SlideShare uma empresa Scribd logo
Escola Secundária Sá       de Miranda

          As Personagens: Caracterização                               transmitem, são também a denúncia do absurdo a que a
                                                                       intolerância e a violência dos homens conduzem.
Gomes Freire: homem instruído, letrado ("um estrangeirado"), um
militar que sempre lutou em prol da honestidade e da justiça. É        Sousa Falcão: é o amigo de todas as horas, é o amigo fiel em quem
também o símbolo da modernidade e do progresso, adepto das             se pode confiar e que está sempre pronto a exprimir a sua
novas ideias liberais e, por isso, considerado subversivo e perigoso   solidariedade e amizade. No entanto, ele próprio tem consciência
para o poder instituído. Assim, quando é necessário encontrar          de que, muitas vezes, não actuou de forma consentânea com os
uma vítima que simbolize uma situação de revolta que se adivinha,      seus ideais, faltando-lhe coragem para passar à acção.
Gomes Freire é a personagem ideal. Ele é o símbolo da luta pela
                                                                       Vicente, o traidor: elemento do povo, trai os seus iguais,
liberdade, da defesa intransigente dos ideais, daí que a sua
                                                                       chegando mesmo a provocá-los, apenas lhe interessando a sua
presença se torne incómoda não só para os "reis do Rossio", mas
                                                                       ascensão político-social. Apesar da repulsa/antipatia que as
também para os senhores do regime fascizante dos anos 60. A sua
                                                                       atitudes de Vicente possam provocar ao público/leitor, o que é
morte, duplamente aviltante para um militar (ele é enforcado e
                                                                       facto é que não se lhe pode negar nem lucidez nem acuidade na
depois queimado, quando a sentença para um militar seria o
                                                                       análise que faz da sua situação de origem e da força corruptora do
fuzilamento), servirá de lição a todos aqueles que ousem afrontar
                                                                       poder. Vicente é uma personagem incómoda, talvez porque nos
o poder político e também, de certa forma, económico,
                                                                       faça olhar para dentro de nós próprios, acordando más
representado pela tença que Beresford recebe (16.000$00 anuais,
                                                                       consciências adormecidas.
uma fortuna para a época!) e que se arriscaria a perder se Gomes
Freire chegasse ao poder.                                              Manuel, Rita: símbolos do povo oprimido e esmagado, têm
                                                                       consciência da injustiça em que vivem, sabem que são simples
Matilde de Sousa: companheira de todas as horas de Gomes
                                                                       joguetes nas mãos dos poderosos, mas sentem-se impotentes
Freire, é ela que dá voz à injustiça sofrida pelo seu homem. As suas
                                                                       para alterar a situação. Vêem em Gomes Freire uma espécie de
falas, imbuídas de dor e revolta, constituem também uma
                                                                       Messias e daí, talvez, a sua agressividade em relação a Matilde,
denúncia da falsidade e da hipocrisia do Estado e da Igreja. Todas
                                                                       após a prisão do general, quando ela lhes pede que se revoltem e
as tiradas de Matilde revelam uma clara lucidez e uma verdadeira
                                                                       que a ajudem a libertar o seu homem. A prisão de Gomes Freire é
coragem na análise que faz de toda a teia que envolve a prisão e
                                                                       uma espécie de traição à esperança que o povo nele depositava.
condenação de Gomes Freire. No entanto, a consciência da
                                                                       Podem também simbolizar a desesperança, a desilusão, a
inevitabilidade do martírio do seu homem (e daí o carácter épico
                                                                       frustração de toda uma legião de miseráveis face à quase
da personagem de Gomes Freire) arrasta-a para um delírio final em
                                                                       impossibilidade de mudança da situação opressiva em que vivem.
que, envergando a saia verde que o general lhe oferecera em Paris
(símbolo de esperança num futuro diferente?), Matilde dialoga          Beresford: personagem cínica e controversa, aparece como
com Gomes Freire vivendo momentos de alucinação intensa e              alguém que, desassombradamente, assume o processo de Gomes
dramática. Estes momentos finais, pelo carácter surreal que            Freire, não como um imperativo nacional ou militar, mas apenas


