Vestígios do        tempoNão é bombeiro, não é policial, não épsiquiatra, não é médico, mas é tratadocomo fonte de socorro...
talvez são procurados, mas ele sempre seráo atalho mais breve.O que mais admiro no álcool é que ele nãoé obrigado. Ele não...
sargentos, que recebia uma festa de genteque eu não conhecia.Uma garrafa me acompanhava. Meumelhor amigo estava hospitaliz...
Roberto talvez era meu personagem, se avida me permitisse ao cargo.Em frente a Associação, quatro guardastomavam conta. O ...
escolheu a hora errada para entrar nabrincadeira. Ela tinha que ter acontecidonaquele dia no circo, quando o palhaço melev...
pastel, o Roberto foi buscar coposdescartáveis. Ela acreditou. Cochichou algocom a amiga e veio me dar um abraço.Pediu des...
fizeram com os índios: nos controla eexplora nossa ingenuidade. Nos faz chorarpor coisas ultrapassadas. Nos faz trocarpala...
Dessas de enviar ao nosso cérebro umamensagem como: “ei, tem inteligência poraqui, larga essa preguiça de lado e vávasculh...
simplesmente sumiram também. A moça,que antes trajava um vestido de roxo fumêbrilhoso, de repente se via arrancá-lobruscam...
sentido, eles estavam a trabalho. Só queisso é questão de outra coisa, prefiro nãoentrar em detalhes.Nos fundos do local, ...
- Não vou ouvir bulhufas. Vá caçar suaturma.- E assim, dessa mesma maneira, você meignora pela segunda vez. Quanta canalhi...
desapaixona e essa tua arrogância teincrimina.- Ui. O primeiro bêbado que vejo que fazpsicanálise de pessoas.- Está vendo?...
era espancado pelas tantas palavrassinceras que escrevi. Terminado, nemembrulhei num cartão. Fiz uma simplesdobra e colei ...
caminhão, daqueles que vendem pamonhacom um locutor escroto chamando aspessoas       para     comprar,      passouvagarosa...
de nada disso. Mas eu esperava ao menosum pouco de dó.- Olha, gente, mas que peninha. Abre amão, toma aqui um pouquinho de...
que fugia pra casa dos ‘’enta’’, me encaroupor uns prolongados segundos.- Esse aqui é meu. Tira essa tua mão desaco dele.-...
- “Não para, não para, não para”. – elacantava.- “Só love, só love”. – também respondicantando.- A tia aqui não é vidente,...
pareciam duas almofadas, senti atévontade de dormir em cima. Não sabia sesem os efeitos do álcool em mim eu teriacoragem d...
Ainda com a vista embaralhada, apertandoos olhos e com o álcool tendo reduzido oefeito em uns 3%, percebi que na verdadeeu...
Vi a porta que ia para os fundosentreaberta e resolvi bisbilhotar, osseguranças ainda não tinham voltado daronda que me pe...
- Quando viemos até aqui ela já gritavaisso. Não sabemos o motivo ainda, ela nãoabre o bico. Você é conhecido? Talvez elas...
parecia ela. Mas continuei. Enquanto eubeijava, ela deu um arranco para eu mesoltar e nisso eu quase feri a boca dela.Enra...
Saí pela porta principal e vi os seguranças 2e 3 fazendo a guarda. Passeisorrateiramente, dando passos fingidos desobrieda...
Entre dois rapazes que faziam malabarismocom latas de Nesquik, vi a moça queaplicou o golpe nos seguranças. De fatocomprov...
como se eu estivesse abraçando o efeito domeu baseado.A uma boa distância de nós, os outros trêsrapazes que a acompanhavam...
Decidi me acomodar novamente na ponte.Voltei ao ponto de partida. Já cambaleava eo sono se fazia presente por toda a minha...
um minuto. Ali, naquela situação, eleconfigurou o contrário.Ainda bem.                         Tiago Peçanha.
