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EB SANTA MARINHA
MARATONA DE LEITURA:
A LER O MAR
O MAR
Este é o mar
onde os barcos viajam,
os peixes moram,
os golfinhos saltam,
as baleias lançam repuxos,
as crianças nadam,
os jardins são de coral
e sabem a sal.
Este é o mar
que se esgota em esgoto,
se lixa em lixo,
o das marés negras,
das redes de arrasto,
dos rastos de sangue,
dos cemitérios nucleares,
dos muitos azares.
Este é o mar.
Quem é que entende a canção das
ondas?
Luísa Ducla Soares
“O castelo de areia"
Fiz um castelo de areia
Mesmo à beirinha do mar
À espera que uma sereia
Ali quisesse morar
Ó mar,
Ó mar...
Mas foi só uma gaivota
Que ali me foi visitar
Ó mar,
Ó mar...
Mas foi uma verde onda
Que ali me foi visitar.
E levou o meu castelo,
O meu castelo de areia
Para no mar morar nele
A minha linda sereia.
Luísa Ducla Soares
CANTIGA AO DESAFIO
-Menina, que sabe ler,
também sabe soletrar!
Diga lá, minha menina:
quantos peixes há no mar?
-Quantos peixes há no mar
eu já te vou responder
São metade e outros tantos
fora os que ainda estão por nascer.
Diz-me lá, ó cantador,
quantas penas tem um pato?
quantos picos um ouriço,
quantos cabelos um gato?
-Menina, perguntas bem,
agora respondo eu:
penas, picos e cabelos
só têm os que Deus lhe deu.
-Menina que tanto sabe,
responda a esta pergunta:
que ciência tem o mar,
que tanta água em si junta?
-A ciência que o mar tem,
não é coisa de pasmar:
não há rio nem regato
que ao mar não vá parar.
Alice Vieira, Antologia “Eu bem vi nascer o Sol”
HISTÓRIA DO SR. MAR
Deixa contar...
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda...
Com muita onda...
E depois?
E depois...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
E depois...
A menina adormeceu
Nos braços da sua Mãe...
Matilde Rosa Araújo
A Barca
Bela
era aquela
barca
no mar
bela
a sereia
a cantar.
Bela
era aquela
barca no mar.
Papiniano Carlos
À Volta de um Búzio
Dizem que o búzio nos traz
ao ouvido o som do mar.
Mas eu acho que é mentira:
se encosto o búzio ao ouvido
só ouço as ondas do ar.
As ondas do ar me trazem
forte cheiro a maresia.
as eu acho que é mentira:
o mar não mora nas nuvens,
nunca em nuvens viveria.
Descem as nuvens no mar
se acaso a chuva acontece,
Mas eu acho que é mentira:
se encosto o búzio ao ouvido,
ouvir o mar me parece.
Maria Alberta Menéres
Pelas valetas das vielas
“E foram-se as caravelas
pelas valetas das vielas
ouvindo tocar violas
dentro delas.
Só levavam ar a bordo
com cheirinho de alecrim
e desenhada nas velas
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E foi assim que a viagem
destas caravelas
chegou ao fim,
como um rumor de mar
a ecoar dentro de mim.
Luís Infante, Carla Pott
P
PORTUGAL
Somos vizinhos do mar
que nos dá sonho e comida
lembrando o que descobrimos
com tantos anos de vida.
Mareantes, emigrantes,
fomos sempre buscar fora
aquilo que nos faltava
sem perder pela demora.
Temos uma mesa de reis
e uma história de grandeza,
mas baixamos a cabeça
dando lugar à tristeza.»
José Jorge Letria
ESPUMA
Mais leve que a pluma
que no ar balança,
pela praia dança
a ligeira espuma.
Dançando se afaga
no alado bailar!
Pétalas de vaga, poeiras
do mar...
E na dança etérea,
que imparável ronda!
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Afonso Lopes Vieira
Cantares de búzios
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suspiram os meus amores.
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o mar que chora a cantar
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eu canto e estou a chorar!
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Afonso Lopes Vieira (1878-1946)
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Eu gostaria ainda de falar
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A rosa é tão delicada,
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PRAIA
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Sophia de Mello Breyner
Barca Bela
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Ó pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Ó pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador!
