Módulo V - O caso Galileu - Parte 1

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O caso Galileu é tido como o exemplo paradigmático da tese do conflito, como prova maior de que a Igreja Católica é inimiga da ciência. A ênfase que tantos dão a este caso é sintoma de que há fraqueza estatística na tese do conflito: como não se encontram facilmente mais casos de conflito real entre a Igreja Católica e um cientista, as críticas tendem a focar-se exclusivamente neste caso. No entanto, analisado à lupa, nem mesmo o caso Galileu pode ser usado como um exemplo de conflito entre Igreja Católica e ciência. O caso Galileu é muito complexo, e o objectivo deste módulo, e do módulo seguinte, é sobretudo o de mostrar essa complexidade, que impede conclusões simplistas e redutoras. Na primeira parte deste módulo, analisam-se três nomes essenciais: Copérnico, Brahe e Kepler, cuja vida e obra é fundamental para a compreensão do caso Galileu. Desta primeira parte, o essencial a reter está no apoio das autoridades católicas à obra magna de Copérnico, assim como nas razões que levaram a esmagadora maioria dos sábios da época a rejeitar o heliocentrismo (apenas dez adeptos de Copérnico no século XVI): razões de senso comum, mas também razões decorrentes das limitações técnicas dos instrumentos da época, e sobretudo da profunda incompatibilidade entre a física aristotélica da época e o novo modelo proposto por Copérnico. Na segunda parte, analisa-se a vida de Galileu até aos acontecimentos de 1616, dando especial detalhe à importância dos jesuítas do Collegio Romano na formação do pensamento científico de Galileu, e vincando aquele que foi o momento de glória da vida de Galileu (1610-1611), com a sua descoberta dos satélites de Júpiter, das irregularidades da superfície lunar, e das fases de Vénus, assim como a sua recepção apoteótica em Roma por parte das autoridades maiores da Igreja Católica. O módulo encerra com os acontecimentos que vão determinar os problemas de Galileu com a Inquisição: a discussão escriturística, despoletada por uma conversa num jantar no Palazzo Medici em Florença em Dezembro de 1613, jantar em que estão presentes Cosimo Boscaglia, Professor de Filosofia em Pisa, que alega que o modelo heliocêntrico contradiz a Bíblia, Benedetto Castelli, amigo de Galileu, que, contra Boscaglia, defende não existirem contradições, e a Grã-Duquesa da Toscânia, Cristina de Lorena, curiosa espectadora da polémica, e mãe do Grão-Duque Cosme II, mecenas e protector de Galileu.

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  • Fontes:http://en.wikipedia.org/wiki/Accademia_dei_Linceihttp://en.wikipedia.org/wiki/Federico_Cesi"Istoria e dimostrazione intorno alle macchie solari"http://www.rarebookroom.org//Control/galsol/index.html“Il Saggiatore”http://en.wikipedia.org/wiki/The_Assayer
  • Fontes:http://en.wikipedia.org/wiki/Christoph_Scheinerhttp://www.accademiafisiocritici.it/sole/rosa_ursina.htmlSobre as manchas solares e a polémica com Scheiner, ver ainda Henrique Leitão, prefácio da tradução portuguesa do “Mensageiro das Estrelas”, de Galileu, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 3ª Edição, Maio de 2010, pp. 99-101.
  • Fontes:Annibale Fantoli, Galileo: for Copernicanism and for the Church, Vatican Observatory Foundation, Vaticano, 2003, pp. 101-109.Walter Brandmüller, Galilei e la Chiesa, ossia il diritto ad errare, Libreria Editrice Vaticana, 1992, Vaticano, pp. 40-44. A citação do Cardeal Del Monte surge na página 43.Sobre Galileu em Roma, ver ainda Henrique Leitão, prefácio da tradução portuguesa do “Mensageiro das Estrelas”, de Galileu, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 3ª Edição, Maio de 2010, pp. 113-117.Algumas datas foram recolhidas deste site: http://www.unav.es/cryf/galileoaffair.htmlAlguns detalhes sobre as visitas de Galileu e a demonstração do telescópio nos jardins do Cardeal Ottavio Bandini em William Shea e Mariano Artigas, Galileo in Rome: the rise and fall of a troublesome genius, pp. 28-34. Parte desta obra está acessível via Google Books: http://books.google.pt/books?id=8Gb_5IXzQMgC
  • Fontes:
  • Fontes:http://en.wikipedia.org/wiki/Christina,_Grand_Duchess_of_Tuscanyhttp://en.wikipedia.org/wiki/File:Christine_of_Lorraine_Medici2.jpg
  • Módulo V - O caso Galileu - Parte 1

    1. 1. Curso Ciência e Fé Módulo V – O Caso Galileu (Parte 1) © Bernardo Motta bmotta@observit.pt http://espectadores.blogspot.com
    2. 2. Curso Ciência e Fé I – Introdução II – Filosofia Grega e Cosmologia Grega III – Filosofia Medieval e Ciência Medieval IV – Inquisição e Ciência V e VI – O Caso Galileu VII – A Revolução Científica VIII – Darwin e a Igreja Católica IX – Os Argumentos Cosmológico e Teleológico X – Filosofia da Mente e Inteligência Artificial XI – Milagres e Ciência XII – Concordância entre Cristianismo e Ciência
    3. 3. 3 1. Introdução 2. Do nascimento de Galileu até 1616 3. Os acontecimentos de 1616 4. De 1616 até ao processo de 1633 5. Da sentença de 1633 até à morte de Galileu 6. O caso Galileu até aos nossos dias 7. Conclusão Índice