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Vestígios do tempo

  1. 1. Vestígios do tempoNão é bombeiro, não é policial, não épsiquiatra, não é médico, mas é tratadocomo fonte de socorro. Os momentosdifíceis são todos diluídos em sua eficiênciadesconhecida. Ele tem algo que suga nossodesejo e o arredonda todo para si. Nãoreclamos dos métodos exigidos para tê-lo.Pagamos o que for preciso – até mesmopara saciar um vício por vezesdescontrolado.Consumimos o tanto necessário para quenão sintamos nosso corpo, nem nossamente, nem nosso controle. Ele éobediente no que se propõe. Outros viés
  2. 2. talvez são procurados, mas ele sempre seráo atalho mais breve.O que mais admiro no álcool é que ele nãoé obrigado. Ele não corre desesperadoatrás de ninguém. Ele não se submete a sero problema. Ele é o buscado. Ele é o efeitoda busca. Ele é a eficiência da deficiência.Ele também é hábil quando se propõe a seruma tampa tanto de um romance nãorecíproco quanto de uma felicidade queoutrora ficara ressabida pela timidez. Ah,até nisso ele é ótimo. Ele forma atores. Elecoloca a timidez num canto com umchapéu de burro e deixa livre o espírito do“sou amigo de todo mundo, todos merecemo meu humor, os meus sorrisos e o meuapreço. Até mesmo meus desabafos, porque não?”.Numa dessas, ele me trouxe até esse lugar.Uma ponte em frente a uma associação de
  3. 3. sargentos, que recebia uma festa de genteque eu não conhecia.Uma garrafa me acompanhava. Meumelhor amigo estava hospitalizado. Meusoutros amigos eu não sabia se existiammesmo, ou se eu havia abusado de mais dametade daquela garrafa. A Julia, porexemplo, tão na dela. Escorada no meuombro, despejava aquela risada gostosanos meus ouvidos e depois fazia minhascostas de garupa e ria como se ali houvesseum espetáculo de humor. Mas não haviaespetáculo. E nem havia Julia. Até oRoberto, que tinha um potencial enormepara ser o que tanto encenava em suaspeças. Um personagem escrito, dirigido eatuado por ele mesmo. Um artistaarrancado das páginas dos livros antigos eatirado nas páginas atuais da vida. Mas nãohavia Roberto. E não havia peças. Havia umespelho. Eu me olhava no espelho. O
  4. 4. Roberto talvez era meu personagem, se avida me permitisse ao cargo.Em frente a Associação, quatro guardastomavam conta. O muro era baixo, dotamanho de um anão. Também era dotamanho do tanto que eu me importavacom aquilo. Bebi mais um pouco. Meusolhos começaram a pesar. Parecia queminhas pálpebras tinham engordado. Erasempre assim quando o álcool já se sentiamais em casa.A Janice surgiu ali por perto. Tremoresleves tentaram aparecer, mas quem disseque existe terremoto em terra de mãohumana? Valha-me, álcool.Ela foi uma antiga paixão que estava emcativeiro numa caixa de insucessos quecarrego. Acompanhada de uma amiga,perguntou se eu estava bem e se eu estavasozinho. Olha, logo você me perguntar seestou sozinho, Janice? Essa pergunta
  5. 5. escolheu a hora errada para entrar nabrincadeira. Ela tinha que ter acontecidonaquele dia no circo, quando o palhaço melevou ao palco e perguntou se eu estavaacompanhado. Eu disse que sim, pois tinhaa sua companhia. Você foi até lá. Inocente,o palhaço perguntou se éramosnamorados. Você disse que éramos apenasamigos, sendo que eu carregava o fardo demeses de insistência contigo independentedas inúmeras vezes que pensei desistir emvista de não ter de volta o que eu lançava eesperava por retorno, por mais que meusbraços já estivessem desgastados de nadarde braçada nesse clichê. Você ergueu ummuro entre o meu desejo e o poder te terque jamais consegui demolir.Mas agora já não importa mais. Ter agarrafa como companhia me trazia maisalegrias, mesmo que desvirtuadas. Tantoque sorri para ela e disse que estava muitobem acompanhado. A Julia foi comprar
  6. 6. pastel, o Roberto foi buscar coposdescartáveis. Ela acreditou. Cochichou algocom a amiga e veio me dar um abraço.Pediu desculpas, ainda que desnecessárias.Conquistá-la era combinação de notas nãoconsoantes. Ela pegou forte nos cantos daminha face de modo que os dedos ficassematrás de minhas orelhas em posição deafeto. Deu-me um beijo na bochecha debombinha de São João, daqueles queestalam e fazem barulho. Depois me soltoue foi embora.Resguardei-me num breve sentimento deincapacidade. O álcool já havia se tornadosenhor dos meus sentimentos. Controlavaminhas emoções como cavalos em carroçase libertava do calabouço minhas decepçõesaglomeradas. Eu entrava no estágio dareclamação, mesmo já estando emmergulho profundo nas ilusões.Quando o álcool chega na terra dossentimentos, ele faz como os portugueses
  7. 7. fizeram com os índios: nos controla eexplora nossa ingenuidade. Nos faz chorarpor coisas ultrapassadas. Nos faz trocarpalavras e sílabas sem pedir licença agramática. E nos momentos mais intensos,nos força a tomar atitudes irresponsáveisque outrora sóbrios teriam atestado deprisão por atitude descabida de bom senso.Na porta da associação, eu vi a Laís entrar.Outra que era sósia de Janice. Mas umaversão ainda mais tenebrosa dela, se é queisso fosse imaginável. Meus olhos,arregalados como o de uma coruja,atentavam-se aos seus movimentos derato. Andei até alguns metros dali e estudeicomo pularia aquele local. Eu precisavaencharcar a face dela com algumasverdades.No grau elevado de minha embriaguês, jáme imaginava como um super elaboradorde um plano mirabolante para me infiltrarna festa. Coisas do álcool novamente.
