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Conteúdos literários
FREI LUÍS DE SOUSA, de ALMEIDA GARRETT
A DIMENSÃO PATRIÓTICA E A SUA EXPRESSÃO SIMBÓLICA
•	 		O	patriotismo	é	um	dos	temas	de	Frei Luís de
Sousa.	A	ação	do	drama	é	marcada	pela	situação	
do	País	em	fins	do	século	XVI,	época	em	que	se	
encontra	sob	dominação de Espanha,	e	pelos	sen-
timentos	de	amor	nacional	que	esta	realidade	polí-
tica	desperta	nas	personagens.
•	 		A	situação política de Portugal	tem	grande	im-
portância	na	ação	da	peça,	tendo	em	conta	que	
D.	Manuel	de	Sousa	Coutinho,	Telmo	e	Maria	
desejam	a	independência	do	Reino	e	não	aceitam	
a	governação	espanhola;	o	protagonista	recusa-se	
mesmo	a	colaborar	com	os	governadores	ao	ser-
viço	do	rei	estrangeiro	e	a	afronta-os	incendiando	
a	sua	própria	casa.	Numa	das	linhas	de	ação	da	
peça,	a	tensão	dramática	resulta	deste	conflito.
•	 		A	própria	ideia	de	Portugal é	assumida	como	tema	
desta	obra	de	Garrett,	que	se	assume	como	a	tra-
gédia coletiva de um povo.	Frei Luís de Sousa
apresenta	uma	reflexão	sobre	a	nação	portuguesa,	
uma	nação	que	tinha	sido	grande	mas	que,	na	
época	histórica	da	ação	do	drama,	perdera	a	sobe-
rania	política	e	se	encontrava	em	estado	de	hiber-
nação,	esperando	ressurgir…	caso	ainda	fosse	
possível.
•	 A	peça constrói	a	ideia	de	que	Portugal deixou de existir	durante	a	Dinastia	
Filipina	e	é	um	mero	fantasma	(é	«Ninguém!»)	que	alguns	creem	poder	res-
suscitar	(Lourenço,	2013:	86):	o	Reino	perdeu	a	sua	independência	e	espera	
	recuperá-la	com	a	chegada	de	D.	Sebastião,	que,	na	verdade,	morreu	na	
Batalha	de	Alcácer-Quibir.
•	 A	família	de	D.	Manuel	de	Sousa	Coutinho	representa	simbolicamente	a	tragé-
dia	coletiva	de	Portugal.	Os	protagonistas,	Maria	e	Telmo,	anseiam	pela	liber-
dade	e	pelo	ressurgimento da pátria.	O	velho	aio	deseja	que	o	seu	antigo	amo,	
D.	João	de	Portugal	—	que	representa	simbolicamente	D.	Sebastião	—,	esteja	
vivo	e	regresse.	Porém,	hesita	quando	dá	conta	de	que	o	seu	regresso	trará	
a	ruína	da	família.
•	 Desta	forma	se	inculca	que	o	velho Portugal,	que	morreu	em	Alcácer-Quibir	
—	o	Portugal	de	D.	Sebastião	e	de	D.	João	—,	já	não	conseguirá	um	novo	
ímpeto	e	fazer	ressurgir	a	Nação;	trata-se	apenas	de	um	fantasma	sem	sentido	
que	está	preso	na	saudade	e	na	ideia	de	passado.	Por	outro	lado,	o	novo
Portugal,	representado	por	D.	Manuel,	D.	Madalena	e	Maria,	acaba	por	não	ser	
a	solução	para	o	problema	da	Nação,	pois	estas	personagens	morrem	(física	ou	
simbolicamente)	e	com	eles	morre	a	esperança	de	futuro	de	um	novo	País.
Miguel	Lupi,	D. João de Portugal,	cena	de	Frei Luís de Sousa	(1865).
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UNIDADE 2 FREI LUÍS DE SOUSA, de ALMEIDA GARRETT
O SEBASTIANISMO: HISTÓRIA E FICÇÃO
•	 	Devemos	assinalar	o	patriotismo de Garrett,	que	exprime	nesta	peça	o	seu	
sentimento	nacional,	o	orgulho	por	temas	pátrios	e	o	seu	combate	pela	liber-
dade	na	período	da	política	autoritária	e	opressiva	do	governo	de	Costa	Cabral	
(1842-46).	O	olhar	crítico	sobre	uma	época	do	passado	(Dinastia		Filipina)	alude	
indireta	e	criticamente	às	circunstâncias	políticas	da	época	da	escrita	da	peça	
(1843-44).
•	 	A	ação	de	Frei Luís de Sousa	decorre	vinte	e	um	anos	após	a	histórica	Batalha
de Alcácer-Quibir	(1578),	em	que	morreu	o	rei	D.	Sebastião	e	parte	da	nobreza	
	nacional.	A	batalha	teve	consequências	diretas	na	perda	da	soberania	nacional,	
pois		Portugal	foi	politicamente	anexado	a	Espanha	em	1580.
•	 	O	sebastianismo	consiste,	inicialmente,	na	crença	de	que	o	jovem	rei,	que	
morre	em	Alcácer-Quibir,	regressará	não	só	para	recuperar	a	independência	
de	Portugal	como	também	para	dar	um	novo	impulso	ao	Reino	a	fim	de	conse-
guir	que	este	saia	do	estado	de	ruína	e	marasmo	em	que	se	encontra.	Nesta	
vertente,	trata-se	de	uma	crença messiânica	pois	parte	do	princípio	de	que	
a	salvação	da	pátria	e	de	um	povo	está	nas	mãos	de	uma	figura	(histórica	ou	
lendária)	e	que	ela	fará	renascer	a	Nação	a	partir	das	cinzas	e	a	conduzirá	num	
caminho	glorioso.
•	 	Com	o	passar	dos	tempos,	o	sebastianismo	já	não	se	referirá	ao	regresso	físico	
de	D.	Sebastião	mas		sim	à	chegada	de	uma	personagem	que	assumisse	esta	
função salvadora	ou	a	uma	ideia	que	desempenhasse	esse	papel,	como	sucede	
com	o	mito	do	Quinto	Império,	de	que	Vieira	e	Fernando	Pessoa	trataram.	
•	 	Em	Frei Luís de Sousa,	D. João de Portugal	não	regressa	de	Alcácer-Quibir,	é	
feito	prisioneiro	e	só	voltará	vinte	e	um	anos	depois	à	Pátria,	com	D.	Madalena	
casada	em	segundas	núpcias,	desencadeando	assim	as		consequências	trágicas	
que	se	conhecem.	D. João	alude	simbolicamente	a	D. 	Sebastião,	e	o	seu	
regresso	serve	para	especular	sobre	as	consequências	do	regresso	do	antigo	rei.
•	 	Nesta	peça	de	Garrett,	o	sebastianismo	é	perspetivado	de	forma	crítica e nega-
tiva.	Por	um	lado,	porque	a	saudade	deste	velho	Portugal,	que	Telmo	protago-
niza,	não	traz	a	solução	para	o	problema	da	Pátria.	Por	outro,	porque	o	regresso	
de	D.	João	(e	da	ideia	de	uma	nação	decadente)	impossibilita	que	se	opere	
a	mudança	e	o	surgimento	de	um	novo	Portugal	(de	Madalena,	Manuel	e	
Maria)	que	consiga		triunfar.
RECORTE DAS PERSONAGENS PRINCIPAIS
1. D. Madalena
•	 	D.	Madalena	vive	numa	grande	instabilidade	emocional:	o	terror	que	lhe	provoca	
a	possibilidade	de	regresso	de	D.	João	nunca	a	deixa	desfrutar	da	felicidade	de	
viver	ao	lado	do	homem	que	ama.	Os	seus	receios	são	alimentados	pelas	contí-
nuas	alusões	de	Telmo	à	iminente	vinda	daquele	que	considerava	como	o	verda-
deiro	amo.	A 	tensão	nervosa	em	que	vive	mergulhada	é	também	aumentada	pelo	
pecado	que	lhe	pesa	na	consciência:	o	facto	de	se	ter	apaixonado	por	D.	Manuel	
de	Sousa	Coutinho	enquanto	ainda	era	casada	com	D.	João.	Muito	embora	se	
tenha	mantido	fiel	ao	seu	marido,	considera	que	o	facto	de	amar	secretamente	
D.	Manuel	era	já	uma	traição.	O	sofrimento	é	ainda	intensificado	pelo	profundo	
amor	que	sente	pela	filha,	na	medida	em	que	tem	consciência	de	que	o	regresso	
de	D.	João	—	ou	a	simples	noção	da	sua	existência	—	a	poderiam	matar.
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Conteúdos literários
•    A sua crença no oculto leva-a a entrever 
presságios de desgraça em vários aconte-
cimentos aparentemente fortuitos.
•    Apesar de parecer psicologicamente mais 
frágil do que D. Manuel, curiosamente,  
é ela quem, no fim, se mostrará mais re- 
voltada por ser forçada a  separar-se do 
marido e a ingressar no convento. 
•    Ao contrário de D. Manuel, mantém até 
ao último momento a esperança de evitar 
o desenlace trágico.
2. D. Manuel de Sousa Coutinho
•  Esta personagem é, tal como D. Madalena, uma figura de grande densidade 
psicológica, o que se manifesta nos contrastes que marcam a sua personali-
dade. Todo o seu discurso se pauta por uma racionalidade e lucidez que se 
traduzem na recusa dos agouros e de qualquer sentimento de culpa em relação 
ao passado. Apesar disto, até ele se mostra desagradado quando Maria lhe fala 
na possibilidade de regresso de D. Sebastião, o que demonstra que, na reali-
dade, não estava absolutamente convicto de que D. João tinha morrido na 
Batalha de Alcácer-Quibir. O ceticismo que mostra em relação aos presságios 
é também contrariado quando recorda que o pai fora morto pela própria 
espada, interrogando-se sobre se também ele não será vítima do fogo que 
ateou.
