SlideShare uma empresa Scribd logo
1 de 1
Baixar para ler offline
Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.
Público • Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2018 • 47
ESPAÇOPÚBLICO
ocorridas nas sociedades ocidentais ao
longo do século XX suscetíveis de serem
associadas, direta ou indiretamente, ao
triunfo dos bolcheviques e ao movimento
comunista.
É verdade que o capitalismo neoliberal
tem vindo, nas últimas décadas, a colonizar
as instituições democráticas, corroendo-
lhes o seu potencial reformador e minando
a própria democracia. Mas o capitalismo
enquanto sistema socioeconómico
metamorfoseou-
se profundamente
desde 1917,
tornou-se mais
difuso, adaptável
e sobretudo
incorporou-se em
muitas esferas da
sociedade e nos
hábitos de vida e
de consumo das
populações: dos
ricos, dos pobres e
das classes médias.
Em especial na era
da globalização, os
campos económico,
educacional,
tecnológico,
comunicacional, etc.,
sofreram profundas
transformações.
Seguramente mais
ProfessordaFaculdadedeEconomia
einvestigadordoCentrodeEstudos
SociaisdaUniversidadedeCoimbra
ElísioEstanque
O outro lado da revolução (I)
A
recente comemoração do
centenário da Revolução
de Outubro de 1917 refletiu-
se em Portugal na profusão
de posições públicas, quase
sempre em confronto
umas com as outras, ora
glorificando e justificando, ora
denunciando e demonizando
aquele acontecimento
histórico. Trata-se aqui de ensaiar uma
outra leitura que presumo “desalinhada”,
não tanto sobre os acontecimentos em si,
mas mais sobre o processo de mitificação
da “revolução proletária” e o seu impacto
no mundo ocidental.
Datas redondas são sempre bons
pretextos para celebrar ou repensar as
grandes efemérides. Já se sabe que as
celebrações oficiais de atos fundacionais,
batalhas ou revoluções — com maiores ou
menores aparatos e desfiles militares —
tendem a exprimir as roupagens coloridas,
e ritualizadas, de que as instituições do
Estado se autoalimentam. Nem precisamos
de lembrar as demonstrações de poderio
(real ou aparente, mas sempre ostentatório)
que fazem parte do código genético
de regimes políticos (autoritários ou
democráticos) das mais diversas matizes.
Uma revolução assim celebrada, seja ela a
Revolução de Outubro ou a do nosso 25 de
Abril, por exemplo, torna-se um cliché, uma
pintura naive emoldurada para adornar as
paredes cinzentas do establishment.
É assim que, para lá da controvérsia
que se gerou em 2017 com as leituras
contrastantes da revolução bolchevique, é
importante libertar a análise dos múltiplos
preconceitos e referenciais ideológicos que
rodeiam o tema (e enviesam a busca de
objetividade que deve guiar a historiografia).
O regresso analítico ao background histórico
da Revolução de Outubro, incluindo os
seus antecedentes e consequências, exige,
portanto, um esforço epistemológico
de revisitação do próprio background
concetual da noção de “revolução” (aspeto
que tratarei num próximo artigo). Como
bem sabemos, a importância da Revolução
soviética — ontem e hoje — está para além
dos próprios acontecimentos. A prová-
lo estão as profundas mudanças sociais
profundas, pelo menos quanto ao seu
contributo para o progresso da humanidade,
do que as desencadeadas na Rússia em 1917
sob a liderança de V.I. Lenine. Há quem
advogue que tais mudanças se ficaram a
dever ao poder dissuasor ou inspirador
da “Revolução”, mas ignora-se que o
capitalismo se “metamorfoseou” e com o
“compromisso histórico” no pós-guerra se
abriu espaço ao Estado providência, que
consagrou conquistas sociais e políticas
infinitamente mais sólidas e avançadas
do que o modelo da ex-URSS. Reconhecer
os dotes revolucionários de líderes como
L. Trotsky e V.I. Lenine não pode inibir-
nos de denunciar os efeitos desumanos
dos jogos de poder e das decisões que
protagonizaram, nomeadamente a
propósito da “questão camponesa”.
Das contradições, conflitos internos,
traições, lutas fratricidas, etc., ocorridas
nos primeiros anos da Revolução (1917-
1923) só algumas décadas depois se foi
tomando conhecimento no Ocidente.
Mas do mesmo modo que a implosão do
campo soviético não se explica com base
em teorias da conspiração, é inegável que
Estaline não caiu do céu nem foi um mero