  8. 8. Dessas de enviar ao nosso cérebro umamensagem como: “ei, tem inteligência poraqui, larga essa preguiça de lado e vávasculhar até achar. Encontre também acoragem e venha de mãos dadas com asduas”. E ele acha. De fato ficamos maisespertos, mais soltos. A criatividade ficamais desinibida, moleca.Uma moça berrava há mais de minutoscom os seguranças dizendo que eraconvidada, mas que havia perdido oingresso no meio do caminho. Pedia queeles fossem até o mandante da festa paraconfirmar que ela era amiga doaniversariante. O número 2, comocarinhosamente o apelidei, pestanejou. Ooutro, o número 3, falava ao walk-talk.Olhando desesperado para os lados, avisoualgo na beirada do ouvido do número 2 esaíram em disparada até os fundos do local.Desatento por alguns segundos, não vionde os números 1 e 4 teriam ido. Eles
  9. 9. simplesmente sumiram também. A moça,que antes trajava um vestido de roxo fumêbrilhoso, de repente se via arrancá-lobruscamente e por baixo trajava uma roupamais largada, folgada nas dobras dosbraços e misturadas nas cores vermelha,verde e amarela. Outros três rapazeschegaram, todos fantasiados como a moçae pularam o pequeno muro.A moça foi de encontro aos pequenosgnomos de porcelana encontrados nogramado em frente a associação, osagarrou pelos bracinhos, jogou na cacundae saiu correndo. O mesmo fizeram osoutros três rapazes, todos em sincronia deassalto. Os seguranças 2 e 3 não voltaram,mas os vi entrar no banheiro que ficavanuma casinha do lado de fora da festa, 1 e4 foram para a esquerda, do lado do salão.Não deram conta do sumiço dos gnomos.Mas não tinha lógica não ver os gnomos.Tudo bem que não ver gnomos fazia
  10. 10. sentido, eles estavam a trabalho. Só queisso é questão de outra coisa, prefiro nãoentrar em detalhes.Nos fundos do local, um forte estrondotomou conta. Os seguranças 1 e 4,próximos dali, vagarosamentedirecionaram-se até lá. Aproveitei dodescuido para entrar no local.Entrei pela porta principal e a Laís vinhaandando rápido segurando as pontas deseu vestido. Sua raiva ficava destacada noslábios manchados de batom borrado e comdesenhos de mordidas fortes desferidosquase próximo ao seu queixo.- Calma lá, Speed Racer! – disse, com a voztorta, pegando-a pelo braço.- Ei, me solta, eu estou com pressa.- Você vai me ouvir, pode ficar paradinhaaí.
