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PÚBLICO,SEG9JUN2014 | 47
Classes e rebeliões
sociais no Brasil
N
uma sociedade onde as
disparidades, assimetrias
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conjuntos mais vastos. Dir-se-á que tanto a
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se subdividem internamente, cada uma delas,
entre um setor estabelecido e acomodado e
um setor em movimento que se debate hoje
pela redefinição da sua condição e estatuto.
A classe média tradicional (estabelecida),
constituída por grupos poderosos e de
elevado estatuto social, defende os seus
privilégios, que deixa transparecer através
dos seus preconceitos, comportamentos
arrogantes e tiques de despotismo para com
os mais humildes e pobres, aos quais, em
geral, nega o direito a terem direitos. Por isso
erguem em seu redor barreiras de opacidade
e estigmas de todo o tipo. Mesmo aqueles
que, tendo saído da miséria, ambicionam ou
reivindicam o acesso a bens de consumo e a
um estilo de vida mais digno, são rejeitados
e olhados de lado. Nas suas múltiplas
obsessões, essa classe tem como principais
inimigos o PT (Partido dos Trabalhadores,
de Lula da Silva) e as camadas mais pobres e
miseráveis que, com a ajuda do “petismo”,
já frequentam os shoppings, já compraram
carro, os seus filhos já frequentam a escola
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avião, coisa que este grupo (habituado a
recrutar aí as suas domésticas e serviçais)
considera um sacrilégio.
À sombra deste segmento, e, de certo
modo, em disputa com ele, encontra-se uma
“classe média emergente” (uma nova camada
da classe trabalhadora, qualificada e com
emprego formal), que descolou da situação
de miséria à custa dos programas sociais e
do crescimento económico, e que ganhou
consciência de que pode, finalmente, aceder
a direitos e a uma condição social confortável.
Segmentos jovens, que trabalham, estudam,
ou trabalham e estudam, vivendo nas
periferias das principais cidades, que
aprenderam a socializar-se e se aproximaram
das novas modalidades de ativismo por via
das redes sociais e da linguagem da Internet.
Trata-se de um precariado rebelde, mas por
outro lado sensível aos instintos consumistas
e individualistas da classe média. Foram
sobretudo estes novos setores emergentes
que, em junho de 2013, encheram as ruas
e praças de centenas de cidades brasileiras
clamando por mais reformas, por mais
transparência e o fim da corrupção, por
melhores transportes e qualidade de vida
urbana, enfim por verdadeiros sistemas de
saúde e de educação públicas no Brasil. Essa
foi a primeira onda de rebeliões mobilizada
não só contra os aumentos do custo dos
transportes urbanos mas contra os gastos
sumptuosos então anunciados para a
organização dos grandes eventos (em especial
o Mundial de Futebol de 2014). É claro que
nos momentos
mais intensos de
contestação, esses
movimentos foram
“cavalgados” pelos
grandes média e a
própria classe média
estabelecida veio
também para a rua
gritar que “o gigante
acordou”, mas por
motivos contrários,
visto que a mudança
que pretendiam
(e pretendem) é
arredar o PT do
poder para impor
o seu programa
neoliberal puro e
duro, e o regresso
da velha ordem da
violência contra o
povo e os ativistas
(em geral acusados
de “vândalos”).
Se é verdade que
este último segmento
é parte da classe
trabalhadora, ele distingue-se, no entanto,
por um lado, do proletariado subalterno,
que sobrevive à custa de programas como o
bolsa família, que permanence nas franjas
da informalidade e próximo da miséria,
composto por varredores de lixo, pelo
setor dos seguranças privados, em regime
de trabalho temporário (e subcontratado),
domésticas e empregados precarizados
e pouco escolarizados dos mais diversos
serviços, e, por outro lado, distingue-
se ainda da classe operária tradicional,
organizada, simbolizada pelos trabalhadores
metalúrigicos do ABC, onde o PT e a CUT têm
a sua origem e mantêm as suas mais sólidas
bases de apoio.
