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Curso Ciência e Fé
Módulo IX – Os Argumentos Cosmológico e Teleológico
© Bernardo Motta
bmotta@observit.pt
http://espectadores.blogspot.com
Curso Ciência e Fé
I – Introdução
II – Filosofia Grega e Cosmologia Grega
III – Filosofia Medieval e Ciência Medieval
IV – Inquisição e Ciência
V e VI – O Caso Galileu
VII – A Revolução Científica
VIII – Darwin e a Igreja Católica
IX – Os Argumentos Cosmológico e Teleológico
X – Filosofia da Mente e Inteligência Artificial
XI – Milagres e Ciência
XII – Concordância entre Cristianismo e Ciência
1. Introdução
2. O Argumento Cosmológico
3. O Argumento Teleológico
4. Conclusão
Índice
3
Introdução
4
«(…) Deus, a causa primeira (principium) e o fim
de todas as coisas, pode, a partir das coisas
criadas, ser conhecido com certeza pelo poder
natural da razão humana (…)» - Vaticano I
Introdução
5
A existência de Deus
Razões subjectivas
Emotivas, estéticas, intuitivas, vivenciais, fenomenológicas, etc.
Difíceis de comunicar, mas válidas para o sujeito que as tem
Aval epistémico (Cfr. Alvin Plantinga, “epistemic warrant”)
A crença na existência de Deus é uma “crença propriamente básica”
Como tal, é uma crença racional e justificada, mesmo na ausência de argumentos
Alvin Plantinga defende-a usado uma forma de fiabilismo epistémico (externalista)
Argumentos objectivos (independentes do sujeito)
Argumentos “a priori”: argumento ontológico (Santo Anselmo, Leibniz, Gödel, etc.)
Argumentos “a posteriori”
Demonstrativos
Indutivos
Inferência para a melhor explicação
Introdução
6
A existência de Deus
Argumentos demonstrativos
Uma vez aceites as premissas, a conclusão é silogisticamente válida
As premissas apenas têm que ser aceites como mais prováveis que a sua negação
Argumento cosmológico de Leibniz
Premissas: metafísicas (princípio da razão suficiente, entre outras)
Conclusão: a razão para a existência do Universo está num Ser necessário
Argumento cosmológico “kalam” (William Lane Craig)
Premissas: físicas e/ou metafísicas
Conclusão: a causa do Universo é um ser eterno e imaterial
Argumentos tomistas (as “cinco vias”)
Premissas: metafísicas
Conclusão: a causa do Universo é imutável, não causada, necessária,
sumamente perfeita e inteligente
Argumentos de “design”: o argumento do “fine tuning” do Universo (Robin Collins)
Introdução
7
Da existência de Deus ao catolicismo
1. Deus existe (“preâmbulo da Fé”)
Crença através de razões subjectivas
Crença racionalmente sustentada por aval epistémico
Certeza intelectual através de demonstração filosófica (reforçada pela ciência)
2. Jesus Cristo é Deus
Argumentos históricos em defesa da solidez dos textos do Novo Testamento
Solidez dos relatos de milagres (e de entre todos, o da ressurreição de Cristo)
Carácter fidedigno das testemunhas oculares da ressurreição (1 Cor 15)
Testemunho dos mártires
3. A Igreja Católica é a Igreja que Jesus Cristo quis fundar (Mateus 16, 18)
Argumentos históricos para defender que o catolicismo é a doutrina cristã genuína
Credibilidade da Igreja Católica (incorruptibilidade da doutrina)
Credibilidade e testemunho dos beatos e dos santos, e de seus milagres e visões
8
1. Introdução
2. O Argumento Cosmológico
3. O Argumento Teleológico
4. Conclusão
Índice
8
Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716)
Filósofo, matemático e cientista alemão
Porque é que existe algo (em vez de nada)?
Porque é que as coisas são como são?
Porque é que o Universo existe (em vez de nada)?
Porque é que o Universo é como é?
Podemos imaginar um Universo com mais massa / energia
Podemos imaginar um Universo com a mesma massa / energia mas outro arranjo
Podemos imaginar um Universo:
Com a mesma matéria (massa / energia) e com o mesmo arranjo...
... mas feito a partir de outro conjunto de matéria
O Argumento Cosmológico de Leibniz
O Universo podia não existir ou ser diferente! 9
Universo Necessário
Auto-suficiente e auto-subsistente
Contém a sua própria explicação
As constantes físicas não poderiam ter
valores diferentes dos que têm
As leis da Natureza não poderiam ser
diferentes do que são
Compreensível a priori pelo intelecto…
… porque sendo necessário, nem sequer
teria que ser observado para ser
compreendido!
Universo Contingente
Ontologicamente dependente (podia não ser
assim, ou podia nem sequer existir)
A sua existência requer explicação
As constantes físicas poderiam ter valores
diferentes dos que têm
As leis da Natureza poderiam ser diferentes
do que são
Compreensível a posteriori pelo intelecto,
sem dispensar a observação empírica…
… porque não sendo necessário, há que
“abrir os olhos” e ver como as coisas são!
O Universo tem que ser contingente !
Se assim não fosse, nada no Universo poderia ser diferente do que é!
10
O Argumento Cosmológico de Leibniz
 Totalidade das coisas materiais (massa-energia)...
 ... que já existiram
 ... que existem agora
 ... que irão existir
 Logo, usarei o termo "Universo":
 Como representando o "nosso" Universo, se for o único
 Como representando todos os universos, se existir mais do que um
Definição de Universo
11
Princípio da Razão Suficiente (PRS)
PRS: qualquer coisa existente tem uma explicação (razão) para existir:
Ou noutra coisa diferente e já existente
Ou em si mesma:
Essa coisa existe obrigatoriamente
Essa coisa não pode não existir
Essa coisa não pode ser diferente do que é
O Universo existe
Logo, pelo PRS...
... o Universo tem que ter uma explicação para a sua existência!
O Argumento Cosmológico de Leibniz
Qual é a explicação para a existência do Universo? 12
PRS: a explicação para a existência do Universo tem que estar:
Ou numa coisa diferente do Universo e já existente
Ou então no próprio Universo:
O Universo existiria obrigatoriamente
O Universo não poderia não existir
O Universo não poderia ser diferente do que é
Se a explicação está numa coisa diferente do Universo, essa coisa é imaterial...
... porque definimos o Universo como a totalidade das coisas materiais!
Como fugir de explicações imateriais para a existência do Universo?
O Argumento Cosmológico de Leibniz
Qual é a explicação para a existência do Universo?
13
Estará a explicação no próprio Universo?
O Universo é a totalidade das coisas materiais (massa / energia)
O Universo só terá em si mesmo a explicação da sua existência...
... se o mesmo se passar com todas as coisas materiais que o compõem
Os objectos macroscópicos existem obrigatoriamente?
Nenhum tem existência obrigatória
Algures no passado, qualquer objecto macroscópico não existia
Poderiam ser diferentes do que são
As partículas subatómicas fundamentais existem obrigatoriamente?
Não: o Universo poderia ser feito de um conjunto diferente de partículas
subatómicas, mesmo que a sua quantidade e arranjo fossem iguais
A massa / energia e sua distribuição no Universo poderiam até ser as
mesmas, mas podíamos ter outras partículas, em vez das que temos
O Argumento Cosmológico de Leibniz
Estará a explicação no próprio Universo?
14
A explicação para a existência do Universo está:
Numa coisa diferente do Universo, e portanto, imaterial
Numa coisa que existe "causalmente antes" do Universo (porque o explica)
Essa coisa não tem que existir "temporalmente antes" do Universo
Mesmo que o Universo fosse eterno, necessitaria de uma coisa que o
explicasse
E terá que ser uma "primeira coisa" que não depende de outra para existir
Demonstrámos a existência de uma coisa distinta do Universo:
Que tem em si mesma a sua razão de existir, que não depende de outra para existir
Que não poderia não existir, e portanto é eterna (ou pelo menos perpétua)
Que é imaterial: não é feita de massa / energia
O Argumento Cosmológico de Leibniz
15Esta coisa parece-se com Deus... mas é Deus?
Universo
Coisa
1
Coisa 2 Coisa 3 Coisa N...
Versão de William Lane Craig (1949-)
Premissa 1: Tudo o que não existe desde sempre deve a sua existência a algo distinto de
si mesmo
Premissa 2: O Universo não existe desde sempre
Conclusão (MP, 1,2): Logo, o Universo deve a sua existência a algo distinto de si mesmo
P: “algo não existe desde sempre”
Q: “algo deve a sua existência a algo distinto de si mesmo”
Regra “modus ponens”
1. P → Q
2. P
3. Q
O Argumento Cosmológico "Kalam"
Uma vez provadas as Premissas, pela regra “modus ponens”,
a Conclusão está provada e é inevitável: decorre das leis da Lógica!
16
Demonstração da Premissa 1: “Tudo o que não existe desde sempre deve a sua
existência a algo distinto de si mesmo”
Objecção: “e se uma coisa for a causa da sua própria existência?”
“A” seria a causa da existência de “A”…
Se “A” não existe desde sempre, então antes de “A” existir, “A” não existia
No entanto, apesar de “A” não existir, “A” fez surgir “A”, o que é absurdo!
Objecção: “na mecânica quântica há fenómenos sem causa”, como a materialização
espontânea de pares de partículas virtuais (partícula e antipartícula)
Há pelo menos 14 interpretações filosóficas da mecânica quântica (4 determinísticas)
Mesmo segundo a interpretação de Copenhaga (indeterminista), as partículas virtuais
não surgem “do nada”: são flutuações espontâneas da energia de vácuo
Essa energia, em sentido aristotélico, é a causa material do par de partículas
Um fenómeno espontâneo é imprevisível, o que não é o mesmo que não causado
O eventual indeterminismo quântico não implica a ausência de causas dos
fenómenos
O princípio da incerteza de Heisenberg é epistémico (reflecte uma incerteza no nosso17
O Argumento Cosmológico "Kalam"
Demonstração da Premissa 1: “Tudo o que não existe desde sempre deve a sua
existência a algo distinto de si mesmo”
Objecção: “A Ciência vai provar, um dia, que a causa do Universo está no Universo”
Nunca haverá essa prova definitiva: tese Jaki-Gödel
Teoremas da Incompletude do matemático Kurt Gödel (1930)
Num sistema formal consistente com regras básicas de lógica e de aritmética…
… há proposições que não podem ser nem provadas nem refutadas partindo
dos axiomas e usando as regras internas do sistema – proposições indecidíveis
Um sistema formal só é completo se não contiver proposições indecidíveis
Então: 1) não há sistemas formais consistentes e completos
Então: 2) um sistema formal ou é inconsistente ou é incompleto
Ou seja, não é possível provar a completude de um sistema formal
consistente usando os seus axiomas e as suas regras internas!