“desvio” acidental. Parece inquestionável
a relação entre a “revolução real” e o que
se pode chamar “a pintura da revolução”,
isto é, a aura lendária de que se revestiu
posteriormente. Numa primeira fase,
aspetos como a força inicial do marxismo-
leninismo a apontar o caminho do
socialismo (como alternativa ao capitalismo
selvagem), o advento do fascismo na
Europa ocidental, os limites e perversões da
democracia representativa, o crescimento
do movimento comunista internacional,
etc., ajudaram a construir o mito. E mais
tarde, já na vigência do estalinismo, o
papel do Exército Vermelho na derrota
do nazismo contribuiu igualmente para a
glorificação do modelo, sob a liderança do
“pai dos povos” (Estaline), então erigido
em herói. O cenário de Guerra Fria, por
seu lado, apesar de o clima dissuasor ter
ajudado a estimular muitos movimentos
sociais e importantes reformas políticas nas
democracias ocidentais, também fortaleceu
a “cortina de ferro” entre o Leste e o Oeste.
Mas foi principalmente a partir dos
anos 1950, com a difusão de testemunhos
dramáticos de dissidentes como V.
Kravchenko e A. Soljenitsyne e outros
acontecimentos entre os quais as invasões
da Hungria e da Checoslováquia pelos
tanques soviéticos, o conflito com a China
e o florescimento de grupos maoistas nos
anos sessenta, o movimento solidariedade
na Polónia (prenúncio da Perestroika e da
queda do muro de Berlim), fenómenos que
contribuíram para denunciar a natureza
daquele regime. Só então se revelou
Sóapartir
dosanos1950
serevelou
plenamente
oladomais
trágicodo
‘socialismo
real’real
plenamente, e a todo o mundo, o lado mais
trágico do “socialismo real” e as perversões
da “revolução proletária” de 1917. Até essa
altura, o campo soviético e o simbolismo da
revolução ou permaneceram envoltos numa
aura de redenção messiânica (sobretudo
entre a intelectualidade de esquerda, mas
também nos meios operários e sindicais do
mundo ocidental) ou, em contrapartida,
foram diabolizados pelos setores mais
conservadores e anticomunistas do mundo
ocidental. É inquestionável a influência da
Revolução de Outubro e o seu poder de
sedução. Há todo um conjunto de pulsões
vertiginosas que mobilizaram as classes
trabalhadoras à escala internacional,
abrindo espaço a muitos momentos
libertários e emancipatórios, intensamente
vividos por milhões de seres humanos. Mas
ao mesmo tempo na URSS construía-se um
regime implacável para outros milhões de
cidadãos, que foram espiados, perseguidos,
torturados, assassinados e enterrados na
vala comum do regime do Gulag, em nome
do “socialismo”.
Não é aceitável que se confunda a crítica
ao regime soviético e às trágicas evoluções
geradas a partir da tomada do Palácio
de Inverno com uma qualquer atitude
“revolucionário-fóbica” (ou “reacionária”,
“pró-americana”, etc.), como em geral se
pretende fazer crer em alguns meios da
esquerda portuguesa, aqueles que ainda não
se libertaram do facciosismo nessa matéria.
Vale a pena por isso insistir em separar as
águas e recentrar a discussão. Nenhuma
abordagem pode ajudar ao esclarecimento
público se persistir no registo maniqueísta, e
creio que as controvérsias que recentemente
perpassaram no debate público em Portugal
refletiram essa distorção. Talvez o facto
de sermos um país onde o legado do
catolicismo conservador se conjuga com
um legado ainda significativo da ortodoxia
comunista — qualquer deles veiculando
uma moral fundada em velhas dicotomias
simplistas, como a oposição entre o bem
e o mal, entre o céu e o inferno ou entre
revolucionários e reacionários — ajude a
explicar a dificuldade em reconhecer que
o totalitarismo soviético não foi apenas
fruto da “deriva estalinista”, antes já estava
inscrito na própria natureza centralista,
burocrática e autoritária de um sistema
que rapidamente se tornou um viveiro de
“apparatchiks”. Pergunta-se: teria mesmo
de ser assim?... E fará ainda sentido desligar
o “regime bárbaro” em que se tornou a
URSS das premissas ideológicas, disputas
de poder e prática política da “vanguarda
revolucionária” que esteve na sua génese?
ANTON VAGANOV/ REUTERS
Fará ainda sentido desligar
o “regime bárbaro” em
que se tornou a URSS das
premissas ideológicas que
estiveram na sua génese?

