SlideShare uma empresa Scribd logo
1 de 7
Baixar para ler offline
Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99 11
Educação indígena na escola*
Bartomeu Melià**
RESUMO: Os povos indígenas mantêm sua alteridade graças a estra-
tégias próprias de vivência sociocultural, sendo a ação pedagógica uma
delas. A educação desenvolvida pelos povos indígenas lhes permite
que continuem sendo eles mesmos e mantenham a transmissão de
suas culturas por gerações. Neste trabalho mantém-se o pressupos-
to de que não há um problema da educação indígena, pelo contrário,
o que existe é uma solução indígena ao problema da educação.
Palavras-chaves: educação escolar indígena, alteridade, ação pedagó-
gica, educação diferenciada, alfabetização.
No processo de educação escolar dos indígenas a perda da alteri-
dade e a dissolução das diferenças são sentidas como ameaças reais,
prementes e iniludíveis. Essa perda e essa dissolução, para alguns, rela-
cionam-se até de forma direta e quase exclusiva com a escola. A escola
seria um dos fatores decisivos de generalização e uniformidade.
Partir da educação indígena?
Um primeiro contraste impõe-se a partir de um fato histórico. Ain-
da subsiste uma variedade de povos indígenas com suas línguas e cul-
turas; às vezes, sem suas línguas, mas sim com suas culturas. Esses po-
* Conferência ministrada no I Congresso Internacional de Educação Indígena. Dourados (MT),
23-27/3/1998. Uma versão anterior, “Ação pedagógica e alteridade: Por uma pedagogia da
diferença”, foi apresentada na Conferência Ameríndia de Educação. Cuiabá, 17-21/11/1997.
** Doutor em Ciências Religiosas (Universidade de Estrasburgo), professor na Universidade
Católica de Assunção. Diretor do Centro de Estudios Paraguayos “Antonio Guasch”. As-
sunção, Paraguai. Endereço para correspondência: Calle Guarani 2256 c/ Pizarro
12 Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99
vos não só superaram a prova do período colonial, mas também os em-
bates da assimilação e da integração de tempos mais recentes.
Como o conseguiram? E até que ponto mantiveram sua alteridade
e sua identidade?
Os povos indígenas sustentaram sua alteridade graças a estratégias
próprias, das quais uma foi precisamente a ação pedagógica. Em outros ter-
mos, continua havendo nesses povos uma educação indígena que permite
que o modo de ser e a cultura venham a se reproduzir nas novas gerações,
mas também que essas sociedades encarem com relativo sucesso situações
novas. A minha experiência com um povo como os ená-wenê-nawê,
1
então
recentemente contatado, mostra que esses índios nunca se mostraram “per-
didos” perante situações novas, para eles inteiramente inéditas.
O sociólogo Florestan Fernandes (1989) dizia que a educação
tupinambá se caracterizava por ser tradicional, sagrada e fechada. Outros
tipos de educação têm sido caracterizados de outra maneira. Eu me per-
mito, ainda, recomendar aquele livro feito em mutirão, na aldeia dos
rikbátsa, intitulado Educação indígena e alfabetização (Melià 1979), no
qual se encontram reproduzidas várias definições de educação indígena.
Pode-se dizer que essa educação indígena leva em conta a alteri-
dade? Existe uma caricatura do homem e da mulher indígenas que vem dos
tempos coloniais e que diz “visto um índio, vistos todos”. Vocês, melhor do
que eu, sabem que essa generalização é inteiramente gratuita e falsa. Para
um observador não-indígena, para um bom antropólogo, por exemplo, a
imagem do índio que fica é bem a contrária: que o indígena faz o que bem
quer, com liberdade às vezes quase raiando em anarquia, pois cada índio
é ele mesmo. A alteridade, afinal, é a liberdade de ser ele próprio. A peda-
gogia, parafraseando o músico Yehudi Menuhi, quando recebia o prêmio
Príncipe de Astúrias, é educar para a liberdade e ela se dá “quando con-
cedemos aos outros a liberdade de serem eles mesmos, de dar e ajudar”.
2
Haveria que ver qual é a alteridade que cada povo indígena pro-
jeta e deseja para si mesmo. Essa alteridade confunde-se com a consti-
tuição da pessoa, com a sua construção e o seu ideal. Os ideais da pes-
soa, os patterns – prescindindo de qualquer tendência funcionalista – não
se fixam em estereótipos nem fotocópias. A educação sempre cria algo
novo, aquilo que a realidade biológica nunca pode dar.
No mundo guarani, por exemplo, a pessoa é uma “palavra” úni-
ca e irredutível, cuja história será uma espécie de hino de palavras
Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99 13
boas e belas, uma história de palavras inspiradas, que não podem ser
aprendidas nem memorizadas e, portanto, também não podem ser, a
dizer a verdade, ensinadas. Cada um é a sua palavra recebida e dita
com propriedade, e essa palavra é criada ao mesmo tempo em que é
dita, como uma energia que se desabrocha em flor. Essas são as me-
táforas com as quais os guaranis se pensam e se dizem. Outros povos
terão outras expressões e outras metáforas semelhantes para explicar
o que é a sua educação. De fato, o objetivo que guia a ação pedagó-
gica é esta questão fundamental: o que é um bom guarani, o que é um
bom xavante, um bom bororo, um rikbáktsa é o objetivo que guia a ação
pedagógica.
A ação pedagógica tradicional integra sobretudo três círculos rela-
cionados entre si: a língua, a economia e o parentesco. São os círculos de
toda cultura integrada. De todos eles, porém, a língua é o mais amplo e
complexo. O modo como se vive esse sistema de relações caracteriza
cada um dos povos indígenas. O modo como se transmite para seus mem-
bros, especialmente para os mais jovens, isso é a ação pedagógica.
Não podemos nos deter neste momento em percorrer todo o ca-
minho do ciclo de vida de um indígena, em que os momentos críticos –
como a recepção do nome, a “iniciação”, o nascimento do primeiro filho,
a morte de um parente ou de um membro da comunidade – são instan-
tes fortemente marcados por ações pedagógicas nas quais intervém
quase toda a comunidade.
Até que ponto a escola poderá e deverá remedar a ação pedagó-
gica tradicional é uma das questões mais pertinentes e sobre a qual há
muita divergência de opiniões.
Refazer o caminho?
Se a ação pedagógica tem recriado continuamente a alteridade e
a diferença desses povos indígenas, o que ocorre no período atual para
que essa mesma alteridade e diferença estejam em tanto perigo, quan-
do não já eliminadas?
Aí é onde entra uma espécie de triste história de Erêndira, leia-se
nesta Erêndira o nome de cada um dos povos indígenas da América e
o Estado cruel e sem consideração.
14 Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99
Os ataques à alteridade e à diferença deram-se de forma múltipla,
mas talvez possamos resumi-los em: imposição de uma língua geral ou
nacional, currículo também nacional e professores para os povos indíge-
nas. Esses foram também basicamente os programas e projetos das an-
tigas missões.
A resposta contra essa modalidade educativa se fez mediante uma
luta que muitas vezes acabou em conquista. As conquistas estiveram dupli-
cando, por contraste, o que tinham sido as grandes derrotas: livros e
cartilhas em língua indígena, prévia conquista da escrita de cada uma des-
sas línguas, currículo adaptado à realidade indígena, principalmente no que
tange aos saberes tradicionais, preparação, incorporação e contratação de
professores indígenas por parte do Estado e das instituições. São esses pas-
sos suficientes para remontar a corrente da perda da alteridade e recupe-
