Carlos Drummond de Andrade – Fazedor de homensWilliam Shakespeare – Coletânea escolhidaGiuseppe Guiaroni – A palavra queri...
Fazedor de Homens         Todo homem é uma ilha...        É bom ser uma ilha distante    tanto quanto é bom ser um homem. ...
E ele usa o corpo.                Diz ao homem: Viva!                E ele respira e existe.                Diz ao homem: ...
Soneto 18 - Shakespeare    Devo igualar-te a um dia de verão?   Mais afável e belo é o teu semblante:   O vento esfolha Ma...
Se Nada Há de Novo      Se nada há de novo e tudo o que há          já dantes era como agora é,             só ilusão a cr...
como em forma de sombras assombravas        ledo o claro dia em luz mais rara,   se em sombra a olhos sem visão brilhavas!...
De suas doces mortes surgem as mais doces essências.                      e assim também a ti, a bela e adorável mocidade,...
A palavra Querida...              Giuseppe Ghiaronni     A palavra "querida", está para a garganta,  como o mel para a boc...
pois parte da expressão fica em ecos no peito daquele que a usou...      A expressão querida não é bem para ser falada, ne...
Manuel Bandeira           O inútil luar   É noite. A Lua, ardente e terna,      Verte na solidão sombria     A sua imensa,...
E pensativo, a olhar o anel,      Faz umas contas . . .  Com outro moço que se cala,Fala um de compleição raquítica. Prest...
Manuel BandeiraVou-me embora pra Pasárgada   Vou-me embora pra Pasárgada         Lá sou amigo do rei   Lá tenho a mulher q...
Pra me contar as histórias Que no tempo de eu menino    Rosa vinha me contarVou-me embora pra Pasárgada  Em Pasárgada tem ...
Telha de Vidro       Por Rachel de Queiroz  Quando a moça da cidade chegou        veio morar na fazenda,            na cas...
da telha milagrosa...    Ou alguma estrela audaciosa               careteia no espelho onde a moça se penteia.  Que linda ...
Giuseppe Ghiaroni     A Máquina de Escrever  Mãe, se eu morrer de um repentino mal,vende meus bens a bem dos meus credores...
Vende meus olhos a um brechó qualquer   que os guarde numa loja poeirenta,    reluzindo na sombra pardacenta,   refletindo...
Giuseppe Ghiaroni           Dia das Mães  Mãe! eu volto a te ver na antiga sala    onde uma noite te deixei sem fala dizen...
Quero acordar-te, mas não sei se devo,  não sinto que me caiba este direito.    O direito de dar-te este desgosto,  de te ...
Dia das Mães! É o dia da bondade   maior que todo o mal da humanidade      purificada num amor fecundo.Por mais que o home...
ResíduoCarlos Drummond de AndradeDe tudo ficou um poucoDo meu medo. Do teu asco.Dos gritos gagos. Da rosaficou um poucoFic...
no pires de porcelana,dragão partido, flor branca,ficou um poucode ruga na vossa testa,retrato.Se de tudo fica um pouco,ma...
e sob tu mesmo e sob teus pés já durose sob os gonzos da família e da classe,fica sempre um pouco de tudo.Às vezes um botã...
O verbo amar                 JG de Araujo Jorge            Te amei: era de longe que te olhava            e de longe me ol...
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  1. 1. Carlos Drummond de Andrade – Fazedor de homensWilliam Shakespeare – Coletânea escolhidaGiuseppe Guiaroni – A palavra queridaManuel Bandeira – O inútil luarManuel Bandeira – Vou-me embora pra PasárgadaRaquel de Queiroz – Telha de vidroGiuseppe Guiaroni – A máquina de escreverGiuseppe Guiaroni – Dia das mãesCarlos Drummond de Andrade - ResíduoJ. G. de Araújo Jorge – O verbo amar
  2. 2. Fazedor de Homens Todo homem é uma ilha... É bom ser uma ilha distante tanto quanto é bom ser um homem. Todo homem possui uma ponte pois é preciso sair da ilha, seguro.A ponte de um homem é um braço estendido. Todo homem é um mundo. O mundo roda no sistema egocêntrico de suas realidades, pequenos alumbramentos, medos e coragens. E quando o homem encara o mundo e se depara - homem-mundo, mundo-homem, volta à ilha: Todo homem ama sua ilha. II O homem faz o homem. E porque fez o homem, sem nem o homem querer aufere direitos do homem. Diz a ele: Cresça! E ele fica mais alto. Diz ao homem: Trabalhe!