A Física baseia-se na matemática; logo, está sujeita aos Teoremas de Gödel
A Física não se pode apoiar em sistemas formais inconsistentes (com contradições)
Logo, a Física apoiar-se-á sempre em sistemas formais incompletos
Pode-se vir a descobrir uma “teoria de tudo”, mas não se poderá provar que é a última! 18
O Argumento Cosmológico "Kalam"
Demonstração da Premissa 2: “O Universo não existe desde sempre”
Argumentos filosóficos:
Não existe um infinito actual (apenas potencial)
Não existe uma regressão infinita de eventos temporais
Senão, nunca chegaríamos ao presente
Argumentos científicos:
A solidez do Modelo Standard (Friedmann-Lemaître-Robertson-Walker: “Big Bang”)
Os Teoremas da Singularidade de Hawking e Penrose (1970)
O Teorema da Singularidade de Borde, Guth e Vilenkin (2003)
19
O Argumento Cosmológico "Kalam"
20
O Argumento Cosmológico "Kalam"
Demonstração da Premissa 2: “O Universo não existe desde sempre”
Teoremas da Singularidade de Hawking e Penrose (1970)
Singularidade espacial: massa concentrada num só ponto (volume zero)
Singularidade temporal: luz emitida por região com curvatura infinita do espaço-tempo
Numa singularidade, as quantidades usadas para medir o campo gravítico no modelo da
Relatividade Geral tornam-se infinitas (p. ex.: curvatura infinita do espaço-tempo)
Incompletude geodésica: existem percursos (geodésicas) no espaço-tempo que não
podem ser percorridos em tempo infinito por terminarem numa singularidade
Hawking e Penrose demonstraram que, desde que o Universo seja regulado pela
Relatividade Geral de Einstein, o seu passado irá incluir uma singularidade
Escapar aos Teoremas da Singularidade de Hawking e Penrose…
Closed Timelike Curves (CTCs): “máquinas do tempo” (permitidas pela Rel. Geral)
Modelo algo “louco”, implicando o tempo fechado sobre si mesmo
Violação da Condição de Energia Forte: inflação eterna/caótica
Falsidade da Relatividade Geral na fase inflaccionária: gravidade quântica?
21
O Argumento Cosmológico "Kalam"
Demonstração da Premissa 2: “O Universo não existe desde sempre”
Teorema da Singularidade de Borde, Guth e Vilenkin (2003)
Desde que Hav>0 (o Universo tenha estado, em média, em expansão)…
… as geodésicas nulas e temporais são incompletas no passado
Ou seja, a idade do Universo é finita
O teorema é válido para Universos não sujeitos à Relatividade Geral
O teorema é válido para Universos multidimensionais
Como escapar ao Teorema de Borde, Guth e Vilenkin…
Contracção infinita (Hav<0): neste caso, o Universo esteve em contracção desde o
passado infinito até chegar a um “big crunch”, seguido de um “big bang”; modelo
instável, requer afinação incrivelmente precisa antes do “big crunch”
Estaticidade assimptótica (Hav=0, porque H(∞)=0): neste caso, no infinito temporal, o
Universo deixará de se expandir; modelo instável, requer afinação precisa
Universo cíclico (Hav=0): já deveria estar em equilíbrio termodinâmico
Tempo exótico: inversão temporal na singularidade (t → -∞ “antes” da singularidade)
22
O Argumento Cosmológico "Kalam"
William Lane Craig (1949-)
Premissa 1: Tudo o que não existe desde sempre deve a sua existência a algo distinto de
si mesmo
Premissa 2: O Universo não existe desde sempre
Conclusão (MP, 1,2): Logo, o Universo deve a sua existência a algo distinto de si mesmo
P: “algo não existe desde sempre”
Q: “algo deve a sua existência a algo distinto de si mesmo”
Regra “modus ponens”
1. P → Q
2. P
3. Q
O Argumento Cosmológico "Kalam"
Uma vez provadas as Premissas, pela regra “modus ponens”,
a Conclusão está provada e é inevitável: decorre das leis da Lógica!
23
William Lane Craig (1949-)
Premissa 1: Se o Universo não existe desde sempre, então deve a sua existência a algo
distinto de si mesmo
Premissa 2: O Universo não existe desde sempre
Conclusão (MP, 1,2): Então, o Universo deve a sua existência a algo distinto de si mesmo
P: “O Universo não existe desde sempre”
Q: “O Universo deve a sua existência a algo distinto de si mesmo”
O Argumento Cosmológico "Kalam" – versão "modesta"
Uma vez provadas as Premissas, pela regra “modus ponens”,
a Conclusão está provada: decorre das leis da Lógica!
Regra “modus ponens”
1. P → Q
2. P
3. Q
24
Segundo Craig, a causa do Universo…
Não é espacial, não é temporal, não é material, não é energética
O espaço-tempo não se prolonga infinitamente para o passado
Logo, o espaço-tempo não existe desde sempre
Logo, a causa do Universo transcende o espaço-tempo
Matéria e energia fazem parte da realidade do Universo
A causa do Universo, por ser distinta deste, não é composta por matéria ou energia
É dotada de vontade e de livre arbítrio, é um agente livre
O Universo é o efeito de uma causa sobrenatural ("fora" do âmbito da Natureza)
Logo, o surgimento do Universo não se explica por leis científicas e estados
anteriores
Excluída uma causa de tipo natural (científica), resta supor um agente livre
Será uma mente?
Só concebemos dois tipos de entidades imateriais: mentes e conceitos abstractos
Mas os conceitos abstractos (p. ex.: números) não são agentes nem causam nada!
25
O Argumento Cosmológico "Kalam"
Porque razão existe algo em vez de nada?
O cristão diz que nada existiria sem um ser cuja inexistência é impossível (ser necessário)
Mais concretamente, o aristotélico-tomista diz que:
A essência desse ser é existir (essência e existência são idênticas em Deus)
Esse ser é que concede a existência a tudo o que existe
Logo, nada existiria sem esse ser, que é “o Ser”!
Esse ser necessário, não causado, é a “causa primeira” que dá existência ao Universo
Pelo contrário, o ateu só pode dizer…
… Que a inexistência do Universo é impossível (Universo necessário e eterno), ou…
… Que o Universo é a causa da sua existência (Universo necessário e eterno), ou…
… Que o Universo, a certa altura, surgiu do nada, sem causa e para nada!
O Argumento Cosmológico
O ateísmo é filosoficamente absurdo e incompatível com o conhecimento
científico dos nossos tempos!
26
Desvantagens do Argumento Cosmológico “kalam” (ACK)
Não é tão sólido quanto as provas tomistas (primeira, segunda e terceira vias):
A segunda premissa do ACK, “O Universo não existe desde sempre”, é vulnerável:
A uma eventual nova filosofia do tempo que explicasse um Cosmos eterno
A eventuais (mesmo que remotas) provas científicas da eternidade do Cosmos
A primeira premissa é irrefutável, mas se a segunda for falsa, o ACK cai por terra…
As provas tomistas, apesar de muito criticadas e tidas por inválidas, nunca foram refutadas
As provas tomistas não dependem, e nunca dependeram, do conhecimento científico
Nenhuma descoberta científica futura pode enfraquecer as provas tomistas
Sendo puramente metafísicas, tais provas são sempre e necessariamente válidas
O Argumento Cosmológico
Apesar do seu interesse filosófico-científico, o ACK não é tão sólido quanto as
três primeiras provas filosóficas de São Tomás
27
28
1. Introdução
2. O Argumento Cosmológico
3. O Argumento Teleológico
4. Conclusão
Índice
28
Argumento filosófico a favor da finalidade (“telos”, em grego) do Universo
Parte do facto científico da “afinação” (“fine tuning”) do Universo para a
existência de vida inteligente:
“Afinação” das leis da natureza
“Afinação” das constantes das leis da natureza
“Afinação” das condições iniciais do Universo
Quatro explicações possíveis:
1. O Universo só podia ser assim: excluída pelo argumento de Leibniz
2. O Universo podia não ser assim, mas é assim: "facto bruto" ou "sorte"
3. Existem inúmeros Universos, e o nosso está “afinado”
4. O Universo foi criado com finalidade por uma entidade inteligente
Este argumento não é dedutivo, mas indutivo (não é uma “demonstração”)
O Argumento Teleológico
29
Gama de valores possívels Gama de valores possíveis
Vida inteligente
(desenho não está à escala)
A “afinação” do Universo
Definição rigorosa de “afinação”
Diz-se que uma constante C está “afinada” para a existência de vida se:
WVPV é a gama de valores possíveis para a constante C que permitem a vida
Ou seja, se a constante C tivesse valores fora dessa gama, a vida não seria possível
WVC é uma gama adequada de valores de comparação para a constante C
A discussão em torno da gama de comparação é polémica e ainda está em curso!
Essa discussão é importante para quantificar as “afinações”, mas não há como negá-las!
Robin Collins é um filósofo norte-americano que se tem destacado nesta discussão
O Argumento Teleológico
1
VC
VPV
W
W
30
A “afinação” do Universo: leis da natureza
Leis fundamentais indispensáveis à vida inteligente:
Força gravítica: sem ela, não existiriam estrelas (energia) nem elementos pesados
Força electromagnética: sem ela, não existiriam átomos, química, radiação (luz)
Força nuclear forte: sem ela, não existiriam átomos nem química
Princípio de quantização (Bohr, 1913): sem ele, não existiriam átomos estáveis
Princípio de exclusão (Pauli, 1925): sem ele, não existiriam átomos complexos
O Argumento Teleológico
31
A “afinação” do Universo: força gravítica
A força forte é 1040 vezes mais forte que a força gravítica (G0)
Se compararmos a intensidade da força forte ao diâmetro do Universo (8,8 x 1026m)...
