O futuro do SUS
Eugênio Vilaça Mendes
CONASS Debate: O futuro dos sistemas universais de saúde
Brasília, 25 de abril de 2018
30 Anos de SUS: tempo de celebrar os
avanços
• Produção
Internações hospitalares: 11.100.000
Procedimentos ambulatoriais: 3.700.000.000
Partos: 2.000.000
Exames laboratoriais: 300.000.000
Vacinas aplicadas: 150.000.000
• Programas de excelência
Sistema Nacional de Imunização
Programa de controle de HIV/AIDS
Programa Nacional de Controle de Transplantes de Órgãos e Tecidos
Programa de Controle do Tabagismo
Estratégia da Saúde da Família
• Uma política pública exitosa de inclusão social
Fontes:
Conselho Nacional de Secretários de Saúde. SUS, avanços e desafios. Brasília, CONASS, 2006
Tribunal de Contas da União. Relatório sistêmico de fiscalização da saúde. Brasília, TCU, 2013
Tempo de refletir sobre o futuro:
os grandes dilemas do SUS
Integração
Fragmentação
Segmentação Universalização
Fonte : Mendes EV. Os grandes dilemas do SUS. Salvador, Casa da Qualidade, Tomo I, 2001
Âmbito macropolítico
Âmbito micropolítico
A transição epidemiológica no Brasil:
a tripla carga de doenças
• Uma agenda não
concluída de infecções,
desnutrição e problemas
de saúde reprodutiva:
13,2%
• As causas externas: 9,5%
• A forte predominância
relativa das doenças
crônicas: 77,3%
Fonte:
Leite IC et al. Carga de doença no Brasil e suas regiões, 2008. Cad. Saúde Pública, 31: 1551-1564, 2015
GRUPO I
GRUPO II
GRUPO III
O dilema do SUS no âmbito micropolítico:
fragmentação ou integração em redes
• Problema:
A incoerência entre uma
situação de saúde que combina
transição demográfica e tripla
carga de doença, com forte
predominância de condições
crônicas, e um sistema
fragmentado de saúde que
opera de forma episódica e
reativa e que é voltado
principalmente para a atenção
às condições agudas e às
agudizações das condições
crônicas
• Solução:
A situação de tripla carga de
doença com predomínio
relativo forte de condições
crônicas exige um sistema
integrado de saúde que opera
de forma contínua e proativa e
é voltado equilibradamente para
a atenção às condições agudas
e crônicas: as redes de atenção
à saúde
Fonte: Mendes EV. As redes de atenção à saúde. Brasília, Organização Pan-Americana da Saúde, 2011.
APS
Uma agenda de inovações para o SUS
Essa agenda implica mudanças coordenadas e concomitantes nos
três componentes do SUS: o modelo de gestão, o modelo de atenção
à saúde e o modelo de financiamento
MT
MP
ME
MP: Modelo Político:
O modelo de Gestão
MT: Modelo Técnico:
O modelo de atenção à saúde
ME: Modelo Econômico:
O modelo de financiamento
Fontes:
Tobar F. Modelos de gestión en salud. Buenos Aires, 2002
Mendes EV. A redes de atenção à saúde. Brasília, Organização Pan-Americana da Saúde, 2011
Universalização ou segmentação?
O desempenho dos sistemas de saúde em anos
próximos a 2013
Fonte: Davis K et al. Mirror, mirror on the wall 2014 update: how the US Health System compares internationally. New York, The
Commonwealth Fund, 2014
Os sistemas de saúde segmentados
• Caracterizam-se pela segregação de diferentes clientelas em nichos
institucionais singulares, resultando uma integração vertical em cada
segmento e uma segregação horizontal entre eles onde cada segmento,
público ou privado, exercita as funções de financiamento, regulação e
prestação de serviços para sua população particular
• Marcam-se, em geral, pela presença concomitante de diferentes matrizes
institucionais para subpopulações singulares e pela concomitância de
subsistemas públicos e privados que atuam com pouca sinergia entre
eles
• São justificados por um suposto aparentemente magnânimo, o de que ao
se instituírem sistemas específicos para quem pode pagar, sobrariam
mais recursos públicos para dar uma melhor atenção aos pobres
• Identificam-se por um alto percentual de gasto privado em relação ao
gasto total em saúde e podem afetar a proteção de riscos financeiros que
são indicados pela proporção de famílias que tiveram despesas
catastróficas e pela incidência de famílias que empobreceram devido a
pagamentos diretos para obter serviços de saúde
Fontes:
Emanuel E. Political problems. Boston Review, 25: 14-15, 2000
Londoño JL, Frenk J. Structured pluralism: towards a new model for health system reform in Latin America. Health Policy.