    4. 4. Nicolau Copérnico (1473-1543) 1473: nasce em Toruń, na Polónia; tem familiares na Ordem Terceira de S. Domingos; Nicolau e o seu irmão André, seguem a carreira eclesiástica; sua irmã mais velha torna-se freira e chega a Abadessa de Culm 1491: Nicolau é aluno da Universidade de Cracóvia 1497: o Bispo de Cracóvia envia Nicolau e o seu irmão para estudar para Itália (Universidade de Bolonha); Nicolau estuda, entre outras coisas, Direito Canónico 1500: Nicolau e o seu irmão estão em Roma para assistir ao Jubileu; Nicolau dá palestras sobre astronomia na Cidade Eterna 1501-1503: estuda Medicina e Jurisprudência em Pádua e Ferrara 1506-1512: exerce medicina em Heilsberg 1514: Leão X pede a opinião técnica de Copérnico acerca da revisão do calendário litúrgico; Copérnico tem um papel importante na reforma do calendário gregoriano (final do séc. XVI) Final da década de 1520: Nicolau torna-se administrador da diocese de Frauenburg 1537: o rei da Polónia, Segismundo, coloca Copérnico na lista de possíveis sucessores para o então vago cargo episcopal em Ermlund; especula-se que, por isso, ele teria recebido as ordens maiores; no entanto, não há registo histórico de uma ordenação sacerdotal de Copérnico Introdução 44
    5. 5. O “De Revolutionibus” 1543: é impressa em Nuremberga a sua principal obra De revolutionibus orbium coelestium, “Das revoluções dos orbes celestes”, dedicada ao Papa Paulo III, na qual expõe o novo modelo Publicada sob pedido insistente do Cardeal Schömberg e Tiedemann Giese, Bispo de Culm Copérnico invocou a protecção papal para a obra, na esperança de a proteger dos ataques dos “matemáticos” (categoria que incluía certos filósofos que procuravam ridicularizar o novo modelo) Como todos os astrónomos antes de Kepler, Copérnico vai assumir órbitas circulares no seu modelo «Talvez alguns balbuciadores que se dizem juízes em astronomia sendo todavia completamente ignorantes sobre o tema e, distorcendo gravemente alguma passagem da Escritura para os seus fins, se atreverão a encontrar falhas na minha obra e censurá-la. Eu ignoro-os ao ponto de desprezar o seu criticismo como infundado. Pois é sabido que Lactâncio, um ilustre escritor mas dificilmente um astrónomo, fala de forma bastante infantil acerca da forma da Terra, quando goza com os que declaram que a Terra tem a forma de um globo. Assim, os estudiosos não devem ficar surpreendidos se alguma dessas pessoas me ridicularizar. A astronomia é escrita para astrónomos.» Introdução 5 Porque assume órbitas circulares, o modelo de Copérnico, para oferecer a mesma precisão do ptolemaico, precisa de um ou mais epiciclos por órbita! 5
    6. 6. O “De Revolutionibus” Apesar da forte oposição ao heliocentrismo feita por teólogos e autoridades protestantes, do lado católico, nenhum Papa, nenhuma Congregação levantou qualquer questão à obra de Copérnico até 1616 Copérnico morre a 24 de Maio de 1543, em Frombork, diz-se que segurando um exemplar da sua obra O prefácio de Andreas Osiander (à revelia de Copérnico) em muito contribuiu para apaziguar as críticas: Copérnico, que estava convicto da realidade do seu modelo, teria considerado o prefácio como traição O sábio polaco, e a sua obra, gozaram de grande prestígio até à crise do caso Galileu Introdução 6 «Ao Leitor, acerca das hipóteses desta obra: (…) É dever do astrónomo compor a história dos movimentos celestiais através de cuidadoso e experiente estudo. Então, ele deve conceber as causas destes movimentos ou hipóteses acerca deles. Dado que ele não pode de forma alguma chegar às verdadeiras causas, ele irá adoptar quaisquer suposições que permitam que os movimentos sejam calculados correctamente a partir dos princípios da geometria [quer] para o futuro assim como para o passado. O presente autor executou estes deveres de forma excelente. Pois estas hipóteses não têm que ser verdadeiras ou mesmo prováveis. Pelo contrário, se elas fornecem um cálculo consistente com as observações, isso é suficiente. (…)» 6
    7. 7. O “De Revolutionibus” Introdução 7
    8. 8. O “De Revolutionibus” Introdução «In medio uero omnium reſidet Sol. Quis enim in hoc pulcherrimo templo lampadem hanc in alio uel meliori loco poneret, quàm unde totum ſimul poſsit illuminare.» «No verdadeiro meio de tudo reside o Sol. Pois, neste belíssimo templo, quem colocaria esta lâmpada em melhor lugar do que aquele de onde tudo pode iluminar de igual modo?» 8
    9. 9. Tycho Brahe (1546-1601) Genial astrónomo dinamarquês (luterano) 1573: De nova stella, acerca da observação de uma supernova em Cassiopeia Brahe defende que esta “nova estrela” refuta a imutabilidade dos céus Pela ausência de paralaxe, defende que não pode ser um fenómeno atmosférico 1576-1580: Construção de Uranienborg, na ilha de Hven (hoje Suécia) 1581: Construção do observatório subterrâneo de Stjerneborg (ilha de Hven) 1598: Astronomiae instauratae mechanica, onde descreve os instrumentos Reuniu um conjunto único, pela sua precisão, de dados astronómicos Tycho recorreu a um quadrante mural para medir graus de elevação Os dados foram usados pelo seu assistente, Johannes Kepler (1571-1630) Kepler publica em 1627 um importante catálogo de estrelas compilado ao longo de décadas com base nos dados de Tycho, as Tabulae Rudolphinae Brahe queria dedicar a obra ao Imperador Rodolfo II (1552-1612), mas em 1627 o Imperador já era Fernando II (1578-1637), a quem a obra é dedicada Introdução 99
    10. 10. Uranienborg (“Castelo de Urano”) Palácio construído para ser o observatório astronómico de Tycho, na ilha de Hven (Oresund) Construído entre 1576 e 1580 Introdução 10
