EMBRULHO DE LETRAS
CARLOS DE SENAEMBRULHO DE LETRAS           1ª edição         Guanambi-Ba     Carlos Freitas de Sena             2011
FOTO DA CAPA: MARCO VALENÇA             ESTE LIVRO É DEDICADO À MEMÓRIA                        DE MEU PAI,   CARLOS AUGUST...
SUMÁRIOEMBRULHO DE LETRAS, 09O PORTO DA BARRA, 10REFLEXO,11O QUE,12HÀ,13PETER PAN,14SOFRÊ,15A CARA DO MURO,16ACHO,17CAMINH...
VAMPIRO DE LETRAS,38QUINTO ELEMENTO,39SONHOS,40SONETO DA VELA VIVA,41ENCONTRO INCERTO,42A FOTOGRAFIA,43OBSESSÃO,44
EMBRULHO DE LETRASBusco a palavra exatae não desataesse nó morfológico.Sei que no fundo do peito,queda ansiosoo poema perf...
O PORTO DA BARRAO Porto da Barraé a farra da calma,onde a alma da águarepousa e cala.A brisa reparao porto da barra.O sol ...
REFLEXOvejo no espelhoque em mimalguém se perdeumeus os olhos sãoo olhar nãominhas as marcaspelebocadona da almapessoa out...
O QUEimatemáticas vezesvisitei navios naufragados,singrei mares,explorei céus,frequentei planetas,incansavelmente busquei,...
HÁHá que chore a sorteem ombros de estátuasHá quem sussurre poemasem ouvidos de espantalhosHá quem busque aconchegono colo...
PETER PANNum encontro estranho,lá pras bandas do sonho,vi assombra de Peter Pan.Ela estava a esmo,perdida mesmo,julgava-se...
Nesse encontro estranho,nessa terra de sonho,vi muita sombra vagar.Espectros medonhos,sem rumo, sem rota,sem porta, sem ch...
SOFRÊMeu sofrê não tem ninho,é passarinho que só voa.Meu sofrê não pousa, nem ousa.Vai com o vento, volta tormento.Sem ban...
A CARA DO MUROA mancha no muro,parece uma cara,parece que fala,tem olhos sofridos...O rosto no murotem ar obscuro,parece u...
Parece que olhapedindo-me ajuda,é só uma imagemestática e muda.Mas tem algo estranhona forma do rosto,parece desgosto.Pare...
ACHOmas que diacho!Eu não acho que é assim.Outrossim,não vigies meu achar.Se misturas o que achas,no tacho do meu achar,há...
CAMINHOSminha vidaminhas esquinasmeus becosminha dúvidaminha saída tão lógicaminhas sendas e prendaso caminho opostoo gost...
LABIRINTOPoesia tem vontade própria,escolhe o serque quer sorver aos poucos,degusta cérebroscom molho de almas,atrai sua p...
AMORAmor é mar de pescadorora tempestadeora bonançaora frutos ora lutosAmor é mar imensidãoora plenitudeora solidão
BARÍTONOSou barítono,não sei cantar.Quero ser cupido,sem ter que amar.Poder descrever desejose num sopro desistir.Poder af...
O PASSO ALÉM DO PASSOA cada passo, apaga-seo traço atrás do passo,estrada destroçadapela traça da passada,fio que só exist...
ENIGMAMeu enigma a mim pertencecomo ao mendigo, a pobreza.Antes a Édipo coubesse,a sina de decifrá-lo.O preço de ser Esfin...
DEXESTENSÃO                      (para Alane)Tens a visão torta,da porta que queres abrir?Encontrarás neste cômodo,incômod...
Tua mão é minha mão,nosso quebra-cabeças,nossas cabeças xifópagasentendem paixão.Nossas matérias ocupamo mesmo espaço,têm ...
PRIMAVERAfalta-me inspiraçãoe tantas flores no chãofalta-me regá-lasmas não tenho chuvatoda água no fundo do poçomas não t...