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela,
Ó pescador!
Almeida Garrett
ESTOU AQUI
Estou aqui sentado - ali o mar,
as palmeiras.
O leite fresco, o pão na mesa.
O gesto sempre igual
da luz, o mesmo olhar da ave.
Existe uma harmonia
entre a luz e o mar,
a mesma provavelmente
entre a palmeira e a ave,
o leite e o pão.
E com a palavra, o seu
voo a prumo,
com a palavra qual é a relação ?
Eugénio de Andrade
Foi no mar que aprendi
Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela
Ao olhar sem fim o sucessivo
Inchar e desabar da vaga
A bela curva luzidia do seu dorso
O longo espraiar das mãos de espuma
Por isso nos museus da Grécia antiga
Olhando estátuas frisos e colunas
Sempre me aclaro mais leve e mais viva
E respiro melhor como na praia
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vozes Do Mar
Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d’oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?
Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?
Tens cantos d'epopeias?
Tens anseios D'amarguras?
Tu tens também receios,Ó mar cheio de esperança e
majestade?!D
Donde vem essa voz, ó mar amigo?......
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Florbela Espanca
MAR SONORO
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
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Seres um milagre criado só para mim.
Sophia de Mello Breyner Andresen
FUNDO DO MAR
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
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A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
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No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.
Sophia de Mello Breyner Andresen
HEROÍSMOS
Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.
Eu temo o largo mar rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.
Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n'água quase assente,
E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!
Cesário Verde
Mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Espero
Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.
As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.
Dia do mar no ar
Dia do mar no ar, construído
Com sombras de cavalos e de plumas
Dia do mar no meu quarto-cubo
Onde os meus gestos sonâmbulos deslizam
Entre o animal e a flor como medusas.
Dia do mar no ar, dia alto
Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem
Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.
Barcos
Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Os seus olhos de estátua
E a curva do seu bico
Rói a solidão.
Praia
As ondas desenrolavam os seus braços
E as brancas tombam de bruços.
Lusitânia
Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
E proa negra dos seus bracos
Vivem de pouco pão e de luar.
Ondas
Onde-- ondas-- mais belos cavalos
Do que estes ondas que vóis sois
Onde mais bela curva de pescoços
Onde mais bela crina sacudida
Ou impetuoso arfar no mar imenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia.
Sophia de Mello Breyner Andresen
DESCOBRIMENTO
Um oceano de músculos verdes
Um ídolo de muitos braços como um polvo
Caos incorruptível que irrompe
E tumulto ordenado.
Bailarino contorcido
Em redor dos navios esticados
Atravessamos fileiras de cavalos
Que sacudiam as crinas nos alísios
O mar tomou-se de repente muito novo e muito
antigo Para mostrar as praias
E um povo
De homens recém-criados ainda cor de barro
Ainda nus ainda deslumbrados
Sophia de Mello Breyner Andresen
GAIVOTA
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
Alexandre O’Neil
DESCOBRIMENTO
Um oceano de músculos verdes
Um ídolo de muitos braços como um polvo
Caos incorruptível que irrompe
E tumulto ordenado.
Bailarino contorcido
Em redor dos navios esticados
Atravessamos fileiras de cavalos
Que sacudiam as crinas nos alísios
O mar tomou-se de repente muito novo e muito
antigo Para mostrar as praias
E um povo
De homens recém-criados ainda cor de barro
Ainda nus ainda deslumbrados
Sophia de Mello Breyner Andresen
MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa
O INFANTE
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Fernando Pessoa
O MOSTRENGO
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
Fernando Pessoa
HEROÍSMOS
Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.
Eu temo o largo mar rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.
Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n'água quase assente,
E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!
Cesário Verde
ARIANE
Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.
Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...
Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.
Mas eu é que não pude ainda por meus
passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.
Miguel Torga
CALMA
Que costa é que as ondas contam
E se não pode encontrar
Por mais naus que haja no mar?
O que é que as ondas encontram
E nunca se vê surgindo?
Este som de o mar praiar
Onde é que está existindo?
Ilha próxima e remota,
Que nos ouvidos persiste,
Para a vista não existe.
Que nau, que armada, que frota
Pode encontrar o caminho
À praia onde o mar insiste,
Se à vista o mar é sozinho?