    11. 11. Stjerneborg (“Castelo das estrelas”) Observatório subterrâneo de Tycho, construído perto de Uraniborg, por volta de 1581 Introdução 11
    12. 12. Astronomiae Instauratae Mechanica (1598) Introdução 12
    13. 13. O sistema ticoniano Introdução 13
    14. 14. Johannes Kepler (1571-1630) Genial matemático e astrónomo alemão (luterano) 1596: Kepler publica a sua importante obra sobre as órbitas planetárias, Mysterium Cosmographicum, que reflecte forte influência platónica 1600-1612: Trabalha em Praga como ajudante de Tycho Brahe 1604: Regista o aparecimento de uma supernova na Via Láctea, constelação de Ofiúco (SN1604), fenómeno que refuta a imutabilidade aristotélica dos céus 1609: Kepler publica a sua obra-prima, Astronomia Nova, fruto de dez anos de observações a Marte, enquanto trabalhava para Tycho Brahe A obra contém as primeiras duas leis de Kepler sobre o movimento planetário: 1. Os planetas movem-se em órbitas elípticas com o Sol num dos focos 2. A linha Planeta-Sol varre áreas iguais em iguais intervalos de tempo A proposta das órbitas elípticas não foi bem aceite: preferiam-se as órbitas circulares dos epiciclos Introdução 1414
    15. 15. Introdução «Entre 1543 e 1600, não consigo encontrar mais de dez pensadores que adoptaram as principais teses da teoria heliocêntrica. Estes incluem Thomas Digges e Thomas Hariot em Inglaterra; Giordano Bruno e Galileo Galilei em Itália; Diego de Zuñiga em Espanha; Simão Stevino nos Países Baixos; e, na Alemanha, o maior grupo – Georg Joachim Rheticus, Michael Maestlin, Christopher Rothmann, e Johannes Kepler» - Robert Westman (Univ. California, San Diego) 15 Se nós nesta sala fôssemos todos intelectuais da segunda metade do século XVI, seríamos todos adeptos do geocentrismo: estatisticamente, nenhum de nós seria adepto do modelo de Copérnico! Os dez adeptos do modelo de Copérnico no século XVI... 15
    16. 16. Argumentos astronómicos a favor do geocentrismo Paralaxe estelar Constância da luminosidade aparente das estrelas Tamanho (espúrio) dos discos estelares vistos através do telescópio (argumento de Riccioli, 1651) Visibilidade simultânea de exactamente metade da esfera celeste Excentricidades de Marte e Vénus e apogeu de Vénus Argumentos físicos a favor do geocentrismo Posição inferior dos corpos pesados e densos Propriedades da peneira Argumentos físicos contra o movimento diurno da Terra Aspectos gerais: senso comum, ausência de ventos contrários Queda vertical dos corpos Movimento dos projécteis Argumentos astronómicos contra o movimento anual da Terra Constante latitude do nascimento e ocaso das estrelas fixas. Constante altura do pólo celeste Desigualdade da noite e dia Movimento dos cometas (Tycho) Argumentos físicos contra o movimento da Terra em geral Corpos pesados preferem o repouso O movimento natural A luminosidade dos corpos Introdução 1616
    17. 17. Introdução O fenómeno da paralaxe estelar 17
    18. 18. Para se ter uma ideia da precisão, a estrela mais próxima da Terra, Proxima Centauri, ou “a Cen C” (Alfa Centauro é um sistema de três estrelas, sendo C a mais pequena), apresenta um desvio de paralaxe inferior a um minuto angular (0,772 arco-segundos). Ou seja, o desvio angular da posição aparente desta estrela, medido em posições opostas da órbita da Terra, é inferior a um arco-minuto, algo que é praticamente indetectável, e isto para a estrela mais próxima. Introdução O fenómeno da paralaxe estelar 18
    19. 19. Passagens bíblicas usadas para defender o geocentrismo Josué 10:12-13: «No dia em que o Senhor entregou os amorreus nas mãos dos filhos de Israel, Josué falou ao Senhor e disse, na presença dos israelitas. “Detém-te, ó Sol, sobre Guibeon; e tu, ó Lua, sobre o vale de Aialon.” E o Sol deteve-se, e a Lua parou até o povo se ter vingado dos seus inimigos. Isto está escrito no Livro do Justo. O Sol parou no meio do céu e não se apressou a pôr-se durante quase um dia inteiro.» Salmos, 19 [18]: 5-7: «[...] Deus fez, lá no alto, uma tenda para o Sol, donde ele sai, como um esposo do seu leito, a percorrer alegremente o seu caminho, como um herói. Sai de uma extremidade do céu e, no seu percurso, alcança a outra extremidade. Nada escapa ao seu calor». Salmos, 93 [92]:1: «O Senhor é rei, vestido de majestade; revestido e cingido de poder está o Senhor. Firmou o universo, que não vacilará.»´ Salmos, 104 [103]: 5: «Fundaste a terra sobre bases sólidas, ela mantém-se inabalável para sempre.» Eclesiastes, 1: 4-5: «Uma geração passa, outra vem; e a terra permanece sempre. O Sol nasce e o Sol põe-se e visa o ponto donde volta a despontar.» Introdução 1919
    20. 20. 20 1. Introdução 2. Do nascimento de Galileu até 1616 3. Os acontecimentos de 1616 4. De 1616 até ao processo de 1633 5. Da sentença de 1633 até à morte de Galileu 6. O caso Galileu até aos nossos dias 7. Conclusão Índice 20
    21. 21. Introdução 21 República de Veneza 697-1797 Capital: Veneza Pádua Grão-Ducado da Toscânia 1569-1849 Capital: Florença Pisa (n. Galileu) Estados Pontifícios 754-1870 Capital: Roma Bolonha (1506-) Ducado de Mântua 1530-1708 Capital: Mântua Divisão política durante o Renascimento: os mecenas de Galileu
