Módulo IIIC - São Tomás de Aquino

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Neste módulo apresenta-se um resumo da vida e obra de São Tomás de Aquino (1225-1274), o grande teólogo da medievalidade cristã. Apresenta-se a ontologia tomista, que constitui uma importante melhoria e aperfeiçoamento, à luz das verdades da doutrina cristã, da ontologia aristotélica. O cerne deste módulo consiste na apresentação dos cinco argumentos tomistas para a existência de Deus. O Concílio Vaticano I declarou que «(…) Deus, a causa primeira (principium) e o fim de todas as coisas, pode, a partir das coisas criadas, ser conhecido com certeza pelo poder natural da razão humana (…)», e São Tomás de Aquino mostra como se argumenta em favor da existência de Deus usando apenas a razão e informação empírica. Deste modo, é possível ter certeza intelectual acerca da existência de Deus. No final do módulo, apresentam-se os atributos divinos aos quais São Tomás chega exclusivamente por via filosófica, pelo uso da razão. Aborda-se o dilema de Eutifro, usado como crítica à bondade de Deus, e desmonta-se o alegado paradoxo da omnipotência. Por fim, apresenta-se o método "ex suppositione" elaborado por São Tomás a partir dos "Analíticos Posteriores" de Aristóteles, um método que visa alcançar certeza demonstrativa e que é precursor do método científico que viria a ser desenvolvido por Galileu. Este módulo conclui com algumas citações do Magistério da Igreja Católica que defendem a importância, a actualidade e a centralidade da teologia tomista, sobretudo quando aplicada ao ensino e à exposição da doutrina católica.

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Módulo IIIC - São Tomás de Aquino

  1. 1. Curso Ciência e Fé Módulo IIIC – São Tomás de Aquino © Bernardo Motta bmotta@observit.pt http://espectadores.blogspot.com
  2. 2. Curso Ciência e Fé I – Introdução II – Filosofia Grega e Cosmologia Grega III – Filosofia Medieval e Ciência Medieval IV – Inquisição e Ciência V e VI – O Caso Galileu VII – A Revolução Científica VIII – Darwin e a Igreja Católica IX – Os Argumentos Cosmológico e Teleológico X – Filosofia da Mente e Inteligência Artificial XI – Milagres e Ciência XII – Concordância entre Cristianismo e Ciência
  3. 3. 3 1. Introdução 2. O cristianismo primitivo e o conhecimento grego 3. Santo Agostinho 4. Ciência Medieval 5. São Tomás de Aquino 6. Conclusão Índice 3
  4. 4. São Alberto Magno (c. 1193/1206-1280) Nascido na Baviera, foi educado em Pádua 1221-23: torna-se Dominicano; recebe formação teológica em Colónia 1228: termina os estudos teológicos, torna-se Professor em várias cidades 1241-42: segue para a Universidade de Paris; Mestre em Teologia em 1245 1245-48: São Tomás de Aquino é seu aluno 1248: Alberto volta para Colónia para chefiar os “estudos gerais” dominicanos 1248-52: São Tomás estuda com Alberto em Colónia, depois volta para Paris 1254-56: Alberto é prior provincial dos dominicanos na Alemanha 1260-63: Alberto é eleito Bispo de Ratisbona; de 1263 a 1274 percorre o país 1274: Alberto recebe a notícia da morte de São Tomás 1277: condenações anti-averroístas: Alberto vai para Paris defender a reputação de São Tomás 1280: Alberto morre em Colónia 1931: o Papa Pio XI declara Alberto Magno Santo e Doutor da Igreja 1941: o Papa Pio XII declara Alberto o santo padroeiro das Ciências Naturais Alberto contribuiu para a Lógica, Psicologia, Metafísica, Meteorologia, Mineralogia e Zoologia São Tomás de Aquino 4
  5. 5. São Tomás de Aquino (1225-1274) 1225: Nasce em Roccasecca, no castelo da sua família, perto de Aquino Filho de Landulfo, Conde de Aquino, e de Teodora, Condessa de Teano 1230: Enviado para ser educado em Monte Cassino, abadia beneditina 1236: Enviado para a Universidade de Nápoles 1243/44: Decide entrar para a Ordem dos Pregadores (Dominicanos) Teodora, perturbada com a opção do filho pela pobreza, viaja para Nápoles Tomás convence os seus superiores: irá para para Roma, e depois para Paris São Tomás de Aquino 5 «Se queremos estudar [S. Tomás de] Aquino temos que ter para com ele a consideração de tratar como importante o que ele considerava importante. Estudar Aquino como Aquino é uma forma pobre de adulação, pois Aquino preocupava-se muito pouco com Aquino, enquanto que ele se preocupava com Deus e com a ciência» - C. F. J. Martin, Thomas Aquinas: God and Explanations, p. 203 «o estudo da filosofia não consiste em saber o que [certos] indivíduos pensavam, mas como as coisas são» - São Tomás de Aquino, Sententia de caelo et mundo, I.22 Roccasecca 5
  6. 6. São Tomás de Aquino (1225-1274) Teodora envia os seus filhos Landulfo e Reinaldo “à caça” de Tomás Eles interceptam o seu irmão antes de Roma, perto de Acquapendente Levam-no para um castelo familiar: Monte San Giovanni Campano Num ano de “prisão domiciliária”, Tomás decora a Bíblia e os quatro livros das Sentenças de Pedro Lombardo, um importante tratado teológico São Tomás de Aquino 6 Monte San Giovanni Campano A Tentação de São Tomás de Aquino, Diego Velazquez (1631-32) Durante esse período, as suas duas irmãs tentam demovê-lo da sua vocação, sem sucesso; a sua mãe Teodora desespera Os seus irmãos tentam um último truque: uma prostituta Tomás afugenta-a com um madeiro em brasa e ela foge Mesmo antes da sua morte, Tomás revelará ao seu confessor, Frei Reinaldo, que nesse dia foi assistido em sonhos por dois anjos que apertaram a sua cintura com uma faixa Segundo São Tomás, depois dessa data, ele nunca mais teve grande dificuldade em viver uma vida de castidade A sua mãe Teodora desiste e deixa-o seguir a sua vocação
  7. 7. São Tomás de Aquino (1225-1274) 1245-48: Aluno de Alberto Magno em Paris 1248-52: Em Colónia, com Alberto Magno, no “studium generale” Tomás falha a sua primeira discussão teológica Alberto: “Chamamos-lhe o boi mudo, mas um dia do seu ensino sairá um mugido que será ouvido na Terra inteira!” 1252: De volta a Paris para estudar para o grau de Mestre 1252-56: De ente et essentia 1256: Obtém o grau de Mestre em Teologia e começa a ensinar 1256-59: Quaestiones disputatae de Veritate 1259-69: Nápoles, Orvieto, Roma e Santa Sabina 1261-63: Summa contra Gentiles 1269-72: De volta a Paris como regente da Universidade 1270: De unitate intellectus adversus averroístas 1272-74: De volta a Nápoles e Orvieto; morre na Sicília em 1274 1265-73: Summa Theologica 6-12-1273, ao celebrar missa em Nápoles, tem uma visão mística Diz a Reginaldo de Piperno: “tudo o que escrevi me parece palha” (“mihi videtur ut palea”) São Tomás de Aquino 7 Universidade de Paris (no manuscrito medieval “Chants royaux”, BNP)
  8. 8. Ontologia (São Tomás de Aquino, “De principiis naturae”, Capítulos I e II) São Tomás de Aquino 8 «Este pequeno tratado oferece uma introdução ideal aos conceitos básicos e princípios hilemórficos de metafísica e filosofia da natureza. Para além das suas óbvias virtudes de síntese e claridade, o que é realmente notável na apresentação de Aquino é que torna claro de que forma os princípios e as distinções conceptuais aqui introduzidas são aplicáveis de forma geral, independentemente das nossas particulares explicações científicas ou físicas dos fenómenos que achamos que elas instanciam.» - Gyula Klima