MINHA TERRAMinha terraesta sob minhas unhas,esta nos meus sonhos.Me contaminoucom seu vírus,seus vícios.Minha terra me con...
MEU OUTROEm um segundoroubaram o mundo,que MEU OUTRO vigiava.Não se pode mesmo contarcom o oposto.Êta sujeito sem rosto,se...
SANGUE DE MARNavegante há sete vidas,sangue de mar,olhos de areia,sem porto de chegada,nem Maria que espere.Não há mais si...
O RIO DAS HORASMilhares de horas passampor baixo da ponte eterna,levadas pela correnteza,seguindo a certeza da água.Muitos...
Alguns momentos afundame nas águas profundas se afogam,dormem na cama da calma,jazem na alma da lama.Dia perene, contínuo,...
MADRUGADAMadrugada derramou-se no silêncio,escorrendo pelo rosto da cidade,evocando sentimentos naufragados,fez-se dona do...
FELICIDADEQuem já foi feliz?alguém que quis,ou não tem jeito,o perfeito não pertence ao sujeito.
DIAS DE TRISTEZAEm dias de tristeza,põe à mesa, um vinho barato.Escolha como prato,o de mais insosso paladar.Deixe que o m...
ECOTudo que tenhoCabe num corpoTudo que tentoCabe no lógicoTudo que queroCabe num cofreTudo que seiMorre no outroNada que ...
NOITE DE SÃO JOÃOHoje é noite de São Joãoe não tenho alegria.Hoje é noite de prazer,noite dionisíaca,mas minha vontade tís...
MORTE DEIXADATem um corpo esticado na estrada,de quem é essa sombra deitada?Carne no chão espalhada,divorciada da alma,de ...
SOLIDÃONão trancaram minha porta,mas não vou abri-la.Não disseram para ficar,mas não vou sair.Aqui dentro tem de tudo,que ...
SONHO OUTROÉ preciso perder o rumo,frequentar mundos,investigar pesadelos profundos.É preciso permutar dores,transplantar ...
VAMPIRO DE LETRAS          (ao poeta Paulo Garcez de Sena)embriagou-se de metáforaaté a última gota de textoalimentou-se d...
QUINTO ELEMENTOSe as árvores me emprestassem sabedoria,o céu doasse plenitudee o mar perfeição,saberia como entender,os pl...
SONHOSOs sonhosrealizaram seus sonhos,fugiramum por um,cada umpara um mundo imaginário,cada um para seu castelo,para dormi...
SONETO DA VELA VIVAEssa vida, vela acesa,que o momento determina,se o vento cessa o fogo,ou a chama se ilumina.Essa vida, ...
ENCONTRO INCERTOmarquei um encontrosem horasem datapara ver se me mataa dor da esperadia perdidotempo desertolugar bem per...
A FOTOGRAFIAEsta fotografianão concede alforriaà saudade.Cárcere de lembranças,repousa no ontemhabitat.Guardiã de infância...
Lembro do gosto da frutaque o nome perdeu-sena gruta do longe.Vejo um rosto que era meue dissolveu.
OBSESSÃOSe algum dia eu sumir,não me procurem em bares,não investiguem lugares.Não estarei na esquina,não pousarei em cast...
Não viajarei de navio,nem entrarei na floresta,incinerarei toda provadesse tempo de vida.Carregarei dores e amores,trancaf...
BIOGRAFIACarlos Freitas de Sena é natural de Salvador-Ba e resideatualmente na cidade de Guanambi-Ba. É servidor público,p...
