Módulo VII - A Revolução Científica

547 visualizações

Publicada em

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
547
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
13
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Módulo VII - A Revolução Científica

  1. 1. Curso Ciência e Fé Módulo VII – A Revolução Científica © Bernardo Motta bmotta@observit.pt http://espectadores.blogspot.com
  2. 2. Curso Ciência e Fé I – Introdução II – Filosofia Grega e Cosmologia Grega III – Filosofia Medieval e Ciência Medieval IV – Inquisição e Ciência V e VI – O Caso Galileu VII – A Revolução Científica VIII – Darwin e a Igreja Católica IX – Os Argumentos Cosmológico e Teleológico X – Filosofia da Mente e Inteligência Artificial XI – Milagres e Ciência XII – Concordância entre Cristianismo e Ciência
  3. 3. 3 1. Introdução 2. Francis Bacon 3. René Descartes 4. John Locke 5. Isaac Newton 6. Conclusão Índice
  4. 4. Porque é abandonada a tradição escolástica? A resposta do costume: “porque a Ciência refutou os erros do aristotelismo” Resposta enganadora: A “nova” física (Oxford, Paris, Domingo de Soto, Galileu, etc.) refutou a física aristotélica A “nova” cosmologia (Copérnico) refutou a cosmologia ptolemaica No entanto, a metafísica de Aristóteles (incluindo a sua ontologia) não foi refutada Alguns conceitos ontológicos aristotélico-tomistas ainda válidos e não refutados: Acto e Potência Substância e acidente Causas final, formal, eficiente e material Essência e existência (estritamente tomistas – esta distinção não vem de Aristóteles) A tradição escolástica, no século XVII e XVIII, estava “infectada” por duas “doenças”: O averroísmo, perigoso pela tese da “dupla verdade” e pelo fanatismo aristotélico O nominalismo, perigoso pela negação dos universais e pelo subjectivismo do conhecimento Finalmente, a tradição escolástica era a “espinha dorsal” filosófica da teologia católica A escolástica pretendia retratar fielmente e racionalmente a realidade: escorava o realismo católico Derrubar a escolástica permitiu “privatizar” a religião e da moral Introdução 4
  5. 5. Porque é abandonada a tradição escolástica? Um averroísta típico do Renascimento: Cesare Cremonini (1550-1631) Um dos mais admirados filósofos da época (mesmo fora de Itália) Professor de Filosofia Natural: 1573-1590: Professor em Ferrara 1591-1631: Professor em Pádua (dobro do salário de Galileu) Materialista (ateu), rejeitava a imortalidade da alma Considerado por Galileu como o protótipo do aristotélico fanático Foi investigado pela Inquisição devido ao seu averroísmo: Mortalidade da alma humana Separação entre razão (filosofia) e fé Que a razão e a fé poderiam estar em contradição (“dupla verdade”) Lema pessoal: “Intus ut liber, foris ut moris est”, ou seja, “interiormente livre, exteriormente de acordo com os costumes”; Cremonini não admitia publicamente o seu ateísmo, mas todos o tinham por ateu Quando Galileu observou a Lua com o telescópio (1610), Cremonini recusou-se a usar o aparelho Cremonini defendia que Aristóteles tinha provado que a Lua era uma esfera perfeita O averroísmo torna muito difícil defender de forma credível a compatibilidade entre Fé e Razão Introdução 5
  6. 6. Porque é abandonada a tradição escolástica? Três tipos de coisas que “parecem” ser imateriais: Universais: “triangularidade”, “unicidade”, “multiplicidade”, “humanidade”, “animalidade”, etc. Números Proposições (afirmações verdadeiras ou falsas) Qual é o estatuto ontológico destas coisas? Realismo Defende que estas coisas existem na realidade, e são objectivas, ou seja, distintas dos sujeitos que pensam nelas Toda a humanidade poderia desaparecer, e estas coisas continuariam a existir Conceptualismo Defende que estas coisas existem na realidade, mas apenas na mente de quem pensa nelas Assim, os universais, os números e as proposições necessitam de uma mente para existirem Nominalismo Defende que estas coisas não existem na realidade Os universais, os números e as proposições corresponderiam a meros “padrões” de actividade neuronal, reflectindo hábitos e convenções sociais e culturais Introdução 6