•  O heroísmo que demonstra ao atrever-se a enfrentar abertamente os governa-
dores portugueses ao serviço de Castela parece esbater-se aquando do regresso 
de D. João: ao contrário de D. Madalena, o seu sofrimento não o impede de 
aceitar com resignação a solução de ingressar numa ordem religiosa.
•  Finalmente, a cultura revelada por D. Manuel e o seu amor às letras funcionam 
como prenúncios de que se irá converter num dos maiores prosadores da lite-
ratura portuguesa.
3. Maria
•  Maria é uma menina muito inteligente e precoce para a sua idade.
•  Tendo sido criada por Telmo, tem-lhe um amor profundo, partilhando da sua 
crença no regresso de D. Sebastião. 
•  Maria acredita ter a capacidade de desvendar o oculto, traço que, supostamente, 
é agudizado pelo aumento da sensibilidade que o facto de estar tuberculosa lhe 
proporciona. A sua intuição apurada leva-a a compreender que há algo que toda 
a família lhe quer ocultar, no intuito de a proteger. 
•  A coragem que demonstra quando incita o pai a queimar o palácio  manifesta-se 
também no fim, quando enfrenta as convenções sociais e as próprias conven-
ções religiosas, afirmando que nada justifica a destruição de uma família.
•  Apesar da sua força interior, a sua fragilidade física não lhe permite sobreviver  
ao desgosto de descobrir que é filha ilegítima, acabando por morrer de vergonha.
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UNIDADE 2 FREI LUÍS DE SOUSA, de ALMEIDA GARRETT
4. Telmo
•	 O	escudeiro	destaca-se,	numa	fase	inicial,	pela	sua	severidade,	que	o	leva	a	
criticar	D.	Madalena	por	se	ter	casado	segunda	vez	sem	estar	certa	da	morte	
do	primeiro	marido	e	mesmo	a	sugerir	que,	em	consequência	disto,	Maria	
poderia	não	ser	uma	filha	legítima.	
•	 No	entanto,	a	inflexibilidade	que	revela	(e	que	se	manifesta,	por	exemplo,	no	
facto	de	nunca	mentir)	virá	a	ser	quebrada	aquando	da	chegada	do	Romeiro.	
Confrontado	com	a	necessidade	de	salvar	Maria,	apercebe-se	de	que	já	a	
amava	mais	do	que	ao	primeiro	amo.	Assim,	dispõe-se,	pela	primeira	vez	na	
vida,	a	mentir,	em	nome	dos	afetos.	É	interessante	verificar	que,	desta	forma,	
se	humaniza,	aproximando-se	de	D.	Madalena,	a	quem	tanto	criticara	anterior-
mente,	na	medida	em	que	se	apercebe	de	que	o	amor	por	vezes	se	sobrepõe	
aos	princípios	morais.
5. Frei Jorge
•	 Tal	como	o	irmão,	Frei	Jorge	caracteriza-se	pela	sensatez,	procurando	sempre	
auxiliar	a	família.
•	 A	personagem	tem	um	papel	determinante	na	resolução	do	conflito	entre
D.	Manuel	e	os	governadores	ao	serviço	de	Castela.	
•	 No	Ato	Terceiro,	quando	D.	Manuel	se	verga	ao	peso	da	desgraça,	é	Frei	Jorge	
quem	toma	todas	as	providências	para	que	o	irmão	e	D.	Madalena	ingressem	
no	convento	—	procurando,	simultaneamente,	amparar	a	família	e	funcionar	
como	intermediário	entre	as	personagens.	
•	 Apesar	de	se	comover	com	o	sofrimento	a	que	assiste,	Frei	Jorge	mostra-se	
inflexível	na	obediência	aos	seus	princípios,	recusando	qualquer	solução	que	
passasse	pela	mentira,	mesmo	que	esta	lhe	permitisse	impedir	a	catástrofe.	
Com	efeito,	considera	que	a	entrada	na	vida	religiosa	proporcionará	a	D. Manuel	
e	a	D.	Madalena	o	consolo	e	a	redenção	de	que	necessitavam.
6. D. João de Portugal
•	 Este	fidalgo,	apesar	de	ser	considerado	pelas	outras	personagens	como	uma	
figura	digna	de	temor	pela	dignidade	e	rigidez	na	fidelidade	aos	seus	princípios,	
acaba	por	revelar-se	muito	humano.	Confrontado	com	o	facto	de	que	
D.	Madalena	tinha	feito	todos	os	esforços	para	o	procurar	e	de	que	ela	tinha	
uma	filha,	mostra-se	disposto	a	anular	a	sua	própria	existência	para	salvar	toda	
a	família	da	catástrofe.
O ESPAÇO E O TEMPO
1. O espaço
•	 	Podemos	distinguir	dois	tipos	de	espaço	num	texto	dramático:	o	espaço
cénico,	formado	pelo	palco	e	pelo	cenário,	e	o	espaço representado,	o	lugar	
a	que	o	espaço	cénico	pretende	aludir	(«faz	de	conta»	que	estamos	num	
palácio,	no	campo,	etc.).	A	informação	sobre	o	espaço	é	dada	ao	leitor	atra-
vés	das		didascálias,	sobretudo	as	que	se	encontram	em	início	de	ato,	mas	
também	através	das	falas	das	personagens.
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Conteúdos literários
•	 	A	ação	de	Frei Luís de Sousa	desenrola-se	em	dois	palácios	de	Almada.	As	salas	
dos	palácios	onde	os	acontecimentos	têm	lugar	constituem	o	espaço represen-
tado.	As	personagens	fazem	também	referência	a	outros	locais	com	importância	
para	o	enredo:	este	é	o	espaço aludido,	mencionado	por	palavras.	Esses	lugares	
são,	sobretudo,	Alcácer-Quibir	e	a	Palestina,	onde	D.	João	estivera	aprisionado.
•	 Em	termos	de	macroespaços,	toda	a	ação	de	Frei Luís de Sousa	decorre	em	
Almada.	A	cidade	reveste-se	de	um	forte	valor	simbólico	pela	oposição	que	
estabelece	com	Lisboa:	na	capital	está	instalada	a	sede	do	governo	de	Portugal,	
que	é	controlado	pela	coroa	espanhola.	A	classe	dominante	e	os	governadores	
portugueses	traíram	a	sua	pátria	e	colaboram	com	a	potência	invasora.	Daí	que	
a	peste	que	se	abateu	sobre	Lisboa	sugira	simbolicamente	o	estado	de	corrup-
ção	moral	e	política	em	que	vivem	aqueles	que	se	venderam	ao	rei	de	Espanha.	
Por	seu	turno,	do	outro	lado	do	Tejo,	longe	da	corrupção	moral,	Almada	respira	
ares	«saudáveis».	Aí	se	encontram	as	personagens	patrióticas,	fiéis	a	Portugal:	
destacam-se	D.	Manuel,	Maria,	Telmo	e	D.	João.
•	 O	Ato Primeiro	decorre	no	palácio	de	D.	Manuel,	numa	sala	ornamentada	e	
	luxuosa,	sugerindo	que	este	lugar	é	habitado	por	personagens	nobres.	Se	uma	
casa	simboliza	a	estabilidade	de	uma	família,	este	palácio	transmite	a	ideia	de	
conforto,	bem-estar	e	a	união	e	o	amor	familiares.	Por	esse	motivo,	o	incêndio	
que	destrói	o	solar	revela-se	um	presságio	da	desagregação	do	núcleo	familiar,	
consumada	pela	catástrofe	que	se	abaterá	sobre	os	seus	membros.
•	 Perdido	o	palácio	de	D.	Manuel,	a	família	muda-se	para	a	antiga	casa	de	
D. João	de	Portugal	(e	de	D.	Madalena).	O	Ato Segundo	decorrerá	numa	sala	
austera	e	fria,	pouco	ornamentada	e	de	«gosto	melancólico	e	pesado».	Os	retra-
tos	de	D.	Sebastião,	D.	João	e	Camões	conferem	solenidade	à	cena	e	são	uma	
recordação	do	velho	Portugal	independente	e	grandioso	que	pereceu	em	
	Alcácer-Quibir.	Esta	sala	é	uma	divisão	interior,	sem	janelas	(	simbolizando	a	
prisão	e	o	afastamento	do	mundo),	inóspita,	pautada	pela	gravidade	e	ilumi-
nada	por	tochas	e	não	pelo	Sol.	As	personagens	perderam	a	noção	de	lar.	
D. Madalena	vive	em	estado	de	receio	e	tensão.
•	 A	ação	do	Ato Terceiro	decorre	na	parte	baixa	do	palácio	de	D.	João.	O	espaço	
subterrâneo	é	ainda	mais	fechado,	mais	escuro,	quase	não	tem	ornamentos:	
	trata-se	de	um	lugar	propício	a	sensação	de	claustrofobia	—	há	mesmo	portas	
que	separam	as	personagens	e	que	lhes	impedem	a	livre	circulação.	A	sala	
subterrânea	tem	ligação	à	«capela	da	Nossa	Senhora	da	Piedade»,	represen-
tando	que	o	casal	optou	pela	vida	religiosa	e	a	família	está	condenada	à	desa-
gregação.	No	fim	do	ato,	surge,	ao	fundo,	o	interior	da	Igreja	de	São	Paulo.