rar as diferenças? Hoje sabemos perfeitamente que não!
A língua com palavras indígenas pode não ser indígena; a adap-
tação de currículos e conteúdos pode ficar reduzida ao campo do folcló-
rico e do óbvio; os professores podem ser cooptados pelo Estado e pe-
las instituições, com efeitos mais destrutivos, precisamente porque pare-
ce que já foram satisfeitas as demandas e as exigências dos indígenas.
Outra maneira de esvaziar a ação pedagógica para a alteridade
pode ser também uma atenção tão meticulosa a certas características
próprias e dialetais desse ou daquele grupo dentro de uma etnia ou na-
ção indígena, que a ação pedagógica fica completamente fragmentada
e atomizada num sem-número de casos particulares, cujo desfecho é
que cada um faça o que pode e o que quer.
Entro nessa espécie de casuística porque, sob a escusa de ver a
realidade, levanta-se uma série de registros inacabáveis de casos, mui-
to ricos, por certo, mas onde a árvore impede de ver o mato.
Na comunidade ou da comunidade?
Quero aqui chamar a atenção para uma situação que vem ocorren-
do com relativa freqüência. Há professores indígenas provenientes de
setores mais jovens que, por diversas circunstâncias, não tiveram uma
educação tradicional, às vezes foram educados num ambiente de pre-
conceitos e até de hostilidade contra os próprios costumes tradicionais.
Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99 15
Se eles ainda sabem a língua, já perderam, em muitos casos, o sentido
das palavras e expressões da língua mais arcaica, principalmente no
que se refere à religião ou ao sistema de parentesco. Por motivos que têm
uma profunda explicação cultural e política, a própria comunidade indí-
gena nomeia como professores a seus filhos menos identificados com o
modo de ser tradicional, mas que parecem estar integrados no sistema
nacional. Por isso, as missões religiosas ainda têm um peso considerá-
vel, pois realizaram a capacitação dos professores em regimes de inter-
natos que nada tinham a ver com a cultura e os modos de ser indígenas.
Mas também se dá o fenômeno contrário: por vezes, são os pro-
fessores indígenas aqueles que viveram com consciência crítica e pro-
fética os problemas de uma comunidade ou de seu povo, de tal modo
que a escola tem sido o lugar em que se originaram movimentos de re-
sistência e de reivindicação de direitos sobre a terra, contra a discrimi-
nação e a falta de respeito. Professores e alunos hoje sabem se situar
de forma diferente diante do Estado e da sociedade envolvente, graças
aos conhecimentos vindos da escola.
Uma alteridade moderna
Considero mais importante, quando se trata de ver qual é a ação
pedagógica para a alteridade, tomar consciência de que essa alteridade
é concebida de modo muito diferente nas chamadas sociedades moder-
nas ocidentais e nas sociedades indígenas. A alteridade é sempre, afi-
nal, uma filosofia de vida, e não pode ser tratada à margem do que cha-
mamos a construção da pessoa. A educação na sociedade nacional, em
muitos de nossos países, ainda está marcada pela capacitação individual
tendo em vista a competição individual para produzir e possuir mais.
Para isso, a acumulação de conhecimentos e habilidades é o principal
objetivo. É isso que também a educação indígena deve receber por parte
de seus promotores e de seus professores?
A construção da alteridade não só tem objetivos específicos numa
ou noutra sociedade, mas também métodos próprios. Já os assinalei a
propósito do ciclo de vida. Entre os métodos indígenas, um dos principais
é a participação da comunidade na ação pedagógica. É precisamente a
participação da comunidade que assegura uma alteridade bem entendi-
da. Quando a educação se desenvolve como um simples contrato de um
16 Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99
professor a serviço de uma família, cujo interesse principal é a educa-
ção de seu filho ou de sua filha, é difícil que surja o interesse por uma
alteridade a serviço da comunidade.
Se a alteridade é apenas vivida na comunidade, já que os indiví-
duos estão mais orientados ao proveito próprio, a ação pedagógica terá
que estar muito atenta para ver se a sociedade e a comunidade indíge-
na não estão trocando de sentido mediante a prática escolar.
Os famosos internatos de outros tempos preparavam o indivíduo
mais para si do que para a comunidade, acarretando a saída dos jovens
da comunidade. Ainda hoje, a escola é, em muitos casos, a ponte e a
estrada que levam para o individualismo. E aí acabam tanto a alteridade
quanto a diferença. Um índio ou uma índia individuais tornam-se um ín-
dio ou uma índia, algo genérico, sem passado, presente, nem futuro.
A solução indígena
A comunidade indígena, tanto como povo quanto como aldeia, tem
uma racionalidade operante que temos que saber descobrir para que as
novas ações pedagógicas possam praticá-la.
É precisamente essa racionalidade o que mais foi negado aos po-
vos indígenas. Contudo, nela está a contribuição mais significativa e ne-
cessária. A ação pedagógica para a alteridade não é uma descoberta
feita pela sociedade ocidental e nacional para oferecer aos povos indí-
genas, muito pelo contrário: é o que os povos indígenas podem ainda
oferecer à sociedade nacional. Assim, não há um problema de educação
indígena, há sim uma solução indígena ao problema da educação.
Por diversos motivos a educação indígena teve momentos de ex-
cessivo acanhamento, quase sem coragem para reclamar sua autonomia
e seus direitos. A educação indígena não é a mão estendida à espera de
uma esmola. É a mão cheia que oferece às nossas sociedades uma
alteridade e uma diferença, que nós já perdemos. O ava haicha é uma
fonte de inspiração, não uma simples condescendência para povos
minoritários.
A alteridade indígena como fruto da ação pedagógica não só man-
terá sua diferença, mas também poderá contribuir para que haja um mun-
do mais humano de pessoas livres na sua alteridade.
Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99 17
Notas
1. Povo arawák que habita a região oeste do estado de Mato Grosso.
2. El País. Madri, 27/10/1997.
Indigenous education at school
ABSTRACT: The indigenous people keep their changeability thank to
their own sociocultural living strategies, being the pedagogical action
one of them. The Education developed by indigenous people permits
them to continue being themselves and keep reproducing their
cultures throughout generations. In this article we keep the pretext that
there’s not an indigenous education problem, on the contrary, what
exists is an indigenous solution to the education problem.
Bibliografia
MELIÀ, Bartomeu. Educação indígena e alfabetização. São Paulo: Loyola,
1979.
_________. “Desafios e tendências na alfabetização em língua indígena”.
In: EMIRI, Loretta e MONSERRAT, Ruth (orgs.). A conquista de es-
crita. São Paulo: Iluminuras, 1989, pp. 9-16.
_________. Elogio de la lengua guarani. Assunção: Centro de Estudios
Paraguayos “Antonio Guasch”, 1995.
_________. El Paraguay inventado. Assunção: Centro de Estudios
Paraguayos “Antonio Guasch”, 1997a.
_________. “Bilingüismo e escrita”. In: D’ANGELIS, Wilmar e VEIGA,
Juracilda (orgs.). Leitura e escrita em escolas indígenas. Campi-
nas: ALB/Mercado de Letras, 1997b, pp. 89-104.
FERNANDES, Florestan. “Notas sobre a educação na sociedade tupinambá”.
In: FERNANDES, F. A investigação etnológica no Brasil e outros en-
saios. Petrópolis: Vozes, 1975, pp. 33-83.
_________. A organização social dos tupinambá. Brasília: Hucitec, 1989.

