O Texto LiteráRio

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O Texto LiteráRio

  1. 1. O Texto Literário Prof. Ewerton Rezer Gindri
  2. 2. Nossa mãe, o que é aquele vestido, naquele prego? Minhas filhas, é o vestido de uma dona que passou. Passou quando, nossa mãe? Era nossa conhecida? Minhas filhas, boca presa. Vosso pai evém chegando. Nossa mãe, dizei depressa que vestido é esse vestido. Minhas filhas, mas o corpo ficou frio e não o veste. O vestido, nesse prego, está morto, sossegado. Nossa mãe, esse vestido tanta renda, esse segredo! Minhas filhas, escutai palavras de minha boca. Era uma dona de longe,  vosso pai enamorou-se. E ficou tão transtornado, se perdeu tanto de nós,  se afastou de toda vida, se fechou, se devorou, chorou no prato de carne, bebeu, brigou, me bateu, me deixou com vosso berço, foi para a dona de longe, mas a dona não ligou. Em vão o pai implorou. Dava apólice, fazenda,  dava carro, dava ouro,   beberia seu sobejo, lamberia seu sapato. Caso do vestido
  3. 3. Mas a dona nem ligou. Então vosso pai, irado, me pediu que lhe pedisse, a essa dona tão perversa, que tivesse paciência e fosse dormir com ele... Nossa mãe, por que chorais? Nosso lenço vos cedemos. Minhas filhas, vosso pai chega ao pátio.  Disfarcemos. Nossa mãe, não escutamos pisar de pé no degrau. Minhas filhas, procurei aquela mulher do demo. E lhe roguei que aplacasse de meu marido a vontade. Eu não amo teu marido, me falou ela se rindo. Mas posso ficar com ele se a senhora fizer gosto, só pra lhe satisfazer, não por mim, não quero homem. Olhei para vosso pai,  os olhos dele pediam. Olhei para a dona ruim,  os olhos dela gozavam. O seu vestido de renda,  de colo mui devassado,  mais mostrava que escondia as partes da pecadora. Eu fiz meu pelo-sinal, me curvei... disse que sim.
  4. 4. Sai pensando na morte, mas a morte não chegava. Andei pelas cinco ruas,  passei ponte, passei rio,  visitei vossos parentes,  não comia, não falava, tive uma febre terçã, mas a morte não chegava. Fiquei fora de perigo, fiquei de cabeça branca, perdi meus dentes, meus olhos,  costurei, lavei, fiz doce, minhas mãos se escalavraram, meus anéis se dispersaram, minha corrente de ouro pagou conta de farmácia. Vosso pais sumiu no mundo. O mundo é grande e pequeno. Um dia a dona soberba me aparece já sem nada, pobre, desfeita, mofina, com sua trouxa na mão. Dona, me disse baixinho, não te dou vosso marido, que não sei onde ele anda. Mas te dou este vestido,   última peça de luxo que guardei como lembrança daquele dia de cobra, da maior humilhação. Eu não tinha amor por ele, ao depois amor pegou.
  5. 5. Mas então ele enjoado confessou que só gostava de mim como eu era dantes. Me joguei a suas plantas, fiz toda sorte de dengo, no chão rocei minha cara, me puxei pelos cabelos, me lancei na correnteza, me cortei de canivete, me atirei no sumidouro, bebi fel e gasolina, rezei duzentas novenas, dona, de nada valeu: vosso marido sumiu. Aqui trago minha roupa que recorda meu malfeito de ofender dona casada pisando no seu orgulho. Recebei esse vestido e me dai vosso perdão. Olhei para a cara dela, quede os olhos cintilantes? quede graça de sorriso, quede colo de camélia? quede aquela cinturinha delgada como jeitosa? quede pezinhos calçados com sandálias de cetim? Olhei muito para ela,  boca não disse palavra. Peguei o vestido, pus nesse prego da parede.
  6. 6. Ela se foi de mansinho e já na ponta da estrada vosso pai aparecia. Olhou pra mim em silêncio, mal reparou no vestido e disse apenas: — Mulher, põe mais um prato na mesa. Eu fiz, ele se assentou, comeu, limpou o suor, era sempre o mesmo homem, comia meio de lado e nem estava mais velho. O barulho da comida na boca, me acalentava, me dava uma grande paz, um sentimento esquisito de que tudo foi um sonho,  vestido não há... nem nada. Minhas filhas, eis que ouço vosso pai subindo a escada.
  7. 7. Análise <ul><li>Escrito em versos de sete sílabas, de acordo com a tradição popular; </li></ul><ul><li>Mostra a mais funda raiz brasileira e, </li></ul><ul><li>Ao mesmo tempo, abre-se ao que há de universal nas pequenas tragédias humanas. </li></ul>