    22. 22. Galileu Galilei (1564-1642) Galileu nasce a 15 de Fevereiro em Pisa, filho de Vincenzo Galilei 1575-78: recebe instrução com os beneditinos de Vallombrosa 1581-87: estuda em Pisa 1587: primeira viagem a Roma; conhece o astrónomo e matemático jesuíta Cristóvão Clávio (1537/38-1612); candidata-se ao cargo de professor de Matemática na Universidade de Siena, sem sucesso 1588: candidata-se a docente em Pisa, Siena, Pádua, Bolonha, e Florença; obtém em 1589 o cargo de professor de Matemática em Pisa, onde ficará até 1592 1591: morre o pai de Galileu 1592: obtém a cátedra de Matemática em Pádua, que manterá até 1610 1595: desenvolve a sua teoria sobre as marés, que implicaria o movimento da Terra; deverá datar desta época a sua adesão ao modelo de Copérnico 1603: Federico Cesi funda a Accademia dei Lincei (“Academia dos Linces”), com o patronato do Papa Clemente VIII. A instituição viria a ser dissolvida logo após a morte de Cesi, em 1630. 1606: nasce o filho de Galileu, Vincenzo Do nascimento de Galileu até 1616 2222
    23. 23. De onde vem o método demonstrativo de Galileu Galilei? Trata-se de uma questão muito complexa e longe de estar fechada Duhem (a tese “pioneira”): uma ligação aos “Doctores Parisiensis” Koyré: correntes neoplatónicas e neopitagóricas em voga na altura Randall / Edwards: aristotelismo de Zabarella (Pádua) Wallace: aristotelismo-tomismo do Collegio Romano (método “ex suppositione”) Galileu não usou o moderno método hipotético-dedutivo Esse método não é demonstrativo (dicotomia entre verosimilhança e falsificabilidade) Galileu orgulhava-se de ter criado um novo método demonstrativo Quer o método “ex suppositione” clássico, quer a variante adoptada por Galileu são métodos demonstrativos, variantes do silogismo “modus ponendo ponens” Influência forte do método experimental de Arquimedes Do nascimento de Galileu até 1616 2323
    24. 24. Galileu (1564-1642) e os Jesuítas do Collegio Romano 1534: Inácio de Loyola (1491-1556) funda o primeiro grupo com seis companheiros, em Montmartre 1540: Paulo III confirma a nova ordem religiosa 1551: Inácio funda o Collegio Romano 1567: O Collegio conta com mais de mil alunos O Ratio Studiorum de 1566 diz sobre a matemática: Predominava então no Collegio a visão do filósofo e professor de Lógica Paolo della Valla Segundo Valla, as abstracções matemáticas, tirando a quantidade, têm pouco a ver com a natureza Cristóvão Clávio (1537-1612) vai mudar de forma radical o papel da Matemática no Collegio Romano 24 «Acerca das matemáticas, o matemático deve ensinar, por esta ordem, os [primeiros] seis livros de Euclides, aritmética, as esfera [de Sacrobosco], cosmografia, astronomia, a teoria dos planetas, as Tabelas Afonsinas, óptica e o registo do tempo. Apenas no segundo ano os alunos de filosofia ouvirão estas aulas, mas por vezes, com permissão, também os estudantes de dialéctica.» Do nascimento de Galileu até 1616 24
    25. 25. Do nascimento de Galileu até 1616 A rede jesuíta de ensino Presença em três continentes: Europa, América do Sul e Ásia 1540: Paulo III reconhece a nova ordem 1552: Brasil (via Portugal) 1568: México (via Castela) 1572: Perú (via Castela) 1583: Goa (via Portugal) 1605: Filipinas (via Castela) 1618: Japão (via Portugal) 25
    26. 26. «The single most important contributor to the support of the study of physics in the seventeenth century was the Catholic Church and, within it, the Society of Jesus» (p. 2) «O mais importante contribuidor para o apoio do estudo da física no séc. XVII foi a Igreja Católica e, nela, a Companhia de Jesus» (p. 2). J. L. Heilbron, Electricity in the 17th and 18th Centuries 26 Do nascimento de Galileu até 1616 A rede jesuíta de ensino 26
    27. 27. Do nascimento de Galileu até 1616 A rede jesuíta de ensino – o Marquês de Pombal e a Universidade de Coimbra 1759: Pombal expulsa os Jesuítas, encerra a Universidade de Évora, e faz uma “reforma” à de Coimbra 1771: “Compêndio histórico do estado da Universidade de Coimbra”, libelo contra os “velhos estatutos” 1772: Novos estatutos da Universidade de Coimbra; restrições (sociais e financeiras) à admissão Quebra no número médio de alunos por ano após a “reforma” da Universidade de Coimbra: -70% ! 0 500 1.000 1.500 2.000 2.500 3.000 Novos alunos (inicial) Novos alunos (final) Total de alunos (média anual) 1577-1625 1626-1669 1670-1717 1718-1770 1772-1820 27
    28. 28. Galileu (1564-1642) e os Jesuítas do Collegio Romano Cristóvão Clávio (1538-1612) foi professor de Matemática no Collegio Nasceu em Bamberg, na Alemanha 1555: Inicia o percurso de formação Jesuíta 1556-60: A estudar no Colégio Jesuíta da Universidade de Coimbra 1560: Muda-se para Roma, para estudar Teologia no Collegio 1564: Ordenado sacerdote; começa a dar aulas de Matemática no Collegio Obras: Comentários à Esfera de Sacrobosco (1570) Comentários aos Elementos de Euclides (1574, 1ª edição) Na 2ª edição (1589), faz uma vigorosa defesa da Matemática Geometria Practica (1604), Álgebra (1608) As obras matemáticas de Clávio foram usadas em todo o Mundo nos institutos da rede de ensino jesuíta (Ratio Studiorum de 1586 e seguintes) 1582: Matemático sénior da Comissão de reforma do Calendário (4 de Outubro de 1582 passa a 15 de Outubro no calendário gregoriano) Introduz a regra actual para o cálculo dos anos bissextos 28A cratera “Clavius” na Lua Do nascimento de Galileu até 1616 28
