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Professor Ulisses Vakirtzis
Mario Sérgio Cortella
A Educação está em crise!
A crise da Educação tem sido inerente à vida
nacional porque não atingimos ainda
patamares mínimos de uma justiça social
compatível com a riqueza produzida pelo país
e usufruída por uma minoria. Não é,
evidentemente, "privilégio" da Educação;
todos os setores sociais vivem sucessivas e
contínua crises.
Conteúdos e
metodologias
Adequação a novas
ideologias
Democratização
do acesso
Gestão
democrática
Baixa qualidade de
ensino
Despreparo
dos
educadores
Evasão e retenção
escolar
1. Gênese recente de uma antiga crise e
atuação dos educadores
1964 – modelo econômico voltado para grandes obras de
infraestrutura, endividando o país e retirando os recursos
necessários para investimentos nos setores sociais.
Colapso de serviços públicos como educação e saúde (com
seu inchaço despreparado) e a progressiva ocupação deles
pelo setor privado da economia.
DEMANDA EXPLOSIVA
DEPAUPERIZAÇÃO DO
INSTRUMENTAL DIDÁTICO-
PEDAGÓGICO
INGRESSO MASSIVO DE
EDUCADORES SEM FORMAÇÃO
APROPRIADA
DIMINUIÇÃO ACENTUADA DAS
CONDIÇÕES SALARIAIS DOS
EDUCADORES
EDUCAÇÃO:
EFEITOS
DESASTROSOS
Assim, a educação pública das últimas
décadas (com reflexos no ensino privado) foi
um dos desaguadouros do intencional
apartheid social implementado pelas elites
econômicas e é a partir dele que podemos
compreender a crise da Educação e a atuação
político/pedagógica dos educadores.
2. Educação brasileira, epistemologia e política: por que
repensar fundamentos dessa articulação?
Desponta mais fortemente hoje uma preocupação: não basta
reafirmar que o aumento da quantidade de cidadãos na
escola pública leva a uma queda da qualidade de ensino (com
as causas já apontadas); é preciso pensar uma nova
qualidade para uma nova escola, em uma sociedade que
começa, paulatinamente, a erigir a Educação como um
direito objetivo de cidadania.
A qualidade na Educação passa, necessariamente,
pela quantidade. Em uma democracia plena,
quantidade é sinal de qualidade social e, se não se
tem a quantidade total, não se pode falar em
qualidade. Afinal, a qualidade não se obtém por
índices de rendimento unicamente em relação
àqueles que frequentam escolas, mas pela
diminuição drástica da evasão e pela
democratização do acesso.
Uma nova qualidade social, por sua vez, exige uma
REORGANIZAÇÃO CURRICULAR que preveja o levar em
conta a realidade do aluno.
É preciso que os educadores reflitam sobre o
SENTIDO SOCIAL CONCRETO
do que fazem.
Repensar teórico das próprias práticas
Capítulo 1 - Humanidade, cultura e conhecimento
Todas e todos que atuamos em Educação, porque
lidamos com formação e informação, trabalhamos com
o conhecimento. O conhecimento, objeto da nossa
atividade, não pode, no entanto, ser reduzido à sua
modalidade científica, pois, apesar de ela estar mais
direta e extensamente presente em nossas ações
profissionais cotidianas, outras modalidades (como o
conhecimento estético, o religioso, o afetivo etc.)
também o estão.
Cultura: o mundo humano
Nós humanos somos, igualmente, um produto
cultural; não há humano fora da Cultura, pois ela é o
nosso ambiente e nela somos socialmente formados
(com valores, crenças, regras, objetos, conhecimentos,
etc) e historicamente determinados (com as condições
e concepções da época na qual vivemos). Em suma, o
homem não nasce humano e, sim, torna-se humano
na vida social e histórica no interior da Cultura.
Ação transformadora consciente
PRÁXIS (TRABALHO)
(...)o bem de produção imprescindível para
nossa existência é o Conhecimento, dado que
ele, por se constituir em entendimento,
averiguação e interpretação sobre a realidade,
é o que nos guia como ferramenta central para
nela intervir; ao seu lado se coloca a Educação
(em suas múltiplas formas), que é o veículo
que o transporta para ser produzido e
reproduzido.
