Aula 07 - Descartes e o Racionalismo

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  • Esquema do texto – da dúvida ao cogito (imagem do edifício do saber)
    Deus como certeza
  • Aula 07 - Descartes e o Racionalismo

    1. 1. 1º ano: Apostila 02 / Aula 07 Professor Claudio Henrique Ramos Sales FILOSOFIA
    2. 2. Surrealismo “Surrealismo, substantivo. Automatismo puramente físico através do qual se pretende expressar, verbalmente, por escrito ou de outra forma, a verdadeira função do pensamento. Pensamento ditado na ausência de qualquer controle manifestado pela razão, e fora de quaisquer preocupações estéticas e morais.” (André Breton, Primeiro Manifesto do Surrealismo, 1924.) Sobre a Imagem 1. O que estou vendo? Num cenário aparentemente normal, uma chuva de homens de chapéu-coco. 2. Quem fez esta imagem? Quando? René Magritte (pintor surrealista), em 1953. 3. Qual o meio utilizado para criá-la? A pintura. 4. Que tipo de impressões ou sentimentos ela desperta? Causa estranhamento, sonho, pesadelo, ideia de não realidade, etc. 5. Qual a importância de conhecer esta imagem? Uma possibilidade é dizer que o estranhamento nos faz repensar a realidade dita “normal”.
    3. 3. Qual é a fonte de nossos conhecimentos? É possível confiar em quem nos engana uma vez? Como podemos ter certeza de que estamos acordados e que tudo o que vivemos não é um sonho?
    4. 4. O RACIONALISMO
    5. 5. O Racionalismo é uma corrente que defende que a origem do conhecimento é a razão. Os racionalistas acreditam que só a razão pode levar a um conhecimento rigoroso. Os racionalistas desvalorizam os sentidos e a experiência devido à sua falta de rigor. Os racionalistas possuem uma visão otimista da razão porque acreditam que ela possibilita o conhecimento humano.
    6. 6. RENÉ DESCARTES
    7. 7. Sendo um racionalista convicto, Descartes procurou combater os céticos e reabilitar a razão. Os céticos duvidavam ou negavam mesmo que a razão pudesse conduzir ao conhecimento. Descartes vai procurar demonstrar que a razão é a origem do conhecimento humano.
    8. 8. Passamos agora por mais uma virada na história, a chegada da filosofia moderna. É com o francês René Descartes (1596 – 1650) que veremos como isso começa. Fonte: FRATESCHI, Yara. “Revolução Científica, Mecanicismo e Método do Conhecimento”. In: Curso de Filosofia Política. São Paulo: Atlas, 2010
    9. 9. Descartes é (ou será) seu conhecido pelas suas importantes conquistas no campo da matemática. De onde você acha que vem o plano cartesiano? O filósofo também contribuiu com a Física (na Ótica) e com a Astronomia
    10. 10. Descartes, contudo, é também aquele quem define o método de investigação das ciências modernas, ou seja, como elas procedem para conhecer a natureza. Como podemos ser capazes de separar os conhecimentos seguros, corretos e verdadeiros daqueles falsos e enganosos? Bastaria aceitar que o conhecimento vem de Deus e que temos de aceitá-lo apenas pela fé, como diziam alguns filósofos medievais?
    11. 11. DESCARTES E O MÉTODO
    12. 12. Para mostrar que a razão pode atingir um conhecimento verdadeiro, Descartes vai criar um método. Este método tem como objetivo a obtenção de uma verdade indiscutível. De entre as regras do método, pode destacar-se a regra da evidência. Esta regra diz-nos para não aceitarmos como verdadeiro tudo que possa deixar dúvidas. A dúvida é, portanto, um elemento muito importante do método.
    13. 13. Com ele uma nova e importante forma de se perguntar sobre o conhecimento surge: Como é possível o conhecimento da verdade pelo homem? O problema central não é mais saber definir o que as coisas são (pergunta pelo OBJETO), mas antes como nós podemos conhecê-las (pergunta pelo SUJEITO). SUJEITO OBJETO Como as coisas são conhecidas? Como conhecemos as coisas?
    14. 14. Sem mais o que fazer, Descartes inaugura a Filosofia do Sujeito. ... Não encontrando nenhuma conversação que me divertisse e não tendo, além disso, por felicidade, preocupações ou paixões que me perturbassem, ficava todo o dia fechado sozinho num cômodo aquecido por uma estufa onde dispunha de todo o tempo para me entreter com meus pensamentos Veremos como no Discurso do método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências (1637) Descartes se ocupa disso.
    15. 15. - Note que este método de Descartes terá na matemática um modelo, pois esta é capaz de encontrar certezas fixas e imutáveis. - Descartes é influenciado pelo desenvolvimento científico do renascimento e do surgimento de uma concepção mecanicista do mundo e do homem. De acordo com o método para conhecer é preciso: 1. Clareza e distinção (não tomar como verdadeiro o que eu não puder provar como tal). 2. Análise (dividir um problema em quantas parte for possível). 3. Ordem (conduzir os pensamentos a partir do que há de mais fácil até o mais complexo). 4. Enumeração (enumerar de modo completo para não perder nada do que se quer conhecer).
    16. 16. Discurso do método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências (1637) - Objetivo: encontrar um caminho seguro para que possamos alcançar o conhecimento da verdade e assim fazer ciência. - Ponto de partida: muitos de nossos conhecimentos parecem seguros, mas são enganosos  os sentidos, fonte de nossos conhecimentos nos enganam. Como confiar neles? - Decisão: todo conhecimento que for duvidoso, direi que é falso.  a dúvida é a arma de Descartes
    17. 17. A DÚVIDA
    18. 18. Recusando tudo que possa suscitar incerteza, a dúvida afirma-se como um modo de evitar o erro. A dúvida é um instrumento da razão na busca da verdade. A dúvida procura impedir a razão de considerar verdadeiros conhecimentos que não merecem esse nome.
