto, 1998.

MIRANDA,Orlando.Introdução. In: Trotsky: Política. SP: Ed. Ática, 1981.

MORE,Thomas.Utopia.2ª ed.,São Paulo: Martins Fontes, 1999.


TROTSKY,Leon.Como fizemos a revolução; a revolução de novembro. 3ª

   ed.,São Paulo: Global, 1978


____________.Stalin e a burocracia. Trotsky: Política. São Paulo, Ática,

   1981.


VÁZQUEZ,A. Sánchez.Entre a realidade e a utopia: ensaios sobre política,

   moral e socialsmo.Rio de Janeiro: Civilizção Brasileira,2001.

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Sociologia introdução
Sociologia   introduçãoSociologia   introdução
Sociologia introdução
profcacocardozo
 
Heterotopias anarquistas - Edson Passetti
Heterotopias anarquistas - Edson PassettiHeterotopias anarquistas - Edson Passetti
Heterotopias anarquistas - Edson Passetti
BlackBlocRJ
 
Socio reto conceitos
Socio reto conceitosSocio reto conceitos
Socio reto conceitos
Cidinha Pimentel
 
A contribuição da sociologia para a interpretação da realidade social
A contribuição da sociologia para a interpretação  da realidade socialA contribuição da sociologia para a interpretação  da realidade social
A contribuição da sociologia para a interpretação da realidade social
Marcela Marangon Ribeiro
 
Augusto comte e o positivismo
Augusto comte e o positivismoAugusto comte e o positivismo
Augusto comte e o positivismo
Manoel Antonio Fernandes
 
Atividades comte, marx, weber, durkheim
Atividades comte, marx, weber, durkheimAtividades comte, marx, weber, durkheim
Atividades comte, marx, weber, durkheim
Atividades Diversas Cláudia
 
Marcuse - A ideologia da sociedade industrial - O homem unidimensional
Marcuse - A ideologia da sociedade industrial - O homem unidimensionalMarcuse - A ideologia da sociedade industrial - O homem unidimensional
Marcuse - A ideologia da sociedade industrial - O homem unidimensional
Jacqueline Viegas Estevam
 
Clastres arqueologia violencia
Clastres arqueologia violenciaClastres arqueologia violencia
Clastres arqueologia violencia
textosantropologia
 
Surgimento da sociologia
Surgimento da sociologiaSurgimento da sociologia
Surgimento da sociologia
roberto mosca junior
 
Pensadores Da Sociologia
Pensadores Da Sociologia Pensadores Da Sociologia
Pensadores Da Sociologia
breckenfeld
 
Video aula -Sociologia
Video aula -SociologiaVideo aula -Sociologia
Video aula -Sociologia
Alan Rodrigues
 
CORRENTES SOCIOLÓGICAS - RESUMO EM FORMA DE TÓPICOS
CORRENTES SOCIOLÓGICAS - RESUMO EM FORMA DE TÓPICOSCORRENTES SOCIOLÓGICAS - RESUMO EM FORMA DE TÓPICOS
CORRENTES SOCIOLÓGICAS - RESUMO EM FORMA DE TÓPICOS
Paula Meyer Piagentini
 
Surgimento da sociologia_2014
Surgimento da sociologia_2014Surgimento da sociologia_2014
Surgimento da sociologia_2014
roberto mosca junior
 
Sociologia (1) do ensino medio
Sociologia (1) do ensino medioSociologia (1) do ensino medio
Sociologia (1) do ensino medio
Andrea Parlen
 
Correntes Sociológicas
Correntes Sociológicas Correntes Sociológicas
Correntes Sociológicas
Paula Meyer Piagentini
 
Sociologia: antecedentes e positivismo
Sociologia: antecedentes e positivismoSociologia: antecedentes e positivismo
Sociologia: antecedentes e positivismo
richard_romancini
 
Fundamentos de Sociologia Unidade II
Fundamentos de Sociologia Unidade IIFundamentos de Sociologia Unidade II
Fundamentos de Sociologia Unidade II
Harutchy
 
Errico Malatesta, Revolta e Ética anarquista - Nildo Avelino
Errico Malatesta, Revolta e Ética anarquista - Nildo AvelinoErrico Malatesta, Revolta e Ética anarquista - Nildo Avelino
Errico Malatesta, Revolta e Ética anarquista - Nildo Avelino
BlackBlocRJ
 
Apostila ciências na educação i - 06
Apostila   ciências na educação i - 06Apostila   ciências na educação i - 06
Apostila ciências na educação i - 06
Paula Spera
 
Ambivalências da sociologia 14.04.14
Ambivalências da sociologia  14.04.14Ambivalências da sociologia  14.04.14
Ambivalências da sociologia 14.04.14
Elisio Estanque
 

Mais procurados (20)

Sociologia introdução
Sociologia   introduçãoSociologia   introdução
Sociologia introdução
 
Heterotopias anarquistas - Edson Passetti
Heterotopias anarquistas - Edson PassettiHeterotopias anarquistas - Edson Passetti
Heterotopias anarquistas - Edson Passetti
 
Socio reto conceitos
Socio reto conceitosSocio reto conceitos
Socio reto conceitos
 
A contribuição da sociologia para a interpretação da realidade social
A contribuição da sociologia para a interpretação  da realidade socialA contribuição da sociologia para a interpretação  da realidade social
A contribuição da sociologia para a interpretação da realidade social
 
Augusto comte e o positivismo
Augusto comte e o positivismoAugusto comte e o positivismo
Augusto comte e o positivismo
 