  8. 8. [ O fantasma convoca Hamlet ] Horácio . Ele acena para que vás com ele... Como se participar algo quisesse a ti somente. Marcelo . Olha com que ação cortejadora ele te sinaliza um chão mais afastado! Mas não vás com ele! Horácio . Não, de forma alguma! Hamlet . Ele não fala, então o seguirei. Horácio . Não o faça, milorde! Hamlet . Por quê, que devo eu temer? Eu não dou a minha vida o preço de um alfinete, e quanto a minh'alma, que pode ele fazer a ela, sendo coisa imortal como ele mesmo? Ele me acena que siga novamente, eu o seguirei. Horácio . E se ele te tentar rumo ao dilúvio, milorde, ou ao temível cume do despenhadeiro que se projeta sobre sua base para dentro do mar, e lá assumir alguma outra forma horrível que possa privar-te de tua soberania da razão, e arrastá-lo à loucura? Pensa nisto: o lugar em si põe brinquedos de desespero, sem mais motivo, em todo cérebro que olha tantas braças mar adentro e o ouve rugir lá embaixo. Hamlet . Ele me acena ainda. Vai adiante, Eu te seguirei. Marcelo . Tu não irás, milorde. Hamlet . Afastai vossas mãos. Horácio . Sê obediente, tu não irás! Hamlet . Meu destino dá um grito, e faz cada pequena artéria neste corpo tão tesa quanto o nervo do leão de Neméia. Ainda sou chamado. Liberai-me, senhores! Pelos céus, Eu farei um fantasma daquele que me prender! Eu digo, p'ra longe! Vai adiante, eu te seguirei. [ Saem o fantasma e Hamlet ]
  9. 9. Ponto de partida: a linguagem <ul><li>“É muito comum relacionarmos a linguagem literária com norma culta e com registro formal. As duas aproximações são equivocadas, ou, pelo menos, parciais.” </li></ul>
  10. 10. Leiamos este outro texto. “ Comecei a namorar o pai do meu filho e fiquei grávida aos 16 anos. A gente ficou um ano juntos, só que não deu certo porque a gente era muito novo. Depois de um tempo, conheci meu segundo ex-marido num site de relacionamento. Achei que era o príncipe encantado. Quando ele me traiu a primeira vez, faltava um mês para o meu casamento. E o pior! Ele me traiu com uma segunda pessoa, depois do meu casamento. Eu dizia: ‘se você me contar, eu te perdôo’, mas ele não me contou”. “ Com a minha mãe foi assim, com a minha avó também, e comigo não ia ser diferente. A mulher sempre foi mais sentimento, mas o homem sente mesmo desejo quando vê o corpo de uma mulher. A partir do momento que ele vem e me conta a verdade, está perdoado. Isso pra mim não é traição. Ele não deixa de me amar porque esteve com outra”. “ Acho que quando você tem uma vida sexualmente ativa, as chances de traição diminuem bastante”, disse o amigo. “ Todo dia ele chegava e eu estava de espartilho, com o jantar preparado em cima da mesa. Todo dia era uma coisa diferente, e nem por isso deixou de acontecer”.
  11. 11. <ul><li>“ ...o sinal estético é aquele...em que a evocação semântica não se consome na referência ao denotatum, mas se enriquece continuamente toda vez que fruímos a maneira insubstituível pela qual se incorpora ao material com que se estrutura; o significado reflete-se continuamente sobre o significante e se enriquece com novos ecos.” </li></ul><ul><li>(Eco, U.) </li></ul>
  12. 13. <ul><li>“Não é de metrificar ou não que diferem o historiador e o poeta...a diferença está em que um narra acontecimentos e o outro, fatos quais podiam acontecer. Por isso, a Poesia encerra mais filosofia e elevação do que a história; aquela enuncia verdades gerais; esta relata fatos particulares.” </li></ul><ul><li>(Aristóteles) </li></ul>
  13. 14. Triângulo de Ogden e Richards Significante Significado Referente
  14. 15. <ul><li>Exemplo: rosa </li></ul><ul><li>Significante = /ro za/ </li></ul><ul><li>Significado = </li></ul><ul><li>Referente = amor, delicadeza, perfume, mulher, etc. </li></ul><ul><li>Os primeiros significante e significado tornam-se significante de um outro significado, o SIGNIFICADO POÉTICO. </li></ul><ul><li>(D’Onofrio, S.) </li></ul>
  15. 16. <ul><li>“ Cada palavra poética constitui assim um objeto inesperado, uma caixa de Pandora, de onde escapam todas as virtualidades da linguagem.” </li></ul><ul><li>(Barthes, R.) </li></ul>
  16. 17. Plurifuncionalidade do texto literário Segundo Salvatore D’Onofrio. <ul><li>Função estética : arte da palavra e expressão do belo; </li></ul><ul><li>Função lúdica : provoca prazer; </li></ul><ul><li>Função cognitiva : forma de conhecimento de uma realidade objetiva ou psicológica; </li></ul><ul><li>Função catártica : purificação de sentimentos; </li></ul><ul><li>Função pragmática : pregação de uma ideologia. </li></ul>
  17. 18. <ul><li>“ A literatura nos mostra o homem com uma veracidade que as ciências talvez não têm. Ela é o documento espontâneo da vida em trânsito. É o depoimento vivo, natural, autêntico...” </li></ul><ul><li>(Cecília Meireles) </li></ul>

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