  3. 3. E ele usa o corpo. Diz ao homem: Viva! E ele respira e existe. Diz ao homem: Ame! E ele não sabe como. Mas diz ao homem: Procrie! E ele faz homens. Um dia ele morre. Se a vida foi longa para viver - é curta para morrer - porque o homem não fez, não escolheu, não pensou nada. III O que faz um homem diferente de outro homem é o que ele pensa. O que o transforma, também, de um simples fazedor de homens, num criador de homens. Todo homem é uma vontade. E se deixa de ser vontade teme a perda de sua posse. Todo homem é uma consciência. Nela inclui o seu saber e a parte maior do não saber, e se aceita o fato, é com ela que ele se entende. Todo homem é seu corpo. E sabe dele em contraste com outro corpo, tal é a sua medida.Como também, a medida de um homem é a sua carência: porque é assim que ele se assume, porque é assim que ele se liberta. Quanto mais ele precisa mais ele é maior. E dá. Pede. Reivindica. Exige, quanto pode. Luta e sofre. Todo homem quer deixar sua ilha. Temeroso de ter que voltar um dia, entretanto, não destrói as pontes. Enquanto isso, a ilha fica ali, só ilha. A ponte fica ali, só ponte. E o homem fica ali, só homem. Carlos Drummond de Andrade Publicado no Jornal Última Hora (RJ) de 23/04/73 Título
  4. 4. Soneto 18 - Shakespeare Devo igualar-te a um dia de verão? Mais afável e belo é o teu semblante: O vento esfolha Maio inda em botão, Dura o termo estival um breve instante. Muitas vezes a luz do céu calcina, Mas o áureo tom também perde a clareza: De seu belo a beleza enfim declina, Ao léu ou pelas leis da Natureza. Só teu verão eterno não se acaba Nem a posse de tua formosura; De impor-te a sombra a Morte não se gabaPois que esta estrofe eterna ao Tempo dura. Enquanto houver viventes nesta lida, Há-de viver meu verso e te dar vida.
  5. 5. Se Nada Há de Novo Se nada há de novo e tudo o que há já dantes era como agora é, só ilusão a criação será: criar o já criado para quê? Que alguém me mostre, sobre um livro antigo como quinhentas translações astrais, a tua imagem, na inscrição, no abrigo do espírito em seus signos iniciais. Que eu saiba o que diria o velho mundo deste milagre que é a tua forma; se te viram melhor, se me confundo, se as translações seguem a mesma norma. Mas disto estou seguro: antigos textos louvaram mais com bem menores pretextos. William Shakespeare, in "Sonetos" Tradução de Carlos de Oliveira A Noite não me Deu nenhum Sossego Como voltar feliz ao meu trabalho se a noite não me deu nenhum sossego? A noite, o dia, cartas dum baralho sempre trocadas neste jogo cego. Eles dois, inimigos de mãos dadas, me torturam, envolvem no seu cerco de fadiga, de dúbias madrugadas: e tu, quanto mais sofro mais te perco. Digo ao dia que brilhas para ele, que desfazes as nuvens do seu rosto; digo à noite sem estrelas que és o mel na sua pele escura: o oiro, o gosto. Mas dia a dia alonga-se a jornada e cada noite a noite é mais fechada. William Shakespeare, in "Sonetos" Tradução de Carlos de OliveiraMeus Olhos Veem Melhor se os Vou Fechando Meus olhos veem melhor se os vou fechando. Viram coisas de dia e foi em vão, mas quando durmo, em sonhos te fitando, são escura luz que luz na escuridão. Tu cuja sombra faz a sombra clara,
  6. 6. como em forma de sombras assombravas ledo o claro dia em luz mais rara, se em sombra a olhos sem visão brilhavas! Que benção a meus olhos fora feita vendo-te à viva luz do dia bem, se a tua sombra em trevas imperfeita a olhos sem visão no sono vem! Vejo os dias quais noites não te vendo, e as noites dias claros sonhos tendo. William Shakespeare, in "Sonetos (43)" Soneto 107 Medos, nem alma capaz de prever Medos, nem alma capaz de prever Os sonhos de porvir do mundo inteiro, Podem o meu amor circunscrever, Nem dar-lhe fado triste por certeiro. A Lua seu eclipse superou, Os agourentos de si podem rir, A incerteza agora se firmou, A paz proclama olivas no porvir. Com o orvalho dos tempos refrescado O meu amor a própria morte prende E em meus versos vivo consagrado, Enquanto as tribos mudas ela ofende. Aqui encontrarás teu monumento, E o bronze dos tiranos vai com o vento. Soneto 54 Oh, como a beleza parece mais bela com o doce ornamento que a verdade produz! A rosa tão bela, mas mais bela a julgamos Pelo doce aroma que nela seduz. As rosas silvestres têm a cor tão profunda Quanto a tintura das rosas perfumadas,Têm os mesmos espinhos e brincam tão vivamenteQuando o sopro do verão expõe os botões velados; Mas exibem-se apenas para si mesmas, Vivem esquecidas e murcham obscuras; Morrem sozinhas. As doces rosas, não;