    Português 12º ano                                                                Luís de Sttau Monteiro – Felizmente há Luar
Escola Secundária Sá   de Miranda
motivado por interesses individuais: a manutenção do seu posto e              Gomes Freire, pela coragem, determinação e defesa
da sua tença anual. A sua posição face a toda a trama que envolve              intransigente dos ideais de liberdade;
Gomes Freire é nitidamente de distanciamento crítico e irónico,              Matilde de Melo, pela nobreza moral, pelo conflito que vive
acabando por revelar a sua antipatia face ao catolicismo caduco e
                                                                               entre os seus "humanos" sentimentos e a progressiva
ao exercício incompetente do poder, que marcam a realidade
portuguesa.                                                                    consciencialização do seu dever de verdadeira patriota.
                                                                        A simplicidade da acção e o despojamento cénico.
D. Miguel: é o protótipo do pequeno tirano, inseguro e                  O desenlace final: o martírio e a morte de Gomes Freire.
prepotente, avesso ao progresso, insensível à injustiça e à miséria.
Todo o seu discurso gira em torno de uma lógica oca e                   Aspectos simbólicos
demagógica, construindo verdades falsas em que talvez acabe             A moeda de cinco réis: a moeda que Matilde pede a Rita assume,
mesmo por acreditar. Os argumentos do "ardor patriótico", da            assim, um valor simbólico, teatralmente simbólico. Assinala o
construção de "um Portugal próspero e feliz, com um povo                reencontro de personagens em busca da História, por um lado, e,
simples, bom e confiante, que viva lavrando e defendendo a terra,       por outro, é o penhor de honra que Matilde, emblematicamente,
com os olhos postos no Senhor", são o eco fiel do discurso político     usará ao peito, como "uma medalha".
dos anos 60. D. Miguel e o Principal Sousa são talvez as duas           A fogueira não era destinada à execução de militares. No entanto,
personagens mais execráveis de todo o texto pela falsidade e            Gomes Freire, após ser enforcado, foi queimado. Contudo, aquilo
hipocrisia que veiculam.                                                que inicialmente é aviltante acaba por assumir um carácter
                                                                        redentor. Na verdade, o fogo simboliza também a purificação, a
Principal Sousa: para além da hipocrisia e da falta de valores éticos
                                                                        morte da "velha ordem" e o ponto de partida para um mundo
que esta personagem transmite, o Principal Sousa simboliza
                                                                        novo e diferente.
também o conluio entre a igreja, enquanto instituição, e o poder e
                                                                        O título: a frase "Felizmente há luar" é proferida por duas
a demissão da primeira em relação à denúncia das verdadeiras
                                                                        personagens de "mundos" diferentes: por D. Miguel, símbolo do
injustiças. Nas palavras do Principal Sousa é igualmente possível
                                                                        Poder (Acto II, pág. 131), e por Matilde, símbolo da resistência (no
detectar os fundamentos da política do "orgulhosamente sós" dos
                                                                        final do Acto II, pág. 140). Assim, e tendo em conta a estrutura
anos 60.
                                                                        dual que organiza o texto, será fácil detectar a importância do luar
Andrade Corvo e Morais Sarmento: são os delatores por                   para cada uma das personagens. Para D. Miguel, o luar permitirá
excelência, aqueles a quem não repugna trair ou abdicar dos             que o clarão da fogueira atemorize todos aqueles que queiram
ideais, para servirem obscuros "propósitos patrióticos".                lutar pela liberdade; para Matilde, o luar sublinhará a intensidade
                                                                        do fogo que simboliza a coragem e a força de um homem, que
Carácter Apoteótico                                                     morreu para defender a liberdade.
Carácter excepcional das personagens:

    Português 12º ano                                                                  Luís de Sttau Monteiro – Felizmente há Luar
Escola Secundária Sá   de Miranda

Paralelismo passado/condições históricas dos anos 60                     Povo reprimido e explorado;
              Tempo da História (século XIX - 1817)                      Miséria, medo e analfabetismo;
     Agitação social que levou à revolta liberal de 1820 -              Obscurantismo, mas crença nas mudanças;
      conspirações internas; revolta contra a presença da Corte          Luta contra o regime totalitário e ditatorial;
      no Brasil e influência do exército britânico;                      Agitação social e política com militares antifascistas a
     Regime absolutista e tirânico                                       protestarem;
     Classes sociais fortemente hierarquizadas;                         Perseguições da PIDE;
     Classes dominantes com medo de perder privilégios;                 Denúncias dos chamados "bufos", que surgem na sombra e
     Povo oprimido e resignado;                                          se disfarçam, para colher informações e denunciar;
     A "miséria, o medo e a ignorância";                                Censura à imprensa;
     Obscurantismo, mas "felizmente há luar";                           Prisão e duras medidas de repressão e de tortura;
     Luta contra a opressão do regime absolutista;                      Condenação em processos sem provas.
     Manuel, "o mais consciente dos populares", denuncia a
      opressão e a miséria;                                       Tempo
                                                                  Tempo histórico: século XIX.
     Perseguições dos agentes de Beresford;
                                                                  Tempo da escrita: 1961, época dos conflitos entre a oposição e o
     As denúncias de Vicente, Andrade Corvo e Morais
                                                                  regime salazarista.
      Sarmento que, hipócritas e sem escrúpulos, denunciam;
                                                                  Tempo da representação: 1h30m/2h.
     Censura;
                                                                  Tempo da acção dramática: a acção está concentrada em 2 dias.
     Severa repressão dos conspiradores;
                                                                  Tempo da narração: informações respeitantes a eventos não
     Processos sumários e pena de morte;
                                                                  dramatizados, ocorridos no passado, mas importantes para o
     Execução do General Gomes Freire.
                                                                  desenrolar da acção.
               Tempo da escrita (século XX - 1961)
     Agitação social dos anos 60 - conspirações internas;        Espaço
                                                                  Espaço físico: a acção desenrola-se em diversos locais, exteriores
      principal irrupção da guerra colonial;
                                                                  e interiores, mas não há nas indicações cénicas referentes a
     Regime ditatorial de Salazar;
                                                                  cenários diferentes.
     Maior desigualdade entre abastados e pobres;
     Classes exploradas, com reforço do seu poder;

