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Antropologia
Profa. Vera Cristina de Souza




           SEMIPRESENCIAL
Vera Cristina de Souza




ANTROPOLOGIA
Cursos Semipresenciais
SUMÁRIO

          PARTE I – TEORIA ANTROPOLÓGICA                              6
1         ANTROPOLOGIA                                                6
1.1       O QUE É ANTROPOLOGIA?                                       6
1.1.1     Cultura                                                     6
1.1.1.1   Pluralidades                                                7
1.1.1.2   Diversidades                                                7
1.1.1.3   Julgamento de Valor                                         8
1.2       QUAIS SÃO OS SEUS OBJETIVOS? PARA QUE SERVE?                8
1.2.1     Sociologia                                                  9
1.2.2     O Assistente Social e a Ciência Antropológica: “Qual é a    9
          Importância do Estudo da Disciplina de Antropologia para
          o Estudante do Curso de Serviço Social?”
2         CIÊNCIA,        CONHECIMENTO         CIENTÍFICO       E    11
          CONHECIMENTO DE SENSO COMUM
2.1       A ESPECIFICIDADE DA METODOLOGIA DOS ESTUDOS E              11
          DAS PESQUISAS ANTROPOLÓGICAS
2.1.1     Metodologia Científica - Como Proceder ao Estudo           11
          Antropológico?
2.1.1.1   Multidiciplinaridade                                       11
2.1.1.2   Empírico / Empirismo                                       11
2.1.1.3   Epistemologia                                              12
2.1.1.4   Senso Comum                                                12
2.2       A ETNOGRAFIA E A ETNOLOGIA: DE QUE FORMA                   12
          OCORRE O ESTUDO ANTROPOLÓGICO?
2.2.1     Etnografia                                                 13
2.2.2     Etnologia                                                  13
2.3       O CONCEITO DE NEUTRALIDADE – ÉMILE DURKHEIM                13
2.4       ALGUNS CONCEITOS ANTROPOLOGICOS IMPORTANTES                14
2.4.1     Estruturas Familiares                                      14
2.4.1.1   Sistema Monogâmico                                         15
2.4.1.2   Sistema Bigâmico                                           15
2.4.1.3    Sistema Poligâmico                                             15
2.4.1.4    Endogamia                                                      15
2.4.1.5    Exogamia                                                       15
2.4.2      Etnocentrismo                                                  16
2.4.3      Selvagem / Bárbaro / Primitivo                                 16
2.4.4      Xenofobia                                                      16
2.4.5      Eugenia                                                        17
2.4.6      Raça                                                           18
2.4.7      Cor                                                            19
2.4.8      Etnia                                                          19
2.4.9      Racismo                                                        19
2.4.10     Discriminação                                                  19
2.4.11     Preconceitos                                                   19
2.4.12     Aculturação / Assimilação                                      20
2.4.13     Sincretismo Religioso                                          21
2.4.14     Relativismo Cultural (RC)                                      22
2.4.14.1   Selvagens, Brutos e Ignorantes                                 23
2.4.14.2   Dóceis,    Ingênuos,     Bestializados,   Sem   Razão,   Sem   23
           Raciocínio
2.4.15     Representações Sociais                                         24
3          AS PRINCIPAIS ESCOLAS DO PENSAMENTO                            26
           ANTROPOLÓGICO CLÁSSICO
3.1        AS PRINCIPAIS ESCOLAS                                          26
3.1.1      Escola Evolucionista: Século XIX                               26
3.1.1.1    Características Principais                                     26
3.1.1.2    Referências Literárias                                         27
3.1.2      Escola Sociológica Francesa: Século XIX / XX                   28
3.1.2.1    Características Principais                                     28
3.1.2.2    Referências Literárias                                         28
3.1.3      Escola Funcionalista: Século XX (Anos 20)                      28
3.1.3.1    Características Principais                                     28
3.1.3.2    Referências Literárias                                         29
3.1.4      Escola Culturalista: Século XX (Anos 30)                       29
3.1.4.1   Características Principais                                 29
3.1.4.2   Referências Literárias                                     29
3.1.5     Escola Estruturalista: Século XX (Anos 40)                 30
3.1.5.1   Características Principais                                 30
3.1.5.2   Referências Literárias                                     30
3.1.6     Escola Interpretativa: Século XX (Anos 60)                 30
3.1.6.1   Características Principais                                 30
3.1.6.2   Referências Literárias                                     30
3.1.7     Escola Crítica (Pós-moderna): Século XX (Anos 80)          31
3.1.7.1   Características Principais                                 31
3.1.7.2   Referência Literária                                       31
3.2       OS CINCO POLOS DO ESTUDO ANTROPOLÓGICO                     31
3.2.1     Antroplogia Simbólica                                      31
3.2.2     Antropologia Social                                        31
3.2.3     Antropologia Cultural                                      32
3.2.4     Antropologia Estrutural e Sistêmica                        32
3.2.5     Antroplogia Dinâmica                                       32
          PARTE II – CLÁSSICOS DA ANTROPOLOGIA                       33
          BRASILEIRA
4         APRESENTAÇÃO À OBRA “CASA GRANDE E                         34
          SENZALA”, GILBERTO FREYRE
4.1       GILBERTO FREYRE                                            34
4.1.1     Vida e Obra                                                34
4.1.2     Casa Grande e Senzala                                      34
4.1.2.1   Como Ocorreu a Formação da Sociedade Brasileira?           35
4.1.2.2   O Indígena                                                 36
4.1.2.3   O Negro Africano no Brasil                                 38
5         APRESENTAÇÃO             À     OBRA          “O     POVO   39
          BRASILEIRO”, DE DARCY RIBEIRO
5.1       DARCY RIBEIRO                                              39
5.1.1     Biografia                                                  39
5.1.2     O Povo Brasileiro                                          39
5.1.2.1   Os Mamelucos e a Miscigenação Indígena                  42
5.1.2.2   A População Negra Brasileira: o Negro Africano          43
5.1.2.3   A Mestiçagem e o Item Cor - a “Ninguendade” do Mulato   47
          Brasileiro
5.1.2.4   O Moinho de Gastar Gente: Classes e Contradição de      49
          Classes
5.1.2.5   As Mulheres Brasileiras                                 51
          CONSIDERAÇÕES FINAIS                                    53
          REFERÊNCIAS                                             54
6



PARTE I – TEORIA ANTROPOLÓGICA



1 ANTROPOLOGIA



1.1 O QUE É ANTROPOLOGIA?



            Antropo origina do grego e significa homem. Logia, de origem
igualmente grega, quer dizer estudo. Então, o nosso desafio é conhecer, estudar o
homem, sob a perspectiva antropológica.
            Para tanto, utilizar-nos-emos das quatro áreas de conhecimento ou áreas
do saber humano1 em que se divide a Antropologia, ou seja: 1. Antropologia Física
ou Biológica (aspectos orgânicos), 2. Antropologia Cultural (símbolos, mitos, ritos,
valores); 3. Antropologia Social (organização social, econômica, política, jurídica) e
4. Arqueologia2 (sociedades antigas, existentes ou não).
            O objeto da Antropologia é o estudo dos diferentes comportamentos
sociais e culturais exercidos pelos distintos grupos humanos.
            E o que é cultura?



1.1.1 Cultura



            São os hábitos, costumes, expressões linguísticas, danças, alimentação,
religião, crenças, valores, estrutura familiar, diversão, enfim, o modo, o estilo de
vida de cada grupo populacional que compõe as sociedades.
            Mediante o estudo antropológico - ou o estudo do homem -, é possível
conhecermos o homem e a sua interação com seu meio cultural. O homem produz
e reproduz a sua própria cultura. A Antropologia estuda a especificidade cultural de
cada povo, de cada grupo social, de cada realidade cultural.


1
 Áreas onde há concentração e profundidade de estudos específicos.
2
 Arqueologia: arque “archaios” vem do grego e significa antigo. Então, arqueologia significa o estudo
de sociedades tradicionais, antigas – existentes ou não – mediante as suas culturas, arquiteturas,
artes etc.
7



           A Antropologia busca investigar, compreender, e, sobretudo, respeitar e
considerar aquilo que é tido como diferente, distinto, em uma dada sociedade. Busca
considerar as pluralidades sem emitir julgamentos de valor.
           E o que são pluralidades?



1.1.1.1 Pluralidades



           Como o próprio nome diz, pluralidade vem da palavra plural: muitos,
vários, diferentes, distintos. O oposto à pluralidade é a singularidade (único, um).
           Nós, seres humanos, vivemos em sociedade e somos diferentes uns dos
outros, ou seja, somos plurais. Esta diferença não significa superioridade ou
inferioridade e sim, diversidade.
           E o que são diversidades?



1.1.1.2 Diversidades



           Diversidade significa diversos, diferentes. Os homens são diversos,
diferentes entre si. Diferenciamo-nos uns dos outros por vários fatores, por várias
características: distintas raças/etnias (brancos, negros, japoneses, judeus, ciganos,
índios etc.), distintas nacionalidades (brasileiros, americanos, japoneses, franceses,
alemães etc.), distintas naturalidades (paulistas, baianos, cariocas, recifenses,
mato-grossenses etc.), distintos estereótipos, tipos físicos (baixo, alto, gordo, magro
etc.), distintas religiões (catolicismo, protestantismo, candoblecismo etc.), distintas
culinárias típicas (acarajé e vatapá, na Bahia; churrasco, no Rio Grande do Sul
etc.), entre outras características culturais.
           O desenvolvimento ou a aplicação dos estudos antropológicos devem
fundamentalmente ocorrer sem que o pesquisador3, o antropólogo, utilze-se de seus
valores, de suas próprias crenças. Para tanto, é necessário que ele se dispa de
todos e quaisquer julgamentos de valor.


3
  No universo acadêmico, o profissional de quaisquer áreas do saber pode, se assim desejar,
enveredar-se, debruçar-se sobre o estudo de um tema específico, um assunto que lhe chama a
atenção, que lhe atrai, desenvolvendo sobre ele novos estudos e pesquisas em profundidade.
8



             E o que significa julgamento de valor?



1.1.1.3 Julgamento de Valor



             São práticas etnocêntricas4 (o homem no centro do universo) que julgam
a cultura, o comportamento, a forma de ser, de se relacionar a partir de seus
próprios valores. Atribui valores ao “outro” de acordo com aquilo que considera ser o
correto, o justo, o aplicável. É uma visão que despreza o conceito5 de diversidades e
se ocupa do conceito de superioridade. Parte da crença que tem o poder, o domínio
da verdade.



1.2 QUAIS SÃO OS SEUS OBJETIVOS? PARA QUE SERVE?



             Como vimos, a Antropolgia - também conhecida como a “ciência da
humanidade” - ocupa-se do estudo das diferenças culturais ou das diversidades
culturais. Ao cumprir os seus objetivos, ou seja, investigar e compreender as
especificidades culturais do “outro”, tem como maior missão demostrar que
diferenças     culturais   não   significam    desigualdades       culturais,   não    cabendo
valorações. Trata-se, portanto, de respeitar as diferenças.
             Cabe chamar a atenção que, em larga medida, quando adentramos no
universo antropológico, remetemo-nos ao campo dos estudos sociológicos.
             E o que é Sociologia?




4
  Adiante trataremos com mais vagar sobre o conceito de “etnocentrismo”.
5
  Conceitos: São significados, idéias, pensamentos oriundos de estudos e pesquisas. Os conceitos
podem variar de acordo com as definições atribuídas a eles pelo pesquisador, ou seja, um conceito
poderá ter mais de um significado. Dessa forma, é necessário utilizarmos aquele que expressa o
nosso pensamento. Exemplo: vários autores desenvolvem e adotam distintos conceitos sobre
“classes médias”: a) posso referir-me a uma pessoa como sendo de classe média de acordo com os
bens materiais que possui ou b) posso referir-me a ela somente pelo nível de escolaridade
independente de suas posses ou c) por ambos.
9



1.2.1 Sociologia



           Palavra híbrida (socio vem do latim e quer dizer sociedade / logia origina
do grego e significa estudo). Assim, Sociologia é o estudo da sociedade, dos
comportamentos, instituições, práticas sociais.
           Percebam     que   a     Antropologia   se   propõe    ao    estudo   dos
comportamentos individuais inseridos nos contextos sociais. Dessa forma, as
diferenças entre os saberes sociológicos e os antropológicos são tênues, quase
imperceptíveis, e estão basicamente voltados à metodologia de investigações
científicas aplicadas quais sejam as técnicas, quantitativas e qualitativas. Enquanto
a Sociologia privilegia os resultados mensuráveis, estatísticos, a Antropologia, por
sua vez, preocupa-se com a história oral, com o dizível, com o relatado. Há de se
notar que tais práticas não são rígidas mas, sim, complementares, uma vez que se
somam, completam-se, confluem-se.



1.2.2 O Assistente Social e a Ciência Antropológica: “Qual é a Importância do
Estudo da Disciplina de Antropologia para o Estudante do Curso de Serviço
Social?”



           Inicialmente, cabe dizer que a aplicação dos conhecimentos advindos das
ciências sociais é pertinente a todas as áreas do saber humano. Como visto, a
Antropologia ao valorizar as diversidades culturais, refuta as práticas associadas aos
julgamentos de valores ou práticas etnocêntricas. A fim de tornar ainda mais
compreensível a importância disto, François Laplantine (2000) nos apresenta, entre
outros, o conceito de alteridade.
           Nós seres humanos - enquanto seres individuais - não vivemos sozinhos,
não nos bastamos e, portanto, dependemos do outro para viver estabelecendo,
consequentemente, relações sociais e interpessoais.
           Tais relações, por sua vez, são distintas umas das outras, já que os
homens - no que tange aos aspectos subjetivos - diferenciam-se entre si, de acordo
com sua cultura, seus valores, suas emoções. Logo, independente de nossa
vontade, deparamo-nos com o “outro” exitente na sociedade. Dessa forma,
10



deparando-nos com o “diferente”, e mediante a respectiva reflexão, reconhecemo-
nos em nossa própria cultura. A esse respeito, nas palavras de Laplantine, a
Antropologia nos permite “uma revolução no olhar”. Ensina-nos ele:


                    A experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva-
                    nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a
                    nossa dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual,
                    familiar, cotidiano, e que consideramos “evidente”. Aos poucos,
                    notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos, mímicas,
                    posturas, reações afetivas) não têm realmente nada de “natural”.
                    Começamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a
                    nós mesmos, a nos espiar. O conhecimento (antropológico) da nossa
                    cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas;
                    e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura
                    possível entre tantas outras, mas não a única. (2000, p. 21)


          Dessa forma, o Assistente Social, desde o início de seu curso de
graduação, aprenderá a refletir sobre realidades sociais e culturais diferentes das
suas, já que quando do exercício de sua profissão - já formado - estará,
sistematicamente, em contato com o “outro”. Como compreendê-los, se não souber
lidar com as diferenças?
11



2 CIÊNCIA, CONHECIMENTO CIENTÍFICO E CONHECIMENTO DE
SENSO COMUM


2.1 A ESPECIFICIDADE DA METODOLOGIA DOS ESTUDOS E DAS PESQUISAS
ANTROPOLÓGICAS



2.1.1 Metodologia Científica - Como Proceder ao Estudo Antropológico?



          Para se proceder ao correto estudo da Antropologia - bem como ao de
todas as demais disciplinas - é de fundamental importância dominarmos a definição
de ciência.
          Ciência consiste na produção de teorias e de conceitos obtidos a partir
pressupostos teóricos resultantes de investigações científicas. A produção do
conhecimento científico requer o auxílio de múltiplos saberes e por esta razão tem
caráter multidisciplinar.



2.1.1.1 Multidisciplinaridade



          Multidisciplinaridade (multi= vários; disciplinaridade = disciplinas) significa
a soma dos conhecimentos produzidos pelas diferentes disciplinas, pelos
conhecimentos científicos diversos. Em oposição a isso, está o monoculturalismo
(mono = um, única cultura na qual as diversidades são desprezadas).
          Fundamenta-se no conhecimento científico que, por sua vez, é produzido
mediante o rigor científico. Para ser considerado científico, deve ser empírico.



2.1.1.2 Empírico / Empirismo



          O conhecimento científico é empírico, o que significa dizer que foi
experimentado, testado, comprovado. E ainda, os conhecimentos científicos obtidos
12



não são estáticos, estando, portanto, em constantes movimentos (sempre
repensados, sempre revistos, sempre reavaliados).
             Os   dados      resultantes    das    investigações   científicas    podem      ser
corroborados (comprovados, validados) ou refutados (negados, invalidados), sendo
que as respectivas análises devem ocorrer de forma minuciosa e imparcial (neutra).
             Logo, ao tratarmos de “ciência”, de “conhecimento científico”, estaremos
igualmente tratando do conceito de epistemologia.



2.1.1.3 Epistemologia



             Significa a fundamentação do conhecimento científico, ou seja, a busca
pelo conhecimento erudito, minucioso, criterioso, aprofundado.
             As   Ciências     dividem-se    em      Humanas     (Antropologia,       Sociologia,
Psicologia    etc.),   Naturais    (Química,      Física,   Astronomia   etc.)    e    Abstratas
(pensamento lógico-matemático, estatístico etc.).
             Em oposição ao conceito de Ciência ou Epistemologia, temos o conceito
de Senso Comum.



2.1.1.4 Senso Comum



             São os conhecimentos ditos de forma não científica, não empírica; são as
suposições.



2.2 A ETNOGRAFIA E A ETNOLOGIA: DE QUE FORMA OCORRE O ESTUDO
ANTROPOLÓGICO?



             Como dito, a aplicação dos conceitos acerca de ciência cabe a todas as
áreas do saber. No entanto, cada uma delas apresenta os seus próprios
instrumentais ou a sua própria metodologia. Dessa forma, nos ocuparemos daqueles
pertinentes à Antropologia, quais sejam a etnografia e a etnologia.
13



2.2.1 Etnografia



          Etno quer dizer povo e grafia significa escrita, ou seja, etnografia
destina-se à “escrita do povo” e mais exatamente, à “coleta de informações relativas
ao povo”. Trata-se do desenvolvimento do trabalho de campo, da pesquisa de
campo.
          Então,   quando    o   pesquisador   decide-se   por   fazer   um   estudo
antropológico significa dizer que o antropólogo/pesquisador fará um estudo
etnográfico (pesquisa de campo).
          Ao procedermos a um estudo científico e etnográfico, propomo-nos a
buscar respostas para as seguintes questões: Como e onde pesquisar? Como
coletar os dados? Como devo fazer para me aproximar do meu entrevistado? Como
perguntar? Como analisar? Como não me envolver emocionalmente? Como cumprir
os meus objetivos? Entre outras indagações pertinentes.



2.2.2 Etnologia



          Etno quer dizer povo e logia, estudo. Logo, etnologia significa a análise
dos dados obtidos, coletados, quando da execução do trabalho de campo
(etnográfico). Dessa forma, o pesquisador/antropólogo se inclinará sobre os
resultados etnográficos e desenvolverá o estudo etnológico.



2.3 O CONCEITO DE NEUTRALIDADE – ÉMILE DURKHEIM



          Conforme apresentado, o conceito de neutralidade é parte integrante da
Metodologia do Trabalho Científico, cabendo então debruçarmos sobre ele.
          Emile Durkheim (2007) entendia que o pesquisador, quando do
desenvolvimento do trabalho de campo, deveria conceber os fatos sociais estudados
como “coisas”. Essa “coisificação” seria necessária para que se pudesse investigá-
los de modo neutro (neutralidade) e distante (distanciamento). Segundo ele, tal
14



procedimento metodológico permitiria a não interferência dos valores do pesquisador
sobre a realidade do grupo estudado.
               No entanto, parte dos pesquisadores sociais avalia o conceito de
neutralidade apregoado por Durkheim e sua aplicabilidade. Questionam se é de fato
possível ao pesquisador manter-se “neutro” e distante frente ao estudo de
determinadas realidades sociais e culturais. Como respostas a essas inquietações,
entendem que - independente das emoções possivelmente despertadas - a
minuciosidade do rigor científico deve prevalecer.
               Apresento abaixo uma realidade que merece ser refletida, considerando,
para tanto, a discussão acerca dos conceitos de “neutralidade, diversidade cultural e
rigor científico”. Como você se portaria diante desta situação?