  7. 7. De suas doces mortes surgem as mais doces essências. e assim também a ti, a bela e adorável mocidade, Fenecido o frescor, revela em versos tua verdade. Soneto 73 Em mim tu vês a época do estio Em mim tu vês a época do estio Na qual as folhas pendem, amarelas, De ramos que se agitam contra o frio, Coros onde cantaram aves belas. Tu me vês no ocaso de um tal dia Depois que o Sol no poente se enterra, Quando depois que a noite o esvazia, O outro eu da morte sela a terra. Em mim tu vês o brilho da pira Que nas cinzas de sua juventude Como em leito de morte agora expira Comido pelo que lhe deu saúde. Visto isso, tens mais força para amar E amar muito o que em breve vais deixar.William ShakespeareResumoWilliam Shakespeare foi um poeta e dramaturgo inglês, tido como o maior escritor do idioma inglês e o maisinfluente dramaturgo do mundo. É chamado frequentemente de poeta nacional da Inglaterra e de "Bardo doAvon" (ou simplesmente The Bard, "O Bardo").Nasceu em 26 de abril de 1564 em Stratford-upon-Avon onde também foi criado.Foi um poeta e dramaturgo respeitado em sua própria época, mas sua reputação só viria a atingir o nívelem que se encontra hoje no século XIX. Os românticos, especialmente, aclamaram a genialidade deShakespeare, e os vitorianos idolatraram-no como um herói, com uma reverência que George BernardShaw chamava de "bardolatria". No século XX sua obra foi adotada e redescoberta repetidamente pornovos movimentos, tanto na academia e quanto na performance. Suas peças permanecem extremamentepopulares hoje em dia , e são estudadas, encenadas e reinterpretadas constantemente, em diversoscontextos culturais e políticos, por todo o mundo.William Shakespeare morreu em 23 de Abril de 1616, mesmo dia de seu aniversário.É bem conhecida acoincidência das datas de morte de dois dos grandes escritores da humanidade, Miguel de Cervantes eWilliam Shakespeare, ambos com data de falecimento em 23 de Abril de 1616. Porém, é importante notarque o Calendário gregoriano já era utilizado na Espanha desde o século XVI, enquanto que na Inglaterrasua adoção somente ocorreu em 1751. Daí, em realidade, Miguel de Cervantes faleceu dez dias antes deWilliam Shakespeare. Título
  8. 8. A palavra Querida... Giuseppe Ghiaronni A palavra "querida", está para a garganta, como o mel para a boca e a mulher para o olhar. Quando um santo do céu, se dirige a uma santa, de face imaculada e expressão comovida, é assim, penso, que ele a deve chamar: oh!querida! Querida é um substantivo espiritual, é um nome. É um fio emocional de um ouro cristalino,que se estende e que atrai um destino e um destino... Que alinhava e que enleia uma vida e uma vida. Não é somente um modo de tratar, é um nome, Assim como Izabel, Marina, Margarida... No entanto é mais que isso, é um nome divino,que em si define um sonho, um sentimento e um bem. Querida, não é só uma palavra, é alguém, alguém que tem a vida em nossa própria vida. Querida quer dizer eu mesmo e mais alguém... oh! querida! Querida é um adjetivo estranhamente feito de carinho, ciúme, adoração, ternura. Ninguém dirá "querida" a uma mulher impura,
  9. 9. pois parte da expressão fica em ecos no peito daquele que a usou... A expressão querida não é bem para ser falada, nem ouvida. É para que uma alma pense e outra a sinta. Sempre será maldita uma mulher que minta, em silêncio atendendo a alguém que assim a chama, se não se ouviu chamar, antes que ele falasse, por um tic no peito e um carinho na face, se não é profundamente a querida que o ama! Que cruel, que infiel esta mulher fingida, que se deixa chamar de querida e, não ama, oh!querida! Querida, quer dizer a que eu amo e estremeço, a que é a minha amante, a minha amiga e irmã, conheço-a mais que a mim e a tudo que conheço, e com ela eu esqueço o ontem e o amanhã.A palavra querida é a articulação do primeiro vagido instintivo e inconsciente. É Deus na nossa boca e o céu na nossa frente, é ter mundos no olhar, ter estrelas na mão, é ser um fio d´água e uma constelação... é partilhar da grande Vida Universal, é viver, mas viver como anjo e animal, é encontrar o espaço e resumir a vida, é trilhar confiante uma senda perdida é ser quase divino é ser quase brutal, é ter uma utopia entre a sala e o quintal é prender-te, sentir-te integrada, diluída em meus braços, em mim, infiltrada em meus poros, depois que eu derrubei os gigantes e os toros da floresta do mundo e a transpus triunfante! É te chamar "querida" e ver o teu semblante transtornado de luz, uma luz comovida... É chegares o ouvido ao meu peito anelante e ouvir meu coração dizer de instante em instante: Oh! querida... querida... Título