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Linkage
LinkageLinkage
Linkage
letyap
 
DIRETRIZES EDUCACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO ÍNDIGENA
DIRETRIZES EDUCACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO ÍNDIGENADIRETRIZES EDUCACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO ÍNDIGENA
DIRETRIZES EDUCACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO ÍNDIGENA
Joel Soares
 
Diversidade cultural
Diversidade culturalDiversidade cultural
Diversidade cultural
caiocp9
 

Mais procurados (20)

A estrutura do dna
A estrutura do dnaA estrutura do dna
A estrutura do dna
 
As Competências SocioEmocionais
As Competências SocioEmocionaisAs Competências SocioEmocionais
As Competências SocioEmocionais
 
Alelos múltiplos
Alelos múltiplosAlelos múltiplos
Alelos múltiplos
 
Educação Superior:Ensino,Pesquisa e Extensão
Educação Superior:Ensino,Pesquisa e ExtensãoEducação Superior:Ensino,Pesquisa e Extensão
Educação Superior:Ensino,Pesquisa e Extensão
 
Implementação da Lei 10.639
Implementação da Lei 10.639Implementação da Lei 10.639
Implementação da Lei 10.639
 
Apresentacao filosofia
Apresentacao filosofiaApresentacao filosofia
Apresentacao filosofia
 
Linkage
LinkageLinkage
Linkage
 
Banner educação e diversidade
Banner   educação e diversidadeBanner   educação e diversidade
Banner educação e diversidade
 
Hereditariedade dos Grupos SanguíNeos
Hereditariedade dos Grupos SanguíNeosHereditariedade dos Grupos SanguíNeos
Hereditariedade dos Grupos SanguíNeos
 
DIRETRIZES EDUCACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO ÍNDIGENA
DIRETRIZES EDUCACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO ÍNDIGENADIRETRIZES EDUCACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO ÍNDIGENA
DIRETRIZES EDUCACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO ÍNDIGENA
 
Pcn história
Pcn históriaPcn história
Pcn história
 
Fundamentos de educação ambiental
Fundamentos de educação ambientalFundamentos de educação ambiental
Fundamentos de educação ambiental
 
Diversidade cultural
Diversidade culturalDiversidade cultural
Diversidade cultural
 
Valores
ValoresValores
Valores
 
Apresentação gestão educacional
Apresentação gestão  educacionalApresentação gestão  educacional
Apresentação gestão educacional
 
Planejamento e Práxis Pedagógica
Planejamento e Práxis PedagógicaPlanejamento e Práxis Pedagógica
Planejamento e Práxis Pedagógica
 
EDUCACÃO FINANCEIRA - SLIDES
EDUCACÃO FINANCEIRA - SLIDESEDUCACÃO FINANCEIRA - SLIDES
EDUCACÃO FINANCEIRA - SLIDES
 
Formação Geral Básica | Bimestralização DC-GOEM
Formação Geral Básica | Bimestralização DC-GOEMFormação Geral Básica | Bimestralização DC-GOEM
Formação Geral Básica | Bimestralização DC-GOEM
 
Sustentabilidade e meio ambiente
Sustentabilidade e meio ambienteSustentabilidade e meio ambiente
Sustentabilidade e meio ambiente
 
Educação rural x educação do campo
Educação rural x educação do campoEducação rural x educação do campo
Educação rural x educação do campo
 

Destaque (7)

Lingua, sociedade e cultura.
Lingua, sociedade e cultura.Lingua, sociedade e cultura.
Lingua, sociedade e cultura.
 