  9. 9. Ontologia (De principiis naturae, Capítulos I e II) Acto e Potência “Chama-se ser em potência ao que pode existir e não existe, e ser em acto ao que já existe” Substância e acidente “(…) há duas espécies de ser: o ser essencial ou substancial de uma coisa, por exemplo, ser um homem, e isto é o ser considerado em si mesmo; e o ser acidental, como é o caso de o homem ser branco, e isto é o ser considerado sob relação particular.” Matéria e forma “Assim como tudo o que existe em potência pode ser chamado matéria, também tudo o que tem existência, qualquer que seja a existência, substancial ou acidental, pode chamar-se forma. (…) E porque a forma torna o ser em acto, eis a razão de se afirmar que a forma é acto. A forma substancial, porém, é aquela que faz existir em acto um ser substancial; a forma acidental é aquela que faz existir em acto um ser acidental.” Geração e corrupção “(…) a geração de um ser é movimento para a forma (…): à forma substancial responde a geração propriamente dita; à forma acidental responde a geração sob uma relação particular. (…) A esta dupla geração corresponde uma dupla corrupção: simples ou acidental.” “(…) para haver geração requerem-se três coisas: o ser em potência, que é a matéria; o não ser em acto, que é a privação; e aquilo mediante o qual se torna em acto, que é a forma.” “A geração não se opera a partir do que pura e simplesmente não existe, mas a partir de um não ente que existe em determinado sujeito e não em qualquer sujeito.” São Tomás de Aquino 9
  10. 10. Ontologia (De principiis naturae, Capítulo III) Causa material e causa formal “(…) são três os princípios da realidade natural: a matéria, a forma e a privação. Mas estes três princípios não são suficientes para a geração.” Para Aristóteles e São Tomás, a matéria e a forma são causas, mas a privação não o é Causa eficiente “De facto, o que existe em potência não pode por si mesmo passar a acto, tal como o cobre que existe em potência para ser estátua não se faz por si mesmo estátua, mas precisa de um operador para que a forma da estátua saia da potência ao acto.” “Também a forma não pode por si mesma passar da potência ao acto (falo da forma do objecto gerado, da forma que é ponto de chegada da geração), pois a forma só existe no ser do objecto produzido. (…) Importa, portanto, que para além da matéria e da forma, haja algum princípio activo. É o que se chama causa eficiente, ou motora, ou agente, ou de onde surge o princípio do movimento.” Causa final “E porque, na palavra de Aristóteles no segundo livro da Metafísica, tudo o que age só age em vista de alguma coisa, importa que exista um quarto princípio, entendido pelo operador, e este chama-se fim. Advirta-se que, embora todo o agente, tanto natural como voluntário, tenda a um fim, não se segue, todavia, que todo o agente conheça o fim ou sobre ele delibere.” Causas intrínsecas e extrínsecas “(…) Aristóteles, no livro da Física, estabelece a existência de quatro causas e três princípios. (…) A matéria e a forma são consideradas intrínsecas, por serem partes constitutivas de uma coisa; a causa eficiente e a causa final são chamadas extrínsecas, porque são externas ao objecto produzido. Mas por princípios considera só as causas intrínsecas. Não se nomeia entre as causas a privação, por ser princípio acidental, como foi dito.” São Tomás de Aquino 10
  11. 11. São Tomás de Aquino Essência e Existência Ente ("ens") Ente real ("ens reale"): existe independentemente de um intelecto Por exemplo, uma pedra Ente racional ("ens rationis"): existe pela operação de um intelecto Por exemplo, uma afirmação verdadeira ou falsa: "Isto é uma pedra", "Esta pedra respira" Ente real => Ente racional Acerca de todos os entes reais podemos formular entes racionais Mas nem todos os entes racionais têm correspondência com um ente real P. ex.: "a cegueira é a privação da visão" ("cegueira" não é um ente real mas racional) Essência ("essentia") O que faz uma coisa ser o que ela é, e de onde provêm, por causa formal, as suas propriedades A essência de uma coisa é o que é expresso pela sua definição (De Ente et Essentia, I, 3) A essência é a resposta à pergunta: “Quid?” (“O quê?”) Por esta razão, a essência é também chamada de “quididade” por São Tomás A essência das coisas naturais inclui a matéria e a forma (fazem parte da definição) Existência ("esse") A existência é acto de existir, ou seja, o acto pelo qual um ente ("ens") existe 11
  12. 12. São Tomás de Aquino O Princípio da Causalidade “Nada pode ser reduzido da potencialidade à actualidade sem ser através de algo num estado de actualidade” – Suma Teológica, I, questão 2, artigo 3 Aplicações do princípio: T1: “Tudo o que é mudado é mudado por algo de distinto” T2: “Tudo o que começa a existir tem uma causa” T2a: “Tudo o que é contingente tem uma causa” T3: “Tudo o que é composto tem uma causa, pois coisas distintas entre si não se podem unir sem algo que cause a sua união” – Suma Teológica I, questão 3, artigo 7 Contra o princípio da causalidade: O argumento de David Hume O argumento de Bertrand Russell A objecção baseada na lei newtoniana da inércia As objecções baseadas na mecânica quântica A objecção de Duns Escoto baseada no movimento próprio 12
  13. 13. São Tomás de Aquino Contra o Princípio da Causalidade: o argumento de David Hume David Hume, “Treatise of Human Nature”, Livro I, Parte III, Secção III 1. Tudo o que é distinguível pode ser concebido como sendo separável 2. Causa e efeito são distinguíveis 3. Logo, a causa e o efeito podem ser concebidos como sendo separados um do outro 4. Tudo o que é concebível é possível na realidade 5. Logo, a causa e o efeito podem ser separados um do outro na realidade O que está errado neste argumento? O ponto 2 é pacífico, mas os pontos 1 e 4 são altamente problemáticos Hume confunde conceitos mentais (“concebível”) com imagens mentais (“imaginável”) Os conceitos são universais abstractos e objectivos (“triângulo”, “metal alcalino”, “coelho”, “causa”) As imagens são entidades mentais concretas e subjectivas (S. Tomás chama-as de “fantasmas”) É possível imaginar um efeito separado da sua causa Mas não é possível conceber um efeito sem causa É possível imaginar um coelho sem imaginar que tenha pais Mas não é possível conceber que um coelho possa existir sem ter pais 13
  14. 14. São Tomás de Aquino Contra o Princípio da Causalidade: o argumento de David Hume É então possível que exista um efeito sem causa? Determinar o que é possível implica uma rigorosa análise conceptual, e não apenas usar a imaginação Hume supõe que uma distinção real entre duas coisas implica que elas sejam separáveis Mas isso é falso: conceber A sem conceber B não implica: Que A possa existir sem B existir Que A seja separável de B Um exemplo (adaptado de Feser): É possível conceber um triângulo sem ao mesmo tempo conceber que a soma dos seus ângulos internos é de 180 graus (como acontece com uma pessoa sem conhecimentos matemáticos) Todavia, não existem triângulos cujos ângulos internos não somem 180 graus Outro exemplo (retirado de Reichenbach): O lado côncavo de uma taça é distinto do seu lado convexo Todavia, o lado côncavo da taça não pode existir sem o lado convexo Todavia, o lado côncavo da taça não é separável do lado convexo 14
