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O HOMEM DO LEME



 Sozinho na noite
 um barco ruma para onde vai?
 Uma luz no escuro, brilha a direito
 ofusca as demais.

 E mais que uma onda, mais que uma maré
 Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé
 Mas vogando à vontade, rompendo a saudade,
 vai quem já nada teme, vai o homem do leme

 E uma vontade de rir
 nasce do fundo do ser
 E uma vontade de ir
  correr o mundo e partir
 a vida é sempre a perder

 No fundo do mar
 jazem os outros, os que lá ficaram.
 Em dias cinzentos
 descanso eterno lá encontraram.

                       Tim (Xutos & Pontapés), 1986




Nesta 7ª edição da Semana da Leitura, o Plano
Nacional de Leitura lançou a todas as escolas o
desafio de celebrar a leitura e o mar. Ao longo
dos séculos os poetas portugueses cantaram o
mar. Muitos mares: o mar afável das praias, o
mar duro da faina dos pescadores ou ainda esse
mar que levou os navegadores quatrocentistas à
descoberta de novos mundos. Mergulhar nas pala-
vras, convocando a leitura, a escrita e a relevân-
cia histórica do mar na construção da nossa iden-
tidade, serviu de motivação a esta brevíssima
antologia.




                                          Biblioteca
DIÁRIO                              [PREFÁCIO]              MAR

Buarcos, 13 de Junho [de 1943] – Dia entre pesca-              Sob a noite mais escura e sombria as tuas ondas
dores. Eles a pescarem sardinha para a fome or-             sossegam-me e orientam-me.
gânica do corpo, e eu a pescar imagens para uma                O teu brilho, a tua paz, a tua melodia, tudo em
necessidade igual do espírito. Tisnados de saúde,           ti me faz flutuar. Trazes-me a alegria de um novo
os homens olham-me; e eu, amarelo de doença,                dia.
olho-os também. Certamente que se julgam mais                  O teu cheiro a maresia logo pela manhã é um
justificados do que eu, e que o mundo inteiro lhes          alívio, é uma lufada de ar fresco em que o próprio
dá razão. Mas da mesma maneira que eles, sem                vento, a própria brisa se maravilham quando pas-
que ninguém lhes peça sardinha, se metem às                 sam por ti.
ondas, também eu, sem que ninguém me peça                      Aqui, nesta noite, te escrevo, olhando para ti e
poesia, me lanço a este mar de criação. Há uma              maravilhando-me com a tua beleza. As estrelas
coisa que nenhuma ideologia pode tirar aos artis-           agrupam-se formando uma nova constelação em tua
tas verdadeiros: é a sua consciência de que são             honra. Acho que também elas estão maravilhadas
tão fundamentais à vida como o pão. Podem acu-              contigo.
sá-los de servirem esta ou aquela classe. Pura                 Tudo faz sentido contigo aqui, ao meu lado.
calúnia. É o mesmo dizer que uma flor serve a
princesa que a cheira. O mundo não pode viver                                                            Joana Lobo
sem flores, e por isso elas nascem e desabro-                               [ 10º LH3, Escola Secundária José Régio]
cham. Se olhos menos avisados passam por elas e
as não podem ver, a traição não é delas, mas dos
olhos, ou de quem os mantém cegos e incultos.

                                           Miguel Torga     NAVEGAR
                                  [Portugal, 1907-1995]

ONDAS DO MAR DE VIGO                                        Navego em mares de contentamento, por mares
                                                            nunca antes navegados. Perco-me nas sinuosidades
                                                            do oceano infindo. Saudosismo irrequieto de ideias
    Ondas do mar de Vigo,                                   pré-concebidas por mim. Respiro um pouco do sal
    se vistes meu amigo!                                    que me banha, estendendo-me nas profundidades
    E ai, Deus!, se verrá cedo!                             do mar tantas vezes desbravado.
                                                                   Nunca espero a chegada de um adamastor
    Ondas do mar levado,                                    mascarado de onda que me atemoriza as esperan-
    se vistes meu amado!                                    ças. Navego, navego. Confiante de que encontrarei
    E ai Deus!, se verrá cedo!                              o que há para lá da linha horizontal. Excedo as mi-
                                                            nhas expectativas, fatigo-me, acabrunho as minhas
    Se vistes meu amigo,                                    antigas desconfianças daquelas águas impávidas e
    o por que eu sospiro!                                   serenas. Por fim, prostro-me como se me tivessem
    E ai Deus!, se verrá cedo!                              derrotado vinte mil homens com afogamentos im-
                                                            precisos e descabidos. Pacifico-me. Deixo-me flutu-
    Se vistes meu amado,                                    ar em espaços mansos por onde andaram os que
    por que hei gran cuidado!                               marcaram a minha história, a nossa história. Sonho
    E ai Deus!, se verrá cedo!                              redescobrir o caminho marítimo para a Índia. Anu-
                                          Martin Codax
                                                            lar feitos e entranhar feitios. Defino em mim o do-
                                       [jogral sec. XIII]
                                                            loso ser humano. Oiço as ondas esbaterem na areia,
                                                            entoarem na barra. Sinto a morte e a vida. Vejo os
                                                            tesouros escondidos nas profundezas de um tesou-
OS LUSÍADAS                                                 ro. O meu medo de me encontrar no seio da perdi-
                                                            ção. As trinta mil léguas percorridas por cavalos
                                                            marinhos que me enfeitam as braçadas com risadas
"Assim fomos abrindo aqueles mares,                         de dor. Vejo os barcos, as barcas, os navios. As lan-
Que geração alguma não abriu,                               chas velhas e cansadas de humidade. Os pescadores
As novas ilhas vendo e os novos ares,                       engelhados, agastados de precipitação, amarrados
Que o generoso Henrique descobriu;                          por trovões que lhes tiram o brio. Guilhotinados
(…)                                                         pela água que se lhes entranha nas próprias entra-
"Contar-te longamente as perigosas                          nhas. E eles espirram, como quem pede piedade.
Coisas do mar, que os homens não entendem:                      E eu nado. Sonho. Rio. E choro. Volto a navegar.
Súbitas trovoadas temerosas,                                Rasgo todas as metades de mar que me prometem a
Relâmpados que o ar em fogo acendem,                        morte trémula e tímida. E finalmente me venço, no
Negros chuveiros, noites tenebrosas,                        meu mar de frustrações.
Bramidos de trovões que o mundo fendem,
Não menos é trabalho, que grande erro,                                                             João Paulo Maio
Ainda que tivesse a voz de ferro.”                                          [10º LH3, Escola Secundária José Régio]