Haverá rasgões no espaço
Que dêem para outro lado,
E que, um deles encontrado,
Aqui, onde há só sargaço,
Surja uma ilha velada,
O país afortunado
Que guarda o Rei desterrado
Em sua vida encantada?
Fernando Pessoa
COMEÇA A VIAGEM
Era uma vez um povo de marinheiros e de heróis, o povo
português, o nosso povo, que já lá vão muitos anos – mais
de quatrocentos – quis descobrir o caminho marítimo para
a Índia. A Índia aparecia então, aos olhos de todos os
Europeus, como terra esplendor e riqueza, que todos os
homens desejam, mas onde era difícil, quase impossível
chegar.
Quatros pequenos navios, - tão pequenos sobre o
imenso, ignorado Oceano! – quatro naus comandadas pelo
grande capitão Vasco da Gama, lançaram-se através do
Atlântico, só conhecido até ao Cabo da Boa
Esperança, dobraram esse Cabo e puseram-se de vale para
a região que demandavam,
O vento era brando, o mar sereno. Até então a viagem
correra sossegada. Mas os perigos seriam constantes, a
travessia arriscada, a viagem longa. E ninguém sabia ao
certo o rumo a seguir, pois nunca outra gente se atrevera
sequer a tentar tão comprida e custosa navegação.
Só a coragem e a audácia dos Portugueses seria capaz da
proeza heróica!
Iam os barcos já na costa de Moçambique, rápidos, entre a
branca espuma das ondas.
A Índia estava longe.
Mas o caminho para alcançá-la era aquele, diziam os sábios
e marinheiros. – e decerto lá chegariam Vasco da Gama e
os seus marujos, se o vento e o mar lhes fossem favoráveis
e, sobretudo, se a coragem os não abandonasse.
Ai deles, porém!
Sempre que um povo ou um homem tenta desvendar e
conhecer paragens até então ignotas, ou realizar um acto
nobre e grande, parece que as forças da Natureza, ou a
inveja dos outros homens, tudo fazem para os não deixar
vencer …
Iam senti-lo e sabê-lo bem os nossos temerários
antepassados!
E antes de senti-lo e sabê-lo – já os deuses ou forças, que
vivem nas coisas e nas almas, discutiam se sim ou não os
deviam deixar triunfar.
Júpiter, que era o Deus dos Deuses, senhor do Mundo;
Vénus, filha de Júpiter, Deusa do Amor e da Ternura;
Baco, o Deus da Folia e do Vinho; Marte, o Deus da Guerra;
Apolo, o Deus da Luz e do Calor; e Neptuno, o Deus do
Mar, Juntaram-se todos para resolver se dariam ou não
auxílio aos Portugueses.
Basta que Júpiter desencadeasse um grande temporal
sobre as frágeis embarcações, para que um naufrágio as
engolisse logo e, com elas, os tripulantes e o próprio Vasco
da Gama …
Era isto o que nem Vénus nem Marte – amigos dos
Portugueses, que são, como ambos esses
Deuses, afectuosos e valentes – de maneira alguma
queriam.
Mas Baco – sempre tonto e mau, que tivera outrora grande
poder na Índia e receava que os
Portugueses, conquistando-a, até a lembrança do seu
reinado de lá afastassem – Baco preparava-se para os
inquietar, desanimando a lusa energia com toda a espécie
No palácio luminoso, perto das estrelas, em que
habitualmente se reuniam – grande conversa e discussão
houve entre os Deuses a propósito dos nossos Portugueses
e da melhor decisão a tomar sobre o destino das suas
naus….
(João Barros)
DESCOBRIMENTO
Um oceano de músculos verdes
Um ídolo de muitos braços como um polvo
Caos incorruptível que irrompe
E tumulto ordenado.
Bailarino contorcido
Em redor dos navios esticados
Atravessamos fileiras de cavalos
Que sacudiam as crinas nos alísios
O mar tomou-se de repente muito novo e muito
antigo Para mostrar as praias
E um povo
De homens recém-criados ainda cor de barro
Ainda nus ainda deslumbrados
Sophia de Mello Breyner Andresen
MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa
O INFANTE
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Fernando Pessoa
O MOSTRENGO
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
Fernando Pessoa
ARIANE
Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.
Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...
Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.