Educação Escolar Indígena
Educação Escolar IndígenaEducação Escolar Indígena
Educação Escolar Indígena
 
Cultura linguagem e língua
Cultura linguagem e línguaCultura linguagem e língua
Cultura linguagem e língua
 
História da Educação Indígena
História da Educação IndígenaHistória da Educação Indígena
História da Educação Indígena
 
Lingua, linguagem e cultura
Lingua, linguagem e culturaLingua, linguagem e cultura
Lingua, linguagem e cultura
 
Cultura indígena
Cultura indígenaCultura indígena
Cultura indígena
 
Cultura indígena
Cultura indígenaCultura indígena
Cultura indígena
 

Semelhante a Educação indígena

Diversidade livro - educação em diálogos com a diversidade
Diversidade   livro - educação em diálogos com a diversidadeDiversidade   livro - educação em diálogos com a diversidade
Diversidade livro - educação em diálogos com a diversidade
Elizete Santos
 
Your file BICASTIRADENTES_PLURALIDADECULTURALI
Your file BICASTIRADENTES_PLURALIDADECULTURALIYour file BICASTIRADENTES_PLURALIDADECULTURALI
Your file BICASTIRADENTES_PLURALIDADECULTURALI
temastransversais
 
Os mitos e lendas na dinâmica das religiões de matriz africana.
Os mitos e lendas na dinâmica das religiões de matriz africana.Os mitos e lendas na dinâmica das religiões de matriz africana.
Os mitos e lendas na dinâmica das religiões de matriz africana.
Aline Sesti Cerutti
 
Leitura entre-mundos-metodologia-de-educação-ocareté
Leitura entre-mundos-metodologia-de-educação-ocaretéLeitura entre-mundos-metodologia-de-educação-ocareté
Leitura entre-mundos-metodologia-de-educação-ocareté
Feab Campos Dos Goytacazes
 
Texto Da Prof. Regina
Texto Da Prof. ReginaTexto Da Prof. Regina
Texto Da Prof. Regina
culturaafro
 
Bicastiradentes pluralidadeculturalii etnias
Bicastiradentes pluralidadeculturalii etniasBicastiradentes pluralidadeculturalii etnias
Bicastiradentes pluralidadeculturalii etnias
temastransversais
 
Cultura negra e educação
Cultura negra e educaçãoCultura negra e educação
Cultura negra e educação
Aline Vaz
 
Cultura negra e educação
Cultura negra e educaçãoCultura negra e educação
Cultura negra e educação
Geraa Ufms
 
Diversidade Cultural Desigualdades Sociais
Diversidade Cultural Desigualdades SociaisDiversidade Cultural Desigualdades Sociais
Diversidade Cultural Desigualdades Sociais
culturaafro
 
Currículo Básico Comum do Espírito Santo
Currículo Básico Comum do Espírito SantoCurrículo Básico Comum do Espírito Santo
Currículo Básico Comum do Espírito Santo
Maria Lucia Manikowski
 

Semelhante a Educação indígena (20)

Educaçao multicultural
Educaçao multiculturalEducaçao multicultural
Educaçao multicultural
 
Maria rosa ticiane erika
Maria rosa ticiane erikaMaria rosa ticiane erika
Maria rosa ticiane erika
 
TÓPICOS EM EDUCAÇÃO II: Resumo do 2º bimestre multicuralismo
TÓPICOS EM EDUCAÇÃO II: Resumo do 2º bimestre multicuralismoTÓPICOS EM EDUCAÇÃO II: Resumo do 2º bimestre multicuralismo
TÓPICOS EM EDUCAÇÃO II: Resumo do 2º bimestre multicuralismo
 
Diversidade livro - educação em diálogos com a diversidade
Diversidade   livro - educação em diálogos com a diversidadeDiversidade   livro - educação em diálogos com a diversidade
Diversidade livro - educação em diálogos com a diversidade
 
Your file BICASTIRADENTES_PLURALIDADECULTURALI
Your file BICASTIRADENTES_PLURALIDADECULTURALIYour file BICASTIRADENTES_PLURALIDADECULTURALI
Your file BICASTIRADENTES_PLURALIDADECULTURALI
 
Os mitos e lendas na dinâmica das religiões de matriz africana.
Os mitos e lendas na dinâmica das religiões de matriz africana.Os mitos e lendas na dinâmica das religiões de matriz africana.
Os mitos e lendas na dinâmica das religiões de matriz africana.
 
Artigo - De olho no diversidade na universidade
Artigo - De olho no diversidade na universidade Artigo - De olho no diversidade na universidade
Artigo - De olho no diversidade na universidade
 
PROJETO EDUCAÇÃO: DIVERSIDADE CULTURAL
PROJETO EDUCAÇÃO: DIVERSIDADE CULTURALPROJETO EDUCAÇÃO: DIVERSIDADE CULTURAL
PROJETO EDUCAÇÃO: DIVERSIDADE CULTURAL
 
Leitura entre-mundos-metodologia-de-educação-ocareté
Leitura entre-mundos-metodologia-de-educação-ocaretéLeitura entre-mundos-metodologia-de-educação-ocareté
Leitura entre-mundos-metodologia-de-educação-ocareté
 
Texto Da Prof. Regina
Texto Da Prof. ReginaTexto Da Prof. Regina
Texto Da Prof. Regina
 
Bicastiradentes pluralidadeculturalii etnias
Bicastiradentes pluralidadeculturalii etniasBicastiradentes pluralidadeculturalii etnias
Bicastiradentes pluralidadeculturalii etnias
 
A HISTÓRIA INDÍGENA E AS POLÍTICAS EDUCACIONAIS NO BRASIL CONTEMPORÂNEO.
A HISTÓRIA INDÍGENA E AS POLÍTICAS EDUCACIONAIS NO BRASIL CONTEMPORÂNEO.A HISTÓRIA INDÍGENA E AS POLÍTICAS EDUCACIONAIS NO BRASIL CONTEMPORÂNEO.
A HISTÓRIA INDÍGENA E AS POLÍTICAS EDUCACIONAIS NO BRASIL CONTEMPORÂNEO.
 
