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“Felizmente Há Luar!”, de Luís de Sttau Monteiro


       Contextualização

        A história desta peça passa-se na época da revolução francesa de 1789.
        As invasões francesas levaram Portugal à indecisão entre os aliados e os
franceses. Para evitar a rendição, D. João V foge para o Brasil. Depois da primeira
invasão, a corte pede auxílio a Inglaterra para reorganizar o exército. Estes enviam-nos o
general Beresford.
        Luís de Sttau Monteiro denuncia a opressão vivida na época do regime
salazarista através desta época particular da história. Assim, o recurso à distanciação
histórica e à discrição das injustiças praticadas no inicio do século XIX, permitiu-lhe,
também, colocar em destaque as injustiças do seu tempo, o abuso de poder do Estado
Novo e as ameaças da PIDE, entre outras.

       Carácter épico

        Felizmente há luar é um drama narrativo, de carácter social, dentro dos princípios
do teatro épico e inspirado na teoria marxista, que apela às reflexão, não só no quadro
da representação, mas também na sociedade em que se insere.
        De acordo com Brecht, Sttau Monteiro pretende representar o mundo e o
homem em constante evolução de acordo com as relações sociais. Estas características
afastam-se da concepção do teatro aristotélico que pretendia despertar emoções,
levando o público a identificar-se com o herói. O teatro moderno tem como
preocupação fundamental levar os espectadores a pensar, a reflectir sobre os
acontecimentos passados e a tomar posição na sociedade em que se inserem. Surge,
assim, a técnica do distanciamento que propõem um afastamento entre o actor e a
personagem e entre o espectador e a história narrada, para que, de uma forma mais
real e autêntica, possam fazer juízos de valor sobre o que se está a ser representado.
        Desta forma, o teatro já não se destina a criar terror ou piedade, isto é, já não
tem uma função purificadora, realizada através das emoções, tendo, então, uma
capacidade crítica e analítica para quem o observa. Brecht pretendia substituir o
“sentir” por “pensar”, levando o público a entender de forma clara a sua mensagem por
meio de gestos, palavras, cenários, didascálicas e focos de luz.
        Estes são, também, os objectivos de Sttau Monteiro, que evoca situações e
personagens do passado (movimento liberal oitocentista), usando-as como pretexto
para falar do presente (ditadura salazarista) e, assim, pôr em evidencia a luta do ser
humano contra a tirania, a opressão, a injustiça e todas as formas de perseguição.


→ Objectivos (condensação do texto):
  • Auto-representação das personagens e narrador
  • Elementos técnicos não escondidos
  • Muita luz (não há efeitos)
  • Musica e cenários destroem a ilusão da realidade
  • Efeito de conjunto (justaposição/montagem de episódios)
  • História desenrola-se numa serie de situações separadas que começam e
    acabam em si mesmas
  • Teatro deve fazer pensar e não provocar sensações – distanciamento
  • Intenção de crítica social
  • Concepção das personagens a partir da função social
  • Vertente histórico-narrrativa que impera




                                                                                        1
Paralelismo entre passado e as condições históricas dos anos 60: denúncia da
violência

            Século XIX – 1817                            Século XX – anos 60
Agitação social que levou à revolta de     Agitação social: conspirações internas;
1820                                       principal erupção da guerra colonial
Regime absolutista e tirano                Regime ditatorial salazarista
Classes hierarquizadas, dominantes, com    Classes exploradas; desigualdade entre
medo de perder privilégios                 abastados e pobres
Povo oprimido e resignado                  Povo reprimido e explorado
Miséria, medo, ignorância, obscurantismo   Miséria, medo, analfabetismo, obscurantismo
mas “felizmente há luar”                   mas crença nas mudanças
Luta contra a opressão do regime           Luta contra o regime totalitário e ditatorial
Perseguições dos agentes de Beresford      Perseguições da PIDE
Denuncias de Vicente, Andrade Corvo e      Denuncias dos “bufos”
Morais Sarmento
Censura à imprensa                         Censura total
Repressão dos conspiradores; execução      Prisão; duras medidas de repressão e tortura;
sumaria e pena de morte                    condenação sem provas
Execução de Gomes Freire                   Execução de Humberto Delgado
Revolução de 1820                          Revolução do 25 de Abril de 1974

