AntóNio GedeãO (ExposiçãO Pelo 9 º Ano De 2006 2007)

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AntóNio GedeãO (ExposiçãO Pelo 9 º Ano De 2006 2007)

  1. 1. Estes textos tiveram como pretexto um concurso — «Rómulo de Carvalho / António Gedeão, o poeta da Ciência», promovido pelo Plano Nacional de Leitura, cujo objectivo era construir uma página na net sobre o cientista- poeta. Foram escritos pelos alunos «à maneira de» ou a propósito de algum texto de Gedeão. Nos cartazes, o texto de António Gedeão fica a cores, enquanto a glosa dos alunos fica a preto. A preto também, mas em itálico, mantivemos a instrução da tarefa, que serve agora para se perceber a transformação ocorrida (do texto de Gedeão até ao nosso).
  2. 2. Canção do oboé Tendo como referência o poema de António Gedeão «Canção do oboé», escreve uma «Canção do [outro instrumento musical]». Canção do oboé Habita no meu sangue como um solo de oboé. Inexistente e imaginada é toda feita de nada mas necessária como o ar que não se vê. Com os pés alados das semicolcheias que extravasam da pauta, baila no estrado olímpico das veias, descontraída, turbulenta, incauta. Oiço-a acordado e sinto-me adormecido nas ondas largas que no sangue vão como o transístor que se encosta ao ouvido e apenas ouve quem o tem na mão. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D'Água, [2004], p. 214 Canção da bateria Marcas o ritmo do batimento, Agitas o estado de espírito, Envenenas o pensamento, Como uma pedra, agitas as águas de um lago, Como a chama consome a lenha, Como o fumo invade o ar. O teu som infecta-me a mente, Acelera a frequência a que respiro, Muda o olhar de sossego, Por ti eu suspiro, E quanto a ti me interrogo: Porque consomes tu a minha alma? Porque perturbas tu a minha calma? Porque te oiço sequer?
  3. 3. Porque te consumo, ingiro? Porque todos os dias te tento decifrar, Assim por ti eu respondo. Melodiosa bateria. [Gustavo, 9.º 1.ª] Canção do piano O seu negro brilho realça oito oitavas de notas E as alinhadas pautas. Carrego nas teclas pesadas, Que cantam melodias delicadas. Com sete notas, faço uma escala — Dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó. Quando toco, toda a gente se cala — Dó-si-lá-sol-fá-mi-ré-dó. O piano parece chorar, Quando toco acordes menores, Mas logo se começa a alegrar, Se toco escalas maiores. [Brigitta, 9.º 1.ª] Canção do piano Sempre presente no coração, Único e indescritível, feito a combustível e alimentado com amor. Suas teclas prontas para tocar, com a música movimentada, para me pôr a dançar até ficar cansada. Sua sinfonia, tão bela que é, Faz-me lembrar o mar, só me apetece mexer o pé e nunca parar. [Raquel, 9.º 5.ª]
  4. 4. Canção do piano De dó a dó, todas as notas me tocam E todas são tocadas por mim, Como um poema que não tem fim, Que me faz sentir assim... É neste contexto que tocas Chopin, Como um aroma leve de avelã, Que me alimenta o espirito E que me acende o infinito perdido, há muito, dentro de mim. Milhões de borboletas se alojam no meu estômago, Quando oiço o piano cantar; Um nervoso miudinho vem de não sei onde, Mas sei que é de te ouvir tocar. [Mónica, 9.º 5.ª] Canção da guitarra Lá está, no meu quarto, uma guitarra feita de madeira de carvalho, com uma copa dourada. Estar a tocar e a apreciar o orvalho. É uma sensação especial e só me sinto contente: Colcheias, semicolcheias na pauta especial, É uma música fluente. Notas e notas vão saindo das cordas com a minha mão, naquela borda, naquela borda. [Afonso, 9.º 6.ª] Canção da viola (guitarra clássica) Enquanto flui o vento, A encantada melodia Arrepia-me a espinha E continua, esguia.
  5. 5. E aquela guitarra Agarra-se fortemente. Aos meus braços escravizados. Sem saber, transponho a música Da tablatura para a realidade. E, sem saber, comovo as gentes Com os ritmos das semínimas, Os sons dos bemóis E das cordas entrelaçadas, Abraçadas aos meus dedos viciados. Sem saber, dou ao mundo Um bocado do meu eu. E, sem saber, corro livre Pelas pautas musicais, À procura de um caminho, De um mundo vque, para mim, ainda não existe. Por que corro? Não sei. Sei que tenho que correr, Agarrar-me à vida. Sei. A música disse-me. E assim me sinto, Quando toca aos meus ouvidos: Uma caixa aberta, de infinitas emoções. [Joana L., 9.º 6.ª] Canção da voz Faz-me estremecer como o belo cântico dos pássaros. Inspiradora e irregular, é um enredo alternativo de notas soltas. Uma vida proferida melodicamente, através da alma reveladora das pessoas, experiências sentidas e conduzidas pelas palavras esvoaçantes. Ao ouvi-la, sinto-me bem, Relaxada perante a minha existência, inserida num mundo privado onde só a voz corre. [Cátia, 9.º 6.ª]
  6. 6. Poema épico O texto «Poema épico» apresenta-nos personagens que estão nos antípodas (são exactamente ao contrário) de um herói de uma epopeia. Escreve mais uma quadra, de matriz sintáctica semelhante, que trate de outra figura também humilde, aparentemente sem nada que a recomendasse para heroína de epopeia. Usa um dos esquemas rimáticos destas quadras de Gedeão (A-B-A-B ou A-B-B-A). Poema épico O rapagão da camisola vermelha sacode a melena da testa e retesa os braços num bocejo como um jovem leão voluptuoso. Dorme a sesta o involuntário ocioso. A filha do alfaiate atirou a tesoura e o dedal pela janela e sumiu-se na noite escura do mundo. Quis respirar mais fundo e isso de ser coitada é lá com ela. O homem da barba por fazer conta os filhos e as moedas e balbucia qualquer coisa num tom inexpressivo e roufenho. Súbito chamejam-lhe os olhos como labaredas: — Eu já venho! O da face doente, o que sofre por tudo e por nada, sem querer, abana a cabeça negativamente: — Isto não pode ser! Isto não pode ser! Sentados às soleiras das portas, mordendo a língua na tarefa inglória, com letras gordas e por linhas tortas vão redigindo a História. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D'Água, [2004], p. 189
  7. 7. Sentado à porta do casebre, um velho de aspecto nojento só sabia escarnecer! Para além daquele hálito fedorento da sua boca só saía maldizer! [Diogo, 9.º 1.ª] Filha de rei, sozinha sempre está, sua alegria há muito desapareceu, uma lágrima a sua cara percorrerá eternamente, esperando o seu Romeu. Quem é órfão Nada pode temer, pois nada tem a perder. Sozinho andas na escuridão. [Rita, 9.º 3.ª] A avó preocupada assa frango no fogão, e, agarrada às costas, lamenta-se da sua coluna desviada. Lava os tachos, tremendo-lhe as mãos de exaustão, na pia de louça branca, velha e desgastada. [Gonçalo, 9.º 5.ª] O estudante de boas famílias, É muito mal comportado, Por ter muitas regalias E estar mal habituado. [Luís, 9.º 5.ª]
  8. 8. O rapaz lá da loja de jogos, está sempre contente: vendia dos melhores, nas prateleiras não havia os piores, não havia nada que o pusesse doente E o pivot do jornal está lá todos os dias, nem uma chamada leva a mal, é sempre a senhora simpatias [Pedro G., 9.º 6.ª] Qual personagem adorada, Qual mulher de vida feliz; É o oposto da fantasia que diz Que não há pessoa falhada. Criança no barco desfeito; Tristeza transformada em presença constante, Tentativa de felicidade que já não tem efeito, Sonhos isentos de um mar de rosas cavalgante. [Ana M., 9.º 6.ª] Encostados às paredes da cidade, olhando com olhos no vazio profundo, sem nada e sem piedade, são discriminados pelo mundo. [Pedro M., 9.º 6.ª] Vagabundo, no metro toca, Para seu espírito elevar. O saxofone faz com que a alma oca Fique «blue» por quem o negro passar. [Micaela, 9.º 6.ª]
  9. 9. Enquanto No poema «Enquanto», a conjunção serve de título e é crucial na sintaxe e no sentido do texto. Escreve um poema igualmente fundado numa conjunção à tua escolha. Enquanto Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio e um sargento que lhe volte o corpo com a ponta do pé para ver como é; enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas e correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhasminhocas despertas; enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas, órfãs de pais e de mães, andarem acossadas pelas ruas como matilhas de cães; enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente, num silêncio de espanto rasgado pelo grito da sereia estridente; enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas amassando na mesma lama de extermínio os ossos dos homens e as traves das suas casas; enquanto tudo isto acontecer, e o mais que não se diz por ser verdade, enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia, o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade: ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D'Água, [2004], p. 198. Quando Quando te vejo debruçada na janela, com os cabelos ao vento, sinto-me feliz. Quando me falas nessa tua voz doce, sinto uma melodia no ar,
  10. 10. sinto uma intensa primavera dentro de mim. Quando vejo os teus olhos castanhos e cintilantes, bonitos e distantes, a olharem para mim, sei que serão meus os teus olhos até ao fim. Quando caminhamos na praia em direcção ao vazio, o horizonte longínquo fica perto, como perto fica o teu olhar frio, que se fixa no meu e se perde no rebentar das ondas, na areia, no céu. Quando sinto o teu sorriso, que desabrocha da alma e que te pousa no rosto, cheio de medo, cheio de sempre e de calma… Quando existires em mim, quando o sempre é nunca e será sempre assim: amo-te hoje, ontem, até ao fim. [Inês, 9.º 1.ª] Embora Embora tenha nascido, Sinto-me morta! Sinto-me morta pois, Embora acredite em Deus, Há guerras, fomes, maldades; Embora as pessoas pareçam muito amigas, Na verdade, são inimigas Embora exista felicidade, Na outra metade, Existe tristeza, rancor, ódio; Embora haja riqueza, E os homens possam ser muito ricos, No outro lado só se vê pobreza; Embora existam pessoas obesas, Existem várias que morrem à fome; Embora veja tantas crianças educadas, Outras, vejo-as a quererem ser informadas; Embora umas pessoas desperdicem água potável, Em algumas regiões do Mundo, Outras não sabem o que isso é.
