Conceitos Básicos - Literatura

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Conceitos Básicos - Literatura

  1. 1. em quase todas as religiões. Uma classificação amplamente aceita identifica como cinco aspectos: • A fé é a parte interna da religião (fundamento); o Não se pode penetrar no universo artístico sem antes uma que as pessoas acreditam, seus sentimentos de temor, quizilas ou“iniciação”, pois alguns conceitos são chave para a compreensão ehô (africano) e reverência, prece individual, etc...do objeto estético. Você sabe o que é a Estética? Você sabe o queé Arte? Você sabe como percebemos o mundo? Pois bem, vamos • O culto/rituais é tudo que está envolvido naestudar então os conceitos básicos que possibilitarão que você, devoção – construções, feitura de òrìsàs (religião africana),estudante, possa entender os diversos textos literários. imagens, altares, rituais, sacralização de animais (em várias religiões). • A comunidade é o aspecto social da religião – os devotos em seu templo/igreja ou no ilé africano (casa de religião Nós possuímos áreas de domínio do conhecimento, a africana)saber: • O credo envolve todas as crenças e idéias O Senso comum mantidas pela religião como um todo, incluindo escrituras e idéias O senso comum é visto como a compreensão de todas as sobre Deus, anjos, o céu, o inferno e a salvação.coisas por meio do saber social, ou seja, é o saber que se adquireatravés de experiências vividas ou ouvidas do cotidiano. Engloba • O código envolve a suas crenças religiosas ecostumes, hábitos, tradições, normas, éticas e tudo aquilo que se inclui-se éticas, tabus e idéias sobre o pecado, o que é certo e onecessita para viver bem. No senso comum não é necessário que que é errado ritualisticamente, porque, entre o fundamento ehaja um parecer científico para que se comprove o que é dito, é um rituais têm que haver lógica, e a santidade.saber informal que se origina de opiniões de um determinadoindivíduo ou grupo que é avaliado conforme o efeito que produz A Filosofianas pessoas. É um saber imediato, subjetivo, heterogêneo e Em “Convite à Filosofia”, Marilena Chauí nos dá umaacrítico, pois se conforma com o que é dito para se realizar, utiliza didática e eficiente lição sobre o que vem a ser esta forma devárias idéias e não busca conhecimento científico para ser conhecer o mundo:comprovado. De maneira espontânea e sem querer as pessoas “Imaginemos, alguém que tomasse uma decisão muitoutilizam o senso comum a quase todo o momento: Ex: Quando se estranha e começasse a fazer perguntas inesperadas. Em vez deestá com o intestino preguiçoso e a vizinha diz que ameixa e "que horas são?" ou "que dia é hoje?", perguntasse: O que é omamão é bom para ajudar o intestino, o que é que se faz? Corre tempo? Em vez de dizer "está sonhando" ou "ficou maluca",para casa e se empanturra de ameixa e mamão. Isso é senso quisesse saber: O que é o sonho? A loucura? A razão? Se essacomum, a utilização de um método criado a partir de uma pessoa fosse substituindo sucessivamente suas perguntas, suasexperiência natural. afirmações por outras: "Onde há fumaça, há fogo", ou "não saia na chuva para não ficar resfriado", por: O que é causa? O que é A Ciência efeito?; "seja objetivo ", ou "eles são muito subjetivos", por: O que é Talvez a maneira mais sucinta de caracterizar o a objetividade? O que é a subjetividade?; "Esta casa é mais bonitaconhecimento científico é descrever como ele estuda e não o que do que a outra", por: O que é "mais"? O que é "menos"? O que é oele estuda. A ciência poderia em principio estudar qualquer coisa: A belo? Em vez de gritar "mentiroso!", questionasse: O que é aestrutura do átomo, a origem do universo, a existência do mundo verdade? O que é o falso? O que é o erro? O que é a mentira?espiritual, o processo pelo qual aprendemos uma língua, etc. Em Quando existe verdade e por quê? Quando existe ilusão e por quê?tese todas as “ciências” , as naturais ou sociais, deveriam usar o Se, em vez de falar na subjetividade dos namorados, inquirisse: Omesmo método, embora possam lançar mão de técnicas diferentes. que é o amor? O que é o desejo? O que são os sentimentos? Se,Um método pode ser definido como uma série de regras para tentar em lugar de discorrer tranqüilamente sobre "maior" e "menor" ouresolver um problema. No caso do método científico, estas regras "claro" e "escuro", resolvesse investigar: O que é a quantidade? Osão bem gerais. Há um método para testar criticamente e que é a qualidade? E se, em vez de afirmar que gosta de alguémselecionar as melhores hipóteses e é nesse sentido que podemos porque possui as mesmas idéias, os mesmos gostos, as mesmasquestionar se há um método científico. A ciência não é uma preferências e os mesmos valores, preferisse analisar: O que é umcoleção de fatos e teorias definitivamente estabelecidas, mas um valor? O que é um valor moral? O que é um valor artístico? O queconhecimento racional – porque crítico-, conjectural, provisório é a moral? O que é a vontade? O que é a liberdade? Alguém que,sempre capaz de ser questionado e corrigido. A ciência não é uma tomasse essa decisão, estaria tomando distância da vida cotidianarepresentação completa e perfeita de fenômenos diretamente e de si mesmo, teria passado a indagar o que são as crenças e osobserváveis , mas uma reconstrução idealizada e parcial da sentimentos que alimentam, silenciosamente, nossa existência. Aorealidade, que explica o visível pelo invisível. O cientista não tomar essa distância, estaria interrogando a si mesmo, desejandorealiza uma observação pura e imparcial dos fatos, mas uma conhecer por que cremos no que cremos, por que sentimos o queobservação guiada por hipóteses e teorias. O cientista não sentimos e o que são nossas crenças e nossos sentimentos. Essedescobre nem verifica hipóteses por procedimentos indutivos, mas alguém estaria começando a adotar o que chamamos de atitudeinventa conjecturas ousadas, surgida de sua imaginação, que serão filosófica. Assim, uma primeira resposta à pergunta "O que étestadas o mais severamente possível, através de tentativas de Filosofia?" poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias erefutação que façam uso de experimentos controlados. Desse evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, osmodo, ele busca teoria cada vez mais amplas, precisas, profundas, comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-losde maior grau de corroboração, com maior poder preditivo e, talvez, sem antes havê-los investigado e compreendido.”mais próximas da verdade. Finalmente, a visão de ciências expostaneste trabalho pode e deve ser criticada. Novos critérios para A Arteavaliar hipóteses e teorias científicas devem (e estão sendo ) Em seu livro, intitulado “O que é Arte”, Jorge Coli faz umaproposto. excelente explanação sobre o conceito de arte: “Para decidir o que é ou não arte, nossa cultura possui A Religião instrumentos específicos. Um deles, essencial, é o discurso sobre o A religião é feita tanto de crenças e rituais quanto de objeto artístico, ao qual reconhecemos competência e autoridade.práticas. A teologia acadêmica (especialmente no Ocidente e em Esse discurso é o que proferem o crítico, o historiador da arte, orelação ao cristianismo) tende a se concentrar na crença. Todavia, perito, o conservador de museu. São eles que conferem o estatutoé importante observar que em algumas sociedades não há uma de arte a um objeto. Nossa cultura também prevê locais específicospalavra correta para religião. Não se trata de um compartimento onde a arte pode manifestar-se, quer dizer, locais que também dãoseparado da vida – é um modo de compreender e viver a própria estatuto de arte a um objeto. Num museu, numa galeria, sei devida. Mesmo assim, é possível distinguir vários aspectos diferentes antemão que encontrarei obras de arte; num cinema "de arte", 1