Atividades comte, marx, weber, durkheim
Atividades comte, marx, weber, durkheimAtividades comte, marx, weber, durkheim
Atividades comte, marx, weber, durkheim
 
Marcuse - A ideologia da sociedade industrial - O homem unidimensional
Marcuse - A ideologia da sociedade industrial - O homem unidimensionalMarcuse - A ideologia da sociedade industrial - O homem unidimensional
Marcuse - A ideologia da sociedade industrial - O homem unidimensional
 
Clastres arqueologia violencia
Clastres arqueologia violenciaClastres arqueologia violencia
Clastres arqueologia violencia
 
Surgimento da sociologia
Surgimento da sociologiaSurgimento da sociologia
Surgimento da sociologia
 
Pensadores Da Sociologia
Pensadores Da Sociologia Pensadores Da Sociologia
Pensadores Da Sociologia
 
Video aula -Sociologia
Video aula -SociologiaVideo aula -Sociologia
Video aula -Sociologia
 
CORRENTES SOCIOLÓGICAS - RESUMO EM FORMA DE TÓPICOS
CORRENTES SOCIOLÓGICAS - RESUMO EM FORMA DE TÓPICOSCORRENTES SOCIOLÓGICAS - RESUMO EM FORMA DE TÓPICOS
CORRENTES SOCIOLÓGICAS - RESUMO EM FORMA DE TÓPICOS
 
Surgimento da sociologia_2014
Surgimento da sociologia_2014Surgimento da sociologia_2014
Surgimento da sociologia_2014
 
Sociologia (1) do ensino medio
Sociologia (1) do ensino medioSociologia (1) do ensino medio
Sociologia (1) do ensino medio
 
Correntes Sociológicas
Correntes Sociológicas Correntes Sociológicas
Correntes Sociológicas
 
Sociologia: antecedentes e positivismo
Sociologia: antecedentes e positivismoSociologia: antecedentes e positivismo
Sociologia: antecedentes e positivismo
 
Fundamentos de Sociologia Unidade II
Fundamentos de Sociologia Unidade IIFundamentos de Sociologia Unidade II
Fundamentos de Sociologia Unidade II
 
Errico Malatesta, Revolta e Ética anarquista - Nildo Avelino
Errico Malatesta, Revolta e Ética anarquista - Nildo AvelinoErrico Malatesta, Revolta e Ética anarquista - Nildo Avelino
Errico Malatesta, Revolta e Ética anarquista - Nildo Avelino
 
Apostila ciências na educação i - 06
Apostila   ciências na educação i - 06Apostila   ciências na educação i - 06
Apostila ciências na educação i - 06
 
Ambivalências da sociologia 14.04.14
Ambivalências da sociologia  14.04.14Ambivalências da sociologia  14.04.14
Ambivalências da sociologia 14.04.14
 

Semelhante a Há uma concepção utópica no pensamento marxista (revisado maio 2012)

Os Clássicos da Sociologia (Émile Durkheim)
Os Clássicos da Sociologia (Émile Durkheim)Os Clássicos da Sociologia (Émile Durkheim)
Os Clássicos da Sociologia (Émile Durkheim)
e neto
 
Ciencias sociais power point[1][1][1]
Ciencias sociais   power point[1][1][1]Ciencias sociais   power point[1][1][1]
Ciencias sociais power point[1][1][1]
161912
 
6. apostila de sociologia
6. apostila de sociologia6. apostila de sociologia
6. apostila de sociologia
Noel Anderley Dos Santos
 
Anarquismo e Socialismo Utópico
Anarquismo e Socialismo UtópicoAnarquismo e Socialismo Utópico
Anarquismo e Socialismo Utópico
Carla Brígida
 
Resumo do livro o que é sociologia
Resumo do livro o que é sociologia  Resumo do livro o que é sociologia
Resumo do livro o que é sociologia
Maira Conde
 
Cap 04 sociologia
Cap 04   sociologiaCap 04   sociologia
Cap 04 sociologia
Jesanias Rodrigues
 
Joseph dejacque abaixo_os_chefes
Joseph dejacque  abaixo_os_chefesJoseph dejacque  abaixo_os_chefes
Joseph dejacque abaixo_os_chefes
moratonoise
 
RAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdf
RAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdfRAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdf
RAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdf
ElisaCaetano12
 
Apostila sociologia geral
Apostila sociologia geralApostila sociologia geral
Apostila sociologia geral
J Nilo Sayd
 
Marx e a questao judaica
Marx e a questao judaicaMarx e a questao judaica
Marx e a questao judaica
HÉRICO MACIEL DE AMORIM
 
Sociologia: origens, contexto histórico, político e social Os mestres fundado...
Sociologia: origens, contexto histórico, político e social Os mestres fundado...Sociologia: origens, contexto histórico, político e social Os mestres fundado...
Sociologia: origens, contexto histórico, político e social Os mestres fundado...
Rogerio Silva
 
Lista de exercícios (Sociologia)
Lista de exercícios (Sociologia)Lista de exercícios (Sociologia)
Lista de exercícios (Sociologia)
Paula Meyer Piagentini
 
Comte
ComteComte
As origens e os principais teóricos da sociologia
As origens e os principais teóricos  da sociologiaAs origens e os principais teóricos  da sociologia
As origens e os principais teóricos da sociologia
Lucio Oliveira
 
201 sociologia
201 sociologia201 sociologia
201 sociologia
rosilane32
 
Comunismo 2
Comunismo 2Comunismo 2
Comunismo 2
joicetoy
 
A teoria da Historia e o romance historico em Lukacs
A teoria da Historia e o romance historico em LukacsA teoria da Historia e o romance historico em Lukacs
A teoria da Historia e o romance historico em Lukacs
Carlo Romani
 