     Português 12º ano                                                           Luís de Sttau Monteiro – Felizmente há Luar
Escola Secundária Sá   de Miranda
Espaço social: meio social em que estão inseridas as personagens,     Para Matilde, estas palavras são fruto de um sofrimento
havendo vários espaços sociais, distinguindo-se uns dos outros        interiorizado reflectido, são a esperança e o não conformismo
pelo vestuário e pela linguagem das várias personagens.               nascidos após a revolta, a luz que vence as trevas, a vida que
                                                                      triunfa da morte. A luz do luar (liberdade) vencerá a escuridão da
O título                                                              noite (opressão) e todos poderão contemplar, enfim, a injustiça
O título da peça aparece duas vezes ao longo da peça, ora inserido    que está a ser praticada e tirar dela ilação.
nas falas de um dos elementos do poder - D. Miguel - ora inserido     Há que imperiosamente lutar no presente pelo futuro e dizer não
na fala final de Matilde. Em primeiro lugar é curioso e simbólico o   à opressão e falta de liberdade, há que seguir a luz redentora e
facto de o título coincidir com as palavras finais da obra, o que     trilhar um caminho novo.
desde logo lhe confere circularidade.
                                                                      Elementos simbólicos
       Página 131 - D. Miguel: salientando o efeito dissuasor das    Saia verde: encontra-se associada à felicidade e foi comprada
        execuções, querendo que o castigo de Gomes Freire se          numa terra de liberdade: Paris, no Inverno, com o dinheiro da
        torne num exemplo;                                            venda de duas medalhas. "Alegria no reencontro"; a saia é uma
       Página 140 - Matilde: na altura da execução são proferidas    peça eminentemente feminina e o verde encontra-se destinado à
        palavras de coragem e estímulo, para que o povo se revolte    esperança de que um dia se reponha a justiça. Sinal do amor
        contra a tirania.                                             verdadeiro e transformador, pois Matilde, vencendo
                                                                      aparentemente a dor e revolta iniciais, comunica aos outros
Num primeiro momento, o título representa as trevas e o               esperança através desta simples peça de vestuário. O verde é a cor
obscurantismo; num segundo momento, representa a caminhada            predominante na natureza e dos campos na Primavera,
da sociedade em busca da liberdade.                                   associando-se à força, à fertilidade e à esperança.
Como facilmente se constata a mesma frase é proferida por             Título: duas vezes mencionado, inserido nas falas das personagens
personagens pertencentes a mundos completamente opostos: D.           (por D.Miguel, que salienta o efeito dissuador das execuções e por
Miguel, símbolo do poder, e Matilde, símbolo da resistência e do      Matilde, cujas palavras remetem para um estímulo para que o
anti-poder. Porém o sentido veiculado pelas mesmas palavras           povo se revolte).
altera-se em virtude de uma afirmação dar lugar a uma eufórica        A luz: como metáfora do conhecimento dos valores do futuro
exclamação.                                                           (igualdade, fraternidade e liberdade), que possibilita o progresso
Para D. Miguel, o luar permitiria que as pessoas vissem mais          do mundo, vencendo a escuridão da noite (opressão, falta de
facilmente o clarão da fogueira, isso faria com que elas ficassem     liberdade e de esclarecimento), advém quer da fogueira quer do
atemorizadas e percebessem que aquele é o fim último de quem          luar. Ambas são a certeza de que o bem e a justiça triunfarão, não
afronta o regime. A fogueira teria um efeito dissuasor.               obstante todo o sofrimento inerente a eles. Se a luz se encontra


       Português 12º ano                                                            Luís de Sttau Monteiro – Felizmente há Luar
Escola Secundária Sá   de Miranda
associada à vida, à saúde e à felicidade, a noite e as trevas
relacionam-se com o mal, a infelicidade, o castigo, a perdição e a
morte. A luz representa a esperança num momento trágico.
Noite: mal, castigo, morte, símbolo do obscurantismo.
Lua: simbolicamente, por estar privada de luz própria, na
dependência do Sol e por atravessar fases, mudando de forma,
representa: dependência, periodicidade. A luz da lua, devido aos
ciclos lunares, também se associa à renovação. A luz do luar é a
força extraordinária que permite o conhecimento e a lua poderá
simbolizar a passagem da vida para a morte e vice-versa, o que
aliás, se relaciona com a crença na vida para além da morte.
Luar: duas conotações: para os opressores, mais pessoas ficarão
avisadas e para os oprimidos, mais pessoas poderão um dia seguir
essa luz e lutar pela liberdade.
Fogueira: D. Miguel Forjaz - ensinamento ao povo; Matilde - a
chama mantém-se viva e a liberdade há-de chegar. O fogo é um
elemento destruidor e ao mesmo tempo purificador e
regenerador, sendo a purificação pela água complementada pela
do fogo. Se no presente a fogueira se relaciona com a tristeza e
escuridão, no futuro relacionar-se-á com esperança e liberdade.
Moeda de cinco reis: símbolo do desrespeito que os mais
poderosos mantinham para com o próximo, contrariando os
mandamentos de Deus.
Tambores: símbolo da repressão sempre presente.