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  1. 1. EMBRULHO DE LETRAS
  2. 2. CARLOS DE SENAEMBRULHO DE LETRAS 1ª edição Guanambi-Ba Carlos Freitas de Sena 2011
  3. 3. FOTO DA CAPA: MARCO VALENÇA ESTE LIVRO É DEDICADO À MEMÓRIA DE MEU PAI, CARLOS AUGUSTO GARCEZ DE SENA HOMENAGENS A: ALDA FREITAS DE SENA AUGUSTO FREITAS DE SENA ALANE FERNANDES SANTANA DE SENA NATÃ FERNANDES SANTANA DE SENA IAGO FERNANDES SANTANA DE SENA
  4. 4. SUMÁRIOEMBRULHO DE LETRAS, 09O PORTO DA BARRA, 10REFLEXO,11O QUE,12HÀ,13PETER PAN,14SOFRÊ,15A CARA DO MURO,16ACHO,17CAMINHOS,18LABIRINTO,19AMOR,20BARÍTONO,21O PASSO ALÉM DO PASSO,22ENIGMA,23DESEXTENSÃO,24PRIMAVERA,25MINHA TERRA,26MEU OUTRO,27SANGUE DE MAR,28O RIO DAS HORAS,29MADRUGADA,30FELICIDADE,31DIAS DE TRISTEZA,32ECO,33NOITE DE SÃO JOÃO,34MORTE DEIXADA,35SOLIDÃO,36SONHO OUTRO,37
  5. 5. VAMPIRO DE LETRAS,38QUINTO ELEMENTO,39SONHOS,40SONETO DA VELA VIVA,41ENCONTRO INCERTO,42A FOTOGRAFIA,43OBSESSÃO,44
  6. 6. EMBRULHO DE LETRASBusco a palavra exatae não desataesse nó morfológico.Sei que no fundo do peito,queda ansiosoo poema perfeito.Quero seu conteúdosubstrato do todo.Contudo confessoser um absurdo,caber isso tudonum embrulho de letras.
  7. 7. O PORTO DA BARRAO Porto da Barraé a farra da calma,onde a alma da águarepousa e cala.A brisa reparao porto da barra.O sol se recusaa ter pressaem se pôr...O tempo sentadona areia do porto,perde sua hora,demora e olha,o balé preguiçosodas águas da barra.
  8. 8. REFLEXOvejo no espelhoque em mimalguém se perdeumeus os olhos sãoo olhar nãominhas as marcaspelebocadona da almapessoa outravejo no espelhoque o semblanteé cascaque ente arrastameu arcabouço?
  9. 9. O QUEimatemáticas vezesvisitei navios naufragados,singrei mares,explorei céus,frequentei planetas,incansavelmente busquei,espionei por cima do muroe nem mesmo sei o que procuro.
  10. 10. HÁHá que chore a sorteem ombros de estátuasHá quem sussurre poemasem ouvidos de espantalhosHá quem busque aconchegono colo de manequinsHá quem desfile sonhospara olhos vitrificadosHá quem colha florespara seres inanimados
  11. 11. PETER PANNum encontro estranho,lá pras bandas do sonho,vi assombra de Peter Pan.Ela estava a esmo,perdida mesmo,julgava-se um fantasma.Alfaiate da fantasia,costurei aquela sombra na minhae voei para a era do nunca.nunca hei de retornar.Serei um menino perdido,brincando comigo,no jogo de me achar.
  12. 12. Nesse encontro estranho,nessa terra de sonho,vi muita sombra vagar.Espectros medonhos,sem rumo, sem rota,sem porta, sem chão.Possuidor de duas sombras,voei para a era do nunca.Nunca hei de retornar.Serei um menino que mimo,a mim menino mimado,no colo do meu achar.
  13. 13. SOFRÊMeu sofrê não tem ninho,é passarinho que só voa.Meu sofrê não pousa, nem ousa.Vai com o vento, volta tormento.Sem bando, nem canto,nem foi ovo, nem será destinoe de novo vai com o vento,volta lamento.Pássaro que a duras penas,plana sob nuvens de cinzas,cinzas que não são de Fênix,ave que não dorme,não finda, nem principia,vai com o dia, volta agonia. (ao amigo e parceiro Marcos Soares)
  14. 14. A CARA DO MUROA mancha no muro,parece uma cara,parece que fala,tem olhos sofridos...O rosto no murotem ar obscuro,parece um fantasma.É como se o moforetratos pintasse.O moço grudado,guardado no muro,parece cansado.Conheço alguémque tem essa face,ou usa um disfarceque é a cara do muro.