  7. 7. Porque é abandonada a tradição escolástica? Realismo platónico Os universais, números e proposições existem num “mundo das formas” Essa existência é autónoma e independente de processos mentais Realismo cristão (aristotélico-tomista) Os universais, números e proposições existem no intelecto de Deus Requerem o intelecto de Deus para existirem de forma perfeita Podem ser instanciados na Natureza de forma imperfeita No entanto, o intelecto humano pode aceder a eles, e mesmo ter deles uma concepção perfeita, operando sobre dados sensoriais Exemplo: triangularidade, humanidade, etc. Introdução 7
  8. 8. Porque é abandonada a tradição escolástica? Guilherme de Ockham (c.1288-c.1348), franciscano inglês e filósofo escolástico Terá estudado em Oxford entre 1319 e 1321, sem completar o mestrado Em 1323, alguém viajou de Inglaterra para a corte Papal em Avignon, para o denunciar como herege Em 1324, Ockham tem que se deslocar a Avignon para ser interrogado Permanece em Avignon entre 1324 e 1328, e envolve-se em controvérsias Em 1328, foge para Pisa com o seu superior, Miguel de Cesena, e outros Em 1329, sob a protecção do Imperador Luís da Baviera, seguem para Munique Excomungado por ter fugido de Avignon, Guilherme fica em Munique até à sua morte em 1347 Legado: A “navalha de Ockham”: não se devem multiplicar as entidades para lá do necessário A expressão é atribuída a Ockham, mas não surge na sua obra O também chamado “princípio da economia, ou da parcimónia” é muito antigo e comum A sua Suma de Lógica faz dele um dos mais importantes lógicos medievais Por negar os universais, Ockham é considerado o pai do nominalismo * Céptico acerca das causas finais: “todas as causas são imediatas” Céptico acerca da eficácia da razão em Teologia: tendia para o fideísmo Introdução 8
  9. 9. Porque é abandonada a tradição escolástica? Uma boa parte da escolástica ensinada no tempo da Revolução Científica era nominalista Esse nominalismo passará para alguns filósofos-chave da Revolução Científica, como John Locke Os perigos da filosofia de Ockham para a moral e para a Ciência: Fideísmo: a vontade de Deus determina a moral, não há acesso racional a verdades morais, apenas pela Fé; a vontade de Deus é soberana, e sobrepõe-se a eventuais “leis” científicas Nominalismo: negar os universais é negar que certas coisas têm a mesma essência: deixa de ser defensável que causas do tipo A provoquem regularmente efeitos do Tipo B A negação dos universais implica negar categorias como “causas do tipo A” ou “efeitos do tipo B” As ideias de Ockham sobre causalidade sofrem deste problema grave, fruto do seu nominalismo As ideias de David Hume (1711-1776) sobre causalidade também sofrem do mesmo problema O nominalismo não serve apenas para deitar fora provas da existência de Deus (segunda via tomista) Também serve para deitar fora a Ciência, que não pode prescindir da causalidade e dos universais Introdução 9
  10. 10. Porque é abandonada a tradição escolástica? David Hume (1711-1776), filósofo escocês: Hume não consegue (ou não quer) distinguir a escolástica (a filosofia aristotélico-tomista clássica) das suas deformações averroístas e nominalistas Hume tinha uma compreensão muito rudimentar (e errada) das principais questões metafísicas “A razão é, e deve apenas ser, escrava das paixões”: uma ideia muito perigosa para toda a Ciência Introdução 10 «Quando percorremos bibliotecas, persuadidos destes princípios, que devastação devemos fazer? Se tomarmos nas nossas mãos algum volume; de divindade ou de metafísica escolástica, por exemplo; perguntemos: Contém algum raciocínio abstracto respeitante à quantidade ou ao número? Não. Contém algum raciocínio experimental respeitante a material de facto e existência? Não. Que seja então lançado às chamas. Pois não pode conter nada senão sofismas e ilusão.»