Texto 3 -Educação intercultural
Texto 3 -Educação interculturalTexto 3 -Educação intercultural
Texto 3 -Educação intercultural
 
TEXTO_BASE-Fundamentos_Educ_Surdos.pdf
TEXTO_BASE-Fundamentos_Educ_Surdos.pdfTEXTO_BASE-Fundamentos_Educ_Surdos.pdf
TEXTO_BASE-Fundamentos_Educ_Surdos.pdf
 
Cultura negra e educação
Cultura negra e educaçãoCultura negra e educação
Cultura negra e educação
 
Cultura negra e educação
Cultura negra e educaçãoCultura negra e educação
Cultura negra e educação
 
Relato de experiencia Diversidade Cultural - 2014
Relato de experiencia Diversidade Cultural - 2014Relato de experiencia Diversidade Cultural - 2014
Relato de experiencia Diversidade Cultural - 2014
 
Diversidade Cultural Desigualdades Sociais
Diversidade Cultural Desigualdades SociaisDiversidade Cultural Desigualdades Sociais
Diversidade Cultural Desigualdades Sociais
 
Currículo Básico Comum do Espírito Santo
Currículo Básico Comum do Espírito SantoCurrículo Básico Comum do Espírito Santo
Currículo Básico Comum do Espírito Santo
 
Culturas e História Indígena no Currículo Escolar
Culturas e História Indígena no Currículo EscolarCulturas e História Indígena no Currículo Escolar
Culturas e História Indígena no Currículo Escolar
 

Mais de SUPORTE EDUCACIONAL (20)

PAGINA 39
 PAGINA 39 PAGINA 39
PAGINA 39
 
PAGINA 38
 PAGINA 38 PAGINA 38
PAGINA 38
 
PAGINA 37
 PAGINA 37 PAGINA 37
PAGINA 37
 
PAGINA 36
 PAGINA 36 PAGINA 36
PAGINA 36
 
PAGINA 35
 PAGINA 35 PAGINA 35
PAGINA 35
 
PAGINA 34
 PAGINA 34 PAGINA 34
PAGINA 34
 
PAGINA 33
 PAGINA 33 PAGINA 33
PAGINA 33
 
PAGINA 32
 PAGINA 32 PAGINA 32
PAGINA 32
 
PAGINA 31
 PAGINA 31 PAGINA 31
PAGINA 31
 
PAGINA 30
 PAGINA 30 PAGINA 30
PAGINA 30
 
PAGINA 29
 PAGINA 29 PAGINA 29
PAGINA 29
 
PAGINA 28
 PAGINA 28 PAGINA 28
PAGINA 28
 
PAGINA 27
 PAGINA 27 PAGINA 27
PAGINA 27
 
PAGINA 26
 PAGINA 26 PAGINA 26
PAGINA 26
 
PAGINA 25
 PAGINA 25 PAGINA 25
PAGINA 25
 
PAGINA 24
 PAGINA 24 PAGINA 24
PAGINA 24
 
PAGINA 23
 PAGINA 23 PAGINA 23
PAGINA 23
 
PAGINA 22
 PAGINA 22 PAGINA 22
PAGINA 22
 
PAGINA 21
 PAGINA 21 PAGINA 21
PAGINA 21
 
PAGINA 20
 PAGINA 20 PAGINA 20
PAGINA 20
 

Último

O Reizinho Autista.pdf - livro maravilhoso
O Reizinho Autista.pdf - livro maravilhosoO Reizinho Autista.pdf - livro maravilhoso
O Reizinho Autista.pdf - livro maravilhoso
VALMIRARIBEIRO1
 
Plano de aula ensino fundamental escola pública
Plano de aula ensino fundamental escola públicaPlano de aula ensino fundamental escola pública
Plano de aula ensino fundamental escola pública
anapsuls
 
PPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 final
PPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 finalPPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 final
PPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 final
carlaOliveira438
 

Último (20)

Produção de poemas - Reciclar é preciso
Produção  de  poemas  -  Reciclar é precisoProdução  de  poemas  -  Reciclar é preciso
Produção de poemas - Reciclar é preciso
 
O que é, de facto, a Educação de Infância
O que é, de facto, a Educação de InfânciaO que é, de facto, a Educação de Infância
O que é, de facto, a Educação de Infância
 
"Nós Propomos! Escola Secundária em Pedrógão Grande"
"Nós Propomos! Escola Secundária em Pedrógão Grande""Nós Propomos! Escola Secundária em Pedrógão Grande"
"Nós Propomos! Escola Secundária em Pedrógão Grande"
 
Enunciado_da_Avaliacao_1__Sociedade_Cultura_e_Contemporaneidade_(ED70200).pdf
Enunciado_da_Avaliacao_1__Sociedade_Cultura_e_Contemporaneidade_(ED70200).pdfEnunciado_da_Avaliacao_1__Sociedade_Cultura_e_Contemporaneidade_(ED70200).pdf
Enunciado_da_Avaliacao_1__Sociedade_Cultura_e_Contemporaneidade_(ED70200).pdf
 
Campanha 18 de. Maio laranja dds.pptx
Campanha 18 de.    Maio laranja dds.pptxCampanha 18 de.    Maio laranja dds.pptx
Campanha 18 de. Maio laranja dds.pptx
 
Enunciado_da_Avaliacao_1__Direito_e_Legislacao_Social_(IL60174).pdf
Enunciado_da_Avaliacao_1__Direito_e_Legislacao_Social_(IL60174).pdfEnunciado_da_Avaliacao_1__Direito_e_Legislacao_Social_(IL60174).pdf
Enunciado_da_Avaliacao_1__Direito_e_Legislacao_Social_(IL60174).pdf
 