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Juventude e rebelioes s 2013 31dez
Juventude e rebelioes s 2013 31dezJuventude e rebelioes s 2013 31dez
Juventude e rebelioes s 2013 31dezElisio Estanque
 
Um outro olhar sobre stálin - Ludo Martens
Um outro olhar sobre stálin - Ludo MartensUm outro olhar sobre stálin - Ludo Martens
Um outro olhar sobre stálin - Ludo MartensJohnny Ribeiro
 
Precariado e luta de classes 15.07.2012
Precariado e luta de classes 15.07.2012Precariado e luta de classes 15.07.2012
Precariado e luta de classes 15.07.2012Elisio Estanque
 
Onde pára o socialismo ee publico_02.06.14
Onde pára o socialismo ee publico_02.06.14Onde pára o socialismo ee publico_02.06.14
Onde pára o socialismo ee publico_02.06.14Elisio Estanque
 
Cornelius castoriadis sobre o conteúdo do socialismo
Cornelius castoriadis  sobre o conteúdo do socialismoCornelius castoriadis  sobre o conteúdo do socialismo
Cornelius castoriadis sobre o conteúdo do socialismotavaresinspetor
 
Pcc da disciplina de literatura brasileira ii
Pcc da disciplina de literatura brasileira iiPcc da disciplina de literatura brasileira ii
Pcc da disciplina de literatura brasileira iiFabinha Lembeck
 
Rccs 103 rebeliao de classe media_pp53-80_ee
Rccs 103 rebeliao de classe media_pp53-80_eeRccs 103 rebeliao de classe media_pp53-80_ee
Rccs 103 rebeliao de classe media_pp53-80_eeElisio Estanque
 
Elites, lideres e revoluções
Elites, lideres e revoluçõesElites, lideres e revoluções
Elites, lideres e revoluçõesElisio Estanque
 
Mov sociais a nova rebelião da classe media eesne_sup2012
Mov sociais  a nova rebelião da classe media eesne_sup2012Mov sociais  a nova rebelião da classe media eesne_sup2012
Mov sociais a nova rebelião da classe media eesne_sup2012Elisio Estanque
 
Rosa luxemburgo versao-web
Rosa luxemburgo versao-webRosa luxemburgo versao-web
Rosa luxemburgo versao-webCláudio Rennó
 
Olavo de carvalho midia sem mascara - parte 3
Olavo de carvalho   midia sem mascara - parte 3Olavo de carvalho   midia sem mascara - parte 3
Olavo de carvalho midia sem mascara - parte 3OLAVO_DE_CARVALHO
 
Ambivalências da sociologia ee 14.04.14
Ambivalências da sociologia ee 14.04.14Ambivalências da sociologia ee 14.04.14
Ambivalências da sociologia ee 14.04.14Elisio Estanque
 
Muq - simionatto. as expressões ideoculturais da crise capitalista na atualid...
Muq - simionatto. as expressões ideoculturais da crise capitalista na atualid...Muq - simionatto. as expressões ideoculturais da crise capitalista na atualid...
Muq - simionatto. as expressões ideoculturais da crise capitalista na atualid...maisumaquestao
 
Expressões ideoculturais da crise capitalista na atualidade e sua influência...
Expressões  ideoculturais da crise capitalista na atualidade e sua influência...Expressões  ideoculturais da crise capitalista na atualidade e sua influência...
Expressões ideoculturais da crise capitalista na atualidade e sua influência...Educação
 
Opinião classe média, beja santos
Opinião classe média, beja santosOpinião classe média, beja santos
Opinião classe média, beja santosElisio Estanque
 
Público 14 rebeliao e resistência organizada 30.09.2012
Público 14 rebeliao e resistência organizada 30.09.2012Público 14 rebeliao e resistência organizada 30.09.2012
Público 14 rebeliao e resistência organizada 30.09.2012Elisio Estanque
 

Mais procurados (18)

Juventude e rebelioes s 2013 31dez
Juventude e rebelioes s 2013 31dezJuventude e rebelioes s 2013 31dez
Juventude e rebelioes s 2013 31dez
 
Um outro olhar sobre stálin - Ludo Martens
Um outro olhar sobre stálin - Ludo MartensUm outro olhar sobre stálin - Ludo Martens
Um outro olhar sobre stálin - Ludo Martens
 
Precariado e luta de classes 15.07.2012
Precariado e luta de classes 15.07.2012Precariado e luta de classes 15.07.2012
Precariado e luta de classes 15.07.2012
 
Onde pára o socialismo ee publico_02.06.14
Onde pára o socialismo ee publico_02.06.14Onde pára o socialismo ee publico_02.06.14
Onde pára o socialismo ee publico_02.06.14
 
Cornelius castoriadis sobre o conteúdo do socialismo
Cornelius castoriadis  sobre o conteúdo do socialismoCornelius castoriadis  sobre o conteúdo do socialismo
Cornelius castoriadis sobre o conteúdo do socialismo
 
Pcc da disciplina de literatura brasileira ii
Pcc da disciplina de literatura brasileira iiPcc da disciplina de literatura brasileira ii
Pcc da disciplina de literatura brasileira ii
 
Rccs 103 rebeliao de classe media_pp53-80_ee
Rccs 103 rebeliao de classe media_pp53-80_eeRccs 103 rebeliao de classe media_pp53-80_ee
Rccs 103 rebeliao de classe media_pp53-80_ee
 