  11. 11. 11 1. Introdução 2. Francis Bacon 3. René Descartes 4. John Locke 5. Isaac Newton 6. Conclusão Índice
  12. 12. Francis Bacon (1561-1626) Filósofo, estadista, cientista e jurista inglês Propõe um novo método de obtenção de conhecimento científico Novum Organum Scientiarum (Londres, primeira edição em 1620) O título refere-se ao Organon, o corpo de seis tratados que Aristóteles dedicou à lógica; Bacon propõe um novo “órgão” (ou método) em lugar do antigo Francis Bacon 12 O método baconiano é empírico e indutivo: Recolher dados através da experimentação e da observação Formalizar leis científicas induzidas a partir desses dados Das observações e experiências particulares às leis gerais Bacon propõe o abandono das causas finais (teleológicas) Bacon sobre as formas (ou causas formais), objecto da Metafísica: As formas “não são mais do que aquelas leis e determinações (…) que governam e constituem cada natureza simples, como calor, luz, peso, em cada tipo de matéria ou sujeito (…)” As causas eficiente e material são do domínio da Física
  13. 13. Francis Bacon (1561-1626) Para Aristóteles e para a escolástica, a forma é uma causa das coisas naturais: é a causa formal Bacon equipara “forma” com “lei científica” Ao fazer isso, perde-se o carácter causal da forma As leis científicas não causam nada: apenas quantificam uma regularidade na Natureza A lei da gravidade (de Newton) não causa nada: quantifica a relação entre massa e força gravítica: No fenómeno da atracção gravítica, a massa é a causa e a força gravítica é o efeito A fórmula de Newton apenas descreve a relação quantitativa entre causa e efeito Não é a fórmula de Newton que provoca a atracção entre corpos com massa! Francis Bacon 13
  14. 14. 14 1. Introdução 2. Francis Bacon 3. René Descartes 4. John Locke 5. Isaac Newton 6. Conclusão Índice 14
  15. 15. René Descartes (1596-1650) Filósofo e matemático francês, considerado o “pai” da filosofia moderna Estudou no Collège Royal Henry-le-Grand (Jesuíta), em La Flèche Cria a geometria analítica, unindo álgebra e geometria através do seu sistema de coordenadas: as figuras geométricas podem ser descritas por equações cujas variáveis são coordenadas num sistema de eixos ortogonais Viveu vinte anos nos Países Baixos, de 1628 a 1649 Morreu a 11 de Fevereiro de 1650 em Estocolmo, onde estava ao serviço da rainha Cristina da Suécia A sua atitude filosófica é a oposta da escolástica: em vez dos primeiros princípios, a utilidade prática: René Descartes 15 «Mas logo que adquiri algumas noções gerais sobre física e que, tendo-as posto à prova em diversas dificuldades particulares, notei até onde elas podem conduzir e quanto diferem dos princípios até agora aceites, convenci-me de que não poderia guardá-las só para mim sem pecar muito contra a lei que nos obriga a contribuir tanto quanto possível para o bem geral. Com efeito, essas noções mostraram-me que é possível chegar a conhecimentos muito úteis à vida e que em vez dessa filosofia especulativa que se ensina nas escolas se pode encontrar uma outra [filosofia] prática que, conhecendo o poder e as acções do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que nos cercam, tão distintamente como conhecemos os diversos misteres dos nossos artífices, os poderíamos utilizar de igual modo em tudo aquilo para que servem, tornando-nos assim como que senhores e possuidores da natureza», Discurso do Método
  16. 16. O fundamento da verdade Descartes distingue na sua ontologia dois tipos radicalmente distintos de substância: Substância pensante (“res cogitans”) Substância extensa (“res extensa”) Este dualismo implica que a forma e a finalidade não fazem parte da essência das substâncias extensas O dualismo cartesiano leva a uma visão mecanicista da realidade natural Descartes defende que o ser humano possui ideias inatas Primeira coisa “clara e distinta” para Descartes: “Penso, logo existo” (“cogito, ergo sum”) “Estou certo que eu sou uma coisa pensante”, mas como se pode ter a certeza disto? Segundo Descartes, um “génio maligno” poderia gerar em nós falsas “ideias claras e distintas” René Descartes «Não sei então [depois de ter descoberto o cogito] também o que se requer para tornar- me certo de qualquer coisa? Neste primeiro conhecimento não há nada para além do que uma percepção clara e distinta daquilo que conheço, que não seria indubitavelmente suficiente para assegurar-me da verdade da coisa, se pudesse ocorrer que uma coisa que concebesse tão clara e distintamente fosse falsa.» 16