                           Infanticídio põe em xeque respeito à tradição indígena6
                           Folha de S. Paulo, on line, 06/04/2008.
                           Ana Paula Boni
                           Mayutá, índio de quase dois anos de idade, deveria estar morto por
                           conta da tradição de sua etnia kamaiurá. Na lei de sua tribo, gêmeos
                           devem ser mortos ao nascer porque são sinônimos de maldição.
                           Paltu Kamaiurá, 37, enviou seu pai, pajé, às pressas para a casa da
                           família de sua mulher, Yakuiap, ao saber que ela havia dado à luz a
                           gêmeos. Mas um deles já tinha sido morto pela família da mãe. Paltu
                           enfrentou discriminação da tribo, para a qual a criança amaldiçoaria a
                           aldeia. [...] Ainda praticado por cerca de 20 etnias entre as mais de
                           200 do país, esse princípio tribal leva à morte não apenas gêmeos,
                           mas também filhos de mães solteiras, crianças com problema mental
                           ou físico, ou doença não identificada pela tribo.
                           Projeto de lei
                           Há Projeto de Lei que trata de "combate às práticas tradicionais que
                           atentem contra a vida", que tramita na Câmara desde maio passado
                           [...] A proposta é polêmica entre índios e não-índios. Há quem
                           argumente que o infanticídio é parte da cultura indígena. Outros
                           afirmam que o direito à vida, previsto no artigo 5º da Constituição,
                           está acima de qualquer questão [...].


2.4 ALGUNS CONCEITOS ANTROPOLOGICOS IMPORTANTES



2.4.1 Estruturas Familiares


6
    Este artigo, bem como outros aqui apresentados, estão disponíveis em http://www.folha.com.br/.
15



2.4.1.1Sistema Monogâmico



            Monogamia – sistema familiar, cultural, social e religioso que legitima os
matrimônios mediante um só parceiro durante determinado período de tempo.



2.4.1.2 Sistema Bigâmico



            Bigamia – sistema familiar, cultural, social e religioso que legitima os
matrimônios mediante dois parceiros durante determinado período de tempo.



2.4.1.3 Sistema Poligâmico



            Poligamia – sistema familiar, cultural, social e religioso que legitima os
matrimônios mediante mais de dois parceiros durante determinado período de
tempo.



2.4.1.4 Endogamia



            Endogamia (endo = dentro / gamo = casamento) – uniões, matrimônios,
ocorridos no interior do mesmo grupo a que pertencem os envolvidos (religioso,
familiar, étnico, classes sociais).



2.4.1.5 Exogamia



            Exogamia (exo = fora / gamo = casamento) – uniões, matrimônios
ocorridos exteriormente aos grupos pertencentes (religioso, familiar, étnico, classes
sociais).
16



2.4.2 Etnocentrismo



            O termo “etno” significa povo e “centrismo” significa centro. Este conceito
quer dizer que o homem e o seu grupo social, racial/étnico consideram-se o centro
do universo. Tudo aquilo que lhes pertencem - estruturas familiares, sociais,
culturais, econômicas e políticas - são padrões por eles considerados como
superiores, corretos, únicos verdadeiros e que, portanto, devem ser seguidos.
            De outra forma, tudo aquilo que for diferente àquilo que conhecem,
pensam, acreditam, valorizam, defendem, é, aos seus olhos, moralmente
inaceitável, inferior, anormal, selvagem, primitivo e degradante, devendo, portanto,
serem modificados, destruídos, exterminados.
            As consequências das práticas etnocêntricas são todas elas negativas,
devastadoras e violentas, verificadas nas relações de superioridade empreendida
por aqueles que mandam, impõem, julgam. Esses são representados pelas figuras
dos colonizadores, civilizadores (os que mandam) e, do outro lado, estão os
colonizados, civilizados (“civilizáveis”), ou seja, aqueles que são violentados,
subjugados, inferiorizados. As relações de poder são fortemente verificadas nas
relações de colonizadores e colonizados7.



2.4.3 Selvagem / Bárbaro / Primitivo



            Termos pejorativos e preconceituosos utilizados por aqueles que se
consideram superiores aos membros de sociedades diferentes das suas e que
desenvolvem modos de vida distintos dos seus.



2.4.4 Xenofobia



            Xeno significa estrangeiro e fobia, medo. Xenofobia significa, então,
medo, horror, pânico àquele que é diferente. As consequencias xenofóbicas são

7
 Indico as leituras de Michel Maffesoli - Dinâmica da Violência. São Paulo: Vértice, 1997 - e Albert
Memmi - Retrato do Colonizado Precedido pelo Retrato do Colonizador. São Paulo: Paz e Terra,
1999.
17



verificadas nas violências praticadas sobre os grupos considerados minoritários:
negros, índios, homossexuais, nordestinos, portadores de ncessidades especiais.
          Segue abaixo um exemplo clássico de práticas xenófobas exercidas,
cotidianamente, na sociedade brasileira:


                     AÇÃO URGENTE: TEMOR PELA SEGURANÇA
                     Folha de S. Paulo, on-line, Brasil, 08/09/2000.
                     Um grupo neonazista enviou pacotes-bomba para a casa do
                     funcionário da Anistia Internacional em São Paulo, Eduardo
                     Bernardes da Silva, e para os organizadores da Parada do Orgulho
                     Gay. [...] Em 5 de setembro, o grupo neonazista também enviou
                     cartas a dois destacados membros de comissões de direitos
                     humanos de São Paulo, Renato Simões e Ítalo Cardoso, ameaçando
                     "exterminar" gays, judeus, negros e nordestinos (pessoas oriundas
                     da empobrecida Região Nordeste do Brasil), assim como aqueles
                     que procuram proteger os direitos dessas pessoas.


2.4.5 Eugenia



          Em meados do século XIX (1859), o biólogo inglês Charles Darwin publica
a sua famosa obra “A Origem das Espécies”. Mediante estudos desenvolvidos com
plantas e animas, conclui a sua “Teoria da Seleção Natural” de cunho evolucionista.
          Frente à concepção evolucionista - e deturpando os estudos de Charles
Darwin -, Francisco Dalton (primo de Charles Darwin) funda no ano de 1908 a
“Sociedade de Educação Eugênica”, condenando a miscigenação a fim de manter a
pureza das raças, surgindo, assim, o conceito de Eugenia (SOUZA, 2002). Com ela,
Dalton defendia que na sociedade haveria dois grupos humanos distintos entre si,
sendo um “forte” e o outro, “fraco”. Consequentemente, dada a supremacia das
capacidades intelectuais inatas do primeiro grupo (o forte), somente esse
sobreveveria. O outro (o fraco) estaria naturalmente fadado ao fracasso.
          Interessante notar que muito recentemente manifestações a esse respeito
se fizeram presentes, como mostra o artigo abaixo publicado pelo Jornal Folha de
São Paulo, em outrubro de 2007.
18



                     Africano é menos inteligente, diz Nobel
                     Folha de São Paulo, on line, 18/10/2007.
                     Rafael Garcia
                     Uma entrevista do biólogo James Watson, 79, com declarações
                     racistas anteontem a um jornal britânico atraiu uma enxurrada de
                     críticas de cientistas, sociólogos, políticos e ativistas de direitos
                     humanos. Watson, ganhador do Prêmio Nobel por ter descoberto a
                     estrutura do DNA juntamente com Francis Crick, em 1953, afirmou
                     ao jornal britânico "The Sunday Times" que africanos são menos
                     inteligentes do que ocidentais e, em razão disso, se declarou
                     pessimista em relação ao futuro da África. "Todas as nossas
                     políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles
                     (dos negros) é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que
                     não", afirmou o cientista. "Pessoas que já lidaram com empregados
                     negros não acreditam que isso (a igualdade de inteligência) seja
                     verdade." [...] Pessoas que apontaram erros na declaração de
                     Watson afirmam que a reação ao cientista precisa ser contundente.
                     Em outra ocasião, defendeu o direito ao aborto, se as grávidas
                     pudessem saber se a criança nasceria homossexual. Entre os
                     cientistas que reagiram de maneira mais dura contra Watson estão
                     os próprios geneticistas. "Definitivamente, isso não faz sentido
                     nenhum e é totalmente estapafúrdio", disse à Folha Sérgio Danilo
                     Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais. "É uma falácia de
                     autoridade. Ele não é especialista no estudo de evolução de
                     populações humanas. Ele estuda biologia molecular pura." Pena,
                     cujo trabalho sobre populações brasileiras contribuiu em grande
                     medida para derrubar o conceito biológico de raças humanas, afirma
                     que a maioria das pessoas "não vai levar Watson a sério", mas que
                     ele pode "inflamar os ânimos" daqueles que já são racistas. Sobre a
                     situação da África, Pena diz que nem sequer é uma questão de
                     inteligência. "O Watson confunde uma situação histórica e social da
                     África com uma situação biológica", disse. "O que acontece é que os
                     africanos foram vítimas de uma colonização brutal por parte dos
                     europeus."


2.4.6 Raça



          A UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e Cultura - entre as décadas de 1950 a 1960 iniciou no Brasil uma série de
estudos com o objetivo de investigar como se processava a inserção dos negros na
sociedade e, sobretudo, de identificar as barreiras à sua ascensão social. Entre os
seus achados, concluiu que o conceito de raça é inaplicável aos seres humanos, ou
seja, “raça” não existe, expressando, portanto, um componente social e político.
19



2.4.7 Cor



            Atributo, característica física e biológica cambiante (variável), relacionada
à cor da pele, dos olhos e do cabelo proveniente do processo de miscigenação.



2.4.8 Etnia



            Conceito antropológico que trata das especificidades culturais (língua,
religião, mito, rito, ritmos, vestimenta, canto, dança, alimentação etc.).



2.4.9 Racismo



            Crê na existência de superioridade, de hierarquia entre as raças,
defendendo-a e considerando os estereótipos, sobretudo, os relacionados à cor da
pele: branco superior aos negros x negros inferior aos brancos.



2.4.10 Discriminação



            Violação dos direitos das pessoas em decorrência de seus atributos
fenotípicos (físicos) e genotípicos (genes, biológicos), tais como cor da pele, etnia,
idade, religião, procedência regional e humanos. É a prática racista, o tratamento
diferenciado advindo do preconceito racial.



2.4.11 Preconceitos



            No que tange às questões sociais, raciais, regionais, de gênero, entre
outras, o preconceito é manifestado através da repulsa, da intolerância, do desafeto,
da violência, da discriminação afetiva, física ou emocional.
20



          O artigo abaixo registra a pertinência das discussões antropológicas
acerca das práticas discriminatórias exercidas, por exemplo, no mercado de
trabalho, envolvendo as “minorias”.


                     Discriminação no trabalho
                     Folha de São Paulo, on line, 25/03/2008
                     Nádia Demoliner Lacerda (mestre em Direito do Trabalho pela
                     Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo)
                     Atualmente, as empresas brasileiras estão continuamente sujeitas a
                     sofrer processos trabalhistas por práticas discriminatórias. Cerca de
                     dois milhões de ações deram entrada no Judiciário em 2006,
                     segundo um levantamento do TST (Tribunal Superior do Trabalho).
                     [...] O tratamento discriminatório no Brasil está ligado às grandes
                     diferenças na distribuição da renda e à cultura secular de tratamento
                     discriminatório, que nos acompanha desde o Brasil Colônia e que até
                     hoje se reflete em atos contra determinados grupos, como mulheres,
                     negros, soropositivos, deficientes, entre outros.
                     No âmbito das relações de trabalho, é a Convenção 111 da OIT
                     sobre "discriminação em matéria de emprego e profissão" que impõe
                     limites ao comportamento das empresas em relação aos indivíduos,
                     tanto em termos de escolha de candidatos ao emprego quanto aos
                     critérios na promoção de função e na decisão de rescindir o contrato
                     de trabalho.
                     Eventual diferença numérica entre homens e mulheres, negros e
                     brancos, por exemplo, resulta da legitimidade que tem o empregador
                     de avaliar a qualificação e capacitação de cada um dos candidatos
                     que se apresentam para uma vaga ou posição dentro da empresa,
                     não podendo ser tida como conduta discriminatória punível.



2.4.12 Aculturação / Assimilação



          Refere-se ao processo de perda da própria cultura, dos valores, dos
comportamentos de um grupo social em detrimento da aceitação, incorporação, das
apresentas por um outro grupo. Não tem, necessariamente, conotação negativa,
uma vez que pode haver - ou não - as respectivas trocas entre os grupos envolvidos.
          Reflitamos acerca do artigo abaixo:


                     ESCOLA DA VIDA
                     Folha de São Paulo, 12 de setembro de 2004.
                     Laura Capriglione
21



                     Com ar provocador, o aluno dispara em um português hesitante:
                     "Professora, o que quer dizer c...?" Rosângela Portela, 46, a
                     professora, entendeu de imediato. O estudante, um jovem negro
                     anglófono da África Ocidental, agora desterrado, estava testando-a.
                      “Eu respondi sem piscar. Repeti pausadamente a palavra e a traduzi
                     para o inglês. Expliquei que se tratava de um palavrão que pessoas
                     bem educadas não deveriam pronunciar. Perguntei, então, se ele
                     havia compreendido", lembra a professora. O rapaz, que nunca havia
                     visto uma professora (em seu país só homens desempenham a
                     função), que junto a isso nunca ouviu uma mulher "direita" se referir
                     aos genitais masculinos, fez que sim e teve, dessa forma, sua
                     primeira aula de cultura brasileira.
                     O episódio ocorreu na semana passada, em uma sala de aula no
                     Sesc (Serviço Social do Comércio), no centro da cidade de São
                     Paulo, onde começava mais um curso de português para refugiados
                     de guerras e tragédias humanitárias, dentro de um programa de
                     aculturação com o Brasil. Na ocasião, o jovem acabava de completar
                     dez dias no país.
                     [...] Expressando-se em inglês (a maioria), ou francês e espanhol, a
                     atual leva de refugiados tem como primeira missão aprender
                     português. A professora lembra-se de um aluno nigeriano que viveu
                     dias de euforia na chegada. "Depois de um mês, ele entrou em
                     depressão severa. Percebeu que estava sozinho (perdeu todos os
                     vínculos com parentes na África), que obter trabalho era complicado.
                     Tivemos de ampará-lo seriamente.".



2.4.13 Sincretismo Religioso



          É a mistura, a fusão, a assimilação de um ou mais elementos culturais
entre religiões diferentes, ou seja, determinada religião se utiliza dos mitos e ritos
religiosos distintos aos seus. Exemplo disto pode ser verificado no processo histórico
relativo ao tráfico de escravos para o Brasil. Como é sabido, uma das características
profundamente marcante que impulsionou a colonização brasileira foi o tráfico de
escravos. Na África, os negros viviam em regiões distintas, cada grupo com os seus
próprios valores culturais, inclusive do ponto de vista da religiosidade. Aqui
chegando, foram impedidos de cultivarem suas religiões e obrigados a praticar a
imposta pelo branco europeu, qual seja, o catolicismo. No entanto, como forma de
resistência e preservação da religião africana, os africanos frequentavam os ritos
católicos, mas mantinham secretamente os seus, misturando os elementos da
religião africana aos elementos da cultura católica. A Umbanda é exemplo disso.
          Cabe destacar que o sincretismo religioso não está presente somente na
cultura africana, conforme abaixo ilustrado:
22



                     Chá do Santo Daime transborda para outros cultos
                     Folha de São Paulo, Revista da Folha, dezembro de 2007.
                     O Santo Daime - culto apoiado no catolicismo popular e conhecido
                     pelo consumo de um chá chamado ayahuasca - está em uma
                     terceira onda de expansão.
                     Após sair da floresta amazônica para chegar aos grandes centros e
                     depois chegar ao exterior, agora é a vez do culto se fundir com
                     outras religiões, em especial o hinduísmo e a umbanda, relata
                     Roberto de Oliveira.
                     Para o antropólogo Edward MacRae, 61, da Universidade Federal da
                     Bahia, assim como outras religiões, o Santo Daime também tem a
                     propriedade de aglutinar elementos de outras crenças, como
                     umbanda, traços indígenas, cristãos, afro e esotéricos, ocidentais ou
                     orientais.
                     "A ayahuasca facilita a experiência mística. E é justamente essa
                     experiência, sem a intermediação da figura de um sacerdote, que
                     está colaborando para a sua expansão", diz o professor.
                     Coordenador do Conub (Conselho Nacional da Umbanda do Brasil)
                     no Estado de São Paulo, Pai Medeiros, 39, não condena a mistura.
                     Ele diz que a umbanda é inclusiva, abrange muitas vertentes e que a
                     umbandaime - mistura da umbanda com o Santo Daime - é uma
                     delas. "Qualquer forma de manifestação do sagrado é respeitada."


2.4.14 Relativismo Cultural (RC)



          O conceito de “relativismo cultural” está intimamente associado ao amplo
conceito de diversidades e ao de alteridade, bem como aos julgamentos de valores
dicotômicos: bom e mal, permitido e proibido, certo e errado, feio e bonito, fé e
eresia, moral e imoral, entre outros. Como é sabido, qualquer tentativa de propor a
um determinado grupo social que exerça crenças, valores e comportamentos
semelhantes    aos   nossos,    estaremos     incorrendo    certamente     em    práticas
preconceituosas, portanto, etnocêntricas. Há de se considerar que o que é válido e
verdadeiro para um determinado grupo social não se faz necessariamente realidade
para os demais. Cabe-nos perguntar: Qual é o criério para se definir e
consequentente, julgar a realidade de terceiros? Qual é o critério utilizado para se
estabelecer aquilo que é melhor (nós, o nosso) em contraposição ao pior (eles,
deles)?
          Exemplos do não exercício acerca do conceito de relativismo cultural
estiveram presentes no Brasil quando do processo de colonização que envolvia de
23



um lado os europeus e os padres-jesuítas e de outro, os indígenas vistos pelo grupo
europeu sob duas óticas etnocêntricas.



2.4.14.1 Selvagens, Brutos e Ignorantes



            Os índios eram concebidos como animais vestidos em pele humana,
incapazes, feios, fleumáticos (lentos, preguiçosos). Viviam em uma sociedade sem
Estado, sem leis, sem organização social, moral ou política. Eram imorais, andavam
nus e praticavam a poligamia, desrespeitando, desta forma, o sagrado significado da
família e dos bons costumes:


                       [...] as pessoas deste país, por sua natureza, são tão ociosas,
                       viciosas, de pouco trabalho, melancólicas, covardes, sujas, de má
                       condição, mentirosas, de mole consistência e firmeza [...] Nosso
                       senhor permitiu, para os grandes, abomináveis pecados dessas
                       pessoas selvagens, rústicas e bestiais, que fossem atirados e
                       banidos da superfície da terra. (OVIEDO apud LAPLANTINE, 2000).


2.4.14.2 Dóceis, Ingênuos, Bestializados, Sem Razão, Sem Raciocínio



            Aqui os índios eram inocentes, pueris, incapazes e de pouca inteligência,
necessitando ser conduzidos a uma vida dignamente humana: ”eles são afáveis,
liberais, moderados [...] todos os nossos padres que frequentaram os selvagens
consideram que a vida se passa mais docemente entre eles do que entre nós” [...]
(OVIEDO apud LAPLANTINE, 2000).
            Como visto, para ambas as situações caberia aos europeus - “seres
superiores” - “domesticar” e, para tanto, seria necessário propiciar aos índios, de
modo imediato, uma alma, conferindo-lhes, portanto, uma religião - evidentemente, a
católica.
            Apresentamos abaixo um trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha8 que
trata disso: “[...] parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua
fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença

8
  A íntegra da Carta do Descobrimento do Brasil – séc. XVI, de Pero Vaz de Caminha, pode ser
verificada em http://www.cce.ufsc.br/.
24



alguma, segundo as aparências. E, portanto, se os degredados que aqui hão de ficar
aprenderem bem a sua fala e eles a nossa, não duvido que eles, segundo a santa
tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual
praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela
simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles todo e qualquer cunho que lhes
quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos,
como a homens bons. E o fato de Ele nos haver até aqui trazido, creio que não foi
sem causa. E portanto, Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar à santa fé
católica, deve cuidar da salvação deles. E aprazerá Deus que com pouco trabalho
seja assim.”.