Sociologia linha do tempo
Sociologia linha do tempoSociologia linha do tempo
Sociologia linha do tempo
Flau Amorim
 
Slides Ciências Sociais Unidade I.pdf
Slides Ciências Sociais Unidade I.pdfSlides Ciências Sociais Unidade I.pdf
Slides Ciências Sociais Unidade I.pdf
BrendaBorges35
 
Durval muniz de albuquerque júnior 02
Durval muniz de albuquerque júnior 02Durval muniz de albuquerque júnior 02
Durval muniz de albuquerque júnior 02
Linguagens Identidades
 

Semelhante a Há uma concepção utópica no pensamento marxista (revisado maio 2012) (20)

Os Clássicos da Sociologia (Émile Durkheim)
Os Clássicos da Sociologia (Émile Durkheim)Os Clássicos da Sociologia (Émile Durkheim)
Os Clássicos da Sociologia (Émile Durkheim)
 
Ciencias sociais power point[1][1][1]
Ciencias sociais   power point[1][1][1]Ciencias sociais   power point[1][1][1]
Ciencias sociais power point[1][1][1]
 
6. apostila de sociologia
6. apostila de sociologia6. apostila de sociologia
6. apostila de sociologia
 
Anarquismo e Socialismo Utópico
Anarquismo e Socialismo UtópicoAnarquismo e Socialismo Utópico
Anarquismo e Socialismo Utópico
 
Resumo do livro o que é sociologia
Resumo do livro o que é sociologia  Resumo do livro o que é sociologia
Resumo do livro o que é sociologia
 
Cap 04 sociologia
Cap 04   sociologiaCap 04   sociologia
Cap 04 sociologia
 
Joseph dejacque abaixo_os_chefes
Joseph dejacque  abaixo_os_chefesJoseph dejacque  abaixo_os_chefes
Joseph dejacque abaixo_os_chefes
 
RAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdf
RAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdfRAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdf
RAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdf
 
Apostila sociologia geral
Apostila sociologia geralApostila sociologia geral
Apostila sociologia geral
 
Marx e a questao judaica
Marx e a questao judaicaMarx e a questao judaica
Marx e a questao judaica
 
Sociologia: origens, contexto histórico, político e social Os mestres fundado...
Sociologia: origens, contexto histórico, político e social Os mestres fundado...Sociologia: origens, contexto histórico, político e social Os mestres fundado...
Sociologia: origens, contexto histórico, político e social Os mestres fundado...
 
Lista de exercícios (Sociologia)
Lista de exercícios (Sociologia)Lista de exercícios (Sociologia)
Lista de exercícios (Sociologia)
 
Comte
ComteComte
Comte
 
As origens e os principais teóricos da sociologia
As origens e os principais teóricos  da sociologiaAs origens e os principais teóricos  da sociologia
As origens e os principais teóricos da sociologia
 
201 sociologia
201 sociologia201 sociologia
201 sociologia
 
Comunismo 2
Comunismo 2Comunismo 2
Comunismo 2
 
A teoria da Historia e o romance historico em Lukacs
A teoria da Historia e o romance historico em LukacsA teoria da Historia e o romance historico em Lukacs
A teoria da Historia e o romance historico em Lukacs
 
Sociologia linha do tempo
Sociologia linha do tempoSociologia linha do tempo
Sociologia linha do tempo
 
Slides Ciências Sociais Unidade I.pdf
Slides Ciências Sociais Unidade I.pdfSlides Ciências Sociais Unidade I.pdf
Slides Ciências Sociais Unidade I.pdf
 
Durval muniz de albuquerque júnior 02
Durval muniz de albuquerque júnior 02Durval muniz de albuquerque júnior 02
Durval muniz de albuquerque júnior 02
 

Mais de GabrielaMansur

14 geometria espacial - parte i
14   geometria espacial - parte i14   geometria espacial - parte i
14 geometria espacial - parte i
GabrielaMansur
 
Sa ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c regência) 2a 3aetp's 2011
Sa  ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c  regência) 2a  3aetp's 2011Sa  ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c  regência) 2a  3aetp's 2011
Sa ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c regência) 2a 3aetp's 2011
GabrielaMansur
 
Paciencia lenine
Paciencia leninePaciencia lenine
Paciencia lenine
GabrielaMansur
 
Sa ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c regência) 2a 3aetp's 2011
Sa  ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c  regência) 2a  3aetp's 2011Sa  ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c  regência) 2a  3aetp's 2011
Sa ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c regência) 2a 3aetp's 2011
GabrielaMansur
 
Ondas sonoras
Ondas sonorasOndas sonoras
Ondas sonoras
GabrielaMansur
 
Cordados 21.08.12
Cordados 21.08.12Cordados 21.08.12
Cordados 21.08.12
GabrielaMansur
 
Lista de probabilidade (2)
Lista de probabilidade (2)Lista de probabilidade (2)
Lista de probabilidade (2)
GabrielaMansur
 
Anelídeo
AnelídeoAnelídeo
Anelídeo
GabrielaMansur
 
Filo mollusca
Filo molluscaFilo mollusca
Filo mollusca
GabrielaMansur
 
Cordados 17.08.12
Cordados 17.08.12Cordados 17.08.12
Cordados 17.08.12
GabrielaMansur
 
Cordados 14.08.12
Cordados 14.08.12Cordados 14.08.12
Cordados 14.08.12
GabrielaMansur
 