  17. 17. O fundamento da verdade A “percepção clara e distinta” não é, então, suficiente para obter conhecimento verdadeiro: E no entanto, a filosofia moderna montou toda uma epistemologia “subjectiva” em cima do “cogito”! Que propõe, então, Descartes, para se sair desta incerteza? Descartes propõe a existência de Deus como fundamento da verdade! René Descartes 17 «Posso persuadir-me de [eu] ter sido feito de tal modo pela natureza que me pudesse facilmente enganar, mesmo nas coisas que julgo perceber de maneira evidentíssima» «Depois que percebi verdadeiramente que Deus existe, juntamente entendi que todas as coisas dependem dele e que ele não é enganador. Assim vejo claramente que a certeza e a verdade de toda ciência dependem só do conhecimento do Deus verdadeiro, de sorte que, antes de o conhecer, nada poderia saber perfeitamente de coisa alguma»
  18. 18. O fundamento da verdade Da ideia inata do “cogito”, Descartes chega à ideia inata da existência de Deus Contrariamente ao aristotelismo-tomismo, a existência de Deus não seria demonstrável “a posteriori” A existência de Deus decorria de Deus ser um ser perfeito, por uma espécie de argumento ontológico Apesar da preocupação cristã de Descartes, a filosofia moderna “deitou fora” essa ideia inata de Deus A filosofia moderna aproveitará o “cogito” de Descartes, fundamento de todo o subjectivismo filosófico: A epistemologia escolástica assenta no realismo: confiança na razão e nos sentidos A de Descartes assenta do cepticismo: desconfiança de tudo, excepto do “acto pensante” Descartes “despromove” o Deus cristão para um mero “artífice” cuja função é apenas criar: É como o Deus do “intelligent design”: um “artífice cósmico” separado da Criação e não omnipresente René Descartes 18 «Em suma, a essência do Deus de Descartes é determinada sobretudo pela sua função filosófica de criar, isto é, preservar o mundo mecanicista-científico concebido pelo próprio Descartes. Ora, é verdadeiro que um Criador é um Deus eminentemente cristão, mas um Deus cuja essência consista em ser Criador não é um Deus cristão. A essência do verdadeiro Deus cristão não é criar, é Ser. ‘Aquele que é’ (Ex. 3, 14) pode também criar se quiser, mas não é quem é enquanto cria (…); pode criar enquanto é absolutamente.» - Etienne Gilson, Deus e a Filosofia
  19. 19. A física cartesiana: muita intuição, pouca experimentação… A sua obra principal sobre Filosofia Natural, Princípios de Filosofia (1644) Três tipos de matéria: subtil, fina e grosseira A matéria era contínua e indivisível (contra o atomismo) A teoria dos vórtices: A matéria move-se em bandas circulares Todo o Universo é uma complexa rede de vórtices Pretendia explicar os movimentos planetários sem ser necessária a força gravítica (que ele via como obscura) Permitia evitar problemas com a Igreja Católica após 1633 Descartes colocava a Terra num vórtice em órbita do Sol A Terra permanecia imóvel relativamente ao vórtice Esta teoria não se adapta os dados experimentais Será abandonada em favor da física newtoniana Descartes rejeitou a lei galileana da queda livre, que estava certa Tenta explicar a refracção da luz através de uma analogia com bolas de ténis (ABI) O seu mecanicismo leva-o a uma má analogia: ao atravessar um pano CBE a bola afasta-se da normal Com a luz, sucede o contrário (e Descartes sabia-o), mas preferiu manter essa analogia mecanicista René Descartes 19
  20. 20. 20 1. Introdução 2. Francis Bacon 3. René Descartes 4. John Locke 5. Isaac Newton 6. Conclusão Índice