... a intensidade da força gravítica equivaleria a 8,8 fm (núcleo de um átomo de Ouro)
Se G0 fosse aumentada em 1 / 1031, mesmo organismos unicelulares seriam esmagados
Se G0 fosse aumentada em 1 / 1037, não haveria estrelas com mais de mil milhões de anos
O Argumento Teleológico
32
Gama de valores possíveis
G0 – Força
gravítica
1040 x G0 –
Força forte
1037 x G0 – Força
electromagnética
1031 x G0 –
Força fraca
A “afinação” do Universo: massas do protão e do neutrão
O neutrão, fora do núcleo, é instável: decai em 15 minutos gerando:
um protão (p)
um electrão (e-)
e um antineutrino de electrão (νe)
O protão é estável porque não tem energia suficiente para decair (Ep ≈ 99,86% En)
Se o protão fosse 0,14 % mais pesado, não seria estável (não haveria Hidrogénio)
Se o neutrão fosse 0,14% mais pesado, não existiriam estrelas de Hidrogénio estáveis!
O Argumento Teleológico
33
A “afinação” do Universo: densidade da matéria no início do Universo
A energia de expansão do Universo “compete” com a força gravítica
A densidade crítica é o limite a partir do qual a gravidade vence (5 átomos / m3)
Perto do Big Bang, a densidade manteve-se praticamente igual à critica
No tempo de Plank (5,4 x 10-44 s), a densidade da matéria esteve "afinada" 1 parte em 1060
O Argumento Teleológico
34
A “afinação” do Universo: a entropia inicial esteve "afinada" 1 parte em 10 ^ 10123
O Argumento Teleológico
35
Roger Penrose
A “afinação” do Universo
Quatro forças fundamentais da Natureza
Força gravítica
Força electromagnética
Força nuclear forte
Força nuclear fraca
A força nuclear forte mantém a coesão do núcleo atómico
A força electromagnética causa atracção/repulsão entre partículas com carga eléctrica
Uma variação de mais de 0,5% na força forte…
… ou de mais de 4% na força electromagnética…
… resultaria:
Na destruição de todo o Carbono estelar
Na destruição de todo o Oxigénio estelar
Não conhecemos qualquer forma de vida sem Carbono
ou sem Oxigénio
O Argumento Teleológico
36
A “afinação” do Universo
Para a existência de 92 elementos estáveis, a estrutura dos núcleos tem que ser estável
A força forte tem que estar muito equilibrada com a força electromagnética
O Argumento Teleológico
37
A “afinação” do Universo
O processo triplo-alfa e o nível de energia do Carbono 12
Como surgiram as partículas mais pesadas que o 4He, dado que não há átomos estáveis
com 5 ou 8 partículas no núcleo?
O 5Li (5 nucleões) e o 8Be (8 nucleões) são instáveis
O processo triplo-alfa explica o surgimento de 12C pela colisão de 8Be com 4He
Os cálculos teóricos previam muito menos 12C do que o existente no Universo
Como surgiu o restante Carbono 12?
Graças à ressonância do seu nível de energia, que amplifica o processo triplo-alfa!
O Argumento Teleológico
38
O Argumento Teleológico
A escala do Universo
Das ínfimas partículas subatómicas (raio do electrão ~10-20m)…
… aos enormes aglomerados de galáxias (~1023m)…
... o tamanho do ser humano está aproximadamente a meio da escala logarítmica!
Este exemplo é apresentado como curiosidade, e não como uma “afinação” rigorosa
39
Versão de Robin Collins (“The Blackwell Companion to Natural Theology”, 2009)
UAV: Universo Afinado para a Vida inteligente (facto científico)
T: Hipótese teísta: existe uma entidade inteligente que criou o Universo com finalidade
N: Hipótese naturalista: não existe uma entidade inteligente que criou o Universo
As hipóteses T e N excluem-se mutuamente
A probabilidade do UAV dada a hipótese N é extremamente baixa:
A probabilidade do UAV dada a hipótese T não é inverosímil:
Pelo princípio da verosimilhança:
T é uma hipótese sugerida muito antes (e independentemente) de sabermos o facto UAV
Pelo princípio da verosimilhança, o facto UAV reforça fortemente a hipótese T face à N
O Argumento Teleológico
A "afinação" do Universo é muito mais expectável se ele foi feito por uma entidade inteligente!
0)|( NUAVP
0)|(~ TUAVP
40
P(UAV |T)>> P(UAV | N)
O Argumento Teleológico
41
Porque é que o Universo parece "projectado" como uma catedral?
Porque é que o Universo não se parece mais com uma lixeira?
O Argumento Teleológico
42
A "afinação" do Universo: testemunhos
Stephen Hawking (1942-), físico e matemático britânico
Hawking não acredita que Deus exista
Uma Breve História do Tempo (1988):
O Argumento Teleológico
«(…) O que é notável é que os valores destes números
[fundamentais das leis da ciência] parecem ter sido muito
bem ajustados, para tornar possível o desenvolvimento da
vida. Por exemplo, se a carga eléctrica do electrão fosse
apenas ligeiramente diferente, as estrelas ou seriam
incapazes de queimar hidrogénio e hélio, ou então não
teriam explodido.(...)»
43
A "afinação" do Universo: testemunhos
Martin Rees (1942-), físico britânico
Rees não acredita que Deus exista
Just Six Numbers (2001):
O Argumento Teleológico
«(…) Estes seis números constituem uma "receita" para um universo. Adicionalmente, o
desfecho é sensível aos seus valores: se algum deles estivesse "desafinado", não
existiram estrelas nem vida. Esta afinação é apenas um facto bruto, uma coincidência?
Ou é a providência de um Criador benigno? Eu adopto o ponto de vista de que não é
nenhum destes casos. Uma infinidade de outros universos podem bem existir nos quais
os números sejam diferentes. A maioria deles seria nado-morto ou estéril. Apenas
poderíamos ter emergido (e naturalmente agora encontramo-nos) num universo com a
combinação "certa" (...)»
44
O Argumento Teleológico – Objecções
Como escapar à conclusão teísta?
O1: Podemos vir a descobrir uma ou mais leis fundamentais que expliquem a "afinação"!
Apenas transfere a improbabilidade para um nível acima
Porque é que tais leis fundamentais são adequadas à vida inteligente?
O2: Podemos vir a descobrir outras formas de vida diferentes da nossa!
É necessária "afinação" para sequer existirem átomos, ou fontes de energia (estrelas)
Implausibilidade de formas de vida não baseadas em Carbono (formado nas estrelas)
O3: Se estamos aqui a discutir, é porque o Universo tinha que permitir vida inteligente!
Analogia de John Leslie (1988), Cérebros de Boltzmann, cognoscibilidade do Universo
O4: Se existirem infinitos universos, pelo menos um deles terá que permitir vida inteligente!
Supor um infinito número de entidades reais gera contradições
É uma tese metafísica que é cientificamente indemonstrável
O5: Não existe apenas o nosso Universo, mas uma série de universos (Multiverso)
A teoria de cordas poderia explicar a variedade de constantes nos universos
A teoria inflaccionária poderia explicar o processo de geração de novos universos 45
O Argumento Teleológico
Como escapar à conclusão?
Recorrer ao “Multiverso”
O nosso Universo seria apenas um de muitos “domínios” de um “Multiverso”
O “Multiverso” seria regido por leis mais gerais, comuns a todos os “domínios”
O problema: o “Multiverso” continua baseado em leis universais que unem os “domínios”
Tais leis universais, e respectivas constantes, vão apresentar “afinação”!
Recorrer a infinitos universos
É como jogar infinitas vezes na lotaria: a certa altura vamos ganhar de certeza!
Todas as combinações das variáveis físicas estariam presentes num dado universo
Existiriam infinitos universos para esgotar todas essas combinações
Se todos estes universos tivessem que existir, o nosso também teria que existir!
A teoria dos “infinitos universos” (inacessíveis, logo, indemonstráveis) é o suicídio científico!
Para “escapar” à existência de um Deus cientificamente indemonstrável,
sugerem-se infinitos universos cientificamente indemonstráveis?...
46
Críticos do Multiverso
Paul Davies (1946-), físico britânico
Medalha Kelvin (2001)
Prémio Faraday (2002)
Davies é agnóstico acerca da existência de Deus
A Brief History of the Multiverse
(The New York Times, 12 de Abril de 2003):
O Argumento Teleológico – Objecções
«(…) como é que a existência de outros universos pode ser testada? É certo que
todos os cosmólogos aceitam que há regiões do universo que ficam para lá do
alcance dos nossos telescópios, mas algures na rampa escorregadia entre isso e
a ideia de que há um número infinito de universos, a credibilidade chega ao limite.
(...) invocar infinitos universos não observáveis (...) é tão "ad hoc" como invocar
um Criador invisível (...) A teoria do multiverso pode estar vestida com linguagem
científica, mas essencialmente requer o mesmo salto de fé (...)»
47
Críticos do Multiverso
George Ellis (1939-), cosmólogo sul-africano
Ellis é adepto do platonismo
Does the Multiverse Really Exist?
(Scientific American, 19 de Julho de 2011):
O Argumento Teleológico – Objecções
«(…) Ao olhar para este conceito [do multiverso], temos que ter uma mente
aberta, mas não demasiado aberta. É um caminho delicado para percorrer.
Universos paralelos podem ou não existir; o caso não está provado. Vamos
ter que viver com essa incerteza. Não há nada de errado na especulação
filosófica cientificamente baseada, que é o que as propostas do multiverso
são. Mas devemos chamá-la pelo que ela é.»
48
O Argumento Teleológico – Objecções
Vários problemas com o Multiverso...
O Multiverso é apenas (ainda) especulação filosófica sem suporte empírico
Num Multiverso sem "contacto" entre os vários universos...
Qualquer "evidência" a favor desse multiverso será sempre indirecta (será científica?)
Exemplo: maior precisão de uma futura teoria unificada que implicasse vários universos
Todavia, pode-se validar empiricamente um Multiverso com "contacto" entre os universos...
O Multiverso resolveria...
A improbabilidade da "afinação" das constantes do nosso Universo
A improbabilidade da "afinação" das condições iniciais do nosso Universo (talvez...)
Mas persistiria o problema da "afinação" das leis da natureza!
Leis fundamentais teriam que estar "afinadas" para a geração dos vários universos
1. Ou se procuram leis fundamentais do Multiverso que têm que estar afinadas
2. Ou se opta por inúmeros universos "separados" e incomunicáveis (tese não científica)
49
Explicações baseadas num Multiverso também requerem "afinação"!