Mas eu é que não pude ainda por meus
passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.
Miguel Torga
Tenho uma Janela
Tenho uma janela
que dá para o mar
barcos a sair
barcos a entrar
tenho uma janela
que dá para o mar
sonhos a partir
sonhos a chegar
tenho uma janela
que dá para o mar
um fio de fumo
uma sombra além
uma história antiga
um cantar de vela
um azul de mar
tenho uma janela
que seria bela
seria mais bela
que qualquer janela
janela fosse ela
de Lua ou de estrela
ou qualquer janela
de qualquer escola
se não fosse aquele
pescador já velho
que anda pela praia
a pedir esmola
barcos a sair
barcos a entrar
chego-me à janela
e não vejo o mar.
(Mário Castrim)

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Ler o mar

  • 1. EB SANTA MARINHA MARATONA DE LEITURA: A LER O MAR
  • 2. O MAR Este é o mar onde os barcos viajam, os peixes moram, os golfinhos saltam, as baleias lançam repuxos, as crianças nadam, os jardins são de coral e sabem a sal. Este é o mar que se esgota em esgoto, se lixa em lixo, o das marés negras, das redes de arrasto, dos rastos de sangue, dos cemitérios nucleares, dos muitos azares. Este é o mar. Quem é que entende a canção das ondas? Luísa Ducla Soares
  • 3. “O castelo de areia" Fiz um castelo de areia Mesmo à beirinha do mar À espera que uma sereia Ali quisesse morar Ó mar, Ó mar... Mas foi só uma gaivota Que ali me foi visitar Ó mar, Ó mar... Mas foi uma verde onda Que ali me foi visitar. E levou o meu castelo, O meu castelo de areia Para no mar morar nele A minha linda sereia. Luísa Ducla Soares
  • 4. CANTIGA AO DESAFIO -Menina, que sabe ler, também sabe soletrar! Diga lá, minha menina: quantos peixes há no mar? -Quantos peixes há no mar eu já te vou responder São metade e outros tantos fora os que ainda estão por nascer. Diz-me lá, ó cantador, quantas penas tem um pato? quantos picos um ouriço, quantos cabelos um gato? -Menina, perguntas bem, agora respondo eu: penas, picos e cabelos só têm os que Deus lhe deu.
  • 5. -Menina que tanto sabe, responda a esta pergunta: que ciência tem o mar, que tanta água em si junta? -A ciência que o mar tem, não é coisa de pasmar: não há rio nem regato que ao mar não vá parar. Alice Vieira, Antologia “Eu bem vi nascer o Sol”
  • 6. HISTÓRIA DO SR. MAR Deixa contar... Era uma vez O senhor Mar Com uma onda... Com muita onda... E depois? E depois... Ondinha vai... Ondinha vem... Ondinha vai... Ondinha vem... E depois... A menina adormeceu Nos braços da sua Mãe... Matilde Rosa Araújo
  • 7. A Barca Bela era aquela barca no mar bela a sereia a cantar. Bela era aquela barca no mar. Papiniano Carlos
  • 8. À Volta de um Búzio Dizem que o búzio nos traz ao ouvido o som do mar. Mas eu acho que é mentira: se encosto o búzio ao ouvido só ouço as ondas do ar. As ondas do ar me trazem forte cheiro a maresia. as eu acho que é mentira: o mar não mora nas nuvens, nunca em nuvens viveria. Descem as nuvens no mar se acaso a chuva acontece, Mas eu acho que é mentira: se encosto o búzio ao ouvido, ouvir o mar me parece. Maria Alberta Menéres
  • 9. Pelas valetas das vielas “E foram-se as caravelas pelas valetas das vielas ouvindo tocar violas dentro delas. Só levavam ar a bordo com cheirinho de alecrim e desenhada nas velas uma corola de jasmim. E foi assim que a viagem destas caravelas chegou ao fim, como um rumor de mar a ecoar dentro de mim. Luís Infante, Carla Pott
  • 10. P PORTUGAL Somos vizinhos do mar que nos dá sonho e comida lembrando o que descobrimos com tantos anos de vida. Mareantes, emigrantes, fomos sempre buscar fora aquilo que nos faltava sem perder pela demora. Temos uma mesa de reis e uma história de grandeza, mas baixamos a cabeça dando lugar à tristeza.» José Jorge Letria
  • 11. ESPUMA Mais leve que a pluma que no ar balança, pela praia dança a ligeira espuma. Dançando se afaga no alado bailar! Pétalas de vaga, poeiras do mar... E na dança etérea, que imparável ronda! Bafo de matéria, penugem da onda. Afonso Lopes Vieira