Conhecimento e valores: fronteiras da não-neutralidade
O principal canal de conservação e inovação dos valores e
conhecimentos são as instituições sociais como a família e a
Igreja, o mercado profissional, a mídia, a escola, etc. Tal como
mencionamos, ao contrário dos outros seres vivos, nós os
humanos, dependemos profundamente de processos
educativos para nossa sobrevivência, (não carregamos em
nosso equipamento genético instruções suficientes para a
produção da existência) e, desse prisma, a Educação é
instrumento basilar para nós.
A Educação pode ser compreendida em duas categorias
centrais:
• educação vivencial e espontânea, o "vivendo e
aprendendo" (dado que estar vivo é uma contínua
situação de ensino/aprendizado);
• educação intencional ou propositada, deliberada e
organizada em locais predeterminados e com
instrumentos específicos (representada hoje
majoritariamente pela Escola e, cada vez mais, pela
mídia).
Os processos pedagógicos não são neutros,
estando imersos no tecido social e tendo,
ainda, a tarefa de elaborar o indispensável
amálgama para a vida coletiva, sendo
conservadores e inovadores; é como tal que
esses processos devem ser enfocados e
compreendidos.
O empenho consistente em uma visão de
alteridade permite identificar nos outros (e em
nós mesmos!) o caráter múltiplo da Humanidade,
sem cair na armadilha presunçosa de taxar o
diferente como sendo esquisito, excêntrico,
esdrúxulo e, portanto, assimilar a postura
prepotente daqueles que não entendem que se
constituem em um dos arranjos possíveis do ser
humano, mas não o único ou, necessariamente, o
correto.
Capítulo 2 - Conhecimento e verdade: A matriz da
noção de descoberta
Como o cerne e a finalidade última dos processos
educativos em geral é o Conhecimento (formativo e
informativo), as concepções pedagógicas de cada um e
de cada uma de nós estão em uma estreita conexão
com a "teoria sobre o conhecimento" que, individual
ou coletivamente, assumimos.
É uma ocorrência histórica,
ou seja, é relativo à Cultura e
à Sociedade na qual emerge
em certo momento
Como desvelamento
ou descoberta
A ideia de verdade
como descoberta é
uma construção
Nasce no período
clássico grego
VERDADE
O QUE É DE ONDE VEM
COMO CHEGAR ATÉ
ELE
DESCOBERTA
CONHECIMENTO
Capítulo 3 - A Escola e a Construção do Conhecimento
Relativizar: caminho para romper a mitificação
Não se deve atribuir apenas a algumas formas de investigação
da realidade a característica de serem portadoras de certezas
menos contundentes, em função dos métodos utilizados; o
conhecimento, qualquer um, origina-se do que fazemos e
aquilo que fazemos está embebido da Cultura por nós
produzida, ao nos produzirmos.
Intencionalidade, erro e pré-ocupação
• O saber pressupõe uma intencionalidade, ou seja, não há
busca de saber sem finalidade. Dessa forma, o método é,
sempre, a ferramenta para a execução dessa
intencionalidade; como ferramenta, o método é uma escolha
e, como escolha, não é neutro.
• O erro não ocupa um lugar externo ao processo de conhecer;
investigar é bem diferente de receber uma revelação límpida,
transparente e perfeita. O erro é parte integrante do
conhecer não porque "errar é humano", mas porque nosso
conhecimento sobre o mundo dá-se em uma relação viva e
cambiante (sem o controle de toda e qualquer interveniência)
com o próprio mundo.
• Não há conhecimento que possa ser apreendido e recriado se
não se mexer, inicialmente, nas pre-ocupações que as
pessoas detêm; é um contrassenso supor que se possa
ensinar crianças e jovens, principalmente, sem partir das
preocupações que eles têm, pois, do contrário, só se
conseguirá que decorem (constrangidos e sem interesse) os
conhecimentos que deveriam ser apropriados (tornados
próprios).
Fica cada vez mais evidente que parte substancial do
desinteresse (e da "indisciplina") encontrado em
muitos dos nossos alunos pode ser atribuído ao
distanciamento dos conteúdos programáticos em
relação às preocupações que os alunos trazem para a
escola. Essas preocupações raramente são conhecidas
por nós, educadores; com frequência supomos que
qualquer conteúdo, a priori, é valido e deve interessar
aos aprendizes, pois, afinal, foi por nós escolhido e
"sabemos o que é bom para eles".