                               Luís Vaz de Camões
                         [Portugal, ca. 1524-1580]
METAMORFOSES DO MAR                                       A ESPERA

   O mar tem dias, às vezes quer tudo, outras vezes       Naquela época eu tinha medo do silêncio e não per-
não quer nada, é difícil compreendê-lo. Quando            cebia que não havia mal nenhum em ficar em silên-
está calmo parece solitário, divagando na abstração       cio a meio de uma conversa, ou mesmo em não ha-
do tempo, parecendo fazer com o sol uma parceria          ver conversa entre duas pessoas que vão lado a la-
de amizade. Os seus murmúrios ecoam nos ouvidos           do. O silêncio é como o mar. Envolve-nos, e pode
como um fundo de beleza sonora, dando a sensação          submergir-nos, se não soubermos lidar com ele, mas
de ouvir a espuma a espreguiçar-se. É bonito ter o        pode também embalar-nos, se perdermos o medo e
mar nos ouvidos, é como tê-lo na mão no sentido de        nos deixarmos ir. Em ambos, mar e silêncio, nada
o usufruir. Mas o mar é inconstante, tem o seu lado       pior do que esbracejar de pânico.
negro, e mais vale não desafiá-lo em dias de raiva
por onde as ondas andam loucas. Quantos? Quantos                                                    Rui Zink
e quantos não morreram por desafiar o mar! Quan-                                             [Portugal, 1961]
tos… foram tantos, meu Deus, perderam a vida na
aventura de ganhar a vida. É impossível condenar
alguém que morre a ganhar a vida, o mar tem des-
tas coisas, estas mudanças repentinas de humor que
apanha desprevenidos os que navegam na sua pleni-
tude.
                                                          MAR PORTUGUÊS
   O mar é um mistério que guarda segredos nos
seus fundos abismos, tesouros e embarcações que
ficaram a meio do caminho, peixes de que nunca            Ó mar salgado, quanto do teu sal
ouvimos falar, silêncios para sempre mergulhados. A       São lágrimas de Portugal!
beleza das profundidades dos oceanos ultrapassa a         Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
imaginação, cinge uma dimensão inimaginável.              Quantos filhos em vão rezaram!

                                       Delfim Carvalho    Quantas noivas ficaram por casar
                        [ Escola Secundária José Régio]   Para que fosses nosso, ó mar!
                                                          Valeu a pena? Tudo vale a pena
                                                          Se a alma não é pequena.

                                                          Quem quer passar além do Bojador
                                                          Tem que passar além da dor.
MAR                                                       Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
                                                          Mas nele é que espelhou o céu.
Sobre o mar,
É um poema que tenho de fazer                                                                 Fernando Pessoa
É azul, grande e salgado                                                                 [Portugal, 1888-1935]
E nada mais há para dizer.

Quanta vida lá não há?
Quanta esperança lá não nasce?                            MAR
Quanta luz lá se reflete?
Qual o barco que com ele não compete?                     Mar
                                                          Metade da minha alma é feita de maresia.
Sobre o mar,
É um poema que tinha de fazer                             Mar
É azul, grande e salgado                                  De todos os cantos do mundo
E muito mais ainda sobra para dizer.                      Amo com um amor mais forte e mais profundo
                                                          Aquela praia extasiada e nua,
                                       Filipa Lamares     Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
               [12º CT4, Escola Secundária José Régio]    (…)

                                                          Espero sempre por ti o dia inteiro,
OCEANS                                                    Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
                                                          O nevoeiro
                                                          E há em todas as coisas o agoiro
           Roses are red                                  De uma fantástica vinda.
           Oceans are blue
           I tried to make a poem                         As ondas quebravam uma a uma
           But Poseidon din’t let me to!                  Eu estava só com a areia e com a espuma
                                                          Do mar que cantava só para mim.
                                            André Silva
                                                                          Sophia de Mello Breyner Andersen
                [12º LH2, Escola Secundária José Régio]
                                                                                      [Portugal,1919-2004]
OS PESCADORES                                              L´HOMME ET LA MER