  11. 11. Embora tenha nascido, Sinto-me morta! [Carolina, 9.º 3.ª] Quando Quando a pedra cair e bater em alguém, mostrando como se faz; quando a ferida começar a sangrar e as dores começarem a apoderar-se, então vais ver; quando as gotas principiarem, derramando o sofrimento e sofrimento de milhares; quando a bomba cair e atingir, matando-os, milhões; as pedras vão cair . [Francisco, 9.º 3.ª] Enquanto Enquanto o meu professor me marcar trabalhos, não vou ter descanso, não vou conseguir estudar o suficiente e fico repetente. Enquanto a chuva bater na minha janela, não me consigo concentrar: são agora sete da manhã e ainda tenho de ir estudar. Enquanto estiver a pensar neste poema, já não faço mais nada, não consigo encontrar nenhuma rima, cruzada, emparelhada ou interpolada. Enquanto estou em silêncio, fico aqui sozinho, na cama a ler o meu livrinho e a ouvir gritar o meu vizinho. [João A. , 9.º 5.ª]
  12. 12. Quando Quando eu a vi sair de casa, tudo em mim tremelicava: ela era a luz de toda a rua, ainda ficava mais linda, quando soltava o cabelo, porque, quando saía de casa, havia aquele vento matinal e o seu cabelo esvoaçava, quando falava com ela, eu até gaguejava. A sua voz era suave, quando estava com ela. Parecia que estava no campo a ouvir os pássaros a cantar, enquanto víamos o pôr-do-sol reflectido num lago. [João Miguel, 9.º 6.ª] Apesar Apesar dos “Objectivos do Milénio”, continua a haver pessoas a morrer de fome; apesar de haver demasiados alimentos e haver muitas pessoas com obesidade, os alimentos continuam a falar onde são precisos; apesar das crianças que choram de fome, e das mães que sofrem, não por elas mas por não poderem alimentar os seus filhos; apesar dos países pobres terem recursos e de terem possibilidade de alimentar todos os sítios; apesar da taxa de natalidade ser muito elevada e o número de habitantes ser cada vez menor, o poeta gritará com todas as suas forças: É PRECISO AJUDAR. [João Af. D., 9.º 6.ª]
  13. 13. Quando Quando o aborto é notícia, Todos os telejornais falam sobre isso, Todas as pessoas parecem saber do assunto, Os títulos dos jornais e a política, A peixeira e o advogado de Freiria; E todos reflectem sobre o problema, Avançam todas as teorias e certezas Sobre o início da vida ou sobre a dor. Todos dizem que já disseram que sim, Todos dizem que acham que não, Quando se fala de aborto E quando o aborto é noticia. E quando não se fala? O aborto deixa de ser importante? Deixa de acontecer, Quando não é noticia? [Paulo, 9.º 6.ª] Todavia Há progresso, Todavia as pessoas morrem sem remédios, Onde não existem carros nem prédios. Todavia há quem durma ao relento, Exposto à tirania do frio e do vento. [Mário, 9.º 6.ª]
  14. 14. Calçada de Carriche Escreve uma 'versão masculina' do poema «Calçada de Carriche». Este longo poema retrata uma mulher de vida condicionada pelos outros («explorada» pela sua condição de mulher e de operária). Escreverás um texto simétrico, que, em ritmo aproximado, nos mostre o quotidiano de um homem e burguês; ou, segunda hipótese, do homem a que corresponderia o marido desta Luísa. Calçada de Carriche Luísa sobe, sobe a calçada, sobe e não pode que vai cansada. Sobe, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe sobe a calçada. Saiu de casa de madrugada; regressa a casa é já noite fechada. Na mão grosseira, de pele queimada, leva a lancheira desengonçada. Anda, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada. Luísa é nova, desenxovalhada, tem perna gorda, bem torneada. Ferve-lhe o sangue de afogueada; saltam-lhe os peitos na caminhada. Anda, Luísa,
  15. 15. Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada. Passam magalas, rapaziada, palpam-lhe as coxas não dá por nada. Anda, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada. Chegou a casa não disse nada. Pegou na filha, deu-lhe a mamada; bebeu a sopa numa golada; lavou a loiça, varreu a escada; deu jeito à casa desarranjada; coseu a roupa já remendada; despiu-se à pressa, desinteressada; caiu na cama de uma assentada; chegou o homem, viu-a deitada; serviu-se dela, não deu por nada. Anda, Luísa. Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada. Na manhã débil, sem alvorada, salta da cama, desembestada; puxa da filha,
  16. 16. dá-lhe a mamada; veste-se à pressa, desengonçada; anda, ciranda, desaustinada; range o soalho a cada passada, salta para a rua, corre açodada, galga o passeio, desce o passeio, desce a calçada, chega à oficina à hora marcada, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga; toca a sineta na hora aprazada, corre à cantina, volta à toada, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga. Regressa a casa é já noite fechada. Luísa arqueja pela calçada. Anda, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada, sobe que sobe, sobe a calçada, sobe que sobe,
  17. 17. sobe a calçada. Anda, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D'Água, [2004], p. 140. Calçada dos Mestres Fernando Soares sobe, sobe e descobre que uma herança lhe foi roubada, sobe Fernando Soares, sobe que sobe, sobe a grande escada. Saiu da nobre propriedade, de manhã, com a alvorada regressa à sua casa, é já tarde acabada. Já tem alguma idade, para andar naquela calçada. Na mão repleta de anéis, de pele bem cuidada leva a chave de uma casa de reis. Avança Fernando Soares, avança depressa, pela estreita escada. Entra em casa, chama a pobre criada e logo lhe ordena que limpe a grande escada, mesmo que esteja cansada. Na escada dará uma vassourada. Anda devagar. Com o seu pesado andar, sobe mais um andar e caminha até à bela sala-de-estar.
  18. 18. Onde anseia por descansar e sempre mandar. De noite há uma reunião. Usa o seu mais bonito fato e chegam burgueses convidados, um batalhão. De aperitivos requintados enchem o seu prato e depois de endinheirados assuntos vão falar, não esqueçendo o malvado governo da região. A vida de um burguês resume-se a isto: a comer um bom petisco, falar e falar sem risco. Porquê? [Eliana, 9.º 1.ª] Calçada de Carriche Luís liga o carro, Chave na ignição E começa a andar. Segue a informação, Não pode parar, Começa a andar, Não pode parar, Nada é em vão. Luís liga o carro. Faz o percurso, Vai buscar alguém Que o tenha pedido. Mete a mudança, Vira o volante E vai para além. Não pode parar, Olha o semáforo, Começa a andar. Olha a velhinha, Pára o táxi,
  19. 19. Abre a porta, Guarda a bagagem. Começa a viagem, Não pode parar, Mas sim continuar. Vira na esquina, Faz a curvinha. Larga a velhinha, Vai buscar a jovem. Muda a mudança, Vira o volante. Já pode parar? Olha, uma ova! Chega aqui, ali, Segue o caminho, Muda de rota. Faz o serviço, Acaba-o logo E vai almoçar Mas a despachar. Come a sua sandes, O pão com chouriço, Bebe o seu vinho, E toca a andar! Não pode parar! Luís, Luís, vai! Não pode parar. Corre, corre, vai! Pega no táxi, Começa a andar, Pára no sinal, Olha a criança E deixa-a passar. Não pode parar. Vai ao hospital Buscar o doente, Recebe gorjeta E toca a andar! Regula o contador,
  20. 20. Vira à direita, Pé no pedal, No acelerador. Não pares, Luís! O turno acaba. A filha p’ra casa, Recebe a chamada. “Vestes o pijama E vais para a cama.” É de madrugada, Toca a levantar, Toma a refeição, Para o trabalho. E mais um dia, Mais uma noite, Vai à praça, guia! Passa no hospital, Centro comercial, Et coetera e tal. Abre a mala, Fecha a mala. Segue caminho, Não pode parar. Toca a andar! [Mariana, 9.º 5.ª] Calçada de Carriche Manuel acorda, pela madrugada. Veste a farda, em menos de nada. Bebe o café, come a torrada, beija a mulher e sai de casa. Dia de chuva, estrada molhada,
  21. 21. pensa a caminho até à hora de entrada. Autocarro à espera, portas fechadas. Tudo em ordem para a jornada. Sai da garagem Com todo o cuidado, Não vá despistar-se no piso molhado. Primeira paragem, senhor desastrado que quase caiu ficando de lado. Senhora antipática, nem bom dia diz, levou por descuido com uma mala no nariz. Guia que guia, segue que segue, trava que trava, Manuel prossegue. Guia que guia, segue que segue, guia que guia, segue que segue, guia que guia, segue que segue, trava que trava, Manuel prossegue. Mais uma volta, o mesmo percurso, há que continuar, sem muito discurso. Pausa para o almoço, é uma correria, sem esta pausa, o que seria o seu dia!
  22. 22. Chega-se a tarde, de volta à viatura Manuel, coragem, A vida é dura, Mais uma viagem, Chega ao fim a tortura. Por fim em casa, Manuel está cansado Tudo arrumado, Mas nada cozinhado. Espera a mulher, Que nunca mais chega. Fica com fome E não se aconchega. Come umas sobras, Veste o pijama, Está com sono E vai para a cama. Dorme, Manuel, A vida custa, Mas homem como tu Nunca se assusta. [Marta P. F., 9.º 5.ª] Calçada de Carriche Vitor deita, e deita no sofá, deita e aconchega-se que vai dormitar. Deita, Vitor, Vitor, deita, deita que deita, e deita no sofá. Saiu do sofá, Ensonado; Regressa ao sofá,
  23. 23. apressado. Na cara rosada da bebedeira leva a cerveja entornada. Senta, Vítor, Vítor, deita, deita que deita, e deita no sofá. Vítor é velho, desarranjado, tem braço forte, bem musculado. Pesam-lhe os olhos de soneira; descaem-lhe as banhas de mandriar. Senta, Vítor, Vítor, deita, deita que deita, e deita no sofá. Passa o estafeta, a porteira, tocam à campainha e não acorda de qualquer maneira. Senta, Vítor, Vítor, deita, deita que deita e deita no sofá. A mulher chegou a casa e Vítor dormia de enfiada. Sentou-se à mesa e quis jantar ; comeu demasiado ficou cansado; sentou-se no sofá; virou-se para um lado voltou a virar; sujou a carpete já manchada;
  24. 24. acordou numa assentada; desligou a televisão antiquada; chegou ao quarto, esperançado; viu a mulher deitada. Foi esta explorada; quase violada, não sentiu nada. Senta, Vítor, Vítor, deita, deita que deita e deita no sofá. A manhã já lá ia e ele dormia, caiu da cama, não deu por nada; bate na filha, para que esteja calada; senta-se no sofá, azamboado, vira-se para um lado, e volta-se para o outro; mancha o sofá com saliva. Levanta-se, volta a deitar, e deita-se de novo, vai buscar o filho, já atrasado, anda que anda, pára que pára, anda que anda, pára que pára, anda que anda, pára que pára, anda que anda, pára que pára, chega à escola passado uma hora,
  25. 25. o filho sozinho, não sabe o caminho, anda que anda, pára que pára, anda que anda, pára que pára, anda que anda, pára que pára, regressam a casa e a tarde acaba. Bate no filho para que ele estude. Senta, Vítor, Vítor, deita, deita que deita, e deita no sofá, deita que deita, e deita no sofá, deita que deita, e deita no sofá, Senta, Vítor, Vítor, deita deita que deita, e deita no sofá. [João C., 9.º 5.ª] Calçada de Carriche João escreve, Escreve e emenda, Escreve e não pára, Tem de entregar a emenda. Escreve João, João escreve, Pensa e escreve, Escreve e emenda, Da reunião com o chefe Surgiu a tarefa,
  26. 26. Tem de concluir O mais tardar na sexta. De olhos vidrados E dedos bailando Em ritmos combinados, E as horas passando. Escreve João, João escreve, Pensa e escreve, Escreve a emenda. João é novo, Recém-licenciado, O chefe é lixado, Põe tudo em alvoroço. É noite, são oito, Ainda sem jantar, Quase que dá em doido, E a namorada a esperar. Escreve João, João escreve, Pensa e escreve Escreve e emenda. Sai às onze a correr, Chega à meia-noite, Dá um beijo a correr, A cabeça sem norte. Escreve João, João escreve, Pensa e escreve, Escreve e emenda. Chegado a casa, Come como um urso, Senta-se no sofá, Finge atenção ao concurso; A namorada fala, Enche um copo de licor Vai ouvindo e não diz nada E começa a perder o fulgor. Adormece e acorda Ainda no sofá,
  27. 27. Vai para a cama sem corda, Amanhã um novo dia será. Levanta-se às seis e meia, Põe a gravata de seda, Pão com mel da colmeia É bom para fortalecer. Quer ser como o pai, advogado, Ter clientes para defender, Ser por todos respeitado, Senhor doutor há-de ser. Escreve João, João escreve, Pensa e escreve Escreve e emenda. De manhã o chefe pergunta Se a emenda do contrato está feita. Sim, doutor, nem se pergunta, O cliente não merece desfeita. Então João marca almoço, Com o cliente do patrão, Entrega a emenda E informa a remuneração. Pobre namorada aniversariante Sem ele a almoçar; Não faz mal Há-de sair às cinco, Escreve contratos, Renova contratos, Atenção às cláusulas, A vigência é importante, Também um português sem máculas, Fundamental para advogado triunfante. Sai às cinco, Põe óculos de sol, Caminha com afinco, Entra no automóvel, Acelera o bólide, É um advogado estagiário Mas com muito imaginário. Há-de ter um Ferrari, Uma casa em Gaia,
  28. 28. Seguir as pisadas do pai, Ter bons conhecimentos, Aproveitar os bons momentos Para conhecer pessoas influentes, Negociar em qualquer frente Em qualquer língua ser fluente Não importa os meios Para os objectivos atingir. Acelera pois sem freios, A namorada não quer afligir, Vai jantar fora, Um pezinho de dança Ou então um cinema. Tanta vontade de ir embora, Esquecer o trabalho que cansa, Trocar as palavras dos contratos E deles fazer um poema. A namorada sorri, Ele irradia, Pé no acelerador, É um vencedor. Escreve João, João escreve, Pensa e escreve, Escreve a emenda. Pensa e escreve, Escreve a emenda. Escreve João, João escreve, Pensa e escreve, Escreve a emenda. [Carlota, 9.º 5.ª] Calçada de Carriche António senta-se, pega no comando, muda de canal e ajeita-se,
  29. 29. chama e chama pelo Nando. Muda, António, António, muda, Muda que muda, Muda de canal. Levanta-se da cama ao fim da tarde, penteia o cabelo, o que mais ama, arranja-se antes que anoiteça. Na gorda barriga, de pele esticada, poisa a Urtiga, que se aquece do nada. Fica, António, António, muda, Muda que muda, Muda de canal. António é velho, chato, tem cabeça de courato e veste barato. Tranquilo, com as preocupações come ainda mais torresmos e coscorões. Fica, António, António, muda, muda de canal. Vê o Benfica, adormecido, tenta acordar com pica embora ela já tenha ido. Fica, António, António, muda, Muda que muda, Muda de canal. Olha a Luísa e não diz nada, vai dormir com uma grande pedrada, chega à cama e só pensa em rir.