    19. 19. Será que algo do edifício do conhecimento ficará em pé após a dinamite desta dúvida radical? Descartes em seu caminho percebe que: Os sentidos são duvidosos A matemática é duvidosa Podemos duvidar se estamos acordados ou dormindo.
    20. 20. CARACTERÍSTICAS DA DÚVIDA
    21. 21. A dúvida é: » Metódica (faz parte de um método que procura o conhecimento verdadeiro); » Provisória (é temporária, isto é, pretende-se ultrapassá-la e chegar à verdade); » Hiperbólica (exagerada propositadamente, para que nada lhe escape); » Universal (aplica-se a todo o conhecimento em geral); » Radical (incide sobre os fundamentos, as bases de todo o conhecimento); » Uma suspensão do juízo (ao duvidar evitam-se os erros e os enganos); » Catártica (purifica e liberta a mente de falsos conhecimentos); » Um exercício voluntário e autónomo (não é imposta, é uma iniciativa pessoal); » Uma prova rigorosa (nada será aceito como verdadeiro sem ser posto em dúvida); » Um exame rigoroso (que afasta tudo que possa ser minimamente duvidoso).
    22. 22. NÍVEIS DE APLICAÇÃO DA DÚVIDA
    23. 23. Descartes vai aplicar a dúvida a tudo que possa causar incerteza, nomeadamente: » as informações dos sentidos; » as nossas opiniões, crenças e juízos precipitados; » as realidades físicas e corpóreas e, de uma maneira geral, tudo que julgamos real; » os conhecimentos matemáticos; » também Deus é submetido à prova rigorosa da dúvida, uma vez que Descartes coloca a hipótese de Deus poder ser enganador ou um génio do mal. A dúvida hiperbólica e radical e a possibilidade de Deus ser enganador parecem levar a um beco sem saída. Quer dizer, torna-se quase impossível acreditar que a razão humana pode alcançar conhecimentos verdadeiros. No entanto, há uma saída.
    24. 24. O COGITO (PENSO, LOGO, EXISTO)
    25. 25. A dúvida irá conduzir a razão a uma primeira verdade incontestável. Mesmo que se duvide ao máximo, não se pode duvidar da existência daquele que duvida. A dúvida é um ato do pensamento e não pode acontecer sem um autor. Chegamos então à primeira verdade: “penso, logo, existo” (cogito ergo sum). Toda mente humana sabe de forma clara e distinta que, para duvidar, tem que existir. A verdade, para Descartes, deve obedecer aos critérios da clareza e distinção. A verdade “eu penso, logo, existo” é uma evidência. Trata-se de um conhecimento claro e distinto que irá servir de modelo para todas as verdades que a razão possa alcançar. Este tipo de conhecimento deve-se exclusivamente ao exercício da razão e não dos sentidos.
    26. 26. Para duvidar é preciso pensar. Mas não podemos duvidar da nossa dúvida? Ou duvidar que estamos pensando? Ora, se fizermos isso ainda estaremos duvidando. • Assim, Descartes encontra uma certeza indestrutível: o pensar. • Com isso é possível dizer eu penso, logo existo, certeza a partir da qual é possível reerguer o edifício do conhecimento. • O conhecimento começa então pela razão  Racionalismo Pensamento Dúvida Dúvida
    27. 27. Descartes mostrou que a razão, só por si, é capaz de produzir conhecimentos verdadeiros, pois ela alcançou uma verdade inquestionável. Mas apesar da razão ter chegado ao conhecimento verdadeiro, ainda não está excluída a hipótese do Deus enganador. Descartes considera fundamental demonstrar a existência de Deus, um Deus que traga segurança e seja garantia das verdades.
    28. 28. CONTEÚDOS COMPLEMENTARES
    29. 29. A EXISTÊNCIA DE DEUS
    30. 30. Descartes considera que termos a percepção que existimos não basta para a fundamentação do conhecimento. Para Descartes, é essencial descobrir a causa de o nosso pensamento funcionar como funciona e explicar a causa da existência do sujeito pensante. Descartes parte das ideias que estão presentes no sujeito para provar a existência de Deus. As ideias que qualquer indivíduo possui são de três tipos: adventícias, factícias e inatas. Uma das ideias inatas que todos nós temos na mente é a ideia de perfeição. É esta ideia que Descartes vai usar como ponto de partida para as provas da existência de Deus.
    31. 31. PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS
    32. 32. Descartes apresenta três provas: 1ª prova: sendo Deus perfeito, tem que existir. Não é possível conceber Deus como perfeição e não existente. 2ª prova: a causa da ideia de perfeito não pode ser o ser pensante porque este é imperfeito. A ideia de perfeição só pode ter sido criada por algo perfeito, Deus. 3ª prova: o ser pensante não pode ter sido o criador de si próprio, pois se tivesse sido ter-se-ia criado perfeito. Só a perfeição divina pode ter sido a criadora do ser imperfeito e finito que é o homem e de toda a realidade.