  15. 15. Parece que olhapedindo-me ajuda,é só uma imagemestática e muda.Mas tem algo estranhona forma do rosto,parece desgosto.Parece que o moçoque vem da misturado mofo e o vento,padece sedento.É só uma figurana parede dura,parece loucuranão ter sentimento.A mancha no muronão passa de purocapricho do tempo.
  16. 16. ACHOmas que diacho!Eu não acho que é assim.Outrossim,não vigies meu achar.Se misturas o que achas,no tacho do meu achar,há um risco do tempero azedar.Só encaixo o que achono cacho do meu paladar.O que acho só eu sei onde guardar.
  17. 17. CAMINHOSminha vidaminhas esquinasmeus becosminha dúvidaminha saída tão lógicaminhas sendas e prendaso caminho opostoo gosto do erroo eterno berroo trilho de ferroa seta que apontao vento birutaa bússola tontao rastro apagadoa vinda e a idaminha vida
  18. 18. LABIRINTOPoesia tem vontade própria,escolhe o serque quer sorver aos poucos,degusta cérebroscom molho de almas,atrai sua presaprometendo sínteses,presenteia-ocom alguns delíriose mergulhada em seu puro instinto,arrasta-o para um labirinto.
  19. 19. AMORAmor é mar de pescadorora tempestadeora bonançaora frutos ora lutosAmor é mar imensidãoora plenitudeora solidão
  20. 20. BARÍTONOSou barítono,não sei cantar.Quero ser cupido,sem ter que amar.Poder descrever desejose num sopro desistir.Poder afastar o medoe no entanto sucumbir.Direi que entendo a minha existência,fantasio o tempo.Direi que falsifico chorose meu riso invento.
  21. 21. O PASSO ALÉM DO PASSOA cada passo, apaga-seo traço atrás do passo,estrada destroçadapela traça da passada,fio que só existiuantes do ato,do movimento do sapato.Tudo que o futuro guardou no escuro,desintegra-se no passo passado,no passo além do passo.Toda volúpia da pisada,da marcha desabalada,embaraça-se na história que poderia,que seria e será imaginação,assim que o pé descolar do chão.
  22. 22. ENIGMAMeu enigma a mim pertencecomo ao mendigo, a pobreza.Antes a Édipo coubesse,a sina de decifrá-lo.O preço de ser Esfinge,é a condição de ser pedra.Devora-me uma certeza,é inevitável ser gente.
  23. 23. DEXESTENSÃO (para Alane)Tens a visão torta,da porta que queres abrir?Encontrarás neste cômodo,incômodos segredos em mim.Mas se desejas olharo mundo num caleidoscópio,Só a você permito,conhecer meu mito,decifrar meus símbolos,me desmontar.
  24. 24. Tua mão é minha mão,nosso quebra-cabeças,nossas cabeças xifópagasentendem paixão.Nossas matérias ocupamo mesmo espaço,têm a mesma porção.
  25. 25. PRIMAVERAfalta-me inspiraçãoe tantas flores no chãofalta-me regá-lasmas não tenho chuvatoda água no fundo do poçomas não tenho lataminha mão quebradanão apanha a cordaminha boca secanão apara a gotapergunto ao céuaonde esta a dúvidae a garoa molhameu jardim de dentro
  26. 26. MINHA TERRAMinha terraesta sob minhas unhas,esta nos meus sonhos.Me contaminoucom seu vírus,seus vícios.Minha terra me contém.Mesmo navegante,procuro tê-la ao alcance dos olhos.Mastigo muitos temperos,mas minha terra é que tem gosto.Já vi muitas faces do mapa,mas minha terra é que tem rosto.Minha alma esta cheia de terra,terra que trago nos bolsos,terra que passo na cara,maquiagem que exponho pros outros.
  27. 27. MEU OUTROEm um segundoroubaram o mundo,que MEU OUTRO vigiava.Não se pode mesmo contarcom o oposto.Êta sujeito sem rosto,sem princípios.Alguns indícios de felicidade,e o besta se deleita...Deita na cama dos sonhos.Surdo, cego e mudo,nem desconfia...Quem com alma tão friae caráter imundo,roubaria meu fabuloso mundo.