O Argumento Teleológico – Objecções
A explicação inflaccionária + teoria de cordas também requer "afinação"!
"Mecanismo afinado" para fornecer energia aos vários Universos
"Mecanismo afinado" para gerar as "bolhas" das quais surgem os vários Universos
Relatividade geral de Einstein: explica a formação e rápida expansão das "bolhas"
"Mecanismo afinado" para converter a energia do campo inflaton para massa-energia
Equivalência massa-energia, juntamente com um "mecanismo" para acoplar os campos
"Mecanismo afinado" para gerar a diversidade de leis e constantes dos vários Universos
Teoria de cordas: poderá explicar a diversidade necessária para aumentar a probabilidade
de existirem Universos afinados para a vida
A explicação inflaccionária + teoria de cordas está a ganhar credibilidade científica
Mas se estiver correcta, o problema da "afinação" apenas "subiu" um patamar!
50
A explicação inflaccionária + teoria de cordas também requer "afinação"!
O argumento de Richard Dawkins contra a explicação divina
Dawkins pretende que Deus não pode ser uma explicação para o Cosmos
Afirma que, nesse caso, Deus seria mais complexo que o Cosmos
E diz que devemos abandonar a explicação divina por ser mais complexa
Alguns problemas deste argumento...
1. Os cristãos tipicamente dizem que Deus é simples e não complexo
2. Mesmo que Deus fosse mais complexo do que o Cosmos...
... Deus poderia ser uma boa explicação para o Cosmos
Afinal... Dawkins é mais complexo que qualquer um dos seus livros!
E no entanto, Dawkins é uma excelente explicação para a existência de
qualquer um dos dos seus livros
3. Uma explicação pode ser boa, mesmo sem termos a explicação da explicação
O Argumento Teleológico – Objecções
51
O “argumento central” contra Deus, de Richard Dawkins
Richard Dawkins apresenta-o em “The God Delusion”, p. 198-199
1. O maior desafio é explicar a complexa e improvável aparência de um design criador
2. A tentação natural é atribuir a aparência de design ao próprio design
3. A tentação anterior é falsa: quem criou esse criador do design?
4. Pelo contrário, a evolução darwiniana explica a complexidade a partir da simplicidade: um
“guindaste” (“crane”) assente no chão em vez de uma série de “ganchos” (“hooks”) vindos do céu
5. No entanto, ainda não há algo semelhante ao darwinismo para a Física, que explique o aparente
design do universo: será o multiverso? O princípio antrópico dá-nos direito de aceitar a sorte que
temos em estar no universo certo
6. Não devemos desistir de esperar por um “guindaste” que explique o design do universo; até lá,
ficamos com o princípio antrópico (“sorte”), que é melhor que ganchos no céu
Logo, é quase certo que Deus não existe!
52
O Argumento Teleológico – Objecções
O “argumento central” contra Deus, de Richard Dawkins
Dawkins não refutou o argumento teleológico
A pretensa “refutação” de Dawkins está mal estruturada: não se percebe
onde estão as premissas e como está montado o argumento, pois ele não
segue as regras da lógica e dos silogismos
“Who designed the Designer?”, pergunta Dawkins:
Uma explicação não é má ou inútil só porque não temos uma
explicação da explicação
Senão todo o conhecimento humano cairia por Terra
É irracional só aceitar uma explicação E1, se tivermos uma explicação
E2 que explica E1, e uma explicação E3 que explica E2, e uma
explicação E4 que explica E3, e assim por diante … até ao infinito!
Nunca se explicaria nada!
Recorrer ao multiverso para tentar fugir do “design” é uma solução “ad hoc”
Apelar à sorte é irracional: “estamos aqui, não estamos?”
Recorrer a “guindastes” e “ganchos” não salva um mau argumento
53
O Argumento Teleológico – Objecções
Desvantagens do Argumento Teleológico de Collins (ATC)
Não é tão sólido quanto a quinta via tomista (pela causa final)
O ATC é um argumento probabilístico: perante o grau de “afinação” do Universo, é
muito mais provável que o Universo se deva a um ser inteligente do que ao acaso
A quinta via é um argumento dedutivo: a conclusão decorre das premissas
Conhecimento científico futuro pode tornar menos improvável a “afinação” do Universo
Conhecimento científico futuro pode enfraquecer consideravelmente o ATC
A quinta via tomista nunca foi refutada
A quinta via tomista não depende, e nunca dependeu, do conhecimento científico
Nenhuma descoberta científica futura pode enfraquecer essa prova tomista
Sendo puramente metafísica, tal prova é sempre e necessariamente válida
O Argumento Teleológico
Apesar do seu interesse filosófico-científico, o Argumento Teleológico de
Robin Collins não é tão sólido quanto a quinta via de São Tomás
54
Possíveis explicações
Regularista (enfraquece o método científico)
As leis da natureza apenas descrevem regularidades observadas no Universo
Essas regularidades são um facto bruto: não têm nem requerem nenhuma explicação
Não explica o carácter contra-factual das leis da natureza
Destrói a confiança na indução: como se podem retirar leis universais de meras regularidades?
Necessitarista (prefere a simplicidade de forma "ad hoc")
As leis da natureza reflectem relações necessárias entre universais, quantificadas em funções
Para chegar a uma lei funcional, escolhe-se a função mais simples que se adapta aos dados
Mas porquê a função mais simples? Qual a base filosófica para escolher a mais simples?
Platónica (sofre dos problemas do platonismo)
A razão pela qual o Universo é regular e hierarquicamente ordenado é porque isso é bom
O conceito de Bem (ou Bom) impede a existência de Universos irregulares ou desordenados
Teísta (a melhor explicação)
As regularidades descritas pelas leis da natureza assentam na vontade racional de Deus
Desdobra-se em duas hipóteses teológicas:
Deus criou e sustém directa e permanentemente essas regularidades
Deus criou e sustém coisas naturais cujas essências obedecem a essas regularidades
Se Deus criou o intelecto humano, é expectável que este detecte as regularidades naturais
O Argumento Nomológico – Porque há leis da natureza?
55
Robert Boyle (1627-1691), químico, físico, filósofo e teólogo irlandês
Os primeiros cientistas da era moderna eram quase todos cristãos
Explicaram teologicamente as regularidades da Natureza pela constância da vontade de Deus
Por basearem essas regularidades na vontade constante de Deus, chamaram-lhes “leis”
Assim, o termo “lei da Natureza” nasce de um postulado teológico
Esse postulado tem, também, uma vertente moral
Assim, a vontade de Deus, supremo legislador, traduzida em “leis divinas”, dá origem a:
“Leis” científicas, às quais a Natureza “obedece” por não ter liberdade para “desobedecer”
”Leis” morais, às quais o Homem deve obedecer, mas sendo livre, pode não obedecer
O Argumento Nomológico
«Deus [é] o Autor do universo, e o livre Estabelecedor das Leis do
movimento, cujo geral Concurso é necessário para a conservação
e Eficácia de cada Agente Físico em particular.»
«A natureza deste ou daquele corpo não é mais do que a lei de
Deus prescrita a ele [e] falando propriamente, uma lei não é mais
do que uma regra nocional de agir de acordo com a vontade
declarada de um superior.»
Robert Boyle (1627-1691)
56
Palestra de Bento XVI
Aula Magna de Ratisbona
12 de Setembro de 2006: "Fé, Razão e Universidade"
"(...) a razão moderna (...) tem simplesmente de
aceitar a estrutura racional da matéria e a
correspondência entre o nosso espírito e as
estruturas racionais operativas na natureza
como um dado de facto, sobre o qual se baseia o
seu percurso metódico"
O Argumento Nomológico
 Quais são os pressupostos filosóficos e
teológicos da Ciência moderna?
O trabalho científico pressupõe um Universo racional e inteligível!
57
A eficácia da Matemática em Ciência
Eugene Wigner (1902-1995), físico e matemático ateu
Prémio Nobel da Física (1963)
The Unreasonable Effectiveness of Mathematics in
the Natural Sciences (1960)
O Argumento Nomológico
«(…) fundamentalmente, não sabemos porque é que as
nossas teorias funcionam tão bem. Por isso, a sua precisão
pode não provar a sua verdade e consistência. (...)
O milagre da apropriedade da linguagem da matemática à
formulação das leis da física é um dom maravilhoso, que
nós nem entendemos nem merecemos. Deveríamos estar
agradecidos por ele, e esperar que se mantenha válido em
pesquisas futuras (...)»
58
59
1. Introdução
2. O Argumento Cosmológico
3. O Argumento Teleológico
4. Conclusão
Índice
59
Argumentos a favor do teísmo...