  O espraiado imenso… A areia de oiro sem fim, des-        Homme libre, toujours tu chériras la mer!
maiada pouco e pouco e envolta no fundo em pó
                                                           La mer est ton miroir; tu contemples ton âme
das ondas - o mar infinito, verde-escuro, verde-
claro, rolos sobre rolos, e por fim, num côncavo           Dans le déroulement infini de sa lame,
junto ao cabo, desfazendo-se em espuma e brancu-
                                                           Et ton esprit n'est pas un gouffre moins amer.
ra. Ao norte, névoa leitosa e viva, que sobe ao ar
como um grande clarão branco. Água sem limites –
céu sem limites – areia sem limites – e a voz imen-        Tu te plais à plonger au sein de ton image;
sa, o lamento eterno, dia e noite, mais baixo, mais        Tu l'embrasses des yeux et des bras, et ton coeur
alto, mas que nunca cessa de pregar(…)
  Tenho diante de mim o fulvo areal, a agitação do         Se distrait quelquefois de sa propre rumeur
mar até onde a vista alcança e a agitação humana           Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage.
num quadro mais restrito. São quatro companhas e
cada companha tem noventa e seis partes, entre
                                                           Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets:
homens que vão ao mar, homens da terra e mulhe-
rio para os cestos. Junta-se mais gente que acode à        Homme, nul n'a sondé le fond de tes abîmes;
venda, regatões e almocreves, mulheres de saia
                                                           Ô mer, nul ne connaît tes richesses intimes,
arregaçada, chapéu e xaile, com as xalavaras e os
baldes à cabeça. E este movimento repete-se e re-          Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets!
dobra, à medida que os barcos entram e saem, por-
que fazem três e quatro lanços cada dia. Aumenta a         Et cependant voilà des siècles innombrables
labuta com o lavar das redes no mar, com a sua
condução pelo areal, suspensas em bambinelas, às           Que vous vous combattez sans pitié ni remords,
costas de cinquenta raparigas, em cordão e aos pa-         Tellement vous aimez le carnage et la mort,
res, com um carro de bois à frente que traz o saco
encharcado.                                                Ô lutteurs éternels, ô frères implacables!
                                           Raul Brandão
                                   [Portugal, 1867-1930]                                      Charles Baudelaire
                                                                                             [França, 1821-1867]



MAR DE SETEMBRO
                                                           THE OLD MAN AND THE SEA

              Tudo era claro:
                                                           He always thought of the sea as 'la mar' which is
              céu, lábios, areias.
                                                           what people call her in Spanish when they love
              O mar estava perto,
                                                           her. Sometimes those who love her say bad things
              fremente de espumas.
                                                           of her but they are always said as though she were
              Corpos ou ondas:
                                                           a woman. Some of the younger fishermen, those
              iam, vinham, iam,
                                                           who used buoys as floats for their lines and had
              dóceis, leves - só
                                                           motorboats, bought when the shark livers had
              alma e brancura.
                                                           brought much money, spoke of her as 'el mar'
              Felizes, cantam;
              serenos, dormem;                             which is masculine.They spoke of her as a contest-

              despertos, amam,                             ant or a place or even an enemy. But the old man

              exaltam o silêncio.                          always thought of her as feminine and as some-

              Tudo era claro,                              thing that gave or withheld great favours, and if
              jovem, alado.                                she did wild or wicked things it was because she
              O mar estava perto                           could not help them. The moon affects her as it
              puríssimo, doirado.                          does a woman, he thought.
                                                                                              Ernest Hemingway
                                     Eugénio de Andrade                                         [EUA,1899-1961]
                                   [Portugal, 1923-2005]
EL MAR                                                     VERSOS AO MAR

         NECESITO del mar porque me enseña:                Aí!,
         no sé si aprendo música o conciencia:             o berço da tua voz,
                                                           e esse jeito de mãos que tens nas ondas,
          no sé si es ola sola o ser profundo
           o sólo ronca voz o deslumbrante                 Mar!
                                                           Quando eu cair exausto
             suposición de peces y navios.                 sobre as conchas da praia e fique ali
   El hecho es que hasta cuando estoy dormido              doente e sem ninguém,
                                                           hás-de ser tu quem me trate, quero que sejas tu a
           de algún modo magnético circulo                 minha Mãe.
             en la universidad del oleaje.
                                                           Há – de embalar-me a tua voz de berço,
          No son sólo las conchas trituradas                pra que a febre me deixe sossegar;
          como si algún planeta tembloroso                 e hás-de passar, ó Mar!
                                                           pelo meu corpo em chaga, as tuas mãos piedosas
            participara paulatina muerte,                  comovidas,
         no, del fragmento reconstruyo el día,             pra que sintas por mim as minhas dores
                                                           e eu sinta só o bálsamo nas minhas feridas.
           de una racha de sal la estalactita
                                                                                                 Sebastião da Gama
         y de una cucharada el dios inmenso.                                                  [Portugal, 1924-1952]


