A MÚSICA NA SALA DE AULA
Org. Prof. Amilton Benedito Peletti
TRABALHO COM MÚSICA...
 Ouvir a música;
 Conversar sobre o que acharam da música (ritmo e história nela contada);
 Entregar a letra da música impressa e ouvir novamente;
 Pesquisar no dicionário o significado das palavras desconhecidas;
 Ouvir a música fazendo algumas pausas; chamar atenção para a história e instrumentos
utilizados;
 Representar a música por meio de desenho;
 Debater sobre o conhecimento que a música trouxe sobre o conteúdo estudado.
 Relação com o tema abordado;
 Época em que foi escrita e composta, situar a música no contexto histórico que está
sendo abordado;
 Identificação da intenção do autor com a música;
 A música foi composta e escrita no momento em que o assunto abordado estava
acontecendo ou foi feita depois como forma de registro;
 Linguagem utilizada: formal, informal, se apresenta regionalismos e gírias;
 Atividades de entendimento da música como montagem de cartazes com figuras ou
palavras, painéis, paródias, etc.
[...] ―a música não é um substituto para os textos tradicionais, mas, sim, um complemento
a eles‖ (Sjolie, 1997, p. 6).
A Música Brasileira no Ensino de História
O trabalho do historiador, ou a ―operação historiográfica‖, consiste na combinação de um
lugar social, de práticas científicas e de uma escrita (CERTEAU, 2010, p. 66). Esta,
fundamenta-se nas fontes, sejam elas escritas ou não. No ensino de História as fontes também
são essenciais, são recursos usados para problematizar um determinado conteúdo ou
conceito.
[...] "o ensino de história deve estar articulado a diversificação de documentos, como imagens,
canções, objetos arqueológicos, entre outros, na construção do conhecimento histórico‖.
(PARANÁ, 2008, p. 53).
Sobre o potencial documental da canção, o historiador David Treece afirma:
A canção popular é claramente, muito mais do que um texto ou uma mensagem. Seu poder
significante e comunicativo só é percebido como um processo social à medida em que o ato
performático é capaz de articular e engajar uma comunidade de músicos e ouvintes numa
forma de comunicação social." (TREECE, 2000, p. 128).
Essa definição de canção popular como fonte histórica reafirma a relevância da música
como recurso pedagógico e está em consonância com o objeto da História:
"(...) os processos históricos relativos às ações e às relações humanas praticadas no
tempo, bem como a respectiva significação atribuída pelos sujeitos, tendo ou não consciência
dessas ações. As relações humanas produzidas por essas ações podem ser definidas como
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estruturas sócio históricas, ou seja, são as formas de agir, pensar, sentir, representar, imaginar,
instituir e de se relacionar social, cultural e politicamente." (PARANÁ, 2008, p. 46)
O trabalho com música no ensino de História exige uma abordagem específica e cabe ao
professor selecionar seu material e escolher a opção metodológica mais adequada para
facilitar o processo de ensino e aprendizagem. Ao escolher a música como um recurso didático
é necessário planejar seu uso, ou seja, determinar em qual momento da aula a canção será
usada e com qual será sua finalidade.
A música, compreendida como um objeto de aprendizagem permite múltiplos usos e
leituras. Os objetos de aprendizagem servem para ilustrar, mobilizar, explicar ou problematizar
um determinado conteúdo ou conceito. A pesquisadora Katia Abud explica que ―no processo de
aprendizagem as fontes se transformam em recursos didáticos, na medida em que são
chamadas para responder perguntas e questionamentos adequados aos objetivos da história
ensinada‖ (ABUD, 2005, p. 309). Nesse sentido, é interessante observar que a canção usada
em sala de aula pode se desprender de seu contexto de produção e dos significados a ela
atribuídos pelo autor e pela comunidade de ouvintes, ela passa ―a ser um instrumento para o
desenvolvimento de conceitos na aula de história‖ (ABUD, 2005, p. 312).
No entanto, a música também pode ser utilizada em sala de aula como fonte histórica,
como usam os historiadores como matéria-prima de suas pesquisas. Entre os profissionais
preocupados com a relação entre história e música, destaca-se o historiador Marcos
Napolitano. Este pesquisador apresenta uma proposta de análise da canção popular nas
esferas da produção, circulação e distribuição, articuladas às contribuições dos teóricos da
Escola de Frankfurt e dos Estudos Culturais. De acordo com a literatura especializada, o
processo de análise de fontes musicais devem seguir alguns procedimentos, chamados de
análise externa e interna:
"Com relação à análise externa do documento musical, é prudente compreendê-la
subdividindo-a em dois campos distintos. A primeira instância deve tratar do contexto histórico
mais amplo, situando os vínculos e relações do documento e seu(s) produtor(es) com seu
tempo e espaço, tarefa comum e básica dos historiadores [...]. O segundo campo refere-se a
outra especificidade da documentação, isto é, ao processo social de criação, produção,
circulação e recepção da música popular". (MORAES, 2000, p. 216).
Música e cultura: Todo povo tem a sua música
Valéria Peixoto de Alencar
Povos do mundo todo produziam música muito antes das primeiras orquestras, surgidas
durante o barroco europeu, no século 16, e mesmo muito antes do século 11, quando Guido
d'Arezzo criou a notação musical da forma como a estudamos até hoje. Feitas para cerimônias
religiosas ou festivas, essas primeiras músicas, de diferentes culturas, nos influenciam até os
dias atuais.
Vários mitos africanos, asiáticos e americanos narram como os deuses inventaram os
instrumentos musicais, durante a criação do mundo. Ainda hoje, para alguns povos, os
instrumentos têm poderes sobrenaturais e permitem que os homens se comuniquem com seus
ancestrais ou com os próprios deuses.
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Quando pensamos em músicas antigas, logo vem à mente a música clássica, as
orquestras e seus instrumentos requintados. Dificilmente paramos para pensar na produção
musical de povos indígenas, africanos, orientais... Isso talvez ocorra porque temos uma
formação artística e musical proveniente do neoclassicismo, que, durante longo tempo, ignorou
outro tipo música que não fosse a erudita.
África
É preciso salientar, primeiramente, que, ao falarmos de um grande continente, com povos
muito diversos, corremos o risco de fazer generalizações. Ou seja, seria o mesmo que dizer
que a música brasileira é apenas o samba. E isso vale para todos os lugares e culturas de que
falaremos aqui.
No caso da África, nos referimos aos povos da região subsaariana e aos elementos da
musicalidade que vieram até nós, trazidos pelos escravos. Um dos elementos principais da
música africana é o instrumento de percussão.
Na África central, podemos encontrar um elemento comum entre as diversas tradições
musicais: tambores, de todos os tipos e tamanhos. Desde cedo as crianças aprendem a tocar e
cantar, pois a música é parte do cotidiano, utilizada para celebrar casamentos e nascimentos,
para curar doenças e para acompanhar o trabalho.
A cultura brasileira sofreu enorme influência da africana. No que se refere à música, além
dos tambores utilizados em rituais religiosos, os escravos trouxeram ritmos como a umbigada e
o maxixe, que deram origem ao samba.
Oriente Médio
Berço das religiões cristã, judaica e islâmica, o Oriente Médio é a região em que se
desenvolveram as primeiras grandes civilizações de que temos notícia: Suméria, Assíria,
Babilônia e Egito. É lá que encontramos os antecedentes de instrumentos modernos, como o
violino, o oboé e o trompete.
Índia
Dó, ré, mi, fá, sol, lá e si: estas são as sete notas musicais que conhecemos. E a partir
delas construímos as escalas e fazemos música em qualquer momento, certo? Sim, mas não
na Índia.
A música clássica indiana mais conhecida provém da Região Norte desse país. Ela se
baseia numa complicada série de escalas chamadas ragas, cada uma destinada a uma
situação, a uma hora do dia ou estação do ano em particular. Existem mais de 200 ragas
diferentes. Para tocar esse tipo de música, com seu complexo padrão de notas e ritmos, o
músico tem que se dedicar a muitos anos de estudo.
Extremo Oriente
Região formada por países de tradições musicais milenares, grande parte de sua música
era escrita para danças da corte ou para o teatro. Também há músicas de cunho religioso, com
instrumentos de percussão de todos os tipos - tambores, gongos e sinos -, usados para aplacar
os deuses e afastar os demônios.
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Oceania e ilhas do Pacífico
As milhares de ilhas espalhadas pelo Oceano Pacífico possuem uma tradição musical
intimamente ligada ao mar, servindo, inclusive, para pedir aos deuses auxílio na navegação.
No passado, os povos que viviam nessa região viajavam de ilha para ilha, levando
consigo seus instrumentos - tambores, flautas e apitos. Dessa forma, povoaram as diversas
ilhas, como Papua-Nova Guiné e Havaí.
Américas
Assim como em todas as regiões descritas até agora, temos que nos lembrar da vastidão
do continente americano e da imensa quantidade de povos indígenas que o habitava antes da
colonização europeia.
Ainda assim, podemos encontrar elementos musicais comuns em muitas culturas. A
música, por exemplo, na maioria das vezes era cantada e expressava a crença desses povos
nos deuses relacionados à natureza.
No Brasil, alguns mitos narram que a música teria sido um presente dos deuses,
entristecidos com o silêncio no mundo dos humanos. Em outras lendas, a criação do mundo se
mistura à criação da música. Assim, a música serve para ter contato com os deuses e os
ancestrais. Num ritual, um discurso pode acabar em canto - ou vice-versa. Além da voz (canto),
temos instrumentos como: chocalhos, guizos, bastões, tambores (percussão), apitos e flautas
(sopro) - e zunidores.
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história. Disponível em:
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5
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Cacimba de Mágoa (part. Falamansa)
Gabriel O Pensador
O sertão vai virar mar
É o mar virando lama
Gosto amargo do Rio Doce
De Regência a Mariana
Mariana, Marina, Maria, Márcia, Mercedes,
Marília
Quantas famílias com sede, quantas
panelas vazias?
Quantos pescadores sem redes e sem
canoas?
Quantas pessoas sofrendo, quantas
pessoas?
Quantas pessoas sem rumo como canoas
sem remos
Como pescadores sem linha e sem
anzóis?
Quantas pessoas sem sorte, quantas
pessoas com fome?
Quantas pessoas sem nome, quantas
pessoas sem voz?
Adriano, Diego, Pedro, Marcelo, José
Aquele corpo é de quem, aquele corpo
quem é?
É do Tião, é do Léo, é do João, é de
quem?
É mais um joão-ninguém, é mais um morto
qualquer
Morreu debaixo da lama, morreu debaixo
do trem?
Ele era filho de alguém, e tinha filho e
mulher?
Isso ninguém quer saber, com isso
ninguém se importa
Parece que essas pessoas já nascem
mortas
E pra quem olha de longe passando
sempre por cima
Parece que essas pessoas não têm valor
São tão pequenas e fracas, deitando em
camas e macas
Sobrevivendo, sentindo tristeza e dor
Quem nunca viu a sorte pensa que ela não
vem
E enche a cacimba de mágoa
Hoje me abraça forte, corta esse mal,
planta o bem
Transforma lágrima em água
O sertão vai virar mar
É o mar virando lama
Gosto amargo do Rio Doce
De Regência a Mariana
O sertão vai virar mar
É o mar virando lama
Gosto amargo do Rio Doce
De Regência a Mariana
Quem olha acima, do alto, ou na TV em
segundos
Às vezes vê todo mundo, mas não
enxerga ninguém
E não enxerga a nobreza de quem tem
pouco, mas ama
De quem defende o que ama e valoriza o
que tem
Antônio, Kátia, Rodrigo, Maurício, Flávia e
Taís
Trabalham feito formigas, têm uma vida
feliz
Sabem o valor da amizade e da pureza
Da natureza e da água, fonte da vida
Conhecem os bichos e plantas e como o
galo que canta
Levantam todos os dias com energia e
com a cabeça erguida
Mas vêm a lama e o descaso, sem
cerimônia
Envenenando o futuro e o presente
Como se faz desde sempre na Amazônia
Nas nossas praias e rios impunemente
Mas o veneno e o atraso, disfarçado de
progresso
Que apodrece a nossa fonte e a nossa foz
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Não nos faz tirar os olhos do horizonte
Nem polui a esperança que nasce dentro
de nós
É quando a lágrima no rosto a gente
enxuga e segue em frente
Persistente como as tartarugas e as
baleias
E nessa lama nasce a flor que a gente
rega
Com o amor que corre dentro do sangue,
nas nossas veias
Quem nunca viu a sorte pensa que ela não
vem
E enche a cacimba de mágoa
Hoje me abraça forte, corta esse mal,
planta o bem
Transforma lágrima em água
O sertão vai virar mar
É o mar virando lama
Gosto amargo do Rio Doce
De Regência a Mariana
O sertão vai virar mar
É o mar virando lama
Gosto amargo do Rio Doce
De Regência a Mariana
O sertão vai virar mar (o sertão virando
mar)
É o mar virando lama (o mar virando lama)
Gosto amargo do Rio Doce (da lama
nasce a flor)
De Regência a Mariana (muita força, muita
sorte)
O sertão vai virar mar (mais justiça, mais
amor)
É o mar virando lama
Gosto amargo do Rio Doce
De Regência a Mariana
O sertão vai virar mar
É o mar virando lama
Composição: Tato e Gabriel o Pensador
Bela iniciativa do Falamansa e de Gabriel O Pensador em parceria com o Instituto Últimos
Refúgios e o Instituto O Canal – um clipe musical que lamenta a tragédia ocorrida no Rio
Doce e o completo descaso com a natureza e com as famílias afetadas. No YouTube, a
banda Falamansa explica que ―cada visualização do clipe se transforma em uma doação para
um fundo de assistência às famílias ribeirinhas com a finalidade de promover obras sociais
comunitárias‖.
O Meu País - Zé Ramalho
Compositor: Livardo Alves - Orlando Tejo -
Gilvan Chaves
Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou
mudo
Um país que crianças elimina
Que não ouve o clamor dos esquecidos
Onde nunca os humildes são ouvidos
E uma elite sem Deus é quem domina
Que permite um estupro em cada esquina
E a certeza da dúvida infeliz
Onde quem tem razão baixa a cerviz
E massacram - se o negro e a mulher
Pode ser o país de quem quiser
Mas não é, com certeza, o meu país
Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis
Um país onde os homens confiáveis
Não têm voz, não têm vez, nem diretriz
Mas corruptos têm voz e vez e bis
E o respaldo de estímulo incomum
Pode ser o país de qualquer um
Mas não é com certeza o meu país
Um país que perdeu a identidade
Sepultou o idioma português
Aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade
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Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz
Que não pode esconder a cicatriz
De um povo de bem que vive mal
Pode ser o país do carnaval
Mas não é com certeza o meu país
Um país que seus índios discrimina
E as ciências e as artes não respeita
Um país que ainda morre de maleita
Por atraso geral da medicina
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de raio - x
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol
Pode ser o país do futebol
Mas não é com certeza o meu país
Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou
mudo
Um país que é doente e não se cura
Quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir da noite escura
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o Brasil em mil Brasis
Pra melhor assaltar de ponta a ponta
Pode ser o país do faz-de-conta
Mas não é com certeza o meu país
Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou
mudo
500 Anos de Sobrevivência
Gabriel O Pensador
500 anos de vida,
500 anos de sobrevivência,
500 anos de história,
500 anos de experiência,
500 anos de batalhas, derrotas e vitórias,
Desordem e progresso, fracasso, sucesso,
Dor e alegria, tristeza e paixão,
500 anos de trabalho,
e a obra ainda está em construção,
A luta continua, a vida continua,
Apesar do sangue que escorre,
O guerreiro não se cansa e acredita na
mudança,
Porque a esperança é última que morre.
Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?
Eu odeio tudo isso mas eu tenho que saber,
O que eu leio no jornal e eu vejo na TV,
Eu odeio tudo isso mais eu tenho que
vencer,
Porque eu tenho um compromisso com a
vida e com você,
O que eu vejo no jornal não me deixa feliz,
Mas não mudo de canal e não mudo de
país,
Eu tenho medo, porque o medo está no ar,
Mas ainda é cedo pra deixar tudo pra lá,
Não adianta ficar aqui á toa,
Só esperando pra ouvir notícia boa,
O que se planta é o que se colhe,
O futuro é um presente que a gente mesmo
escolhe,
A semente já está no nosso chão,
Agora é só regar com a mente e o coração,
A transformação da revolta em amor,
Faz a água virar vinho e o espinho virar flor,
Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?
Não adianta ficar aqui é toa,
Só esperando pra ouvir notícia boa,
O que se planta é o que se colhe,
O futuro é um presente que a gente mesmo
escolhe,
A semente já está no nosso chão,
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Agora é só regar com a mente e o coração,
A transformação da revolta em amor,
A transformação...
Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?
Nem todos que sonharam conseguiram,
mas pra conseguir é preciso sonhar.
Composição: Gabriel O Pensador
História do Brasil
Edson Gomes
Eu vou contar pra vocês
Certa história do Brasil
Foi quando Cabral descobriu
Este país tropical
Um certo povo surgiu
Vindo de um certo lugar
Forçado a trabalhar neste imenso país
E era o chicote no ar
E era o chicote a estalar
E era o chicote a cortar
Era o chicote a sangrar
Um, dois, três até hoje dói
Um, dois, três, bateu mais de uma vez
Por isso é que a gente não tem vez
Por isso é que a gente sempre está
Do lado de fora
Por isso é que a gente sempre está
Lá na cozinha
Por isso é que a gente sempre está
fazendo
O papel menor
O papel menor
O papel menor
Ou o papel pior
Hereditário
Edson Gomes
Era assim, era assim, sim, sim, sim
No nascer do dia meu pai ia lá
E na morte do dia ele vinha
Ele trazia sempre o suor no rosto
O corpo cansado e nada no bolso
Era assim, era assim, sim, sim, sim
Hoje eu que saio
Sou eu que trabalho
Conheço a dureza
De toda essa vida
Pai de família, pai de família
Hoje é assim, hoje é assim, sim, sim
Trago sempre o suor correndo no rosto
O corpo cansado e nada no bolso
Sangue Azul - Edson Gomes
Eles queriam um mundo só de azul
(só de azul 3x)
Eles queriam, e como eles queriam
Eles queriam que fossemos apenas objeto
sexual
Objeto Profissional
Eles queriam, e como eles queriam
Mas o poder, que vem do alto
Não planejou assim
E nós crescemos, nos espalhamos
E aqui vamos nós, caminhando
Em cada esquina, em cada praça, nos
becos da cidade
Mesmo que o rádio não toque, mesmo que
a TV não mostre
Aqui vamos nós, cantando reggae, aleluia
Jah!(2x)
História Do Brasil
Jorge Aragão
Eu vi Não vou esquecer jamais
De alguém que fez dos desiguais
Um povo unido em mutirão
Numa só direção
Pra não ser vencido
Pelas garras da opressão
Eu vi Das planícies e serras
Dos confins desta terra
Elevar-se um anseio
Tão forte mas calou como veio
Quando a sombra da morte
Encobriu todos nós Juro que...
Eu vi Quase tudo deu certo
Quem não viu chegou perto
Mas nos legou um sonho Risinho
Hoje, vejo meu povo
Merecendo de novo
Ser feliz
Agora é lutar
Por tudo que ele quis
É hora de mudar
Conheço o meu país
Agora é lutar
Por tudo que ele quis
É hora de mudar
Índios, de Legião Urbana
Esta canção fala por si só: a conquista do Brasil pelos portugueses, e da América Latina pelos
espanhóis, e o processo de dominação dos indígenas que viviam na América.
Índios
Legião Urbana
Compositor: Renato Russo
Quem me dera, ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei
A quem conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu
não tinha
Quem me dera, ao menos uma vez,
Esquecer que acreditei que era por
brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Explicar o que ninguém consegue entender:
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era
antigamente.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Provar que quem tem mais do que precisa
ter
Quase sempre se convence que não tem o
bastante
E fala demais por não ter nada a dizer
Quem me dera, ao menos uma vez,
Que o mais simples fosse visto como o mais
importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Entender como um só Deus ao mesmo
tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
É só maldade então, deixar um Deus tão
triste.
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta
pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do inicio ao fim
E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi
Quem me dera, ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que
existe
E acreditar que o mundo é perfeito
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E que todas as pessoas são felizes
Quem me dera, ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu
nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado
Quem me dera, ao menos uma vez
Como a mais bela tribo, dos mais belos
índios
Não ser atacado por ser inocente
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda: assim pude trazer você de volta
pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi
Nos deram espelhos e vimos um mundo
doente
Tentei chorar e não consegui
A música índios da Legião Urbana nos proporciona a fazermos uma análise histórica através
de sua letra.
Com a letra podemos analisar os primeiros anos de descobrimento do Brasil e um pouco da
relação entre colonizador e colonizado.
Os primeiros contatos entre os portugueses e os indígenas aconteceu de forma amigável, os
portugueses acabaram utilizando esse comportamento dos índios para retirar as
riquezas visíveis até o momento no caso o Pau-Brasil.
Os indígenas sempre foram vistos como inocentes pelo branco, principalmente pela
igreja católica.
Com a chegada dos europeus a vida no continente americano mudou, muitos índios acabaram
sendo escravizados ou mortos e os que sobreviveram tiveram que se deslocar para o interior
do território.
A ambição do homem branco é uma das características que mais se diferencia da dos índios,
o indígena na sua cultura não tem a necessidade de acumulação de bens.
Um dos objetos que mais fizeram sucesso no escambo realizado entre os índios e os brancos
foi o espelho. Essa cordialidade entre as duas culturas acabou levando a mudanças na vida do
índio e no seu território.
Juntamente com os colonizadores chegou a religião católica
principalmente através dos jesuítas que tinham como objetivo catequizar os nativos.
A resistência indígena sempre existiu no Brasil, muitos tribos lutaram contra o colonizador,
essa luta pela sobrevivência muitas vezes levou a morte de tribos inteiras.
Podemos entender como sendo saudades da época antes da chegada do colonizador.
No trecho podemos entender como uma alusão a vida indígena sem a presença do homem
branco, com os nativos vivendo de acordo com sua cultura.
Os índios tem uma visão de mundo diferente da do homem branco com mais
responsabilidades em relação ao planeta.
Muitos índios foram atacados pelos europeus principalmente em busca de mão-de-obra
escrava, seja, para trabalhar nos primeiros engenhos de açúcar ou mesmo para serem
enviados para Europa como seres exóticos.
A resistência indígena sempre existiu no Brasil, muitas tribos lutaram contra o colonizador,
essa luta pela sobrevivência muitas vezes levou a morte de tribos inteiras.
Podemos entender como sendo uma saudade de uma época antes da chegada do colonizador.
Nesse último trecho vemos a mudança no mundo indígena com o índio enxergando o resultado
da exploração do Brasil.
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Curumim Chama Cunhatã Que Eu Vou
Contar (Todo Dia Era Dia de Índio)
Baby do Brasil - Compositor: Jorge Ben
Jor
Curumim chama cunhata que eu vou
contar
Cunhata chama curumim que eu vou
contar
Curumimm, Cunhataa
Cunhataa, Curumimm
Antes que os homens aqui pisassem nas
ricas e férteis
terras brasilis
Que eram povoadas e amadas por
milhões de índios
Reais donos felizes da terra do pau Brasil
Pois todo dia e toda hora era dia de índio
Mas agora eles tem só um dia
Um dia dezenove de abril
Amantes da pureza e da natureza
Eles são de verdade incapazes
De maltratarem as fêmeas
Ou de poluir o rio, o céu e o mar
Protegendo o equilíbrio ecológico
Da terra, fauna e flora pois na sua história
O índio é exemplo mais puro
Mais perfeito, mais belo
Junto da harmonia, da fraternidade
E da alegria, da alegria de viver
Da alegria de amar
Mas no entanto agora
O seu canto de guerra
É um choro de uma raça inocente
Que já foi muito contente
Pois antigamente
Todo dia era dia de índio
Inclassificáveis - Arnaldo Antunes
que preto, que branco, que índio o quê?
que branco, que índio, que preto o quê?
que índio, que preto, que branco o quê?
que preto branco índio o quê?
branco índio preto o quê?
índio preto branco o quê?
aqui somos mestiços mulatos
cafuzos pardos mamelucos sararás
crilouros guaranisseis e judárabes
orientupis orientupis
ameriquítalos luso nipo caboclos
orientupis orientupis
iberibárbaros indo ciganagôs
somos o que somos
inclassificáveis
não tem um, tem dois,
não tem dois, tem três,
não tem lei, tem leis,
não tem vez, tem vezes,
não tem deus, tem deuses,
não há sol a sós
aqui somos mestiços mulatos
cafuzos pardos tapuias tupinamboclos
americarataís yorubárbaros.
somos o que somos
inclassificáveis
que preto, que branco, que índio o quê?
que branco, que índio, que preto o quê?
que índio, que preto, que branco o quê?
não tem um, tem dois,
não tem dois, tem três,
não tem lei, tem leis,
não tem vez, tem vezes,
não tem deus, tem deuses,
13
não tem cor, tem cores,
não há sol a sós
egipciganos tupinamboclos
yorubárbaros carataís
caribocarijós orientapuias
mamemulatos tropicaburés
chibarrosados mesticigenados
oxigenados debaixo do sol
Mestiço: proveniente de raças diferentes.
Mulato: Filho de pai branco e mãe preta.
Cafuzo: mestiço de negro e índio.
Pardo: mulato.
Mameluco: filho de índio com branco.
Sarará: mestiço de cabelo ruivo.
Crilouro: crioulo: negro nascido na América; louro: aquele que tem cabelo louro (de cor
amarelo tostado, entre o dourado e o castanho claro.
Guaranissei: guarani: Indivíduo dos guaranis, povo indígena da família lingüística tupi guarani;
nissei: diz-se de, ou filho de pais japoneses que emigraram.
Judárabe: judeu: o natural ou habitante da judéia (Israel), aquele que segue a religião judaica;
o indivíduo semita da Arábia (Península Arábica).
Orientupi: oriental: relativo ao oriente ou situado lá, ou de lá originário, ou que lá vive; tupi:
indivíduo dos tupis, denominação comum aos povos indígenas do litoral brasileiro cujas
línguas pertenciam à mesma família ou tronco que a dos tupis.
Ameriquítalo: americano: natural ou habitante do continente americano; ítalo: italiano.
Luso: da Lusitânia e seus habitantes, portugueses.
Nipo: japonês.
Caboclos: mestiço de branco com índio.
Iberibárbaro: ibérico: da Ibéria, antigo nome da Espanha; bárbaros: denominação que gregos
e romanos davam aos estrangeiros, considerados sem civilização.
Indo: grupo de línguas indo-européias da Ásia (sânscrito, híndi, bengali, guzerate, etc.).
Ciganagô: cigano: indivíduo de um povo nômade. nagô: diz-se de uma casta de negros do
grupo sudanês.
Tapuia: designação dada pelos índios de língua tupi guarani aos povos indígenas cujas
línguas pertencem a outro tronco lingüístico; indivíduo bravo, mestiço de índio.
Tupinamboclo: tupinambá: indivíduo dos tupinambás, povo indígena extinto, da família
lingüística tupi guarani, que habitava a costa brasileira. CABOCLO.
Americarataí: AMERICANO; carataí: (?)
Yorubárbaro: yorubá: grupo nígero-comeruniano.
Egipcigano: egípcio: natural ou habitante do Egito.
Caribocarijó: caribo: um tipo de dança (cariboca: caboclo); carijó: índios carijós, indígenas que
ocupavam o território que ia de Cananéia, estado de São Paulo.
Tropicaburé: tropical: situado entre os trópicos, ardente, abrasador; caburé: cafuzo, caboclo.
Chibarrosado: (?)
Mesticigenado: MESTIÇO; miscigenado: proveniente de raças diferentes.
14
Lourinha Bombril - Os Paralamas do
Sucesso
Pára e repara
Olha como ela samba
Olha como ela brilha
Olha que maravilha
Essa crioula tem o olho azul
Essa lourinha tem cabelo bombril
Aquela índia tem sotaque do Sul
Essa mulata é da cor do Brasil
A cozinheira tá falando alemão
A princesinha tá falando no pé
A italiana cozinhando o feijão
A americana se encantou com Pelé
Häagen-dazs de mangaba
Chateau canela-preta
Cachaça made in Carmo dando a volta no
planeta
Caboclo presidente
Trazendo a solução
Livro pra comida, prato pra educação
Pára e repara
Olha como ela samba
Olha como ela brilha
Olha que maravilha
Essa crioula tem o olho azul
Essa lourinha tem cabelo bombril
Aquela índia tem sotaque do Sul
Essa mulata é da cor do Brasil
A cozinheira tá falando alemão
A princesinha tá falando no pé
A italiana cozinhando o feijão
A americana se encantou com Pelé
Häagen-dazs de mangaba
Chateau canela-preta
Cachaça made in Carmo dando a volta no
planeta
Caboclo presidente
Trazendo a solução
Livro pra comida, prato pra educação
Pára e repara
Olha como ela samba
Olha como ela brilha
Olha que maravilha
Häagen-dazs de mangaba
Chateau canela-preta
Cachaça made in Carmo dando a volta no
planeta
Caboclo presidente
Trazendo a solução
Livro pra comida, prato pra educação
Pára e repara
Olha como ela samba
Olha como ela brilha
Olha que maravilha
QUEM É ESSA TAL DE ―LOURINHA BOMBRIL‖ QUE CANTA OS PARALAMAS DO
SUCESSO?
Você com certeza já parou para pensar em quem é a Lourinha Bombril que canta a música dos
Paralamas do Sucesso. E se você prestar atenção na letra da canção, vai entender de cara
que ela fala da mulher brasileira.
O título nos remete a ideia de miscigenação, pois o ―cabelo bombril‖ sempre foi uma referência
ao cabelo dos negros; e as ―loirinhas‖ são sempre lembradas como garotas norte-americanas.
Uma prova de que ―Lourinha Bombril‖ fala sobre uma brasileira é a primeira frase da música,
que diz: ―Pára e repara, olha como ela samba…‖ Qual dos povos do mundo é um apaixonado
por samba? Nós, os brasileiros.
Outra prova, é o trecho: ―Essa mulata é da cor do Brasil‖. Gente! Tá estampadasso que eles
estão falando das mulheres brasileiras.
E se você levar para um lado mais literal, pode transformar os versos de Herbert Viana em um
poema incrível, que tem como tema central a mistura de raças que aconteceu desde sempre
nesse nosso país. E a gente não está falando só da mistura da pele, mas das misturas
culturais em geral.
15
Miscigenação - Zé Potiguar
Somos todos brasileiros
Pretos, brancos ou vermelhos
Somos índios, somos negros
Somos da miscigenação
Somos uma grande legião
Somos o futuro de uma nação
Vamos ter força pra lutar
Pra um dia termos o que comemorar
Será que esse dia vai chegar?
Da tua força eu quero a glória
Da união quero a vitória
Vamos escrever a nossa história
Só depende de nós, da nossa coragem
Só depende de nós, da nossa vontade
Só depende de nós, da nossa coragem
Vocês!
Só depende de nós, da nossa vontade
Somos todos brasileiros
Pretos, brancos ou vermelhos
Somos índios, somos negros
Somo da miscigenação
Somos uma grande legião
Somos o futuro de uma nação
Vamos ter força pra lutar
Pra um dia termos o que comemorar
Será que esse dia vai chegar?
Desses laranjas eu quero o suco
Pra nunca mais obter lucro
De jeitinho ou traição
Da tua força eu quero a glória
Da união quero a vitória
Vamos escrever a nossa história
ETNIA - Chico Science & Nação Zumbi
Somos todos juntos uma miscigenação
E não podemos fugir da nossa etnia
Índios, brancos, negros e mestiços
Nada de errado em seus princípios
O seu e o meu são iguais
Corre nas veias sem parar
Costumes, é folclore é tradição
Capoeira que rasga o chão
Samba que sai da favela acabada
É hip hop na minha embolada
É o povo na arte
É arte no povo
E não o povo na arte
De quem faz arte com o povo
Por de trás de algo que se esconde
Há sempre uma grande mina de
conhecimentos
e sentimentos
Não há mistérios em descobrir
O que você tem e o que gosta
Não há mistérios em descobrir
O que você é e o que você faz
Maracatu psicodélico
Capoeira da Pesada
Bumba meu rádio
Berimbau elétrico
Frevo, Samba e Cores
Cores unidas e alegria
Nada de errado em nossa etnia.
Miscigenação - Paulo Matricó
Humano está em movimento
No complicar da equação
O tempo por cento e a soma do vento dizem
mutação (2x)
Total igual a miscigenação
Jeito na dor do sertão e Caiapoque na
África
Rastafari, curumim é linho naço-arábico
Germano é hermano de negro, caboclo,
galego, tupias e árdicos
Humano está em movimento
No complicar da equação
O tempo por cento e a soma do vento dizem
mutação (2x)
Total igual a miscigenação
Jeito na dor do sertão e Caiapoque na
África
Haja vista uma expressão que exploração é
múltiplo
Mas existe uma fração que o coração é
lúdico
16
Futuro será um só povo em todo o Planeta
falando a mesma língua: o amor. (2x)
Misturas de Raças - Genival Lacerda
Compositor: (pinto do Acordeon)
Meu avô é holandês
Minha avó é africana
O meu pai é português
E a minha mãe baiana
Eu nasci na paraíba
No recanto brasileiro
Onde as praias são bonitas
Onde o sol nasce primeiro
Tenho um parente inglês
Japonês, italiano
Tem um primo que é francês
O outro é índio alagoano
Sou mulato, sarará
Mais meu sangue é de primeira
É a mistura de raça
Da genética brasileira
O meu sangue viajou, navegou pelos mares
Foi parar no quilombo em zumbi dos
palmares
O meu sangue viajou, navegou pelos mares
Meu País - Zezé Di Camargo e Luciano
Aqui não falta sol
Aqui não falta chuva
A terra faz brotar qualquer semente
Se a mão de Deus
Protege e molha o nosso chão
Por que será que tá faltando pão?
Se a natureza nunca reclamou da gente
Do corte do machado, a foice, o fogo
ardente
Se nessa terra tudo que se planta dá
Que é que há, meu país?
O que é que há?
Se nessa terra tudo que se planta dá
Que é que há, meu país?
O que é que há?
Tem alguém levando lucro
Tem alguém colhendo o fruto
Sem saber o que é plantar
Tá faltando consciência
Tá sobrando paciência
Tá faltando alguém gritar
Feito um trem desgovernado
Quem trabalha tá ferrado
Nas mãos de quem só engana
Feito mal que não tem cura
Estão levando à loucura
O país que a gente ama
Feito mal que não tem cura
Estão levando à loucura
O Brasil que a gente ama
500 Anos - Chitãozinho & Xororó
O meu país é uma arena gigantesca
Onde eu bebo água fresca nas cacimbas
do sertão
Sou berranteiro, andarilho, sou matreiro
Sou peão, sou boiadeiro na poeira desse
chão
E lá se vão 500 anos de galope
Não duvide que eu tope contar tudo que
eu já vi
No meu cavalo por esse Brasil a fora
Eu passeio pela história, do Oiapoque ao
Chuí
Eu vi chegando caravelas do futuro lá no
meu Porto Seguro
Quando o sol trazia luz
Vi bandeirante atrás de ouro e diamante
Nos lugares mais distantes da terra de
Santa Cruz
Andei nos Pampas, vi a Guerra dos
Farrapos
E por um triz não escapo no meu ligeiro
alazão
Vi Tiradentes, vi Antônio conselheiro
Lampião Índio guerreiro, padre Cícero
Romão
Eu vi Zumbi, negro arisco dos Palmares
17
Ecoando pelos ares feito uma oração
De um cavaleiro, escutei um grito forte
De independência ou morte à beira de um
riachão
Eu sou o tempo, fui eu quem mudou os
ventos
Mas já são outros 500
Que vou contar noutra canção
Presidente Bossa Nova, de Juca Chaves
Tido como governante de vanguarda, Juscelino Kubitschek é retratado indiretamente nesta
música do sambista Juca Chaves. A simpatia e os excessos de JK não passam em branco
nos versos cantados.
Presidente Bossa Nova - Juca Chaves
Bossa nova mesmo é ser presidente
Desta terra descoberta por Cabral
Para tanto basta ser tão simplesmente
Simpático, risonho, original.
Depois desfrutar da maravilha
De ser o presidente do Brasil,
Voar da Velha cap pra Brasília,
Ver a alvorada e voar de volta ao Rio.
Voar, voar, voar, voar,
Voar, voar pra bem distante,
Até Versalhes onde duas mineirinhas
valsinhas
Dançam como debutante, interessante!
Mandar parente a jato pro dentista,
Almoçar com tenista campeão,
Também poder ser um bom artista
exclusivista
Tomando com Dilermando umas aulinhas
de violão.
Isto é viver como se aprova,
É ser um presidente bossa nova.
Bossa nova, muito nova,
Nova mesmo, ultra nova!
Vai Passar
Chico Buarque
Compositor: Francis Hime - Chico Buarque
Vai passar
Nessa avenida um samba
popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram
sambas imortais
Que aqui sangraram pelos
nossos pés
Que aqui sambaram
nossos ancestrais
Num tempo
Página infeliz da nossa
história
Passagem desbotada na
memória
Das nossas novas
gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão
distraída
Sem perceber que era
subtraída
Em tenebrosas
transações
Seus filhos
Erravam cegos pelo
continente
Levavam pedras feito
penitentes
Erguendo estranhas
catedrais
E um dia, afinal
Tinham direito a uma
alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O carnaval, o carnaval
(Vai passar)
Palmas pra ala dos
18
barões famintos
O bloco dos napoleões
retintos
E os pigmeus do bulevar
Meu Deus, vem olhar
Vem ver de perto uma
cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório
geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório
geral
Vai passar
1986 © - Marola Edições Musicais Ltda.
A letra da música Vai Passar do cantor e compositor Chico Buarque de Holanda, foi
escrita em meados da década de 80, num período conturbado da história brasileira que foi o
fim da ditadura militar.
A obra pode ser associada especialmente aos seguintes autores debatidos em sala,
sendo eles: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Joaquim Nabuco.
A letra faz uma crítica veemente ao Estado e ao período colonial brasileiro. Faz um
enredo sobre a história do Brasil desde tal período com o ―descobrimento‖ do Brasil até a
ditadura militar em 1984.
Analisando trechos da letra, especificamente nos trechos: ―Que aqui sangraram pelos
nossos pés, que aqui sambaram nossos ancestrais, num tempo página infeliz da nossa
história...” é perceptível que o cantor faz uma referência ao período da escravidão vivenciada
no Brasil, no qual narram os autores citados, especialmente Caio Prado Júnior e Joaquim
Nabuco que fazem um retrospecto ao período colonial brasileiro, tal página infeliz, como expõe
a música seria o período da escravidão, com a exploração da mão-de-obra escrava pelos
portugueses. Na parte da música: “levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas
catedrais” pode se referir a imposição ao negro de uma cultura não vivenciada por eles, sendo
imposta pelos portugueses. Joaquim Nabuco analisou que em nossa sociedade “O negro
construiu um país para outros; o negro construiu um país para brancos”. Mas, ‖um dia, afinal,
tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava carnaval‖. O
samba pode ser considerado a representação da cultura negra, uma expressão artística, o
estilo musical dessa categoria marginalizada.
Na parte da música: “palmas pra ala dos barões famintos, o bloco do napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard” demonstra uma crítica aos colonos, a elite portuguesa e quem
mantinha o poder na época. Assim, a letra da música se mescla entre o período colonial
brasileiro e com o período de opressão da ditadura militar, A liberdade obtida tanto pela alforria
da escravatura quanto pelo período pós-ditadura, como exposto no seguinte trecho da
música: “Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar a evolução da
liberdade até o dia clarear”. ―Dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era
subtraída em tenebrosas transações‖. Caio Prado, assim como os outros autores citados
relatam a relação de exploração de Portugal e Inglaterra, onde quem, literalmente, pagou os
prejuízos da dívida portuguesa foi o Brasil.
19
O autor Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil aborda aspectos centrais da
história da cultura brasileira que estão intrinsecas a letra da música citada, haja vista,
sobretudo, a importância do legado cultural da colonização portuguesa do Brasil, junto com
"Casa-Grande & Senzala", de Gilberto Freire e "Formação do Brasil Contemporâneo‖, de Caio
Prado Jr. são obras consideradas excêntricas para a compreensão da verdadeira história do
processo de formação da sociedade até os nossos dias atuais.
“Dormia a nossa pátria mãe, tão distraída, sem perceber que era subtraída em
tenebrosas transações”.
Por Rodrigo Nagem de Aragão, estudante de história do DH-USP, em ocasião do aniversário
do Golpe Militar de 1964.
Há 51 anos, no dia primeiro de abril de 1964, tinha início a Ditadura Militar, um sombrio capítulo
de nossa história que persistiu por longos 21 anos – desde o golpe que levou à deposição do
presidente João Goulart até o início da Nova República, com o processo da ―redemocratização‖
(ou, como se convém chamar, o processo de retorno ao parlamentarismo burguês, a ―ditadura
democrática‖ das classes dominantes).
Pressionada pelo governo dos Estados Unidos, cuja postura com relação à América Latina se
tornara mais assertiva após o triunfo da Revolução Cubana em 1959, e preocupada em
assegurar o poder do Estado e prevenir que o reformismo do governo de João Goulart pudesse
abrir espaço para caminhos mais radicais, a burguesia brasileira, nas condições postas,
abraçou a via do golpe, contando com o amplo apoio logístico e operacional de órgãos de
inteligência estadunidenses (com destaque para o IBAD e o IPES). E, deste modo, no dia
primeiro de abril de 1964, Joao Goulart foi forçosamente destituído do cargo de presidente da
República. O regime que então se seguiu foi marcado por uma série de crimes hediondos e
violações aos direitos humanos, desde o cerceamento dos direitos civis e das garantias
constitucionais até as práticas de tortura e assassinato, atrocidades cometidas principalmente
na perseguição sistemática à esquerda brasileira, especialmente os comunistas.
A Ditadura Militar encarregou-se de, por um lado, esvaziar as esferas democráticas,
desarticulando as reformas sociais e econômicas intencionados pelo governo de João Goulart,
e, por outro lado, institucionalizar um brutal processo de repressão contra a esquerda. Assim, a
soldo das elites e por meio da violência generalizada, os militares esforçaram-se para liquidar
as organizações progressistas, no geral, e as organizações revolucionárias, de inclinação
comunista, em específico. À época, partidos políticos, centrais sindicais, ligas camponesas e
diversos movimentos sociais (estudantis, religiosos, etc.) tornaram-se alvos compulsórios dos
órgãos de repressão da Ditadura – e, mais adiante, também os grupos de luta armada,
formados após o recrudescimento da perseguição política; com requintes de crueldade,
incontáveis militantes de tais organizações foram encarcerados, mutilados e chacinados, casos
atrozes que, em sua maioria, permanecem até hoje sem esclarecimento público e cujos
responsáveis seguem impunes, uma vez que, anistiados, jamais chegaram a responder por
seus crimes. Desta forma, sob uma montanha de cadáveres, o regime militar cumpriu o seu
papel: ossificou a vida política do país e, sob tal conjuntura, garantiu a primazia dos interesses
econômicos e políticos das classes dominantes, atendendo igualmente aos propósitos do
imperialismo norte-americano com relação ao Brasil.