  11. 11. - Não vou ouvir bulhufas. Vá caçar suaturma.- E assim, dessa mesma maneira, você meignora pela segunda vez. Quanta canalhice.- Quem te ignorou? Eu? Nem me lembro devocê, seu pinguço.- Pinga não, Absolut. – disse dando dedadasna garrafa, cambaleando para direita,embaralhando todas as letras e cuspindouma chuva de baba. – Não se lembra?Quanto descaramento. Eu não souqualquer um para você se esquecer tãorapidamente de mim. Tenha um pouco debom senso, menina. Larga esse enormeorgulhinho que você carrega nessa caixa demaquiagem que você chama de rosto. Quea propósito, é totalmente apaixonante. Euodeio dizer isso, mas eu fantasio meusdedos e minha boca em viagem por eles. Sóque não vem ao caso. O teu orgulho me
  12. 12. desapaixona e essa tua arrogância teincrimina.- Ui. O primeiro bêbado que vejo que fazpsicanálise de pessoas.- Está vendo? Era pra ter perguntado o quevocê fez comigo, mas não, preferiu serarrogante. Você e suas escolhas erradas.Sempre. – suspirei.- O que eu fiz para ti? – disse soltando asmãos das pontas do vestido.- É melhor falarmos sobre o que você nãofez. Eu me lembro muito bem de ter escritouma carta. Eu não tinha você nos meuscontatos. Contatos que me refiro é vocême olhar nos olhos, me cumprimentar, darboa tarde e sorrir, mesmo que sem mostraros dentes. Situação que me levou aosacrilégio de lhe escrever uma carta. Issomesmo, desse meu jeito nada moderno.Passei horas a claro montando essequebra-cabeça de sentimentos. Meu punho
  13. 13. era espancado pelas tantas palavrassinceras que escrevi. Terminado, nemembrulhei num cartão. Fiz uma simplesdobra e colei com o pequeno adesivo queretirei de um de seus cadernos sem quepercebesse. No dia que fui lhe entregar, achuva, que não tinha convite, fez questãode ser invasora nesse evento. Te esperei dolado de fora da loja que você trabalha. Te visair e fui atrás. Por ali passavam muitoscarros, estava difícil atravessar. Vocêconseguiu. Eu fiquei do outro lado. Você sedistanciava; eu corria do outro lado da rua,de boca aberta e sem guarda-chuva.Quando finalmente consegui atravessar,tropecei numa pedra desnivelada e deixei acarta cair numa poça de barro. Eu, assimcomo ela, também me sujei todo. Dei debeiço no chão. Com a lama incrustada emminha boca, tentava pronunciar seu nomealto, mas mais parecia um porco pedindopor lavagem. Não bastando tudo isso e comvocê ao sumiço dos meus olhos, um
  14. 14. caminhão, daqueles que vendem pamonhacom um locutor escroto chamando aspessoas para comprar, passouvagarosamente ao meu lado. Uma trilhaperfeita para a situação, triste perrengue.Mas com o braço de fora, o canalha quedirigia me abordou com a frase: “Tácaçando minhoca no lugar errado, amigo”.Olhei mais adentro e lá estava você,acompanhada daquele dentuço com luzesmal feitas que mais parecia uma mistura deRonaldinho Gaúcho e Maria Gadú.Enquanto vocês dois riam e subiam osvidros para ir embora, peguei a carta egritei: “Lá em casa estamos sem jornal procachorro defecar em cima. Ops. Problemaresolvido.” Mas você nem tinha noção doque era aquilo. Era como se eu estivesseexibindo uma tábua com escritos egípcios eesperasse que você entendesse. De fatonão fiz aquilo com a carta. Usei para forrara gaiola dos passarinhos. Você pode sejulgar não ser responsável, você não sabia
  15. 15. de nada disso. Mas eu esperava ao menosum pouco de dó.- Olha, gente, mas que peninha. Abre amão, toma aqui um pouquinho de dó.Satisfeito? Adeus!- Ah, mas você, você...Nem elaborei um palavrão e ela já haviadesaparecido como um ninja numa bombade fumaça. Como já estava no local, comfome e sem muitos objetivos, olhei paramesa banhada num rico banquete.Amordacei minha blusa e fiz um olharcomo se fosse um tarado para aquelascomidas desnudas e deliciosas.Escolhi um belo cigarrete que tinha umqueijo derretido latejando na extremidade.Estiquei a mão para pegá-lo e de repenteoutra mão também foi de encontro a ele.Pegamos praticamente juntos. A senhora,de idade que não conseguia contar, mas
  16. 16. que fugia pra casa dos ‘’enta’’, me encaroupor uns prolongados segundos.- Esse aqui é meu. Tira essa tua mão desaco dele.- Mão de saco? Que palavreado é esse?- Com essa cara de punheteiro tu não meengana não, rapaz. Vá pra lá.- Está maluca, Tia?- Maluca? Tia? Ah, rapazinho...A tia pegou minhas duas mãos e colocounos seios dela. Sem entender nada, masestranhamente curtindo o momento, medeixei guiar pela Vera Fischer melhorada.- Isso, pega como se fosse um mouse decomputador. Tá gostando? Tá? Olha queairbags enormes. Quer parar?- Não. – respondi com os olhinhos viradospara cima.