O Reizinho Autista.pdf - livro maravilhoso
O Reizinho Autista.pdf - livro maravilhosoO Reizinho Autista.pdf - livro maravilhoso
O Reizinho Autista.pdf - livro maravilhoso
 
Slides Lição 9, CPAD, Resistindo à Tentação no Caminho, 2Tr24.pptx
Slides Lição 9, CPAD, Resistindo à Tentação no Caminho, 2Tr24.pptxSlides Lição 9, CPAD, Resistindo à Tentação no Caminho, 2Tr24.pptx
Slides Lição 9, CPAD, Resistindo à Tentação no Caminho, 2Tr24.pptx
 
O que é uma Revolução Solar. tecnica preditiva
O que é uma Revolução Solar. tecnica preditivaO que é uma Revolução Solar. tecnica preditiva
O que é uma Revolução Solar. tecnica preditiva
 
Plano de aula ensino fundamental escola pública
Plano de aula ensino fundamental escola públicaPlano de aula ensino fundamental escola pública
Plano de aula ensino fundamental escola pública
 
livro para educação infantil conceitos sensorial
livro para educação infantil conceitos sensoriallivro para educação infantil conceitos sensorial
livro para educação infantil conceitos sensorial
 
Enunciado_da_Avaliacao_1__Sistemas_de_Informacoes_Gerenciais_(IL60106).pdf
Enunciado_da_Avaliacao_1__Sistemas_de_Informacoes_Gerenciais_(IL60106).pdfEnunciado_da_Avaliacao_1__Sistemas_de_Informacoes_Gerenciais_(IL60106).pdf
Enunciado_da_Avaliacao_1__Sistemas_de_Informacoes_Gerenciais_(IL60106).pdf
 
CONCORDÂNCIA NOMINAL atividade ensino médio ead.pptx
CONCORDÂNCIA NOMINAL atividade ensino médio  ead.pptxCONCORDÂNCIA NOMINAL atividade ensino médio  ead.pptx
CONCORDÂNCIA NOMINAL atividade ensino médio ead.pptx
 
Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....
Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....
Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....
 
TIPOS DE CALOR CALOR LATENTE E CALOR SENSIVEL.pptx
TIPOS DE CALOR CALOR LATENTE E CALOR SENSIVEL.pptxTIPOS DE CALOR CALOR LATENTE E CALOR SENSIVEL.pptx
TIPOS DE CALOR CALOR LATENTE E CALOR SENSIVEL.pptx
 
Meu corpo - Ruth Rocha e Anna Flora livro
Meu corpo - Ruth Rocha e Anna Flora livroMeu corpo - Ruth Rocha e Anna Flora livro
Meu corpo - Ruth Rocha e Anna Flora livro
 
Respostas prova do exame nacional Port. 2008 - 1ª fase - Criterios.pdf
Respostas prova do exame nacional Port. 2008 - 1ª fase - Criterios.pdfRespostas prova do exame nacional Port. 2008 - 1ª fase - Criterios.pdf
Respostas prova do exame nacional Port. 2008 - 1ª fase - Criterios.pdf
 
Apresentação sobre Robots e processos educativos
Apresentação sobre Robots e processos educativosApresentação sobre Robots e processos educativos
Apresentação sobre Robots e processos educativos
 
Slides Lição 8, Betel, Ordenança para confessar os pecados e perdoar as ofens...
Slides Lição 8, Betel, Ordenança para confessar os pecados e perdoar as ofens...Slides Lição 8, Betel, Ordenança para confessar os pecados e perdoar as ofens...
Slides Lição 8, Betel, Ordenança para confessar os pecados e perdoar as ofens...
 
PPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 final
PPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 finalPPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 final
PPP6_ciencias final 6 ano ano de 23/24 final
 