Os resultados da tarefa bem-sucedida levada a cabo pelos militares se fazem sentir – e com
muito peso – até hoje: o poderio político e econômico de monstruosas associações
empresariais, formadas a partir de negociações entre grupos envolvidos nos bastidores do
golpe militar e que até hoje reinam sobre largos setores da indústria brasileira; a elevada
concentração de terras nas mãos de um ínfimo punhado de latifundiários, agraciados durante a
Ditadura por uma série de leis aprovadas em detrimento da reforma agrária e em benefício do
20
crescente acúmulo da propriedade fundiária, fato que entrava o desenvolvimento econômico do
campo e condena milhares de famílias campesinas à miséria extrema; a cristalização das
práticas de corrupção no seio da atividade parlamentar a partir da associação do Estado com
grandes grupos econômicos, ocorrência inerente ao próprio capitalismo, mas fortemente
propiciada pelo regime militar, como, por exemplo, é o caso das famosas ―quatro irmãs‖
(Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez), empreiteiras que foram amplamente
beneficiadas por contratos milionários firmados em parceria com a Ditadura e que, hoje em dia,
lideram as listas de financiamento privado de campanhas eleitorais e marcam presença nos
casos mais recentes de corrupção envolvendo esquemas de licitação pública; a subserviência
da economia nacional às instituições financeiras privadas, principalmente os bancos
estrangeiros, quadro incentivado após 1964 e que nos remete à atual dívida pública do país,
cuja amortização compromete quase 50% do orçamento federal; e a permanência de práticas
de repressão à moda fascista, herança direta dos métodos de procedimento policial
instaurados pelos militares, cujo reflexo mais claro é a presente campanha de extermínio
promovida pela polícia militar contra a população pobre, trabalhadora e negra que habita as
periferias dos grandes centros urbanos brasileiros.
Passados trinta anos do fim da Ditadura Militar, ponderando sua relação com o nosso presente
e colocando em perspectiva os seus efeitos, permanecem atuais, pois, os versos de Chico
Buarque: ―Dormia a nossa pátria mãe, tão distraída, sem perceber que era subtraída em
tenebrosas transações‖.
Para saber mais sobre a Ditadura Militar:
– Análise crítica do sociólogo Carlos Eduardo Martins acerca do regime
militar:http://dincao.com.br/noticias/?p=2811
– Relatório final apresentado pela Comissão Nacional da Verdade
(CNV):http://dincao.com.br/noticias/?p=2804
– A participação dos EUA na elaboração e efetivação do golpe
militar:http://dincao.com.br/noticias/?p=2835
– ―O dia que durou 21 anos‖, documentário dirigido por Camilo Galli Tavares sobre o
envolvimento do governo dos Estados Unidos na preparação, desde 1962, do golpe militar
executado em 1964:
O dia que durou 21 anos from Ivan Fayvit on Vimeo.
– A relação entre a Ditadura Militar e a Operação
Condor: http://dincao.com.br/noticias/?p=2884
– Especial ―À espera da verdade‖, conjunto de documentos, artigos e entrevistas a respeito do
regime
militar: http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/68036/Ultima+instancia+inaugura+es
pecial+a+espera+da+verdade+45+anos+do+ai_5+50+anos+do+golpe.shtml
– Site da Comissão Nacional da Verdade, contendo os relatórios dos trabalhos de investigação
e discussão realizados pela CNV e links para a documentação pesquisada e
analisada: http://www.cnv.gov.br/
– Site ―Memórias da Ditadura‖, portal lançado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos
com um amplo acervo de imagens, informações e documentários sobre a Ditadura
Militar: http://memoriasdaditadura.org.br/
Um Comunista, de Caetano Veloso
Caetano faz uma grande homenagem a Carlos Marighella, combatente na luta contra a
ditadura. O músico narra na música o episódio da morte do líder da Ação Libertadora Nacional
(ALN).
21
Um Comunista - Caetano Veloso
Um mulato baiano,
Muito alto e mulato
Filho de um italiano
E de uma preta uçá
Foi aprendendo a ler
Olhando mundo à volta
E prestando atenção
No que não estava a vista
Assim nasce um comunista
Um mulato baiano
que morreu em São Paulo
baleado por homens do poder militar
nas feições que ganhou em solo americano
A dita guerra fria
Roma, França e Bahia
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!
O mulato baiano, mini e manual
do guerrilheiro urbano que foi preso por
Vargas
depois por Magalhães
por fim, pelos milicos
sempre foi perseguido nas minúcias das
pistas
Como são os comunistas?
Não que os seus inimigos
estivessem lutando
contra as nações terror
que o comunismo urdia
Mas por vãos interesses
de poder e dinheiro
quase sempre por menos
quase nunca por mais
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!
O baiano morreu
eu estava no exílio
e mandei um recado:
"eu que tinha morrido"
e que ele estava vivo,
Mas ninguém entendia
Vida sem utopia
não entendo que exista
Assim fala um comunista
Porém, a raça humana
segue trágica, sempre
Indecodificável
tédio, horror, maravilha
Ó, mulato baiano
samba o reverencia
muito embora não creia
em violência e guerrilha
Tédio, horror e maravilha
Calçadões encardidos
multidões apodrecem
Há um abismo entre homens
E homens, o horror
Quem e como fará
Com que a terra se acenda?
E desate seus nós
discutindo-se Clara
Iemanjá, Maria, Iara
Iansã, Catijaçara
O mulato baiano já não obedecia
as ordens de interesse que vinham de
Moscou
Era luta romântica
Era luz e era treva
Feita de maravilha, de tédio e de horror
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! os comunistas!
ALEGRIA, ALEGRIA - Caetano Veloso
Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro,
Eu vou.
O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas,
Eu vou.
22
Em caras de presidente,
Em grandes beijos de amor,
Em dentes, pernas, bandeiras,
Bomba e Brigitte Bardot.
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça.
Quem lê tanta notícia?
Eu vou
Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos.
Eu vou
Por que não? E por que não?
Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento
Eu vou.
Eu tomo uma Coca-Cola
Ela pensa em casamento
Uma canção me consola
Eu vou.
Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone,
No coração do Brasil.
Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo amor.
Eu vou
Por que não? E por que não?
O SUCESSO DA DÉCADA DE 1960
A música Alegria, alegria, de Caetano Veloso é uma dessas canções que se cristalizam
no imaginário público como se fosse sem autor definido: de domínio público e, por isso mesmo,
eleva o seu compositor à categoria dos grandes autores da música brasileira e, a própria
música, à categoria dos clássicos.
Esta letra em questão funcionou como um dos pontos de partida e até síntese do
movimento tropicalista ocorrido principalmente na nossa música durante as décadas de 60 e
70, do século passado. O Tropicalismo, movimento sociocultural iniciado a partir de 1967,
surgiu principalmente na música, mas acabou influenciando toda a cultura nacional, pois
retomava basicamente elementos da Antropofagia, do Modernismo Brasileiro, e outros
elementos da contracultura, da ironia, rebeldia, anarquismo e humor ou terror anárquico.
A paródia, a crítica à esquerda intelectualizada, a não-aceitação de qualquer forma de
censura, a sedução dos meios de comunicação de massa, o retrato da realidade urbana e
industrial, a exploração do ser humano, tudo isso, todos esses elementos montado com uma
colagem de fragmentos do dia-a-dia nas grandes cidades do país, eram, de fato, os princípios
norteadores da arte tropicalista.
CONTEXTO HISTÓRICO
O panorama sócio histórico da época desta canção era de total arrogância direitista.
Estávamos em plena Ditadura Militar, especificamente nos ―anos de chumbo‖, como era
chamado o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, conhecido como o mais duro e
repressivo do período. Nestes anos, a repressão e a luta armada crescem e uma severa
política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes,
músicas e outras formas de expressão artística são proibidas. Alguns partidos políticos
passaram para a ilegalidade e a UNE (União Nacional dos Estudantes) teve seu prédio
incendiado. Muitos professores, intelectuais, artistas, políticos, jornalistas e escritores são
investigados, presos, torturados, exilados ou assassinados.
O Regime Militar fora imposto com um grande golpe desde 1964 e, naquele final de
década, já havia as revoltas contra esta ditadura. Os estudantes iam às ruas protestar contra
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um governo ditatorial, que destruía as universidades, deixando-as reféns do sistema de
negação do conhecimento, e a população já participava de lutas e passeatas contra o regime
militar, mesmo estas sendo proibidas pelos militares.
A cultura importada era alienante, por isso, Caetano usa palavras como Brigitte Bardot,
Cardinales (em referencia á atriz ítalo-americana Claudia Cardinale) e Coca-Cola (maior
símbolo do império norte-americano, que financiava os exércitos em toda a América Latina).
Mas, os anos 60 foram a grande década revolucionária: os anos da minissaia, dos
hippies, dos homens de cabelos compridos, da pílula anticoncepcional e, consequentemente
da revolução feminina e da liberação sexual. Assim como surgiram ídolos impostos e
fabricados pela mídia principalmente nos EUA, também surgiram símbolos de uma época que
marcaram tanto pela alienação, quanto pela imposição de um comportamento novo ou pela
exposição da exploração sofrida pelo ser humano. Neste patamar, aparecem ídolos da cultura
pop e líderes sociais e políticos, como os Beatles, Rolling Stones, Jonh Kennedy, Martin Luther
King, Fidel Castro e Che Guevara. Também fazem parte deste contexto histórico, a Guerra do
Vietnã, a viagem à Lua, feminismo, lutas pelo aborto e pelo divórcio e a prática do amor livre,
tendo como expoente principal o festival de Woodstok, que marcou o planeta com o poder de
transformação da sociedade pela juventude. No Brasil, era a época dos grandes festivais de
música, do ufanismo dos militares e das obras faraônicas erguidas a partir de grandes
empréstimos. Os ídolos da música cantavam versões de sucessos norte-americanos ou
europeus. Surgia a Jovem Guarda e logo depois a Bossa Nova. A cultura de massa tupiniquim
começava a virar produto de exportação.
A MÚSICA E SUA INTENÇÃO
Escrita, musicada e interpretada pelo cantor e compositor Caetano Veloso, em novembro
de 1967, ―Alegria, alegria‖ ajudou a criar o estilo hoje intitulado de MPB e deslocou a expressão
artística musical brasileira para o cenário da crítica social, em um ativismo político sem
precedentes na história de outro tipo de arte no mundo. Graças a isso, Caetano Veloso teve
grande parte de sua obra censurada pelo regime militar. Chegou a ser preso, junto com seu
parceiro musical e amigo, Gilberto Passos Moreira, o Gilberto Gil, também cantor e compositor
baiano e atual ministro da cultura do Governo Lula. Os dois artistas ficaram exilados em
Londres por quase dois anos. Caetano era classificado para o governo no Brasil como
―persona nom gratta‖, uma expressão latina que corresponderia a mal-agradecido e, por isso,
mal-vindo de volta à pátria. Até 1972, quando ambos voltam do exílio.
―Alegria, alegria‖ chegou a ser tema de novela da Rede Globo (Sem lenço e sem
documento, na década de 80), quando o Regime Militar já estava perdendo o seu máximo
poder. Na canção, é relatada a opressão sofrida pelo cidadão comum, nas ruas, nos meios de
comunicação, em sua cultura nativa, no seu próprio país. A letra denuncia o abuso de poder de
forma metafórica ―caminhando contra o vento/sem lenço e sem documento‖; a violência
praticada pelo regime ―sem livros e sem fuzil,/ sem fome, sem telefone, no coração do Brasil‖; e
a precariedade na educação brasileira proporcionada pela ditadura que queria pessoas
alienadas: ―O sol nas bancas de revista /me enche de alegria e preguiça/quem lê tanta
notícia?‖.
Podemos pegar como exemplo também de formas alienantes, elementos externos à
cultura nacional, como alguns símbolos impostos pelo cinema norte-americano que
exportava/exporta seus ídolos como: Cardinale, Brigitte Bardot e a Coca-Cola, principal
imposição comercial da mídia na época.
Para dar exemplos dos desníveis sociais existentes no Brasil e as diferenças regionais, o
autor se utiliza de um expediente inovador. Através de comparações aparentemente
desconexas e fazendo uso de metáforas, faz a denúncia dos contrastes regionais, sociais ou
econômicos, como nos versos: ―Eu tomo uma Coca-Cola,/Ela pensa em casamento‖, ―Em
caras de presidente/em grandes beijos de amor/em dentes, pernas, bandeiras, bomba e
Brigitte Bardot.‖
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INTERTEXTUALIDADE
Ao começar a audição da música ou simplesmente da leitura da letra, é impossível não
lembrar dos versos de outra canção dessa época de censura. Trata-se de ―Para não dizer que
não falei das flores‖, do cantor paraibano Geraldo Vandré, também perseguido pelo Governo
Militar, que convocava o povo para ir às ruas e lutar contra a ditadura vigente. As duas músicas
se iniciam com a palavra ―Caminhando‖ e isso já é um grande motivo para suscitar na
população à lembrança da outra. Só depois de Geraldo Vandré ter vencido um grande festival
de música com esta canção e, também pelo fato dela ter sido proibida e os discos terem sido
destruídos pelo governo, é que Caetano tem sua música Alegria, alegria também proibida. Era
comum a destruição ou apreensão de discos ou fitas por parte do governo militar, alguns
exemplos são da música Ovelha Negra, de Rita Lee e, mais recentemente, o disco de
lançamento da banda de rock carioca Blitz foi censurado em duas faixas, que foram
expressamente riscadas dos discos de vinil, em 1981.
Outro compositor que sofreu muitas perseguições da ditadura foi Chico Buarque, que teve
inúmeras músicas censuradas ao longo da carreira. No entanto, o cantor e compositor carioca,
amigo e contemporâneo de Caetano Veloso, aprendeu a ―driblar‖ a censura por meio do uso de
palavras metafóricas, como na música ―Apesar de Você‖, gravada primeiramente por Clara
Nunes, que criticava o governo ditatorial como se fosse uma relação afetiva entre um homem e
uma mulher.
Metáforas: Toda a opressão sofrida pelo cidadão comum, nas ruas, nos meios de
comunicação, em sua cultura nativa, no seu próprio país é relatada na letra desta canção.
Desta forma, Alegria, Alegria, denuncia os exageros dos militares, porém utilizando-se de
metáforas. ―Caminhando contra o vento/sem lenço e sem documento‖ que se refere à violência
praticada pelo regime. Ao dizer ―sem livros e sem fuzil,/ sem fome, sem telefone, no coração do
Brasil‖ revela a precariedade na educação brasileira proporcionada pela ditadura que queria
pessoas alienadas, e complementa: ―O sol nas bancas de revista /me enche de alegria e
preguiça/quem lê tanta notícia?‖.
Para evidenciar a alienação da massa, na letra há elementos externos à cultura nacional,
como alguns símbolos impostos pelo cinema norte-americano da época, que são: Cardinales,
Brigitte Bardot e a Coca-Cola, fortes representantes da imposição comercial da mídia na
época.
Ao denunciar os desníveis sociais dos ―anos de chumbo‖, Caetano Veloso faz
comparações metafóricas, com o intuito de destacar os contrastes regionais, sociais ou
econômicos, o que fica evidente nos seguintes versos: ―Eu tomo uma Coca-Cola,/Ela pensa em
casamento‖, ―Em caras de presidente/em grandes beijos de amor/em dentes, pernas,
bandeiras, bomba e Brigitte Bardot.‖
Músicas de Protesto a Ditadura Militar
Em a música Alegria, Alegria, lançada em 1967 por Caetano Veloso, ele utilizou a ironia e
fragmentos do dia-a-dia para revelar a opressão e criticar o abuso de poder. Como você pode
perceber, ele foi sarcástico ao falar mal da Ditadura!
Outro bastante perseguido pelos Militares foi Geraldo Vandré. Seu hino ―Caminhando (Pra
não dizer que falei em flores)‖, foi lançada em 1968 e foi bastante utilizada pela população que
gostaria de uma política democrática. Ele provocou o exército de maneira bastante poética e
interessante, como você pode perceber em:
Trecho: Há soldados armados / Amados ou não / Quase todos perdidos / De armas na
mão / Nos quartéis lhes ensinam / Uma antiga lição: De morrer pela pátria / E viver sem razão
Chico Buarque teve uma ideia bastante interessante. Utilizando a oração de Jesus Cristo
a Deus no Jardim de Getsêmane, ele usou a palavra ―cálice‖ para representar ―cale-se‖, pois
era o que os Militares queriam: uma população calada. Veja abaixo:
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Trecho: De muito gorda a porca já não anda (Cálice!) / De muito usada a faca já não corta
/ Como é difícil, Pai, abrir a porta (Cálice!) / Essa palavra presa na garganta
Debaixo Dos Caracóis Dos Seus Cabelos
Roberto Carlos
Compositor: Roberto e Erasmo Carlos
Um dia a areia branca seus pés irão tocar
E vai molhar seus cabelos a água azul do
mar
Janelas e portas vão se abrir pra ver você
chegar
E ao se sentir em casa, sorrindo vai chorar
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma historia pra contar de um mundo tão
distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade de ficar mais um
instante
As luzes e o colorido
Que você vê agora
Nas ruas por onde anda,
na casa onde mora
Você olha tudo e nada
Lhe faz ficar contente
Você só deseja agora
Voltar pra sua gente
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma historia pra contar de um mundo tão
distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade de ficar mais um
instante
Você anda pela tarde
E o seu olhar tristonho
Deixa sangrar no peito
Uma saudade, um sonho
Um dia vou ver você
Chegando num sorriso
Pisando a areia branca
Que é seu paraíso.
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma historia pra contar de um mundo tão
distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade de ficar mais um
instante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma historia pra contar de um mundo tão
distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade de ficar mais um
instante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma historia pra contar de um mundo tão
distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade de ficar mais um
instante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos: por trás do romantismo havia um protesto!
Mesmo sem nunca ter tido problemas com a ditadura militar dos anos 60 e 70, o "rei" Roberto
Carlos foi genial ao compor uma música de protesto contra o regime político brasileiro da
época. Trata-se de "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", que com uma boa dose de
romantismo passou batida à censura e conquistou os corações das jovens apaixonadas. Até
hoje poucos conseguem perceber a verdadeira mensagem que a canção apresentava.
Para entendê-la, é preciso voltar até 1969, quando Caetano Veloso partiu para o exílio em
Londres. Notadamente, suas músicas protestavam contra a situação política brasileira do
período em questão. Assim, em 1971, Roberto Carlos lançava "Debaixo dos caracóis dos seus
cabelos", em homenagem ao amigo que se encontrava exilado na Inglaterra. Naquela época,
Caetano ostentava uma vasta cabeleira, daí o motivo do nome da música.
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Romantismo à parte, várias passagens da letra apresentam mensagens de protesto. Vamos a
elas:
- "Janelas e portas vão se abrir, pra ver você chegar e ao se sentir em casa, sorrindo vai
chorar." Mesmo longe, ele jamais seria esquecido. "Em casa" seria obviamente o Brasil.
- "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar, de um mundo tão distante."
"Mundo tão distante" também seria o Brasil, afinal, o cara estava do outro lado do Atlântico.
- "Você olha tudo e nada lhe faz ficar contente, você só deseja agora, voltar pra sua gente."
"Voltar pra sua gente" ou voltar para o Brasil. Era o desejo de qualquer exilado político.
- "Um dia eu vou ver você chegando num sorriso, pisando a areia branca, que é seu paraíso."
Seria o fim da ditadura militar, que permitiria o retorno dos exilados ao país, fato que teve início
a partir de 1979.
Sorte que a censura da época era um tanto burra, que não conseguia perceber certos
protestos. E assim, subliminarmente, Roberto Carlos fez uma boa crítica e ainda por cima
agradou seu público fiel, os apaixonados de plantão!
OBS: o mesmo governo militar que motivou o protesto de Roberto Carlos, o transformou em
"rei", pois ele era um bom moço que não criticava explicitamente a política da época.
Podres Poderes - Caetano Veloso
Enquanto os homens exercem seus podres
poderes
Motos e fuscas avançam os sinais
vermelhos
E perdem os verdes somos uns boçais
Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindos, como são lindos os
burgueses
E os japoneses mas tudo é muito mais
Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da américa católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será, será que será, que será, que será
Será que esta minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir por mais
mil anos?
Enquanto os homens exercem seus podres
poderes
índios e padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carnaval
Queria querer cantar afinado com eles
Silenciar em respeito ao seu transe, num
êxtase
Ser indecente mas tudo é muito mau
Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, caatingas e
nos gerais
Será que apenas os hermetismos pascoais
Os tons, os miltons, seus sons e seus dons
geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas e
nada mais?
Enquanto os homens exercem seus podres
poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais
Eu quero aproximar o meu cantar
vagabundo
Daqueles que velam pela alegria do mundo
Indo mais fundo tins e bens e tais
A música de Caetano Veloso mostra um excelente campo de análise interpretativa quanto
ao cenário da política brasileira e do contexto o qual se encontrava na ocasião do processo de
redemocratização. No título ―Podres poderes‖ há uma referência aos modelos políticos
vigentes.
Na década de 1980, O contexto internacional estava conturbado e turbulento. O
socialismo soviético estava passando por momento de crise.
As políticas da Perestroika e do Glasnost tentavam estruturar uma União Soviética em
ruínas. Nos EUA, Ronald Reagan está envolto numa crise de corrupção denominado ―Caso Irã-
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Contras‖. Em suma, tanto o cenário capitalista como socialista não mais ofereciam as mesmas
seguranças utópicas de outrora.
No Brasil ―Movimento Diretas já‖ ganhava força e o cenário ainda era de incerteza.
Caetano parece remonta a indefinição que se encontrava o país.
Ao que parece, Caetano, sutil e sagazmente apresenta um ponto de vista de política bem
diferente do entendimento da época. Antes da queda do muro de Berlim, esse entendimento
era orientado por uma lógica dicotômica e maniqueísta. Era forte a ideia de Bem versus mal; o
feio versus bonito; burguesia versus proletariado.
Como dizia Cazuza: ―A Burguesia fede‖. Entretanto, para Caetano parecia querer romper
com esta lógica.
E o que seria esse ―muito mais‖? Para o tropicalista, a política deveria ser vista para além
do aparente. A história precisaria ser reavaliada agora também por uma análise estética e
cultural.
―O tropicalismo contrapõe-se à estética e à política, pois não possui um discurso verbal
politizado. O caráter revolucionário e político do movimento estão inseridos em sua própria
estética.‖ (Contier, 2003)
A música pode ser interpretada como uma leitura do tradicionalismo presente na
resistência estética do brasileiro influenciando toda política Latino-Americana, região em que a
maioria dos países era uma ditadura na época. Neste sentido, o baiano parecer fazer uma
correlação: ―Será que nunca faremos / Senão confirmar /Na incompetência / Da América
católica‖. Neste sentido a ética católica é criticada por influenciar na cultura uma tolerância às
ditaduras. Tal tolerância parece ajudar a naturalizar a corrupção ―São tantas vezes, Gestos
naturais.‖ Pelo jeito, a solução da corrupção está muito associada a aspectos culturais.
Os brasileiros ainda têm um tradicionalismo que impedem pensar sobre outras
perspectivas para além da política, de modo tal que a estética de Caetano parece incomodar.
―Queria querer cantar Afinado com eles‖. Neste sentido, a sociedade brasileira só mudará seus
aspectos políticos mais profundos a partir de mudanças na cultura, como diria Betinho: ―Um
país não muda pela sua economia, sua política e nem mesmo sua ciência; muda sim pela sua
cultura.‖
Pelo jeito, as incertezas de Caetano trazem consigo certo pessimismo que só não se
torna absoluto por conta da esperança na arte e na música: ―Será que apenas/ Os
hermetismos pascoais /E os tons, os mil tons /Seus sons e seus dons geniais /Nos salvam, nos
salvarão /Dessas trevas e nada mais…‖
Referência: Contier, Arnaldo Daraya. O movimento tropicalista e a revolução estética.
Cad. de Pós-Graduação em Educ., Arte e Hist. da Cult. São Paulo, v. 3, n. 1, p. 135-159, 2003.
COMO SE FAZ UM HINO, E DEPOIS SE ESQUECE
Qual foi a última vez que você ouviu Coração de estudante? De repente me dei conta de
que não a escutava há anos. E no entanto é uma canção que continua entranhada no nosso
imaginário. Assim como o tanto que ela tocou e foi cantada por anos, seu silêncio hoje também
me parece muito significativo.
Em 1986 eu tinha 14 anos e fazia o solo de flauta doce no arranjo de Coração de estudante no
coral de minha escola de ensino médio. Mais inocência, impossível. Ao mesmo tempo que eu,
o país saia de uma ditadura de 20 anos, tinha os traumas do adiamento da chance de escolher
seu presidente e de um presidente civil morto antes de assumir, e ainda achava que, apesar de
tudo, agora tudo seria diferente.
O que aconteceu depois é sabido, e a sucessão de decepções em relação à que era
chamada Nova República, sofridas por um país que passou por um processo de
amadurecimento à força, fizeram com que Coração de estudante fosse meio que
propositalmente, estrategicamente esquecida, como quem reluta em confessar que tocava
flauta doce no coral da escola em plena adolescência (e nem peguei ninguém por isso).
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Para descobrir os motivos deste ostracismo atual é necessário entender também os motivos de
ela ter se tornado o hino que se tornou. Coração de estudante não fala explicitamente em sua
letra de absolutamente nada que estava acontecendo em 1983, ano em que foi gravada no
álbum Ao vivo de Milton, nem dos anos seguintes. Então o que a levou ao grau de simbolismo
que angariou, de ser cantada por um país como a esperança de tempos melhores, mais justos
para todos?
A resposta talvez esteja em algumas circunstâncias de sua criação. Coração de estudante
é uma melodia de Wagner Tiso com letra de Milton, coisa não muito comum, tipo de parceria
que Milton não costuma ter. Ocorre que ela foi criada como um tema instrumental apenas. Eis
para que acontecimento e que personagem histórico ela foi criada (a música começa aos 2
minutos, mas vale a pena ver também o princípio):
Coração de estudante não tinha ainda este nome quando foi composta para ser o Tema de
Jango no documentário Jango, de Sílvio Tendler. Sua melodia, portanto, foi composta para ser
a tradução em música de um momento que é o inverso de quando ela se tornou o que é hoje;
nasceu por inspiração de um momento histórico em que o Brasil tinha um sonho muito alto
despedaçado, e tornou-se popular e ganhou mundo quando este sonho renascia depois de 20
anos.
Mas o mais impressionante é que também a letra de Milton carrega implícita uma carga
de significação que tem a ver com outro momento histórico intrinsecamente ligado ao primeiro:
Milton a fez em memória do estudante Edson Luís, morto pela Polícia Militar em março de
1968, cuja morte foi o estopim de uma série de manifestações populares que, pela primeira
vez, afrontaram publicamente a ditadura militar.
A reação da sociedade à morte do estudante desencadeou uma sequência de acontecimentos
que atravessou a Passeata dos Cem Mil e desembocou no Ai-5. Foi o evento simbólico de um
ressurgimento, em que muitas pessoas decidiram que era hora de falar. O resto é História.
Isto então para mim explica o simbolismo que Coração de Estudante assumiu durante a
retomada democrática na década de 1980, muito mais do que qualquer característica
analisável de sua letra ou de sua melodia. É como se o determinante fosse na verdade o fato
de ter sido inspirada, ter retratado ou homenageado dois precisos instantes que são chaves na
História recente do Brasil e formam uma linha de continuidade que se completa exatamente na
época em que a canção veio a público: 1964, 1968, 1983 (em 84 a campanha das diretas, em
85 a eleição de Tancredo Neves presidente). Como se a canção tivesse ficado impregnada da
lembrança destes acontecimentos, como uma mensageira do inconsciente coletivo nacional.
Quando faço a análise de uma canção aqui, sei bem que tudo o que digo é ouvido e
percebido por quem ouve a canção. Apenas isto não se dá de forma consciente e racional.
Tantas vezes ouvi ou li comentários que dizem é isso mesmo que eu sentia, mas não sabia
porque. As características de melodia, harmonia, instrumental, suas relações, todas falam ao
ouvinte de forma mais direta que a linguagem discursiva, e vão mais fundo.
Mas em Coração de estudante acho que há algo mais, que não ficou exatamente fixado na
forma musical, e sim em algum lugar mais… recôndito seria a palavra? Há algo nela que ecoa,
mesmo para os recém-chegados à História, os motivos e os acontecimentos que a
antecederam e inspiraram. Coração de Estudante soube ser o hino da redemocratização
porque já era, de certa forma, o hino das reformas de base de 1963 e o hino da contestação à
violência da ditadura em 1968, e ao mesmo tempo contém em si a tristeza do golpe de 64 e do
Ai-5. Assim como talvez já tivesse, à revelia dos próprios autores, a tristeza das decepções de
1987, 88, 89… Talvez por isso tenha sido deixada de lado como foi. Não porque tenha se
tornado datada, ou porque nos lembre da nossa ingenuidade, mas porque nos lembre não
apenas de um, mas de três sonhos que pareceram ser sonhados em vão, e ainda assim tem a
coragem de reafirmar, mais uma vez, que é preciso continuar sonhando, mesmo que
ingenuamente, em uma época em que isto nem sempre parece fazer sentido, a nos falar tão
diretamente dessas coisas tão incômodas, que sempre morrem e insistem em renascer:
esperança, coração, juventude e fé.
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Coração de Estudante
Milton Nascimento Compositor: Milton
Nascimento e Wagner Tiso
Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar
Pode estar aqui do lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor
Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Tantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor e fruto
Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade
Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho
Verdes, plantas, sentimento
Folhas, coração, juventude e fé
Apesar de Você - Chico Buarque
Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar
Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente
Apesar de você
Amanhã há de ser
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Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia!”
Lançada como compacto em 1970, Apesar de você é a única música que Chico assume
ter sido escrita para criticar a ditadura. Após voltar do exílio, Chico percebe que o país pouco
mudou e escreve a canção. Quando a enviou para a censura, Chico temia que a música fosse
censurada, o que surpreendentemente não aconteceu. Após a gravação, a canção chegou a
vender 100 mil compactos em uma semana.
Após uma nota publicada em um jornal, na qual dizia que o ―você‖ da letra era relacionado
ao presidente Médici a canção foi censurada, sendo gravada em um disco apenas em 1978.
Após o episódio o nome de Chico Buarque ficou marcado pelos homens da censura e
suas canções sempre eram ouvidas com mais rigidez pela censura, antes de serem aprovadas.
A solução encontrada pelo cantor e compositor foi a de usar pseudônimos como Julinho da
Adelaide e Leonel Paiva. No começo deu certo, mas logo depois Chico foi desmascarado.
A letra critica o modo como as repressões ditatoriais eram feitas e alerta sobre o que iria
acontecer se em um dia todos estivessem felizes e insistissem em viver da forma como
queriam.
Álbum que traz canções polêmicas como ―Cálice‖ e ―Apesar de Você‖
Sem dúvida, Apesar de você é uma aula sobre a censura da ditadura militar brasileira. Ao
lado de Pra não dizer que não falei das flores, de Vandré e É proibido proibir, de Caetano, a
canção traz detalhes das vontades que os artistas da época brigavam para ter em um país
onde pouca expressão artística era permitida.
Cálice - Chico Buarque
Composição: Chico Buarque / Gilberto Gil
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
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Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça
A música "Cálice" foi escrita em 1973 por Chico Buarque e Gilberto Gil, sendo lançada
apenas em 1978. Devido ao seu conteúdo de denúncia e crítica social, foi censurada pela
ditadura, sendo liberada cinco anos depois. Apesar do desfazamento temporal, Chico gravou a
canção com Milton Nascimento no lugar de Gil (que tinha mudado de gravadora) e decidiu
incluir no seu álbum homônimo.
"Cálice" se tornou num dos mais famosos hinos de resistência ao regime militar. Trata-se
de uma canção de protesto que ilustra, através de metáforas e duplos sentidos, a repressão e
a violência do governo autoritário.
Gilberto Gil partilhou com o público, muitos anos depois, algumas informações sobre o
contexto de criação da música, suas metáforas e simbologias.
Chico e Gil se juntaram no Rio de Janeiro para escrever a canção que deveriam
apresentar, em dupla, no show. Músicos ligados à contracultura e à resistência partilhavam a
mesma angústia perante um Brasil imobilizado pelo poder militar.
Gil levou os versos iniciais da letra, que tinha escrito na véspera, uma sexta-feira da
Paixão. Partindo desta analogia para descrever o suplício do povo brasileiro na ditadura, Chico
continuou escrevendo, povoando a música com referências da sua vida cotidiana.
O cantor esclarece que a "bebida amarga" que a letra menciona é Fernet, uma bebida
alcoólica italiana que Chico costumava beber naquelas noites. A casa de Buarque ficava na
Lagoa Rodrigues de Freitas e os artistas ficavam na varanda, olhando as águas.
Esperavam ver emergir "o monstro da lagoa": o poder repressivo que estava escondido,
mas pronto para atacar a qualquer momento.
Conscientes do perigo que corriam e do clima sufocante vivido no Brasil, Chico e Gil
escreveram um hino panfletário sustentando no jogo de palavras "cálice" / "cale-se". Enquanto
artistas e intelectuais de esquerda usaram suas vozes para denunciar a barbárie do
autoritarismo.
Assim, no próprio título, a música faz alusão aos dois meios de opressão da ditadura. Por
um lado, a agressão física, a tortura e a morte. Por outro, a ameaça psicológica, o medo, o
controle do discurso e, por conseguinte, das vidas do povo brasileiro.
Carta À República - Milton Nascimento
Compositor: Milton Nascimento/fernando
Brant
Sim é verdade, a vida é mais livre
o medo já não convive nas casas, nos
bares, nas ruas
com o povo daqui
e até dá pra pensar no futuro e ver nossos
filhos crescendo e sorrindo
mas eu não posso esconder a amargura
ao ver que o sonho anda pra trás
e a mentira voltou
ou será mesmo que não nos deixara?
a esperança que a gente carrega é um
sorvete em
pleno sol
o que fizeram da nossa fé?
Eu briguei, apanhei, eu sofri, aprendi,
eu cantei, eu berrei, eu chorei, eu sorri,
eu saí pra sonhar meu País
e foi tão bom, não estava sozinho
a praça era alegria sadia
o povo era senhor
e só uma voz, numa só canção
e foi por ter posto a mão no futuro
que no presente preciso ser duro
que eu não posso me acomodar
quero um País melhor
32
Dando Milho Aos Pombos 1981
Zé Geraldo
Enquanto esses comandantes loucos ficam
por aí
queimando pestanas organizando suas
batalhas
Os guerrilheiros nas alcovas preparando na
surdina
suas mortalhas
Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça
dando milho aos pombos ( 2 vezes )
Entra ano, sai ano, cada vez fica mais difícil
o pão, o arroz, o feijão, o aluguel
Uma nova corrida do ouro
o homem comprando da sociedade o seu
papel
Quanto mais alto o cargo maior o rombo
Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça
dando milho aos pombos ( 4 vezes )
Eu dando milho aos pombos no frio desse
chão
Eu sei tanto quanto eles se bater asas mais
alto
voam como gavião
Tiro ao homem tiro ao pombo
Quanto mais alto voam maior o tombo
Eu já nem sei o que mata mais
Se o trânsito, a fome ou a guerra
Se chega alguém querendo consertar
vem logo a ordem de cima
Pega esse idiota e enterra
Todo mundo querendo descobrir seu ovo de
Colombo
Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça
dando milho aos pombos ( 5 vezes )
Canção Da América - Milton Nascimento
Compositor: Milton Nascimento, Fernando
Brant
Amigo é coisa pra se guardar
Debaixo de sete chaves,
Dentro do coração,
assim falava a canção que na América ouvi,
mas quem cantava chorou ao ver o seu
amigo partir,
mas quem ficou, no pensamento voou,
com seu canto que o outro lembrou
E quem voou no pensamento ficou,
com a lembrança que o outro cantou.
Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito,
mesmo que o tempo e a distância, digam
não,
mesmo esquecendo a canção.
O que importa é ouvir a voz que vem do
coração.
Pois, seja o que vier,
venha o que vier
Qualquer dia amigo eu volto a te encontrar
Qualquer dia amigo, a gente vai se
encontrar.
Brasil, de Cazuza
A icônica canção do poeta exagerado conta um pouco do cenário do Brasil no final dos anos 80
e início da década de 90. Insatisfeito com a corrupção, a desvalorização do empregado e o
comodismo do povo, ele pede que o brasileiro mostre a sua cara – algo que ocorreu alguns
anos depois, com o movimento ―Caras Pintadas‖.
Brasil - Cazuza Compositor: Cazuza/George Israel/Nilo
Roméro
33
Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer
Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito é uma navalha
Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim
Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer
Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada pra só dizer "sim, sim"
Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim
Grande pátria desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
(Não vou te trair)
Honestidade - Juca Chaves
A honestidade a muitos já sumiu
e as consequências vêm sempre depois
por isso todo dia pra alegria do Brasil,
morre um ladrão e nascem dois,
morre um ladrão e nascem dois.
Sai um ministro, entra outro que promete
e o aposentado, coitado, se comove,
a espera dos 147 se decrete
mas na horta do pobre nunca chove
Collor deu um golpe 69.
Enquanto os empresários, operários da
cobiça investem lá no norte, no norte da
suíça
democracia é isto, é trabalhar contente pro
caviar do nosso presidente
e pro meu, afinal também sou gente.
Enquanto o pacto não fica social
e a moral valendo mais do que dinheiro,
que importa se o cunhado é alagoano, não
faz mal
ou se o meu carro a álcool é brasileiro, ou
se o meu carro a álcool é brasileiro.
Nossos valores estão na contramão,
sequestrador vive melhor que marajá,
e sem licitação, só pra ajudar cunhado ou
irmão
vou ser um diretor da LBA
se a imprensa descobrir eu vou pra cana e
chorar!
Que País É Este?, de Legião Urbana
Renato Russo e sua trupe expõem os diversos problemas do Brasil do final da década de 80. A
corrupção, a promessa do Brasil como ―país do futuro‖ e a desigualdade social estão explícitas
na letra da música.
34
Que País é Esse? - Legião Urbana
Compositor: Renato Russo
Nas favelas, no senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
No Amazonas, no Araguaia, na Baixada
fluminense
No Mato grosso, Minas Gerais e no
Nordeste tudo em paz
Na morte eu descanso mas o sangue anda
solto
Manchando os papéis, documentos fiéis
Ao descanso do patrão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Terceiro Mundo se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão.
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
................
Mulheres de Atenas, de Chico Buarque
No trecho “Quando eles embarcam, soldados / Elas tecem longos bordados / Mil quarentenas”,
Chico claramente faz uma alusão ao poema épico de Homero, a Odisseia. A música lembra a
atitude de Penélope, esposa de Ulisses, o herói da obra. A submissão tratada na canção, tida
como controversa, foi explicada pelo músico em uma única frase: ―Eu disse: mirem-se no
exemplo daquelas mulheres que vocês vão ver o que vai dar‖ – como podemos ver, em tom de
crítica.
Mulheres de Atenas
Chico Buarque
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas; cadenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos
Poder e força de Atenas
Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam, sedentos
Querem arrancar, violentos
Carícias plenas, obscenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos
Bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Geram pros seus maridos
Os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
35
Têm medo apenas
Não tem sonhos, só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas, morenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos
Heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas, serenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos
Orgulho e raça de Atenas
Eu Não Matei Joana D’Arc, de Zeca Baleiro (versão original de Camisa de Vênus)
Heroína francesa, Joana D‘Arc se tornou uma figura mítica após ter ajudado a França a
ganhar a Guerra dos Cem Anos (1337-1453). Por alegar ter visões e ouvir vozes, foi acusada
de feitiçaria e queimada em uma fogueira em 1430. Na música, mesmo sem álibi, o cantor se
inocenta da barbárie.
Eu Não Matei Joanna D'arc
Zeca Baleiro
Eu nunca tive nada
Com Joana Darc
Nós só nos encontramos
Prá passear no parque...
Ela me falou
Dos seus dias de glória
E do que não está escrito
Lá nos livros de história...
Que ficava excitada
Quando pegava na lança
E do beijo que deu
Na rainha da França...
Agora todos pensam
Que fui eu que a cremei
Mas eu não sou piromaníaco
Eu juro que não sei...
Ontem eu nem a vi
Sei que não tenho um álibi
Mas eu!
Eu não matei
Joana Darc...(2x)
Eu nunca tive
Nada, nada, nada
Com Joana Darc
Nós só nos encontramos
Prá passear no parque...
Ela me falou
Que andava ouvindo vozes
Que prá conseguir dormir
Sempre tomava algumas doses...
Uma rede internacional
Iludiu aquela menina
Prometendo a todo custo
Transformá-la em heroína...
Agora eu tô entregue
À CIA e à KGB
Eles querem que eu confesse
Mas eu nem sei o quê...
Ontem eu nem a vi
Sei que não tenho um álibi
Mas eu!
Eu não matei
Joana Darc...(2x)
Eu não matei
Joana Darc...(2x)
Ontem eu nem a vi
Sei q'eu não tenho um álibi
Mas eu!
Eu não matei
Joana Darc...(2x)
Não!
Não fui eu!
Não, não, não!
Não fui eu!
Não!
Não fui eu!
Não, não, não!
Ontem eu nem a vi
Sei q'eu não tenho um álibi
Mas eu!
Eu não matei
Joana Darc...(2x)
36
Romaria
Elis Regina
Compositor: Renato Teixeira
É de sonho e de pó
O destino de um só
feito eu perdido em pensamentos
sobre o meu cavalo
É de laço e de nó
De gibeira ou jiló
Dessa vida cumprida a sol
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida
O meu pai foi peão
Minha mãe, solidão
meus irmãos perderam-se na vida
a custa de aventuras
Descasei, joguei
investi, desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi.
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida
Me disseram, porém,
que eu viesse aqui
pra pedir de romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida
Romaria – A história da música símbolo do caipira
Minha amiga Rose Saldiva, toda feliz ao telefone, me informava que, segundo suas
pesquisas sobre o perfil do cidadão taubateano encomendado por uma grande multinacional,
Romaria era identificada por noventa por cento da população como a ―música da cidade‖.
O fato de morar ao lado de Aparecida e sempre ir até lá me possibilitaram falar com
naturalidade do romeiro e sua saga em busca do milagre. Acredito que, para pessoas que
chegam de lugares mais distantes, a Basílica possa representar um sonho maior, o desejo de
toda uma vida que se realiza, e as põem perplexas diante da grandeza e do poder da fé,
representadas pelo magnífico templo que o povo ergueu para reverenciar a padroeira do Brasil.
Mas aqui na terra de Lobato, Aparecida sempre será uma cidade familiar. Dos tempos mais
frequentados, aqueles que vão até minha mudança pra São Paulo, ainda posso recordar, com
muita transparência, a época em que os comerciantes enfeitavam a entrada de suas lojas
usando velas dos mais variados tamanhos dispostas de modo a simular uma espécie de ―porta
para o paraíso‖ onde todas as nossas reivindicações depositadas aos pés de Nossa Senhora,
seriam atendidas de uma forma ou de outra; bastava que pedíssemos com fervor e
acendêssemos uma vela como prova da nossa gratidão.
E não poderia ser diferente uma vez que o povo brasileiro, na maioria das vezes, sempre
foi atendido pela Mãe Santíssima nos momentos de maior precisão. A prova da eficiência da
crença na Padroeira é o grau de satisfação dos fieis que sempre voltam agradecendo as
graças recebidas. Misteriosa e bela Aparecida do Norte.
37
A primeira vez que meu filho João viu a Basílica saltar à nossa frente depois de uma curva
certa da Presidente Dutra, seus olhos cresceram como se ele estivesse precisando de mais
olhos para satisfazer-se plenamente com aquela visão que invadira o espaço adiante.
Muitos de nós ainda lembram da imagem de Nossa Senhora Aparecida vindo nos visitar e
sendo saudada na praça Dom Epaminondas com gritos de ―viva Nossa Senhora
Aparecida!!!!‖… e o povo repetia ―…Vivaaaaaaa!‖. Coisa muito linda! Saltam da memória as
alunas do Bom Conselho em bandos, o perfume do incenso e das flores flutuando no ar, e o
Catete vestido de príncipe. Minha música Romaria não é um hino de louvor à Padroeira do
Brasil. Minha canção é uma visão de quem está para cá dos altares, no meio dos fiéis que a
saúdam.
Em Aparecida, eu vejo os Romeiros, aqueles que vão chegando finalmente ao grande
momento planejado. Ir à Aparecida não é uma coisa banal; são fatos que se tornarão perenes
e enriquecerão a memória familiar como um exemplo de humildade diante dos mistérios da
vida. Todos nós, em algum momento da existência, pensamos no quanto um milagre seria
oportuno diante de certas situações pelas quais todos nós, às vezes, temos que atravessar.
