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DURKHEIM, E. A educação: sua natureza e função. In: Educação e Sociologia.

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  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS CURSO DE LICENCIATURA EM PEDAGOGIA – MATUTINO Nome do aluno: Clodoaldo Gonçalves Leme RA: 604801 Turma: Pedagogia 014 Matutino RESENHA DURKHEIM, E. A educação: sua natureza e função. In: Educação e Sociologia. SP: Melhoramentos, 1973. p. 33-47. 1 – As definições da educação – exame crítico O autor afirma que "educação" tem sido usada como um termo com sentido muito amplo, para determinar as influências de outros homens ou da natureza "sobre nossa inteligência ou sobre nossa vontade" e diz que isso pode gerar confusão. (DURKHEIM, 1973, p.33). Sugere que a "educação" que nos interessa é especificamente a ação que adultos exercem sobre as crianças e adolescentes. (DURKHEIM, 1973, p.33). “Levar ao mais alto grau possível todos os poderes que estão em nós, realiza-los completamente como possível, sem que uns prejudiquem os outros – não será, com efeito, o ideal perfeito?” (DURKHEIM, 1973, p.34). Contudo, o autor nega tal possibilidade. Diz que cada um tem suas aptidões e, por isso, assumimos diferentes funções, mas admite que "essa harmonia possa ser apresentada como fim último da conduta e da educação." (DURKHEIM, 1973, p.34).
  2. 2. Para SPENCER, a definição utilitarista não é satisfatória, por sugerir a felicidade como seu objetivo, pois, na sua visão, "a felicidade é coisa essencialmente subjetiva, que cada um aprecia a seu modo" (DURKHEIM, 1973, p.34). “Tocamos aqui no erro geral em que incorrem as definições apontadas. Elas partem do postulado que existe uma educação ideal, perfeita, apropriada aos homens, sem distinção. A única razão que o teorista se esforça em definir é a educação universal” (DURKHEIM, 1973, p.35). Se prevalecesse o individualismo, comparado ao nosso, na antiguidade, não seria possível nenhuma educação, pois nos séculos passados a educação estava ao alcance apenas da burguesia e já a população em geral tinha que trabalhar para garantir a sobrevivência (DURKHEIM, 1973, p.36). A escola com as mudanças do mundo foi deixando de ser exclusividade das elites e os trabalhadores com muita luta passou a ter acesso à educação sistematizada. Então a educação por sua vez foi se adaptando as mudanças dos séculos, mas inicialmente, era para poucos (DURKHEIM, 1973, p.36). A educação, em determinados momentos históricos, impõe aos indivíduos de modo irresistível, fazendo-nos crer ilusoriamente que somos capazes de educar nossos filhos (DURKHEIM, 1973, p.36). Como foi dito anteriormente, à medida que a população evolui, os métodos de aprendizagem vão mudando gradativamente. Os hábitos e costumes que contribuem e estabelecem a educação para as novas gerações, não foram gerados por nós e sim da vida em comum onde manifestam suas necessidades. Através de todo aprendizado histórico, que foi importantíssimo para a educação até a atualidade, dependeu de vários fatores desde seu surgimento: como a religião, organização política, ciências, indústria, etc. Separados dessas causas históricas, tornam-se incompreensíveis. Sendo assim, o indivíduo, para educar, precisa do coletivo e empenhar-se nos estudos e na observação (DURKHEIM, 1973, p.37). “Assim, para constituir a noção preliminar de educação, para determinar a coisa a que damos esse nome, a observação histórica parece-nos indispensável” (DURKHEIM, 1973, p.38).