•	 Podemos,	assim,	interpretar	a	sucessão	de	espaços	como	um	percurso	grada-
tivo	do	mundo terreno para o sagrado e espiritual.	É	este	o	caminho	que	a	
família	vai	percorrer:	D.	Madalena	e	D.	Manuel,	porque	ingressarão	na	vida	
monástica;	Maria,	porque	morrerá	e	irá	para	o	«Céu».
•	 Assistimos	também	a	um	progressivo	afunilamento do espaço:	de	uma	sala	com	
grandes	janelas	e	onde	a	luz	natural	penetra,	no	Ato	Primeiro,	passando	por	uma	
sala	fechada	(Ato	Segundo)	até	chegarmos	a	um	espaço	subterrâneo	e	em	que	as	
personagens	parecem	já	enclausuradas	(Ato	Terceiro).	Por	um	lado,	este	fecha-
mento	do	espaço	contribui	para	o	aumento	da	tensão	em	cena;	por	outro,	esse	
trajeto	ilustra	a	progressiva	limitação	de	soluções	para	o	problema	com	que	a	
família	de	D.	Manuel	depara.
•	 O	espaço psicológico	—	domínio	das	vivências	mentais	de	uma	personagem:	
pensamentos,	sonhos,	sentimentos	dessas	—	tem,	no	texto		dramático,	o	monó-
logo	e	o	solilóquio	como	modos	privilegiados	de	expressão	(mas	não	os	únicos).	
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UNIDADE 2 FREI LUÍS DE SOUSA, de ALMEIDA GARRETT
•	 O	solilóquio	inicial	de	D.	Madalena	dá	voz	às	inquietações	da	personagem,	
ainda	que	de	forma	enigmática.	Na	penúltima	cena	do	Ato	Primeiro,	é	D.	Manuel	
que,	só	em	palco,	justifica	o	gesto	de	atear	fogo	à	sua	própria	casa.	Na	Cena IX	
do	Ato	Segundo,	desempenhando	funções	semelhantes	às	do	coro	da	tragédia	
grega,	Frei	Jorge,	só	em	palco,	dá	conta	da	preocupação	que	sente	com	a	situa-
ção	em	que	aquela	família	se	encontra.	Por	fim,	no	importante	solilóquio	da	
Cena	IV	do	ato	final,	Telmo	manifesta	o	conflito	interior	entre	a	fidelidade	ao	seu	
antigo	amo	e	um	grande	amor	a	Maria.
2. O tempo
•	 A	peça	inicia-se	com	a	apresentação	dos	antecedentes da ação,	que	abarcam	
um	longo período temporal.	Há	referências	à	Batalha	de	Alcácer-	Quibir,	que	
tivera	lugar	vinte	e	um	anos	antes,	e	a	momentos	ainda		anteriores.	Depois	da	
batalha,	e	durante	sete	anos,	D.	Madalena	promoveu	buscas	para	saber	se	
D. João	ainda	está	vivo.	No	fim	deste	período,	e	como	a	procura	se	revelou	
infrutífera,	acabou	por	casar-se	com	D.	Manuel.
•	 Em	contrapartida,	a	ação	da	peça	desenrola-se	num	breve período de tempo,	
sensivelmente	uma	semana.	O	segundo	ato	decorre	no	dia	do	aniversário	
da	Batalha	de	Alcácer-Quibir.	Tendo	em	conta	que	esta	batalha	teve	lugar	no	
dia	4	de	agosto	de	1578,	e	que	D.	Madalena	afirmara	que	já	haviam	passado	
vinte	e	um	anos	desde	a	batalha,	é	possível	localizar	a	ação	deste	ato	no	dia	
4	de	agosto	de	1599.	Uma	vez	que	estes	acontecimentos	se	desenrolam	oito	
dias	depois	dos	do	primeiro	ato,	podemos	concluir	que	o	primeiro	ato	decorre	
no	dia	28	de	julho	de	1599.	Quanto	ao	terceiro	ato,	passa-se	durante	a	noite	
do	dia	4	de	agosto.
•	 Constatamos	que	há	uma	progressiva concentração temporal:	da	evocação	dos	
episódios	de	um	longo	período	de	vinte	e	um	anos	(Ato	Primeiro),	passamos	a	
acontecimentos	que	se	desenrolam	em	dois	dias,	separados	entre	si	no		período	
de	uma	semana.	Nos	Atos	Segundo	e	Terceiro,	a	velocidade	dos	acontecimen-
tos	precipita-se:	tudo	sucede	no	dia	do	aniversário	da	Batalha	de	Alcácer-
-	Quibir,	prolongando-se	depois	pela	noite	e	pela	madrugada,	que	anuncia	já	o	
dia	seguinte.
•	 Este	afunilamento progressivo do tempo	contribui	para	intensificar a tensão
dramática,	na	medida	em	que	todos	os	acontecimentos	se	sucedem	de	forma	
cada	vez	mais	rápida,	até	ao	desenlace	trágico.
A DIMENSÃO TRÁGICA
•	 No	que	diz	respeito	à	intriga trágica,	é	interessante	verificar	que	há	uma	con-
centração de personagens, de espaço e de tempo, como	vimos,	de	modo	que	
nada	seja	supérfluo	e	que	tudo	contribua	para	a	intensificação da tensão dra-
mática.
•	 De	notar	que,	de	acordo	com	os	factos	históricos,	D. Madalena	tivera	três	filhos	
do	primeiro	casamento,	que	são	aqui	eliminados,	para	que	a	aniquilação	de	
Maria	represente,	de	facto,	o	extermínio	completo	da	família.
•	 Da	mesma	forma,	todo	o	desenrolar da ação	converge	para	o	desenlace trá-
gico.	Mesmo	o	momento	em	que	D.	Manuel	parece	revoltar-se	contra	o	destino,	
incendiando	o	seu	palácio,	acaba	por	servir	a	fatalidade	que	se	abate	sobre	as	
personagens,	na	medida	em	que	as	obriga	a	família	a	mudar-se	para	o	palácio	
de	D.	João,	local	aonde	este	regressará.
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36
Conteúdos literários
1. Presença dos elementos da tragédia clássica
Elementos da tragédia clássica Presença em Frei Luís de Sousa
•	Hybris	—	consiste	num	desafio	feito	
pelas	personagens	à	ordem	instituída	
(leis	humanas	ou	divinas).
•	A	hybris	é	perpetrada	tanto	por	D. Madalena	como	por	
D.	Manuel	de	Sousa	Coutinho.	Com	efeito,	no	primeiro	caso,	
o	desafio	consistiu	no	facto	de	a	personagem	se	ter	apaixonado	
por	D. Manuel	de	Sousa	Coutinho	quando	ainda	era	casada	com	
D.	João	de	Portugal.	Além	disso,	ambas	as	personagens	põem	
em	causa	a	ordem	instituída	ao	casarem	sem	terem	provas	
irrefutáveis	da	morte	de	D.	João	de	Portugal.
•	Peripécia	—	de	acordo	com	a	Poética,	
de	Aristóteles	(2000	[c.	300	a.	C.]),	
é	«a	mutação	dos	sucessos	no	
contrário»,	isto	é,	o	momento	em	
que	se	verifica	uma	inflexão	abrupta	
dos	acontecimentos.	
•	Anagnórise	—	palavra	que	significa	
«reconhecimento»;	segundo	a	Poética,	
de	Aristóteles,	«é	a	passagem	do	
ignorar	ao	conhecer»,	podendo	consistir	
na	revelação	de	acontecimentos	
desconhecidos	ou	na	identificação	
de	determinada	personagem.
•	Na	Poética,	Aristóteles	afirma	que	
«[a]	mais	bela	de	todas	as	formas	[de	
anagnórise]	é	a	que	se	dá	juntamente	
com	a	peripécia,	[…]	porque	suscitará	
terror	e	piedade	[…].»
•	A	peripécia	e	a	anagnórise	ocorrem	em	simultâneo:	com	
a	chegada	do	Romeiro	e	o	reconhecimento	da	sua	identidade	
(anagnórise),	dá-se	uma	inversão	brusca	nos	acontecimentos	
(peripécia)	—	o	casamento	torna-se	inválido	e	Maria	torna-se	
filha	ilegítima.
•	Clímax	—	momento	culminante	
da	ação.
•	O	clímax	ocorre	na	cena	final	do	Ato	Segundo,	pois	é	neste	
momento	que	a	tensão	dramática	atinge	o	seu	auge:	D.	João	de	
Portugal	dá	a	conhecer	de	forma	inequívoca	a	sua	identidade,	
demonstrando,	ao	mesmo	tempo,	de	forma	paradoxal,	que	
o	esquecimento	a	que	foi	votado	anulou	a	sua	existência.
•	Catástrofe	—	desenlace	trágico. •	A	família	é	totalmente	exterminada:	D.	Madalena	e	D.	Manuel	
morrem	para	o	mundo,	ingressando	na	vida	religiosa,	e	Maria	
morre,	de	facto.
•	Ágon	—	conflito	vivido	pelas	
personagens;	pode	designar	
o	conflito	com	outras	personagens	
ou	o	conflito	interior.
•	As	atitudes	de	D.	Madalena	ao	longo	da	intriga	são	um	reflexo	
do	conflito	interior	que	a	atormenta:	desde	o	primeiro	momento	
que	mostra	sentir-se	grata	por	viver	com	o	homem	que	ama,	
tendo,	no	entanto,	consciência	de	que	a	sua	felicidade	é	frágil,	
dado	que	a	construiu	com	base	na	suposição	da	morte	
do	marido.
•	Por	seu	lado,	também	Telmo	é	vítima	de	um	conflito	interior:	
depois	de	ter	passado	vinte	e	um	anos	a	desejar	o	regresso	
do	antigo	amo,	apercebe-se	de	que,	na	verdade,	o	seu	amor	por	
Maria	acabou	por	superar	o	que	nutria	por	D.	João	de	Portugal,	
mostrando-se	disposto	a	abdicar	dos	seus	princípios	éticos	para	
a	salvar.	