Quando compus Romaria estava curtindo os poetas concretistas brasileiros. Décio Pignatari, os
irmãos Campos e todos os outros ousadíssimos cidadãos que gostam de se parecer com
bichos de sete cabeças. A poesia concreta é um atalho que, eliminando toda a lógica da forma
de compreender que praticamos no dia-a-dia, nos deixa frente-a-frente com a origem de todos
os nossos sentimentos. Sua ―visualidade‖ contribui para que possamos criar uma nova
concepção, um jeito mais complexo de compreensão. Minha música teria também que soar
como uma contestação; a cultura caipira não estava esgotada e superada como queriam
nossos formadores de opinião.
Nada como algumas pitadas concretistas para mostrar que não éramos Jecas e que
poderíamos andar lado a lado com as tendências mais avançadas, muito além da bossa nova
ou travestidas de arte tropicalista, esta sim, intrigante e revolucionária, mesmo que repetindo
muitas das ousadias que motivaram os modernistas de 22.
Elis gravou a música e o sucesso me surpreendeu completamente. Nunca pensei em
compor algo fácil. Queria uma coisa mais sofisticada e a influência concretista deixava isso
claro. Num determinado momento, cheguei a duvidar da sofisticação intelectual que pensei ter
colocado na letra. Será que errei? Mas a resposta veio na virada dos anos setenta para os
oitenta, quando, fazendo uma retrospectiva da poesia musical da década que se encerrava,
Augusto de Campos, um dos nossos maiores mestres concretistas, publicou na revista Veja
que Romaria era a única obra da música brasileira naquela década elaborada sob a ótica do
concretismo. A interpretação da Elis me causou a sensação de que, com ela cantando, a
música ficara finalmente pronta.
A canção também ajudou a reverter o abandono em que se encontrava a música caipira e
sua história. Com Romaria sendo cantada pela Elis, o gênero se regenerou; com a entrada do
Sérgio Reis, produzido pelo taubateano Tony Campelo, e da dupla Léo Canhoto e Robertinho,
conseguimos projetar um futuro mais generoso para a herança deixada por mestres como João
Pacifico, Raul Torres e o nosso genial Anacleto Rosas. Meio que sem querer, eu cumpri uma
missão pioneiramente taubateana: repaginei a música caipira dando a ela um perfil mais
condizente com sua grandeza original, readaptando-a a uma linguagem, digamos, mais MPB e
mais adequada aos tempos modernos.
Marvin - Titãs
Compositor: R. Dunbar / G. N. Johson /
Nando Reis / Sérgio Britto
Esta é uma regravação da música
de Clarence Carter
Meu pai não tinha educação
Ainda me lembro, era um grande coração
Ganhava a vida com muito suor
Mas mesmo assim não podia ser pior
38
Pouco dinheiro pra poder pagar
Todas as contas e despesas do lar
Mas Deus quis vê-lo no chão
Com as mãos levantadas pro céu
Implorando perdão
Chorei, meu pai disse: "Boa sorte",
Com a mão no meu ombro
Em seu leito de morte
E disse
"Marvin, agora é só você e
não vai adiantar
Chorar vai me fazer sofrer"
Três dias depois de morrer
Meu pai, eu queria saber
Mas não botava nem um pé na escola
Mamãe lembrava disso a toda hora
Todo dia antes do sol sair
Eu trabalhava sem me distrair
As vezes acho que não vai dar pé
Eu queria fugir, mas onde eu estiver
Eu sei muito bem o que ele quis dizer
Meu pai, eu me lembro, não me deixa
esquecer
Ele disse
"Marvin, a vida é pra valer
Eu fiz o meu melhor
E o seu destino eu sei de cor"
E então um dia uma forte chuva veio
E acabou com o trabalho de um ano inteiro
E aos treze anos de idade eu sentia
todo o peso do mundo em
minhas costas
Eu queria jogar mas perdi a aposta, e
Trabalhava feito um burro nos campos
Só via carne se roubasse um frango
Meu pai cuidava de toda a família
Sem perceber segui a mesma trilha
Toda noite minha mãe orava
"Deus, era em nome da fome
que eu roubava"
Dez anos passaram, cresceram
meus irmãos
E os anjos levaram minha mãe
pelas mãos
Chorei, meu pai disse: "Boa sorte"
Com a mão no meu ombro
Em seu leito de morte
Ele disse
"Marvin, agora é só você
E não vai adiantar
Chorar vai me fazer sofrer".
"Marvin, a vida é pra valer
Eu fiz o meu melhor
E o seu destino eu sei de cor".
Lamento Sertanejo
Zé Ramalho
Compositor: Gilberto Gil E Dominguinhos
Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga, do roçado
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigo
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade
Sem viver contrariado
Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão
Boiada caminhando a esmo
Miséria - Titãs
Compositor: Arnaldo Antunes, Paulo Miklos,
Sérgio Britto
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Índio, mulato, preto, branco
39
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Filhos, amigos, amantes, parentes
Riquezas são diferentes
Ninguém sabe falar esperanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Todos sabem usar os dentes
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Fracos, doentes, aflitos, carentes
Riquezas são diferentes
O Sol não causa mais espanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Cores, raças, castas, crenças
Riquezas são diferenças
A morte não causa mais espanto
O Sol não causa mais espanto
A morte não causa mais espanto
O Sol não causa mais espanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Cores, raças, castas, crenças
Riquezas são diferenças
Índio, mulato, preto, branco
Filhos, amigos, amantes, parentes
Fracos, doentes, aflitos, carentes
Cores, raças, castas, crenças
Em qualquer canto miséria
Riquezas são miséria
Em qualquer canto miséria
Titãs criam crônicas da sociedade atual conduzidas pelo rock pesado
‗Nheengatu‘ lembra a banda nos tempos do histórico 'Cabeça Dinossauro'
Na capa, a Torre de Babel cunhada pelo pintor Pieter Bruegel representa a nação onde
ninguém se entende. Paradoxalmente, estampada sobre a obra, a palavra ‗Nheengatu‘ remete
à língua geral, criada no século 17 pelos jesuítas, a partir do tupi-guarani, para que todos
(índios e portugueses) conseguissem se comunicar. Na contracapa, outra pintura de Bruegel,
O Massacre dos Inocentes, retrata uma sociedade de vítimas. Esse universo forjado no encarte
do novo disco do Titãs, batizado de Nheengatu, diz muito sobre as reflexões levantadas, ali
dentro do álbum, pela banda. De maneira ácida, irônica – e furiosa.
As baladas ficaram para uma próxima oportunidade. As 14 faixas do disco são
conduzidas na base do rock pesado, com alguma brasilidade, fazendo lembrar os Titãs em
tempos do histórico Cabeça Dinossauro (1986). As guitarras nervosas, a bateria contundente e
os vocais exasperados impulsionam uma metralhadora giratória de temas sociais atuais na
sociedade brasileira. Após 32 anos de carreira, a banda afia seu olhar de cronista – talvez
nunca dantes dessa forma.
A coleção de músicas se assemelha a uma compilação de pequenas histórias. Entre elas,
há as que soam familiares, como se tivessem sido tiradas dos noticiários. Como na canção
Cadáver Sobre Cadáver (Paulo Miklos/Arnaldo Antunes), que parece recontar as tragédias de
Amarildos, Cláudias e DGs nas favelas cariocas. Ou como Quem São os Animais? (Sérgio
Britto), que joga luz sobre os preconceitos, como o racismo, tal e qual o jogador Daniel Alves
sofreu na Espanha, no polêmico episódio da banana jogada no campo. "Te chamam de
macaco – quem são os animais?", traz um trecho da letra.
Segundo a banda, nenhuma das músicas foi inspirada em um episódio em específico.
Mesmo porque todo o processo de composição do projeto começou há cerca de 3 anos. A
explicação? Fica no campo da sincronicidade. "A proposta foi fazer instantâneos das situações,
mas, infelizmente, as coisas acontecem em tal profusão no Brasil que, quando você faz uma
foto aqui, você está acertando várias fotografias que estão acontecendo ao mesmo tempo",
compara o guitarrista Tony Bellotto. "A música se encaixa na situação", completa Paulo Miklos,
vocalista e guitarrista – que perdeu a mulher Rachel Salém para o câncer no ano passado,
40
durante a feitura desse novo disco. "O trabalho foi fundamental (para enfrentar essa situação).
Perdi meu pai há 3 meses. É uma situação muito crítica. Acho que o mais importante é o
movimento para a sobrevivência", diz ele.
Como ‗cronistas policiais‘, eles fazem incursão por assuntos mais pesados, como
machismo e abuso sexual de crianças, em Flores Pra Ela (Sérgio Britto/Mario Fabre) e
Pedofilia (Britto/Miklos/Bellotto). Falam do homem que se sente dono da mulher, que leva flores
para agradá-la ou para seu velório, após matá-la. Do pedófilo que seduz sua vítima e lhe
promete não fazer nenhum mal.
Mexer nesse vespeiro por meio de canções foi tarefa das mais difíceis. A construção de
personagens, do agressor e do agredido dentro delas, ajudou no texto. "Não tem um juízo de
valor de um narrador nessas duas canções. Elas colocam a situação por si. A gente percebeu
que era melhor fazer assim do que ficar falando o que é obvio", diz Sérgio Britto, vocalista,
tecladista e baixista da banda.
Já a faixa Fardado (Britto/Miklos) soa como uma atualização de Polícia, canção
emblemática do Cabeça Dinossauro, quase 30 anos depois. O Brasil mudou – e a abordagem
da banda sobre a instituição também. "O Cabeça é mais na primeira pessoa, ‗não gosto‘, são
pensamentos bem claros. Nesse novo trabalho, tem um pouco da reflexão", diz Branco Mello,
vocalista e baixista.
Para Bellotto, apesar de Fardado e Polícia terem enfoques diferentes, a crítica que se faz
é bastante parecida. "Desde Polícia, em 86, já havia a ideia de dizer que a polícia é necessária,
óbvio. Não se imagina uma sociedade sem ela, mas o que a gente percebe no Brasil ainda
hoje, infelizmente, é uma polícia, muitas vezes, truculenta, não preparada para exercer sua
função. Uma polícia que também é, às vezes, explorada."
Um dos autores de Fardado, Britto emenda: "Tem a ver com ‗ponha-se no meu lugar,
ponha-se no seu lugar‘, você também é explorado, é vítima. Isso é um enfoque um pouco
diferente, mas a instituição talvez, como tudo no Brasil, tenha melhorado. No entanto, à medida
que a democracia vai se aprimorando, os desafios são maiores. Manifestações no Brasil como
têm acontecido não costumavam acontecer, e é preciso que se tenha uma polícia preparada
para lidar com isso."
A vida é festa. O núcleo titânico, atualmente formado pelo quarteto Miklos, Branco,
Bellotto e Britto, conta, há cerca de quatro anos, com o reforço de Mario Fabre na bateria. Ele
entrou na banda logo após a saída de Charles Gavin, em 2010. Sua indicação, aliás, partiu do
ex-baterista do grupo. Além de acompanhar os Titãs nos shows e neste trabalho em estúdio,
Fabre faz sua contribuição como compositor, na canção Flores Pra Ela.
E a banda, que costuma assinar as faixas de seus discos, desta vez, abriu espaço para
autores ‗infiltrados‘. Caso de nomes como o já citado Arnaldo Antunes, amigo da trupe e ex-
Titãs, que fez, em parceria com Miklos, Cadáver Sobre Cadáver; e Hugo Possolo, Emerson
Villani e Angeli, que, com Branco Mello, compuseram República dos Bananas. Canalha, do
disco Vela Aberta (1979), de Walter Franco, ganhou versão honrosa do grupo, que manteve o
vigor – e o riff – do original. Para quem não conhece Canalha, a canção pode até se ‗camuflar‘
de repertório do Titãs dentro do contexto de Nheengatu.
A banda também fala sobre a polêmica das biografias não autorizadas. Eles próprios já
tiveram sua história escrita pelos jornalistas Hérica Marmo e Luiz André Alzer, com o nome de
A Vida Até Parece uma Festa, e publicada em 2002. Apesar de não ser uma biografia
encomendada, o processo todo era do conhecimento da banda, que ajudou, inclusive, com
informações. "Nessa questão das biografias, ficamos a favor de sua liberação", conta Bellotto.
"No nosso caso, o Alzer e a Hérica disseram para a gente que queriam fazer uma biografia
nossa, mas que não fosse chapa branca. A gente achou legal e topou correr esse risco." Para
eles, essa é uma das formas de se fazer biografia. Quanto a remunerar ou não o biografado,
acreditam que não há uma regra. "Se o cara colabora com aquilo, talvez ele possa fazer um
acordo", opina Britto. "É uma questão aberta."
Asa Branca Luiz Gonzaga
41
Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Que braseiro, que fornalha
Nem um pé de plantação
Por falta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
Por falta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
Até mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Então eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração
Então eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração
Hoje longe muitas léguas
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim voltar pro meu sertão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim voltar pro meu sertão
Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na plantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração
A Volta da Asa Branca
Luiz Gonzaga
Compositor: Zé Dantas
Já faz três noites
Que pro norte relampeia
A asa branca
Ouvindo o ronco do trovão
Já bateu asas
E voltou pro meu sertão
Ai, ai eu vou me embora
Vou cuidar da plantação
A seca fez eu desertar da minha terra
Mas felizmente Deus agora se alembrou
De mandar chuva
Pra esse sertão sofredor
Sertão das muié séria
Dos homes trabaiador
Rios correndo
As cachoeira tão zoando
Terra moiada
Mato verde, que riqueza
E a asa branca
A Tarde canta, que beleza
Ai, ai, o povo alegre
Mais alegre a natureza
E a asa branca
A Tarde canta, que beleza
Ai, ai, o povo alegre
Mais alegre a natureza.
Sentindo a chuva
Eu me recordo de Rosinha
A linda flor
Do meu sertão pernambucano
E se a safra
Não atrapaiá meus pranos
Que que há, o seu vigário
Vou casar no fim do ano.
E se a safra
Não atrapaiá meus pranos
Que que há, o seu vigário
Vou casar no fim do ano
Águas de Março Elis Regina
Compositor: Tom Jobim
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, o nó da madeira
Caingá candeia, é o Matita-Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não
queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
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Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de
pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é
um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um
conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata
brilhando
É a luz da manha, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é
uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto do toco, é um pouco sozinho
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é
uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
Pau, pedra, fim do caminho
Resto de toco, pouco sozinho
Pau, pedra, fim do caminho
Resto de toco, pouco sozinho
Pedra, caminho
Pouco sozinho
Pedra, caminho
Pouco sozinho
Pedra, caminho
É o toco...
"Águas de Março"
É uma famosa canção brasileira do compositor, músico, arranjador, cantor e maestro Tom
Jobim, de 1972.
A canção chegou a inspirar uma campanha publicitária da empresa Coca-Cola na década
de 1980, com um arranjo mais próximo do rock e outros versos. A versão em inglês da música
foi também utilizada, já na década de 1990, como tema publicitário para o lançamento do Ayala
Center, nas Filipinas.
Em 2001, foi nomeada como a melhor canção brasileira de todos os tempos em uma
pesquisa de 214 jornalistas brasileiros, músicos e outros artistas do Brasil, conduzida pelo
jornal Folha de S.Paulo. Na pesquisa realizada pela edição brasileira da revista Rolling Stone,
em 2009, a canção ocupa o segundo lugar, atrás de "Construção", de Chico Buarque de
Holanda.
No ano anterior à composição de "Águas de Março", Tom Jobim havia sofrido a única
grande perseguição política em sua vida. Em um protesto contra a censura que vigorava
durante a ditadura militar no Brasil, Tom Jobim e alguns compositores assinaram um manifesto
e se retiraram do Festival Internacional da Canção, da Rede Globo. Doze artistas, entre os
quais Tom, foram detidos e, durante algumas horas, interrogados. Segundo declarações
posteriores de Chico Buarque, Edu Lobo e Ruy Guerra, um diretor da emissora esteve
presente e insistiu para que os compositores voltassem atrás e retornassem ao festival. A
pressão não funcionou, mas - na opinião de Chico e Ruy - instigou o aparelho repressivo do
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regime a enquadrá-los na Lei de Segurança Nacional. Depois, Tom foi intimado várias vezes a
prestar depoimento, chegou a ter o seu telefone grampeado e a suas cartas violadas. Segundo
Tom, a questão foi resolvida "de uma maneira bastante brasileira", quando um escrivão de
polícia solidário o chamou e disse: "Olhe, o senhor não queira se meter com polícia... Isso aqui
não é bom. Negócio de polícia não é bom. Vou bater um negócio aqui para o senhor..." E
assim, o escrivão bateu à máquina de escrever uma declaração, que Tom assinaria. "Este
papel aqui diz que o senhor não teve intenção".
Também no período de gravação do álbum Matita Perê, Tom Jobim teve outros motivos
para viver preocupado, que aludiam a problemas de saúde, términos de projeto de vida ou
desinteresse pelos mesmos, algo que mencionaria em entrevistas posteriores. Para a revista
Playboy, em 1988, Tom contou que, à época da criação de "Águas de Março", "o médico disse
que eu ia morrer de cirrose. 'É um resto de toco, é um pouco sozinho'(...)". Em 1992, para
o Jornal do Brasil, ele declarou que escreveu a canção "em um período em que estava muito
na fossa. Parecia que tudo havia acabado para mim, que eu não tinha mais nada a fazer. Eu
bebia muito."[
Segundo depoimento de Edu Lobo, Tom ressentia-se de que "ninguém ouvia
seus discos". Helena Jobim ainda afirmou que o irmão brincava naquele período que temia
encerrar a carreira "aos 80 anos, cantando 'Garota de Ipanema', num circo do interior e sendo
vaiado".
"Águas de março" foi composta por Tom Jobim em março de 1972. O tema começou a
ser trabalhado ao violão em seu sítio do Poço Fundo, em São José do Vale do Rio Preto,
região Serrana do Rio de Janeiro. De acordo com depoimento de Thereza Hermanny, esposa
de Tom à época, a inspiração para "Águas de Março" surgiu ao final de um dia cansativo de
trabalho provocado pela composição de "Matita Perê" (futura parceria com Paulo César
Pinheiro), de onde decorrem os primeiros versos "é pau, é pedra, é o fim do caminho".
(...)assim como quem está cansado mesmo(...) Quer dizer: foi uma música que
surgiu numa hora em que ele estava querendo descansar
— Thereza Hermmany, sobre como surgiram os primeiros versos de "Águas de
Março" .
Tendo percebido imediatamente o valor da canção, ainda pela madrugada, Tom bateu à
janela e acordou a irmã Helena e o cunhado para lhes mostrar o primeiro rascunho da letra,
com a introdução e as primeiras frases, escritas a lápis em um papel de embrulho de
pão. Thereza recorda-se de haver lhe arranjado "um papel de desenho das crianças, porque lá
não era lugar de muito trabalho". Não surpreende que em um primeiro rascunho da letra
contivesse um grande número de referências pontuais: "o projeto da casa", "a viga", "o vão", "a
lenha", "o tijolo chegando", "o corpo na cama".
De volta ao Rio de Janeiro, concluiu a canção em uma tarde. Assim que a terminou, Tom
"passou no Antonio's e convocou todos os amigos que ocupavam a varanda do restaurante
para ouvirem, na sua casa, a música nova". Quando se reuniram em torno de Tom, ele "puxou
um papel todo amassado do bolso" e "tocando violão, cantou a música(...) Quem chegasse na
sua casa, naqueles dias, era imediatamente contemplado com a audição de 'Águas de Março'".
"Águas de Março" teve, ao menos, duas grandes fontes de inspiração. Uma é o poema "O
caçador de esmeraldas", do poeta parnasiano Olavo Bilac ("Foi em março, ao findar da chuva,
quase à entrada / do outono, quando a terra em sede requeimada / bebera longamente as
águas da estação (...)")[
Outra é um ponto de macumba, gravado com sucesso por J.B. de
Carvalho, o Conjunto Tupi ("É pau, é pedra, é seixo miúdo, roda a baiana por cima de tudo").
A estrutura musical é articulada por um motoperpétuo. Sua letra é estruturada em um
único verbo (ser), conjugado na terceira pessoa do singular no presente do indicativo em
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praticamente todos os versos - exceto no refrão, transformado em plural ("São as Águas de
Março (...)". Há uma constante alternância entre versos considerados otimistas e pessimistas,
além do uso de antítese ("vida", "sol" / "morte", "noite"), pleonasmo ("vento
ventando"), paronomásia ("ponta" / "ponto" / "conto" / "conta").
Sua letra tem caráter pouco narrativo e fortemente imagético, constituindo-se como séries
descritivas conectadas a um espaço semântico amplo. Muitos elementos, de natureza geral,
podem referir-se à cena do sítio: "pau", "pedra", "resto de toco", "peroba-do-campo", "nó na
madeira", "caingá", "candeia", "matita perê", o que enquadra "Águas de Março" em um
repertório de canções ecológicas - que incluiria depois "Chovendo na roseira", "Boto",
"Correnteza", "Passarim", além das instrumentais "Rancho das nuvens" e "Nuvens douradas".
A letra se assemelha a um fluxo de consciência, se referindo a seres
como pau, pedra, caco de vidro, nó na madeira, peixe, fim do caminho e muitas outros. A
metáfora central das "Águas de março" é tomada como imagem da passagem da vida
cotidiana, seu motocontínuo, sua inevitável progressão rumo à morte - como as chuvas do fim
de março, que marcam o final do verão no sudeste do Brasil. A letra aproxima a imagem da
"água" a uma "promessa de vida", símbolo da renovação.
A letra e a música operam progressões lentas e graduais, à maneira das enxurradas. Os
efeitos de orquestração chegam a ser cinematográficos, a partir das relações que estabelecem
entre elementos musicais e imagens do texto. Algumas metáforas são dignas de nota pela
sutileza e propriedade, como o quase imperceptível "tombo da ribanceira", que acontece numa
rara variação rítmica da linha do contrabaixo, além de vários movimentos de crescendo e
decrescendo do naipe de cordas, reforçando o apelo da imagem da chuva na letra.
Construção Chico Buarque
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse
sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um
príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um
náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse
música
E tropeçou no céu como se fosse um
bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o
tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um
príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o
máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o
próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o
público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um
pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote
bêbado
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Morreu na contramão atrapalhando o
sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão pra
dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra
sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar
existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que
engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem
que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem
que cair,
Deus lhe pague Pela mulher carpideira pra
nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e
cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos
redimir,
Deus lhe pague
Construção é uma canção do cantor e compositor brasileiro Chico Buarque, lançada em 1971
para seu álbum homônimo. Junto com "Pedro Pedreiro", é considerada uma das canções mais
emblemáticas da vertente crítica do compositor, "podendo-se enquadrar como um testemunho
doloroso das relações aviltantes entre o capital e o trabalho".
A letra foi composta em versos dodecassílabos, que sempre terminam numa
palavra proparoxítona. Os 17 versos da primeira parte (quatro quartetos, acrescidos de um
verso-desfecho) são praticamente os mesmos dezessete que compõem a segunda parte,
mudando apenas a última palavra. Os arranjos são do maestro Rogério Duprat, em uma
melodia repetitiva, desenvolvida inicialmente sobre dois acordes. A música, entretanto, tem
harmonia bem mais complexa.
A canção foi feita em um dos períodos mais severos da ditadura militar no Brasil, em meio
à censura e à perseguições políticas. Chico Buarque havia retornado da Itália em março de
1970, país onde vivia desde o início de 1969, ao tomar distância voluntária da repressão
política brasileira. A canção já foi eleita em enquete da Folha de S.Paulo como a segunda
melhor canção brasileira de todos os tempos e, por eleição na revista Rolling Stone, a "maior
canção brasileira de todos os tempos" Recebeu também grande destaque durante a Cerimônia
de Abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016, tocada ao fundo de um dos segmentos artísticos.
Em um formato tipicamente épico, "Construção" narra a história de um trabalhador
da construção civil morto no exercício de sua profissão, em seu último dia de vida, desde a
saída de casa para o trabalho ("Beijou sua mulher como se fosse a última") até o momento da
queda mortal ("E se acabou no chão feito um pacote flácido"). O narrador observa, organiza e
comunica os acontecimentos, ocorridos numa história circular, cantada em melodia reiterativa e
que modifica o ângulo de observação a cada repetição da letra com a troca de comparações
("Ergueu no patamar quatro paredes sólidas/mágicas/flácidas"), mas que no final encaminha
para o mesmo fim, uma morte.
A letra contém uma forte crítica à alienação do trabalhador na sociedade capitalista moderna e
urbana, reduzido a condição mecânica - intensificado especialmente por seus atos no terceiro
bloco da canção ("máquina", "lógico"). Quando esse trabalhador ("um pacote
flácido/tímido/bêbado") morre, a constatação é de que sua morte apenas atrapalha o "tráfego",
o "público" ou o "sábado". Ainda assim, Chico declarou, em entrevista concedida à revista
Status, em 1973, que "Construção" não era para ele uma música de denúncia ou protesto. "(...)
Em Construção, a emoção estava no jogo de palavras. Agora, se você coloca um ser humano
dentro de um jogo de palavras, como se fosse... um tijolo - acaba mexendo com a emoção das
pessoas."
O autor emprega ousados processos de construção poética como, por exemplo, a alternância
das proparoxítonas finais, "como se fossem peças de um jogo num tabuleiro", segundo o
próprio Chico. A letra é dividida em três blocos. Nos dois primeiros, compostos por 17 versos, e
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mais seis no último bloco. Nos dois primeiros blocos é possível perceber o nítido jogo de
palavras proparoxítonas criado por Chico.
No rascunho de "Construção", os versos estavam soltos, mas já dentro de uma métrica e ritmo
final. Alguns desses versos foram abandonados: "Pôs pedra sobre pedra até perder o fôlego" /
"E o máximo suor por um salário mínimo". Em um rascunho posterior, a melodia sugere o
agrupamento dos versos em quadro. E só depois de concluída a primeira parte é que
apareceram as alternativas: ("Tijolo com tijolo num desenho mágico/lógico", "E flutuou no ar
como se fosse um pássaro/sábado", etc).
À complexidade da letra de "Construção", corresponde uma linha de apenas dois acordes,
composta pelo maestro Rogério Duprat, que são repetidos à medida que se sucedem as
imagens "como se ele tivesse realmente colocando laje sobre laje num edifício." O grupo MPB-
4 participa do coro musical. Após o último verso do terceiro bloco, surge uma reprise com três
estrofes de "Deus lhe pague", canção que abre o disco Construção.
O músico brasileiro Tom Jobim adorava a canção. Segundo seu filho Paulo Jobim, o pai
chegou a recortar a letra da canção, publicada em um jornal da época, e a colou em um
caderno. Helena Jobim confirma o entusiasmo do irmão. "Comentava a perfeição da letra, em
que Chico [Buarque] usa palavras proparoxítonas, com rara maestria."
Conhecido por sua posições de direita, o jornalista David Nasser pôs-se um dia a louvar a
canção - para, num trecho do artigo, a falar da insistência nas proparoxítonas, acrescentar
mais uma: "Médici, o nosso presidente."
Para Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, "Construção" tem "uma letra extraordinária, de
qualidade rara numa canção popular".
Em 2001, o jornal Folha de S.Paulo, em uma enquete realizada com 214 votantes (entre
jornalistas, músicos e artistas do Brasil), elegeu "Construção" como a segunda melhor canção
brasileira de todos os tempos - atrás de Águas de Março, de Tom Jobim. Já em uma eleição,
em 2009, promovida pela versão brasileira da revista Rolling Stone, "Construção" foi eleita a
melhor canção brasileira de todos os tempos.
Pedro Pedreiro - Chico Buarque
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem
vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa e a gente vai
ficando pra trás
Esperando, esperando, esperando, esperando o
sol esperando o trem, esperando aumento desde
o ano passado para o mês que vem
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem
vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o
sol
Esperando o trem, esperando aumento para o
mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro está esperando um filho prá
esperar também
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem
vintém
Pedro pedreiro tá esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere
alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas pra que sonhar se dá o
desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro
pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o
sol
Esperando o trem, esperando aumento para o
mês que vem
Esperando um filho pra esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte, esperando
a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém, esperando
enfim, nada mais além
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Que a esperança aflita, bendita, infinita do apito de
um trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem...
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
De Viamão a Sorocaba - Os Tiranos
Me lembro dos corredores, rondas da noite
grande
Foi um tropeiro gaúcho, um Biriva do Rio
Grande
A tropa era boa, mula mansa também tinha
Ao passar me perguntavam de onde era que eu
vinha
De Viamão a Vacaria, eu já tinha o pouso certo
De Lages e Curitibanos pernoitava ao céu
aberto
Depois de pousa em Lapa, Palmeira ou Ponta
Grossa
Castro ou Itararé descansava a mulada nossa.
De chapéu meio tapeado chilenas bem
cortadeiras
Passavam em Itapitininga, ia vender mula na
feira
Sorocaba era o lugar de negocio por tropeiro
Era mulada do sul, povoando o brasil inteiro.
Muitas vezes saí das Missões, santo Angelo
ainda era pequeno
Com tropeiros missioneiros carregando a cruz
de Lorena
De Cruz Alta a Carazinho saía pra Passo
Fundo
Montado na minha mula atravessava o fim do
mundo.
Este era o caminho que muito eu percorri
Levando a mulada xucra tropeando aqui e ali
Mas o tempo foi passando chegou asfalto e
caminhão
Ao tropeiro só restou sofrenaços no coração.
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Tropeiros - (Léo Almeida)
O romantismo rendeu versos ao gaudério e
a história decantou bandeirantes,
mas foram eles, os birivas, que fizeram
a integração destes povoados tão distantes
João Miguel era tropeiro gastou a vida na
estrada
Levando mulada chucra do Rio Grande a
Sorocaba
Aprendeu nas arribadas que a sorte a gente
é que faz
Um biriva de vergonha não deixa mula pra
trás
O facão sorocabano levado sem aparato
O chapéu de abas largas as botas de cano
alto
O trajar era modesto, mas a mirada era
altiva
Subindo ou descendo a serra João Miguel
era biriva
Bota n'água esta madrinha, madrinheiro
Que a tropa vai seguindo enfileirada
Vou na balsa segurando o meu cargueiro
Com as bruacas de paçoca bem socada
Maria murchou na vida de casa e cabo de
enxada
Com um olho nas crianças e o outro fitando
a estrada
João Miguel virou lembrança na cruz à beira
da trilha
E Maria foi plantada lá no alto da coxilha
João Miguel era tropeiro, seus netos
tropeiros são
De esperanças mal domadas que
desgarrando se vão
A esperança madrinha segue na frente
entonada
E seu cargueiro de sonhos traz a bruaca
lotada.
Fonte: cd Leo Almeida de Milongas e chamamés. In: <http://letras.mus.br/leo-almeida/879588/>. Acesso em 20 de
ago. de 2012.
Supertrabalhador - Gabriel O Pensador
Quem trabalha e mata fome não come o pão de
ninguém
Mas quem come e não trabalha tá comendo o
pão de alguém
Quem trabalha e mata a fome não come o pão
de ninguém
Mas quem come e não trabalha tá comendo o
pão de alguém
É pra ganhar o pão tem que trabalhar Missão
para os heróis que estão dentro do seu lar
O seu pai, sua mãe, são trabalhadores
São os super-heróis, verdadeiros protetores
A superjornalista, o superdoutor
O supermotorista, o supertrocador
O superguitarrista, o superprodutor
E a superprofessora, é que me ensinou
E o supercarteiro, quê que faz, quê que faz?
Manda carta e manda conta pra mamãe e pro
papai
E o supergari, o lixeiro, o quê que faz?
Bota o lixo no lixo que aqui tem lixo demais
Cada um faz o que sabe, cada uma sabe o que
faz
Ninguém menos ninguém mais, todo mundo
corre atrás
E volta pra casa com saudade do filho
Enfrentando o desafio, desviando do gatilho
Mais uma jornada, adivinha quem chegou?
São as aventuras do supertrabalhador
Sou o supertrabalhador
Alimento minha família com orgulho e amor
Supertrabalhador
São as aventuras do supertrabalhador
Sou o Supertrabalhador
Enfrento os desafios, o perigo que for
Supertrabalhador
São as aventuras do Supertrabalhador
Demorou
Quem trabalha e mata fome não come o pão de
ninguém
Mas quem come e não trabalha tá comendo o
pão de alguém
Quem trabalha e mata a fome não come o pão
de ninguém
E pra fazer o pão tem que colher o grão
Separar o joio do trigo na plantação
O superlavrador falou com o agricultor,
Que sabe que precisa também do motorista do
trator
na cidade, o engenheiro precisa di pedreiro
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Mas pra fazer o prédio tem que desenhar
primeiro
O sonho do arquiteto, bonito no projeto, virando
concreto
Vai virando o concreto!
Eu sou o supertrabalhador
Alimento minha família com orgulho e amor
Supertrabalhador
São as aventuras do supertrabalhador
Sou o Supertrabalhador
Enfrento os desafios, o perigo que for
Supertrabalhador
São as aventuras do Supertrabalhador
Demorou
Quero ser trabalhador, quem não é um dia quis
Minha mãe sempre falou: "Quem trabalha é
mais feliz"
Mas tem que suar pra ganhar o pão
E ainda tem que enfrentar o leão
O leão quer morder nosso pão
Cuidado com o leão, que ele come o nosso pão
O leão quer morder nosso pão
Cuidado com o leão, não dá mole não
Eu sou o supertrabalhador
Alimento minha família com orgulho e amor
Supertrabalhador
São as aventuras do supertrabalhador
Sou o Supertrabalhador
Enfrento os desafios, o perigo que for
Supertrabalhador
São as aventuras do Supertrabalhador
Demorou
Supertrabalhador
Taxista, motoboy, assistente, diretor
Supertrabalhador
Pipoqueiro, pedagogo, poteiro, pesqisador
Supertrabalhador
Ambulante, feirante, astronauta, ilustrador
Supertrabalhador
Comandante, comissário, caixa, vendedor
Supertrabalhador
Cozinheiro, garçon, bibliotecário, escritor
Supertrabalhador
Maquinista, sambista, surfista, historiador
Supertrabalhador
Marceneiro, carpinteiro, ferreiro, minerador
Supertrabalhador
Telefonista, salva-vidas, bombeiro, mergulhador
Supertrabalhador
Pára-quedista, arqueólogo, filósofo, pintor
Supertrabalhador
Sapateiro, boiadeiro, farmacêutico, cantor
Super.
Chega - Gabriel O Pensador
Chega! Que mundo é esse, eu me pergunto
Chega! Quero sorrir, mudar de assunto
Falar de coisa boa mas na minha alma ecoa
Agora um grito eu acredito que você vai gritar
junto (x2)
A gente é saco de pancada há muito tempo e
aceita
Porrada da esquerda, porrada da direita
É tudo flagrante, novas e velhas notícias
Mentiras verdadeiras, verdades fictícias
Polícia prende o bandido, bandido volta pra
pista
Bandido mata o polícia, polícia mata o surfista
O sangue foi do Ricardo, podia ser do Medina
Podia ser do seu filho jogando bola na esquina
Morreu mais uma menina, que falta de sorte
Não traficava cocaína e recebeu pena de morte
Mais uma bala perdida, paciência
Pra ela ninguém fez nenhum pedido de
clemência
[Refrão]
Chega! Que mundo é esse, eu me pergunto
Chega! Quero sorrir, mudar de assunto
Falar de coisa boa mas na minha alma ecoa
Agora um grito eu acredito que você vai gritar
junto
Chega! Vida de gado, resignado
Chega! vida de escravo de condenado
A corda no pescoço do patrão e do empregado
Quem trabalha honestamente tá sempre sendo
roubado
Chega! Água que falta, mágoa que sobra
Chega! Bando de rato, ninho de cobra
Chega! Obras de milhões de reais
E milhões de pacientes sem lugar nos hospitais
Chega! Falta comida, sobra pimenta
Chega! Repressão que não me representa
Chega! Porrada pra quem ama esse país
E bilhões desviados debaixo do meu nariz
Chega! Contas, taxas, impostos, cobranças
Chega! Tudo aumenta menos a esperança
Multas e pedágios para o cidadão normal
E perdão pra empresas que cometem crime
ambiental
Chega! Um para o crack, dois para a cachaça
Chega! Pânico, morte, dor e desgraça
Chega! Lei do mais forte, lei da mordaça
Desce até o chão na alienação da massa
Eu vou, levanta o copo e vamos beber!
Um brinde aos idiotas incluindo eu e você
50
Democracia, que democracia é essa?
O seu direito acaba onde começa o meu, mas
onde o meu começa?
Os ratos fazem a ratoeira e a gente cai
Cada centavo dos bilhões é da carteira aqui que
sai
E a gente paga juros paga entrada e prestação
Paga a conta pela falta de saúde e educação
Paga caro pela água, pelo gás, pela luz
Pela paz, pelo crime, por Alá, por Jesus
Paga imposto paga taxa, aumento do transporte
Paga a crise na Europa e na América do norte
Os assassinos da Febem, o trabalho infantil na
China
E as empresas e os partidos envolvidos em
propinas
[Refrão]
Chega! Que mundo é esse, eu me pergunto
Chega! Quero sorrir, mudar de assunto
Falar de coisa boa mas na minha alma ecoa
Agora um grito eu acredito que você vai gritar
junto
Chega! Vida de gado, resignado
Chega! vida de escravo de condenado
A corda no pescoço do patrão e do empregado
Quem trabalha honestamente tá sempre sendo
roubado
Presidente, deputados, senadores, prefeitos
Governadores, secretários, vereadores, juízes
Procuradores, promotores, delegados,
inspetores
Diretores, um recado pras senhoras e os
senhores
Eu pago por tudo isso, imposto sobre o serviço
A taxa sobre o produto, eu pago no meu tributo
Pago pra andar na rua, pago pra entrar em casa
Pago pra não entrar no Spc e no Serasa
Pago estacionamento, taxa de licenciamento
Taxa de funcionamento liberação e alvará
Passagem, bagagem, pesagem, postagem
Imposto sobre importação e exportação, Iptu,
Ipva
O Ir, o Fgts, o Inss, o Iof, o Ipi, o Pis, o Cofins e
o Pasep
A construção do estádio, o operário e o cimento
Eu pago o caveirão, a gasolina e o armamento
A comida do presídio, o colchão incendiado
Eu pago o subsídio absurdo dos deputados
A esmola dos professores, a escola sucateada
O pão de cada merenda, eu pago o chão da
estrada
A compra de cada poste eu pago a urna
eletrônica
E cada arvore morta na nossa selva amazônica
Eu pago a conta do Sus e cada medicamento
A maca que leva os mortos na falta de
atendimento
Paguei ontem, pago hoje e amanhã vou pagar
Me respeita! Eu sou o dono desse lugar!
Chega!
Esquadros - Adriana Calcanhotto
Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Pra sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?
51
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor, cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Letras como essa podem confundir muita gente. A primeira estrofe da canção, por exemplo,
pode parecer sem sentido. Mas, com uma boa pesquisa sobre o assunto, tudo fica mais fácil.
Quando fala em cores de Almodóvar, Adriana refere-se, provavelmente, à homossexualidade de
Pedro Almodóvar, cineasta, ator e argumentista espanhol, que tinha a sexualidade como tema
principal da maioria de seus filmes.
Adriana, ainda na primeira estrofe, fala sobre cores de Frida Kahlo. Era esta uma pintora
mexicana de grande talento. Em comum com Almodóvar tinha as polêmicas da sexualidade, já que
tratava-se de uma bissexual assumida.
E, ainda em relação à primeira estrofe, uma frase interessante é "Eu ando pelo mundo
prestando atenção em cores". Esta frase pode, de alguma formar, representar a falta de
informação sobre a homossexualidade e ou a bissexualidade naqueles tempos.
A segunda estrofe pode ser assimilada mais facilmente. O eu-lírico da música, que
provavelmente é a própria Adriana Calcanhotto, confirma a falta de informação sobre sexualidade
sugerida na primeira estrofe quando diz que caminha pelo escuro, ou seja, que não consegue
enxergar nada à respeito do assunto. E cita ainda o seu irmão, como fonte de força e proteção para
ela.
A terceira e a quarta estrofe revelam um pouco da personalidade do eu-lírico. E aproveitam para
revelar que, ainda sendo homossexual, este mesmo eu-lírico (Adriana Calcanhotto), continua tendo
sensibilidade, humanidade e todas as qualidades que teria caso fosse heterossexual.
No refrão, o eu-lírico procura entender o que se passa com ele mesmo, procura entender sua
própria sexualidade, talvez sendo homossexual. E põe em questão, outra vez, o tabu que era a
sexualidade naqueles tempos, quando diz ver tudo enquadrado, que pode ser associado à distante.
O eu-lírico via tudo muito distante do que realmente deveria ser. Falar de homossexualidade,
bissexualidade ou mesmo sexualidade não era algo tão comum. E ainda não é.
Destaca-se no refrão a citação "Remoto Controle". Remoto é tudo aquilo que é antigo, que
ainda precisa evoluir. Controle é uma força de poder exercida sobre algo ou alguma pessoa.
Portanto, essa frase, dispondo de ironia, critica a sociedade hipócrita e conservadora ao extremo
que até hoje não aceita totalmente as diferenças, como o homossexualismo ou o bissexualismo.
A sexta estrofe completa o contexto que diz que o eu-lírico procura entender o sentido da vida,
procura entender o que passa com ele e com o mundo.
E a sétima estrofe, talvez a mais significativa da canção, fala da bissexualidade (trânsito entre
dois lados), falando que gosta do sexo oposto (de um lado eu gosto de oposto), e do mesmo sexo.
Diz não querer esconder seu modo, querer se expor. Mas então entra em cena um elemento até
então não observado na canção: o medo, "Eu canto para quem?".
E o preconceito contra o eu-lírico torna-se evidente na nona estrofe. Ele continua andando pelo
mundo, conhecendo o mundo, agindo com qualquer outra pessoa. Mas já não encontra mais os
52
seus amigos, nem mesmo o seu "amor" e, por consequente, sua alegria. Todos o abandonaram,
provavelmente, por não estarem dispostos a serem as pessoas que relacionavam-se com um
homossexual ou bissexual.
Passei muito tempo tentando achar o real sentido de Esquadros, analisando a letra e
pesquisando sobre a vida de Adriana Calcanhotto e até Almodóvar e Frida Kahlo. Entretanto, não
foi a letra e as pesquisas que mais me inspiraram à essa interpretação.
Levei em consideração a verdade com a qual, no programa Por Acaso, Adriana Calcanhotto,
homossexual assumida, e Renato Russo, bissexual assumido, cantaram essa canção.
Unimultiplicidade - Ana Carolina
Neste Brasil corrupção
Pontapé bundão
Puto saco de mau cheiro
Do Acre ao Rio de Janeiro
Neste país de manda-chuvas
Cheio de mãos e luvas
Tem sempre alguém se dando bem
De São Paulo a Belém
Eu pego meu violão de guerra
Pra responder essa sujeira
E como começo de caminho
Quero a unimultiplicidade
Onde cada homem é sozinho
A casa da humanidade
Onde cada homem é sozinho
A casa da humanidade
Não tenho nada na cabeça
A não ser o céu
Não tenho nada por sapato
A não ser o passo
Neste país de pouca renda
Senhoras costurando
Pela injustiça vão rezando
Da Bahia ao Espírito Santo
Brasília tem suas estradas
Mas eu navego é noutras águas
E como começo de caminho
Quero a unimultiplicidade
Onde cada homem é sozinho
A casa da humanidade
Onde cada homem é sozinho
A casa da humanidade
Onde cada homem é sozinho
A casa da humanidade
Onde cada homem é sozinho
A casa da humanidade
A música Unimultiplicidade foi feita a partir do texto de Elisa Lucinda, que fala sobre a
corrupção e a indignação da autora, por pagar impostos e contas, e seus direitos não serem
exercidos! Da mesma forma, Ana Carolina protesta, contra a corrupção, contra os políticos que
usam o dinheiro do povo, o nosso dinheiro, que pagamos todos os meses, para que sejam
usados de forma correta, ajudando aqueles que não tem condição e nos ajudando também.
Mas não é isso que acontece, e expõe claramente que é totalmente contra qualquer tipo de
sujeira e que enquanto viver, vai lutar pela justiça!