    Lo que antes me enseñó lo guardo! Es aire,             PAÍS DE MUITO MAR

            incesante viento, agua y arena.
                                                           Somos um país pequeno e pobre e que não tem
                                                           senão o mar
                                         Pablo Neruda
                                                           muito passado e muita História e cada vez menos
                                                           memória
                                    [Chile, 1904 – 1973]   país que já não sabe quem é quem
                                                           país de tantos tão pequenos
ROMANCE DE VILA DO CONDE                                   país a passar
                                                           para o outro lado de si mesmo e para a margem
            Vila do Conde espraiada                        onde já não quer chegar. País de muito mar
            Entre pinhais, rio e mar!                      e pouca viagem.
            - Lembra-me Vila do Conde,
                                                                                                     Manuel Alegre
            Mais nada posso lembrar.                                                                [Portugal,1936]

            Bom cheirinho dos pinheiros...,
            Sei de um que quase te vale:
            É o cheiro da maresia,                         MANTO AZUL
            - Sargaços, névoas e sal -
            A que cheira toda a vila                       “Queremos a ilusão grande do mar
            Nas manhãs de temporal.                        Multiplicada em suas malhas de perigo” (1)
            Ai mar de Vila do Conde,                       Queremos sentir a brisa do ar
            Ai mar dos mares, meu mar!,                    E escondermo-nos nesse grande abrigo.
            Se me não vens cá buscar,
            Nenhum remédio me vale,                        Porque lá no fundo, lá no fundo,
            Nenhum remédio me vale,                        Existem pequenos mistérios
            Nem chega a remediar…                          A brilharem no escuro,
                                                           Nas memórias que partiram.

            Abria, de manhãzinha,                          - Mar misterioso de frescura valente,
            As vidraças par em par.                        Por que impedes o toque e escondes mistérios?
            Entrava o mar no meu quarto                    Deixa-te vencer pelo fogo ardente!
            Só pelo cheiro do ar.
            Ia à praia, e via a espuma                     (1)Cecília Meireles
            Rolando pelo areal,
            Espuma verde e amarela
            Da noite de temporal!                               Dinis Ramos, Fábio Marques, Rui Vaz e Renato Gomes
                                                                                 [9ºE, Escola Secundária José Régio]
                                             José Régio
                                  [Portugal, 1901-1969]
BIG WAVE                                                  MARÉ DE MIM

   Não sou surfista, muito menos um peixe, mas,           Crepúsculo. A minha sombra no areal
tal como para todos eles, o mar é um porto de             desenha-me gaivota desgarrada,
abrigo, é algo que me inspira, é alguém com quem          alma de Ícaro - ébria do sonho de voar!-
posso contar e confiar, é alguém a quem conto os          estendendo frágeis asas secretas.
meus segredos, os meus medos, as minhas alegrias          Maré de mim. Purifico-me no alvo sal
e tristezas, e mesmo não me dando nenhum conse-           cautério desta chaga amordaçada,
lho, está lá para me ouvir e não desvenda nem uma         a quilha do meu corpo a navegar
palavra do que lhe foi dito.                              singulares ondas inquietas.
   O mar não tem corpo, é apenas água, também             Catarse. Submersa no limbo primordial
não é gente, é uma simples paisagem, mas acredito         sereia de algas, bailo, enfeitiçada ...
que tem coração, pois tal como deixa que o amem,          transmudo-me nua concha nesse mar
também ama quem o venera. Não preciso de uma              que me dá à costa em ilhas desertas.
prancha, não preciso de uma barbatana, não preci-         Demiurgo, o vento esculpiu-me dedos de coral
so de nenhum equipamento aquático, preciso ape-           pintados em matizes de alvorada,
nas de coração e alma porque, afinal, tudo está nas       e é em mim que vêm descansar
mãos do mar.                                              estrelas caídas, reflexo dos poetas.

                                    Anabela Fortunato                                              Helena Maia
                [12º CM, Escola Secundária José Régio]                           [Escola Secundária José Régio]