  • 12. Cantares de búzios Ai ondas do mar, ai ondas, ó jardins das alvas flores, sobre vós, ondas, ai ondas, suspiram os meus amores. No fundo dos búzios canta o mar que chora a cantar ó mar que choras cantando, eu canto e estou a chorar! Ai ondas do mar, ai ondas, eu bem vos quero lembrar: «a minha alma é só de Deus e o meu corpo da água do mar!» Afonso Lopes Vieira (1878-1946)
  • 13. A rosa e o mar Eu gostaria ainda de falar Da rosa brava e do mar. A rosa é tão delicada, O mar tão impetuoso, que não sei como os juntar E convidar para o chá Na casa breve do poema. O melhor é não falar: Sorrir-lhes só da janela. Eugénio de Andrade
  • 14. PRAIA Na luz oscilam os múltiplos navios Caminho ao longo dos oceanos frios As ondas desenrolam os seus braços E brancas tombam de bruços A praia é lisa e longa sob o vento Saturada de espaços e maresia E para trás fica o murmúrio Das ondas enroladas como búzios. Sophia de Mello Breyner
  • 15. Barca Bela Pescador da barca bela, Onde vais pescar com ela, Que é tão bela, Ó pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela, Ó pescador! Deita o lanço com cautela, Que a sereia canta bela... Mas cautela, Ó pescador! Não se enrede a rede nela, Que perdido é remo e vela Só de vê-la, Ó pescador! Pescador da barca bela, Inda é tempo, foge dela, Foge dela, Ó pescador! Almeida Garrett
  • 16. ESTOU AQUI Estou aqui sentado - ali o mar, as palmeiras. O leite fresco, o pão na mesa. O gesto sempre igual da luz, o mesmo olhar da ave. Existe uma harmonia entre a luz e o mar, a mesma provavelmente entre a palmeira e a ave, o leite e o pão. E com a palavra, o seu voo a prumo, com a palavra qual é a relação ? Eugénio de Andrade
  • 17. Foi no mar que aprendi Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela Ao olhar sem fim o sucessivo Inchar e desabar da vaga A bela curva luzidia do seu dorso O longo espraiar das mãos de espuma Por isso nos museus da Grécia antiga Olhando estátuas frisos e colunas Sempre me aclaro mais leve e mais viva E respiro melhor como na praia Sophia de Mello Breyner Andresen
  • 18. Vozes Do Mar Quando o sol vai caindo sobre as águas Num nervoso delíquio d’oiro intenso, Donde vem essa voz cheia de mágoas Com que falas à terra, ó mar imenso? Tu falas de festins, e cavalgadas De cavaleiros errantes ao luar? Falas de caravelas encantadas Que dormem em teu seio a soluçar? Tens cantos d'epopeias? Tens anseios D'amarguras? Tu tens também receios,Ó mar cheio de esperança e majestade?!D Donde vem essa voz, ó mar amigo?...... Talvez a voz do Portugal antigo, Chamando por Camões numa saudade! Florbela Espanca
  • 19. MAR SONORO Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim, A tua beleza aumenta quando estamos sós E tão fundo intimamente a tua voz Segue o mais secreto bailar do meu sonho, Que momentos há em que eu suponho Seres um milagre criado só para mim. Sophia de Mello Breyner Andresen
  • 20. FUNDO DO MAR No fundo do mar há brancos pavores, Onde as plantas são animais E os animais são flores. Mundo silencioso que não atinge A agitação das ondas. Abrem-se rindo conchas redondas, Baloiça o cavalo-marinho. Um polvo avança No desalinho Dos seus mil braços, Uma flor dança, Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisa Leve como um lenço. Mas por mais bela que seja cada coisa Tem um monstro em si suspenso. Sophia de Mello Breyner Andresen
  • 21. HEROÍSMOS Eu temo muito o mar, o mar enorme, Solene, enraivecido, turbulento, Erguido em vagalhões, rugindo ao vento; O mar sublime, o mar que nunca dorme. Eu temo o largo mar rebelde, informe, De vítimas famélico, sedento, E creio ouvir em cada seu lamento Os ruídos dum túmulo disforme. Contudo, num barquinho transparente, No seu dorso feroz vou blasonar, Tufada a vela e n'água quase assente, E ouvindo muito ao perto o seu bramar, Eu rindo, sem cuidados, simplesmente, Escarro, com desdém, no grande mar! Cesário Verde
  • 22. Mar De todos os cantos do mundo Amo com um amor mais forte e mais profundo Aquela praia extasiada e nua, Onde me uni ao mar, ao vento e à lua. Espero Espero sempre por ti o dia inteiro, Quando na praia sobe, de cinza e oiro, O nevoeiro E há em todas as coisas o agoiro De uma fantástica vinda. As ondas quebravam uma a uma Eu estava só com a areia e com a espuma Do mar que cantava só para mim.