    Português 12º ano                                                           Luís de Sttau Monteiro – Felizmente há Luar

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Felizmente há luar - Personagens
Felizmente há luar - PersonagensFelizmente há luar - Personagens
Felizmente há luar - Personagens
Tiago Vieira
 
Felizmente há Luar
Felizmente há LuarFelizmente há Luar
Felizmente há Luar
nanasimao
 
FELIZMENTE HÁ LUAR!
FELIZMENTE HÁ LUAR!FELIZMENTE HÁ LUAR!
FELIZMENTE HÁ LUAR!
Vitor Manuel de Carvalho
 
Análise do Sermão da Sexagésima
Análise do Sermão da SexagésimaAnálise do Sermão da Sexagésima
Análise do Sermão da Sexagésima
Ana Castro
 
Felizmente Há Luar- Síntese
Felizmente Há Luar- SínteseFelizmente Há Luar- Síntese
Felizmente Há Luar- Síntese
nanasimao
 
A debil cesario verde
A debil cesario verdeA debil cesario verde
A debil cesario verde
Diogo Oliveira
 
Felizmente há luar! o paralelismo histórico (1)
Felizmente há luar! o paralelismo histórico (1)Felizmente há luar! o paralelismo histórico (1)
Felizmente há luar! o paralelismo histórico (1)
José Galvão
 
Análise de o burrinho pedrês, de guimarães rosa
Análise de o burrinho pedrês, de guimarães rosaAnálise de o burrinho pedrês, de guimarães rosa
Análise de o burrinho pedrês, de guimarães rosa
ma.no.el.ne.ves
 
Amor de Perdição 2ª A - 2011
Amor de Perdição   2ª A - 2011Amor de Perdição   2ª A - 2011
Amor de Perdição 2ª A - 2011
Daniel Leitão
 
Ficha informativa sobre Cesário Verde
Ficha informativa sobre Cesário VerdeFicha informativa sobre Cesário Verde
Ficha informativa sobre Cesário Verde
complementoindirecto
 
Memorial do Convento - linguagem e estilo
Memorial do Convento - linguagem e estiloMemorial do Convento - linguagem e estilo
Memorial do Convento - linguagem e estilo
FilipaFonseca
 
Contos do séculoXX | neo-realismo
Contos do séculoXX | neo-realismoContos do séculoXX | neo-realismo
Contos do séculoXX | neo-realismo
Dina Baptista
 
Maias.apontamentos
Maias.apontamentosMaias.apontamentos
Maias.apontamentos
Elisete Gonçalves
 
Amor de perdição
Amor de perdiçãoAmor de perdição
Amor de perdição
Seduc/AM
 
Conto a galinha
Conto a galinhaConto a galinha
Conto a galinha
Paula Costa
 
Os lusíadas- Canto VII
Os lusíadas- Canto VIIOs lusíadas- Canto VII
Os lusíadas- Canto VII
Vivianne Macedo Cordeiro
 
Gregório de matos
Gregório de matosGregório de matos
Gregório de matos
PaulaMSilva
 
Viagens na minha terra
Viagens na minha terraViagens na minha terra
Viagens na minha terra
Edvaldo Rofatto
 
Cantigas de escárnio e maldizer
Cantigas de escárnio e maldizerCantigas de escárnio e maldizer
Cantigas de escárnio e maldizer
Helena Coutinho
 
Luis de sttau monteiro – vida e obra
Luis de sttau monteiro – vida e obraLuis de sttau monteiro – vida e obra
Luis de sttau monteiro – vida e obra
Maria Batista
 

Mais procurados (20)

Felizmente há luar - Personagens
Felizmente há luar - PersonagensFelizmente há luar - Personagens
Felizmente há luar - Personagens
 
Felizmente há Luar
Felizmente há LuarFelizmente há Luar
Felizmente há Luar
 
FELIZMENTE HÁ LUAR!
FELIZMENTE HÁ LUAR!FELIZMENTE HÁ LUAR!
FELIZMENTE HÁ LUAR!
 
Análise do Sermão da Sexagésima
Análise do Sermão da SexagésimaAnálise do Sermão da Sexagésima
Análise do Sermão da Sexagésima
 
Felizmente Há Luar- Síntese
Felizmente Há Luar- SínteseFelizmente Há Luar- Síntese
Felizmente Há Luar- Síntese
 
A debil cesario verde
A debil cesario verdeA debil cesario verde
A debil cesario verde
 
Felizmente há luar! o paralelismo histórico (1)
Felizmente há luar! o paralelismo histórico (1)Felizmente há luar! o paralelismo histórico (1)
Felizmente há luar! o paralelismo histórico (1)
 
Análise de o burrinho pedrês, de guimarães rosa
Análise de o burrinho pedrês, de guimarães rosaAnálise de o burrinho pedrês, de guimarães rosa
Análise de o burrinho pedrês, de guimarães rosa
 
Amor de Perdição 2ª A - 2011
Amor de Perdição   2ª A - 2011Amor de Perdição   2ª A - 2011
Amor de Perdição 2ª A - 2011
 
Ficha informativa sobre Cesário Verde
Ficha informativa sobre Cesário VerdeFicha informativa sobre Cesário Verde
Ficha informativa sobre Cesário Verde
 
Memorial do Convento - linguagem e estilo
Memorial do Convento - linguagem e estiloMemorial do Convento - linguagem e estilo
Memorial do Convento - linguagem e estilo
 
Contos do séculoXX | neo-realismo
Contos do séculoXX | neo-realismoContos do séculoXX | neo-realismo
Contos do séculoXX | neo-realismo
 
Maias.apontamentos
Maias.apontamentosMaias.apontamentos
Maias.apontamentos
 
Amor de perdição
Amor de perdiçãoAmor de perdição
Amor de perdição
 
Conto a galinha
Conto a galinhaConto a galinha
Conto a galinha
 
Os lusíadas- Canto VII
Os lusíadas- Canto VIIOs lusíadas- Canto VII
Os lusíadas- Canto VII
 
Gregório de matos
Gregório de matosGregório de matos
Gregório de matos
 
Viagens na minha terra
Viagens na minha terraViagens na minha terra
Viagens na minha terra
 