  28. 28. SANGUE DE MARNavegante há sete vidas,sangue de mar,olhos de areia,sem porto de chegada,nem Maria que espere.Não há mais sinais de nortes,nem vento que assovia.Navegante há sete mortes?Que sorte se fosse um cortenesses desmedidos dias,a derradeira mortee seu corpo apareceriana praia de maré vazia.De que lhe servem tantas vidas,desperdiçadas, compridas,se conchas não cata mais,se ondas não quebram em seus pés,se o cheiro de maresia não vem da beira do cais. (ao amigo poeta Marco Valença)
  29. 29. O RIO DAS HORASMilhares de horas passampor baixo da ponte eterna,levadas pela correnteza,seguindo a certeza da água.Muitos instantes ficampresos aos galhos da margem,transformando-se em árvores,desgarradas do tempo.Dia perene, contínuo,carregas seu desafio,desvendar onde mora,a derradeira hora do rio.Todos segundos navegampara a foz do rio das horas,despejam segredos cúbicosnos oceanos afora.
  30. 30. Alguns momentos afundame nas águas profundas se afogam,dormem na cama da calma,jazem na alma da lama.Dia perene, contínuo,carregas seu desafio,desvendar onde moraa derradeira hora do rio.
  31. 31. MADRUGADAMadrugada derramou-se no silêncio,escorrendo pelo rosto da cidade,evocando sentimentos naufragados,fez-se dona do momento.Uma sombra solitária colhe estrelas,dança valsas de infância,sopra folhas de outonos esquecidos,faz de conta que é o vento.O luar acanhado lhe corteja,desvairada lambe gotas de orvalho,encharcada de desejo, devaneia,dorme nua ao relento.Véu escuro cobre luz insinuada,sobretudo em cores escondidas,noite grávida bordando alvorada,brilha o dia seu rebento.
  32. 32. FELICIDADEQuem já foi feliz?alguém que quis,ou não tem jeito,o perfeito não pertence ao sujeito.
  33. 33. DIAS DE TRISTEZAEm dias de tristeza,põe à mesa, um vinho barato.Escolha como prato,o de mais insosso paladar.Deixe que o mofoaromatize o ambiente,tente simplesmente só chorar.Não enfeite com lembranças,o que pode ser só dor.Deite em teu jardim, fique sozinhoe sem muito alardear,Adormeça em tua cama de espinho. (dedicado ao amigo Daniel Pereira de Santana)
  34. 34. ECOTudo que tenhoCabe num corpoTudo que tentoCabe no lógicoTudo que queroCabe num cofreTudo que seiMorre no outroNada que digoCabe no ouvidoSempre que plantoBrota encantoSempre que soproVento assombroOuço desertoMeu próprio eco
  35. 35. NOITE DE SÃO JOÃOHoje é noite de São Joãoe não tenho alegria.Hoje é noite de prazer,noite dionisíaca,mas minha vontade tísica,insiste em me entristecer.Hoje é noite demorada...Mas como tudo acaba:Natal, carnaval, sexta-feira da paixão,por que não acabaria a noite de São João.
  36. 36. MORTE DEIXADATem um corpo esticado na estrada,de quem é essa sombra deitada?Carne no chão espalhada,divorciada da alma,de quem é essa dor rejeitada?Sobra de gente esquecida,rosto renegado,de que é esse resto prostrado?Depositado à margem,velho, cansou da viagem?Matéria num canto jogada,de quem é essa morte deixada?
  37. 37. SOLIDÃONão trancaram minha porta,mas não vou abri-la.Não disseram para ficar,mas não vou sair.Aqui dentro tem de tudo,que preciso e quero.Quando cismo em ver loucura,vou à fechadura.Quando sinto solidão,simplesmente dou-lhe a mão.Quando perco a calma,a porta é a serventia da alma.