                                                          PENA DE PAPAGAIO


                                                             Meti a mão na água e molhei a cara evitan-
                                                          do que as gotas escorregassem para a minha
                                                          boca. Erro! A frescura na pele só fez aumentar
MAR ONÍRICO                                               a sede. Tinha de beber ou enlouqueceria antes
                                                          de o dia acabar.
                                                             Existia uma hipótese extrema e já a ponde-
         Ondas que se enrolam,                            rara. Aproximei-me dum prego mais saliente do
         Que se contorcem,                                bote. Estava enferrujado e parte da cabeça
         Em mil e uma formas.                             dobrada para o exterior. Aproximei o meu pul-
         Tantas, quantas eu desejar,                      so da cabeça do prego e cerrei os dentes. Eu
         Quantas eu, assim, sonhar !                      acabaria por comer a minha própria mão até
                                                          ao tutano se continuasse com sede. Antes esta
         Mar tenebroso !...                               solução!
         Mar esplendoroso !..                                Cortei com rapidez. Corte de papel, que só
         Rei do Universo,                                 senti já estava a sugar o meu sangue. Era sal-
         Elemento primordial !                            gado mas não tão salgado como o mar e deve-
         Quando em ti navego,                             ria dar-me mais um tempo emprestado do que
         Quando em tuas águas sonho,                      a água do oceano. Dessendentei tão concentra-
         Belas são as tuas formas,                        do que só me apercebi no limite. Algo estava
         Que maravilhoso é sonhar !                       errado com o mar. Era uma sensação de silên-
                                                          cio que cresce e o ritmo nunca é o que se
         Águas cristalinas e puras,                       espera. E de repente, lá estava, a caminho, o
         Águas lúgubres e dantescas,                      castigo de Deus pela transgressão que eu aca-
         Que tudo destroem,                               bara de cometer. Um segundo dilúvio, uma
         Numa fúria imensa,                               parede de água imensa que se erguia. Vi, mes-
         Que tudo criam,                                  mo à distância a que me encontrava, os peixes
         Numa calma intensa.                              presos naquela parede de água, de olhos esbu-
                                                          galhados, sem compreenderem porque a sua
         Como é bom sonhar!                               própria casa os aprisionava como um túmulo de
         Em tuas águas viver!                             pedra andante, compacto e translúcido.
         Nas ondas do mar,                                   (…)Ela vinha a caminho, a morte do mar,
         Aprender a sofrer,                               por outra via que não a antecipada. Não de
         Aprender a querer,                               sede nem de desespero lento mas de afogar,
         Aprender a amar,                                 esmagado pela tromba de água.
         Nas ondas do mar…
                                                                                              A.M.P.Rodriguez
                            Mafalda Taveira de Gouveia
                                                                                 [Escola Secundária José Régio]
                [10º CT2, Escola Secundária José Régio]