Elites, lideres e revoluções
Elites, lideres e revoluçõesElites, lideres e revoluções
Elites, lideres e revoluções
 
Mov sociais a nova rebelião da classe media eesne_sup2012
Mov sociais  a nova rebelião da classe media eesne_sup2012Mov sociais  a nova rebelião da classe media eesne_sup2012
Mov sociais a nova rebelião da classe media eesne_sup2012
 
Raymundo Faoro
Raymundo FaoroRaymundo Faoro
Raymundo Faoro
 
Fluzz pilulas 54
Fluzz pilulas 54Fluzz pilulas 54
Fluzz pilulas 54
 
Rosa luxemburgo versao-web
Rosa luxemburgo versao-webRosa luxemburgo versao-web
Rosa luxemburgo versao-web
 
Olavo de carvalho midia sem mascara - parte 3
Olavo de carvalho   midia sem mascara - parte 3Olavo de carvalho   midia sem mascara - parte 3
Olavo de carvalho midia sem mascara - parte 3
 
Ambivalências da sociologia ee 14.04.14
Ambivalências da sociologia ee 14.04.14Ambivalências da sociologia ee 14.04.14
Ambivalências da sociologia ee 14.04.14
 
Muq - simionatto. as expressões ideoculturais da crise capitalista na atualid...
Muq - simionatto. as expressões ideoculturais da crise capitalista na atualid...Muq - simionatto. as expressões ideoculturais da crise capitalista na atualid...
Muq - simionatto. as expressões ideoculturais da crise capitalista na atualid...
 
Expressões ideoculturais da crise capitalista na atualidade e sua influência...
Expressões  ideoculturais da crise capitalista na atualidade e sua influência...Expressões  ideoculturais da crise capitalista na atualidade e sua influência...
Expressões ideoculturais da crise capitalista na atualidade e sua influência...
 
Opinião classe média, beja santos
Opinião classe média, beja santosOpinião classe média, beja santos
Opinião classe média, beja santos
 
Público 14 rebeliao e resistência organizada 30.09.2012
Público 14 rebeliao e resistência organizada 30.09.2012Público 14 rebeliao e resistência organizada 30.09.2012
Público 14 rebeliao e resistência organizada 30.09.2012
 

Semelhante a Direitos autorais e conteúdos do jornal Público

Biia trabalhoo'
Biia trabalhoo'Biia trabalhoo'
Biia trabalhoo'beealimaaa
 
Euforia das Invenções
Euforia das InvençõesEuforia das Invenções
Euforia das InvençõesMichele Pó
 
5º Bloco 5 O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...
5º Bloco   5   O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...5º Bloco   5   O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...
5º Bloco 5 O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...Wladimir Crippa
 
5º Bloco 5 O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...
5º Bloco   5   O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...5º Bloco   5   O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...
5º Bloco 5 O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...Wladimir Crippa
 
O mundo diante da contrarevolução neoliberal
O mundo diante da contrarevolução neoliberalO mundo diante da contrarevolução neoliberal
O mundo diante da contrarevolução neoliberalFernando Alcoforado
 
101 a crise do socialismo polones
101 a crise do socialismo polones101 a crise do socialismo polones
101 a crise do socialismo polonesTarcísio Junior
 
Uma polêmica sobre as frentes "antineoliberais" e os "partidos amplos anticap...
Uma polêmica sobre as frentes "antineoliberais" e os "partidos amplos anticap...Uma polêmica sobre as frentes "antineoliberais" e os "partidos amplos anticap...
Uma polêmica sobre as frentes "antineoliberais" e os "partidos amplos anticap...Alessandro de Moura
 
5º Bloco 2 As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico Ronaldo C...
5º Bloco   2   As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico   Ronaldo C...5º Bloco   2   As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico   Ronaldo C...
5º Bloco 2 As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico Ronaldo C...Wladimir Crippa
 
5º Bloco 2 As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico Ronaldo C...
5º Bloco   2   As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico   Ronaldo C...5º Bloco   2   As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico   Ronaldo C...
5º Bloco 2 As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico Ronaldo C...Wladimir Crippa
 
Florestan fernandes nova republica
Florestan fernandes   nova republicaFlorestan fernandes   nova republica
Florestan fernandes nova republicaDaylson Lima
 
As matancas-de-anarquistas-na-rev-russa
As matancas-de-anarquistas-na-rev-russaAs matancas-de-anarquistas-na-rev-russa
As matancas-de-anarquistas-na-rev-russamoratonoise
 
RAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdf
RAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdfRAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdf
RAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdfElisaCaetano12
 
9º hist -_guia_estudos__1º_cl
9º hist -_guia_estudos__1º_cl9º hist -_guia_estudos__1º_cl
9º hist -_guia_estudos__1º_clemalfredocastro
 