       Personagens

       Há três grupos importantes de personagens no poema:

1. Povo

    → Rita, Antigo Soldado, Populares
      • Personagens colectiva
      • Representam o analfabetismo e a miséria
      • Escravizado pela ignorância
      • Não tem liberdade
      • Desconfiam dos poderosos
      • São impotentes face à situação do país (não há eleições livres, etc.)

    → Manuel
      • Denuncia a opressão
      • Assume algum protagonismo por abrir os dois actos
      • Papel de impotência do povo

    → Matilde
      • Personagem principal do acto II
      • Companheira de todas as horas de Gomes Freire
      • Forte, persistente, corajosa, inteligente, apaixonada
      • Não desiste de lutar, defendendo sempre o marido
      • Põe de lado a auto-estima (suplica pela vida do marido)
      • Acusa o povo de cobardia mas depois compreende-o
      • Personifica a dor das mães, irmãs, esposas dos presos políticos
      • Voz da consciência junto dos governadores (obriga-os a confrontarem-se com
        os seus actos)
      • Desmascara o Principal Sousa, que não segue os princípios da lei de Cristo

    → Sousa Falcão
      • Amigo de Gomes Freire e Matilde

                                                                                      2
• Partilha das mesmas ideias de Gomes Freire mas não teve a sua coragem
• Auto-incimina-se por isso
• Medroso




                                                                          3
2. Delatores
   Representam os “bufos” do regime salazarista.

   → Vicente
     • É do povo mas trai-o para subir na vida
     • Tem vergonha do seu nascimento, da sua condição social
     • Faz o que for preciso para ganhar um cargo na polícia
     • Demagogo, hipócrita, traidor, desleal e sarcástico
     • Falso humanitário
     • Movido pelo interesse da recompensa
     • Adulador do momento

   → Andrade Corvo e Morais Sarmento
     • Querem ganhar dinheiro a todo o custo
     • Funcionam como “bufos” também pelo medo que têm das consequências de
       estar contra o governo
     • Mesquinhos, oportunistas e hipócritas

3. Governadores
   Representam o poder político e são o cérebro da conjura que acusa Gomes Freire
de traição ao país; não querem perder o seu estatuto; são fracos, mesquinhos e vis;
cada um simboliza um poder e diferentes interesses; desejam permanecer no poder a
todo o custo

   → Beresford
     • Representa o poder militar
     • Tem um sentimento de superioridade em relação aos portugueses e a Portugal
     • Ridiculariza o nosso povo, a vida do nosso país e a atrofia de almas
     • Odeia Portugal
     • Está sempre a provocar o principal Sousa
     • Não é melhor que aqueles que critica mas é sincero ao dizer que está no
        poder só pelo seu cargo que lhe dá muito dinheiro
     • Tem medo de Gomes Freire (pode-lhe tirar o lugar)
     • Oportunista, severo, disciplinar, autoritário e mercenário
     • Bom militar, mau oficial

   → Principal Sousa
     • É demagogo e hipócrita
     • Não hesita em condenar inocentes
     • Representa o poder clerical/Igreja
     • Representa o poder da Igreja que interfere nos negócios do estado
     • Não segue a doutrina da Igreja para poder conservar a sua posição
     • Não tem argumentos face ao desmascarar que sofre de Matilde
     • Tem problemas de consciência em condenar um inocente mas não ousa
         intervir para não perder a sua posição confortável no governo
     • Fanático religioso
     • Corrompido pelo poder eclesiástico
     • Desonesto
     • Odeia os franceses
     • Defende o obscurantismo