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Mergulhar

  • 1. O HOMEM DO LEME Sozinho na noite um barco ruma para onde vai? Uma luz no escuro, brilha a direito ofusca as demais. E mais que uma onda, mais que uma maré Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé Mas vogando à vontade, rompendo a saudade, vai quem já nada teme, vai o homem do leme E uma vontade de rir nasce do fundo do ser E uma vontade de ir correr o mundo e partir a vida é sempre a perder No fundo do mar jazem os outros, os que lá ficaram. Em dias cinzentos descanso eterno lá encontraram. Tim (Xutos & Pontapés), 1986 Nesta 7ª edição da Semana da Leitura, o Plano Nacional de Leitura lançou a todas as escolas o desafio de celebrar a leitura e o mar. Ao longo dos séculos os poetas portugueses cantaram o mar. Muitos mares: o mar afável das praias, o mar duro da faina dos pescadores ou ainda esse mar que levou os navegadores quatrocentistas à descoberta de novos mundos. Mergulhar nas pala- vras, convocando a leitura, a escrita e a relevân- cia histórica do mar na construção da nossa iden- tidade, serviu de motivação a esta brevíssima antologia. Biblioteca
  • 2. DIÁRIO [PREFÁCIO] MAR Buarcos, 13 de Junho [de 1943] – Dia entre pesca- Sob a noite mais escura e sombria as tuas ondas dores. Eles a pescarem sardinha para a fome or- sossegam-me e orientam-me. gânica do corpo, e eu a pescar imagens para uma O teu brilho, a tua paz, a tua melodia, tudo em necessidade igual do espírito. Tisnados de saúde, ti me faz flutuar. Trazes-me a alegria de um novo os homens olham-me; e eu, amarelo de doença, dia. olho-os também. Certamente que se julgam mais O teu cheiro a maresia logo pela manhã é um justificados do que eu, e que o mundo inteiro lhes alívio, é uma lufada de ar fresco em que o próprio dá razão. Mas da mesma maneira que eles, sem vento, a própria brisa se maravilham quando pas- que ninguém lhes peça sardinha, se metem às sam por ti. ondas, também eu, sem que ninguém me peça Aqui, nesta noite, te escrevo, olhando para ti e poesia, me lanço a este mar de criação. Há uma maravilhando-me com a tua beleza. As estrelas coisa que nenhuma ideologia pode tirar aos artis- agrupam-se formando uma nova constelação em tua tas verdadeiros: é a sua consciência de que são honra. Acho que também elas estão maravilhadas tão fundamentais à vida como o pão. Podem acu- contigo. sá-los de servirem esta ou aquela classe. Pura Tudo faz sentido contigo aqui, ao meu lado. calúnia. É o mesmo dizer que uma flor serve a princesa que a cheira. O mundo não pode viver Joana Lobo sem flores, e por isso elas nascem e desabro- [ 10º LH3, Escola Secundária José Régio] cham. Se olhos menos avisados passam por elas e as não podem ver, a traição não é delas, mas dos olhos, ou de quem os mantém cegos e incultos. Miguel Torga NAVEGAR [Portugal, 1907-1995] ONDAS DO MAR DE VIGO Navego em mares de contentamento, por mares nunca antes navegados. Perco-me nas sinuosidades do oceano infindo. Saudosismo irrequieto de ideias Ondas do mar de Vigo, pré-concebidas por mim. Respiro um pouco do sal se vistes meu amigo! que me banha, estendendo-me nas profundidades E ai, Deus!, se verrá cedo! do mar tantas vezes desbravado. Nunca espero a chegada de um adamastor Ondas do mar levado, mascarado de onda que me atemoriza as esperan- se vistes meu amado! ças. Navego, navego. Confiante de que encontrarei E ai Deus!, se verrá cedo! o que há para lá da linha horizontal. Excedo as mi- nhas expectativas, fatigo-me, acabrunho as minhas Se vistes meu amigo, antigas desconfianças daquelas águas impávidas e o por que eu sospiro! serenas. Por fim, prostro-me como se me tivessem E ai Deus!, se verrá cedo! derrotado vinte mil homens com afogamentos im- precisos e descabidos. Pacifico-me. Deixo-me flutu- Se vistes meu amado, ar em espaços mansos por onde andaram os que por que hei gran cuidado! marcaram a minha história, a nossa história. Sonho E ai Deus!, se verrá cedo! redescobrir o caminho marítimo para a Índia. Anu- Martin Codax lar feitos e entranhar feitios. Defino em mim o do- [jogral sec. XIII] loso ser humano. Oiço as ondas esbaterem na areia, entoarem na barra. Sinto a morte e a vida. Vejo os tesouros escondidos nas profundezas de um tesou- OS LUSÍADAS ro. O meu medo de me encontrar no seio da perdi- ção. As trinta mil léguas percorridas por cavalos marinhos que me enfeitam as braçadas com risadas "Assim fomos abrindo aqueles mares, de dor. Vejo os barcos, as barcas, os navios. As lan- Que geração alguma não abriu, chas velhas e cansadas de humidade. Os pescadores As novas ilhas vendo e os novos ares, engelhados, agastados de precipitação, amarrados Que o generoso Henrique descobriu; por trovões que lhes tiram o brio. Guilhotinados (…) pela água que se lhes entranha nas próprias entra- "Contar-te longamente as perigosas nhas. E eles espirram, como quem pede piedade. Coisas do mar, que os homens não entendem: E eu nado. Sonho. Rio. E choro. Volto a navegar. Súbitas trovoadas temerosas, Rasgo todas as metades de mar que me prometem a Relâmpados que o ar em fogo acendem, morte trémula e tímida. E finalmente me venço, no Negros chuveiros, noites tenebrosas, meu mar de frustrações. Bramidos de trovões que o mundo fendem, Não menos é trabalho, que grande erro, João Paulo Maio Ainda que tivesse a voz de ferro.” [10º LH3, Escola Secundária José Régio] Luís Vaz de Camões [Portugal, ca. 1524-1580]