  30. 30. Muda que muda, Muda de canal. [Sara, 9.º 6.ª] Segunda Circular Desce José a estrada, sentado confortavelmente no seu Fiat Strada. Chega ao escritório, põe tudo num pandemónio, faz a vida negra até ao melhor operário. Recosta-se no cadeirão e descansa um pouco, fica cansado só de ver os outros a ter um trabalhão. Volta a casa, evitando as faixas com carros. Manda trabalhar os empregados, que já estão cansados. Dorme um sono descansado, sem pensar no operário que chega a casa e dorme estafado. [João Af., 9.º 6.ª]
  31. 31. Pedra filosofal Lê «Pedra filosofal». Talvez tenhas estado, em Novembro de 2005, na sessão do aniversário da escola em que Manuel Freire cantou a canção com esta letra. Os últimos versos da terceira estrofe («alto-forno, geradora, / cisão de átomo, radar, / ultra-som, televisão, / desembarque em foguetão / na superfície lunar») pretendem referir o que, quando o poema foi escrito, seriam os expoentes da modernidade. Prossegue essa estrofe, acrescentando uma dezena de versos com nomes ou situações que hoje seriam representativas da mesma modernidade. Pedra filosofal Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso em serenos sobressaltos, como estes pinheiros altos que em oiro se agitam, como estas aves que gritam em bebedeiras de azul. Eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento, bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa através de tudo num perpétuo movimento. Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral, contraponto, sinfonia, máscara grega, magia, que é retorta de alquimista,
  32. 32. mapa do mundo distante, rosa-dos-ventos, Infante, caravela quinhentista, que é cabo da Boa Esperança, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, paço de dança, Colombina e Arlequim, passarola voadora, pára-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, cisão de átomo, radar, ultra-som, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar. Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que o homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D'Água, [2004], p. 104 Eles não sabem que o sonho é o computador, o TGV, a luta pelo aborto, o Euromilhões, a procura de outras formas de vida por todo o universo, é falar na internet com uma câmara, microfone, transportar informações, bastante grandes numa coisa tão pequena chamada «pen». [Ricardo, 9.º 1.ª] É satélite, tv cabo, ar condicionado, tgv, usb, plasma, tft, computador,
  33. 33. calculadora, scanner, impressora, prótese, laser, digital, pace maker, micro-ondas, esp, infravermelhos, dvd. [Susana, 9.º 3.ª] Como um telemóvel de última geração, um carro moderno, mais lento que um avião, um computador com ecrã plasma que nunca pensa mal, uma casa inteligente e uma bateria digital; como a descoberta de vida em Marte, com uma aeronave com segurança fortíssima e em que nem um grão de areia entraria; a ida para o trabalho num carro voador. [Pedro V. , 9.º 3.ª] Internet, MP3 Ipod, DVD, ver, ouvir, falar, tudo em um — terceira geração —, Bombas nucleares, armas mortíferas, Trabalhar por ecrã, satélites, carros dois em um — água e terra —, malas, aviões, comboios ultra-rápidos. [Cláudia, 9.º 5.ª] Curto-circuito, um trovão, Velocidade cortante, um avião, Uma bala rasante, uma pistola, Uma ligação, um prédio, Todas as extravagâncias, impedindo o tédio, Uma célula, um neutrão, corrente, um electrão, CD, um cartão.
  34. 34. Um isqueiro, um incêndio, Um mundo evoluído, compreende-o. [Tiago, 9.º 6.ª] MP4, viagem à Jamaica, controlo remoto da vivenda em Cascais, roupa térmica, moto, conhecer países, premonições ténis giros, sistema de som, calças rasgadas, mobília chique e moderna, ser modelo, passar férias na Lua, sonhar. [Sara, 9.º 6.ª] Catedral de Burgos Ilustra um poema de António Gedeão. Catedral de Burgos A Catedral de Burgos tem trinta metros de altura e as pupilas dos meus olhos dois milímetros de abertura. Olha a Catedral de Burgos com trinta metros de altura! António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D’Água, p. 200. [ilustração escolhida por Eliana, 9.º 1.ª]
  35. 35. Poema da auto-estrada Escreve poema «antónimo» do seguinte poema de António Gedeão: «Poema da auto-estrada». Poema da auto-estrada Voando vai para a praia Leonor na estrada preta. Vai na brasa, de lambreta. Leva calções de pirata, Vermelho de alizarina, modelando a coxa fina de impaciente nervura. Como guache lustroso, amarelo de indantreno, blusinha de terileno. desfraldada na cintura. Fuge, fuge, Leonoreta. Vai na brasa, de lambreta. Agarrada ao companheiro na volúpia da escapada pincha no banco traseiro em cada volta da estrada. Grita de medo fingido, que o receio não é com ela, mas por amor e cautela abraça-o pela cintura. Vai ditosa, e bem segura. Como um rasgão na paisagem corta a lambreta afiada, engole as bermas da estrada e a rumorosa folhagem. Urrando, estremece a terra, bramir de rinoceronte, enfia pelo horizonte como um punhal que se enterra. Tudo foge à sua volta, o céu, as nuvens, as casas,
  36. 36. e com os bramidos que solta lembra um demónio com asas. Na confusão dos sentidos já nem percebe, Leonor, se o que lhe chega aos ouvidos são ecos de amor perdidos se os rugidos do motor. Fuge, fuge, Leonoreta. Vai na brasa, de lambreta. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D'Água, [2004], p. 177 Lentamente, vai para o museu, A pé, pelo estreito caminho. Leva umas calças justas, Negras, como as noites de Inverno Estilizando as pernas curtas. Por cima, um velho casaco bege Bem largo e fora de moda. Vai, vai, Leonoreta, Por entre a noite preta, Só, no longo caminho. Leva consigo a sua sacola, Carregada de medo Mas confiante. Segue, segue, segue, Com o tempo escuro Percorre ruas e ruas, E, lá no fundo, A imponente igreja guia-lhe o caminho. Tudo à sua volta A parece ignorar Pelo seu estranho silêncio Já não sabe se será medo, Medo da solidão Ou medo da escura noite. Vai, vai Leonoreta, Por entre a noite preta. [Sara C. , 9.º 1.ª]
  37. 37. Poema da estrada rural Andando sai da praia Leonor na estrada branca Num motão que não arranca. Leva calças compridas De cor azul escuro, disfarçando a grossa coxa de paciente calma. Como guache mortiço roxo de pôr-do-sol, arranjadinha na cintura. Fuge, fuge, Leonoranca Vai no motão que não arranca Solta do companheiro No desprazer da escapada Não agarra o companheiro em nenhuma volta da estrada. Não reage nem grita apesar de receosa e sem amor nem cautela não o agarrra nem por nada Vai azarada e insegura. Como um caracol pastelão anda o motão avariado, não faz curvas apertadas nem faz estremecer a folhagem. Silenciosa, vai lentamente, a bramir como girafa, lentamente até ao horizonte Como martelo imóvel Tudo parado à sua volta, o céu, as nuvens ou as casas, com o silêncio em que se encontra parece um pobre a ver a montra. Bem ciente dos seus sentidos,
  38. 38. apercebe-se Leonor de que o que lhe chega aos ouvidos são ecos de um amor encontrado e não o silêncio do motor. Força, força, Leonoranca no motão que não arranca. [João M., 9.º 5.ª] Andando vai para a montanha Leonor na estrada branca. Vai lenta, com caneca! Vai de pileca. Leva calças boca de sino, Vermelhas... nossa! modelando a coxa grossa de paciente moleza. Como guache baço, amarelo de indantreno, blusão de terileno, justinho na cintura. Fuge, fuge, Leonoreca. Vai lenta, com caneca! Vai de pileca. Livre de companheiro na ausência de escapada amolece na passada em cada volta de estrada. Sem medo, com receio, sem amor ou cautela vai murcha e pouco segura. Sem rasgões na paisagem lá vai a pileca, caindo nas bermas da estrada e também na folhagem.
  39. 39. Sem pio, calma terra, nem pássaros se ouvem, longe do horizonte, como o silêncio que se enterra. Tudo cai à sua volta, o céu, as nuvens, e as casas, e, com o silêncio que se abate, lembra um anjo sem asas. Na inércia dos sentidos Percebe, Leonor, que o que não lhe chega aos ouvidos são ecos de vidas perdidas se o silêncio da pileca. Fuge, fuge, Leonoreca Vai lenta, com caneca! Vai de pileca. [Rita, 9.º 5.ª] Devagarinho vai para a escola Leonor na confusão do trânsito. Vai devagarinho, de trotinete. Leva calças de ganga, azul da cor do mar, de cintura caída. Cheias de rasgões e bolsos, ténis com rodinhas azuis e vermelhos, casaco de lã grossa, com a barriguinha de fora. Devagar, devagar leonor vai com calma, para o terror. Encostada aos varões no autocarro bem cheio sempre desequilibrada naquela condução marada. Parece que vai calma, mas é bastante medrosa, tem calor, abre a janela,
  40. 40. começa a gritaria. Vai medrosa, sem alegria. Acelera e trava logo, parece um caracol, está vermelho, tudo ao chão fica verde toca a levantar. Sinal de paragem, espera um pouco, arranca com força é um vaivém louco. Vai tudo em movimento, ouve-se um pouco de música, vem de novo a gritaria. Que cansativo é o dia. Devagar, devagar, Leonor Vai com calma, para o terror. [Nuno, 9.º 5.ª] Poema do desgosto amoroso Maria vai para a escola, Esvoaçando as tranças loiras Com elegância e orgulho. Maria das saias curtas, Sempre bem arranjada, Menina nada esbanjada. Por onde passa arrasa, Maria, graciosa, Entrando, mira, mira, Saindo, gira, gira, Maria é preciosa. Corre, corre, Maria, preciosa, Por onde passas, és sempre graciosa. Nestas andanças, aparece seu príncipe, Muito educado e vaidoso, Mas fala com Maria num tom
  41. 41. Muito alto e duvidoso. Ela nunca se deixa abater, Tal é a sua bravura. Sempre pronta para a aventura, Ela lhe responde num tom alto Gritando desta forma, até o príncipe dar conselho. O príncipe engole em seco Vendo-se na amargura, Tal era a humilhação, Por aquele grito na rua. Maria desaparece, Muito contra a sua vontade, Mas a todos esclarece Que está irradiando felicidade. O príncipe corre atrás dela Chamando-a sua amada, Era tão grande a mentira Que Maria ficou pasmada. Acabando por desistir, O príncipe parou, Não percebendo ainda Porque a sua história acabou. Maria continua o seu caminho, Irradiando felicidade, Continuando graciosa e cheia de vaidade. Corre, corre, Maria preciosa, Por onde passas continuas graciosa. [Mónica, 9.º 5.ª] Poema do planalto Andando vai para o céu Ronoel na terra branca. Vai na frescura, de batel. Leva calças de anjo, amarelo de anel,
  42. 42. amachucando o gémeo interno da impaciente amargura. Como pincel traposo, vermelho de horroroso, gravata à madrileno, amachucada na bacia. Anda, anda, Ronoelereta. Vai na frescura, de batel. Agarrado ao amante na ternura da estalada, trincha no banco pioneiro em cada volta chicoteada. Ri-se de receio fingido, que o medo não é com ele, mas, por ódio e rancor, esfaqueia-o pela cintura. Vai vaidosa e mal segura. Como um nevão na paisagem, corta o batel aproado, engole a terra pura e a esplendorosa ramagem. Chorando, abana o planeta, zumbir de elefante, penetra por vante como um revólver de perneta. Tudo vem em seu redor, o planalto, as folhas, as cabanas, e com os zumbidos que solta lembra um anjo com cornos. Na acalmia dos sentidos, já nem sente Ronoel se o que lhe chega aos ouvidos são sons de rancor perdidos se os rugidos do batel. Anda, anda, Ronoelereta. Vai na frescura, de batel. [João Tomás, 9.º 6.ª]