O mesmo que se disse para as classes
médias, pode dizer-se da classe trabalhadora,
também ela dividida entre uma fação mais
“acomodada” e outra mais “indignada” e
rebelde. Desde o início deste ciclo que o Brasil
assistiu a grandes mudanças, principalmente
as promovidas pelos governos do PT. Ora,
tais mudanças, independentemente do
seu impacto progressista na economia e na
sociedade, deram lugar à formação de novos
setores profissionais e quadros dirigentes,
com origem no campo sindical, os quais
corporizam o já referido segmento da classe
trabalhadora organizada e “acomodada”, não
tanto porque seja antirreformista, mas porque
se deixou “anestesiar” pelo poder (simbólico
e real) das instituições que dirige e onde
obtêm algumas “benesses”, reconhecimento
e protagonismo que nunca tiveram. É contra
esta camada que a classe média estabelecida
(sobretudo a que se concentra na região de
São Paulo) está crispada e inquieta porque
foi ela que — apesar de tudo — abriu novas
perspetivas à classe trabalhadora e aos
antigos “caipiras” miseráveis, disponíveis
para qualquer tarefa. Mas, por outro lado,
estes setores mais ou menos acomodados no
aparelho de Estado, ou ocupando lugares de
relevo no sistema político, debatem-se com
a estagnação económica e os bloqueios face
OMundialpode
tornar-seuma
montranão
da“potência
emergente”,
masdo
potencial
derebelião
popularque
estepaís
encerra
às promessas e expectativas que criaram,
muitas delas inscritas na própria constituição
brasileira. O sistema democrático do país
desenvolveu desde o início da década de 1990
um conjunto de mecanismos de “blindagem”
apoiados em alianças iníquas entre partidos, e
que, de certo modo, estabeleceu uma barreira
intransponível entre as reivindicações e
necessidades das diversas camadas da força
de trabalho e da base da sociedade, ao mesmo
tempo que parece prisioneiro de forças
ocultas, de interesses económicos poderosos,
dos mais diversos e sórdidos tráficos e redes
de influência, inclusive parecendo rendido ou
impotente perante o poder esmagador dos
meios de comunicação social, antigos aliados
desses interesses e pouco disponíveis para
a construção de um efetivo espaço público
democrático que dê expressão à pluralidade
da sociedade brasileira em toda a sua
complexidade.
Apesar das divisões entre esses grupos e
classes sociais, o descontentamento pode
virar-se contra um sistema que se mostra
incapaz de dar o salto em frente. E o cenário
da Copa 2014 pode servir de pretexto. É
nesse sentido que nos últimos tempos se vêm
observando repetidos sinais de agitação de
diversas camadas sociais desprotegidas, como
aconteceu em fevereiro passado com a greve
“selvagem” dos “garis” (varredores de rua)
no Rio de Janeiro, que, passando por cima da
direção sindical conseguiram negociar e obter
uma vitória clara numa série de reivindicações
salariais e de condições de trabalho, na
mesma linha das grandes rebeliões operárias
em 2012 no Complexo de Suape (no Recife,
NE do Brasil) envolvendo cerca de 40 mil
trabalhadores, ou dos protestos de junho
de 2013 e, nas últimas semanas, com várias
situações de revolta e greves clandestinas no
setor dos transportes públicos em São Paulo
(além de outros, como os metalúrgicos),
cujas ações incluíram diversos cortes de
vias públicas e lançaram o caos na cidade.
Neste contexto, uma sondagem do dia 22
de maio revela que: para 90% dos paulistas
há corrupção na organização da Copa; 76%
acham que o Brasil não está preparado; 45%
são a favor da copa, mas 43% são contra (e
10% indiferentes); e mais, 52% são a favor dos
protestos mais recentes (em junho de 2013
as manifestações de então tiveram o apoio
de 89% dos paulistas). Tudo isto faz crer que
o descontentamento pode ampliar-se com o
início do Campeonato Mundial de Futebol,
e conjugar-se com iniciativas de outros
grupos no terreno, como os movimentos dos
“trabalhadores sem teto” e ativistas anti-Copa,
que desde o ano passado vêm programando
ações de protesto. O Mundial pode tornar-se
uma montra não da “potência emergente”,
mas do potencial de rebelião popular que este
país encerra.
