Calendário do mês de julho  2010 <ul><li>by Rosely Lira  </li></ul>
<ul><li>Suavidade  </li></ul><ul><li>Pousa a tua cabeça dolorida Tão cheia de quimeras, de ideal, Sobre o regaço brando e ...
<ul><li>Via Láctea  “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso&quot;! E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi...
<ul><li>O eterno insatisfeito </li></ul><ul><li>Shantih percorria as cidades pregando a palavra de Deus, quando um homem v...
<ul><li>De um lado cantava o sol    </li></ul><ul><li>De um lado cantava o sol, do outro, suspirava a lua. No meio, brilha...
<ul><li>Ensinamento  </li></ul><ul><li>Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mun...
<ul><li>Dá-me a tua mão </li></ul><ul><li>Dá-me a tua mão:   Vou agora te contar   como entrei no inexpressivo   que sempr...
<ul><li>Ontem à noite </li></ul><ul><li>Ontem à noite, depois da sua partida definitiva,  </li></ul><ul><li>fui para aquel...
<ul><li>O homem não ama </li></ul><ul><li>Jamais o seu peito mais duro que o aço, Palpita a não ser a louca ambição. Supõe...
<ul><li>Minha cor </li></ul><ul><li>Minha flor </li></ul><ul><li>Minha cara </li></ul><ul><li>Quarta estrela </li></ul><ul...
<ul><li>“ Assim como a mão tem o poder de esconder o sol,  </li></ul><ul><li>a mediocridade tem o poder de esconder a luz ...
<ul><li>Algo existe </li></ul><ul><li>Algo existe num dia de verão, No lento apagar de suas chamas, Que me impele a ser so...
<ul><li>Vimos chegar as andorinhas conjugarem-se às estrelas impacientarem-se os ventos </li></ul><ul><li>Agora esperemos ...
<ul><li>“ ... Os meus passos no caminho  </li></ul><ul><li>são como os passos da lua: </li></ul><ul><li>vou chegando, vais...
14 de julho “ Nha terra é quel piquinino É São Vicente é que di meu&quot;  Nas praias Da minha infância Morrem barcos Desm...
<ul><li>“ Porque o que não se compreende é geralmente interpretado mal,  </li></ul><ul><li>distorcidamente,  </li></ul><ul...
<ul><li>JURA SECRETA  Só uma coisa me entristece  O beijo de amor que não roubei  A jura secreta que não fiz  A briga de a...
<ul><li>Quero escrever o borrão vermelho de sangue com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro. Quero escrever ...
<ul><li>Esse olhar parado sem hoje nem passado Esse olhar sem espera como canto preso em boca entreaberta Esse olhar cansa...
19 de julho Somos donos do que calamos e escravos do que falamos. Jorge Angel Livraga
<ul><li>Passam no teu olhar nobres cortejos, Frotas, pendões ao vento sobranceiros, Lindos versos de antigos romanceiros, ...
21 de julho Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço.  Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines,  viemos do ...
<ul><li>Às seis da tarde as mulheres choravam no banheiro. Não choravam por isso ou por aquilo choravam porque o pranto su...
<ul><li>Canção do Amor-Perfeito  </li></ul><ul><li>O tempo seca a beleza. seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto,...
<ul><li>Até quando terás, minha alma, esta doçura,  este dom de sofrer, este poder de amar,  a força de estar sempre – ins...
<ul><li>Não tem volta  </li></ul><ul><li>Se você vai por muito tempo você nunca volta. Você retorna, Você contorna mas não...
<ul><li>Canção do berço vazio  </li></ul><ul><li>Canção do berço vazio nunca a ninguém acalenta, nenhuma voz a cantou. </l...
<ul><li>A laranjeira </li></ul><ul><li>Perfumada laranjeira, Linda assim dessa maneira, Sorrindo à luz do arrebol, Toda em...