  43. 43. Anacleta O poema que se segue é um acróstico (o início dos versos, lido na vertical, constitui um nome) escrito por Rómulo de Carvalho aos 11 anos. Cria tu um acróstico, e também dedicado a uma pessoa ou a coisa de que muito gostes. Usa o mesmo esquema rimático (A-B-A-B-C-D-C-D). Anacleta A mei-te ao ver-te formosa N aquela bela manhã A mei-te ao ver-te viçosa C omo uma rosa louçã. L endo num livro ela estava E ncostada ao seu balcão T endo gesto que mostrava A mar-me do coração. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D'Água, [2004], p. 639. Ambrósio A mei-te desesperadamente, M aravilhei-me de olhos fechados B risa que me arrefeceu a mente. R ecuperar a confiança só abraçados O h, sentirei de novo aquela frescura? S ó tu és o meu rei, I negável sentimento, O mais sincero que nunca esquecerei. [Elizângela, 9.º 1.ª]
  44. 44. Bárbara B ondosa e divertida, A miga de toda a gente, R isonha e cheia de vida, B onita e inteligente. A ndando numa folia, R i-se, vive sempre num mundo colorido, A nda feliz e diz para toda a gente: «sorria». [Joana A., 9.º 1.ª] Caparica C astelos de areia e espuma. A rtes de pesca a valer!... P raias a perder bruma. A ntes do amanhecer!... R ochas batidas pelo mar, I nclinadas, mas fortes... C ais de gaivotas a voar... A “escola” de muitas sortes! [Tiago, 9.º 2.ª] Catarina C ada vez que te via, ficava paralisada, A cada minuto que passava, T eria de ir buscar uma almofada. A cada segundo, eu pensava, R ia, chorava, por não estares comigo, I ria morrer sozinha N a profunda mágoa do Santiago. A deus, minha amiga, e obrigadinha. [Catarina, 9.º 5.ª]
  45. 45. Madalena M açã e laranja A nanás e banana D epois uma boa toranja A lmoçou assim a Ana L evantar cedinho E xercício todos os dias N ão comer docinho A vida sem arrelias. [Nuno, 9.º 5.ª] Compasso C om o teu espigão aguçado, O cupas todo o centro da folha, M as com um ar engraçado P ara arrancar da garrafa a rolha. A nda com o lápis à roda, S em falhar um risco. S em deixar de estar na moda, O compasso roda como um disco. [João M., 9.º 6.ª]
  46. 46. Poema do poste com flores amarelas O poema que se segue, ao contrário do que é costume na poesia de António Gedeão, não é rimado. Os seus versos são aliás extensos, quase como se se tratasse de prosa. Escreve uma continuação do poema. Poema do poste com flores amarelas Vieram os operários, puseram o poste de ferro na berma do passeio e foram-se para voltar noutro dia. O poste tinha sido pintado há pouco de verde e quando lhe batia o sol rutilava como as escamas dos dragões. Mesmo junto do poste, no passeio, havia uma árvore que dava flores amarelas, e o vento fez cair algumas flores amarelas sobre o poste verde. As pessoas que por ali passavam diziam «que chatice de poste», mas o poeta sorria para as flores amarelas. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D'Água, [2004], p. 220 As flores amarelas davam vida ao poste. Um dia, passou perto do poste um pequeno rapazinho, que era tão pequenino que, ao olhar para cima, pensava que o poste não tinha fim. Pensou que era uma árvore florida que tinha sido plantada ali, no meio do nada. E o rapazinho ficou com pena dela, ali sozinha. No dia seguinte, à mesma hora, sentou-se lá, tirou um livro da mochila e começou a lê-lo à “árvore”, só para lhe fazer companhia. [Inês, 9.º 1.ª] Flores belas que passam a vida a desfilar para aqueles que as sabem apreciar, as coisas belas da vida, em vez de se organizarem em grupos para vencer outros; apesar de ninguém mudar o mundo,
  47. 47. nem a felicidade de todos, apenas leis, regras e políticos desesperados para mostrar o seu valor a um mundo de pessoas que não aproveitam a vida, porque em vida não repararam naquela bela árvore perdida com flores de manteiga quase derretida, não repararam no ar revolucionário de um poste verde, que só dá esperanças já perdidas. [Carlos André, 9.º 1.ª] Poema do poste com flores amarelas Todos os dias, de manhãzinha, ia à janela observar aquele poste que tinha tornado a rua mais colorida, a cada dia que passava. As pessoas que por aquela rua andavam já não reclamavam por causa do poste verde, paravam por instantes a observá-lo e a admirar a sua beleza tanta. E aquela rua, carregada de cinzento, ficou mais colorida, com aquele poste, e o poeta sempre sorria, ao olhar para ele, carregado de flores amarelas... [Marta S., 9.º 2.ª] Ninguém gostava do poste, somente o poeta. O poste, que suportava um sinal de trânsito, branco e vermelho com figuras a preto, cumpria uma função: avisava os condutores que existia uma escola perto. E da escola saíam crianças que, com as flores amarelas, enfeitavam o cabelo. [Laura, 9.º 3.ª]
  48. 48. Sorria-lhes de uma maneira subtil e sincera, como se fosse para lhes agradecer de estarem a dar uma grande beleza e vivacidade, àquele poste cheio de tristeza e pouco bonito, com muitas coisas para o estragar, água, animais, humanos, ervas daninhas; Mas nada conseguirá estragar a beleza que lhe estão a dar as suas melhores amigas, as flores amarelas! [Miguel M. , 9.º 3.ª] Vieram os camponeses, tiraram o poste de ferro da berma do passeio e foram-se embora, sem olhar para trás. O poste tinha acabado de ser pintado e, quando lhe batia a chuva, mudava de cor. Junto do poste, no passeio, havia uma árvore com flores amarelas, e o vento fez cair flores, no buraco onde devia estar o poste. Os camponeses voltaram e o poste colocaram, e o poeta sorriu para o poste e para as flores amarelas. [Marta L., 9.º 5.ª] As flores amarelas e o poste eram a musa inspiradora do poeta: passou horas e horas a escrever ao pé daquele poste verde e, ao fim do dia, quando se foi embora, o poste já estava seco e as flores tinham todas voado com o vento [João A., 9.º 5.ª] Era aquela a sua maior inspiração? Talvez aquele jardim, o rio que por ali passava, Sim, podia ser isso tudo mas aquela árvore junto daquele poste verde dizia tudo. Naquelas manhãs em que o poeta mais os seus apontamentos e o seu café matinal se ia sentar num banco ao pé da árvore das flores amarelas e do poste verde, era ali que começava o dia. [Tiago, 9.º 5.ª]
  49. 49. Aproximou-se mais um pouco do poste e colocou algumas flores amarelas que colhera anteriormente. Olhou em seu redor e viu inúmeras pessoas. Estavam curiosas em relação ao que realizava Parecia um pintor famoso. Ao sair de perto do poste, olho-o já de longe. Estava a ser admirado por todos os transeuntes: Naquele dia estava feliz. [Ana G., 9.º 6.ª]
  50. 50. Alegremente, no autocarro As quatro quintilhas de «Alegremente, no autocarro» têm estrutura idêntica (todos os seus cinco versos são paralelos). Escreve mais uma quintilha que siga a mesma estrutura e se enquadre no sentido do poema. Alegremente, no autocarro As crianças tristes passam alegres no autocarro, cantando em altos berros e intrometendo-se com quem passa. Vão todas ao Posto vacinar-se de graça. A vacina é triste, as crianças são tristes, mas passam todas, alegremente, no autocarro. Os soldados tristes passam alegres no autocarro, entoando as canções que cantavam nas romarias da sua terra. Vão para o cais do embarque tomar o paquete que os levará para guerra. A guerra é triste, os soldados são tristes, mas passam todos, alegremente, no autocarro. Os operários tristes passam alegremente no autocarro, cantando e gesticulando com a garrafa de vinho na mão. Vão todos para a fábrica vigiar as máquinas e carregar num botão. A fábrica é triste, os operários são tristes, mas passam todos, alegremente, no autocarro. Os camponeses tristes passam alegres no autocarro, cantando e dando vivas ao longo do percurso. Vão todos à cidade, de fato novo, aplaudir o discurso. O discurso é triste, os camponeses são tristes, mas passam todos, alegremente, no autocarro. Alegremente, no autocarro. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D’Água, [2004], p. 230
  51. 51. Os homens do lixo tristes passam alegremente no autocarro, seguindo o camião do lixo e tapando o nariz por causa do fedor do contentor. Vão todos para o camião do lixo, chorando o desamor. O contentor é triste, os homens do lixo são tristes, mas passam todos, alegremente, no autocarro. [Inês, 9.º 1.ª] Os mineiros tristes passam alegremente no autocarro, cantando altivamente ao erguer as suas piruetas no ar. Vão todos em fila indiana, carregados, sempre a marchar. O caminho é triste, os mimeiros são tristes, mas passam todos, alegremente, no autocarro. [Sara C. , 9.º 1.ª] Os professores tristes passam alegres no autocarro, cantando e ensinando canções a quem lá estava. Vão todos à escola ter aulas de Português. Ter aulas é triste, os alunos são tristes, mas passam todos, alegremente, no autocarro. [Elizângela, 9.º 1.ª] Os estudantes tristes passam alegres no autocarro. Cantando alegremente os resultados dos testes. Vão todos para a escola, de uniforme, admirar os seus mestres. A escola é triste, os estudantes são tristes, mas Passam todos, alegremente, no autocarro. [Tiago, 9.º 2.ª] Os professores tristes passam alegres no autocarro, Entoando e gritando frases completas. Vão todos para a escola, fazendo festas. As aulas são tristes, os professores são tristes, Mas passam todos alegremente no autocarro. [Tatá, 9.º 2.ª]
  52. 52. Os idosos tristes passam alegres no autocarro, cantando e lendo o jornal. Vão todos para o grande hospital. A operação é triste, os idosos são tristes, mas passam todos, alegremente, no autocarro. [Susana, 9.º 3.ª] Os estudantes tristes passsam alegres no autocarro, cantando e falando da escola. Vão todos ao teatro ver a peça estreada. A peça é triste, os estudantes são tristes, mas passam todos, alegremente, no autocarro. As mulheres passam alegres no autocarro, falando das suas vidas. Vão todas para a fábrica coser a roupa. A fábrica é triste, as operárias são tristes, mas passam todas, alegremente, no autocarro. [Silvana, 9.º 3.ª] Os alunos tristes passam alegres no autocarro, cantando e dizendo de cor a matéria para o teste. Vão todos para a escola, de livros na mão, fazer o teste. O teste é triste, os alunos são tristes, mas passam todos, alegremente, no autocarro. [Mafalda, 9.º 3.ª] Os alunos da secundária tristes passam alegres no autocarro, gritando e dizendo adeus a quem passa. Vão todos à central eléctrica ver o que se passa. A central eléctrica é triste, os alunos da secundária são tristes, mas passam todos, alegremente, no autocarro. [Ana, 9.º 5.ª] Os empresários tristes passam alegres no autocarro, cantando e irritando quem passa. Vão todos a uma conferência importante.
  53. 53. A conferência é triste, os empresários são tristes, mas passam todos, alegremente, no autocarro. [Marta L., 9.º 5.ª] Os idosos tristes passam alegres no autocarro, cantando as velhas músicas das suas terras. Vão a uma festa. A festa é triste, os idosos sãos mas passam todos, alegremente, no autocarro. [Soraia] Os sem-abrigo tristes passam alegremente no autocarro, dormindo e ressonando com toda a gente a olhar. Vão ao lar buscar comida quente para almoçar. A pobreza é triste, os sem-abrigo são tristes, Mas passam todos, alegremente, no autocarro. [Marta P. F., 9.º 5.ª] Os animais tristes passam alegres no autocarro, Cantando, furiosos, até à selva, Vão para se refugiar das pessoas, A luta é triste, os animais são tristes, Mas passam todos, alegremente, no autocarro. [Francisco, 9.º 5.ª] Os adultos tristes passam alegres no autocarro, cantando e dançando ao som das palmas. Vão todos para casa ter com as famílias. A casa é triste, os adultos são tristes, mas passam todos, alegremente, no autocarro. [Catarina, 9.º 5.ª] Os jogadores tristes passam alegres no autocarro, cantando gritos de vitória para o próximo jogo. Vão para o estádio com receio de uma derrota.