  15. 15. São Tomás de Aquino Contra o Princípio da Causalidade: o argumento de Bertrand Russell Russell, “On the Notion of Cause”, 1913 A Física descreve o mundo através de equações diferenciais sem referência a causas “Nos movimentos de corpos mutuamente gravitantes não há nada que possa ser chamado uma causa, e nada que possa ser chamado um efeito; há meramente uma fórmula” A relação causa-efeito é temporalmente assimétrica e as equações do movimento são simétricas Logo, o conceito de causa deve ser eliminado do vocabulário filosófico O que está errado neste argumento? A Física não nos dá uma descrição exaustiva da realidade: é um exercício de abstracção Se a ausência de causas e efeitos das equações servisse para provar que elas não existem, então teríamos que rejeitar conceitos científicos tais como: evento, lei, explicação, prova, etc. A Física recorre a noções causais (p.ex.: a gravidade causa a atracção de corpos com massa) A causa imediata de um efeito é simultânea com ele: A mesa é a causa de o prato não cair ao chão sob o efeito da gravidade, e em cada momento, a causa e o efeito imediato são simultâneos Quando uma pedra estilhaça um vidro, a pedra é a causa, e o vidro estilhaçado é o efeito, e no entanto, a pedra a pressionar o vidro (causa) e este a ceder fragmentando-se (efeito) são as duas “faces” do mesmo evento temporal 15
  16. 16. São Tomás de Aquino Contra o Princípio da Causalidade: a objecção baseada na lei da inércia “it seems that Newton’s law wrecks the argument of the First Way.” – Anthony Kenny Do PC, deduzimos T1: “Tudo o que é mudado é mudado por algo de distinto” Trata-se da primeira premissa da primeira “via” tomista para demonstrar a existência de Deus Primeira Lei de Newton (“Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica”, p. 13): “Corpus omne perseverare in statu suo quiescendi vel movendi uniformiter in directum, nisi quatenus illud a viribus impressis cogitur statum suum mutare” “Todos os corpos perseveram no seu estado de repouso ou de movimento uniforme rectilíneo, excepto na medida em que sejam forçados a mudar o seu estado devido a uma força impressa” 1. Não existe contradição formal entre T1 e a Primeira Lei de Newton A Primeira Lei apenas diz o que fará qualquer corpo não sujeito a “forças impressas” Poderia existir um “agente motor” (fora da realidade física) que garantisse a Primeira Lei 2. Falácia de equivocação no conceito de “movimento” “Movimento” (mudança) em contexto ontológico (filosófico), ou seja, qualquer tipo de mudança “Movimento” em contexto físico (quantitativo), ou seja, movimento local (mudança de posição) 16
  17. 17. São Tomás de Aquino Contra o Princípio da Causalidade: a objecção da lei newtoniana da inércia 3. O movimento rectilíneo uniforme (MRU) e o “estado de repouso” como “estados” Em Física, podemos definir “repouso” como caso particular de “movimento a velocidade zero” Sendo assim, um corpo em MRU e um corpo parado estão apenas em “estados diferentes” Estes “estados” representam uma certa “ausência de mudança” (do grego “stásis”, στάσις) Em ambos os casos, a velocidade é constante (v=0 para o corpo parado) A Primeira Lei afirma então que a velocidade de um corpo em MRU só mudará pela via de uma ou mais “forças impressas” (ao corpo) Formulada desta forma, a Primeira Lei pressupõe a tese T1 4. Movimento natural em Aristóteles São Tomás de Aquino defende a física aristotélica Movimento natural: quando um corpo se move para o seu estado natural Movimento forçado (“contra-natura”): quando um corpo é movido de forma artificial São Tomás defende a necessidade de um “motor” conjugado com o corpo em movimento forçado Mas quando o corpo se move naturalmente, não há necessidade de “motores” conjugados Assim, a lei da inércia é semelhante ao movimento natural gravítico em Aristóteles 17
  18. 18. São Tomás de Aquino Contra o Princípio da Causalidade: a objecção da lei newtoniana da inércia Como conciliar então a Primeira Lei de Newton com a tese T1? Ou o MRU constitui real mudança A deslocação de um corpo de A para B constitui o actualizar de uma potência Essa actualização tem que ser feita por algo já actual Esse “algo” não pode ser uma força impressa (senão é violada a Primeira Lei) Mas esse “algo” pode ser uma causa metafísica necessária (p.ex., um anjo, ou Deus) A Primeira Lei seria garantida por uma causa necessária (incorruptível, perpétua) Teríamos, como “bónus”, uma explicação metafísica para este tipo de regularidade física Desta forma, a Primeira Lei de Newton seria compatível com a tese T1 Ou o MRU não constitui real mudança Se o MRU é, realmente, um “estado” sem mudança real, então o problema desaparece Então, a Primeira Lei de Newton é conciliável com a tese T1 E se a mudança for uma ilusão? (interpretação realista do espaço de Minkowski – “universo bloco”) Mas há mudança, pelo menos, na consciência humana! O conceito de “universo bloco” não é consistente: tempo e espaço não são análogos Problema para o conhecimento científico: omo representar um silogismo no “universo bloco”? 18
  19. 19. São Tomás de Aquino Contra o Princípio da Causalidade: a objecção da mecânica quântica 19 «Dado que todas as experiências estão sujeitas às leis da mecânica quântica, a invalidade da lei da causalidade é definitivamente provada pela mecânica quântica.» - Werner Heisenberg (1927)
  20. 20. São Tomás de Aquino Contra o Princípio da Causalidade: objecções baseadas na mecânica quântica 1. O carácter indeterminístico da Mecânica Quântica é incompatível com o PC R1: Há interpretações determinísticas da mecânica quântica (p. ex. De Broglie-Bohm) R2: No aristotelismo-tomismo, causalidade não implica determinismo No contexto aristotélico-tomista, “recua-se” do efeito para uma (ou mais) causa(s) A causa que se encontra é suficiente para o efeito, mas não é necessária para o efeito A causa deve apenas tornar o efeito inteligível (outra causa poderia gerar o mesmo efeito) 2. As desigualdades de Bell mostram que há correlações sem explicação causal R1: Admitir velocidades superluminosas R2: Admitir acção instantânea à distância (implica retrocausalidade, devido à Relatividade Geral) R3: Para evitar ou mitigar a retrocausalidade, pode-se estipular um referencial absoluto apropriado tal que, nesse referencial, o efeito é posterior à causa (podendo ser anterior noutros) R4: Postular uma lei que explique as correlações em questão 3. A teoria quântica de campos mostra que partículas podem aparecer e desaparecer sem causa Pelo menos o sistema descrito pelas leis da teoria quântica de campos serve como causa Mesmo que tais eventos sejam realmente indeterminísticos, isso não implica acausalidade As partículas não surgem do “nada”, porque o vácuo quântico não é “nada” 20
  21. 21. São Tomás de Aquino Contra o Princípio da Causalidade: objecções baseadas na mecânica quântica Respostas genéricas a qualquer objecção R1: Pode-se optar por uma interpretação instrumentalista da mecânica quântica (anti-realista) R2: O facto de as descrições matemáticas de um sistema quântico deixarem de fora explicações causais não implica que elas não existam (a ausência de evidência não é evidência de ausência) R3: Há aspectos da mecânica quântica que se assemelham à teoria aristotélica de acto/potência: 21 1) «One might perhaps call it an objective tendency or possibility, a “potentia” in the sense of Aristotelian philosophy. In fact, I believe that the language actually used by physicists when they speak about atomic events produces in their minds similar notions as the concept of “potentia”. So the physicists have gradually become accustomed to considering the electronic orbits, etc., not as reality but rather as a kind of “potentia”.» 2) «The probability wave of Bohr, Kramers, Slater... was a quantitative version of the old concept of “potentia” in Aristotelian philosophy. It introduced something standing in the middle between the idea of an event and the actual event, a strange kind of physical reality just in the middle between possibility and reality.» - Werner Heisenberg, “Physics and Philosophy”, 1958