    33. 33. A IMPORTÂNCIA DE DEUS NO SISTEMA CARTESIANO E A QUESTÃO DOS ERROS DO SER HUMANO
    34. 34. Deus, sendo perfeito, não pode ser enganador. Enquanto perfeição, Deus é garantia da verdade das nossas ideias claras e distintas (por exemplo: 2+2=4 ou ”penso, logo, existo”). Se Deus é perfeito e criador do homem e da realidade, então é também o criador das verdades incontestáveis e o fundamento da certeza. Segundo Descartes, é Deus que garante a adequação entre o pensamento evidente (verdadeiro) e a realidade, conferindo assim validade ao conhecimento. Deus é a perfeição, ou seja, é o bem, a virtude, a eternidade, logo, não poderá ser o autor do mal nem responsável pelos nossos erros.
    35. 35. Se Deus não existisse e não fosse perfeito, não teríamos a garantia da verdade dos conhecimentos produzidos pela razão, nem teríamos a garantia de que um pensamento claro e distinto corresponde a uma evidência, isto é, a uma verdade incontestável. Se Deus não é enganador, então as nossas evidências racionais são absolutamente verdadeiras. Se Deus não existisse, para Descartes, seria “o caos” e nunca poderíamos ter a garantia do funcionamento coerente da nossa razão nem ter noção de como se tornou possível a nossa existência. Os erros do ser humano resultam de um uso descontrolado da vontade, quando esta se sobrepõe à razão. Erramos quando usamos mal a nossa liberdade e quando aceitamos como evidentes afirmações que o não são, logo, Deus não é responsável pelos nossos erros mas é garantia das verdades alcançadas pela razão humana.
    36. 36. Seguirão agora algumas leituras extras e algumas atividades para aumentar sua gama de conhecimento e para auxilia-lo no seu processo de aprendizado.
    37. 37. DAMÁSIO E O “ERRO DE DESCARTES”
    38. 38. Damásio x Descartes
    39. 39. Mostrar que a razão não é pura, emoção se enreda na racionalidade “Certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade” (DAMÁSIO, 2012, p.12) Qual era o intuito do neurologista português António Damásio quando ele escreveu sua obra "O Erro de Descartes“?
    40. 40. Comodevemosdemonstraro papeldaemoção narazão? Três temas centrais: Caso Phineas Gage Emoção Corpo indispensável à mente
    41. 41. Sobrerazãoeemoção • Como água e óleo? Emoção X Razão • Contra a perspectiva tradicional • Raciocínio depende da capacidade de sentir emoções • Razão depende de vários sistemas cerebrais
    42. 42. Sobrerazãoeemoção •Emoção, sentimento e regulação biológica desempenham papel na razão humana •Sentimentos e emoções são tão cognitivos quanto qualquer outra percepção •Cérebro e corpo são indissociáveis •Organismo interage com o ambiente
    43. 43. CasodePhineas Gage Quem era? Homem de 1,70, atlético, movimentos decididos e precisos Homem eficiente e capaz, hábitos moderados, energia de caráter, astuto, inteligente, persistente nos seus planos de ação
    44. 44. CasodePhineas Gage O que aconteceu? •Durante o trabalho, uma explosão m al sucedida fez com que um bastão de ferro atravessasse seu crânio e parte do seu cérebro •O córtex pré-frontal foi bastante comprometido
    45. 45. O resgate: •Apesar do grave ferimento, permaneceu consciente •Ao contrário do que se poderia imaginar, descrevia com frieza o que lhe tinha acontecido e bastante racionalmente •É dado como são em menos de 2 meses CasodePhineas Gage Gente, tô bem!
    46. 46. CasodePhineas Gage As consequências: • Tornou-se caprichoso, obstinado, irreverente, utilizava linguagem obscena •Incapaz de manter um emprego por muito tempo •Desrespeitava condutas éticas e morais, incapaz de tomar decisões acertadas, despreocupado com o futuro Ô lá em casa!
    47. 47. CasodePhineas Gage Discrepância entre caráter degenerado e a integridade dos vários instrumentos da mente — atenção, percepção, memória, linguagem, inteligência x
    48. 48. CasoElliot– oGagemoderno Quem era? Homem inteligente, competente, robusto, bom m arido e pai, funcionário de uma firma comercial Bem sucedido pessoal, profissional, e socialmente
    49. 49. CasoElliot– oGagemoderno O que aconteceu? • Elliot passou a sen dores de cabeça, p capacidade de concentração e o se de responsabilidade •Um grande tumor comprimiu os lobos do cérebro
    50. 50. A solução: •Elliot passou por uma cirurgia de retirada do tumor, m as o tecido do lobo frontal danificado tam bém teve que ser removido CasoElliot– oGagemoderno
    51. 51. CasoElliot– oGagemoderno As consequências: •Elliot teve uma profunda mudança de personalidade apesar da inteligência, capacidade de locomoção e de falar permanecerem ilesas •Foi considerado apto em todos os testes de inteligência aplicados
    52. 52. CasoElliot– oGagemoderno •Elliot passou a tomar ações insensatas e se divorciou da esposa •Aptidão de tomar decisões foi prejudicada, assim como a de elaborar um planejamento eficaz de seu futuro (a curto, médio e longo prazo)
    53. 53. CasoElliot– oGagemoderno •Sugeriu-se que os problemas de Elliot eram de natureza emocional e psicológica e que a psicoterapia o ajudaria, o que não aconteceu •Diferençaentredoenças docérebroedoenças da mente (preconceito)
    54. 54. CasoElliot– oGagemoderno O problema: •Elliot perdeu sua capacidade emotiva, e era capaz de narrar sua trajetória como se não fosse protagonista de sua própria desgraça •Sabia, mas não sentia •Incapaz de fazer uma escolha eficiente e podia não chegar sequer a fazer uma escolha, ou escolher m al
    55. 55. CasoElliot– oGagemoderno Condições laboratoriais diferem da vida real Defeito era acompanhado de uma redução na capacidade de reação emocional e da vivência de sentimentos Frieza do raciocínio impedia Elliot de atribuir diferentes valores às diferentes opções, paisagem mental plana, instável e efêmera
    56. 56. Consideraçõesacercados casos • Redução das emoções pode ser fonte de comportamento irracional • Ligação entre um conjunto de regiões cerebrais e processos de raciocínio e tomada de decisão • Sistemas destas regiões associadas aos comportamentos de planejamento e decisões pessoais e sociais, além do processamento de emoções
    57. 57. OCorpoeocérebrointeragem A razão humana não é dependente somente de um único centro cerebral, m as de vários sistemas cerebrais que funcionam logicamente através de múltiplos níveis de organização coronal. A emoção, os sentimentos e a regulação biológica são aspectos cruciais para a m anutenção da razão humana.