  21. 21. John Locke (1632-1704) Filósofo e físico britânico, protestante, considerado o “pai” do liberalismo A importância da sua obra para a política moderna e contemporânea é imensa (em Berkeley, Voltaire, Jefferson, Hume, Mill, Russell, entre outros) Contra Descartes, Locke defendeu que nascemos com o intelecto como uma “tábua rasa”, rejeitando as “ideias inatas” cartesianas As correntes filosóficas contestadas por Locke: Num extremo, a escolástica e a doutrina e moral que esta acarreta O racionalismo cartesiano e a sua defesa das “ideias inatas” (segundo Locke, elas implicariam dogmatismo e limites à liberdade intelectual) No outro extremo, o empiricismo e o cepticismo radicais de Thomas Hobbes (1588-1679) As ideias-chave da filosofia de Locke, repleta de tensões e inconsistências: A ênfase nas ciências naturais como paradigma de racionalidade Cepticismo (não radical) acerca da tradição e da autoridade Minimalismo teológico: alma imaterial persistente após a morte, existência de Deus, e pouco mais Tolerância religiosa (o ponto anterior é visto como o caminho para esta tolerância) Direitos individuais (contra o absolutismo defendido por Hobbes para evitar a anarquia do “estado natural”) Necessidade do consenso dos cidadãos para legitimar um governo (democracia) John Locke 21
  22. 22. 22 1. Introdução 2. Francis Bacon 3. René Descartes 4. John Locke 5. Isaac Newton 6. Conclusão Índice
  23. 23. Isaac Newton (1643-1727) Físico, matemático, astrónomo, teólogo, filósofo e alquimista inglês É difícil exagerar a importância científica da obra de Newton “Pai” do cálculo integral e diferencial (Leibniz também, em paralelo) A sua obra principal: Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica (1687) É uma das mais importantes obras científicas de sempre: Três leis de Newton do movimento: inércia, “F=ma”, acção-reacção Lei de Newton da gravitação universal A derivação das leis planetárias de Kepler Kepler chegara às suas leis por via empírica (observações) Newton demonstra-as por via matemática A sua obra científica está permeada de ideias teológicas Newton defende que Deus actua permanentemente para manter o movimento regular do Cosmos Esta acção permanente é entendida como uma causa eficiente, e não como manter o Cosmos no “ser” Leibniz (mais alinhado com a escolástica) defende que o Cosmos opera por “causas segundas” Leibniz indigna-se com a ideia de que Deus não teria capacidade de criar algo com movimento perpétuo Isaac Newton 23
  24. 24. Isaac Newton (1643-1727), Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica (pp. 138-139) Isaac Newton 24
  25. 25. Isaac Newton (1643-1727) Da sua obra sobre Óptica: Neste trecho, Newton formula um argumento de “design” Nesse mesmo trecho, Newton defende a intervenção contínua de Deus na Natureza: Para provocar e manter permanentemente as órbitas regulares e concêntricas Para “reformar”, de tempos a tempos, um sistema afectado por irregularidades acumuladas Leibniz criticava Newton, dizendo que a acção contínua de Deus equivalia a um milagre contínuo Este conceito newtoniano de Deus é o prelúdio ao “Deus relojoeiro” dos deístas Se Newton estivesse vivo hoje, ele aceitaria sem problemas os argumentos do “intelligent design” Isaac Newton «Pois enquanto os cometas se movem em órbitas muito excêntricas em todo o tipo de posições, o destino cego nunca conseguiria fazer mover os planetas de uma só forma em órbitas concêntricas, salvo irregularidades desprezáveis que podem resultar da acção mútua entre cometas e planetas, e que tendem a aumentar, até que este sistema precise de uma reforma.» 25
  26. 26. Isaac Newton (1643-1727), o teólogo-alquimista Diagrama do Templo de Salomão, da obra The Chronology of Ancient Kingdoms (1728) Isaac Newton 26
  27. 27. Isaac Newton (1643-1727), o teólogo-alquimista The Hieroglyphical figures of Nicholas Flammel explained (início da década de 1680) Astronomical calculations and the Barbarian invasions (início do Séc. XVIII, sobre o livro do Apocalipse) Isaac Newton 27
  28. 28. 28 1. Introdução 2. Francis Bacon 3. René Descartes 4. John Locke 5. Isaac Newton 6. Conclusão Índice
