Aparentemente, torta

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Aparentemente, torta

  1. 1. Aparentemente, TortaEle ajeitava a gravata. Retirava e recolocavaos ternos nos cabides. Uma interminávelindecisão sobre qual lhe caberia melhor. Acor já era definida: todos eram pretos. Corque contrastava com as sobrancelhastorneadas e os olhos cor de carvão. Talvezsua cor preferida condizia com seu estadoespiritual. Ou então um paralelo entre ascombinações do branco do camisão e anegritude do restante. Sempre um passeioentre a luz e a escuridão. Idas e vindas empólos positivos e negativos: onde a mentese permutava numa eterna confusão entreas indecisões e as decisões, as obsessões eas concretizações, as paranóias e asverdades. Saulo era um pouco menos e umpoucos mais, tudo misturado.
  2. 2. Escolheu o do meio. Aquele entre o maismofado e o que não usava há uns dois dias,pois havia uma pequena mancha de cremena borda da manga esquerda.Lembrou da confeitaria do Seu Joaquim.Lugar que tinha a proeza de fazer a melhortorta com creme da cidade, segundo ele.Para Saulo, lá as tortas eram divinamentebem feitas. Tinham uma pitada de desejo eum gosto inconfundível de repetição. Umpasseio no delicioso prazer de sentir ocrocante da massa estalar nos dentes e ocreme brincar de escorregador pela língua.No fechar dos olhos, conseguia sentir amor.Nem as conversas paralelas em volta odiminuíam do momento. A torta o traziapaz. Uma degustação do sabor dereciprocidade. As únicas meias palavrasnecessárias para conquistá-la eram: “Me vêuma, por favor”. Nem precisava exibir seucurrículo para tê-la em mãos. Nem recitar
  3. 3. poemas ou escrever cartas de amor. Ele eradela. Por um momento.O estabelecimento ficava esmagado entredois casebres de frente para a rua emergulhado na sombra do gigante prédio asua frente. Saulo trabalhava naqueleprédio. Nos intervalos do serviço não sepreocupava em ser das fofocas dassecretárias e muito menos das reclamaçõesdo pessoal do RH pelo excesso de trabalho.Procurava por ela. A torta que amava.Naquele dia, apesar da manchadeliberadamente pequena, Saulo vestiuaquele terno mesmo. Era um dos maiscaros. Ou um dos mais bonitos. Pelo menoso que mais encaixava no seu gostoexcentricamente crítico.Gostava de ser notado na rua. Gostava desugar suspiros e perguntas de ondetrabalharia aquele homem tão bemproduzido. Ser um pouco daquele que teria
  4. 4. a vestimenta dilacerada por mãos sedentasde prazer. Um pouco daquele que teria osbraços, as pernas, as mãos e os pésamputados em cada parte para satisfazer atodas em cada canto e em cada reduto. Ouaté mesmo aquele que pudesse instigarapenas uma, sem expoente ou dizimaperiódica.Mas era sempre o contrário.Talvez o que mais caracterizava ou dava aentender suas olheiras, seu olhardespendido e sua voz grave e baixa, fossemo seu descontrole quanto a sua autoestima.Um olhar de uma estranha qualquer emuma ocasião aleatória, seja festa, trabalhoou até mesmo uma caminhada pela rua,para ele acrescentava; uma outra qualquerna rua não o olhar o diminuía. Nunca erasempre soma. Mesmo sabendo que nãopassava de um pensamento estupidamenteinútil. Partia sempre do principio de que oinconquistável significava uma
  5. 5. maximização da solidão em sua vida. Talvezo seu passado ou suas experiências em terno colo o abandono, o fizesse se juntar asmigalhas e não ser escolhido nem pelospassarinhos.Mas Saulo se arrumava. Da melhor ou dapior, o importante é que sua maneira erasobressalente.Na quinta de manhã o sol ficara tímidoatrás das nuvens e os ventos receosostateavam as peles cobertas de uma camadabrilhante de suor. Fazia calor. Nem umpouco sutil. Ainda sim, Saulo não podiaabandonar o smoking. Os ossos do ofíciomais pareciam fraturas expostas. Ele nãopreteria seu estilo. Batalhava junto dasfolhas dobradas para tentarinusitadamente um movimento deventilador com suas mãos. Abanava-setanto a ponto de quase simular um vôo.Nem que por pouco, se refrescava.