(continua)
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37
UNIDADE 2 FREI LUÍS DE SOUSA, de ALMEIDA GARRETT
LINGUAGEM, ESTILO E ESTRUTURA
1. Estrutura
1.1 Estrutura externa
•	 	A	estrutura	externa	de	uma	obra	diz	respeito	à	organização	«visível»	do	texto	
literário	(e	traduz-se	na	forma	como	essa	organização	se	apresenta	grafica-
mente).	Frei Luís de Sousa	é	uma	obra dramática,	ou	seja,	um	texto	preparado	
para	a	representação	teatral.
•	 	Como	a	esmagadora	maioria	das	obras	do	modo	dramático,	a	peça	de	Garrett	
é	composta	por	um	texto principal,	que	consiste	nas	falas	das	personagens,	e	
por	um	texto secundário,	que	é	constituído	pelas	didascálias,	ou	seja,	pelas	
indicações	cénicas	sobre	a	ornamentação	do	palco,	os	adereços,	a	luz,	a	movi-
mentação	e	os	gestos	das		personagens,	etc.
•	 	Enquanto	drama	romântico,	Frei Luís de Sousa é um	texto	em	prosa	estruturado	
em	três atos:	a	mudança	de	atos	corresponde	à	mudança	do	local	da	ação.	
(Note-se	que	as	tragédias	clássicas	eram	compostas	em	verso	e	dividiam-se,	
por	regra,	em	cinco	atos.)	Por	sua	vez,	cada	ato	organiza-se	em	várias	cenas,	
que	terminam	com	a	entrada	ou	saída	de	personagens	do	palco.
(continuação)
Elementos da tragédia clássica Presença em Frei Luís de Sousa
•	Pathos	—	sofrimento	crescente		
das	personagens.
•	O	sofrimento	das	personagens	vai-se	intensificando,		
a	ponto	de	o	próprio	Frei	Jorge	se	sentir	inclinado	a	acreditar		
na	possibilidade	de	uma	catástrofe	iminente.
•	Ananké	—	é	o	destino;	preside		
à	existência	das	personagens		
e	é	implacável.
•	A	presença	do	destino	é	visível	pelo	facto	de	todos	os	
acontecimentos	convergirem	para	o	desenlace	trágico	e	de	haver	
um	afunilamento	do	espaço	e	do	tempo,	que	mostra	que	as	
personagens	são	inexoravelmente	conduzidas	para	a	catástrofe.
•	Catarse	—	efeito	purificador	que		
a	tragédia	deve	ter	nos	espectadores:	
ao	desencadear	o	terror	e	a	piedade,	
permitir-lhes-ia	purificarem	as	suas	
emoções.
•	O	terror	e	a	piedade	desencadeados	nos	espectadores	são	
adensados	pelo	facto	de	a	catástrofe	se	abater	sobre	uma	família	
(na	qual	se	inclui	Telmo)	que	se	ama	profundamente	e	de	todas	
as	personagens	serem	profundamente	retas	e	dignas.
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38
Conteúdos literários
1.2 Estrutura interna
•	 	A	estrutura interna	de	uma	obra	dramática	refere-se	à	organização	do	enredo.	
Tradicionalmente,	divide-se	a	ação	dramática	em	três	momentos:	exposição	
inicial	da	situação,	conflito	e	desenlace.
•	 Na	exposição	inicial	de	Frei Luís de Sousa,	que	ocupa,	sensivelmente,	as	Cenas	I
a	IV	do	Ato	Primeiro,	são-nos	apresentados	a	época	e	o	contexto	em	que	o	
enredo	se	desenrola,	as	personagens	centrais	do	drama	(D.	Manuel	é	apenas	
referido)	e	os	antecedentes	da	ação	(o	passado	das	personagens).
•	 O conflito	vai-se	adensando	ao	longo	do	texto	(entre	a	Cena	V	do	Ato	Primeiro	
e	a	Cena IX	do	Ato	Terceiro).	As	questões	que	animam	este	conflito	são,	essen-
cialmente,	os	receios	de	D.	Madalena,	o	antagonismo	entre	D. Manuel	e	os	
governadores	do	Reino	e	a	doença	de	Maria.	Um		primeiro momento de grande
intensidade	ocorre	quando	o	Romeiro	afirma	que	D.	João	de	Portugal	(ele	pró-
prio)	está	vivo,	no	fim	do	Ato	Segundo.	
•	 O	desenlace	(Cenas	X	e	XII	do	Ato	Terceiro)	dá	conta	da	resolução	do	problema	
	central	da	obra	e	do	«caminho»	que	cada	personagem	toma:	Maria	morre,	
D. Madalena	e	D.	Manuel	ingressam	na	vida	religiosa.	Note-se	que	este		desenlace	
tem	na	morte	de	Maria	o	segundo momento de grande intensidade	da	peça.
•	 A	estrutura	interna	de	Frei Luís de Sousa	é	pautada	pelos	elementos	trágicos	da	
ação	(cf.	páginas	35-37	deste	livro).
2. Linguagem e estilo
•	 	Ao	contrário	da	tragédia	clássica,	por	regra	escrita	em	verso,	Frei Luís de Sousa
foi	composto	em	prosa.	Desta	forma,	os	diálogos	ganham	um	sabor	de	colo-
quialidade	e	fluidez	que	dificilmente	teriam	com	o	verso.
•	 Por	outro	lado,	seguindo	as	regras	da	tragédia	clássica,	a	linguagem	das	perso-
nagens	centrais	adequa-se	ao	estatuto	social	da	nobreza:	assim	domina	o	nível
de linguagem elevado	e,	frequentemente,	encontramos	um	léxico	rico	e	até	
erudito	(«ignomínia»,	«opróbrio»,	«pejo»,	etc.).
•	 As	falas	das	personagens	de	Frei Luís de Sousa	são	marcadas	por	uma	grande	
emotividade,	fruto	do	seu	estado	de	espírito	quando	confrontadas	com	os	
acontecimentos	intensos	ou	com	os	seus	receios.	No	texto	abundam	marcas	
linguísticas	que	traduzem	os	sentimentos	das	personagens:	as	interjeições
(e	as	locuções	interjetivas),	as	frases exclamativas	e	os	atos ilocutórios expres-
sivos.	Os	melhores	exemplos	estão	nas	falas	de	D.	Madalena	e	revelam	a	
	influência	dos	melodramas	românticos	com	uma	linguagem	demasiado	retórica
e	emotiva.
•	 Associados	aos	sentimentos	e	ao	estado	de	espírito	das	personagens	estão	as	
frases suspensas	(ou	seja,	interrompidas),	que	pontuam	as	falas	de	diferentes	
personagens,	exprimem	as	suas	inquietações,	perplexidades	e	hesitações.	Por	
vezes,	deixam	no	ar	alguns	subentendidos	cujo	significado	é	partilhado	pelas	
personagens	(ver	o	diálogo	da	Cena	II	do	Ato	Primeiro).	Telmo	e	D.	Madalena	
deixam	por	terminar	as	frases	por	não	quererem	mencionar	o	que	receiam	
(o	regresso	de	D.	João,	a	desonra	ou	a	doença	de	Maria)	ou	por	hesitarem	em	
verbalizar	certos	factos	(a	possibilidade	de	D.	João	não	ter	morrido).
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39
UNIDADE 2 FREI LUÍS DE SOUSA, de ALMEIDA GARRETT
•	 As	frases interrogativas,	frequentes	nas	falas	mais	tensas,	dão	igualmente	
conta	dos	anseios	e	do	desassossego	das	personagens,	mas	também	da	sua	
desorientação	ou	da	incerteza	em	relação	ao	futuro.	Por	outro	lado,	a	frase
curta	(por	vezes	constituída	por	uma	única	palavra:	«Ninguém!»)	confere	um	
tom	incisivo	aos	diálogos	e	contribui	para	fazer	crescer	a	tensão	dramática.
•	 Por	fim,	ainda	a	nível	do	vocabulário,	encontramos	certas	personagens	associa-
das	a	determinados	campos lexicais.	Frei	Jorge	e	os	outros	prelados	glosam		
o	campo	lexical	da	religião;	Telmo,	o	aio,	recorre	a	termos	associados	às	ideias	
de	honra	e	servidão	(«senhor»,	«amo»,	«servidor»).	As	repetições	de	palavras	
são	utilizadas	para	exprimir	a	ansiedade	ou	a	inquietação,	mas	frequentemente	
também	o	afeto	entre	os	membros	da	família.
3. O drama romântico: características
3.1 O género de Frei Luís de Sousa
•	 Como	introdução	a	Frei Luís de Sousa,	Garrett	apresenta	uma	«Memória	ao	
Conservatório	Real»,	texto	ensaístico	no	qual	reflete	sobre	questões	centrais	da	
sua	obra	dramática	—	sobretudo	sobre	o	seu	género,	as	suas	fontes	e	o	que		
o	levou	a	escrevê-la.