  2. 2. filmes que escapam à "banalidade" dos circuitos normais; numa categorias, pois entende-se que Belo é a forma artística que guardasala de concerto, música "erudita", etc. Esses locais garantem-me harmonia, senso de medida, fruição serena e tranqüila.assim o rótulo "arte" às coisas que apresentam, enobrecendo-as. Sobre isso, Bruyne afirma: “A arte não produz unicamente(...) o importante é termos em mente que o estatuto da arte não o belo, mas também o feio, o horrível, o monstruoso (...)”.parte de uma definição abstrata, lógica ou teórica, do conceito, mas Considerando o Belo apenas uma categoria do estético, Kainzde atribuições feitas por instrumentos de nossa cultura, dignificando resume:os objetos sobre os quais ela recai. A crítica, portanto, tem o poder “A palavra belo exprime, em primeiro lugar, aquilo que nos produznão só de atribuir o estatuto de arte a um objeto, mas de o um máximo de satisfação plena e tranqüila do gosto estético (...)classificar numa ordem de excelências, segundo critérios próprios. Entretanto, quando definimos a estética como a ciência do belo,Existe mesmo uma noção em nossa cultura, que designa a posição nao há dúvida de que tomamos, e temos necessariamente quemáxima de uma obra de arte nessa ordem: o conceito de obra- tomar, como base desta definição, uma acepção distinta e maisprima. Desse modo, o "em si" da obra de arte, ao qual nos ampla deste conceito... Daí dizer-se que o objeto sobre o qualreferimos, não é uma imanência, é uma projeção. Somos nós que recaem as investigações da estética não é belo, no sentido usual,enunciamos o "em si" da arte, aquilo que nos objetos é, para nós, estrito e próprio da palavra, mas sim tudo que influi estéticamentearte. Mário de Andrade disse uma vez que a arte não é um em nós, incluindo-se aí até certas ásperas categorias que lidam jáelemento vital, mas um elemento da vida. Não nos é imediatamente com o feio... (...)”.necessária como a comida, as roupas, o transporte e descobrimos Quanto as questões de terminologia, como disse Jacquesnela a constante do supérfluo, do inútil. Uma lâmina num cabo é Maritain, adota-se a que se deseja. Porém, é bem verdade queuma faca, mas é preciso que o cabo seja esculpido, que a lâmina seria injusto definir estética pelo belo, excluindo o feio já que muitosseja gravada, para que a faca, objeto de um trabalho supérfluo, artistas quiseram manifestar justamente isso. Sendo assim,exprima o amor e a atenção que o homem consagrou a ela. Se a definiremos aqui a Estética como a FILOSOFIA DA BELEZA e essaarte é associada a um objeto útil, ela é, nele, o supérfluo. Podemos beleza inclui o amargo, o feio e o harmônico, o belo.dizer também que a arte, em certos casos, torna-se a insígnia de Platão, sobre a beleza, afirmava que “a beleza de umuma "superioridade" que um grupo determinado confere a si objeto depende da maior ou menos comunicação que ele tem commesmo. Interessar se pela arte significa ser mais "culto", ter espírito uma beleza superior”. Já Aristóteles dizia que “a beleza do objeto"mais elevado", ser diferente, melhor que o comum dos mortais. A depende da ordem ou harmonia que exista entre suas partes”. Aarte propõe uma viagem de rumo imprevisto - da qual não sabemos nenhum destes grandes pensadores ocorreu que a beleza podeas conseqüências. Porém, empreendendo-a, o que conta não é a não ser uma propriedade do objeto, mas do sujeito, como dissechegada, é a evasão. Buscamos a arte pelo prazer que ela nos Kant. Assim, segundo ele, existe a inteligência, a vontade e o juízocausa. Uma sinfonia, um quadro, um romance são refúgios, pois de gosto (domina a sensação de prazer ou desprazer). A partirinstauram um universo para o qual nos podemos bandear, fugindo disso, podemos dizer que a grande contribuição de Kant nadas asperezas de nossa vida "real", procurando as delícias das estética, foi mostrar que a beleza não é puramente intelectual nememoções "não reais". No fundo, são os mesmos motivos que nos puramente sensível. Sobre isso, Lalo afirmou “(...) é nossa maneirafazem assistir a um jogo de futebol. A diferença é o corolário que de pensá-los que faz a beleza dos objetos ou das pessoas, assimenunciamos acima: as emoções artísticas são ricas e fecundas, o como também sua feiúra. Porque em si eles não são belos nemprazer e a evasão só são "alienações" num primeiro momento: feios: são o que são, e qualquer outra qualificação lhes é extrínsecatransformando nossa sensibilidade, elas transformam também e vem-lhes exclusivamente de nós”.nossa relação com o mundo. “ Hoje a palavra Estética está muito associada à beleza física, pois vivemos em uma sociedade do espetáculo, em que a imagem, a aparência, supera, por vezes, a própria essência dos objetos. É sempre bom lembrar que “a Beleza está nos olhos de “A ARTE É A MAIS BELA DAS quem vê”. Sei que é um clichê, mas a verdade é que possuímos MENTIRAS.” muitos olhares, e, cada um, tem seu modo de perceber o mundo. (Claude Debussy) Vejamos o que nos ensina Marilena Chauí, em seu livro “Convite à Filosofia”, em capítulo intitulado “A Percepção”: “O conhecimento sensível também é chamado de conhecimento empírico ou experiência sensível e suas formas principais são a sensação e a percepção. A tradição filosófica, até formas de sedistinguia sensação de percepção pelo grau de complexidade. A sensação é o que Como podemos perceber, há várias o século XX, fazerarte, dentredá asaqualidades pintura, a escultura, e, evidentemente, nos elas música, a exteriores e interiores, isto é, as qualidades dos objetos e os efeitos internos dessas qualidades sobre nós. Na Chegamos, finalmente, ao que, conceitualmente,a literatura. Sim, vemos, tocamos, tipo de arte, que tem por objeto puras e diretas: cores, odores, sabores, texturas. Sentimos o quente e o frio, o sensação a Literatura é um sentimos, ouvimos qualidades a interessa-nos mais: o conceito de Literatura. Sabemos que é um quepalavra, seja ela oral ou o liso e (embora oo vermelho Literatura nas Sentir é algo ambíguo, pois o sensível é, ao mesmo tempo, a qualidade doce e o amargo, escrita o rugoso, ensino de e o ve rde, etc.escolas brasileiras possuisentimento interno que nosso corpo possui das qualidadesesentidas. Por isso, a seja, suacostuma dizer que o uso está no objeto e o uma tradição de majoritariamente ensinar tipo de arte que seu objeto, ou tradição matéria-prima, é a sensaçãoa literatura escrita). corporal de adentrarmos, propriamente, na externa, sem não oseja possívelou espontâneo,ato da sensação, o estímulo é uma reação Antes imediata a um estímulo ou excitação da palavra, que uso casual, distinguir, no mas um uso especial,Literatura, precisamos entender o que vem a distinção só poderia ser feita num a palavra ganha um sentindo novo,anatomia, fisiologia e sistema exterior e o sentimento interior. Essa ser a Estética. em que laboratório, com análise de nossa metafórico, conotativa, nervoso. Quando examinamos a sensação, notamos que ninguém diz que sente oaquente, vê o azulporengole lê. amargo. Pelo contrário, cifrado, codificado, ser desvendado e quem o dizemos que a água está quente, que o céu é azul e que o alimento está amargo. Isto é, sentimos se pronuncia clara é a de que de seres Primeira questão que as qualidades como integrantes a mais amplos e complexos do que a sensação isolada de cada qualidade. é umisso, se diz que, na simbólica, e como, diria Platão, sob a Literatura Por tipo de linguagem realidade, só temos sensações forma de percepções, isto é, de sínteses de sensações.” A Estética é considerada, ainda hoje, um saber filosófico em seu livro Fedro, a linguagem é ume espécie de “pharmakon”,sobre o Belo ou sobre a Arte. Tradicionalmente, sempre foi possui pois três sentidos: remédio, veneno e cosmético. Podemosentendida como a Filosofia do Belo ou da Arte. O Belo é uma conhecer, comunicar-se, encantar-se e, também, enganar-se.propriedade característica de um dado objeto, no caso da arte, um Então, a força da linguagem é assustadora (mitos, crenças,objeto artístico. Vários pensadores entendiam que o Belo pode religiões, palavras-tabu, discursos, preces, depoimentos, poemas,estar tanto na Arte quanto na Natureza. Como bem nos ensina romances, enfim).Ariano Suassuna, em seu livro “Iniciação à Estética”, “é a partir do Como linguagem simbólica, a Literatura é essencialmenteidealismo germânico que o Belo da Arte começa a ser considerado figurativa, poética, e, sobretudo, metafórica. “A literatura é umasuperior ao belo da Natureza”, pois, para Hegel, a Beleza Artística arte, a arte da palavra, isto é, um produto da imaginação criadora,possui mais dignidade que a própria Beleza da Natureza, porque cujo meio específico é a palavra, e cuja finalidade é despertar noesta é nascida uma vez, aquela é como que nascida duas vezes do leitor ou no ouvinte o prazer” (Afrânio Coutinho). Faz sonhar,Espírito. Mais adiante, Kant transforma o conceito do Belo em uma provoca reflexões, diverte, constrói a identidade de um povo, e,categoria, e, por essa razão, a Estética deve ser tratada como uma evidentemente, denuncia a realidade. Literatura é ficção, é criação,ciência. Assim, estético seria algum efeito que transmita certa imaginação. O escritor recria livremente a realidade, dando origembeleza, e a Estética seria a ciência que estudaria este fenômeno. a uma realidade ficcional. E qual o espaço do Feio ou do Cômico, ou do Risível? Atépara o filósofo Aristóteles, o estético contemplaria todas as Assim, surge um conceito novo, para a nossa discussão: o conceito de “mímesis”: 2