  22. 22. São Tomás de Aquino Contra o Princípio da Causalidade: objecções baseadas na mecânica quântica 22 3) «The probability function combines objective and subjective elements. It contains statements about possibilities or better tendencies (“potentia” in Aristotelian philosophy), and these statements are completely objective, they do not depend on an observer; and it contains statements about our knowledge of the system, which of course are subjective in so far as they may be different for different observers.» 4) «If we compare this situation with the Aristotelian concepts of matter and form, we can say that the matter of Aristotle, which is mere “potentia”, should be compared to our concept of energy, which gets into “actuality” by means of the form, when the elementary particle is created.» - Werner Heisenberg, “Physics and Philosophy”, 1958
  23. 23. O Princípio da Razão Suficiente (PRS) PRS: qualquer coisa existente tem uma explicação (razão suficiente) para existir: Ou noutra coisa diferente e já existente Ou em si mesma: Essa coisa existe obrigatoriamente Essa coisa não pode não existir Essa coisa não pode ser diferente do que é 23 São Tomás de Aquino «Há uma razão suficiente, ou uma explicação adequada, necessária e objectiva, para o ser do que quer que exista e para todos os atributos desse ser» - Bernard Wuellner
  24. 24. O Princípio da Razão Suficiente (PRS) e o Princípio da Causalidade (PC) PRS: epistémico, ou seja, no contexto do conhecimento humano PC: ontológico, ou seja, no contexto da realidade “extra-mental” O PRS subjaz a toda a Ciência, porque o objectivo da Ciência é o de procurar conhecer as razões dos fenómenos físicos: os cientistas assumem que o PRS é verdadeiro e universal a todo o momento O PRS pode ser rejeitado com base numa filosofia instrumentalista da Ciência A empreitada científica não teria o objectivo de conhecer a realidade física Serviria apenas para fazer previsões e aplicações tecnológicas PRS => PC Se o PRS for verdadeiro, o PC também é verdadeiro ? Por isso, é inconsistente aceitar o PRS em Ciência e usar argumentos científicos para tentar negar o PC 24 São Tomás de Aquino
  25. 25. São Tomás de Aquino 25 «(…) Deus, a causa primeira (principium) e o fim de todas as coisas, pode, a partir das coisas criadas, ser conhecido com certeza pelo poder natural da razão humana (…)» - Vaticano I
  26. 26. São Tomás de Aquino Teologia Natural: o argumento existencial para a existência de Deus O "argumento existencial" 1. É possível conceber uma coisa, pensando na sua essência, sem que ela exista 2. Se não é a essência de uma coisa que a faz existir... 3. ... Então algo só começa a existir porque “recebe” existência de algo que já existe anteriormente 4. Esta cadeia não pode regredir perpetuamente, tem que terminar num ser auto-existente 5. Logo, tudo o que existe, excepto Deus, deve o seu existir, “aqui e agora”, a Deus O argumento existencial está relacionado com a Segunda Via (ver adiante) Só em Deus é que essência e existência são idênticas (“Ego sum qui sum”: Êxodo 3, 14) “Esse” / “Ser”: o acto de existir (conferido por Deus), ou seja, “ser” em acto “Ens” / “Ser”: o ente, i.e., algo que existe, a conjunção de uma essência com um acto de existir 26
  27. 27. Teologia Natural: as cinco vias de demonstração da existência de Deus (Suma Teológica, 1ª Parte, Questão 2, Artigo 3º; Suma contra os Gentios, Livro I, Capítulo 13) Estas demonstrações são filosóficas: fazem parte dos “preâmbulos da Fé” (“praeambula fidei”) A primeira via: pelo movimento (pela mudança) A segunda via: pela causalidade eficiente A terceira via: pela contingência (possibilidade) e pela necessidade A quarta via: pela gradação do ser A quinta via: pela causalidade final Os atributos divinos: Simplicidade (Questão 3), imaterialidade, incorporeidade Perfeição (Questão 4) Bondade (Questão 6) Infinitude (Questão 7) Omnipresença (Questão 8) Imutabilidade (Questão 9) Eternidade (Questão 10) Unidade (Questão 11) Omnisciência (Questão 14) Amor (Questão 20) Justiça e Misericórdia (Questão 21) Omnipotência (Questão 25) São Tomás de Aquino 27
  28. 28. Teologia Natural: as cinco vias de demonstração da existência de Deus Esquema de William A. Wallace Quatro Passos (demonstração em silogismo): 1. Existe um dado observável 2. Esse dado é um efeito 3. Esse efeito requer uma causa adequada 4. Logo, essa causa existe Exemplificados nas Cinco Vias: 1. Movimento 2. Causa eficiente 3. Contingência 4. Graus de perfeição 5. Ordem observável no universo E terminando num... 1. Primeiro motor imóvel 2. Primeira causa não causada 3. Ser necessário 4. Ser sumamente perfeito 5. Inteligência suprema São Tomás de Aquino 28
  29. 29. São Tomás de Aquino Dois tipos fundamentais de movimento (i.e., mudança: actualização de uma potência) Motu per se: A mulher que se levanta para ir abrir a porta move-se “per se” O cão que corre atrás da bola move-se “per se” A bola de bilhar que rola no pano da mesa move-se “per se” Etc… Motu per accidens: A criança que segue quieta no carro dos pais move-se “per accidens” O gato que sobe quieto no elevador move-se “per accidens” A brancura da bola de bilhar que rola no pano da mesa move-se “per accidens” Etc. Mas as coisas com movimento “per se” não são inamovíveis! A mulher que se levantou para ir abrir a porta “foi movida” pelo toque da campainha O cão que correu atrás da bola “foi movido” pela visão da bola A bola de bilhar foi movida pelo taco Tudo que se move (per se ou per accidens) foi, ou é, movido! 29
  30. 30. São Tomás de Aquino Dois tipos de causalidade eficiente Causalidade eficiente sequencial (“per accidens”): A maçã surge numa árvore, a macieira A macieira surge de uma semente A semente surge numa maçã Etc…, indefinidamente, pois o passado poderia ser infinito O efeito existe devido à causa, mas pode persistir sem ela Causalidade eficiente simultânea (“per se”): Uma maçã é feita de moléculas (a maçã é a actualização de uma potência das moléculas) As moléculas são feitas de átomos (cada molécula é a actualização de uma potência dos átomos) Os átomos são feitos de protões, electrões (leptões) e neutrões (cada átomo é a actualização de uma ...) Os protões e os neutrões são feitos de “quarks” (cada protão/neutrão é a actualização de uma potência ...) Etc… até se chegar a uma causa primeira e fundamental que garante a persistência da maçã O efeito existe devido à causa, mas não persiste sem ela As causas simultâneas não regridem perpetuamente! 30
  31. 31. A primeira via Demonstração pelo movimento (pela mudança): 1. Tudo o que está em movimento (em mudança) está a ser movido (mudado) por outra coisa (“omne quod movetur, ab alio movetur”, SCG) 2. Mas a série de motores e movidos não pode regredir infinitamente (“Sed non est procedere in infinitum”, SCG) Logo, tem que existir um primeiro motor que não é movido (“Ergo necesse est ponere aliquod primum movens immobile”, SCG) E esse primeiro motor todos entendem ser Deus (“et hoc omnes intelligunt Deum”, SCG) Objecções comuns: 1. Movimento circular (A. Kenny, 1969): quando alguém tecla, move os dedos, e estes movem-no Resposta: a alma move os dedos, que por sua vez, quando são movidos, movem o corpo, mas o corpo não é a alma; logo, não há circularidade no movimento 2. Se o Cosmos for eterno há uma cadeia infinita de motores e movidos Resposta: se o Cosmos fosse eterno, a cadeia de causas sequenciais (“per accidens”) seria eterna; mas a cadeia de causas simultâneas (“per se”) nunca pode ser eterna Logo, a primeira via é imune à possibilidade de o Cosmos ser eterno São Tomás de Aquino 31