    58. 58. Emoções esentimentos “As emoções e os sentimentos, que são centrais para a visão de racionalidade que estou propondo, são uma poderosa m anifestação dos impulsos e dos instintos, constituindo uma parte essencial da sua atividade” (DAMÁSIO, 2012, p. 117). “Os processos da emoção e dos sentimentos fazem parte integrante da m aquinaria neural para a regulação biológica” (DAMÁSIO, p. 91).
    59. 59. Emoção Para William James, existiria um mecanismo básico, no qual determinados estímulos no meio ambiente excitariam, de m aneira inflexível e congênito, um padrão específico de reação do corpo. Ou seja, “cada objeto que excita um instinto, excita também uma emoção”. Ex: medo (taquicardia, etc)
    60. 60. ParaDamásio “[...] Em muitas circunstâncias de nossa vida como seres sociais, sabemos que as emoções só são desencadeadas após um processo mental de avaliação que é voluntário e não automático” (DAMÁSIO, p. 128).
    61. 61. Emoções primárias esecundárias Primárias: Na infância, pressupõe o estímulo, é automático. Secundárias: Na fase adulta, o estímulo é posterior à avaliação mental. Emoções primárias!
    62. 62. EmoçãoxSentimentos Alguns estão relacionados, a m aioria não está. Todas as emoções originam sentimentos, porém nem todos os sentimentos provém de emoções.
    63. 63. Sentimentos Variedades de sentimentos: - Sentimentos de emoções universais básicas; - Sentimentos de emoções universais sutis; - Sentimentos de fundo.
    64. 64. EmoçãoxSentimentos I A emoção é um conjunto das alterações no estado do corpo associadas a certas imagens mentais que ativaram um sistema cerebral específico. O sentir, é a experiência das alterações no estado do corpo (processos cognitivos induzidos por substâncias neuroquímicas) justapostas com as imagens mentais (memórias, lembranças) que iniciaram o ciclo. Ocorrem combinadas.
    65. 65. Ahipótesedomarcador-somático “A finalidade do raciocínio é a decisão” (DAMÁSIO, p. 157). “Decidir bem é escolher uma resposta que seja vantajosa para o organismo, de modo direto ou indireto, em termos de sua sobrevivência e da qualidade dessa sobrevivência” (DAMÁSIO, p.160). A hipótese postula que emoções m arcavam certos aspectos de uma situação, que pela intuição, conduzia a uma conclusão rápida.
    66. 66. Testandoahipótesedomarcador-somático A experiência do jogo
    67. 67. E,afinal, qual (ou quais) éoErro? O(s) Erro(s) de Descartes: 1.O calor fazia o sangue circular. 2.“As finas e minúsculas partículas do sangue se transformavam em “espíritos animais”, os quais conseguiam depois mover os músculos” (DAMÁSIO, 2012, p. 220). 3.O Erro do Dualismo 4.O Erro do Mecanicismo
    68. 68. Preocupação comanoçãoDualista “Penso, logo existo”
    69. 69. Preocupação comanoçãoDualista •O Erro do Dualismo: “ [...] a separação abissal entre o corpo e a mente, entre a substância corporal, infinitamente divisível, com volume, com dimensões e com um funcionamento mecânico, de um lado, e a substância mental, indivisível, sem volume, sem dimensões e intangível, de outro; a sugestão de que o raciocínio, o juízo moral e o sofrimento adveniente da dor física ou agitação emocional poderiam existir independentemente do corpo” (DAMÁSIO, 2012, p. 219).
    70. 70. Por quesóoDualismo enãooMecanicismo? •Porque “continua a prevalecer” e a influenciar a ciência e a cultura hodiernas. •Damásio só cita uma insatisfação em relação ao mecanicismo, m as não o refuta, portanto, não pode ser considerado um erro, um vez que não foi apresentado.
    71. 71. Contradiçõesde Damásio: •Afirmação de Descartes equivocada. •Posição dualista. •Por que Descartes e não Platão ou Kant? •Qual o motivo de utilização do título referindo-se ao Descartes, se pouco ou quase nada refere-se ao pensador?
    72. 72. RESUMO DA APOSTILA
    73. 73. René Descartes O pensador francês René Descartes (1596 – 1650) propôs um sistema filosófico – ou seja, um conjunto coerente de conhecimentos – que tornava possíveis respostas para todas as questões filosóficas. Antes de Descartes, na Grécia antiga, Platão e Aristóteles haviam criado sistemas que foram atualizados, na Idade Média, por Santo Agostinho (séculos IV – V) e, sobretudo, por São Tomás de Aquino (século XIII), ambos sob a influência do cristianismo. Com a verdadeira revolução científica que foi o Renascimento – e que resultou em novas formas de ver e interpretar o mundo –, surgiu a possibilidade de desenvolvimento de um novo sistema. Os avanços espetaculares na explicação do mundo por parte das ciências naturais (que culminaram com Newton no final do século XVII) suscitaram o questionamento: seria possível atingir, no conhecimento filosófico, o mesmo grau de certeza das ciências naturais? Se o universo era descrito como um mecanismo sofisticado, cujo funcionamento parecia cada vez mais evidente para a razão humana, não poderia ocorrer o mesmo com a alma? Não haveria uma explicação completa para o funcionamento do ser humano, para além do corpo material? Qual seria a relação entre corpo e alma? Tais questões foram abordadas por Descartes.