  54. 54. A derrota é triste, os jogadores são tristes, mas passam todos, alegremente. no autocarro. [João Miguel, 9.º 6.ª] Os judocas tristes passam alegremente no autocarro, cantando e projectando apenas o parceiro mais alto. Vão para o tapete, sofrer contra o asfalto. O tapete é triste, os judocas são tristes, mas passam todos, alegremente, no autocarro. [Tiago, 9.º 6.ª] O triste rapaz passa alegremente no autocarro, sente que uma vez mais perdeu o rumo. Tudo o que se tinha passado parece que ficou coberto de fumo. Os pensamentos são tristes, as recordações são tristes, mas passa sempre, alegremente, no autocarro. [Guilherme, 9.º 6.ª]
  55. 55. Poema do alegre desespero Repara nos seis primeiros versos do «Poema do alegre desespero». Escreve mais algumas estrofes com o mesmo esquema rimático e que tenham (ou tenham subentendida) a frase «compreende-se que ninguém se lembre de». Poema do alegre desespero Compreende-se que lá para o ano três mil e tal ninguém se lembre de certo Fernão Barbudo que plantava couves em Oliveira do Hospital, ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores que tirou um retrato toda vestida de veludo sentada num canapé junto de um vaso com flores. Compreende-se. E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto (o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império) com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil, e o Estrabão, o Artaxerxes, e o Xenofonte, e o Heraclito, e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil, e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras, que conquistavam o Lácio e perdiam o Epiro, e conquistavam o Epiro e perdiam o Lácio, e passavam a vida inteira a fazer guerras, e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio, e o resto tudo por aí fora, e a Guerra dos Cem Anos, e a Invencível Armada, e as campanhas de Napoleão, e a bomba de hidrogénio, e os poemas de António Gedeão. Compreende-se. Mais império menos império, mais faraó menos faraó,
  56. 56. será tudo um vastíssimo cemitério, cacos, cinzas e pó. Compreende-se. Lá para o ano três mil e tal. E o nosso sofrimento para que serviu afinal? António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D'Água, [2004], p. 220 Compreende-se que, quando esta aldeia terminar, todo o mundo se esquecerá da Dona Maria que mantinha toda a gente unida e a cantar, ou do meu tio Hugo, muito importante, que deu uma volta ao mundo com a minha tia e que apareceu nas notícias com um comandante. Compreende-se que amanhã, em Belém, já ninguém se lembre de mim que nunca me esqueci de ninguém, ou do meu exclusivo gato branco que morreu às chamas junto a mim, a olhar para elas sentado num banco. [Joana G., 9.º 1.ª] Compreende-se que lá para o ano de quatro mil e tal ninguém se lembre de certo referendo sobre o aborto, que pôs a cabeça de todos num pantanal, ou do meu poema sobre António Gedeão que sempre pensei que fosse canhoto e que não usasse calão. Compreende-se. E até mesmo que já ninguém se lembre do Aristides de Sousa Mendes, aquele homem corajoso que salvou milhares de judeus dos nazis, passando vistos mesmo aos dementes, fazendo todo o povo feliz,
  57. 57. excepto Salazar, que o deixou pobre e desempregado, qual história epistolar, qual história de heróis, qual história de cavaleiros, que combatiam durante anos, com as suas poderosas armas, com as suas imponentes espadas, que cortavam carne humana, às postas esmigalhadas. Compreende-se. Ser ou não ser corajoso. Ser não ser nazi Nasceu tudo do pó. E ao pó tudo voltará. Compreende-se. Lá para o ano quatro mil e tal. E para que serviram todos estes versos afinal? [Joana, 9.º 2.ª] Poema do alegre desespero Compreende-se que amanhã ou depois ninguém se lembre de que eu errei ao resolver o exercício número dois, ou daquela pastilha de banana que, sem querer, eu pisei, quando me divertia a seguir a Ana. Compreende-se que daqui a cem anos ninguém se lembre do onze de Madrid que vingou a guerra injusta aos muçulmanos, Ou do Caso Casa Pia, de Pedroso, Ritto, Cruz e Bibi, que veio mostrar como este país é vergonhoso. [Gonçalo, 9.º 5.ª]
  58. 58. Compreende-se que ninguém se lembre dos quadros da escola verdes-tropa com uma espécie de parapeito para pôr o apagador e o giz que parecia cola. No futuro vai ser tudo electrónico: O quadro, o giz, o apagador, que leva tudo a eito: Vai ser tudo super-sónico. [Tiago, 9.º 5.ª] Compreende-se que hoje em dia ninguém se lembre do Lopes da Silva que mil e uma desgraças nos trazia. Ou até do tão amado Felisberto que foi a prova viva de que se consegue vencer um jogo mesmo com o pulso aberto. [Guilherme, 9.º 6.ª]
  59. 59. Poema para Galileo Escreve um «Poema para [outra figura histórica (da ciência, da cultura)]». Poema para Galileo Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano, aquele teu retrato que toda a gente conhece, em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce sobre um modesto cabeção de pano. Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença. (Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício. Disse Galeria dos Ofícios.) Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença. Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria... Eu sei... Eu sei… As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia. Ai que saudade, Galileo Galilei! Olha. Sabes? Lá em Florença está guardado um dedo da tua mão direita num relicário. Palavra de honra que está! As voltas que o mundo dá! Se calhar até há gente que pensa que entraste no calendário. Eu queria agradecer-te, Galileo, a inteligência das coisas que me deste. Eu, e quantos milhões de homens como eu a quem tu esclareceste, ia jurar — que disparate, Galileo! — e jurava a pés juntos e apostava a cabeça sem a menor hesitação — que os corpos caem tanto mais depressa quanto mais pesados são. Pois não é evidente, Galileo? Quem acredita que um penedo caia com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia? Esta era a inteligência que Deus nos deu.
  60. 60. Estava agora a lembrar-me, Galileo, daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo e tinhas à tua frente um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo a olharem-te severamente. Estavam todos a ralhar contigo, que parecia impossível que um homem da tua idade e da tua condição, se estivesse tornando num perigo para a Humanidade e para a Civilização. Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios, e percorrias, cheio de piedade, os rostos impenetráveis daquela fila de sábios. Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas, desceram lá das suas alturas e poisaram, como aves aturdidas — parece-me que estou a vê-las — nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas. E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual conforme suas eminências desejavam, e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal e que os astros bailavam e entoavam à meia-noite louvores à harmonia universal. E juraste que nunca mais repetirias nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma, aquelas abomináveis heresias que ensinavas e escrevias para eterna perdição da tua alma. Ai, Galileo! Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo, que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços, andavam a correr e a rolar pelos espaços à razão de trinta quilómetros por segundo. Tu é que sabias, Galileo Galilei. Por isso eram teus olhos misericordiosos, por isso era teu coração cheio de piedade, piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos a quem Deus dispensou de buscar a verdade. Por isso estoicamente, mansamente, resististe a todas as torturas,
  61. 61. a todas as angústias, a todos os contratempos, enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas, foram caindo, caindo, caindo, caindo, caindo sempre, e sempre, ininterruptamente, na razão directa dos quadrados dos tempos. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D’Água, [2004], p. 205 Poema para Newton Hoje, na aula de Física, estive a dar as forças: Primeira, Segunda e Terceira leis, Que nos deixaste há tempos nos teus papéis E que para mim são novas. Num dia soalheiro, sentado num jardim, Estavas a pensar na queda nos corpos E a estudar alguns livros, Caiu-te a maçã na cabeça, enfim. E assim nos explicaste a Gravidade. Passados alguns anos, Não paraste de nos surpreender: Ultrapassaste o conhecimento humano E dividiste a luz em sete. Mas o teu maior dilema Tornou-se num problema, Nunca conseguiste responder a uma pergunta: “Onde está Deus?”. [Brigitta, 9.º 1.ª]
  62. 62. Poema para Da Vinci Ó grande Leonardo, Encontro-me aqui, com tudo apagado, a pensar na minha visita ao Louvre, e naquele teu famoso quadro, sim, aquele, aquele com a misteriosa mulher a quem chamam Mona Lisa. Aquela cujo sorriso misterioso e corpo formoso nos deixou a todos embasbacados. E que com aqueles olhos de mil emoções, invocou a sua essência nos nossos corações. Eu sei... Eu sei... Porque falam eles apenas dela? E porque não falam de Ginevra, que era igualmente bela? Ou da Leda, perdida para sempre, a sua imagem pagã, o seu rosto demente? Eu só te queria agradecer, grande Da Vinci, Pela beleza e mistério que me deixaste. E por aquelas belas obras, que nos encheram todos de esperança, pois o que dizem é bem verdade, quem espera sempre alcança. [Joana, 9.º 2.ª] Poema para Haydn Estou neste momento a olhar e a tocar o teu quarteto n.º 15 em D. Mostras-nos o teu trabalho, ao quarteto claro! Tudo em sintonia! Tudo em Ré! Tudo condiz, os instrumentos e as notas. A tua influência sobre Beethoven.
  63. 63. Es o professor dele, bom ensino. Se houvesse ainda neste mundo génios como tu, a música seria melhor. Beethoven, Mozart, todos os conhecem. Haydn conhecem, mas vagamente. Tercinas, colcheias, semicolcheias, semínimas. Tudo no teu concerto em Dó maior para cello! Tema muito bem trabalhado, sem qualquer dúvida. Ou no de Ré maior. Tudo bom. Tudo harmonizado. Tudo bem explicado. Tudo bem pensado. Eram seis e meia. Comecei a tocar o quarteto n.º 15 (The Lark). Trabalhei só os primeiros, nove compassos de cento e vinte e oito. Avancei um pouco. Conseguimos! Acabámos, fizemos tudo bem até agora mas ainda falta estudar musicalmente a música! Trilos, mordentes superiores, mordentes inferiores. Sou eu que a vou estudar em casa. Muito difícil de analisar. Devido à maneira da escrita. Tudo bom. Tudo harmonizado. Tudo bem explicado. Tudo bem pensado. A ti Haydn… Mozart, não... [Pedro P., 9.º 3.ª] Poema para Camões Camões das tágides, Das sereias encantadas,
  64. 64. Do mar português, Das naus naufragados. Camões das musas inspiradoras, Dos ilustres lusitanos, Como me agrada ler Os teus maravilhosos cantos. Grande personalidade és E eu te admiro, amigo, És a estrela persistente No meu caderno antigo. Não me maça ler a tua obra Tal é a grandeza de espirito que nela habita; Milagrosamente, Ninguém a imita. Se fosses vivo, Não perderia a oportunidade de te ver E queria, porque realmente queria, Aprender contigo a escrever. Assim me despeço, Com o carinho de uma leitora interessada, Que nunca achou na vida Que a tua obra fosse uma maçada. [Mónica, 9.º 5.ª] Poema para Sigmund Freud Vendo-te no retrato, relembro-me de ti, pensando no acto inspiro-te em mim. Inúmeras descobertas realizaste, inúmeros disparates provocaste, mas, para ser sincero, nunca os reparaste. Embora os disparates que realizaste anteriormente me tenham chocado profundamente,
  65. 65. nunca me desiludirão, porque te admiro singelamente. [João Tomás, 9.º 6.ª] Poema para os irmãos Wright Estou a olhar para a vossa fotografia, aquela que foi tirada no vosso primeiro voo, a fotografia que me inspirou no meu futuro ofício. Aquela fotografia no campo em que o primeiro avião motorizado saía disparado, pela colina fora. Nesse dia, os priomeiros dez metros conquistados, nosdescrentes desanimados por verem que afinal tinham razão. É verdade! Quase foram passados por outro qualquer aviador, que, sem saber de vocês, também quis ser vencedor. E foi por vossa causa que hoje todos conhecem os aviões como grandes passarões que nos levam até onde onde queremos. Foi assim que o mundo conheceu e sempre conhecerá os certos irmãos Wright. [João Af., 9.º 6.ª]
  66. 66. Poema do fecho éclair No «Poema do fecho éclair», apresenta-se uma série de vantagens que tinha um rei do século XVI, contrastada no fim com uma única desvantagem (não ter um fecho éclair). Escreve um texto — que pode ser em poesia não rimada — em que relates a situação contrária: dirás as vantagens que tens por viveres no século XXI e, no final, indicarás igualmente qualquer coisa que não tenhas (mas por não viveres no XVI). Poema do fecho éclair Filipe II tinha um colar de oiro, tinha um colar de oiro com pedras rubis. Cingia a cintura com cinto de coiro, com fivela de oiro, olho de perdiz. Comia num prato de prata lavrada girafa trufada, rissóis de serpente. O copo era um gomo que em flor desabrocha, de cristal de rocha do mais transparente. Andava nas salas forradas de Arrás, com panos por cima, pela frente e por trás. Tapetes flamengos, combates de galos, alões e podengos, falcões e cavalos. Dormia na cama de prata maciça com dossel de lhama de franja roliça. Na mesa do canto
  67. 67. vermelho damasco, e a tíbia de um santo guardada num frasco. Foi dono da Terra, foi senhor do Mundo, nada lhe faltava, Filipe Segundo. Tinha oiro e prata, pedras nunca vistas, safiras, topázios, rubis, ametistas. Tinha tudo, tudo, sem peso nem conta, bragas de veludo, peliças de lontra. Um homem tão grande tem tudo o que quer. O que ele não tinha era um fecho éclair. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D’Água, [2004], p. 202 Poema dos reis Eu tenho direito à Educação, Posso tomar as minhas decisões, Posso dar a minha opinião, Sem quaisquer repreensões. Eu posso conhecer qualquer cultura, Posso até não ter religião, Já não vivo numa ditadura, Vivo num mundo de dedicação. Eu posso apoiar quem me apetecer, Posso correr, saltar, gritar Sem que ninguém me venha prender, Posso falar sem recear.