<ul><li>Sou de vidro </li></ul><ul><li>Meus amigos sou de vidro Sou de vidro escurecido Encubro a luz que me habita Não po...
<ul><li>Frutos e flores </li></ul><ul><li>Meu amado me diz que sou como maçã cortada ao meio. As sementes eu tenho é bem v...
30 de julho Que este amor não me cegue nem me siga Que este amor não me cegue nem me siga.  E de mim mesma nunca se aperce...
31 de julho Estou aqui não porque deva estar, não porque me sinto cativo nesta situação,  mas porque prefiro estar contigo...
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Calendário Mensal: Julho 2010

  1. 1. Calendário do mês de julho 2010 <ul><li>by Rosely Lira </li></ul>
  2. 2. <ul><li>Suavidade </li></ul><ul><li>Pousa a tua cabeça dolorida Tão cheia de quimeras, de ideal, Sobre o regaço brando e maternal Da tua doce Irmã compadecida. </li></ul><ul><li>Hás-de contar-me nessa voz tão qu'rida A tua dor que julgas sem igual, E eu, pra te consolar, direi o mal Que à minha alma profunda fez a Vida. </li></ul><ul><li>E hás-de adormecer nos meus joelhos... E os meus dedos enrugados, velhos, Hão-de fazer-se leves e suaves... </li></ul><ul><li>Hão-de pousar-se num fervor de crente, Rosas brancas tombando docemente, Sobre o teu rosto, como penas de aves... </li></ul><ul><li>Florbela Espanca </li></ul>01 de julho
  3. 3. <ul><li>Via Láctea “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso&quot;! E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto... E conversamos toda a noite, enquanto A via láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto. Direis agora! &quot;Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?&quot; E eu vos direi: &quot;Amai para entendê-las: Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas&quot;. Olavo Bilac </li></ul>02 de julho
  4. 4. <ul><li>O eterno insatisfeito </li></ul><ul><li>Shantih percorria as cidades pregando a palavra de Deus, quando um homem veio procurá-lo para que curasse seus males. </li></ul><ul><li>“ Trabalhe. Alimente-se. E louve a Deus”, respondeu Shantih. </li></ul><ul><li>“ Acontece que quando como minha barriga queima com azia. Quando bebo, minha garganta arde com a bebida. Quando rezo, sinto que Deus não me escuta. E quando trabalho, sinto minhas costas que doem com o peso da lavoura”, disse o homem. </li></ul><ul><li>“ Então busque outra pessoa para ensiná-lo”. </li></ul><ul><li>O homem foi embora, revoltado. Shantih comentou com os que ouviram a conversa. </li></ul><ul><li>“ Ele tinha duas formas de encarar cada coisa, e escolheu sempre a pior. Quando morrer, é possível que também reclame do frio dentro do túmulo”. </li></ul>03 de julho
  5. 5. <ul><li>De um lado cantava o sol   </li></ul><ul><li>De um lado cantava o sol, do outro, suspirava a lua. No meio, brilhava a tua face de ouro, girassol!   </li></ul><ul><li>Ó montanha da saudade a que por acaso vim: outrora, foste um jardim, e és, agora, eternidade! De longe, recordo a cor da grande manhã perdida. Morrem nos mares da vida todos os rios do amor?   </li></ul><ul><li>Ai! celebro-te em meu peito, em meu coração de sal, Ó flor sobrenatural, grande girassol perfeito!   </li></ul><ul><li>Acabou-se-me o jardim! Só me resta, do passado, este relógio dourado que ainda esperava por mim . . . </li></ul><ul><li>Cecília Meireles   </li></ul>04 de julho
  6. 6. <ul><li>Ensinamento </li></ul><ul><li>Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: &quot;Coitado, até essa hora no serviço pesado&quot;. Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente, Não me falou em amor. Essa palavra de luxo. </li></ul><ul><li>Adélia Prado </li></ul>05 de julho