Educação indígena

  • 1. Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99 11 Educação indígena na escola* Bartomeu Melià** RESUMO: Os povos indígenas mantêm sua alteridade graças a estra- tégias próprias de vivência sociocultural, sendo a ação pedagógica uma delas. A educação desenvolvida pelos povos indígenas lhes permite que continuem sendo eles mesmos e mantenham a transmissão de suas culturas por gerações. Neste trabalho mantém-se o pressupos- to de que não há um problema da educação indígena, pelo contrário, o que existe é uma solução indígena ao problema da educação. Palavras-chaves: educação escolar indígena, alteridade, ação pedagó- gica, educação diferenciada, alfabetização. No processo de educação escolar dos indígenas a perda da alteri- dade e a dissolução das diferenças são sentidas como ameaças reais, prementes e iniludíveis. Essa perda e essa dissolução, para alguns, rela- cionam-se até de forma direta e quase exclusiva com a escola. A escola seria um dos fatores decisivos de generalização e uniformidade. Partir da educação indígena? Um primeiro contraste impõe-se a partir de um fato histórico. Ain- da subsiste uma variedade de povos indígenas com suas línguas e cul- turas; às vezes, sem suas línguas, mas sim com suas culturas. Esses po- * Conferência ministrada no I Congresso Internacional de Educação Indígena. Dourados (MT), 23-27/3/1998. Uma versão anterior, “Ação pedagógica e alteridade: Por uma pedagogia da diferença”, foi apresentada na Conferência Ameríndia de Educação. Cuiabá, 17-21/11/1997. ** Doutor em Ciências Religiosas (Universidade de Estrasburgo), professor na Universidade Católica de Assunção. Diretor do Centro de Estudios Paraguayos “Antonio Guasch”. As- sunção, Paraguai. Endereço para correspondência: Calle Guarani 2256 c/ Pizarro
  • 2. 12 Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99 vos não só superaram a prova do período colonial, mas também os em- bates da assimilação e da integração de tempos mais recentes. Como o conseguiram? E até que ponto mantiveram sua alteridade e sua identidade? Os povos indígenas sustentaram sua alteridade graças a estratégias próprias, das quais uma foi precisamente a ação pedagógica. Em outros ter- mos, continua havendo nesses povos uma educação indígena que permite que o modo de ser e a cultura venham a se reproduzir nas novas gerações, mas também que essas sociedades encarem com relativo sucesso situações novas. A minha experiência com um povo como os ená-wenê-nawê, 1 então recentemente contatado, mostra que esses índios nunca se mostraram “per- didos” perante situações novas, para eles inteiramente inéditas. O sociólogo Florestan Fernandes (1989) dizia que a educação tupinambá se caracterizava por ser tradicional, sagrada e fechada. Outros tipos de educação têm sido caracterizados de outra maneira. Eu me per- mito, ainda, recomendar aquele livro feito em mutirão, na aldeia dos rikbátsa, intitulado Educação indígena e alfabetização (Melià 1979), no qual se encontram reproduzidas várias definições de educação indígena. Pode-se dizer que essa educação indígena leva em conta a alteri- dade? Existe uma caricatura do homem e da mulher indígenas que vem dos tempos coloniais e que diz “visto um índio, vistos todos”. Vocês, melhor do que eu, sabem que essa generalização é inteiramente gratuita e falsa. Para um observador não-indígena, para um bom antropólogo, por exemplo, a imagem do índio que fica é bem a contrária: que o indígena faz o que bem quer, com liberdade às vezes quase raiando em anarquia, pois cada índio é ele mesmo. A alteridade, afinal, é a liberdade de ser ele próprio. A peda- gogia, parafraseando o músico Yehudi Menuhi, quando recebia o prêmio Príncipe de Astúrias, é educar para a liberdade e ela se dá “quando con- cedemos aos outros a liberdade de serem eles mesmos, de dar e ajudar”. 2 Haveria que ver qual é a alteridade que cada povo indígena pro- jeta e deseja para si mesmo. Essa alteridade confunde-se com a consti- tuição da pessoa, com a sua construção e o seu ideal. Os ideais da pes- soa, os patterns – prescindindo de qualquer tendência funcionalista – não se fixam em estereótipos nem fotocópias. A educação sempre cria algo novo, aquilo que a realidade biológica nunca pode dar. No mundo guarani, por exemplo, a pessoa é uma “palavra” úni- ca e irredutível, cuja história será uma espécie de hino de palavras
  • 3. Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99 13 boas e belas, uma história de palavras inspiradas, que não podem ser aprendidas nem memorizadas e, portanto, também não podem ser, a dizer a verdade, ensinadas. Cada um é a sua palavra recebida e dita com propriedade, e essa palavra é criada ao mesmo tempo em que é dita, como uma energia que se desabrocha em flor. Essas são as me- táforas com as quais os guaranis se pensam e se dizem. Outros povos terão outras expressões e outras metáforas semelhantes para explicar o que é a sua educação. De fato, o objetivo que guia a ação pedagó- gica é esta questão fundamental: o que é um bom guarani, o que é um bom xavante, um bom bororo, um rikbáktsa é o objetivo que guia a ação pedagógica. A ação pedagógica tradicional integra sobretudo três círculos rela- cionados entre si: a língua, a economia e o parentesco. São os círculos de toda cultura integrada. De todos eles, porém, a língua é o mais amplo e complexo. O modo como se vive esse sistema de relações caracteriza cada um dos povos indígenas. O modo como se transmite para seus mem- bros, especialmente para os mais jovens, isso é a ação pedagógica. Não podemos nos deter neste momento em percorrer todo o ca- minho do ciclo de vida de um indígena, em que os momentos críticos – como a recepção do nome, a “iniciação”, o nascimento do primeiro filho, a morte de um parente ou de um membro da comunidade – são instan- tes fortemente marcados por ações pedagógicas nas quais intervém quase toda a comunidade. Até que ponto a escola poderá e deverá remedar a ação pedagó- gica tradicional é uma das questões mais pertinentes e sobre a qual há muita divergência de opiniões. Refazer o caminho? Se a ação pedagógica tem recriado continuamente a alteridade e a diferença desses povos indígenas, o que ocorre no período atual para que essa mesma alteridade e diferença estejam em tanto perigo, quan- do não já eliminadas? Aí é onde entra uma espécie de triste história de Erêndira, leia-se nesta Erêndira o nome de cada um dos povos indígenas da América e o Estado cruel e sem consideração.