2.4.15 Representações Sociais



          São as formas pelas quais os distintos grupos sociais se vêem e se
valorizam social e culturalmente. Tais considerações podem ser positivas ou
negativas, sendo formadas pela ação do consciente coletivo. O consciente coletivo é
construído a partir da soma dos conscientes individuais, ou seja: um indivíduo se
identifica com o outro devido a vários fatores entre eles: sua forma de pensar, sua
visão de mundo, seus valores, suas crenças e assim sucessivamente. Desta forma,
surge um grupo maior, um grupo social onde seus membros comungam de um
mesmo pensamento. Esse grupo - mediante a soma das variáveis sociais,
econômicas e ideológicas - multiplica-se e acaba por encontrar-se com demais
grupos que têm representações sociais distintas das suas. Os valores, os
estereótipos e os preconceitos são produzidos e reproduzidos no interior desses
grupos, como também aplicados cotidianamente. Expressões como: “a maioria dos
negros é marginal”, “nordestino é preguiçoso”, “homossexual é imoral” e “mulher é
menor capaz do que os homens”, entre outras, são frequentemente ouvidas.
          O artigo abaixo exemplifica um dos comportamentos das Representações
Sociais em nosso cotidiano:


                    Caio Blat relata o preconceito que sofreu em São Paulo ao
                    incorporar características de um jovem do Capão Redondo, na
                    periferia da cidade
25



Folha de S. Paulo, Ilustrada, 15/04/2008.
Mônica Bergamo


Numa tarde de domingo [...] o ator Caio Blat estava caminhando na
rua São Carlos do Pinhal (paralela à avenida Paulista), onde mora,
quando começou a chover. Buscou abrigo "em um restaurante
"furreba” [...] Resolveu comer alguma coisa e sentou-se em uma
mesa no meio do salão. O ator está com aparência bem diferente
daquela de "mocinho" das novelas da TV Globo. Para estrelar o filme
"Bróder!", do diretor Jeferson De, que acaba de ser rodado na região
do Capão Redondo, em SP, ele incorporou características do
personagem Macu (inspirado em "Macunaíma"), um rapaz de
periferia que é branco, se vê como negro e acaba no crime. Caio [...]
raspou o cabelo [...] e fez até um risco na cabeça com gilete,
imitando o visual que, diz, "surgiu na cadeia e depois foi imitado na
favela". À mesa, naquele domingo, ele foi surpreendido por um
funcionário do restaurante. "Era o gerente [...] Encostou e falou
assim: "Eu não vou ter problema com você não, né?'", conta. O ator
perguntou a que tipo de problema ele se referia. "Você sabe muito
bem. Eu te conheço, eu te conheço. Vai querer alguma coisa?"
"Quero um suco de laranja e um galeto", respondeu. "O que você
quiser, você pede no caixa." Caio perguntou se os outros clientes
também precisaram fazer aquilo. O gerente repetiu as instruções e o
deixou sozinho na mesa. [...] Em outra ocasião, foi barrado na porta
giratória de um banco. "Vi como é ser tratado como suspeito.". Por
sugestão da coluna, Caio Blat aceitou voltar ao Arcadas Galeto...
desta vez, ele veste camiseta branca, calça jeans e havaianas azuis.
O risco na testa é quase invisível, porque seu cabelo começa a
crescer. "Tem que pegar ficha no caixa ou pode pedir na mesa?", diz,
após se sentar no mesmo assento que ocupou um mês antes e
receber o cardápio. "Pode ser na mesa", responde o garçom. Desta
vez, é atendido. Uma garota o reconhece, pede autógrafo e tira fotos.
O garçom passa, põe a mão em seu ombro e diz: "É bom ser
famoso. Todo mundo vem falar com você". [...] Depois que Caio
recebe o suco, o repórter chama o gerente. [...] Reconhece o ator?
"Sim, ele esteve aqui há um mês", responde. E por que não foi
atendido na ocasião? "Foi um equívoco. A gente não chegou a um
entendimento e só percebemos depois que era ele. [...] Caio
argumenta que ficou "dez minutos na mesa, esperando". "Eu estava
fazendo um filme no qual vivia um marginal e tive a nítida sensação
de que não fui atendido pela minha aparência", diz Caio ao gerente.
"Eu até perguntei se não te conhecia", responde Paulo Roberto. [...]
Fiquei pensando se vocês já foram assaltados aqui, se achou que eu
era algum bandido." "Graças a Deus, nunca aconteceu", diz o
gerente, [...] O ator cancela o pedido feito no restaurante e pega o
caminho de casa.
26



3 AS PRINCIPAIS ESCOLAS DO PENSAMENTO ANTROPOLÓGICO

CLÁSSICO



3.1 AS PRINCIPAIS ESCOLAS



          Entre os séculos XVI e XIX (antes do surgimento da Antropologia como
ciência), os relatos sobre as especificidades culturais dos povos que aqui habitavam
(comportamentos, crenças, costumes) e de seu habitat (fauna, flora) eram
produzidos de forma especulativa pelos primeiros missionários, viajantes e
comerciantes que aqui estiveram. A “Carta do Descobrimento” (1500) de Pero Vaz
de Caminha é uma referência literária deste período



3.1.1 Escola Evolucionista: Século XIX



3.1.1.1 Características Principais



          A escola evolucionista - e eugênica - baseada nas concepções de
Francisco Dalton (“Sociedade de Educação Eugênica”, 1908) acreditava haver
superioridade entre as raças. A sociedade estaria dividida em dois grupos: os
“primitivos, inferiores, incapazes”, em contraposição aos “civilizados, superiores,
capazes”. Entendia-se que o progresso viria mediante a evolução do estado primitivo
para o estado mais “civilizado”, ou seja, uns chegariam aos estados de civilização e
aos outros, devido à sua incapacidade nata, o mesmo não ocorreria.
          Como visto, o pensamento evolucionista e eugênico despreza e
desqualifica o amplo conceito de diversidades, de pluralidades, estimulando, dessa
forma, às práticas racistas, sexistas e xenófobas.
27



3.1.1.2 Referências Literárias




           • Herbert Spencer - “Princípios da Biologia” (1864);

           • Edward Tylor - “A Cultura Primitiva” (1871);

           • James Frazer - “O Ramo de Ouro” (1890).


           Antes de seguirmos com as definições acerca das escolas antropológicas,
segue abaixo interessante artigo acerca da visita de Charles Darwin ao Brasil no ano
de 1832.


                     Grupo refaz passos de Darwin no Brasil
                     Para cientista, brasileiros eram desprezíveis
                     Rio de Janeiro, 23/03/2008.
                     Ítalo Nogueira
                     Se a floresta tropical brasileira provocou "deleite" em Charles Darwin,
                     o naturalista não teceu muitos elogios aos brasileiros. "Miseráveis" e
                     "desprezíveis" foram algumas das classificações dadas por ele
                     durante a sua temporada no país.
                     Logo no início, no Rio, Darwin se queixava da burocracia para
                     conseguir a autorização para viajar pelo interior do Estado, exigida
                     aos estrangeiros.
                     No dia 6 de abril, ele escreveu: "Nunca é muito agradável submeter-
                     se à insolência de homens de escritório, mas aos brasileiros, que são
                     tão desprezíveis mentalmente quanto são miseráveis as suas
                     pessoas, é quase intolerável. Contudo, a perspectiva de florestas
                     selvagens zeladas por lindas aves, macacos e preguiças, lagos,
                     roedores e aligátores fará um naturalista lamber o pó até da sola dos
                     pés de um brasileiro.".
                     Durante a viagem, queixa-se da falta de opções de comida na
                     estalagem em Maricá. "À medida que a conversa prosseguia, a
                     situação geralmente se tornava lastimável", escreveu, queixando-se
                     das repetidas respostas "Oh, não, senhor" após pedir peixe, sopa e
                     carne seca. "Se tivéssemos sorte, depois de esperar umas duas
                     horas, conseguíamos aves, arroz e farinha."
                     Até o Carnaval baiano o incomodou. "As ameaças consistiam em
                     sermos cruelmente atingidos por bolas de cera cheias de água [...]
                     Achamos muito difícil manter nossa dignidade andando pelas ruas.”
                     Durante a viagem, Darwin relata com horror as condições a que os
                     escravos eram submetidos. Relata o caso em que um dono de
                     fazenda, em razão de uma briga, "estava prestes a tirar todas as
                     mulheres e crianças da companhia dos homens e vendê-las
                     separadamente num leilão". "Não creio que tivesse ocorrido ao
28



                     proprietário a idéia de desumanidade de separar trinta famílias”.
                     "Ele tinha um posicionamento preconceituoso. Apesar de ser
                     abolicionista, ele tinha uma visão aristocrata", disse Ildeu Moreira, do
                     Ministério da Ciência e Tecnologia.



3.1.2 Escola Sociológica Francesa: Século XIX/ XX



3.1.2.1 Características Principais



          A Escola Sociológica Francesa defendia e aplicava a investigação dos
“Fatos Sociais Totais”, ou seja, entendia que a busca pelo conhecimento dos grupos
sociais deveria partir da interação dos elementos biológicos (físicos) com os
psicológicos (emocionais) aos sociológicos (fenômenos sociais) e aos culturais
(diversidades/pluralidades).
          Para tal processo investigativo, é criada uma metodologia denominada
“Regras do Método Sociológico”.



3.1.2.2 Referências Literárias




          • Émile Durkheim - “Regras do Método Sociológico” (1895);

          • Marcel Mauss - “Ensaio sobre a Dádiva” (1923-1924).



3.1.3 Escola Funcionalista: Século XX (Anos 20)



3.1.3.1 Características Principais



          Privilegia a produção da monografia advinda da aplicação das técnicas
voltadas à observação participante (etnografia), bem como da sistematização das
informações coletadas (etnologia).
29



          Defende e desenvolve estudos voltados às diversidades culturais,
entendendo que elas exercem funções sociais. Busca entender as formas de
funcionamento de determinadas sociedades.



3.1.3.2 Referências Literárias




         •   Bronislaw Malinowski - “Argonautas do Pacífico Ocidental” (1922);

         •   Radcliffe Brown - “Estrutura e Função na Sociedade Primitiva” (1952).



3.1.4 Escola Culturalista: Século XX (Anos 30)



3.1.4.1 Características Principais



          Entende que, por serem as sociedades diferentes entre si, são distintas
também as respectivas realidades culturais, procurando, dessa forma, investigar os
contextos sociais e políticos em que são desenvolvidas. Investiga e compara os
aspectos subjetivos, emocionais e de personalidade de seus atores. Busca
estabelecer conexões/comparações entre aspectos culturais e aspectos da
personalidade.



3.1.4.2 Referências Literárias




          • Franz Boas - “Raça, Língua e Cultura” (1940);

          • Margaret Mead - “Sexo e Temperamento em Três Sociedades
             Primitivas” (1935);

          • Ruth Benedict - “Padrões de Cultura” (1934); “O Crisântemo e a
             Espada” (1946).
30



3.1.5 Escola Estruturalista: Século XX (Anos 40)



3.1.5.1 Características Principais



          Procura entender de que maneira os homens concebem, estruturam,
legitimam e reproduzem as especificidades culturais. Investiga as estruturas
familiares e de parentesco.



3.1.5.2 Referências Literárias



          • Claude Lévi-Strauss - “As Estruturas Elementares do Parentesco”
             (1949) e “Pensamento Selvagem” (1962).



3.1.6 Escola Interpretativa: Século XX (Anos 60)



3.1.6.1 Características Principais



          Privilegia a compreensão minuciosa acerca do valor, do significado e da
interpretação que cada grupo social atribui à sua própria cultura.



3.1.6.2 Referências Literárias



          • Clifford Geertz: “A Interpretação das Culturas” (1973) e “Saber Local”
             (1983).
31



3.1.7. Escola Crítica (Pós-moderna): Século XX (Anos 80)



3.1.7.1Características Principais



          Nos anos recentes, os antropólogos se enveredam para uma visão crítica
acerca do “saber antropológico”, ou seja, revêem os fundamentos das escolas, os
elementos teóricos e os metodológicos que a compõem.



3.1.7.2 Referência Literária



          • Michel Taussig: “Xamanismo, colonialismo e o homem selvagem”,
              (1987).



3.2 OS CINCO POLOS DO ESTUDO ANTROPOLÓGICO



3.2.1 Antroplogia Simbólica



          Os símbolos são objetos de investigações, pois revelam múltiplas
significações, sobretudo, nos aspectos religiosos, mitos e ritos. Questionam: “Qual é
o significado de tal comportamento?, ”Qual o significado disto ou daquilo”? e “Qual é
o valor deste símbolo?”.



3.2.2 Antropologia Social



          Aqui, as variáveis sociais, econômicas e de poder são consideradas. Os
relacionamentos sociais, intergrupais,    são considerados. A Antropologia Social
inclina-se sobre os seguintes questionamentos: “A que classe social petence?” e
“Qual é o nível de interação deste grupo social”?
32



3.2.3 Antropologia Cultural



           Preocupa-se minuciosamente com a diversidade cultural. Investiga a sua
essência, as funções dos sentidos, dos símbolos e dos valores subjetivos
(psicológicos) e a interação cultural e social.



3.2.4 Antropologia Estrutural e Sistêmica



           Interessa-se pela compreensão acerca do modo pelo qual a sociedade -
a comunidade, o grupo social - está estruturada. Considera a interação das variáveis
linguísticas, econômicas, sociais e psicanalítica. É absolutamente contrária aos
juízos de valores dicotômicos (certo/errado); defende o saber antropológico
enquanto teoria epistemológica.



3.2.5 Antroplogia Dinâmica



           Aqui, os conhecimentos e práticas sociológicas e antropológicas se
aproximam. A linha que separa ambas as ciências é extremamente a ponto de ser
definida por alguns sociólogos/antropólogos como “conhecimento sociológico”.
Questiona: “Qual é a dinâmica social de tal grupo?”
           Observações: Os cinco polos apresentados acima não são excluentes,
havendo, inclusive, inter-relacionamento entre eles.
33



PARTE II – CLÁSSICOS DA ANTROPOLOGIA BRASILEIRA



           Os capítulos a seguir tratarão de dois clássicos da Antropologia (e
Sociologia) Brasileira: “Casa Grande e Senzala: Formação da Família Brasileira sob
o Regime de Economia Patriarcal”, de Gilberto Freyre, e “O Povo Brasileiro: a
Formação e o Sentido do Brasil”, de Darcy Ribeiro.
           Tem como objetivo refletir acerca da principal questão que ambos autores
se fizeram: “Quem é o povo brasileiro?”. As respostas fornecidas por Freyre e
Ribeiro são amplas, podendo ser buscadas sob os pontos de vistas econômicos,
políticos, sociais, antropológicos, históricos ou populacionais.
           Aqui, debruçaremos sobre a especificidade da formação populacional e
mais extamente sobre o processo de miscigenação que envolveu - e envolve - a
população brasileira. Para tanto, ocupar-nos-emos basicamente das discussões
voltadas ao branco europeu, ao negro africano e ao índio.
34



4 APRESENTAÇÃO À OBRA “CASA GRANDE E SENZALA”, DE
GILBERTO FREYRE


                                                 Todo brasileiro traz na alma e no corpo
                                                    a sombra do indígena ou do negro.
                                                                       Gilberto Freyre


4.1 GILBERTO FREYRE



4.1.1 Vida e Obra



          Gilberto Freyre nasceu em Recife, no ano de 1900, e faleceu em 1987, na
mesma cidade. Foi antropólogo, sociólogo e escritor. De renome internacional, é
uma referência fundamental quando se objetiva estudar a formação da sociedade
brasileira. Autor de vários livros com a temática regional, cultural, política e
econômica, publicou em 1933 o clássico “Casa Grande e Senzala: Formação da
Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal”, sobre o qual nos
ocuparemos adiante.



4.1.2 Casa Grande e Senzala



          Considerada uma obra de especial excelência, Gilberto Freyre inova no
conteúdo e no formato da metodologia utilizada. No conteúdo, trata dos elementos
econômicos,    políticos,   humanos   e   regionais   responsáveis    pela    gestação
populacional brasileira. Segundo Freyre (2005), “vinham sendo acumulados estudos
sobre a formação do Brasil, mas faltava um estudo convergente, que além de ser
histórico, geográfico, geológico, fosse um estudo social, psicológico, uma
interpretação [...] Creio que a primeira tentativa nesse sentido representou um
serviço de minha parte.”.
          No formato, Gilberto Freyre buscou no interior de sua própria família os
elementos para desenvolver suas pesquisas - Freyre era descendente de donos de
35



escravos. Somados a isso, desenvolveu estudos junto ao Museu Afro-Brasileiro Nina
Rodrigues na Bahia e visitou a África, Portugal e os Estados Unidos. Após anos de
estudos profundos - no Brasil e no exterior - sobre sistemas patriarcais, processos
colonizadores, relações escravocratas e explorações negras e indígenas, concluiu:
"o que houve no Brasil foi a degradação das raças atrasadas pelo domínio da
adiantada [...] os índios foram submetidos ao cativeiro e à prostituição. A relação
entre brancos e mulheres de cor foi a de vencedores e vencidos”.
          Aqui, iremos nos ater às discussões acerca da formação populacional.



4.1.2.1 Como Ocorreu a Formação da Sociedade Brasileira?



          Logo no início de seu estudo, Gilberto Freyre discute que o Brasil, país
miscigenado, foi formado pelo cruzamento de etnias distintas ou seja: pelo branco
europeu, pelo indígena e pelo negro africano. Os resultados mais expressivos são
verificados, até os dias atuais, na constituição do caboclo ou mameluco (branco +
índio), mulato (branco + negro) e cafuzo (índio + negro).
          O povo mulato foi gerado sob duas égides: a econômica - era preciso
povoar o Brasil, era necessário obter mão de obra para o cultivo da terra - e a
“sexual” - os portugueses quando aqui chegaram não trouxeram consigo suas
esposas, vieram sozinhos, passando a se relacionar sexualmente primeiro com as
índias (nativas) e, mais tarde, com as negras trazidas da África.
          São várias as contribuições de Gilberto Freyre para a compreensão
acerca do processo de gestação do povo brasileiro. A primeira delas, como atestam
os estudiosos dessa questão, é que Freyre desqualifica de modo exaustivo, brilhante
e científico, as teorias defendidas pela Escola Antropológica Evolucionista (já tratada
anteriormente), ou seja, desmistifica o conceito de determinação biológica, de
superioridade racial/étnica de quaisquer sociedades ou grupos humanos.
          Ao invés disto, Freyre se debruça sobre a Antropologia Cultural
(igualmente discutida), enaltecendo as especificidades culturais dos povos que
compõem a sociedade brasileira (brancos, negros e índios), bem como os resultados
positivos advindos da miscigenação.
36



4.1.2.2 O Indígena



           Segundo Freyre, quando da chegada ao Brasil, os europeus, inicialmente
representados pelos portugueses, depararam-se com duas belezas naturais: de um
lado, por uma belíssima paisagem natural e, de outro, por um povo nativo que a
habitava (os indígenas).
           Os índios construíam suas aldeias ao longo da floresta, produzindo e
reproduzindo a sua cultura, seus mitos e ritos e relacionando-se de modo particular
entre si, bem como com os elementos da natureza.
           No que se refere à composição do povo brasileiro, o autor destaca o
papel relevante ocupado e desenvolvido pela mulher indígena. Foram elas as
responsáveis pela gestação e reprodução dos “índios puros” que aqui habitavam,
bem como pela primeira geração de povos miscigenados - diversidade étnica -
representada pelos mamelucos, frutos das relações sexuais entre brancos e índios.
Depois, com a chegada dos africanos no Brasil, surgiu o grupo étnico denominado
cafuzos, resultado da relação interétnica entre negros e índias e vice-versa. Aquilo
que mais tarde Darcy Ribeiro denominou por “criatório de gente”!
           Freyre enaltece a beleza das mulheres indígenas que, segundo ele, logo
de pronto encantaram os portugueses recém-chegados: a sexualidade das índias -
manifestada, sobretudo, pela exposição de seus corpos nus - despertaram os
“desejos carnais” dos europeus. Por outro lado, Freyre critica a interpretação
equivocada e preconceituosa dos europeus sobre um traço da cultura indígena, ou
seja, a prática da poligamia (trata-se de um sistema familiar próprio, não cabendo,
portanto, juízos de valores ou julgamentos morais).
           No que tange aos aspectos culturais, Freyre destaca: “é da cunhã que
nos veio o melhor da cultura indígena. O asseio pessoa, a higiene do corpo, o milho,
o caju, o mingau [...] o brasileiro de hoje, amante do banho e sempre de pente no
bolso, o cabelo brilhante de loção ou de óleo de coco, reflete a influência de tão
remotas avós. Ela nos deu, ainda, a rede em que se embalaria o sono ou a volúpia
do brasileiro”.
           De outra forma, Freyre trata também das violências físicas, morais e
culturais que vitimaram a população indígena, podendo ser exemplificadas na
invasão de seus territórios, na escravização praticada pelos imigrantes europeus
37



que os forçavam ao trabalho na terra e nas dilapidações religiosas pelo processo de
evangelização (catequese) de responsabilidades dos padres jesuítas. Estes, do
ponto de vista cultural e religioso, entendiam que os índios eram apenas animais
selvagens, primitivos e sem alma, devendo, portanto, ser humanizados nos moldes
europeus, ou seja, nos ditos da religião católica (juízo de valor).
           Para tanto, a título de facilitar o processo de doutrinação, fora necessário
rever o processo de comunicação e, desta forma, o Tupi, língua nativa, foi
transformada pelos padres em tupi-guarani - a nova língua brasileira. Além disso, o
culto à natureza, ao Deus Maíra, o andar nu, entre outros, foram considerados - do
ponto de vista etnocêntrico - comportamentos imorais, vulgares e inferiores.
           Do ponto de vista econômico, o índio não se adaptou ao trabalho escravo
e nem tão pouco cedeu facilmente ao processo de aculturação imposto pela Igreja
Católica. A resistência da cultura indígena resultou em disputa por terras, fugas de
seu próprio habitat - compuseram junto aos africanos os quilombos -, doenças
mortais, mortes e destruição de famílias inteiras.
           Frente a isso, para o cumprimento de seus propósitos, entendem os
europeus ser necessário substituir a mão de obra indígena pela mão de obra negra,
dando início, dessa forma, ao processo de escravidão africana. Segue abaixo artigo
que trata de uma das consequências negativas relativas à escravização indígena
cujos desdobramentos são verificados nos dias atuais.