Bom, essa música é de cunho crítico e foi feita a partir do texto de Elisa Lucinda, que fala sobre
a corrupção e a indignação da autora, por pagar impostos e contas, e seus direitos não serem
exercidos! Ana Carolina e Tom Zé ao criarem essa música protestam, contra a corrupção,
contra os políticos que usam o dinheiro do povo, o seu dinheiro, que você paga todos os
meses, para que sejam usados de forma correta, ajudando aqueles que não tem condição e
ajudando no seu próprio conforto e controle da cidade. Mas não é isso que acontece, e expõe
claramente que é totalmente contra qualquer tipo de sujeira e que enquanto viver, vai lutar pela
justiça e contra a corrupção !
Vocabulário :
Unimultiplicidade: uma variedade de coisas diferentes, mas unidas por uma finalidade.
Corrupção :Ação ou efeito de corromper, de fazer degenerar; depravação.
Ação de seduzir por dinheiro, presentes etc., levando alguém a afastar-se da retidão; suborno.
53
Injustiça : Falta de justiça, Ato contrário à justiça: reclamar contra uma injustiça.
Iniquidade.
Sujeira : Estado do que está sujo; coisa desasseada, imundície, sujidade, Ação vil, processo
incorreto: fez-me uma sujeira.
Mandachuva: Magnata, pessoa importante, pessoa influente, chefe.
Haiti (Década de 90)
Caetano Veloso
Compositor: Caetano Veloso e Gilberto Gil
Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos
pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são
tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o
largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de
escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo...
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal
dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo,
qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da
pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito
no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho
habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre
um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E ao ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase
todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos
de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como
se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no
bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
A música estabelece uma avaliação da noção de justiça em nosso país. Apesar em tese, da
universalização dos direitos no Brasil, os excluídos do mercado - na música, pretos e pobres -
não desfrutam dos direitos da cidadania. A letra da canção acima nos dá a possibilidade de
analisar aspectos relacionados com a discriminação sócio racial no país. Crianças haitianas. É
possível se estabelecer também uma abordagem sociológica nessa canção, a partir da
discussão do fato de ficarmos perplexos com o que é de fora e aceitarmos passivamente as
nossas mazelas locais, talvez por isso os compositores optaram por abordar um Haiti que é
aqui, ou seja, utilizou um lugar distante para parodiar uma realidade de ambos os países.
É possível se estabelecer também uma abordagem sociológica nessa canção, a partir da
discussão do fato de ficarmos perplexos com o que é de fora e aceitarmos passivamente as
nossas mazelas locais, talvez por isso os compositores optaram por abordar um Haiti que é
aqui, ou seja, utilizou um lugar distante para parodiar uma realidade de ambos os países.
54
A Cara Do Brasil 1991 - Celso Viáfora
Eu estava esparramado na rede
jeca urbanóide de papo pro ar
me bateu a pergunta, meio à esmo:
na verdade, o Brasil o que será?
O Brasil é o homem que tem sede
ou quem vive da seca do sertão?
Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo
o que vai é o que vem na contramão?
O Brasil é um caboclo sem dinheiro
procurando o doutor nalgum lugar
ou será o professor Darcy Ribeiro
que fugiu do hospital pra se tratar
A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho
Ninguém precisa consertar
Se não der certo a gente se virar sozinho
decerto então nunca vai dar
O Brasil é o que tem talher de prata
ou aquele que só come com a mão?
Ou será que o Brasil é o que não come
o Brasil gordo na contradição?
O Brasil que bate tambor de lata
ou que bate carteira na estação?
O Brasil é o lixo que consome
ou tem nele o maná da criação?
Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho
que é o Brasil zero a zero e campeão
ou o Brasil que parou pelo caminho:
Zico, Sócrates, Júnior e Falcão
A gente é torto igual Garrincha e
Aleijadinho...
O Brasil é uma foto do Betinho
ou um vídeo da Favela Naval?
São os Trens da Alegria de Brasília
ou os trens de subúrbio da Central?
Brasil-globo de Roberto Marinho?
Brasil-bairro: Carlinhos-Candeal?
Quem vê, do Vidigal, o mar e as ilhas
ou quem das ilhas vê o Vidigal?
O Brasil encharcado, palafita?
Seco açude sangrado, chapadão?
Ou será que é uma Avenida Paulista?
Qual a cara da cara da nação?
A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho
...
E Vamos À Luta - Gonzaguinha
Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera, enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada
Aquele que sabe que é negro
o coro da gente
E segura a batida da vida o ano inteiro
Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro
E apesar dos pesares ainda se orgulha de ser
brasileiro
Aquele que sai da batalha
Entra no botequim, pede uma cerva gelada
E agita na mesa logo uma batucada
Aquele que manda o pagode
E sacode a poeira suada da luta e faz a
brincadeira
Pois o resto é besteira
E nós estamos por aí...
Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou á luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada
Aquele que sabe que é negro
o coro da gente
E segura a batida da vida o ano inteiro
Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro
E apesar dos pesares ainda se orgulha de ser
brasileiro
Aquele que sai da batalha
Entra no botequim, pede uma cerva gelada
E agita na mesa logo uma batucada
Aquele que manda o pagode
E sacode a poeira suada da luta e faz a
brincadeira
Pois o resto é besteira
E nós estamos pelaí...
Eu acredito é na rapaziada...
55
Éramos Felizes E Não Sabíamos
Gaúcho da Fronteira
Compositor: Gaúcho Da Fronteira E Beto Caetano Braum
Essa vidinha tão boa, agora vai
Terminar
Porque tá chegando o homem
Caçador de marajás
Essa vidinha tão boa, agora vai terminar
O povo que se prepare no
Pacote tem presente
Tia Zélia disse e falou: não é
Como antigamente
O povo que se prepare no
Pacote tem presente
Já é hora de trabalho, vão
Deixar de blá, blá
Os de esquerda se arremangam:
Diz que vão fiscalizar
Já é hora de trabalho, vão
Deixar de blá, blá
Isso já foi anunciado através da
Rede globo
Parece que a noiva é a mesma,
Só mudaram o penteado
Entra Juca, sai manduca e o
Baile sempre formado
Parece que a noiva é a mesma
Só mudaram o penteado
A pouco tempo lá em casa,
Tinha bóia á revelia
Ferrovia norte-sul, quase
Mudou o destino
Ameaçaram com gaúcho, me
Empurraram nordestino
Ferrovia norte-sul, quase
Mudou o destino
Não vai faltar alguém que diga:
-que saudades do Sarney
Político é sempre assim, eu
Falei, eu não falei.
Patifarias - Gaúcho da Fronteira
Gaúcho da Fronteira e Vaine Darde
Quando Fernando foi lá na casa da Dinda
Fazer safári para caçar marajás
De jet-ski, motocão, coisa mais linda
Morcego negro também pousava por lá.
Era pacote, era calote, tempo novo
Plano e mais plano pra poder se arrumar
Bateram então a carteirinha do meu povo
E o Fernadinho nos levou no blá-blá-blá.
Patifarias, pra ti Farias
O Fernandinho nessa bronca quem diria
Patifarias, pra ti Farias
Tantos fantasmas o Brasil não merecia.
Ali PC e os quarentas ladrões
Era uma noite num palácio de Brasília
Deram bandeira e chegou-se a conclusão
Que tudo isso era só patifarias.
Dona Rosane foi lá pra L B A
Porque afinal ela era a patroa
Mas na horinha de comprar fralda e mama
O dinheirinho se afundou nas Alagoas.
E a secretária, cheque, cheque, cheque
Mas parecia outro filme de terror
E os fantasminhas assombrando todo
mundo
E a CPI dando fim nesse pavor
Mas outro Pedro redescobriu o Brasil
E um chofer derrubou o caçador
Hoje na rua o meu povo anda a mil
Todo de luto, pois já chega de "Collor".
Carta Ao Presidente - Marcelo D2
E a carta, cadê?
Era assim que eu tava pensando.
O Brasil quer mudar, crescer, pacificar,
uma justiça social que tanto alguns tentam
conquistar
e se algum momento algum político conseguiu
dispertar a esperança.
O final da historia é uma lambança.
Nosso povo constata que promessas não faltam, e
corrupção continua alta.
Eu não venho por meio dessa com protesto
destrutivo.
Ao contrário,
apesar de sofrimento injusto e desnecessário.
Colapso ai,
não somos fãs de canalha.
Terra pro povo e não me venha com medalhas.
Soberania país,
De onde vêm essas ideias?
e o tal desenvolvimento econômico?
Pra mim, só a miséria
Déficit habitacional.
É favela pra todo canto.
Me lembro de uma reforma agrária,
que ia segurar ser pai no campo.
56
Quando você diz justo,
vem de justiça, não é?
Como vamos manter a calma se a justiça é só pa
ralé?
Como você disse,
eu quero a verdade completa.
Como todos os brasileiros querem a verdade
completa.
Que segurança o governo tem oferecido à
sociedade brasileira?
Alguém só pode estar de brincadeira.
Mas cá entre nós, na verdade, quer saber?
Todo brasileiro quer é mudar pra valer.
Sentimento predominante em todas as classes
ainda é
Qual seria a diferença do Luiz pro José?
Eu sei,
ninguém precisa te ensinar a importância do
controle da inflação.
Mas o Brasil Solidário não apareceu aqui ainda
não.
Minha mãe sempre dizia que o exemplo vem de
cima
E agora Silva, você tá em cima.
Uma vida sindical bonita, ao lado dos
trabalhadores.
Nunca se esqueça, ao lado dos trabalhadores.
Parece que a economia é o mal da nação,
mas ao meu ver
o mal tá na corrupção.
Não tem dinheiro pra educação, segurança, saúde
então nem se fala.
Enquanto isso neguinho tá carregando dinheiro na
mala.
As cadeias estão cheias de pretos e nordestinos
como nós.
e os verdadeiros criminosos são os que têm a voz.
Se você não sabia de nada,
então não está fazendo teu trabalho direito.
Afinal de contas, você é o presidente eleito!
Falta dizer:
o sacrifício continua dos mais necessitados
que ainda andam esquecidos e colocados de lado.
O que nos move aqui é a certeza de que o Brasil
é bem maior do que isso.
quando precisar dos que querem o bem tamo aí,
pronto pro serviço.
Desculpe se eu entendi algo errado.
Mas essa aqui são as minhas palavras,
ou melhor, as palavras aqui de casa.
Família Brasileira,
honesta e trabalhadora,
como quase todas,
honesta e trabalhadora.
Sem mais delongas,
não repare o sorriso amarelo,
um abraço do ainda amigo.
Marcelo,
Rio de Janeiro 28 de Fevereiro de 2006.
Mensalão - Zé Mulato & Cassiano
Compadre que narquia é aquela
Olha é briga de tubarão
Compadre Tão brigando e se rasgando
Pro mó de um tal de mensalão
- ê compadre, que brigaceiro feio será aquele??
- uái compadre que lerea será isso mesmo?
- montaram uma frajoca dos infernos.
- mas será compadre que um trem desse pode ser
verdade.
- ora não é!
Parece conto de fada mas o caso é verdadeiro
É coisa do Ali Babá com os quarenta
companheiros
- olha compadre, os companheiros dele ta treinado
mesmo, traquejado.
- é, o tal da má companhia, né compadre?
- olha, enquanto o rato da barriga branca dá uma
viajem eles dá três ou quatro cada um.
- é, puro rato.
Compadre há muito tempo isso existe
Mas é que era tudo camuflado
Roubar sempre roubaram a gente sabe
Mas só agora foi escancarado
- trem antigo hem compadre?
- iii, antiguizérrimo compadre, ó!
- ê compadre, isso igual a um furunco: há muitos
anos que o trem vem inchando, vai latejando,
comichando. Mas agora parece que veio a furo.
- é, é preciso arrancar o canecão que é pra sarar
de vez, né compadre?
- é, de vero.
Só por que um linguarudo bateu com a língua nos
dentes
Contou tudo pro Sultão e deixou o pobre doente
- ê compadre, aí não tem Sultão que aguente
57
compadre.
- compadre, parece que deu até um problema na
familhagem do Sultão.
- é, é um problema sério daqueles verdadeiros
compadre.
- Genuíno.
- é.
Compadre tem até palavra mágica
pra entrar no covil do salafrário
que chega na porta cheio de banca e vai dizendo:
Abra-te plenário.
- ―Está em pauta a discussão pra dividir o
mensalão, portanto declaro aberta a sessão‖.
- uái compadre, parece que sumirão com um
companheiro.
- como de fato compadre, de vero.
Por nós votar nesse povo, Brasil vai levando à
breca
brecaram um que ia escapulindo
levando uma fortuna na cueca
- uái compadre, inté na cueca?
- é, danasco, tava parecendo uma tanajura
compadre com tanto dinheiro.
- o que era de capanga, mala e bolsa encheram
tudo, quando não deu mais onde por puseram na
cueca.
- é verdade.
Compadre se a CPI funcionar
O povo quer saber o resultado
Pode até escapar uns dois ou três
Mas eu acho que o covil vai ser fechado
- ê compadre, o trem virou foi é um formigueiro.
- uái, é só a fila de mala entrando vazia e saindo
cheia compadre.
- é.
- trilheiro desse tá fundo.
- é.
- tá puído lá viu!
- é, o Brasil não merece um trem desses.
Ali só entra serpente, jararaca ou surdo eterno
Se for pelo meu voto eles vão ser...
Eleito é nas prefunda dos inferno.
- isso mesmo compadre, nas prefunda dos inferno.
- é verdade. Compadre, esses político ladrão vai
tudo pro inferno. E o capeta vai chorar aquela
zagaia bem do sobre do miserável.
- isso mesmo, no sobre.
- Uh! Trem doido compadre.
- he he he he he he he.
-é, mas sabe um trem compadre, é melhor no
deles do que no nosso.
- como de fato compadre, como de fato.
- é, no deles é até engraçado uái.
Luís Inácio (300 Picaretas)
Os Paralamas do Sucesso
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
Eles ficaram ofendidos com a afirmação
Que reflete na verdade o sentimento da nação
É lobby, é conchavo, é propina e jeton
Variações do mesmo tema sem sair do tom
Brasília é uma ilha, eu falo porque eu sei
Uma cidade que fabrica sua própria lei
Aonde se vive mais ou menos como na
Disneylândia
Se essa palhaçada fosse na Cinelândia
Ia juntar muita gente pra pegar na saída
Pra fazer justiça uma vez na vida
Eu me vali deste discurso panfletário
Mas a minha burrice faz aniversário
Ao permitir que num país como o Brasil
Ainda se obrigue a votar por qualquer trocado
Por um par se sapatos, um saco de farinha
A nossa imensa massa de iletrados
Parabéns, coronéis, vocês venceram outra vez
O congresso continua a serviço de vocês
Papai, quando eu crescer, eu quero ser anão
Pra roubar, renunciar, voltar na próxima eleição
Se eu fosse dizer nomes, a canção era pequena
João Alves, Genebaldo, Humberto Lucena
De exemplo em exemplo aprendemos a lição
Ladrão que ajuda ladrão ainda recebe concessão
De rádio FM e de televisão
Rádio FM e televisão
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
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"Luís Inácio (300 Picaretas)" é uma canção composta por Herbert Vianna e interpretada
pelos Paralamas do Sucesso, lançado originalmente em 1995.
“ Há no congresso uma minoria que se preocupa e trabalha pelo país, mas há uma
maioria de uns trezentos picaretas que defendem apenas seus próprios interesses ”
A canção cita o escândalo que ficou conhecido como "Anões do Orçamento", e os nomes de
dois dos deputados envolvidos nele (João Alves de Almeida e Genebaldo Correia). Cita
também Humberto Lucena, então senador pelo estado da Paraíba. Refere-se também a
parlamentares que detêm concessões de "rádio FM e de televisão", o que é expressamente
proibido pela Constituição de 1988.
Censura
Assim que o EP Vamo Batê Lata foi lançado, a canção despertou a ira do então procurador
da Câmara dos Deputados, José Bonifácio de Andrada. Andrada conseguiu proibir a execução
de "Luís Inácio" em um show dos Paralamas em Brasília (mesmo sem a canção constar no
repertório). No show em questão, Vianna tocou "Proteção", do grupo Plebe Rude, como forma
de retaliação à ação de Andrada.
Começou-se, então, uma longa discussão na qual os parlamentares queriam proibir a
execução pública da canção (o que foi tido por toda a imprensa como sendo um ato
inconstitucional que remetia aos tempos da censura imposta pela ditadura militar). Por fim,
"Luís Inácio" teve sua execução vetada apenas nas rádios e em lojas de discos.
Legado
No último show que fizeram em 2002, os Paralamas tocaram "Luís Inácio" em homenagem à
eleição que definiu Lula como presidente. Em abril de 2003, os três membros do grupo
receberam o título de cidadãos honorários de Brasília e foram recebidos pessoalmente pelo
presidente Lula. Com a Câmara dos Deputados cheia, Herbert cantou, ao som de seu violão,
um trecho da canção.
Em 2005, "Luís Inácio (300 Picaretas)" foi a segunda música mais lembrada pelos leitores do
jornal O Globo para definir a crise política (atrás de "É Ladrão que Não Acaba Mais",
de Bezerra da Silva).
Proteção
Plebe Rude
Será verdade, será que não
nada do que posso falar
e tudo isso prá sua proteção
nada do que posso falar
A PM na rua, a guarda nacional
nosso medo suas armas, a coisa não tá mal
a instituição esta aí para a nossa proteção
Pra sua proteção
Tanques lá fora, exército de plantão
apontados aqui pro interior
e tudo isso para sua proteção
pro governo poder se impor
A PM na rua, nosso medo de viver
um consolo é que eles vão me proteger
a única pergunta é: me proteger do que?
Sou uma minoria mas pelo menos falo o que
quero apesar da repressão
Tropas de choque, PM's armados
mantêm o povo no seu lugar
Mas logo é preso, ideologias marcadas
se alguém quiser se rebelar
Oposição reprimida, radicais calados
toda a angustia do povo é silenciada
Tudo pra manter a boa imagem do Estado!
Sou uma minoria mas pelo menos falo o que
quero apesar da repressão
Armas polidas, os canos se esquentam
esperando a sua função
exército bravo e o governo lamenta
que o povo aprendeu a dizer não
Até quando o Brasil vai poder suportar?
Código penal não deixa o povo rebelar
Autarquia baseados em armas não dá
E tudo isso é para a sua segurança
59
Para a sua segurança
É Ladrão Que Não Acaba Mais
Bezerra da Silva
Quando Cabral aqui chegou
E semeou sua semente
Naturalmente começou
A lapidação do ambiente...
Roubaram o ouro
Roubaram o pau
Pra ficar legal
Ainda tiraram o couro
Do povo
Desta terra original...
E só deixaram
A má semente
Presente de Grego
Que logo se proliferou
E originou a nossa gente...
É ladrão que não acaba mais
Tem ladrão que não acaba mais
Você vê ladrão
Quando olha pra frente
Você vê ladrão
Quando olha pra trás...(2x)
Hiiiiiii!
A terra boa
Mas o povo
Continua escravizado
Os direitos são os mesmos
Desde os séculos passados
O Marajá
Ele só anda engravatado
Não trabalha, não faz nada
Mas tá sempre
Endinheirado...
E se entrar no supermercado
Você é roubado!
E se andar despreocupado
Você é roubado!
E se pegar o bonde errado
Você é roubado!
E também se votar pra deputado
Você é roubado!
Certo!
Tem sempre 171 armando fria
Tem ladrão lá no congresso
Na quitanda e padaria
Ladrão que rouba de noite
Ladrão que rouba de dia
Dentro da delegacia
Ninguém entendia
A maior confusão
O doutor delegado
Grampeou todo mundo
Porque o ladrão
Roubou outro ladrão
É ladrão que não acaba mais
Tem ladrão que não acaba mais
Você vê ladrão
Quando olha pra frente
Você vê ladrão
Quando olha pra trás...(2x)
Quando Cabral aqui chegou
E semeou sua semente
Naturalmente começou
A lapidação do ambiente...
Roubaram o ouro
Roubaram o pau
Pra ficar legal
Ainda tiraram o couro
Do povo
Desta terra original...
E só deixaram
A má semente
Presente de Grego
Que logo se proliferou
E originou a nossa gente...
É ladrão que não acaba mais
Tem ladrão que não acaba mais
Você vê ladrão
Quando olha pra frente
Você vê ladrão
Quando olha pra trás...(4x)
É ladrão que não acaba mais (samba, 1998) – Ary do Cavaco e Otacílio da Mangueira
Bezerra da Silva sempre levantou a bandeira do povo marginalizado, pobre, das favelas do Rio
de Janeiro mas que representa um Brasil mais amplo, inclusive com fortes raízes no nordeste
onde nasceu e em vastas periferias do país. Por isso alguns temas frequentes, como o abuso e
a violência repressora da polícia, atividades ligadas à contravenção, como drogas ilícitas e
jogatinas, e, sobretudo, o tema da resistência, da não conformidade, da luta árdua e cotidiana.
Não é de se espantar que um dos órgãos mais hostis a essa numerosa camada da população
seja representado pelas instituições de poder, em especial aqueles que ocupam cargos
60
públicos que deveriam servir ao povo, e não se tornar ―donos‖ dele. É contra esse cenário da
histórica desigualdade social no Brasil que Bezerra brada, em 1998, no samba de Ary do
Cavaco e Otacílio da Mangueira: ―É ladrão que não acaba mais/Você vê ladrão quando olha
pra frente/Você vê ladrão quando olha pra trás‖. Sintético do nosso lastro de corrupção.
Samba-Enredo 2000 - Portela
Compositor: Zezé do Pandeiro, Amilton
Damião, Ailton Damião, Edyne e Edinho
Leal
TRABALHADORES DO BRASIL - A
ÉPOCA DE GETÚLIO VARGAS
O raiar de um novo dia
Desafia meu pensar
Voltando à época de ouro
Vejo a luz de um tesouro
A Portela despontar (lálalaiá)
Aclamado pelo povo, o Estado Novo
Getúlio Vargas anunciou
A despeito da censura
Não existe mal sem cura
Viva o trabalhador ôôô
Nossa indústria cresceu (e lá vou eu...)
Jorrou petróleo a valer...
No carnaval de Orfeu
Cassinos e MPB
O Rei da Noite, o teatro, a fantasia
No rádio as rainhas, a baiana de além-mar
Tantas vedetes, cadilacs, brilhantina
Em outro palco o movimento popular
E no Palácio das Águias
Ecoou um grito a mais
Vai à luta meu Brasil
Pela soberana paz
Quem foi amado e odiado na memória
Saiu da vida para entrar na história
Meu Brasil-menino
Foi pintado em aquarela
Fez do meu destino
O destino da Portela
(O raiar...)
Pacato Cidadão – 2001- Skank
Compositor: Samuel Rosa E Chico Amaral
Ô pacato cidadão, te chamei a atenção
Não foi à toa, não
C'est fini la utopia, mas a guerra todo dia
Dia a dia não
E tracei a vida inteira planos tão incríveis
Tramo à luz do sol
Apoiado em poesia e em tecnologia
Agora à luz do sol
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Ô pacato cidadão, te chamei a atenção
Não foi à toa, não
C'est fini la utopia, mas a guerra todo dia
Dia a dia não
E tracei a vida inteira planos tão incríveis
Tramo à luz do sol
Apoiado em poesia e em tecnologia
Agora à luz do sol
Pra que tanta TV, tanto tempo pra perder
Qualquer coisa que se queira saber querer
Tudo bem, dissipação de vez em quando é bão
Misturar o brasileiro com alemão
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Ô pacato cidadão, te chamei a atenção
Não foi à toa, não
C'est fini la utopia, mas a guerra todo dia
Dia a dia não
E tracei a vida inteira planos tão incríveis
Tramo à luz do sol
Apoiado em poesia e em tecnologia
Agora à luz do sol
Pra que tanta sujeira nas ruas e nos rios
Qualquer coisa que se suje tem que limpar
Se você não gosta dele, diga logo a verdade
Sem perder a cabeça, sem perder a amizade
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Pacato cidadão
61
Ô pacato da civilização
Ô pacato cidadão, te chamei a atenção
Não foi à toa, não
C'est fini la utopia, mas a guerra todo dia
Dia a dia não
E tracei a vida inteira planos tão incríveis
Tramo à luz do sol
Apoiado em poesia e em tecnologia
Agora à luz do sol
Consertar o rádio e o casamento é
Corre a felicidade no asfalto cinzento
Se abolir a escravidão do caboclo brasileiro
Numa mão educação, na outra dinheiro
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização.
Brasis
Seu Jorge
Compositor: (Seu Jorge/ Gabriel Moura/ Jovi Joviniano)
Tem um Brasil que é próspero
outro não muda
Um Brasil que investe
outro que suga
um de sunga
outro de gravata
tem um que faz amor
e tem o outro que mata
Brasil do ouro, Brasil da prata
Brasil do Bala couchê, da mulata
Tem o Brasil que é lindo
outro que fede
o Brasil que dá
é igualzinho ao que pede
Pede paz, saúde, trabalho e dinheiro
Pede pelas crianças do país inteiro
Tem um Brasil que soca
outro que apanha
um Brasil que saca
outro que chuta
Perde e ganha, sobe e desce
Vai à luta, bate bola
porém não vai a escola
Brasil de cobre, Brasil de lata
(2x)
É negro, é branco, é nissei
é verde, é índio peladão
é mameluco, é cafuzo, é confusão
(2x)
Oh Pindorama quero seu Porto Seguro
Suas palmeiras, suas pêras, seu café
suas riquezas, praias, cachoeiras
quero ver o seu povo de cabeça em pé
Comida
Titãs
Compositor: Arnaldo Antunes/Sérgio Brito/Marcelo Fromer
Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...
A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...
A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer...
Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...
A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Prá aliviar a dor...
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade...
Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...
62
A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...
A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer...
A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Pra aliviar a dor...
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade...
Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, eh!
Necessidade, vontade, eh!
Necessidade...
Como o nome já deve sugerir, a letra de Comida fala sobre a crise econômica que aconteceu no Brasil logo após
o fim do Regime Militar e estendeu anos 80 a dentro, gerando fome não só de alimentos, mas também de cultura,
diversão, artes e chances para poder ter uma vida realmente digna, tornando essa canção um verdadeiro protesto
contra os males que afligiam o país naquela época, tornando a letra muito atual. Confiram abaixo um vídeo com a
canção, prestem muita atenção na letra:
Família – Titãs
Família, família
Papai, mamãe, titia
Família, família
Almoça junto todo dia
Nunca perde essa mania
Mas quando a filha quer fugir de casa
Precisa descolar um ganha-pão
Filha de família se não casa
Papai, mamãe, não dão nem um tostão
Família êh! Família ah!
Família!
Família êh! Família ah!
Família!
Família, família
Vovô, vovó, sobrinha
Família, família
Janta junto todo dia
Nunca perde essa mania
Mas quando o neném fica doente (Uô! Uô!)
Procura uma farmácia de plantão
O choro do neném é estridente (Uô! Uô!)
Assim não dá pra ver televisão
Família êh! Família ah!
Família!
Família êh! Família ah!
Família!
Família, família
Cachorro, gato, galinha
Família, família
Vive junto todo dia
Nunca perde essa mania
A mãe morre de medo de barata (Uô! Uô!)
O pai vive com medo de ladrão
Jogaram inseticida pela casa (Uô! Uô!)
Botaram cadeado no portão
Família êh! Família ah!
Família!
Família êh! Familia ah!
Família!
Família êh! Família ah!
Família!
Família êh! Família ah!
Família!
Família êh! Família ah!
Família!
63
Família êh! Família ah! Família!
Reza Lenda
Dnaipes (compositor não disponível)
Reza a lenda que as crianças andavam
pelas ruas
E dormiam com historinhas de ninar
Reza a lenda que houveram adolescentes
de armadura
E foram contra a ditadura militar
Reza a lenda que as pessoas decoravam
faroeste
E era chato quem não sabia cantar
Reza a lenda que ouvi de um sonhador
Que o presente esta carente de amor
Reza a lenda que os livros eram a internet
Que as cartas eram nosso celular
Reza a lenda que os homens já sofriam de
pensar
Em tirar uma garota pra dançar
Reza a lenda que as pessoas se
encontravam mais
E cultivavam o amor
Reza a lenda que ouvi de um sonhador
Que o presente esta carente de amor
Todo dia é dia pra lembrar que temos tanto
a fazer
Seja a diferença tudo pode estar com você,
eu sei
Reza a lenda que ouvi de um sonhador
Que o presente está carente de amor
Todo dia é dia pra lembrar que temos tanto
a fazer
Seja a diferença tudo pode estar com você,
eu sei
Reza a lenda que ouvi de um sonhador
Que o presente está carente de amor
Cidadão
Zé Ramalho/ Zé Geraldo
Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
E me diz, desconfiado
Tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?
Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer
Tá vendo aquele colégio, moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Fiz a massa, pus cimento
Ajudei a rebocar
Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente
Pai, vou me matricular
Mas me diz um cidadão
Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar
Essa dor doeu mais forte
Por que é que eu deixei o norte?
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava
Mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer
Tá vendo aquela igreja, moço?
Onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também
64
Lá foi que valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que Cristo me disse
Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asa
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar
Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores
Geraldo Vandré
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
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Não espera acontecer
Caminhando e cantando e seguindo a canção / Somos todos iguais braços dados ou não:
representa as passeatas que reuniam, em sua maioria, jovens que tinham consigo um desejo
de mudança, ambições e sonhos, eram movidas a cartazes de protestos, a vozes gritantes que
entoavam hinos e músicas. Essa frase também nos mostra que independente de crenças e
ideias, as pessoas são iguais, estando elas do mesmo lado ou não.
Nas escolas nas ruas, campos, construções: as manifestações eram compostas de
pessoas de diversos ambientes, mas que possuíam o desejo de mudança em comum:
agricultores, operários, camponeses, mulheres, jovens, professores, jornalistas, intelectuais,
padres e bispos. No caso de professores, jornalistas e intelectuais eles eram censurados e
vigiados, o que depois de AI-5 ocorreu com maior intensidade, os professores não podiam
lecionar e mencionar nada referente ao golpe, os jornalistas tinham seus artigos e matérias
cortadas pela censura e os intelectuais eram proibidos de disseminar suas ideias e também de
publicá-las. Nas universidades não havia vagas e muitos jovens não conseguiam estudar,
mulheres eram descriminadas e impedidas de trabalhar, os operários sofriam com os baixos
salários, agricultores e camponeses tinham suas terras ocupadas e os padres e bispos eram
ameaçados, presos e muitas vezes expulsos do país. Então a maneira encontrada para
protestarem pelos seus direitos, era juntar-se aqueles que também possuíam ideias de
mudança e desejo por um país melhor.
Vem, vamos embora, que esperar não é saber: esse trecho contesta sobre aqueles que
sofriam o momento na pele e não faziam nada, afinal não se muda um país, ficando parado.
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer: refere-se também a essas pessoas que
preferiam ficar em silêncio em vez de tentar alcançar a mudança junto aos estudantes e aos
demais.
Pelos campos há fome em grandes plantações: as pessoas que trabalhavam nos campos,
ou que eram agricultores, também sofriam com a ditadura, os poucos que possuíam um
pedaço de terra a mesma lhe era tomada, os camponeses muitas vezes eram despejados e
acabavam por passar fome.
Pelas ruas marchando indecisos cordões: cordões é como ficou conhecido os grupos de
foliões que tomavam as ruas durante o carnaval, o nome refere-se a característica dos grupos
serem formados de forma que as pessoas se sucedem. Assim era composta algumas das
manifestações, como foi o caso da Passeata dos Cem Mil, que parecia ser dividida em blocos:
artistas, mães, padres, intelectuais e entre outros, que em muitos casos, caminhavam
indecisos ou com medo dos militares.
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão / E acreditam nas flores vencendo o canhão:
enquanto os militares reprimiam os protestantes com canhões, bombas de gás, e armas, a
população saia nas ruas com cartazes e com a força de suas vozes, muitos atirando pedras e
66
tudo o que se estivesse ao alcance, mas nada parecia ser tão forte e provocante quanto os
gritos, as palavras de ordem dos movimentos estudantis, frases e músicas daquele ano, essas
sim eram suas verdadeiras flores. Mas começaram a surgir grupos que não acreditavam mais
em democracia sem a violência, alguns grupos de radicais se formavam e gritavam em coro:
“Só o povo armado derruba a ditadura”, enquanto do outro lado um grupo militante gritava: “Só
o povo organizado conquista o poder”.
Há soldados armados, amados ou não / Quase todos perdidos de armas na mão: os
soldados estavam sempre armados e dispostos a prender os manifestantes e levá-los para as
salas do DOPS, porém, muitos pareciam alienados, não sabiam direito o que acontecia ou
fingiam não saber, para quem sabe assim se redimir da culpa de tantas mortes e
“desaparecimentos” da época. Mas tinham famílias, namoradas, mãe, irmãos podiam sim ser
amados por alguém ou então odiados por todos. Muitas manifestações foram, sobretudo contra
a violência dos policiais.
Nos quartéis lhes ensinam antigas lições / De morrer pela pátria e viver sem razão: Os
soldados aprendiam lições e como se houvesse uma lavagem cerebral aceitavam cumprir as
ordens do governo, mas acredito que em sua maioria muitos sabiam exatamente o que faziam
e concordavam com os planos e métodos. Como diz a frase eles aceitavam morrer pelo seu
país, mesmo que para isso eles fossem recriminados pela população e tivessem que viver sem
anseios e sem razão, afinal de contas eles só serviam para fazer o trabalho pesado para os
governantes. Somos todos soldados, armados ou não: na contradição de ser ou não soldados,
todos eram, a diferença esta nas armas e na motivação.
Os amores na mente, as flores no chão / A certeza na frente, a história na mão: a maioria,
se não todas as pessoas que participavam ativamente dos manifestos eram motivados pelas
perdas que sofriam, pelas mortes de amigos, parentes, conhecidos, pela dúvida do que
aconteciam com as pessoas que eram levadas. Alguns dos jovens quando crianças viram seus
pais serem levados por policiais e nunca mais tiveram noticias, muitos viram seus amigos
morrerem e o corpo simplesmente desaparecer e acabavam por não ter direito ao enterro,
alguns poucos voltavam e de outros nunca mais se ouvira, eram guiados pela certeza de que
poderiam mudar o mundo e pela história que cada um deles possuía.
Aprendendo e ensinando uma nova lição: Grande parcela dos jovens brasileiros de hoje,
desconhecem o período de 21 anos desde o golpe militar até o fim da ditadura, o desejo de
mudança, a fome por liberdade e a coragem de lutar não está entre as principais prioridades do
jovem do século XXI. O conformismo, a tecnologia, e várias outras novidades que surgiram
após 1968, impedem que estudantes despertem em si os mesmos desejos de mudança.
Muitos jovens não conseguem imaginar que existiu um tempo em que não havia internet,
raves, DVD, CD, TV em cores e muito menos TV a cabo, shopping centers, big brother, MSN,
orkut, entre outras coisas. Os jovens são movidos a saciar seus desejos e vontades muitas
vezes supérfluas e estão mais preocupados com o próprio bem-estar, muitos desperdiçam o
direito de voto, que infelizmente só foi conquistado após ditadura, direito esse que tanto foi
motivo de luta dos jovens que almejavam garantir sua opinião e participar da história do próprio
país. Insatisfação contra a corrupção, violência, injustiça, leis, governos, escolas, mas não
passam de apenas reclamações. A música de Geraldo Vandré é clara, nos conscientiza e
informa sobre o ano de 1968 e os demais que se seguiram de ditadura militar, nos faz repensar
sobre atitudes e ideais, sobre o velho e o novo, e de como o ditado “um por todos, e todos
contra um” foi tão intenso durante aqueles anos, os estudantes podem não ter derrubado a
ditadura, mas foram vistos e foram parte importante e indispensável da história. É
decepcionante saber de que nos tempos atuais, aceitamos o que nos é imposto, fazemos parte
de uma massa que cada vez mais parece alienada e movida às tecnologias. Não conseguimos
nos separar de bens materiais e tampouco lutar contra isso, nos conformamos e ficamos
67
aprisionados, o ano de 1968 ficou apenas como exemplo de uma geração de jovens com
ideais, alguns alienados sim, mas a maioria com esperança de um país melhor e capaz de lutar
pela liberdade e por aquilo que era lhes eram imposto. Mesmo depois de 40 anos essa
composição ainda pode nos expor a importância da luta pelos nossos objetivos, desejos e
ideais, mas principalmente de como o conhecimento dos próprios direitos e deveres é
imprescindível para que se construa uma sociedade melhor e democrática, além de ser o
nosso principal dever como cidadão.

A MÚSICA NA SALA DE AULA

  • 1.
    A MÚSICA NASALA DE AULA Org. Prof. Amilton Benedito Peletti TRABALHO COM MÚSICA...  Ouvir a música;  Conversar sobre o que acharam da música (ritmo e história nela contada);  Entregar a letra da música impressa e ouvir novamente;  Pesquisar no dicionário o significado das palavras desconhecidas;  Ouvir a música fazendo algumas pausas; chamar atenção para a história e instrumentos utilizados;  Representar a música por meio de desenho;  Debater sobre o conhecimento que a música trouxe sobre o conteúdo estudado.  Relação com o tema abordado;  Época em que foi escrita e composta, situar a música no contexto histórico que está sendo abordado;  Identificação da intenção do autor com a música;  A música foi composta e escrita no momento em que o assunto abordado estava acontecendo ou foi feita depois como forma de registro;  Linguagem utilizada: formal, informal, se apresenta regionalismos e gírias;  Atividades de entendimento da música como montagem de cartazes com figuras ou palavras, painéis, paródias, etc. [...] ―a música não é um substituto para os textos tradicionais, mas, sim, um complemento a eles‖ (Sjolie, 1997, p. 6). A Música Brasileira no Ensino de História O trabalho do historiador, ou a ―operação historiográfica‖, consiste na combinação de um lugar social, de práticas científicas e de uma escrita (CERTEAU, 2010, p. 66). Esta, fundamenta-se nas fontes, sejam elas escritas ou não. No ensino de História as fontes também são essenciais, são recursos usados para problematizar um determinado conteúdo ou conceito. [...] "o ensino de história deve estar articulado a diversificação de documentos, como imagens, canções, objetos arqueológicos, entre outros, na construção do conhecimento histórico‖. (PARANÁ, 2008, p. 53). Sobre o potencial documental da canção, o historiador David Treece afirma: A canção popular é claramente, muito mais do que um texto ou uma mensagem. Seu poder significante e comunicativo só é percebido como um processo social à medida em que o ato performático é capaz de articular e engajar uma comunidade de músicos e ouvintes numa forma de comunicação social." (TREECE, 2000, p. 128). Essa definição de canção popular como fonte histórica reafirma a relevância da música como recurso pedagógico e está em consonância com o objeto da História: "(...) os processos históricos relativos às ações e às relações humanas praticadas no tempo, bem como a respectiva significação atribuída pelos sujeitos, tendo ou não consciência dessas ações. As relações humanas produzidas por essas ações podem ser definidas como
  • 2.
    2 estruturas sócio históricas,ou seja, são as formas de agir, pensar, sentir, representar, imaginar, instituir e de se relacionar social, cultural e politicamente." (PARANÁ, 2008, p. 46) O trabalho com música no ensino de História exige uma abordagem específica e cabe ao professor selecionar seu material e escolher a opção metodológica mais adequada para facilitar o processo de ensino e aprendizagem. Ao escolher a música como um recurso didático é necessário planejar seu uso, ou seja, determinar em qual momento da aula a canção será usada e com qual será sua finalidade. A música, compreendida como um objeto de aprendizagem permite múltiplos usos e leituras. Os objetos de aprendizagem servem para ilustrar, mobilizar, explicar ou problematizar um determinado conteúdo ou conceito. A pesquisadora Katia Abud explica que ―no processo de aprendizagem as fontes se transformam em recursos didáticos, na medida em que são chamadas para responder perguntas e questionamentos adequados aos objetivos da história ensinada‖ (ABUD, 2005, p. 309). Nesse sentido, é interessante observar que a canção usada em sala de aula pode se desprender de seu contexto de produção e dos significados a ela atribuídos pelo autor e pela comunidade de ouvintes, ela passa ―a ser um instrumento para o desenvolvimento de conceitos na aula de história‖ (ABUD, 2005, p. 312). No entanto, a música também pode ser utilizada em sala de aula como fonte histórica, como usam os historiadores como matéria-prima de suas pesquisas. Entre os profissionais preocupados com a relação entre história e música, destaca-se o historiador Marcos Napolitano. Este pesquisador apresenta uma proposta de análise da canção popular nas esferas da produção, circulação e distribuição, articuladas às contribuições dos teóricos da Escola de Frankfurt e dos Estudos Culturais. De acordo com a literatura especializada, o processo de análise de fontes musicais devem seguir alguns procedimentos, chamados de análise externa e interna: "Com relação à análise externa do documento musical, é prudente compreendê-la subdividindo-a em dois campos distintos. A primeira instância deve tratar do contexto histórico mais amplo, situando os vínculos e relações do documento e seu(s) produtor(es) com seu tempo e espaço, tarefa comum e básica dos historiadores [...]. O segundo campo refere-se a outra especificidade da documentação, isto é, ao processo social de criação, produção, circulação e recepção da música popular". (MORAES, 2000, p. 216). Música e cultura: Todo povo tem a sua música Valéria Peixoto de Alencar Povos do mundo todo produziam música muito antes das primeiras orquestras, surgidas durante o barroco europeu, no século 16, e mesmo muito antes do século 11, quando Guido d'Arezzo criou a notação musical da forma como a estudamos até hoje. Feitas para cerimônias religiosas ou festivas, essas primeiras músicas, de diferentes culturas, nos influenciam até os dias atuais. Vários mitos africanos, asiáticos e americanos narram como os deuses inventaram os instrumentos musicais, durante a criação do mundo. Ainda hoje, para alguns povos, os instrumentos têm poderes sobrenaturais e permitem que os homens se comuniquem com seus ancestrais ou com os próprios deuses.
  • 3.
    3 Quando pensamos emmúsicas antigas, logo vem à mente a música clássica, as orquestras e seus instrumentos requintados. Dificilmente paramos para pensar na produção musical de povos indígenas, africanos, orientais... Isso talvez ocorra porque temos uma formação artística e musical proveniente do neoclassicismo, que, durante longo tempo, ignorou outro tipo música que não fosse a erudita. África É preciso salientar, primeiramente, que, ao falarmos de um grande continente, com povos muito diversos, corremos o risco de fazer generalizações. Ou seja, seria o mesmo que dizer que a música brasileira é apenas o samba. E isso vale para todos os lugares e culturas de que falaremos aqui. No caso da África, nos referimos aos povos da região subsaariana e aos elementos da musicalidade que vieram até nós, trazidos pelos escravos. Um dos elementos principais da música africana é o instrumento de percussão. Na África central, podemos encontrar um elemento comum entre as diversas tradições musicais: tambores, de todos os tipos e tamanhos. Desde cedo as crianças aprendem a tocar e cantar, pois a música é parte do cotidiano, utilizada para celebrar casamentos e nascimentos, para curar doenças e para acompanhar o trabalho. A cultura brasileira sofreu enorme influência da africana. No que se refere à música, além dos tambores utilizados em rituais religiosos, os escravos trouxeram ritmos como a umbigada e o maxixe, que deram origem ao samba. Oriente Médio Berço das religiões cristã, judaica e islâmica, o Oriente Médio é a região em que se desenvolveram as primeiras grandes civilizações de que temos notícia: Suméria, Assíria, Babilônia e Egito. É lá que encontramos os antecedentes de instrumentos modernos, como o violino, o oboé e o trompete. Índia Dó, ré, mi, fá, sol, lá e si: estas são as sete notas musicais que conhecemos. E a partir delas construímos as escalas e fazemos música em qualquer momento, certo? Sim, mas não na Índia. A música clássica indiana mais conhecida provém da Região Norte desse país. Ela se baseia numa complicada série de escalas chamadas ragas, cada uma destinada a uma situação, a uma hora do dia ou estação do ano em particular. Existem mais de 200 ragas diferentes. Para tocar esse tipo de música, com seu complexo padrão de notas e ritmos, o músico tem que se dedicar a muitos anos de estudo. Extremo Oriente Região formada por países de tradições musicais milenares, grande parte de sua música era escrita para danças da corte ou para o teatro. Também há músicas de cunho religioso, com instrumentos de percussão de todos os tipos - tambores, gongos e sinos -, usados para aplacar os deuses e afastar os demônios.