A1: Argumento Cosmológico de Leibniz: demonstra existir uma entidade:
Que tem em si mesma a sua razão de existir
Que não poderia não existir, e portanto é eterna (ou pelo menos perpétua)
Que é imaterial: não é feita de massa / energia
A2: Argumento Teleológico: a partir do facto da "afinação" do Universo:
Defende que a "afinação" é imensamente mais expectável dado o teísmo
Aponta para a inteligência da entidade que o A1 demonstra existir
A3: Argumento Nomológico: a partir da existência de leis da natureza:
Defende que a melhor explicação para as leis da natureza é a teísta
Aponta para a vontade racional da entidade que o A1 demonstra existir
Conclusão
60
61
A Sua existência é obrigatória
É a explicação do Universo
É distinto do Universo
É imaterial
Não é feito de massa / energia
Não é antropomórfico
É eterno (ou pelo menos perpétuo)
É racional e inteligente
É livre para agir como quer
É intencional
Age com finalidade(s)
Quer um Universo racional
Quer vida inteligente
Conclusão
Criador e Criação
O Criador é livre
Um Universo contingente só existe por causa de uma decisão livre
Deus não estava obrigado a criar este (ou qualquer outro) Universo
O Criador cria “fora” do tempo e do espaço
Estamos “formatados” para pensar de forma temporal (sequencial)
A Criação está sempre em curso, no “eterno presente” de Deus
A Criação é o acto pelo qual Deus mantém o Universo em “ser”
O Criador não é uma causa física (natural)
Deus não “dá à corda” ao Universo, deixando-o a trabalhar
O “Big Bang” não é um “empurrão” de Deus
Deus é a causa primeira, absolutamente transcendente ao Universo
O Criador não é complexo (apesar de o Universo ser complexo)
62
Conclusão
Bibliografia recomendada
Coord. William Lane Craig, J.P. Moreland
Argumentos para a existência de Deus
Argumentos para a imaterialidade da mente
Anthony Rizzi
Físico teórico, trabalha no LIGO
O livro conjuga ciência com São Tomas de Aquino

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Módulo IX - Os Argumentos Cosmológico e Teleológico

  • 1. Curso Ciência e Fé Módulo IX – Os Argumentos Cosmológico e Teleológico © Bernardo Motta bmotta@observit.pt http://espectadores.blogspot.com
  • 2. Curso Ciência e Fé I – Introdução II – Filosofia Grega e Cosmologia Grega III – Filosofia Medieval e Ciência Medieval IV – Inquisição e Ciência V e VI – O Caso Galileu VII – A Revolução Científica VIII – Darwin e a Igreja Católica IX – Os Argumentos Cosmológico e Teleológico X – Filosofia da Mente e Inteligência Artificial XI – Milagres e Ciência XII – Concordância entre Cristianismo e Ciência
  • 3. 1. Introdução 2. O Argumento Cosmológico 3. O Argumento Teleológico 4. Conclusão Índice 3
  • 4. Introdução 4 «(…) Deus, a causa primeira (principium) e o fim de todas as coisas, pode, a partir das coisas criadas, ser conhecido com certeza pelo poder natural da razão humana (…)» - Vaticano I
  • 5. Introdução 5 A existência de Deus Razões subjectivas Emotivas, estéticas, intuitivas, vivenciais, fenomenológicas, etc. Difíceis de comunicar, mas válidas para o sujeito que as tem Aval epistémico (Cfr. Alvin Plantinga, “epistemic warrant”) A crença na existência de Deus é uma “crença propriamente básica” Como tal, é uma crença racional e justificada, mesmo na ausência de argumentos Alvin Plantinga defende-a usado uma forma de fiabilismo epistémico (externalista) Argumentos objectivos (independentes do sujeito) Argumentos “a priori”: argumento ontológico (Santo Anselmo, Leibniz, Gödel, etc.) Argumentos “a posteriori” Demonstrativos Indutivos Inferência para a melhor explicação
  • 6. Introdução 6 A existência de Deus Argumentos demonstrativos Uma vez aceites as premissas, a conclusão é silogisticamente válida As premissas apenas têm que ser aceites como mais prováveis que a sua negação Argumento cosmológico de Leibniz Premissas: metafísicas (princípio da razão suficiente, entre outras) Conclusão: a razão para a existência do Universo está num Ser necessário Argumento cosmológico “kalam” (William Lane Craig) Premissas: físicas e/ou metafísicas Conclusão: a causa do Universo é um ser eterno e imaterial Argumentos tomistas (as “cinco vias”) Premissas: metafísicas Conclusão: a causa do Universo é imutável, não causada, necessária, sumamente perfeita e inteligente Argumentos de “design”: o argumento do “fine tuning” do Universo (Robin Collins)
  • 7. Introdução 7 Da existência de Deus ao catolicismo 1. Deus existe (“preâmbulo da Fé”) Crença através de razões subjectivas Crença racionalmente sustentada por aval epistémico Certeza intelectual através de demonstração filosófica (reforçada pela ciência) 2. Jesus Cristo é Deus Argumentos históricos em defesa da solidez dos textos do Novo Testamento Solidez dos relatos de milagres (e de entre todos, o da ressurreição de Cristo) Carácter fidedigno das testemunhas oculares da ressurreição (1 Cor 15) Testemunho dos mártires 3. A Igreja Católica é a Igreja que Jesus Cristo quis fundar (Mateus 16, 18) Argumentos históricos para defender que o catolicismo é a doutrina cristã genuína Credibilidade da Igreja Católica (incorruptibilidade da doutrina) Credibilidade e testemunho dos beatos e dos santos, e de seus milagres e visões
  • 8. 8 1. Introdução 2. O Argumento Cosmológico 3. O Argumento Teleológico 4. Conclusão Índice 8
  • 9. Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) Filósofo, matemático e cientista alemão Porque é que existe algo (em vez de nada)? Porque é que as coisas são como são? Porque é que o Universo existe (em vez de nada)? Porque é que o Universo é como é? Podemos imaginar um Universo com mais massa / energia Podemos imaginar um Universo com a mesma massa / energia mas outro arranjo Podemos imaginar um Universo: Com a mesma matéria (massa / energia) e com o mesmo arranjo... ... mas feito a partir de outro conjunto de matéria O Argumento Cosmológico de Leibniz O Universo podia não existir ou ser diferente! 9
  • 10. Universo Necessário Auto-suficiente e auto-subsistente Contém a sua própria explicação As constantes físicas não poderiam ter valores diferentes dos que têm As leis da Natureza não poderiam ser diferentes do que são Compreensível a priori pelo intelecto… … porque sendo necessário, nem sequer teria que ser observado para ser compreendido! Universo Contingente Ontologicamente dependente (podia não ser assim, ou podia nem sequer existir) A sua existência requer explicação As constantes físicas poderiam ter valores diferentes dos que têm As leis da Natureza poderiam ser diferentes do que são Compreensível a posteriori pelo intelecto, sem dispensar a observação empírica… … porque não sendo necessário, há que “abrir os olhos” e ver como as coisas são! O Universo tem que ser contingente ! Se assim não fosse, nada no Universo poderia ser diferente do que é! 10 O Argumento Cosmológico de Leibniz
  • 11.  Totalidade das coisas materiais (massa-energia)...  ... que já existiram  ... que existem agora  ... que irão existir  Logo, usarei o termo "Universo":  Como representando o "nosso" Universo, se for o único  Como representando todos os universos, se existir mais do que um Definição de Universo 11
  • 12. Princípio da Razão Suficiente (PRS) PRS: qualquer coisa existente tem uma explicação (razão) para existir: Ou noutra coisa diferente e já existente Ou em si mesma: Essa coisa existe obrigatoriamente Essa coisa não pode não existir Essa coisa não pode ser diferente do que é O Universo existe Logo, pelo PRS... ... o Universo tem que ter uma explicação para a sua existência! O Argumento Cosmológico de Leibniz Qual é a explicação para a existência do Universo? 12
  • 13. PRS: a explicação para a existência do Universo tem que estar: Ou numa coisa diferente do Universo e já existente Ou então no próprio Universo: O Universo existiria obrigatoriamente O Universo não poderia não existir O Universo não poderia ser diferente do que é Se a explicação está numa coisa diferente do Universo, essa coisa é imaterial... ... porque definimos o Universo como a totalidade das coisas materiais! Como fugir de explicações imateriais para a existência do Universo? O Argumento Cosmológico de Leibniz Qual é a explicação para a existência do Universo? 13 Estará a explicação no próprio Universo?
  • 14. O Universo é a totalidade das coisas materiais (massa / energia) O Universo só terá em si mesmo a explicação da sua existência... ... se o mesmo se passar com todas as coisas materiais que o compõem Os objectos macroscópicos existem obrigatoriamente? Nenhum tem existência obrigatória Algures no passado, qualquer objecto macroscópico não existia Poderiam ser diferentes do que são As partículas subatómicas fundamentais existem obrigatoriamente? Não: o Universo poderia ser feito de um conjunto diferente de partículas subatómicas, mesmo que a sua quantidade e arranjo fossem iguais A massa / energia e sua distribuição no Universo poderiam até ser as mesmas, mas podíamos ter outras partículas, em vez das que temos O Argumento Cosmológico de Leibniz Estará a explicação no próprio Universo? 14
  • 15. A explicação para a existência do Universo está: Numa coisa diferente do Universo, e portanto, imaterial Numa coisa que existe "causalmente antes" do Universo (porque o explica) Essa coisa não tem que existir "temporalmente antes" do Universo Mesmo que o Universo fosse eterno, necessitaria de uma coisa que o explicasse E terá que ser uma "primeira coisa" que não depende de outra para existir Demonstrámos a existência de uma coisa distinta do Universo: Que tem em si mesma a sua razão de existir, que não depende de outra para existir Que não poderia não existir, e portanto é eterna (ou pelo menos perpétua) Que é imaterial: não é feita de massa / energia O Argumento Cosmológico de Leibniz 15Esta coisa parece-se com Deus... mas é Deus? Universo Coisa 1 Coisa 2 Coisa 3 Coisa N...