Anelídeo
AnelídeoAnelídeo
Anelídeo
GabrielaMansur
 
Filo Mollusca
Filo MolluscaFilo Mollusca
Filo Mollusca
GabrielaMansur
 
Nematelmintos
NematelmintosNematelmintos
Nematelmintos
GabrielaMansur
 
Platelmintos
PlatelmintosPlatelmintos
Platelmintos
GabrielaMansur
 
Avaliacao 2a chamada 2a etapa
Avaliacao 2a chamada   2a etapaAvaliacao 2a chamada   2a etapa
Avaliacao 2a chamada 2a etapa
GabrielaMansur
 
09 análise combinatória - parte ii (fatorial)
09   análise combinatória - parte ii (fatorial)09   análise combinatória - parte ii (fatorial)
09 análise combinatória - parte ii (fatorial)
GabrielaMansur
 
07 sistemas lineares homogeneos
07   sistemas lineares homogeneos07   sistemas lineares homogeneos
07 sistemas lineares homogeneos
GabrielaMansur
 
06 discussão de sistema pela regra de cramer
06   discussão de sistema pela regra de cramer06   discussão de sistema pela regra de cramer
06 discussão de sistema pela regra de cramer
GabrielaMansur
 
05 regra de cramer
05   regra de cramer05   regra de cramer
05 regra de cramer
GabrielaMansur
 

Mais de GabrielaMansur (20)

14 geometria espacial - parte i
14   geometria espacial - parte i14   geometria espacial - parte i
14 geometria espacial - parte i
 
Sa ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c regência) 2a 3aetp's 2011
Sa  ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c  regência) 2a  3aetp's 2011Sa  ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c  regência) 2a  3aetp's 2011
Sa ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c regência) 2a 3aetp's 2011
 
Paciencia lenine
Paciencia leninePaciencia lenine
Paciencia lenine
 
Sa ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c regência) 2a 3aetp's 2011
Sa  ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c  regência) 2a  3aetp's 2011Sa  ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c  regência) 2a  3aetp's 2011
Sa ce 2o's anos tx t cmplt (crise do a s c regência) 2a 3aetp's 2011
 
Ondas sonoras
Ondas sonorasOndas sonoras
Ondas sonoras
 
Cordados 21.08.12
Cordados 21.08.12Cordados 21.08.12
Cordados 21.08.12
 
Lista de probabilidade (2)
Lista de probabilidade (2)Lista de probabilidade (2)
Lista de probabilidade (2)
 
Anelídeo
AnelídeoAnelídeo
Anelídeo
 
Filo mollusca
Filo molluscaFilo mollusca
Filo mollusca
 
Cordados 17.08.12
Cordados 17.08.12Cordados 17.08.12
Cordados 17.08.12
 
Cordados 14.08.12
Cordados 14.08.12Cordados 14.08.12
Cordados 14.08.12
 
Anelídeo
AnelídeoAnelídeo
Anelídeo
 
Filo Mollusca
Filo MolluscaFilo Mollusca
Filo Mollusca
 
Nematelmintos
NematelmintosNematelmintos
Nematelmintos
 
Platelmintos
PlatelmintosPlatelmintos
Platelmintos
 
Avaliacao 2a chamada 2a etapa
Avaliacao 2a chamada   2a etapaAvaliacao 2a chamada   2a etapa
Avaliacao 2a chamada 2a etapa
 
09 análise combinatória - parte ii (fatorial)
09   análise combinatória - parte ii (fatorial)09   análise combinatória - parte ii (fatorial)
09 análise combinatória - parte ii (fatorial)
 
07 sistemas lineares homogeneos
07   sistemas lineares homogeneos07   sistemas lineares homogeneos
07 sistemas lineares homogeneos
 
06 discussão de sistema pela regra de cramer
06   discussão de sistema pela regra de cramer06   discussão de sistema pela regra de cramer
06 discussão de sistema pela regra de cramer
 
05 regra de cramer
05   regra de cramer05   regra de cramer
05 regra de cramer
 

Há uma concepção utópica no pensamento marxista (revisado maio 2012)