  7. 7. <ul><li>Dá-me a tua mão </li></ul><ul><li>Dá-me a tua mão:  Vou agora te contar  como entrei no inexpressivo  que sempre foi a minha busca cega e secreta.  De como entrei  naquilo que existe entre o número um e o número dois,  de como vi a linha de mistério e fogo,  e que é linha sub-reptícia.  </li></ul><ul><li>Entre duas notas de música existe uma nota,  entre dois fatos existe um fato,  entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam  existe um intervalo de espaço,  existe um sentir que é entre o sentir  - nos interstícios da matéria primordial  está a linha de mistério e fogo  que é a respiração do mundo,  e a respiração contínua do mundo  é aquilo que ouvimos  e chamamos de silêncio.  </li></ul><ul><li>Clarice Lispector </li></ul>06 de julho
  8. 8. <ul><li>Ontem à noite </li></ul><ul><li>Ontem à noite, depois da sua partida definitiva, </li></ul><ul><li>fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, </li></ul><ul><li>fui para ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno. Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. </li></ul><ul><li>Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, </li></ul><ul><li>e depois disse para comigo: </li></ul><ul><li>vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. </li></ul><ul><li>Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, </li></ul><ul><li>o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, </li></ul><ul><li>o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. </li></ul><ul><li>E depois comecei a escrever... </li></ul><ul><li>Marguerite Duras </li></ul>07 de julho
  9. 9. <ul><li>O homem não ama </li></ul><ul><li>Jamais o seu peito mais duro que o aço, Palpita a não ser a louca ambição. Supõe-se - orgulhoso - que é soberano, Que todas as belas vassalas lhe são! Mais falso que a brisa que as flores bafeja, Se mil forem belas... a mil finge amar... Assim um já disse, e assim fazem todos, Embora não queiram jamais confessar, Cruéis, como Nero, são todos os homens! Ateiam as chamas de ardente paixão, Depois... observam, sorrindo, os estragos... E dizem, covardes! que têm coração!! </li></ul><ul><li>Luiza Amélia de Queiroz </li></ul>08 de julho
  10. 10. <ul><li>Minha cor </li></ul><ul><li>Minha flor </li></ul><ul><li>Minha cara </li></ul><ul><li>Quarta estrela </li></ul><ul><li>Letras, três </li></ul><ul><li>Uma estrada </li></ul><ul><li>Não sei se o mundo é bom </li></ul><ul><li>Mas ele ficou melhor </li></ul><ul><li>Quando você chegou </li></ul><ul><li>E perguntou: </li></ul><ul><li>Tem lugar pra mim? </li></ul><ul><li>Espatódea </li></ul><ul><li>Gineceu </li></ul><ul><li>Cor de pólen </li></ul><ul><li>Sol do dia </li></ul><ul><li>Nuvem branca </li></ul><ul><li>Sem sardas </li></ul><ul><li>Não sei se o mundo é bom </li></ul><ul><li>Mas ele ficou melhor </li></ul><ul><li>Quando você chegou </li></ul><ul><li>E explicou </li></ul><ul><li>O mundo pra mim </li></ul><ul><li>Não sei se esse mundo tá são </li></ul><ul><li>Mas pro mundo que eu vim já não era </li></ul><ul><li>Meu mundo não teria razão </li></ul><ul><li>Se não fosse a Zoé. </li></ul><ul><li>Nando Reis </li></ul>09 de julho
  11. 11. <ul><li>“ Assim como a mão tem o poder de esconder o sol, </li></ul><ul><li>a mediocridade tem o poder de esconder a luz interior. </li></ul><ul><li>Não culpe os outros por sua própria incompetência.” </li></ul>10 de julho