•	 Relativamente	ao	género	da	obra,	há	que	sublinhar	o	facto	de	Frei Luís de
Sousa	ter	sido	escrito	em	pleno	Romantismo,	um	período	literário	cuja	estética	
dominante	rompia	com	os	princípios	da	arte	do	período	anterior	—	o	Neo-
classicismo.	Coloca-se	então	a	questão:	este	texto	é	uma tragédia clássica,		
de	matriz	greco-latina,	ou um drama romântico,	género	literário	que	nasce		
no	Romantismo	e	que	representa	o	espírito	da	época?	Garrett	defenderá	
que	Frei Luís	de	Sousa	é	um	drama	romântico	que	incorpora,	a	nível	formal,	
	características	da	tragédia	(hibridismo	de	género).
	 a)	 Marcas da tragédia clássica
	 		 	 —	 	Assunto	digno	de	uma	tragédia	clássica,	pela	
beleza,	pela	simplicidade	e	pelo	sublime	
(segundo	Almeida	Garrett,	na	«Memória	ao	
Conservatório	Real»);
	 		 	 —	 	Presença	dos	elementos	da	tragédia	
clássica	(cf.		páginas 36-37	deste	livro);
	 		 	 —	 	Ambiente	carregado	de	presságios	e	sinais;
	 		 	 —	 Tom	grave	e	estilo	elevado;
	 		 	 —	 Linguagem	cuidada;
	 		 	 —	 Personagens	de	condição	elevada;
	 		 	 —	 	Figuras	que	desempenham	o	papel	do	coro	
grego	(que	tem	a	função	de	comentar	a	ação):	
Telmo	e	Frei	Jorge.
	 b)	 Marcas do drama romântico
	 		 	 —	 	Texto	em	prosa	(e	não	em	verso,	como	deve-
ria	suceder	na	tragédia	clássica);
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40
Conteúdos literários
	 		 	 —	 		Não	cumprimento	da	lei	das	três	unidades	(ação,	espaço	e	tempo):	na	
tragédia	clássica,	todos	os	acontecimentos	deveriam	convergir	para	o	
desenlace	trágico,	desenrolar-se	no	mesmo	espaço	e	durar	apenas	vinte	
e	quatro	horas.	Em	Frei Luís de Sousa,	não	há,	claramente,	um	cumpri-
mento	da	unidade	de	tempo	(a	ação	desenrola-se	numa	semana).	Quanto	
à	unidade	de	lugar,	embora	toda	a	ação	se	desenrole	em	Almada,	há,	
de	facto,	uma	mudança	de	espaço.	Finalmente,	podemos	considerar	
que	temos	unidade	de	ação.	Apesar	de	alguns	estudiosos	afirmarem	
que	esta	unidade	é	quebrada	pela	introdução	do	incêndio	do	palácio,	
evento	que	consideram	que	introduz	uma	ação	secundária,	a	verdade	é	
que	o	facto	de	D. Manuel	destruir	a	sua	casa	obriga	as	personagens	a	
mudarem-se	para	o	palácio	de	D.	João,	local	aonde	este	regressará;
	 		 	 —	 	O	drama	romântico	dá	conta	frequentemente	de	um	tema	histórico,	que	
trata	com	liberdade	literária;
	 		 	 —	 Presença	de	temáticas	marcadamente	românticas:
i. Liberdade individual	—	é	visível	na	revolta	de	D.	Manuel	de	Sousa	
Coutinho	contra	um	governo	ao	serviço	de	Espanha,	revolta	que	é	
apoiada	por	Maria	e	por	Telmo,	bem	como	no	discurso	final	desta	
última	personagem,	no	qual	a	jovem	se	insurge	contra	as	normas	de	
uma	sociedade	que	lhe	impõe	a	separação	dos	pais;	além	disso,	a	
própria	D.	Madalena	afirma	a	sua	liberdade,	ao	casar-se	com	o	
homem	que	amava	sem	ter	provas	irrefutáveis	de	que	o	seu	anterior	
marido	tinha	morrido;
ii. Patriotismo	—	é	evidente	não	apenas	na	crença	no	comportamento	
de	D.	Manuel	anteriormente	referido,	mas	também	na	esperança	de	
Telmo	e	de	Maria	no	regresso	de	D.	Sebastião,	que	implicaria	a	liber-
tação	de	Portugal	do	jugo	estrangeiro;
iii. Cosmovisão cristã	—	a	religião	tem	um	papel	fundamental	em	Frei
Luís de Sousa:	é	graças	a	ela	que	D.	Manuel	e	D.	Madalena	conse-
guem	libertar-se	da	desonra	que	se	abateu	sobre	eles	com	o	regresso	
de	D.	João	de	Portugal	(o	ingresso	na	vida	monástica	permitir-lhes-á	
expiarem	o	seu	pecado	e	renascerem	para	uma	nova	existência);
iv. Importância do oculto	—	a	valorização	do	inconsciente	e	da	intuição	
característica	do	Romantismo	é	visível	pela	referência	às	premoni-
ções	de	Telmo,	de	D. Madalena	e	de	Maria	(que,	no	caso	desta	
última,	se	associam	à	crença	de	que possui	a	capacidade	de	prever	
o	futuro,	através	de	elementos	como	os	sonhos	ou	as	estrelas);	de	
notar	que,	à	medida	que	a	tensão	dramática	se	adensa,	a	visão	
racional	do	mundo	defendida	por	D.	Manuel	e	por	Frei	Jorge	é	cada	
vez	mais	posta	em	causa	—	até	que,	no	desenlace,	todos	os	pressá-
gios	de	catástrofe	se	cumprem;
v. Primazia dos sentimentos sobre a razão	—	além	de	comprovável	
pelo	destaque	conferido	ao	lado	mais	irracional	do	Homem	(referido	
no	tópico	anterior),	a	valorização	das	emoções	é	também	visível	na	
importância	conferida	ao	amor:	é	ele	que	leva	D.	Madalena	a	casar	
com	o	homem	que	amava	sem	ter	a	certeza	plena	de	que	o	seu	
primeiro	marido	estaria	morto;
vi. Mitificação da figura de Camões	—	no	Romantismo,	o	poeta	é,	
muitas	vezes,	configurado	como	uma	figura	incompreendida	e	des-
prezada	pela	sociedade,	que	não	reconhece	o	seu	génio;	essa	foi	a	
imagem	de	Camões	transmitida	pelos	românticos	portugueses:	a	de	
um	poeta	que	dedicou	a	sua	vida	à	pátria	e	que,	em	troca,	apenas	
foi	alvo	de	ingratidão.
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Esquema de Frei Luís de Sousa - Português 11 ano

  • 1. 30 Conteúdos literários FREI LUÍS DE SOUSA, de ALMEIDA GARRETT A DIMENSÃO PATRIÓTICA E A SUA EXPRESSÃO SIMBÓLICA • O patriotismo é um dos temas de Frei Luís de Sousa. A ação do drama é marcada pela situação do País em fins do século XVI, época em que se encontra sob dominação de Espanha, e pelos sen- timentos de amor nacional que esta realidade polí- tica desperta nas personagens. • A situação política de Portugal tem grande im- portância na ação da peça, tendo em conta que D. Manuel de Sousa Coutinho, Telmo e Maria desejam a independência do Reino e não aceitam a governação espanhola; o protagonista recusa-se mesmo a colaborar com os governadores ao ser- viço do rei estrangeiro e a afronta-os incendiando a sua própria casa. Numa das linhas de ação da peça, a tensão dramática resulta deste conflito. • A própria ideia de Portugal é assumida como tema desta obra de Garrett, que se assume como a tra- gédia coletiva de um povo. Frei Luís de Sousa apresenta uma reflexão sobre a nação portuguesa, uma nação que tinha sido grande mas que, na época histórica da ação do drama, perdera a sobe- rania política e se encontrava em estado de hiber- nação, esperando ressurgir… caso ainda fosse possível. • A peça constrói a ideia de que Portugal deixou de existir durante a Dinastia Filipina e é um mero fantasma (é «Ninguém!») que alguns creem poder res- suscitar (Lourenço, 2013: 86): o Reino perdeu a sua independência e espera recuperá-la com a chegada de D. Sebastião, que, na verdade, morreu na Batalha de Alcácer-Quibir. • A família de D. Manuel de Sousa Coutinho representa simbolicamente a tragé- dia coletiva de Portugal. Os protagonistas, Maria e Telmo, anseiam pela liber- dade e pelo ressurgimento da pátria. O velho aio deseja que o seu antigo amo, D. João de Portugal — que representa simbolicamente D. Sebastião —, esteja vivo e regresse. Porém, hesita quando dá conta de que o seu regresso trará a ruína da família. • Desta forma se inculca que o velho Portugal, que morreu em Alcácer-Quibir — o Portugal de D. Sebastião e de D. João —, já não conseguirá um novo ímpeto e fazer ressurgir a Nação; trata-se apenas de um fantasma sem sentido que está preso na saudade e na ideia de passado. Por outro lado, o novo Portugal, representado por D. Manuel, D. Madalena e Maria, acaba por não ser a solução para o problema da Nação, pois estas personagens morrem (física ou simbolicamente) e com eles morre a esperança de futuro de um novo País. Miguel Lupi, D. João de Portugal, cena de Frei Luís de Sousa (1865). 000998 024-071.indd 30 04/03/16 16:33
  • 2. 31 UNIDADE 2 FREI LUÍS DE SOUSA, de ALMEIDA GARRETT O SEBASTIANISMO: HISTÓRIA E FICÇÃO • Devemos assinalar o patriotismo de Garrett, que exprime nesta peça o seu sentimento nacional, o orgulho por temas pátrios e o seu combate pela liber- dade na período da política autoritária e opressiva do governo de Costa Cabral (1842-46). O olhar crítico sobre uma época do passado (Dinastia Filipina) alude indireta e criticamente às circunstâncias políticas da época da escrita da peça (1843-44). • A ação de Frei Luís de Sousa decorre vinte e um anos após a histórica Batalha de Alcácer-Quibir (1578), em que morreu o rei D. Sebastião e parte da nobreza nacional. A batalha teve consequências diretas na perda da soberania nacional, pois Portugal foi politicamente anexado a Espanha em 1580. • O sebastianismo consiste, inicialmente, na crença de que o jovem rei, que morre em Alcácer-Quibir, regressará não só para recuperar a independência de Portugal como também para dar um novo impulso ao Reino a fim de conse- guir que este saia do estado de ruína e marasmo em que se encontra. Nesta vertente, trata-se de uma crença messiânica pois parte do princípio de que a salvação da pátria e de um povo está nas mãos de uma figura (histórica ou lendária) e que ela fará renascer a Nação a partir das cinzas e a conduzirá num caminho glorioso. • Com o passar dos tempos, o sebastianismo já não se referirá ao regresso físico de D. Sebastião mas sim à chegada de uma personagem que assumisse esta função salvadora ou a uma ideia que desempenhasse esse papel, como sucede com o mito do Quinto Império, de que Vieira e Fernando Pessoa trataram. • Em Frei Luís de Sousa, D. João de Portugal não regressa de Alcácer-Quibir, é feito prisioneiro e só voltará vinte e um anos depois à Pátria, com D. Madalena casada em segundas núpcias, desencadeando assim as consequências trágicas que se conhecem. D. João alude simbolicamente a D.  