  • 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS Curso de Especialização em História e Culturas Políticas Disciplina: Utopia e imaginação políticas Há uma concepção utópica no pensamento marxista? Renzo Martins da Silva Belo Horizonte, Maio de 2007. HÁ UMA CONCEPÇÃO UTÓPICA NO PENSAMENTO MARXISTA?
  • 2. 2 Quando encaminhamos uma análise do desenvolvimento da ideologia socialista do século XIX, duas palavras emergem inexoravelmente: utopia e ciência. Sendo assim, qual significado atribuir a essas duas terminologias? Sem o devido aprofundamento e uma análise acadêmica de tais palavras, utopia é vinculada aos sonhos de uma pessoa, ou grupo de pessoas, que dificilmente se concretizaria na vida real. Os caminhos pensados para a concretização desses sonhos estariam desvinculados das condições reais de existência, apresentando um nível elevado de subjetividade. Por outro lado, a palavra ciência nos possibilita vinculá-la a uma análise mais racional dessas condições de existência (sejam elas políticas, sociais, econômicas, religiosas ou culturais) de uma sociedade em um determinado contexto histórico. Esse cientificismo se fundamenta na reflexão das informações e experiência vividas por esses sujeitos históricos no referido contexto. Partindo muitas vezes dessa visão reducionista e simplista que o senso comum atribui a essas duas palavras, podemos dizer que essa concepção foi excluída da teoria marxista? Segundo o dicionário Houaiss, utopia vincula-se “a um projeto de natureza irrealizável, ideia generosa, porém impraticável; quimera, fantasia”. Sendo assim, podemos dizer que o projeto científico-marxista se concretizou na vida real? Certa vez, um professor, analisando junto aos seus alunos o processo de consolidação do socialismo na URSS, pontuou as contradições existentes entre a proposta de construção de uma sociedade socialmente igualitária, mais justa, onde todos os representantes das classes sociais que a compusesse (fossem eles operários, camponeses, soldados, administradores burocratas ou tecnocratas) teriam vez e voz nas discussões e nas decisões políticas do Estado, e aquela que efetivamente se configurou após o processo revolucionário na URSS com a ascensão e
  • 3. 3 Stalin ao poder. Entretanto, o que se verificou foi uma verticalização do poder (uma centralização do poder político fundamentada no unipartidarismo, na censura, na repressão inexorável dos supostos opositores ao regime instituído). Um aluno levantou então a seguinte questão: será que podemos falar que o socialismo científico preconizado por Karl Marx e Friedrich Engels se concretizou? Se não podemos dizer que o socialismo cientifico é utópico, é de capital importância levantarmos um outro questionamento: é possível identificarmos o elemento utópico no pensamento marxista? A nossa principal preocupação no decorrer desse texto é verificar e entender a existência ou não desse elemento utópico no pensamento marxista, e se a idealização dessa sociedade socialista encaminhada pelas classes revolucionárias da sociedade (o proletário, o camponês e os soldados), se concretizou. Para isso, faremos uma sucinta análise do desenvolvimento dessa concepção utópica. Tanto para Adolfo Sánchez Vázquez(1) quanto para Teixeira Coelho(2), a utopia é inerente à história da humanidade. Podemos identificá-la em meio ao pensamento sagrado das comunidades primitivas historicamente conhecidas. Nestas, a imaginação utópica(3), termo explicitado por Teixeira Coelho para estabelecer um vínculo entre o sonho e o real, é detectável na formulação de crenças e lendas que apontam para um futuro melhor do que aquele vivido. Na República idealizada por Platão, se estabeleceria uma organização social, econômica, política e administrativa perfeita e atemporal. Apesar de todas as contradições que hoje podemos destacar nessa proposta utópica de Platão (a manutenção da divisão social e três classes: aqueles que governam, os auxiliares e a terceira classe constituída pelo restante da população; o estabelecimento de uma
  • 4. 4 educação somente na velhice; eleições por indicação....), era um ideal de sociedade a ser alcançada. (1) VÁZQUEZ,A. Sánchez.Entre a realidade e a utopia: ensaios sobre política, moral e socialsmo.Rio de Janeiro: Civilizção Brasileira,2001. pág.354. (2) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.14. (3) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.08/11. Teixeira, citando Karl Mannhein, menciona a exitência de “(...) diversos tipos de mentalidade utopista, cada um deles implicando um programa especifico”. (4) O primeiro deles está ligado ao surgimento de uma mentalidade messiânica marcada pelo fanatismo religioso. Para essa corrente utópica, embora recorram ao elemento religioso como norteador de seus ideais, almejam a sua concretização nesta vida. Ao contrário daquela visão utópica medieval, segunda a qual, a idealização e realização de uma vida melhor não se completaria nesta vida, mas após findada nossa existência. Contudo, tais utopias messiânicas, não apresentam uma consciência plena, para não dizer racional-científica, intrínceca à sua condição, que a possibilitasse encaminhar uma revolução social. O segundo modelo de mentalidade utópica apontado por Teixeira, está ligado à ”(...) presença de ideias liberal-humanitárias”(5). Um dos representantes desse modelo foi Thomas More. Embora tenha desenvolvido um projeto de sociedade mais justa do que aquela apresenta por Platão, ainda assim apresentava uma postura reacionária e conservadora. More era um homem vinculado ao poder. Advogado respeitado, membro da corte de Henrique VIII, não explicitou em sua obra mais conhecida e publicada em 1516, Utopia, uma visão revolucionária da realidade da qual fazia parte. Essa sociedade de Utopia não teria dia e hora marcada para concretizar-se. Muito menos um movimento que saísse