Como nasceu e como morreu o marxismo ocidental
Como nasceu e como morreu o marxismo ocidentalComo nasceu e como morreu o marxismo ocidental
Como nasceu e como morreu o marxismo ocidentalCésar Pereira
 

Semelhante a Direitos autorais e conteúdos do jornal Público (20)

Biia trabalhoo'
Biia trabalhoo'Biia trabalhoo'
Biia trabalhoo'
 
Ma000010
Ma000010Ma000010
Ma000010
 
O Estado e a Revolução
O Estado e a RevoluçãoO Estado e a Revolução
O Estado e a Revolução
 
Euforia das Invenções
Euforia das InvençõesEuforia das Invenções
Euforia das Invenções
 
5º Bloco 5 O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...
5º Bloco   5   O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...5º Bloco   5   O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...
5º Bloco 5 O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...
 
5º Bloco 5 O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...
5º Bloco   5   O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...5º Bloco   5   O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...
5º Bloco 5 O Programa Socialista Para O Brasil E A Nova Luta Pelo Sociali...
 
O mundo diante da contrarevolução neoliberal
O mundo diante da contrarevolução neoliberalO mundo diante da contrarevolução neoliberal
O mundo diante da contrarevolução neoliberal
 
101 a crise do socialismo polones
101 a crise do socialismo polones101 a crise do socialismo polones
101 a crise do socialismo polones
 
ATIVIDADE REVOLUÇÃO RUSSA.pdf
ATIVIDADE REVOLUÇÃO RUSSA.pdfATIVIDADE REVOLUÇÃO RUSSA.pdf
ATIVIDADE REVOLUÇÃO RUSSA.pdf
 
Uma polêmica sobre as frentes "antineoliberais" e os "partidos amplos anticap...
Uma polêmica sobre as frentes "antineoliberais" e os "partidos amplos anticap...Uma polêmica sobre as frentes "antineoliberais" e os "partidos amplos anticap...
Uma polêmica sobre as frentes "antineoliberais" e os "partidos amplos anticap...
 
5º Bloco 2 As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico Ronaldo C...
5º Bloco   2   As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico   Ronaldo C...5º Bloco   2   As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico   Ronaldo C...
5º Bloco 2 As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico Ronaldo C...
 
5º Bloco 2 As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico Ronaldo C...
5º Bloco   2   As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico   Ronaldo C...5º Bloco   2   As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico   Ronaldo C...
5º Bloco 2 As RevoluçõEs Do SéC. Xx E O Significado HistóRico Ronaldo C...
 
Que Fazer?
Que Fazer?Que Fazer?
Que Fazer?
 
Florestan fernandes nova republica
Florestan fernandes   nova republicaFlorestan fernandes   nova republica
Florestan fernandes nova republica
 
As matancas-de-anarquistas-na-rev-russa
As matancas-de-anarquistas-na-rev-russaAs matancas-de-anarquistas-na-rev-russa
As matancas-de-anarquistas-na-rev-russa
 
Cpj ff
Cpj ffCpj ff
Cpj ff
 
3° Ano 2023.pdf
3° Ano 2023.pdf3° Ano 2023.pdf
3° Ano 2023.pdf
 
RAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdf
RAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdfRAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdf
RAGO_Margareth_O efeito Foucault na historiografia brasileira.pdf
 
9º hist -_guia_estudos__1º_cl
9º hist -_guia_estudos__1º_cl9º hist -_guia_estudos__1º_cl
9º hist -_guia_estudos__1º_cl
 
Como nasceu e como morreu o marxismo ocidental
Como nasceu e como morreu o marxismo ocidentalComo nasceu e como morreu o marxismo ocidental
Como nasceu e como morreu o marxismo ocidental
 

Mais de Elisio Estanque

O outro lado da revol (ii) publico20180215
O outro lado da revol (ii) publico20180215O outro lado da revol (ii) publico20180215
O outro lado da revol (ii) publico20180215Elisio Estanque
 
Uma 'geringonça' para o Brasil?
Uma 'geringonça' para o Brasil?Uma 'geringonça' para o Brasil?
Uma 'geringonça' para o Brasil?Elisio Estanque
 
Entre o populismo e o euroceticismo
Entre o populismo e o euroceticismo Entre o populismo e o euroceticismo
Entre o populismo e o euroceticismo Elisio Estanque
 
Ee juventude bloqueada (ii) publico_2017.05
Ee juventude bloqueada (ii) publico_2017.05Ee juventude bloqueada (ii) publico_2017.05
Ee juventude bloqueada (ii) publico_2017.05Elisio Estanque
 
Ee juventude bloqueada (i) publico_18.05.17
Ee juventude bloqueada (i) publico_18.05.17Ee juventude bloqueada (i) publico_18.05.17
Ee juventude bloqueada (i) publico_18.05.17Elisio Estanque
 