  3. 3. conferir a esses seres não-humanos inteligência e sentimentos fazem parte do heterocosmo poético, cujas leis podem ser Do gr. mímesis, “imitação” (imitatio, em latim), designa a homólogas, no máximo, mas nunca idênticas às do mundo real. Aação ou faculdade de imitar; cópia, reprodução ou representação literatura de ficção supera a antítese do ser e do não ser, do real eda natureza, o que constitui, na filosofia aristotélica, o fundamento do imaginário: a personagem artística é, porque foi criada por seude toda a arte. Heródoto foi o primeiro a utilizar o conceito e autor, e, ao mesmo tempo, não é, porque nunca existiu no planoAristófanes, em Tesmofórias (411), já o aplica. O fenômeno não é histórico.um exclusivo do processo artístico, pois toda atividade humanainclui procedimentos miméticos como a dança, a aprendizagem delínguas, os rituais religiosos, a prática desportiva, o domínio das Outra forte característica de um texto literário é anovas tecnologias, etc. Por esta razão, Aristóteles defendia que era polissemia ou plurissignificação, que consiste na qualidade que tema mimesis que nos distinguia dos animais. a linguagem simbólica, de, a um só tempo, dizer e esconder, ou Os conceitos de mímesis e poeisis são nucleares na seja, é um signo aberto a inúmeras interpretaçãofilosofia de Platão, na poética de Aristóteles e no pensamento A polissemia (capacidade de engendrar significadosteórico posterior sobre estética, referindo-se à criação da obra de diversos), por exemplo, constitui-se como qualidade no textoarte e à forma como reproduz objetos pré-existentes. O primeiro literário, possibilitando que diferentes leitores identifiquem-se com otermo aplica-se a artes tão autônomas e ao mesmo tempo tão mesmo texto e produzam sentidos distintos, como também aopróximas entre si como a poesia, a música e a dança, onde o mesmo leitor realizar diferentes interpretações da mesma obra.artista se destaca pela forma como consegue imitar a realidade. Entretanto, como conceber que uma notícia, texto não literário, dê aNão se parte da ideia de uma construção imitativa passiva, como possibilidade de múltiplos sentidos ao leitor? O texto literário, dessaacontece na diegesis platônica, mas de uma visão do mundo forma, constitui-se por uma exploração da linguagem diversa danecessariamente dinâmica. A mímesis pode indiciar a imitação do que é realizada no cotidiano. O leitor é desestabilizado e obrigado amovimento dos animais ou o seu som, a imitação retórica de uma usar sua criatividade para abandonar a forma de articulação dapersonagem conhecida, a imitação do simbolismo de um ícone ou a linguagem cotidiana, que geralmente prima pela objetividade e peloimitação de um ato musical. Estes exemplos podemos colhê-los sentido único, fechado - lembre-se a comparação anteriormentefacilmente na literatura grega clássica. As posições iniciais de feita entre a obra literária e a notícia -, e criar significados novosPlatão, na República, para quem a imitação é sobretudo produção (Mello apud Saraiva, Mügge, 2006, p. 31).de imagens e resultado de pura inspiração e entusiasmo do artistaperante a natureza das coisas aparentemente reais (o que se vêem particular na comédia e na tragédia), e de Aristóteles, naPoética, para quem o poeta é um imitador do real por excelência, A conotação remete para as ideias e as associações quemas seu intérprete, função que compete ao cientista, foram se acrescentam ao sentido original de uma palavra ou expressão,largamente discutidas até hoje. Em particular, a questão da poesia para as completar ou precisar a sua correcta aplicação num dadoainda permanece em aberto: seguimos com Platão se aceitarmos contexto. Por outras palavras, tudo aquilo que podemos atribuir aque a imitação fica ao nível da lexis, ou seguimos com Aristóteles, uma palavra para além do seu sentido imediato e dentro de umase aceitarmos que todo o mundo representado ou logos está em certa lógica discursiva entra no domínio da conotação. Uma mesmacausa e que não resta ao artista outra coisa que não seja descrever expressão pode aplicar-se a coisas iguais e produzir diferenteso mundo das coisas possíveis de acontecer, coisas a que associações, ou seja, diferentes conotações: "constante" podechamamos verossimilhanças e não propriamente representações aplicar-se a diferentes pessoais ou estados, diremos então que odiretas do real? Os tratadistas latinos, como Horácio, vão defender seu primeiro sentido é o de "contínuo", "continuado", mas conformeo princípio aristotélico, reclamando que a pintura como a poesia (ut a aplicação do conceito variar em função da natureza da coisa apictura poesis), por exemplo, são artes de imitação. que se aplica e do contexto em que se aplica, assim podemos dizer Também é interessante entender o conceito de que essa coisa "constante" significa "tenaz", "uníssono", "leal",verossimilhança. "inabalável", "estóico", "durável", "assíduo", "certo", "fixo", etc. Estes sentidos para além da primeira associação sinonímica constituem conotações. O uso corrente destas associações tende a Qualidade que faz a arte parecer verdadeira, apesar de generalizar-se de tal forma que muitas vezes falamos emtodas as coisas impossíveis que ela possa dizer. A arte não é conotação para qualquer variação ou diferenciação de sentido emverdadeira, não é verídica, ela é verossímil, é semelhante à relação ao sentido que esperávamos para um dado termo ouverdade. A arte desperta a ilusão - tem como referencial a expressão.impressão da verdade. De acordo com Salvatore D’Onofrio, em seu Uma dica interessante: D, de dicionário, sentido direto,livro “Teoria do Texto”, real da palavra; C, de criatividade ou contexto, por isso Conotação. A obra de arte, por não ser relacionada diretamente comum referente do mundo exterior, não é verdadeira, mas possui a Há uma magnífica forma de você entender o conceito deequivalência da verdade, a verossimilhança, que é a característica, uma metáfora: o filme “O carteiro e o poeta”, de 1994, que contaque é característica indicadora do poder ser do poder acontecer. um pouco da história do extraordinário poeta Pablo Neruda. Há umDistinguimos uma verossimilhança interna à própria obra, conferida trecho que merece ser apresentado aqui:pela conformidade com seus postulados hipotéticos e pelacoerência de seus elementos estruturais: a motivação e acausalidade das seqüências narrativas, a equivalência dos Poeta - “Metáfora é quando fala uma coisa, mas comparaatributos e das ações das personagens, a isotopia, a homorritmia, o com outra. Por exemplo, o céu chora, o que quer dizer queparalelismo, etc.; e uma verossimilhança externa, que confere ao está chovendo”.imaginário a caução formal do real pelo respeito às regras do bom Carteiro – “E por que tem um nome tão complicado?”.senso e da opinião comum. Se faltar a verossimilhança interna, Poeta – “O homem não tem direito sobre a simplicidade e adizemos que a obra é incoerente ou aloucada, aproximando-se do complexidade das coisas”.não-sentido; se faltar a verossimilhança externa, entramos no Quando o carteiro pediu para que ele explicasse melhor, odomínio do gênero fantástico, definido por Todorov como uma poeta acrescenta:hesitação entre o estranho e o maravilhoso, entre uma explicação “Quando tentamos explicar, a poesia se torna banal. Melhornatural e uma explicação sobrenatural dos acontecimentos do que qualquer explicação é a experiência das emoçõesevocados. Mais importante é a verossimilhança interna, a que a poesia revela para uma alma disposta a compreendê- la”.coerência estrutural da obra, porque, quanto à verossimilhança Mais tarde, o carteiro pergunta: “Como me torno um poeta?”.externa, a fuga para o fantástico, para o mundo da imaginação, é O poeta – “Vá caminhando ao longo da baía e observe tudo”.comum à literatura. Transformar um homem em animal (O asno de Carteiro – “E vou aprender a criar metáforas?”.ouro, de Apuleio) uo em inseto (A metamorfose, de Kafka) e Poeta – “Certamente”. 3
  4. 4. 4