  3. 3. 2 – Definição da educação Para o autor, definição de educação dependerá do conjunto de caracteres, da socialização metódica das novas gerações. Ele cita dois aspectos: o de uno e múltiplo. “Para que haja educação, faz-se mister que haja, em face de uma geração de adultos, jovens, crianças e adolescentes; e que uma ação seja exercida pela primeira, sobre a segunda, ou seja, para ter educação: geração de adultos (educadores) e outra geração de crianças (educandos)” (DURKHEIM, 1973, p.38). Seria necessário definir, agora, a natureza específica dessa influência de uma sobre outra geração. Essa educação muitas vezes existente em várias formas, como a mais antiga de todas, que é os conhecimentos que os adultos vão passando para os mais jovens, são experiência de vida transformando as crianças, que não possuem um senso social para integrar-se como uma peça ativa da sociedade (DURKHEIM, 1973, p.39). É evidente que a educação das nossas crianças não deve depender do acaso e mesmo que a consciência moral do nosso tempo tivesse recebido neste ponto a satisfação que se espera, a educação não se tornaria mais uniforme (DURKHEIM, 1973, p.39). A educação deve ser igual para todos, não ter distinções entre privado e público, e ainda que exista uma iniciativa privada, esta seja como a mesma base da pública para que assim a educação de boa qualidade não fique ligada apenas para as instituições de ensino privadas. O desejo de obter uma educação absolutamente homogênea e igualitária fica em plano utópico, pois seria necessário remontar até às sociedades pré-históricas, onde não havia diferenciação (DURKHEIM, 1973, p.39). Ao longo da nossa história, constitui-se todo um conjunto de ideias acerca da natureza humana, da importância respectiva das nossas diferentes faculdades, do direito e do dever, da sociedade, do indivíduo, do progresso, da ciência, da arte, etc. A educação passa para o ser humano saberes que a natureza não poderia realizar, sendo que, mesmo as qualidades que pareçam ser escolhidas pelos próprios indivíduos, são profundamente ligadas ao meio social que as prescreve como necessárias (DURKHEIM, 1973, p.40).
  4. 4. “A educação é a ação exercida, pelas gerações adultas, sobe as gerações que não se encontrem ainda preparadas para a vida social; tem por objeto suscitar e desenvolver, na criança, certos números de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio especial a que a criança, particularmente, se destine” (DURKHEIM, 1973, p.41). 3 – Consequência da definição precedente: Caráter social da educação Segundo o autor, “conclui-se que a educação consiste numa socialização metódica das novas gerações, entre outras palavras a educação é a socialização da criança” (DURKHEIM, 1973, p.41). Em todos nós, existe dois seres. Um, que é constituído de inteligência, mas não compartilha com os demais. O outro compartilha com o coletivo suas ideias. Os dois em suas diferenças formam o ser social, e o objetivo da educação é, precisamente, constituir ou organizar esse ser, em cada um de nós. Sem a civilização, o homem não seria o que é. Pela cooperação e pelas tradições sociais é que o homem se faz humano (DURKHEIM, 1973, p.42). A natureza da educação é realmente agir sobre as gerações mais jovens e despreparadas para o convívio social, suscitando e desenvolvendo certo número de estados físicos, morais e intelectuais, que são impostos pela sociedade, mas também criando o espaço para o desenvolvimento das individualidades que o indivíduo está destinado a trabalhar dentro e a favor deste contexto (DURKHEIM, 1973, p.42). “A sociedade encontra-se a cada nova geração, em presença de uma tabula rasa sobre a qual é preciso construir tudo de novo. É preciso que, pelas vias mais rápidas, ao ser egoísta e novo associal que acaba de nascer ela acrescente outra, capaz de levar uma vida moral e social” (DURKHEIM, 1973, p.42). Nesse sentido pode-se dizer que a obra da educação é muito ampla e essa disposição constante é inata, diferente dos animais. A complexidade da vida social não se organiza geneticamente podendo ser transmitida de geração em geração hereditariamente, e sim pela educação que essa transmissão se dá (DURKHEIM, 1973, p.42-43).