Sebastião, e o seu regresso serve para especular sobre as consequências do regresso do antigo rei. • Nesta peça de Garrett, o sebastianismo é perspetivado de forma crítica e nega- tiva. Por um lado, porque a saudade deste velho Portugal, que Telmo protago- niza, não traz a solução para o problema da Pátria. Por outro, porque o regresso de D. João (e da ideia de uma nação decadente) impossibilita que se opere a mudança e o surgimento de um novo Portugal (de Madalena, Manuel e Maria) que consiga triunfar. RECORTE DAS PERSONAGENS PRINCIPAIS 1. D. Madalena • D. Madalena vive numa grande instabilidade emocional: o terror que lhe provoca a possibilidade de regresso de D. João nunca a deixa desfrutar da felicidade de viver ao lado do homem que ama. Os seus receios são alimentados pelas contí- nuas alusões de Telmo à iminente vinda daquele que considerava como o verda- deiro amo. A  tensão nervosa em que vive mergulhada é também aumentada pelo pecado que lhe pesa na consciência: o facto de se ter apaixonado por D. Manuel de Sousa Coutinho enquanto ainda era casada com D. João. Muito embora se tenha mantido fiel ao seu marido, considera que o facto de amar secretamente D. Manuel era já uma traição. O sofrimento é ainda intensificado pelo profundo amor que sente pela filha, na medida em que tem consciência de que o regresso de D. João — ou a simples noção da sua existência — a poderiam matar. 000998 024-071.indd 31 04/03/16 16:33
  • 3. 32 Conteúdos literários •    A sua crença no oculto leva-a a entrever  presságios de desgraça em vários aconte- cimentos aparentemente fortuitos. •    Apesar de parecer psicologicamente mais  frágil do que D. Manuel, curiosamente,   é ela quem, no fim, se mostrará mais re-  voltada por ser forçada a  separar-se do  marido e a ingressar no convento.  •    Ao contrário de D. Manuel, mantém até  ao último momento a esperança de evitar  o desenlace trágico. 2. D. Manuel de Sousa Coutinho •  Esta personagem é, tal como D. Madalena, uma figura de grande densidade  psicológica, o que se manifesta nos contrastes que marcam a sua personali- dade. Todo o seu discurso se pauta por uma racionalidade e lucidez que se  traduzem na recusa dos agouros e de qualquer sentimento de culpa em relação  ao passado. Apesar disto, até ele se mostra desagradado quando Maria lhe fala  na possibilidade de regresso de D. Sebastião, o que demonstra que, na reali- dade, não estava absolutamente convicto de que D. João tinha morrido na  Batalha de Alcácer-Quibir. O ceticismo que mostra em relação aos presságios  é também contrariado quando recorda que o pai fora morto pela própria  espada, interrogando-se sobre se também ele não será vítima do fogo que  ateou. •  O heroísmo que demonstra ao atrever-se a enfrentar abertamente os governa- dores portugueses ao serviço de Castela parece esbater-se aquando do regresso  de D. João: ao contrário de D. Madalena, o seu sofrimento não o impede de  aceitar com resignação a solução de ingressar numa ordem religiosa. •  Finalmente, a cultura revelada por D. Manuel e o seu amor às letras funcionam  como prenúncios de que se irá converter num dos maiores prosadores da lite- ratura portuguesa. 3. Maria •  Maria é uma menina muito inteligente e precoce para a sua idade. •  Tendo sido criada por Telmo, tem-lhe um amor profundo, partilhando da sua  crença no regresso de D. Sebastião.  •  Maria acredita ter a capacidade de desvendar o oculto, traço que, supostamente,  é agudizado pelo aumento da sensibilidade que o facto de estar tuberculosa lhe  proporciona. A sua intuição apurada leva-a a compreender que há algo que toda  a família lhe quer ocultar, no intuito de a proteger.  •  A coragem que demonstra quando incita o pai a queimar o palácio  manifesta-se  também no fim, quando enfrenta as convenções sociais e as próprias conven- ções religiosas, afirmando que nada justifica a destruição de uma família. •  Apesar da sua força interior, a sua fragilidade física não lhe permite sobreviver   ao desgosto de descobrir que é filha ilegítima, acabando por morrer de vergonha. 000998 024-071.indd 32 07/03/16 17:31
  • 4. 33 UNIDADE 2 FREI LUÍS DE SOUSA, de ALMEIDA GARRETT 4. Telmo • O escudeiro destaca-se, numa fase inicial, pela sua severidade, que o leva a criticar D. Madalena por se ter casado segunda vez sem estar certa da morte do primeiro marido e mesmo a sugerir que, em consequência disto, Maria poderia não ser uma filha legítima. • No entanto, a inflexibilidade que revela (e que se manifesta, por exemplo, no facto de nunca mentir) virá a ser quebrada aquando da chegada do Romeiro. Confrontado com a necessidade de salvar Maria, apercebe-se de que já a amava mais do que ao primeiro amo. Assim, dispõe-se, pela primeira vez na vida, a mentir, em nome dos afetos. É interessante verificar que, desta forma, se humaniza, aproximando-se de D. Madalena, a quem tanto criticara anterior- mente, na medida em que se apercebe de que o amor por vezes se sobrepõe aos princípios morais. 5. Frei Jorge • Tal como o irmão, Frei Jorge caracteriza-se pela sensatez, procurando sempre auxiliar a família. • A personagem tem um papel determinante na resolução do conflito entre D. Manuel e os governadores ao serviço de Castela. • No Ato Terceiro, quando D. Manuel se verga ao peso da desgraça, é Frei Jorge quem toma todas as providências para que o irmão e D. Madalena ingressem no convento — procurando, simultaneamente, amparar a família e funcionar como intermediário entre as personagens. • Apesar de se comover com o sofrimento a que assiste, Frei Jorge mostra-se inflexível na obediência aos seus princípios, recusando qualquer solução que passasse pela mentira, mesmo que esta lhe permitisse impedir a catástrofe. Com efeito, considera que a entrada na vida religiosa proporcionará a D. Manuel e a D. Madalena o consolo e a redenção de que necessitavam. 6. D. João de Portugal • Este fidalgo, apesar de ser considerado pelas outras personagens como uma figura digna de temor pela dignidade e rigidez na fidelidade aos seus princípios, acaba por revelar-se muito humano. Confrontado com o facto de que D. Madalena tinha feito todos os esforços para o procurar e de que ela tinha uma filha, mostra-se disposto a anular a sua própria existência para salvar toda a família da catástrofe. O ESPAÇO E O TEMPO 1. O espaço • Podemos distinguir dois tipos de espaço num texto dramático: o espaço cénico, formado pelo palco e pelo cenário, e o espaço representado, o lugar a que o espaço cénico pretende aludir («faz de conta» que estamos num palácio, no campo, etc.). A informação sobre o espaço é dada ao leitor atra- vés das didascálias, sobretudo as que se encontram em início de ato, mas também através das falas das personagens. 000998 024-071.indd 33 04/03/16 16:33
  • 5. 34 Conteúdos literários • A ação de Frei Luís de Sousa desenrola-se em dois palácios de Almada. As salas dos palácios onde os acontecimentos têm lugar constituem o espaço represen- tado. As personagens fazem também referência a outros locais com importância para o enredo: este é o espaço aludido, mencionado por palavras. Esses lugares são, sobretudo, Alcácer-Quibir e a Palestina, onde D. João estivera aprisionado. • Em termos de macroespaços, toda a ação de Frei Luís de Sousa decorre em Almada. A cidade reveste-se de um forte valor simbólico pela oposição que estabelece com Lisboa: na capital está instalada a sede do governo de Portugal, que é controlado pela coroa espanhola. A classe dominante e os governadores portugueses traíram a sua pátria e colaboram com a potência invasora. Daí que a peste que se abateu sobre Lisboa sugira simbolicamente o estado de corrup- ção moral e política em que vivem aqueles que se venderam ao rei de Espanha. Por seu turno, do outro lado do Tejo, longe da corrupção moral, Almada respira ares «saudáveis». Aí se encontram as personagens patrióticas, fiéis a Portugal: destacam-se D. Manuel, Maria, Telmo e D. João. • O Ato Primeiro decorre no palácio de D. Manuel, numa sala ornamentada e luxuosa, sugerindo que este lugar é habitado por personagens nobres. Se uma casa simboliza a estabilidade de uma família, este palácio transmite a ideia de conforto, bem-estar e a união e o amor familiares. Por esse motivo, o incêndio que destrói o solar revela-se um presságio da desagregação do núcleo familiar, consumada pela catástrofe que se abaterá sobre os seus membros. • Perdido o palácio de D. Manuel, a família muda-se para a antiga casa de D. João de Portugal (e de D. Madalena). O Ato Segundo decorrerá numa sala austera e fria, pouco ornamentada e de «gosto melancólico e pesado». Os retra- tos de D. Sebastião, D. João e Camões conferem solenidade à cena e são uma recordação do velho Portugal independente e grandioso que pereceu em Alcácer-Quibir. Esta sala é uma divisão interior, sem janelas ( simbolizando a prisão e o afastamento do mundo), inóspita, pautada pela gravidade e ilumi- nada por tochas e não pelo Sol. As personagens perderam a noção de lar. D. Madalena vive em estado de receio e tensão. • A ação do Ato Terceiro decorre na parte baixa do palácio de D. João. O espaço subterrâneo é ainda mais fechado, mais escuro, quase