41: 1-36, 1997.
World Health Statistics. World Health Statistics 2017. Geneva: World Health Organization; 2017.
As concepções de universalismo
sanitário
• O universalismo clássico
Incorporou a ideia de um Estado eficaz que seria capaz de garantir o
livre acesso de todas as pessoas a todos os serviços sociais
Conduziu à universalização da seguridade social e à instituição de
sistemas públicos universais de saúde como partes de Estados de
Bem Estar Social
• O novo universalismo
Oferta universal de serviços essenciais do ponto de vista sanitário,
providos com qualidade para todos os cidadãos, definidos pelos
critérios de aceitabilidade social, efetividade e custos
Fonte:
World Health Organization. The World Health Report 2000: health systems, improving performance. Geneva, WHO, 2000.
A cobertura universal em saúde
População Coberta
Carteira de Serviços
Gratuidade dos Serviços
População
não coberta
Serviços não
cobertos
Serviços pagos
do bolso
Fundos comuns
existentes
Fonte: Organização Mundial da Saúde. Financiamento dos sistema de saúde:
o caminho para a cobertura universal. Genebra, OMS, Relatório Mundial da
Saúde 2010, 2010
A situação em que as pessoas são capazes de utilizar os serviços de saúde
de qualidade que necessitam sem sofrer danos ao pagar por eles
Sistemas públicos universais e
cobertura universal em saúde
• Nos sistemas públicos universais a saúde é um direito decorrente de
condição de cidadania; mais que um direito social, há uma tendência
de se considerar o direito à saúde como um direito humano
• “O NHS é mais que uma organização. É um conjunto de princípios por
meio dos quais nós valorizamos a saúde nos planos individual e
societário. É uma expressão de um dos papeis fundamentais do
Estado que é proteger seus cidadãos”
• Isso não necessariamente ocorre em algumas propostas de cobertura
universal em saúde, formatadas por asseguramento universal, em que
as funções de regulação, financiamento e prestação de serviços estão
separadas entre setores públicos e privados e em que há diferenças
entre os planos de saúde, os subsídios públicos e os custos de
transação
Fontes:
Fleury S et al. Política de Saúde: uma política social. In: Giovanella L et al. (Organizadores). Políticas e Sistema de Saúde no
Brasil. Rio de Janeiro, Editora Fiocruz, 2008
Noronha JC. Cobertura universal de saúde: como misturar conceitos, confundir objetivos, abandonar princípios. Cad Saúde
Pública, 29:847-849, 2013
Barros FPC. Cobertura universal ou sistemas públicos universais de saúde? Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical
da Universidade Nova de Lisboa, 13: 87-90, 2014
Heredia N et al. El derecho a la salud: cual es el modelo para America Latina? Medicc Review, 17: S16-S17, 2016
Appleby J. The NHS at 70: loved, valued, and affordable. BMJ, 361: k1540, 2018
Os modelos institucionais de sistemas
de saúde
• Os modelos institucionais de sistemas de saúde são
definidos, fundamentalmente, pelos modos como se
combinam suas três macrofunções de financiamento,
regulação e prestação de serviço e quem as executa
• Os tipos de modelos institucionais de sistemas de saúde:
O modelo de monopólio estatal
O modelo público universal beveridgeano
O modelo público universal bismarckiano
O modelo da competição gerenciada
O modelo de mercado
Os modelos mistos
Fonte: Reid TR. The healing of America: a global quest for better, cheaper, and fairer health care. New York,
Penguin Books; 2009.
SUS: Sistema público universal?