  • 16. Versão de William Lane Craig (1949-) Premissa 1: Tudo o que não existe desde sempre deve a sua existência a algo distinto de si mesmo Premissa 2: O Universo não existe desde sempre Conclusão (MP, 1,2): Logo, o Universo deve a sua existência a algo distinto de si mesmo P: “algo não existe desde sempre” Q: “algo deve a sua existência a algo distinto de si mesmo” Regra “modus ponens” 1. P → Q 2. P 3. Q O Argumento Cosmológico "Kalam" Uma vez provadas as Premissas, pela regra “modus ponens”, a Conclusão está provada e é inevitável: decorre das leis da Lógica! 16
  • 17. Demonstração da Premissa 1: “Tudo o que não existe desde sempre deve a sua existência a algo distinto de si mesmo” Objecção: “e se uma coisa for a causa da sua própria existência?” “A” seria a causa da existência de “A”… Se “A” não existe desde sempre, então antes de “A” existir, “A” não existia No entanto, apesar de “A” não existir, “A” fez surgir “A”, o que é absurdo! Objecção: “na mecânica quântica há fenómenos sem causa”, como a materialização espontânea de pares de partículas virtuais (partícula e antipartícula) Há pelo menos 14 interpretações filosóficas da mecânica quântica (4 determinísticas) Mesmo segundo a interpretação de Copenhaga (indeterminista), as partículas virtuais não surgem “do nada”: são flutuações espontâneas da energia de vácuo Essa energia, em sentido aristotélico, é a causa material do par de partículas Um fenómeno espontâneo é imprevisível, o que não é o mesmo que não causado O eventual indeterminismo quântico não implica a ausência de causas dos fenómenos O princípio da incerteza de Heisenberg é epistémico (reflecte uma incerteza no nosso17 O Argumento Cosmológico "Kalam"
  • 18. Demonstração da Premissa 1: “Tudo o que não existe desde sempre deve a sua existência a algo distinto de si mesmo” Objecção: “A Ciência vai provar, um dia, que a causa do Universo está no Universo” Nunca haverá essa prova definitiva: tese Jaki-Gödel Teoremas da Incompletude do matemático Kurt Gödel (1930) Num sistema formal consistente com regras básicas de lógica e de aritmética… … há proposições que não podem ser nem provadas nem refutadas partindo dos axiomas e usando as regras internas do sistema – proposições indecidíveis Um sistema formal só é completo se não contiver proposições indecidíveis Então: 1) não há sistemas formais consistentes e completos Então: 2) um sistema formal ou é inconsistente ou é incompleto Ou seja, não é possível provar a completude de um sistema formal consistente usando os seus axiomas e as suas regras internas! A Física baseia-se na matemática; logo, está sujeita aos Teoremas de Gödel A Física não se pode apoiar em sistemas formais inconsistentes (com contradições) Logo, a Física apoiar-se-á sempre em sistemas formais incompletos Pode-se vir a descobrir uma “teoria de tudo”, mas não se poderá provar que é a última! 18 O Argumento Cosmológico "Kalam"
  • 19. Demonstração da Premissa 2: “O Universo não existe desde sempre” Argumentos filosóficos: Não existe um infinito actual (apenas potencial) Não existe uma regressão infinita de eventos temporais Senão, nunca chegaríamos ao presente Argumentos científicos: A solidez do Modelo Standard (Friedmann-Lemaître-Robertson-Walker: “Big Bang”) Os Teoremas da Singularidade de Hawking e Penrose (1970) O Teorema da Singularidade de Borde, Guth e Vilenkin (2003) 19 O Argumento Cosmológico "Kalam"
  • 21. Demonstração da Premissa 2: “O Universo não existe desde sempre” Teoremas da Singularidade de Hawking e Penrose (1970) Singularidade espacial: massa concentrada num só ponto (volume zero) Singularidade temporal: luz emitida por região com curvatura infinita do espaço-tempo Numa singularidade, as quantidades usadas para medir o campo gravítico no modelo da Relatividade Geral tornam-se infinitas (p. ex.: curvatura infinita do espaço-tempo) Incompletude geodésica: existem percursos (geodésicas) no espaço-tempo que não podem ser percorridos em tempo infinito por terminarem numa singularidade Hawking e Penrose demonstraram que, desde que o Universo seja regulado pela Relatividade Geral de Einstein, o seu passado irá incluir uma singularidade Escapar aos Teoremas da Singularidade de Hawking e Penrose… Closed Timelike Curves (CTCs): “máquinas do tempo” (permitidas pela Rel. Geral) Modelo algo “louco”, implicando o tempo fechado sobre si mesmo Violação da Condição de Energia Forte: inflação eterna/caótica Falsidade da Relatividade Geral na fase inflaccionária: gravidade quântica? 21 O Argumento Cosmológico "Kalam"
  • 22. Demonstração da Premissa 2: “O Universo não existe desde sempre” Teorema da Singularidade de Borde, Guth e Vilenkin (2003) Desde que Hav>0 (o Universo tenha estado, em média, em expansão)… … as geodésicas nulas e temporais são incompletas no passado Ou seja, a idade do Universo é finita O teorema é válido para Universos não sujeitos à Relatividade Geral O teorema é válido para Universos multidimensionais Como escapar ao Teorema de Borde, Guth e Vilenkin… Contracção infinita (Hav<0): neste caso, o Universo esteve em contracção desde o passado infinito até chegar a um “big crunch”, seguido de um “big bang”; modelo instável, requer afinação incrivelmente precisa antes do “big crunch” Estaticidade assimptótica (Hav=0, porque H(∞)=0): neste caso, no infinito temporal, o Universo deixará de se expandir; modelo instável, requer afinação precisa Universo cíclico (Hav=0): já deveria estar em equilíbrio termodinâmico Tempo exótico: inversão temporal na singularidade (t → -∞ “antes” da singularidade) 22 O Argumento Cosmológico "Kalam"
  • 23. William Lane Craig (1949-) Premissa 1: Tudo o que não existe desde sempre deve a sua existência a algo distinto de si mesmo Premissa 2: O Universo não existe desde sempre Conclusão (MP, 1,2): Logo, o Universo deve a sua existência a algo distinto de si mesmo P: “algo não existe desde sempre” Q: “algo deve a sua existência a algo distinto de si mesmo” Regra “modus ponens” 1. P → Q 2. P 3. Q O Argumento Cosmológico "Kalam" Uma vez provadas as Premissas, pela regra “modus ponens”, a Conclusão está provada e é inevitável: decorre das leis da Lógica! 23
  • 24. William Lane Craig (1949-) Premissa 1: Se o Universo não existe desde sempre, então deve a sua existência a algo distinto de si mesmo Premissa 2: O Universo não existe desde sempre Conclusão (MP, 1,2): Então, o Universo deve a sua existência a algo distinto de si mesmo P: “O Universo não existe desde sempre” Q: “O Universo deve a sua existência a algo distinto de si mesmo” O Argumento Cosmológico "Kalam" – versão "modesta" Uma vez provadas as Premissas, pela regra “modus ponens”, a Conclusão está provada: decorre das leis da Lógica! Regra “modus ponens” 1. P → Q 2. P 3. Q 24
  • 25. Segundo Craig, a causa do Universo… Não é espacial, não é temporal, não é material, não é energética O espaço-tempo não se prolonga infinitamente para o passado Logo, o espaço-tempo não existe desde sempre Logo, a causa do Universo transcende o espaço-tempo Matéria e energia fazem parte da realidade do Universo A causa do Universo, por ser distinta deste, não é composta por matéria ou energia É dotada de vontade e de livre arbítrio, é um agente livre O Universo é o efeito de uma causa sobrenatural ("fora" do âmbito da Natureza) Logo, o surgimento do Universo não se explica por leis científicas e estados anteriores Excluída uma causa de tipo natural (científica), resta supor um agente livre Será uma mente? Só concebemos dois tipos de entidades imateriais: mentes e conceitos abstractos Mas os conceitos abstractos (p. ex.: números) não são agentes nem causam nada! 25 O Argumento Cosmológico "Kalam"
  • 26. Porque razão existe algo em vez de nada? O cristão diz que nada existiria sem um ser cuja inexistência é impossível (ser necessário) Mais concretamente, o aristotélico-tomista diz que: A essência desse ser é existir (essência e existência são idênticas em Deus) Esse ser é que concede a existência a tudo o que existe Logo, nada existiria sem esse ser, que é “o Ser”! Esse ser necessário, não causado, é a “causa primeira” que dá existência ao Universo Pelo contrário, o ateu só pode dizer… … Que a inexistência do Universo é impossível (Universo necessário e eterno), ou… … Que o Universo é a causa da sua existência (Universo necessário e eterno), ou… … Que o Universo, a certa altura, surgiu do nada, sem causa e para nada! O Argumento Cosmológico O ateísmo é filosoficamente absurdo e incompatível com o conhecimento científico dos nossos tempos! 26
  • 27. Desvantagens do Argumento Cosmológico “kalam” (ACK) Não é tão sólido quanto as provas tomistas (primeira, segunda e terceira vias): A segunda premissa do ACK, “O Universo não existe desde sempre”, é vulnerável: A uma eventual nova filosofia do tempo que explicasse um Cosmos eterno A eventuais (mesmo que remotas) provas científicas da eternidade do Cosmos A primeira premissa é irrefutável, mas se a segunda for falsa, o ACK cai por terra… As provas tomistas, apesar de muito criticadas e tidas por inválidas, nunca foram refutadas As provas tomistas não dependem, e nunca dependeram, do conhecimento científico Nenhuma descoberta científica futura pode enfraquecer as provas tomistas Sendo puramente metafísicas, tais provas são sempre e necessariamente válidas O Argumento Cosmológico Apesar do seu interesse filosófico-científico, o ACK não é tão sólido quanto as três primeiras provas filosóficas de São Tomás 27
  • 28. 28 1. Introdução 2. O Argumento Cosmológico 3. O Argumento Teleológico 4. Conclusão Índice 28
  • 29. Argumento filosófico a favor da finalidade (“telos”, em grego) do Universo Parte do facto científico da “afinação” (“fine tuning”) do Universo para a existência de vida inteligente: “Afinação” das leis da natureza “Afinação” das constantes das leis da natureza “Afinação” das condições iniciais do Universo Quatro explicações possíveis: 1. O Universo só podia ser assim: excluída pelo argumento de Leibniz 2. O Universo podia não ser assim, mas é assim: "facto bruto" ou "sorte" 3. Existem inúmeros Universos, e o nosso está “afinado” 4. O Universo foi criado com finalidade por uma entidade inteligente Este argumento não é dedutivo, mas indutivo (não é uma “demonstração”) O Argumento Teleológico 29 Gama de valores possívels Gama de valores possíveis Vida inteligente (desenho não está à escala)
  • 30. A “afinação” do Universo Definição rigorosa de “afinação” Diz-se que uma constante C está “afinada” para a existência de vida se: WVPV é a gama de valores possíveis para a constante C que permitem a vida Ou seja, se a constante C tivesse valores fora dessa gama, a vida não seria possível WVC é uma gama adequada de valores de comparação para a constante C A discussão em torno da gama de comparação é polémica e ainda está em curso! Essa discussão é importante para quantificar as “afinações”, mas não há como negá-las! Robin Collins é um filósofo norte-americano que se tem destacado nesta discussão O Argumento Teleológico 1 VC VPV W W 30