  • 5. 5 das camadas populares. A configuração deste modelo de sociedade realmente apresentaria elementos bem mais justos e igualitários, como por exemplo: redução da jornada de trabalho de oito horas; a inexistência da propriedade privada; e havendo eleições, mesmo sendo estas indiretas. Seria concretizado num futuro indefinido e sem assumir um caráter de movimento revolucionário articulado pelas camadas populares de forma consciente de sua condição social, política e econômica, que visse na luta armada, o único meio de concretização de uma sociedade socialmente igualitária através da abolição da propriedade privada burguesa. (4) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.51/52. (5) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.52. O terceiro modelo apresentado por Teixeira representa uma sintonia com o contexto aos quais seus idealizadores estão inseridos. Entretanto, o conservadorismo é traço marcante. Embora o que importa é o aqui e o agora, procura resgatar valores e crenças do passado sem assumir uma postura revolucionária. Thomas Hobbes e William Morris seriam os idealizadores dessa corrente utópica. O quarto tipo representa o programa socialista-comunista que foi se configurando no decorrer do século XIX. Este rompe com aquela concepção liberal que a antecede, buscando dar um caráter revolucionário à realidade, destacando a concretização desse novo modelo utópico a partir do fim do capitalismo. Nesse contexto surgem os socialistas que mais tarde vão ser denominados por Marx e Engels de utópico: R. Owen, H. de Saint’Simon e C. Fourier. Estes, denominados de utópicos, estão inseridos num contexto que dividem a concepção utópica-liberal dos séculos XVI / XVII e aquela utopia revolucionária que foi se configurando no decorrer do século XIX(6). Não cabe aqui nos debruçarmos sobre cada uma dessas propostas utópicas de Owen, Fourier e Saint’Simon por não constituir objeto de
  • 6. 6 nossa análise. Mas vale ressaltar sucintamente as razões que levaram Marx e Engels a rotulá-los de utópicos para assim retomarmos as questões levantadas no início desse trabalho. Marx e Engels fundamentaram suas críticas na impossibilidade de tais “teóricos utópicos” elaborarem seus modelos de sociedade de forma subjetiva, sem levar em consideração a participação das massas populares, sobretudo o proletariado, na condução de uma transformação revolucionária e total da realidade que lhe é inerente. A consecução dessa nova sociedade imaginada pelos “utópicos”, deveria se dar de forma pacífica e por aqueles que tivessem recursos financeiros e matérias. Ela surgiria assim, de uma concessão da elite liberal-burguesa e de cima para baixo. E não através de uma ação revolucionária das camadas populares. (6) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.55. Dessa forma, essa elite liberal-burguesa jamais abriria mão de seus privilégios políticos e econômicos em beneficio de um “bando” de agitadores desvairados e incompetentes. Tais modelos, apesar de basearem suas teorias e críticas nas contradições engendradas pelo desenvolvimento do capitalismo de seu tempo (falamos assim do início do século XIX, momento do processo de consolidação do capitalismo através da Revolução Industrial), possuíam “(...) um excesso de objetivos, desconhecimento da realidade a transformar; fraqueza ou imaturidade dos temas históricos e sociais que podem levar a cabo a revolução, assim como a inadequação dos meios que se recorre para cumprir objetivos -, seus esforços em consumar sua utopia redundam em fracasso” (7) . A partir dessa crítica feita por Marx e Engels aos ditos pensadores do socialismo utópico do início do século XIX, retomamos o questionamento inicial: podemos dizer que a concepção utópica faz parte da teoria marxista? A sociedade idealizada por Marx e Engels se concretizou?
  • 7. 7 Para entendermos esses questionamentos, recorreremos as seguintes colocações, no tocante à concepção utópica no marxismo, de Teixeira(8): E chega-se com isto ao limiar daquela que seria a mentalidade utopista de tipo socialista-comunista, identificada exemplarmente nos projetos marxistas. Mas é aqui que surge o problema: a teoria marxista configura de fato uma utopia? Segundo Mennheim, sim – pois, classicamente, nenhum outro projeto de sociedade poderia melhor se encaixar naquela que é a quarta forma de mentalidade utopista do que marxismo.” Só para lembrarmos, o quarto tipo da mentalidade utópica pontuada por Teixeira, passa pelo estabelecimento de análise crítica da realidade histórica e social, baseada no projeto revolucionário. E na perspectiva de concretizá-la com a derrocada do capitalismo. (7) VÁZQUEZ,A. Sánchez.Entre a realidade e a utopia: ensaios sobre política, moral e socialsmo.Rio de Janeiro: Civilizção Brasileira,2001. pág.358. (8) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.60. Vázquez também destaca esse elemento utópico na obra de Marx da seguinte forma(9): Embora voltemos mais adiante a este “marxismo frio” – expressão também de Bloch -, que interpreta à sua maneira determinista a crítica marxista clássica ao “socialismo utópico”, vamos destacar desde já que a utopia, ou mais exatamente um aspecto ou ingrediente utópico, não só faz parte do pensamento de Marx e do marxismo “quente”, como também constitui um aspecto ou componente essencial dele, em unidade indissolúvel com outros que também o são, a saber: a crítica do existente, o conhecimento da realidade que se critica e se pretende transformar e sua vocação prática, ou vínculo com a ação. E Vázquez vai um pouco além, destacando que Marx “(...) escaldado pelos excessos de imaginação dos “socialista utópicos”, foi muito tímido na descrição da nova sociedade (...)”(10).