   → D. Miguel Forjaz
     • Representa o poder político e a burguesia dominadora
     • Quer manter-se no poder pelo seu poder político-económico
     • Personifica Salazar
     • Prepotente, autoritário, calculista, servil, vingativo e frio
     • Corrompido pelo poder
     • Primo de Gomes Freire


                                                                                 4
 Gomes Freire de Andrade
     • Representa Humberto Delgado
     • Personagem virtual/central
     • Sempre presente nas palavras das outras personagens
     • Caracterizado pelo Antigo Soldado, por Manuel; D. Miguel e Beresford
     • Idolatrado pelo povo
     • Acredita na justiça e na luta pela liberdade
     • Soldado brilhante
     • Estrangeirado
     • Símbolo da esperança e liberdade

    Policias: representam a PIDE

    Frei Diogo de Melo: representam a Igreja consciente da situação do país...

      Tempo

→ Tempo histórico ou tempo real (século XIX - 1817)
     • Invasões francesas (desde 1807): rei no Brasil
     • Ajuda pedida aos ingleses (Beresford)
     • Regime absolutista
     • Situação económica portuguesa má: dinheiro ia para a corte no Brasil
     • Regência, influenciada por Beresford (símbolo do poder britânico em Portugal)
     • Primeiros movimentos liberais (1817), com a conspiração abortada de Gomes
          Freire
      •   25 De Maio de 1817 – prisão de Gomes Freire; 18 de Outubro de 1817 –
          enforcado, datas condensadas em dois dias na peça (tempo de acção
          dramática)
      •   Governadores viam na revolução a destruição da estrutura tradicional do
          Reino e a supressão dos privilégios das classes favorecidas
      •   O povo via na revolução a solução para a situação em que se encontrava
      •   Revolução liberal de 1820
      •   Implantação do liberalismo em 1834, com o acordo de Évora-Monte

→ Tempo metafórico ou tempo da escrita (século XX - 1961)
     • Permanentemente presente (implícito)
     • Época conturbada em 1961: guerra colonial angolana; greves; movimentos
          estudantis; pequenas “guerrilhas” internas; crescente aparecimento de
          movimentos de opinião organizados; oposição política
      •   Situação política, social e económica de desagrado geral
      •   Regime ditatorial salazarista: desigualdade entre abastados e pobres muito
          grande; povo reprimido e explorado; miséria, medo; analfabetismo e
          obscurantismo
      •   PIDE, “bufos”; censura; medidas de repressão/tortura e condenação sem
          provas
      •   Sttau Monteiro evoca situações e personagens do passado como pretexto
          para falar do presente
      •   Grande dualidade de conceitos entre os dois tempos: Gomes Freire é
          Humberto Delgado; os governadores três são o regime salazarista; Vicente e os
          delatores são os “bufos”; os homens de Beresford são a PIDE…

      Estrutura


                                                                                     5
A acção da peça está dividida em dois actos (estrutura externa), o primeiro com
onze sequências e o segundo com treze (estrutura interna). No acto I trama-se a morte
de Gomes Freire; no acto II põe-se em prática o plano do acto I.




                                                                                   6
Os símbolos

       • Saia verde: comprada em Paris, no Inverno, com o dinheiro da venda de duas
         medalhas. “Alegria no reencontro”; a saia é uma peça eminentemente
         feminina e o verde encontra-se destinado à esperança
       • Título: duas vezes mencionado inserido nas falas das personagens (por D.
         Miguel, que salienta o efeito dissuador das execuções e por Matilde, cujas
         palavras remetem para um estímulo para que o povo de revolte)
       • Luz: vida, saúde e felicidade
       • Noite: mal, castigo, morte
       • Lua: simbolicamente, por estar privada de luz própria, na dependência do Sol
         e por atravessar fases, mudando de forma, representa: dependência,
         periocidade, renovação
       • Luar: duas conotações: para os opressores, mais pessoas ficarão avisadas e
         para os oprimidos, mais pessoas poderão um dia seguir essa luz e lutar pela
         liberdade
       • Fogueira: D. Miguel Forjaz – ensinamento ao povo; Matilde – a chama
         mantém-se viva e a liberdade há-de chegar
       • Titulo: D. Miguel: salientando o efeito dissuasor das execuções, querendo que o
         castigo de Gomes Freire se torne num exemplo; representa as trevas e o
         obscurantismo (Página 131); Matilde: na altura da execução são proferidas
         palavras de coragem e estímulo, para que o povo se revolte contra a tirania;
         representa a caminhada da sociedade em busca da liberdade (Página 140)
       • Moeda de 5 reis: símbolo de desrespeito que os mais poderosos mantinham
         para com o próximo, contrariando os mandamentos de Deus
       • Tambores: símbolos da repressão