    74. 74. O princípio da dúvida O ponto de partida de Descartes na busca por um conhecimento verdadeiro foi o chamado princípio da dúvida: deveríamos desconfiar não apenas do saber passado, mas também daquilo que nos é oferecido pelos sentidos. Cada objeto do mundo material se apresenta de forma tão diversa e tão mutante diante de nós, que se torna temerário basear-se somente nos sentidos para se chegar a qualquer conclusão definitiva. Em outras palavras, deve-se duvidar de toda idéia que pode ser posta em dúvida. A realidade percebida pelos sentidos é enganosa “e é de prudência nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma vez” (Meditações, I, 3).
    75. 75. O princípio da dúvida Além disso, nunca podemos ter certeza de estar vivendo uma experiência real ou de estar apenas sonhando. Descartes utilizou um exemplo para explicar as mutações dos objetos do mundo material: um pedaço de cera que acabou de ser retirado de uma colméia é doce, tem ainda o perfume das flores de onde foi colhido; é duro, frio e produz um determinado som quando nele batemos. Conforme aproximamos o pedaço de cera do fogo, seu odor desaparece, sua forma e cor se modificam e ele acaba se transformando em líquido e pode esquentar até que não possamos mais tocá-lo. Ainda é cera, mas os sentidos a percebem de maneira completamente diferente. Essa percepção da natureza da cera, que se apresenta de forma tão diversa, é fruto da faculdade de entender, que se encontra dentro de cada sujeito.
    76. 76. Penso, logo existo. Uma vez que somos capazes de duvidar de tudo e de todos, a única certeza absolutamente incontestável é justamente a nossa capacidade de duvidar. Essa capacidade é fruto da razão; portanto, a única certeza que temos, e que nos define enquanto indivíduos, é nossa capacidade de pensar. O pensamento existe, e como não pode ser separado do indivíduo, o indivíduo também existe. Essa formulação foi resumida na famosa expressão de Descartes: “penso, logo existo” (em latim, “cogito ergo sum”).
    77. 77. Uma decorrência dessa formulação é a crença de que o Eu pensante é mais real do que o mundo físico. Em outras palavras, a formulação que funda todo o conhecimento verdadeiro tem origem metafísica (ou seja, está além da física): trata-se da descoberta da alma por si mesma. Assim, a expressão “eu sou, eu existo” é necessariamente verdadeira e incontestável a partir do momento em que foi enunciada. Ela é verdadeira porque existe um sujeito pensante capaz de dizê-la. Da mesma maneira que o homem pode conceber a si mesmo, ele também pode conceber deus, e esta seria uma prova de sua existência: se concebemos um ser perfeito, ele necessariamente existe, uma vez que não existir seria uma imperfeição. É por isso que a existência das coisas guarda relação com a proximidade que elas têm do pensamento. Dessa forma, a existência dos objetos materiais – por exemplo, uma mesa, uma cadeira (mas também o sol ou a lua) – não seria comprovada pela forma como os percebemos pelos sentidos, mas pelo fato de possuírem propriedades quantitativas que podem ser medidas e expressas racionalmente em relações matemáticas, como comprimento, largura, altura. Deus, o ser perfeito, não nos engana: ele é a garantia de que as relações matemáticas do mundo material correspondem a coisas concretas.
    78. 78. O método racional Descartes dedicou-se ao estudo das relações entre as formas, no campo da geometria (você deve conhecer o sistema de coordenadas cartesianas). A matemática, que decompõe problemas complexos em partes menores e os resolve um de cada vez, era vista por Descartes como exemplo de método racional. Da mesma maneira que os complexos problemas da matemática, os objetos materiais (ou seja, aqueles que têm extensão, que ocupam espaço) também podem ser decompostos em partes menores, mas a alma (ou o pensamento) não: uma vez que é consciência pura, não ocupa lugar no espaço. Mesmo reconhecendo que o homem é um ser duplo – ao mesmo tempo corpo e alma, ou seja, extensão e consciência –, Descartes instaurou a separação entre matéria e pensamento. Sendo assim, o sujeito consciente se opõe ao objeto, àquilo que é conhecido. Descartes foi o fundador da Filosofia do Eu ou Filosofia do sujeito, segundo a qual todo conhecimento é visto como originário de uma elaboração individual.
    79. 79. O pensamento de Descartes retoma a tradição do racionalismo, cujas origens remontam a Platão e que se funda na idéia de o saber se originar na razão, que antecede e explica todo o real. Tal concepção teve profunda influência no pensamento filosófico ocidental, embora questionada, ainda no século XVI, pela escola do empirismo, que estudaremos na próxima aula.