  • 4. 14 Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99 Os ataques à alteridade e à diferença deram-se de forma múltipla, mas talvez possamos resumi-los em: imposição de uma língua geral ou nacional, currículo também nacional e professores para os povos indíge- nas. Esses foram também basicamente os programas e projetos das an- tigas missões. A resposta contra essa modalidade educativa se fez mediante uma luta que muitas vezes acabou em conquista. As conquistas estiveram dupli- cando, por contraste, o que tinham sido as grandes derrotas: livros e cartilhas em língua indígena, prévia conquista da escrita de cada uma des- sas línguas, currículo adaptado à realidade indígena, principalmente no que tange aos saberes tradicionais, preparação, incorporação e contratação de professores indígenas por parte do Estado e das instituições. São esses pas- sos suficientes para remontar a corrente da perda da alteridade e recupe- rar as diferenças? Hoje sabemos perfeitamente que não! A língua com palavras indígenas pode não ser indígena; a adap- tação de currículos e conteúdos pode ficar reduzida ao campo do folcló- rico e do óbvio; os professores podem ser cooptados pelo Estado e pe- las instituições, com efeitos mais destrutivos, precisamente porque pare- ce que já foram satisfeitas as demandas e as exigências dos indígenas. Outra maneira de esvaziar a ação pedagógica para a alteridade pode ser também uma atenção tão meticulosa a certas características próprias e dialetais desse ou daquele grupo dentro de uma etnia ou na- ção indígena, que a ação pedagógica fica completamente fragmentada e atomizada num sem-número de casos particulares, cujo desfecho é que cada um faça o que pode e o que quer. Entro nessa espécie de casuística porque, sob a escusa de ver a realidade, levanta-se uma série de registros inacabáveis de casos, mui- to ricos, por certo, mas onde a árvore impede de ver o mato. Na comunidade ou da comunidade? Quero aqui chamar a atenção para uma situação que vem ocorren- do com relativa freqüência. Há professores indígenas provenientes de setores mais jovens que, por diversas circunstâncias, não tiveram uma educação tradicional, às vezes foram educados num ambiente de pre- conceitos e até de hostilidade contra os próprios costumes tradicionais.
  • 5. Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99 15 Se eles ainda sabem a língua, já perderam, em muitos casos, o sentido das palavras e expressões da língua mais arcaica, principalmente no que se refere à religião ou ao sistema de parentesco. Por motivos que têm uma profunda explicação cultural e política, a própria comunidade indí- gena nomeia como professores a seus filhos menos identificados com o modo de ser tradicional, mas que parecem estar integrados no sistema nacional. Por isso, as missões religiosas ainda têm um peso considerá- vel, pois realizaram a capacitação dos professores em regimes de inter- natos que nada tinham a ver com a cultura e os modos de ser indígenas. Mas também se dá o fenômeno contrário: por vezes, são os pro- fessores indígenas aqueles que viveram com consciência crítica e pro- fética os problemas de uma comunidade ou de seu povo, de tal modo que a escola tem sido o lugar em que se originaram movimentos de re- sistência e de reivindicação de direitos sobre a terra, contra a discrimi- nação e a falta de respeito. Professores e alunos hoje sabem se situar de forma diferente diante do Estado e da sociedade envolvente, graças aos conhecimentos vindos da escola. Uma alteridade moderna Considero mais importante, quando se trata de ver qual é a ação pedagógica para a alteridade, tomar consciência de que essa alteridade é concebida de modo muito diferente nas chamadas sociedades moder- nas ocidentais e nas sociedades indígenas. A alteridade é sempre, afi- nal, uma filosofia de vida, e não pode ser tratada à margem do que cha- mamos a construção da pessoa. A educação na sociedade nacional, em muitos de nossos países, ainda está marcada pela capacitação individual tendo em vista a competição individual para produzir e possuir mais. Para isso, a acumulação de conhecimentos e habilidades é o principal objetivo. É isso que também a educação indígena deve receber por parte de seus promotores e de seus professores? A construção da alteridade não só tem objetivos específicos numa ou noutra sociedade, mas também métodos próprios. Já os assinalei a propósito do ciclo de vida. Entre os métodos indígenas, um dos principais é a participação da comunidade na ação pedagógica. É precisamente a participação da comunidade que assegura uma alteridade bem entendi- da. Quando a educação se desenvolve como um simples contrato de um
  • 6. 16 Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99 professor a serviço de uma família, cujo interesse principal é a educa- ção de seu filho ou de sua filha, é difícil que surja o interesse por uma alteridade a serviço da comunidade. Se a alteridade é apenas vivida na comunidade, já que os indiví- duos estão mais orientados ao proveito próprio, a ação pedagógica terá que estar muito atenta para ver se a sociedade e a comunidade indíge- na não estão trocando de sentido mediante a prática escolar. Os famosos internatos de outros tempos preparavam o indivíduo mais para si do que para a comunidade, acarretando a saída dos jovens da comunidade. Ainda hoje, a escola é, em muitos casos, a ponte e a estrada que levam para o individualismo. E aí acabam tanto a alteridade quanto a diferença. Um índio ou uma índia individuais tornam-se um ín- dio ou uma índia, algo genérico, sem passado, presente, nem futuro. A solução indígena A comunidade indígena, tanto como povo quanto como aldeia, tem uma racionalidade operante que temos que saber descobrir para que as novas ações pedagógicas possam praticá-la. É precisamente essa racionalidade o que mais foi negado aos po- vos indígenas. Contudo, nela está a contribuição mais significativa e ne- cessária. A ação pedagógica para a alteridade não é uma descoberta feita pela sociedade ocidental e nacional para oferecer aos povos indí- genas, muito pelo contrário: é o que os povos indígenas podem ainda oferecer à sociedade nacional. Assim, não há um problema de educação indígena, há sim uma solução indígena ao problema da educação. Por diversos motivos a educação indígena teve momentos de ex- cessivo acanhamento, quase sem coragem para reclamar sua autonomia e seus direitos. A educação indígena não é a mão estendida à espera de uma esmola. É a mão cheia que oferece às nossas sociedades uma alteridade e uma diferença, que nós já perdemos. O ava haicha é uma fonte de inspiração, não uma simples condescendência para povos minoritários. A alteridade indígena como fruto da ação pedagógica não só man- terá sua diferença, mas também poderá contribuir para que haja um mun- do mais humano de pessoas livres na sua alteridade.
  • 7. Cadernos Cedes, ano XIX, nº 49, Dezembro/99 17 Notas 1. Povo arawák que habita a região oeste do estado de Mato Grosso. 2. El País. Madri, 27/10/1997. Indigenous education at school ABSTRACT: The indigenous people keep their changeability thank to their own sociocultural living strategies, being the pedagogical action one of them. The Education developed by indigenous people permits them to continue being themselves and keep reproducing their cultures throughout generations. In this article we keep the pretext that there’s not an indigenous education problem, on the contrary, what exists is an indigenous solution to the education problem. Bibliografia MELIÀ, Bartomeu. Educação indígena e alfabetização. São Paulo: Loyola, 1979. _________. “Desafios e tendências na alfabetização em língua indígena”. In: EMIRI, Loretta e MONSERRAT, Ruth (orgs.). A conquista de es- crita. São Paulo: Iluminuras, 1989, pp. 9-16. _________. Elogio de la lengua guarani. Assunção: Centro de Estudios Paraguayos “Antonio Guasch”, 1995. _________. El Paraguay inventado. Assunção: Centro de Estudios Paraguayos “Antonio Guasch”, 1997a. _________. “Bilingüismo e escrita”. In: D’ANGELIS, Wilmar e VEIGA, Juracilda (orgs.). Leitura e escrita em escolas indígenas. Campi- nas: ALB/Mercado de Letras, 1997b, pp. 89-104. FERNANDES, Florestan. “Notas sobre a educação na sociedade tupinambá”. In: FERNANDES, F. A investigação etnológica no Brasil e outros en- saios. Petrópolis: Vozes, 1975, pp. 33-83. _________. A organização social dos tupinambá. Brasília: Hucitec, 1989.