Professor da Faculdade de Economia;
investigador do Centro de Estudos Sociais
da Universidade de Coimbra
CRISTIANO BORGES/REUTERS
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ElísioEstanque

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Classes sociais em disputa no Brasil pré-Copa 2014

  • 1. PÚBLICO,SEG9JUN2014 | 47 Classes e rebeliões sociais no Brasil N uma sociedade onde as disparidades, assimetrias e injustiças sociais são tão flagrantes como no Brasil, é importante compreender o recente ciclo de mobilizações de rua e a conflitualidade social em curso no contexto pré-Copa 2014, tendo em atenção as grandes mudanças que vêm ocorrendo neste país, por via dos governos do PT, e suas implicações na estrutura social. Deixando de parte a pequena e super- rica elite económica (que, como sabemos é, de facto, quem domina), podemos dizer que quer a classe média quer a classe trabalhadora brasileira passam por uma profunda recomposição, a qual se reflete nas orientações, subjetividades e dinâmicas de ação de diferentes segmentos dentro desses conjuntos mais vastos. Dir-se-á que tanto a “classe média” como a “classe trabalhadora” se subdividem internamente, cada uma delas, entre um setor estabelecido e acomodado e um setor em movimento que se debate hoje pela redefinição da sua condição e estatuto. A classe média tradicional (estabelecida), constituída por grupos poderosos e de elevado estatuto social, defende os seus privilégios, que deixa transparecer através dos seus preconceitos, comportamentos arrogantes e tiques de despotismo para com os mais humildes e pobres, aos quais, em geral, nega o direito a terem direitos. Por isso erguem em seu redor barreiras de opacidade e estigmas de todo o tipo. Mesmo aqueles que, tendo saído da miséria, ambicionam ou reivindicam o acesso a bens de consumo e a um estilo de vida mais digno, são rejeitados e olhados de lado. Nas suas múltiplas obsessões, essa classe tem como principais inimigos o PT (Partido dos Trabalhadores, de Lula da Silva) e as camadas mais pobres e miseráveis que, com a ajuda do “petismo”, já frequentam os shoppings, já compraram carro, os seus filhos já frequentam a escola até à universidade e começam a viajar de avião, coisa que este grupo (habituado a recrutar aí as suas domésticas e serviçais) considera um sacrilégio. À sombra deste segmento, e, de certo modo, em disputa com ele, encontra-se uma “classe média emergente” (uma nova camada da classe trabalhadora, qualificada e com emprego formal), que descolou da situação de miséria à custa dos programas sociais e do crescimento económico, e que ganhou consciência de que pode, finalmente, aceder a direitos e a uma condição social confortável. Segmentos jovens, que trabalham, estudam, ou trabalham e estudam, vivendo nas periferias das principais cidades, que aprenderam a socializar-se e se aproximaram das novas modalidades de ativismo por via das redes sociais e da linguagem da Internet. Trata-se de um precariado rebelde, mas por outro lado sensível aos instintos consumistas e individualistas da classe média. Foram sobretudo estes novos setores emergentes que, em junho de 2013, encheram as ruas e praças de centenas de cidades brasileiras clamando por mais reformas, por mais transparência e o fim da corrupção, por melhores transportes e qualidade de vida urbana, enfim por verdadeiros sistemas de saúde e de educação públicas no Brasil. Essa foi a primeira onda de rebeliões mobilizada não só contra os aumentos do custo dos transportes urbanos mas contra os gastos sumptuosos então anunciados para a organização dos grandes eventos (em especial o Mundial de Futebol de 2014). É claro que nos momentos mais intensos de contestação, esses movimentos foram “cavalgados” pelos grandes média e a própria classe média estabelecida veio também para a rua gritar que “o gigante acordou”, mas por motivos contrários, visto que a mudança que pretendiam (e pretendem) é arredar o PT do poder para impor o seu programa neoliberal puro e duro, e o regresso da velha ordem da violência contra o povo e os ativistas (em geral acusados de “vândalos”). Se é verdade que este último segmento é parte da classe trabalhadora, ele distingue-se, no entanto, por um lado, do proletariado subalterno, que sobrevive à custa de programas como o bolsa família, que permanence nas franjas da informalidade e próximo da miséria, composto por varredores de lixo, pelo setor dos seguranças privados, em regime de trabalho temporário (e subcontratado), domésticas e empregados