De que modo Descartes obteve conhecimento do Cogito?
 SERÁ O "PENSO, LOGO EXISTO" (COGITO, ERGO SUM) PRODUTO
DE UMA INTUIÇÃO OU DE UMA DEDUÇÃO SILOGÍSTICA?
A formulação do Cogito "Penso, logo existo" presente nos "Princípios da Filosofia" e
no "Discurso do Método" tem a aparência de um silogismo, de uma dedução cuja
conclusão estaria expressa na partícula "Logo", cuja premissa explícita seria " Eu
penso" e a implícita, como sugeriu Gassendi " Tudo o que pensa é ou existe".
1-Tudo o que pensa existe
2-Eu penso
3-Logo, eu existo
No entanto, Descartes nega que o Cogito seja produto de uma dedução porque
isso implicaria conhecimentos prévios (premissas) que não teriam sido submetidos à
dúvida. Logo, duvidosos, falsos (equivalência, no plano teórico, entre duvidoso,
verosímil - provavelmente verdadeiro - e falso). O que tornaria o 1 princípio
(fundamento/base) do seu sistema de saber duvidoso, falso e, consequentemente,
todos os outros conhecimentos dele extraídos (motor dor conhecimento) duvidosos,
falsos. O que seria a suprema das ironias considerando o projecto cartesiano de
substituição da ciência incerta da Idade Média por uma ciência verdadeira e certa.
Na sua obra mais complexa " MEDITAÇÕES SOBRE A FILOSOFIA
PRIMEIRA" (II Meditação) René Descartes evita a aparência de um raciocínio
dedutivo, retirando a partícula indicadora de conclusão "Logo" e escrevendo " Eu sou
(natureza da existência- ser pensante), eu existo" ( verdade existencial/intuitiva ).
Vejamos como o próprio Descartes responde às objecções de Gassendi (Resposta
às segundas objecções) que considera o Cogito produto de uma dedução e não de
uma intuição: "Quando nos apercebemos de que somos coisas que pensam, é uma
primeira noção que não é extraída de nenhum silogismo, e quando alguém diz: penso,
ou existo, não conclui a sua existência do seu pensamento (...) mas como uma coisa
conhecida por si, ele vê isso por simples constatação do espírito. (...)"
TESE CARTESIANA: O " Penso, logo existo" é uma intuição intelectual
UM ARGUMENTO:
ARGUMENTO (MODO DE OPERAR DO ESPÍRITO HUMANO):
O espírito humano trabalha utilizando, num primeiro momento, a razão de forma
intuitiva (acto mais simples que consiste na apreensão rápida e imediata de uma
1
evidência, de uma ideia clara e distinta ), e num segundo momento, a razão de forma
dedutiva (acto mais complexo que consiste em extrair de conhecimentos prévios
outros conhecimentos) . Primeiro, obtemos a proposição particular " Eu penso, eu
existo" e num segundo momento, deduzimos desta, a proposição universal " Todos os
que pensam existem".
Quando me apercebo da minha existência como ser pensante é através de uma
experiência pessoal ( eu estou a duvidar, a pensar, eu estou a existir ou "para existir é
preciso pensar" - verdade existencial) e não de uma verdade lógica (Todos os que
pensam existem). A existência do sujeito está presente como condição do acto de
duvidar e não é deduzida de nenhuma proposição anterior.
POSIÇÃO CRÍTICA:
Há a possibilidade do Cogito ser produto de uma dedução em que o conhecimento
prévio, não sujeito à dúvida, seria o "princípio de substância" (presente no artigo11)
que afirma que o nada não tem atributos e onde há um atributo tem de haver uma
substância.
1-Se tenho um atributo, então o sujeito desse atributo existe
2-Eu tenho um atributo (pensamento)
3-Logo, o sujeito desse atributo existe (eu pensante/Res Cogitans)
2

Cogito_Descartes

  • 1.
    De que modoDescartes obteve conhecimento do Cogito?  SERÁ O "PENSO, LOGO EXISTO" (COGITO, ERGO SUM) PRODUTO DE UMA INTUIÇÃO OU DE UMA DEDUÇÃO SILOGÍSTICA? A formulação do Cogito "Penso, logo existo" presente nos "Princípios da Filosofia" e no "Discurso do Método" tem a aparência de um silogismo, de uma dedução cuja conclusão estaria expressa na partícula "Logo", cuja premissa explícita seria " Eu penso" e a implícita, como sugeriu Gassendi " Tudo o que pensa é ou existe". 1-Tudo o que pensa existe 2-Eu penso 3-Logo, eu existo No entanto, Descartes nega que o Cogito seja produto de uma dedução porque isso implicaria conhecimentos prévios (premissas) que não teriam sido submetidos à dúvida. Logo, duvidosos, falsos (equivalência, no plano teórico, entre duvidoso, verosímil - provavelmente verdadeiro - e falso). O que tornaria o 1 princípio (fundamento/base) do seu sistema de saber duvidoso, falso e, consequentemente, todos os outros conhecimentos dele extraídos (motor dor conhecimento) duvidosos, falsos. O que seria a suprema das ironias considerando o projecto cartesiano de substituição da ciência incerta da Idade Média por uma ciência verdadeira e certa. Na sua obra mais complexa " MEDITAÇÕES SOBRE A FILOSOFIA PRIMEIRA" (II Meditação) René Descartes evita a aparência de um raciocínio dedutivo, retirando a partícula indicadora de conclusão "Logo" e escrevendo " Eu sou (natureza da existência- ser pensante), eu existo" ( verdade existencial/intuitiva ). Vejamos como o próprio Descartes responde às objecções de Gassendi (Resposta às segundas objecções) que considera o Cogito produto de uma dedução e não de uma intuição: "Quando nos apercebemos de que somos coisas que pensam, é uma primeira noção que não é extraída de nenhum silogismo, e quando alguém diz: penso, ou existo, não conclui a sua existência do seu pensamento (...) mas como uma coisa conhecida por si, ele vê isso por simples constatação do espírito. (...)" TESE CARTESIANA: O " Penso, logo existo" é uma intuição intelectual UM ARGUMENTO: ARGUMENTO (MODO DE OPERAR DO ESPÍRITO HUMANO): O espírito humano trabalha utilizando, num primeiro momento, a razão de forma intuitiva (acto mais simples que consiste na apreensão rápida e imediata de uma 1
  • 2.
    evidência, de umaideia clara e distinta ), e num segundo momento, a razão de forma dedutiva (acto mais complexo que consiste em extrair de conhecimentos prévios outros conhecimentos) . Primeiro, obtemos a proposição particular " Eu penso, eu existo" e num segundo momento, deduzimos desta, a proposição universal " Todos os que pensam existem". Quando me apercebo da minha existência como ser pensante é através de uma experiência pessoal ( eu estou a duvidar, a pensar, eu estou a existir ou "para existir é preciso pensar" - verdade existencial) e não de uma verdade lógica (Todos os que pensam existem). A existência do sujeito está presente como condição do acto de duvidar e não é deduzida de nenhuma proposição anterior. POSIÇÃO CRÍTICA: Há a possibilidade do Cogito ser produto de uma dedução em que o conhecimento prévio, não sujeito à dúvida, seria o "princípio de substância" (presente no artigo11) que afirma que o nada não tem atributos e onde há um atributo tem de haver uma substância. 1-Se tenho um atributo, então o sujeito desse atributo existe 2-Eu tenho um atributo (pensamento) 3-Logo, o sujeito desse atributo existe (eu pensante/Res Cogitans) 2