  12. 12. <ul><li>Algo existe </li></ul><ul><li>Algo existe num dia de verão, No lento apagar de suas chamas, Que me impele a ser solene. </li></ul><ul><li>Algo, num meio-dia de verão, Uma fundura - um azul - uma fragrância, Que o êxtase transcende. </li></ul><ul><li>Há, também, numa noite de verão, Algo tão brilhante e arrebatador Que só para ver aplaudo - </li></ul><ul><li>E escondo minha face inquiridora Receando que um encanto assim tão trêmulo E sutil, de mim se escape. </li></ul><ul><li>Emily Dickinson </li></ul>11 de julho
  13. 13. <ul><li>Vimos chegar as andorinhas conjugarem-se às estrelas impacientarem-se os ventos </li></ul><ul><li>Agora esperemos o verão do teu nascimento tranqüilos, preguiçosos </li></ul><ul><li>Tão inseparáveis as nossas fomes Tão emaranhadas as nossas veias Tão indestrutíveis os nossos sonhos </li></ul><ul><li>Espera-te um nome breve como um beijo e o reino ilimitado dos meus braços </li></ul><ul><li>Virás como a luz maior no solstício de junho </li></ul><ul><li>Rosa Lobato de Faria </li></ul>12 de julho
  14. 14. <ul><li>“ ... Os meus passos no caminho </li></ul><ul><li>são como os passos da lua: </li></ul><ul><li>vou chegando, vais fugindo, </li></ul><ul><li>minha alma é a sombra da tua.” </li></ul><ul><li>Cecília Meireles </li></ul>13 de julho
  15. 15. 14 de julho “ Nha terra é quel piquinino É São Vicente é que di meu&quot; Nas praias Da minha infância Morrem barcos Desmantelados. Fantasmas De pescadores Contrabandistas Desaparecidos Em qualquer vaga Nem eu sei onde. E eu sou a mesma Tenho dez anos Brinco na areia Empunho os remos... Canto e sorrio... A embarcação Para o mar! É para o mar!... E o pobre barco O barco triste Cansado e frio Não se moveu... Yolanda Morazzo
  16. 16. <ul><li>“ Porque o que não se compreende é geralmente interpretado mal, </li></ul><ul><li>distorcidamente, </li></ul><ul><li>e aquilo que se vê sem pureza interior deixa em seu lugar um terrível vazio para a alma. </li></ul><ul><li>De que valeria a um profano contemplar os Mistérios? </li></ul><ul><li>Somente geraria confusão, </li></ul><ul><li>um caminho seguro até a loucura e ao cepticismo. </li></ul><ul><li>Mais vale mostrar-lhes as coisas ao seu alcance, pois não sentirá o vazio </li></ul><ul><li>nem abraçará o erro, mas antes, </li></ul><ul><li>aproveitará ao máximo as suas potencialidades espirituais; </li></ul><ul><li>Daí a utilidade das religiões exotéricas. </li></ul><ul><li>O gigante não pode calçar a sandália do anão, nem a este lhe serve a daquele. </li></ul><ul><li>Jorge Angel Livraga </li></ul>15 de julho
  17. 17. <ul><li>JURA SECRETA Só uma coisa me entristece O beijo de amor que não roubei A jura secreta que não fiz A briga de amor que eu não causei Nada do que posso me alucina Tanto quanto o que não fiz Nada do que eu quero me suprime Do que por não saber ainda não quis Só uma palavra me devora Aquela que meu coração não diz Só o que me cega, o que me faz infeliz É o brilho do olhar que eu não sofri. Sueli Costa/Abel Silva </li></ul>16 de julho
  18. 18. <ul><li>Quero escrever o borrão vermelho de sangue com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro. Quero escrever amarelo-ouro com raios de translucidez. Que não me entendam pouco-se-me-dá. Nada tenho a perder. Jogo tudo na violência que sempre me povoou, o grito áspero e agudo e prolongado, o grito que eu, por falso respeito humano, não dei. </li></ul><ul><li>Mas aqui vai o meu berro me rasgando as profundas entranhas de onde brota o estertor ambicionado. Quero abarcar o mundo com o terremoto causado pelo grito. O clímax de minha vida será a morte. </li></ul><ul><li>Quero escrever noções sem o uso abusivo da palavra. Só me resta ficar nua: nada tenho mais a perder. </li></ul><ul><li>Clarice Lispector </li></ul>17 de julho