  68. 68. Eu posso lutar pelo que acredito, Posso defender terras e mares, Posso acreditar no infinito Sem ter medo de o alcançar. Eu posso olhar em meu redor, E pensar: “Este mundo já foi pior!”, E acreditar que a cada hora Este mundo melhora. Eu posso olhar para as estrelas, Sabendo o que elas são, Posso sonhar em tê-las À distância de uma mão. Eu tenho orgulho neste mundo De pessoas de longa caminhada, O que eu não tenho no fundo São reis da palhaçada. [Sara P., 9.º 1.ª] Poema do meu castelo No século vinte e um, tenho tudo o que quero, água, vinho e rum tiram-me o desespero. Tenho uma grande casa e também um carro, e uma garagem (pena o fumo, que fico com catarro). Para isso curar, não vou ao médico: já há medicamentos para tomar, a tecnologia é algo inédito. Já uso máquina para cortar o cabelo, mas o que eu queria era ter o meu próprio castelo. [Daniel, 9.º 1.ª]
  69. 69. Poema do meu palácio Eu tenho três televisões, dois computadores e sofás de cabedal. Tenho dois carros, duas casas de férias. O dever de ir à escola, poder dizer o que penso, literalmente. Almoço com os meus amigos; três vezes por semana encontro-me com eles. Tenho um guarda-ropua cheio resultante de tardes infinitas nas compras com as minhas amigas. Com a nova tecnologia posso comunicar com todo o mundo. Tenho um telemóvel, telefone em casa. Posso falar com quem quiser, quando quiser. Posso deslocar-me sozinha dentro da cidade, vir com os meus amigos da escola para casa, ir ter com alguém, graças aos transportes públicos. O que eu não tenho é a possibilidade de viver num palácio. [Joana A. , 9.º 1.ª] Poema da espada cinzenta e prateada Eu tenho uma casa amarela, Duas janelas no quarto, Uma cadela e mais outra, E um computador portátil. Vou ao McDonalds no Colombo.
  70. 70. Bebo Coca-Cola. Como um hambúrguer gorduroso e gelados de morango. Durante a semana vou à escola aprender as difíceis ciências, a complicada matemática e a língua lusitana, entre outras línguas mais e variadas disciplinas banais. Tenho na sala um confortável e grande sofá castanho cor de chocolate. Na cozinha, uma máquina de cafés Uma caixa cinzenta no quarto, reprodutora de imagens. Tenho também uma aparelhagem, que bem reproduz sons graves. Tenho um frigorífico e um microondas e também uns magníficos sapatos. Um grande armário e uma máquina digital. Também tenho outra máquina, mas essa já muito velhinha. Tenho candeeiros coloridos e almofadas variadas. Tenho um caixote do lixo cor de prata. E também uma tigela, onde a mãe faz salada. O que eu não tenho é Uma espada grande Cinzenta e prateada. [João R., 9.º 3.ª] Poema da amizade Eu tenho um monte de amigos, todos são bons à sua maneira, mas uns são mais amigos que outros. Todos têm as suas manias, todos têm as suas fofocas, todos têm personalidades diferentes umas das outras.
  71. 71. Enquanto a Marta um dia gostava de fazer «swing», eu prefiro nem ter namorado; enquanto o João quer ter cinco filhos, eu nem casada quero ser! (Sim, na minha mente as pessoas só têm filhos se forem casadas). Sinto a falta deles quando não estão e odeio que discutam, mas, sempre que estamos juntos, é tudo perfeito, as tardes, manhãs, noites são sempre divertidas! A Marta costuma ser a mais parvinha; o João, o mais tagarela; a Mafalda, a mais «bêbada»; e os outros juntam-se todos à festa, tal como eu. Tenho tudo o que quero, só ainda não ganhei o Euromilhões. [Madalena, 9.º 3.ª] Poema das florestas Neste nosso mundo desenvolvido, Temos assistido a grandes mudanças. O telefone virou telemóvel, A caneta é agora teclados e A máquina de escrever é PC. Anda-se de carro ou de camião, Descobriu-se melhor o Universo, Há mais divulgação de informação com a Internet; em vez de verso Há uma crescente globalização. As modas não são o que eram antes, Usam-se outras roupas diferentes, Os cortes de cabelo também mudaram A PS surgiu; vícios começaram. Da antiga à velha, tudo evolui. Várias empresas apostam nas TIC. Novas curas para doenças surgiram. A educação e a formação São métodos profissionais que São agora muito importantes Para o desenvolvimento económico.
  72. 72. Hoje em dia, felizmente, nós, Apesar de não nos apercebermos, Temos quase tudo facilitado, Mas o que não temos e precisávamos, É locais puros, como florestas. O nosso planeta é um bem precioso, Há que conservá-lo, não o poluir, Reciclar o lixo, fazer o bem. Porque tudo o que nos falta é, E sempre foi, espaços naturais. [Mariana, 9.º 5.ª] Poema dos ténis de marca Eu tenho um computador, tenho uma playstation. Pesquiso na internet assuntos que desconheço. Como pizza, em pratos de plástico; os guardanapos, são de papel Ando nas ruas, com roupa normal, as pessoas não comentam, a minha maneira de vestir. Tenho direito à liberdade, posso fazer tudo o que quero. A minha casa é pequena, não vivo do luxo, as mobílias são normais. Tenho tudo o que é necessário, para viver bem. O que eu não tenho é uns ténis de marca. [Carla, 9.º 5.ª]
  73. 73. Poema das antigas tradições Eu tenho um telemóvel no qual posso falar e ver as pessoas ao mesmo tempo e no qual posso gravar os momentos dignos de recordar mais tarde, através de fotografias e vídeos. Tenho um MP3, com o qual ouço, onde e quando quero, todo o tipo de música que aprecio. Tenho um portátil de última geração, super inteligente, que me ajuda imenso nos trabalhos para a escola, no qual tenho instalada a internet, pela qual, por apenas 24 euros por mês e sem assinatura do telefone, posso navegar horas e horas a fio e que me permite também falar com os meus amigos espalhados por todo o mundo. O que eu não tenho são as antigas tradições que caracterizam um país. [Cláudia, 9.º 5.ª] Poema do ferro de engomar Eu tenho quase tudo: tenho uma casa grande, com uma piscina enorme. Desde um jardim verde com vista para o mar, eu tenho tudo. Durmo num quarto pequeno, mas com coisas de grande valor, uma cama com flores de prata e uma cómoda. Tenho uma cadela, a cadela Conceição, que salta na cama, que pula no chão, mas que trata de mim, como se fosse minha ama. Tenho muitos amigos, amigos fiéis. Trocamos de brincos, trocamos de anéis. Guardam segredos
  74. 74. e quanto a isso só lhes agradeço. Quanto ao meu carro é grande e veloz. Anda na estrada, anda na lama E, mesmo assim, nunca se queixou. Tenho tudo, tenho quase tudo, Porque o que eu não tenho é um ferro de engomar a carvão. [Joana O., 9.º 5.ª] Poema dos legumes Eu tenho um computador, Onde faço o que quero. Moro num prédio Onde posso passear de elevador. Em minha casa há uma televisão, Que me ajuda a sonhar Em ser famosa E ter uma mansão. Tenho acesso a electricidade “infinita” Que, quando falha, E um Deus nos valha. Posso passar férias num hotel Todo fino Em vez de num motel. E até em rock posso cantar o hino! Sei o que é música electrónica E incompreensível, Só tem mesmo o ritmo, Faz-nos abanar até cairmos de cansaço
  75. 75. Esqueci-me de mencionar Que também consigo telefonar: Basta marcar o número que quero E pode, ou não, ser de quem venero! O que eu não tenho é Legumes sem químicos. [Ana M., 9.º 6.ª] Eu tenho cérebro, penso, tenho cabeça, tronco e membros, ando, corro, salto e penso ser um rapaz normal. Fisicamente normal, anormal em pensamento. Como todos os outros, tenho os meus problemas, ansiedades, medos… alguns sem razão, outros evidentes. O que mais me assusta é o facto de ter pensamento e pensar. Tenho medo de pensar, pensar faz-me medo. A evolução assusta-me, o medo assusta-me. Tenho medo de ter medo. Até o facto de ter vida me assusta, sei que vou morrer, para quê viver? temos todos de viver para morrer? Todos lutamos mas… será que faz sentido lutar? A minha felicidade passa pela felicidade dos outros. Mas, sinceramente, confesso que a felicidade e a actividade das pessoas me chegam a irritar.
  76. 76. Os seus pensamentos perturbam-me; a sua maneira de levar a vida, a sua felicidade… O meu verbo ter é muito extenso. Nós todos temos muita coisa, mas não gozamos aquilo que de mais precioso temos. O que eu não tenho é, com muita pena minha, única e simplesmente, vontade de viver. [Pedro M., 9.º 6.ª] Poema das peliças de lontra Tenho um portátil com oito gigas de processador. Uma consola de jogos, um telemóvel inovador. Um plasma de cinquenta polegadas do mais moderno, sim senhor. ipod e vídeo Sony, Tudo do bom e do melhor. Ao almoço, como caviar, por vezes, uma pizza ou hambúrguer para desanuviar. Ao jantar, para não engordar, lagosta recheada e doce à colher, mousse de chocolate e o que mais houver. A minha garagem é pobrezinha, tem vinte carritos, pois coitadinha. Esta situação tem de mudar, e brevemente vou comprar mais umas motas e jipes para a modernizar.
  77. 77. Tenho uma viagem reservada para a Lua, no vaivém espacial. Vou lá no Natal, para representar Portugal. O meu guarda-roupa só tem Valentinos, Gucci, Boss e Dior. Pijamas de seda pura, sapatos de crocodilo, e camisas de estilo. Do mais fino que há, da mais linda montra. O que não tenho é peliças de lontra. [Paulo, 9.º 6.ª] Poema do que eu tenho Tenho uns ténis da Roxy, um colar amarelo e um cinto vermelho, tenho tridents Oxy e um anel já velho. O que de velho não tem nada é a minha mala Prada. No meu dossiê do Noddy há flores e uma fada. Passeio no meu Audi A3 e, brincando no portátil, encontro sites — eram vinte e três — que serviam para diversão. Mas a minha mãe preferia que fosse à missa. Missa? Para isso não tinha feito a comunhão. Vou a Punta Cana para a semana. De avião ou de barco? Não sei, mas vou convidar a Joana. Levo os meus cremes e o meu arco,
  78. 78. o resto compro lá. Quando lá cheguei, caí num charco; escondi-me rapidamente, envergonhada, entrei numa loja qualquer para não ser apanhada. Logo de seguida saí para o hotel, de cinco estrelas e bem frequentado; ao fazer o check-in, assinei um papel, entrei no quarto, tinha vista para o céu e estava estrelado. Tenho muito dinheiro E isso não me falta; O que eu não tenho é amor verdadeiro. [Sara, 9.º 6.ª]
  79. 79. Ballet Escreve poema com o mesmo número de versos e estrofes de «Ballet» mas sobre outra arte, espectáculo, desporto. Não é obrigatória a rima. Ballet Como jogos de água, ascendes vitoriosa e ufana. Soberana, à superfície do tablado estendes as linhas com que nos prendes, filigrana. Língua de fumo da taça do turíbulo, endoideceste em beleza. Vermelha e quente como o sangue do patíbulo é tua natureza. [desenho de Tiago, 9.º 5.ª] Volátil, rodopias em torno do teu eixo centrifugando círculos de espuma. Estacas. E em sonolento desleixo, esboçando incompletos gestos lentos, fragmentos de movimentos, semeias flores, na bruma.