  38. 38. SONHO OUTROÉ preciso perder o rumo,frequentar mundos,investigar pesadelos profundos.É preciso permutar dores,transplantar sentimentos,comungar amores,ou isolamento.É preciso odiar o óbvio,revisitar o ócio,rejeitar o dócil.É preciso azedar o gosto,caricaturar o rosto,desmistificar agosto.É mister misturar temperos,vê-los pilados,heterogeneamente ligados.É lógico esquecer um sonho,estranho será sempre o outro,o fruto do futuro é oco.
  39. 39. VAMPIRO DE LETRAS (ao poeta Paulo Garcez de Sena)embriagou-se de metáforaaté a última gota de textoalimentou-se de verboscomo um vampiro de letrasestilhaçou a palavraem fragmentos diversosarrumou cada pedaçonum quebra-cabeça de versosde co tru s ns in du–se
  40. 40. QUINTO ELEMENTOSe as árvores me emprestassem sabedoria,o céu doasse plenitudee o mar perfeição,saberia como entender,os planos para mim traçados,os destinos rogados,a contramão.Se eu brotasse da terra,ser autotrófico que come luz,não temeria o futuro,seria apenas o que vim ser,vegetal puro.Parte integrada,desintegrada,transformada.O quinto elemento.
  41. 41. SONHOSOs sonhosrealizaram seus sonhos,fugiramum por um,cada umpara um mundo imaginário,cada um para seu castelo,para dormirem eternamente.
  42. 42. SONETO DA VELA VIVAEssa vida, vela acesa,que o momento determina,se o vento cessa o fogo,ou a chama se ilumina.Essa vida, vela acesa,que a algum fim se destina,desatina a desvelar-seporquanto a chama rumina.Chama que teme o sopro,dança conforme a brisa,áurea do fogo cintila.Fogo que cumpre a sina,quanto mais vela consome,mais vida é consumida.
  43. 43. ENCONTRO INCERTOmarquei um encontrosem horasem datapara ver se me mataa dor da esperadia perdidotempo desertolugar bem pertode espaço nenhumesquina do nadaprovável perigomarquei comigoum encontro incerto
  44. 44. A FOTOGRAFIAEsta fotografianão concede alforriaà saudade.Cárcere de lembranças,repousa no ontemhabitat.Guardiã de infâncias,vive de papele passado.Observo o instantecapturado...Sinto um cheiro triste,da lenha que queimae inexiste.
  45. 45. Lembro do gosto da frutaque o nome perdeu-sena gruta do longe.Vejo um rosto que era meue dissolveu.
  46. 46. OBSESSÃOSe algum dia eu sumir,não me procurem em bares,não investiguem lugares.Não estarei na esquina,não pousarei em castelos,nem levarei meus chinelos.Não voarei de avião,nem pegarei a estrada,não restará nenhum rastro,do passo de minha escalada.Se algum dia eu sumir,esquecerei o meu mapa,guarda-chuva e capa.Esvaziarei os meus bolsos,eliminarei qualquer pista,qualquer vestígio que exista.
  47. 47. Não viajarei de navio,nem entrarei na floresta,incinerarei toda provadesse tempo de vida.Carregarei dores e amores,trancafiados no cofre,onde reside e sofre,a obsessão da partida
  48. 48. BIOGRAFIACarlos Freitas de Sena é natural de Salvador-Ba e resideatualmente na cidade de Guanambi-Ba. É servidor público,poeta e letrista. Foi premiado nos concursos de poesias doINSTITUTO INTERNACIONAL DE POESIA, em 1998 eem 2005 no concurso de poesias “HELENA KOLODY”,promovido pelo Governo do Estado do Paraná. Em 1985,participou da coletânea POESIAS NATURAIS, que reuniupoemas de um grupo de colegas do curso de Comunicação daUFBa. Teve poemas publicados em jornais e revistasculturais e tem parcerias musicais com os compositoressoteropolitanos, Marcos Soares e Eugênio Soares. Divulgaseus trabalhos também pela internet, no blog:poemascarlosdesena.blogspot.com

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