• O SUS, em sua concepção pelo movimento sanitário e em sua
instituição constitucional, foi concebido como um sistema
público beveridgeano, mas ao longo do tempo o objetivo da
universalização foi dando lugar a uma segmentação crescente
do sistema de saúde brasileiro
• Vários problemas contribuíram para a segmentação do sistema
de saúde brasileiro, mas o mais significativo foi o
financiamento. A generosidade dos constituintes na instituição
de um sistema público universal beveridgeano não foi
acompanhada pela criação de uma base material que
garantisse a saúde como direito de todos e dever do Estado
Fonte : Mendes EV. Os grandes dilemas do SUS. Salvador, Casa da Qualidade, Tomo I, 2001
Gasto público em percentual do gasto total
em saúde no Brasil e em países
selecionados - 2012
País %
Brasil 47,5
Canadá 70,1
França 77,4
Itália 77,3
Noruega 85,0
Espanha 71,7
Reino Unido 84,0
Fonte: World Health Organization. World health statistics, 2015. Geneva, WHO, 2015
A segmentação do sistema de saúde
brasileiro
• O SUS só é universal ou quase universal em algumas áreas
como a vigilância à saúde, as políticas de sangue e os
sistemas nacionais de vacinação e de transplantes de
órgãos e tecidos
• O subsistema privado de saúde suplementar:
cobertura de 47.400.000 (21,7%)
• O subsistema privado de desembolso direto ao qual
recorrem eventualmente todos os brasileiros
Fontes:
Mendes EV. O futuro dos sistemas universais de saúde: o caso brasileiro. Brasília, CONASS Debate, 2018
Instituto de Estudos de Saúde Suplementar. São Paulo, IESS, 2018
Gastos em saúde no Brasil - 2012
• Gasto total em saúde: 9,5% do PIB
• Gasto público em saúde: 4,5% do PIB
• Gasto privado em saúde:
5,0% do PIB
52,5% do gasto total em saúde
• Composição do gasto privado em saúde:
40,4% gastos no subsistema de saúde suplementar
57,8% no subsistema de desembolso direto que grava relativamente
os mais pobres
• Os gastos tributários representaram, em 2013, 30,5% das
despesas totais do Ministério da Saúde (R$ 25,363 bilhões)
Fontes:
World Health Organization. World health statistics, 2015. Geneva, WHO, 2015
Ocklé-Reis CO, Gama FN. Radiografia do gasto tributário em saúde, 2003-2013. Rio de Janeiro, IPEA, Nora técnica
nº 19, 2016
Cenários do sistema de saúde no Brasil
• Cenário Lampedusa
• Cenário de um Sistema Público Universal Beveridgeano
• Cenário de um Sistema de Cobertura Universal pela Via da
Competição Gerenciada
Fonte: Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Os caminhos da saúde no Brasil. Brasília, CONASS, 2014
O cenário Lampedusa
• “Algo deve mudar para que tudo continue como está”
• Parece ser o cenário mais provável nos curto e médio prazos
• A Emenda Constitucional nº 95
• Mudanças erráticas, sem conteúdo estratégico e com visão de
curto prazo no SUS e nos subsistemas privados (mudanças
pontuais no SUS, políticas de copagamento e de franquia,
expansão das clínicas populares, oferta de planos de saúde com
carteira de serviços restrita, recuperação de custos das pessoas
idosas e outras)
• Incremento da competição predatória entre os três subsistemas e
aumento da descoordenação entre eles
• Aumento dos gastos tributários e da iniquidade do sistema
• O Cenário Lampedusa não parece ser sustentável no longo prazo
quando os custos de não mudar poderão ser maiores que os
custos de mudar, diferentemente do que se apresenta nos curto e
médio prazos.
Fonte: Mendes EV. O futuro do SUS. Brasília, CONASS, 2018
O cenário de consolidação de um
sistema público universal beveridgeano
• Pressupostos:
O SUS não pode ser um sistema para atender somente aos pobres
O SUS deve ser olhado como fator importante para o desenvolvimento
da ciência, da inovação e de uma base produtiva nacional
Essa reforma deverá considerar o sistema como um todo, não apenas
o SUS, mas também suas interfaces e a interdependência com o
subsistema de saúde suplementar
• Esse cenário levaria à consolidação de um sistema público
universal beveridgeano brasileiro caracterizado por, pelo
menos, duas especificidades: a incorporação de um papel
verdadeiramente suplementar dos planos privados de saúde
e a manutenção de um sistema federativo com a
coparticipação da União, dos estados e dos municípios
Fontes:
Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Os caminhos da saúde no Brasil. Brasília, CONASS , 2014
Temporão JG. Para onde vai o SUS? In: Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Os caminhos da saúde no Brasil.