    29. 29. Galileu (1564-1642) e os Jesuítas do Collegio Romano Enquanto leccionava em Pisa (1589-1591), Galileu escreveu estas notas: 1588-89: questões sobre nos Analíticos Posteriores (MS 27) 1590: questões sobre o De caelo e o De generatione (MS 46) 1590: questões sobre movimento local, esboços de um diálogo (MS 71) William Wallace mostra que elas se baseiam em textos do Colégio Romano As questões lógicas do MS 27 espelham um curso de Valla (1587-88), via plágio de Ludovico Carbone As questões físicas permitem paralelos com as obras dos professores Menu, Valla, Vitelleschi, Rugerius, Pereirus e Del Bufalo Sobre os problemas da queda dos corpos, Rugerius refere as soluções de Soto e Toledo: Domingos de Soto (1494-1560), Filosofia em Alcalá (1520), Teologia em Salamanca (1532) Soto foi o primeiro a afirmar que a queda dos corpos é uniformemente acelerada Francisco de Toledo (1532-1596), aluno de Soto, exegeta bíblico e professor no Collegio Sobre o movimento dos projécteis, Menu refere os alunos às obras de Temístio, Simplício, Filopono, Alberto Magno, Buridan, Alberto da Saxónia, Gratiadei, Paulo de Veneza, Scaliger, Domingos de Soto 29 Do nascimento de Galileu até 1616 29
    30. 30. A “biblioteca medieval” de Galileu (1564-1642) As obras de Arquimedes de Siracusa (287-212 a.C.) Galileu usa uma edição veneziana (Paulo Manúcio, 1558) Preservadas durante a Idade Média pelo arquitecto bizantino Isidoro de Mileto (c. 530) Traduções para árabe por Ibn Qurra (836-901) e para latim por Gerardo de Cremona (c.1114-1187) Elementos de Euclides (séc. IV a.C.), trad. Campano de Novara Obras de Ptolomeu (vários) Os tratados de óptica de Alhazen (965-c. 1040) Tábuas Afonsinas (Afonso X de Castela e Leão, 1221-1284) Os tratados de óptica de Vitelo (c.1230-c.1280/1314) 30 Do nascimento de Galileu até 1616 30
    31. 31. Galileu e a Universidade de Pádua (1592-1610) Já existia pelo menos em 1222, fundada por um grupo de alunos e professores da Universidade de Bolonha Duas faculdades: Direito e Teologia 1399: Divide-se em Direito, Artes e Teologia 1405: Pádua fica sob domínio da República de Veneza Muito marcada pelo aristotelismo e pelo averroísmo Herdou de Oxford/Paris a “nova física” do movimento Nos séculos XV e XVI desenvolveu a Medicina Figuras proeminentes: 1417-25: Nicolau de Cusa (1401-1464), Cardeal 1501-03: Nicolau Copérnico (1473-1543) 1536-43: André Vesálio (1514-1564) 1551-62: Gabriel Fallopio (1523-1562) 1559-1604: Jerónimo Fabrizio d’Acquapendente (1537-1619) 1592-1610: Galileu Galilei (1564-1642) Nicolau de Cusa adopta a teoria do ímpeto (Buridan, etc.) e faz trabalho pioneiro na área do cálculo infinitesimal 31O Teatro Anatómico de Fabrizio (1594) 31 Do nascimento de Galileu até 1616
    32. 32. Galileu e a Universidade de Pádua (1592-1610) 1606: obra científica dedicada ao Grão-Duque da Toscânia: a estratégia de ascensão social de Galileu 1607: o caso de plágio do jovem milanês Baldassare Capra (1580-1626), que acaba humilhado por Galileu 32 Do nascimento de Galileu até 1616
    33. 33. Os vários tipos de lente Do nascimento de Galileu até 1616 33
    34. 34. Lentes convergentes e lentes divergentes Do nascimento de Galileu até 1616 34
    35. 35. O telescópio galileano Objectiva convergente (plano-convexa ou biconvexa) e ocular divergente (plano-côncava ou bicôncava) Campo de visão muito estreito (Galileu sofreu!), mas a imagem sai direita Do nascimento de Galileu até 1616 35
    36. 36. O telescópio kepleriano (cfr. Dioptrice, 1611) Primeiro construtor: Christoph Scheiner, Rosa Ursina (1630) Maior campo de visão, mas sofre de aberração cromática (requer maiores distâncias focais, f1/f2) Imagem sai invertida 1. Objectiva divergente (plano-convexa) 2. Ocular divergente (plano-convexa) Do nascimento de Galileu até 1616 36
    37. 37. O telescópio kepleriano (cfr. Dioptrice, 1611) Christiaan Huygens (1629-1695) descobre, em 1655, Titã, a maior lua de Saturno Giovanni Cassini (1625-1712) descobre, em 1672, Reia, a segunda maior lua de Saturno O telescópio kepleriano de Huygens tinha 4 metros de comprimento e o de Cassini tinha 11 metros O telescópio de Johannes Hevelius (1611-1687), com 45 metros de comprimento: frágil e pouco eficaz! Do nascimento de Galileu até 1616 37
    38. 38. Ao serviço da Sereníssima: Galileu apresenta o telescópio ao Doge Do nascimento de Galileu até 1616 38Galileu apresenta o telescópio ao Doge Leonardo Donato (1536-1612)
    39. 39. Ao serviço da Sereníssima: Galileu apresenta o telescópio ao Doge Rascunho da carta enviada a 24-08-1609 Do nascimento de Galileu até 1616 39 «Mui Sereno Príncipe, Galileo Galilei prostra-se humildemente ante Sua Alteza, (...) tendo decidido presenteá-La com um telescópio que será grande ajuda em empreitadas marítimas e terrestres. Asseguro-Vos que manterei esta nova invenção como grande segredo e mostrá-la-ei apenas a Vossa Alteza. O telescópio foi feito para o rigoroso estudo das distâncias. Este telescópio tem a vantagem de descobrir navios inimigos duas horas antes de serem vistos com a visão natural, e distinguir o seu número e qualidade, e avaliar a sua força e estar preparado para os perseguir, combater, ou deles fugir; ou, no campo, para ver todos os detalhes e para distinguir cada movimento e preparação.»