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    4 Oceania e ilhasdo Pacífico As milhares de ilhas espalhadas pelo Oceano Pacífico possuem uma tradição musical intimamente ligada ao mar, servindo, inclusive, para pedir aos deuses auxílio na navegação. No passado, os povos que viviam nessa região viajavam de ilha para ilha, levando consigo seus instrumentos - tambores, flautas e apitos. Dessa forma, povoaram as diversas ilhas, como Papua-Nova Guiné e Havaí. Américas Assim como em todas as regiões descritas até agora, temos que nos lembrar da vastidão do continente americano e da imensa quantidade de povos indígenas que o habitava antes da colonização europeia. Ainda assim, podemos encontrar elementos musicais comuns em muitas culturas. A música, por exemplo, na maioria das vezes era cantada e expressava a crença desses povos nos deuses relacionados à natureza. No Brasil, alguns mitos narram que a música teria sido um presente dos deuses, entristecidos com o silêncio no mundo dos humanos. Em outras lendas, a criação do mundo se mistura à criação da música. Assim, a música serve para ter contato com os deuses e os ancestrais. Num ritual, um discurso pode acabar em canto - ou vice-versa. Além da voz (canto), temos instrumentos como: chocalhos, guizos, bastões, tambores (percussão), apitos e flautas (sopro) - e zunidores. Referências ABUD, Katia Maria. Registro e representação do cotidiano: a música popular na aula de história. Disponível em: http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/modules/mydownloads_01/singlefile.php?cid=42&lid=6 848 ARAÚJO, Paulo César. Eu não sou cachorro, não! Música Popular Cafona e Ditadura Militar. São Paulo: Record, 2002. ARAÚJO, Samuel; CAMBRIA, Vincenzo Cambria; PAZ, Gaspar. Música em debate: perspectivas interdisciplinares. Rio de Janeiro: Editora Mauad, 2008. BRYAN, Guilherme. Quem tem um sonho não dança: cultura jovem brasileira nos anos 80. São Paulo: Record, 2004. CABRAL, Sérgio. A MPB na Era do rádio. São Paulo: Editora Moderna, s/d. CARDOSO, Ciro F.; VAINFAS, Ronaldo. Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. São Paulo: Editora Campus, 1997. CERTEAU, Michel de. A escrita da História. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. COSTA,Wellington B.; WORMS, Luciana S. Brasil século XX: ao pé da letra da canção popular. Curitiba: Nova didática, 2002. FERREIRA, Martins. Como usar a música na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2002. HOBSBAWM, Eric J. História Social do Jazz. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2008. HUNT, Lynn (Org.). A nova história cultural. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
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    5 MATOS, Claudia. Acerteino milhar: malandragem e samba no tempo de Getúlio. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. MORAES, José Geraldo Vinci de. História e música: canção popular e conhecimento histórico. Disponível em: http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/modules/mydownloads_01/singlefile.php?cid=42&lid=5 556 MOURA, Roberto M. No princípio, era a roda: um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes. Rio de Janeiro: Rocco, 2004. _______. Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1995. MUSSA, Alberto; SIMAS, Luiz Antonio. Samba de enredo: história e arte. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2010. NAPOLITANO, Marcos. História & Música. Editora Autêntica, 2002. _______. A síncope das idéias: a questão da tradição na música popular brasileira. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2007. _______. O fonograma como fonte para a pesquisa histórica sobre música popular: problemas e perspectivas. Disponível em: http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/modules/mydownloads_01/singlefile.php?cid=42&lid=6 855 _______; AMARAL, Maria Cecília; BORJA, Wagner Cafagni. Linguagem e canção: uma proposta para o ensino de História. Disponível em: http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/modules/mydownloads_01/singlefile.php?cid=42&lid=6 854>. PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. Diretrizes Curriculares de História para a Educação Básica. Curitiba: Seed, 2008. SALIBA, Elias T.; MORAES, José G. V. de (Orgs.). História e Música no Brasil. São Paulo: Alameda Editorial, 2010. SANDRONI, Carlos. Feitiço decente: transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor/Editora UFRJ, 2001. SOIHET, Rachel. A subversão pelo riso: estudos sobre o carnaval carioca da Belle Époque aos tempos de Vargas. Rio de Janeiro: Edufu, 2008. TREECE, David. A flor e o canhão: a bossa nova e a música de protesto no Brasil (1958/1968). História Questões e Debates. Jun/jul. Curitiba, 2000. VIANNA, Hermano. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor/Editora UFRJ, 2007.
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    6 Cacimba de Mágoa(part. Falamansa) Gabriel O Pensador O sertão vai virar mar É o mar virando lama Gosto amargo do Rio Doce De Regência a Mariana Mariana, Marina, Maria, Márcia, Mercedes, Marília Quantas famílias com sede, quantas panelas vazias? Quantos pescadores sem redes e sem canoas? Quantas pessoas sofrendo, quantas pessoas? Quantas pessoas sem rumo como canoas sem remos Como pescadores sem linha e sem anzóis? Quantas pessoas sem sorte, quantas pessoas com fome? Quantas pessoas sem nome, quantas pessoas sem voz? Adriano, Diego, Pedro, Marcelo, José Aquele corpo é de quem, aquele corpo quem é? É do Tião, é do Léo, é do João, é de quem? É mais um joão-ninguém, é mais um morto qualquer Morreu debaixo da lama, morreu debaixo do trem? Ele era filho de alguém, e tinha filho e mulher? Isso ninguém quer saber, com isso ninguém se importa Parece que essas pessoas já nascem mortas E pra quem olha de longe passando sempre por cima Parece que essas pessoas não têm valor São tão pequenas e fracas, deitando em camas e macas Sobrevivendo, sentindo tristeza e dor Quem nunca viu a sorte pensa que ela não vem E enche a cacimba de mágoa Hoje me abraça forte, corta esse mal, planta o bem Transforma lágrima em água O sertão vai virar mar É o mar virando lama Gosto amargo do Rio Doce De Regência a Mariana O sertão vai virar mar É o mar virando lama Gosto amargo do Rio Doce De Regência a Mariana Quem olha acima, do alto, ou na TV em segundos Às vezes vê todo mundo, mas não enxerga ninguém E não enxerga a nobreza de quem tem pouco, mas ama De quem defende o que ama e valoriza o que tem Antônio, Kátia, Rodrigo, Maurício, Flávia e Taís Trabalham feito formigas, têm uma vida feliz Sabem o valor da amizade e da pureza Da natureza e da água, fonte da vida Conhecem os bichos e plantas e como o galo que canta Levantam todos os dias com energia e com a cabeça erguida Mas vêm a lama e o descaso, sem cerimônia Envenenando o futuro e o presente Como se faz desde sempre na Amazônia Nas nossas praias e rios impunemente Mas o veneno e o atraso, disfarçado de progresso Que apodrece a nossa fonte e a nossa foz
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    7 Não nos faztirar os olhos do horizonte Nem polui a esperança que nasce dentro de nós É quando a lágrima no rosto a gente enxuga e segue em frente Persistente como as tartarugas e as baleias E nessa lama nasce a flor que a gente rega Com o amor que corre dentro do sangue, nas nossas veias Quem nunca viu a sorte pensa que ela não vem E enche a cacimba de mágoa Hoje me abraça forte, corta esse mal, planta o bem Transforma lágrima em água O sertão vai virar mar É o mar virando lama Gosto amargo do Rio Doce De Regência a Mariana O sertão vai virar mar É o mar virando lama Gosto amargo do Rio Doce De Regência a Mariana O sertão vai virar mar (o sertão virando mar) É o mar virando lama (o mar virando lama) Gosto amargo do Rio Doce (da lama nasce a flor) De Regência a Mariana (muita força, muita sorte) O sertão vai virar mar (mais justiça, mais amor) É o mar virando lama Gosto amargo do Rio Doce De Regência a Mariana O sertão vai virar mar É o mar virando lama Composição: Tato e Gabriel o Pensador Bela iniciativa do Falamansa e de Gabriel O Pensador em parceria com o Instituto Últimos Refúgios e o Instituto O Canal – um clipe musical que lamenta a tragédia ocorrida no Rio Doce e o completo descaso com a natureza e com as famílias afetadas. No YouTube, a banda Falamansa explica que ―cada visualização do clipe se transforma em uma doação para um fundo de assistência às famílias ribeirinhas com a finalidade de promover obras sociais comunitárias‖. O Meu País - Zé Ramalho Compositor: Livardo Alves - Orlando Tejo - Gilvan Chaves Tô vendo tudo, tô vendo tudo Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo Um país que crianças elimina Que não ouve o clamor dos esquecidos Onde nunca os humildes são ouvidos E uma elite sem Deus é quem domina Que permite um estupro em cada esquina E a certeza da dúvida infeliz Onde quem tem razão baixa a cerviz E massacram - se o negro e a mulher Pode ser o país de quem quiser Mas não é, com certeza, o meu país Um país onde as leis são descartáveis Por ausência de códigos corretos Com quarenta milhões de analfabetos E maior multidão de miseráveis Um país onde os homens confiáveis Não têm voz, não têm vez, nem diretriz Mas corruptos têm voz e vez e bis E o respaldo de estímulo incomum Pode ser o país de qualquer um Mas não é com certeza o meu país Um país que perdeu a identidade Sepultou o idioma português Aprendeu a falar pornofonês Aderindo à global vulgaridade
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    8 Um país quenão tem capacidade De saber o que pensa e o que diz Que não pode esconder a cicatriz De um povo de bem que vive mal Pode ser o país do carnaval Mas não é com certeza o meu país Um país que seus índios discrimina E as ciências e as artes não respeita Um país que ainda morre de maleita Por atraso geral da medicina Um país onde escola não ensina E hospital não dispõe de raio - x Onde a gente dos morros é feliz Se tem água de chuva e luz do sol Pode ser o país do futebol Mas não é com certeza o meu país Tô vendo tudo, tô vendo tudo Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo Um país que é doente e não se cura Quer ficar sempre no terceiro mundo Que do poço fatal chegou ao fundo Sem saber emergir da noite escura Um país que engoliu a compostura Atendendo a políticos sutis Que dividem o Brasil em mil Brasis Pra melhor assaltar de ponta a ponta Pode ser o país do faz-de-conta Mas não é com certeza o meu país Tô vendo tudo, tô vendo tudo Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo 500 Anos de Sobrevivência Gabriel O Pensador 500 anos de vida, 500 anos de sobrevivência, 500 anos de história, 500 anos de experiência, 500 anos de batalhas, derrotas e vitórias, Desordem e progresso, fracasso, sucesso, Dor e alegria, tristeza e paixão, 500 anos de trabalho, e a obra ainda está em construção, A luta continua, a vida continua, Apesar do sangue que escorre, O guerreiro não se cansa e acredita na mudança, Porque a esperança é última que morre. Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir vencer? Eu odeio tudo isso mas eu tenho que saber, O que eu leio no jornal e eu vejo na TV, Eu odeio tudo isso mais eu tenho que vencer, Porque eu tenho um compromisso com a vida e com você, O que eu vejo no jornal não me deixa feliz, Mas não mudo de canal e não mudo de país, Eu tenho medo, porque o medo está no ar, Mas ainda é cedo pra deixar tudo pra lá, Não adianta ficar aqui á toa, Só esperando pra ouvir notícia boa, O que se planta é o que se colhe, O futuro é um presente que a gente mesmo escolhe, A semente já está no nosso chão, Agora é só regar com a mente e o coração, A transformação da revolta em amor, Faz a água virar vinho e o espinho virar flor, Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir vencer? Não adianta ficar aqui é toa, Só esperando pra ouvir notícia boa, O que se planta é o que se colhe, O futuro é um presente que a gente mesmo escolhe, A semente já está no nosso chão,
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    9 Agora é sóregar com a mente e o coração, A transformação da revolta em amor, A transformação... Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir vencer? Nem todos que sonharam conseguiram, mas pra conseguir é preciso sonhar. Composição: Gabriel O Pensador História do Brasil Edson Gomes Eu vou contar pra vocês Certa história do Brasil Foi quando Cabral descobriu Este país tropical Um certo povo surgiu Vindo de um certo lugar Forçado a trabalhar neste imenso país E era o chicote no ar E era o chicote a estalar E era o chicote a cortar Era o chicote a sangrar Um, dois, três até hoje dói Um, dois, três, bateu mais de uma vez Por isso é que a gente não tem vez Por isso é que a gente sempre está Do lado de fora Por isso é que a gente sempre está Lá na cozinha Por isso é que a gente sempre está fazendo O papel menor O papel menor O papel menor Ou o papel pior Hereditário Edson Gomes Era assim, era assim, sim, sim, sim No nascer do dia meu pai ia lá E na morte do dia ele vinha Ele trazia sempre o suor no rosto O corpo cansado e nada no bolso Era assim, era assim, sim, sim, sim Hoje eu que saio Sou eu que trabalho Conheço a dureza De toda essa vida Pai de família, pai de família Hoje é assim, hoje é assim, sim, sim Trago sempre o suor correndo no rosto O corpo cansado e nada no bolso Sangue Azul - Edson Gomes Eles queriam um mundo só de azul (só de azul 3x) Eles queriam, e como eles queriam Eles queriam que fossemos apenas objeto sexual Objeto Profissional Eles queriam, e como eles queriam Mas o poder, que vem do alto Não planejou assim E nós crescemos, nos espalhamos E aqui vamos nós, caminhando Em cada esquina, em cada praça, nos becos da cidade Mesmo que o rádio não toque, mesmo que a TV não mostre Aqui vamos nós, cantando reggae, aleluia Jah!(2x)
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    História Do Brasil JorgeAragão Eu vi Não vou esquecer jamais De alguém que fez dos desiguais Um povo unido em mutirão Numa só direção Pra não ser vencido Pelas garras da opressão Eu vi Das planícies e serras Dos confins desta terra Elevar-se um anseio Tão forte mas calou como veio Quando a sombra da morte Encobriu todos nós Juro que... Eu vi Quase tudo deu certo Quem não viu chegou perto Mas nos legou um sonho Risinho Hoje, vejo meu povo Merecendo de novo Ser feliz Agora é lutar Por tudo que ele quis É hora de mudar Conheço o meu país Agora é lutar Por tudo que ele quis É hora de mudar Índios, de Legião Urbana Esta canção fala por si só: a conquista do Brasil pelos portugueses, e da América Latina pelos espanhóis, e o processo de dominação dos indígenas que viviam na América. Índios Legião Urbana Compositor: Renato Russo Quem me dera, ao menos uma vez Ter de volta todo o ouro que entreguei A quem conseguiu me convencer Que era prova de amizade Se alguém levasse embora até o que eu não tinha Quem me dera, ao menos uma vez, Esquecer que acreditei que era por brincadeira Que se cortava sempre um pano-de-chão De linho nobre e pura seda. Quem me dera, ao menos uma vez, Explicar o que ninguém consegue entender: Que o que aconteceu ainda está por vir E o futuro não é mais como era antigamente. Quem me dera, ao menos uma vez, Provar que quem tem mais do que precisa ter Quase sempre se convence que não tem o bastante E fala demais por não ter nada a dizer Quem me dera, ao menos uma vez, Que o mais simples fosse visto como o mais importante Mas nos deram espelhos E vimos um mundo doente. Quem me dera, ao menos uma vez, Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três E esse mesmo Deus foi morto por vocês É só maldade então, deixar um Deus tão triste. Eu quis o perigo e até sangrei sozinho. Entenda - assim pude trazer você de volta pra mim Quando descobri que é sempre só você Que me entende do inicio ao fim E é só você que tem a cura pro meu vício De insistir nessa saudade que eu sinto De tudo que eu ainda não vi Quem me dera, ao menos uma vez Acreditar por um instante em tudo que existe E acreditar que o mundo é perfeito
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    11 E que todasas pessoas são felizes Quem me dera, ao menos uma vez Fazer com que o mundo saiba que seu nome Está em tudo e mesmo assim Ninguém lhe diz ao menos obrigado Quem me dera, ao menos uma vez Como a mais bela tribo, dos mais belos índios Não ser atacado por ser inocente Eu quis o perigo e até sangrei sozinho Entenda: assim pude trazer você de volta pra mim Quando descobri que é sempre só você Que me entende do início ao fim E é só você que tem a cura pro meu vício De insistir nessa saudade que eu sinto De tudo que eu ainda não vi Nos deram espelhos e vimos um mundo doente Tentei chorar e não consegui A música índios da Legião Urbana nos proporciona a fazermos uma análise histórica através de sua letra. Com a letra podemos analisar os primeiros anos de descobrimento do Brasil e um pouco da relação entre colonizador e colonizado. Os primeiros contatos entre os portugueses e os indígenas aconteceu de forma amigável, os portugueses acabaram utilizando esse comportamento dos índios para retirar as riquezas visíveis até o momento no caso o Pau-Brasil. Os indígenas sempre foram vistos como inocentes pelo branco, principalmente pela igreja católica. Com a chegada dos europeus a vida no continente americano mudou, muitos índios acabaram sendo escravizados ou mortos e os que sobreviveram tiveram que se deslocar para o interior do território. A ambição do homem branco é uma das características que mais se diferencia da dos índios, o indígena na sua cultura não tem a necessidade de acumulação de bens. Um dos objetos que mais fizeram sucesso no escambo realizado entre os índios e os brancos foi o espelho. Essa cordialidade entre as duas culturas acabou levando a mudanças na vida do índio e no seu território. Juntamente com os colonizadores chegou a religião católica principalmente através dos jesuítas que tinham como objetivo catequizar os nativos. A resistência indígena sempre existiu no Brasil, muitos tribos lutaram contra o colonizador, essa luta pela sobrevivência muitas vezes levou a morte de tribos inteiras. Podemos entender como sendo saudades da época antes da chegada do colonizador. No trecho podemos entender como uma alusão a vida indígena sem a presença do homem branco, com os nativos vivendo de acordo com sua cultura. Os índios tem uma visão de mundo diferente da do homem branco com mais responsabilidades em relação ao planeta. Muitos índios foram atacados pelos europeus principalmente em busca de mão-de-obra escrava, seja, para trabalhar nos primeiros engenhos de açúcar ou mesmo para serem enviados para Europa como seres exóticos. A resistência indígena sempre existiu no Brasil, muitas tribos lutaram contra o colonizador, essa luta pela sobrevivência muitas vezes levou a morte de tribos inteiras. Podemos entender como sendo uma saudade de uma época antes da chegada do colonizador. Nesse último trecho vemos a mudança no mundo indígena com o índio enxergando o resultado da exploração do Brasil.
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    12 Curumim Chama CunhatãQue Eu Vou Contar (Todo Dia Era Dia de Índio) Baby do Brasil - Compositor: Jorge Ben Jor Curumim chama cunhata que eu vou contar Cunhata chama curumim que eu vou contar Curumimm, Cunhataa Cunhataa, Curumimm Antes que os homens aqui pisassem nas ricas e férteis terras brasilis Que eram povoadas e amadas por milhões de índios Reais donos felizes da terra do pau Brasil Pois todo dia e toda hora era dia de índio Mas agora eles tem só um dia Um dia dezenove de abril Amantes da pureza e da natureza Eles são de verdade incapazes De maltratarem as fêmeas Ou de poluir o rio, o céu e o mar Protegendo o equilíbrio ecológico Da terra, fauna e flora pois na sua história O índio é exemplo mais puro Mais perfeito, mais belo Junto da harmonia, da fraternidade E da alegria, da alegria de viver Da alegria de amar Mas no entanto agora O seu canto de guerra É um choro de uma raça inocente Que já foi muito contente Pois antigamente Todo dia era dia de índio Inclassificáveis - Arnaldo Antunes que preto, que branco, que índio o quê? que branco, que índio, que preto o quê? que índio, que preto, que branco o quê? que preto branco índio o quê? branco índio preto o quê? índio preto branco o quê? aqui somos mestiços mulatos cafuzos pardos mamelucos sararás crilouros guaranisseis e judárabes orientupis orientupis ameriquítalos luso nipo caboclos orientupis orientupis iberibárbaros indo ciganagôs somos o que somos inclassificáveis não tem um, tem dois, não tem dois, tem três, não tem lei, tem leis, não tem vez, tem vezes, não tem deus, tem deuses, não há sol a sós aqui somos mestiços mulatos cafuzos pardos tapuias tupinamboclos americarataís yorubárbaros. somos o que somos inclassificáveis que preto, que branco, que índio o quê? que branco, que índio, que preto o quê? que índio, que preto, que branco o quê? não tem um, tem dois, não tem dois, tem três, não tem lei, tem leis, não tem vez, tem vezes, não tem deus, tem deuses,
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    13 não tem cor,tem cores, não há sol a sós egipciganos tupinamboclos yorubárbaros carataís caribocarijós orientapuias mamemulatos tropicaburés chibarrosados mesticigenados oxigenados debaixo do sol Mestiço: proveniente de raças diferentes. Mulato: Filho de pai branco e mãe preta. Cafuzo: mestiço de negro e índio. Pardo: mulato. Mameluco: filho de índio com branco. Sarará: mestiço de cabelo ruivo. Crilouro: crioulo: negro nascido na América; louro: aquele que tem cabelo louro (de cor amarelo tostado, entre o dourado e o castanho claro. Guaranissei: guarani: Indivíduo dos guaranis, povo indígena da família lingüística tupi guarani; nissei: diz-se de, ou filho de pais japoneses que emigraram. Judárabe: judeu: o natural ou habitante da judéia (Israel), aquele que segue a religião judaica; o indivíduo semita da Arábia (Península Arábica). Orientupi: oriental: relativo ao oriente ou situado lá, ou de lá originário, ou que lá vive; tupi: indivíduo dos tupis, denominação comum aos povos indígenas do litoral brasileiro cujas línguas pertenciam à mesma família ou tronco que a dos tupis. Ameriquítalo: americano: natural ou habitante do continente americano; ítalo: italiano. Luso: da Lusitânia e seus habitantes, portugueses. Nipo: japonês. Caboclos: mestiço de branco com índio. Iberibárbaro: ibérico: da Ibéria, antigo nome da Espanha; bárbaros: denominação que gregos e romanos davam aos estrangeiros, considerados sem civilização. Indo: grupo de línguas indo-européias da Ásia (sânscrito, híndi, bengali, guzerate, etc.). Ciganagô: cigano: indivíduo de um povo nômade. nagô: diz-se de uma casta de negros do grupo sudanês. Tapuia: designação dada pelos índios de língua tupi guarani aos povos indígenas cujas línguas pertencem a outro tronco lingüístico; indivíduo bravo, mestiço de índio. Tupinamboclo: tupinambá: indivíduo dos tupinambás, povo indígena extinto, da família lingüística tupi guarani, que habitava a costa brasileira. CABOCLO. Americarataí: AMERICANO; carataí: (?) Yorubárbaro: yorubá: grupo nígero-comeruniano. Egipcigano: egípcio: natural ou habitante do Egito. Caribocarijó: caribo: um tipo de dança (cariboca: caboclo); carijó: índios carijós, indígenas que ocupavam o território que ia de Cananéia, estado de São Paulo. Tropicaburé: tropical: situado entre os trópicos, ardente, abrasador; caburé: cafuzo, caboclo. Chibarrosado: (?) Mesticigenado: MESTIÇO; miscigenado: proveniente de raças diferentes.
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    14 Lourinha Bombril -Os Paralamas do Sucesso Pára e repara Olha como ela samba Olha como ela brilha Olha que maravilha Essa crioula tem o olho azul Essa lourinha tem cabelo bombril Aquela índia tem sotaque do Sul Essa mulata é da cor do Brasil A cozinheira tá falando alemão A princesinha tá falando no pé A italiana cozinhando o feijão A americana se encantou com Pelé Häagen-dazs de mangaba Chateau canela-preta Cachaça made in Carmo dando a volta no planeta Caboclo presidente Trazendo a solução Livro pra comida, prato pra educação Pára e repara Olha como ela samba Olha como ela brilha Olha que maravilha Essa crioula tem o olho azul Essa lourinha tem cabelo bombril Aquela índia tem sotaque do Sul Essa mulata é da cor do Brasil A cozinheira tá falando alemão A princesinha tá falando no pé A italiana cozinhando o feijão A americana se encantou com Pelé Häagen-dazs de mangaba Chateau canela-preta Cachaça made in Carmo dando a volta no planeta Caboclo presidente Trazendo a solução Livro pra comida, prato pra educação Pára e repara Olha como ela samba Olha como ela brilha Olha que maravilha Häagen-dazs de mangaba Chateau canela-preta Cachaça made in Carmo dando a volta no planeta Caboclo presidente Trazendo a solução Livro pra comida, prato pra educação Pára e repara Olha como ela samba Olha como ela brilha Olha que maravilha QUEM É ESSA TAL DE ―LOURINHA BOMBRIL‖ QUE CANTA OS PARALAMAS DO SUCESSO? Você com certeza já parou para pensar em quem é a Lourinha Bombril que canta a música dos Paralamas do Sucesso. E se você prestar atenção na letra da canção, vai entender de cara que ela fala da mulher brasileira. O título nos remete a ideia de miscigenação, pois o ―cabelo bombril‖ sempre foi uma referência ao cabelo dos negros; e as ―loirinhas‖ são sempre lembradas como garotas norte-americanas. Uma prova de que ―Lourinha Bombril‖ fala sobre uma brasileira é a primeira frase da música, que diz: ―Pára e repara, olha como ela samba…‖ Qual dos povos do mundo é um apaixonado por samba? Nós, os brasileiros. Outra prova, é o trecho: ―Essa mulata é da cor do Brasil‖. Gente! Tá estampadasso que eles estão falando das mulheres brasileiras. E se você levar para um lado mais literal, pode transformar os versos de Herbert Viana em um poema incrível, que tem como tema central a mistura de raças que aconteceu desde sempre nesse nosso país. E a gente não está falando só da mistura da pele, mas das misturas culturais em geral.
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    15 Miscigenação - ZéPotiguar Somos todos brasileiros Pretos, brancos ou vermelhos Somos índios, somos negros Somos da miscigenação Somos uma grande legião Somos o futuro de uma nação Vamos ter força pra lutar Pra um dia termos o que comemorar Será que esse dia vai chegar? Da tua força eu quero a glória Da união quero a vitória Vamos escrever a nossa história Só depende de nós, da nossa coragem Só depende de nós, da nossa vontade Só depende de nós, da nossa coragem Vocês! Só depende de nós, da nossa vontade Somos todos brasileiros Pretos, brancos ou vermelhos Somos índios, somos negros Somo da miscigenação Somos uma grande legião Somos o futuro de uma nação Vamos ter força pra lutar Pra um dia termos o que comemorar Será que esse dia vai chegar? Desses laranjas eu quero o suco Pra nunca mais obter lucro De jeitinho ou traição Da tua força eu quero a glória Da união quero a vitória Vamos escrever a nossa história ETNIA - Chico Science & Nação Zumbi Somos todos juntos uma miscigenação E não podemos fugir da nossa etnia Índios, brancos, negros e mestiços Nada de errado em seus princípios O seu e o meu são iguais Corre nas veias sem parar Costumes, é folclore é tradição Capoeira que rasga o chão Samba que sai da favela acabada É hip hop na minha embolada É o povo na arte É arte no povo E não o povo na arte De quem faz arte com o povo Por de trás de algo que se esconde Há sempre uma grande mina de conhecimentos e sentimentos Não há mistérios em descobrir O que você tem e o que gosta Não há mistérios em descobrir O que você é e o que você faz Maracatu psicodélico Capoeira da Pesada Bumba meu rádio Berimbau elétrico Frevo, Samba e Cores Cores unidas e alegria Nada de errado em nossa etnia. Miscigenação - Paulo Matricó Humano está em movimento No complicar da equação O tempo por cento e a soma do vento dizem mutação (2x) Total igual a miscigenação Jeito na dor do sertão e Caiapoque na África Rastafari, curumim é linho naço-arábico Germano é hermano de negro, caboclo, galego, tupias e árdicos Humano está em movimento No complicar da equação O tempo por cento e a soma do vento dizem mutação (2x) Total igual a miscigenação Jeito na dor do sertão e Caiapoque na África Haja vista uma expressão que exploração é múltiplo Mas existe uma fração que o coração é lúdico
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    16 Futuro será umsó povo em todo o Planeta falando a mesma língua: o amor. (2x) Misturas de Raças - Genival Lacerda Compositor: (pinto do Acordeon) Meu avô é holandês Minha avó é africana O meu pai é português E a minha mãe baiana Eu nasci na paraíba No recanto brasileiro Onde as praias são bonitas Onde o sol nasce primeiro Tenho um parente inglês Japonês, italiano Tem um primo que é francês O outro é índio alagoano Sou mulato, sarará Mais meu sangue é de primeira É a mistura de raça Da genética brasileira O meu sangue viajou, navegou pelos mares Foi parar no quilombo em zumbi dos palmares O meu sangue viajou, navegou pelos mares Meu País - Zezé Di Camargo e Luciano Aqui não falta sol Aqui não falta chuva A terra faz brotar qualquer semente Se a mão de Deus Protege e molha o nosso chão Por que será que tá faltando pão? Se a natureza nunca reclamou da gente Do corte do machado, a foice, o fogo ardente Se nessa terra tudo que se planta dá Que é que há, meu país? O que é que há? Se nessa terra tudo que se planta dá Que é que há, meu país? O que é que há? Tem alguém levando lucro Tem alguém colhendo o fruto Sem saber o que é plantar Tá faltando consciência Tá sobrando paciência Tá faltando alguém gritar Feito um trem desgovernado Quem trabalha tá ferrado Nas mãos de quem só engana Feito mal que não tem cura Estão levando à loucura O país que a gente ama Feito mal que não tem cura Estão levando à loucura O Brasil que a gente ama 500 Anos - Chitãozinho & Xororó O meu país é uma arena gigantesca Onde eu bebo água fresca nas cacimbas do sertão Sou berranteiro, andarilho, sou matreiro Sou peão, sou boiadeiro na poeira desse chão E lá se vão 500 anos de galope Não duvide que eu tope contar tudo que eu já vi No meu cavalo por esse Brasil a fora Eu passeio pela história, do Oiapoque ao Chuí Eu vi chegando caravelas do futuro lá no meu Porto Seguro Quando o sol trazia luz Vi bandeirante atrás de ouro e diamante Nos lugares mais distantes da terra de Santa Cruz Andei nos Pampas, vi a Guerra dos Farrapos E por um triz não escapo no meu ligeiro alazão Vi Tiradentes, vi Antônio conselheiro Lampião Índio guerreiro, padre Cícero Romão Eu vi Zumbi, negro arisco dos Palmares
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    17 Ecoando pelos aresfeito uma oração De um cavaleiro, escutei um grito forte De independência ou morte à beira de um riachão Eu sou o tempo, fui eu quem mudou os ventos Mas já são outros 500 Que vou contar noutra canção Presidente Bossa Nova, de Juca Chaves Tido como governante de vanguarda, Juscelino Kubitschek é retratado indiretamente nesta música do sambista Juca Chaves. A simpatia e os excessos de JK não passam em branco nos versos cantados. Presidente Bossa Nova - Juca Chaves Bossa nova mesmo é ser presidente Desta terra descoberta por Cabral Para tanto basta ser tão simplesmente Simpático, risonho, original. Depois desfrutar da maravilha De ser o presidente do Brasil, Voar da Velha cap pra Brasília, Ver a alvorada e voar de volta ao Rio. Voar, voar, voar, voar, Voar, voar pra bem distante, Até Versalhes onde duas mineirinhas valsinhas Dançam como debutante, interessante! Mandar parente a jato pro dentista, Almoçar com tenista campeão, Também poder ser um bom artista exclusivista Tomando com Dilermando umas aulinhas de violão. Isto é viver como se aprova, É ser um presidente bossa nova. Bossa nova, muito nova, Nova mesmo, ultra nova! Vai Passar Chico Buarque Compositor: Francis Hime - Chico Buarque Vai passar Nessa avenida um samba popular Cada paralelepípedo Da velha cidade Essa noite vai Se arrepiar Ao lembrar Que aqui passaram sambas imortais Que aqui sangraram pelos nossos pés Que aqui sambaram nossos ancestrais Num tempo Página infeliz da nossa história Passagem desbotada na memória Das nossas novas gerações Dormia A nossa pátria mãe tão distraída Sem perceber que era subtraída Em tenebrosas transações Seus filhos Erravam cegos pelo continente Levavam pedras feito penitentes Erguendo estranhas catedrais E um dia, afinal Tinham direito a uma alegria fugaz Uma ofegante epidemia Que se chamava carnaval O carnaval, o carnaval (Vai passar) Palmas pra ala dos
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    18 barões famintos O blocodos napoleões retintos E os pigmeus do bulevar Meu Deus, vem olhar Vem ver de perto uma cidade a cantar A evolução da liberdade Até o dia clarear Ai, que vida boa, olerê Ai, que vida boa, olará O estandarte do sanatório geral vai passar Ai, que vida boa, olerê Ai, que vida boa, olará O estandarte do sanatório geral Vai passar 1986 © - Marola Edições Musicais Ltda. A letra da música Vai Passar do cantor e compositor Chico Buarque de Holanda, foi escrita em meados da década de 80, num período conturbado da história brasileira que foi o fim da ditadura militar. A obra pode ser associada especialmente aos seguintes autores debatidos em sala, sendo eles: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Joaquim Nabuco. A letra faz uma crítica veemente ao Estado e ao período colonial brasileiro. Faz um enredo sobre a história do Brasil desde tal período com o ―descobrimento‖ do Brasil até a ditadura militar em 1984. Analisando trechos da letra, especificamente nos trechos: ―Que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sambaram nossos ancestrais, num tempo página infeliz da nossa história...” é perceptível que o cantor faz uma referência ao período da escravidão vivenciada no Brasil, no qual narram os autores citados, especialmente Caio Prado Júnior e Joaquim Nabuco que fazem um retrospecto ao período colonial brasileiro, tal página infeliz, como expõe a música seria o período da escravidão, com a exploração da mão-de-obra escrava pelos portugueses. Na parte da música: “levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais” pode se referir a imposição ao negro de uma cultura não vivenciada por eles, sendo imposta pelos portugueses. Joaquim Nabuco analisou que em nossa sociedade “O negro construiu um país para outros; o negro construiu um país para brancos”. Mas, ‖um dia, afinal, tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava carnaval‖. O samba pode ser considerado a representação da cultura negra, uma expressão artística, o estilo musical dessa categoria marginalizada. Na parte da música: “palmas pra ala dos barões famintos, o bloco do napoleões retintos e os pigmeus do boulevard” demonstra uma crítica aos colonos, a elite portuguesa e quem mantinha o poder na época. Assim, a letra da música se mescla entre o período colonial brasileiro e com o período de opressão da ditadura militar, A liberdade obtida tanto pela alforria da escravatura quanto pelo período pós-ditadura, como exposto no seguinte trecho da música: “Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar a evolução da liberdade até o dia clarear”. ―Dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações‖. Caio Prado, assim como os outros autores citados relatam a relação de exploração de Portugal e Inglaterra, onde quem, literalmente, pagou os prejuízos da dívida portuguesa foi o Brasil.
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    19 O autor SérgioBuarque de Holanda em Raízes do Brasil aborda aspectos centrais da história da cultura brasileira que estão intrinsecas a letra da música citada, haja vista, sobretudo, a importância do legado cultural da colonização portuguesa do Brasil, junto com "Casa-Grande & Senzala", de Gilberto Freire e "Formação do Brasil Contemporâneo‖, de Caio Prado Jr. são obras consideradas excêntricas para a compreensão da verdadeira história do processo de formação da sociedade até os nossos dias atuais. “Dormia a nossa pátria mãe, tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”. Por Rodrigo Nagem de Aragão, estudante de história do DH-USP, em ocasião do aniversário do Golpe Militar de 1964. Há 51 anos, no dia primeiro de abril de 1964, tinha início a Ditadura Militar, um sombrio capítulo de nossa história que persistiu por longos 21 anos – desde o golpe que levou à deposição do presidente João Goulart até o início da Nova República, com o processo da ―redemocratização‖ (ou, como se convém chamar, o processo de retorno ao parlamentarismo burguês, a ―ditadura democrática‖ das classes dominantes). Pressionada pelo governo dos Estados Unidos, cuja postura com relação à América Latina se tornara mais assertiva após o triunfo da Revolução Cubana em 1959, e preocupada em assegurar o poder do Estado e prevenir que o reformismo do governo de João Goulart pudesse abrir espaço para caminhos mais radicais, a burguesia brasileira, nas condições postas, abraçou a via do golpe, contando com o amplo apoio logístico e operacional de órgãos de inteligência estadunidenses (com destaque para o IBAD e o IPES). E, deste modo, no dia primeiro de abril de 1964, Joao Goulart foi forçosamente destituído do cargo de presidente da República. O regime que então se seguiu foi marcado por uma série de crimes hediondos e violações aos direitos humanos, desde o cerceamento dos direitos civis e das garantias constitucionais até as práticas de tortura e assassinato, atrocidades cometidas principalmente na perseguição sistemática à esquerda brasileira, especialmente os comunistas. A Ditadura Militar encarregou-se de, por um lado, esvaziar as esferas democráticas, desarticulando as reformas sociais e econômicas intencionados pelo governo de João Goulart, e, por outro lado, institucionalizar um brutal processo de repressão contra a esquerda. Assim, a soldo das elites e por meio da violência generalizada, os militares esforçaram-se para liquidar as organizações progressistas, no geral, e as organizações revolucionárias, de inclinação comunista, em específico. À época, partidos políticos, centrais sindicais, ligas camponesas e diversos movimentos sociais (estudantis, religiosos, etc.) tornaram-se alvos compulsórios dos órgãos de repressão da Ditadura – e, mais adiante, também os grupos de luta armada, formados após o recrudescimento da perseguição política; com requintes de crueldade, incontáveis militantes de tais organizações foram encarcerados, mutilados e chacinados, casos atrozes que, em sua maioria, permanecem até hoje sem esclarecimento público e cujos responsáveis seguem impunes, uma vez que, anistiados, jamais chegaram a responder por seus crimes. Desta forma, sob uma montanha de cadáveres, o regime militar cumpriu o seu papel: ossificou a vida política do país e, sob tal conjuntura, garantiu a primazia dos interesses econômicos e políticos das classes dominantes, atendendo igualmente aos propósitos do imperialismo norte-americano com relação ao Brasil. Os resultados da tarefa bem-sucedida levada a cabo pelos militares se fazem sentir – e com muito peso – até hoje: o poderio político e econômico de monstruosas associações empresariais, formadas a partir de negociações entre grupos envolvidos nos bastidores do golpe militar e que até hoje reinam sobre largos setores da indústria brasileira; a elevada concentração de terras nas mãos de um ínfimo punhado de latifundiários, agraciados durante a Ditadura por uma série de leis aprovadas em detrimento da reforma agrária e em benefício do
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    20 crescente acúmulo dapropriedade fundiária, fato que entrava o desenvolvimento econômico do campo e condena milhares de famílias campesinas à miséria extrema; a cristalização das práticas de corrupção no seio da atividade parlamentar a partir da associação do Estado com grandes grupos econômicos, ocorrência inerente ao próprio capitalismo, mas fortemente propiciada pelo regime militar, como, por exemplo, é o caso das famosas ―quatro irmãs‖ (Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez), empreiteiras que foram amplamente beneficiadas por contratos milionários firmados em parceria com a Ditadura e que, hoje em dia, lideram as listas de financiamento privado de campanhas eleitorais e marcam presença nos casos mais recentes de corrupção envolvendo esquemas de licitação pública; a subserviência da economia nacional às instituições financeiras privadas, principalmente os bancos estrangeiros, quadro incentivado após 1964 e que nos remete à atual dívida pública do país, cuja amortização compromete quase 50% do orçamento federal; e a permanência de práticas de repressão à moda fascista, herança direta dos métodos de procedimento policial instaurados pelos militares, cujo reflexo mais claro é a presente campanha de extermínio promovida pela polícia militar contra a população pobre, trabalhadora e negra que habita as periferias dos grandes centros urbanos brasileiros. Passados trinta anos do fim da Ditadura Militar, ponderando sua relação com o nosso presente e colocando em perspectiva os seus efeitos, permanecem atuais, pois, os versos de Chico Buarque: ―Dormia a nossa pátria mãe, tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações‖. Para saber mais sobre a Ditadura Militar: – Análise crítica do sociólogo Carlos Eduardo Martins acerca do regime militar:http://dincao.com.br/noticias/?p=2811 – Relatório final apresentado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV):http://dincao.com.br/noticias/?p=2804 – A participação dos EUA na elaboração e efetivação do golpe militar:http://dincao.com.br/noticias/?p=2835 – ―O dia que durou 21 anos‖, documentário dirigido por Camilo Galli Tavares sobre o envolvimento do governo dos Estados Unidos na preparação, desde 1962, do golpe militar executado em 1964: O dia que durou 21 anos from Ivan Fayvit on Vimeo. – A relação entre a Ditadura Militar e a Operação Condor: http://dincao.com.br/noticias/?p=2884 – Especial ―À espera da verdade‖, conjunto de documentos, artigos e entrevistas a respeito do regime militar: http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/68036/Ultima+instancia+inaugura+es pecial+a+espera+da+verdade+45+anos+do+ai_5+50+anos+do+golpe.shtml – Site da Comissão Nacional da Verdade, contendo os relatórios dos trabalhos de investigação e discussão realizados pela CNV e links para a documentação pesquisada e analisada: http://www.cnv.gov.br/ – Site ―Memórias da Ditadura‖, portal lançado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos com um amplo acervo de imagens, informações e documentários sobre a Ditadura Militar: http://memoriasdaditadura.org.br/ Um Comunista, de Caetano Veloso Caetano faz uma grande homenagem a Carlos Marighella, combatente na luta contra a ditadura. O músico narra na música o episódio da morte do líder da Ação Libertadora Nacional (ALN).
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    21 Um Comunista -Caetano Veloso Um mulato baiano, Muito alto e mulato Filho de um italiano E de uma preta uçá Foi aprendendo a ler Olhando mundo à volta E prestando atenção No que não estava a vista Assim nasce um comunista Um mulato baiano que morreu em São Paulo baleado por homens do poder militar nas feições que ganhou em solo americano A dita guerra fria Roma, França e Bahia Os comunistas guardavam sonhos Os comunistas! Os comunistas! O mulato baiano, mini e manual do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas depois por Magalhães por fim, pelos milicos sempre foi perseguido nas minúcias das pistas Como são os comunistas? Não que os seus inimigos estivessem lutando contra as nações terror que o comunismo urdia Mas por vãos interesses de poder e dinheiro quase sempre por menos quase nunca por mais Os comunistas guardavam sonhos Os comunistas! Os comunistas! O baiano morreu eu estava no exílio e mandei um recado: "eu que tinha morrido" e que ele estava vivo, Mas ninguém entendia Vida sem utopia não entendo que exista Assim fala um comunista Porém, a raça humana segue trágica, sempre Indecodificável tédio, horror, maravilha Ó, mulato baiano samba o reverencia muito embora não creia em violência e guerrilha Tédio, horror e maravilha Calçadões encardidos multidões apodrecem Há um abismo entre homens E homens, o horror Quem e como fará Com que a terra se acenda? E desate seus nós discutindo-se Clara Iemanjá, Maria, Iara Iansã, Catijaçara O mulato baiano já não obedecia as ordens de interesse que vinham de Moscou Era luta romântica Era luz e era treva Feita de maravilha, de tédio e de horror Os comunistas guardavam sonhos Os comunistas! os comunistas! ALEGRIA, ALEGRIA - Caetano Veloso Caminhando contra o vento Sem lenço e sem documento No sol de quase dezembro, Eu vou. O sol se reparte em crimes Espaçonaves, guerrilhas Em Cardinales bonitas, Eu vou.