                      Roraima vira palco de guerra até entre grupos de índios
                      Folha de São Paulo, Brasil, 06 de abril de 2008.
                      Andrezza Trajano
                      José Eduardo Rondon
                      Pontes incendiadas, máquinas agrícolas bloqueando acessos às
                      estradas, índios pintados para a guerra. Este foi o cenário
                      encontrado pela reportagem ao trafegar no interior da terra indígena
                      Raposa/Serra do Sol, em Roraima, nos últimos dias [...] O clima de
                      tensão e violência na área aumentou após a chegada a Roraima de
                      agentes federais que farão a retirada dos não-índios que ainda
                      permanecem na terra indígena. Na sexta-feira, desembarcaram em
                      Boa Vista integrantes da Força Nacional de Segurança.
                      [...] O "epicentro" do conflito é a vila do Surumu, na região de
                      Pacaraima, onde há cerca de 300 famílias, a maioria não-índia [...]
                      De um lado da vila estão concentrados os índios favoráveis à
                      homologação, que defendem que a terra deve ser exclusivamente
                      dos indígenas. [...] "Queremos viver no que é nosso, em paz, sem
                      interferência", diz o coordenador do CIR, Dionito de Souza. Do outro
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                     lado, estão os índios contrários à medida do governo federal e que
                     defendem a permanência de não-índios na área, inclusive os
                     arrozeiros. [...] Para a índia Deise Maria Rodrigues, contrária à
                     homologação, a luta dos moradores é pelo "desenvolvimento". "Não
                     compartilhamos com essa política do governo federal de nos isolar,
                     de nos colocar sob a tutela da Funai e de nós termos que pedir
                     bênção aos índios do CIR. Somos brasileiros também e queremos
                     investimentos e a garantia dos nossos direitos constitucionais." Os
                     grupos rivais se tratam como inimigos. Qualquer tipo de
                     relacionamento é proibido. [...]


4.1.2.3 O Negro Africano no Brasil



            Dando continuidade aos estudos acerca da composição da população
brasileira, Gilberto Freyre discute o papel exercido pela mulher negra africana que,
segundo ele, substituiu a mulher indígena nos ambientes das casas grandes, bem
como nos interiores das senzalas.
            Para habitar as casas grandes, os senhores, escolhiam aquelas que
consideravam ser as mais belas e sensuais, a fim de desenvolverem as funções
domésticas, cuidados com as crianças, bem como para servi-los sexualmente.
            Quanto a esta última “função”, cabe destacar que as mulheres negras
eram vítimas dos abusos sexuais constantes praticados pelos senhores, resultando
no elevado grau de contaminação pelas doenças sexualmente transmissíveis, entre
elas a sífilis. Em contrapartida, como “medida depurativa” para as DSTs, ocupavam-
se das meninas negras, uma vez que acreditavam que a cura das doenças venéreas
estava em manter relação sexual entre “uma negrinha virgem” e o homem
contaminado.
            Além disso, sofriam também com as violências praticadas pelas esposas
enciumadas: corpos queimados, dentes arrancados e espancamentos eram práticas
constantes e recorrentes.
            Das relações sexuais ocorridas entre senhores e escravas nasciam os
mulatos que, segundo Freyre, eram “gerados nas casas grandes e paridos na
senzala”.
            Isso posto, e a fim de nos debruçarmos com mais vagar sobre os
conceitos de Identidade Étnica e Famílias Miscigenadas, utilizaremos a obra clássica
“O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro.
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5 APRESENTAÇÃO À OBRA “O POVO BRASILEIRO”, DE DARCY

RIBEIRO



                                             Todos nós, brasileiros, somos carne da carne
                                               daqueles pretos e índios supliciados. Como
                                              descendentes de escravos e de senhores de
                                                 escravos seremos sempre marcados pelo
                                                    exercício da brutalidade sobre aqueles
                                              homens, mulheres e crianças. Esta é a mais
                                                   terrível de nossas heranças. Mas nossa
                                                 crescente indignação contra esta herança
                                              maldita nos dará forças para, amanhã conter
                                                os possessos e criar aqui, neste país, uma
                                                                        sociedade solidária.
                                                                            Darcy Ribeiro


5.1 DARCY RIBEIRO



5.1.1 Biografia



            Darcy Ribeiro nasceu em 1922, na cidade de Montes Claros, em Minas
Gerais, e faleceu em Brasília, Distrito Federal, em 1997. Foi antropólogo, professor e
escritor.
            Entre as várias atividades - todas de consideráveis envergaduras -
dedicou-se aos estudos relacionados à Educação e à Questão Indígena: fundou o
Museu do Índio, criou a Universidade de Brasília, onde foi o primeiro Reitor, elaborou
o “Projeto Caboclo”, voltado ao povo da floresta amazônica, e escreveu os romances
“Maíra”, “O Mulo” e demais.




5.1.2 O Povo Brasileiro



            O objetivo central da obra (prima) “O Povo Brasileiro” é oferecer ao leitor a
resposta para a questão inicialmente formulada, qual seja: “Quem é o Povo
40



Brasileiro?”. Para tanto, Darcy Ribeiro, inicia sua reflexão discutindo a composição
étnica da população brasileira, tratando, portanto, do processo da miscigenação.
          Assim como Freyre (2005), Ribeiro apresenta os grupos étnicos cafuzo
(negro + índio), mameluco (branco + índio) e mulato (negro + branco).
          Ao tratar dos primórdios da colonização brasileira, logo de pronto, discute
o “choque cultural” ocorrido entre os índios e os europeus. Como é sabido, os índios
foram os primeiros seres humanos que aqui nasceram e que aqui habitaram (habitat
natural) e, por essa razão, têm a gênese de sua cultura.
          A contradição cultural discutida por Freyre se manifestava de um lado,
pelos europeus que - mediante suas visões etnocêntricas - consideravam-se o povo
civilizado e desenvolvido quando comparados àqueles que julgavam bárbaros e
selvagens, indagando-se entre outras: “Que animais são esses que devoram uns
aos outros?” (referindo-se à antropofagia ou canibalismo), “Que tamanha
imoralidade é essa?” (referindo-se ao fato de não usarem roupas). De outro lado,
estavam os indígenas surpreendidos e atônitos, pois aquela era a primeira vez em
toda a sua história que se deparavam com homens de pele clara, vestidos,
gesticulando e falando alto em uma língua incompreensível. Era algo totalmente
inusitado, chegando a julgar que aquele cenário representava um castigo divino:


                     [...] o que é aquilo que vem? Eles (os índios) olhavam, encantados
                     com aqueles barcos de Deus, do Deus Maíra chegando pelo mar
                     grosso. Quando chegaram mais perto, se horrorizaram. Deus
                     mandou pra cá seus demônios, só pode ser. Que gente! Que coisa
                     feia! Porque nunca tinham visto gente barbada – os portugueses
                     todos barbados, todos feridentos de escorbuto, fétidos, meses sem
                     banho no mar. (RIBEIRO, 1995).


          Depois, uma vez aqui instalados, os europeus concluíram que as terras
brasilis significavam para eles um verdadeiro “paraíso”, quer do ponto de vista
sexual   (“encantamento”     pelas    índias   associado     ao    “cunhadismo”      e,
consequentemente, à reprodução da mão de obra), quer do ponto de vista
econômico (ávidos pelo enriquecimento proveniente da exploração do pau-brasil,
logo era necessário, como diz Darcy Ribeiro, “povoar o país”).
          Assim, ora concebendo os índios como “bestializados” e inocentes e ora
como vadios, preguiçosos - e, portanto, inúteis para o trabalho - entendiam os
portugueses que algo deveria ser feito para a conquista de seus objetivos
41



econômicos mercantis. Para tanto, partiram para evangelização e escravização
indígena.     De fato, tratava-se do “moinho de gastar gente”, como discute Darcy
Ribeiro.
             Um dado interessante que favorecia “a conquista dos selvagens” estava
no fato de que os portugueses traziam consigo utensílios de viagens - espelhos,
facas, facões, machados - que encantavam e seduziam os índios. As consequências
disso foram negativas, uma vez que o desejo e a disputa por esses objetos geraram,
entre outras, situações de violências entre eles: “[...] para o índio passou a ser
indispensável ter uma ferramenta. Se uma tribo tinha uma ferramenta, a tribo do lado
fazia uma guerra pra tomá-la”. (RIBEIRO, 1995).
             Guerras, escravização física e moral, mortes, doenças, invasões e
evasões de suas próprias terras, desmonte cultural e dilapidações de famílias.
Muitas foram as violências causadas pelo europeu ao povo indígena no intento de
colonizar o país, o que de fato justificam as palavras de Darcy Ribeiro: “o Brasil, é
formado por um povo mestiço, lavado em sangue negro, em sangue índio, sofrida e
tropical [...]”
             As discussões acerca da posse e manutenção das terras indígenas, bem
como a preservação de suas culturas, geram polêmicas entre os estudiosos da
questão e a população em geral, não sendo incomum a ocorrência de discordâncias
e divisões entre eles. O artigo abaixo trata disso:



                      Mineração implica degradação social, dizem especialistas
                      Ana Paula Boni
                      Folha de São Paulo, 24/11 2007.
                      Especialistas alertam que empreendimentos para exploração mineral
                      instalados em terras indígenas podem causar impactos tão grandes
                      nos povos que, se não implicarem apenas sua degradação social e
                      perda de território, podem mesmo levá-los à extinção.
                      [...] O antropólogo Rogério Duarte do Pateo, do ISA (Instituto
                      Socioambiental), explica que, de acordo com a magnitude da
                      presença da mineradora e a proximidade das aldeias, as populações
                      podem ter hábitos alterados. Isso porque o barulho das máquinas
                      para a extração dos minérios, por exemplo, assustaria animais num
                      local onde a caça é o principal meio de subsistência. Com isso,
                      somado ao dinheiro dos royalties que os índios receberiam, eles
                      passariam a comer produtos industrializados. "Daí vem doença de
                      branco, como diabetes, colesterol, problemas dentários [...] "Os
                      índios encostam a barriga no empreendimento e passam a depender
                      de uma fonte externa" [...] Há também o impacto ambiental, já que
42



                    toda atividade de exploração de minérios implica uma área de
                    "servidão", onde vivem os funcionários da empresa, complementa o
                    advogado Paulo Machado, do Cimi (Conselho Indigenista
                    Missionário). "Cria-se uma verdadeira cidade para dar suporte à
                    atividade mineradora. Isso por décadas." Dessa forma, o entorno é
                    alterado devido à construção de estradas para escoar a produção,
                    rios     podem      ser   desviados   e    sua   água,     poluída.
                    Para o antropólogo Ricardo Verdum, assessor de políticas
                    indigenistas do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), o
                    maior dos males seria a perda da autoridade do índio sobre seu
                    território, sendo os povos colocados em segundo plano e podendo,
                    inclusive, ter de sair de uma aldeia por conta de uma jazida de
                    minério” [...]"há populações que podem desaparecer", afirma Pateo.
                    [...].


5.1.2.1 Os Mamelucos e a Miscigenação Indígena



          Na continuidade de seus estudos acerca da composição populacional,
Darcy Ribeiro discute o delicado tema acerca da miscigenação associado a
identidade étnica e questiona: o mameluco resultado da mistura biológica entre
brancos é índios é considerado e considera-se branco ou índio?
          Da mesma forma, a criança mameluca - meio européia e meio índia -
frequentemente rejeitada pelo pai-sendo somente reconhecida pela mãe, á qual
grupo étnico pertence?
          Assim, para os mestiços – mulatos e mamelucos - sem identidade étnica
Darcy Ribeiro desenvolve o conceito de “ninguendade” e discute: essa criança de
um lado, rejeitada e vista pelos membros da tribo como um estrangeiro, um diferente
e de outro, não assumida pelo pai europeu e por vezes ela própria abrindo mão da
cultura indígena tornava-se um “Zé Ninguém”.
          Como visto, a discussão acerca da mestiçagem encerra considerável
complexidade. O depoimento abaixo é nesse sentido revelador:


                    Depoimento de Olívio Zeferino, estudante de Filosofia na USP
                    In: O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro
                    Meu nome é Olívio Zeferino. Não sou índio puro, sou mestiço
                    guarani... porque o que causa essa questão de ser ou não ser é essa
                    identidade em que você é metade. Então, por exemplo, você é um
                    mestiço. Tem uns que assumem a cultura indígena. Tem uns que
                    são mestiços e assumem a cultura do branco. Então uma pessoa
                    que nasceu com fisionomia de índio não adianta querer falar que é
43



                     branca, porque todo mundo vê. Agora, o importante é você assumir,
                     porque mesmo sendo mestiço você pode lutar pelo seu povo.


          De fato, ao mestiço, de qualquer etnia, cabe o sentimento de
pertencimento cultural, o pertencimento de “ser brasileiro” uma vez que o Brasil é um
país, como mostrado, genuinamente mestiço: "Nós, brasileiros, somos um povo em
ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a
mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos
fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi
até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros” (Darcy
Ribeiro, 1995).
          E mais tarde, aprofunda e amplia entre outros, a discussão acerca da
identidade étnica dos mulatos - resultados da mistura entre brancos e negros -
associando à sua análise as variáveis sociais como tratado em seguida.



5.1.2.2 A População Negra Brasileira: o Negro Africano



                                                     [...] sob trezentas chicotadas de uma
                                                  vez para matar ou cinqüenta chicotadas
                                                                  diárias para sobreviver [...]
                                                                              Darcy Ribeiro


          Como é sabido, o processo da escravidão negra no Brasil teve início com
os insucessos obtidos pelos europeus quando viram frustrados seus projetos de
exploração da mão e obra indígena.
          Na África, os negros viviam em regiões distintas com os seus próprios
valores culturais - dança canto, língua, crenças, religiões. Aqui chegando,
deparavam-se com a diversidade cultural de seus conterrâneos, bem como com a
aqui imposta pelo branco, europeu, colonizador.
          Ao tratar da composição da população, brasileira é necessário nos
reportarmos, ainda que brevemente, às condições de vida existentes nas senzalas e
as consequências negativas delas resultantes para os negros nos dias atuais. Para
tanto, a fim de balisarmos estas discussões sobre a perspectiva antropológicas,
44



ocupar-nos-emos inicialmente das condições de saúde dos escravos e, em seguida,
passaremos pelos conceitos acerca do evolucionismo, eugenia e mestiçagem.
          Como é sabido, na época da escravidão no Brasil, negros e brancos
ressentiam-se da dificuldade de obter assistência à saúde, já que praticamente não
existiam médicos. Para os negros, porém, essa situação se agravava em virtude do
desinteresse dos senhores pela saúde de seus escravos.
          Viotti (1989), entre outros, mostram que muitas das doenças que
acometiam os negros decorriam das suas péssimas condições de vida. Sofriam de
problemas pulmonares, sobretudo de tuberculose, por causa do ambiente insalubre
das senzalas. Por estarem submetidos a trabalhos exaustivos e, consequentemente,
à estafa, era comum entre os negros das zonas rurais os acidentes nos engenhos,
que os levavam à morte ou a mutilações. Para os escravos gravemente doentes -
como, por exemplo, os vitimizados pela hanseníase - a solução encontrada pelos
senhores era a alforria. Assim, abandonados e inutilizados para o trabalho, restava-
lhes a mendicância.
          Frente à crescente mortalidade de escravos, os senhores entendiam que
de nada adiantaria melhorar as condições de vida da população escrava, pois para
eles os negros encontravam-se "em extinção".
          Mesmo com o fim do tráfico de escravos, em 1850, mantiveram-se os
altos índices de mortalidade infantil, materna e adulta devido, sobretudo, à
precariedade nas condições de moradia, de alimentação e sanitárias.
          De outro lado, é evidente que os efeitos destruidores advindos da
escravidão negra se fazem presentes sobre os seus descendentes nos dias atuais.
No entanto, artigo recente nos traz uma nova reflexão acerca das possíveis
consequências negativas de âmbito econômico para os países exportadores e
receptores de escravos, inclusive o Brasil. Reflitamos acerca do artigo abaixo:


                      O preço de um escravo
                      Segundo professor de Harvard, países mais pobres da África
                      hoje são os que mais exportaram escravos no passado
                      Folha de São Paulo, Caderno Mais, 11/05/2008.
                      Ernane Guimarães Neto
                      Estatísticas comprovam: vender escravos faz mal à África. É o que
                      diz Nathan Nunn, 33, professor de economia na Universidade
                      Harvard. Nunn apresentou, no início do ano, resultados de uma
45



                     pesquisa que correlaciona a exportação de escravos no passado à
                     baixa renda de hoje. A pesquisa usou informações do Projeto Base
                     de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos, que reúne
                     documentos diversos, como inventários, arquivos religiosos e
                     registros de compra e venda, relacionados ao tráfico de escravos
                     africanos do século 15 ao 19. No artigo "Efeitos de Longo Prazo do
                     Comércio de Escravos Africanos", publicado no "Quarterly Journal of
                     Economics", Nunn diz que "não apenas o uso de escravos é deletério
                     para uma sociedade, mas a produção de escravos, ocorrida por meio
                     da guerra doméstica, da pilhagem e dos seqüestros, também tem
                     impactos negativos no desenvolvimento". Em seus estudos, o Brasil
                     aparece perfeitamente enquadrado à linha de correlação segundo a
                     qual quanto maior a proporção de escravos na população em 1750,
                     menor o PIB per capita em 2000. E, do outro lado do Atlântico, as
                     regiões africanas que mais exportaram escravos se tornaram os
                     países de menor renda hoje. Apesar de colegas o criticarem por
                     cruzar dados no mínimo heterogêneos, o estudo já é visto nos EUA
                     como prova matemática do dano causado pelo Ocidente à África. Em
                     entrevista à Folha, Nunn não arrisca conclusões práticas. Devem-se
                     reparações à África? "Não estudei esse ponto."