Brasília, CONASS , 2014
O cenário de consolidação de um
sistema público universal beveridgeano
• Nesse cenário o SUS seria responsável pela prestação,
gratuita e integral, de uma ampla carteira de serviços
sanitariamente necessária a todos os cidadãos brasileiros,
sem os constrangimentos determinados pelas políticas de
seletividade
• As operadoras privadas de planos de saúde ofertariam
serviços suplementares, mas não poderiam competir com o
SUS na oferta dos serviços que comporiam a carteira
pública
• Esse cenário implicaria um aumento significativo dos
gastos públicos em saúde, uma reconfiguração do
subsistema de saúde suplementar e uma melhoria da
percepção da população em relação ao SUS
Fontes:
Conselho Nacional de Secretários de Saúde. CONASS Debate: Os caminhos da saúde no Brasil. Brasília, CONASS ,
2014
Temporão JG. Para onde vai o SUS? In: Conselho Nacional de Secretários de Saúde. CONASS Debate: Os caminhos
da saúde no Brasil. Brasília, CONASS , 2014
O cenário de um sistema de cobertura
universal pela via da competição
gerenciada
• Esse cenário seria uma tentativa de implantação de um sistema de
saúde com base na doutrina da competição gerenciada, em sua
versão latino-americana do pluralismo estruturado, à semelhança
do que ocorreu na Colômbia
• A competição gerenciada consiste em substituir a relação
bilateral do livre mercado que se estabelece entre financiador e
prestador e usuário por uma relação trilateral em que haja a
inserção, no terceiro vértice, de uma agência administradora
ou moduladora. As instituições prestadoras também se
colocam em situação de competição entre elas, gerando um
sistema de duplo mercado
Fontes:
Enthoven A. Managed competition of alternative delivery systems. Jornal of Health, Politics, Policy and Law. 13: 305-321, 1988
Londoño JL, Frenk J. Structured pluralism: towards a new model for health system reform in Latin America. Health Policy.
41: 1-36, 1997
Descrição operacional do cenário de
pluralismo estruturado
• O SUS seria estruturado em modelos de gestão e de prestação de
serviços
• A rede própria de serviços do SUS seria convertida em operadoras
públicas
• Todas as pessoas deveriam ter um cartão saúde unificado e
deveriam afiliar-se a uma operadora pública ou privada
• O financiamento seria público, mas passaria a ser feito por meio
de subsídios a demanda, ou seja, a transferência de recursos às
operadoras, na forma de per capita, a partir da preferência dos
indivíduos por operadoras públicas ou privadas
• Todas as operadoras deveriam ser acreditadas para iniciar sua
operação e ser reavaliadas a cada dois anos
• Cada operadora deveria se organizar em redes regionais com
coordenação por equipes de atenção primária à saúde
• A operadoras deveriam estruturar-se de forma a prestar contas à
sociedade e de ter uma participação da sociedade em sua gestão
Fonte: Medici A. Uma nova via é possível? In: Conselho Nacional de secretários de Saúde. CONASS Debate: OS caminhos da
saúde no Brasil. Brasília, CONASS, 2014
Os valores societários e as reformas
dos sistemas de saúde
• A estabilidade dos sistemas de saúde resulta da coerência entre os
valores prevalecentes na sociedade e as estruturas simbólicas e
materiais desses sistemas
• As reformas dos sistemas de saúde derivam das relações complexas
que existem entre os valores hegemônicos da sociedade, as normas
que elas adotam para operacionalizar esses valores e a existências de
grupos simultaneamente autônomos e dependentes dessas normas e
valores
• “Não é exagero dizer que para muitas pessoas neste país, o Medicare
é o que melhor define ser canadense. Ele fortalece nossa economia,
melhora nossa estabilidade social e expressa nossos valores”
• Valores liberais e igualitários conformam sistemas de saúde bem
diferentes
Fontes:
Contrandriopoulos AP, Lauristin M, Leibovich E. Values, norms and the refoprm of health care systems. In: Saltman RB, Figueras
J, Sakellarides C (Editors). Critical challenges for health care reform in Europe. Buckingham, Open University Press, 1998
Martin D. Better now: six big ideas to improve health care for all canadians. Penguin Canada, 2017
Pineault R. Compreendendo o sistema de saúde para uma melhor gestão. Brasília, Conselho Nacional de Secretários de Saúde,
2016.