  5. 5. Ou seja, a metáfora é uma transferência de significado,ou, para ficar bem simplificado, é o uso criativo da palavra, fazendo ÍCAROcom que ela adquira novos significados. Aristóteles diz: "A metáforaconsiste em dar a uma coisa um nome que pertence a outra coisa: Quem feretransferência que pode realizar-se do gênero para a espécie, da o pássaroespécie para o gênero, de uma espécie para outra ou com base ferenuma analogia" (Poética., 21, 1457 b 7). Sendo assim, a o vôosemelhança entre um objeto se dá de forma real ou imaginária: feredentes do pente; pé da mesa; o fumo da glória; serra, que no latim a si mesmoclássico era só a ferramenta do carpinteiro, passou no latim vulgar, (in)tensono português, no espanhol e no catalão a indicar cadeia de Ícaromontanhas, dada a semelhança das cristas com os dentes daferramenta. Há expressões que, a princípio, iniciaram-se como o vôometáfora e que, pelo uso, tornam-se cotidianas. É importante é o alicerce do pássaroentender que, no caso da Literatura, não há gratuidade nem (não o contrário)inconsciência quanto à criação de metáforas. O escritor temconsciência sobre os aspectos da linguagem e, no íntimo, brinca o vôocom as palavras. Por isso, uma das características da metáfora é o - imagina-se“estranhamento”; outra, é o deslocamento do significado. Ou seja, é mais leve que o ar.há uma impertinência, algo incomum, que fugiu à normalidade, quenos surpreendeu. Constatada a impertinência, o receptor da André Ricardo Aguiarmensagem vai aplicar à situação um algoritmo metafórico. Se aaplicação for plausível teremos a metáfora, caso contrário, umlapso, uma impropriedade ou outro fenômeno. O algoritmo dametáfora comporta até quatro elementos: • comparado. Outro exemplo muito bom é dado pelo compositor Gilberto Gil, na canção “Metáfora”: • comparante. • atributo explícito. • atributo implícito. Uma lata existe para conter algo Assim como na comparação, o objetivo da metáfora é dar Mas quando o poeta diz: "lata"expressividade a uma atribuição. A metáfora é uma comparação Pode estar querendo dizer o incontívelelíptica em que sempre está ausente o atributo comum. Em muitoscasos também faltam as balizas de comparação: como, tal qual, Uma meta existe para ser um alvoetc. A metáfora agrega significação ao discurso relativamente ao Mas quando o poeta diz: "meta"enunciado próprio que vem da sua decifração. Esse agregado de Pode estar querendo dizer o inatingívelsignificação é que torna a metáfora um recurso espetacular deexpressão, insubstituível, em muitos casos, por outros recursos. Por isso, não se meta a exigir do poeta A metáfora, juntamente com um conjunto de figuras de Que determine o conteúdo em sua latalinguagem, insere-se em uma categoria denominada Tropos (= Na lata do poeta tudonada cabegirar), em que há uma mudança de significado. Funcionam assim, Pois ao poeta cabe fazercomo figuras de linguagem, a sinédoque, a metonímia, a ironia, a Com que na lata venha caberalegoria, o oximoro, a hipérbole. O incabível Conceito tradicional e essencial para a compreensão doprocesso de significação da linguagem humana, a metáfora pode Deixe a meta do poeta, não discutaser definida como uma transferência de significado que tem como Deixe a sua meta fora da disputabase uma analogia: dois conceitos são relacionados por Meta dentro e fora, lata absolutaapresentarem, na concepção do falante, algum ponto em comum. A Deixe-a simplesmente metáforapartir daí, amplia-se o campo de abrangência do vocábulo,instaurando-se a polissemia, essencial para que se realize qualquerprocesso de mudança, que exige variação e continuidade. Emtermos cognitivos, os procedimentos analógicos apóiam-se emconceitos mais concretos e mais próximos à experiência doindivíduo. Dessa maneira, ele pode estender sua compreensãopara níveis mais complexos e abstratos de apreensão econhecimento da realidade. Esse procedimento é altamenteprodutivo na ampliação e renovação do vocabulário de uma língua. É possível reconhecer que, em praticamente, todas as figurasde linguagem, por excelência, existe um raciocínio metafórico, poispartem de criações humanas no universo da linguagem. Cabe acada um, em grau maior ou menor, buscar suas metáforas, seja naliteratura, seja na vida. Mais uma vez, citarei um poeta paraibano para nos ilustrar umpouco o sentido da metáfora poética: 5
  6. 6. É preciso esclarecer que as seis funções não se excluem Qualquer processo de comunicação se compõe - dificilmente temos, em uma mensagem, apenas uma dessasbasicamente dos seguintes elementos: funções. Entretanto, é engano pensar que todas estejam presentes simultaneamente. O que pode ocorrer é o domínio de uma das funções; assim, temos mensagens predominantemente referenciais, predominantemente expressivas, etc. Atualmente, a tendência é considerar duas grandes funções da linguagem: a cognitiva ou referencial e a pragmática ou interacional. Ingedore Koch, em “Linguagem e Interação”, ao procurar descrever e explicar as estratégias lingüísticas utilizadas pelo ser humano para interagir socialmente, discute as diferentes concepções de linguagem: "A linguagem humana tem sido concebida, no curso da História, de maneiras bastante diversas, que podem ser sintetizadas em três principais: a) como representação ("espelho") do mundo e do pensamento; b) como instrumento (ferramenta") de comunicação; c) como forma ("lugar") de ação ou interação. A mais antiga destas concepções é, sem dúvida, a primeira, embora continue tendo seus defensores na atualidade. Segundo ela, o homem representa para si o mundo através da linguagem e, assim sendo, a função da língua é representar (= refletir) seu pensamento e seu conhecimento de mundo. A segunda concepção considera a língua como um código através do qual um emissor comunica a um receptor determinadas A multiplicidade de funções da linguagem verbal mensagens. A principal função da linguagem é, neste caso, a transmissão de informações.possibilita a cada terceira concepção,da sociedade, aquela que encara a linguagem como atividade, como forma de ação, ação interindividual A homem participar finalmente, é integrando-seem um finalisticamente orientada; comoPartindo do pressupostopossibilita aos membros de uma sociedade a prática dos mais diversos tipos de processo cultural mais amplo. lugar de interação que deque a língua que vão exigir cultura e tem, portanto, um e/ou comportamentos, levando ao estabelecimento de vínculos e compromissos atos, representa uma dos semelhantes reações valor derepresentação, inúmeros lingüistas desenvolveram hipóteses de um jogo que se joga na sociedade, na interlocução, e é no interior de seu anteriormente inexistentes. Trata-se, como diz Geraldi (1991),teóricas na tentativa de descrever um conjunto mais as regras de tal jogo." funcionamento que se pode procurar estabelecer amplo defunções. Karl Bühler, lingüista e psicólogo alemão, sistematizou asfunções da linguagem tomando, como ponto de partida, arepresentação - característica, por excelência, da língua - ereconhecendo duas outras funções, a manifestação psíquica e oapelo. Jakobson, por sua vez, manteve as três funções apontadasanteriormente, mas atribuiu-lhes novos nomes: referencial, emotivae conativa, respectivamente. Além disto, introduziu três novasfunções: fática, metalingüística e poética. Distinguiu, portanto, seisfunções ao todo, relacionando cada uma delas a um doscomponentes do processo comunicativo. Desta forma, em cada atode fala, dependendo de sua finalidade, destaca-se um doselementos da comunicação, e, por conseguinte, uma das funçõesda linguagem. Para transmitir mensagens, o fundamental é que haja umafonte e um destino, distintos no tempo e no espaço. A fonte égeradora da mensagem e o destino é o fim para o qual a As figuras de linguagem classificam-se em:mensagem se dirige. Nesse caminho de passagem, o que a) Figuras de palavrapossibilita à mensagem caminhar é o canal. Na verdade o que b) Figuras de pensamentotransita pelo canal são sinais físicos, concretos, codificados. c) Figuras de construção ou de sintaxeCodificar significa obedecer a determinadas convenções d) Figuras sonoras ou de harmoniapreestabelecidas pela fonte e pelo destino, que conhecem o que foiestabelecido a respeito daqueles sinais. Quer dizer: código é a OBSERVAÇÃO:organização dos elementos que compõem um conjunto, com regras Em concursos públicos, são raras as questões sobre figuras dede permissão e de proibição que determinam o modo da ocorrência linguagem. Já em vestibulares a ocorrência é grande.da combinação desses sinais físicos. Isto é, só há mensagem se Figuras de palavrahouver codificação. Em síntese: a fonte codifica sinais, constrói As figuras de palavra consistem no emprego de uma palavra nummensagens sobre certo objeto , e as envia a um destinatário, sentido não convencional, ou seja, num sentido conotativo.usando um suporte físico, que é o canal.Acrescente-se aos São figuras de palavra a comparação, a metáfora, a catacrese, aanteriores, o contexto histórico, pois a linguagem é, por natureza metonímia, a antonomásia e d sinestesia.social, dinâmica, e, sendo assim, há modificações em todos oselementos da comunicação, quando submetidos a processos COMPARAÇÃOhistóricos. Ocorre comparação quando se estabelece aproximação entre dois elementos que se identificam, ligados por nexos comparativos Quadro das funções da linguagem explícitos - como, tal qual, assim como, que nem, feito, etc. - e por alguns verbos - parecer, assemelharse, etc. Elementos da comunicação Função da Linguagem ”E há poetas que são artistas E trabalham nos seus versos Contexto (referente) Referencial Como um carpinteiro nas tábuas!” (Alberto Caeiro) Remetente Emotiva ”E flutuou no ar como se fosse um príncipe. Mensagem Poética E se acabou no chão feito um pacote bêbado.” (Chico Buarque Destinatário Conativa de Holanda) Canal Fática Código Metalingüística METÁFORA Essa figura de palavra ocorre quando um termo substitui outro a partir de uma relação de semelhança entre os elementos que esses 6