  5. 5. Hoje gozamos de certas vantagens em relação à ciência, graças à educação do passado, pois o alto grau que colocamos o espírito crítico em nossos dias, nem sempre foram aceitos e era tido como perigoso (DURKHEIM, 1973, p.43).. “É a sociedade, com efeito, que nos extrai de nós mesmos, que nos obriga a contar com outros interesses além dos nossos, é ela que nos despertou, ensinou a dominar as nossas paixões, os nossos instintos, a conceder-lhe a autoridade, a privarmo-nos, a sacrificarmo-nos, a subordinar os nossos objetivos pessoais a objetivos mais elevados” (DURKHEIM, 1973, p.45). “Do ponto de vista intelectual, não devemos menos à sociedade. É a ciência que elabora as noções cardeais, que dominam o pensamento: a noção de causa, de lei, de espaço, de número; noções de corpo, de vida, de consciência, de sociedade, etc.” (DURKHEIM, 1973, p.45). A sociedade tem por objetivo sempre evoluir e, reciprocamente, o indivíduo também, pois um precisa do outro, de modo especial, por meio da educação e essencialmente do esforço do indivíduo, que eleva seu espírito o tornando mais humano (DURKHEIM, 1973, p.46). 4 – A função do Estado em matéria de educação “A educação é, assim, concebida como uma coisa essencialmente privada e doméstica, tendendo-se desse ponto de vista, naturalmente, a reduzir ao mínimo a intervenção do Estado” (DURKHEIM, 1973, p.47). Os ambientes sociais a uma censura moral permanente que exclui o sujeito que realize alguma ação fora do senso da moral estabelecida, pela educação doméstica. “A escola não pode ser propriedade de nenhum partido; e o professor faltará aos seus deveres quando empregue a autoridade de que dispõe para atrair seus alunos à rotina de seus preconceitos pessoais, por mais justificáveis que eles lhe pareçam” (DURKHEIM, 1973, p.48). O professor quando deixa de exercer o diálogo amigo com seus alunos e passa a criar formas de punição que visam desestabilizar o aluno, pela vergonha, o que leva a valorizar ainda mais os indivíduos que os observam descumprindo o dever, por estarem eles próprios mostrando a incapacidade da
  6. 6. subjetividade em se estabilizar no âmbito da sociedade, e fortalecendo a importância de ser submisso para ser aceito e valorizado pela coletividade (DURKHEIM, 1973, p.49). “A função do Estado, esclarecer esses princípios essenciais, velar para que em nenhum lugar as crianças os ignorem, e para que em todo o lado se fale deles com o respeito que lhes é devido. Há, a este propósito, uma ação certa a exercer, que talvez seja mais eficaz, contida, como deve ser, nos limites de sábia tolerância” (DURKHEIM, 1973, p.49). 5 – Poder da educação e meios de seu exercício Para o autor, “depois de haver determinado o fim da educação, e em que medida poderemos atingir esse fim; isto é, como e em que medida a educação pode ter eficácia” (DURKHEIM, 1973, p.49). A educação é o que difere a semelhança entre os homens, e, por ela, ninguém pode interferir em seu desenvolvimento predeterminado. “Felizmente, as predisposições inatas do homem são muitos gerais e muito vagas. O tipo de predisposição fixa, rígida, invariável, que não permite a ação das causas exteriores será o instinto” (DURKHEIM, 1973, p.50). O instinto em certas ocasiões ajuda-nos em manter-nos vivos e pode-se dizer que está relacionado aos instintos materno, paterno e sexual, que varia de pessoa a pessoa e de circunstância a outra. “Larga margem se reserva a indecisões, tentativas e acomodações pessoais e, em consequência, à ação de fatores que não podem fazer sua influência senão depois de nascido o indivíduo” (DURKHEIM, 1973, p.51). Em nossas experiências vividas ao longo da vida, serve de exemplo às crianças, que faz parte do processo de socialização. Mas isso não inclui passar aos descendentes tais experiências hereditariamente, são as características pessoais e certas deficiências neurológicas que são transmitidas. Há um abismo entre as potencialidades inatas e a personalidade definida que o indivíduo exercerá na sociedade, nisso percebe-se a imensa função da educação, que através de um professor capacitado e prudente, com sua experiência, e por saber usá-la, é que terá sucesso com seus alunos em suas atividades (DURKHEIM, 1973, p.52).
  7. 7. “Quando, porém, a educação se dê de modo paciente e contínuo, quando não procure êxitos imediatos e aparentes, mas prossiga com lentidão, buscando objetivos bem determinados, sem se deixar se desviar por incidentes exteriores e circunstâncias adventícias, então chegará a dispor de todos os meios necessários para influenciar profundamente a alma da criança” (DURKHEIM, 1973, p.53). A criança em sua neutralidade não percebe os esforços voltados para a educação em relação a sua vida, e que é pressionada a ter um domínio necessário das coisas. Seu dever deve ser manifestado através dos pais e professores para estimulá-lo e controlá-lo. “Isso significa que a autoridade moral é a qualidade essencial do educador. Porque, pela autoridade, que nele se encarna, é que o dever é o dever” (DURKHEIM, 1973, p.54). Com sua autoridade o professor deve reconhecer que é capaz de conduzir seus alunos à educação, não por méritos ou excelências, mas sim, por sua enorme missão experimentada pela sua própria vivência. “É esse respeito que, por via da linguagem, do gesto, da conduta, passa de sua consciência para a consciência da criança. [...] A criança deve habituar-se a vê- la na palavra do educador, reconhecendo-lhe a força moral. Só assim saberá, mais tarde, encontrá-la nos ditames da própria consciência, a quem, então, de vez se entregará” (DURKHEIM, 1973, p.55-56).

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