  • 23. Dia do mar no ar Dia do mar no ar, construído Com sombras de cavalos e de plumas Dia do mar no meu quarto-cubo Onde os meus gestos sonâmbulos deslizam Entre o animal e a flor como medusas. Dia do mar no ar, dia alto Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens. Barcos Dormem na praia os barcos pescadores Imóveis mas abrindo Os seus olhos de estátua E a curva do seu bico Rói a solidão.
  • 24. Praia As ondas desenrolavam os seus braços E as brancas tombam de bruços. Lusitânia Os que avançam de frente para o mar E nele enterram como uma aguda faca E proa negra dos seus bracos Vivem de pouco pão e de luar. Ondas Onde-- ondas-- mais belos cavalos Do que estes ondas que vóis sois Onde mais bela curva de pescoços Onde mais bela crina sacudida Ou impetuoso arfar no mar imenso Onde tão ébrio amor em vasta praia. Sophia de Mello Breyner Andresen
  • 25. DESCOBRIMENTO Um oceano de músculos verdes Um ídolo de muitos braços como um polvo Caos incorruptível que irrompe E tumulto ordenado. Bailarino contorcido Em redor dos navios esticados Atravessamos fileiras de cavalos Que sacudiam as crinas nos alísios O mar tomou-se de repente muito novo e muito antigo Para mostrar as praias E um povo De homens recém-criados ainda cor de barro Ainda nus ainda deslumbrados Sophia de Mello Breyner Andresen
  • 26. GAIVOTA Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar. Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração. Se um português marinheiro, dos sete mares andarilho, fosse quem sabe o primeiro a contar-me o que inventasse, se um olhar de novo brilho no meu olhar se enlaçasse. Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
  • 27. Se ao dizer adeus à vida as aves todas do céu, me dessem na despedida o teu olhar derradeiro, esse olhar que era só teu, amor que foste o primeiro. Que perfeito coração no meu peito morreria, meu amor na tua mão, nessa mão onde perfeito bateu o meu coração. Alexandre O’Neil
  • 28. DESCOBRIMENTO Um oceano de músculos verdes Um ídolo de muitos braços como um polvo Caos incorruptível que irrompe E tumulto ordenado. Bailarino contorcido Em redor dos navios esticados Atravessamos fileiras de cavalos Que sacudiam as crinas nos alísios O mar tomou-se de repente muito novo e muito antigo Para mostrar as praias E um povo De homens recém-criados ainda cor de barro Ainda nus ainda deslumbrados Sophia de Mello Breyner Andresen
  • 29. MAR PORTUGUÊS Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quere passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. Fernando Pessoa
  • 30. O INFANTE Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo. Quem te sagrou criou-te português Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal! Fernando Pessoa
  • 31. O MOSTRENGO O mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar; A roda da nau voou três vezes, Voou três vezes a chiar, E disse: «Quem é que ousou entrar Nas minhas cavernas que não desvendo, Meus tectos negros do fim do mundo?» E o homem do leme disse, tremendo: «El-Rei D. João Segundo!» «De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço?» Disse o mostrengo, e rodou três vezes, Três vezes rodou imundo e grosso. «Quem vem poder o que só eu posso, Que moro onde nunca ninguém me visse E escorro os medos do mar sem fundo?» E o homem do leme tremeu, e disse: «El-Rei D. João Segundo!» Três vezes do leme as mãos ergueu, Três vezes ao leme as reprendeu, E disse no fim de tremer três vezes: «Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um povo que quer o mar que é teu; E mais que o mostrengo, que me a alma teme E roda nas trevas do fim do mundo, Manda a vontade, que me ata ao leme, De El-Rei D. João Segundo!» Fernando Pessoa