  • 31. A “afinação” do Universo: leis da natureza Leis fundamentais indispensáveis à vida inteligente: Força gravítica: sem ela, não existiriam estrelas (energia) nem elementos pesados Força electromagnética: sem ela, não existiriam átomos, química, radiação (luz) Força nuclear forte: sem ela, não existiriam átomos nem química Princípio de quantização (Bohr, 1913): sem ele, não existiriam átomos estáveis Princípio de exclusão (Pauli, 1925): sem ele, não existiriam átomos complexos O Argumento Teleológico 31
  • 32. A “afinação” do Universo: força gravítica A força forte é 1040 vezes mais forte que a força gravítica (G0) Se compararmos a intensidade da força forte ao diâmetro do Universo (8,8 x 1026m)... ... a intensidade da força gravítica equivaleria a 8,8 fm (núcleo de um átomo de Ouro) Se G0 fosse aumentada em 1 / 1031, mesmo organismos unicelulares seriam esmagados Se G0 fosse aumentada em 1 / 1037, não haveria estrelas com mais de mil milhões de anos O Argumento Teleológico 32 Gama de valores possíveis G0 – Força gravítica 1040 x G0 – Força forte 1037 x G0 – Força electromagnética 1031 x G0 – Força fraca
  • 33. A “afinação” do Universo: massas do protão e do neutrão O neutrão, fora do núcleo, é instável: decai em 15 minutos gerando: um protão (p) um electrão (e-) e um antineutrino de electrão (νe) O protão é estável porque não tem energia suficiente para decair (Ep ≈ 99,86% En) Se o protão fosse 0,14 % mais pesado, não seria estável (não haveria Hidrogénio) Se o neutrão fosse 0,14% mais pesado, não existiriam estrelas de Hidrogénio estáveis! O Argumento Teleológico 33
  • 34. A “afinação” do Universo: densidade da matéria no início do Universo A energia de expansão do Universo “compete” com a força gravítica A densidade crítica é o limite a partir do qual a gravidade vence (5 átomos / m3) Perto do Big Bang, a densidade manteve-se praticamente igual à critica No tempo de Plank (5,4 x 10-44 s), a densidade da matéria esteve "afinada" 1 parte em 1060 O Argumento Teleológico 34
  • 35. A “afinação” do Universo: a entropia inicial esteve "afinada" 1 parte em 10 ^ 10123 O Argumento Teleológico 35 Roger Penrose
  • 36. A “afinação” do Universo Quatro forças fundamentais da Natureza Força gravítica Força electromagnética Força nuclear forte Força nuclear fraca A força nuclear forte mantém a coesão do núcleo atómico A força electromagnética causa atracção/repulsão entre partículas com carga eléctrica Uma variação de mais de 0,5% na força forte… … ou de mais de 4% na força electromagnética… … resultaria: Na destruição de todo o Carbono estelar Na destruição de todo o Oxigénio estelar Não conhecemos qualquer forma de vida sem Carbono ou sem Oxigénio O Argumento Teleológico 36
  • 37. A “afinação” do Universo Para a existência de 92 elementos estáveis, a estrutura dos núcleos tem que ser estável A força forte tem que estar muito equilibrada com a força electromagnética O Argumento Teleológico 37
  • 38. A “afinação” do Universo O processo triplo-alfa e o nível de energia do Carbono 12 Como surgiram as partículas mais pesadas que o 4He, dado que não há átomos estáveis com 5 ou 8 partículas no núcleo? O 5Li (5 nucleões) e o 8Be (8 nucleões) são instáveis O processo triplo-alfa explica o surgimento de 12C pela colisão de 8Be com 4He Os cálculos teóricos previam muito menos 12C do que o existente no Universo Como surgiu o restante Carbono 12? Graças à ressonância do seu nível de energia, que amplifica o processo triplo-alfa! O Argumento Teleológico 38
  • 39. O Argumento Teleológico A escala do Universo Das ínfimas partículas subatómicas (raio do electrão ~10-20m)… … aos enormes aglomerados de galáxias (~1023m)… ... o tamanho do ser humano está aproximadamente a meio da escala logarítmica! Este exemplo é apresentado como curiosidade, e não como uma “afinação” rigorosa 39
  • 40. Versão de Robin Collins (“The Blackwell Companion to Natural Theology”, 2009) UAV: Universo Afinado para a Vida inteligente (facto científico) T: Hipótese teísta: existe uma entidade inteligente que criou o Universo com finalidade N: Hipótese naturalista: não existe uma entidade inteligente que criou o Universo As hipóteses T e N excluem-se mutuamente A probabilidade do UAV dada a hipótese N é extremamente baixa: A probabilidade do UAV dada a hipótese T não é inverosímil: Pelo princípio da verosimilhança: T é uma hipótese sugerida muito antes (e independentemente) de sabermos o facto UAV Pelo princípio da verosimilhança, o facto UAV reforça fortemente a hipótese T face à N O Argumento Teleológico A "afinação" do Universo é muito mais expectável se ele foi feito por uma entidade inteligente! 0)|( NUAVP 0)|(~ TUAVP 40 P(UAV |T)>> P(UAV | N)
  • 41. O Argumento Teleológico 41 Porque é que o Universo parece "projectado" como uma catedral?
  • 42. Porque é que o Universo não se parece mais com uma lixeira? O Argumento Teleológico 42
  • 43. A "afinação" do Universo: testemunhos Stephen Hawking (1942-), físico e matemático britânico Hawking não acredita que Deus exista Uma Breve História do Tempo (1988): O Argumento Teleológico «(…) O que é notável é que os valores destes números [fundamentais das leis da ciência] parecem ter sido muito bem ajustados, para tornar possível o desenvolvimento da vida. Por exemplo, se a carga eléctrica do electrão fosse apenas ligeiramente diferente, as estrelas ou seriam incapazes de queimar hidrogénio e hélio, ou então não teriam explodido.(...)» 43
  • 44. A "afinação" do Universo: testemunhos Martin Rees (1942-), físico britânico Rees não acredita que Deus exista Just Six Numbers (2001): O Argumento Teleológico «(…) Estes seis números constituem uma "receita" para um universo. Adicionalmente, o desfecho é sensível aos seus valores: se algum deles estivesse "desafinado", não existiram estrelas nem vida. Esta afinação é apenas um facto bruto, uma coincidência? Ou é a providência de um Criador benigno? Eu adopto o ponto de vista de que não é nenhum destes casos. Uma infinidade de outros universos podem bem existir nos quais os números sejam diferentes. A maioria deles seria nado-morto ou estéril. Apenas poderíamos ter emergido (e naturalmente agora encontramo-nos) num universo com a combinação "certa" (...)» 44
  • 45. O Argumento Teleológico – Objecções Como escapar à conclusão teísta? O1: Podemos vir a descobrir uma ou mais leis fundamentais que expliquem a "afinação"! Apenas transfere a improbabilidade para um nível acima Porque é que tais leis fundamentais são adequadas à vida inteligente? O2: Podemos vir a descobrir outras formas de vida diferentes da nossa! É necessária "afinação" para sequer existirem átomos, ou fontes de energia (estrelas) Implausibilidade de formas de vida não baseadas em Carbono (formado nas estrelas) O3: Se estamos aqui a discutir, é porque o Universo tinha que permitir vida inteligente! Analogia de John Leslie (1988), Cérebros de Boltzmann, cognoscibilidade do Universo O4: Se existirem infinitos universos, pelo menos um deles terá que permitir vida inteligente! Supor um infinito número de entidades reais gera contradições É uma tese metafísica que é cientificamente indemonstrável O5: Não existe apenas o nosso Universo, mas uma série de universos (Multiverso) A teoria de cordas poderia explicar a variedade de constantes nos universos A teoria inflaccionária poderia explicar o processo de geração de novos universos 45
  • 46. O Argumento Teleológico Como escapar à conclusão? Recorrer ao “Multiverso” O nosso Universo seria apenas um de muitos “domínios” de um “Multiverso” O “Multiverso” seria regido por leis mais gerais, comuns a todos os “domínios” O problema: o “Multiverso” continua baseado em leis universais que unem os “domínios” Tais leis universais, e respectivas constantes, vão apresentar “afinação”! Recorrer a infinitos universos É como jogar infinitas vezes na lotaria: a certa altura vamos ganhar de certeza! Todas as combinações das variáveis físicas estariam presentes num dado universo Existiriam infinitos universos para esgotar todas essas combinações Se todos estes universos tivessem que existir, o nosso também teria que existir! A teoria dos “infinitos universos” (inacessíveis, logo, indemonstráveis) é o suicídio científico! Para “escapar” à existência de um Deus cientificamente indemonstrável, sugerem-se infinitos universos cientificamente indemonstráveis?... 46
  • 47. Críticos do Multiverso Paul Davies (1946-), físico britânico Medalha Kelvin (2001) Prémio Faraday (2002) Davies é agnóstico acerca da existência de Deus A Brief History of the Multiverse (The New York Times, 12 de Abril de 2003): O Argumento Teleológico – Objecções «(…) como é que a existência de outros universos pode ser testada? É certo que todos os cosmólogos aceitam que há regiões do universo que ficam para lá do alcance dos nossos telescópios, mas algures na rampa escorregadia entre isso e a ideia de que há um número infinito de universos, a credibilidade chega ao limite. (...) invocar infinitos universos não observáveis (...) é tão "ad hoc" como invocar um Criador invisível (...) A teoria do multiverso pode estar vestida com linguagem científica, mas essencialmente requer o mesmo salto de fé (...)» 47
  • 48. Críticos do Multiverso George Ellis (1939-), cosmólogo sul-africano Ellis é adepto do platonismo Does the Multiverse Really Exist? (Scientific American, 19 de Julho de 2011): O Argumento Teleológico – Objecções «(…) Ao olhar para este conceito [do multiverso], temos que ter uma mente aberta, mas não demasiado aberta. É um caminho delicado para percorrer. Universos paralelos podem ou não existir; o caso não está provado. Vamos ter que viver com essa incerteza. Não há nada de errado na especulação filosófica cientificamente baseada, que é o que as propostas do multiverso são. Mas devemos chamá-la pelo que ela é.» 48
  • 49. O Argumento Teleológico – Objecções Vários problemas com o Multiverso... O Multiverso é apenas (ainda) especulação filosófica sem suporte empírico Num Multiverso sem "contacto" entre os vários universos... Qualquer "evidência" a favor desse multiverso será sempre indirecta (será científica?) Exemplo: maior precisão de uma futura teoria unificada que implicasse vários universos Todavia, pode-se validar empiricamente um Multiverso com "contacto" entre os universos... O Multiverso resolveria... A improbabilidade da "afinação" das constantes do nosso Universo A improbabilidade da "afinação" das condições iniciais do nosso Universo (talvez...) Mas persistiria o problema da "afinação" das leis da natureza! Leis fundamentais teriam que estar "afinadas" para a geração dos vários universos 1. Ou se procuram leis fundamentais do Multiverso que têm que estar afinadas 2. Ou se opta por inúmeros universos "separados" e incomunicáveis (tese não científica) 49 Explicações baseadas num Multiverso também requerem "afinação"!