Cantigas de escárnio e maldizer
Cantigas de escárnio e maldizerCantigas de escárnio e maldizer
Cantigas de escárnio e maldizer
 
Luis de sttau monteiro – vida e obra
Luis de sttau monteiro – vida e obraLuis de sttau monteiro – vida e obra
Luis de sttau monteiro – vida e obra
 

Semelhante a As personagens de felizmente há luar caracterização

(4)personagens documento quatro
(4)personagens documento quatro(4)personagens documento quatro
(4)personagens documento quatro
becresforte
 
(3)felizm..
(3)felizm..(3)felizm..
(3)felizm..
becresforte
 
Felizmente há luar
Felizmente há luarFelizmente há luar
Felizmente há luar
Ana Helena
 
Estudo accao personagens_contexto
Estudo accao personagens_contextoEstudo accao personagens_contexto
Estudo accao personagens_contexto
cnlx
 
Felizmente há luar carolina morna
Felizmente há luar   carolina mornaFelizmente há luar   carolina morna
Felizmente há luar carolina morna
guestd8e2b4
 
Felizmente há luar carolina morna
Felizmente há luar   carolina mornaFelizmente há luar   carolina morna
Felizmente há luar carolina morna
guest57586
 
Felizmente há luar carolina morna
Felizmente há luar   carolina mornaFelizmente há luar   carolina morna
Felizmente há luar carolina morna
guest57586
 
Felizmente há luar carolina morna
Felizmente há luar   carolina mornaFelizmente há luar   carolina morna
Felizmente há luar carolina morna
guestd8e2b4
 
Felizmente há luar - trabalho de carolina morna
Felizmente há luar  - trabalho de  carolina mornaFelizmente há luar  - trabalho de  carolina morna
Felizmente há luar - trabalho de carolina morna
guestd8e2b4
 
Felizmente há luar carolina morna
Felizmente há luar   carolina mornaFelizmente há luar   carolina morna
Felizmente há luar carolina morna
guestd8e2b4
 
Apresentação para décimo segundo ano de 2016 7, aula 158-159
Apresentação para décimo segundo ano de 2016 7, aula 158-159Apresentação para décimo segundo ano de 2016 7, aula 158-159
Apresentação para décimo segundo ano de 2016 7, aula 158-159
luisprista
 
Amar, verbo intransitivo, de mário de andrade
Amar, verbo intransitivo, de mário de andradeAmar, verbo intransitivo, de mário de andrade
Amar, verbo intransitivo, de mário de andrade
carinemorossino74
 
Sintese frei luis_de_sousa
Sintese frei luis_de_sousaSintese frei luis_de_sousa
Sintese frei luis_de_sousa
Marta Ferreira
 
Felizmente há luar
Felizmente há luarFelizmente há luar
Felizmente há luar
gracafigueiredo2
 
Frei luis de sousa
Frei luis de sousaFrei luis de sousa
Frei luis de sousa
Maria da Paz
 
Felizmente h luar_quadro_sintese
Felizmente h luar_quadro_sinteseFelizmente h luar_quadro_sintese
Felizmente h luar_quadro_sintese
Joana Nogueira
 
Felizmente h luar_quadro_sintese
Felizmente h luar_quadro_sinteseFelizmente h luar_quadro_sintese
Felizmente h luar_quadro_sintese
Joana Nogueira
 
Felizmente Há Luar
Felizmente Há LuarFelizmente Há Luar
Felizmente Há Luar
Ana Tapadas
 
Romantismo, Frei Luís de Sousa
Romantismo, Frei Luís de SousaRomantismo, Frei Luís de Sousa
Romantismo, Frei Luís de Sousa
Lurdes Augusto
 
aecam1116_ppt_7.pptx.pdf FREI LUIS DE SOUSA
aecam1116_ppt_7.pptx.pdf FREI LUIS DE SOUSAaecam1116_ppt_7.pptx.pdf FREI LUIS DE SOUSA
aecam1116_ppt_7.pptx.pdf FREI LUIS DE SOUSA
FranciscoBatalha1
 

Semelhante a As personagens de felizmente há luar caracterização (20)

(4)personagens documento quatro
(4)personagens documento quatro(4)personagens documento quatro
(4)personagens documento quatro
 
(3)felizm..
(3)felizm..(3)felizm..
(3)felizm..
 
Felizmente há luar
Felizmente há luarFelizmente há luar
Felizmente há luar
 
Estudo accao personagens_contexto
Estudo accao personagens_contextoEstudo accao personagens_contexto
Estudo accao personagens_contexto
 
Felizmente há luar carolina morna
Felizmente há luar   carolina mornaFelizmente há luar   carolina morna
Felizmente há luar carolina morna
 
Felizmente há luar carolina morna
Felizmente há luar   carolina mornaFelizmente há luar   carolina morna
Felizmente há luar carolina morna
 
Felizmente há luar carolina morna
Felizmente há luar   carolina mornaFelizmente há luar   carolina morna
Felizmente há luar carolina morna
 
Felizmente há luar carolina morna
Felizmente há luar   carolina mornaFelizmente há luar   carolina morna
Felizmente há luar carolina morna
 
Felizmente há luar - trabalho de carolina morna
Felizmente há luar  - trabalho de  carolina mornaFelizmente há luar  - trabalho de  carolina morna
Felizmente há luar - trabalho de carolina morna
 