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    22 Em caras depresidente, Em grandes beijos de amor, Em dentes, pernas, bandeiras, Bomba e Brigitte Bardot. O sol nas bancas de revista Me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia? Eu vou Por entre fotos e nomes Os olhos cheios de cores O peito cheio de amores vãos. Eu vou Por que não? E por que não? Ela pensa em casamento E eu nunca mais fui à escola Sem lenço e sem documento Eu vou. Eu tomo uma Coca-Cola Ela pensa em casamento Uma canção me consola Eu vou. Por entre fotos e nomes Sem livros e sem fuzil Sem fome, sem telefone, No coração do Brasil. Ela nem sabe até pensei Em cantar na televisão O sol é tão bonito Eu vou Sem lenço, sem documento Nada no bolso ou nas mãos Eu quero seguir vivendo amor. Eu vou Por que não? E por que não? O SUCESSO DA DÉCADA DE 1960 A música Alegria, alegria, de Caetano Veloso é uma dessas canções que se cristalizam no imaginário público como se fosse sem autor definido: de domínio público e, por isso mesmo, eleva o seu compositor à categoria dos grandes autores da música brasileira e, a própria música, à categoria dos clássicos. Esta letra em questão funcionou como um dos pontos de partida e até síntese do movimento tropicalista ocorrido principalmente na nossa música durante as décadas de 60 e 70, do século passado. O Tropicalismo, movimento sociocultural iniciado a partir de 1967, surgiu principalmente na música, mas acabou influenciando toda a cultura nacional, pois retomava basicamente elementos da Antropofagia, do Modernismo Brasileiro, e outros elementos da contracultura, da ironia, rebeldia, anarquismo e humor ou terror anárquico. A paródia, a crítica à esquerda intelectualizada, a não-aceitação de qualquer forma de censura, a sedução dos meios de comunicação de massa, o retrato da realidade urbana e industrial, a exploração do ser humano, tudo isso, todos esses elementos montado com uma colagem de fragmentos do dia-a-dia nas grandes cidades do país, eram, de fato, os princípios norteadores da arte tropicalista. CONTEXTO HISTÓRICO O panorama sócio histórico da época desta canção era de total arrogância direitista. Estávamos em plena Ditadura Militar, especificamente nos ―anos de chumbo‖, como era chamado o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, conhecido como o mais duro e repressivo do período. Nestes anos, a repressão e a luta armada crescem e uma severa política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística são proibidas. Alguns partidos políticos passaram para a ilegalidade e a UNE (União Nacional dos Estudantes) teve seu prédio incendiado. Muitos professores, intelectuais, artistas, políticos, jornalistas e escritores são investigados, presos, torturados, exilados ou assassinados. O Regime Militar fora imposto com um grande golpe desde 1964 e, naquele final de década, já havia as revoltas contra esta ditadura. Os estudantes iam às ruas protestar contra
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    23 um governo ditatorial,que destruía as universidades, deixando-as reféns do sistema de negação do conhecimento, e a população já participava de lutas e passeatas contra o regime militar, mesmo estas sendo proibidas pelos militares. A cultura importada era alienante, por isso, Caetano usa palavras como Brigitte Bardot, Cardinales (em referencia á atriz ítalo-americana Claudia Cardinale) e Coca-Cola (maior símbolo do império norte-americano, que financiava os exércitos em toda a América Latina). Mas, os anos 60 foram a grande década revolucionária: os anos da minissaia, dos hippies, dos homens de cabelos compridos, da pílula anticoncepcional e, consequentemente da revolução feminina e da liberação sexual. Assim como surgiram ídolos impostos e fabricados pela mídia principalmente nos EUA, também surgiram símbolos de uma época que marcaram tanto pela alienação, quanto pela imposição de um comportamento novo ou pela exposição da exploração sofrida pelo ser humano. Neste patamar, aparecem ídolos da cultura pop e líderes sociais e políticos, como os Beatles, Rolling Stones, Jonh Kennedy, Martin Luther King, Fidel Castro e Che Guevara. Também fazem parte deste contexto histórico, a Guerra do Vietnã, a viagem à Lua, feminismo, lutas pelo aborto e pelo divórcio e a prática do amor livre, tendo como expoente principal o festival de Woodstok, que marcou o planeta com o poder de transformação da sociedade pela juventude. No Brasil, era a época dos grandes festivais de música, do ufanismo dos militares e das obras faraônicas erguidas a partir de grandes empréstimos. Os ídolos da música cantavam versões de sucessos norte-americanos ou europeus. Surgia a Jovem Guarda e logo depois a Bossa Nova. A cultura de massa tupiniquim começava a virar produto de exportação. A MÚSICA E SUA INTENÇÃO Escrita, musicada e interpretada pelo cantor e compositor Caetano Veloso, em novembro de 1967, ―Alegria, alegria‖ ajudou a criar o estilo hoje intitulado de MPB e deslocou a expressão artística musical brasileira para o cenário da crítica social, em um ativismo político sem precedentes na história de outro tipo de arte no mundo. Graças a isso, Caetano Veloso teve grande parte de sua obra censurada pelo regime militar. Chegou a ser preso, junto com seu parceiro musical e amigo, Gilberto Passos Moreira, o Gilberto Gil, também cantor e compositor baiano e atual ministro da cultura do Governo Lula. Os dois artistas ficaram exilados em Londres por quase dois anos. Caetano era classificado para o governo no Brasil como ―persona nom gratta‖, uma expressão latina que corresponderia a mal-agradecido e, por isso, mal-vindo de volta à pátria. Até 1972, quando ambos voltam do exílio. ―Alegria, alegria‖ chegou a ser tema de novela da Rede Globo (Sem lenço e sem documento, na década de 80), quando o Regime Militar já estava perdendo o seu máximo poder. Na canção, é relatada a opressão sofrida pelo cidadão comum, nas ruas, nos meios de comunicação, em sua cultura nativa, no seu próprio país. A letra denuncia o abuso de poder de forma metafórica ―caminhando contra o vento/sem lenço e sem documento‖; a violência praticada pelo regime ―sem livros e sem fuzil,/ sem fome, sem telefone, no coração do Brasil‖; e a precariedade na educação brasileira proporcionada pela ditadura que queria pessoas alienadas: ―O sol nas bancas de revista /me enche de alegria e preguiça/quem lê tanta notícia?‖. Podemos pegar como exemplo também de formas alienantes, elementos externos à cultura nacional, como alguns símbolos impostos pelo cinema norte-americano que exportava/exporta seus ídolos como: Cardinale, Brigitte Bardot e a Coca-Cola, principal imposição comercial da mídia na época. Para dar exemplos dos desníveis sociais existentes no Brasil e as diferenças regionais, o autor se utiliza de um expediente inovador. Através de comparações aparentemente desconexas e fazendo uso de metáforas, faz a denúncia dos contrastes regionais, sociais ou econômicos, como nos versos: ―Eu tomo uma Coca-Cola,/Ela pensa em casamento‖, ―Em caras de presidente/em grandes beijos de amor/em dentes, pernas, bandeiras, bomba e Brigitte Bardot.‖
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    24 INTERTEXTUALIDADE Ao começar aaudição da música ou simplesmente da leitura da letra, é impossível não lembrar dos versos de outra canção dessa época de censura. Trata-se de ―Para não dizer que não falei das flores‖, do cantor paraibano Geraldo Vandré, também perseguido pelo Governo Militar, que convocava o povo para ir às ruas e lutar contra a ditadura vigente. As duas músicas se iniciam com a palavra ―Caminhando‖ e isso já é um grande motivo para suscitar na população à lembrança da outra. Só depois de Geraldo Vandré ter vencido um grande festival de música com esta canção e, também pelo fato dela ter sido proibida e os discos terem sido destruídos pelo governo, é que Caetano tem sua música Alegria, alegria também proibida. Era comum a destruição ou apreensão de discos ou fitas por parte do governo militar, alguns exemplos são da música Ovelha Negra, de Rita Lee e, mais recentemente, o disco de lançamento da banda de rock carioca Blitz foi censurado em duas faixas, que foram expressamente riscadas dos discos de vinil, em 1981. Outro compositor que sofreu muitas perseguições da ditadura foi Chico Buarque, que teve inúmeras músicas censuradas ao longo da carreira. No entanto, o cantor e compositor carioca, amigo e contemporâneo de Caetano Veloso, aprendeu a ―driblar‖ a censura por meio do uso de palavras metafóricas, como na música ―Apesar de Você‖, gravada primeiramente por Clara Nunes, que criticava o governo ditatorial como se fosse uma relação afetiva entre um homem e uma mulher. Metáforas: Toda a opressão sofrida pelo cidadão comum, nas ruas, nos meios de comunicação, em sua cultura nativa, no seu próprio país é relatada na letra desta canção. Desta forma, Alegria, Alegria, denuncia os exageros dos militares, porém utilizando-se de metáforas. ―Caminhando contra o vento/sem lenço e sem documento‖ que se refere à violência praticada pelo regime. Ao dizer ―sem livros e sem fuzil,/ sem fome, sem telefone, no coração do Brasil‖ revela a precariedade na educação brasileira proporcionada pela ditadura que queria pessoas alienadas, e complementa: ―O sol nas bancas de revista /me enche de alegria e preguiça/quem lê tanta notícia?‖. Para evidenciar a alienação da massa, na letra há elementos externos à cultura nacional, como alguns símbolos impostos pelo cinema norte-americano da época, que são: Cardinales, Brigitte Bardot e a Coca-Cola, fortes representantes da imposição comercial da mídia na época. Ao denunciar os desníveis sociais dos ―anos de chumbo‖, Caetano Veloso faz comparações metafóricas, com o intuito de destacar os contrastes regionais, sociais ou econômicos, o que fica evidente nos seguintes versos: ―Eu tomo uma Coca-Cola,/Ela pensa em casamento‖, ―Em caras de presidente/em grandes beijos de amor/em dentes, pernas, bandeiras, bomba e Brigitte Bardot.‖ Músicas de Protesto a Ditadura Militar Em a música Alegria, Alegria, lançada em 1967 por Caetano Veloso, ele utilizou a ironia e fragmentos do dia-a-dia para revelar a opressão e criticar o abuso de poder. Como você pode perceber, ele foi sarcástico ao falar mal da Ditadura! Outro bastante perseguido pelos Militares foi Geraldo Vandré. Seu hino ―Caminhando (Pra não dizer que falei em flores)‖, foi lançada em 1968 e foi bastante utilizada pela população que gostaria de uma política democrática. Ele provocou o exército de maneira bastante poética e interessante, como você pode perceber em: Trecho: Há soldados armados / Amados ou não / Quase todos perdidos / De armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam / Uma antiga lição: De morrer pela pátria / E viver sem razão Chico Buarque teve uma ideia bastante interessante. Utilizando a oração de Jesus Cristo a Deus no Jardim de Getsêmane, ele usou a palavra ―cálice‖ para representar ―cale-se‖, pois era o que os Militares queriam: uma população calada. Veja abaixo:
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    25 Trecho: De muitogorda a porca já não anda (Cálice!) / De muito usada a faca já não corta / Como é difícil, Pai, abrir a porta (Cálice!) / Essa palavra presa na garganta Debaixo Dos Caracóis Dos Seus Cabelos Roberto Carlos Compositor: Roberto e Erasmo Carlos Um dia a areia branca seus pés irão tocar E vai molhar seus cabelos a água azul do mar Janelas e portas vão se abrir pra ver você chegar E ao se sentir em casa, sorrindo vai chorar Debaixo dos caracóis dos seus cabelos Uma historia pra contar de um mundo tão distante Debaixo dos caracóis dos seus cabelos Um soluço e a vontade de ficar mais um instante As luzes e o colorido Que você vê agora Nas ruas por onde anda, na casa onde mora Você olha tudo e nada Lhe faz ficar contente Você só deseja agora Voltar pra sua gente Debaixo dos caracóis dos seus cabelos Uma historia pra contar de um mundo tão distante Debaixo dos caracóis dos seus cabelos Um soluço e a vontade de ficar mais um instante Você anda pela tarde E o seu olhar tristonho Deixa sangrar no peito Uma saudade, um sonho Um dia vou ver você Chegando num sorriso Pisando a areia branca Que é seu paraíso. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos Uma historia pra contar de um mundo tão distante Debaixo dos caracóis dos seus cabelos Um soluço e a vontade de ficar mais um instante Debaixo dos caracóis dos seus cabelos Uma historia pra contar de um mundo tão distante Debaixo dos caracóis dos seus cabelos Um soluço e a vontade de ficar mais um instante Debaixo dos caracóis dos seus cabelos Uma historia pra contar de um mundo tão distante Debaixo dos caracóis dos seus cabelos Um soluço e a vontade de ficar mais um instante Debaixo dos caracóis dos seus cabelos: por trás do romantismo havia um protesto! Mesmo sem nunca ter tido problemas com a ditadura militar dos anos 60 e 70, o "rei" Roberto Carlos foi genial ao compor uma música de protesto contra o regime político brasileiro da época. Trata-se de "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", que com uma boa dose de romantismo passou batida à censura e conquistou os corações das jovens apaixonadas. Até hoje poucos conseguem perceber a verdadeira mensagem que a canção apresentava. Para entendê-la, é preciso voltar até 1969, quando Caetano Veloso partiu para o exílio em Londres. Notadamente, suas músicas protestavam contra a situação política brasileira do período em questão. Assim, em 1971, Roberto Carlos lançava "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", em homenagem ao amigo que se encontrava exilado na Inglaterra. Naquela época, Caetano ostentava uma vasta cabeleira, daí o motivo do nome da música.
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    26 Romantismo à parte,várias passagens da letra apresentam mensagens de protesto. Vamos a elas: - "Janelas e portas vão se abrir, pra ver você chegar e ao se sentir em casa, sorrindo vai chorar." Mesmo longe, ele jamais seria esquecido. "Em casa" seria obviamente o Brasil. - "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar, de um mundo tão distante." "Mundo tão distante" também seria o Brasil, afinal, o cara estava do outro lado do Atlântico. - "Você olha tudo e nada lhe faz ficar contente, você só deseja agora, voltar pra sua gente." "Voltar pra sua gente" ou voltar para o Brasil. Era o desejo de qualquer exilado político. - "Um dia eu vou ver você chegando num sorriso, pisando a areia branca, que é seu paraíso." Seria o fim da ditadura militar, que permitiria o retorno dos exilados ao país, fato que teve início a partir de 1979. Sorte que a censura da época era um tanto burra, que não conseguia perceber certos protestos. E assim, subliminarmente, Roberto Carlos fez uma boa crítica e ainda por cima agradou seu público fiel, os apaixonados de plantão! OBS: o mesmo governo militar que motivou o protesto de Roberto Carlos, o transformou em "rei", pois ele era um bom moço que não criticava explicitamente a política da época. Podres Poderes - Caetano Veloso Enquanto os homens exercem seus podres poderes Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos E perdem os verdes somos uns boçais Queria querer gritar setecentas mil vezes Como são lindos, como são lindos os burgueses E os japoneses mas tudo é muito mais Será que nunca faremos senão confirmar A incompetência da américa católica Que sempre precisará de ridículos tiranos? Será, será que será, que será, que será Será que esta minha estúpida retórica Terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos? Enquanto os homens exercem seus podres poderes índios e padres e bichas, negros e mulheres E adolescentes fazem o carnaval Queria querer cantar afinado com eles Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase Ser indecente mas tudo é muito mau Ou então cada paisano e cada capataz Com sua burrice fará jorrar sangue demais Nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais Será que apenas os hermetismos pascoais Os tons, os miltons, seus sons e seus dons geniais Nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais? Enquanto os homens exercem seus podres poderes Morrer e matar de fome, de raiva e de sede São tantas vezes gestos naturais Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo Daqueles que velam pela alegria do mundo Indo mais fundo tins e bens e tais A música de Caetano Veloso mostra um excelente campo de análise interpretativa quanto ao cenário da política brasileira e do contexto o qual se encontrava na ocasião do processo de redemocratização. No título ―Podres poderes‖ há uma referência aos modelos políticos vigentes. Na década de 1980, O contexto internacional estava conturbado e turbulento. O socialismo soviético estava passando por momento de crise. As políticas da Perestroika e do Glasnost tentavam estruturar uma União Soviética em ruínas. Nos EUA, Ronald Reagan está envolto numa crise de corrupção denominado ―Caso Irã-
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    27 Contras‖. Em suma,tanto o cenário capitalista como socialista não mais ofereciam as mesmas seguranças utópicas de outrora. No Brasil ―Movimento Diretas já‖ ganhava força e o cenário ainda era de incerteza. Caetano parece remonta a indefinição que se encontrava o país. Ao que parece, Caetano, sutil e sagazmente apresenta um ponto de vista de política bem diferente do entendimento da época. Antes da queda do muro de Berlim, esse entendimento era orientado por uma lógica dicotômica e maniqueísta. Era forte a ideia de Bem versus mal; o feio versus bonito; burguesia versus proletariado. Como dizia Cazuza: ―A Burguesia fede‖. Entretanto, para Caetano parecia querer romper com esta lógica. E o que seria esse ―muito mais‖? Para o tropicalista, a política deveria ser vista para além do aparente. A história precisaria ser reavaliada agora também por uma análise estética e cultural. ―O tropicalismo contrapõe-se à estética e à política, pois não possui um discurso verbal politizado. O caráter revolucionário e político do movimento estão inseridos em sua própria estética.‖ (Contier, 2003) A música pode ser interpretada como uma leitura do tradicionalismo presente na resistência estética do brasileiro influenciando toda política Latino-Americana, região em que a maioria dos países era uma ditadura na época. Neste sentido, o baiano parecer fazer uma correlação: ―Será que nunca faremos / Senão confirmar /Na incompetência / Da América católica‖. Neste sentido a ética católica é criticada por influenciar na cultura uma tolerância às ditaduras. Tal tolerância parece ajudar a naturalizar a corrupção ―São tantas vezes, Gestos naturais.‖ Pelo jeito, a solução da corrupção está muito associada a aspectos culturais. Os brasileiros ainda têm um tradicionalismo que impedem pensar sobre outras perspectivas para além da política, de modo tal que a estética de Caetano parece incomodar. ―Queria querer cantar Afinado com eles‖. Neste sentido, a sociedade brasileira só mudará seus aspectos políticos mais profundos a partir de mudanças na cultura, como diria Betinho: ―Um país não muda pela sua economia, sua política e nem mesmo sua ciência; muda sim pela sua cultura.‖ Pelo jeito, as incertezas de Caetano trazem consigo certo pessimismo que só não se torna absoluto por conta da esperança na arte e na música: ―Será que apenas/ Os hermetismos pascoais /E os tons, os mil tons /Seus sons e seus dons geniais /Nos salvam, nos salvarão /Dessas trevas e nada mais…‖ Referência: Contier, Arnaldo Daraya. O movimento tropicalista e a revolução estética. Cad. de Pós-Graduação em Educ., Arte e Hist. da Cult. São Paulo, v. 3, n. 1, p. 135-159, 2003. COMO SE FAZ UM HINO, E DEPOIS SE ESQUECE Qual foi a última vez que você ouviu Coração de estudante? De repente me dei conta de que não a escutava há anos. E no entanto é uma canção que continua entranhada no nosso imaginário. Assim como o tanto que ela tocou e foi cantada por anos, seu silêncio hoje também me parece muito significativo. Em 1986 eu tinha 14 anos e fazia o solo de flauta doce no arranjo de Coração de estudante no coral de minha escola de ensino médio. Mais inocência, impossível. Ao mesmo tempo que eu, o país saia de uma ditadura de 20 anos, tinha os traumas do adiamento da chance de escolher seu presidente e de um presidente civil morto antes de assumir, e ainda achava que, apesar de tudo, agora tudo seria diferente. O que aconteceu depois é sabido, e a sucessão de decepções em relação à que era chamada Nova República, sofridas por um país que passou por um processo de amadurecimento à força, fizeram com que Coração de estudante fosse meio que propositalmente, estrategicamente esquecida, como quem reluta em confessar que tocava flauta doce no coral da escola em plena adolescência (e nem peguei ninguém por isso).
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    28 Para descobrir osmotivos deste ostracismo atual é necessário entender também os motivos de ela ter se tornado o hino que se tornou. Coração de estudante não fala explicitamente em sua letra de absolutamente nada que estava acontecendo em 1983, ano em que foi gravada no álbum Ao vivo de Milton, nem dos anos seguintes. Então o que a levou ao grau de simbolismo que angariou, de ser cantada por um país como a esperança de tempos melhores, mais justos para todos? A resposta talvez esteja em algumas circunstâncias de sua criação. Coração de estudante é uma melodia de Wagner Tiso com letra de Milton, coisa não muito comum, tipo de parceria que Milton não costuma ter. Ocorre que ela foi criada como um tema instrumental apenas. Eis para que acontecimento e que personagem histórico ela foi criada (a música começa aos 2 minutos, mas vale a pena ver também o princípio): Coração de estudante não tinha ainda este nome quando foi composta para ser o Tema de Jango no documentário Jango, de Sílvio Tendler. Sua melodia, portanto, foi composta para ser a tradução em música de um momento que é o inverso de quando ela se tornou o que é hoje; nasceu por inspiração de um momento histórico em que o Brasil tinha um sonho muito alto despedaçado, e tornou-se popular e ganhou mundo quando este sonho renascia depois de 20 anos. Mas o mais impressionante é que também a letra de Milton carrega implícita uma carga de significação que tem a ver com outro momento histórico intrinsecamente ligado ao primeiro: Milton a fez em memória do estudante Edson Luís, morto pela Polícia Militar em março de 1968, cuja morte foi o estopim de uma série de manifestações populares que, pela primeira vez, afrontaram publicamente a ditadura militar. A reação da sociedade à morte do estudante desencadeou uma sequência de acontecimentos que atravessou a Passeata dos Cem Mil e desembocou no Ai-5. Foi o evento simbólico de um ressurgimento, em que muitas pessoas decidiram que era hora de falar. O resto é História. Isto então para mim explica o simbolismo que Coração de Estudante assumiu durante a retomada democrática na década de 1980, muito mais do que qualquer característica analisável de sua letra ou de sua melodia. É como se o determinante fosse na verdade o fato de ter sido inspirada, ter retratado ou homenageado dois precisos instantes que são chaves na História recente do Brasil e formam uma linha de continuidade que se completa exatamente na época em que a canção veio a público: 1964, 1968, 1983 (em 84 a campanha das diretas, em 85 a eleição de Tancredo Neves presidente). Como se a canção tivesse ficado impregnada da lembrança destes acontecimentos, como uma mensageira do inconsciente coletivo nacional. Quando faço a análise de uma canção aqui, sei bem que tudo o que digo é ouvido e percebido por quem ouve a canção. Apenas isto não se dá de forma consciente e racional. Tantas vezes ouvi ou li comentários que dizem é isso mesmo que eu sentia, mas não sabia porque. As características de melodia, harmonia, instrumental, suas relações, todas falam ao ouvinte de forma mais direta que a linguagem discursiva, e vão mais fundo. Mas em Coração de estudante acho que há algo mais, que não ficou exatamente fixado na forma musical, e sim em algum lugar mais… recôndito seria a palavra? Há algo nela que ecoa, mesmo para os recém-chegados à História, os motivos e os acontecimentos que a antecederam e inspiraram. Coração de Estudante soube ser o hino da redemocratização porque já era, de certa forma, o hino das reformas de base de 1963 e o hino da contestação à violência da ditadura em 1968, e ao mesmo tempo contém em si a tristeza do golpe de 64 e do Ai-5. Assim como talvez já tivesse, à revelia dos próprios autores, a tristeza das decepções de 1987, 88, 89… Talvez por isso tenha sido deixada de lado como foi. Não porque tenha se tornado datada, ou porque nos lembre da nossa ingenuidade, mas porque nos lembre não apenas de um, mas de três sonhos que pareceram ser sonhados em vão, e ainda assim tem a coragem de reafirmar, mais uma vez, que é preciso continuar sonhando, mesmo que ingenuamente, em uma época em que isto nem sempre parece fazer sentido, a nos falar tão diretamente dessas coisas tão incômodas, que sempre morrem e insistem em renascer: esperança, coração, juventude e fé.
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    29 Coração de Estudante MiltonNascimento Compositor: Milton Nascimento e Wagner Tiso Quero falar de uma coisa Adivinha onde ela anda Deve estar dentro do peito Ou caminha pelo ar Pode estar aqui do lado Bem mais perto que pensamos A folha da juventude É o nome certo desse amor Já podaram seus momentos Desviaram seu destino Seu sorriso de menino Tantas vezes se escondeu Mas renova-se a esperança Nova aurora a cada dia E há que se cuidar do broto Pra que a vida nos dê flor e fruto Coração de estudante Há que se cuidar da vida Há que se cuidar do mundo Tomar conta da amizade Alegria e muito sonho Espalhados no caminho Verdes, plantas, sentimento Folhas, coração, juventude e fé Apesar de Você - Chico Buarque Hoje você é quem manda Falou, tá falado Não tem discussão A minha gente hoje anda Falando de lado E olhando pro chão, viu Você que inventou esse estado E inventou de inventar Toda a escuridão Você que inventou o pecado Esqueceu-se de inventar O perdão Apesar de você Amanhã há de ser Outro dia Eu pergunto a você Onde vai se esconder Da enorme euforia Como vai proibir Quando o galo insistir Em cantar Água nova brotando E a gente se amando Sem parar Quando chegar o momento Esse meu sofrimento Vou cobrar com juros, juro Todo esse amor reprimido Esse grito contido Este samba no escuro Você que inventou a tristeza Ora, tenha a fineza De desinventar Você vai pagar e é dobrado Cada lágrima rolada Nesse meu penar Apesar de você Amanhã há de ser Outro dia Inda pago pra ver O jardim florescer Qual você não queria Você vai se amargar Vendo o dia raiar Sem lhe pedir licença E eu vou morrer de rir Que esse dia há de vir Antes do que você pensa Apesar de você Amanhã há de ser Outro dia Você vai ter que ver A manhã renascer E esbanjar poesia Como vai se explicar Vendo o céu clarear De repente, impunemente Como vai abafar Nosso coro a cantar Na sua frente Apesar de você Amanhã há de ser
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    30 Outro dia Você vaise dar mal Etc. e tal “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia!” Lançada como compacto em 1970, Apesar de você é a única música que Chico assume ter sido escrita para criticar a ditadura. Após voltar do exílio, Chico percebe que o país pouco mudou e escreve a canção. Quando a enviou para a censura, Chico temia que a música fosse censurada, o que surpreendentemente não aconteceu. Após a gravação, a canção chegou a vender 100 mil compactos em uma semana. Após uma nota publicada em um jornal, na qual dizia que o ―você‖ da letra era relacionado ao presidente Médici a canção foi censurada, sendo gravada em um disco apenas em 1978. Após o episódio o nome de Chico Buarque ficou marcado pelos homens da censura e suas canções sempre eram ouvidas com mais rigidez pela censura, antes de serem aprovadas. A solução encontrada pelo cantor e compositor foi a de usar pseudônimos como Julinho da Adelaide e Leonel Paiva. No começo deu certo, mas logo depois Chico foi desmascarado. A letra critica o modo como as repressões ditatoriais eram feitas e alerta sobre o que iria acontecer se em um dia todos estivessem felizes e insistissem em viver da forma como queriam. Álbum que traz canções polêmicas como ―Cálice‖ e ―Apesar de Você‖ Sem dúvida, Apesar de você é uma aula sobre a censura da ditadura militar brasileira. Ao lado de Pra não dizer que não falei das flores, de Vandré e É proibido proibir, de Caetano, a canção traz detalhes das vontades que os artistas da época brigavam para ter em um país onde pouca expressão artística era permitida. Cálice - Chico Buarque Composição: Chico Buarque / Gilberto Gil Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue Como beber dessa bebida amarga Tragar a dor, engolir a labuta Mesmo calada a boca, resta o peito Silêncio na cidade não se escuta De que me vale ser filho da santa Melhor seria ser filho da outra Outra realidade menos morta Tanta mentira, tanta força bruta Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue Como é difícil acordar calado Se na calada da noite eu me dano Quero lançar um grito desumano Que é uma maneira de ser escutado Esse silêncio todo me atordoa Atordoado eu permaneço atento Na arquibancada pra a qualquer momento Ver emergir o monstro da lagoa Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue De muito gorda a porca já não anda De muito usada a faca já não corta Como é difícil, pai, abrir a porta Essa palavra presa na garganta Esse pileque homérico no mundo De que adianta ter boa vontade Mesmo calado o peito, resta a cuca Dos bêbados do centro da cidade Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue
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    31 Talvez o mundonão seja pequeno Nem seja a vida um fato consumado Quero inventar o meu próprio pecado Quero morrer do meu próprio veneno Quero perder de vez tua cabeça Minha cabeça perder teu juízo Quero cheirar fumaça de óleo diesel Me embriagar até que alguém me esqueça A música "Cálice" foi escrita em 1973 por Chico Buarque e Gilberto Gil, sendo lançada apenas em 1978. Devido ao seu conteúdo de denúncia e crítica social, foi censurada pela ditadura, sendo liberada cinco anos depois. Apesar do desfazamento temporal, Chico gravou a canção com Milton Nascimento no lugar de Gil (que tinha mudado de gravadora) e decidiu incluir no seu álbum homônimo. "Cálice" se tornou num dos mais famosos hinos de resistência ao regime militar. Trata-se de uma canção de protesto que ilustra, através de metáforas e duplos sentidos, a repressão e a violência do governo autoritário. Gilberto Gil partilhou com o público, muitos anos depois, algumas informações sobre o contexto de criação da música, suas metáforas e simbologias. Chico e Gil se juntaram no Rio de Janeiro para escrever a canção que deveriam apresentar, em dupla, no show. Músicos ligados à contracultura e à resistência partilhavam a mesma angústia perante um Brasil imobilizado pelo poder militar. Gil levou os versos iniciais da letra, que tinha escrito na véspera, uma sexta-feira da Paixão. Partindo desta analogia para descrever o suplício do povo brasileiro na ditadura, Chico continuou escrevendo, povoando a música com referências da sua vida cotidiana. O cantor esclarece que a "bebida amarga" que a letra menciona é Fernet, uma bebida alcoólica italiana que Chico costumava beber naquelas noites. A casa de Buarque ficava na Lagoa Rodrigues de Freitas e os artistas ficavam na varanda, olhando as águas. Esperavam ver emergir "o monstro da lagoa": o poder repressivo que estava escondido, mas pronto para atacar a qualquer momento. Conscientes do perigo que corriam e do clima sufocante vivido no Brasil, Chico e Gil escreveram um hino panfletário sustentando no jogo de palavras "cálice" / "cale-se". Enquanto artistas e intelectuais de esquerda usaram suas vozes para denunciar a barbárie do autoritarismo. Assim, no próprio título, a música faz alusão aos dois meios de opressão da ditadura. Por um lado, a agressão física, a tortura e a morte. Por outro, a ameaça psicológica, o medo, o controle do discurso e, por conseguinte, das vidas do povo brasileiro. Carta À República - Milton Nascimento Compositor: Milton Nascimento/fernando Brant Sim é verdade, a vida é mais livre o medo já não convive nas casas, nos bares, nas ruas com o povo daqui e até dá pra pensar no futuro e ver nossos filhos crescendo e sorrindo mas eu não posso esconder a amargura ao ver que o sonho anda pra trás e a mentira voltou ou será mesmo que não nos deixara? a esperança que a gente carrega é um sorvete em pleno sol o que fizeram da nossa fé? Eu briguei, apanhei, eu sofri, aprendi, eu cantei, eu berrei, eu chorei, eu sorri, eu saí pra sonhar meu País e foi tão bom, não estava sozinho a praça era alegria sadia o povo era senhor e só uma voz, numa só canção e foi por ter posto a mão no futuro que no presente preciso ser duro que eu não posso me acomodar quero um País melhor
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    32 Dando Milho AosPombos 1981 Zé Geraldo Enquanto esses comandantes loucos ficam por aí queimando pestanas organizando suas batalhas Os guerrilheiros nas alcovas preparando na surdina suas mortalhas Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos ( 2 vezes ) Entra ano, sai ano, cada vez fica mais difícil o pão, o arroz, o feijão, o aluguel Uma nova corrida do ouro o homem comprando da sociedade o seu papel Quanto mais alto o cargo maior o rombo Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos ( 4 vezes ) Eu dando milho aos pombos no frio desse chão Eu sei tanto quanto eles se bater asas mais alto voam como gavião Tiro ao homem tiro ao pombo Quanto mais alto voam maior o tombo Eu já nem sei o que mata mais Se o trânsito, a fome ou a guerra Se chega alguém querendo consertar vem logo a ordem de cima Pega esse idiota e enterra Todo mundo querendo descobrir seu ovo de Colombo Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos ( 5 vezes ) Canção Da América - Milton Nascimento Compositor: Milton Nascimento, Fernando Brant Amigo é coisa pra se guardar Debaixo de sete chaves, Dentro do coração, assim falava a canção que na América ouvi, mas quem cantava chorou ao ver o seu amigo partir, mas quem ficou, no pensamento voou, com seu canto que o outro lembrou E quem voou no pensamento ficou, com a lembrança que o outro cantou. Amigo é coisa para se guardar No lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância, digam não, mesmo esquecendo a canção. O que importa é ouvir a voz que vem do coração. Pois, seja o que vier, venha o que vier Qualquer dia amigo eu volto a te encontrar Qualquer dia amigo, a gente vai se encontrar. Brasil, de Cazuza A icônica canção do poeta exagerado conta um pouco do cenário do Brasil no final dos anos 80 e início da década de 90. Insatisfeito com a corrupção, a desvalorização do empregado e o comodismo do povo, ele pede que o brasileiro mostre a sua cara – algo que ocorreu alguns anos depois, com o movimento ―Caras Pintadas‖. Brasil - Cazuza Compositor: Cazuza/George Israel/Nilo Roméro
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    33 Não me convidaram Praessa festa pobre Que os homens armaram pra me convencer A pagar sem ver Toda essa droga Que já vem malhada antes de eu nascer Não me ofereceram Nem um cigarro Fiquei na porta estacionando os carros Não me elegeram Chefe de nada O meu cartão de crédito é uma navalha Brasil Mostra tua cara Quero ver quem paga Pra gente ficar assim Brasil Qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim Não me convidaram Pra essa festa pobre Que os homens armaram pra me convencer A pagar sem ver Toda essa droga Que já vem malhada antes de eu nascer Não me sortearam A garota do Fantástico Não me subornaram Será que é o meu fim? Ver TV a cores Na taba de um índio Programada pra só dizer "sim, sim" Brasil Mostra a tua cara Quero ver quem paga Pra gente ficar assim Brasil Qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim Grande pátria desimportante Em nenhum instante Eu vou te trair (Não vou te trair) Honestidade - Juca Chaves A honestidade a muitos já sumiu e as consequências vêm sempre depois por isso todo dia pra alegria do Brasil, morre um ladrão e nascem dois, morre um ladrão e nascem dois. Sai um ministro, entra outro que promete e o aposentado, coitado, se comove, a espera dos 147 se decrete mas na horta do pobre nunca chove Collor deu um golpe 69. Enquanto os empresários, operários da cobiça investem lá no norte, no norte da suíça democracia é isto, é trabalhar contente pro caviar do nosso presidente e pro meu, afinal também sou gente. Enquanto o pacto não fica social e a moral valendo mais do que dinheiro, que importa se o cunhado é alagoano, não faz mal ou se o meu carro a álcool é brasileiro, ou se o meu carro a álcool é brasileiro. Nossos valores estão na contramão, sequestrador vive melhor que marajá, e sem licitação, só pra ajudar cunhado ou irmão vou ser um diretor da LBA se a imprensa descobrir eu vou pra cana e chorar! Que País É Este?, de Legião Urbana Renato Russo e sua trupe expõem os diversos problemas do Brasil do final da década de 80. A corrupção, a promessa do Brasil como ―país do futuro‖ e a desigualdade social estão explícitas na letra da música.
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    34 Que País éEsse? - Legião Urbana Compositor: Renato Russo Nas favelas, no senado Sujeira pra todo lado Ninguém respeita a constituição Mas todos acreditam no futuro da nação Que país é esse? Que país é esse? Que país é esse? No Amazonas, no Araguaia, na Baixada fluminense No Mato grosso, Minas Gerais e no Nordeste tudo em paz Na morte eu descanso mas o sangue anda solto Manchando os papéis, documentos fiéis Ao descanso do patrão Que país é esse? Que país é esse? Que país é esse? Que país é esse? Terceiro Mundo se for Piada no exterior Mas o Brasil vai ficar rico Vamos faturar um milhão Quando vendermos todas as almas Dos nossos índios num leilão. Que país é esse? Que país é esse? Que país é esse? Que país é esse? ................ Mulheres de Atenas, de Chico Buarque No trecho “Quando eles embarcam, soldados / Elas tecem longos bordados / Mil quarentenas”, Chico claramente faz uma alusão ao poema épico de Homero, a Odisseia. A música lembra a atitude de Penélope, esposa de Ulisses, o herói da obra. A submissão tratada na canção, tida como controversa, foi explicada pelo músico em uma única frase: ―Eu disse: mirem-se no exemplo daquelas mulheres que vocês vão ver o que vai dar‖ – como podemos ver, em tom de crítica. Mulheres de Atenas Chico Buarque Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas Vivem pros seus maridos Orgulho e raça de Atenas Quando amadas, se perfumam Se banham com leite, se arrumam Suas melenas Quando fustigadas não choram Se ajoelham, pedem imploram Mais duras penas; cadenas Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas Sofrem pros seus maridos Poder e força de Atenas Quando eles embarcam soldados Elas tecem longos bordados Mil quarentenas E quando eles voltam, sedentos Querem arrancar, violentos Carícias plenas, obscenas Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas Despem-se pros maridos Bravos guerreiros de Atenas Quando eles se entopem de vinho Costumam buscar um carinho De outras falenas Mas no fim da noite, aos pedaços Quase sempre voltam pros braços De suas pequenas, Helenas Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas: Geram pros seus maridos Os novos filhos de Atenas Elas não têm gosto ou vontade Nem defeito, nem qualidade
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    35 Têm medo apenas Nãotem sonhos, só tem presságios O seu homem, mares, naufrágios Lindas sirenas, morenas Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas Temem por seus maridos Heróis e amantes de Atenas As jovens viúvas marcadas E as gestantes abandonadas Não fazem cenas Vestem-se de negro, se encolhem Se conformam e se recolhem Às suas novenas, serenas Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas Secam por seus maridos Orgulho e raça de Atenas Eu Não Matei Joana D’Arc, de Zeca Baleiro (versão original de Camisa de Vênus) Heroína francesa, Joana D‘Arc se tornou uma figura mítica após ter ajudado a França a ganhar a Guerra dos Cem Anos (1337-1453). Por alegar ter visões e ouvir vozes, foi acusada de feitiçaria e queimada em uma fogueira em 1430. Na música, mesmo sem álibi, o cantor se inocenta da barbárie. Eu Não Matei Joanna D'arc Zeca Baleiro Eu nunca tive nada Com Joana Darc Nós só nos encontramos Prá passear no parque... Ela me falou Dos seus dias de glória E do que não está escrito Lá nos livros de história... Que ficava excitada Quando pegava na lança E do beijo que deu Na rainha da França... Agora todos pensam Que fui eu que a cremei Mas eu não sou piromaníaco Eu juro que não sei... Ontem eu nem a vi Sei que não tenho um álibi Mas eu! Eu não matei Joana Darc...(2x) Eu nunca tive Nada, nada, nada Com Joana Darc Nós só nos encontramos Prá passear no parque... Ela me falou Que andava ouvindo vozes Que prá conseguir dormir Sempre tomava algumas doses... Uma rede internacional Iludiu aquela menina Prometendo a todo custo Transformá-la em heroína... Agora eu tô entregue À CIA e à KGB Eles querem que eu confesse Mas eu nem sei o quê... Ontem eu nem a vi Sei que não tenho um álibi Mas eu! Eu não matei Joana Darc...(2x) Eu não matei Joana Darc...(2x) Ontem eu nem a vi Sei q'eu não tenho um álibi Mas eu! Eu não matei Joana Darc...(2x) Não! Não fui eu! Não, não, não! Não fui eu! Não! Não fui eu! Não, não, não! Ontem eu nem a vi Sei q'eu não tenho um álibi Mas eu! Eu não matei Joana Darc...(2x)
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    36 Romaria Elis Regina Compositor: RenatoTeixeira É de sonho e de pó O destino de um só feito eu perdido em pensamentos sobre o meu cavalo É de laço e de nó De gibeira ou jiló Dessa vida cumprida a sol Sou caipira pirapora nossa Senhora de Aparecida Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida Sou caipira pirapora nossa Senhora de Aparecida Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida O meu pai foi peão Minha mãe, solidão meus irmãos perderam-se na vida a custa de aventuras Descasei, joguei investi, desisti Se há sorte eu não sei, nunca vi. Sou caipira pirapora nossa Senhora de Aparecida Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida Sou caipira pirapora nossa Senhora de Aparecida Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida Me disseram, porém, que eu viesse aqui pra pedir de romaria e prece Paz nos desaventos Como eu não sei rezar Só queria mostrar Meu olhar, meu olhar, meu olhar Sou caipira pirapora nossa Senhora de Aparecida Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida Sou caipira pirapora nossa Senhora de Aparecida Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida Romaria – A história da música símbolo do caipira Minha amiga Rose Saldiva, toda feliz ao telefone, me informava que, segundo suas pesquisas sobre o perfil do cidadão taubateano encomendado por uma grande multinacional, Romaria era identificada por noventa por cento da população como a ―música da cidade‖. O fato de morar ao lado de Aparecida e sempre ir até lá me possibilitaram falar com naturalidade do romeiro e sua saga em busca do milagre. Acredito que, para pessoas que chegam de lugares mais distantes, a Basílica possa representar um sonho maior, o desejo de toda uma vida que se realiza, e as põem perplexas diante da grandeza e do poder da fé, representadas pelo magnífico templo que o povo ergueu para reverenciar a padroeira do Brasil. Mas aqui na terra de Lobato, Aparecida sempre será uma cidade familiar. Dos tempos mais frequentados, aqueles que vão até minha mudança pra São Paulo, ainda posso recordar, com muita transparência, a época em que os comerciantes enfeitavam a entrada de suas lojas usando velas dos mais variados tamanhos dispostas de modo a simular uma espécie de ―porta para o paraíso‖ onde todas as nossas reivindicações depositadas aos pés de Nossa Senhora, seriam atendidas de uma forma ou de outra; bastava que pedíssemos com fervor e acendêssemos uma vela como prova da nossa gratidão. E não poderia ser diferente uma vez que o povo brasileiro, na maioria das vezes, sempre foi atendido pela Mãe Santíssima nos momentos de maior precisão. A prova da eficiência da crença na Padroeira é o grau de satisfação dos fieis que sempre voltam agradecendo as graças recebidas. Misteriosa e bela Aparecida do Norte.