  10. 10. Manuel Bandeira O inútil luar É noite. A Lua, ardente e terna, Verte na solidão sombria A sua imensa, a sua eterna Melancolia... Dormem as sombras na alameda Ao longo do ermo Piabanha. E dele um ruído vem de seda Que se amarfanha. . . No largo, sob os jambolanos, Procuro a sombra embalsamada. (Noite, consolo dos humanos! Sombra sagrada!) Um velho senta-se ao meu lado.Medita. Há no seu rosto uma ânsia . . . Talvez se lembre aqui, coitado! De sua infância. Ei-lo que saca de um papel . . . Dobra-o direito, ajusta as pontas,
  11. 11. E pensativo, a olhar o anel, Faz umas contas . . . Com outro moço que se cala,Fala um de compleição raquítica. Presto atenção ao que ele fala: — É de política. Adiante uma senhora magra,Em ampla charpa que a modela,Lembra uma estátua de Tanagra. E, junto dela,Outra a entretém, a conversar:— "Mamãe não avisou se vinha. Se ela vier, mando matar Uma galinha."E embalde a Lua, ardente e terna, Verte na solidão sombria A sua imensa, a sua eterna Melancolia . . . Título
  12. 12. Manuel BandeiraVou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconseqüente Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente Da nora que eu nunca tive E como farei ginástica Andarei de bicicleta Montarei em burro brabo Subirei no pau-de-sebo Tomarei banhos de mar! E quando estiver cansado Deito na beira do rio Mando chamar a mãe-dágua
  13. 13. Pra me contar as histórias Que no tempo de eu menino Rosa vinha me contarVou-me embora pra Pasárgada Em Pasárgada tem tudo É outra civilização Tem um processo seguro De impedir a concepção Tem telefone automático Tem alcalóide à vontade Tem prostitutas bonitas Para a gente namorarE quando eu estiver mais triste Mas triste de não ter jeito Quando de noite me der Vontade de me matar — Lá sou amigo do rei — Terei a mulher que eu quero Na cama que escolhereiVou-me embora pra Pasárgada Título
  14. 14. Telha de Vidro Por Rachel de Queiroz Quando a moça da cidade chegou veio morar na fazenda, na casa velha... Tão velha! Quem fez aquela casa foi o bisavô... Deram-lhe para dormir a camarinha, uma alcova sem luzes, tão escura! mergulhada na tristurade sua treva e de sua única portinha... A moça não disse nada, mas mandou buscar na cidade uma telha de vidro... Queria que ficasse iluminada sua camarinha sem claridade... Agora, o quarto onde ela mora é o quarto mais alegre da fazenda,tão claro que, ao meio dia, aparece uma renda de arabesco de sol nos ladrilhos vermelhos, que — coitados — tão velhossó hoje é que conhecem a luz doa dia... A luz branca e fria também se mete às vezes pelo clarão
  15. 15. da telha milagrosa... Ou alguma estrela audaciosa careteia no espelho onde a moça se penteia. Que linda camarinha! Era tão feia! — Você me disse um dia que sua vida era toda escuridão cinzenta, fria, sem um luar, sem um clarão... Por que você na experimenta? A moça foi tão vem sucedida...Ponha uma telha de vidro em sua vida! Título
  16. 16. Giuseppe Ghiaroni A Máquina de Escrever Mãe, se eu morrer de um repentino mal,vende meus bens a bem dos meus credores: a fantasia de festivas cores que usei no derradeiro Carnaval. Vende ese rádio que ganhei de prêmio por um concurso num jornal do povo, e aquele terno novo, ou quase novo, com poucas manchas de café boêmio. Vende também meus óculos antigos que me davam uns ares inocentes. Já não precisarei de duas lentes para enxergar os corações amigos. Vende , além das gravatas, do chapéu, meus sapatos rangentes. Sem ruído é mais provável que eu alcance o Céu e logre penetrar despercebido. Vende meu dente de ouro. O Paraíso requer apenas a expressão do olhar. Já não precisarei do meu sorriso para um outro sorriso me enganar.