  19. 19. <ul><li>Esse olhar parado sem hoje nem passado Esse olhar sem espera como canto preso em boca entreaberta Esse olhar cansado desfeito sem jeito não grita não chora Esse olhar desarmado como barco sem leme Existe Não posso ignorá-lo! </li></ul><ul><li>Eugénia Tabosa </li></ul>18 de julho
  20. 20. 19 de julho Somos donos do que calamos e escravos do que falamos. Jorge Angel Livraga
  21. 21. <ul><li>Passam no teu olhar nobres cortejos, Frotas, pendões ao vento sobranceiros, Lindos versos de antigos romanceiros, Céus do Oriente, em brasa, como beijos, </li></ul><ul><li>Mares onde não cabem teus desejos; Passam no teu olhar mundos inteiros, Todo um povo de heróis e marinheiros, Lanças nuas em rútilos lampejos; </li></ul><ul><li>Passam lendas e sonhos e milagres! Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres, Em centelhas de crença e de certeza! </li></ul><ul><li>E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim, Amor, julgo trazer dentro de mim Um pedaço da terra portuguesa. </li></ul><ul><li>Florbela Espanca </li></ul>20 de julho
  22. 22. 21 de julho Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço. Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines, viemos do outro lado da cidade  com nossos olhos espantados,  nossas almas trançadas, nossos corpos submissos e escancarados.   De mãos ávidas e vazias, de ancas bamboleantes lâmpadas vermelhas se acendendo,  de corações amarrados de repulsa, descemos atraídas pelas luzes da cidade,  acenando convites aliciantes  como sinais luminosos na noite. Viemos ... Fugitivas dos telhados de zinco pingando cacimba,  do sem sabor do caril de amendoim quotidiano,  do doer espáduas todo o dia vergadas  sobre sedas que outras exibirão,  dos vestidos desbotados de chita,  da certeza terrível do dia de amanhã  retrato fiel do que passou,  sem uma pincelada verde forte  falando de esperança. Noémia de Souza
  23. 23. <ul><li>Às seis da tarde as mulheres choravam no banheiro. Não choravam por isso ou por aquilo choravam porque o pranto subia garganta acima, mesmo se os filhos cresciam com boa saúde, se havia comida no fogo e se o marido lhes dava do bom e do melhor. Choravam porque no céu, além do basculante, o dia se punha porque uma ânsia, uma dor, uma gastura era só o que sobrava dos seus sonhos. Agora, às seis da tarde, as mulheres regressam do trabalho, o dia se põe, os filhos crescem, o fogo espera e elas não podem não querem chorar na condução. </li></ul><ul><li>Marina Colasanti </li></ul>22 de julho
  24. 24. <ul><li>Canção do Amor-Perfeito </li></ul><ul><li>O tempo seca a beleza. seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. </li></ul><ul><li>O tempo seca a saudade, seca as lembranças e as lágrimas. Deixa algum retrato, apenas, vagando seco e vazio como estas conchas das praias. </li></ul><ul><li>O tempo seca o desejo e suas velhas batalhas. Seca o frágil arabesco, vestígio do musgo humano, na densa turfa mortuária. </li></ul><ul><li>Esperarei pelo tempo com suas conquistas áridas. Esperarei que te seque, não na terra, Amor-Perfeito, num tempo depois das almas. </li></ul><ul><li>Cecília Meireles </li></ul>23 de julho
  25. 25. <ul><li>Até quando terás, minha alma, esta doçura, este dom de sofrer, este poder de amar, a força de estar sempre – insegura – segura como a flecha que segue a trajetória obscura, fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...? </li></ul><ul><li>Cecília Meireles </li></ul>24 de julho