Uma reflexão final:
“O SUS não é um problema sem solução,
mas uma solução com problemas”
Fonte: Conselho Nacional de Secretários de Saúde. SUS: avanços e desafios. Brasília, CONASS, 2006.

Eugênio Vilaça – O futuro do SUS

  • 1.
    O futuro doSUS Eugênio Vilaça Mendes CONASS Debate: O futuro dos sistemas universais de saúde Brasília, 25 de abril de 2018
  • 2.
    30 Anos deSUS: tempo de celebrar os avanços • Produção Internações hospitalares: 11.100.000 Procedimentos ambulatoriais: 3.700.000.000 Partos: 2.000.000 Exames laboratoriais: 300.000.000 Vacinas aplicadas: 150.000.000 • Programas de excelência Sistema Nacional de Imunização Programa de controle de HIV/AIDS Programa Nacional de Controle de Transplantes de Órgãos e Tecidos Programa de Controle do Tabagismo Estratégia da Saúde da Família • Uma política pública exitosa de inclusão social Fontes: Conselho Nacional de Secretários de Saúde. SUS, avanços e desafios. Brasília, CONASS, 2006 Tribunal de Contas da União. Relatório sistêmico de fiscalização da saúde. Brasília, TCU, 2013
  • 3.
    Tempo de refletirsobre o futuro: os grandes dilemas do SUS Integração Fragmentação Segmentação Universalização Fonte : Mendes EV. Os grandes dilemas do SUS. Salvador, Casa da Qualidade, Tomo I, 2001 Âmbito macropolítico Âmbito micropolítico
  • 4.
    A transição epidemiológicano Brasil: a tripla carga de doenças • Uma agenda não concluída de infecções, desnutrição e problemas de saúde reprodutiva: 13,2% • As causas externas: 9,5% • A forte predominância relativa das doenças crônicas: 77,3% Fonte: Leite IC et al. Carga de doença no Brasil e suas regiões, 2008. Cad. Saúde Pública, 31: 1551-1564, 2015 GRUPO I GRUPO II GRUPO III
  • 5.
    O dilema doSUS no âmbito micropolítico: fragmentação ou integração em redes • Problema: A incoerência entre uma situação de saúde que combina transição demográfica e tripla carga de doença, com forte predominância de condições crônicas, e um sistema fragmentado de saúde que opera de forma episódica e reativa e que é voltado principalmente para a atenção às condições agudas e às agudizações das condições crônicas • Solução: A situação de tripla carga de doença com predomínio relativo forte de condições crônicas exige um sistema integrado de saúde que opera de forma contínua e proativa e é voltado equilibradamente para a atenção às condições agudas e crônicas: as redes de atenção à saúde Fonte: Mendes EV. As redes de atenção à saúde. Brasília, Organização Pan-Americana da Saúde, 2011. APS
  • 6.
    Uma agenda deinovações para o SUS Essa agenda implica mudanças coordenadas e concomitantes nos três componentes do SUS: o modelo de gestão, o modelo de atenção à saúde e o modelo de financiamento MT MP ME MP: Modelo Político: O modelo de Gestão MT: Modelo Técnico: O modelo de atenção à saúde ME: Modelo Econômico: O modelo de financiamento Fontes: Tobar F. Modelos de gestión en salud. Buenos Aires, 2002 Mendes EV. A redes de atenção à saúde. Brasília, Organização Pan-Americana da Saúde, 2011
  • 7.
    Universalização ou segmentação? Odesempenho dos sistemas de saúde em anos próximos a 2013 Fonte: Davis K et al. Mirror, mirror on the wall 2014 update: how the US Health System compares internationally. New York, The Commonwealth Fund, 2014
  • 8.
    Os sistemas desaúde segmentados • Caracterizam-se pela segregação de diferentes clientelas em nichos institucionais singulares, resultando uma integração vertical em cada segmento e uma segregação horizontal entre eles onde cada segmento, público ou privado, exercita as funções de financiamento, regulação e prestação de serviços para sua população particular • Marcam-se, em geral, pela presença concomitante de diferentes matrizes institucionais para subpopulações singulares e pela concomitância de subsistemas públicos e privados que atuam com pouca sinergia entre eles • São justificados por um suposto aparentemente magnânimo, o de que ao se instituírem sistemas específicos para quem pode pagar, sobrariam mais recursos públicos para dar uma melhor atenção aos pobres • Identificam-se por um alto percentual de gasto privado em relação ao gasto total em saúde e podem afetar a proteção de riscos financeiros que são indicados pela proporção de famílias que tiveram despesas catastróficas e pela incidência de famílias que empobreceram devido a pagamentos diretos para obter serviços de saúde Fontes: Emanuel E. Political problems. Boston Review, 25: 14-15, 2000 Londoño JL, Frenk J. Structured pluralism: towards a new model for health system reform in Latin America. Health Policy. 41: 1-36, 1997. World Health Statistics. World Health Statistics 2017. Geneva: World Health Organization; 2017.