  6. 6. Nesse dia nem passara no serviço. Fora deencontro aos braços do ápice dos seus dias,do inevitável e tão compreendido espaçoque lhe preenchia os vazios ora físicos, orapsicológicos. Amava aquela torta.Sentou na mesinha de frente para a rua. Aque dava para ver os transeuntes nacalçada e congelar os olhos no vazio de suasombra projetada próxima a enorme porta.Tirou o paletó. Desapertou a gravata.Soltou alguns botões da blusa e por pouconão foi confundido com um GoGo Boy. Apele brilhosa, que era resultado de umcuidado teimoso e por vezes sistemático.Nem as mãos davam chances aos calos.Perpendicular a sua mesa, na tangenteentre os ângulos do Balcão e do caixa,haviam duas mulheres assentadas. Estavama caráter. Maquiadas da testa a ponta dodedão do pé. Provavelmente escapuliramda sapataria a poucas quadras dali para ir
  7. 7. devorar alguma torta ou simplesmentetomar um Milk-shake.De imediato se conteve. Não queria passara imagem de um depravado. Muito menostentar garimpar o coração ou o olhar dasmoças com músculos não muito definidos.Apertou novamente a gravata e pediu umchá gelado enquanto a torta não ficavapronta.No teto acima da mesa onde seencontrava, ficava um espelho entre asmãos de dois anjos de barro. Olhou paracima e por ali ficou.Estacionou no reflexo de sua face um olharde dúvidas. Porque ser sem ser de fato oincomodava. Num sentido de desconfiar desua capacidade e ao mesmo tempo seempoçar constantemente na lama. Umabipolaridade que transitava em seu corpoabusando do limite de velocidade. Seaquelas mulheres estariam ou não o
  8. 8. olhando, ele não sabia. Toda vez quedirecionava seu olhar a elas, elassimplesmente não estavam olhando. Nempor uma vez chegou a pegar um olharcriminoso e despistado. Elas não olhavam.Era um fato. Um fato que corroia o seupensamento se a ele faltava algo. O que erao algo que o faltava. Ou se não lhe faltavaalgo. A torta é que não era.Limpou sua testa encharcada e respiroufundo. Olhou para baixo. Desenhou nosseus lábios uma insatisfação e no peito umbatimento fraco, tardio, sem simetria.Colocou os cotovelos desgastados na mesae preencheu seu rosto com suas mãos ebalançou devagar de um lado para outro.Depois de um tempo, escutou alguém ochamar. Pressentiu ser o garçom. Semretirar as mãos do rosto e de olhosfechados, pediu que colocasse a torta namesa.
  9. 9. Retirou as mãos do rosto. Lá estava ela. Umsorriso contido apareceu, mas era desatisfação.Colocou as mãos em cada extremidade eagradeceu. Disse obrigado por ela ser o queera. Ele não sabia a identidade dosentimento. Ele não tinha nome. Mas nãoandava disfarçado. Sabia que por dentroela tinha algo especial. Talvez um temperode gosto indecifrável. Uma receita feita sobcustódia da paixão. Saber que poderiacontar com seu sabor para retirar o amargodos dias, só retratava que seu doce erafeito por uma abelha rainha destinada sópara isso. Só para ele. Ele amava aquelatorta. Ela ser tão presente nos seus dias ofazia amar cada vez mais aquele tempoverbal.Ao término, limpou novamente seu rostocom suas mãos. Parecia banhado emcontentamento, inundado por um Tsunamide amor e secado por um furacão de
  10. 10. romance. Era surreal sobre como aquelatorta tinha o poder sobre o seu ser. Era afogueira acesa no iglu de sua alma.Foi até o balcão. Queria mais uma dosedaquilo tudo. Mais um pouco de esperança,talvez. Mais um pouco de algo tãopersuasivo.- Por favor, você poderia enviar mais umpedido para a minha mesa?- É só para o senhor ou também para amoça que o está acompanhando? Tiago Peçanha.

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