          Então, no final do século XIX, persistiam epidemias como o mal de
Chagas, febre amarela, febre tifóide, entre outras. Os intelectuais brasileiros da
época entendiam que o país estava "doente" e era necessário encontrar a causa e a
cura desses males; à mestiçagem foi atribuída a responsabilidade por esta situação.
Para alguns, o cruzamento constante das raças proporcionaria, através da
“depuração”, a pureza da raça branca e, consequentemente, a solução para o
problema. Para outros, diferente disso, a solução “científica” apontada era condenar,
conter a mestiçagem. (SCHWARCZ, 1993).
          A esse respeito, como já apontado em nosso curso, o pensamento
eugênico entendia que a sociedade brasileira se desenvolveria nos mesmos moldes
da evolução biológica, ou seja, somente os mais fortes, capazes, superiores,
sobreviveram. A eugenia, por sua vez, visava à reprodução dos mais “aptos” e à
extinção dos "inferiores". No Brasil, em 1917, foi fundada a Liga Pró-Saneamento e,
em 1918, a Sociedade Eugênica de São Paulo. No entanto, o movimento eugênico,
após atingir o seu apogeu, declina e retorna nos anos 30, quando da ascensão do
nazismo, que difundia o arianismo. No início da década de 30, foi criada na cidade
do Rio de Janeiro a Comissão Central Brasileira de Eugenia, que publicava o
Boletim da Eugenia. (SOUZA, 2002).
          No final do século XIX, foram fundadas as Faculdades de Medicina da
Bahia e do Rio de Janeiro, cabendo-lhes detectar o surgimento de doenças e traçar
46



planos para erradicá-las. Expandem-se, na escola baiana, os estudos sobre
medicina legal, com o objetivo de investigar menos a doença e mais o doente,
através dos estudos da craniologia9.
              Para se compreender o papel ocupado pelo negro no contexto
evolucionista e eugênico e, posteriormente, para a compreensão do comportamento
da miscigenação nos dias atuais, Pereira (1981), elencou três fases distintas para
caracterizá-lo: 1ª. o negro como expressão de raça; 2ª. como expressão de cultura e
3ª. como expressão social.
              Na primeira fase, os "atributos biológicos compõem uma imagem
negativa e patológica do homem de cor perante os outros ramos raciais que formam
a população". Nina Rodrigues10, iniciou seus estudos sobre os negros na Bahia
baseado em uma visão evolucionista, objetivando identificar quem era "aquele
povo de origem africana" e em qual estágio se encontrava a sua cultura.
              A segunda fase apontada por Borges Pereira - "O negro enquanto
expressão de cultura" - iniciou-se na década de 20 e, conforme o autor, teve as
seguintes características: O negro se infiltra nas reflexões científicas como
expressão de cultura. Seus atributos raciais são colocados em plano secundário,
cedendo lugar às suas peculiaridades culturais. Na década de 30, Gilberto Freyre
atribuiu à cultura africana papel fundamental na construção da nacionalidade
brasileira.
              A terceira fase dos estudos sobre o negro, que Borges Pereira
denominou como "o negro como expressão social", iniciou-se com o fim da Segunda
Guerra Mundial, mediante uma reflexão crítica quanto ao "conceito de raça como
realidade empírica - uma revisão de toda a problemática social, política e científica
que historicamente se elaborara em torno da variedade fenotípica dos diferentes
grupos humanos" (PEREIRA, 1981).