  • 3. METAMORFOSES DO MAR A ESPERA O mar tem dias, às vezes quer tudo, outras vezes Naquela época eu tinha medo do silêncio e não per- não quer nada, é difícil compreendê-lo. Quando cebia que não havia mal nenhum em ficar em silên- está calmo parece solitário, divagando na abstração cio a meio de uma conversa, ou mesmo em não ha- do tempo, parecendo fazer com o sol uma parceria ver conversa entre duas pessoas que vão lado a la- de amizade. Os seus murmúrios ecoam nos ouvidos do. O silêncio é como o mar. Envolve-nos, e pode como um fundo de beleza sonora, dando a sensação submergir-nos, se não soubermos lidar com ele, mas de ouvir a espuma a espreguiçar-se. É bonito ter o pode também embalar-nos, se perdermos o medo e mar nos ouvidos, é como tê-lo na mão no sentido de nos deixarmos ir. Em ambos, mar e silêncio, nada o usufruir. Mas o mar é inconstante, tem o seu lado pior do que esbracejar de pânico. negro, e mais vale não desafiá-lo em dias de raiva por onde as ondas andam loucas. Quantos? Quantos Rui Zink e quantos não morreram por desafiar o mar! Quan- [Portugal, 1961] tos… foram tantos, meu Deus, perderam a vida na aventura de ganhar a vida. É impossível condenar alguém que morre a ganhar a vida, o mar tem des- tas coisas, estas mudanças repentinas de humor que apanha desprevenidos os que navegam na sua pleni- tude. MAR PORTUGUÊS O mar é um mistério que guarda segredos nos seus fundos abismos, tesouros e embarcações que ficaram a meio do caminho, peixes de que nunca Ó mar salgado, quanto do teu sal ouvimos falar, silêncios para sempre mergulhados. A São lágrimas de Portugal! beleza das profundidades dos oceanos ultrapassa a Por te cruzarmos, quantas mães choraram, imaginação, cinge uma dimensão inimaginável. Quantos filhos em vão rezaram! Delfim Carvalho Quantas noivas ficaram por casar [ Escola Secundária José Régio] Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. MAR Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. Sobre o mar, É um poema que tenho de fazer Fernando Pessoa É azul, grande e salgado [Portugal, 1888-1935] E nada mais há para dizer. Quanta vida lá não há? Quanta esperança lá não nasce? MAR Quanta luz lá se reflete? Qual o barco que com ele não compete? Mar Metade da minha alma é feita de maresia. Sobre o mar, É um poema que tinha de fazer Mar É azul, grande e salgado De todos os cantos do mundo E muito mais ainda sobra para dizer. Amo com um amor mais forte e mais profundo Aquela praia extasiada e nua, Filipa Lamares Onde me uni ao mar, ao vento e à lua. [12º CT4, Escola Secundária José Régio] (…) Espero sempre por ti o dia inteiro, OCEANS Quando na praia sobe, de cinza e oiro, O nevoeiro E há em todas as coisas o agoiro Roses are red De uma fantástica vinda. Oceans are blue I tried to make a poem As ondas quebravam uma a uma But Poseidon din’t let me to! Eu estava só com a areia e com a espuma Do mar que cantava só para mim. André Silva Sophia de Mello Breyner Andersen [12º LH2, Escola Secundária José Régio] [Portugal,1919-2004]
  • 4. OS PESCADORES L´HOMME ET LA MER O espraiado imenso… A areia de oiro sem fim, des- Homme libre, toujours tu chériras la mer! maiada pouco e pouco e envolta no fundo em pó La mer est ton miroir; tu contemples ton âme das ondas - o mar infinito, verde-escuro, verde- claro, rolos sobre rolos, e por fim, num côncavo Dans le déroulement infini de sa lame, junto ao cabo, desfazendo-se em espuma e brancu- Et ton esprit n'est pas un gouffre moins amer. ra. Ao norte, névoa leitosa e viva, que sobe ao ar como um grande clarão branco. Água sem limites – céu sem limites – areia sem limites – e a voz imen- Tu te plais à plonger au sein de ton image; sa, o lamento eterno, dia e noite, mais baixo, mais Tu l'embrasses des yeux et des bras, et ton coeur alto, mas que nunca cessa de pregar(…) Tenho diante de mim o fulvo areal, a agitação do Se distrait quelquefois de sa propre rumeur mar até onde a vista alcança e a agitação humana Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage. num quadro mais restrito. São quatro companhas e cada companha tem noventa e seis partes, entre Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets: homens que vão ao mar, homens da terra e mulhe- rio para os cestos. Junta-se mais gente que acode à Homme, nul n'a sondé le fond de tes abîmes; venda, regatões e almocreves, mulheres de saia Ô mer, nul ne connaît tes richesses intimes, arregaçada, chapéu e xaile, com as xalavaras e os baldes à cabeça. E este movimento repete-se e re- Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets! dobra, à medida que os barcos entram e saem, por- que fazem três e quatro lanços cada dia. Aumenta a Et cependant voilà des siècles innombrables labuta com o lavar das redes no mar, com a sua condução pelo areal, suspensas em bambinelas, às Que vous vous combattez sans pitié ni remords, costas de cinquenta raparigas, em cordão e aos pa- Tellement vous aimez le carnage et la mort, res, com um carro de bois à frente que traz o saco encharcado. Ô lutteurs éternels, ô frères implacables! Raul Brandão [Portugal, 1867-1930] Charles Baudelaire [França, 1821-1867] MAR DE SETEMBRO THE OLD MAN AND THE SEA Tudo era claro: He always thought of the sea as 'la mar' which is céu, lábios, areias. what people call her in Spanish when they love O mar estava perto, her. Sometimes those who love her say bad things fremente de espumas. of her but they are always said as though she were Corpos ou ondas: a woman. Some of the younger fishermen, those iam, vinham, iam, who used buoys as floats for their lines and had dóceis, leves - só motorboats, bought when the shark livers had alma e brancura. brought much money, spoke of her as 'el mar' Felizes, cantam; serenos, dormem; which is masculine.They spoke of her as a contest- despertos, amam, ant or a place or even an enemy. But the old man exaltam o silêncio. always thought of her as feminine and as some- Tudo era claro, thing that gave or withheld great favours, and if jovem, alado. she did wild or wicked things it was because she O mar estava perto could not help them. The moon affects her as it puríssimo, doirado. does a woman, he thought. Ernest Hemingway Eugénio de Andrade [EUA,1899-1961] [Portugal, 1923-2005]