    40. 40. Ao serviço da Sereníssima: Galileu apresenta o telescópio ao Doge Texto da carta enviada a 24-08-1609 Do nascimento de Galileu até 1616 40 «Sereníssimo Príncipe, Galileu Galilei, humilíssimo servo de S.ma V. A., assiduamente atento e com todo o espírito para poder, não somente satisfazer o encargo que tem como lente de Matemática no Estúdio de Pádua, mas também com algum achado útil e assinalável poder aportar benefício extraordinário a S.de V.a, apresenta-se com um novo artefacto de telescópio obtido das mais recônditas especulações de perspectiva, o qual conduz os objectivos visíveis de tal forma perto do olho, e de tal modo grandes e distintos os representa, que aquilo que é distante, p. ex., nove milhas, aparece como se distasse uma milha só : coisa que para todo o negócio e empreitada marítima ou terrestre pode ser de proveito inestimável ; podendo-se, no mar, a distância assaz maior do que o habitual, descobrir o madeirame e as velas do inimigo, de modo que podemos descobri-lo duas ou mais horas antes que ele nos descubra a nós, e distinguindo o número e a qualidade das embarcações, avaliar a sua força, para nos prepararmos para os perseguir, combater, ou deles fugir ; e igualmente podendo-se em terra ver dentro das praças, quartéis e abrigos do inimigo a partir de qualquer altura bem distante, ou ainda no campo aberto ver e distinguir particularmente, com grande vantagem nossa, cada movimento ou preparação sua ; para além de muitas outras utilidades, notórias para toda a pessoa judiciosa. E portanto, julgando-o digno de ser recebido e estimado como utilíssimo pela S. V., determinou de o apresentar e, sob o seu arbítrio, determinar acerca deste achado, ordenando ou providenciando que, segundo o que parecerá oportuno à sua prudência, sejam ou não sejam fabricados. E isto apresenta com todo o afecto o dito Galileu a S. V. como um dos frutos da ciência que ele, já completos 17 anos, professa no Estúdio de Pádua, com esperança de estar à altura de lhe apresentar [frutos] maiores, se aprouver ao S. Deus e à S. V. que ele, segundo o seu desejo, passe o resto da sua vida ao serviço de V. S. À qual humildemente se inclina, e da Sua Divina Majestade lhe roga o cume de todas as felicidades.»
    41. 41. O momento de glória de Galileu: o “Sidereus Nuncius” (1610) Galileu dedica a obra ao Grão-Duque da Toscânia, Cosme II de Médicis (1590-1621) Os satélites de Júpiter são apelidados de “medicea siderea” (planetas mediceanos) A obra lança Galileu para o estrelato: Galileu consegue o cargo de filósofo e matemático de Cosme II Galileu muda-se de Pádua para a corte florentina a 7 de Setembro de 1610 Galileu, Sidereus Nuncius, Veneza, 1610 Cosimo II de Medici (1590-1621) Do nascimento de Galileu até 1616 41
    42. 42. Medalha de Gaspare Mola, para celebrar a descoberta das "estrelas" (1610) Na frente, vê-se Cosme II com a inscrição "COSMIVS II MAGNVS DVX ETRVR[AE] IIII" No verso, Júpiter sobre as núveus e as quatro "estrelas", e ainda a inscrição "SIDERA MEDICEA" Aproveitamento dinástico das "estrelas dos Medici"
    43. 43. Aproveitamento dinástico das "estrelas dos Medici" Pietro da Cortona (1596-1669) – Sala de Júpiter - Palazzo Pitti (1643/44, c. 1665) A corte mudou-se do Palazzo della Signoria para o Palazzo Pitti A decoração que chegou aos nossos dias é do tempo do Grão-Duque Ferdinando II de' Medici (1610-1670) Cortona pinta os tectos das Salas Planetárias Na Sala de Júpiter, vêem-se as Estrelas de Médicis Apenas dez anos após a condenação de Galileu, a representação dos satélites de Júpiter era matéria delicada As Estrelas são usadas aqui como símbolo das quatro virtudes cardeais Galileu já tinha associado as Estrelas às virtudes de Cosme I
    44. 44. Aproveitamento dinástico das "estrelas dos Medici" Giovanni Battista Foggini (1652-1725) – c. 1683 (50 anos após a condenação) Reverso de uma medalha de bronze em homenagem a Vittoria della Rovere, mãe de Cosimo III Sobre a Fama está o planeta Júpiter e as quatro Estrelas de Médicis A citação “famam quae [i.e. ‘qui’] terminet astris” é da “Profecia de Júpiter” da Eneida (Livro I, 285)
    45. 45. Aproveitamento dinástico das "estrelas dos Medici" Luca Giordano (1634-1705) A apoteose dos Medici (1685) (Pallazzo Medici Riccardi, Florença) No topo está Júpiter Logo abaixo, ao centro, está Ferdinando II Abaixo de Ferdinando II, com manto encarnado, está o seu filho Cosimo III Cosimo IIII está ladeado pelos seus dois filhos: Gian Gastone, que viria a ser o último Grão-Duque O Grão-Príncipe Ferdinando Cada Médici está encimado por uma estrela
    46. 46. O momento de glória de Galileu: o “Sidereus Nuncius” (1610) As fases da Lua (fls. 8, 9v, 10, 10v) Os satélites de Júpiter (fl. 25v) Do nascimento de Galileu até 1616 46