  29. 29. As ideias-chave do aristotelismo-tomismo A Ciência é uma actividade louvável: consiste no estudo do “livro da Criação” e é uma actividade especialmente adequada ao ser humano, porque o ser o humano é o único ser intelectual na Natureza A existência de Deus é demonstrável racionalmente (essas provas são os “preâmbulos da Fé”) A moral divina (das Escrituras) é conciliada com a moral natural (da Razão e da Natureza) É possível ao Homem chegar a uma moral universal e objectiva usando a razão O fim do Homem é o seu aperfeiçoamento moral, o abandono do pecado, procurar Deus e louvá-Lo O objectivo desta vida terrena consiste nesse aperfeiçoamento moral, tendo em vista a vida eterna Viver em sociedade é natural e a sociedade deve dar ao Homem condições para atingir esse objectivo Conclusão 29 As ideias-chave da filosofia moderna no tempo da Revolução Científica Não se nega a existência de Deus, mas separa-se conhecimento científico de fé religiosa A fé cristã já não é defendida com o vigor racional de quem fala acerca da realidade das coisas A fé cristã passa a ser vista como algo apenas do foro privado e aceite por tradição (fideísmo) O fim do Homem é a procura do bem-estar comum nesta vida terrena A Ciência é vista como o caminho para o “domínio da Natureza”, devendo ser aplicada para fins úteis A Ciência vale mais pela sua utilidade, e não tanto por nos dar a conhecer a realidade
  30. 30. Porque é abandonada a tradição escolástica? É verdade que a escolástica deu prioridade à filosofia em detrimento da experimentação: A filosofia moderna fez o inverso: deu prioridade à experimentação em detrimento da filosofia Como consequência, é inegável que houve acelerado progresso científico e tecnológico Mas o retrocesso filosófico teve (e tem) consequências negativas para a Ciência Exemplo: a constante cosmológica de Einstein, um erro devido à sua crença na eternidade do Cosmos Conclusão 30 «A contemplação da natureza e da sua beleza certamente que atrasou a pesquisa científica da sua estrutura propriamente física. Os sábios entendem que este erro não pode ser repetido e a violência dos seus ataques contra o finalismo [contra as causas finais] explica-se pelo menos em parte por isto. Se este receio não fosse hoje supérfluo, diríamos que era justificado. No entanto, é supérfluo porque nada impede os dois pontos de vista de coexistir, e se a sua coexistência pacífica é possível, ela é desejável. Uma meia verdade não vale mais que uma verdade inteira, e, de facto, estas duas partes da verdade coexistiram, mesmo depois de [Francis] Bacon, nos espíritos científicos de longe superiores ao seu; mesmo depois de Descartes, em génios que não lhe eram certamente inferiores» - Etienne Gilson (1884-1978)
  31. 31. Os motivos para esta mudança radical Uma inegável decrepitude da escolástica (por causa do averroísmo e do nominalismo) O crescente interesse pela experimentação, sobretudo a partir dos sucessos de Galileu No protestantismo, a mudança filosófica teve importantes motivações políticas: A crítica protestante ao aristotelismo-tomismo serviu o combate ao catolicismo Uma nova filosofia mais céptica e subjectivista ajudou a apaziguar intensas disputas religiosas Mas há também motivações psicológicas mais generalistas: A “libertação” das obrigações morais do jusnaturalismo (“lei natural”) aristotélico-tomista O desejo de “respeitabilidade social” por parte de certa elite intelectual agnóstica ou ateia O desejo de mais liberdade individual, pois as verdades morais eram vistas como anti-libertárias Há dois factos importantes a reter acerca da Revolução Científica: Conclusão 31 1. Os pensadores da Revolução Científica não refutaram a metafísica aristotélico-tomista! 2. Logo, o impressionante progresso científico e tecnológico não se deveu a essa (inexistente) refutação!
  32. 32. Porque é abandonada a tradição escolástica? Conclusão 32 «Animosidade, atitude, agenda, mas pouco em termos de argumento. Isto, como sugeri, foi o que esteve por detrás da revolução intelectual que removeu a filosofia clássica de Platão e Agostinho, e especialmente a de Aristóteles e [São Tomás de] Aquino, e entronou a filosofia moderna de [Francis] Bacon, Hobbes, Descartes, Locke, Hume e outros. Mas “pouco” [em termos de argumento] não é “nada”, e existiram alguns argumentos, apesar de nenhum deles ser muito impressionante.» - Edward Feser A actividade científica requer um equilíbrio entre tradição e inovação. A tradição está em preservar o saber recebido, no difícil acesso a jornais “peer reviewed”, na autoridade do professor, no respeito pelos graus académicos O abandono do aristotelismo-tomismo é um corte radical com uma tradição multissecular que nunca foi refutada

×