Ritualismos, encantamentos e princípios
Dizemos nós: "eles não querem saber de
nada"; dizem eles: "as aulas não têm nada a
ver comigo". Conclusão nossa: "eles não
gostam da escola". Não é verdade; quase
todas as crianças gostam da escola. Do que,
talvez, não gostem muito, é das nossas aulas.
• Para uma infinidade de educadores, a sala de aula é um
lugar de culto (requer silêncio, nesse lugar a disposição
espacial obedece à hierarquia, é o celebrante que dá
início ao culto, quem o dirige e quem tem poder de
interrompê-lo ou encerrá-lo).
• Para outros tantos em Educação, a sala de aula é um
ambiente teatral (como o interior de um teatro, requer
atenção contínua, um ator principal que saiba
interpretar e catalisar os sentidos, e uma plateia
disposta a viver voluntariamente emoções).
Um dos componentes fulcrais do comportamento
infantil e adolescente é o lúdico (que nós, os adultos,
parcialmente represamos em nós, e neles) e a
amorosidade, e a sala de aula deve ser, portanto, antes
de todo o mais, o lugar de uma situação com contornos
amorosos: a aula.
Como o interior de uma relação afetiva, a aula
impõe dedicação, confiança mútua,
maleabilidade e prazer compartilhado.
A criação e recriação do conhecimento na escola não está
apenas em falar sobre coisas prazerosas, mas,
principalmente, em falar prazerosamente sobre as coisas; ou
seja, quando o educador exala gosto pelo que está ensinando,
ele interessa nisso também o aluno.
Seriedade não é, e nem pode ser, sinônimo de
tristeza. O ambiente alegre é propício à
aprendizagem e à criatividade, desde que não se
ultrapasse a sutil fronteira entre a alegria e a
desconcentração improdutiva.
A escola está grávida de história e sociedade,
e, sendo esse processo marcado pela relações
de poder, o Conhecimento é político, isto é,
articula-se com as relações de poder. Sua
transmissão, produção e reprodução no
espaço educativo escolar decorre de uma
posição ideológica (consciente ou não), de
uma direção deliberada e de um conjunto de
técnicas que lhes são adequadas.
Capítulo 4 - Conhecimento escolar: epistemologia e política
Existe uma concepção da relação entre Escola e Sociedade que
é muito presente entre os educadores , o otimismo ingênuo
MISSÃO SALVÍTICA DA ESCOLA
IDEIA DE SACERDÓCIO
É otimista porque valoriza a Escola, mas é ingênua pois atribui a
ela uma autonomia absoluta para extinguir a pobreza e a
miséria.
ESCOLA
Muitos educadores também defendem o chamado
pessimismo ingênuo, ideia na qual a Educação nada mais é
que um instrumento de dominação e que a Escola é
reprodutora da desigualdade social.
O pessimismo dessa concepção vem da compreensão do papel
unicamente discriminatório da Escola. Essa concepção
também é ingênua, pois ela não radicaliza a análise e sim a
sectariza.
ESCOLA
• Otimismo crítico: indicar o valor da Escola, sem cair na
noção de neutralidade ou colocá-la como inútil para a
transformação social.
FUNÇÃO CONSERVADORA E FUNÇÃO INOVADORA
(PAPEL POLÍTICO PEDAGÓGICO DO EDUCADOR)
ESCOLA
Reafirmemos o óbvio: há um fortíssimo
reflexo das condições de vida dos
alunos no seu desempenho escolar. Há
décadas e décadas isso é discutido sem
que, necessariamente, acarrete
mudanças significativas na nossa ação
coletiva.
Causas intra-escolares do fracasso escolar:
• Uso não reflexivo e crítico dos livros didáticos;
• Seleção de conteúdos excessivamente abstratos e sem
integração;
• Culpabilização dos alunos pelo próprio fracasso.
• Avaliação com finalidade de identificar problemas e
facilidades na relação ensino/aprendizagem de modo a
reorientar o processo pedagógico, não como punição.