    80. 80. Na segunda parte do Discurso do Método, Descartes enumera quatro preceitos que devem conduzir a ciência. Acompanhemos o texto do filósofo: O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida. O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las. O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros. E o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir. (DESCARTES, 1962)
    81. 81. A primeira regra, também conhecida por “regra da evidência”, sintetiza um ponto muito importante na filosofia cartesiana. Descartes entende que a razão é uma capacidade que o homem possui para examinar os dados que os sentidos captam. Nisto ele não se distingue de filósofos anteriores. Mas, Descartes também pensa que a verdade e a certeza são condições sem as quais um homem não pode dizer que possui conhecimento. O filósofo foi educado em La Flèche, uma escola jesuíta que reunia o que havia de melhor em termos de Metafísica e Teologia do século XVII. Por meio dessa instrução, Descartes pôde exercitar-se durante anos em investigações metafísicas oriundas da Idade Média cujas teses e argumentos são, em sua maior parte, raciocínios prováveis. É contra esse tipo de procedimento que o método cartesiano ganha força. Para Descartes é importante rejeitar todos os juízos, demonstrações e dados que não possam ser tidos como verdadeiros e indubitáveis. Quando Descartes recomenda a certeza ele pensa naquela “luz natural” que cada homem possui, permitindo-lhe “intuir” (no sentido preciso de ver) a verdade de cada coisa. Veja como o filósofo delineia o método que orienta essa “visão mental”: Todo método consiste inteiramente em ordenar e em agrupar os objetos nos quais deveremos concentrar o nosso poder mental se pretendermos descobrir alguma verdade. Seguiremos este método com exatidão se desse início reduzirmos as questões complicadas e obscuras, substituindo- as, passo a passo, por outras mais simples e depois, começando pela intuição das mais simples de todas, tentarmos conhecer todas as outras, através dos mesmos processos. (in: COTTINGHAM, 1989)
    82. 82. Você pode aplicar esse método no estudo de qualquer coisa, mas não deixe de atentar para o seguinte: a mensagem de Descartes é que sua razão segue um passo que vai do simples ao complexo por meio de graus de entendimento na matéria. Além disso, o trecho acima revela que o entendimento é uma espécie de visão mental, ou intuição, termo redefinido por Descartes e cujo significado não pode ser confundido com a tradição aristotélica. Em Descartes intuição é uma capacidade análoga à faculdade da visão. A clareza que o entendimento busca é uma capacidade de ver mentalmente as estruturas e qualidades dos corpos existentes, do mesmo modo que a projeção de mais luz sobre um corpo permite uma visão mais detalhada e precisa desse corpo.
    83. 83. Dividir a dificuldade, ir do simples ao complexo, efetuar enumerações completas, é o que observa rigorosamente o geômetra quando analisa um problema em suas incógnitas, estabelece e resolve suas equações. A originalidade de Descartes consiste em ter determinado, de forma por assim dizer canônica, essas regras de manipulação que somente se esboçam em seus contemporâneos na sua aplicação particular às grandezas, e de havê-las ao mesmo tempo oposto e substituído à Lógica da Escola, na qual vê apenas um instrumento de Retórica, inutilmente sofisticado. (DESCARTES, 1962)
    84. 84. Como se vê, o método cartesiano é uma projeção de princípios e regras que orientam o raciocínio matemático- geométrico. A terceira e quarta regras, respectivamente, apenas confirmam um procedimento de resolução de problemas na geometria: as linhas e as figuras simples estão contidas nas compostas, etc.
    85. 85. TRABALHANDO COM O TEXTO: DISCURSO DO MÉTODO
    86. 86. Na leitura da quarta parte do Discurso do Método a seguir procure identificar os passos da argumentação de Descartes. As seguintes perguntas podem servir como guia de leitura. Mas só pense nelas após uma primeira leitura do texto. • Qual o problema colocado por Descartes? • O que é necessário afastar na busca por seu objetivo? Por que Descartes segue a ordem que segue? • O que Descartes consegue alcançar de certo e seguro? Lembre-se, a divisão do texto pode auxiliar sua compreensão!
    87. 87. QUARTA PARTE [1] Não sei se deva falar-vos das primeiras meditações que aí realizei; pois são tão metafísicas e tão pouco comuns, que não serão, talvez, do gosto de todo mundo. E, todavia, a fim de que se possa julgar se os fundamentos que escolhi são bastante firmes, vejo-me, de alguma forma, compelido a falar-vos delas. De há muito observará que, quanto aos costumes, é necessário às vezes seguir opiniões, que sabemos serem muito incertas, tal como se fossem indubitáveis, como já foi dito acima; mas, por desejar ocupar-me somente com a pesquisa da verdade, pensei que era necessário agir exatamente ao contrário, e rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se, após isso, não restaria algo em meu crédito, que fosse inteiramente indubitável. Assim, porque os nossos sentidos nos enganam às vezes, quis supor que não havia coisa alguma que fosse tal como eles nos fazem imaginar. E, porque há homens que se equivocam ao raciocinar, mesmo no tocante às mais simples matérias de Geometria, e cometem aí paralogismos, rejeitei como falsas, julgando que estava sujeito a falhar como qualquer outro, todas as razões que eu tomara até então por demonstrações. E enfim, considerando que todos os mesmos pensamentos que temos quando despertos nos podem também ocorrer quando dormimos, sem que haja nenhum, nesse caso, que seja verdadeiro, resolvi fazer de conta que todas as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram mais verdadeiras que as ilusões de meus sonhos. Mas, logo em seguida, adverti que, enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que podia aceita-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da Filosofia que procurava.
    88. 88. [2] Depois, examinado com atenção o que eu era, e vendo que podia supor que não tinha corpo algum e que não havia qualquer mundo, ou qualquer lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, seguia-se mui evidente e mui certamente que eu existia; ao passo que, se apenas houvesse cessado de pensar, embora tudo o mais que alguma vez imaginara fosse verdadeiro, já não teria razão alguma de crer que eu tivesse existido; compreendi por aí que eu era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de nenhum lugar, nem depende de qualquer coisa material. De sorte que esse eu, isto é, a alma, pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo e, mesmo, que é mais fácil de conhecer do que ele, e, ainda que este nada fosse, ela não deixaria de ser tudo o que é.