  7. 7. termos designam. A metáfora também pode ser entendida como OBSERVAÇÃO: Nos casos m, n, o, p e q encontramosuma comparação abreviada, em que o nexo comparativo não está sinédoque, um tipo especial de substituição. Modernamente, aexpresso, mas subentendido: metonímia compreende a sinédoque.”Sua boca é um cadeadoE meu corpo é uma fogueira.” (Chico Buarque de Holanda) ANTONOMÁSIA”O tempo é uma cadeira ao so!, e nada mais.” (Carlos Drummond É a figura que consiste em designar uma pessoa por umade Andrade) ”Meu cartão de crédito é uma navalha.” (Cazuza) característica, feito ou fato que a tornou notória: O Príncipe dos Poetas notabilizou-se também por suas atividadesCATACRESE cívicas.É uma espécie de metáfora em que se emprega uma palavra no (= Olavo Bilac)sentido figurado por hábito ou esquecimento de sua etimologia: O Boca do Inferno satirizou costumes e princípios. (= Gregório de”Usei a casa da lua As asas do vento Os braços do mar O pé da Matos Guerra)montanha Outros exemplos:Criei uma criatura O Poeta dos Escravos (= Castro Alves)Um bicho, uma coisa Lampião (= Virgulino Ferreira) O Corso (= Napoleão Bonaparte)Um não-sei-que-láComposição estranha.” (Ronaldo Tapajós e Renato Rocha) SINESTESIA”Ninguém coca as costas da cadeira. Consiste no cruzamento de palavras que transmitem sensaçõesNinguém chupa a manga da camisa. diferentes. Tais sensações podem ser físicas ou psicológicas:O piano jamais abana a cauda. Um doce abraço indicava que o pai o desculpara, (sensaçõesTem asa, porém não voa, a xícara.” (José Paulo Paes) gustativa e tátil, respectivamente) As derrotas do Corinthians deixam um gostinho de prazer nosMETONÍMIA adversários, (sensações gustativa e psicológica, respectivamente)É o emprego de um nome por outro em virtude de haver entre eles Figuras de pensamentoalgum relacionamento. As figuras de pensamento são recursos que se relacionam àA metonímia ocorre quando se emprega: semântica, ou seja, ao significado das palavras. Classificam-se em:a) a causa pelo efeito. antítese, eufemismo, gradação, hipérbole, prosopopéia,Vivo do meu trabalho, (do produto do trabalho = alimento) paradoxo, perífrase, apóstrofe e ironia.b) o efeito pela causa:Aquele poeta bebeu a morte. (= veneno) ANTÍTESEc) o instrumento pelo usuário: É o emprego de palavras ou expressões de significados opostos:Os microfones corriam no gramado. (= repórteres) ”No sonho em que se perdeu,d) o autor pela obra: Banhou-se toda em luar...Leio Drummond, o nosso poeta. (= a obra de Carlos Drummond de Queria subir ao céu,Andrade) Queria descer ao mar...” (Alphonsus de Guimaraens)e) o continente pelo conteúdo: ”Não sou alegre nem sou triste:”Bebeu uma xícara de café requentado.” (= o conteúdo de uma sou poeta.” (Cecília Meireles)xícara)(Ézio Pinto Monteiro) EUFEMISMOf) o símbolo pelo simbolizado: É o recurso utilizado para atenuar um pensamento desagradável ouA coroa foi disputada pelos irmãos. (= poder) chocante:g) o concreto pelo abstrato: ”Era incapaz de apropriar-se do alheio.” (= roubar)”E mães, a agonizar de fome e de cansaço, Levam com o coração • (José Américo)mais do que com os braços Os filhos pequeninos.” (= sentimento) O infeliz pôs termo à vida tragicamente. (= suicidou-se)(Vicente de Carvalho)h) o abstrato pelo concreto: Obs.: Lítotes consiste em afirmar o positivo pelo negativo, ou seja,Um dia a virtude vencerá. (= os virtuosos) nega-se o contrário do que se deseja afirmar (negação do opostoi) o lugar de produção pelo produto: ou contrário). Quando dizemos, por exemplo, que “Paulo não está”Corria o champanhe, gargalhava-se, a pândega ia avante.” no seu juízo perfeito”, nossa intenção é, na verdade, dizer que(= vinho espumante da região de Champagne, França) “Paulo está louco”. Essa atenuação do pensamento serve à ênfase(Maria Archer) dissimulada, o que aproxima o Lítotes do eufemismo e da ironia.j) o inventor pelo invento: Daí considerar-se esta figura de linguagem sinônima aproximadaGutenberg possibilitou a difusão do conhecimento. (= a invenção de Eufemismo e antônimo de Hipérbole (exagero).de Gutenberg - imprensa)l) a parte pelo todo: GRADAÇÃOFalta-me um teto hospitaleiro. (= casa) É a seqüência de palavras que intensificam uma mesma idéia:m) o todo pela parte: ”Porque gado a gente marca, Tange, ferra, engorda e mata,”Ele morava na Rua do Senador Eusébio.” Mas com gente é diferente.” (Geraldo Vandré)(= numa casa da Rua do Senador Eusébio) ”E, homem, há de morrer como viveu: sozinho!(Artur Azevedo) sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão! sem lar!” (Olavon) o material pelo objeto: Bilac)”Deram agora seis horas Nos bronzesDa enorme catedral.” (= sinos) HIPERBOLE(Antônio Boto) É o recurso de expressão pelo qual se engrandece ou diminui deo) o singular pelo plural. forma exagerada uma afirmação:”No Brasil, convencionou-se que o carioca e o baiano são ”Ai mamãe, minha mãe, o travesseirocarnavalizadores. (= todos os cariocas; todos os baianos) eu ensopei de lágrimas ardentes.” (Carlos Drummond de(Afonso de Sant’Ana) Andrade)p) o nome próprio pelo comum (o indivíduo pela espécie): ”Rios te correrão dos olhos, se chorares.” (Olavo Bilac)Na calada da noite, revelou-se um judas. (= traidor)q) a marca pelo produto: PROSOPOPÉIA”Põe meia dúzia de Brahma pra gelar, muda a roupa de cama, eu Consiste em emprestar ação, voz ou sentimento humanos a serestô voltando.” (= cerveja) (Maurício Tapajós / Paulo C. Pinheiro) inanimados, irracionais ou imaginários: ”Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume.” (Machado de Assis) 7
  8. 8. ”Dorme, ruazinha, é tudo escuro.” (Mário Qumtana) ”Tão bom se ela estivesse viva me ver assim.” (= Tão bom se ela estivesse viva para me ver assim.) (Antônio Olavo Pereira)PARADOXO ”A tarde talvez fosse azul, Não houvesse tantos desejos.” (= Se nãoConsiste no emprego de palavras de sentido oposto que parecem houvesse tantos desejos)excluir-se mutuamente, mas, no contexto, reforçam a expressão. (Carlos Drummond de Andrade)”... e estirado no leito... ri, num doloroso riso, deste mundoburlesco e sórdido.” ZEUGMA(Eça de Queirós) Ocorre quando se omitem termos já expressos no texto:”... se me afigurava ser um pedaço de cera, que se derretia, com ”O meu pai era paulistahorrenda delícia, num forno rubro e rugidor!” Meu avô, pernambucano (= Meu avô era pernambucano O meu(Eça de Queirós) bisavô, mineiro O meu bisavô era mineiro Meu tataravô, baiano.” Meu tataravô era baiano.)Obs.: Oximoro é o recurso estilístico que representa um (Chico Buarque de Holanda)«paradoxo intelectual», revelador da atitude do sujeito poético/de ”Vieira vivia para fora, para a cidade, para a corte, para o mundo;enunciação perante determinada realidade. Por sua vez, o Bernardes para a cela, para si, para o seu coração.” ( = Bernardesparadoxo, apesar de ser uma das características do oxímoro, é um vivia para a cela, para si, para o seu coração.)termo mais abrangente, que se aplica a todas as situações em que (Antônio Feliciano de Castilho)o insólito e o ilógico se destaquem. PLEONASMOQUIASMO (de Grego, Khiasmós = disposto em cruz) É a repetição de uma idéia ou de uma função sintática. A sua Que por seu turno, deriva da letra grega [X] qui. O quiasmo é finalidade é enfatizar a mensagem.uma espécie de antítese; também conhecido como antimetábole. Repetição de idéiasConsiste no cruzamento de grupos sintáticos paralelos (dois ou Repetição de função sintáticaquatro vocábulos), de forma que o grupo de vocábulos do primeiro Choramos um choro sentido.se repete no segundo em ordem inversa (AB x BA): VTD OD Melhor é merecê-los [a] sem os ter [b] Ele sempre viveu uma vida simples e calma. Que possuí-los [b] sem os merecer. [a] (Os Lusíadas, c IX, VTD OD 93) A ti nada te devo. Com dois elementos: OI OD OI VTDI pleonástico Desfeito em cinzas, Este erro, jamais o cometerei novamente. Em lágrimas desfeito. OD OD VTD O quiasmo também pode ser encontrado na prosa: pleonástico “De certos homens, dizia Sócrates, que não comiam para Outros exemplos: viver, mas só viviam para comer.“ (Pe. Antônio Vieira) ”Todos nus e da cor da treva escura.” (Camões) “Risos que se umedeciam de lágrimas e lágrimas que se ”A esse, Deus lhe dará uma vida de novo.” (Jorge de Lima) esmaltavam de risos.” (Antônio Patrício) ”O ato do vizinho é muito mais importante do que lhe parece a ele.” (Carlos Drummond de Andrade)PERÍFRASEÉ uma expressão que designa um ser através de alguma de suas OBSERVAÇÃO: O pleonasmo, quando perde seu caráter enfático,características ou atributos, ou de um fato que o tornou conhecido: é chamado vicioso. Esse tipo de pleonasmo será estudado noVisitaremos a cidade maravilhosa. (= Rio de Janeiro) capítulo sobre vícios de linguagem.O ouro negro jorrou em vários pontos do continente de Colombo.