  17. 17. - “Não para, não para, não para”. – elacantava.- “Só love, só love”. – também respondicantando.- A tia aqui não é vidente, mas sabia que tuera mesmo punheteiro. Pega mal demaisnas tetas. Chega. Pára.- Ao menos eu pego.- Eu posso gritar pra todo mundo dizendoque tu abusou de mim, mas se der ocigarrete, eu fico quieta e ainda deixo tubuzinar uma última vez.- Feito. – buzinei, assim como fazia commeus carros imaginários. Depois chispeifora.Independente da esculachada, me sentivitorioso. Há tempos não me acontecia algotão hilário – e porque não excitante – comoaquilo. Eu adoro mulheres mais velhas. Ecomo aquela era apetitosa. Aqueles seios
  18. 18. pareciam duas almofadas, senti atévontade de dormir em cima. Não sabia sesem os efeitos do álcool em mim eu teriacoragem de tê-lo feito.- Cara, cara, o que foi aquilo? – umestranho rapaz me abordou de repente.- Aquilo o quê?- Tu se aproveitando daquela senhora.- Não me aproveitei de ninguém, foi tudovoluntário.- Está pirando? Aquela senhora tem maisde 70 anos. Os seios delas batem no joelhoe você estava suspendendo como se fosseum guindaste. Foi uma cena bizarra. Aindaestá achando isso bonito, é?- A bonitona ali? Você é que está delirando,meu amigo.- Eu? Olhe bem! Olha lá! – disseapontando.
  19. 19. Ainda com a vista embaralhada, apertandoos olhos e com o álcool tendo reduzido oefeito em uns 3%, percebi que na verdadeeu havia tirado uma casca de uma espéciede Dilma após um banho de Albergue. Eleria de mim. Eu também ria de mim, masnão me importando nem um pouco.- Cuidado, ela é tarada. – disse enquantome dirigia ao banheiro.O problema do álcool é que ele dá brechasao desespero. Depois de cinco copos deBalalaika, qualquer Susana Viera vira umaJuliana Paes. Bumbuns tão recheados devarizes que parecem massa de pão socada,viram bumbuns lisos e brilhantes como demorenas nas praias do Rio. Qualquercarinho é como um assopro no Merthiolateda carência. Aquela situação com a senhorame desenhava perfeitamente comoexemplo disso.
  20. 20. Vi a porta que ia para os fundosentreaberta e resolvi bisbilhotar, osseguranças ainda não tinham voltado daronda que me permitiu a invasão. Abri umtanto de dois dedos e dei com os olhos nolado de fora. Os seguranças número 1 e 4estavam escoltando uma garota que estavaajoelhada e com as mãos atadas. Ela viroupara o lado para pedir algo a um deles econsegui observar seu rosto. Era a Janice.Com a curiosidade e o medo do que elapoderia ter feito, suguei um pouco decoragem do ar e senti um empurrão severodo álcool, não consegui conter o impulso eempurrei forte a porta.- O que vocês fizeram com ela? Ou o queela fez?- Cadê ela? Eu quero é ela! Vai, encontraela para mim, por favor! – resmungouJanice.- Do que você está falando?