precarizados e pouco escolarizados dos mais diversos serviços, e, por outro lado, distingue- se ainda da classe operária tradicional, organizada, simbolizada pelos trabalhadores metalúrigicos do ABC, onde o PT e a CUT têm a sua origem e mantêm as suas mais sólidas bases de apoio. O mesmo que se disse para as classes médias, pode dizer-se da classe trabalhadora, também ela dividida entre uma fação mais “acomodada” e outra mais “indignada” e rebelde. Desde o início deste ciclo que o Brasil assistiu a grandes mudanças, principalmente as promovidas pelos governos do PT. Ora, tais mudanças, independentemente do seu impacto progressista na economia e na sociedade, deram lugar à formação de novos setores profissionais e quadros dirigentes, com origem no campo sindical, os quais corporizam o já referido segmento da classe trabalhadora organizada e “acomodada”, não tanto porque seja antirreformista, mas porque se deixou “anestesiar” pelo poder (simbólico e real) das instituições que dirige e onde obtêm algumas “benesses”, reconhecimento e protagonismo que nunca tiveram. É contra esta camada que a classe média estabelecida (sobretudo a que se concentra na região de São Paulo) está crispada e inquieta porque foi ela que — apesar de tudo — abriu novas perspetivas à classe trabalhadora e aos antigos “caipiras” miseráveis, disponíveis para qualquer tarefa. Mas, por outro lado, estes setores mais ou menos acomodados no aparelho de Estado, ou ocupando lugares de relevo no sistema político, debatem-se com a estagnação económica e os bloqueios face OMundialpode tornar-seuma montranão da“potência emergente”, masdo potencial derebelião popularque estepaís encerra às promessas e expectativas que criaram, muitas delas inscritas na própria constituição brasileira. O sistema democrático do país desenvolveu desde o início da década de 1990 um conjunto de mecanismos de “blindagem” apoiados em alianças iníquas entre partidos, e que, de certo modo, estabeleceu uma barreira intransponível entre as reivindicações e necessidades das diversas camadas da força de trabalho e da base da sociedade, ao mesmo tempo que parece prisioneiro de forças ocultas, de interesses económicos poderosos, dos mais diversos e sórdidos tráficos e redes de influência, inclusive parecendo rendido ou impotente perante o poder esmagador dos meios de comunicação social, antigos aliados desses interesses e pouco disponíveis para a construção de um efetivo espaço público democrático que dê expressão à pluralidade da sociedade brasileira em toda a sua complexidade. Apesar das divisões entre esses grupos e classes sociais, o descontentamento pode virar-se contra um sistema que se mostra incapaz de dar o salto em frente. E o cenário da Copa 2014 pode servir de pretexto. É nesse sentido que nos últimos tempos se vêm observando repetidos sinais de agitação de diversas camadas sociais desprotegidas, como aconteceu em fevereiro passado com a greve “selvagem” dos “garis” (varredores de rua) no Rio de Janeiro, que, passando por cima da direção sindical conseguiram negociar e obter uma vitória clara numa série de reivindicações salariais e de condições de trabalho, na mesma linha das grandes rebeliões operárias em 2012 no Complexo de Suape (no Recife, NE do Brasil) envolvendo cerca de 40 mil trabalhadores, ou dos protestos de junho de 2013 e, nas últimas semanas, com várias situações de revolta e greves clandestinas no setor dos transportes públicos em São Paulo (além de outros, como os metalúrgicos), cujas ações incluíram diversos cortes de vias públicas e lançaram o caos na cidade. Neste contexto, uma sondagem do dia 22 de maio revela que: para 90% dos paulistas há corrupção na organização da Copa; 76% acham que o Brasil não está preparado; 45% são a favor da copa, mas 43% são contra (e 10% indiferentes); e mais, 52% são a favor dos protestos mais recentes (em junho de 2013 as manifestações de então tiveram o apoio de 89% dos paulistas). Tudo isto faz crer que o descontentamento pode ampliar-se com o início do Campeonato Mundial de Futebol, e conjugar-se com iniciativas de outros grupos no terreno, como os movimentos dos “trabalhadores sem teto” e ativistas anti-Copa, que desde o ano passado vêm programando ações de protesto. O Mundial pode tornar-se uma montra não da “potência emergente”, mas do potencial de rebelião popular que este país encerra. Professor da Faculdade de Economia; investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra CRISTIANO BORGES/REUTERS DebateMundialdefutebol ElísioEstanque