  32. 32. A primeira via (reconstrução de Edward Feser) 1. A actualicação de potências é uma realidade nos eventos que conhecemos por experiência sensorial 2. A ocorrência de um evento E pressupõe a operação de uma substância S 3. A existência de S, a cada momento, pressupõe a simultânea actualização de uma potência 4. Nenhuma mera potência pode actualizar uma potência: apenas algo actual o pode fazer 5. Assim, qualquer actualizador A da existência de S tem que ser, ele mesmo, actual 6. A própria existência de A no momento em que actualiza S, por si mesma, pressupõe: a) ou a actualização simultânea de uma potência adicional b) ou que A seja puramente actual 7. No caso a) existe uma regressão de actualizadores simultâneos que, ou é infinita ou termina num actualizador puramente actual 8. Mas tal regressão seria uma série causal "per se", e tais séries não podem regredir infinitamente 9. Por isso, ou A é puramente actual, ou há um actualizador puramente actual que termina a regressão de actualizadores simultâneos 10. Assim, a ocorrência de E, e portanto a existência de S a cada momento, pressupõe a existência de um actualizador puramente actual ("actus purus") São Tomás de Aquino 32
  33. 33. A segunda via Demonstração da existência de Deus pela causalidade eficiente: 1. Nada é a causa eficiente de si mesmo (“quod aliquid sit causa efficiens sui ipsius”, SCG) 2. Mas a série de causas eficientes não pode regredir infinitamente (“Non autem est possibile quod in causis efficientibus prcedatur in infinitum”, SCG) Logo, tem que existir uma primeira causa eficiente (“Ergo est necesse ponere aliquam causam efficientem primam”, SCG) E a essa causa todos chamam Deus (“quam omnes Deum nominant.”, SCG) Objecções comuns: 1. E qual é a causa de Deus? Resposta: São Tomás não diz que tudo tem uma causa, mas apenas que “nada é a causa eficiente de si mesmo”, ou seja, que uma coisa não pode ser a causa de si mesma A causa eficiente é o que actualiza uma potência; ora em Deus não há potência 2. Se o Cosmos for eterno há uma cadeia infinita de motores e movidos Resposta: se o Cosmos fosse eterno, a cadeia de causas sequenciais (“per accidens”) seria eterna; mas a cadeia de causas simultâneas (“per se”) nunca pode ser eterna Logo, a primeira via é imune à possibilidade de o Cosmos ser eterno São Tomás de Aquino 33
  34. 34. A segunda via (reconstrução de Edward Feser) 1. A causalidade eficiente é uma realidade evidente pela experiência sensorial 2. Nenhuma coisa pode ser a causa eficiente de si mesma 3. A existência de S, a cada momento, pressupõe que a sua essência está conjugada com um acto de existir 4. Se S, de algum modo, fosse capaz de conjugar a sua essência a um acto de existir, então S seria a causa eficiente de si mesma 5. Por causa de 2., tem que existir uma causa eficiente C distinta de S que conjuga, a determinado momento, a essência de S a um acto de existir 6. A própria existência de C nesse momento pressupõe: a) ou que a essência de C está simultaneamente a ser conjugada a um acto de existir b) ou que a essência de C é idêntica ao seu acto de existir 7. No caso a) existe uma regressão de conjugadores simultâneos de essências e actos de existir que, ou é infinita ou termina em algo cuja essência é idêntica ao seu acto de existir 8. Mas tal regressão seria uma série causal "per se", e tais séries não podem regredir infinitamente 9. Por isso, ou a essência de C é idêntica ao seu acto de existir, ou existe algo cuja essência é idêntica à sua existência e que termina a regressão de conjugadores simultâneos 10. Assim, a existência de S a cada momento pressupõe a existência de algo cuja essência e existência sejam idênticas São Tomás de Aquino 34 A segunda via demonstra a impossibilidade da inércia existencial
  35. 35. São Tomás de Aquino Necessidade e Contingência Necessidade ("necessitas") São Tomás usa o termo de forma muito diferente face à filosofia moderna Não é definida como necessidade lógica Não é definida como "algo que existe em todos os mundos possíveis" Para São Tomás, "X existe necessariamente" implica: X não pode sofrer mudança substancial X é um ser subsistente X não é gerável nem corruptível X só passa a existir via um acto de criação "ex nihilo" X só deixa de existir via um acto de aniquilação total Aristóteles pensava o mesmo, excepto que não admitiu a possibilidade de criação e aniquilação Definir o que será um ente necessário não implica, obviamente, que exista um ente necessário Contingência ("contingentia") Todos os entes naturais, compostos de matéria e forma, são contingentes "A possibilidade de não-ser está apenas na natureza daquelas coisas cuja matéria está sujeita à contrariedade das formas (...)" – Quaestiones disputatae de potentia Dei, questão V, artigo 3 A finitude temporal da existência dos seres contingentes faz parte da sua natureza É uma contradição supor seres contingentes que existissem perpetuamente 35
  36. 36. A terceira via Demonstração da existência de Deus pela contingência (possibilidade) e pela necessidade: 1. Na Natureza há coisas que podem ser ou não ser (“quae sunt possibilia esse et non esse”, SCG) 2. Mas o que é possível não ser (o que é contingente), a certa altura não existe (“quod possibile est non esse, quandoque non est”, SCG) 3. Mas se tudo o que há é apenas possível (contingente), então a certa altura nada existia (“Si igitur omnia sunt possibilia non esse, aliquando nihil fuit in rebus”, SCG) 4. Então agora nada existiria, porque o que não existe só começa a existir por algo que já existe (“etiam nunc nihil esset, quia quod non est, non incipit esse nisi per aliquid quod est”, SCG) 5. Logo, nem todas as coisas são apenas possíveis (contingentes): tem que haver algo necessário (“Non ergo omnia entia sunt possibilia, sed oportet aliquid esse necessarium in rebus”, SCG) 6. Mas uma coisa necessária ou tem a sua necessidade causada por outra, ou não (“Omne autem necessarium vel habet causam suae necessitatis aliunde, vel non habet.”, SCG) Não pode haver regressão infinita: há algo necessário em si mesmo, ao que se chama Deus Objecções comuns: 3. Nesta premissa assume-se eternidade no passado, mas e se o Cosmos fosse finito no passado? Resposta: se o Cosmos tem início no tempo, então depende de uma causa necessária Se o passado fosse eterno, porque é que a certa altura nada existia? Resposta: se é possível que a certa altura nada existisse, então a certa altura nada existiu São Tomás de Aquino 36
  37. 37. A terceira via (reconstrução de Edward Feser) 1. As substâncias que conhecemos sensorialmente são contingentes pois sofrem geração e corrupção 2. A sua geração e corrupção pressupõe matéria e forma, que são necessárias (nem geradas nem corrompidas) 3. Mas a matéria é pura potência e as formas materiais, nelas mesmas, são meras abstracções, de forma a que matéria e forma não existem separadas, e mesmo quando existem juntas não podem depender uma da outra sob pena de circularidade 4. Por isso, matéria e forma não têm nelas mesmas a sua necessidade, que deriva de algo distinto 5. As substâncias materiais são compostos de essência e existência (tal como os anjos que são seres necessários e não divinos), e devem a sua composição de essência e existência a algo distinto delas mesmas 6. Os seres necessários e não divinos também derivam a sua necessidade de algo distinto deles mesmos 7. As regressões referidas em 5 e 6 são uma série causal "per se", e tais séries não podem regredir infinitamente 8. Por isso, deve existir algo que é necessário de forma absoluta, não derivando a sua necessidade de outro ente, e portanto, não sendo um composto de matéria e forma, ou de essência e existência São Tomás de Aquino 37
