O marido da minha colega

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O marido da minha colega

  1. 1. O marido da minha colegaA Teresa. Aquela quarentona trabalhadora.Pelo tanto que se esforça e se desgasta,nem aparenta idade. Parece ter uns 30,mas bem sarados. Pelo tanto que éempenhada, talvez lhe falte tempo até paraenvelhecer. Cuidava de sua família como sefosse uma mãe canguru. O filho era tãoinútil quanto um sopro num ventiladorligado. Mas era estudioso e não lheaporrinhava a paciência. O pai eratrabalhador. Vivia em cima de umafelicidade baseada em ver sua família bemalimentada, sorridente e pançuda, mascom saúde. Pelos conformes e trejeitos, afamília dava indícios de perfeccionismo. Sóindícios. Teresa reclamava aos quatrocantos de seu bairro sobre como seu
  2. 2. relacionamento era morno. 19 anoscasados que, subtraídos dos anos em queaproveitou alguma coisa ou se sentiu feliz,não restavam nem um ano.A coisa vinha de vento, mas não em popa.Para a Darli, que era sua melhor amiga, elaconfidenciava os seus desejos mortos eseus dramas insolúveis. Cada dia era umpisa-fora diferente de seu marido.- Ontem ele chegou tarde do serviço todoabarrotado de sacolas. Era tanta coisa quese bobear tinha até comida dentro da meia.Ele entulhou tudo em cima da mesa,bagunçou a cozinha e começou a desfiar ofrango da janta todo suado e sem camisa.Cheguei amorosa e disposta a matar asaudade, pois não nos víamos desde demanhã. Me aproximei, na esperança delevar um abraço e queria partilhar daquelelíquido no meu corpo. Mas nenhum sinaldo filho de rapariga ligar para mim. Ele
  3. 3. tinha uma faca em mãos, qualquer abusomeu ele poderia fazer um estrago, mesmoacidental, ou mesmo eu conhecendo bemtoda a calma que ele abusava em ter.“Você não me ama”, dizia. Ele respondiacom um rangido. “E nem me responde”,quase gritei. “Pronto. Falei”, disse baixinho.“Só isso?”, saí pisando duro. “O marido daminha colega diz que a ama todos os dias,mesmo chegando cansado e mesmo semvontade, mas diz para a ver feliz”, disse aosberros. “O marido da sua colega traz essetanto de comida todos os dias?”,respondeu sufocando minha vontade dediscutir.- Você não cansa dessa rotina?- Eu não me canso. Eu aturo.Darli era só uma das vítimas de Teresa. Elatambém despejava a avalanche deinfindáveis reclamações com Lucimara,vizinha de frente para sua casa. Lucimara
  4. 4. era mais rígida, daquelas que capinam ahorta em baixo de sol e cospem na enxadapara lubrificá-la.- Mas está difícil demais, viu, Lucimara.Dessa vez eu cheguei em casa e meumarido já estava lá borrifando as plantas dahorta com inseticida, colhendo umasmudas de couve e umas laranjas e vez ououtra removendo o excesso de mato que jáestava invadindo nossa casa. Ele terminouo que estava fazendo e veio tomar banho.Foi pegar a toalha no varal. Enquanto isso oparei e dedilhei seu peito. “Vamos tomarum banho juntos?”, perguntei. Nãorespondeu, saiu andando e entrou para obanho. “Ei, seu grosso, não vai nem meresponder?”, falei entre as gretas da porta.“Já comecei a tomar, depois você entra”.Impaciente, gritei espancando a porta: “Omarido da minha colega com certeza tomabanho com ela pelo menos uma vez porsemana”. “Que bom. Pelo menos o marido
  5. 5. da sua colega é higiênico”. Eu não meaguento.- Pelo menos em sua casa ele cuida bem dahorta.- Da horta, sim. De mim, não.Pra finalizar o circuito de reclamações,Teresa encurralava sua terceira vítima, aJecilda, que completava a tríade de fofocasem seus dias. Jecilda não gostava nada doque lhe era contado. Ela sentia vontade dearrastar o cabra do marido de Teresa osegurando pelas orelhas e dar-lhe umasboas tamancadas na bunda. Mas não fazianada disso. Apenas berrava com Teresapedindo para ela dar um jeito naquelehomem.- Ah, Jecilda, meu marido é que nem boi defazenda: ele faz os serviços bonitinhos, masvai tentar fazer carinho nele. É pedir pratomar um coice na hora. E eu tomei umbem dado no dia em que ele chegou para