9
  Craniologia: Teorias de matriz evolucionista, foi palco dos estudos antropométricos realizados pela
da Antropologia Física ou Biológica. Tratava do tamanho, peso e formato do crânio onde seus
resultados definiriam a capacidade intelectual, comportamento social e moral dos distintos grupos
raciais.
10
   Nina Rodrigues: Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), maranhense, era médico legista,
psiquiatra e antropólogo. Desenvolveu as primeiras pesquisas antropológicas de cunho criminal,
defensor do pensamento evolucionista. Fundador da Escola Nina Rodrigues que desenvolvia estudos
voltados à antropologia física.
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  • 3. SUMÁRIO PARTE I – TEORIA ANTROPOLÓGICA 6 1 ANTROPOLOGIA 6 1.1 O QUE É ANTROPOLOGIA? 6 1.1.1 Cultura 6 1.1.1.1 Pluralidades 7 1.1.1.2 Diversidades 7 1.1.1.3 Julgamento de Valor 8 1.2 QUAIS SÃO OS SEUS OBJETIVOS? PARA QUE SERVE? 8 1.2.1 Sociologia 9 1.2.2 O Assistente Social e a Ciência Antropológica: “Qual é a 9 Importância do Estudo da Disciplina de Antropologia para o Estudante do Curso de Serviço Social?” 2 CIÊNCIA, CONHECIMENTO CIENTÍFICO E 11 CONHECIMENTO DE SENSO COMUM 2.1 A ESPECIFICIDADE DA METODOLOGIA DOS ESTUDOS E 11 DAS PESQUISAS ANTROPOLÓGICAS 2.1.1 Metodologia Científica - Como Proceder ao Estudo 11 Antropológico? 2.1.1.1 Multidiciplinaridade 11 2.1.1.2 Empírico / Empirismo 11 2.1.1.3 Epistemologia 12 2.1.1.4 Senso Comum 12 2.2 A ETNOGRAFIA E A ETNOLOGIA: DE QUE FORMA 12 OCORRE O ESTUDO ANTROPOLÓGICO? 2.2.1 Etnografia 13 2.2.2 Etnologia 13 2.3 O CONCEITO DE NEUTRALIDADE – ÉMILE DURKHEIM 13 2.4 ALGUNS CONCEITOS ANTROPOLOGICOS IMPORTANTES 14 2.4.1 Estruturas Familiares 14 2.4.1.1 Sistema Monogâmico 15 2.4.1.2 Sistema Bigâmico 15
  • 4. 2.4.1.3 Sistema Poligâmico 15 2.4.1.4 Endogamia 15 2.4.1.5 Exogamia 15 2.4.2 Etnocentrismo 16 2.4.3 Selvagem / Bárbaro / Primitivo 16 2.4.4 Xenofobia 16 2.4.5 Eugenia 17 2.4.6 Raça 18 2.4.7 Cor 19 2.4.8 Etnia 19 2.4.9 Racismo 19 2.4.10 Discriminação 19 2.4.11 Preconceitos 19 2.4.12 Aculturação / Assimilação 20 2.4.13 Sincretismo Religioso 21 2.4.14 Relativismo Cultural (RC) 22 2.4.14.1 Selvagens, Brutos e Ignorantes 23 2.4.14.2 Dóceis, Ingênuos, Bestializados, Sem Razão, Sem 23 Raciocínio 2.4.15 Representações Sociais 24 3 AS PRINCIPAIS ESCOLAS DO PENSAMENTO 26 ANTROPOLÓGICO CLÁSSICO 3.1 AS PRINCIPAIS ESCOLAS 26 3.1.1 Escola Evolucionista: Século XIX 26 3.1.1.1 Características Principais 26 3.1.1.2 Referências Literárias 27 3.1.2 Escola Sociológica Francesa: Século XIX / XX 28 3.1.2.1 Características Principais 28 3.1.2.2 Referências Literárias 28 3.1.3 Escola Funcionalista: Século XX (Anos 20) 28 3.1.3.1 Características Principais 28 3.1.3.2 Referências Literárias 29 3.1.4 Escola Culturalista: Século XX (Anos 30) 29
  • 5. 3.1.4.1 Características Principais 29 3.1.4.2 Referências Literárias 29 3.1.5 Escola Estruturalista: Século XX (Anos 40) 30 3.1.5.1 Características Principais 30 3.1.5.2 Referências Literárias 30 3.1.6 Escola Interpretativa: Século XX (Anos 60) 30 3.1.6.1 Características Principais 30 3.1.6.2 Referências Literárias 30 3.1.7 Escola Crítica (Pós-moderna): Século XX (Anos 80) 31 3.1.7.1 Características Principais 31 3.1.7.2 Referência Literária 31 3.2 OS CINCO POLOS DO ESTUDO ANTROPOLÓGICO 31 3.2.1 Antroplogia Simbólica 31 3.2.2 Antropologia Social 31 3.2.3 Antropologia Cultural 32 3.2.4 Antropologia Estrutural e Sistêmica 32 3.2.5 Antroplogia Dinâmica 32 PARTE II – CLÁSSICOS DA ANTROPOLOGIA 33 BRASILEIRA 4 APRESENTAÇÃO À OBRA “CASA GRANDE E 34 SENZALA”, GILBERTO FREYRE 4.1 GILBERTO FREYRE 34 4.1.1 Vida e Obra 34 4.1.2 Casa Grande e Senzala 34 4.1.2.1 Como Ocorreu a Formação da Sociedade Brasileira? 35 4.1.2.2 O Indígena 36 4.1.2.3 O Negro Africano no Brasil 38 5 APRESENTAÇÃO À OBRA “O POVO 39 BRASILEIRO”, DE DARCY RIBEIRO 5.1 DARCY RIBEIRO 39 5.1.1 Biografia 39 5.1.2 O Povo Brasileiro 39
  • 6. 5.1.2.1 Os Mamelucos e a Miscigenação Indígena 42 5.1.2.2 A População Negra Brasileira: o Negro Africano 43 5.1.2.3 A Mestiçagem e o Item Cor - a “Ninguendade” do Mulato 47 Brasileiro 5.1.2.4 O Moinho de Gastar Gente: Classes e Contradição de 49 Classes 5.1.2.5 As Mulheres Brasileiras 51 CONSIDERAÇÕES FINAIS 53 REFERÊNCIAS 54
  • 7. 6 PARTE I – TEORIA ANTROPOLÓGICA 1 ANTROPOLOGIA 1.1 O QUE É ANTROPOLOGIA? Antropo origina do grego e significa homem. Logia, de origem igualmente grega, quer dizer estudo. Então, o nosso desafio é conhecer, estudar o homem, sob a perspectiva antropológica. Para tanto, utilizar-nos-emos das quatro áreas de conhecimento ou áreas do saber humano1 em que se divide a Antropologia, ou seja: 1. Antropologia Física ou Biológica (aspectos orgânicos), 2. Antropologia Cultural (símbolos, mitos, ritos, valores); 3. Antropologia Social (organização social, econômica, política, jurídica) e 4. Arqueologia2 (sociedades antigas, existentes ou não). O objeto da Antropologia é o estudo dos diferentes comportamentos sociais e culturais exercidos pelos distintos grupos humanos. E o que é cultura? 1.1.1 Cultura São os hábitos, costumes, expressões linguísticas, danças, alimentação, religião, crenças, valores, estrutura familiar, diversão, enfim, o modo, o estilo de vida de cada grupo populacional que compõe as sociedades. Mediante o estudo antropológico - ou o estudo do homem -, é possível conhecermos o homem e a sua interação com seu meio cultural. O homem produz e reproduz a sua própria cultura. A Antropologia estuda a especificidade cultural de cada povo, de cada grupo social, de cada realidade cultural. 1 Áreas onde há concentração e profundidade de estudos específicos. 2 Arqueologia: arque “archaios” vem do grego e significa antigo. Então, arqueologia significa o estudo de sociedades tradicionais, antigas – existentes ou não – mediante as suas culturas, arquiteturas, artes etc.
  • 8. 7 A Antropologia busca investigar, compreender, e, sobretudo, respeitar e considerar aquilo que é tido como diferente, distinto, em uma dada sociedade. Busca considerar as pluralidades sem emitir julgamentos de valor. E o que são pluralidades? 1.1.1.1 Pluralidades Como o próprio nome diz, pluralidade vem da palavra plural: muitos, vários, diferentes, distintos. O oposto à pluralidade é a singularidade (único, um). Nós, seres humanos, vivemos em sociedade e somos diferentes uns dos outros, ou seja, somos plurais. Esta diferença não significa superioridade ou inferioridade e sim, diversidade. E o que são diversidades? 1.1.1.2 Diversidades Diversidade significa diversos, diferentes. Os homens são diversos, diferentes entre si. Diferenciamo-nos uns dos outros por vários fatores, por várias características: distintas raças/etnias (brancos, negros, japoneses, judeus, ciganos, índios etc.), distintas nacionalidades (brasileiros, americanos, japoneses, franceses, alemães etc.), distintas naturalidades (paulistas, baianos, cariocas, recifenses, mato-grossenses etc.), distintos estereótipos, tipos físicos (baixo, alto, gordo, magro etc.), distintas religiões (catolicismo, protestantismo, candoblecismo etc.), distintas culinárias típicas (acarajé e vatapá, na Bahia; churrasco, no Rio Grande do Sul etc.), entre outras características culturais. O desenvolvimento ou a aplicação dos estudos antropológicos devem fundamentalmente ocorrer sem que o pesquisador3, o antropólogo, utilze-se de seus valores, de suas próprias crenças. Para tanto, é necessário que ele se dispa de todos e quaisquer julgamentos de valor. 3 No universo acadêmico, o profissional de quaisquer áreas do saber pode, se assim desejar, enveredar-se, debruçar-se sobre o estudo de um tema específico, um assunto que lhe chama a atenção, que lhe atrai, desenvolvendo sobre ele novos estudos e pesquisas em profundidade.
  • 9. 8 E o que significa julgamento de valor? 1.1.1.3 Julgamento de Valor São práticas etnocêntricas4 (o homem no centro do universo) que julgam a cultura, o comportamento, a forma de ser, de se relacionar a partir de seus próprios valores. Atribui valores ao “outro” de acordo com aquilo que considera ser o correto, o justo, o aplicável. É uma visão que despreza o conceito5 de diversidades e se ocupa do conceito de superioridade. Parte da crença que tem o poder, o domínio da verdade. 1.2 QUAIS SÃO OS SEUS OBJETIVOS? PARA QUE SERVE? Como vimos, a Antropolgia - também conhecida como a “ciência da humanidade” - ocupa-se do estudo das diferenças culturais ou das diversidades culturais. Ao cumprir os seus objetivos, ou seja, investigar e compreender as especificidades culturais do “outro”, tem como maior missão demostrar que diferenças culturais não significam desigualdades culturais, não cabendo valorações. Trata-se, portanto, de respeitar as diferenças. Cabe chamar a atenção que, em larga medida, quando adentramos no universo antropológico, remetemo-nos ao campo dos estudos sociológicos. E o que é Sociologia? 4 Adiante trataremos com mais vagar sobre o conceito de “etnocentrismo”. 5 Conceitos: São significados, idéias, pensamentos oriundos de estudos e pesquisas. Os conceitos podem variar de acordo com as definições atribuídas a eles pelo pesquisador, ou seja, um conceito poderá ter mais de um significado. Dessa forma, é necessário utilizarmos aquele que expressa o nosso pensamento. Exemplo: vários autores desenvolvem e adotam distintos conceitos sobre “classes médias”: a) posso referir-me a uma pessoa como sendo de classe média de acordo com os bens materiais que possui ou b) posso referir-me a ela somente pelo nível de escolaridade independente de suas posses ou c) por ambos.
  • 10. 9 1.2.1 Sociologia Palavra híbrida (socio vem do latim e quer dizer sociedade / logia origina do grego e significa estudo). Assim, Sociologia é o estudo da sociedade, dos comportamentos, instituições, práticas sociais. Percebam que a Antropologia se propõe ao estudo dos comportamentos individuais inseridos nos contextos sociais. Dessa forma, as diferenças entre os saberes sociológicos e os antropológicos são tênues, quase imperceptíveis, e estão basicamente voltados à metodologia de investigações científicas aplicadas quais sejam as técnicas, quantitativas e qualitativas. Enquanto a Sociologia privilegia os resultados mensuráveis, estatísticos, a Antropologia, por sua vez, preocupa-se com a história oral, com o dizível, com o relatado. Há de se notar que tais práticas não são rígidas mas, sim, complementares, uma vez que se somam, completam-se, confluem-se. 1.2.2 O Assistente Social e a Ciência Antropológica: “Qual é a Importância do Estudo da Disciplina de Antropologia para o Estudante do Curso de Serviço Social?” Inicialmente, cabe dizer que a aplicação dos conhecimentos advindos das ciências sociais é pertinente a todas as áreas do saber humano. Como visto, a Antropologia ao valorizar as diversidades culturais, refuta as práticas associadas aos julgamentos de valores ou práticas etnocêntricas. A fim de tornar ainda mais compreensível a importância disto, François Laplantine (2000) nos apresenta, entre outros, o conceito de alteridade. Nós seres humanos - enquanto seres individuais - não vivemos sozinhos, não nos bastamos e, portanto, dependemos do outro para viver estabelecendo, consequentemente, relações sociais e interpessoais. Tais relações, por sua vez, são distintas umas das outras, já que os homens - no que tange aos aspectos subjetivos - diferenciam-se entre si, de acordo com sua cultura, seus valores, suas emoções. Logo, independente de nossa vontade, deparamo-nos com o “outro” exitente na sociedade. Dessa forma,
  • 11. 10 deparando-nos com o “diferente”, e mediante a respectiva reflexão, reconhecemo- nos em nossa própria cultura. A esse respeito, nas palavras de Laplantine, a Antropologia nos permite “uma revolução no olhar”. Ensina-nos ele: A experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva- nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a nossa dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual, familiar, cotidiano, e que consideramos “evidente”. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos, mímicas, posturas, reações afetivas) não têm realmente nada de “natural”. Começamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a nós mesmos, a nos espiar. O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única. (2000, p. 21) Dessa forma, o Assistente Social, desde o início de seu curso de graduação, aprenderá a refletir sobre realidades sociais e culturais diferentes das suas, já que quando do exercício de sua profissão - já formado - estará, sistematicamente, em contato com o “outro”. Como compreendê-los, se não souber lidar com as diferenças?
  • 12. 11 2 CIÊNCIA, CONHECIMENTO CIENTÍFICO E CONHECIMENTO DE SENSO COMUM 2.1 A ESPECIFICIDADE DA METODOLOGIA DOS ESTUDOS E DAS PESQUISAS ANTROPOLÓGICAS 2.1.1 Metodologia Científica - Como Proceder ao Estudo Antropológico? Para se proceder ao correto estudo da Antropologia - bem como ao de todas as demais disciplinas - é de fundamental importância dominarmos a definição de ciência. Ciência consiste na produção de teorias e de conceitos obtidos a partir pressupostos teóricos resultantes de investigações científicas. A produção do conhecimento científico requer o auxílio de múltiplos saberes e por esta razão tem caráter multidisciplinar. 2.1.1.1 Multidisciplinaridade Multidisciplinaridade (multi= vários; disciplinaridade = disciplinas) significa a soma dos conhecimentos produzidos pelas diferentes disciplinas, pelos conhecimentos científicos diversos. Em oposição a isso, está o monoculturalismo (mono = um, única cultura na qual as diversidades são desprezadas). Fundamenta-se no conhecimento científico que, por sua vez, é produzido mediante o rigor científico. Para ser considerado científico, deve ser empírico. 2.1.1.2 Empírico / Empirismo O conhecimento científico é empírico, o que significa dizer que foi experimentado, testado, comprovado. E ainda, os conhecimentos científicos obtidos
  • 13. 12 não são estáticos, estando, portanto, em constantes movimentos (sempre repensados, sempre revistos, sempre reavaliados). Os dados resultantes das investigações científicas podem ser corroborados (comprovados, validados) ou refutados (negados, invalidados), sendo que as respectivas análises devem ocorrer de forma minuciosa e imparcial (neutra). Logo, ao tratarmos de “ciência”, de “conhecimento científico”, estaremos igualmente tratando do conceito de epistemologia. 2.1.1.3 Epistemologia Significa a fundamentação do conhecimento científico, ou seja, a busca pelo conhecimento erudito, minucioso, criterioso, aprofundado. As Ciências dividem-se em Humanas (Antropologia, Sociologia, Psicologia etc.), Naturais (Química, Física, Astronomia etc.) e Abstratas (pensamento lógico-matemático, estatístico etc.). Em oposição ao conceito de Ciência ou Epistemologia, temos o conceito de Senso Comum. 2.1.1.4 Senso Comum São os conhecimentos ditos de forma não científica, não empírica; são as suposições. 2.2 A ETNOGRAFIA E A ETNOLOGIA: DE QUE FORMA OCORRE O ESTUDO ANTROPOLÓGICO? Como dito, a aplicação dos conceitos acerca de ciência cabe a todas as áreas do saber. No entanto, cada uma delas apresenta os seus próprios instrumentais ou a sua própria metodologia. Dessa forma, nos ocuparemos daqueles pertinentes à Antropologia, quais sejam a etnografia e a etnologia.
  • 14. 13 2.2.1 Etnografia Etno quer dizer povo e grafia significa escrita, ou seja, etnografia destina-se à “escrita do povo” e mais exatamente, à “coleta de informações relativas ao povo”. Trata-se do desenvolvimento do trabalho de campo, da pesquisa de campo. Então, quando o pesquisador decide-se por fazer um estudo antropológico significa dizer que o antropólogo/pesquisador fará um estudo etnográfico (pesquisa de campo). Ao procedermos a um estudo científico e etnográfico, propomo-nos a buscar respostas para as seguintes questões: Como e onde pesquisar? Como coletar os dados? Como devo fazer para me aproximar do meu entrevistado? Como perguntar? Como analisar? Como não me envolver emocionalmente? Como cumprir os meus objetivos? Entre outras indagações pertinentes. 2.2.2 Etnologia Etno quer dizer povo e logia, estudo. Logo, etnologia significa a análise dos dados obtidos, coletados, quando da execução do trabalho de campo (etnográfico). Dessa forma, o pesquisador/antropólogo se inclinará sobre os resultados etnográficos e desenvolverá o estudo etnológico. 2.3 O CONCEITO DE NEUTRALIDADE – ÉMILE DURKHEIM Conforme apresentado, o conceito de neutralidade é parte integrante da Metodologia do Trabalho Científico, cabendo então debruçarmos sobre ele. Emile Durkheim (2007) entendia que o pesquisador, quando do desenvolvimento do trabalho de campo, deveria conceber os fatos sociais estudados como “coisas”. Essa “coisificação” seria necessária para que se pudesse investigá- los de modo neutro (neutralidade) e distante (distanciamento). Segundo ele, tal
  • 15. 14 procedimento metodológico permitiria a não interferência dos valores do pesquisador sobre a realidade do grupo estudado. No entanto, parte dos pesquisadores sociais avalia o conceito de neutralidade apregoado por Durkheim e sua aplicabilidade. Questionam se é de fato possível ao pesquisador manter-se “neutro” e distante frente ao estudo de determinadas realidades sociais e culturais. Como respostas a essas inquietações, entendem que - independente das emoções possivelmente despertadas - a minuciosidade do rigor científico deve prevalecer. Apresento abaixo uma realidade que merece ser refletida, considerando, para tanto, a discussão acerca dos conceitos de “neutralidade, diversidade cultural e rigor científico”. Como você se portaria diante desta situação? Infanticídio põe em xeque respeito à tradição indígena6 Folha de S. Paulo, on line, 06/04/2008. Ana Paula Boni Mayutá, índio de quase dois anos de idade, deveria estar morto por conta da tradição de sua etnia kamaiurá. Na lei de sua tribo, gêmeos devem ser mortos ao nascer porque são sinônimos de maldição. Paltu Kamaiurá, 37, enviou seu pai, pajé, às pressas para a casa da família de sua mulher, Yakuiap, ao saber que ela havia dado à luz a gêmeos. Mas um deles já tinha sido morto pela família da mãe. Paltu enfrentou discriminação da tribo, para a qual a criança amaldiçoaria a aldeia. [...] Ainda praticado por cerca de 20 etnias entre as mais de 200 do país, esse princípio tribal leva à morte não apenas gêmeos, mas também filhos de mães solteiras, crianças com problema mental ou físico, ou doença não identificada pela tribo. Projeto de lei Há Projeto de Lei que trata de "combate às práticas tradicionais que atentem contra a vida", que tramita na Câmara desde maio passado [...] A proposta é polêmica entre índios e não-índios. Há quem argumente que o infanticídio é parte da cultura indígena. Outros afirmam que o direito à vida, previsto no artigo 5º da Constituição, está acima de qualquer questão [...]. 2.4 ALGUNS CONCEITOS ANTROPOLOGICOS IMPORTANTES 2.4.1 Estruturas Familiares 6 Este artigo, bem como outros aqui apresentados, estão disponíveis em http://www.folha.com.br/.
  • 16. 15 2.4.1.1Sistema Monogâmico Monogamia – sistema familiar, cultural, social e religioso que legitima os matrimônios mediante um só parceiro durante determinado período de tempo. 2.4.1.2 Sistema Bigâmico Bigamia – sistema familiar, cultural, social e religioso que legitima os matrimônios mediante dois parceiros durante determinado período de tempo. 2.4.1.3 Sistema Poligâmico Poligamia – sistema familiar, cultural, social e religioso que legitima os matrimônios mediante mais de dois parceiros durante determinado período de tempo. 2.4.1.4 Endogamia Endogamia (endo = dentro / gamo = casamento) – uniões, matrimônios, ocorridos no interior do mesmo grupo a que pertencem os envolvidos (religioso, familiar, étnico, classes sociais). 2.4.1.5 Exogamia Exogamia (exo = fora / gamo = casamento) – uniões, matrimônios ocorridos exteriormente aos grupos pertencentes (religioso, familiar, étnico, classes sociais).
  • 17. 16 2.4.2 Etnocentrismo O termo “etno” significa povo e “centrismo” significa centro. Este conceito quer dizer que o homem e o seu grupo social, racial/étnico consideram-se o centro do universo. Tudo aquilo que lhes pertencem - estruturas familiares, sociais, culturais, econômicas e políticas - são padrões por eles considerados como superiores, corretos, únicos verdadeiros e que, portanto, devem ser seguidos. De outra forma, tudo aquilo que for diferente àquilo que conhecem, pensam, acreditam, valorizam, defendem, é, aos seus olhos, moralmente inaceitável, inferior, anormal, selvagem, primitivo e degradante, devendo, portanto, serem modificados, destruídos, exterminados. As consequências das práticas etnocêntricas são todas elas negativas, devastadoras e violentas, verificadas nas relações de superioridade empreendida por aqueles que mandam, impõem, julgam. Esses são representados pelas figuras dos colonizadores, civilizadores (os que mandam) e, do outro lado, estão os colonizados, civilizados (“civilizáveis”), ou seja, aqueles que são violentados, subjugados, inferiorizados. As relações de poder são fortemente verificadas nas relações de colonizadores e colonizados7. 2.4.3 Selvagem / Bárbaro / Primitivo Termos pejorativos e preconceituosos utilizados por aqueles que se consideram superiores aos membros de sociedades diferentes das suas e que desenvolvem modos de vida distintos dos seus. 2.4.4 Xenofobia Xeno significa estrangeiro e fobia, medo. Xenofobia significa, então, medo, horror, pânico àquele que é diferente. As consequencias xenofóbicas são 7 Indico as leituras de Michel Maffesoli - Dinâmica da Violência. São Paulo: Vértice, 1997 - e Albert Memmi - Retrato do Colonizado Precedido pelo Retrato do Colonizador. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
  • 18. 17 verificadas nas violências praticadas sobre os grupos considerados minoritários: negros, índios, homossexuais, nordestinos, portadores de ncessidades especiais. Segue abaixo um exemplo clássico de práticas xenófobas exercidas, cotidianamente, na sociedade brasileira: AÇÃO URGENTE: TEMOR PELA SEGURANÇA Folha de S. Paulo, on-line, Brasil, 08/09/2000. Um grupo neonazista enviou pacotes-bomba para a casa do funcionário da Anistia Internacional em São Paulo, Eduardo Bernardes da Silva, e para os organizadores da Parada do Orgulho Gay. [...] Em 5 de setembro, o grupo neonazista também enviou cartas a dois destacados membros de comissões de direitos humanos de São Paulo, Renato Simões e Ítalo Cardoso, ameaçando "exterminar" gays, judeus, negros e nordestinos (pessoas oriundas da empobrecida Região Nordeste do Brasil), assim como aqueles que procuram proteger os direitos dessas pessoas. 2.4.5 Eugenia Em meados do século XIX (1859), o biólogo inglês Charles Darwin publica a sua famosa obra “A Origem das Espécies”. Mediante estudos desenvolvidos com plantas e animas, conclui a sua “Teoria da Seleção Natural” de cunho evolucionista. Frente à concepção evolucionista - e deturpando os estudos de Charles Darwin -, Francisco Dalton (primo de Charles Darwin) funda no ano de 1908 a “Sociedade de Educação Eugênica”, condenando a miscigenação a fim de manter a pureza das raças, surgindo, assim, o conceito de Eugenia (SOUZA, 2002). Com ela, Dalton defendia que na sociedade haveria dois grupos humanos distintos entre si, sendo um “forte” e o outro, “fraco”. Consequentemente, dada a supremacia das capacidades intelectuais inatas do primeiro grupo (o forte), somente esse sobreveveria. O outro (o fraco) estaria naturalmente fadado ao fracasso. Interessante notar que muito recentemente manifestações a esse respeito se fizeram presentes, como mostra o artigo abaixo publicado pelo Jornal Folha de São Paulo, em outrubro de 2007.
  • 19. 18 Africano é menos inteligente, diz Nobel Folha de São Paulo, on line, 18/10/2007. Rafael Garcia Uma entrevista do biólogo James Watson, 79, com declarações racistas anteontem a um jornal britânico atraiu uma enxurrada de críticas de cientistas, sociólogos, políticos e ativistas de direitos humanos. Watson, ganhador do Prêmio Nobel por ter descoberto a estrutura do DNA juntamente com Francis Crick, em 1953, afirmou ao jornal britânico "The Sunday Times" que africanos são menos inteligentes do que ocidentais e, em razão disso, se declarou pessimista em relação ao futuro da África. "Todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles (dos negros) é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não", afirmou o cientista. "Pessoas que já lidaram com empregados negros não acreditam que isso (a igualdade de inteligência) seja verdade." [...] Pessoas que apontaram erros na declaração de Watson afirmam que a reação ao cientista precisa ser contundente. Em outra ocasião, defendeu o direito ao aborto, se as grávidas pudessem saber se a criança nasceria homossexual. Entre os cientistas que reagiram de maneira mais dura contra Watson estão os próprios geneticistas. "Definitivamente, isso não faz sentido nenhum e é totalmente estapafúrdio", disse à Folha Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais. "É uma falácia de autoridade. Ele não é especialista no estudo de evolução de populações humanas. Ele estuda biologia molecular pura." Pena, cujo trabalho sobre populações brasileiras contribuiu em grande medida para derrubar o conceito biológico de raças humanas, afirma que a maioria das pessoas "não vai levar Watson a sério", mas que ele pode "inflamar os ânimos" daqueles que já são racistas. Sobre a situação da África, Pena diz que nem sequer é uma questão de inteligência. "O Watson confunde uma situação histórica e social da África com uma situação biológica", disse. "O que acontece é que os africanos foram vítimas de uma colonização brutal por parte dos europeus." 2.4.6 Raça A UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura - entre as décadas de 1950 a 1960 iniciou no Brasil uma série de estudos com o objetivo de investigar como se processava a inserção dos negros na sociedade e, sobretudo, de identificar as barreiras à sua ascensão social. Entre os seus achados, concluiu que o conceito de raça é inaplicável aos seres humanos, ou seja, “raça” não existe, expressando, portanto, um componente social e político.