      Espaço

       • Espaço físico: a acção desenrola-se em diversos locais, exteriores e interiores,
         mas não há nas indicações cénicas referência a cenários diferentes
       • Espaço social: meio social em que estão inseridas as personagens, havendo
         vários espaços sociais, distinguindo-se uns dos outros pelo vestuário e pela
         linguagem das várias personagens

       Linguagem e estilo

       • Recursos estilísticos: enorme variedade (tomar espacial atenção à ironia)
       • Funções da linguagem: apelativa (frase imperativa); informativa (frase
         declarativa); emotiva [frase exclamativa, reticências, anacoluto (frases
         interrompidas)]; metalinguística
       • Marcas da linguagem e estilo: provérbios, expressões populares, frases
         sentenciosas
       • Texto principal: As falas das personagens
       • Texto secundário: as didascálias/indicações cénicas (têm um papel crucial na
         peça)

       A didascália

        A peça é rica em referências concretas (sarcasmo, ironia, escárnio, indiferença,
galhofa, adulação, desprezo, irritação – relacionadas com os opressores; tristeza,
esperança, medo, desânimo – relacionadas com os oprimidos). As marcações são
abundantes: tons de voz, movimentos, posições, cenários, gestos, vestuário, sons
(tambores, silêncio, voz que fala antes de entrar no palco, sino que toca a rebate,
murmúrio de vozes, toque duma campainha) e efeitos de luz (contraste entre a
escuridão e a luz; os dois actos terminam em sombra). De realçar que a peça termina ao
som de fanfarra (“Ouve-se ao longe uma fanfarronada que vai num crescendo de
intensidade até cair o pano.”) em oposição à luz (“Desaparece o clarão da fogueira.”);
no entanto, a escuridão não é total, porque “felizmente há luar”.

                                                                                       7

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FELIZMENTE HÁ LUAR!