    89. 89. [3] Depois disso, considerei em geral o que é necessário a uma proposição para ser verdadeira e certa; pois, como acabava de encontrar uma que eu sabia ser exatamente assim, pensei que devia saber também em que consiste essa certeza. E, tendo notado que nada há no eu penso, logo existo, que me assegure de que digo a verdade, exceto que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir, julguei poder tomar por regra geral que as coisas que concebemos mui clara e mui distintamente são todas verdadeiras, havendo apenas alguma dificuldade em notar bem quais são as que concebemos distintamente.
    90. 90. (UEL-2004) “Tomemos [...] este pedaço de cera que acaba de ser tirado da colméia: ele não perdeu ainda a doçura do mel que continha, retém ainda algo do odor das flores de que foi recolhido; sua cor, sua figura, sua grandeza, são patentes; é duro, é frio, tocamo-lo e, se nele batermos, produzirá algum som. Enfim, todas as coisas que podem distintamente fazer conhecer um corpo encontram-se neste. Mas eis que, enquanto falo, é aproximado do fogo: o que nele restava de sabor exala-se, o odor se esvai, sua cor se modifica, sua figura se altera, sua grandeza aumenta, ele torna-se líquido, esquenta-se, mal o podemos tocar e, embora nele batamos, nenhum som produzirá. A mesma cera permanece após essa modificação? Cumpre confessar que permanece: e ninguém o pode negar. O que é, pois, que se conhecia deste pedaço de cera com tanta distinção? Certamente não pode ser nada de tudo o que notei nela por intermédio dos sentidos, visto que todas as coisas que se apresentavam ao paladar, ao olfato, ou à visão, ou ao tato, ou à audição, encontravam-se mudadas e, no entanto, a mesma cera permanece.” (DESCARTES, René. Meditações. Trad. De Jacó Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 272.) Com base no texto, é correto afirmar que para Descartes: a) Os sentidos nos garantem o conhecimento dos objetos, mesmo considerando as alterações em sua aparência. b) A causa da alteração dos corpos se encontra nos sentidos, o que impossibilita o conhecimento dos mesmos. c) A variação no modo como os corpos se apresentam aos sentidos revela que o conhecimento destes excede o conhecimento sensitivo. d) A constante variação no modo como os corpos se apresentam aos sentidos comprova a inexistência dos mesmos. e) A existência e o conseqüente conhecimento dos corpos têm como causa os sentidos.
    91. 91.  COMENTÁRIO Nesta passagem sobre o pedaço de será nota-se que a questão central abordada por Descartes diz respeito aos conhecimentos que os sentidos nos fornecem dos objetos. O filósofo aponta diversas características presentes na cera que podem ser percebidas pelos sentidos: sua doçura (paladar), seu odor (olfato), sua forma física (tato, visão), entre outras. No entanto, uma vez que se aproxime a cera do fogo esta será submetida a algumas transformações, de modo que todas as características inicialmente percebidas desaparecem: “o que nele restava de sabor exala-se, o odor se esvai, sua cor se modifica, sua figura se altera, sua grandeza aumenta, ele torna-se líquido, esquenta-se, mal o podemos tocar e, embora nele batamos, nenhum som produzirá”. O conhecimento trazido pelos sentidos é fugaz, não permanece, pois certas qualidades sensíveis de um corpo podem se alterar ou se esvair deste. Descartes então se pergunta se a mesma cera permanece, ao que responde que sim, afinal, embora derretida, ainda teremos cera. Mas afinal, o que “se conhecia deste pedaço de cera com tanta distinção”, ou seja, se todas as coisas que percebemos com nossos sentidos antes de queimarmos a cera agora se foram, mas ainda a reconhecemos como cera, que é esse conhecimento que permanece? Esta é a passagem fundamental, pois a partir desta questão Descartes irá questionar os sentidos como fonte de todo o conhecimento. O que de fato conhecemos da cera então? Descartes diz: “não pode ser nada de tudo o que notei nela por intermédio dos sentidos, visto que todas as coisas que se apresentavam ao paladar, ao olfato, ou à visão, ou ao tato, ou à audição, encontravam-se mudadas e, no entanto, a mesma cera permanece”, logo, o conhecimento dos objetos deve depender de algo que esteja para além dos sentidos. Isso nos conduz a alternativa C. RESP: C
    92. 92. (UEL-2005) “E quando considero que duvido, isto é, que sou uma coisa incompleta e dependente, a idéia de um ser completo e independente, ou seja, de Deus, apresenta-se a meu espírito com igual distinção e clareza; e do simples fato de que essa idéia se encontra em mim, ou que sou ou existo, eu que possuo esta idéia, concluo tão evidentemente a existência de Deus e que a minha depende inteiramente dele em todos os momentos da minha vida, que não penso que o espírito humano possa conhecer algo com maior evidência e certeza”. (DESCARTES, René. Meditações. Trad. de Jacó Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 297-298.) Com base no texto, é correto afirmar: a) O espírito possui uma idéia obscura e confusa de Deus, o que impede que esta idéia possa ser conhecida com evidência. b) A única certeza que o espírito humano é capaz de provar é a existência de si mesmo, enquanto um ser que pensa. c) O conhecimento que o espírito humano possui de si mesmo é superior ao conhecimento de Deus. d) A idéia da existência de Deus, como um ser completo e independente, é uma conseqüência dos limites do espírito humano. e) A existência de Deus, como uma idéia clara e distinta, é impossível de ser provada.