  • 20. 19 2.4.7 Cor Atributo, característica física e biológica cambiante (variável), relacionada à cor da pele, dos olhos e do cabelo proveniente do processo de miscigenação. 2.4.8 Etnia Conceito antropológico que trata das especificidades culturais (língua, religião, mito, rito, ritmos, vestimenta, canto, dança, alimentação etc.). 2.4.9 Racismo Crê na existência de superioridade, de hierarquia entre as raças, defendendo-a e considerando os estereótipos, sobretudo, os relacionados à cor da pele: branco superior aos negros x negros inferior aos brancos. 2.4.10 Discriminação Violação dos direitos das pessoas em decorrência de seus atributos fenotípicos (físicos) e genotípicos (genes, biológicos), tais como cor da pele, etnia, idade, religião, procedência regional e humanos. É a prática racista, o tratamento diferenciado advindo do preconceito racial. 2.4.11 Preconceitos No que tange às questões sociais, raciais, regionais, de gênero, entre outras, o preconceito é manifestado através da repulsa, da intolerância, do desafeto, da violência, da discriminação afetiva, física ou emocional.
  • 21. 20 O artigo abaixo registra a pertinência das discussões antropológicas acerca das práticas discriminatórias exercidas, por exemplo, no mercado de trabalho, envolvendo as “minorias”. Discriminação no trabalho Folha de São Paulo, on line, 25/03/2008 Nádia Demoliner Lacerda (mestre em Direito do Trabalho pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo) Atualmente, as empresas brasileiras estão continuamente sujeitas a sofrer processos trabalhistas por práticas discriminatórias. Cerca de dois milhões de ações deram entrada no Judiciário em 2006, segundo um levantamento do TST (Tribunal Superior do Trabalho). [...] O tratamento discriminatório no Brasil está ligado às grandes diferenças na distribuição da renda e à cultura secular de tratamento discriminatório, que nos acompanha desde o Brasil Colônia e que até hoje se reflete em atos contra determinados grupos, como mulheres, negros, soropositivos, deficientes, entre outros. No âmbito das relações de trabalho, é a Convenção 111 da OIT sobre "discriminação em matéria de emprego e profissão" que impõe limites ao comportamento das empresas em relação aos indivíduos, tanto em termos de escolha de candidatos ao emprego quanto aos critérios na promoção de função e na decisão de rescindir o contrato de trabalho. Eventual diferença numérica entre homens e mulheres, negros e brancos, por exemplo, resulta da legitimidade que tem o empregador de avaliar a qualificação e capacitação de cada um dos candidatos que se apresentam para uma vaga ou posição dentro da empresa, não podendo ser tida como conduta discriminatória punível. 2.4.12 Aculturação / Assimilação Refere-se ao processo de perda da própria cultura, dos valores, dos comportamentos de um grupo social em detrimento da aceitação, incorporação, das apresentas por um outro grupo. Não tem, necessariamente, conotação negativa, uma vez que pode haver - ou não - as respectivas trocas entre os grupos envolvidos. Reflitamos acerca do artigo abaixo: ESCOLA DA VIDA Folha de São Paulo, 12 de setembro de 2004. Laura Capriglione
  • 22. 21 Com ar provocador, o aluno dispara em um português hesitante: "Professora, o que quer dizer c...?" Rosângela Portela, 46, a professora, entendeu de imediato. O estudante, um jovem negro anglófono da África Ocidental, agora desterrado, estava testando-a. “Eu respondi sem piscar. Repeti pausadamente a palavra e a traduzi para o inglês. Expliquei que se tratava de um palavrão que pessoas bem educadas não deveriam pronunciar. Perguntei, então, se ele havia compreendido", lembra a professora. O rapaz, que nunca havia visto uma professora (em seu país só homens desempenham a função), que junto a isso nunca ouviu uma mulher "direita" se referir aos genitais masculinos, fez que sim e teve, dessa forma, sua primeira aula de cultura brasileira. O episódio ocorreu na semana passada, em uma sala de aula no Sesc (Serviço Social do Comércio), no centro da cidade de São Paulo, onde começava mais um curso de português para refugiados de guerras e tragédias humanitárias, dentro de um programa de aculturação com o Brasil. Na ocasião, o jovem acabava de completar dez dias no país. [...] Expressando-se em inglês (a maioria), ou francês e espanhol, a atual leva de refugiados tem como primeira missão aprender português. A professora lembra-se de um aluno nigeriano que viveu dias de euforia na chegada. "Depois de um mês, ele entrou em depressão severa. Percebeu que estava sozinho (perdeu todos os vínculos com parentes na África), que obter trabalho era complicado. Tivemos de ampará-lo seriamente.". 2.4.13 Sincretismo Religioso É a mistura, a fusão, a assimilação de um ou mais elementos culturais entre religiões diferentes, ou seja, determinada religião se utiliza dos mitos e ritos religiosos distintos aos seus. Exemplo disto pode ser verificado no processo histórico relativo ao tráfico de escravos para o Brasil. Como é sabido, uma das características profundamente marcante que impulsionou a colonização brasileira foi o tráfico de escravos. Na África, os negros viviam em regiões distintas, cada grupo com os seus próprios valores culturais, inclusive do ponto de vista da religiosidade. Aqui chegando, foram impedidos de cultivarem suas religiões e obrigados a praticar a imposta pelo branco europeu, qual seja, o catolicismo. No entanto, como forma de resistência e preservação da religião africana, os africanos frequentavam os ritos católicos, mas mantinham secretamente os seus, misturando os elementos da religião africana aos elementos da cultura católica. A Umbanda é exemplo disso. Cabe destacar que o sincretismo religioso não está presente somente na cultura africana, conforme abaixo ilustrado:
  • 23. 22 Chá do Santo Daime transborda para outros cultos Folha de São Paulo, Revista da Folha, dezembro de 2007. O Santo Daime - culto apoiado no catolicismo popular e conhecido pelo consumo de um chá chamado ayahuasca - está em uma terceira onda de expansão. Após sair da floresta amazônica para chegar aos grandes centros e depois chegar ao exterior, agora é a vez do culto se fundir com outras religiões, em especial o hinduísmo e a umbanda, relata Roberto de Oliveira. Para o antropólogo Edward MacRae, 61, da Universidade Federal da Bahia, assim como outras religiões, o Santo Daime também tem a propriedade de aglutinar elementos de outras crenças, como umbanda, traços indígenas, cristãos, afro e esotéricos, ocidentais ou orientais. "A ayahuasca facilita a experiência mística. E é justamente essa experiência, sem a intermediação da figura de um sacerdote, que está colaborando para a sua expansão", diz o professor. Coordenador do Conub (Conselho Nacional da Umbanda do Brasil) no Estado de São Paulo, Pai Medeiros, 39, não condena a mistura. Ele diz que a umbanda é inclusiva, abrange muitas vertentes e que a umbandaime - mistura da umbanda com o Santo Daime - é uma delas. "Qualquer forma de manifestação do sagrado é respeitada." 2.4.14 Relativismo Cultural (RC) O conceito de “relativismo cultural” está intimamente associado ao amplo conceito de diversidades e ao de alteridade, bem como aos julgamentos de valores dicotômicos: bom e mal, permitido e proibido, certo e errado, feio e bonito, fé e eresia, moral e imoral, entre outros. Como é sabido, qualquer tentativa de propor a um determinado grupo social que exerça crenças, valores e comportamentos semelhantes aos nossos, estaremos incorrendo certamente em práticas preconceituosas, portanto, etnocêntricas. Há de se considerar que o que é válido e verdadeiro para um determinado grupo social não se faz necessariamente realidade para os demais. Cabe-nos perguntar: Qual é o criério para se definir e consequentente, julgar a realidade de terceiros? Qual é o critério utilizado para se estabelecer aquilo que é melhor (nós, o nosso) em contraposição ao pior (eles, deles)? Exemplos do não exercício acerca do conceito de relativismo cultural estiveram presentes no Brasil quando do processo de colonização que envolvia de
  • 24. 23 um lado os europeus e os padres-jesuítas e de outro, os indígenas vistos pelo grupo europeu sob duas óticas etnocêntricas. 2.4.14.1 Selvagens, Brutos e Ignorantes Os índios eram concebidos como animais vestidos em pele humana, incapazes, feios, fleumáticos (lentos, preguiçosos). Viviam em uma sociedade sem Estado, sem leis, sem organização social, moral ou política. Eram imorais, andavam nus e praticavam a poligamia, desrespeitando, desta forma, o sagrado significado da família e dos bons costumes: [...] as pessoas deste país, por sua natureza, são tão ociosas, viciosas, de pouco trabalho, melancólicas, covardes, sujas, de má condição, mentirosas, de mole consistência e firmeza [...] Nosso senhor permitiu, para os grandes, abomináveis pecados dessas pessoas selvagens, rústicas e bestiais, que fossem atirados e banidos da superfície da terra. (OVIEDO apud LAPLANTINE, 2000). 2.4.14.2 Dóceis, Ingênuos, Bestializados, Sem Razão, Sem Raciocínio Aqui os índios eram inocentes, pueris, incapazes e de pouca inteligência, necessitando ser conduzidos a uma vida dignamente humana: ”eles são afáveis, liberais, moderados [...] todos os nossos padres que frequentaram os selvagens consideram que a vida se passa mais docemente entre eles do que entre nós” [...] (OVIEDO apud LAPLANTINE, 2000). Como visto, para ambas as situações caberia aos europeus - “seres superiores” - “domesticar” e, para tanto, seria necessário propiciar aos índios, de modo imediato, uma alma, conferindo-lhes, portanto, uma religião - evidentemente, a católica. Apresentamos abaixo um trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha8 que trata disso: “[...] parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença 8 A íntegra da Carta do Descobrimento do Brasil – séc. XVI, de Pero Vaz de Caminha, pode ser verificada em http://www.cce.ufsc.br/.
  • 25. 24 alguma, segundo as aparências. E, portanto, se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e eles a nossa, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles todo e qualquer cunho que lhes quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o fato de Ele nos haver até aqui trazido, creio que não foi sem causa. E portanto, Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar à santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. E aprazerá Deus que com pouco trabalho seja assim.”. 2.4.15 Representações Sociais São as formas pelas quais os distintos grupos sociais se vêem e se valorizam social e culturalmente. Tais considerações podem ser positivas ou negativas, sendo formadas pela ação do consciente coletivo. O consciente coletivo é construído a partir da soma dos conscientes individuais, ou seja: um indivíduo se identifica com o outro devido a vários fatores entre eles: sua forma de pensar, sua visão de mundo, seus valores, suas crenças e assim sucessivamente. Desta forma, surge um grupo maior, um grupo social onde seus membros comungam de um mesmo pensamento. Esse grupo - mediante a soma das variáveis sociais, econômicas e ideológicas - multiplica-se e acaba por encontrar-se com demais grupos que têm representações sociais distintas das suas. Os valores, os estereótipos e os preconceitos são produzidos e reproduzidos no interior desses grupos, como também aplicados cotidianamente. Expressões como: “a maioria dos negros é marginal”, “nordestino é preguiçoso”, “homossexual é imoral” e “mulher é menor capaz do que os homens”, entre outras, são frequentemente ouvidas. O artigo abaixo exemplifica um dos comportamentos das Representações Sociais em nosso cotidiano: Caio Blat relata o preconceito que sofreu em São Paulo ao incorporar características de um jovem do Capão Redondo, na periferia da cidade
  • 26. 25 Folha de S. Paulo, Ilustrada, 15/04/2008. Mônica Bergamo Numa tarde de domingo [...] o ator Caio Blat estava caminhando na rua São Carlos do Pinhal (paralela à avenida Paulista), onde mora, quando começou a chover. Buscou abrigo "em um restaurante "furreba” [...] Resolveu comer alguma coisa e sentou-se em uma mesa no meio do salão. O ator está com aparência bem diferente daquela de "mocinho" das novelas da TV Globo. Para estrelar o filme "Bróder!", do diretor Jeferson De, que acaba de ser rodado na região do Capão Redondo, em SP, ele incorporou características do personagem Macu (inspirado em "Macunaíma"), um rapaz de periferia que é branco, se vê como negro e acaba no crime. Caio [...] raspou o cabelo [...] e fez até um risco na cabeça com gilete, imitando o visual que, diz, "surgiu na cadeia e depois foi imitado na favela". À mesa, naquele domingo, ele foi surpreendido por um funcionário do restaurante. "Era o gerente [...] Encostou e falou assim: "Eu não vou ter problema com você não, né?'", conta. O ator perguntou a que tipo de problema ele se referia. "Você sabe muito bem. Eu te conheço, eu te conheço. Vai querer alguma coisa?" "Quero um suco de laranja e um galeto", respondeu. "O que você quiser, você pede no caixa." Caio perguntou se os outros clientes também precisaram fazer aquilo. O gerente repetiu as instruções e o deixou sozinho na mesa. [...] Em outra ocasião, foi barrado na porta giratória de um banco. "Vi como é ser tratado como suspeito.". Por sugestão da coluna, Caio Blat aceitou voltar ao Arcadas Galeto... desta vez, ele veste camiseta branca, calça jeans e havaianas azuis. O risco na testa é quase invisível, porque seu cabelo começa a crescer. "Tem que pegar ficha no caixa ou pode pedir na mesa?", diz, após se sentar no mesmo assento que ocupou um mês antes e receber o cardápio. "Pode ser na mesa", responde o garçom. Desta vez, é atendido. Uma garota o reconhece, pede autógrafo e tira fotos. O garçom passa, põe a mão em seu ombro e diz: "É bom ser famoso. Todo mundo vem falar com você". [...] Depois que Caio recebe o suco, o repórter chama o gerente. [...] Reconhece o ator? "Sim, ele esteve aqui há um mês", responde. E por que não foi atendido na ocasião? "Foi um equívoco. A gente não chegou a um entendimento e só percebemos depois que era ele. [...] Caio argumenta que ficou "dez minutos na mesa, esperando". "Eu estava fazendo um filme no qual vivia um marginal e tive a nítida sensação de que não fui atendido pela minha aparência", diz Caio ao gerente. "Eu até perguntei se não te conhecia", responde Paulo Roberto. [...] Fiquei pensando se vocês já foram assaltados aqui, se achou que eu era algum bandido." "Graças a Deus, nunca aconteceu", diz o gerente, [...] O ator cancela o pedido feito no restaurante e pega o caminho de casa.
  • 27. 26 3 AS PRINCIPAIS ESCOLAS DO PENSAMENTO ANTROPOLÓGICO CLÁSSICO 3.1 AS PRINCIPAIS ESCOLAS Entre os séculos XVI e XIX (antes do surgimento da Antropologia como ciência), os relatos sobre as especificidades culturais dos povos que aqui habitavam (comportamentos, crenças, costumes) e de seu habitat (fauna, flora) eram produzidos de forma especulativa pelos primeiros missionários, viajantes e comerciantes que aqui estiveram. A “Carta do Descobrimento” (1500) de Pero Vaz de Caminha é uma referência literária deste período 3.1.1 Escola Evolucionista: Século XIX 3.1.1.1 Características Principais A escola evolucionista - e eugênica - baseada nas concepções de Francisco Dalton (“Sociedade de Educação Eugênica”, 1908) acreditava haver superioridade entre as raças. A sociedade estaria dividida em dois grupos: os “primitivos, inferiores, incapazes”, em contraposição aos “civilizados, superiores, capazes”. Entendia-se que o progresso viria mediante a evolução do estado primitivo para o estado mais “civilizado”, ou seja, uns chegariam aos estados de civilização e aos outros, devido à sua incapacidade nata, o mesmo não ocorreria. Como visto, o pensamento evolucionista e eugênico despreza e desqualifica o amplo conceito de diversidades, de pluralidades, estimulando, dessa forma, às práticas racistas, sexistas e xenófobas.
  • 28. 27 3.1.1.2 Referências Literárias • Herbert Spencer - “Princípios da Biologia” (1864); • Edward Tylor - “A Cultura Primitiva” (1871); • James Frazer - “O Ramo de Ouro” (1890). Antes de seguirmos com as definições acerca das escolas antropológicas, segue abaixo interessante artigo acerca da visita de Charles Darwin ao Brasil no ano de 1832. Grupo refaz passos de Darwin no Brasil Para cientista, brasileiros eram desprezíveis Rio de Janeiro, 23/03/2008. Ítalo Nogueira Se a floresta tropical brasileira provocou "deleite" em Charles Darwin, o naturalista não teceu muitos elogios aos brasileiros. "Miseráveis" e "desprezíveis" foram algumas das classificações dadas por ele durante a sua temporada no país. Logo no início, no Rio, Darwin se queixava da burocracia para conseguir a autorização para viajar pelo interior do Estado, exigida aos estrangeiros. No dia 6 de abril, ele escreveu: "Nunca é muito agradável submeter- se à insolência de homens de escritório, mas aos brasileiros, que são tão desprezíveis mentalmente quanto são miseráveis as suas pessoas, é quase intolerável. Contudo, a perspectiva de florestas selvagens zeladas por lindas aves, macacos e preguiças, lagos, roedores e aligátores fará um naturalista lamber o pó até da sola dos pés de um brasileiro.". Durante a viagem, queixa-se da falta de opções de comida na estalagem em Maricá. "À medida que a conversa prosseguia, a situação geralmente se tornava lastimável", escreveu, queixando-se das repetidas respostas "Oh, não, senhor" após pedir peixe, sopa e carne seca. "Se tivéssemos sorte, depois de esperar umas duas horas, conseguíamos aves, arroz e farinha." Até o Carnaval baiano o incomodou. "As ameaças consistiam em sermos cruelmente atingidos por bolas de cera cheias de água [...] Achamos muito difícil manter nossa dignidade andando pelas ruas.” Durante a viagem, Darwin relata com horror as condições a que os escravos eram submetidos. Relata o caso em que um dono de fazenda, em razão de uma briga, "estava prestes a tirar todas as mulheres e crianças da companhia dos homens e vendê-las separadamente num leilão". "Não creio que tivesse ocorrido ao
  • 29. 28 proprietário a idéia de desumanidade de separar trinta famílias”. "Ele tinha um posicionamento preconceituoso. Apesar de ser abolicionista, ele tinha uma visão aristocrata", disse Ildeu Moreira, do Ministério da Ciência e Tecnologia. 3.1.2 Escola Sociológica Francesa: Século XIX/ XX 3.1.2.1 Características Principais A Escola Sociológica Francesa defendia e aplicava a investigação dos “Fatos Sociais Totais”, ou seja, entendia que a busca pelo conhecimento dos grupos sociais deveria partir da interação dos elementos biológicos (físicos) com os psicológicos (emocionais) aos sociológicos (fenômenos sociais) e aos culturais (diversidades/pluralidades). Para tal processo investigativo, é criada uma metodologia denominada “Regras do Método Sociológico”. 3.1.2.2 Referências Literárias • Émile Durkheim - “Regras do Método Sociológico” (1895); • Marcel Mauss - “Ensaio sobre a Dádiva” (1923-1924). 3.1.3 Escola Funcionalista: Século XX (Anos 20) 3.1.3.1 Características Principais Privilegia a produção da monografia advinda da aplicação das técnicas voltadas à observação participante (etnografia), bem como da sistematização das informações coletadas (etnologia).
  • 30. 29 Defende e desenvolve estudos voltados às diversidades culturais, entendendo que elas exercem funções sociais. Busca entender as formas de funcionamento de determinadas sociedades. 3.1.3.2 Referências Literárias • Bronislaw Malinowski - “Argonautas do Pacífico Ocidental” (1922); • Radcliffe Brown - “Estrutura e Função na Sociedade Primitiva” (1952). 3.1.4 Escola Culturalista: Século XX (Anos 30) 3.1.4.1 Características Principais Entende que, por serem as sociedades diferentes entre si, são distintas também as respectivas realidades culturais, procurando, dessa forma, investigar os contextos sociais e políticos em que são desenvolvidas. Investiga e compara os aspectos subjetivos, emocionais e de personalidade de seus atores. Busca estabelecer conexões/comparações entre aspectos culturais e aspectos da personalidade. 3.1.4.2 Referências Literárias • Franz Boas - “Raça, Língua e Cultura” (1940); • Margaret Mead - “Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas” (1935); • Ruth Benedict - “Padrões de Cultura” (1934); “O Crisântemo e a Espada” (1946).
  • 31. 30 3.1.5 Escola Estruturalista: Século XX (Anos 40) 3.1.5.1 Características Principais Procura entender de que maneira os homens concebem, estruturam, legitimam e reproduzem as especificidades culturais. Investiga as estruturas familiares e de parentesco. 3.1.5.2 Referências Literárias • Claude Lévi-Strauss - “As Estruturas Elementares do Parentesco” (1949) e “Pensamento Selvagem” (1962). 3.1.6 Escola Interpretativa: Século XX (Anos 60) 3.1.6.1 Características Principais Privilegia a compreensão minuciosa acerca do valor, do significado e da interpretação que cada grupo social atribui à sua própria cultura. 3.1.6.2 Referências Literárias • Clifford Geertz: “A Interpretação das Culturas” (1973) e “Saber Local” (1983).
  • 32. 31 3.1.7. Escola Crítica (Pós-moderna): Século XX (Anos 80) 3.1.7.1Características Principais Nos anos recentes, os antropólogos se enveredam para uma visão crítica acerca do “saber antropológico”, ou seja, revêem os fundamentos das escolas, os elementos teóricos e os metodológicos que a compõem. 3.1.7.2 Referência Literária • Michel Taussig: “Xamanismo, colonialismo e o homem selvagem”, (1987). 3.2 OS CINCO POLOS DO ESTUDO ANTROPOLÓGICO 3.2.1 Antroplogia Simbólica Os símbolos são objetos de investigações, pois revelam múltiplas significações, sobretudo, nos aspectos religiosos, mitos e ritos. Questionam: “Qual é o significado de tal comportamento?, ”Qual o significado disto ou daquilo”? e “Qual é o valor deste símbolo?”. 3.2.2 Antropologia Social Aqui, as variáveis sociais, econômicas e de poder são consideradas. Os relacionamentos sociais, intergrupais, são considerados. A Antropologia Social inclina-se sobre os seguintes questionamentos: “A que classe social petence?” e “Qual é o nível de interação deste grupo social”?
  • 33. 32 3.2.3 Antropologia Cultural Preocupa-se minuciosamente com a diversidade cultural. Investiga a sua essência, as funções dos sentidos, dos símbolos e dos valores subjetivos (psicológicos) e a interação cultural e social. 3.2.4 Antropologia Estrutural e Sistêmica Interessa-se pela compreensão acerca do modo pelo qual a sociedade - a comunidade, o grupo social - está estruturada. Considera a interação das variáveis linguísticas, econômicas, sociais e psicanalítica. É absolutamente contrária aos juízos de valores dicotômicos (certo/errado); defende o saber antropológico enquanto teoria epistemológica. 3.2.5 Antroplogia Dinâmica Aqui, os conhecimentos e práticas sociológicas e antropológicas se aproximam. A linha que separa ambas as ciências é extremamente a ponto de ser definida por alguns sociólogos/antropólogos como “conhecimento sociológico”. Questiona: “Qual é a dinâmica social de tal grupo?” Observações: Os cinco polos apresentados acima não são excluentes, havendo, inclusive, inter-relacionamento entre eles.
  • 34. 33 PARTE II – CLÁSSICOS DA ANTROPOLOGIA BRASILEIRA Os capítulos a seguir tratarão de dois clássicos da Antropologia (e Sociologia) Brasileira: “Casa Grande e Senzala: Formação da Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal”, de Gilberto Freyre, e “O Povo Brasileiro: a Formação e o Sentido do Brasil”, de Darcy Ribeiro. Tem como objetivo refletir acerca da principal questão que ambos autores se fizeram: “Quem é o povo brasileiro?”. As respostas fornecidas por Freyre e Ribeiro são amplas, podendo ser buscadas sob os pontos de vistas econômicos, políticos, sociais, antropológicos, históricos ou populacionais. Aqui, debruçaremos sobre a especificidade da formação populacional e mais extamente sobre o processo de miscigenação que envolveu - e envolve - a população brasileira. Para tanto, ocupar-nos-emos basicamente das discussões voltadas ao branco europeu, ao negro africano e ao índio.
  • 35. 34 4 APRESENTAÇÃO À OBRA “CASA GRANDE E SENZALA”, DE GILBERTO FREYRE Todo brasileiro traz na alma e no corpo a sombra do indígena ou do negro. Gilberto Freyre 4.1 GILBERTO FREYRE 4.1.1 Vida e Obra Gilberto Freyre nasceu em Recife, no ano de 1900, e faleceu em 1987, na mesma cidade. Foi antropólogo, sociólogo e escritor. De renome internacional, é uma referência fundamental quando se objetiva estudar a formação da sociedade brasileira. Autor de vários livros com a temática regional, cultural, política e econômica, publicou em 1933 o clássico “Casa Grande e Senzala: Formação da Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal”, sobre o qual nos ocuparemos adiante. 4.1.2 Casa Grande e Senzala Considerada uma obra de especial excelência, Gilberto Freyre inova no conteúdo e no formato da metodologia utilizada. No conteúdo, trata dos elementos econômicos, políticos, humanos e regionais responsáveis pela gestação populacional brasileira. Segundo Freyre (2005), “vinham sendo acumulados estudos sobre a formação do Brasil, mas faltava um estudo convergente, que além de ser histórico, geográfico, geológico, fosse um estudo social, psicológico, uma interpretação [...] Creio que a primeira tentativa nesse sentido representou um serviço de minha parte.”. No formato, Gilberto Freyre buscou no interior de sua própria família os elementos para desenvolver suas pesquisas - Freyre era descendente de donos de