A nova realidade social a ser parida também
por nós educadores é mais do que uma espera
(nostalgia do futuro), é um escavar no hoje de
nossas práticas à procura daquilo que hoje
pode ser feito. Esse hoje é uma das pontas do
nó do futuro a ser desatado, fruto de situações
que não se alteram por si mesmas nem se
resolvem com um "ah! Se eu pudesse..." "ah!,
no meu tempo"...
Concluindo...
Nosso tempo, o dos educadores, é esse hoje em que já
se encontra, em gestação, o amanhã. Não um
qualquer, mas um amanhã intencional, planejado,
provocado agora. Um amanhã sobre o qual não
possuímos certezas, mas que sabemos possibilidades.
É nessa paixão pelo humano que habita, de forma
convulsiva, a tensão articulada entre o epistemológico
e o político, onde se dá o encontro do sonho de um
Conhecimento como ferramenta de Liberdade e de um
Poder como amálgama da convivência igualitária.
Em sua obra A Escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos, Mario Sergio Cortella aborda três
concepções básicas da relação sociedade-escola. Considerando essas concepções apresentadas pelo autor, pode-se
identificar aquelas que predominam entre os docentes que trabalham nas diferentes escolas de ensino fundamental.
Em conformidade com Cortella (2011), pode-se afirmar corretamente que a maioria dos professores é adepta do
(A) pessimismo ingênuo, pois afirma que todos os conflitos da escola são decorrentes da pobreza dos alunos. Nessa
concepção, nem tudo está perdido porque os múltiplos programas sociais são intervenções que podem superar a
desigualdade nas escolas e permitir o desenvolvimento pedagógico de seus alunos.
(B) otimismo crítico. Nessa concepção, a educação escolar tem uma autonomia e uma determinação relativas e sua prática
se dá nessa contradição, podendo aprofundar a desigualdade social com o fracasso escolar ou combatê-la com o sucesso
escolar.
(C) otimismo crítico, pois afirma a possibilidade da transformação radical das condições da educação escolar, se o governo
pagar melhor os professores e estes estiverem convencidos de sua nobre missão: a de salvar a sociedade por meio da
educação.
(D) otimismo ingênuo. Nessa concepção, a educação escolar não consegue eliminar a desigualdade social, mas entendem
que, alfabetizando e educando os alunos, ela conseguirá instrumentalizá-los para vencerem individualmente os obstáculos
a serem enfrentados e tornarem-se cidadãos bem sucedidos.
(E) pessimismo ingênuo, na medida em que descreem de quase tudo que possa ser feito pela educação escolar do jeito
que ela está, mas, ao mesmo tempo, acredita que cabe à educação recuperar seu papel de salvadora da sociedade,
recrutando mestres com verdadeira vocação.
Mario Sergio Cortella, em sua obra A Escola e o Conhecimento, afirma que no fracasso escolar, que ele chama de
“pedagocídio”, há, usualmente, causas extraescolares que são reais e importantes, como precárias condições
econômicas e sociais da população, formação histórica colonizada, poderes públicos irresponsáveis ou atrelados
aos interesses de uma elite predatória, e outras. Entretanto, as causas extraescolares não são as únicas, pois
existem causas intra-escolares. Se desejarmos explorar os espaços nos quais nossa autonomia relativa rejeite
concretamente a manutenção de uma realidade injusta, deveremos considerar também que
(A) o aluno, com suas atitudes de desorganização e desrespeito aos professores e aos pais ou responsáveis, acaba
se tornando o causador do próprio fracasso escolar e insucesso na vida.
(B) a grande responsável pela precária aprendizagem dos alunos é a progressão continuada, pois os estudantes
são promovidos para os anos seguintes sem que dominem os conteúdos básicos do ano que
cursam.
(C) precisamos nos debruçar sobre as causas intra-escolares daquele fracasso, entre as quais se incluem o uso não-
reflexivo e acrítico dos livros didáticos e a seleção de conteúdos excessivamente abstratos, que não se integram.
(D) diretores despreparados agravam o fracasso escolar ao abandonarem a maioria dos professores no exercício
de suas práticas educativas, permitindo que sejam apoiados pelos colegas mais experientes.