  38. 38. São Tomás de Aquino Os transcendentais Um transcendental é algo que é comum a todas as coisas Aristóteles concebeu-os como transcendendo (ὑπερβαίνειν, “huperbainein”) as suas dez categorias São Tomás de Aquino identifica cinco transcendentais: Coisa (“res”) Algo (“aliquid”) Um (“unum”) Bom (“bonum”) Verdadeiro (“verum”) Os transcendentais estão ancorados no ser (na existência) e são “convertíveis” no ser: “Coisa” e “Algo” são convertíveis no ser, pois aplicam-se a entes, coisas que existem “Um” como transcendental é distinto de “um” como conceito quantitativo (matemático): A indivisibilidade de um ente, qualquer ente, pressupõe uma unidade transcendental Seguindo a tradição clássica, São Tomás considera o “Bom” como o que corresponde idealmente à natureza ou essência de uma coisa: algo é tão melhor quão melhor corresponder a ela As coisas mais perfeitas são as que instanciam melhor uma natureza ou uma essência O “Verdadeiro” consiste na adequação de um intelecto a uma coisa como ela é (existe) 38
  39. 39. A quarta via Demonstração da existência de Deus pela gradação do ser: 1. Na Natureza há coisas mais e menos boas, e verdadeiras, e nobres, e assim por diante (“in rebus aliquid magis et minus bonum, et verum, et nobile, et sic de aliis huiusmodi”, SCG) 2. Mas o “mais” e o “menos” é atribuído a coisas diversas segundo a sua semelhança com o que é o máximo (“Sed magis et minus dicuntur de diversis secundum quod appropinquant diversimode ad aliquid quod maxime est”, SCG) 3. Uma coisa é tão mais quente quão mais se assemelha ao que é maximamente quente (“sicut magis calidum est, quod magis appropinquat maxime calido”, SCG) 4. Então existe algo que é o mais verdadeiro, o melhor, o mais nobre, e consequentemente, o máximo ente, pois as coisas maiores na verdade são maiores no ser (“Est igitur aliquid quod est verissimum, et optimum, et nobilissimum, et per consequens maxime ens, nam quae sunt maxime vera, sunt maxime entia”, SCG) 5. O máximo em cada género é a causa de tudo o que está nesse género (“Quod autem dicitur maxime tale in aliquo genere, est causa omnium quae sunt illius generis”, SCG) Logo, deve haver algo que é para todos os seres a causa do seu ser, bondade, e qualquer outra perfeição, e isso dizemos ser Deus (“Ergo est aliquid quod omnibus entibus est causa esse, et bonitatis, et cuiuslibet perfectionis, et hoc dicimus Deum”, SCG) Comentários: 5. Não apenas “causa formal” (exemplar) mas sobretudo “causa eficiente” Esta demonstração não compromete Tomás com o platonismo: as perfeições máximas (bondade, verdade, etc.) não são formas distintas, mas transcendentais convertíveis no “Ser” de Deus São Tomás de Aquino 39
  40. 40. A quarta via (reconstrução de Edward Feser) 1. As coisas que conhecemos sensorialmente exibem bondade, unidade, e outros transcendentais apenas até um certo grau limitado 2. Mas apenas o fazem na medida em que participam no que é bom, uno, etc., sem limitação 3. Mais ainda, os transcendentais são convertíveis entre si, e em última análise, com o próprio ser 4. Por isso, existe algo que é o próprio ser, a própria bondade, a própria unidade, e assim por diante, no qual as coisas da nossa experiência participam, cada uma no seu grau 5. Mas aquilo no qual as coisas participam é a sua causa eficiente 6. Por isso, a coisa que é o próprio ser, a própria bondade, a própria unidade, etc., é a causa eficiente das coisas que experienciamos São Tomás de Aquino 40
  41. 41. A quinta via Demonstração da existência de Deus pela causalidade final: 1. Vemos que as coisas sem inteligência, como os corpos naturais, agem para um fim (“Videmus enim quod aliqua quae cognitione carent, scilicet corpora naturalia, operantur propter finem”, SCG) 2. Isto é evidente pelo seu operar sempre, ou quase sempre, do mesmo modo, para obter o que é óptimo (“quod apparet ex hoc quod semper aut frequentius eodem modo operantur, ut consequantur id quod est optimum”, SCG) 3. E é patente que não é por acaso, mas por intenção, que atingem os fins (“unde patet quod non a casu, sed ex intentione perveniunt ad finem”, SCG) 4. O que não tem cognição, não pode tender a um fim senão se for dirigido por um ser cognoscente e inteligente, tal como a seta pelo arqueiro (“quae non habent cognitionem, non tendunt in finem nisi directa ab aliquo cognoscente et intelligente, sicut sagitta a sagittante”, SCG) Logo, existe um ser inteligente pelo qual todas as coisas naturais são ordenadas aos seus fins, e isso dizemos ser Deus (“Ergo est aliquid intelligens, a quo omnes res naturales ordinantur ad finem, et hoc dicimus Deum”, SCG) Costuma ser (erradamente) lida como o argumento do relojoeiro (Paley) ou um argumento de “design” Objecções comuns: 1. Como é que coisas sem inteligência agem para um fim? Se A causa regularmente B, então A é a causa eficiente de B Porque A causa regularmente B, a causa final (a finalidade) de A é causar B 3. Há fenómenos aleatórios na Natureza! São Tomás aceita a realidade do acaso: ele não diz que tudo tem uma causa final Ele constata que há causas eficientes (agentes) e só essas requerem uma causa final São Tomás de Aquino 41
  42. 42. A quinta via (reconstrução de Edward Feser) 1. É evidente pela experiência sensorial que causas naturais não inteligentes geram específicos efeitos ou gamas de efeitos 2. Tais regularidades são inteligíveis apenas no pressuposto de que estas causas eficientes inerentemente "apontam para" ou "direccionam-se para" os seus efeitos como se para um fim ou causa final 3. Por isso, há causas finais ou fins imanentes na ordem natural 4. Mas causas naturais não inteligentes apenas podem "apontar para" ou "direccionar-se para" tais fins se forem guiadas por uma inteligência 5. Por isso, existe tal inteligência [que orienta as causas naturais para os seus fins] 6. Mas como os fins ou causas finais em questão são inerentes às coisas em virtude das suas naturezas ou essências, a inteligência em questão tem que ser também a causa das coisas naturais terem as naturezas ou essências que têm 7. Isto implica que tal inteligência seja o ser que conjuga as suas essências com um acto de existência, e pela segunda via, apenas um ser no qual essência e existência sejam idênticas é capaz de o fazer 8. Por isso, a inteligência em questão é algo no qual essência e existência são idênticas São Tomás de Aquino 42