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    37 A primeira vezque meu filho João viu a Basílica saltar à nossa frente depois de uma curva certa da Presidente Dutra, seus olhos cresceram como se ele estivesse precisando de mais olhos para satisfazer-se plenamente com aquela visão que invadira o espaço adiante. Muitos de nós ainda lembram da imagem de Nossa Senhora Aparecida vindo nos visitar e sendo saudada na praça Dom Epaminondas com gritos de ―viva Nossa Senhora Aparecida!!!!‖… e o povo repetia ―…Vivaaaaaaa!‖. Coisa muito linda! Saltam da memória as alunas do Bom Conselho em bandos, o perfume do incenso e das flores flutuando no ar, e o Catete vestido de príncipe. Minha música Romaria não é um hino de louvor à Padroeira do Brasil. Minha canção é uma visão de quem está para cá dos altares, no meio dos fiéis que a saúdam. Em Aparecida, eu vejo os Romeiros, aqueles que vão chegando finalmente ao grande momento planejado. Ir à Aparecida não é uma coisa banal; são fatos que se tornarão perenes e enriquecerão a memória familiar como um exemplo de humildade diante dos mistérios da vida. Todos nós, em algum momento da existência, pensamos no quanto um milagre seria oportuno diante de certas situações pelas quais todos nós, às vezes, temos que atravessar. Quando compus Romaria estava curtindo os poetas concretistas brasileiros. Décio Pignatari, os irmãos Campos e todos os outros ousadíssimos cidadãos que gostam de se parecer com bichos de sete cabeças. A poesia concreta é um atalho que, eliminando toda a lógica da forma de compreender que praticamos no dia-a-dia, nos deixa frente-a-frente com a origem de todos os nossos sentimentos. Sua ―visualidade‖ contribui para que possamos criar uma nova concepção, um jeito mais complexo de compreensão. Minha música teria também que soar como uma contestação; a cultura caipira não estava esgotada e superada como queriam nossos formadores de opinião. Nada como algumas pitadas concretistas para mostrar que não éramos Jecas e que poderíamos andar lado a lado com as tendências mais avançadas, muito além da bossa nova ou travestidas de arte tropicalista, esta sim, intrigante e revolucionária, mesmo que repetindo muitas das ousadias que motivaram os modernistas de 22. Elis gravou a música e o sucesso me surpreendeu completamente. Nunca pensei em compor algo fácil. Queria uma coisa mais sofisticada e a influência concretista deixava isso claro. Num determinado momento, cheguei a duvidar da sofisticação intelectual que pensei ter colocado na letra. Será que errei? Mas a resposta veio na virada dos anos setenta para os oitenta, quando, fazendo uma retrospectiva da poesia musical da década que se encerrava, Augusto de Campos, um dos nossos maiores mestres concretistas, publicou na revista Veja que Romaria era a única obra da música brasileira naquela década elaborada sob a ótica do concretismo. A interpretação da Elis me causou a sensação de que, com ela cantando, a música ficara finalmente pronta. A canção também ajudou a reverter o abandono em que se encontrava a música caipira e sua história. Com Romaria sendo cantada pela Elis, o gênero se regenerou; com a entrada do Sérgio Reis, produzido pelo taubateano Tony Campelo, e da dupla Léo Canhoto e Robertinho, conseguimos projetar um futuro mais generoso para a herança deixada por mestres como João Pacifico, Raul Torres e o nosso genial Anacleto Rosas. Meio que sem querer, eu cumpri uma missão pioneiramente taubateana: repaginei a música caipira dando a ela um perfil mais condizente com sua grandeza original, readaptando-a a uma linguagem, digamos, mais MPB e mais adequada aos tempos modernos. Marvin - Titãs Compositor: R. Dunbar / G. N. Johson / Nando Reis / Sérgio Britto Esta é uma regravação da música de Clarence Carter Meu pai não tinha educação Ainda me lembro, era um grande coração Ganhava a vida com muito suor Mas mesmo assim não podia ser pior
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    38 Pouco dinheiro prapoder pagar Todas as contas e despesas do lar Mas Deus quis vê-lo no chão Com as mãos levantadas pro céu Implorando perdão Chorei, meu pai disse: "Boa sorte", Com a mão no meu ombro Em seu leito de morte E disse "Marvin, agora é só você e não vai adiantar Chorar vai me fazer sofrer" Três dias depois de morrer Meu pai, eu queria saber Mas não botava nem um pé na escola Mamãe lembrava disso a toda hora Todo dia antes do sol sair Eu trabalhava sem me distrair As vezes acho que não vai dar pé Eu queria fugir, mas onde eu estiver Eu sei muito bem o que ele quis dizer Meu pai, eu me lembro, não me deixa esquecer Ele disse "Marvin, a vida é pra valer Eu fiz o meu melhor E o seu destino eu sei de cor" E então um dia uma forte chuva veio E acabou com o trabalho de um ano inteiro E aos treze anos de idade eu sentia todo o peso do mundo em minhas costas Eu queria jogar mas perdi a aposta, e Trabalhava feito um burro nos campos Só via carne se roubasse um frango Meu pai cuidava de toda a família Sem perceber segui a mesma trilha Toda noite minha mãe orava "Deus, era em nome da fome que eu roubava" Dez anos passaram, cresceram meus irmãos E os anjos levaram minha mãe pelas mãos Chorei, meu pai disse: "Boa sorte" Com a mão no meu ombro Em seu leito de morte Ele disse "Marvin, agora é só você E não vai adiantar Chorar vai me fazer sofrer". "Marvin, a vida é pra valer Eu fiz o meu melhor E o seu destino eu sei de cor". Lamento Sertanejo Zé Ramalho Compositor: Gilberto Gil E Dominguinhos Por ser de lá Do sertão, lá do cerrado Lá do interior do mato Da caatinga, do roçado Eu quase não saio Eu quase não tenho amigo Eu quase que não consigo Ficar na cidade Sem viver contrariado Por ser de lá Na certa por isso mesmo Não gosto de cama mole Não sei comer sem torresmo Eu quase não falo Eu quase não sei de nada Sou como rês desgarrada Nessa multidão Boiada caminhando a esmo Miséria - Titãs Compositor: Arnaldo Antunes, Paulo Miklos, Sérgio Britto Miséria é miséria em qualquer canto Riquezas são diferentes Índio, mulato, preto, branco
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    39 Miséria é misériaem qualquer canto Riquezas são diferentes Miséria é miséria em qualquer canto Filhos, amigos, amantes, parentes Riquezas são diferentes Ninguém sabe falar esperanto Miséria é miséria em qualquer canto Todos sabem usar os dentes Riquezas são diferentes Miséria é miséria em qualquer canto Riquezas são diferentes Miséria é miséria em qualquer canto Fracos, doentes, aflitos, carentes Riquezas são diferentes O Sol não causa mais espanto Miséria é miséria em qualquer canto Cores, raças, castas, crenças Riquezas são diferenças A morte não causa mais espanto O Sol não causa mais espanto A morte não causa mais espanto O Sol não causa mais espanto Miséria é miséria em qualquer canto Riquezas são diferentes Cores, raças, castas, crenças Riquezas são diferenças Índio, mulato, preto, branco Filhos, amigos, amantes, parentes Fracos, doentes, aflitos, carentes Cores, raças, castas, crenças Em qualquer canto miséria Riquezas são miséria Em qualquer canto miséria Titãs criam crônicas da sociedade atual conduzidas pelo rock pesado ‗Nheengatu‘ lembra a banda nos tempos do histórico 'Cabeça Dinossauro' Na capa, a Torre de Babel cunhada pelo pintor Pieter Bruegel representa a nação onde ninguém se entende. Paradoxalmente, estampada sobre a obra, a palavra ‗Nheengatu‘ remete à língua geral, criada no século 17 pelos jesuítas, a partir do tupi-guarani, para que todos (índios e portugueses) conseguissem se comunicar. Na contracapa, outra pintura de Bruegel, O Massacre dos Inocentes, retrata uma sociedade de vítimas. Esse universo forjado no encarte do novo disco do Titãs, batizado de Nheengatu, diz muito sobre as reflexões levantadas, ali dentro do álbum, pela banda. De maneira ácida, irônica – e furiosa. As baladas ficaram para uma próxima oportunidade. As 14 faixas do disco são conduzidas na base do rock pesado, com alguma brasilidade, fazendo lembrar os Titãs em tempos do histórico Cabeça Dinossauro (1986). As guitarras nervosas, a bateria contundente e os vocais exasperados impulsionam uma metralhadora giratória de temas sociais atuais na sociedade brasileira. Após 32 anos de carreira, a banda afia seu olhar de cronista – talvez nunca dantes dessa forma. A coleção de músicas se assemelha a uma compilação de pequenas histórias. Entre elas, há as que soam familiares, como se tivessem sido tiradas dos noticiários. Como na canção Cadáver Sobre Cadáver (Paulo Miklos/Arnaldo Antunes), que parece recontar as tragédias de Amarildos, Cláudias e DGs nas favelas cariocas. Ou como Quem São os Animais? (Sérgio Britto), que joga luz sobre os preconceitos, como o racismo, tal e qual o jogador Daniel Alves sofreu na Espanha, no polêmico episódio da banana jogada no campo. "Te chamam de macaco – quem são os animais?", traz um trecho da letra. Segundo a banda, nenhuma das músicas foi inspirada em um episódio em específico. Mesmo porque todo o processo de composição do projeto começou há cerca de 3 anos. A explicação? Fica no campo da sincronicidade. "A proposta foi fazer instantâneos das situações, mas, infelizmente, as coisas acontecem em tal profusão no Brasil que, quando você faz uma foto aqui, você está acertando várias fotografias que estão acontecendo ao mesmo tempo", compara o guitarrista Tony Bellotto. "A música se encaixa na situação", completa Paulo Miklos, vocalista e guitarrista – que perdeu a mulher Rachel Salém para o câncer no ano passado,
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    40 durante a feituradesse novo disco. "O trabalho foi fundamental (para enfrentar essa situação). Perdi meu pai há 3 meses. É uma situação muito crítica. Acho que o mais importante é o movimento para a sobrevivência", diz ele. Como ‗cronistas policiais‘, eles fazem incursão por assuntos mais pesados, como machismo e abuso sexual de crianças, em Flores Pra Ela (Sérgio Britto/Mario Fabre) e Pedofilia (Britto/Miklos/Bellotto). Falam do homem que se sente dono da mulher, que leva flores para agradá-la ou para seu velório, após matá-la. Do pedófilo que seduz sua vítima e lhe promete não fazer nenhum mal. Mexer nesse vespeiro por meio de canções foi tarefa das mais difíceis. A construção de personagens, do agressor e do agredido dentro delas, ajudou no texto. "Não tem um juízo de valor de um narrador nessas duas canções. Elas colocam a situação por si. A gente percebeu que era melhor fazer assim do que ficar falando o que é obvio", diz Sérgio Britto, vocalista, tecladista e baixista da banda. Já a faixa Fardado (Britto/Miklos) soa como uma atualização de Polícia, canção emblemática do Cabeça Dinossauro, quase 30 anos depois. O Brasil mudou – e a abordagem da banda sobre a instituição também. "O Cabeça é mais na primeira pessoa, ‗não gosto‘, são pensamentos bem claros. Nesse novo trabalho, tem um pouco da reflexão", diz Branco Mello, vocalista e baixista. Para Bellotto, apesar de Fardado e Polícia terem enfoques diferentes, a crítica que se faz é bastante parecida. "Desde Polícia, em 86, já havia a ideia de dizer que a polícia é necessária, óbvio. Não se imagina uma sociedade sem ela, mas o que a gente percebe no Brasil ainda hoje, infelizmente, é uma polícia, muitas vezes, truculenta, não preparada para exercer sua função. Uma polícia que também é, às vezes, explorada." Um dos autores de Fardado, Britto emenda: "Tem a ver com ‗ponha-se no meu lugar, ponha-se no seu lugar‘, você também é explorado, é vítima. Isso é um enfoque um pouco diferente, mas a instituição talvez, como tudo no Brasil, tenha melhorado. No entanto, à medida que a democracia vai se aprimorando, os desafios são maiores. Manifestações no Brasil como têm acontecido não costumavam acontecer, e é preciso que se tenha uma polícia preparada para lidar com isso." A vida é festa. O núcleo titânico, atualmente formado pelo quarteto Miklos, Branco, Bellotto e Britto, conta, há cerca de quatro anos, com o reforço de Mario Fabre na bateria. Ele entrou na banda logo após a saída de Charles Gavin, em 2010. Sua indicação, aliás, partiu do ex-baterista do grupo. Além de acompanhar os Titãs nos shows e neste trabalho em estúdio, Fabre faz sua contribuição como compositor, na canção Flores Pra Ela. E a banda, que costuma assinar as faixas de seus discos, desta vez, abriu espaço para autores ‗infiltrados‘. Caso de nomes como o já citado Arnaldo Antunes, amigo da trupe e ex- Titãs, que fez, em parceria com Miklos, Cadáver Sobre Cadáver; e Hugo Possolo, Emerson Villani e Angeli, que, com Branco Mello, compuseram República dos Bananas. Canalha, do disco Vela Aberta (1979), de Walter Franco, ganhou versão honrosa do grupo, que manteve o vigor – e o riff – do original. Para quem não conhece Canalha, a canção pode até se ‗camuflar‘ de repertório do Titãs dentro do contexto de Nheengatu. A banda também fala sobre a polêmica das biografias não autorizadas. Eles próprios já tiveram sua história escrita pelos jornalistas Hérica Marmo e Luiz André Alzer, com o nome de A Vida Até Parece uma Festa, e publicada em 2002. Apesar de não ser uma biografia encomendada, o processo todo era do conhecimento da banda, que ajudou, inclusive, com informações. "Nessa questão das biografias, ficamos a favor de sua liberação", conta Bellotto. "No nosso caso, o Alzer e a Hérica disseram para a gente que queriam fazer uma biografia nossa, mas que não fosse chapa branca. A gente achou legal e topou correr esse risco." Para eles, essa é uma das formas de se fazer biografia. Quanto a remunerar ou não o biografado, acreditam que não há uma regra. "Se o cara colabora com aquilo, talvez ele possa fazer um acordo", opina Britto. "É uma questão aberta." Asa Branca Luiz Gonzaga
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    41 Quando olhei aterra ardendo Qual fogueira de São João Eu perguntei a Deus do céu, ai Por que tamanha judiação Eu perguntei a Deus do céu, ai Por que tamanha judiação Que braseiro, que fornalha Nem um pé de plantação Por falta d'água perdi meu gado Morreu de sede meu alazão Por falta d'água perdi meu gado Morreu de sede meu alazão Até mesmo a asa branca Bateu asas do sertão Então eu disse, adeus Rosinha Guarda contigo meu coração Então eu disse, adeus Rosinha Guarda contigo meu coração Hoje longe muitas léguas Numa triste solidão Espero a chuva cair de novo Pra mim voltar pro meu sertão Espero a chuva cair de novo Pra mim voltar pro meu sertão Quando o verde dos teus olhos Se espalhar na plantação Eu te asseguro não chore não, viu Que eu voltarei, viu Meu coração Eu te asseguro não chore não, viu Que eu voltarei, viu Meu coração A Volta da Asa Branca Luiz Gonzaga Compositor: Zé Dantas Já faz três noites Que pro norte relampeia A asa branca Ouvindo o ronco do trovão Já bateu asas E voltou pro meu sertão Ai, ai eu vou me embora Vou cuidar da plantação A seca fez eu desertar da minha terra Mas felizmente Deus agora se alembrou De mandar chuva Pra esse sertão sofredor Sertão das muié séria Dos homes trabaiador Rios correndo As cachoeira tão zoando Terra moiada Mato verde, que riqueza E a asa branca A Tarde canta, que beleza Ai, ai, o povo alegre Mais alegre a natureza E a asa branca A Tarde canta, que beleza Ai, ai, o povo alegre Mais alegre a natureza. Sentindo a chuva Eu me recordo de Rosinha A linda flor Do meu sertão pernambucano E se a safra Não atrapaiá meus pranos Que que há, o seu vigário Vou casar no fim do ano. E se a safra Não atrapaiá meus pranos Que que há, o seu vigário Vou casar no fim do ano Águas de Março Elis Regina Compositor: Tom Jobim É pau, é pedra, é o fim do caminho É um resto de toco, é um pouco sozinho É um caco de vidro, é a vida, é o sol É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol É peroba do campo, o nó da madeira Caingá candeia, é o Matita-Pereira É madeira de vento, tombo da ribanceira É o mistério profundo, é o queira ou não queira É o vento ventando, é o fim da ladeira É a viga, é o vão, festa da cumeeira É a chuva chovendo, é conversa ribeira
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    42 Das águas demarço, é o fim da canseira É o pé, é o chão, é a marcha estradeira Passarinho na mão, pedra de atiradeira É uma ave no céu, é uma ave no chão É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão É o fundo do poço, é o fim do caminho No rosto um desgosto, é um pouco sozinho É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto É um pingo pingando, é uma conta, é um conto É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando É a luz da manha, é o tijolo chegando É a lenha, é o dia, é o fim da picada É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada É o projeto da casa, é o corpo na cama É o carro enguiçado, é a lama, é a lama É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã É um resto de mato na luz da manhã São as águas de março fechando o verão É a promessa de vida no teu coração É pau, é pedra, é o fim do caminho É um resto do toco, é um pouco sozinho É uma cobra, é um pau, é João, é José É um espinho na mão, é um corte no pé São as águas de março fechando o verão É a promessa de vida no teu coração É pau, é pedra, é o fim do caminho É um resto de toco, é um pouco sozinho É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã É um belo horizonte, é uma febre terçã São as águas de março fechando o verão É a promessa de vida no teu coração É pau, é pedra, é o fim do caminho É um resto de toco, é um pouco sozinho É pau, é pedra, é o fim do caminho É um resto de toco, é um pouco sozinho Pau, pedra, fim do caminho Resto de toco, pouco sozinho Pau, pedra, fim do caminho Resto de toco, pouco sozinho Pedra, caminho Pouco sozinho Pedra, caminho Pouco sozinho Pedra, caminho É o toco... "Águas de Março" É uma famosa canção brasileira do compositor, músico, arranjador, cantor e maestro Tom Jobim, de 1972. A canção chegou a inspirar uma campanha publicitária da empresa Coca-Cola na década de 1980, com um arranjo mais próximo do rock e outros versos. A versão em inglês da música foi também utilizada, já na década de 1990, como tema publicitário para o lançamento do Ayala Center, nas Filipinas. Em 2001, foi nomeada como a melhor canção brasileira de todos os tempos em uma pesquisa de 214 jornalistas brasileiros, músicos e outros artistas do Brasil, conduzida pelo jornal Folha de S.Paulo. Na pesquisa realizada pela edição brasileira da revista Rolling Stone, em 2009, a canção ocupa o segundo lugar, atrás de "Construção", de Chico Buarque de Holanda. No ano anterior à composição de "Águas de Março", Tom Jobim havia sofrido a única grande perseguição política em sua vida. Em um protesto contra a censura que vigorava durante a ditadura militar no Brasil, Tom Jobim e alguns compositores assinaram um manifesto e se retiraram do Festival Internacional da Canção, da Rede Globo. Doze artistas, entre os quais Tom, foram detidos e, durante algumas horas, interrogados. Segundo declarações posteriores de Chico Buarque, Edu Lobo e Ruy Guerra, um diretor da emissora esteve presente e insistiu para que os compositores voltassem atrás e retornassem ao festival. A pressão não funcionou, mas - na opinião de Chico e Ruy - instigou o aparelho repressivo do
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    43 regime a enquadrá-losna Lei de Segurança Nacional. Depois, Tom foi intimado várias vezes a prestar depoimento, chegou a ter o seu telefone grampeado e a suas cartas violadas. Segundo Tom, a questão foi resolvida "de uma maneira bastante brasileira", quando um escrivão de polícia solidário o chamou e disse: "Olhe, o senhor não queira se meter com polícia... Isso aqui não é bom. Negócio de polícia não é bom. Vou bater um negócio aqui para o senhor..." E assim, o escrivão bateu à máquina de escrever uma declaração, que Tom assinaria. "Este papel aqui diz que o senhor não teve intenção". Também no período de gravação do álbum Matita Perê, Tom Jobim teve outros motivos para viver preocupado, que aludiam a problemas de saúde, términos de projeto de vida ou desinteresse pelos mesmos, algo que mencionaria em entrevistas posteriores. Para a revista Playboy, em 1988, Tom contou que, à época da criação de "Águas de Março", "o médico disse que eu ia morrer de cirrose. 'É um resto de toco, é um pouco sozinho'(...)". Em 1992, para o Jornal do Brasil, ele declarou que escreveu a canção "em um período em que estava muito na fossa. Parecia que tudo havia acabado para mim, que eu não tinha mais nada a fazer. Eu bebia muito."[ Segundo depoimento de Edu Lobo, Tom ressentia-se de que "ninguém ouvia seus discos". Helena Jobim ainda afirmou que o irmão brincava naquele período que temia encerrar a carreira "aos 80 anos, cantando 'Garota de Ipanema', num circo do interior e sendo vaiado". "Águas de março" foi composta por Tom Jobim em março de 1972. O tema começou a ser trabalhado ao violão em seu sítio do Poço Fundo, em São José do Vale do Rio Preto, região Serrana do Rio de Janeiro. De acordo com depoimento de Thereza Hermanny, esposa de Tom à época, a inspiração para "Águas de Março" surgiu ao final de um dia cansativo de trabalho provocado pela composição de "Matita Perê" (futura parceria com Paulo César Pinheiro), de onde decorrem os primeiros versos "é pau, é pedra, é o fim do caminho". (...)assim como quem está cansado mesmo(...) Quer dizer: foi uma música que surgiu numa hora em que ele estava querendo descansar — Thereza Hermmany, sobre como surgiram os primeiros versos de "Águas de Março" . Tendo percebido imediatamente o valor da canção, ainda pela madrugada, Tom bateu à janela e acordou a irmã Helena e o cunhado para lhes mostrar o primeiro rascunho da letra, com a introdução e as primeiras frases, escritas a lápis em um papel de embrulho de pão. Thereza recorda-se de haver lhe arranjado "um papel de desenho das crianças, porque lá não era lugar de muito trabalho". Não surpreende que em um primeiro rascunho da letra contivesse um grande número de referências pontuais: "o projeto da casa", "a viga", "o vão", "a lenha", "o tijolo chegando", "o corpo na cama". De volta ao Rio de Janeiro, concluiu a canção em uma tarde. Assim que a terminou, Tom "passou no Antonio's e convocou todos os amigos que ocupavam a varanda do restaurante para ouvirem, na sua casa, a música nova". Quando se reuniram em torno de Tom, ele "puxou um papel todo amassado do bolso" e "tocando violão, cantou a música(...) Quem chegasse na sua casa, naqueles dias, era imediatamente contemplado com a audição de 'Águas de Março'". "Águas de Março" teve, ao menos, duas grandes fontes de inspiração. Uma é o poema "O caçador de esmeraldas", do poeta parnasiano Olavo Bilac ("Foi em março, ao findar da chuva, quase à entrada / do outono, quando a terra em sede requeimada / bebera longamente as águas da estação (...)")[ Outra é um ponto de macumba, gravado com sucesso por J.B. de Carvalho, o Conjunto Tupi ("É pau, é pedra, é seixo miúdo, roda a baiana por cima de tudo"). A estrutura musical é articulada por um motoperpétuo. Sua letra é estruturada em um único verbo (ser), conjugado na terceira pessoa do singular no presente do indicativo em
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    44 praticamente todos osversos - exceto no refrão, transformado em plural ("São as Águas de Março (...)". Há uma constante alternância entre versos considerados otimistas e pessimistas, além do uso de antítese ("vida", "sol" / "morte", "noite"), pleonasmo ("vento ventando"), paronomásia ("ponta" / "ponto" / "conto" / "conta"). Sua letra tem caráter pouco narrativo e fortemente imagético, constituindo-se como séries descritivas conectadas a um espaço semântico amplo. Muitos elementos, de natureza geral, podem referir-se à cena do sítio: "pau", "pedra", "resto de toco", "peroba-do-campo", "nó na madeira", "caingá", "candeia", "matita perê", o que enquadra "Águas de Março" em um repertório de canções ecológicas - que incluiria depois "Chovendo na roseira", "Boto", "Correnteza", "Passarim", além das instrumentais "Rancho das nuvens" e "Nuvens douradas". A letra se assemelha a um fluxo de consciência, se referindo a seres como pau, pedra, caco de vidro, nó na madeira, peixe, fim do caminho e muitas outros. A metáfora central das "Águas de março" é tomada como imagem da passagem da vida cotidiana, seu motocontínuo, sua inevitável progressão rumo à morte - como as chuvas do fim de março, que marcam o final do verão no sudeste do Brasil. A letra aproxima a imagem da "água" a uma "promessa de vida", símbolo da renovação. A letra e a música operam progressões lentas e graduais, à maneira das enxurradas. Os efeitos de orquestração chegam a ser cinematográficos, a partir das relações que estabelecem entre elementos musicais e imagens do texto. Algumas metáforas são dignas de nota pela sutileza e propriedade, como o quase imperceptível "tombo da ribanceira", que acontece numa rara variação rítmica da linha do contrabaixo, além de vários movimentos de crescendo e decrescendo do naipe de cordas, reforçando o apelo da imagem da chuva na letra. Construção Chico Buarque Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego Amou daquela vez como se fosse o último Beijou sua mulher como se fosse a única E cada filho como se fosse o pródigo E atravessou a rua com seu passo bêbado Subiu a construção como se fosse sólido Ergueu no patamar quatro paredes mágicas Tijolo com tijolo num desenho lógico Seus olhos embotados de cimento e tráfego Sentou pra descansar como se fosse um príncipe Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo Bebeu e soluçou como se fosse máquina Dançou e gargalhou como se fosse o próximo E tropeçou no céu como se ouvisse música E flutuou no ar como se fosse sábado E se acabou no chão feito um pacote tímido Agonizou no meio do passeio náufrago Morreu na contramão atrapalhando o público Amou daquela vez como se fosse máquina Beijou sua mulher como se fosse lógico Ergueu no patamar quatro paredes flácidas Sentou pra descansar como se fosse um pássaro E flutuou no ar como se fosse um príncipe E se acabou no chão feito um pacote bêbado
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    45 Morreu na contramãoatrapalhando o sábado Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir Por me deixar respirar, por me deixar existir, Deus lhe pague Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair, Deus lhe pague Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir, Deus lhe pague Construção é uma canção do cantor e compositor brasileiro Chico Buarque, lançada em 1971 para seu álbum homônimo. Junto com "Pedro Pedreiro", é considerada uma das canções mais emblemáticas da vertente crítica do compositor, "podendo-se enquadrar como um testemunho doloroso das relações aviltantes entre o capital e o trabalho". A letra foi composta em versos dodecassílabos, que sempre terminam numa palavra proparoxítona. Os 17 versos da primeira parte (quatro quartetos, acrescidos de um verso-desfecho) são praticamente os mesmos dezessete que compõem a segunda parte, mudando apenas a última palavra. Os arranjos são do maestro Rogério Duprat, em uma melodia repetitiva, desenvolvida inicialmente sobre dois acordes. A música, entretanto, tem harmonia bem mais complexa. A canção foi feita em um dos períodos mais severos da ditadura militar no Brasil, em meio à censura e à perseguições políticas. Chico Buarque havia retornado da Itália em março de 1970, país onde vivia desde o início de 1969, ao tomar distância voluntária da repressão política brasileira. A canção já foi eleita em enquete da Folha de S.Paulo como a segunda melhor canção brasileira de todos os tempos e, por eleição na revista Rolling Stone, a "maior canção brasileira de todos os tempos" Recebeu também grande destaque durante a Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016, tocada ao fundo de um dos segmentos artísticos. Em um formato tipicamente épico, "Construção" narra a história de um trabalhador da construção civil morto no exercício de sua profissão, em seu último dia de vida, desde a saída de casa para o trabalho ("Beijou sua mulher como se fosse a última") até o momento da queda mortal ("E se acabou no chão feito um pacote flácido"). O narrador observa, organiza e comunica os acontecimentos, ocorridos numa história circular, cantada em melodia reiterativa e que modifica o ângulo de observação a cada repetição da letra com a troca de comparações ("Ergueu no patamar quatro paredes sólidas/mágicas/flácidas"), mas que no final encaminha para o mesmo fim, uma morte. A letra contém uma forte crítica à alienação do trabalhador na sociedade capitalista moderna e urbana, reduzido a condição mecânica - intensificado especialmente por seus atos no terceiro bloco da canção ("máquina", "lógico"). Quando esse trabalhador ("um pacote flácido/tímido/bêbado") morre, a constatação é de que sua morte apenas atrapalha o "tráfego", o "público" ou o "sábado". Ainda assim, Chico declarou, em entrevista concedida à revista Status, em 1973, que "Construção" não era para ele uma música de denúncia ou protesto. "(...) Em Construção, a emoção estava no jogo de palavras. Agora, se você coloca um ser humano dentro de um jogo de palavras, como se fosse... um tijolo - acaba mexendo com a emoção das pessoas." O autor emprega ousados processos de construção poética como, por exemplo, a alternância das proparoxítonas finais, "como se fossem peças de um jogo num tabuleiro", segundo o próprio Chico. A letra é dividida em três blocos. Nos dois primeiros, compostos por 17 versos, e
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    46 mais seis noúltimo bloco. Nos dois primeiros blocos é possível perceber o nítido jogo de palavras proparoxítonas criado por Chico. No rascunho de "Construção", os versos estavam soltos, mas já dentro de uma métrica e ritmo final. Alguns desses versos foram abandonados: "Pôs pedra sobre pedra até perder o fôlego" / "E o máximo suor por um salário mínimo". Em um rascunho posterior, a melodia sugere o agrupamento dos versos em quadro. E só depois de concluída a primeira parte é que apareceram as alternativas: ("Tijolo com tijolo num desenho mágico/lógico", "E flutuou no ar como se fosse um pássaro/sábado", etc). À complexidade da letra de "Construção", corresponde uma linha de apenas dois acordes, composta pelo maestro Rogério Duprat, que são repetidos à medida que se sucedem as imagens "como se ele tivesse realmente colocando laje sobre laje num edifício." O grupo MPB- 4 participa do coro musical. Após o último verso do terceiro bloco, surge uma reprise com três estrofes de "Deus lhe pague", canção que abre o disco Construção. O músico brasileiro Tom Jobim adorava a canção. Segundo seu filho Paulo Jobim, o pai chegou a recortar a letra da canção, publicada em um jornal da época, e a colou em um caderno. Helena Jobim confirma o entusiasmo do irmão. "Comentava a perfeição da letra, em que Chico [Buarque] usa palavras proparoxítonas, com rara maestria." Conhecido por sua posições de direita, o jornalista David Nasser pôs-se um dia a louvar a canção - para, num trecho do artigo, a falar da insistência nas proparoxítonas, acrescentar mais uma: "Médici, o nosso presidente." Para Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, "Construção" tem "uma letra extraordinária, de qualidade rara numa canção popular". Em 2001, o jornal Folha de S.Paulo, em uma enquete realizada com 214 votantes (entre jornalistas, músicos e artistas do Brasil), elegeu "Construção" como a segunda melhor canção brasileira de todos os tempos - atrás de Águas de Março, de Tom Jobim. Já em uma eleição, em 2009, promovida pela versão brasileira da revista Rolling Stone, "Construção" foi eleita a melhor canção brasileira de todos os tempos. Pedro Pedreiro - Chico Buarque Pedro pedreiro penseiro esperando o trem Manhã parece, carece de esperar também Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém Pedro pedreiro fica assim pensando Assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando pra trás Esperando, esperando, esperando, esperando o sol esperando o trem, esperando aumento desde o ano passado para o mês que vem Pedro pedreiro penseiro esperando o trem Manhã parece, carece de esperar também Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém Pedro pedreiro espera o carnaval E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês Esperando, esperando, esperando, esperando o sol Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem Esperando a festa, esperando a sorte E a mulher de Pedro está esperando um filho prá esperar também Pedro pedreiro penseiro esperando o trem Manhã parece, carece de esperar também Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém Pedro pedreiro tá esperando a morte Ou esperando o dia de voltar pro Norte Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo Maior do que o mar, mas pra que sonhar se dá o desespero de esperar demais Pedro pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar Esperando, esperando, esperando, esperando o sol Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem Esperando um filho pra esperar também Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além
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    47 Que a esperançaaflita, bendita, infinita do apito de um trem Pedro pedreiro pedreiro esperando Pedro pedreiro pedreiro esperando Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem Que já vem... Que já vem Que já vem Que já vem Que já vem Que já vem De Viamão a Sorocaba - Os Tiranos Me lembro dos corredores, rondas da noite grande Foi um tropeiro gaúcho, um Biriva do Rio Grande A tropa era boa, mula mansa também tinha Ao passar me perguntavam de onde era que eu vinha De Viamão a Vacaria, eu já tinha o pouso certo De Lages e Curitibanos pernoitava ao céu aberto Depois de pousa em Lapa, Palmeira ou Ponta Grossa Castro ou Itararé descansava a mulada nossa. De chapéu meio tapeado chilenas bem cortadeiras Passavam em Itapitininga, ia vender mula na feira Sorocaba era o lugar de negocio por tropeiro Era mulada do sul, povoando o brasil inteiro. Muitas vezes saí das Missões, santo Angelo ainda era pequeno Com tropeiros missioneiros carregando a cruz de Lorena De Cruz Alta a Carazinho saía pra Passo Fundo Montado na minha mula atravessava o fim do mundo. Este era o caminho que muito eu percorri Levando a mulada xucra tropeando aqui e ali Mas o tempo foi passando chegou asfalto e caminhão Ao tropeiro só restou sofrenaços no coração.
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    48 Tropeiros - (LéoAlmeida) O romantismo rendeu versos ao gaudério e a história decantou bandeirantes, mas foram eles, os birivas, que fizeram a integração destes povoados tão distantes João Miguel era tropeiro gastou a vida na estrada Levando mulada chucra do Rio Grande a Sorocaba Aprendeu nas arribadas que a sorte a gente é que faz Um biriva de vergonha não deixa mula pra trás O facão sorocabano levado sem aparato O chapéu de abas largas as botas de cano alto O trajar era modesto, mas a mirada era altiva Subindo ou descendo a serra João Miguel era biriva Bota n'água esta madrinha, madrinheiro Que a tropa vai seguindo enfileirada Vou na balsa segurando o meu cargueiro Com as bruacas de paçoca bem socada Maria murchou na vida de casa e cabo de enxada Com um olho nas crianças e o outro fitando a estrada João Miguel virou lembrança na cruz à beira da trilha E Maria foi plantada lá no alto da coxilha João Miguel era tropeiro, seus netos tropeiros são De esperanças mal domadas que desgarrando se vão A esperança madrinha segue na frente entonada E seu cargueiro de sonhos traz a bruaca lotada. Fonte: cd Leo Almeida de Milongas e chamamés. In: <http://letras.mus.br/leo-almeida/879588/>. Acesso em 20 de ago. de 2012. Supertrabalhador - Gabriel O Pensador Quem trabalha e mata fome não come o pão de ninguém Mas quem come e não trabalha tá comendo o pão de alguém Quem trabalha e mata a fome não come o pão de ninguém Mas quem come e não trabalha tá comendo o pão de alguém É pra ganhar o pão tem que trabalhar Missão para os heróis que estão dentro do seu lar O seu pai, sua mãe, são trabalhadores São os super-heróis, verdadeiros protetores A superjornalista, o superdoutor O supermotorista, o supertrocador O superguitarrista, o superprodutor E a superprofessora, é que me ensinou E o supercarteiro, quê que faz, quê que faz? Manda carta e manda conta pra mamãe e pro papai E o supergari, o lixeiro, o quê que faz? Bota o lixo no lixo que aqui tem lixo demais Cada um faz o que sabe, cada uma sabe o que faz Ninguém menos ninguém mais, todo mundo corre atrás E volta pra casa com saudade do filho Enfrentando o desafio, desviando do gatilho Mais uma jornada, adivinha quem chegou? São as aventuras do supertrabalhador Sou o supertrabalhador Alimento minha família com orgulho e amor Supertrabalhador São as aventuras do supertrabalhador Sou o Supertrabalhador Enfrento os desafios, o perigo que for Supertrabalhador São as aventuras do Supertrabalhador Demorou Quem trabalha e mata fome não come o pão de ninguém Mas quem come e não trabalha tá comendo o pão de alguém Quem trabalha e mata a fome não come o pão de ninguém E pra fazer o pão tem que colher o grão Separar o joio do trigo na plantação O superlavrador falou com o agricultor, Que sabe que precisa também do motorista do trator na cidade, o engenheiro precisa di pedreiro
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    49 Mas pra fazero prédio tem que desenhar primeiro O sonho do arquiteto, bonito no projeto, virando concreto Vai virando o concreto! Eu sou o supertrabalhador Alimento minha família com orgulho e amor Supertrabalhador São as aventuras do supertrabalhador Sou o Supertrabalhador Enfrento os desafios, o perigo que for Supertrabalhador São as aventuras do Supertrabalhador Demorou Quero ser trabalhador, quem não é um dia quis Minha mãe sempre falou: "Quem trabalha é mais feliz" Mas tem que suar pra ganhar o pão E ainda tem que enfrentar o leão O leão quer morder nosso pão Cuidado com o leão, que ele come o nosso pão O leão quer morder nosso pão Cuidado com o leão, não dá mole não Eu sou o supertrabalhador Alimento minha família com orgulho e amor Supertrabalhador São as aventuras do supertrabalhador Sou o Supertrabalhador Enfrento os desafios, o perigo que for Supertrabalhador São as aventuras do Supertrabalhador Demorou Supertrabalhador Taxista, motoboy, assistente, diretor Supertrabalhador Pipoqueiro, pedagogo, poteiro, pesqisador Supertrabalhador Ambulante, feirante, astronauta, ilustrador Supertrabalhador Comandante, comissário, caixa, vendedor Supertrabalhador Cozinheiro, garçon, bibliotecário, escritor Supertrabalhador Maquinista, sambista, surfista, historiador Supertrabalhador Marceneiro, carpinteiro, ferreiro, minerador Supertrabalhador Telefonista, salva-vidas, bombeiro, mergulhador Supertrabalhador Pára-quedista, arqueólogo, filósofo, pintor Supertrabalhador Sapateiro, boiadeiro, farmacêutico, cantor Super. Chega - Gabriel O Pensador Chega! Que mundo é esse, eu me pergunto Chega! Quero sorrir, mudar de assunto Falar de coisa boa mas na minha alma ecoa Agora um grito eu acredito que você vai gritar junto (x2) A gente é saco de pancada há muito tempo e aceita Porrada da esquerda, porrada da direita É tudo flagrante, novas e velhas notícias Mentiras verdadeiras, verdades fictícias Polícia prende o bandido, bandido volta pra pista Bandido mata o polícia, polícia mata o surfista O sangue foi do Ricardo, podia ser do Medina Podia ser do seu filho jogando bola na esquina Morreu mais uma menina, que falta de sorte Não traficava cocaína e recebeu pena de morte Mais uma bala perdida, paciência Pra ela ninguém fez nenhum pedido de clemência [Refrão] Chega! Que mundo é esse, eu me pergunto Chega! Quero sorrir, mudar de assunto Falar de coisa boa mas na minha alma ecoa Agora um grito eu acredito que você vai gritar junto Chega! Vida de gado, resignado Chega! vida de escravo de condenado A corda no pescoço do patrão e do empregado Quem trabalha honestamente tá sempre sendo roubado Chega! Água que falta, mágoa que sobra Chega! Bando de rato, ninho de cobra Chega! Obras de milhões de reais E milhões de pacientes sem lugar nos hospitais Chega! Falta comida, sobra pimenta Chega! Repressão que não me representa Chega! Porrada pra quem ama esse país E bilhões desviados debaixo do meu nariz Chega! Contas, taxas, impostos, cobranças Chega! Tudo aumenta menos a esperança Multas e pedágios para o cidadão normal E perdão pra empresas que cometem crime ambiental Chega! Um para o crack, dois para a cachaça Chega! Pânico, morte, dor e desgraça Chega! Lei do mais forte, lei da mordaça Desce até o chão na alienação da massa Eu vou, levanta o copo e vamos beber! Um brinde aos idiotas incluindo eu e você
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    50 Democracia, que democraciaé essa? O seu direito acaba onde começa o meu, mas onde o meu começa? Os ratos fazem a ratoeira e a gente cai Cada centavo dos bilhões é da carteira aqui que sai E a gente paga juros paga entrada e prestação Paga a conta pela falta de saúde e educação Paga caro pela água, pelo gás, pela luz Pela paz, pelo crime, por Alá, por Jesus Paga imposto paga taxa, aumento do transporte Paga a crise na Europa e na América do norte Os assassinos da Febem, o trabalho infantil na China E as empresas e os partidos envolvidos em propinas [Refrão] Chega! Que mundo é esse, eu me pergunto Chega! Quero sorrir, mudar de assunto Falar de coisa boa mas na minha alma ecoa Agora um grito eu acredito que você vai gritar junto Chega! Vida de gado, resignado Chega! vida de escravo de condenado A corda no pescoço do patrão e do empregado Quem trabalha honestamente tá sempre sendo roubado Presidente, deputados, senadores, prefeitos Governadores, secretários, vereadores, juízes Procuradores, promotores, delegados, inspetores Diretores, um recado pras senhoras e os senhores Eu pago por tudo isso, imposto sobre o serviço A taxa sobre o produto, eu pago no meu tributo Pago pra andar na rua, pago pra entrar em casa Pago pra não entrar no Spc e no Serasa Pago estacionamento, taxa de licenciamento Taxa de funcionamento liberação e alvará Passagem, bagagem, pesagem, postagem Imposto sobre importação e exportação, Iptu, Ipva O Ir, o Fgts, o Inss, o Iof, o Ipi, o Pis, o Cofins e o Pasep A construção do estádio, o operário e o cimento Eu pago o caveirão, a gasolina e o armamento A comida do presídio, o colchão incendiado Eu pago o subsídio absurdo dos deputados A esmola dos professores, a escola sucateada O pão de cada merenda, eu pago o chão da estrada A compra de cada poste eu pago a urna eletrônica E cada arvore morta na nossa selva amazônica Eu pago a conta do Sus e cada medicamento A maca que leva os mortos na falta de atendimento Paguei ontem, pago hoje e amanhã vou pagar Me respeita! Eu sou o dono desse lugar! Chega! Esquadros - Adriana Calcanhotto Eu ando pelo mundo Prestando atenção em cores Que eu não sei o nome Cores de Almodóvar Cores de Frida Kahlo Cores! Passeio pelo escuro Eu presto muita atenção No que meu irmão ouve E como uma segunda pele Um calo, uma casca Uma cápsula protetora Ai, Eu quero chegar antes Pra sinalizar O estar de cada coisa Filtrar seus graus Eu ando pelo mundo Divertindo gente Chorando ao telefone E vendo doer a fome Nos meninos que têm fome Pela janela do quarto Pela janela do carro Pela tela, pela janela Quem é ela? Quem é ela? Eu vejo tudo enquadrado Remoto controle Eu ando pelo mundo E os automóveis correm Para quê? As crianças correm Para onde? Transito entre dois lados De um lado Eu gosto de opostos Exponho o meu modo Me mostro Eu canto para quem?