  • 9.
    As concepções deuniversalismo sanitário • O universalismo clássico Incorporou a ideia de um Estado eficaz que seria capaz de garantir o livre acesso de todas as pessoas a todos os serviços sociais Conduziu à universalização da seguridade social e à instituição de sistemas públicos universais de saúde como partes de Estados de Bem Estar Social • O novo universalismo Oferta universal de serviços essenciais do ponto de vista sanitário, providos com qualidade para todos os cidadãos, definidos pelos critérios de aceitabilidade social, efetividade e custos Fonte: World Health Organization. The World Health Report 2000: health systems, improving performance. Geneva, WHO, 2000.
  • 10.
    A cobertura universalem saúde População Coberta Carteira de Serviços Gratuidade dos Serviços População não coberta Serviços não cobertos Serviços pagos do bolso Fundos comuns existentes Fonte: Organização Mundial da Saúde. Financiamento dos sistema de saúde: o caminho para a cobertura universal. Genebra, OMS, Relatório Mundial da Saúde 2010, 2010 A situação em que as pessoas são capazes de utilizar os serviços de saúde de qualidade que necessitam sem sofrer danos ao pagar por eles
  • 11.
    Sistemas públicos universaise cobertura universal em saúde • Nos sistemas públicos universais a saúde é um direito decorrente de condição de cidadania; mais que um direito social, há uma tendência de se considerar o direito à saúde como um direito humano • “O NHS é mais que uma organização. É um conjunto de princípios por meio dos quais nós valorizamos a saúde nos planos individual e societário. É uma expressão de um dos papeis fundamentais do Estado que é proteger seus cidadãos” • Isso não necessariamente ocorre em algumas propostas de cobertura universal em saúde, formatadas por asseguramento universal, em que as funções de regulação, financiamento e prestação de serviços estão separadas entre setores públicos e privados e em que há diferenças entre os planos de saúde, os subsídios públicos e os custos de transação Fontes: Fleury S et al. Política de Saúde: uma política social. In: Giovanella L et al. (Organizadores). Políticas e Sistema de Saúde no Brasil. Rio de Janeiro, Editora Fiocruz, 2008 Noronha JC. Cobertura universal de saúde: como misturar conceitos, confundir objetivos, abandonar princípios. Cad Saúde Pública, 29:847-849, 2013 Barros FPC. Cobertura universal ou sistemas públicos universais de saúde? Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, 13: 87-90, 2014 Heredia N et al. El derecho a la salud: cual es el modelo para America Latina? Medicc Review, 17: S16-S17, 2016 Appleby J. The NHS at 70: loved, valued, and affordable. BMJ, 361: k1540, 2018
  • 12.
    Os modelos institucionaisde sistemas de saúde • Os modelos institucionais de sistemas de saúde são definidos, fundamentalmente, pelos modos como se combinam suas três macrofunções de financiamento, regulação e prestação de serviço e quem as executa • Os tipos de modelos institucionais de sistemas de saúde: O modelo de monopólio estatal O modelo público universal beveridgeano O modelo público universal bismarckiano O modelo da competição gerenciada O modelo de mercado Os modelos mistos Fonte: Reid TR. The healing of America: a global quest for better, cheaper, and fairer health care. New York, Penguin Books; 2009.
  • 13.
    SUS: Sistema públicouniversal? • O SUS, em sua concepção pelo movimento sanitário e em sua instituição constitucional, foi concebido como um sistema público beveridgeano, mas ao longo do tempo o objetivo da universalização foi dando lugar a uma segmentação crescente do sistema de saúde brasileiro • Vários problemas contribuíram para a segmentação do sistema de saúde brasileiro, mas o mais significativo foi o financiamento. A generosidade dos constituintes na instituição de um sistema público universal beveridgeano não foi acompanhada pela criação de uma base material que garantisse a saúde como direito de todos e dever do Estado Fonte : Mendes EV. Os grandes dilemas do SUS. Salvador, Casa da Qualidade, Tomo I, 2001
  • 14.