(E) cabe exclusivamente à família educar seus filhos em atitudes e valores, para que aproveitem os conteúdos
oferecidos pela escola no cumprimento de sua função social, prevenindo, assim, o fracasso escolar.

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Educação em crise e os desafios dos educadores

  • 2. A Educação está em crise! A crise da Educação tem sido inerente à vida nacional porque não atingimos ainda patamares mínimos de uma justiça social compatível com a riqueza produzida pelo país e usufruída por uma minoria. Não é, evidentemente, "privilégio" da Educação; todos os setores sociais vivem sucessivas e contínua crises.
  • 3. Conteúdos e metodologias Adequação a novas ideologias Democratização do acesso Gestão democrática Baixa qualidade de ensino Despreparo dos educadores Evasão e retenção escolar
  • 4. 1. Gênese recente de uma antiga crise e atuação dos educadores 1964 – modelo econômico voltado para grandes obras de infraestrutura, endividando o país e retirando os recursos necessários para investimentos nos setores sociais. Colapso de serviços públicos como educação e saúde (com seu inchaço despreparado) e a progressiva ocupação deles pelo setor privado da economia.
  • 5. DEMANDA EXPLOSIVA DEPAUPERIZAÇÃO DO INSTRUMENTAL DIDÁTICO- PEDAGÓGICO INGRESSO MASSIVO DE EDUCADORES SEM FORMAÇÃO APROPRIADA DIMINUIÇÃO ACENTUADA DAS CONDIÇÕES SALARIAIS DOS EDUCADORES EDUCAÇÃO: EFEITOS DESASTROSOS
  • 6. Assim, a educação pública das últimas décadas (com reflexos no ensino privado) foi um dos desaguadouros do intencional apartheid social implementado pelas elites econômicas e é a partir dele que podemos compreender a crise da Educação e a atuação político/pedagógica dos educadores.
  • 7. 2. Educação brasileira, epistemologia e política: por que repensar fundamentos dessa articulação? Desponta mais fortemente hoje uma preocupação: não basta reafirmar que o aumento da quantidade de cidadãos na escola pública leva a uma queda da qualidade de ensino (com as causas já apontadas); é preciso pensar uma nova qualidade para uma nova escola, em uma sociedade que começa, paulatinamente, a erigir a Educação como um direito objetivo de cidadania.
  • 8. A qualidade na Educação passa, necessariamente, pela quantidade. Em uma democracia plena, quantidade é sinal de qualidade social e, se não se tem a quantidade total, não se pode falar em qualidade. Afinal, a qualidade não se obtém por índices de rendimento unicamente em relação àqueles que frequentam escolas, mas pela diminuição drástica da evasão e pela democratização do acesso.
  • 9. Uma nova qualidade social, por sua vez, exige uma REORGANIZAÇÃO CURRICULAR que preveja o levar em conta a realidade do aluno.
  • 10. É preciso que os educadores reflitam sobre o SENTIDO SOCIAL CONCRETO do que fazem. Repensar teórico das próprias práticas
  • 11. Capítulo 1 - Humanidade, cultura e conhecimento Todas e todos que atuamos em Educação, porque lidamos com formação e informação, trabalhamos com o conhecimento. O conhecimento, objeto da nossa atividade, não pode, no entanto, ser reduzido à sua modalidade científica, pois, apesar de ela estar mais direta e extensamente presente em nossas ações profissionais cotidianas, outras modalidades (como o conhecimento estético, o religioso, o afetivo etc.) também o estão.
  • 12. Cultura: o mundo humano Nós humanos somos, igualmente, um produto cultural; não há humano fora da Cultura, pois ela é o nosso ambiente e nela somos socialmente formados (com valores, crenças, regras, objetos, conhecimentos, etc) e historicamente determinados (com as condições e concepções da época na qual vivemos). Em suma, o homem não nasce humano e, sim, torna-se humano na vida social e histórica no interior da Cultura.
  • 14. (...)o bem de produção imprescindível para nossa existência é o Conhecimento, dado que ele, por se constituir em entendimento, averiguação e interpretação sobre a realidade, é o que nos guia como ferramenta central para nela intervir; ao seu lado se coloca a Educação (em suas múltiplas formas), que é o veículo que o transporta para ser produzido e reproduzido.