  43. 43. Os atributos divinos São Tomás rejeita a exclusividade da “via negativa” (ST, 1ª Parte, Questão 13, Artigo 2º) Simplicidade (Questão 3) Deus, sendo incorpóreo e imaterial, não tem partes: é sumamente simples Sendo simples, em Deus não há distinção entre atributos: a simplicidade de Deus é a perfeição de Deus, é a bondade de Deus, é a infinitude de Deus, é a omnipresença de Deus, etc… Os atributos têm significados diferentes, mas quando aplicados a Deus designam a mesma coisa Perfeição (Questão 4) Uma coisa é tão mais perfeita quão menos potência tiver; sendo acto puro, Deus é perfeito Bondade (Questão 6) Pela convertibilidade do transcendental “Bom” no ser, se Deus é o Ser, Deus é sumamente bom Infinitude (Questão 7) Entes feitos de forma e matéria são finitos porque limitados por essa matéria Entes feitos de forma mas sem matéria, como os anjos, são finitos porque limitados pela forma A forma de Deus é “ser”, é a existência, pelo que a forma de Deus não está limitada por nada Omnipresença (Questão 8) Deus está em tudo o que existe, não como essência ou acidente, mas como causa de existência Imutabilidade (Questão 9) Como a mudança é a passagem de potência a acto, sendo acto puro, Deus é imutável São Tomás de Aquino 43
  44. 44. O dilema de Eutifro: fatal para o atributo de Bondade? Falso dilema: há mais opções do que as duas apresentadas: 1. Aquilo que é bom, é amado por Deus porque é bom Implica que o ideal de Bem não estaria em Deus, mas “fora” de Deus 2. Aquilo que é bom, é bom porque é amado por Deus Implica o voluntarismo arbitrário: a vontade de Deus é que definiria o Bem Mas há uma terceira possibilidade, que permite escapar ao dilema: 3. Aquilo que é bom, é bom por referência a Deus, cuja essência é o sumo Bem A simplicidade de Deus implica que os atributos de Deus se referem à mesma essência Esta ideia é estrutural para a quarta via, a prova pela gradação dos seres São Tomás de Aquino «Considera esta questão: aquilo que é santo é amado pelos deuses porque é santo, ou é santo porque é amado pelos deuses?», Platão, “Eutifro”, diálogo entre Sócrates e Eutifro, 10a 44
  45. 45. Os atributos divinos Eternidade (Questão 10) Como Deus é imutável e o tempo não existe quando não há mudança, Deus é eterno Unidade (Questão 11) Só pode existir um ser em que essência e existência são idênticas, senão seriam indistinguíveis Se houvesse mais do que um Deus, seriam distintos por perfeições ou privações diferentes Mas o ser cuja essência é idêntica à sua existência tem todas as perfeições e nenhuma privação Omnisciência (Questão 14) Os seres inteligentes têm no seu intelecto a forma e a essência das outras coisas O conhecimento das formas e das essências implica imaterialidade do intelecto Deus é imaterial e a Sua inteligência é perfeita por Deus ser acto puro Amor (Questão 20) “O amor é o primeiro movimento da vontade e de todas as faculdades apetitivas” Em Deus há vontade (Questão 19), logo em Deus há amor A vontade de Deus é a causa primeira de todas as coisas, logo Deus ama todas as coisas Justiça e Misericórdia (Questão 21) A ordem e a estabilidade do Universo mostram a Justiça de Deus A tristeza humana é uma imperfeição, e é por um acto livre (misericordioso) que Deus a remove Omnipotência (Questão 25) Deus actua pela sua essência (existência) infinita, logo, o poder de Deus para actuar é infinito São Tomás de Aquino 45
  46. 46. O paradoxo da omnipotência Trata-se de uma família de paradoxos, inicialmente discutidos por Averróis e São Tomás de Aquino Estes paradoxos pretendem atacar a consistência do conceito de ente omnipotente São falsos paradoxos, que se desmontam por redução ao absurdo: 1. Ou o conceito de omnipotência inclui a possibilidade de concretizar contradições 2. Ou o conceito de omnipotência não inclui a possibilidade de concretizar contradições Vejamos o que acontece em cada caso: 1. Deus torna verdadeira (real) uma contradição: cria uma pedra que Ele não pode levantar; mas como Deus pode realizar contradições, Deus pode contradizer-se, e pegar na pedra e levantá-la! 2. “Uma pedra demasiado pesada para ser levantada por um ser omnipotente” é uma frase contraditória: tal coisa é impossível; não faz sentido falar em tornar possível o impossível, ou tornar verdadeiro o que é manifestamente falso por ser contraditório As contradições não são possibilidades: a omnipotência é o poder de fazer tudo o que é possível fazer São Tomás de Aquino «Pode um ser omnipotente criar uma pedra tão pesada que mesmo ele não a conseguiria levantar? Se sim, então ao não conseguir levantá-la, mostra que não é omnipotente. Se não a consegue criar, então não é omnipotente.» 46
  47. 47. Metafísica – Ontologia tomista São Tomás de Aquino Acto / Potência Essência / Existência Essência Necessidade / Contingência Matéria / Forma Substância / Acidentes Mudança Deus (intelecto e vontade livre) Acto puro Idênticas Simples Necessário Forma perfeita e incorruptível Substância Imutável Anjos (intelecto e vontade livre) Acto e Potência Distintas Simples Necessários Forma imperfeita e incorruptível Substância e acidentes Imutáveis na substância e mutáveis nos acidentes Seres humanos (intelecto, vontade livre e corpo) Acto e Potência Distintas Composta Alma necessária, mas corpo contingente Matéria e Forma incorruptível Substância e acidentes Mutáveis na substância e acidentes Outros seres naturais Acto e Potência Distintas Composta Contingentes † Matéria e Forma corruptível Substância e acidentes Mutáveis na substância e acidentes Matéria Potência N/A N/A Necessária N/A N/A N/A 47
  48. 48. Filosofia Natural tomista: o papel da Matemática em Física São Tomás não considera que a estrutura matemática seja imposta pela mente à realidade natural Pelo contrário, ele considera que é a mente que a extrai, por abstracção, da realidade natural Para São Tomás, a matemática tem duas funções distintas em Física: Sugerir possíveis (hipotéticas) explicações físicas adequadas aos fenómenos observados Apoiar o raciocínio físico na elaboração de explicações conclusivas (provas ou demonstrações) Alguns excertos exemplificativos, retirados de obras de São Tomás: São Tomás de Aquino 48 «A razão pode ser aplicada de dois modos. De um modo, para provar suficientemente um princípio, como em ciência natural, para provar suficientemente que o movimento dos céus é sempre de velocidade uniforme. De outro modo, não para fornecer uma prova suficiente de um princípio, mas para confirmar um princípio já estabelecido, mostrando a congruência dos seus resultados, como em astrologia [astronomia] a teoria dos excêntricos e dos epiciclos é considerada estabelecida, porque dessa forma é possível salvar as aparências sensíveis dos movimentos celestiais; não, contudo, como se essa prova fosse suficiente, porque poderiam ser salvas com outra teoria. (...)» - Suma Teológica, Parte I, Questão 32 (sobre o conhecimento da Trindade por via racional), Artigo 1, resp. à objecção 2. «(...) No entanto, não é necessário que as várias suposições [sobre os movimentos planetários] que eles [os matemáticos] concebem sejam verdadeiras - pois apesar de estas suposições salvarem as aparências [os fenómenos], não estamos no entanto obrigados a dizer que estas suposições são verdadeiras, pois talvez exista uma outra maneira, que os homens ainda não compreenderam, através da qual sejam salvas as aparências acerca das estrelas. (...)» - Comentário de São Tomás de Aquino à obra de Aristóteles, De Caelo, Lição 17, nº 2