  21. 21. - Quando viemos até aqui ela já gritavaisso. Não sabemos o motivo ainda, ela nãoabre o bico. Você é conhecido? Talvez elase abra. – disse gentilmente um dosseguranças.- Janice, do que você está falando?- A Laís, traz ela aqui para mim, só paramim, por favor. Eu imploro.- Laís? O que tem ela? O que ela te fez?- Aquela farsante. Ela me paga por ter meiludido. Aliás, literalmente ela tem que mepagar. Me deve dinheiro, maconha e umpouco daquela vagina.- Espera aí, perdi as coordenadas. A Láis?Maconha? Vagina? Do que você bebeu,menina?- Eu bebi uma garrafa inteira, mas era paraela ficar vazia e eu dar na cabeça dela. Eutentei dar uns bons beijos nela, mas elaofegou, se recusou até falar chega. Nem
  22. 22. parecia ela. Mas continuei. Enquanto eubeijava, ela deu um arranco para eu mesoltar e nisso eu quase feri a boca dela.Enraivecida, pegou minha cabeça, disse “atua maconha está no colo do tinhoso, vai lácheirar” e depois a bateu com toda forçano latão de lixo.- Agora é que eu não estou entendendonada. Ela não é hétero? E aquele rapaz quedirige o caminhão de Pamonha?- Rapaz? – disparou a rir. - A Dionisia? Sebobear ela pega mulher na mesmaproporção que tu troca de cueca.- Mas e a maconha? Onde ela entra nessahistória?- Eles planejavam algo para essa festa, eusó não sei o que é.- Eu já imagino. – disse saindo e engolindomais um pouco do restinho de bebida.
  23. 23. Saí pela porta principal e vi os seguranças 2e 3 fazendo a guarda. Passeisorrateiramente, dando passos fingidos desobriedade. Não me pararam. Respireialiviado.Pensei num óbvio lugar que os assaltantesdos gnomos poderiam ter ido. Uma espéciede reduto de bebidas e drogas. Sexo,também, mas mais uma suruba deagulhadas nas veias uns dos outros. Teriamde ser estúpidos demais para ir até lá. Maspara quem rouba gnomos de jardimesperar uma estupidez desse tipo não eranada incomum. Fui até lá. Só paradesencargo de consciência.Sóbrio, não teria coragem. Até ratos têm depedir licença para entrar naquele local. Maspor já me apresentar num alto grau deembriaguês, poderia muito bem mecamuflar.
  24. 24. Entre dois rapazes que faziam malabarismocom latas de Nesquik, vi a moça queaplicou o golpe nos seguranças. De fatocomprovaram o que pensei. Estúpidos. Elaacariciava o gnomo como um filho,amamentava-o com a fumaça de seucigarro e ria de piadas que contava para simesma. Me aproximei.- Tem como me dar um ‘teco’ aí?- Puxa, irmão, e sinta a paz de Jah.- Esse é realmente dos bons. Já nem mesinto mais. Parece que eu não tenhobraços.- Eu aqui já nem sinto meu corpo. Pareceque eu sou invisível e atravesso paredes.Inclusive, meu nome é Gasparzinho.- Prazer, Gasparzinho, por que carregas umgnomo contigo?- Ele é o ápice. Ele é o meu prazer emmassa, em peso, em forma existencial. É
  25. 25. como se eu estivesse abraçando o efeito domeu baseado.A uma boa distância de nós, os outros trêsrapazes que a acompanhavam no furtoestavam sentados em forma de triângulo.No centro, os três gnomos alinhados emvolta de uma fogueira. Cada um carregavauma pequena vasilha e nas costas toalhascom desenhos indecifráveis. De repentetodos se levantaram e começaram a dançare cantar em volta dos gnomos numaespécie de dança da chuva, mas paragnomos.- O que eles estão fazendo?- Invocando o Deus. Pedindo aos céus paraque os gnomos petrificados voltassem asua forma real.Pronto. Aquilo foi demais para mim. Sabiada minha embriaguês, mas extrapolar oslimites da razão eu nunca o fazia. Ok, àsvezes.
  26. 26. Decidi me acomodar novamente na ponte.Voltei ao ponto de partida. Já cambaleava eo sono se fazia presente por toda a minhaforma. Quando apaguei por algunssegundos, fui acordado com um leveempurrão.- Mas já dormindo, cara? Eu e a Julia fomosbuscar as coisas e você já está apagando.- É, eu, bem, mas...- Sem ‘mas’, rapaz, vamos curtir o restodessa noite que promete.Julia se empoleirou novamente nos meusombros e seguimos pela rua. Quando medei por mim, percebi que tinha sido refémmais uma vez do álcool. Quando ele resolveestilhaçar com vara verde as feridasdeixadas pela solidão, qualquer abandonode minutos se torna um abandono eterno,de desespero imensurável. Aliás, o tempofica atemporal. Trinta minutos passam em
  27. 27. um minuto. Ali, naquela situação, eleconfigurou o contrário.Ainda bem. Tiago Peçanha.

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