  • 15. Conhecimento e valores: fronteiras da não-neutralidade O principal canal de conservação e inovação dos valores e conhecimentos são as instituições sociais como a família e a Igreja, o mercado profissional, a mídia, a escola, etc. Tal como mencionamos, ao contrário dos outros seres vivos, nós os humanos, dependemos profundamente de processos educativos para nossa sobrevivência, (não carregamos em nosso equipamento genético instruções suficientes para a produção da existência) e, desse prisma, a Educação é instrumento basilar para nós.
  • 16. A Educação pode ser compreendida em duas categorias centrais: • educação vivencial e espontânea, o "vivendo e aprendendo" (dado que estar vivo é uma contínua situação de ensino/aprendizado); • educação intencional ou propositada, deliberada e organizada em locais predeterminados e com instrumentos específicos (representada hoje majoritariamente pela Escola e, cada vez mais, pela mídia).
  • 17. Os processos pedagógicos não são neutros, estando imersos no tecido social e tendo, ainda, a tarefa de elaborar o indispensável amálgama para a vida coletiva, sendo conservadores e inovadores; é como tal que esses processos devem ser enfocados e compreendidos.
  • 18. O empenho consistente em uma visão de alteridade permite identificar nos outros (e em nós mesmos!) o caráter múltiplo da Humanidade, sem cair na armadilha presunçosa de taxar o diferente como sendo esquisito, excêntrico, esdrúxulo e, portanto, assimilar a postura prepotente daqueles que não entendem que se constituem em um dos arranjos possíveis do ser humano, mas não o único ou, necessariamente, o correto.
  • 19. Capítulo 2 - Conhecimento e verdade: A matriz da noção de descoberta Como o cerne e a finalidade última dos processos educativos em geral é o Conhecimento (formativo e informativo), as concepções pedagógicas de cada um e de cada uma de nós estão em uma estreita conexão com a "teoria sobre o conhecimento" que, individual ou coletivamente, assumimos.
  • 20. É uma ocorrência histórica, ou seja, é relativo à Cultura e à Sociedade na qual emerge em certo momento Como desvelamento ou descoberta A ideia de verdade como descoberta é uma construção Nasce no período clássico grego VERDADE
  • 21. O QUE É DE ONDE VEM COMO CHEGAR ATÉ ELE DESCOBERTA CONHECIMENTO
  • 22. Capítulo 3 - A Escola e a Construção do Conhecimento Relativizar: caminho para romper a mitificação Não se deve atribuir apenas a algumas formas de investigação da realidade a característica de serem portadoras de certezas menos contundentes, em função dos métodos utilizados; o conhecimento, qualquer um, origina-se do que fazemos e aquilo que fazemos está embebido da Cultura por nós produzida, ao nos produzirmos.
  • 23. Intencionalidade, erro e pré-ocupação • O saber pressupõe uma intencionalidade, ou seja, não há busca de saber sem finalidade. Dessa forma, o método é, sempre, a ferramenta para a execução dessa intencionalidade; como ferramenta, o método é uma escolha e, como escolha, não é neutro. • O erro não ocupa um lugar externo ao processo de conhecer; investigar é bem diferente de receber uma revelação límpida, transparente e perfeita. O erro é parte integrante do conhecer não porque "errar é humano", mas porque nosso conhecimento sobre o mundo dá-se em uma relação viva e cambiante (sem o controle de toda e qualquer interveniência) com o próprio mundo.
  • 24. • Não há conhecimento que possa ser apreendido e recriado se não se mexer, inicialmente, nas pre-ocupações que as pessoas detêm; é um contrassenso supor que se possa ensinar crianças e jovens, principalmente, sem partir das preocupações que eles têm, pois, do contrário, só se conseguirá que decorem (constrangidos e sem interesse) os conhecimentos que deveriam ser apropriados (tornados próprios).
  • 25. Fica cada vez mais evidente que parte substancial do desinteresse (e da "indisciplina") encontrado em muitos dos nossos alunos pode ser atribuído ao distanciamento dos conteúdos programáticos em relação às preocupações que os alunos trazem para a escola. Essas preocupações raramente são conhecidas por nós, educadores; com frequência supomos que qualquer conteúdo, a priori, é valido e deve interessar aos aprendizes, pois, afinal, foi por nós escolhido e "sabemos o que é bom para eles".