  • 36. 35 escravos. Somados a isso, desenvolveu estudos junto ao Museu Afro-Brasileiro Nina Rodrigues na Bahia e visitou a África, Portugal e os Estados Unidos. Após anos de estudos profundos - no Brasil e no exterior - sobre sistemas patriarcais, processos colonizadores, relações escravocratas e explorações negras e indígenas, concluiu: "o que houve no Brasil foi a degradação das raças atrasadas pelo domínio da adiantada [...] os índios foram submetidos ao cativeiro e à prostituição. A relação entre brancos e mulheres de cor foi a de vencedores e vencidos”. Aqui, iremos nos ater às discussões acerca da formação populacional. 4.1.2.1 Como Ocorreu a Formação da Sociedade Brasileira? Logo no início de seu estudo, Gilberto Freyre discute que o Brasil, país miscigenado, foi formado pelo cruzamento de etnias distintas ou seja: pelo branco europeu, pelo indígena e pelo negro africano. Os resultados mais expressivos são verificados, até os dias atuais, na constituição do caboclo ou mameluco (branco + índio), mulato (branco + negro) e cafuzo (índio + negro). O povo mulato foi gerado sob duas égides: a econômica - era preciso povoar o Brasil, era necessário obter mão de obra para o cultivo da terra - e a “sexual” - os portugueses quando aqui chegaram não trouxeram consigo suas esposas, vieram sozinhos, passando a se relacionar sexualmente primeiro com as índias (nativas) e, mais tarde, com as negras trazidas da África. São várias as contribuições de Gilberto Freyre para a compreensão acerca do processo de gestação do povo brasileiro. A primeira delas, como atestam os estudiosos dessa questão, é que Freyre desqualifica de modo exaustivo, brilhante e científico, as teorias defendidas pela Escola Antropológica Evolucionista (já tratada anteriormente), ou seja, desmistifica o conceito de determinação biológica, de superioridade racial/étnica de quaisquer sociedades ou grupos humanos. Ao invés disto, Freyre se debruça sobre a Antropologia Cultural (igualmente discutida), enaltecendo as especificidades culturais dos povos que compõem a sociedade brasileira (brancos, negros e índios), bem como os resultados positivos advindos da miscigenação.
  • 37. 36 4.1.2.2 O Indígena Segundo Freyre, quando da chegada ao Brasil, os europeus, inicialmente representados pelos portugueses, depararam-se com duas belezas naturais: de um lado, por uma belíssima paisagem natural e, de outro, por um povo nativo que a habitava (os indígenas). Os índios construíam suas aldeias ao longo da floresta, produzindo e reproduzindo a sua cultura, seus mitos e ritos e relacionando-se de modo particular entre si, bem como com os elementos da natureza. No que se refere à composição do povo brasileiro, o autor destaca o papel relevante ocupado e desenvolvido pela mulher indígena. Foram elas as responsáveis pela gestação e reprodução dos “índios puros” que aqui habitavam, bem como pela primeira geração de povos miscigenados - diversidade étnica - representada pelos mamelucos, frutos das relações sexuais entre brancos e índios. Depois, com a chegada dos africanos no Brasil, surgiu o grupo étnico denominado cafuzos, resultado da relação interétnica entre negros e índias e vice-versa. Aquilo que mais tarde Darcy Ribeiro denominou por “criatório de gente”! Freyre enaltece a beleza das mulheres indígenas que, segundo ele, logo de pronto encantaram os portugueses recém-chegados: a sexualidade das índias - manifestada, sobretudo, pela exposição de seus corpos nus - despertaram os “desejos carnais” dos europeus. Por outro lado, Freyre critica a interpretação equivocada e preconceituosa dos europeus sobre um traço da cultura indígena, ou seja, a prática da poligamia (trata-se de um sistema familiar próprio, não cabendo, portanto, juízos de valores ou julgamentos morais). No que tange aos aspectos culturais, Freyre destaca: “é da cunhã que nos veio o melhor da cultura indígena. O asseio pessoa, a higiene do corpo, o milho, o caju, o mingau [...] o brasileiro de hoje, amante do banho e sempre de pente no bolso, o cabelo brilhante de loção ou de óleo de coco, reflete a influência de tão remotas avós. Ela nos deu, ainda, a rede em que se embalaria o sono ou a volúpia do brasileiro”. De outra forma, Freyre trata também das violências físicas, morais e culturais que vitimaram a população indígena, podendo ser exemplificadas na invasão de seus territórios, na escravização praticada pelos imigrantes europeus
  • 38. 37 que os forçavam ao trabalho na terra e nas dilapidações religiosas pelo processo de evangelização (catequese) de responsabilidades dos padres jesuítas. Estes, do ponto de vista cultural e religioso, entendiam que os índios eram apenas animais selvagens, primitivos e sem alma, devendo, portanto, ser humanizados nos moldes europeus, ou seja, nos ditos da religião católica (juízo de valor). Para tanto, a título de facilitar o processo de doutrinação, fora necessário rever o processo de comunicação e, desta forma, o Tupi, língua nativa, foi transformada pelos padres em tupi-guarani - a nova língua brasileira. Além disso, o culto à natureza, ao Deus Maíra, o andar nu, entre outros, foram considerados - do ponto de vista etnocêntrico - comportamentos imorais, vulgares e inferiores. Do ponto de vista econômico, o índio não se adaptou ao trabalho escravo e nem tão pouco cedeu facilmente ao processo de aculturação imposto pela Igreja Católica. A resistência da cultura indígena resultou em disputa por terras, fugas de seu próprio habitat - compuseram junto aos africanos os quilombos -, doenças mortais, mortes e destruição de famílias inteiras. Frente a isso, para o cumprimento de seus propósitos, entendem os europeus ser necessário substituir a mão de obra indígena pela mão de obra negra, dando início, dessa forma, ao processo de escravidão africana. Segue abaixo artigo que trata de uma das consequências negativas relativas à escravização indígena cujos desdobramentos são verificados nos dias atuais. Roraima vira palco de guerra até entre grupos de índios Folha de São Paulo, Brasil, 06 de abril de 2008. Andrezza Trajano José Eduardo Rondon Pontes incendiadas, máquinas agrícolas bloqueando acessos às estradas, índios pintados para a guerra. Este foi o cenário encontrado pela reportagem ao trafegar no interior da terra indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima, nos últimos dias [...] O clima de tensão e violência na área aumentou após a chegada a Roraima de agentes federais que farão a retirada dos não-índios que ainda permanecem na terra indígena. Na sexta-feira, desembarcaram em Boa Vista integrantes da Força Nacional de Segurança. [...] O "epicentro" do conflito é a vila do Surumu, na região de Pacaraima, onde há cerca de 300 famílias, a maioria não-índia [...] De um lado da vila estão concentrados os índios favoráveis à homologação, que defendem que a terra deve ser exclusivamente dos indígenas. [...] "Queremos viver no que é nosso, em paz, sem interferência", diz o coordenador do CIR, Dionito de Souza. Do outro
  • 39. 38 lado, estão os índios contrários à medida do governo federal e que defendem a permanência de não-índios na área, inclusive os arrozeiros. [...] Para a índia Deise Maria Rodrigues, contrária à homologação, a luta dos moradores é pelo "desenvolvimento". "Não compartilhamos com essa política do governo federal de nos isolar, de nos colocar sob a tutela da Funai e de nós termos que pedir bênção aos índios do CIR. Somos brasileiros também e queremos investimentos e a garantia dos nossos direitos constitucionais." Os grupos rivais se tratam como inimigos. Qualquer tipo de relacionamento é proibido. [...] 4.1.2.3 O Negro Africano no Brasil Dando continuidade aos estudos acerca da composição da população brasileira, Gilberto Freyre discute o papel exercido pela mulher negra africana que, segundo ele, substituiu a mulher indígena nos ambientes das casas grandes, bem como nos interiores das senzalas. Para habitar as casas grandes, os senhores, escolhiam aquelas que consideravam ser as mais belas e sensuais, a fim de desenvolverem as funções domésticas, cuidados com as crianças, bem como para servi-los sexualmente. Quanto a esta última “função”, cabe destacar que as mulheres negras eram vítimas dos abusos sexuais constantes praticados pelos senhores, resultando no elevado grau de contaminação pelas doenças sexualmente transmissíveis, entre elas a sífilis. Em contrapartida, como “medida depurativa” para as DSTs, ocupavam- se das meninas negras, uma vez que acreditavam que a cura das doenças venéreas estava em manter relação sexual entre “uma negrinha virgem” e o homem contaminado. Além disso, sofriam também com as violências praticadas pelas esposas enciumadas: corpos queimados, dentes arrancados e espancamentos eram práticas constantes e recorrentes. Das relações sexuais ocorridas entre senhores e escravas nasciam os mulatos que, segundo Freyre, eram “gerados nas casas grandes e paridos na senzala”. Isso posto, e a fim de nos debruçarmos com mais vagar sobre os conceitos de Identidade Étnica e Famílias Miscigenadas, utilizaremos a obra clássica “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro.
  • 40. 39 5 APRESENTAÇÃO À OBRA “O POVO BRASILEIRO”, DE DARCY RIBEIRO Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre marcados pelo exercício da brutalidade sobre aqueles homens, mulheres e crianças. Esta é a mais terrível de nossas heranças. Mas nossa crescente indignação contra esta herança maldita nos dará forças para, amanhã conter os possessos e criar aqui, neste país, uma sociedade solidária. Darcy Ribeiro 5.1 DARCY RIBEIRO 5.1.1 Biografia Darcy Ribeiro nasceu em 1922, na cidade de Montes Claros, em Minas Gerais, e faleceu em Brasília, Distrito Federal, em 1997. Foi antropólogo, professor e escritor. Entre as várias atividades - todas de consideráveis envergaduras - dedicou-se aos estudos relacionados à Educação e à Questão Indígena: fundou o Museu do Índio, criou a Universidade de Brasília, onde foi o primeiro Reitor, elaborou o “Projeto Caboclo”, voltado ao povo da floresta amazônica, e escreveu os romances “Maíra”, “O Mulo” e demais. 5.1.2 O Povo Brasileiro O objetivo central da obra (prima) “O Povo Brasileiro” é oferecer ao leitor a resposta para a questão inicialmente formulada, qual seja: “Quem é o Povo
  • 41. 40 Brasileiro?”. Para tanto, Darcy Ribeiro, inicia sua reflexão discutindo a composição étnica da população brasileira, tratando, portanto, do processo da miscigenação. Assim como Freyre (2005), Ribeiro apresenta os grupos étnicos cafuzo (negro + índio), mameluco (branco + índio) e mulato (negro + branco). Ao tratar dos primórdios da colonização brasileira, logo de pronto, discute o “choque cultural” ocorrido entre os índios e os europeus. Como é sabido, os índios foram os primeiros seres humanos que aqui nasceram e que aqui habitaram (habitat natural) e, por essa razão, têm a gênese de sua cultura. A contradição cultural discutida por Freyre se manifestava de um lado, pelos europeus que - mediante suas visões etnocêntricas - consideravam-se o povo civilizado e desenvolvido quando comparados àqueles que julgavam bárbaros e selvagens, indagando-se entre outras: “Que animais são esses que devoram uns aos outros?” (referindo-se à antropofagia ou canibalismo), “Que tamanha imoralidade é essa?” (referindo-se ao fato de não usarem roupas). De outro lado, estavam os indígenas surpreendidos e atônitos, pois aquela era a primeira vez em toda a sua história que se deparavam com homens de pele clara, vestidos, gesticulando e falando alto em uma língua incompreensível. Era algo totalmente inusitado, chegando a julgar que aquele cenário representava um castigo divino: [...] o que é aquilo que vem? Eles (os índios) olhavam, encantados com aqueles barcos de Deus, do Deus Maíra chegando pelo mar grosso. Quando chegaram mais perto, se horrorizaram. Deus mandou pra cá seus demônios, só pode ser. Que gente! Que coisa feia! Porque nunca tinham visto gente barbada – os portugueses todos barbados, todos feridentos de escorbuto, fétidos, meses sem banho no mar. (RIBEIRO, 1995). Depois, uma vez aqui instalados, os europeus concluíram que as terras brasilis significavam para eles um verdadeiro “paraíso”, quer do ponto de vista sexual (“encantamento” pelas índias associado ao “cunhadismo” e, consequentemente, à reprodução da mão de obra), quer do ponto de vista econômico (ávidos pelo enriquecimento proveniente da exploração do pau-brasil, logo era necessário, como diz Darcy Ribeiro, “povoar o país”). Assim, ora concebendo os índios como “bestializados” e inocentes e ora como vadios, preguiçosos - e, portanto, inúteis para o trabalho - entendiam os portugueses que algo deveria ser feito para a conquista de seus objetivos
  • 42. 41 econômicos mercantis. Para tanto, partiram para evangelização e escravização indígena. De fato, tratava-se do “moinho de gastar gente”, como discute Darcy Ribeiro. Um dado interessante que favorecia “a conquista dos selvagens” estava no fato de que os portugueses traziam consigo utensílios de viagens - espelhos, facas, facões, machados - que encantavam e seduziam os índios. As consequências disso foram negativas, uma vez que o desejo e a disputa por esses objetos geraram, entre outras, situações de violências entre eles: “[...] para o índio passou a ser indispensável ter uma ferramenta. Se uma tribo tinha uma ferramenta, a tribo do lado fazia uma guerra pra tomá-la”. (RIBEIRO, 1995). Guerras, escravização física e moral, mortes, doenças, invasões e evasões de suas próprias terras, desmonte cultural e dilapidações de famílias. Muitas foram as violências causadas pelo europeu ao povo indígena no intento de colonizar o país, o que de fato justificam as palavras de Darcy Ribeiro: “o Brasil, é formado por um povo mestiço, lavado em sangue negro, em sangue índio, sofrida e tropical [...]” As discussões acerca da posse e manutenção das terras indígenas, bem como a preservação de suas culturas, geram polêmicas entre os estudiosos da questão e a população em geral, não sendo incomum a ocorrência de discordâncias e divisões entre eles. O artigo abaixo trata disso: Mineração implica degradação social, dizem especialistas Ana Paula Boni Folha de São Paulo, 24/11 2007. Especialistas alertam que empreendimentos para exploração mineral instalados em terras indígenas podem causar impactos tão grandes nos povos que, se não implicarem apenas sua degradação social e perda de território, podem mesmo levá-los à extinção. [...] O antropólogo Rogério Duarte do Pateo, do ISA (Instituto Socioambiental), explica que, de acordo com a magnitude da presença da mineradora e a proximidade das aldeias, as populações podem ter hábitos alterados. Isso porque o barulho das máquinas para a extração dos minérios, por exemplo, assustaria animais num local onde a caça é o principal meio de subsistência. Com isso, somado ao dinheiro dos royalties que os índios receberiam, eles passariam a comer produtos industrializados. "Daí vem doença de branco, como diabetes, colesterol, problemas dentários [...] "Os índios encostam a barriga no empreendimento e passam a depender de uma fonte externa" [...] Há também o impacto ambiental, já que
  • 43. 42 toda atividade de exploração de minérios implica uma área de "servidão", onde vivem os funcionários da empresa, complementa o advogado Paulo Machado, do Cimi (Conselho Indigenista Missionário). "Cria-se uma verdadeira cidade para dar suporte à atividade mineradora. Isso por décadas." Dessa forma, o entorno é alterado devido à construção de estradas para escoar a produção, rios podem ser desviados e sua água, poluída. Para o antropólogo Ricardo Verdum, assessor de políticas indigenistas do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), o maior dos males seria a perda da autoridade do índio sobre seu território, sendo os povos colocados em segundo plano e podendo, inclusive, ter de sair de uma aldeia por conta de uma jazida de minério” [...]"há populações que podem desaparecer", afirma Pateo. [...]. 5.1.2.1 Os Mamelucos e a Miscigenação Indígena Na continuidade de seus estudos acerca da composição populacional, Darcy Ribeiro discute o delicado tema acerca da miscigenação associado a identidade étnica e questiona: o mameluco resultado da mistura biológica entre brancos é índios é considerado e considera-se branco ou índio? Da mesma forma, a criança mameluca - meio européia e meio índia - frequentemente rejeitada pelo pai-sendo somente reconhecida pela mãe, á qual grupo étnico pertence? Assim, para os mestiços – mulatos e mamelucos - sem identidade étnica Darcy Ribeiro desenvolve o conceito de “ninguendade” e discute: essa criança de um lado, rejeitada e vista pelos membros da tribo como um estrangeiro, um diferente e de outro, não assumida pelo pai europeu e por vezes ela própria abrindo mão da cultura indígena tornava-se um “Zé Ninguém”. Como visto, a discussão acerca da mestiçagem encerra considerável complexidade. O depoimento abaixo é nesse sentido revelador: Depoimento de Olívio Zeferino, estudante de Filosofia na USP In: O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro Meu nome é Olívio Zeferino. Não sou índio puro, sou mestiço guarani... porque o que causa essa questão de ser ou não ser é essa identidade em que você é metade. Então, por exemplo, você é um mestiço. Tem uns que assumem a cultura indígena. Tem uns que são mestiços e assumem a cultura do branco. Então uma pessoa que nasceu com fisionomia de índio não adianta querer falar que é
  • 44. 43 branca, porque todo mundo vê. Agora, o importante é você assumir, porque mesmo sendo mestiço você pode lutar pelo seu povo. De fato, ao mestiço, de qualquer etnia, cabe o sentimento de pertencimento cultural, o pertencimento de “ser brasileiro” uma vez que o Brasil é um país, como mostrado, genuinamente mestiço: "Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros” (Darcy Ribeiro, 1995). E mais tarde, aprofunda e amplia entre outros, a discussão acerca da identidade étnica dos mulatos - resultados da mistura entre brancos e negros - associando à sua análise as variáveis sociais como tratado em seguida. 5.1.2.2 A População Negra Brasileira: o Negro Africano [...] sob trezentas chicotadas de uma vez para matar ou cinqüenta chicotadas diárias para sobreviver [...] Darcy Ribeiro Como é sabido, o processo da escravidão negra no Brasil teve início com os insucessos obtidos pelos europeus quando viram frustrados seus projetos de exploração da mão e obra indígena. Na África, os negros viviam em regiões distintas com os seus próprios valores culturais - dança canto, língua, crenças, religiões. Aqui chegando, deparavam-se com a diversidade cultural de seus conterrâneos, bem como com a aqui imposta pelo branco, europeu, colonizador. Ao tratar da composição da população, brasileira é necessário nos reportarmos, ainda que brevemente, às condições de vida existentes nas senzalas e as consequências negativas delas resultantes para os negros nos dias atuais. Para tanto, a fim de balisarmos estas discussões sobre a perspectiva antropológicas,
  • 45. 44 ocupar-nos-emos inicialmente das condições de saúde dos escravos e, em seguida, passaremos pelos conceitos acerca do evolucionismo, eugenia e mestiçagem. Como é sabido, na época da escravidão no Brasil, negros e brancos ressentiam-se da dificuldade de obter assistência à saúde, já que praticamente não existiam médicos. Para os negros, porém, essa situação se agravava em virtude do desinteresse dos senhores pela saúde de seus escravos. Viotti (1989), entre outros, mostram que muitas das doenças que acometiam os negros decorriam das suas péssimas condições de vida. Sofriam de problemas pulmonares, sobretudo de tuberculose, por causa do ambiente insalubre das senzalas. Por estarem submetidos a trabalhos exaustivos e, consequentemente, à estafa, era comum entre os negros das zonas rurais os acidentes nos engenhos, que os levavam à morte ou a mutilações. Para os escravos gravemente doentes - como, por exemplo, os vitimizados pela hanseníase - a solução encontrada pelos senhores era a alforria. Assim, abandonados e inutilizados para o trabalho, restava- lhes a mendicância. Frente à crescente mortalidade de escravos, os senhores entendiam que de nada adiantaria melhorar as condições de vida da população escrava, pois para eles os negros encontravam-se "em extinção". Mesmo com o fim do tráfico de escravos, em 1850, mantiveram-se os altos índices de mortalidade infantil, materna e adulta devido, sobretudo, à precariedade nas condições de moradia, de alimentação e sanitárias. De outro lado, é evidente que os efeitos destruidores advindos da escravidão negra se fazem presentes sobre os seus descendentes nos dias atuais. No entanto, artigo recente nos traz uma nova reflexão acerca das possíveis consequências negativas de âmbito econômico para os países exportadores e receptores de escravos, inclusive o Brasil. Reflitamos acerca do artigo abaixo: O preço de um escravo Segundo professor de Harvard, países mais pobres da África hoje são os que mais exportaram escravos no passado Folha de São Paulo, Caderno Mais, 11/05/2008. Ernane Guimarães Neto Estatísticas comprovam: vender escravos faz mal à África. É o que diz Nathan Nunn, 33, professor de economia na Universidade Harvard. Nunn apresentou, no início do ano, resultados de uma
  • 46. 45 pesquisa que correlaciona a exportação de escravos no passado à baixa renda de hoje. A pesquisa usou informações do Projeto Base de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos, que reúne documentos diversos, como inventários, arquivos religiosos e registros de compra e venda, relacionados ao tráfico de escravos africanos do século 15 ao 19. No artigo "Efeitos de Longo Prazo do Comércio de Escravos Africanos", publicado no "Quarterly Journal of Economics", Nunn diz que "não apenas o uso de escravos é deletério para uma sociedade, mas a produção de escravos, ocorrida por meio da guerra doméstica, da pilhagem e dos seqüestros, também tem impactos negativos no desenvolvimento". Em seus estudos, o Brasil aparece perfeitamente enquadrado à linha de correlação segundo a qual quanto maior a proporção de escravos na população em 1750, menor o PIB per capita em 2000. E, do outro lado do Atlântico, as regiões africanas que mais exportaram escravos se tornaram os países de menor renda hoje. Apesar de colegas o criticarem por cruzar dados no mínimo heterogêneos, o estudo já é visto nos EUA como prova matemática do dano causado pelo Ocidente à África. Em entrevista à Folha, Nunn não arrisca conclusões práticas. Devem-se reparações à África? "Não estudei esse ponto." Então, no final do século XIX, persistiam epidemias como o mal de Chagas, febre amarela, febre tifóide, entre outras. Os intelectuais brasileiros da época entendiam que o país estava "doente" e era necessário encontrar a causa e a cura desses males; à mestiçagem foi atribuída a responsabilidade por esta situação. Para alguns, o cruzamento constante das raças proporcionaria, através da “depuração”, a pureza da raça branca e, consequentemente, a solução para o problema. Para outros, diferente disso, a solução “científica” apontada era condenar, conter a mestiçagem. (SCHWARCZ, 1993). A esse respeito, como já apontado em nosso curso, o pensamento eugênico entendia que a sociedade brasileira se desenvolveria nos mesmos moldes da evolução biológica, ou seja, somente os mais fortes, capazes, superiores, sobreviveram. A eugenia, por sua vez, visava à reprodução dos mais “aptos” e à extinção dos "inferiores". No Brasil, em 1917, foi fundada a Liga Pró-Saneamento e, em 1918, a Sociedade Eugênica de São Paulo. No entanto, o movimento eugênico, após atingir o seu apogeu, declina e retorna nos anos 30, quando da ascensão do nazismo, que difundia o arianismo. No início da década de 30, foi criada na cidade do Rio de Janeiro a Comissão Central Brasileira de Eugenia, que publicava o Boletim da Eugenia. (SOUZA, 2002). No final do século XIX, foram fundadas as Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, cabendo-lhes detectar o surgimento de doenças e traçar
  • 47. 46 planos para erradicá-las. Expandem-se, na escola baiana, os estudos sobre medicina legal, com o objetivo de investigar menos a doença e mais o doente, através dos estudos da craniologia9. Para se compreender o papel ocupado pelo negro no contexto evolucionista e eugênico e, posteriormente, para a compreensão do comportamento da miscigenação nos dias atuais, Pereira (1981), elencou três fases distintas para caracterizá-lo: 1ª. o negro como expressão de raça; 2ª. como expressão de cultura e 3ª. como expressão social. Na primeira fase, os "atributos biológicos compõem uma imagem negativa e patológica do homem de cor perante os outros ramos raciais que formam a população". Nina Rodrigues10, iniciou seus estudos sobre os negros na Bahia baseado em uma visão evolucionista, objetivando identificar quem era "aquele povo de origem africana" e em qual estágio se encontrava a sua cultura. A segunda fase apontada por Borges Pereira - "O negro enquanto expressão de cultura" - iniciou-se na década de 20 e, conforme o autor, teve as seguintes características: O negro se infiltra nas reflexões científicas como expressão de cultura. Seus atributos raciais são colocados em plano secundário, cedendo lugar às suas peculiaridades culturais. Na década de 30, Gilberto Freyre atribuiu à cultura africana papel fundamental na construção da nacionalidade brasileira. A terceira fase dos estudos sobre o negro, que Borges Pereira denominou como "o negro como expressão social", iniciou-se com o fim da Segunda Guerra Mundial, mediante uma reflexão crítica quanto ao "conceito de raça como realidade empírica - uma revisão de toda a problemática social, política e científica que historicamente se elaborara em torno da variedade fenotípica dos diferentes grupos humanos" (PEREIRA, 1981). 9 Craniologia: Teorias de matriz evolucionista, foi palco dos estudos antropométricos realizados pela da Antropologia Física ou Biológica. Tratava do tamanho, peso e formato do crânio onde seus resultados definiriam a capacidade intelectual, comportamento social e moral dos distintos grupos raciais. 10 Nina Rodrigues: Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), maranhense, era médico legista, psiquiatra e antropólogo. Desenvolveu as primeiras pesquisas antropológicas de cunho criminal, defensor do pensamento evolucionista. Fundador da Escola Nina Rodrigues que desenvolvia estudos voltados à antropologia física.