Felizmente há luar carolina morna
Felizmente há luar   carolina mornaFelizmente há luar   carolina morna
Felizmente há luar carolina morna
 
Apresentação para décimo segundo ano de 2016 7, aula 158-159
Apresentação para décimo segundo ano de 2016 7, aula 158-159Apresentação para décimo segundo ano de 2016 7, aula 158-159
Apresentação para décimo segundo ano de 2016 7, aula 158-159
 
Amar, verbo intransitivo, de mário de andrade
Amar, verbo intransitivo, de mário de andradeAmar, verbo intransitivo, de mário de andrade
Amar, verbo intransitivo, de mário de andrade
 
Sintese frei luis_de_sousa
Sintese frei luis_de_sousaSintese frei luis_de_sousa
Sintese frei luis_de_sousa
 
Felizmente há luar
Felizmente há luarFelizmente há luar
Felizmente há luar
 
Frei luis de sousa
Frei luis de sousaFrei luis de sousa
Frei luis de sousa
 
Felizmente h luar_quadro_sintese
Felizmente h luar_quadro_sinteseFelizmente h luar_quadro_sintese
Felizmente h luar_quadro_sintese
 
Felizmente h luar_quadro_sintese
Felizmente h luar_quadro_sinteseFelizmente h luar_quadro_sintese
Felizmente h luar_quadro_sintese
 
Felizmente Há Luar
Felizmente Há LuarFelizmente Há Luar
Felizmente Há Luar
 
Romantismo, Frei Luís de Sousa
Romantismo, Frei Luís de SousaRomantismo, Frei Luís de Sousa
Romantismo, Frei Luís de Sousa
 
aecam1116_ppt_7.pptx.pdf FREI LUIS DE SOUSA
aecam1116_ppt_7.pptx.pdf FREI LUIS DE SOUSAaecam1116_ppt_7.pptx.pdf FREI LUIS DE SOUSA
aecam1116_ppt_7.pptx.pdf FREI LUIS DE SOUSA
 