  • 1. “Felizmente Há Luar!”, de Luís de Sttau Monteiro Contextualização A história desta peça passa-se na época da revolução francesa de 1789. As invasões francesas levaram Portugal à indecisão entre os aliados e os franceses. Para evitar a rendição, D. João V foge para o Brasil. Depois da primeira invasão, a corte pede auxílio a Inglaterra para reorganizar o exército. Estes enviam-nos o general Beresford. Luís de Sttau Monteiro denuncia a opressão vivida na época do regime salazarista através desta época particular da história. Assim, o recurso à distanciação histórica e à discrição das injustiças praticadas no inicio do século XIX, permitiu-lhe, também, colocar em destaque as injustiças do seu tempo, o abuso de poder do Estado Novo e as ameaças da PIDE, entre outras. Carácter épico Felizmente há luar é um drama narrativo, de carácter social, dentro dos princípios do teatro épico e inspirado na teoria marxista, que apela às reflexão, não só no quadro da representação, mas também na sociedade em que se insere. De acordo com Brecht, Sttau Monteiro pretende representar o mundo e o homem em constante evolução de acordo com as relações sociais. Estas características afastam-se da concepção do teatro aristotélico que pretendia despertar emoções, levando o público a identificar-se com o herói. O teatro moderno tem como preocupação fundamental levar os espectadores a pensar, a reflectir sobre os acontecimentos passados e a tomar posição na sociedade em que se inserem. Surge, assim, a técnica do distanciamento que propõem um afastamento entre o actor e a personagem e entre o espectador e a história narrada, para que, de uma forma mais real e autêntica, possam fazer juízos de valor sobre o que se está a ser representado. Desta forma, o teatro já não se destina a criar terror ou piedade, isto é, já não tem uma função purificadora, realizada através das emoções, tendo, então, uma capacidade crítica e analítica para quem o observa. Brecht pretendia substituir o “sentir” por “pensar”, levando o público a entender de forma clara a sua mensagem por meio de gestos, palavras, cenários, didascálicas e focos de luz. Estes são, também, os objectivos de Sttau Monteiro, que evoca situações e personagens do passado (movimento liberal oitocentista), usando-as como pretexto para falar do presente (ditadura salazarista) e, assim, pôr em evidencia a luta do ser humano contra a tirania, a opressão, a injustiça e todas as formas de perseguição. → Objectivos (condensação do texto): • Auto-representação das personagens e narrador • Elementos técnicos não escondidos • Muita luz (não há efeitos) • Musica e cenários destroem a ilusão da realidade • Efeito de conjunto (justaposição/montagem de episódios) • História desenrola-se numa serie de situações separadas que começam e acabam em si mesmas • Teatro deve fazer pensar e não provocar sensações – distanciamento • Intenção de crítica social • Concepção das personagens a partir da função social • Vertente histórico-narrrativa que impera 1
  • 2. Paralelismo entre passado e as condições históricas dos anos 60: denúncia da violência Século XIX – 1817 Século XX – anos 60 Agitação social que levou à revolta de Agitação social: conspirações internas; 1820 principal erupção da guerra colonial Regime absolutista e tirano Regime ditatorial salazarista Classes hierarquizadas, dominantes, com Classes exploradas; desigualdade entre medo de perder privilégios abastados e pobres Povo oprimido e resignado Povo reprimido e explorado Miséria, medo, ignorância, obscurantismo Miséria, medo, analfabetismo, obscurantismo mas “felizmente há luar” mas crença nas mudanças Luta contra a opressão do regime Luta contra o regime totalitário e ditatorial Perseguições dos agentes de Beresford Perseguições da PIDE Denuncias de Vicente, Andrade Corvo e Denuncias dos “bufos” Morais Sarmento Censura à imprensa Censura total Repressão dos conspiradores; execução Prisão; duras medidas de repressão e tortura; sumaria e pena de morte condenação sem provas Execução de Gomes Freire Execução de Humberto Delgado Revolução de 1820 Revolução do 25 de Abril de 1974 Personagens Há três grupos importantes de personagens no poema: 1. Povo → Rita, Antigo Soldado, Populares • Personagens colectiva • Representam o analfabetismo e a miséria • Escravizado pela ignorância • Não tem liberdade • Desconfiam dos poderosos • São impotentes face à situação do país (não há eleições livres, etc.) → Manuel • Denuncia a opressão • Assume algum protagonismo por abrir os dois actos • Papel de impotência do povo → Matilde • Personagem principal do acto II • Companheira de todas as horas de Gomes Freire • Forte, persistente, corajosa, inteligente, apaixonada • Não desiste de lutar, defendendo sempre o marido • Põe de lado a auto-estima (suplica pela vida do marido) • Acusa o povo de cobardia mas depois compreende-o • Personifica a dor das mães, irmãs, esposas dos presos políticos • Voz da consciência junto dos governadores (obriga-os a confrontarem-se com os seus actos) • Desmascara o Principal Sousa, que não segue os princípios da lei de Cristo → Sousa Falcão • Amigo de Gomes Freire e Matilde 2
  • 3. • Partilha das mesmas ideias de Gomes Freire mas não teve a sua coragem • Auto-incimina-se por isso • Medroso 3
  • 4. 2. Delatores Representam os “bufos” do regime salazarista. → Vicente • É do povo mas trai-o para subir na vida • Tem vergonha do seu nascimento, da sua condição social • Faz o que for preciso para ganhar um cargo na polícia • Demagogo, hipócrita, traidor, desleal e sarcástico • Falso humanitário • Movido pelo interesse da recompensa • Adulador do momento → Andrade Corvo e Morais Sarmento • Querem ganhar dinheiro a todo o custo • Funcionam como “bufos” também pelo medo que têm das consequências de estar contra o governo • Mesquinhos, oportunistas e hipócritas 3. Governadores Representam o poder político e são o cérebro da conjura que acusa Gomes Freire de traição ao país; não querem perder o seu estatuto; são fracos, mesquinhos e vis; cada um simboliza um poder e diferentes interesses; desejam permanecer no poder a todo o custo → Beresford • Representa o poder militar • Tem um sentimento de superioridade em relação aos portugueses e a Portugal • Ridiculariza o nosso povo, a vida do nosso país e a atrofia de almas • Odeia Portugal • Está sempre a provocar o principal Sousa • Não é melhor que aqueles que critica mas é sincero ao dizer que está no poder só pelo seu cargo que lhe dá muito dinheiro • Tem medo de Gomes Freire (pode-lhe tirar o lugar) • Oportunista, severo, disciplinar, autoritário e mercenário • Bom militar, mau oficial → Principal Sousa • É demagogo e hipócrita • Não hesita em condenar inocentes • Representa o poder clerical/Igreja • Representa o poder da Igreja que interfere nos negócios do estado • Não segue a doutrina da Igreja para poder conservar a sua posição • Não tem argumentos face ao desmascarar que sofre de Matilde • Tem problemas de consciência em condenar um inocente mas não ousa intervir para não perder a sua posição confortável no governo • Fanático religioso • Corrompido pelo poder eclesiástico • Desonesto • Odeia os franceses • Defende o obscurantismo → D. Miguel Forjaz • Representa o poder político e a burguesia dominadora • Quer manter-se no poder pelo seu poder político-económico • Personifica Salazar • Prepotente, autoritário, calculista, servil, vingativo e frio • Corrompido pelo poder • Primo de Gomes Freire 4
  • 5.  Gomes Freire de Andrade • Representa Humberto Delgado • Personagem virtual/central • Sempre presente nas palavras das outras personagens • Caracterizado pelo Antigo Soldado, por Manuel; D. Miguel e Beresford • Idolatrado pelo povo • Acredita na justiça e na luta pela liberdade • Soldado brilhante • Estrangeirado • Símbolo da esperança e liberdade  Policias: representam a PIDE  Frei Diogo de Melo: representam a Igreja consciente da situação do país... Tempo → Tempo histórico ou tempo real (século XIX - 1817) • Invasões francesas (desde 1807): rei no Brasil • Ajuda pedida aos ingleses (Beresford) • Regime absolutista • Situação económica portuguesa má: dinheiro ia para a corte no Brasil • Regência, influenciada por Beresford (símbolo do poder britânico em Portugal) • Primeiros movimentos liberais (1817), com a conspiração abortada de Gomes Freire • 25 De Maio de 1817 – prisão de Gomes Freire; 18 de Outubro de 1817 – enforcado, datas condensadas em dois dias na peça (tempo de acção dramática) • Governadores viam na revolução a destruição da estrutura tradicional do Reino e a supressão dos privilégios das classes favorecidas • O povo via na revolução a solução para a situação em que se encontrava • Revolução