Passado e futuro do trabalho (II)
Passado e futuro do trabalho (II)Passado e futuro do trabalho (II)
Passado e futuro do trabalho (II)Elisio Estanque
 
Passado e futuro do trabalho (I)
Passado e futuro do trabalho (I)Passado e futuro do trabalho (I)
Passado e futuro do trabalho (I)Elisio Estanque
 
Os 'lambe cus', público_27.10.2016
Os 'lambe cus', público_27.10.2016Os 'lambe cus', público_27.10.2016
Os 'lambe cus', público_27.10.2016Elisio Estanque
 
Ee_publico_entrevista-1
  Ee_publico_entrevista-1  Ee_publico_entrevista-1
Ee_publico_entrevista-1Elisio Estanque
 
Praxe vs comandos_publico_2016.09.20
  Praxe vs comandos_publico_2016.09.20  Praxe vs comandos_publico_2016.09.20
Praxe vs comandos_publico_2016.09.20Elisio Estanque
 
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016Elisio Estanque
 
Des globalização do trabalho ee
Des globalização do trabalho eeDes globalização do trabalho ee
Des globalização do trabalho eeElisio Estanque
 
Alentejo ee público_11.03.2016
Alentejo ee público_11.03.2016Alentejo ee público_11.03.2016
Alentejo ee público_11.03.2016Elisio Estanque
 
03_english_rccs annual review_e_estanque_rev2
  03_english_rccs annual review_e_estanque_rev2  03_english_rccs annual review_e_estanque_rev2
03_english_rccs annual review_e_estanque_rev2Elisio Estanque
 
(Des)globalização do trabalho publico 2016.07.14
(Des)globalização do trabalho publico 2016.07.14(Des)globalização do trabalho publico 2016.07.14
(Des)globalização do trabalho publico 2016.07.14Elisio Estanque
 
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016Elisio Estanque
 
Alentejo ee público_11.03.2016
Alentejo ee público_11.03.2016Alentejo ee público_11.03.2016
Alentejo ee público_11.03.2016Elisio Estanque
 
Uma critica construtiva ao sindicalismo
Uma critica construtiva ao sindicalismoUma critica construtiva ao sindicalismo
Uma critica construtiva ao sindicalismoElisio Estanque
 
Rebeliao de classe media_precariedade de movimentos sociais
Rebeliao de classe media_precariedade de movimentos sociaisRebeliao de classe media_precariedade de movimentos sociais
Rebeliao de classe media_precariedade de movimentos sociaisElisio Estanque
 
Middle class rebellions_2015
Middle class rebellions_2015Middle class rebellions_2015
Middle class rebellions_2015Elisio Estanque
 

Mais de Elisio Estanque (20)

O outro lado da revol (ii) publico20180215
O outro lado da revol (ii) publico20180215O outro lado da revol (ii) publico20180215
O outro lado da revol (ii) publico20180215
 
Uma 'geringonça' para o Brasil?
Uma 'geringonça' para o Brasil?Uma 'geringonça' para o Brasil?
Uma 'geringonça' para o Brasil?
 
Entre o populismo e o euroceticismo
Entre o populismo e o euroceticismo Entre o populismo e o euroceticismo
Entre o populismo e o euroceticismo
 
Ee juventude bloqueada (ii) publico_2017.05
Ee juventude bloqueada (ii) publico_2017.05Ee juventude bloqueada (ii) publico_2017.05
Ee juventude bloqueada (ii) publico_2017.05
 
Ee juventude bloqueada (i) publico_18.05.17
Ee juventude bloqueada (i) publico_18.05.17Ee juventude bloqueada (i) publico_18.05.17
Ee juventude bloqueada (i) publico_18.05.17
 
Passado e futuro do trabalho (II)
Passado e futuro do trabalho (II)Passado e futuro do trabalho (II)
Passado e futuro do trabalho (II)
 
Passado e futuro do trabalho (I)
Passado e futuro do trabalho (I)Passado e futuro do trabalho (I)
Passado e futuro do trabalho (I)
 
Os 'lambe cus', público_27.10.2016
Os 'lambe cus', público_27.10.2016Os 'lambe cus', público_27.10.2016
Os 'lambe cus', público_27.10.2016
 
Ee_publico_entrevista-1
  Ee_publico_entrevista-1  Ee_publico_entrevista-1
Ee_publico_entrevista-1
 
Praxe vs comandos_publico_2016.09.20
  Praxe vs comandos_publico_2016.09.20  Praxe vs comandos_publico_2016.09.20
Praxe vs comandos_publico_2016.09.20
 
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
 
Des globalização do trabalho ee
Des globalização do trabalho eeDes globalização do trabalho ee
Des globalização do trabalho ee
 
Alentejo ee público_11.03.2016
Alentejo ee público_11.03.2016Alentejo ee público_11.03.2016
Alentejo ee público_11.03.2016
 