(= petróleo, América) ASSÍNDETO É a supressão de um conectivo entre elementos coordenados:APÓSTROFE ”Todo coberto de medo, juro, minto, afirmo, assino.” (CecíliaÉ a interpelação enfática de pessoas ou seres personificados: Meireles)”Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?” (Castro Alves) ”Agachou-se, atiçou o fogo, apanhou uma brasa com a colher,”Desce do espaço imenso, ó águia do oceano.” (Castro Alves) ”- acendeu oÓ vida futura! nós te criaremos.” (Carlos Drummond de Andrade) cachimbo, pôs-se a chupar o canudo do taquari cheio de sarro.” (Gradliano Ramos)IRONIA ”Luciana subia à janela da cozinha, sondava os arredores, bradavaÉ o recurso lingüístico que consiste em afirmar o contrário do que com desespero...”se pensa, geralmente num tom depreciativo e sarcástico: (Graciliano Ramos)Vejam os magníficos feitos desses honestíssimos políticos:dilapidaram os bens do país e fomentaram a corrupção. POLISSÍNDETO”Moça linda, bem tratada, Consiste na repetição intencional de um conectivo coordenativotrês séculos de família, (geralmente a conjunção e):burra como uma porta: ”... e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre...” (Clarice Lispector)um amor.” (Mário de Andrade) ”E o olhar estaria ansioso esperandoFiguras de construção ou de sintaxe e a cabeça ao sabor da mágoa balançandoAs figuras de construção ou de sintaxe são os desvios que se e o coração fugindo e o coração voltandoevidenciam na construção normal do período. Ocorrem na e os minutos passando e os minutos passando...” (Vinícius deconcordância, na ordem e na construção dos termos da oração. Moraes)São as seguintes: elipse, zeugma, pleonasmo, assíndeto, ”E os olhos não choram.polissíndeto, anacoluto, hipérbato, hipálage, anáfora e silepse. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco.” (Carlos Drummond de Andrade)ELIPSEOcorre quando se omitem termos facilmente identificáveis pelo ANACOLUTOcontexto: É a expressão que deixa um termo inicial sintaticamente desligado”Estava à toa na vida O meu amor me chamou Pra ver a banda do restante do período. O tipo mais comum é aquele em que umpassar elemento parece que vai ser o sujeito da oração, mas acabaCantando coisas de amor.” (= Eu estava à toa na vida) (Chico ficando sem função sintática.Buarque de Holanda) 8
  9. 9. ”Essas empregadas de hoje, não se pode confiar nelas.” ALITERAÇÃO(Alcântara Machado) Ocorre quando fonemas consonantais se repetem ordenadamente”Tua mãe, não há idade nem desgraça que lhe amolgue a índole na frase: ”Será que ela mexe o chocalho Ou é o chocalho querancorosa.” mexe com ela.” (Chico Buarque de Holanda)(Camilo Castelo Branco) O vento vazava zunindo pelos vãos das velhas venezianas.”Aquela mina de ouro, ela não ia deixar que outras espertasbotassem as mãos.” ASSONÂNCIA(Camilo Castelo Branco) Consiste na seqüência ordenada de fonemas vocálicos ao longo da frase:HIPÉRBATO ”Quando a manhã madrugavaÉ o deslocamento dos termos da oração ou das orações no calmapenado: alta”Bendito o que, na Terra, fez o fogo, e o teto.” (= Bendito o que fez clarao fogo e o teto na Terra.) Clara morria de amor.” (Caetano Veloso)(Olavo Bilac) ”É esta ”Sou Ana, da cama da cana, fulana, bacanade teu querido pai a mesma barba a mesma boca e testa.” Sou Ana de Amsterdã.” (Chico Buarque de Holanda)(= É esta a mesma barba, a mesma boca e testa de teu queridopai.) (Tomás Antônio Gonzaga) PARONOMASIA Ocorre quando se aproximam palavras de sons parecidos, porémHIPÁLAGE de significados diferentes:Ocorre quando se atribui a uma palavra uma característica que ”Quem vê um frutopertence a outra da mesma frase: Não vê um furto.” (Mário Quintana)”Em cada olho um grito castanho de ódio.” (Dalton Trevisan) (= ”Oxalá estejam limpasEm cada olho castanho um grito de ódio.) as roupas brancas da sexta”Houve um ruído domingueiro de saias engomadas.” (Eça de as roupas brancas da cesta.” (Paulo Lemmski)Queirós) (= Houve um ruído de saias domingueiras engomadas.) ONOMATOPÉIAANÁFORA A onomatopéia consiste no emprego de uma palavra ou conjuntoÉ a repetição da mesma palavra ou expressão no início de várias de palavras que sugerem o ruído natural dos seres:orações, períodos ou versos: ”Chocalhos tilintariam pelos arredores.” (Graciliano Ramos)” Tudo é silêncio, tudo calma, tudomudez.” (Olavo Bilac) ” - Porque o tic-tic, o toc-toc, ou o puc-puc da máquina me picota” Vi uma estrela tão alta, a cuca.”Vi uma estrela tão fria! (Mário Quíntana)Vi uma estrela luzindoNa minha vida vazia.” (Manuel Bandeira) VÍCIOS DE LINGUAGEM Vícios de linguagem são desvios das normas gramaticais doSILEPSE idioma, ou seja, o desrespeito às regras da língua-padrão emOcorre quando a concordância se faz com a idéia subentendida, e virtude de desconhecimento ou má assimilação dessas regras pornão com os termos expressos. parte de quem fala ou escreve.A silepse pode ser: Os vícios de linguagem classificam-se em: barbarismo,a) de gênero: solecismo, ambigüidade ou anfibologia, cacofonia, pleonasmoMoro na velha Santos. t palavra expressa: masculina vicioso, eco, colisão e hiato.Outros exemplos:”Quando a gente é novo, gosta de fazer bonito.” (Guimarães Rosa) Barbarismo”Admitindo a idéia de que eu fosse capaz de semelhante vilania, É o emprego de palavras ou expressões estranhas ao idioma.S. M. foi cruelmente injusto para comigo.” Existem os seguintes tipos de barbarismo:(Alexandre Herculano) a) cacografia - é a má grafia ou flexão de uma palavra: pobrema (em vez de problema) ?b) de número: magérrimo (em vez de macérrimo)idéia plural: pessoas excessão (em vez de exceção)”Corria gente de todos os lados, e gritavam.” (Mário Barreto) mendingo (em vez de mendigo)Outros exemplos: mortandela (em vez de mortadela)”Muita gente anda no mundo sem saber pra quê: vivem porque interviram (em vez de intervieram)vêem os outros viverem.” uma dó (em vez de um dó)(J. Simões Lopes Neto) b) silabada - é o deslocamento do acento prosódico de uma”Um grupo mais numeroso descia da ladeira e parava a alguns palavra:passos. púdico (em vez de pudico)Falavam alto, comentando ainda as peripécias do leilão.” filântropo (em vez de filantropo)(Afrânio Peixoto) catéter (em vez de cateter) ibero (em vez de ibero) rubrica (em vez de rubrica)c) de pessoa: latex (em vez de látex) ínterim (em vez de ínterinj)Os brasileiros somos bastante otimistas.Outros exemplos: ’ ”Na noite seguinte estávamos reunidas c) estrangeirismo - é o emprego de palavras pertencentes aalgumas pessoas.” línguas estrangeiras. De acordo com a origem, recebem o nome de(Machado de Assis) galicismo ou francesismo, anglicismo, italianismo,”Quanto à pátria da Origem, todos os homens somos do Céu.” germanismo, etc. A rigor, o estrangeirismo ocorre quando se grafa(Pe. Manuel Bernardes) uma palavra como na língua de origem: carnet (em vez de carne ou talão de compras)Figuras sonoras ou de harmonia pedigree (em vez de linhagem, raça)As figuras sonoras ou de harmonia constituem na utilização de shampoo (em vez de xampu)efeitos da linguagem para reproduzir os sons produzidos pelos comer (em vez de escanteio)seres. São elas a aliteração, a assonância, a paronomasia e a démodé (em vez de fora de moda)onomatopéia. rentrée (em vez de retorno, volta, reapresentação) week-end (em vez de fim de semana) 9