liberal de 1820 • Implantação do liberalismo em 1834, com o acordo de Évora-Monte → Tempo metafórico ou tempo da escrita (século XX - 1961) • Permanentemente presente (implícito) • Época conturbada em 1961: guerra colonial angolana; greves; movimentos estudantis; pequenas “guerrilhas” internas; crescente aparecimento de movimentos de opinião organizados; oposição política • Situação política, social e económica de desagrado geral • Regime ditatorial salazarista: desigualdade entre abastados e pobres muito grande; povo reprimido e explorado; miséria, medo; analfabetismo e obscurantismo • PIDE, “bufos”; censura; medidas de repressão/tortura e condenação sem provas • Sttau Monteiro evoca situações e personagens do passado como pretexto para falar do presente • Grande dualidade de conceitos entre os dois tempos: Gomes Freire é Humberto Delgado; os governadores três são o regime salazarista; Vicente e os delatores são os “bufos”; os homens de Beresford são a PIDE… Estrutura 5
  • 6. A acção da peça está dividida em dois actos (estrutura externa), o primeiro com onze sequências e o segundo com treze (estrutura interna). No acto I trama-se a morte de Gomes Freire; no acto II põe-se em prática o plano do acto I. 6
  • 7. Os símbolos • Saia verde: comprada em Paris, no Inverno, com o dinheiro da venda de duas medalhas. “Alegria no reencontro”; a saia é uma peça eminentemente feminina e o verde encontra-se destinado à esperança • Título: duas vezes mencionado inserido nas falas das personagens (por D. Miguel, que salienta o efeito dissuador das execuções e por Matilde, cujas palavras remetem para um estímulo para que o povo de revolte) • Luz: vida, saúde e felicidade • Noite: mal, castigo, morte • Lua: simbolicamente, por estar privada de luz própria, na dependência do Sol e por atravessar fases, mudando de forma, representa: dependência, periocidade, renovação • Luar: duas conotações: para os opressores, mais pessoas ficarão avisadas e para os oprimidos, mais pessoas poderão um dia seguir essa luz e lutar pela liberdade • Fogueira: D. Miguel Forjaz – ensinamento ao povo; Matilde – a chama mantém-se viva e a liberdade há-de chegar • Titulo: D. Miguel: salientando o efeito dissuasor das execuções, querendo que o castigo de Gomes Freire se torne num exemplo; representa as trevas e o obscurantismo (Página 131); Matilde: na altura da execução são proferidas palavras de coragem e estímulo, para que o povo se revolte contra a tirania; representa a caminhada da sociedade em busca da liberdade (Página 140) • Moeda de 5 reis: símbolo de desrespeito que os mais poderosos mantinham para com o próximo, contrariando os mandamentos de Deus • Tambores: símbolos da repressão Espaço • Espaço físico: a acção desenrola-se em diversos locais, exteriores e interiores, mas não há nas indicações cénicas referência a cenários diferentes • Espaço social: meio social em que estão inseridas as personagens, havendo vários espaços sociais, distinguindo-se uns dos outros pelo vestuário e pela linguagem das várias personagens Linguagem e estilo • Recursos estilísticos: enorme variedade (tomar espacial atenção à ironia) • Funções da linguagem: apelativa (frase imperativa); informativa (frase declarativa); emotiva [frase exclamativa, reticências, anacoluto (frases interrompidas)]; metalinguística • Marcas da linguagem e estilo: provérbios, expressões populares, frases sentenciosas • Texto principal: As falas das personagens • Texto secundário: as didascálias/indicações cénicas (têm um papel crucial na peça) A didascália A peça é rica em referências concretas (sarcasmo, ironia, escárnio, indiferença, galhofa, adulação, desprezo, irritação – relacionadas com os opressores; tristeza, esperança, medo, desânimo – relacionadas com os oprimidos). As marcações são abundantes: tons de voz, movimentos, posições, cenários, gestos, vestuário, sons (tambores, silêncio, voz que fala antes de entrar no palco, sino que toca a rebate, murmúrio de vozes, toque duma campainha) e efeitos de luz (contraste entre a escuridão e a luz; os dois actos terminam em sombra). De realçar que a peça termina ao som de fanfarra (“Ouve-se ao longe uma fanfarronada que vai num crescendo de intensidade até cair o pano.”) em oposição à luz (“Desaparece o clarão da fogueira.”); no entanto, a escuridão não é total, porque “felizmente há luar”. 7