  • 32. HEROÍSMOS Eu temo muito o mar, o mar enorme, Solene, enraivecido, turbulento, Erguido em vagalhões, rugindo ao vento; O mar sublime, o mar que nunca dorme. Eu temo o largo mar rebelde, informe, De vítimas famélico, sedento, E creio ouvir em cada seu lamento Os ruídos dum túmulo disforme. Contudo, num barquinho transparente, No seu dorso feroz vou blasonar, Tufada a vela e n'água quase assente, E ouvindo muito ao perto o seu bramar, Eu rindo, sem cuidados, simplesmente, Escarro, com desdém, no grande mar! Cesário Verde
  • 33. ARIANE Ariane é um navio. Tem mastros, velas e bandeira à proa, E chegou num dia branco, frio, A este rio Tejo de Lisboa. Carregado de Sonho, fundeou Dentro da claridade destas grades... Cisne de todos, que se foi, voltou Só para os olhos de quem tem saudades... Foram duas fragatas ver quem era Um tal milagre assim: era um navio Que se balança ali à minha espera Entre as gaivotas que se dão no rio. Mas eu é que não pude ainda por meus passos Sair desta prisão em corpo inteiro, E levantar âncora, e cair nos braços De Ariane, o veleiro. Miguel Torga
  • 34. CALMA Que costa é que as ondas contam E se não pode encontrar Por mais naus que haja no mar? O que é que as ondas encontram E nunca se vê surgindo? Este som de o mar praiar Onde é que está existindo? Ilha próxima e remota, Que nos ouvidos persiste, Para a vista não existe. Que nau, que armada, que frota Pode encontrar o caminho À praia onde o mar insiste, Se à vista o mar é sozinho? Haverá rasgões no espaço Que dêem para outro lado, E que, um deles encontrado, Aqui, onde há só sargaço, Surja uma ilha velada, O país afortunado Que guarda o Rei desterrado Em sua vida encantada? Fernando Pessoa
  • 35. COMEÇA A VIAGEM Era uma vez um povo de marinheiros e de heróis, o povo português, o nosso povo, que já lá vão muitos anos – mais de quatrocentos – quis descobrir o caminho marítimo para a Índia. A Índia aparecia então, aos olhos de todos os Europeus, como terra esplendor e riqueza, que todos os homens desejam, mas onde era difícil, quase impossível chegar. Quatros pequenos navios, - tão pequenos sobre o imenso, ignorado Oceano! – quatro naus comandadas pelo grande capitão Vasco da Gama, lançaram-se através do Atlântico, só conhecido até ao Cabo da Boa Esperança, dobraram esse Cabo e puseram-se de vale para a região que demandavam, O vento era brando, o mar sereno. Até então a viagem correra sossegada. Mas os perigos seriam constantes, a travessia arriscada, a viagem longa. E ninguém sabia ao certo o rumo a seguir, pois nunca outra gente se atrevera sequer a tentar tão comprida e custosa navegação. Só a coragem e a audácia dos Portugueses seria capaz da proeza heróica!
  • 36. Iam os barcos já na costa de Moçambique, rápidos, entre a branca espuma das ondas. A Índia estava longe. Mas o caminho para alcançá-la era aquele, diziam os sábios e marinheiros. – e decerto lá chegariam Vasco da Gama e os seus marujos, se o vento e o mar lhes fossem favoráveis e, sobretudo, se a coragem os não abandonasse. Ai deles, porém! Sempre que um povo ou um homem tenta desvendar e conhecer paragens até então ignotas, ou realizar um acto nobre e grande, parece que as forças da Natureza, ou a inveja dos outros homens, tudo fazem para os não deixar vencer … Iam senti-lo e sabê-lo bem os nossos temerários antepassados!