não tem ornamentos: trata-se de um lugar propício a sensação de claustrofobia — há mesmo portas que separam as personagens e que lhes impedem a livre circulação. A sala subterrânea tem ligação à «capela da Nossa Senhora da Piedade», represen- tando que o casal optou pela vida religiosa e a família está condenada à desa- gregação. No fim do ato, surge, ao fundo, o interior da Igreja de São Paulo. • Podemos, assim, interpretar a sucessão de espaços como um percurso grada- tivo do mundo terreno para o sagrado e espiritual. É este o caminho que a família vai percorrer: D. Madalena e D. Manuel, porque ingressarão na vida monástica; Maria, porque morrerá e irá para o «Céu». • Assistimos também a um progressivo afunilamento do espaço: de uma sala com grandes janelas e onde a luz natural penetra, no Ato Primeiro, passando por uma sala fechada (Ato Segundo) até chegarmos a um espaço subterrâneo e em que as personagens parecem já enclausuradas (Ato Terceiro). Por um lado, este fecha- mento do espaço contribui para o aumento da tensão em cena; por outro, esse trajeto ilustra a progressiva limitação de soluções para o problema com que a família de D. Manuel depara. • O espaço psicológico — domínio das vivências mentais de uma personagem: pensamentos, sonhos, sentimentos dessas — tem, no texto dramático, o monó- logo e o solilóquio como modos privilegiados de expressão (mas não os únicos). 000998 024-071.indd 34 04/03/16 16:33
  • 6. 35 UNIDADE 2 FREI LUÍS DE SOUSA, de ALMEIDA GARRETT • O solilóquio inicial de D. Madalena dá voz às inquietações da personagem, ainda que de forma enigmática. Na penúltima cena do Ato Primeiro, é D. Manuel que, só em palco, justifica o gesto de atear fogo à sua própria casa. Na Cena IX do Ato Segundo, desempenhando funções semelhantes às do coro da tragédia grega, Frei Jorge, só em palco, dá conta da preocupação que sente com a situa- ção em que aquela família se encontra. Por fim, no importante solilóquio da Cena IV do ato final, Telmo manifesta o conflito interior entre a fidelidade ao seu antigo amo e um grande amor a Maria. 2. O tempo • A peça inicia-se com a apresentação dos antecedentes da ação, que abarcam um longo período temporal. Há referências à Batalha de Alcácer- Quibir, que tivera lugar vinte e um anos antes, e a momentos ainda anteriores. Depois da batalha, e durante sete anos, D. Madalena promoveu buscas para saber se D. João ainda está vivo. No fim deste período, e como a procura se revelou infrutífera, acabou por casar-se com D. Manuel. • Em contrapartida, a ação da peça desenrola-se num breve período de tempo, sensivelmente uma semana. O segundo ato decorre no dia do aniversário da Batalha de Alcácer-Quibir. Tendo em conta que esta batalha teve lugar no dia 4 de agosto de 1578, e que D. Madalena afirmara que já haviam passado vinte e um anos desde a batalha, é possível localizar a ação deste ato no dia 4 de agosto de 1599. Uma vez que estes acontecimentos se desenrolam oito dias depois dos do primeiro ato, podemos concluir que o primeiro ato decorre no dia 28 de julho de 1599. Quanto ao terceiro ato, passa-se durante a noite do dia 4 de agosto. • Constatamos que há uma progressiva concentração temporal: da evocação dos episódios de um longo período de vinte e um anos (Ato Primeiro), passamos a acontecimentos que se desenrolam em dois dias, separados entre si no período de uma semana. Nos Atos Segundo e Terceiro, a velocidade dos acontecimen- tos precipita-se: tudo sucede no dia do aniversário da Batalha de Alcácer- - Quibir, prolongando-se depois pela noite e pela madrugada, que anuncia já o dia seguinte. • Este afunilamento progressivo do tempo contribui para intensificar a tensão dramática, na medida em que todos os acontecimentos se sucedem de forma cada vez mais rápida, até ao desenlace trágico. A DIMENSÃO TRÁGICA • No que diz respeito à intriga trágica, é interessante verificar que há uma con- centração de personagens, de espaço e de tempo, como vimos, de modo que nada seja supérfluo e que tudo contribua para a intensificação da tensão dra- mática. • De notar que, de acordo com os factos históricos, D. Madalena tivera três filhos do primeiro casamento, que são aqui eliminados, para que a aniquilação de Maria represente, de facto, o extermínio completo da família. • Da mesma forma, todo o desenrolar da ação converge para o desenlace trá- gico. Mesmo o momento em que D. Manuel parece revoltar-se contra o destino, incendiando o seu palácio, acaba por servir a fatalidade que se abate sobre as personagens, na medida em que as obriga a família a mudar-se para o palácio de D. João, local aonde este regressará. 000998 024-071.indd 35 04/03/16 16:33
  • 7. 36 Conteúdos literários 1. Presença dos elementos da tragédia clássica Elementos da tragédia clássica Presença em Frei Luís de Sousa • Hybris — consiste num desafio feito pelas personagens à ordem instituída (leis humanas ou divinas). • A hybris é perpetrada tanto por D. Madalena como por D. Manuel de Sousa Coutinho. Com efeito, no primeiro caso, o desafio consistiu no facto de a personagem se ter apaixonado por D. Manuel de Sousa Coutinho quando ainda era casada com D. João de Portugal. Além disso, ambas as personagens põem em causa a ordem instituída ao casarem sem terem provas irrefutáveis da morte de D. João de Portugal. • Peripécia — de acordo com a Poética, de Aristóteles (2000 [c. 300 a. C.]), é «a mutação dos sucessos no contrário», isto é, o momento em que se verifica uma inflexão abrupta dos acontecimentos. • Anagnórise — palavra que significa «reconhecimento»; segundo a Poética, de Aristóteles, «é a passagem do ignorar ao conhecer», podendo consistir na revelação de acontecimentos desconhecidos ou na identificação de determinada personagem. • Na Poética, Aristóteles afirma que «[a] mais bela de todas as formas [de anagnórise] é a que se dá juntamente com a peripécia, […] porque suscitará terror e piedade […].» • A peripécia e a anagnórise ocorrem em simultâneo: com a chegada do Romeiro e o reconhecimento da sua identidade (anagnórise), dá-se uma inversão brusca nos acontecimentos (peripécia) — o casamento torna-se inválido e Maria torna-se filha ilegítima. • Clímax — momento culminante da ação. • O clímax ocorre na cena final do Ato Segundo, pois é neste momento que a tensão dramática atinge o seu auge: D. João de Portugal dá a conhecer de forma inequívoca a sua identidade, demonstrando, ao mesmo tempo, de forma paradoxal, que o esquecimento a que foi votado anulou a sua existência. • Catástrofe — desenlace trágico. • A família é totalmente exterminada: D. Madalena e D. Manuel morrem para o mundo, ingressando na vida religiosa, e Maria morre, de facto. • Ágon — conflito vivido pelas personagens; pode designar o conflito com outras personagens ou o conflito interior. • As atitudes de D. Madalena ao longo da intriga são um reflexo do conflito interior que a atormenta: desde o primeiro momento que mostra sentir-se grata por viver com o homem que ama, tendo, no entanto, consciência de que a sua felicidade é frágil, dado que a construiu com base na suposição da morte do marido. • Por seu lado, também Telmo é vítima de um conflito interior: depois de ter passado vinte e um anos a desejar o regresso do antigo amo, apercebe-se de que, na verdade, o seu amor por Maria acabou por superar o que nutria por D. João de Portugal, mostrando-se disposto a abdicar dos seus princípios éticos para a salvar. (continua) 000998 024-071.indd 36 04/03/16 16:33
  • 8. 37 UNIDADE 2 FREI LUÍS DE SOUSA, de ALMEIDA GARRETT LINGUAGEM, ESTILO E ESTRUTURA 1. Estrutura 1.1 Estrutura externa • A estrutura externa de uma obra diz respeito à organização «visível» do texto literário (e traduz-se na forma como essa organização se apresenta grafica- mente). Frei Luís de Sousa é uma obra dramática, ou seja, um texto preparado para a representação teatral. • Como a esmagadora maioria das obras do modo dramático, a peça de Garrett é composta por um texto principal, que consiste nas falas das personagens, e por um texto secundário, que é constituído pelas didascálias, ou seja, pelas indicações cénicas sobre a ornamentação do palco, os adereços, a luz, a movi- mentação e os gestos das personagens, etc. • Enquanto drama romântico, Frei Luís de Sousa é um texto em prosa estruturado em três atos: a mudança de atos corresponde à mudança do local da ação. (Note-se que as tragédias clássicas eram compostas em verso e dividiam-se, por regra, em cinco atos.) Por sua vez, cada ato organiza-se em várias cenas, que terminam com a entrada ou saída de personagens do palco. (continuação) Elementos da tragédia clássica Presença em Frei Luís de Sousa • Pathos — sofrimento crescente das personagens. • O sofrimento das personagens vai-se intensificando, a ponto de o próprio Frei Jorge se sentir inclinado a acreditar na possibilidade de uma catástrofe iminente. • Ananké — é o destino; preside à existência das personagens e é implacável. • A presença do destino é visível pelo facto de todos os acontecimentos convergirem para o desenlace trágico e de haver um afunilamento do espaço e do tempo, que mostra que as personagens são inexoravelmente conduzidas para a catástrofe. • Catarse — efeito purificador que a tragédia deve ter nos espectadores: ao desencadear o terror e a piedade, permitir-lhes-ia purificarem as suas emoções. • O terror e a piedade desencadeados nos espectadores são adensados pelo facto de a catástrofe se abater sobre uma família (na qual se inclui Telmo) que se ama profundamente e de todas as personagens serem profundamente retas e dignas. 000998 024-071.indd 37 07/03/16 17:32