  • 8. 8 Baseado nessas observações, quando idealizamos um futuro melhor a partir das críticas que fazemos ao nosso tempo, não podemos dissociá-la do seu caráter imaginativo. Quando Teixeira explica no início de seu livro o que ele denomina de “imaginação utópica”, caracterizada pelo sonho, pelo sentimento e pela intuição (o insight), como sendo elementos fundamentais para que criemos as condições necessárias para a concretização desses sonhos. O que não podemos deixar acontecer, é que fiquemos apenas tentando pensar esse mundo que vivemos apenas na perspectiva do racional. Sem o sonho, como menciona Teixeira, a realidade “(...) é uma droga narcotizante como outra qualquer e a vida, uma sequência de banalidades insípidas. (11) ”. E mais, excluindo essa “imaginação utópica” da vida humana, estaríamos condenando essa mesma sociedade humana à morte. E nessa linha de raciocínio, considero pertinente a observação de Teixeira quando menciona que: (9) VÁZQUEZ,A. Sánchez.Entre a realidade e a utopia: ensaios sobre política, moral e socialsmo.Rio de Janeiro: Civilizção Brasileira,2001. pág.358. (10) VÁZQUEZ,A. Sánchez.Entre a realidade e a utopia: ensaios sobre política, moral e socialsmo.Rio de Janeiro: Civilizção Brasileira,2001. pág.359. (11) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.8 e 9. É ela (a imaginação utópica – destaque meu) que aponta para a pequena brecha por onde o sucesso pode surgir, é ela que mantém em pé a crença numa outra vida. Explodindo os quadros minimizadores da rotina, dos hábitos circulares, é ela que, militando pelo otimismo, levanta a única hipótese capaz de nos manter vivos: de mudar a vida. (12) E o pior de tudo, quando negligenciamos esse elemento digamos, imaginativo e sonhador (do insight) da concepção utópica, corremos o risco de criar monstros que tornarão essa sociedade uma verdadeira barbárie. Ou no mínimo se colocarão acima da maioria da sociedade impondo-lhes sua maneira de ver, pensar e agir no mundo. Nem que para isso seja necessário a utilização da violência e eliminação física dos
  • 9. 9 supostos opositores. Essa dissociação fica evidente, principalmente nos dias de hoje, quando Teixeira desenvolve a seguinte análise: Consciência hoje marginalizada (a do insight, a intuitiva – destaque meu), reprimida por um processo cultural ao qual interessa a máscara de um falso pensamento racional que encontra no estanqueamento, na separação dos modos de pensar, uma maneira de controlar o grupo social. Quando a consciência meramente racionalista, que se separa da outra (e que portanto não é consciência, nem racional, porque perdeu sua unidade), prevalece na imaginação utópica (e não só nesta), de fato acaba produzindo, senão monstros, pelo menos excrescências nos projetos utópicos.” (12) Quando nos deparamos com essa análise de Teixeira, começamos a entender as distorções na teoria marxista, engendradas a partir da implantação do socialismo real após a Revolução Russa de 1917. Mas devemos deixar claro que essa distorção da “imaginação utópica” explicitada por Teixeira, não criou monstro somente na concepção socialista marxista. Os fascismos que emergiram no período entre guerras também são exemplos dessa dissociação no interior da unidade utópica. (12) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.36. Essa distorção, de certa maneira também foi enfatizada por Leon Trotsky no contexto da Revolução Russa. Este não criticou a eficácia da fórmula revolucionária de Lênin. Mas criticou a cooptação da pequena e média burguesia, por parte dos dirigentes do Estado, para obtenção de privilégios e benesses de um Estado burocratizado. E ai Trotsky explicita: “Os chefes da classe média tinham subido àquelas alturas devido à força formidável dos soldados, enquanto os membros da classe operária, exceto os mais evoluídos, estavam obrigados a acatar os diretores do movimento e manter-se em contato com eles, com risco de ficarem separados das massas camponesas.” (13)
  • 10. 10 E ai percebemos que as críticas formuladas por Trotsky, se confirmaram: não se implantou uma Ditadura do Proletariado como preconizou Marx e Engels, mas sim, uma Ditadura sobre o Proletariado, como o que está apresentado a seguir: Em momento nenhum Trotsky discute a eficácia da fórmula leninista. De sua perspectiva da revolução como um processo social geral, o que teme é a ruptura entre o partido e a classe. A anteposição do partido à classe (ou se quiser, do político ao social). Com a burocratização do aparelho e a subseqüente perda da democracia interna consubstanciada em sua tradicional fórmula: “a organização do partido substituirá o próprio partido;.o comitê central se sobreporá ao partido; e finalmente, um ditador se imporá ao comitê central.” ( MIRANDA,Orlando.Introdução. In: Trotsky: Política. SP: Ed. Ática, 1981. ) Ninguém, e não faço exceção de Hitler, aplicou ao socialismo um golpe tão mortal. Hitler ataca as organizações operárias no exterior. Stalin as ataca no interior. Hitler destrói o marxismo; Stalin o prostitui. Não há princípio que permaneça intacto; não há uma ideia que não tenha sido enlameada. Até mesmo os termos socialismo e comunismo foram gravemente comprometidos, agora que a gendarmaria incontrolável, com diplomas de ‘comunistas’, chama de socialismo ao regime que impõe. Repugnante profanação! (TROTSKY, Leon.Stalin e a burocracia. Trotsky: Política. São Paulo, Ática, 1981.) (13) TROTSKY,Leon.Como fizemos a revolução; a revolução de novembro. 3ª ed.,São Paulo: Global, 1978 Podemos assim dizer que, quando Marx aborda o socialismo pequeno-burguês no Manifesto Comunista, deixa nas entrelinhas o caráter reacionário dessa classe que “deveria” se apresentar como a verdadeira força motriz de uma transformação revolucionária da história. E até num certo momento, foi realmente revolucionária. Mas, quando passou a ter a possibilidade de desfrutar das sinecuras da estrutura montada no interior dessa sociedade liberal-burguesa, assumiu uma conduta reacionária como apresentado nessa passagem de sua obra: Nos países onde se desenvolveu a civilização moderna, formou-se uma nova pequena burguesia, que está suspensa entre o proletariado e a burguesia