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    51 Pela janela doquarto Pela janela do carro Pela tela, pela janela Quem é ela? Quem é ela? Eu vejo tudo enquadrado Remoto controle Eu ando pelo mundo E meus amigos, cadê? Minha alegria, meu cansaço Meu amor, cadê você? Eu acordei Não tem ninguém ao lado Pela janela do quarto Pela janela do carro Pela tela, pela janela Quem é ela? Quem é ela? Eu vejo tudo enquadrado Remoto controle Eu ando pelo mundo E meus amigos, cadê? Minha alegria, meu cansaço Meu amor cadê você? Eu acordei Não tem ninguém ao lado Pela janela do quarto Pela janela do carro Pela tela, pela janela Quem é ela? Quem é ela? Eu vejo tudo enquadrado Remoto controle Letras como essa podem confundir muita gente. A primeira estrofe da canção, por exemplo, pode parecer sem sentido. Mas, com uma boa pesquisa sobre o assunto, tudo fica mais fácil. Quando fala em cores de Almodóvar, Adriana refere-se, provavelmente, à homossexualidade de Pedro Almodóvar, cineasta, ator e argumentista espanhol, que tinha a sexualidade como tema principal da maioria de seus filmes. Adriana, ainda na primeira estrofe, fala sobre cores de Frida Kahlo. Era esta uma pintora mexicana de grande talento. Em comum com Almodóvar tinha as polêmicas da sexualidade, já que tratava-se de uma bissexual assumida. E, ainda em relação à primeira estrofe, uma frase interessante é "Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores". Esta frase pode, de alguma formar, representar a falta de informação sobre a homossexualidade e ou a bissexualidade naqueles tempos. A segunda estrofe pode ser assimilada mais facilmente. O eu-lírico da música, que provavelmente é a própria Adriana Calcanhotto, confirma a falta de informação sobre sexualidade sugerida na primeira estrofe quando diz que caminha pelo escuro, ou seja, que não consegue enxergar nada à respeito do assunto. E cita ainda o seu irmão, como fonte de força e proteção para ela. A terceira e a quarta estrofe revelam um pouco da personalidade do eu-lírico. E aproveitam para revelar que, ainda sendo homossexual, este mesmo eu-lírico (Adriana Calcanhotto), continua tendo sensibilidade, humanidade e todas as qualidades que teria caso fosse heterossexual. No refrão, o eu-lírico procura entender o que se passa com ele mesmo, procura entender sua própria sexualidade, talvez sendo homossexual. E põe em questão, outra vez, o tabu que era a sexualidade naqueles tempos, quando diz ver tudo enquadrado, que pode ser associado à distante. O eu-lírico via tudo muito distante do que realmente deveria ser. Falar de homossexualidade, bissexualidade ou mesmo sexualidade não era algo tão comum. E ainda não é. Destaca-se no refrão a citação "Remoto Controle". Remoto é tudo aquilo que é antigo, que ainda precisa evoluir. Controle é uma força de poder exercida sobre algo ou alguma pessoa. Portanto, essa frase, dispondo de ironia, critica a sociedade hipócrita e conservadora ao extremo que até hoje não aceita totalmente as diferenças, como o homossexualismo ou o bissexualismo. A sexta estrofe completa o contexto que diz que o eu-lírico procura entender o sentido da vida, procura entender o que passa com ele e com o mundo. E a sétima estrofe, talvez a mais significativa da canção, fala da bissexualidade (trânsito entre dois lados), falando que gosta do sexo oposto (de um lado eu gosto de oposto), e do mesmo sexo. Diz não querer esconder seu modo, querer se expor. Mas então entra em cena um elemento até então não observado na canção: o medo, "Eu canto para quem?". E o preconceito contra o eu-lírico torna-se evidente na nona estrofe. Ele continua andando pelo mundo, conhecendo o mundo, agindo com qualquer outra pessoa. Mas já não encontra mais os
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    52 seus amigos, nemmesmo o seu "amor" e, por consequente, sua alegria. Todos o abandonaram, provavelmente, por não estarem dispostos a serem as pessoas que relacionavam-se com um homossexual ou bissexual. Passei muito tempo tentando achar o real sentido de Esquadros, analisando a letra e pesquisando sobre a vida de Adriana Calcanhotto e até Almodóvar e Frida Kahlo. Entretanto, não foi a letra e as pesquisas que mais me inspiraram à essa interpretação. Levei em consideração a verdade com a qual, no programa Por Acaso, Adriana Calcanhotto, homossexual assumida, e Renato Russo, bissexual assumido, cantaram essa canção. Unimultiplicidade - Ana Carolina Neste Brasil corrupção Pontapé bundão Puto saco de mau cheiro Do Acre ao Rio de Janeiro Neste país de manda-chuvas Cheio de mãos e luvas Tem sempre alguém se dando bem De São Paulo a Belém Eu pego meu violão de guerra Pra responder essa sujeira E como começo de caminho Quero a unimultiplicidade Onde cada homem é sozinho A casa da humanidade Onde cada homem é sozinho A casa da humanidade Não tenho nada na cabeça A não ser o céu Não tenho nada por sapato A não ser o passo Neste país de pouca renda Senhoras costurando Pela injustiça vão rezando Da Bahia ao Espírito Santo Brasília tem suas estradas Mas eu navego é noutras águas E como começo de caminho Quero a unimultiplicidade Onde cada homem é sozinho A casa da humanidade Onde cada homem é sozinho A casa da humanidade Onde cada homem é sozinho A casa da humanidade Onde cada homem é sozinho A casa da humanidade A música Unimultiplicidade foi feita a partir do texto de Elisa Lucinda, que fala sobre a corrupção e a indignação da autora, por pagar impostos e contas, e seus direitos não serem exercidos! Da mesma forma, Ana Carolina protesta, contra a corrupção, contra os políticos que usam o dinheiro do povo, o nosso dinheiro, que pagamos todos os meses, para que sejam usados de forma correta, ajudando aqueles que não tem condição e nos ajudando também. Mas não é isso que acontece, e expõe claramente que é totalmente contra qualquer tipo de sujeira e que enquanto viver, vai lutar pela justiça! Bom, essa música é de cunho crítico e foi feita a partir do texto de Elisa Lucinda, que fala sobre a corrupção e a indignação da autora, por pagar impostos e contas, e seus direitos não serem exercidos! Ana Carolina e Tom Zé ao criarem essa música protestam, contra a corrupção, contra os políticos que usam o dinheiro do povo, o seu dinheiro, que você paga todos os meses, para que sejam usados de forma correta, ajudando aqueles que não tem condição e ajudando no seu próprio conforto e controle da cidade. Mas não é isso que acontece, e expõe claramente que é totalmente contra qualquer tipo de sujeira e que enquanto viver, vai lutar pela justiça e contra a corrupção ! Vocabulário : Unimultiplicidade: uma variedade de coisas diferentes, mas unidas por uma finalidade. Corrupção :Ação ou efeito de corromper, de fazer degenerar; depravação. Ação de seduzir por dinheiro, presentes etc., levando alguém a afastar-se da retidão; suborno.
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    53 Injustiça : Faltade justiça, Ato contrário à justiça: reclamar contra uma injustiça. Iniquidade. Sujeira : Estado do que está sujo; coisa desasseada, imundície, sujidade, Ação vil, processo incorreto: fez-me uma sujeira. Mandachuva: Magnata, pessoa importante, pessoa influente, chefe. Haiti (Década de 90) Caetano Veloso Compositor: Caetano Veloso e Gilberto Gil Quando você for convidado pra subir no adro Da fundação casa de Jorge Amado Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos Dando porrada na nuca de malandros pretos De ladrões mulatos e outros quase brancos Tratados como pretos Só pra mostrar aos outros quase pretos (E são quase todos pretos) Como é que pretos, pobres e mulatos E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados E não importa se os olhos do mundo inteiro Possam estar por um momento voltados para o largo Onde os escravos eram castigados E hoje um batuque, um batuque Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária Em dia de parada E a grandeza épica de um povo em formação Nos atrai, nos deslumbra e estimula Não importa nada: Nem o traço do sobrado Nem a lente do fantástico, Nem o disco de Paul Simon Ninguém, ninguém é cidadão Se você for ver a festa do pelô, e se você não for Pense no Haiti, reze pelo... O Haiti é aqui O Haiti não é aqui E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer Plano de educação que pareça fácil Que pareça fácil e rápido E vá representar uma ameaça de democratização Do ensino de primeiro grau E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto E nenhum no marginal E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco Brilhante de lixo do Leblon E ao ouvir o silêncio sorridente de São Paulo Diante da chacina 111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos E quando você for dar uma volta no Caribe E quando for trepar sem camisinha E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba Pense no Haiti, reze pelo O Haiti é aqui O Haiti não é aqui A música estabelece uma avaliação da noção de justiça em nosso país. Apesar em tese, da universalização dos direitos no Brasil, os excluídos do mercado - na música, pretos e pobres - não desfrutam dos direitos da cidadania. A letra da canção acima nos dá a possibilidade de analisar aspectos relacionados com a discriminação sócio racial no país. Crianças haitianas. É possível se estabelecer também uma abordagem sociológica nessa canção, a partir da discussão do fato de ficarmos perplexos com o que é de fora e aceitarmos passivamente as nossas mazelas locais, talvez por isso os compositores optaram por abordar um Haiti que é aqui, ou seja, utilizou um lugar distante para parodiar uma realidade de ambos os países. É possível se estabelecer também uma abordagem sociológica nessa canção, a partir da discussão do fato de ficarmos perplexos com o que é de fora e aceitarmos passivamente as nossas mazelas locais, talvez por isso os compositores optaram por abordar um Haiti que é aqui, ou seja, utilizou um lugar distante para parodiar uma realidade de ambos os países.
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    54 A Cara DoBrasil 1991 - Celso Viáfora Eu estava esparramado na rede jeca urbanóide de papo pro ar me bateu a pergunta, meio à esmo: na verdade, o Brasil o que será? O Brasil é o homem que tem sede ou quem vive da seca do sertão? Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo o que vai é o que vem na contramão? O Brasil é um caboclo sem dinheiro procurando o doutor nalgum lugar ou será o professor Darcy Ribeiro que fugiu do hospital pra se tratar A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho Ninguém precisa consertar Se não der certo a gente se virar sozinho decerto então nunca vai dar O Brasil é o que tem talher de prata ou aquele que só come com a mão? Ou será que o Brasil é o que não come o Brasil gordo na contradição? O Brasil que bate tambor de lata ou que bate carteira na estação? O Brasil é o lixo que consome ou tem nele o maná da criação? Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho que é o Brasil zero a zero e campeão ou o Brasil que parou pelo caminho: Zico, Sócrates, Júnior e Falcão A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho... O Brasil é uma foto do Betinho ou um vídeo da Favela Naval? São os Trens da Alegria de Brasília ou os trens de subúrbio da Central? Brasil-globo de Roberto Marinho? Brasil-bairro: Carlinhos-Candeal? Quem vê, do Vidigal, o mar e as ilhas ou quem das ilhas vê o Vidigal? O Brasil encharcado, palafita? Seco açude sangrado, chapadão? Ou será que é uma Avenida Paulista? Qual a cara da cara da nação? A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho ... E Vamos À Luta - Gonzaguinha Eu acredito é na rapaziada Que segue em frente e segura o rojão Eu ponho fé é na fé da moçada Que não foge da fera, enfrenta o leão Eu vou à luta com essa juventude Que não corre da raia a troco de nada Eu vou no bloco dessa mocidade Que não tá na saudade e constrói A manhã desejada Aquele que sabe que é negro o coro da gente E segura a batida da vida o ano inteiro Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro E apesar dos pesares ainda se orgulha de ser brasileiro Aquele que sai da batalha Entra no botequim, pede uma cerva gelada E agita na mesa logo uma batucada Aquele que manda o pagode E sacode a poeira suada da luta e faz a brincadeira Pois o resto é besteira E nós estamos por aí... Eu acredito é na rapaziada Que segue em frente e segura o rojão Eu ponho fé é na fé da moçada Que não foge da fera e enfrenta o leão Eu vou á luta com essa juventude Que não corre da raia a troco de nada Eu vou no bloco dessa mocidade Que não tá na saudade e constrói A manhã desejada Aquele que sabe que é negro o coro da gente E segura a batida da vida o ano inteiro Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro E apesar dos pesares ainda se orgulha de ser brasileiro Aquele que sai da batalha Entra no botequim, pede uma cerva gelada E agita na mesa logo uma batucada Aquele que manda o pagode E sacode a poeira suada da luta e faz a brincadeira Pois o resto é besteira E nós estamos pelaí... Eu acredito é na rapaziada...
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    55 Éramos Felizes ENão Sabíamos Gaúcho da Fronteira Compositor: Gaúcho Da Fronteira E Beto Caetano Braum Essa vidinha tão boa, agora vai Terminar Porque tá chegando o homem Caçador de marajás Essa vidinha tão boa, agora vai terminar O povo que se prepare no Pacote tem presente Tia Zélia disse e falou: não é Como antigamente O povo que se prepare no Pacote tem presente Já é hora de trabalho, vão Deixar de blá, blá Os de esquerda se arremangam: Diz que vão fiscalizar Já é hora de trabalho, vão Deixar de blá, blá Isso já foi anunciado através da Rede globo Parece que a noiva é a mesma, Só mudaram o penteado Entra Juca, sai manduca e o Baile sempre formado Parece que a noiva é a mesma Só mudaram o penteado A pouco tempo lá em casa, Tinha bóia á revelia Ferrovia norte-sul, quase Mudou o destino Ameaçaram com gaúcho, me Empurraram nordestino Ferrovia norte-sul, quase Mudou o destino Não vai faltar alguém que diga: -que saudades do Sarney Político é sempre assim, eu Falei, eu não falei. Patifarias - Gaúcho da Fronteira Gaúcho da Fronteira e Vaine Darde Quando Fernando foi lá na casa da Dinda Fazer safári para caçar marajás De jet-ski, motocão, coisa mais linda Morcego negro também pousava por lá. Era pacote, era calote, tempo novo Plano e mais plano pra poder se arrumar Bateram então a carteirinha do meu povo E o Fernadinho nos levou no blá-blá-blá. Patifarias, pra ti Farias O Fernandinho nessa bronca quem diria Patifarias, pra ti Farias Tantos fantasmas o Brasil não merecia. Ali PC e os quarentas ladrões Era uma noite num palácio de Brasília Deram bandeira e chegou-se a conclusão Que tudo isso era só patifarias. Dona Rosane foi lá pra L B A Porque afinal ela era a patroa Mas na horinha de comprar fralda e mama O dinheirinho se afundou nas Alagoas. E a secretária, cheque, cheque, cheque Mas parecia outro filme de terror E os fantasminhas assombrando todo mundo E a CPI dando fim nesse pavor Mas outro Pedro redescobriu o Brasil E um chofer derrubou o caçador Hoje na rua o meu povo anda a mil Todo de luto, pois já chega de "Collor". Carta Ao Presidente - Marcelo D2 E a carta, cadê? Era assim que eu tava pensando. O Brasil quer mudar, crescer, pacificar, uma justiça social que tanto alguns tentam conquistar e se algum momento algum político conseguiu dispertar a esperança. O final da historia é uma lambança. Nosso povo constata que promessas não faltam, e corrupção continua alta. Eu não venho por meio dessa com protesto destrutivo. Ao contrário, apesar de sofrimento injusto e desnecessário. Colapso ai, não somos fãs de canalha. Terra pro povo e não me venha com medalhas. Soberania país, De onde vêm essas ideias? e o tal desenvolvimento econômico? Pra mim, só a miséria Déficit habitacional. É favela pra todo canto. Me lembro de uma reforma agrária, que ia segurar ser pai no campo.
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    56 Quando você dizjusto, vem de justiça, não é? Como vamos manter a calma se a justiça é só pa ralé? Como você disse, eu quero a verdade completa. Como todos os brasileiros querem a verdade completa. Que segurança o governo tem oferecido à sociedade brasileira? Alguém só pode estar de brincadeira. Mas cá entre nós, na verdade, quer saber? Todo brasileiro quer é mudar pra valer. Sentimento predominante em todas as classes ainda é Qual seria a diferença do Luiz pro José? Eu sei, ninguém precisa te ensinar a importância do controle da inflação. Mas o Brasil Solidário não apareceu aqui ainda não. Minha mãe sempre dizia que o exemplo vem de cima E agora Silva, você tá em cima. Uma vida sindical bonita, ao lado dos trabalhadores. Nunca se esqueça, ao lado dos trabalhadores. Parece que a economia é o mal da nação, mas ao meu ver o mal tá na corrupção. Não tem dinheiro pra educação, segurança, saúde então nem se fala. Enquanto isso neguinho tá carregando dinheiro na mala. As cadeias estão cheias de pretos e nordestinos como nós. e os verdadeiros criminosos são os que têm a voz. Se você não sabia de nada, então não está fazendo teu trabalho direito. Afinal de contas, você é o presidente eleito! Falta dizer: o sacrifício continua dos mais necessitados que ainda andam esquecidos e colocados de lado. O que nos move aqui é a certeza de que o Brasil é bem maior do que isso. quando precisar dos que querem o bem tamo aí, pronto pro serviço. Desculpe se eu entendi algo errado. Mas essa aqui são as minhas palavras, ou melhor, as palavras aqui de casa. Família Brasileira, honesta e trabalhadora, como quase todas, honesta e trabalhadora. Sem mais delongas, não repare o sorriso amarelo, um abraço do ainda amigo. Marcelo, Rio de Janeiro 28 de Fevereiro de 2006. Mensalão - Zé Mulato & Cassiano Compadre que narquia é aquela Olha é briga de tubarão Compadre Tão brigando e se rasgando Pro mó de um tal de mensalão - ê compadre, que brigaceiro feio será aquele?? - uái compadre que lerea será isso mesmo? - montaram uma frajoca dos infernos. - mas será compadre que um trem desse pode ser verdade. - ora não é! Parece conto de fada mas o caso é verdadeiro É coisa do Ali Babá com os quarenta companheiros - olha compadre, os companheiros dele ta treinado mesmo, traquejado. - é, o tal da má companhia, né compadre? - olha, enquanto o rato da barriga branca dá uma viajem eles dá três ou quatro cada um. - é, puro rato. Compadre há muito tempo isso existe Mas é que era tudo camuflado Roubar sempre roubaram a gente sabe Mas só agora foi escancarado - trem antigo hem compadre? - iii, antiguizérrimo compadre, ó! - ê compadre, isso igual a um furunco: há muitos anos que o trem vem inchando, vai latejando, comichando. Mas agora parece que veio a furo. - é, é preciso arrancar o canecão que é pra sarar de vez, né compadre? - é, de vero. Só por que um linguarudo bateu com a língua nos dentes Contou tudo pro Sultão e deixou o pobre doente - ê compadre, aí não tem Sultão que aguente
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    57 compadre. - compadre, pareceque deu até um problema na familhagem do Sultão. - é, é um problema sério daqueles verdadeiros compadre. - Genuíno. - é. Compadre tem até palavra mágica pra entrar no covil do salafrário que chega na porta cheio de banca e vai dizendo: Abra-te plenário. - ―Está em pauta a discussão pra dividir o mensalão, portanto declaro aberta a sessão‖. - uái compadre, parece que sumirão com um companheiro. - como de fato compadre, de vero. Por nós votar nesse povo, Brasil vai levando à breca brecaram um que ia escapulindo levando uma fortuna na cueca - uái compadre, inté na cueca? - é, danasco, tava parecendo uma tanajura compadre com tanto dinheiro. - o que era de capanga, mala e bolsa encheram tudo, quando não deu mais onde por puseram na cueca. - é verdade. Compadre se a CPI funcionar O povo quer saber o resultado Pode até escapar uns dois ou três Mas eu acho que o covil vai ser fechado - ê compadre, o trem virou foi é um formigueiro. - uái, é só a fila de mala entrando vazia e saindo cheia compadre. - é. - trilheiro desse tá fundo. - é. - tá puído lá viu! - é, o Brasil não merece um trem desses. Ali só entra serpente, jararaca ou surdo eterno Se for pelo meu voto eles vão ser... Eleito é nas prefunda dos inferno. - isso mesmo compadre, nas prefunda dos inferno. - é verdade. Compadre, esses político ladrão vai tudo pro inferno. E o capeta vai chorar aquela zagaia bem do sobre do miserável. - isso mesmo, no sobre. - Uh! Trem doido compadre. - he he he he he he he. -é, mas sabe um trem compadre, é melhor no deles do que no nosso. - como de fato compadre, como de fato. - é, no deles é até engraçado uái. Luís Inácio (300 Picaretas) Os Paralamas do Sucesso Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou São trezentos picaretas com anel de doutor Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou São trezentos picaretas com anel de doutor Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou Eles ficaram ofendidos com a afirmação Que reflete na verdade o sentimento da nação É lobby, é conchavo, é propina e jeton Variações do mesmo tema sem sair do tom Brasília é uma ilha, eu falo porque eu sei Uma cidade que fabrica sua própria lei Aonde se vive mais ou menos como na Disneylândia Se essa palhaçada fosse na Cinelândia Ia juntar muita gente pra pegar na saída Pra fazer justiça uma vez na vida Eu me vali deste discurso panfletário Mas a minha burrice faz aniversário Ao permitir que num país como o Brasil Ainda se obrigue a votar por qualquer trocado Por um par se sapatos, um saco de farinha A nossa imensa massa de iletrados Parabéns, coronéis, vocês venceram outra vez O congresso continua a serviço de vocês Papai, quando eu crescer, eu quero ser anão Pra roubar, renunciar, voltar na próxima eleição Se eu fosse dizer nomes, a canção era pequena João Alves, Genebaldo, Humberto Lucena De exemplo em exemplo aprendemos a lição Ladrão que ajuda ladrão ainda recebe concessão De rádio FM e de televisão Rádio FM e televisão Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou São trezentos picaretas com anel de doutor Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou São trezentos picaretas com anel de doutor Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou São trezentos picaretas com anel de doutor Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou São trezentos picaretas com anel de doutor
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    58 "Luís Inácio (300Picaretas)" é uma canção composta por Herbert Vianna e interpretada pelos Paralamas do Sucesso, lançado originalmente em 1995. “ Há no congresso uma minoria que se preocupa e trabalha pelo país, mas há uma maioria de uns trezentos picaretas que defendem apenas seus próprios interesses ” A canção cita o escândalo que ficou conhecido como "Anões do Orçamento", e os nomes de dois dos deputados envolvidos nele (João Alves de Almeida e Genebaldo Correia). Cita também Humberto Lucena, então senador pelo estado da Paraíba. Refere-se também a parlamentares que detêm concessões de "rádio FM e de televisão", o que é expressamente proibido pela Constituição de 1988. Censura Assim que o EP Vamo Batê Lata foi lançado, a canção despertou a ira do então procurador da Câmara dos Deputados, José Bonifácio de Andrada. Andrada conseguiu proibir a execução de "Luís Inácio" em um show dos Paralamas em Brasília (mesmo sem a canção constar no repertório). No show em questão, Vianna tocou "Proteção", do grupo Plebe Rude, como forma de retaliação à ação de Andrada. Começou-se, então, uma longa discussão na qual os parlamentares queriam proibir a execução pública da canção (o que foi tido por toda a imprensa como sendo um ato inconstitucional que remetia aos tempos da censura imposta pela ditadura militar). Por fim, "Luís Inácio" teve sua execução vetada apenas nas rádios e em lojas de discos. Legado No último show que fizeram em 2002, os Paralamas tocaram "Luís Inácio" em homenagem à eleição que definiu Lula como presidente. Em abril de 2003, os três membros do grupo receberam o título de cidadãos honorários de Brasília e foram recebidos pessoalmente pelo presidente Lula. Com a Câmara dos Deputados cheia, Herbert cantou, ao som de seu violão, um trecho da canção. Em 2005, "Luís Inácio (300 Picaretas)" foi a segunda música mais lembrada pelos leitores do jornal O Globo para definir a crise política (atrás de "É Ladrão que Não Acaba Mais", de Bezerra da Silva). Proteção Plebe Rude Será verdade, será que não nada do que posso falar e tudo isso prá sua proteção nada do que posso falar A PM na rua, a guarda nacional nosso medo suas armas, a coisa não tá mal a instituição esta aí para a nossa proteção Pra sua proteção Tanques lá fora, exército de plantão apontados aqui pro interior e tudo isso para sua proteção pro governo poder se impor A PM na rua, nosso medo de viver um consolo é que eles vão me proteger a única pergunta é: me proteger do que? Sou uma minoria mas pelo menos falo o que quero apesar da repressão Tropas de choque, PM's armados mantêm o povo no seu lugar Mas logo é preso, ideologias marcadas se alguém quiser se rebelar Oposição reprimida, radicais calados toda a angustia do povo é silenciada Tudo pra manter a boa imagem do Estado! Sou uma minoria mas pelo menos falo o que quero apesar da repressão Armas polidas, os canos se esquentam esperando a sua função exército bravo e o governo lamenta que o povo aprendeu a dizer não Até quando o Brasil vai poder suportar? Código penal não deixa o povo rebelar Autarquia baseados em armas não dá E tudo isso é para a sua segurança
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    59 Para a suasegurança É Ladrão Que Não Acaba Mais Bezerra da Silva Quando Cabral aqui chegou E semeou sua semente Naturalmente começou A lapidação do ambiente... Roubaram o ouro Roubaram o pau Pra ficar legal Ainda tiraram o couro Do povo Desta terra original... E só deixaram A má semente Presente de Grego Que logo se proliferou E originou a nossa gente... É ladrão que não acaba mais Tem ladrão que não acaba mais Você vê ladrão Quando olha pra frente Você vê ladrão Quando olha pra trás...(2x) Hiiiiiii! A terra boa Mas o povo Continua escravizado Os direitos são os mesmos Desde os séculos passados O Marajá Ele só anda engravatado Não trabalha, não faz nada Mas tá sempre Endinheirado... E se entrar no supermercado Você é roubado! E se andar despreocupado Você é roubado! E se pegar o bonde errado Você é roubado! E também se votar pra deputado Você é roubado! Certo! Tem sempre 171 armando fria Tem ladrão lá no congresso Na quitanda e padaria Ladrão que rouba de noite Ladrão que rouba de dia Dentro da delegacia Ninguém entendia A maior confusão O doutor delegado Grampeou todo mundo Porque o ladrão Roubou outro ladrão É ladrão que não acaba mais Tem ladrão que não acaba mais Você vê ladrão Quando olha pra frente Você vê ladrão Quando olha pra trás...(2x) Quando Cabral aqui chegou E semeou sua semente Naturalmente começou A lapidação do ambiente... Roubaram o ouro Roubaram o pau Pra ficar legal Ainda tiraram o couro Do povo Desta terra original... E só deixaram A má semente Presente de Grego Que logo se proliferou E originou a nossa gente... É ladrão que não acaba mais Tem ladrão que não acaba mais Você vê ladrão Quando olha pra frente Você vê ladrão Quando olha pra trás...(4x) É ladrão que não acaba mais (samba, 1998) – Ary do Cavaco e Otacílio da Mangueira Bezerra da Silva sempre levantou a bandeira do povo marginalizado, pobre, das favelas do Rio de Janeiro mas que representa um Brasil mais amplo, inclusive com fortes raízes no nordeste onde nasceu e em vastas periferias do país. Por isso alguns temas frequentes, como o abuso e a violência repressora da polícia, atividades ligadas à contravenção, como drogas ilícitas e jogatinas, e, sobretudo, o tema da resistência, da não conformidade, da luta árdua e cotidiana. Não é de se espantar que um dos órgãos mais hostis a essa numerosa camada da população seja representado pelas instituições de poder, em especial aqueles que ocupam cargos
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    60 públicos que deveriamservir ao povo, e não se tornar ―donos‖ dele. É contra esse cenário da histórica desigualdade social no Brasil que Bezerra brada, em 1998, no samba de Ary do Cavaco e Otacílio da Mangueira: ―É ladrão que não acaba mais/Você vê ladrão quando olha pra frente/Você vê ladrão quando olha pra trás‖. Sintético do nosso lastro de corrupção. Samba-Enredo 2000 - Portela Compositor: Zezé do Pandeiro, Amilton Damião, Ailton Damião, Edyne e Edinho Leal TRABALHADORES DO BRASIL - A ÉPOCA DE GETÚLIO VARGAS O raiar de um novo dia Desafia meu pensar Voltando à época de ouro Vejo a luz de um tesouro A Portela despontar (lálalaiá) Aclamado pelo povo, o Estado Novo Getúlio Vargas anunciou A despeito da censura Não existe mal sem cura Viva o trabalhador ôôô Nossa indústria cresceu (e lá vou eu...) Jorrou petróleo a valer... No carnaval de Orfeu Cassinos e MPB O Rei da Noite, o teatro, a fantasia No rádio as rainhas, a baiana de além-mar Tantas vedetes, cadilacs, brilhantina Em outro palco o movimento popular E no Palácio das Águias Ecoou um grito a mais Vai à luta meu Brasil Pela soberana paz Quem foi amado e odiado na memória Saiu da vida para entrar na história Meu Brasil-menino Foi pintado em aquarela Fez do meu destino O destino da Portela (O raiar...) Pacato Cidadão – 2001- Skank Compositor: Samuel Rosa E Chico Amaral Ô pacato cidadão, te chamei a atenção Não foi à toa, não C'est fini la utopia, mas a guerra todo dia Dia a dia não E tracei a vida inteira planos tão incríveis Tramo à luz do sol Apoiado em poesia e em tecnologia Agora à luz do sol Pacato cidadão Ô pacato da civilização Pacato cidadão Ô pacato da civilização Ô pacato cidadão, te chamei a atenção Não foi à toa, não C'est fini la utopia, mas a guerra todo dia Dia a dia não E tracei a vida inteira planos tão incríveis Tramo à luz do sol Apoiado em poesia e em tecnologia Agora à luz do sol Pra que tanta TV, tanto tempo pra perder Qualquer coisa que se queira saber querer Tudo bem, dissipação de vez em quando é bão Misturar o brasileiro com alemão Pacato cidadão Ô pacato da civilização Ô pacato cidadão, te chamei a atenção Não foi à toa, não C'est fini la utopia, mas a guerra todo dia Dia a dia não E tracei a vida inteira planos tão incríveis Tramo à luz do sol Apoiado em poesia e em tecnologia Agora à luz do sol Pra que tanta sujeira nas ruas e nos rios Qualquer coisa que se suje tem que limpar Se você não gosta dele, diga logo a verdade Sem perder a cabeça, sem perder a amizade Pacato cidadão Ô pacato da civilização Pacato cidadão
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    61 Ô pacato dacivilização Ô pacato cidadão, te chamei a atenção Não foi à toa, não C'est fini la utopia, mas a guerra todo dia Dia a dia não E tracei a vida inteira planos tão incríveis Tramo à luz do sol Apoiado em poesia e em tecnologia Agora à luz do sol Consertar o rádio e o casamento é Corre a felicidade no asfalto cinzento Se abolir a escravidão do caboclo brasileiro Numa mão educação, na outra dinheiro Pacato cidadão Ô pacato da civilização Pacato cidadão Ô pacato da civilização. Brasis Seu Jorge Compositor: (Seu Jorge/ Gabriel Moura/ Jovi Joviniano) Tem um Brasil que é próspero outro não muda Um Brasil que investe outro que suga um de sunga outro de gravata tem um que faz amor e tem o outro que mata Brasil do ouro, Brasil da prata Brasil do Bala couchê, da mulata Tem o Brasil que é lindo outro que fede o Brasil que dá é igualzinho ao que pede Pede paz, saúde, trabalho e dinheiro Pede pelas crianças do país inteiro Tem um Brasil que soca outro que apanha um Brasil que saca outro que chuta Perde e ganha, sobe e desce Vai à luta, bate bola porém não vai a escola Brasil de cobre, Brasil de lata (2x) É negro, é branco, é nissei é verde, é índio peladão é mameluco, é cafuzo, é confusão (2x) Oh Pindorama quero seu Porto Seguro Suas palmeiras, suas pêras, seu café suas riquezas, praias, cachoeiras quero ver o seu povo de cabeça em pé Comida Titãs Compositor: Arnaldo Antunes/Sérgio Brito/Marcelo Fromer Bebida é água! Comida é pasto! Você tem sede de que? Você tem fome de que?... A gente não quer só comida A gente quer comida Diversão e arte A gente não quer só comida A gente quer saída Para qualquer parte... A gente não quer só comida A gente quer bebida Diversão, balé A gente não quer só comida A gente quer a vida Como a vida quer... Bebida é água! Comida é pasto! Você tem sede de que? Você tem fome de que?... A gente não quer só comer A gente quer comer E quer fazer amor A gente não quer só comer A gente quer prazer Prá aliviar a dor... A gente não quer Só dinheiro A gente quer dinheiro E felicidade A gente não quer Só dinheiro A gente quer inteiro E não pela metade... Bebida é água! Comida é pasto! Você tem sede de que? Você tem fome de que?...
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    62 A gente nãoquer só comida A gente quer comida Diversão e arte A gente não quer só comida A gente quer saída Para qualquer parte... A gente não quer só comida A gente quer bebida Diversão, balé A gente não quer só comida A gente quer a vida Como a vida quer... A gente não quer só comer A gente quer comer E quer fazer amor A gente não quer só comer A gente quer prazer Pra aliviar a dor... A gente não quer Só dinheiro A gente quer dinheiro E felicidade A gente não quer Só dinheiro A gente quer inteiro E não pela metade... Diversão e arte Para qualquer parte Diversão, balé Como a vida quer Desejo, necessidade, vontade Necessidade, desejo, eh! Necessidade, vontade, eh! Necessidade... Como o nome já deve sugerir, a letra de Comida fala sobre a crise econômica que aconteceu no Brasil logo após o fim do Regime Militar e estendeu anos 80 a dentro, gerando fome não só de alimentos, mas também de cultura, diversão, artes e chances para poder ter uma vida realmente digna, tornando essa canção um verdadeiro protesto contra os males que afligiam o país naquela época, tornando a letra muito atual. Confiram abaixo um vídeo com a canção, prestem muita atenção na letra: Família – Titãs Família, família Papai, mamãe, titia Família, família Almoça junto todo dia Nunca perde essa mania Mas quando a filha quer fugir de casa Precisa descolar um ganha-pão Filha de família se não casa Papai, mamãe, não dão nem um tostão Família êh! Família ah! Família! Família êh! Família ah! Família! Família, família Vovô, vovó, sobrinha Família, família Janta junto todo dia Nunca perde essa mania Mas quando o neném fica doente (Uô! Uô!) Procura uma farmácia de plantão O choro do neném é estridente (Uô! Uô!) Assim não dá pra ver televisão Família êh! Família ah! Família! Família êh! Família ah! Família! Família, família Cachorro, gato, galinha Família, família Vive junto todo dia Nunca perde essa mania A mãe morre de medo de barata (Uô! Uô!) O pai vive com medo de ladrão Jogaram inseticida pela casa (Uô! Uô!) Botaram cadeado no portão Família êh! Família ah! Família! Família êh! Familia ah! Família! Família êh! Família ah! Família! Família êh! Família ah! Família! Família êh! Família ah! Família!
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    63 Família êh! Famíliaah! Família! Reza Lenda Dnaipes (compositor não disponível) Reza a lenda que as crianças andavam pelas ruas E dormiam com historinhas de ninar Reza a lenda que houveram adolescentes de armadura E foram contra a ditadura militar Reza a lenda que as pessoas decoravam faroeste E era chato quem não sabia cantar Reza a lenda que ouvi de um sonhador Que o presente esta carente de amor Reza a lenda que os livros eram a internet Que as cartas eram nosso celular Reza a lenda que os homens já sofriam de pensar Em tirar uma garota pra dançar Reza a lenda que as pessoas se encontravam mais E cultivavam o amor Reza a lenda que ouvi de um sonhador Que o presente esta carente de amor Todo dia é dia pra lembrar que temos tanto a fazer Seja a diferença tudo pode estar com você, eu sei Reza a lenda que ouvi de um sonhador Que o presente está carente de amor Todo dia é dia pra lembrar que temos tanto a fazer Seja a diferença tudo pode estar com você, eu sei Reza a lenda que ouvi de um sonhador Que o presente está carente de amor Cidadão Zé Ramalho/ Zé Geraldo Tá vendo aquele edifício, moço? Ajudei a levantar Foi um tempo de aflição Eram quatro condução Duas pra ir, duas pra voltar Hoje depois dele pronto Olho pra cima e fico tonto Mas me vem um cidadão E me diz, desconfiado Tu tá aí admirado Ou tá querendo roubar? Meu domingo tá perdido Vou pra casa entristecido Dá vontade de beber E pra aumentar meu tédio Eu nem posso olhar pro prédio Que eu ajudei a fazer Tá vendo aquele colégio, moço? Eu também trabalhei lá Lá eu quase me arrebento Fiz a massa, pus cimento Ajudei a rebocar Minha filha inocente Vem pra mim toda contente Pai, vou me matricular Mas me diz um cidadão Criança de pé no chão Aqui não pode estudar Essa dor doeu mais forte Por que é que eu deixei o norte? Eu me pus a me dizer Lá a seca castigava Mas o pouco que eu plantava Tinha direito a comer Tá vendo aquela igreja, moço? Onde o padre diz amém Pus o sino e o badalo Enchi minha mão de calo Lá eu trabalhei também
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    64 Lá foi quevaleu a pena Tem quermesse, tem novena E o padre me deixa entrar Foi lá que Cristo me disse Rapaz deixe de tolice Não se deixe amedrontar Fui eu quem criou a terra Enchi o rio, fiz a serra Não deixei nada faltar Hoje o homem criou asa E na maioria das casas Eu também não posso entrar Fui eu quem criou a terra Enchi o rio, fiz a serra Não deixei nada faltar Hoje o homem criou asas E na maioria das casas Eu também não posso entrar Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores Geraldo Vandré Caminhando e cantando E seguindo a canção Somos todos iguais Braços dados ou não Nas escolas, nas ruas Campos, construções Caminhando e cantando E seguindo a canção Vem, vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer Vem, vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer Pelos campos há fome Em grandes plantações Pelas ruas marchando Indecisos cordões Ainda fazem da flor Seu mais forte refrão E acreditam nas flores Vencendo o canhão Vem, vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer Vem, vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer Há soldados armados Amados ou não Quase todos perdidos De armas na mão Nos quartéis lhes ensinam Uma antiga lição De morrer pela pátria E viver sem razão Vem, vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer Vem, vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer Nas escolas, nas ruas Campos, construções Somos todos soldados Armados ou não Caminhando e cantando E seguindo a canção Somos todos iguais Braços dados ou não Os amores na mente As flores no chão A certeza na frente A história na mão Caminhando e cantando E seguindo a canção Aprendendo e ensinando Uma nova lição Vem, vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer Vem, vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora
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    65 Não espera acontecer Caminhandoe cantando e seguindo a canção / Somos todos iguais braços dados ou não: representa as passeatas que reuniam, em sua maioria, jovens que tinham consigo um desejo de mudança, ambições e sonhos, eram movidas a cartazes de protestos, a vozes gritantes que entoavam hinos e músicas. Essa frase também nos mostra que independente de crenças e ideias, as pessoas são iguais, estando elas do mesmo lado ou não. Nas escolas nas ruas, campos, construções: as manifestações eram compostas de pessoas de diversos ambientes, mas que possuíam o desejo de mudança em comum: agricultores, operários, camponeses, mulheres, jovens, professores, jornalistas, intelectuais, padres e bispos. No caso de professores, jornalistas e intelectuais eles eram censurados e vigiados, o que depois de AI-5 ocorreu com maior intensidade, os professores não podiam lecionar e mencionar nada referente ao golpe, os jornalistas tinham seus artigos e matérias cortadas pela censura e os intelectuais eram proibidos de disseminar suas ideias e também de publicá-las. Nas universidades não havia vagas e muitos jovens não conseguiam estudar, mulheres eram descriminadas e impedidas de trabalhar, os operários sofriam com os baixos salários, agricultores e camponeses tinham suas terras ocupadas e os padres e bispos eram ameaçados, presos e muitas vezes expulsos do país. Então a maneira encontrada para protestarem pelos seus direitos, era juntar-se aqueles que também possuíam ideias de mudança e desejo por um país melhor. Vem, vamos embora, que esperar não é saber: esse trecho contesta sobre aqueles que sofriam o momento na pele e não faziam nada, afinal não se muda um país, ficando parado. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer: refere-se também a essas pessoas que preferiam ficar em silêncio em vez de tentar alcançar a mudança junto aos estudantes e aos demais. Pelos campos há fome em grandes plantações: as pessoas que trabalhavam nos campos, ou que eram agricultores, também sofriam com a ditadura, os poucos que possuíam um pedaço de terra a mesma lhe era tomada, os camponeses muitas vezes eram despejados e acabavam por passar fome. Pelas ruas marchando indecisos cordões: cordões é como ficou conhecido os grupos de foliões que tomavam as ruas durante o carnaval, o nome refere-se a característica dos grupos serem formados de forma que as pessoas se sucedem. Assim era composta algumas das manifestações, como foi o caso da Passeata dos Cem Mil, que parecia ser dividida em blocos: artistas, mães, padres, intelectuais e entre outros, que em muitos casos, caminhavam indecisos ou com medo dos militares. Ainda fazem da flor seu mais forte refrão / E acreditam nas flores vencendo o canhão: enquanto os militares reprimiam os protestantes com canhões, bombas de gás, e armas, a população saia nas ruas com cartazes e com a força de suas vozes, muitos atirando pedras e
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    66 tudo o quese estivesse ao alcance, mas nada parecia ser tão forte e provocante quanto os gritos, as palavras de ordem dos movimentos estudantis, frases e músicas daquele ano, essas sim eram suas verdadeiras flores. Mas começaram a surgir grupos que não acreditavam mais em democracia sem a violência, alguns grupos de radicais se formavam e gritavam em coro: “Só o povo armado derruba a ditadura”, enquanto do outro lado um grupo militante gritava: “Só o povo organizado conquista o poder”. Há soldados armados, amados ou não / Quase todos perdidos de armas na mão: os soldados estavam sempre armados e dispostos a prender os manifestantes e levá-los para as salas do DOPS, porém, muitos pareciam alienados, não sabiam direito o que acontecia ou fingiam não saber, para quem sabe assim se redimir da culpa de tantas mortes e “desaparecimentos” da época. Mas tinham famílias, namoradas, mãe, irmãos podiam sim ser amados por alguém ou então odiados por todos. Muitas manifestações foram, sobretudo contra a violência dos policiais. Nos quartéis lhes ensinam antigas lições / De morrer pela pátria e viver sem razão: Os soldados aprendiam lições e como se houvesse uma lavagem cerebral aceitavam cumprir as ordens do governo, mas acredito que em sua maioria muitos sabiam exatamente o que faziam e concordavam com os planos e métodos. Como diz a frase eles aceitavam morrer pelo seu país, mesmo que para isso eles fossem recriminados pela população e tivessem que viver sem anseios e sem razão, afinal de contas eles só serviam para fazer o trabalho pesado para os governantes. Somos todos soldados, armados ou não: na contradição de ser ou não soldados, todos eram, a diferença esta nas armas e na motivação. Os amores na mente, as flores no chão / A certeza na frente, a história na mão: a maioria, se não todas as pessoas que participavam ativamente dos manifestos eram motivados pelas perdas que sofriam, pelas mortes de amigos, parentes, conhecidos, pela dúvida do que aconteciam com as pessoas que eram levadas. Alguns dos jovens quando crianças viram seus pais serem levados por policiais e nunca mais tiveram noticias, muitos viram seus amigos morrerem e o corpo simplesmente desaparecer e acabavam por não ter direito ao enterro, alguns poucos voltavam e de outros nunca mais se ouvira, eram guiados pela certeza de que poderiam mudar o mundo e pela história que cada um deles possuía. Aprendendo e ensinando uma nova lição: Grande parcela dos jovens brasileiros de hoje, desconhecem o período de 21 anos desde o golpe militar até o fim da ditadura, o desejo de mudança, a fome por liberdade e a coragem de lutar não está entre as principais prioridades do jovem do século XXI. O conformismo, a tecnologia, e várias outras novidades que surgiram após 1968, impedem que estudantes despertem em si os mesmos desejos de mudança. Muitos jovens não conseguem imaginar que existiu um tempo em que não havia internet, raves, DVD, CD, TV em cores e muito menos TV a cabo, shopping centers, big brother, MSN, orkut, entre outras coisas. Os jovens são movidos a saciar seus desejos e vontades muitas vezes supérfluas e estão mais preocupados com o próprio bem-estar, muitos desperdiçam o direito de voto, que infelizmente só foi conquistado após ditadura, direito esse que tanto foi motivo de luta dos jovens que almejavam garantir sua opinião e participar da história do próprio país. Insatisfação contra a corrupção, violência, injustiça, leis, governos, escolas, mas não passam de apenas reclamações. A música de Geraldo Vandré é clara, nos conscientiza e informa sobre o ano de 1968 e os demais que se seguiram de ditadura militar, nos faz repensar sobre atitudes e ideais, sobre o velho e o novo, e de como o ditado “um por todos, e todos contra um” foi tão intenso durante aqueles anos, os estudantes podem não ter derrubado a ditadura, mas foram vistos e foram parte importante e indispensável da história. É decepcionante saber de que nos tempos atuais, aceitamos o que nos é imposto, fazemos parte de uma massa que cada vez mais parece alienada e movida às tecnologias. Não conseguimos nos separar de bens materiais e tampouco lutar contra isso, nos conformamos e ficamos
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    67 aprisionados, o anode 1968 ficou apenas como exemplo de uma geração de jovens com ideais, alguns alienados sim, mas a maioria com esperança de um país melhor e capaz de lutar pela liberdade e por aquilo que era lhes eram imposto. Mesmo depois de 40 anos essa composição ainda pode nos expor a importância da luta pelos nossos objetivos, desejos e ideais, mas principalmente de como o conhecimento dos próprios direitos e deveres é imprescindível para que se construa uma sociedade melhor e democrática, além de ser o nosso principal dever como cidadão.