  80. 80. Ascendes e rodopias. Rodopias e ascendes. Fazes-te noites e dias nas sombras que denuncias, nos relâmpagos que acendes. Célere, corres, mimosa e assustada. Gaivota medrosa na areia dourada. O sol entontece e morde. Num repente, libertada, deslizas, pura escultura, na macia curvatura de um acorde. Nos pontos da trajectória que descreves, transparece o clamor da longa história. Tua beleza é vitória, dura vitória da espécie. O escopro de milhões de anos arrancou-te à pedra bruta, modelou-te em pormenor. O sangue de milhões de homens, em ti, a ferver, se escuta. A harmonia dos teus gestos foi revolta, treva e luta. O perfume do teu corpo foi temperado em suor. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D’Água, [2004], p. 112 Benfica Saltamos como jovens, a delirar com a equipa, que, destemida, ergue-se, novamente, contra leões e dragões, no relvado. Sobem ao relvado destemidos, como soldados,
  81. 81. prontos para a guerra, para saírem vitoriosos. Imparáveis, trocam a bola entre eles, trocando as voltas ao adversário; caídos no chão, rematam, e o público delira, com leões e dragões a serem derrotados. [Ricardo, 9.º 1.ª] Basquetebol Cinco contra cinco, na disputa pela bola, Cinco de um lado, todos em busca da vitória. Cansados e suados, lutamos arduamente. Aquele poste bem alto, com um cesto para lá encestar. Exigente. Corres a driblar a bola, passas aos teus colegas e lanças ao cesto. Corres sem a bola, atrás do adversário para lhe tirar a bola. Saltas e cais. Cais e saltas e continuas. Encestas daqui, dali, ou noutro sítio qualquer. Num instante, estamos a atacar
  82. 82. e noutro, a defender. E muito rápidas são, as trocas de bola. Tanto podem ser de peito, de ombro, ou até picado. Sem darmos pelas horas, já o jogo terminou. Olhamos para o resultado, e com o pé, esperamos a vitória. [Diogo, 9.º 2.ª] Surf É estranho explicar A sensação inesquecível Que nos faz voar Entre as ondas, com espuma, Fazendo uma manobra viável A fazer lembrar um puma A tua barreiras é a areia, O mar teu destino é. Com a sua fiel prancha, Para desfrutar de uma onda, O surfista tenta ir ao infinito E ao céu azul impossível de alcançar. Um vício saudável, Impossível de terminar, Surf não é apenas surf, surf é sempre um pouco mais... Surf é um estado de espírito... Surf é estar em paz... Porque os surfistas estão sempre lá A fazer o seu melhor. Surf é uma arte,
  83. 83. Um estilo de viver, Uma viagem até Marte, Porque um dia surf, Surf até morrer. [Laura, 9.º 3.ª] Motocross Como tantos espectáculos, mas com algo diferente. Não se sabe bem ao certo como, mas a verdade é que prende as pessoas. E sabe-se dos seus riscos. Talvez seja o pó, o barulho ou os saltos que impressionam as pessoas. Sendo um desporto tão arriscado, porque é que gostam dele? Motos com tudo o que é preciso, equipadas da cabeça aos pés. Há quem diga que as pode melhorar, mas, na verdade, não se pode fazer mais nada. Todos têm tendência a acelerar e elas estão equipadas para resistir a tudo. Aceleras e derrapas, derrapas e aceleras. Sempre com dois pensamentos em mente: vitória e, principalmente, divertimento. Talvez as pessoas queiram ver o esforço do homem e da máquina, talvez seja isso que as fascina. Num estádio, apenas os gritos de euforia, até que, de repente, uma balbúrdia de sons, de poeira e de aplausos, invade o recinto. As vitórias são como a chegada ao paraíso,
  84. 84. pois o esforço é de ambos, do homem e da máquina. Corre-se pelo dinheiro ou pelo amor ao desporto? Um salto seguido de uma queda pode mudar-te para uma cadeira de rodas, mas muitos voltam ainda a competir, porque têm verdadeiro amor àquele desporto. [Diogo, 9.º 3.ª] Futebol Jogo de loucos, sem carinho para dar, há que jogar porque o objectivo é ganhar. Golos de remate, cabeça ou peito, tudo conta nesta árdua missão, jogada num campo pouco claro e sem a mão! Espectacular!, é o adjectivo que podemos dar a este desporto-rei com muita solidariedade, pouca falta de vontade, muita paixão e extrema emoção! Defendes, atacas, fazes tudo o que for necessário porque o objectivo é ganhar. Tem de se jogar bem, quer de noite, quer de dia, com um sol intenso
  85. 85. ou até com neve. Para isso há que treinar todos os dias, com dedicação, porque o objectivo é ganhar. Nos postes de baliza, ou até na barra, se a bola lá acertar, por mais linda que seja, na baliza não irá entrar! Tudo isto para quê? Para um pouco falar sobre este desporto elementar cheio de pressão e pouca complicação! [Miguel M., 9.º 3.ª] Ginástica rítmica Como nos sábados em que treinamos, porque gostamos, à conquista de expressão e de perfeição, e muito nos esforçamos. Arcos com cores e bolas redondas, atiradas ao ar, no meio da luz projectam sombras de pasmar. Magnífico, Saltamos muito alegremente, Fazendo cada vez melhor, ao mesmo tempo, agilmente mas com mais imaginação, outras vezes com mais sensação. Rodopiamos e saltamos, Saltamos e rodopiamos,
  86. 86. Fazendo três dias por semana, compensando com uma banana, ao mesmo tempo que cantamos. Sou magra, elegante e simpática. A ginástica é a minha amante, usando a matemática para calcular os espaços. A sorte é que tenho uma professora fantástica que nos ajuda regularmente e vai continuar eternamente evitando que tenhamos embaraços. Uso uma bola, vestimos fatos cinzentos pareço uma mola cada uma arrumando os aposentos, tiro a cartola. As fitas coloridas nos espectáculos de ginástica, a maquilhagem e as purpurinas, somos todas muito crescidas, De tudo isto sou fanática. [Joana B., 9.º 5.ª] Natação É um desporto lindo, que nos descontrai imenso. Corpo direito, olhos fixos na piscina pensar nos movimentos, mergulhar.
  87. 87. Em crawl, nada-se mais rápido, as pernas movimentam-se, para cima e para baixo, alternadamente. Os braços movimentam-se rapidamente, puxando a água para trás. Em costas, ficamos deitados na água, a flutuar em seguida inicia-se o movimento alternado das pernas e braços. Em bruços, A pernada faz-se com as pernas flectidas, empurrando a água e os braços fazem movimentos circulares para trás. Qualquer que seja a forma de nadar, os movimentos tornam-se leves. [Nuno, 9.º 5.ª] Natação Desporto isento de preconceito, minucioso no seu gesto; água receosa das gotículas, tem muito para dar; cloro ardente. Teu se tornou aquele que perdurou, por ti lutou, com sentido sentimento de força. Subtileza, suavidade flutuante que transporta o teu corpo por ondas nunca admiradas.
  88. 88. Degraus. Vagorosos paços levam, levam para o tal mundo servido de magia, magia resguardada numa pequena bolha. Rebenta, bolha, à superficie. Reforças e esforças. Esforças e reforças. Compões deslizes e martírios nos reconfortos que inspiras, nas dificuldades que expiras. Majestoso, nadas, seguro e confortado. Folha fugaz na folhagem outonal, no vento liberto. A chuva derruba-te e desloca-te. Sentes movimento, baila o odor, fulminas no tempo, música para teus ouvidos que continua nublada. Os braços das pernas, unidos, movem o sonho do puro começo. A suavidade prolonga-se, nuvens negras somem-se. Gélida se fez a água escorregada de muitos corpos, a água perfurada em cada poro, em cada poro suado, o humilde aspecto de cada braçada recordada por cada um de nós. [Joana D., 9.º 5.ª] Patinagem A sensação do batimento das rodas no alcatrão, o vento a passar ligeiramente pelas pernas, A quantidade de suor que escorre desde a nuca atá ao pescoço,
  89. 89. os constantes ziguezagues por entre as tampas dos esgotos. É preciso esforço, mas também prazer. Levantar do passeio e as asas abrir, um pé empinado e o outro a seguir, uma mão na cabeça e outra no coração. Faz tudo parte da acção. Empenhados: travar em cada esquina, saltar com presunção à beira dos cafés, orgulhosos de cada progresso, exprimem o seu sucesso, como garrafas e lenços na mão e, já descansados, com o traseiro no chão. Voltas estonteantes e com uma das pernas a rodopiar, preparam-se os patinadores para breves espectáculos, treinando dias sem parar. Paz, dedicação e alegria, são os sentimentos instalados em suas almas, patins brilhantes e polidos. Nestas alturas, a concentração vale ouro, e, quando as cortinas do nervosismo se fecham e a paz domina os seus sentidos, a pomba branca é liberta, com toda a sua graça e pureza, levando a avante todo o seu trabalho. Os bancos estavam cheios de povo, a pista cheia de patinadores, que, ao pisarem o gelo, sentiam a seus pés toda a glória. E toda esta história, os levou à vitória. Houve milhares de feridos, grandes quantidades de sangue, suor e lágrimas, Mas tal sofrimento pagou, com juros, tamanha satisfação,
  90. 90. empenho, contentamento e a taça de patinadores vencedores. [Micaela, 9.º 6.ª] Futebol O futebol é desporto-rei que mexe com muitas nações, os jogadores são heróis, que ganham muitos milhões e fazem paloitar os corações. Seja no Euro ou no Mundial, Portigal vibra com emoção e, mesmo que não chegue à final, há sempre uma loucura total. Com Zidane fora, a França fica a perder, Portigal pode aproveitar para finalmente vencer. Mesmo sem o Pauleta, Portugal não irá parar, mas sim continuar... Figo e Cristiano Ronaldo são dois grandes jogadores, mesmo fora de Portugal vão despertando amores e a vida não lhes corre nada mal. Mas, por trás desta euforia, continua a haver porcaria, Pinto da Costa e «apito dourado» mais a «amiga» Carolina Salgado, dão sal ao futebol, a corrupção não é nada mole, os árbitros também ajudam à festa, sendo pagos para favorecer, parece que ninguém presta e todos se estão a vender.
  91. 91. Há momentos que ficam para a História e que guardamos com carinho, num cantinho da nossa memória. Quando Portugal estava quase a perder ganhámos, com Ricardo a defender. O futebol abre-nos portas para o mundo e faz de nós povo herói, com este desporto saímos a ganhar e nunca vamos ao fundo, haja força para continuar. [João M., 9.º 6.ª] Futebol Uma paixão, um desporto, uma bola Na superfície do pé de cada jogador Uma magia, um talento, Uma ambição. Estádios enormes, bancadas a abarrotar E os adeptos a torcerem Até perderem as suas vozes Pela equipa que amam. Um desporto com mais de cem anos Cheio de beldade, Muito suor em cada, Muita energia. Os adeptos eufóricos aplaudem o seu clube Até à rouquidão, Esperando pelo golo Que dará a vitoria à equipa: É o amor à camisola. Cores e cores misturam-se a torcer Por uma nação, um clube de rua, uma equipa Mas o meu amor pelo futebol não se vai acabar, Porque é dos poucos desportos que eu amo mesmo. [Afonso, 9.º 6.ª]
  92. 92. Joaneida Aos 16 anos, Rómulo de Carvalho escreveu estas estâncias, que constituem a Proposição de um poema épico a D. João I (ou à Ínclita Geração). O modelo de Os Lusíadas foi seguido de perto. Escreve a Proposição de uma epopeia que pudesses fazer. Joaneida I Aquele rei ilustre lusitano Que a Fernando o Formoso sucedeu, Que no bárbaro campo Tingitano Os miserandos árabes venceu, E que em Aljubarrota, o Castelhano, Com pouquíssima gente combateu, Em estilo humilde e fraco vou cantar, Se a filha da Memória me ajudar. II E aquele Nuno, heróico Condestável, Que só a Deus mostrava ter temor, Que p’la sua coragem indomável, Em Valverde e Trancoso fez furor, Levado por uma fé inquebrantável, Querendo servir ao Santo Criador, Tornou-se em monge o ínclito guerreiro, Terminando os seus dias num mosteiro. III Canto também aqueles quatro infantes, Dum nobre rei, ilustre geração: O sábio Henrique, pai dos navegantes, Que faz calar a fama do Strabão E que mandou por esses mares distantes, Levados pela trombeta de Tritão, Heróis, aventureiros destemidos, Procurando lugares desconhecidos. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D’Água, [2004], p. 649.