  • 5. EL MAR VERSOS AO MAR NECESITO del mar porque me enseña: Aí!, no sé si aprendo música o conciencia: o berço da tua voz, e esse jeito de mãos que tens nas ondas, no sé si es ola sola o ser profundo o sólo ronca voz o deslumbrante Mar! Quando eu cair exausto suposición de peces y navios. sobre as conchas da praia e fique ali El hecho es que hasta cuando estoy dormido doente e sem ninguém, hás-de ser tu quem me trate, quero que sejas tu a de algún modo magnético circulo minha Mãe. en la universidad del oleaje. Há – de embalar-me a tua voz de berço, No son sólo las conchas trituradas pra que a febre me deixe sossegar; como si algún planeta tembloroso e hás-de passar, ó Mar! pelo meu corpo em chaga, as tuas mãos piedosas participara paulatina muerte, comovidas, no, del fragmento reconstruyo el día, pra que sintas por mim as minhas dores e eu sinta só o bálsamo nas minhas feridas. de una racha de sal la estalactita Sebastião da Gama y de una cucharada el dios inmenso. [Portugal, 1924-1952] Lo que antes me enseñó lo guardo! Es aire, PAÍS DE MUITO MAR incesante viento, agua y arena. Somos um país pequeno e pobre e que não tem senão o mar Pablo Neruda muito passado e muita História e cada vez menos memória [Chile, 1904 – 1973] país que já não sabe quem é quem país de tantos tão pequenos ROMANCE DE VILA DO CONDE país a passar para o outro lado de si mesmo e para a margem Vila do Conde espraiada onde já não quer chegar. País de muito mar Entre pinhais, rio e mar! e pouca viagem. - Lembra-me Vila do Conde, Manuel Alegre Mais nada posso lembrar. [Portugal,1936] Bom cheirinho dos pinheiros..., Sei de um que quase te vale: É o cheiro da maresia, MANTO AZUL - Sargaços, névoas e sal - A que cheira toda a vila “Queremos a ilusão grande do mar Nas manhãs de temporal. Multiplicada em suas malhas de perigo” (1) Ai mar de Vila do Conde, Queremos sentir a brisa do ar Ai mar dos mares, meu mar!, E escondermo-nos nesse grande abrigo. Se me não vens cá buscar, Nenhum remédio me vale, Porque lá no fundo, lá no fundo, Nenhum remédio me vale, Existem pequenos mistérios Nem chega a remediar… A brilharem no escuro, Nas memórias que partiram. Abria, de manhãzinha, - Mar misterioso de frescura valente, As vidraças par em par. Por que impedes o toque e escondes mistérios? Entrava o mar no meu quarto Deixa-te vencer pelo fogo ardente! Só pelo cheiro do ar. Ia à praia, e via a espuma (1)Cecília Meireles Rolando pelo areal, Espuma verde e amarela Da noite de temporal! Dinis Ramos, Fábio Marques, Rui Vaz e Renato Gomes [9ºE, Escola Secundária José Régio] José Régio [Portugal, 1901-1969]
  • 6. BIG WAVE MARÉ DE MIM Não sou surfista, muito menos um peixe, mas, Crepúsculo. A minha sombra no areal tal como para todos eles, o mar é um porto de desenha-me gaivota desgarrada, abrigo, é algo que me inspira, é alguém com quem alma de Ícaro - ébria do sonho de voar!- posso contar e confiar, é alguém a quem conto os estendendo frágeis asas secretas. meus segredos, os meus medos, as minhas alegrias Maré de mim. Purifico-me no alvo sal e tristezas, e mesmo não me dando nenhum conse- cautério desta chaga amordaçada, lho, está lá para me ouvir e não desvenda nem uma a quilha do meu corpo a navegar palavra do que lhe foi dito. singulares ondas inquietas. O mar não tem corpo, é apenas água, também Catarse. Submersa no limbo primordial não é gente, é uma simples paisagem, mas acredito sereia de algas, bailo, enfeitiçada ... que tem coração, pois tal como deixa que o amem, transmudo-me nua concha nesse mar também ama quem o venera. Não preciso de uma que me dá à costa em ilhas desertas. prancha, não preciso de uma barbatana, não preci- Demiurgo, o vento esculpiu-me dedos de coral so de nenhum equipamento aquático, preciso ape- pintados em matizes de alvorada, nas de coração e alma porque, afinal, tudo está nas e é em mim que vêm descansar mãos do mar. estrelas caídas, reflexo dos poetas. Anabela Fortunato Helena Maia [12º CM, Escola Secundária José Régio] [Escola Secundária José Régio] PENA DE PAPAGAIO Meti a mão na água e molhei a cara evitan- do que as gotas escorregassem para a minha boca. Erro! A frescura na pele só fez aumentar MAR ONÍRICO a sede. Tinha de beber ou enlouqueceria antes de o dia acabar. Existia uma hipótese extrema e já a ponde- Ondas que se enrolam, rara. Aproximei-me dum prego mais saliente do Que se contorcem, bote. Estava enferrujado e parte da cabeça Em mil e uma formas. dobrada para o exterior. Aproximei o meu pul- Tantas, quantas eu desejar, so da cabeça do prego e cerrei os dentes. Eu Quantas eu, assim, sonhar ! acabaria por comer a minha própria mão até ao tutano se continuasse com sede. Antes esta Mar tenebroso !... solução! Mar esplendoroso !.. Cortei com rapidez. Corte de papel, que só Rei do Universo, senti já estava a sugar o meu sangue. Era sal- Elemento primordial ! gado mas não tão salgado como o mar e deve- Quando em ti navego, ria dar-me mais um tempo emprestado do que Quando em tuas águas sonho, a água do oceano. Dessendentei tão concentra- Belas são as tuas formas, do que só me apercebi no limite. Algo estava Que maravilhoso é sonhar ! errado com o mar. Era uma sensação de silên- cio que cresce e o ritmo nunca é o que se Águas cristalinas e puras, espera. E de repente, lá estava, a caminho, o Águas lúgubres e dantescas, castigo de Deus pela transgressão que eu aca- Que tudo destroem, bara de cometer. Um segundo dilúvio, uma Numa fúria imensa, parede de água imensa que se erguia. Vi, mes- Que tudo criam, mo à distância a que me encontrava, os peixes Numa calma intensa. presos naquela parede de água, de olhos esbu- galhados, sem compreenderem porque a sua Como é bom sonhar! própria casa os aprisionava como um túmulo de Em tuas águas viver! pedra andante, compacto e translúcido. Nas ondas do mar, (…)Ela vinha a caminho, a morte do mar, Aprender a sofrer, por outra via que não a antecipada. Não de Aprender a querer, sede nem de desespero lento mas de afogar, Aprender a amar, esmagado pela tromba de água. Nas ondas do mar… A.M.P.Rodriguez Mafalda Taveira de Gouveia [Escola Secundária José Régio] [10º CT2, Escola Secundária José Régio]