  26. 26. <ul><li>Não tem volta </li></ul><ul><li>Se você vai por muito tempo você nunca volta. Você retorna, Você contorna mas não tem volta a estrada te sopra pro alto pra outro lado enquanto aquele tempo vai mudando. Aí, de quando em quando você lembra aquele beijo, aquele medo, mas você sabe que tudo ficou antigo e você não volta nem com escolta nem amarrado porque o passado já te perdeu e o perigo muda mesmo de endereço Não existe pretexto. O dia mudou o carteiro não veio o principio é o meio e você retorna mas não tem volta. </li></ul><ul><li>Zélia Duncan </li></ul>25 de julho
  27. 27. <ul><li>Canção do berço vazio </li></ul><ul><li>Canção do berço vazio nunca a ninguém acalenta, nenhuma voz a cantou. </li></ul><ul><li>Canção de lábios cerrados que estremeceu no silêncio muito antes de ter princípio. </li></ul><ul><li>Canção de peito oprimido que não encontra palavras porque nem o berço existe. </li></ul><ul><li>Ah! quem sonhara acalantos, fontes escorrendo leite para inconcebidos anjos? </li></ul><ul><li>Num país irmão da noite canção da loucura mansa para ouvidos que não ouvem... </li></ul><ul><li>Canção do berço vazio entrecortada de pratos e de risos escondidos... </li></ul><ul><li>Lá do outro lado do mundo canção sem nenhum sentido pobre louca está cantando. </li></ul><ul><li>Henriqueta Lisboa </li></ul>26 de julho
  28. 28. <ul><li>A laranjeira </li></ul><ul><li>Perfumada laranjeira, Linda assim dessa maneira, Sorrindo à luz do arrebol, Toda em flores, branca toda - Parece a noiva do Sol Preparada para a boda. </li></ul><ul><li>E esposa do Sol, que a adora, Com que cuidados divinos Curva ela os ramos, agora! E entre as folhas abrigados, Seus filhos, frutos dourados, Parecem sois pequeninos. </li></ul><ul><li>Júlia Lopes de Almeida </li></ul>27 de julho
  29. 29. <ul><li>Sou de vidro </li></ul><ul><li>Meus amigos sou de vidro Sou de vidro escurecido Encubro a luz que me habita Não por ser feia ou bonita Mas por ter assim nascido Sou de vidro escurecido Mas por ter assim nascido Não me atinjam não me toquem Meus amigos sou de vidro </li></ul><ul><li>Sou de vidro escurecido Tenho fumo por vestido E um cinto de escuridão Mas trago a transparência Envolvida no que digo Meus amigos sou de vidro Por isso não me maltratem Não me quebrem não me partam Sou de vidro escurecido </li></ul><ul><li>Tenho fumo por vestido Mas por assim ter nascido Não por ser feia ou bonita Envolvida no que digo Encubro a luz que me habita. </li></ul><ul><li>Lídia Jorge </li></ul>28 de julho
  30. 30. <ul><li>Frutos e flores </li></ul><ul><li>Meu amado me diz que sou como maçã cortada ao meio. As sementes eu tenho é bem verdade. E a simetria das curvas Tive um certo rubor na pele lisa que não sei se ainda tenho. Mas se em abril floresce a macieira eu maçã feita e pra lá de madura ainda me desdobro em brancas flores cada vez que sua faca me traspassa. </li></ul><ul><li>Marina Colasanti </li></ul>29 de julho
  31. 31. 30 de julho Que este amor não me cegue nem me siga Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua de estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu Senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro. Que este amor só me faça descontente E farta de fadigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só soem ser aranhas e formigas. Que este amor só me veja de partida. Hilda Hilst
  32. 32. 31 de julho Estou aqui não porque deva estar, não porque me sinto cativo nesta situação, mas porque prefiro estar contigo a estar em qualquer outro lugar no mundo. Richard Bach

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