As personagens de felizmente há luar caracterização

  • 1. Escola Secundária Sá de Miranda As Personagens: Caracterização transmitem, são também a denúncia do absurdo a que a intolerância e a violência dos homens conduzem. Gomes Freire: homem instruído, letrado ("um estrangeirado"), um militar que sempre lutou em prol da honestidade e da justiça. É Sousa Falcão: é o amigo de todas as horas, é o amigo fiel em quem também o símbolo da modernidade e do progresso, adepto das se pode confiar e que está sempre pronto a exprimir a sua novas ideias liberais e, por isso, considerado subversivo e perigoso solidariedade e amizade. No entanto, ele próprio tem consciência para o poder instituído. Assim, quando é necessário encontrar de que, muitas vezes, não actuou de forma consentânea com os uma vítima que simbolize uma situação de revolta que se adivinha, seus ideais, faltando-lhe coragem para passar à acção. Gomes Freire é a personagem ideal. Ele é o símbolo da luta pela Vicente, o traidor: elemento do povo, trai os seus iguais, liberdade, da defesa intransigente dos ideais, daí que a sua chegando mesmo a provocá-los, apenas lhe interessando a sua presença se torne incómoda não só para os "reis do Rossio", mas ascensão político-social. Apesar da repulsa/antipatia que as também para os senhores do regime fascizante dos anos 60. A sua atitudes de Vicente possam provocar ao público/leitor, o que é morte, duplamente aviltante para um militar (ele é enforcado e facto é que não se lhe pode negar nem lucidez nem acuidade na depois queimado, quando a sentença para um militar seria o análise que faz da sua situação de origem e da força corruptora do fuzilamento), servirá de lição a todos aqueles que ousem afrontar poder. Vicente é uma personagem incómoda, talvez porque nos o poder político e também, de certa forma, económico, faça olhar para dentro de nós próprios, acordando más representado pela tença que Beresford recebe (16.000$00 anuais, consciências adormecidas. uma fortuna para a época!) e que se arriscaria a perder se Gomes Freire chegasse ao poder. Manuel, Rita: símbolos do povo oprimido e esmagado, têm consciência da injustiça em que vivem, sabem que são simples Matilde de Sousa: companheira de todas as horas de Gomes joguetes nas mãos dos poderosos, mas sentem-se impotentes Freire, é ela que dá voz à injustiça sofrida pelo seu homem. As suas para alterar a situação. Vêem em Gomes Freire uma espécie de falas, imbuídas de dor e revolta, constituem também uma Messias e daí, talvez, a sua agressividade em relação a Matilde, denúncia da falsidade e da hipocrisia do Estado e da Igreja. Todas após a prisão do general, quando ela lhes pede que se revoltem e as tiradas de Matilde revelam uma clara lucidez e uma verdadeira que a ajudem a libertar o seu homem. A prisão de Gomes Freire é coragem na análise que faz de toda a teia que envolve a prisão e uma espécie de traição à esperança que o povo nele depositava. condenação de Gomes Freire. No entanto, a consciência da Podem também simbolizar a desesperança, a desilusão, a inevitabilidade do martírio do seu homem (e daí o carácter épico frustração de toda uma legião de miseráveis face à quase da personagem de Gomes Freire) arrasta-a para um delírio final em impossibilidade de mudança da situação opressiva em que vivem. que, envergando a saia verde que o general lhe oferecera em Paris (símbolo de esperança num futuro diferente?), Matilde dialoga Beresford: personagem cínica e controversa, aparece como com Gomes Freire vivendo momentos de alucinação intensa e alguém que, desassombradamente, assume o processo de Gomes dramática. Estes momentos finais, pelo carácter surreal que Freire, não como um imperativo nacional ou militar, mas apenas Português 12º ano Luís de Sttau Monteiro – Felizmente há Luar
  • 2. Escola Secundária Sá de Miranda motivado por interesses individuais: a manutenção do seu posto e  Gomes Freire, pela coragem, determinação e defesa da sua tença anual. A sua posição face a toda a trama que envolve intransigente dos ideais de liberdade; Gomes Freire é nitidamente de distanciamento crítico e irónico,  Matilde de Melo, pela nobreza moral, pelo conflito que vive acabando por revelar a sua antipatia face ao catolicismo caduco e entre os seus "humanos" sentimentos e a progressiva ao exercício incompetente do poder, que marcam a realidade portuguesa. consciencialização do seu dever de verdadeira patriota. A simplicidade da acção e o despojamento cénico. D. Miguel: é o protótipo do pequeno tirano, inseguro e O desenlace final: o martírio e a morte de Gomes Freire. prepotente, avesso ao progresso, insensível à injustiça e à miséria. Todo o seu discurso gira em torno de uma lógica oca e Aspectos simbólicos demagógica, construindo verdades falsas em que talvez acabe A moeda de cinco réis: a moeda que Matilde pede a Rita assume, mesmo por acreditar. Os argumentos do "ardor patriótico", da assim, um valor simbólico, teatralmente simbólico. Assinala o construção de "um Portugal próspero e feliz, com um povo reencontro de personagens em busca da História, por um lado, e, simples, bom e confiante, que viva lavrando e defendendo a terra, por outro, é o penhor de honra que Matilde, emblematicamente, com os olhos postos no Senhor", são o eco fiel do discurso político usará ao peito, como "uma medalha". dos anos 60. D. Miguel e o Principal Sousa são talvez as duas A fogueira não era destinada à execução de militares. No entanto, personagens mais execráveis de todo o texto pela falsidade e Gomes Freire, após ser enforcado, foi queimado. Contudo, aquilo hipocrisia que veiculam. que inicialmente é aviltante acaba por assumir um carácter redentor. Na verdade, o fogo simboliza também a purificação, a Principal Sousa: para além da hipocrisia e da falta de valores éticos morte da "velha ordem" e o ponto de partida para um mundo que esta personagem transmite, o Principal Sousa simboliza novo e diferente. também o conluio entre a igreja, enquanto instituição, e o poder e O título: a frase "Felizmente há luar" é proferida por duas a demissão da primeira em relação à denúncia das verdadeiras personagens de "mundos" diferentes: por D. Miguel, símbolo do injustiças. Nas palavras do Principal Sousa é igualmente possível Poder (Acto II, pág. 131), e por Matilde, símbolo da resistência (no detectar os fundamentos da política do "orgulhosamente sós" dos final do Acto II, pág. 140). Assim, e tendo em conta a estrutura anos 60. dual que organiza o texto, será fácil detectar a importância do luar Andrade Corvo e Morais Sarmento: são os delatores por para cada uma das personagens. Para D. Miguel, o luar permitirá excelência, aqueles a quem não repugna trair ou abdicar dos que o clarão da fogueira atemorize todos aqueles que queiram ideais, para servirem obscuros "propósitos patrióticos". lutar pela liberdade; para Matilde, o luar sublinhará a intensidade do fogo que simboliza a coragem e a força de um homem, que Carácter Apoteótico morreu para defender a liberdade. Carácter excepcional das personagens: Português 12º ano Luís de Sttau Monteiro – Felizmente há Luar