  17. 17. Vende meus olhos a um brechó qualquer que os guarde numa loja poeirenta, reluzindo na sombra pardacenta, refletindo um semblante de mulher. Vende tudo, ao findar a minha sorte, libertando minha alma pensativa para ninguém chorar a minha morte sem realmente desejar que eu viva. Pode vender meu próprio leito e roupa para pagar àqueles a quem devo. Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa esta caduca máquina em que escrevo.Mas poupa a minha amiga de horas mortas, de teclas bambas,tique-taque incerto. De ano em ano, manda-a ao conserto e unta de azeite as suas peças tortas. Vende todas as grandes pequenezas que eram meu humílimo tesouro, mas não! ainda que ofereçam ouro, não venda o meu filtro de tristezas! Quanta vez esta máquina afugenta meus fantasmas da dúvida e do mal, ela que é minha rude ferramenta, o meu doce instrumento musical. Bate rangendo, numa espécie de asma,mas cada vez que bate é um grão de trigo.Quando eu morrer, quem a levar consigo há de levar consigo o meu fantasma. Pois será para ela uma tortura sentir nas bambas eclas solitárias um bando de dez unhas usurárias a datilografar uma fatura.Deixa-a morrer também quando eu morrer; deixa-a calar numa quietude extrema, à espera do meu último poema que as palavras não dão para fazer. Conserva-a, minha mãe, no velho lar, conservando os meus íntimos instantes, e, nas noites de lua, não te espantes quando as teclas baterem devagar. Título
  18. 18. Giuseppe Ghiaroni Dia das Mães Mãe! eu volto a te ver na antiga sala onde uma noite te deixei sem fala dizendo adeus como quem vai morrer. E me viste sumir pela neblina, porque a sina das mães é esta sina: amar, cuidar, criar, depois... perder. Perder o filho é como achar a morte. Perder o filho quando, grande e forte, já podia ampará-la e compensá-la. Mas nesse instante uma mulher bonita, sorrindo, o rouba, e a velha mãe aflita ainda se volta para abençoá-la Assim parti, e nos abençoaste. Fui esquecer o bem que me ensinaste, fui para o mundo me deseducar. E tu ficaste num silêncio frio, olhando o leito que eu deixei vazio, cantando uma cantiga de ninar. Hoje volto coberto de poeira e te encontro quietinha na cadeira, a cabeça pendida sobre o peito.Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
  19. 19. Quero acordar-te, mas não sei se devo, não sinto que me caiba este direito. O direito de dar-te este desgosto, de te mostrar nas rugas do meu rosto toda a miséria que me aconteceu. E quando vires e expressão horrível da minha máscara irreconhecível, minha voz rouca murmurar: Sou eu!" Eu bebi na taberna dos cretinos, eu brandi o punhal dos assassinos, eu andei pelo braço dos canalhas. Eu fui jogral em todas as comédias, eu fui vilão em todas as tragédias, eu fui covarde em todas as batalhas. Eu te esqueci: as mães são esquecidas. Vivi a vida, vivi muitas vidas, e só agora, quando chego ao fim, traído pela última esperança, e só agora quando a dor me alcançalembro quem nunca se esqueceu de mim. Não! Eu devo voltar, ser esquecido. Mas que foi? De repente ouço um ruído; a cadeira rangeu; é tarde agora! Minha mãe se levanta abrindo os braçose, me envolvendo num milhão de abraços,rendendo graças, diz: "Meu filho!", e chora. E chora e treme como fala e ri, e parece que Deus entrou aqui, em vez de o último dos condenados. E o seu pranto rolando em minha face quase é como se o Céu me perdoasse, me limpasse de todos os pecados. Mãe! Nos teus braços eu me transfiguro. Lembro que fui criança, que fui puro. Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta que eu compreendo o que significa: o filho é pobre, mas a mãe é rica! O filho é homem, mas a mãe é santa! Santa que eu fiz envelhecer sofrendo, mas que me beija como agradecendo toda a dor que por mim lhe foi causada. Dos mundos onde andei nada te trouxe, mas tu me olhas num olhar tão doce que , nada tendo, não te falta nada.