  • 50. O Argumento Teleológico – Objecções A explicação inflaccionária + teoria de cordas também requer "afinação"! "Mecanismo afinado" para fornecer energia aos vários Universos "Mecanismo afinado" para gerar as "bolhas" das quais surgem os vários Universos Relatividade geral de Einstein: explica a formação e rápida expansão das "bolhas" "Mecanismo afinado" para converter a energia do campo inflaton para massa-energia Equivalência massa-energia, juntamente com um "mecanismo" para acoplar os campos "Mecanismo afinado" para gerar a diversidade de leis e constantes dos vários Universos Teoria de cordas: poderá explicar a diversidade necessária para aumentar a probabilidade de existirem Universos afinados para a vida A explicação inflaccionária + teoria de cordas está a ganhar credibilidade científica Mas se estiver correcta, o problema da "afinação" apenas "subiu" um patamar! 50 A explicação inflaccionária + teoria de cordas também requer "afinação"!
  • 51. O argumento de Richard Dawkins contra a explicação divina Dawkins pretende que Deus não pode ser uma explicação para o Cosmos Afirma que, nesse caso, Deus seria mais complexo que o Cosmos E diz que devemos abandonar a explicação divina por ser mais complexa Alguns problemas deste argumento... 1. Os cristãos tipicamente dizem que Deus é simples e não complexo 2. Mesmo que Deus fosse mais complexo do que o Cosmos... ... Deus poderia ser uma boa explicação para o Cosmos Afinal... Dawkins é mais complexo que qualquer um dos seus livros! E no entanto, Dawkins é uma excelente explicação para a existência de qualquer um dos dos seus livros 3. Uma explicação pode ser boa, mesmo sem termos a explicação da explicação O Argumento Teleológico – Objecções 51
  • 52. O “argumento central” contra Deus, de Richard Dawkins Richard Dawkins apresenta-o em “The God Delusion”, p. 198-199 1. O maior desafio é explicar a complexa e improvável aparência de um design criador 2. A tentação natural é atribuir a aparência de design ao próprio design 3. A tentação anterior é falsa: quem criou esse criador do design? 4. Pelo contrário, a evolução darwiniana explica a complexidade a partir da simplicidade: um “guindaste” (“crane”) assente no chão em vez de uma série de “ganchos” (“hooks”) vindos do céu 5. No entanto, ainda não há algo semelhante ao darwinismo para a Física, que explique o aparente design do universo: será o multiverso? O princípio antrópico dá-nos direito de aceitar a sorte que temos em estar no universo certo 6. Não devemos desistir de esperar por um “guindaste” que explique o design do universo; até lá, ficamos com o princípio antrópico (“sorte”), que é melhor que ganchos no céu Logo, é quase certo que Deus não existe! 52 O Argumento Teleológico – Objecções
  • 53. O “argumento central” contra Deus, de Richard Dawkins Dawkins não refutou o argumento teleológico A pretensa “refutação” de Dawkins está mal estruturada: não se percebe onde estão as premissas e como está montado o argumento, pois ele não segue as regras da lógica e dos silogismos “Who designed the Designer?”, pergunta Dawkins: Uma explicação não é má ou inútil só porque não temos uma explicação da explicação Senão todo o conhecimento humano cairia por Terra É irracional só aceitar uma explicação E1, se tivermos uma explicação E2 que explica E1, e uma explicação E3 que explica E2, e uma explicação E4 que explica E3, e assim por diante … até ao infinito! Nunca se explicaria nada! Recorrer ao multiverso para tentar fugir do “design” é uma solução “ad hoc” Apelar à sorte é irracional: “estamos aqui, não estamos?” Recorrer a “guindastes” e “ganchos” não salva um mau argumento 53 O Argumento Teleológico – Objecções
  • 54. Desvantagens do Argumento Teleológico de Collins (ATC) Não é tão sólido quanto a quinta via tomista (pela causa final) O ATC é um argumento probabilístico: perante o grau de “afinação” do Universo, é muito mais provável que o Universo se deva a um ser inteligente do que ao acaso A quinta via é um argumento dedutivo: a conclusão decorre das premissas Conhecimento científico futuro pode tornar menos improvável a “afinação” do Universo Conhecimento científico futuro pode enfraquecer consideravelmente o ATC A quinta via tomista nunca foi refutada A quinta via tomista não depende, e nunca dependeu, do conhecimento científico Nenhuma descoberta científica futura pode enfraquecer essa prova tomista Sendo puramente metafísica, tal prova é sempre e necessariamente válida O Argumento Teleológico Apesar do seu interesse filosófico-científico, o Argumento Teleológico de Robin Collins não é tão sólido quanto a quinta via de São Tomás 54
  • 55. Possíveis explicações Regularista (enfraquece o método científico) As leis da natureza apenas descrevem regularidades observadas no Universo Essas regularidades são um facto bruto: não têm nem requerem nenhuma explicação Não explica o carácter contra-factual das leis da natureza Destrói a confiança na indução: como se podem retirar leis universais de meras regularidades? Necessitarista (prefere a simplicidade de forma "ad hoc") As leis da natureza reflectem relações necessárias entre universais, quantificadas em funções Para chegar a uma lei funcional, escolhe-se a função mais simples que se adapta aos dados Mas porquê a função mais simples? Qual a base filosófica para escolher a mais simples? Platónica (sofre dos problemas do platonismo) A razão pela qual o Universo é regular e hierarquicamente ordenado é porque isso é bom O conceito de Bem (ou Bom) impede a existência de Universos irregulares ou desordenados Teísta (a melhor explicação) As regularidades descritas pelas leis da natureza assentam na vontade racional de Deus Desdobra-se em duas hipóteses teológicas: Deus criou e sustém directa e permanentemente essas regularidades Deus criou e sustém coisas naturais cujas essências obedecem a essas regularidades Se Deus criou o intelecto humano, é expectável que este detecte as regularidades naturais O Argumento Nomológico – Porque há leis da natureza? 55
  • 56. Robert Boyle (1627-1691), químico, físico, filósofo e teólogo irlandês Os primeiros cientistas da era moderna eram quase todos cristãos Explicaram teologicamente as regularidades da Natureza pela constância da vontade de Deus Por basearem essas regularidades na vontade constante de Deus, chamaram-lhes “leis” Assim, o termo “lei da Natureza” nasce de um postulado teológico Esse postulado tem, também, uma vertente moral Assim, a vontade de Deus, supremo legislador, traduzida em “leis divinas”, dá origem a: “Leis” científicas, às quais a Natureza “obedece” por não ter liberdade para “desobedecer” ”Leis” morais, às quais o Homem deve obedecer, mas sendo livre, pode não obedecer O Argumento Nomológico «Deus [é] o Autor do universo, e o livre Estabelecedor das Leis do movimento, cujo geral Concurso é necessário para a conservação e Eficácia de cada Agente Físico em particular.» «A natureza deste ou daquele corpo não é mais do que a lei de Deus prescrita a ele [e] falando propriamente, uma lei não é mais do que uma regra nocional de agir de acordo com a vontade declarada de um superior.» Robert Boyle (1627-1691) 56
  • 57. Palestra de Bento XVI Aula Magna de Ratisbona 12 de Setembro de 2006: "Fé, Razão e Universidade" "(...) a razão moderna (...) tem simplesmente de aceitar a estrutura racional da matéria e a correspondência entre o nosso espírito e as estruturas racionais operativas na natureza como um dado de facto, sobre o qual se baseia o seu percurso metódico" O Argumento Nomológico  Quais são os pressupostos filosóficos e teológicos da Ciência moderna? O trabalho científico pressupõe um Universo racional e inteligível! 57
  • 58. A eficácia da Matemática em Ciência Eugene Wigner (1902-1995), físico e matemático ateu Prémio Nobel da Física (1963) The Unreasonable Effectiveness of Mathematics in the Natural Sciences (1960) O Argumento Nomológico «(…) fundamentalmente, não sabemos porque é que as nossas teorias funcionam tão bem. Por isso, a sua precisão pode não provar a sua verdade e consistência. (...) O milagre da apropriedade da linguagem da matemática à formulação das leis da física é um dom maravilhoso, que nós nem entendemos nem merecemos. Deveríamos estar agradecidos por ele, e esperar que se mantenha válido em pesquisas futuras (...)» 58
  • 59. 59 1. Introdução 2. O Argumento Cosmológico 3. O Argumento Teleológico 4. Conclusão Índice 59
  • 60. Argumentos a favor do teísmo... A1: Argumento Cosmológico de Leibniz: demonstra existir uma entidade: Que tem em si mesma a sua razão de existir Que não poderia não existir, e portanto é eterna (ou pelo menos perpétua) Que é imaterial: não é feita de massa / energia A2: Argumento Teleológico: a partir do facto da "afinação" do Universo: Defende que a "afinação" é imensamente mais expectável dado o teísmo Aponta para a inteligência da entidade que o A1 demonstra existir A3: Argumento Nomológico: a partir da existência de leis da natureza: Defende que a melhor explicação para as leis da natureza é a teísta Aponta para a vontade racional da entidade que o A1 demonstra existir Conclusão 60
  • 61. 61 A Sua existência é obrigatória É a explicação do Universo É distinto do Universo É imaterial Não é feito de massa / energia Não é antropomórfico É eterno (ou pelo menos perpétuo) É racional e inteligente É livre para agir como quer É intencional Age com finalidade(s) Quer um Universo racional Quer vida inteligente Conclusão
  • 62. Criador e Criação O Criador é livre Um Universo contingente só existe por causa de uma decisão livre Deus não estava obrigado a criar este (ou qualquer outro) Universo O Criador cria “fora” do tempo e do espaço Estamos “formatados” para pensar de forma temporal (sequencial) A Criação está sempre em curso, no “eterno presente” de Deus A Criação é o acto pelo qual Deus mantém o Universo em “ser” O Criador não é uma causa física (natural) Deus não “dá à corda” ao Universo, deixando-o a trabalhar O “Big Bang” não é um “empurrão” de Deus Deus é a causa primeira, absolutamente transcendente ao Universo O Criador não é complexo (apesar de o Universo ser complexo) 62 Conclusão
  • 63. Bibliografia recomendada Coord. William Lane Craig, J.P. Moreland Argumentos para a existência de Deus Argumentos para a imaterialidade da mente Anthony Rizzi Físico teórico, trabalha no LIGO O livro conjuga ciência com São Tomas de Aquino