    Gasto público empercentual do gasto total em saúde no Brasil e em países selecionados - 2012 País % Brasil 47,5 Canadá 70,1 França 77,4 Itália 77,3 Noruega 85,0 Espanha 71,7 Reino Unido 84,0 Fonte: World Health Organization. World health statistics, 2015. Geneva, WHO, 2015
  • 15.
    A segmentação dosistema de saúde brasileiro • O SUS só é universal ou quase universal em algumas áreas como a vigilância à saúde, as políticas de sangue e os sistemas nacionais de vacinação e de transplantes de órgãos e tecidos • O subsistema privado de saúde suplementar: cobertura de 47.400.000 (21,7%) • O subsistema privado de desembolso direto ao qual recorrem eventualmente todos os brasileiros Fontes: Mendes EV. O futuro dos sistemas universais de saúde: o caso brasileiro. Brasília, CONASS Debate, 2018 Instituto de Estudos de Saúde Suplementar. São Paulo, IESS, 2018
  • 16.
    Gastos em saúdeno Brasil - 2012 • Gasto total em saúde: 9,5% do PIB • Gasto público em saúde: 4,5% do PIB • Gasto privado em saúde: 5,0% do PIB 52,5% do gasto total em saúde • Composição do gasto privado em saúde: 40,4% gastos no subsistema de saúde suplementar 57,8% no subsistema de desembolso direto que grava relativamente os mais pobres • Os gastos tributários representaram, em 2013, 30,5% das despesas totais do Ministério da Saúde (R$ 25,363 bilhões) Fontes: World Health Organization. World health statistics, 2015. Geneva, WHO, 2015 Ocklé-Reis CO, Gama FN. Radiografia do gasto tributário em saúde, 2003-2013. Rio de Janeiro, IPEA, Nora técnica nº 19, 2016
  • 17.
    Cenários do sistemade saúde no Brasil • Cenário Lampedusa • Cenário de um Sistema Público Universal Beveridgeano • Cenário de um Sistema de Cobertura Universal pela Via da Competição Gerenciada Fonte: Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Os caminhos da saúde no Brasil. Brasília, CONASS, 2014
  • 18.
    O cenário Lampedusa •“Algo deve mudar para que tudo continue como está” • Parece ser o cenário mais provável nos curto e médio prazos • A Emenda Constitucional nº 95 • Mudanças erráticas, sem conteúdo estratégico e com visão de curto prazo no SUS e nos subsistemas privados (mudanças pontuais no SUS, políticas de copagamento e de franquia, expansão das clínicas populares, oferta de planos de saúde com carteira de serviços restrita, recuperação de custos das pessoas idosas e outras) • Incremento da competição predatória entre os três subsistemas e aumento da descoordenação entre eles • Aumento dos gastos tributários e da iniquidade do sistema • O Cenário Lampedusa não parece ser sustentável no longo prazo quando os custos de não mudar poderão ser maiores que os custos de mudar, diferentemente do que se apresenta nos curto e médio prazos. Fonte: Mendes EV. O futuro do SUS. Brasília, CONASS, 2018
  • 19.
    O cenário deconsolidação de um sistema público universal beveridgeano • Pressupostos: O SUS não pode ser um sistema para atender somente aos pobres O SUS deve ser olhado como fator importante para o desenvolvimento da ciência, da inovação e de uma base produtiva nacional Essa reforma deverá considerar o sistema como um todo, não apenas o SUS, mas também suas interfaces e a interdependência com o subsistema de saúde suplementar • Esse cenário levaria à consolidação de um sistema público universal beveridgeano brasileiro caracterizado por, pelo menos, duas especificidades: a incorporação de um papel verdadeiramente suplementar dos planos privados de saúde e a manutenção de um sistema federativo com a coparticipação da União, dos estados e dos municípios Fontes: Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Os caminhos da saúde no Brasil. Brasília, CONASS , 2014 Temporão JG. Para onde vai o SUS? In: Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Os caminhos da saúde no Brasil. Brasília, CONASS , 2014
  • 20.