03_english_rccs annual review_e_estanque_rev2
  03_english_rccs annual review_e_estanque_rev2  03_english_rccs annual review_e_estanque_rev2
03_english_rccs annual review_e_estanque_rev2
 
(Des)globalização do trabalho publico 2016.07.14
(Des)globalização do trabalho publico 2016.07.14(Des)globalização do trabalho publico 2016.07.14
(Des)globalização do trabalho publico 2016.07.14
 
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
Queima das fitas alcoolizada publico 14.05.2016
 
Alentejo ee público_11.03.2016
Alentejo ee público_11.03.2016Alentejo ee público_11.03.2016
Alentejo ee público_11.03.2016
 
Uma critica construtiva ao sindicalismo
Uma critica construtiva ao sindicalismoUma critica construtiva ao sindicalismo
Uma critica construtiva ao sindicalismo
 
Rebeliao de classe media_precariedade de movimentos sociais
Rebeliao de classe media_precariedade de movimentos sociaisRebeliao de classe media_precariedade de movimentos sociais
Rebeliao de classe media_precariedade de movimentos sociais
 
Middle class rebellions_2015
Middle class rebellions_2015Middle class rebellions_2015
Middle class rebellions_2015
 

Direitos autorais e conteúdos do jornal Público

  • 1. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A. Público • Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2018 • 47 ESPAÇOPÚBLICO ocorridas nas sociedades ocidentais ao longo do século XX suscetíveis de serem associadas, direta ou indiretamente, ao triunfo dos bolcheviques e ao movimento comunista. É verdade que o capitalismo neoliberal tem vindo, nas últimas décadas, a colonizar as instituições democráticas, corroendo- lhes o seu potencial reformador e minando a própria democracia. Mas o capitalismo enquanto sistema socioeconómico metamorfoseou- se profundamente desde 1917, tornou-se mais difuso, adaptável e sobretudo incorporou-se em muitas esferas da sociedade e nos hábitos de vida e de consumo das populações: dos ricos, dos pobres e das classes médias. Em especial na era da globalização, os campos económico, educacional, tecnológico, comunicacional, etc., sofreram profundas transformações. Seguramente mais ProfessordaFaculdadedeEconomia einvestigadordoCentrodeEstudos SociaisdaUniversidadedeCoimbra ElísioEstanque O outro lado da revolução (I) A recente comemoração do centenário da Revolução de Outubro de 1917 refletiu- se em Portugal na profusão de posições públicas, quase sempre em confronto umas com as outras, ora glorificando e justificando, ora denunciando e demonizando aquele acontecimento histórico. Trata-se aqui de ensaiar uma outra leitura que presumo “desalinhada”, não tanto sobre os acontecimentos em si, mas mais sobre o processo de mitificação da “revolução proletária” e o seu impacto no mundo ocidental. Datas redondas são sempre bons pretextos para celebrar ou repensar as grandes efemérides. Já se sabe que as celebrações oficiais de atos fundacionais, batalhas ou revoluções — com maiores ou menores aparatos e desfiles militares — tendem a exprimir as roupagens coloridas, e ritualizadas, de que as instituições do Estado se autoalimentam. Nem precisamos de lembrar as demonstrações de poderio (real ou aparente, mas sempre ostentatório) que fazem parte do código genético de regimes políticos (autoritários ou democráticos) das mais diversas matizes. Uma revolução assim celebrada, seja ela a Revolução de Outubro ou a do nosso 25 de Abril, por exemplo, torna-se um cliché, uma pintura naive emoldurada para adornar as paredes cinzentas do establishment. É assim que, para lá da controvérsia que se gerou em 2017 com as leituras contrastantes da revolução bolchevique, é importante libertar a análise dos múltiplos preconceitos e referenciais ideológicos que rodeiam o tema (e enviesam a busca de objetividade que deve guiar a historiografia). O regresso analítico ao background histórico da Revolução de Outubro, incluindo os seus antecedentes e consequências, exige, portanto, um esforço epistemológico de revisitação do próprio background concetual da noção de “revolução” (aspeto que tratarei num próximo artigo). Como bem sabemos, a importância da Revolução soviética — ontem e hoje — está para além dos próprios acontecimentos. A prová- lo estão as profundas mudanças sociais profundas, pelo menos quanto ao seu contributo para o progresso da humanidade, do que as desencadeadas na Rússia em 1917 sob a liderança de V.I. Lenine. Há quem advogue que tais mudanças se ficaram a dever ao poder dissuasor ou inspirador da “Revolução”, mas ignora-se que o capitalismo se “metamorfoseou” e com o “compromisso histórico” no pós-guerra se abriu espaço ao Estado providência, que consagrou conquistas sociais e políticas infinitamente mais sólidas e avançadas do que o modelo da ex-URSS. Reconhecer os dotes revolucionários