  • 11. 11 e se reconstitui sempre como parte complementar da sociedade burguesa; os indivíduos que a compõe, no entanto, são constantemente precipitados no proletariado pela concorrência e, com o desenvolvimento da grande indústria, vêem aproximar-se o momento no qual desaparecerão completamente como parte independente da sociedade moderna e serão substituídos por capatazes e empregados no comércio, na manufatura, na agricultura. (14) Em outro momento dessa mesma obra, quando faz uma análise do socialismo conservador ou burguês, esse caráter reacionário pequeno- burguês novamente insurge: Uma parte da burguesia deseja remediar os males sociais para garantir a existência da sociedade burguesa. (15) Será que podemos dizer que a utopia marxista, mesmo se fundamentando em métodos científicos na análise das contradições da vida humana, em nenhum aspecto se efetivou no plano real? Será que o fim do socialismo real da URSS em 1991, colocou em xeque os paradigmas utópicos das sociedades contemporânea? (14) ENGELS,Friedrich,MARX,Karl.Manifesto do Partido Comunista. 3ª ed.,Rio de Janeiro: Vozes,1990, pág.90. (15) ENGELS,Friedrich,MARX,Karl.Manifesto do Partido Comunista. 3ª ed.,Rio de Janeiro: Vozes,1990, pág.94. O desenvolvimento e consolidação do capitalismo desde o século XVIII vem, paulatinamente minando a capacidade dos sujeitos históricos de viabilizar suas utopias em um futuro próximo. Indiscutivelmente, essa exacerbação do consumismo, do hedonismo e do egoísmo, somado à crise moral e de valores pela qual as sociedades atuais enfrentam, reduz nossa existência a um imediatismo sem a devida compreensão da realidade, nos impossibilitando de projetar para um futuro melhor. Mas Vázquez, ao mesmo tempo que destaca a crise dos paradigmas utópicos, enfatiza-os como condição essencial da existência humana:
  • 12. 12 Sua desaparição significaria a morte da sociedade em que ocorresse. “Com o abandono das utopias”, diz Mannheim, “o homem perderia sua vontade de dar forma à história e, portanto, sua capacidade de compreendê-la.” (16) Seguindo a mesma linha de raciocínio, Leandro Konder faz a seguinte observação: Sem ceder à tentação de discorrer mais profusamente sobre o tema, podemos dizer que, ao constituírem expressões das condições presentes em que o utopista sonha o futuro, as utopias influem de algum modo sobre a disposição com que as pessoas passarão a enxergar os problemas do que está por vir. (...) A utopia é uma fonte que alimenta inquietações generosas, nobres ímpetos justiceiros e uma preciosa disposição para a busca da felicidade universal. (17) Assim fica evidente esse caráter inerente dos paradigmas utópicos em relação à condição humana de existência. Uma sociedade sem utopias estaria fadada a um presente contínuo. Nortear a história da vida humana na Terra a um modelo exclusivamente cientificista seria inibir as possibilidades, os desafios e as incertezas que a vida nos coloca. Seria (16) VÁZQUEZ,A. Sánchez.Entre a realidade e a utopia: ensaios sobre política, moral e socialsmo.Rio de Janeiro: Civilizção Brasileira,2001. pág.369. (17) FILHO,Daniel Aarão Reis,COUTINHO,Carlos Nelson et all.O Manifesto Comunista 150 anos depois: Karl Marx e Friedrich Engels.Rio de Janeiro: Contraponto, 1998. pág.71 vivermos num mundo totalmente previsível. O que tornaria a vida muito chata. É o homem querendo brincar de Deus. O que na prática não deixa de ser também uma grande utopia. São esses desafios e incertezas, e a possibilidade de superá-los que nos mantém vivos e construindo a nossa história. Seja para o “mau” ou para o “bem”. Pensando, é claro, que esse mau e esse bem devem ser relativizados. Embora a sociedade igualitária e justa preconizada pelo marxismo, que se efetivaria a partir de uma ação revolucionária do proletariado não
  • 13. 13 tenha se concretizado, o legado deixado por esses dois pensadores do século XIX é inegável. A introdução de métodos de análise das relações sociais, políticas, econômica, ideológicas e culturais, somado às categorias criadas (mais valia; luta de classes, materialismo histórico, materialismo dialético....) são fundamentais para uma melhor compreensão das contradições das sociedades humana. Portanto, mesmo que cheguemos à conclusão de que a “utopia” marxista não se concretizou, é de capital importância tomarmos conhecimento das críticas que Marx e Engels fizeram da sociedade capitalista para que assim, possamos compreendê-la melhor e projetarmos as nossas novas utopias para um futuro por nós determinado. E mesmo que a concepção utópica marxista tivesse sido concretizada, com menciona Teixeira: “Há sempre um excedente utópico a funcionar como mola de um novo ciclo imaginativo, há sempre algo de irrealizável que busca realizar-se numa nova projeção. A imaginação utópica se impõe, quer desenrolar-se. Sempre existiu e continuará existindo, sob pena, em caso contrário, de aniquilamento do homem.” (18) O que fica é que precisamos de utopias para nos manter vivos. E mesmo que tornemos realidade parte dessas utopias pessoais, que nos apropriemos desse excedente utópico e assim, estabelecer novas utopias para continuarmos nossa jornada nos palcos da vida. CARPE DIEM. (18) COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981. pág.12. BIBLIOGRAFIA COELHO,Teixeira.O que é Utopia.2ª ED.,São Paulo: Ed. Brasiliense,1981.
  • 14. 14 ENGELS,Friedrich,MARX,Karl.Manifesto do Partido Comunista. 3ª ed.,Rio de Janeiro: Vozes,1990, pág.90. FILHO,Daniel Aarão Reis,COUTINHO,Carlos Nelson et all.O Manifesto Comunista 150 anos depois: Karl Marx e Friedrich Engels .Rio de Janeiro: Contraponto, 1998. MIRANDA,Orlando.Introdução. In: Trotsky: Política. SP: Ed. Ática, 1981. MORE,Thomas.Utopia.2ª ed.,São Paulo: Martins Fontes, 1999. TROTSKY,Leon.Como fizemos a revolução; a revolução de novembro. 3ª ed.,São Paulo: Global, 1978 ____________.Stalin e a burocracia. Trotsky: Política. São Paulo, Ática, 1981. VÁZQUEZ,A. Sánchez.Entre a realidade e a utopia: ensaios sobre política, moral e socialsmo.Rio de Janeiro: Civilizção Brasileira,2001.