  • 3. Escola Secundária Sá de Miranda Paralelismo passado/condições históricas dos anos 60  Povo reprimido e explorado; Tempo da História (século XIX - 1817)  Miséria, medo e analfabetismo;  Agitação social que levou à revolta liberal de 1820 -  Obscurantismo, mas crença nas mudanças; conspirações internas; revolta contra a presença da Corte  Luta contra o regime totalitário e ditatorial; no Brasil e influência do exército britânico;  Agitação social e política com militares antifascistas a  Regime absolutista e tirânico protestarem;  Classes sociais fortemente hierarquizadas;  Perseguições da PIDE;  Classes dominantes com medo de perder privilégios;  Denúncias dos chamados "bufos", que surgem na sombra e  Povo oprimido e resignado; se disfarçam, para colher informações e denunciar;  A "miséria, o medo e a ignorância";  Censura à imprensa;  Obscurantismo, mas "felizmente há luar";  Prisão e duras medidas de repressão e de tortura;  Luta contra a opressão do regime absolutista;  Condenação em processos sem provas.  Manuel, "o mais consciente dos populares", denuncia a opressão e a miséria; Tempo Tempo histórico: século XIX.  Perseguições dos agentes de Beresford; Tempo da escrita: 1961, época dos conflitos entre a oposição e o  As denúncias de Vicente, Andrade Corvo e Morais regime salazarista. Sarmento que, hipócritas e sem escrúpulos, denunciam; Tempo da representação: 1h30m/2h.  Censura; Tempo da acção dramática: a acção está concentrada em 2 dias.  Severa repressão dos conspiradores; Tempo da narração: informações respeitantes a eventos não  Processos sumários e pena de morte; dramatizados, ocorridos no passado, mas importantes para o  Execução do General Gomes Freire. desenrolar da acção. Tempo da escrita (século XX - 1961)  Agitação social dos anos 60 - conspirações internas; Espaço Espaço físico: a acção desenrola-se em diversos locais, exteriores principal irrupção da guerra colonial; e interiores, mas não há nas indicações cénicas referentes a  Regime ditatorial de Salazar; cenários diferentes.  Maior desigualdade entre abastados e pobres;  Classes exploradas, com reforço do seu poder; Português 12º ano Luís de Sttau Monteiro – Felizmente há Luar
  • 4. Escola Secundária Sá de Miranda Espaço social: meio social em que estão inseridas as personagens, Para Matilde, estas palavras são fruto de um sofrimento havendo vários espaços sociais, distinguindo-se uns dos outros interiorizado reflectido, são a esperança e o não conformismo pelo vestuário e pela linguagem das várias personagens. nascidos após a revolta, a luz que vence as trevas, a vida que triunfa da morte. A luz do luar (liberdade) vencerá a escuridão da O título noite (opressão) e todos poderão contemplar, enfim, a injustiça O título da peça aparece duas vezes ao longo da peça, ora inserido que está a ser praticada e tirar dela ilação. nas falas de um dos elementos do poder - D. Miguel - ora inserido Há que imperiosamente lutar no presente pelo futuro e dizer não na fala final de Matilde. Em primeiro lugar é curioso e simbólico o à opressão e falta de liberdade, há que seguir a luz redentora e facto de o título coincidir com as palavras finais da obra, o que trilhar um caminho novo. desde logo lhe confere circularidade. Elementos simbólicos  Página 131 - D. Miguel: salientando o efeito dissuasor das Saia verde: encontra-se associada à felicidade e foi comprada execuções, querendo que o castigo de Gomes Freire se numa terra de liberdade: Paris, no Inverno, com o dinheiro da torne num exemplo; venda de duas medalhas. "Alegria no reencontro"; a saia é uma  Página 140 - Matilde: na altura da execução são proferidas peça eminentemente feminina e o verde encontra-se destinado à palavras de coragem e estímulo, para que o povo se revolte esperança de que um dia se reponha a justiça. Sinal do amor contra a tirania. verdadeiro e transformador, pois Matilde, vencendo aparentemente a dor e revolta iniciais, comunica aos outros Num primeiro momento, o título representa as trevas e o esperança através desta simples peça de vestuário. O verde é a cor obscurantismo; num segundo momento, representa a caminhada predominante na natureza e dos campos na Primavera, da sociedade em busca da liberdade. associando-se à força, à fertilidade e à esperança. Como facilmente se constata a mesma frase é proferida por Título: duas vezes mencionado, inserido nas falas das personagens personagens pertencentes a mundos completamente opostos: D. (por D.Miguel, que salienta o efeito dissuador das execuções e por Miguel, símbolo do poder, e Matilde, símbolo da resistência e do Matilde, cujas palavras remetem para um estímulo para que o anti-poder. Porém o sentido veiculado pelas mesmas palavras povo se revolte). altera-se em virtude de uma afirmação dar lugar a uma eufórica A luz: como metáfora do conhecimento dos valores do futuro exclamação. (igualdade, fraternidade e liberdade), que possibilita o progresso Para D. Miguel, o luar permitiria que as pessoas vissem mais do mundo, vencendo a escuridão da noite (opressão, falta de facilmente o clarão da fogueira, isso faria com que elas ficassem liberdade e de esclarecimento), advém quer da fogueira quer do atemorizadas e percebessem que aquele é o fim último de quem luar. Ambas são a certeza de que o bem e a justiça triunfarão, não afronta o regime. A fogueira teria um efeito dissuasor. obstante todo o sofrimento inerente a eles. Se a luz se encontra Português 12º ano Luís de Sttau Monteiro – Felizmente há Luar
  • 5. Escola Secundária Sá de Miranda associada à vida, à saúde e à felicidade, a noite e as trevas relacionam-se com o mal, a infelicidade, o castigo, a perdição e a morte. A luz representa a esperança num momento trágico. Noite: mal, castigo, morte, símbolo do obscurantismo. Lua: simbolicamente, por estar privada de luz própria, na dependência do Sol e por atravessar fases, mudando de forma, representa: dependência, periodicidade. A luz da lua, devido aos ciclos lunares, também se associa à renovação. A luz do luar é a força extraordinária que permite o conhecimento e a lua poderá simbolizar a passagem da vida para a morte e vice-versa, o que aliás, se relaciona com a crença na vida para além da morte. Luar: duas conotações: para os opressores, mais pessoas ficarão avisadas e para os oprimidos, mais pessoas poderão um dia seguir essa luz e lutar pela liberdade. Fogueira: D. Miguel Forjaz - ensinamento ao povo; Matilde - a chama mantém-se viva e a liberdade há-de chegar. O fogo é um elemento destruidor e ao mesmo tempo purificador e regenerador, sendo a purificação pela água complementada pela do fogo. Se no presente a fogueira se relaciona com a tristeza e escuridão, no futuro relacionar-se-á com esperança e liberdade. Moeda de cinco reis: símbolo do desrespeito que os mais poderosos mantinham para com o próximo, contrariando os mandamentos de Deus. Tambores: símbolo da repressão sempre presente. Português 12º ano Luís de Sttau Monteiro – Felizmente há Luar