    93. 93. COMENTÁRIO Descartes começa o fragmento lembrando do fato de que ele é um ser que duvida (lembre-se, a dúvida radical e metódica é o caminho seguido por Descartes para por à prova os conhecimentos); afirma em seguida que por duvidar é algo incompleto e dependente. Pensar nisso lhe conduz a ideia de que haja algo contrário: se há algo incompleto, como ele, deve haver algo que seja completo; se há algo dependente, como ele, deve haver algo independente – este ser não será algo que tem duvidas, tal como o filósofo. A ideia de um ser completo e independente então encontra-se no filósofo – tal como a ideia de que ele é um ser pensante – e por pensar nisto, na ideia de um ser como este, completamente oposto a ele, Descartes, pode concluir que há um Deus, que é este ser. Conclui então que Deus pode ser conhecido, sendo um ser completo e independente, diferente do ser humano e de quem a existência humana depende: “concluo tão evidentemente a existência de Deus e que a minha depende inteiramente dele em todos os momentos da minha vida”. Por fim conclui que este conhecimento de Deus é aquele que o espírito humano pode alcançar com mais certeza e clareza RESP: D
    94. 94. UNESP 2012 – 2ª FASE Texto 1 Segundo Descartes, a realidade é dividida em duas vertentes claramente distintas e irredutíveis uma à outra: a res cogitans (substância pensante) no que se refere ao mundo espiritual e a res extensa (substância material) no que concerne ao mundo material. Não existem realidades intermediárias. A força dessa proposição é devastadora, sobretudo em relação às concepções de matriz animista, segundo as quais tudo era permeado de espírito e vida e com as quais eram explicadas as conexões entre os fenômenos e sua natureza mais recôndita. Não há graus intermediários entre a res cogitans e a res extensa. A exemplo do mundo físico em geral, tanto o corpo humano como o reino animal devem encontrar explicação suficiente no mundo da mecânica, fora e contra qualquer doutrina mágico-ocultista. (Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia, 1990. Adaptado.) Texto 2 Se você, do nada, começar a sentir enjoo, mal-estar, queda de pressão, sensação de desmaio ou dores pelo corpo, pode ter se conectado a energias ruins. Caso decida procurar um médico, ele possivelmente terá dificuldade para achar a origem do mal e pode até fazer um diagnóstico errado. Nessa hora, você pode rezar e pedir ajuda espiritual. Se não conseguir, procure um centro espírita e faça a sua renovação energética. Pode ser que encontre dificuldades para chegar lá, pois, no primeiro momento, seu mal-estar poderá até se intensificar. No entanto, se ficar firme e persistir, tudo desaparecerá como em um passe de mágica e você voltará ao normal. (Zibia Gasparetto. http://mdemulher.abril.com.br. Adaptado.) A recomendação apresentada por Zibia Gasparetto sobre a cura espiritual é compatível com as concepções cartesianas descritas no primeiro texto? Explique a compatibilidade ou a incompatibilidade entre ambas as concepções, tendo em vista o mecanicismo cartesiano e a diferença entre substância espiritual e substância material.
    95. 95.  COMENTÁRIO O exercício segue a estrutura de comparação entre textos, no caso um texto de manual de filosofia e outro jornalístico. Analisando a questão ela exige que se avalie a compatibilidade ou incompatibilidade entre ambos os textos tomando por base a posição de Zíbia Gasparetto sobre a cura espiritual em comparação com as posições filosóficas de Descartes. O primeiro texto busca mostrar a concepção dual de mundo de Descartes, de acordo com há um mundo material, onde se localiza a substância material e um mundo espiritual, onde se localiza a substância pensante. Há apenas essas duas realidades, não há outras intermediárias, e elas não podem ser reduzidas uma a outra. Ao formular esta concepção dualista Descartes ataca as chamadas “concepções de matriz animista”, ou seja, aquelas formas de compreender o mundo que tomam os objetos da natureza como seres animados, que tem alma. Para aquele que se assustar com a expressão, veja que o próprio texto a explica; estas concepções de matriz animista são aquelas “segundo as quais tudo era permeado de espírito e vida e com as quais eram explicadas as conexões entre os fenômenos e sua natureza mais recôndita”. Por fim, os autores expõem uma consequência desta separação: se a alma não pode mais ser considerada como atributo do mundo físico, este deve ser explicado de acordo com suas própria lógica e apenas através dos objetos que contem, ou seja, não se deve recorrer a explicações de ordem espiritual para responder a algo no mundo físico. Assim é notável que há uma contraposição com o texto 2 de Zíbia Gasparetto. Para ela os problemas do mundo físico como mal estar, dores, enjôos, entre outras mazelas devem ter por causa eventos sobrenaturais, ou ainda, explicações que derivam de um mundo espiritual. Também é este, e primordialmente este, que deve fornecer a solução para os problemas do mundo físico. Para Zíbia então o mundo espiritual é não só a causa do que ocorre no mundo físico ou material, mas a fonte das soluções. A articulação da resposta deve considerar então a incompatibilidade entre os textos: enquanto Descartes separa rigidamente o mundo físico do espiritual, dizendo que o primeiro não pode ser explicado através do segundo, uma vez que são domínios distintos e irredutíveis, Zíbia diz o contrário, que o mundo espiritual exerce determinações, efeitos, sobre o físico, contrapondo-se a concepção dualista de mundo de Descartes e a sua forma de explicação mecanicista do mundo material.

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