de líderes como L. Trotsky e V.I. Lenine não pode inibir- nos de denunciar os efeitos desumanos dos jogos de poder e das decisões que protagonizaram, nomeadamente a propósito da “questão camponesa”. Das contradições, conflitos internos, traições, lutas fratricidas, etc., ocorridas nos primeiros anos da Revolução (1917- 1923) só algumas décadas depois se foi tomando conhecimento no Ocidente. Mas do mesmo modo que a implosão do campo soviético não se explica com base em teorias da conspiração, é inegável que Estaline não caiu do céu nem foi um mero “desvio” acidental. Parece inquestionável a relação entre a “revolução real” e o que se pode chamar “a pintura da revolução”, isto é, a aura lendária de que se revestiu posteriormente. Numa primeira fase, aspetos como a força inicial do marxismo- leninismo a apontar o caminho do socialismo (como alternativa ao capitalismo selvagem), o advento do fascismo na Europa ocidental, os limites e perversões da democracia representativa, o crescimento do movimento comunista internacional, etc., ajudaram a construir o mito. E mais tarde, já na vigência do estalinismo, o papel do Exército Vermelho na derrota do nazismo contribuiu igualmente para a glorificação do modelo, sob a liderança do “pai dos povos” (Estaline), então erigido em herói. O cenário de Guerra Fria, por seu lado, apesar de o clima dissuasor ter ajudado a estimular muitos movimentos sociais e importantes reformas políticas nas democracias ocidentais, também fortaleceu a “cortina de ferro” entre o Leste e o Oeste. Mas foi principalmente a partir dos anos 1950, com a difusão de testemunhos dramáticos de dissidentes como V. Kravchenko e A. Soljenitsyne e outros acontecimentos entre os quais as invasões da Hungria e da Checoslováquia pelos tanques soviéticos, o conflito com a China e o florescimento de grupos maoistas nos anos sessenta, o movimento solidariedade na Polónia (prenúncio da Perestroika e da queda do muro de Berlim), fenómenos que contribuíram para denunciar a natureza daquele regime. Só então se revelou Sóapartir dosanos1950 serevelou plenamente oladomais trágicodo ‘socialismo real’real plenamente, e a todo o mundo, o lado mais trágico do “socialismo real” e as perversões da “revolução proletária” de 1917. Até essa altura, o campo soviético e o simbolismo da revolução ou permaneceram envoltos numa aura de redenção messiânica (sobretudo entre a intelectualidade de esquerda, mas também nos meios operários e sindicais do mundo ocidental) ou, em contrapartida, foram diabolizados pelos setores mais conservadores e anticomunistas do mundo ocidental. É inquestionável a influência da Revolução de Outubro e o seu poder de sedução. Há todo um conjunto de pulsões vertiginosas que mobilizaram as classes trabalhadoras à escala internacional, abrindo espaço a muitos momentos libertários e emancipatórios, intensamente vividos por milhões de seres humanos. Mas ao mesmo tempo na URSS construía-se um regime implacável para outros milhões de cidadãos, que foram espiados, perseguidos, torturados, assassinados e enterrados na vala comum do regime do Gulag, em nome do “socialismo”. Não é aceitável que se confunda a crítica ao regime soviético e às trágicas evoluções geradas a partir da tomada do Palácio de Inverno com uma qualquer atitude “revolucionário-fóbica” (ou “reacionária”, “pró-americana”, etc.), como em geral se pretende fazer crer em alguns meios da esquerda portuguesa, aqueles que ainda não se libertaram do facciosismo nessa matéria. Vale a pena por isso insistir em separar as águas e recentrar a discussão. Nenhuma abordagem pode ajudar ao esclarecimento público se persistir no registo maniqueísta, e creio que as controvérsias que recentemente perpassaram no debate público em Portugal refletiram essa distorção. Talvez o facto de sermos um país onde o legado do catolicismo conservador se conjuga com um legado ainda significativo da ortodoxia comunista — qualquer deles veiculando uma moral fundada em velhas dicotomias simplistas, como a oposição entre o bem e o mal, entre o céu e o inferno ou entre revolucionários e reacionários — ajude a explicar a dificuldade em reconhecer que o totalitarismo soviético não foi apenas fruto da “deriva estalinista”, antes já estava inscrito na própria natureza centralista, burocrática e autoritária de um sistema que rapidamente se tornou um viveiro de “apparatchiks”. Pergunta-se: teria mesmo de ser assim?... E fará ainda sentido desligar o “regime bárbaro” em que se tornou a URSS das premissas ideológicas, disputas de poder e prática política da “vanguarda revolucionária” que esteve na sua génese? ANTON VAGANOV/ REUTERS Fará ainda sentido desligar o “regime bárbaro” em que se tornou a URSS das premissas ideológicas que estiveram na sua génese?