  49. 49. Filosofia Natural tomista: o papel da Matemática em Física A propósito dos argumentos aristotélicos para a esfericidade da Terra, São Tomás comenta: Os seus argumentos físicos: Pelo movimento dos corpos graves: tendem para o centro da Terra, segundo o seu tamanho Pelo ângulo da sua queda: os corpos graves tendem perpendicularmente para aTerra Os seus argumentos matemáticos, baseados na astronomia São Tomás considera mais conclusivos os primeiros, porque permitem conhecer as causas físicas São Tomás de Aquino «E ele [Aristóteles] diz que todos os corpos pesados, de qualquer região dos céus, são movidos em direcção à terra "em ângulos idênticos", i.e., de acordo com ângulos rectos formados pela linha recta do movimento do corpo com a linha tangente à terra (o que é evidente pelo facto de que objectos pesados não permanecem firmemente na terra a não ser que estejam perpendiculares a ela); mas os corpos pesados não tendem para a terra "lado a lado", i.e., de acordo com linhas paralelas. Tudo isto está ordenado segundo o facto de que a terra é naturalmente apta a ser esférica: porque os corpos pesados têm uma idêntica inclinação para o lugar da terra independentemente da parte dos céus de que sejam largados. E então há uma apetência para acrescentos à terra serem feitos de igual modo em todos os lados, o que a faz ser esférica em forma. Mas se a terra fosse naturalmente lata [plana], como alguns pretenderam, os movimentos dos corpos pesados dos céus para a terra não seriam em ângulos semelhantes de todos os lados. Logo, a terra deve ser esférica, ou esférica por natureza. Ele acrescentou esta última frase por causa dos picos das montanhas e das depressões dos vales que parecem militar contra a terra rotunda. Mas tais [desvios] surgem por causa de algumas causas acidentais (...); nem isso corresponde a uma quantidade apreciável face à terra inteira (...). Assim, apesar de por acidente a terra não ser perfeitamente esférica por causa de acontecimentos casuais, porque é naturalmente apta a ser esférica, deveria, falando rigorosamente, ser chamada de esférica.» - Comentário de São Tomás à obra de Aristóteles, De Caelo, Livro 2, Lição 28. 49
  50. 50. O método demonstrativo “ex suppositione” Discutido no Comentário aos Analíticos Posteriores (Aristóteles), e no Comentário à Física (Aristóteles) Não confundir com o método hipotético-dedutivo, que também remonta a Aristóteles: 1. Partir de uma hipótese (“ὑπόθεσις”), assumi-la como verdadeira, e deduzir as suas consequências 2. Verificar se as observações correspondem às previstas (um bom exemplo: o sistema ptolemaico) Se P (hipótese teórica), então Q (consequência empiricamente verificável), ou PQ Se Q é verificada, então aumenta a probabilidade (verosimilhança) de P Se Q não é verificada, então P é falsa: ~Q~P Para Aristóteles e São Tomás, a “scientia” consiste em conhecer as causas dos fenómenos naturais Pergunta: é possível ter conhecimento científico (necessário) de fenómenos naturais contingentes? São Tomás responde afirmativamente, se for seguido o método “ex suppositione”: 1. Estudar os processos naturais e como eles terminam na maioria dos casos (efeitos observados) 2. “Recuar” dos efeitos observados para as causas antecedentes que os provocaram 3. “Ex suppositione”, se esses efeitos se verificarem, é necessário que tenham essas causas Se P (efeito observado), então Q (efeito deve-se necessariamente às suas causas), ou PQ Por exemplo: o arco-íris é um fenómeno natural contingente (não é necessário) Esse efeito (arco-íris) é causado pela reflexão e refracção dos raios de luz nas gotas de água Logo, sempre que, e quando, se observar um arco-íris, é certo que foi causado dessa forma Este método gera conhecimento científico (necessário), e não apenas probabilístico (verosímil) São Tomás de Aquino 50
  51. 51. A teologia da “imago dei” e os fundamentos da Ciência O judeo-cristianismo considera que o Homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26-27) A teologia da “imago dei” não pretende antropomorfizar Deus (Deus não tem um corpo humano) Ela afirma que no Homem há semelhanças analógicas com Deus: intelecto, livre arbítrio, moral, etc. Diz São Tomás, na Suma Teológica: A “imago dei”, acerca do intelecto humano, defende uma adequação desse intelecto à realidade “veritas est adaequatio rei et intellectus”, ou seja, a verdade é a adequação entre a coisa e o intelecto Este é o pressuposto filosófico (epistémico) sobre o qual assenta a confiança do cientista A Ciência pressupõe a adequação do intelecto humano à realidade Esse pressuposto é muito difícil (ou mesmo impossível) de explicar numa cosmovisão ateia Se não há uma inteligência superior na base de toda a realidade, é inexplicável que ela seja inteligível São Tomás de Aquino 51 «Dado que é dito do Homem que ele é imagem de Deus por causa da sua natureza intelectual, ele é mais perfeitamente como Deus de acordo com o que ele é mais capaz de imitar Deus na sua natureza intelectual. A natureza intelectual [do Homem] imita principalmente Deus nisto, em que Deus Ele mesmo compreende e ama.»
  52. 52. 52 1. Introdução 2. O cristianismo primitivo e o conhecimento grego 3. Santo Agostinho 4. Ciência Medieval 5. São Tomás de Aquino 6. Conclusão Índice 52
  53. 53. Conclusão «Queremos, e pelo presente mandamos, que adopteis a doutrina do bem-aventurado Tomás, como verídica e católica, e procureis ampliá-la com todas as vossas forças» - Papa Urbano V à Universidade de Toulouse, 3 de Agosto de 1368 53 «A doutrina deste [S. Tomás] tem sobre as demais, exceptuada a canónica, propriedade nas palavras, ordem nas matérias, verdade nas sentenças; de tal sorte que nunca aqueles que a seguirem se verão apartados do caminho da verdade, e sempre será suspeito de erro aquele que a impugnar» - Papa Inocêncio VI, Sermão de São Tomás A importância dada pelo Magistério à obra de São Tomás
  54. 54. Conclusão 54 «(…) com grave empenho exortamos a que, para defesa e glória da fé católica, pelo bem da sociedade e pelo incremento de todas as ciências, renoveis e propagueis vastamente a áurea sabedoria de São Tomás. Dizemos a sabedoria de São Tomás, pois se há alguma coisa tratada pelos escolásticos com demasiada subtileza ou ensinada de maneira inconsiderada; se há algo menos concorde com as doutrinas manifestas das últimas épocas, ou, finalmente, não louvável de qualquer modo, de nenhuma maneira está em nosso ânimo propô-lo para ser imitado em nossa época. Por outro lado, procurem os mestres sabiamente eleitos por vós inculcar nos ânimos dos seus discípulos a doutrina de Tomás de Aquino e ponham em evidência sua solidez e excelência sobre todas as demais. Que as academias fundadas por vós ou aquelas que havereis de fundar ilustrem e defendam a mesma doutrina e a usem para a refutação dos erros que circulam.» - Encíclica Aeterni Patris, Papa Leão XIII, 4 de Agosto de 1879 A importância dada pelo Magistério à obra de São Tomás
  55. 55. Conclusão 55 A importância dada pelo Magistério à obra de São Tomás «Depois, para aclarar, quanto for possível, os mistérios da salvação de forma perfeita, aprendam a penetrá-los mais profundamente pela especulação, tendo por guia Santo Tomás, e a ver o nexo existente entre eles» - Optatam Totius (“Sobre a formação sacerdotal”), Concílio Vaticano II, 28-10-1965 «Mais ainda naquelas que dela dependem, procura de modo orgânico que cada disciplina seja de tal modo cultivada com princípios próprios, método próprio e liberdade própria da investigação científica, que se consiga uma inteligência cada vez mais profunda dela, e, consideradas cuidadosamente as questões e as investigações actuais, se veja mais profundamente como a fé e a razão conspiram para a verdade única, segundo as pisadas dos doutores da Igreja, mormente de S. Tomás de Aquino» - Gravissimum Educationis (“Sobre a educação cristã”), Concílio Vaticano II, 28-10-1965

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