  • 9. 38 Conteúdos literários 1.2 Estrutura interna • A estrutura interna de uma obra dramática refere-se à organização do enredo. Tradicionalmente, divide-se a ação dramática em três momentos: exposição inicial da situação, conflito e desenlace. • Na exposição inicial de Frei Luís de Sousa, que ocupa, sensivelmente, as Cenas I a IV do Ato Primeiro, são-nos apresentados a época e o contexto em que o enredo se desenrola, as personagens centrais do drama (D. Manuel é apenas referido) e os antecedentes da ação (o passado das personagens). • O conflito vai-se adensando ao longo do texto (entre a Cena V do Ato Primeiro e a Cena IX do Ato Terceiro). As questões que animam este conflito são, essen- cialmente, os receios de D. Madalena, o antagonismo entre D. Manuel e os governadores do Reino e a doença de Maria. Um primeiro momento de grande intensidade ocorre quando o Romeiro afirma que D. João de Portugal (ele pró- prio) está vivo, no fim do Ato Segundo. • O desenlace (Cenas X e XII do Ato Terceiro) dá conta da resolução do problema central da obra e do «caminho» que cada personagem toma: Maria morre, D. Madalena e D. Manuel ingressam na vida religiosa. Note-se que este desenlace tem na morte de Maria o segundo momento de grande intensidade da peça. • A estrutura interna de Frei Luís de Sousa é pautada pelos elementos trágicos da ação (cf. páginas 35-37 deste livro). 2. Linguagem e estilo • Ao contrário da tragédia clássica, por regra escrita em verso, Frei Luís de Sousa foi composto em prosa. Desta forma, os diálogos ganham um sabor de colo- quialidade e fluidez que dificilmente teriam com o verso. • Por outro lado, seguindo as regras da tragédia clássica, a linguagem das perso- nagens centrais adequa-se ao estatuto social da nobreza: assim domina o nível de linguagem elevado e, frequentemente, encontramos um léxico rico e até erudito («ignomínia», «opróbrio», «pejo», etc.). • As falas das personagens de Frei Luís de Sousa são marcadas por uma grande emotividade, fruto do seu estado de espírito quando confrontadas com os acontecimentos intensos ou com os seus receios. No texto abundam marcas linguísticas que traduzem os sentimentos das personagens: as interjeições (e as locuções interjetivas), as frases exclamativas e os atos ilocutórios expres- sivos. Os melhores exemplos estão nas falas de D. Madalena e revelam a influência dos melodramas românticos com uma linguagem demasiado retórica e emotiva. • Associados aos sentimentos e ao estado de espírito das personagens estão as frases suspensas (ou seja, interrompidas), que pontuam as falas de diferentes personagens, exprimem as suas inquietações, perplexidades e hesitações. Por vezes, deixam no ar alguns subentendidos cujo significado é partilhado pelas personagens (ver o diálogo da Cena II do Ato Primeiro). Telmo e D. Madalena deixam por terminar as frases por não quererem mencionar o que receiam (o regresso de D. João, a desonra ou a doença de Maria) ou por hesitarem em verbalizar certos factos (a possibilidade de D. João não ter morrido). 000998 024-071.indd 38 04/03/16 16:33
  • 10. 39 UNIDADE 2 FREI LUÍS DE SOUSA, de ALMEIDA GARRETT • As frases interrogativas, frequentes nas falas mais tensas, dão igualmente conta dos anseios e do desassossego das personagens, mas também da sua desorientação ou da incerteza em relação ao futuro. Por outro lado, a frase curta (por vezes constituída por uma única palavra: «Ninguém!») confere um tom incisivo aos diálogos e contribui para fazer crescer a tensão dramática. • Por fim, ainda a nível do vocabulário, encontramos certas personagens associa- das a determinados campos lexicais. Frei Jorge e os outros prelados glosam o campo lexical da religião; Telmo, o aio, recorre a termos associados às ideias de honra e servidão («senhor», «amo», «servidor»). As repetições de palavras são utilizadas para exprimir a ansiedade ou a inquietação, mas frequentemente também o afeto entre os membros da família. 3. O drama romântico: características 3.1 O género de Frei Luís de Sousa • Como introdução a Frei Luís de Sousa, Garrett apresenta uma «Memória ao Conservatório Real», texto ensaístico no qual reflete sobre questões centrais da sua obra dramática — sobretudo sobre o seu género, as suas fontes e o que o levou a escrevê-la. • Relativamente ao género da obra, há que sublinhar o facto de Frei Luís de Sousa ter sido escrito em pleno Romantismo, um período literário cuja estética dominante rompia com os princípios da arte do período anterior — o Neo- classicismo. Coloca-se então a questão: este texto é uma tragédia clássica, de matriz greco-latina, ou um drama romântico, género literário que nasce no Romantismo e que representa o espírito da época? Garrett defenderá que Frei Luís de Sousa é um drama romântico que incorpora, a nível formal, características da tragédia (hibridismo de género). a) Marcas da tragédia clássica — Assunto digno de uma tragédia clássica, pela beleza, pela simplicidade e pelo sublime (segundo Almeida Garrett, na «Memória ao Conservatório Real»); — Presença dos elementos da tragédia clássica (cf. páginas 36-37 deste livro); — Ambiente carregado de presságios e sinais; — Tom grave e estilo elevado; — Linguagem cuidada; — Personagens de condição elevada; — Figuras que desempenham o papel do coro grego (que tem a função de comentar a ação): Telmo e Frei Jorge. b) Marcas do drama romântico — Texto em prosa (e não em verso, como deve- ria suceder na tragédia clássica); 000998 024-071.indd 39 07/03/16 17:33
  • 11. 40 Conteúdos literários — Não cumprimento da lei das três unidades (ação, espaço e tempo): na tragédia clássica, todos os acontecimentos deveriam convergir para o desenlace trágico, desenrolar-se no mesmo espaço e durar apenas vinte e quatro horas. Em Frei Luís de Sousa, não há, claramente, um cumpri- mento da unidade de tempo (a ação desenrola-se numa semana). Quanto à unidade de lugar, embora toda a ação se desenrole em Almada, há, de facto, uma mudança de espaço. Finalmente, podemos considerar que temos unidade de ação. Apesar de alguns estudiosos afirmarem que esta unidade é quebrada pela introdução do incêndio do palácio, evento que consideram que introduz uma ação secundária, a verdade é que o facto de D. Manuel destruir a sua casa obriga as personagens a mudarem-se para o palácio de D. João, local aonde este regressará; — O drama romântico dá conta frequentemente de um tema histórico, que trata com liberdade literária; — Presença de temáticas marcadamente românticas: i. Liberdade individual — é visível na revolta de D. Manuel de Sousa Coutinho contra um governo ao serviço de Espanha, revolta que é apoiada por Maria e por Telmo, bem como no discurso final desta última personagem, no qual a jovem se insurge contra as normas de uma sociedade que lhe impõe a separação dos pais; além disso, a própria D. Madalena afirma a sua liberdade, ao casar-se com o homem que amava sem ter provas irrefutáveis de que o seu anterior marido tinha morrido; ii. Patriotismo — é evidente não apenas na crença no comportamento de D. Manuel anteriormente referido, mas também na esperança de Telmo e de Maria no regresso de D. Sebastião, que implicaria a liber- tação de Portugal do jugo estrangeiro; iii. Cosmovisão cristã — a religião tem um papel fundamental em Frei Luís de Sousa: é graças a ela que D. Manuel e D. Madalena conse- guem libertar-se da desonra que se abateu sobre eles com o regresso de D. João de Portugal (o ingresso na vida monástica permitir-lhes-á expiarem o seu pecado e renascerem para uma nova existência); iv. Importância do oculto — a valorização do inconsciente e da intuição característica do Romantismo é visível pela referência às premoni- ções de Telmo, de D. Madalena e de Maria (que, no caso desta última, se associam à crença de que possui a capacidade de prever o futuro, através de elementos como os sonhos ou as estrelas); de notar que, à medida que a tensão dramática se adensa, a visão racional do mundo defendida por D. Manuel e por Frei Jorge é cada vez mais posta em causa — até que, no desenlace, todos os pressá- gios de catástrofe se cumprem; v. Primazia dos sentimentos sobre a razão — além de comprovável pelo destaque conferido ao lado mais irracional do Homem (referido no tópico anterior), a valorização das emoções é também visível na importância conferida ao amor: é ele que leva D. Madalena a casar com o homem que amava sem ter a certeza plena de que o seu primeiro marido estaria morto; vi. Mitificação da figura de Camões — no Romantismo, o poeta é, muitas vezes, configurado como uma figura incompreendida e des- prezada pela sociedade, que não reconhece o seu génio; essa foi a imagem de Camões transmitida pelos românticos portugueses: a de um poeta que dedicou a sua vida à pátria e que, em troca, apenas foi alvo de ingratidão. 000998 024-071.indd 40 04/03/16 16:33