  6. 6. almoçar, jogou as contas em cima da mesa,todas pagas, é claro, mas eu reclamei“Sempre deixando para pagar no ultimo diade vencimento, né?”, joguei a direta.“Tanto faz a data”, respondeu. “Você deixapara pagar sempre em cima da hora,exatamente para não sobrar dinheiro parame levar para sair. Eu sei disso”, cobrei.“Nada a ver. Que papo ruim, viu”, retrucoubravo. “Eu tenho certeza que o marido daminha colega sempre deixa sobrar umdinheirinho das contas para levá-la parapassear”, joguei na face dele. “A sua colegaé o quê? Um bichinho de estimação?”,disse enquanto saía pelo portão.- Ruim seria se ele não te levasse parapassear e nem pagasse as contas, não?- Eu queria que pagasse as contas. Mas deum restaurante chique.A colega, que tanto o marido ouvia sobre omarido dela, a convidou para um churrasco
  7. 7. em sua casa. Dessa vez seria inevitável queo marido a acompanhasse e saísse com ela,afinal de contas o filho viajava em turnêpara uma terra longe daquelas discussões edeixá-la ir sozinha seria como jogar umacabra numa alcateia de tios bêbados comcantadas horrorosas. Sem contar que o diaprometia um Armageddon, o dia de tirarsatisfações e saber se aquele cara seriarealmente esse Dom Juan tupiniquim. Aomenos se a carne não estiver boa, o prazermáximo de conhecer um romancista vivo jávaleria a saída.Na casa da amiga, tudo muitoarrumadinho. As plantas regadas. O varalvazio. O jardim sem folhas secasespalhadas e com a grama aparada. Osvidros das janelas mais pareciam espelhosde tão bem limpos. Tudo condizente com olirismo de Teresa.
  8. 8. - Será toda essa organização obra domarido da sua colega? Se for, eu já faço omesmo. – indagou ironicamente.- Pena que é só isso. – respondeu Teresa.- Oi, amiga. Entra. Meu marido ainda estáassando as carnes. Enquanto não ficapronto, a gente precisa colocar os paposem dia. O Sampaio está lá de olho nascarnes, se quiser, pode ir trocar idéia comele. – disse gentilmente mostrando-o ocorredor.No que parecia ser uma churrasqueiramuito bem montada com tijolos e grelhasremovíveis, estava o Sampaio. Comavental, pano de prato no ombro etoquinha de cozinheiro na cabeça. Todoornado com sua perfeição que é de praxe ecom sua utopia que não lhe falta.- Opa, você deve ser o Sampaio, é isso?- Sim, Sampaio Corrêa.
  9. 9. - Tipo o time de futebol ou eu não sou oprimeiro engraçadinho a falar isso?- Não, eu sempre falo que meu nome éesse para pegar os engraçadinhos.- Ah, então seu nome não é esse?- Sim, pior que é. Qual teu nome, meucaro?- Paulo Ricardo.- Tipo o cantor ou eu também sou oprimeiro engraçadinho a falar isso?- É o primeiro a falar servindo essa ótimaalcatra. É só Paulo. Aliás, você que organizatudo por aqui? Vi essa casa limpinha, essaorganização nos móveis, a pia sem vasilhas.Como é que funcionam as coisas? Vocêpraticamente é a base da perfeição. Olha,vai soar meio estranho o que vou dizer,mas minha mulher te tem como ídolo,como base de um cara perfeito, o que nãoerra, o faz tudo, o cara retirado dos livros.
  10. 10. Ela compara minhas supostas imperfeiçõescom seus adjetivos. Isso tudo é verdade?Você é mesmo desse jeito?- Às vezes nem tudo que minha mulher dizpara a sua é verdade.- Quer dizer que há um pouco de exagero?- Não. Eu realmente faço tudo.- Então por que diz que nem tudo que suamulher diz é verdade?- Ela pode citar as características, masesquecer dos defeitos.- Quais são os seus defeitos, por exemplo?- A minha mulher vive me comparando aum marido de uma colega dela.- Será que esse marido sou eu?- Não sei. Mas ela diz que sente falta de umpouco de frieza da minha parte. Diz quesou perfeito demais, não a maltrato, não
  11. 11. nego um beijo, não nego um “eu te amo” enem fujo para as colinas quando ela querse abrir comigo, fico sempre parado àouvidos. Ela diz que nosso relacionamentosegue em linha reta, sem o perigo dascurvas, sem ser escrito por linhas tortas edesafiadoras. As amigas têm sempre doque reclamar; ela não.- Então somos respectivamente cada ladode uma moeda.- Um lado enferrujado e um lado polido.- Mas o importante é que temos o mesmovalor. Ou estou enganado?- O mesmo eu não sei, mas acho que nuncaatingiremos o valor perfeito que elas tantoprocuram.As esposas voltaram para verificar se acarne já estava no ponto. Na porta, Teresatropeça no meio-feio e deixa a bolsa cair.
  12. 12. Uma foto de seu marido cai junto de algunstrocados e batons.- Ai, amiga, não sei o motivo de carregaressa bolsa, sendo que não carrego nadavalioso dentro, se é que você me entende.– disse catando os objetos junto de suaamiga.- É, eu também carrego e também nãoentendo. Tiago Peçanha.

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