  10. 10. site (em vez de sítio) do que sou. A identidade se constrói nessa relação dinâmica com a alteridade.Solecismo Por fim, texto passa a significar:É qualquer erro cometido contra as regras da sintaxe. Osdesacertos de concordância, regência e colocação são o lugar da interação e os interlocutores, comodenominados solecismos. sujeitos ativos que – dialogicamente – nele se constroem e0 solecismo, portanto, consiste nos desvios da sintaxe: são construídos. Desta forma, há lugar, no texto, para todaa) de concordância: uma gama de implícitos, dos mais variados tipos, somenteAinda falta cinco minutos para as oito horas, (em vez de: faltam) detectáveis quando se tem, como plano de fundo, ob) de regência: contexto sociocognitivo dos participantes da interação.Devemos obedecer os mais velhos, (em vez de: aos mais velhos) (Fávero e Koch)c) de colocação:Darei-te todo o meu apoio, (em vez de: Dar-te-ei)Ambigüidade ou anfibologiaÉ o sentido ambíguo resultante da má construção da frase: O sentido de um texto é, portanto, construído na interaçãoO guarda conduzia o garoto para sua casa. (casa de quem?) O pai texto-sujeitos e não algo que preexista a essa interação. Texto édiscutia com o filho sobre sua educação, (educação de quem?) um evento comunicativo no qual convergem ações lingüísticas, cognitivas e sociais (caráter dialogal), designando toda e qualquerCacofonia manifestação da capacidade textual do ser humano (uma música,Ocorre quando sílabas de palavras diferentes se encontram, um filme, uma escultura, um poema etc.), e, em se tratando deresultando em uma terceira palavra de sentido ridículo ou, às linguagem verbal, temos o discurso, atividade comunicativa de umvezes, indecoroso: sujeito, numa situação de comunicação dada, englobando oDa beca dela só sai asneiras. conjunto de enunciados produzidos pelo locutor (ou pelo locutor eNa vez passada nós ganhamos o jogo. interlocutor, no caso dos diálogos) e o evento de sua enunciaçãoPleonasmo vicioso (Fávero e Koch, 1983, p. 25).É o uso de palavras ou expressões redundantes e desnecessárias:A bola saiu para fora do campo.Fabiano é o principal protagonista de Vidas Secas. A expressão tipo textual é usada para designar umaI OBSERVAÇÃO espécie de seqüência teoricamente definida pela naturezaQuando se emprega com valor enfático, o pleonasmo deixa de ser lingüística de sua composição (aspectos lexicais, sintáticos,vicioso: ”Ri tua face um riso acerbo e doente.” (Cruz e Sousa) tempos verbais, relações lógicas).Eco Basicamente, há os seguintes tipos textuais:É o efeito sonoro desagradável produzido por uma seqüência de Descrição: consiste em descrever as características que compõempalavras com a mesma terminação: um determinado objeto, ambiente, paisagem ou pessoa, lembrando que, estaJoão teve a sensação de que a sua atuação foi uma decepção. última pode ser descrita/caracterizada, pelo seu lado físico, psicológico ouTambém naquele armazém ninguém conhecia o Araquém! por suas ações.Colisão É difícil separar descrição de narração, pois o que éÉ o efeito sonoro desagradável produzido pela repetição de narrado se desenvolve em um espaço que possui umafonemas consonantais idênticos ou semelhantes: funcionalidade e que, por sua vez, envolve personagensA rica rainha reinava radiante e sorridente. devidamente caracterizadas. A descrição do espaço e dasTalvez fosse necessário que você permitisse que a Clarisse personagens nele envolvidas constituem uma forma narrativa.mentisse para você. Dizemos isto, porque é comum, que características opostas dasHiato personagens revelem o conflito de uma narrativa, bem como, aÉ a seqüência de palavras com fonemas vocálicos que produzem descrição do espaço pode revelar traços psicológicos dasum efeito sonoro desagradável: personagens.Receba a Aurora agora, por favor. Narração: consiste em contarmos um ou mais fatos,Todos sabiam que eh a agradava a toa. reais ou imaginários, que ocorreram em determinado tempo e lugar, envolvendo certas personagens. O processo narrativo é dinâmico, pois está sujeito a transformações, expressas em Para entendermos o que vem a ser um texto, é necessário equilíbrios e desequilíbrios.antes compreendermos o que é Língua, Sujeito e Sentido. A Os elementos básicos são: enredo, narrador,concepção de Sujeito da linguagem varia de acordo com a personagens, tempo, espaço e conflito.concepção de Língua: Dissertação: consiste na exposição de nossas idéias,[1] A língua é um instrumento que se encontra à disposição dos nossas opiniões, nossos pontos de vista, seguidos de argumentosindivíduos → SUJEITO CONSCIENTE (interpretar é descobrir a que os comprovem.intenção do falante) Para se escrever um texto dissertativo é necessário ter[2] A língua é um discurso anterior que fala através dele (mundo conhecimento sobre o assunto e assim, tomar uma posição críticaideológico) → ASSUJEITAMENTO (quem fala é um sujeito social) com relação a ele. Para a formação de nossa opinião, precisamos[3] A língua como um lugar de interação → SUJEITO nos munir de dados, informações, idéias e, também, opiniões dePSICOSSOCIAL (o caráter ativo dos sujeitos na produção mesma pessoas relacionadas diretamente com assunto.do social e da interação e defendendo a posição de que os sujeitos Texto injuntivo é o tipo de texto que leva o leitor a mais(re)produzem o social na medida em que participam ativamente da que uma simples informação. Instrui o leitor! Não é o texto quedefinição da situação na qual se acham engajados, e que são argumenta, que narra, que debate, mas que leva o leitor aatores na atualização das imagens e das representações sem as determinada orientação transformadora. O texto injuntivo-quais a comunicação não poderia existir. instrucional pode ter o poder de transformar o comportamento do Assim, Língua torna-se uma atividade interativa altamente leitor.complexa de produção dos sentidos, que se realiza, evidentemente, Para que se fique claro: o tipo textual é umcom base nos elementos lingüísticos presentes na superfície comportamento característico de cada texto em caso concretotextual e na sua forma de organização, mas que requer a (gênero). Ou seja, para se narrar um fato, recorre-se ao uso demobilização de um vasto conjunto de saberes e sua reconstrução verbos, geralmente, no pretérito perfeito. Para se descrever umano interior do evento comunicativo. cena, utiliza-se de verbos não-nocionais, bem como o uso de Sujeito é um sujeito social, histórica e ideologicamente substantivos e adjetivos, enfim, são marcas contidas em cadasituado, que se constitui na interação com o outro. Eu sou na realização textual. Um boletim de ocorrência é um gênero textual,medida em que interajo com o outro. É o outro quem dá a medida que apresenta tanto a tipologia narrativa, como a tipologia 10
  11. 11. descritiva. Um romance é um gênero textual, que usapredominantemente do tipo narrativo, mas pode trazer elementos “É a qualidade particular de tudo o que toca o espírito, provocandodescritivos e até mesmo argumentativos (Romance Tese). emoção e prazer estético” (MAIA: 2004). A expressão gênero textual é usada como uma noçãopropositalmente vaga para referir os textos materializados que II) CARACTERÍSTICASencontramos em nossa vida diária e que apresentam característicasócio-comunicativas definidas por conteúdos, propriedades a) O poema é uma expressão verbal rítmica → a magia dos sons;funcionais, estilo e composição características. b) Harmonia das palavras; c) Versificação; d) Musicalização; e) Sentimentalismo; O conhecimento ocidental sobre os gêneros literários tem f) Imaginação;sua origem no pensamento filosófico grego, em especial Platão e g) Rimas;Aristóteles. No livro A República, parte 3, Platão (reproduzindo o h) Liberdade criadora;pensamento de Sócrates) nos ensina que há três tipos de obras i) Sonoridadepoéticas: “inteiramente imitação”, que seria a Tragédia e a Comédia j) Forma (fixa ou livre)(Dramática); “um simples relato”, isso encontraríamos nosditirambos (seria um antepassado na Lírica, embora com algumas CARACTERÍRTICAS COMUNS À PROSA E À POESIAdistinções); “o terceiro tipo une ambas as coisas” (Épica ouEpopéia), em que há manifestações do próprio poeta, seja quando a) Correção → conhecer a língua;o poeta constrói suas personagens. Aristóteles, em A Arte b) Concisão → o máximo de expressividade com o mínimoPoética, até certo ponto traz a mesma idéia de seu mestre. Para dispêndio verbal;Aristóteles, há várias maneiras literárias de imitar (mímesis) a c) Clareza → ser compreendido sem dificuldades;natureza, em especial, a Dramática, a Lírica e a Epopeia. d) Precisão; Por mais que muitos teóricos critiquem (com e) Naturalidade;certa razão), a teoria dos três gêneros, como arquiformas literárias, f) Nobreza de linguagem;ainda se mantém inabalada. Ao se estudar as formas literárias, g) Originalidade→ criação poética;principalmente, os gêneros literários, é comum que partamos de h) Harmonia.uma compreensão normativa destes fenômenos. Assim,desconsidera-se a relação dialética existente no fenômeno estético, III) NOÇÕES DE VERSIFICAÇÃOentre a a forma de expressão e o conteúdo formalizado. Passa-se aentender os gêneros como institutos absolutos dotados de 1) O QUE É O VERSO:regramento próprio. Anatol Rosenfeld nos alerta para aartificialidade dessa visão: “É a unidade rítmica do poema” (MANUEL BANDEIRA) 2) CONTAGEM DAS SÍLABAS DO VERSO Estabelece um esquema a que a realidade literária ESCANSÃO → é a contagem dos sons dos versos. multiforme, na sua grande variedade histórica, nem sempre corresponde. Tampouco deve ela ser REGRAS: entendida como um sistema de normas a que os autores teriam de ajustar a sua atividade a fim de 1) Contam-se os versos somente até a última sílaba tônica; produzirem obras líricas puras, obras épicas puras ou “As armas e os barões assinalados” obras dramáticas puras. A pureza em matéria de literatura não é necessariamente um valor positivo. 