  • 37. E antes de senti-lo e sabê-lo – já os deuses ou forças, que vivem nas coisas e nas almas, discutiam se sim ou não os deviam deixar triunfar. Júpiter, que era o Deus dos Deuses, senhor do Mundo; Vénus, filha de Júpiter, Deusa do Amor e da Ternura; Baco, o Deus da Folia e do Vinho; Marte, o Deus da Guerra; Apolo, o Deus da Luz e do Calor; e Neptuno, o Deus do Mar, Juntaram-se todos para resolver se dariam ou não auxílio aos Portugueses. Basta que Júpiter desencadeasse um grande temporal sobre as frágeis embarcações, para que um naufrágio as engolisse logo e, com elas, os tripulantes e o próprio Vasco da Gama … Era isto o que nem Vénus nem Marte – amigos dos Portugueses, que são, como ambos esses Deuses, afectuosos e valentes – de maneira alguma queriam. Mas Baco – sempre tonto e mau, que tivera outrora grande poder na Índia e receava que os Portugueses, conquistando-a, até a lembrança do seu reinado de lá afastassem – Baco preparava-se para os inquietar, desanimando a lusa energia com toda a espécie
  • 38. No palácio luminoso, perto das estrelas, em que habitualmente se reuniam – grande conversa e discussão houve entre os Deuses a propósito dos nossos Portugueses e da melhor decisão a tomar sobre o destino das suas naus…. (João Barros)
  • 39. DESCOBRIMENTO Um oceano de músculos verdes Um ídolo de muitos braços como um polvo Caos incorruptível que irrompe E tumulto ordenado. Bailarino contorcido Em redor dos navios esticados Atravessamos fileiras de cavalos Que sacudiam as crinas nos alísios O mar tomou-se de repente muito novo e muito antigo Para mostrar as praias E um povo De homens recém-criados ainda cor de barro Ainda nus ainda deslumbrados Sophia de Mello Breyner Andresen
  • 40. MAR PORTUGUÊS Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quere passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. Fernando Pessoa
  • 41. O INFANTE Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo. Quem te sagrou criou-te português Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal! Fernando Pessoa
  • 42. O MOSTRENGO O mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar; A roda da nau voou três vezes, Voou três vezes a chiar, E disse: «Quem é que ousou entrar Nas minhas cavernas que não desvendo, Meus tectos negros do fim do mundo?» E o homem do leme disse, tremendo: «El-Rei D. João Segundo!» «De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço?» Disse o mostrengo, e rodou três vezes, Três vezes rodou imundo e grosso. «Quem vem poder o que só eu posso, Que moro onde nunca ninguém me visse E escorro os medos do mar sem fundo?» E o homem do leme tremeu, e disse: «El-Rei D. João Segundo!» Três vezes do leme as mãos ergueu, Três vezes ao leme as reprendeu, E disse no fim de tremer três vezes: «Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um povo que quer o mar que é teu; E mais que o mostrengo, que me a alma teme E roda nas trevas do fim do mundo, Manda a vontade, que me ata ao leme, De El-Rei D. João Segundo!» Fernando Pessoa
  • 43. ARIANE Ariane é um navio. Tem mastros, velas e bandeira à proa, E chegou num dia branco, frio, A este rio Tejo de Lisboa. Carregado de Sonho, fundeou Dentro da claridade destas grades... Cisne de todos, que se foi, voltou Só para os olhos de quem tem saudades... Foram duas fragatas ver quem era Um tal milagre assim: era um navio Que se balança ali à minha espera Entre as gaivotas que se dão no rio. Mas eu é que não pude ainda por meus passos Sair desta prisão em corpo inteiro, E levantar âncora, e cair nos braços De Ariane, o veleiro. Miguel Torga
  • 44. Tenho uma Janela Tenho uma janela que dá para o mar barcos a sair barcos a entrar tenho uma janela que dá para o mar sonhos a partir sonhos a chegar tenho uma janela que dá para o mar um fio de fumo uma sombra além uma história antiga um cantar de vela um azul de mar
  • 45. tenho uma janela que seria bela seria mais bela que qualquer janela janela fosse ela de Lua ou de estrela ou qualquer janela de qualquer escola se não fosse aquele pescador já velho que anda pela praia a pedir esmola barcos a sair barcos a entrar chego-me à janela e não vejo o mar. (Mário Castrim)