  • 26. Ritualismos, encantamentos e princípios Dizemos nós: "eles não querem saber de nada"; dizem eles: "as aulas não têm nada a ver comigo". Conclusão nossa: "eles não gostam da escola". Não é verdade; quase todas as crianças gostam da escola. Do que, talvez, não gostem muito, é das nossas aulas.
  • 27. • Para uma infinidade de educadores, a sala de aula é um lugar de culto (requer silêncio, nesse lugar a disposição espacial obedece à hierarquia, é o celebrante que dá início ao culto, quem o dirige e quem tem poder de interrompê-lo ou encerrá-lo). • Para outros tantos em Educação, a sala de aula é um ambiente teatral (como o interior de um teatro, requer atenção contínua, um ator principal que saiba interpretar e catalisar os sentidos, e uma plateia disposta a viver voluntariamente emoções).
  • 28. Um dos componentes fulcrais do comportamento infantil e adolescente é o lúdico (que nós, os adultos, parcialmente represamos em nós, e neles) e a amorosidade, e a sala de aula deve ser, portanto, antes de todo o mais, o lugar de uma situação com contornos amorosos: a aula. Como o interior de uma relação afetiva, a aula impõe dedicação, confiança mútua, maleabilidade e prazer compartilhado.
  • 29. A criação e recriação do conhecimento na escola não está apenas em falar sobre coisas prazerosas, mas, principalmente, em falar prazerosamente sobre as coisas; ou seja, quando o educador exala gosto pelo que está ensinando, ele interessa nisso também o aluno. Seriedade não é, e nem pode ser, sinônimo de tristeza. O ambiente alegre é propício à aprendizagem e à criatividade, desde que não se ultrapasse a sutil fronteira entre a alegria e a desconcentração improdutiva.
  • 30. A escola está grávida de história e sociedade, e, sendo esse processo marcado pela relações de poder, o Conhecimento é político, isto é, articula-se com as relações de poder. Sua transmissão, produção e reprodução no espaço educativo escolar decorre de uma posição ideológica (consciente ou não), de uma direção deliberada e de um conjunto de técnicas que lhes são adequadas.
  • 31. Capítulo 4 - Conhecimento escolar: epistemologia e política Existe uma concepção da relação entre Escola e Sociedade que é muito presente entre os educadores , o otimismo ingênuo MISSÃO SALVÍTICA DA ESCOLA IDEIA DE SACERDÓCIO É otimista porque valoriza a Escola, mas é ingênua pois atribui a ela uma autonomia absoluta para extinguir a pobreza e a miséria.
  • 33. Muitos educadores também defendem o chamado pessimismo ingênuo, ideia na qual a Educação nada mais é que um instrumento de dominação e que a Escola é reprodutora da desigualdade social. O pessimismo dessa concepção vem da compreensão do papel unicamente discriminatório da Escola. Essa concepção também é ingênua, pois ela não radicaliza a análise e sim a sectariza.
  • 35. • Otimismo crítico: indicar o valor da Escola, sem cair na noção de neutralidade ou colocá-la como inútil para a transformação social. FUNÇÃO CONSERVADORA E FUNÇÃO INOVADORA (PAPEL POLÍTICO PEDAGÓGICO DO EDUCADOR)
  • 37. Reafirmemos o óbvio: há um fortíssimo reflexo das condições de vida dos alunos no seu desempenho escolar. Há décadas e décadas isso é discutido sem que, necessariamente, acarrete mudanças significativas na nossa ação coletiva.
  • 38. Causas intra-escolares do fracasso escolar: • Uso não reflexivo e crítico dos livros didáticos; • Seleção de conteúdos excessivamente abstratos e sem integração; • Culpabilização dos alunos pelo próprio fracasso. • Avaliação com finalidade de identificar problemas e facilidades na relação ensino/aprendizagem de modo a reorientar o processo pedagógico, não como punição.