  20. 20. Dia das Mães! É o dia da bondade maior que todo o mal da humanidade purificada num amor fecundo.Por mais que o homem seja um mesquinho,enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho cantará a esperança para o mundo! Título
  21. 21. ResíduoCarlos Drummond de AndradeDe tudo ficou um poucoDo meu medo. Do teu asco.Dos gritos gagos. Da rosaficou um poucoFicou um pouco de luzcaptada no chapéu.Nos olhos do rufiãode ternura ficou um pouco(muito pouco).Pouco ficou deste póde que teu branco sapatose cobriu. Ficaram poucasroupas, poucos véus rotospouco, pouco, muito pouco.Mas de tudo fica um pouco.Da ponte bombardeada,de duas folhas de grama,do maço- vazio - de cigarros, ficou um pouco.Pois de tudo fica um pouco.Fica um pouco de teu queixono queixo de tua filha.De teu áspero silêncioum pouco ficou, um pouconos muros zangados,nas folhas, mudas, que sobem.Ficou um pouco de tudo
  22. 22. no pires de porcelana,dragão partido, flor branca,ficou um poucode ruga na vossa testa,retrato.Se de tudo fica um pouco,mas por que não ficariaum pouco de mim? no tremque leva ao norte, no barco,nos anúncios de jornal,um pouco de mim em Londres,um pouco de mim algures?na consoante?no poço?Um pouco fica oscilandona embocadura dos riose os peixes não o evitam,um pouco: não está nos livros.De tudo fica um pouco.Não muito: de uma torneirapinga esta gota absurda,meio sal e meio álcool,salta esta perna de rã,este vidro de relógiopartido em mil esperanças,este pescoço de cisne,este segredo infantil...De tudo ficou um pouco:de mim; de ti; de Abelardo.Cabelo na minha manga,de tudo ficou um pouco;vento nas orelhas minhas,simplório arroto, gemidode víscera inconformada,e minúsculos artefatos:campânula, alvéolo, cápsulade revólver... de aspirina.De tudo ficou um pouco.E de tudo fica um pouco.Oh abre os vidros de loçãoe abafao insuportável mau cheiro da memória.Mas de tudo, terrível, fica um pouco,e sob as ondas ritmadase sob as nuvens e os ventose sob as pontes e sob os túneise sob as labaredas e sob o sarcasmoe sob a gosma e sob o vômitoe sob o soluço, o cárcere, o esquecidoe sob os espetáculos e sob a morte escarlatee sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
  23. 23. e sob tu mesmo e sob teus pés já durose sob os gonzos da família e da classe,fica sempre um pouco de tudo.Às vezes um botão. Às vezes um rato. Título
  24. 24. O verbo amar JG de Araujo Jorge Te amei: era de longe que te olhava e de longe me olhavas vagamente... Ah, quanta coisa nesse tempo a gente sente, que a alma da gente faz escrava. Te amava: como inquieto adolescente, tremendo ao te enlaçar, e te enlaçava adivinhando esse mistério ardente do mundo, em cada beijo que te dava. Te amo: e ao te amar assim vou conjugando os tempos todos desse amor, enquanto segue a vida, vivendo, e eu, vou te amando... Te amar: é mais que em verbo é a minha lei, e é por ti que o repito no meu canto: te amei, te amava, te amo e te amarei!(Poema de JG de Araujo Jorge do livro -Bazar de Ritmos- 1935) Título

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