    47. 47. Galileu, Sidereus Nuncius, Veneza, 1610 Manuel Dias, Tianwenlüe, Pequim, 1614 O momento de glória de Galileu: o “Sidereus Nuncius” (1610) O feito de Galileu chega cedo a Pequim, pela mão do missionário jesuíta Manuel Dias (1574-1659) Na obra Tianwenlüe (“Sumário de Questões sobre o Céu”), de 1614, Manuel Dias retrata Saturno tal como Galileu o retratou: os dois círculos menores adjacentes a Saturno foram interpretados como planetas mas na verdade trata-se dos anéis de Saturno Do nascimento de Galileu até 1616 47
    48. 48. A descoberta das fases de Vénus (Outubro-Dezembro de 1610) As fases de Vénus, como deveriam aparecer no modelo ptolemaico (clicar para abrir website) Vénus tem uma órbita epicíclica sobre um deferente em torno da Terra Note-se que Vénus nunca exibe as fases crescente convexa e minguante convexa Do nascimento de Galileu até 1616 48
    49. 49. A descoberta das fases de Vénus (Outubro-Dezembro de 1610) Galileu faz várias observações a Vénus entre Outubro e Dezembro de 1610 Descobre que Vénus, tal como a Lua, apresenta um ciclo completo de fases Estas observações refutam o sistema ptolemaico, no qual esse ciclo de fases não é possível Só dois sistemas eram compatíveis com as fases de Vénus: o de Copérnico e o de Tycho Galileu reporta a descoberta a Giuliano de Medici a 1 de Janeiro de 1611, defendendo-a como uma prova a favor do modelo de Copérnico; Galileu nunca defendeu o modelo de Tycho Galileu também deduz, desta descoberta, que os planetas não têm luz própria, e que a derivam do Sol Do nascimento de Galileu até 1616 49
    50. 50. A Ciência na Aula da Esfera: Giovanni Lembo Giovanni Paolo Lembo (1570?-1618), matemático jesuíta Construiu telescópios galileanos no Collegio Romano Um dos 4 matemáticos que assinam o parecer a Bellarmino Entre 1615-17 leccionou a Aula da Esfera no Colégio de Santo Antão, e ensinou os alunos a construir telescópios galileanos  Os Jesuítas abandonam cedo o modelo ptolemaico No tempo de Clávio, mostram preferência pelo modelo heliocêntrico Depois da condenação do heliocentrismo, mudam para o de Tycho Azulejaria alusiva à Aula da Esfera (Colégio de Santo Antão o Novo, hoje Hospital de São José, em Lisboa)  Do nascimento de Galileu até 1616 50
    51. 51. Bellarmino escreve aos matemáticos do Collegio Romano (19-4-1611) Bellarmino pergunta aos Jesuítas se aprovam as descobertas de Galileu: a multidão das estrelas da Via Láctea, a estrutura de Saturno, as fases de Vénus, a superfície lunar, e os satélites de Júpiter Do nascimento de Galileu até 1616 51
    52. 52. Os matemáticos do Collegio Romano respondem a Bellarmino (24-4-1611) Os matemáticos do Collegio Romano que assinam a carta confirmam as descobertas de Galileu Assinam: Cristóvão Clávio, Cristóvão Grienberger, Odo van Maelcote e Giovanni Paolo Lembo O apoio dos Jesuítas a Galileu está relacionado com o projecto de Clávio para legitimar a matemática Do nascimento de Galileu até 1616 52
    53. 53. Galileu e a Accademia dei Lincei 25-4-1611: Galileu é aceite na Accademia dei Lincei (6º membro) A Accademia foi fundada em 1603 por Federico Cesi (1585-1630) Bartolomeo Cesi, tio de Federico, era Cardeal A Accademia foi fundada para fazer investigação científica através da observação, do método experimental e do método indutivo O nome escolhido inspira-se na capa da obra “Magia Naturalis”, de Giambattista della Porta, na qual surge um lince Galileu manteve sempre o orgulho de ser um “linceo” A Accademia foi muito importante pelo seu apoio à carreira de Galileu 1613: A Accademia publica a obra de Galileu "Istoria e dimostrazione intorno alle macchie solari" (cartas sobre as manchas solares) Nestas cartas, Galileu envolve-se em polémica com o jesuíta alemão (de Ingolstad) Christoph Scheiner (1573/5-1650) acerca da natureza das manchas solares 1623: A Accademia publica a obra de Galileu “Il Saggiatore” Nesta obra, Galileu envolve-se numa polémica mordaz com o matemático jesuíta Orazio Grassi (1583- 1654), do Collegio Romano, acerca da natureza dos cometas, nas sequência do cometa de 1618 Grassi assinava com o pseudónimo “Lotario Sarsi” Do nascimento de Galileu até 1616 Federico Cesi (1585-1630) 53
    54. 54. Christoph Scheiner (1573/75-1650) “Rosa Ursina sive Sol”, a principal obra de Scheiner sobre as manchas solares (Bracciano, 1626/30) A volumosa obra (780 páginas) principia com um vívido ataque a Galileu, logo no Livro I Do nascimento de Galileu até 1616 54
    55. 55. Galileu em Roma (1611) 29 de Março: Galileu chega a Roma, no estatuto de uma espécie de “embaixador científico” dos Medici Galileu ofereceu telescópios a vários Cardeais: Del Monte, Montalto, Acquaviva e Borghese 30 de Março: Galileu visita o Collegio Romano e encontra-se com Clávio, Grienberger e van Maelcote 2 de Abril: Galileu visita o Cardeal Maffeo Barberini (futuro Papa Urbano VIII, que condenaria Galileu) Galileu monta um telescópio nos jardins do Cardeal Ottavio Bandini (perto do Quirinal) 19 e 24 de Abril: troca de cartas entre Bellarmino e os matemáticos do Collegio Romano 22 de Abril: Galileu é recebido por Paulo V, que não o deixa estar ajoelhado (quebrando o protocolo) 25 de Abril: Federico Cesi dá um jantar para a recepção forma de Galileu na Accademia dei Lincei 13 de Maio: Galileu é recebido em apoteose no Collegio Romano, estando presentes vários cardeais Odo van Maelcote discursa sobre as descobertas de Galileu, confirmando-as em nome do Collegio Graças às descobertas de Galileu, o “decano” Clávio abandona de vez o sistema ptolemaico 31 de Maio: o Cardeal Del Monte escreve ao patrão de Galileu, o Grão-Duque da Toscânia: 4 de Junho: Galileu regressa a Florença: a sua digressão a Roma foi um completo sucesso Do nascimento de Galileu até 1616 «Se estivéssemos ainda no tempo da antiga República Romana, creio que certamente lhe seria erigida uma estátua em Campidoglio, para honrar a excelência do seu valor» 55