  93. 93. Leoníada Aquelas garras enormes, Aquele tamanho perfeito, Aqueles dentes fusiformes E aquele rosnar desfeito Em gotas de saliva. Dorme Como uma criança. Desfeito Em cansaço e dor, Mas sempre com amor. Não teme nada nem ninguém, Não olha a meios para atingir os fins, Caça sem desdém. Come desde o cérebro aos rins, As presas que mata sem Qualquer ajuda. Sim! É dos melhores animais no Mundo. É grande, forte e não é imundo. [João G., 9.º 1.ª] Asheríada Aquele bravíssimo cão, senhor Que tanto gosta de me azucrinar, Tem porte altivo e sedutor, Mas muito gosta de brincar. Todos ficam ao seu dispor Para não o ouvirem ladrar; Com os seus puns desagradáveis, Lança cheiros execráveis. As beiças compridas e enrugadas Põem todos num alvoroço, Pois de baba estão recheadas Que o tornam tão asqueroso. E não há zonas asseadas Com bicho tão pavoroso. Mas tudo isto não interessa, Já dizia o meu amigo Eça. [Pedro, 9.º 1.ª]
  94. 94. Brasileida Brasil, grande terra, Terra de calor e descanso, Brasil, Terra sem guerra Terra de povo calmo e manso, Brasil, com serras e selvas Terra sem alcance, De que, logo ao primeiro olhar, Toda a gente começa a gostar. [Tatá, 9.º 2.ª] Federereida Este tenista suíço famoso Que a Pete Sampras sucedeu, E por esse mundo fora saiu vitorioso e com a sua técnica todos venceu, E que no Grande Slam, orgulhoso, Muitíssimos e inigualáveis prémios recebeu, Em estilo forte e esforçado vou cantar, Para a esse atleta me igualar. [Carolina, 9.º 3.ª] Apiteida (dourada) Grandioso Pinto da Costa, Que a Jorge Coroado e Jacinto Paixão pagou, Jogos já ganhos por uma aposta, Jogos que o Porto ganhou, Graças ao insuspeito Pinto da Costa, E que, por mero acaso, Jacinto Paixão apitou, O apito dourado prevalecerá E o Porto, está claro, vencerá.
  95. 95. E o senhor Valentim Loureiro Toda a gente acha que ele não tem nada a ver, Que dá usos suspeitos ao dinheiro, inteligente, sem ninguém perceber, Vamos, acusa-te, caloteiro! E não vale a pena estares a esconder Algum dinheiro roubado, O dinheiro que move o apito dourado. Cantarei o nome deles todos vigaristas e apostadores, irão todos para os calabouços, e, chantagistas, a polícia os apanhará sem pudores, e outros que também meteram para os bolsos, furtaram sem quaisquer tremores. [André, 9.º 3.ª] Benfiqueida Um grande bem haja ao grande glorioso, pois «Benfica» é sinónimo de glória, em todo o mundo poderoso, seus jogadores sempre alcançam a vitória. Nos jogos contam com um público fervoroso e já têm o seu nome marcado na história. Em cada benfiquista há uma criança, pondo na equipa toda a sua esperança. [André, 9.º 3.ª] Vikingueida I A arriscada navegação nos mares do Norte, As invasões à Grã-Bretanha, Gália, Normandia, Os vitoriosos homens do Norte, Que a Islândia povoaram E a Vineland descobriram, Muito antes de Cristóvão Colombo.
  96. 96. II Valente Thor guerreiro, Digno de ovação, Em Valhala não é arruaceiro Como se diz nessa vil armação Para desacreditar deuses dignos, Adorados por homens condignos. III E vós, Odim, inspirai-me, Nobre deus criador, A revezar-me Para elevar mais que a um condor A obra do teu povo, Descobridor no mundo novo. [Joana M. L., 9.º 6.ª] Vizinheida Tão importantes homens. Tão inchadas meninas. Que, no entanto, de pouca inteligência são munidas. Nascidas para zaragatear e, desde então, sem parar de chatear. apenas um grupo se fica contra tal fita, acabando de vez com toda essa insensatez. Por muitos testes passaram, mas, contra elas, todos eles venceram. Será então a história de alguns amigos, Que não se deixaram ser vencidos. E que, cientes dos seus direitos, sempre se mantiveram firmes e direitos. Contra a difamação dos vizinhos, nós não ficamos caladinhos! [Tiago, 9.º 6.ª]
  97. 97. Pottereida Cantarei a criança que se tornou famosa devido à cicatriz que possui. Que não morreu por causa da mãe cuidadosa, cuidado de que já não usufrui. A sua vida é muito perigosa e já passou por sítios onde eu nunca fui. Com a família não pode contar, mas tem os amigos para o ajudar. [Cátia, 9.º 6.ª]
  98. 98. Anti-Anne Frank Ainda de lembrarás de, no sétimo ano, termos lido textos do Diário de Anne Frank. O poema «Anti-Anne Frank» contrasta um drama que tem as «vantagens» de ter sido protagonizado por quem o conseguia relatar, analisar (e acabou por se tornar, postumamente, famosa) e a infelicidade de quem nem pode dar testemunho do seu drama. Os versos 3-7, sempre iniciados por «nunca», dão conta de episódios ocorridos com Anne Frank. Se ainda te lembrares de outros, tendo em conta os textos e o filme que então vimos, acrescenta ao poema mais versos iniciados por «nunca», idealmente com algumas rimas. Anti-Anne Frank Esta criança esquálida, de riso obsceno e olhares alucinados, nunca apertou nas mãos a fria face pálida, nunca sentiu, na escada, as botas dos soldados, nunca enxugou as lágrimas que aniquilam e esgotam, nunca empalideceu com o metralhar de um tanque, nem rastejou num sótão, nem se chama Anne Frank. Nunca escreveu diário nem nunca foi à escola, nem despertou o amor dos editores piedosos. Nunca estendeu as mãos em transes dolorosos a não ser nos primores da técnica da esmola. Batem-lhe, pisam-na, insultam-na, sem que ninguém se importe. E ela, raivosa e pálida, morde, estrebucha, cospe, odeia até à morte. Pobre criança esquálida! Até no sofrimento é preciso ter sorte. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D'Água, [2004], p. 172
  99. 99. Anti-Anne Frank Nunca se apaixonou de verdade, Nunca brincou no parque, Nunca conheceu outras culturas, Nunca ouviu de fora a sinceridade, Nunca sentiu o sabor da liberdade. [Elizângela, 9.º 1.ª] Anti-Anne Frank Nunca viveu a vida como merecia, Nunca a haviam ido buscar a casa pelos cabelos, Nunca e nunca havia sido levada naquele carro de maneira tão fria, Nunca havia qerido tanto sair dali. Nunca sentiu tanta raiva...tanto ódio. Nunca desejou tanto escrever naquele belo diário. [Carolina M., 9.º 2.ª]
  100. 100. Lição sobre a água Seguindo a matriz sintáctica do poema «Lição sobre a água», escreve uma «Lição sobre o vinho [ou outra bebida]». Começarás assim «Este líquido é vinho / Quando ...». Tenta respeitar a tal «matriz sintáctica» e conseguir rima segundo o mesmo esquema rimático (ou muito aproximado). Lição sobre a água Este líquido é água. Quando pura é inodora, insípida e incolor. Reduzida a vapor, sob tensão e a alta temperatura, move os êmbolos das máquinas que, por isso, se denominam máquinas de vapor. É um bom dissolvente. Embora com excepções mas, de um modo geral, dissolve tudo bem, ácidos, base e sais. Congela a zero graus centesimais e ferve a 100, quando à pressão normal. Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão, sob um luar gomoso e branco de camélia, apareceu a boiar o cadáver de Ofélia com um nenúfar na mão. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D'Água, [2004], p. 202 Lição sobre a Coca-cola Este líquido é a Coca-cola Saborosa, boa, fresca, colorida. Uma bebida com grande pinta, Gaseificada e muito gostosa. Tem cor preta a Coca-cola, Bebemo-la fresca Antes de dormir a sesta E de ver a bola.
  101. 101. Antes da última badalada Estou a comer uma pizza Com uma massa muito lisa, Acompanhada de uma Coca-cola gelada. [Fahim, 9.º 2.ª] Lição sobre o vinho Este líquido é vinho. Quando o provei, Branco, tinto ou rosé, Eu até bati com o pé. Confesso que me assustei: Odor forte, gosto horrível, Um vómito de jacaré. Se é bom, eu cá não sei. Dei um grito, A garrafa entornei, A toalha ficou suja E o meu pai muito aflito. Foi a este líquido de cor vermelha Que, sob o luar de Agosto, Eu nem tomei o gosto, Mas fez-me ficar mais velha. Este líquido é vinho. Quando puro, Tem odor forte e muita cor. Em pipas de carvalho para ser melhor, Que cantam histórias num sussurro, Histórias de outros tempos: De frade, abade, rei ou pastor. É bom para o coração, se não for em demasia: Um copo solta a emoção, Dois copos saltam a alma, Três copos a euforia.
  102. 102. Anos e anos de sabedoria Neste cálice de rubi; Tantos amantes que eu não conheci Deste líquido da nossa alegria. [Carlota, 9.º 5.ª] Lição sobre o sangue Este líquido é sangue. Quando fresco, é brilhante, estranho, perturbador. Reduzido ao seu horror, sob gritos, apático, move as entranhas das máquinas que somos, máquinas de repugnante interior. É uma prova. Guarda, sem excepção, Tudo o que somos Que fizemos E que um dia nos roubarão. Foi neste líquido que, no senado, Sob as sombras de traidores, César viu os perdedores Com espanto inesperado. [Joana M. L., 9.º 6.ª] Lição sobre a cerveja Este líquido é cerveja. Quando bebida, É amarga, doce e sentida, como uma mágoa vivida. Cerveja assim engolida Sem ardor nem vergonha De nem querer estar com a vida. É uma boa companheira E, quando é tirada em vão,
  103. 103. Desperta sonhos e ilusões Como saltitantes feijões Da máquina para o balcão. Tardes quentes despertem o desejo Deste líquido tão procurado Mas, ao mesmo tempo, amarado Às garras do vício, de tal modo é o ensejo. [Micaela, 9.º 6.ª]
  104. 104. Poema da noiva de Chagall A propósito do «Poema da Noiva de Chagall», escolhe uma outra pintura e escreve poema que lhe faça alusão. Poema da Noiva de Chagall Tenho os olhos repletos de ventura. E isto simplesmente por ver na minha frente um tanque de água, bancos de pedra à volta e uns modestos arbustos sem grandeza. Como a ventura é fácil quando tudo se mede em desventura! Tudo se junta neste quadro ameno para dar felicidade momentânea; e o que falta, que é tudo, isso, imagino. A luz do Sol escondido a jorros brota, caustica a pele e afogueia o rosto; nos arbustos despidos as flores rescendem; e no tanque parado, de águas sujas, o transparente líquido se eleva e em parábolas cai na morta superfície. Desce um pombo do alto em voo lento e na borda do tanque poisa, e olha. Finjo que sou de pedra; e o pombo olha-me. Finge-se ele de pedra enquanto o olho, e assim nos demoramos, um e outro, até nos convencermos que só de mútuo amor se vive em paz. Um roçar de asas vem do alto e desce. É ela, a pomba, o número que faltava no programa das festas dos meus olhos. Ao lado dele poisa, e tão chegada que as penas dele em mim se sobressaltam.
  105. 105. Foi então que um rumor tão insensível como um abril de pétalas roçou por entre as folhas dos arbustos. A noiva de Chagall, micro-onda violeta, espuma de detergente, flutuando ao sabor de uma suposta brisa, alegre e rápida, voluptuosa e breve, em círculos de renda me envolveu. De vassoura de esparto, o homem do jardim juntava as folhas secas, e ao juntá-las, diluía rumores no silêncio da tarde enquanto ia pensando noutra coisa. António Gedeão, Obra Completa, Lisboa, Relógio D'Água, [2004], p. 242 Que bela pintura! De tão maravilhosa ser, Todos ficam para ver, Para poderem crer Que é verdadeira gravura! Que bela pintura! De tão suaves cores É formada, para que todos Se possam enfeitiçar, Ao observar tão formosa gravura! [Tatá, 9.º 2.ª] Poema do Quarto de Van Gogh Um lugar que sirva de abrigo, Um lugar para onde alguém possa fugir. Alegria, Tristeza, Desilusão,
  106. 106. No meio daquelas paredes azuis, Perdidas na claridade e nos cantos do quarto. Duas cadeiras para sentar e pensar. Uma cama acolhedora na almofada se refugiarem as lágrimas. Quadros para expor os sentimentos. Uma mesa para escrever e voltar a ficar na mesma. Uma janela para olhar o mundo lá fora. Uma porta azul para recomeçar tudo de novo. Um quarto. Um abrigo. Um refúgio. [Carolina, 9.º 6.ª] Poema da Mona Lisa de Da Vinci Obra de pequenas dimensões, mas conhecida por todo o mundo, pintada por Da Vinci, isenta de ilusões. Cores de tristeza intrigante, mulher com olhar profundo; vestes de estranha origem, que mostram um toque sufocante. Natureza espontânea ou não, em que a realidade parece mentira; obra por muitos conhecida como a palma da mão. Ao fundo, uma vista natural que se mistura com a mulher, dona de um sorriso um tanto irreal. [Guilherme, 9.º 6.ª]

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