    O cenário deconsolidação de um sistema público universal beveridgeano • Nesse cenário o SUS seria responsável pela prestação, gratuita e integral, de uma ampla carteira de serviços sanitariamente necessária a todos os cidadãos brasileiros, sem os constrangimentos determinados pelas políticas de seletividade • As operadoras privadas de planos de saúde ofertariam serviços suplementares, mas não poderiam competir com o SUS na oferta dos serviços que comporiam a carteira pública • Esse cenário implicaria um aumento significativo dos gastos públicos em saúde, uma reconfiguração do subsistema de saúde suplementar e uma melhoria da percepção da população em relação ao SUS Fontes: Conselho Nacional de Secretários de Saúde. CONASS Debate: Os caminhos da saúde no Brasil. Brasília, CONASS , 2014 Temporão JG. Para onde vai o SUS? In: Conselho Nacional de Secretários de Saúde. CONASS Debate: Os caminhos da saúde no Brasil. Brasília, CONASS , 2014
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    O cenário deum sistema de cobertura universal pela via da competição gerenciada • Esse cenário seria uma tentativa de implantação de um sistema de saúde com base na doutrina da competição gerenciada, em sua versão latino-americana do pluralismo estruturado, à semelhança do que ocorreu na Colômbia • A competição gerenciada consiste em substituir a relação bilateral do livre mercado que se estabelece entre financiador e prestador e usuário por uma relação trilateral em que haja a inserção, no terceiro vértice, de uma agência administradora ou moduladora. As instituições prestadoras também se colocam em situação de competição entre elas, gerando um sistema de duplo mercado Fontes: Enthoven A. Managed competition of alternative delivery systems. Jornal of Health, Politics, Policy and Law. 13: 305-321, 1988 Londoño JL, Frenk J. Structured pluralism: towards a new model for health system reform in Latin America. Health Policy. 41: 1-36, 1997
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    Descrição operacional docenário de pluralismo estruturado • O SUS seria estruturado em modelos de gestão e de prestação de serviços • A rede própria de serviços do SUS seria convertida em operadoras públicas • Todas as pessoas deveriam ter um cartão saúde unificado e deveriam afiliar-se a uma operadora pública ou privada • O financiamento seria público, mas passaria a ser feito por meio de subsídios a demanda, ou seja, a transferência de recursos às operadoras, na forma de per capita, a partir da preferência dos indivíduos por operadoras públicas ou privadas • Todas as operadoras deveriam ser acreditadas para iniciar sua operação e ser reavaliadas a cada dois anos • Cada operadora deveria se organizar em redes regionais com coordenação por equipes de atenção primária à saúde • A operadoras deveriam estruturar-se de forma a prestar contas à sociedade e de ter uma participação da sociedade em sua gestão Fonte: Medici A. Uma nova via é possível? In: Conselho Nacional de secretários de Saúde. CONASS Debate: OS caminhos da saúde no Brasil. Brasília, CONASS, 2014
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    Os valores societáriose as reformas dos sistemas de saúde • A estabilidade dos sistemas de saúde resulta da coerência entre os valores prevalecentes na sociedade e as estruturas simbólicas e materiais desses sistemas • As reformas dos sistemas de saúde derivam das relações complexas que existem entre os valores hegemônicos da sociedade, as normas que elas adotam para operacionalizar esses valores e a existências de grupos simultaneamente autônomos e dependentes dessas normas e valores • “Não é exagero dizer que para muitas pessoas neste país, o Medicare é o que melhor define ser canadense. Ele fortalece nossa economia, melhora nossa estabilidade social e expressa nossos valores” • Valores liberais e igualitários conformam sistemas de saúde bem diferentes Fontes: Contrandriopoulos AP, Lauristin M, Leibovich E. Values, norms and the refoprm of health care systems. In: Saltman RB, Figueras J, Sakellarides C (Editors). Critical challenges for health care reform in Europe. Buckingham, Open University Press, 1998 Martin D. Better now: six big ideas to improve health care for all canadians. Penguin Canada, 2017 Pineault R. Compreendendo o sistema de saúde para uma melhor gestão. Brasília, Conselho Nacional de Secretários de Saúde, 2016.
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    Uma reflexão final: “OSUS não é um problema sem solução, mas uma solução com problemas” Fonte: Conselho Nacional de Secretários de Saúde. SUS: avanços e desafios. Brasília, CONASS, 2006.