    56. 56. 1613-16: Entra em cena a questão das Sagradas Escrituras Dez-1613: num jantar, Boscaglia, professor em Pisa, diz que o heliocentrismo é contrário à Bíblia A Grã-Duquesa Cristina interroga Benedetto Castelli, amigo de Galileu, sobre a questão 21-12-1613: Galileu escreve a “Carta a Castelli” discutindo as relações entre Bíblia e Ciência Dezembro de 1614: sermão do frade Tommaso Caccini (1564-1648), em Florença, contra Galileu Janeiro de 1615: o superior (dominicano) de Caccini escreve a Galileu a pedir-lhe desculpas 7 de Fevereiro: Niccolò Lorini, outro dominicano, escreve uma carta contra Galileu ao Cardeal Sfondrati A carta de Lorini chega à Inquisição, Caccini e outros são interrogados, mas tudo é arquivado 16 de Fevereiro: Galileu, sentido necessidade de se defender, escreve a Monsenhor Piero Dini 12 de Abril: Bellarmino escreve a Foscarini, Provincial dos Carmelitas na Calábria e amigo de Galileu: 1615: Galileu escreve “Considerações sobre a opinião copernicana” e “Carta à Grã-Duquesa Cristina” Do nascimento de Galileu até 1616 «(…) Vossa Reverência e o Senhor Galileu actuariam prudentemente limitando-se a falar hipoteticamente e não de modo taxativo, como aliás sempre fez Copérnico. (…) Digo que, se fosse verdadeira a demonstração de que o Sol está no centro do Universo e a Terra no terceiro céu, e que o Sol não gira em torno da Terra, mas a Terra em torno do Sol, então seria necessário ter muito cuidado ao explicar as Escrituras que parecem contrárias, dizendo eventualmente que não as entendemos, em vez de dizer que é falso aquilo que se demonstra. (…)» 56
    57. 57. 1615: A Carta à Grã-Duquesa Cristina (1565-1637) No célebre jantar de Dezembro de 1613, nem a Grã-Duquesa nem Boscaglia ficaram convencidos com os argumentos de Castelli Galileu, consciente da importância de “ganhar” o apoio da mãe do seu patrono Cosme II, escreve a “Carta à Grã-Duquesa Cristina” Na Carta, Galileu defende categoricamente o modelo de Copérnico: Galileu defende a inerrância bíblica e critica o absoluto literalismo: Do nascimento de Galileu até 1616 «(…) tenho, acerca da constituição das partes do mundo, que o Sol, sem mudar de lugar, permanece situado no centro das conversões dos orbes celestes, e que a Terra, girando sobre si mesma, move-se-lhe em torno (…)» «(…) se alguém, ao expô-la, se ficasse sempre pelo nú sentido literal, poderia, erradamente, fazer aparecer na Escritura não só contradições e proposições remotas da verdade, mas graves heresias e blasfémias: pois seria necessário atribuir a Deus pés e mãos e olhos, e não menos [atribuir-Lhe] afectos corporais e humanos, como de ira, de arrependimento, de ódio, e ainda por vezes o esquecimento das coisas passadas e a ignorância do futuro (…)» Defende que a estabilidade ou movimento da Terra e do Sol não pertencem à doutrina (não são matéria “de fide”) nem aos costumes (à moral); o fito das Escrituras não é o de ensinar essas matérias 57
    58. 58. 1614-1616: O problema do tamanho das estrelas Simon Marius, Mundus Jovialis (1614) Georg Locher, Disquisitiones Mathematicae (1614) Ambos são anti-copernicanos Utilizam observações com o telescópio para questionar o modelo de Copérnico Francesco Ingoli, carta a Galileu (1616) Christopher Graney tem divulgado estas objecções astronómicas ao copernicanismo George Biddell Airy (1801-1892) O disco de Airy surge, em focagem ideal, quando a fonte de luz atravessa uma lente de abertura circular O padrão de Airy resulta da difracção da luz emitida por essa fonte ao atravessar a lente θA é o ângulo de abertura do disco de Airy λ é o comprimento de onda da fonte de luz, e D é o diâmetro de abertura O ângulo de abertura não depende da distância à fonte de luz! Do nascimento de Galileu até 1616 58 qA = 1,22l D
    59. 59. 1614-1616: O problema do tamanho das estrelas Do nascimento de Galileu até 1616 59
    60. 60. 1614-1616: O problema do tamanho das estrelas Do nascimento de Galileu até 1616 60
    61. 61. 1614-1616: O problema do tamanho das estrelas Do nascimento de Galileu até 1616 61
    62. 62. 1614-1616: O problema do tamanho das estrelas Do nascimento de Galileu até 1616 62
    63. 63. 1614-1616: O problema do tamanho das estrelas Do nascimento de Galileu até 1616 63

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