2) Quando a última sílaba terminar em vogal átona e a primeira Ademais, não existe pureza de gêneros em sentido sílaba da palavra seguinte começar por vogal átona, ocorrerá a absoluto (2004, p.16). ELISÃO → junção das vogais. “Amo-te, ó cruz no vértice firmada De esplêndidas igrejas” (Herculano) O citado crítico nos ensina ainda que, no estudo dos 3) NÚMERO DE SÍLABASgêneros literários, é possível apresentar um duplo significado:Substantivo, associado mais à estrutura dos gêneros (A Lírica, A a) MONOSSÍABOS: uma única sílabaÉpica e A Dramática); Adjetivo, associado a traços estilísticoscontidos em qualquer texto que, em grau maior ou menor, podem Renato Travassos e seu menor soneto do mundoaparecer em qualquer gênero. Ou seja, um poema pertence aogênero Lírico, mas é possível encontrar um poema-épico ou um “Ópoema narrativo, ou até mesmo um poema dramático (como em Vem!Morte e Vida Severina), ou um romance poético (em Iracema). O Temsignificado substantivo, de certa forma, “fecha” a noção de gênero; Dó...”ao passo que o significado adjetivo dá uma amplitude maior aogênero literário, inclusive para a aceitação desses traços em um Bemambiente extra-linguístico. Jó, Quem Só Num poema lírico, uma voz central (eu-lírico) exprime um Dorestado de alma e o traduz em palavras. Trata-se essencialmente da Seexpressão de emoções e disposições psíquicas, muitas vezes Faztambém de concepções, reflexões e visões enquanto intensamente Porvividas e experimentadas. Em virtude do cunho emotivo-reflexivo, é Ti...comum encontrarmos como característica deste gênero certa Vês!”brevidade (a poesia é mais curta que a prosa). b) DISSÍLABOS: versos de duas sílabasI) CONCEITO DE POESIA: 11
  12. 12. “Tu, ontem, na dança j) DECASSÍLABOS: versos de dez sílabas que cansa voavas, “Sete anos de pastor Jacob servia com as faces Labão, pai de Raquel, serrana e bela; em rosas Mas não servia ao pai, servia a ela, formosas, Que a ela só por prêmio pretendia.” de vivo (LUIS DE CAMÕES) carmim...” (Cassimiro de Abreu) k) HENDECASSÍBALOS: versos de onze sílabasc) TRISSÍLABOS: versos de três sílabas “Acerva-se a lenha da vasta fogueira, entesa-se a corda da embira ligeira, “Vem a aurora adorna-se a maça com penas gentis” pressurosa, (Gonçalves Dias) cor de rosa, que se cora l) ALEXANDRINOS: versos de 12 sílabas de carmim; a seus raios “Choro não ter colhido o beijo que perdeste...” as estrelas (Menotti del Picchia) que eram belas tem desmaios m) VERSOS LIVRES: sem nenhum esquema métrico ou silábico já por fim” (Gonçalves Dias)d) TETRASSÍLABOS: versos de quatro sílabas 4) RITMO: sucessão alternada de sons tônicos e átonos, repetidos com intervalos regulares. “O inverno brasa forçando as portas... a) Binários: duas partes iguais Oh! Que revoada De folhas mortas “Belo belo / minha bela O vento espalha Tenho tudo / que não quero” Por sobre o chão” (Manuel Bandeira) (Alphonsus de Guimaraens) b) Ternário: três partes iguaise) REDONDILHA MENOR: versos de cinco sílabas “Era pequena /, era elegante /, era discreta” “Meu canto de morte, (Carlos Drummond de Andrade) guerreiros, ouvi: sou filho das selvas, c) Cumulativo: superior a quatro partes iguais nas selvas cresci; guerreiros, descendo “Ruge /, brame /, urde intrigas /, atraiçoa” da tribo tipi.” (Raimundo Correia) (Gonçalves Dias) d) Crescente: mais longof) HEXASSÍLABO: versos de seis sílabas “Aqui / ondina louca / vogavas sobre os mares “E o Cavaleiro passa Ali / silvo ligeiro / na murta ias dormir” ante a sombria porta (Castro Alves) da lúgubre Desgraça” (Alphonsus de Guimaraens) 5) RIMA: é a identidade ou semelhança de sons no final ou no interior dos versos.g) REDONDILHA MAIOR: versos de sete sílabas 5.1) Externas: “Não sei se é preciso guerra, a) Emparelhadas (Paralelas ou Geminadas): AABB mas sei quanto a guerra custa. Não sei se a bondade é justa, “Pode em redor de ti, tudo se aniquilar: Mas sei que a justiça erra” - Tu renascerá cantando ao teu olhar, (Otacílio Batista) tudo, mares e céus, árvores e montanhas, porque a vida perpétua arde em tuas entranhas”h) OCTOSSÍLABO: versos com oito sílabas (Olavo Bilac) “No ar sossegado, um sino canta... Um sino canta no ar sombrio” b) Interpoladas (oposta): ABBA (Olavo Bilac) “Eu me lembro! Eu me lembro! – Era pequenoi) ENEASSÍLABO: versos de nove sílabas E brincava na praia; o mar bramia E, erguendo o dorso altivo sacudia “Ó guerreiros da taba sagrada. A branca espuma para o céu sereno” Ó guerreiros da tribo tupi! (Cassimiro de Abreu) Falam deuses nos cantos do piaga! Ó guerreiros, meus cantos ouvi” c) Alternadas (Cruzadas): ABAB (Gonçalves Dias) 12
  13. 13. d) Misturadas (Deslocadas): não seguem esquematização O ENREDOe) Continuadas: repetem-se ao longo do poema 1) Linear – a história apresenta começo, meio e fim; a seqüência dos fatos é clara, direta, com continuidade lógica e cronológica,5.2) Internas: com o desenrolar passo a passo dos acontecimentos; 2) Não-Linear – acontecem saltos na seqüência das ações,a) Aliterantes: fonemas consonantais idênticos ou semelhantes. quebrando-se a seqüência lógica e cronológicab) Encadeadas: final de um verso e início do verso seguinte. PARTES DA HISTÓRIA 1) APRESENTAÇÃO: primeiros dados sobre o mundo narrativo;c) Coroadas: dentro do mesmo verso 2) COMPLICAÇÃO: incidente que subverte a ordem estabelecida, instaurando o conflito;d) Leoninas: rimas de mesma métrica 3) CLÍMAX: momento de maior tensão da história; 4) DESFEECHO ou DESENLACE: solução do conflito.5.3) Verso Branco: não há rima. FOCO NARRATIVO (PONTO DE VISTA): perspectiva adotada6) ESTROFE: é um agrupamento de linhas (versos), que formam pelo narrador para contar a história. Pode ser:uma unidade rítmica e psicológica. a) Externo - narrativa objetiva, feita por um observador “de fora”,a) Monóstico: um verso; que não conhece nem o pensamento, nem o passado das personagens. Ele exprime uma visão incompleta.b) Dístico: dois versos; b) Interno – uma das personagens possui uma visão dos acontecimentos. Exprime uma visão parcial, subjetiva.c) Terceto: três versos; c) Onisciente – os fatos são apresentados por um narrador que conhece todos os fatos e pensamentos das personagens. Exprimed) Quadra: quatro versos populares; uma visão global.e) Quarteto: quatro versos eruditos (sonetos); PERSONAGENS:f) Quintilha: cinco versos; 1) Quanto à função: a) PROTAGONISTA – personagem central;g) Sextilha: seis versos. b) ANTAGONISTA – opositor do protagonista; c) SECUNDÁRIOS – de pouca importância, também chamados deh) Setilha: sete versos; coadjuvantes; d) NARRADOR – quem conta a história.i) Oitava: oito versos; 2) Quanto à caracterização:j) Nona: nove versos; a) INDIVÍDUO – possuidor de características marcantes, individualizantes;k) Décima: dez versos; b) CARICATURA – possuidor de traços exagerados de sua personalidade;l) Irregulares: mais de dez versos. c) TÍPICA – representante de um grupo social, nacional, regional, profissional, etc.OBS: REFRÃO: verso que se repete a intervalos regulares 3) Quanto à evolução:7) O POEMA CONCRETO a) PLANAS ou ESTACIONÁRIAS – inalteráveis na narrativa; b) ESFÉRICAS ou EVOLUTIVAS - são definidas no decorrer da7.1) CARACTERÍSTICAS narrativa, evoluindo e, algumas vezes, surpreendendo o leitor.a) Ruptura com a sintaxe tradicional e a disposição das palavras; 4) Quanto à apresentação feita pelo Narrador:b) Abolição do verso linear e a ampliação das possibilidades de a) IMPLÍCITA ou INDIRETA – a personagem se revela pelaleitura; dedução do leitor;c) A associação da comunicação verbal e visual. b) EXPLÍCITA ou DIRETA – a personagem é revelada diretamente, por meio de descrições e comentários feitos ou pelo narrador, ou pelas personagens. O gênero narrativo decorre do gênero Épico, embora este O TEMPOoriginariamente ter sua forma em versos, aquele, com a evolução 1) Tempo cronológico;do gênero, aproxima-se mais do romance, que não pode ser 2) Tempo psicológico;entendido aqui como uma “história de amor”, como muitos leigos 3) Flashback – apresentação de fatos anteriores à seqüênciaacreditam. Romance é simplesmente uma narrativa que, inclusive, narrativa;com as questões atuais, pode não narrar nada e se voltar para as 4) Flashforward – apresentação de fatos posteriores à seqüênciaquestões existenciais, como bem o fez Clarice Lispector. narrativa; Narração: uma progressão marcada por peripécias ou 5) Elipses – saltos temporais, tornando a narrativa mais ágil.incidentes e, geralmente, portadora de uma moral. Ou seja, algo 6) Cena – acelera o ritmo narrativo, pois coincide tempo dosaconteceu a alguém, em um certo tempo, em um certo lugar, e isso acontecimentos e tempo do discurso;gerou conseqüências. 7) Sumário – o narrador resume diversos acontecimentos em um tempo de discurso sensivelmente mais curto.ELEMENTOS DA NARRATIVA: O ESPAÇO1) Narrador; 1) Físico;2) Personagens; 2) Psicológico – espaço de nosso universo subjetivo.3) Ações;4) Tempo; EXEMPLOS DE NARRATIVAS:5) Espaço. 13

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