  • 39. A nova realidade social a ser parida também por nós educadores é mais do que uma espera (nostalgia do futuro), é um escavar no hoje de nossas práticas à procura daquilo que hoje pode ser feito. Esse hoje é uma das pontas do nó do futuro a ser desatado, fruto de situações que não se alteram por si mesmas nem se resolvem com um "ah! Se eu pudesse..." "ah!, no meu tempo"...
  • 40. Concluindo... Nosso tempo, o dos educadores, é esse hoje em que já se encontra, em gestação, o amanhã. Não um qualquer, mas um amanhã intencional, planejado, provocado agora. Um amanhã sobre o qual não possuímos certezas, mas que sabemos possibilidades. É nessa paixão pelo humano que habita, de forma convulsiva, a tensão articulada entre o epistemológico e o político, onde se dá o encontro do sonho de um Conhecimento como ferramenta de Liberdade e de um Poder como amálgama da convivência igualitária.
  • 41. Em sua obra A Escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos, Mario Sergio Cortella aborda três concepções básicas da relação sociedade-escola. Considerando essas concepções apresentadas pelo autor, pode-se identificar aquelas que predominam entre os docentes que trabalham nas diferentes escolas de ensino fundamental. Em conformidade com Cortella (2011), pode-se afirmar corretamente que a maioria dos professores é adepta do (A) pessimismo ingênuo, pois afirma que todos os conflitos da escola são decorrentes da pobreza dos alunos. Nessa concepção, nem tudo está perdido porque os múltiplos programas sociais são intervenções que podem superar a desigualdade nas escolas e permitir o desenvolvimento pedagógico de seus alunos. (B) otimismo crítico. Nessa concepção, a educação escolar tem uma autonomia e uma determinação relativas e sua prática se dá nessa contradição, podendo aprofundar a desigualdade social com o fracasso escolar ou combatê-la com o sucesso escolar. (C) otimismo crítico, pois afirma a possibilidade da transformação radical das condições da educação escolar, se o governo pagar melhor os professores e estes estiverem convencidos de sua nobre missão: a de salvar a sociedade por meio da educação. (D) otimismo ingênuo. Nessa concepção, a educação escolar não consegue eliminar a desigualdade social, mas entendem que, alfabetizando e educando os alunos, ela conseguirá instrumentalizá-los para vencerem individualmente os obstáculos a serem enfrentados e tornarem-se cidadãos bem sucedidos. (E) pessimismo ingênuo, na medida em que descreem de quase tudo que possa ser feito pela educação escolar do jeito que ela está, mas, ao mesmo tempo, acredita que cabe à educação recuperar seu papel de salvadora da sociedade, recrutando mestres com verdadeira vocação.
  • 42. Mario Sergio Cortella, em sua obra A Escola e o Conhecimento, afirma que no fracasso escolar, que ele chama de “pedagocídio”, há, usualmente, causas extraescolares que são reais e importantes, como precárias condições econômicas e sociais da população, formação histórica colonizada, poderes públicos irresponsáveis ou atrelados aos interesses de uma elite predatória, e outras. Entretanto, as causas extraescolares não são as únicas, pois existem causas intra-escolares. Se desejarmos explorar os espaços nos quais nossa autonomia relativa rejeite concretamente a manutenção de uma realidade injusta, deveremos considerar também que (A) o aluno, com suas atitudes de desorganização e desrespeito aos professores e aos pais ou responsáveis, acaba se tornando o causador do próprio fracasso escolar e insucesso na vida. (B) a grande responsável pela precária aprendizagem dos alunos é a progressão continuada, pois os estudantes são promovidos para os anos seguintes sem que dominem os conteúdos básicos do ano que cursam. (C) precisamos nos debruçar sobre as causas intra-escolares daquele fracasso, entre as quais se incluem o uso não- reflexivo e acrítico dos livros didáticos e a seleção de conteúdos excessivamente abstratos, que não se integram. (D) diretores despreparados agravam o fracasso escolar ao abandonarem a maioria dos professores no exercício de suas práticas educativas, permitindo que sejam apoiados pelos colegas mais experientes. (E) cabe exclusivamente à família educar seus filhos em atitudes e valores, para que aproveitem os conteúdos oferecidos pela escola no cumprimento de sua função social, prevenindo, assim, o fracasso escolar.